A PRÁTICA DE BENZER: UMA TRADIÇÃO CULTURAL POPULAR
GT06- Comunidades Tradicionais Negras, Ancestralidade e Religiões de Matriz Africana
Sandra Carvalho do Nascimento Lessa1
Mestranda em Educação – UFOP
Universidade Federal de Ouro Preto
e-mail:[email protected]
Erisvaldo Pereira dos Santos – Orientador - UFOP
e-mail:[email protected]
O presente texto tem por intuito descrever a prática do ato de benzer, no distrito
de Lavras Novas, pertencente ao município de Ouro Preto/MG. Este estudo foi
desenvolvido por meio de trabalhos de campo realizados no distrito, com o uso de
entrevistas semi-estruturadas. As participantes foram selecionadas pelo critério de
praticarem a benzeção e aceitarem o convite em participar da pesquisa.
Conforme o próprio nome já anuncia, Lavras Novas foi um local de exploração
de ouro sendo uma descoberta mais recente com relação às áreas já exploradas por volta
do final do século XVII e início do século XVIII, ou seja, foi considerada uma área mais
“nova” de lavrar ouro quando comparada aos distritos de São Bartolomeu e Antônio
Pereira, também pertencentes ao município de Ouro Preto, na época colonial em que a
mineração aurífera estava no auge, na antiga “Vila Rica”. Em meio a esse contexto é
que se insere o surgimento do povoado de Lavras Novas.
Tendo em mente o surgimento desse distrito atrelado a exploração do ouro, não
há como não notar o fato de muitos de seus habitantes serem descendentes de africanos,
o que leva a observar que quase a totalidade dos nativos são negros. Fato este que
chama a atenção para saber como essa comunidade se caracteriza em suas
particularidades, sobretudo no que diz respeito às influências afro-brasileiras e africanas
que a singulariza.
Um aspecto que revela a forte religiosidade dos nativos é a prática das
benzedeiras, muito procuradas pelos nativos para benzerem contra as mais variadas
doenças do corpo e da alma.
Aqueles que procuram pessoas que benzem, por vezes, as procuram porque estão
na busca pela cura e pelo alívio de males da alma (males espirituais) e afecções
corporais, a exemplo: “olho gordo”; “mau olhado”; “quebranto”; “ventre virado”;
“espinhela caída”; “inveja”; “quando a criança está sentida por falta de ter comido ou
bebido algo que queria e não lhe foi dado”; “cobreiro” (espécie de micose na pele);
“dores na coluna”; “sol na cabeça” (a pessoa sente muitas dores de cabeça); dentre
outros males, estes males são curados por intermédio do ato de benzer juntamente com a
fé tanto daquele que procura a benzeção quanto a fé daquele que benze as pessoas. De
acordo com as palavras de Santos (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014, p. 24)
“Só existe um segredo: a crença no poder da oração como uma forma de suplicar a
Deus, pela mediação dos santos, a cura de males que afligem a pessoa”.2
Na prática da “benzedura”, a(o) bezendeira(o) se vale das mais variadas e
diversas rezas e orações aliados à diferentes utensílios para auxiliar quem procura a
benzeção. Estes utensílios podem ser desde galhos de arruda; copo com água e toalha
sob a cabeça; terço; crucifixo; óleo com água; até agulha e linha.
Aluna do curso de Mestrado em Educação da UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto.
Palavras do pesquisador Erisvaldo Pereira dos Santos em reportagem da Revista Em Minas, Ano 2 - edição 16, agosto de 2014, p.
24- 27.
1
2
Para Santos (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014, p.25) além da fé e da
crença na benzeção, esta prática requer carisma e disposição por parte daquele que a
executa, Santos (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014, p.24-25) afirma que: “A fé
é fundamental, mas também é preciso carisma e disposição para praticar”, ele completa
suas considerações acerca das benzeções, esclarecendo que:
“Pode benzer aquele ou aquela que foi indicado no seio da família como o
escolhido para benzer, a partir de algumas características que tanto indicam
que a pessoa tem interesse em aprender a prática, como apontam indícios de
que tem dons para exercer o ofício e, por isso, deve assumir a missão. Um
exemplo dessas características é o gosto por vivenciar práticas religiosas,
como cuidar do altar, cultuar santos e aprender a rezar [...]” (SANTOS apud
MOREIRA, & BORGES, 2014, p. 25).
Santos (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014, p.26) ressalta que em via de
regra, a benzedura é uma atividade vinculada ao catolicismo popular e é uma tradição
passada dos mais velhos para os mais novos. Ele ainda explica que “Em geral, somente
após certa idade é que os mais novos tomam para si a missão.” (SANTOS apud
MOREIRA, & BORGES, 2014, p.26).
A prática de benzer, comumente, é exercida por quem não cursou uma
graduação em medicina, todavia sabe e conhece a fundo e “na ponta da língua” a reza e
o utensílio a serem usados para cada mal que aflige e afeta a pessoa que busca auxílio
na bezendura. Com relação à benzedura associada à religião, Santos (SANTOS apud
MOREIRA, & BORGES, 2014, p.27) coloca que
“Existem homens e mulheres que benzem vinculados a diferentes formas de
conceber e vivenciar o catolicismo popular. Ora com mais aproximação das
religiões brasileiras de matrizes africanas, ora aproximando do espiritismo
Kadercista.Há também aqueles que benzem vinculados às tradições
indígenas. Porém, recentemente, a benzedura vem se deslocando das práticas
do catolicismo popular e se transformando em orações realizadas dentro das
igrejas neopentecostais.” (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014,
p.27)
Em Lavras Novas, o ato de benzer e a procura pela benzeção ainda é muito
comum e usual entre os nativos e também procurado pelos turistas. No distrito as
pessoas que benzem são em sua maioria mulheres mais idosas e que aprenderam a
benzer com seus ancestrais. É o caso da senhora Angela Alves Lessa, mais conhecida
por Lica. Ela sabe benzer contra “mau olhado”; “sol na cabeça”; “espinhela caída, mas
só de criança (espinhela caída de adulto ela não benze) e cobreiro. Lica conta que
aprendeu a benzer com seu pai e que de fato somente valorizou a benzeção e passou a
benzer depois de casada, quando teve os filhos e precisou da benzedura para socorrer
seus filhos que por vezes manifestavam alguma doença que os médicos não conseguiam
curar e só a benzeção resolvia. Dona “Lica” também esclarece que suas duas filhas mais
velhas, Maria e Lelena, também aprenderam a benzer e menciona também outras
senhoras que praticam a benzeção em Lavras Novas, são elas: Dona Aurora; “Gegena”;
Maria (mãe do Plabo e do Pedro”; Odete (mãe do Zé Antônio); dentre outras que
durante a entrevista não lembrou o nome.
O ato de benzer é praticado por pessoas comuns que não cursaram nenhuma
graduação de medicina, entretanto, “conhecem de cor e salteado” a reza e o objeto ou
erva (chá) a ser utilizado para cada mal que faz sofrer quem busca por socorro.
O pesquisador Santos (SANTOS apud MOREIRA, & BORGES, 2014, p.27) explica
que
“Existem homens e mulheres que benzem vinculados a diferentes
formas de conceber e vivenciar o catolicismo popular. Ora com mais
aproximação das religiões brasileiras de matrizes africanas, ora aproximando
do espiritismo Kardecista. Há também aqueles que benzem vinculados às
tradições indígenas. Porém, recentemente, a benzedura vem se deslocando
das práticas do catolicismo popular e se transformando em orações realizadas
dentro das igrejas neopentecostais”. (SANTOS apud MOREIRA, &
BORGES, 2014, p.27)
Já para Antunes3 (ANTUNES apud MOREIRA, & BORGES 2014, p. 27) “a
benzedura atualmente está presente nos mais variados meios de comunicação, como
rádio e televisão, e esse fato não diminui a importância dos benzedores tradicionais de
localidades pequenas”, como Lavras Novas. Antunes (ANTUNES apud MOREIRA, &
BORGES 2014, p. 27) expõem que
“A benzedura, executada por rezas e orações, está presente em programas de
rádio e televisão, por exemplo. A utilização desses meios de comunicação,
entretanto, não minimiza a importância dos benzedores tradicionais, que são
reconhecidos pelas pequenas comunidades. Considerá-los como parte
fundamental de uma cultura, que associa aspectos materiais e imateriais, é
algo fundamental para a constituição de uma identidade regional e,
sobretudo, histórica.” (ANTUNES apud MOREIRA, & BORGES, 2014,
p.27)
Como forma de valorizar e preservar essa cultura antiga, o Instituto
Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, o Iepha-MG, almeja que
as práticas de benzer sejam registradas como Patrimônio Imaterial do Estado. Essa
iniciativa favorece o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana, nas
escolas de Educação Básica em todo território nacional, atendendo o que estabelece a
Lei 10.639/03, valorizando a diversidade étnico-racial.
Uma outra forma de valorizar a diversidade e as relações étnico-raciais é pensar
na prática de benzer como um conhecimento a ser contemplado nas disciplinas
curriculares, uma vez que conforme as palavras de Kabengele Munanga (2005, p.16)
“O resgate da memória coletiva e da história da comunidade negra não
interessa apenas aos alunos de ascendência negra. Interessa também aos
alunos de outras ascendências étnicas, principalmente branca, pois ao receber
uma educação envenenada pelos preconceitos, eles também tiveram suas
estruturas psíquicas afetadas. Além disso, essa memória não pertence
somente aos negros. Ela pertence a todos, tendo em vista que a cultura da
qual nos alimentamos cotidianamente é fruto de todos os segmentos étnicos
que, apesar das condições desiguais nas quais se desenvolvem, contribuíram
cada um de seu modo na formação da riqueza econômica e social e da
identidade nacional.” (MUNANGA, 2005, p.16)
Valorizar e contemplar a cultura popular é respeitar todos os grupos étnicoraciais e promover uma educação antirracista.
3
Palavras do pesquisador Álvaro Araújo Antunes, Professor de Teoria da História-UFOP, em reportagem da Revista Em Minas,
Ano 2 - edição 16, agosto de 2014, p. 24- 27.
Referências bibliográficas
MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. 2.ª edição revisada, Brasília
– Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade – (SECAD), 2005.
MOREIRA, Adriana & BORGES, Michelle. COSTUMES – Rezas e benzeções no
cotidiano mineiro. In: Revista Em Minas, Ano 2 - edição 16, agosto de 2014, p. 24- 27.
NOGEUIRA, Léo CarreR; VERSONITO, Suelen Malheiro & TRISTAÕ, Bruno das
Dores. O dom de benzer: a sobrevivência dos rituais de benzeção nas sociedades
urbanas – o caso do Município de Mara Rosa, Goiás, Brasil. In: Élisée - Revista. Geo.
UEG - Goiânia, v.1, n.2, jul./dez. 2012, p.167-181.
SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Formação de Professores e religiões de matrizes
africanas: um diálogo necessário. Belo Horizonte: Nandyala, 2010. (Coleção
Repensando África, volume 4).
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