64º Congresso Nacional de Botânica
Belo Horizonte, 10-15 de Novembro de 2013
A BIOMASSA DE FRUTOS DE Vellozia sincorana (VELLOZIACEAE) É
MENOR EM INDIVÍDUOS COM MAIS FRUTOS?
,
Jumara M. Souza¹ *, Gabriela C. Silva¹, Isabel B. Schmidt², Abel A. Conceição¹
1
Universidade Estadual de Feira de Santana; ² Universidade de Brasília; *[email protected]
Introdução
O fogo é um distúrbio que provoca alterações no
ambiente físico e na vegetação, podendo estimular ou
inibir a reprodução de plantas [1]. Em ambientes em que
o fogo é um distúrbio recorrente, este pode agir como
agente seletivo de estratégias evolutivas de plantas, tais
como a alocação de recursos para a reprodução sexual
logo após a passagem do fogo [2]. Este é o caso de
Vellozia sincorana L.B.Sm. & Ayensu, espécie endêmica
dos campos rupestres da Chapada Diamantina, Bahia.
Essa espécie possui uma floração em massa 40 dias
após o fogo e uma alta produção de flores, em média
21,3 flores por indivíduo (511/24) [3].
Produzir flores e frutos tem um custo alto para a planta
[4]. Algumas plantas abortam flores e/ou frutos caso
sofram danos ou tenham limitação de recursos para o
desenvolvimento deles [5]. Nesse último caso, alguns
frutos podem ser poupados recebendo uma maior
quantidade de nutrientes, resultando em maior biomassa
[5]. Como V. sincorana apresenta uma grande alocação
de recursos para a reprodução sexual pós-fogo, esse
estudo buscou avaliar se a biomassa dos frutos de
indivíduos que produzem menos frutos é maior quando
comparada com a de indivíduos que produzem mais
frutos.
Metodologia
O estudo foi realizado em um campo rupestre queimado
em janeiro de 2013 na Serra dos Cristais (12º32,25' S e
41°28,27' W), Chapada Diamantina, Bahia, Brasil. Em
abril de 2013, a altura de 29 indivíduos de V. sincorana foi
mensurada, todos os frutos (cápsulas) de cada indivíduo
foram coletados, separados em sacos de papel, secos
em estufa a 70°C durante três dias e contados. As
sementes foram retiradas dos frutos antes da pesagem
realizada em balança com precisão de 0,01g.
Cada indivíduo teve sua biomassa de cápsulas somada e
dividida pelo número de frutos, resultando na proporção
de biomassa por fruto. Os indivíduos foram ordenados e
distribuídos em três grupos considerando a quantidade
total de frutos produzidos por planta: “A” (2 a 11 frutos, 9
indivíduos); “B” (12 a 16 frutos, 9 indivíduos); “C” (18 a 38
frutos, 10 indivíduos). As proporções de biomassa dos
frutos dos indivíduos em cada um dos três grupos foram
comparadas (One Way ANOVA), sendo complementada
pelo teste de Tukey nos casos de diferença significativa.
Os dados foram transformados em raiz quadrada para
atender os pressupostos de normalidade (Shapiro-Wilk,
p>0,05) e homocedasticidade (Bartlett, p>0,05). Os
indivíduos com pesos discrepantes (outliers) foram
retirados da análise. A influência da altura dos indivíduos
na produção de frutos foi analisada através de uma
regressão linear.
Resultados e Discussão
Os indivíduos de V. sincorana produziram em média 16 ±
10 frutos, semelhante ao encontrado em outros estudos
em áreas queimadas há 53 dias [3]. Porém, a quantidade
de frutos produzidos pelas plantas apresentou uma
grande variação, que pode estar relacionada à
localização dos frutos no ambiente, à eficiência da
polinização ou ao estágio de desenvolvimento dos
indivíduos, já que existe uma tendência dos indivíduos
maiores produzirem mais frutos do que os menores
(y=0,7347x-1,1846; r²=0,4031; p=0,0002).
O peso dos frutos não apresentou diferenças
significativas entre os grupos (p=0,08; p>0,05). Essa
variação não significativa no peso dos frutos deve ser
uma característica não relacionada a uma modificação no
processo de alocação que resultaria nesse trade-off
(biomassa dos frutos x quantidade de frutos). No
ambiente pós-fogo existe um momentâneo aumento da
disponibilidade de nutrientes provindo das cinzas [1],
dessa forma os recursos não devem ser limitantes para o
desenvolvimento dos frutos. Isso sugere a existência de
uma estratégia de alocação de quantidade semelhante de
recursos para os frutos, que garantiria uma produção de
sementes mínima por fruto dentro de uma faixa ótima de
recursos. Essa estratégia associada à dispersão
autocórica deve ter favorecido a manutenção e
dominância de V. sincorana em algumas áreas de campo
rupestre.
Conclusões
Os resultados refutam a hipótese testada, sugerindo que
a alocação de recursos para a biomassa dos frutos em V.
sincorana não influencia a quantidade total de frutos
produzidos por indivíduo. Isso pode ser um fator chave
para os campos rupestres dominados por V. sincorana,
pois a espécie floresce em massa depois de queimadas,
resultando em elevada quantidade de frutos.
Agradecimentos
Ao CNPq pela concessão da bolsa de doutorado à J.M.S.
e financiamento da pesquisa, assim como a Capes e
FAPESB. A Fábio Garcia pelo auxilio no campo.
Referências Bibliográficas
[1] Whelan, R.J. 1995. The ecology of fire. Cambridge
University Press, New York.
[2] Buhk, C.; Meyn, A. & Jentsch, A. 2007. The challenge of plant
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[3] Conceição, A.A. & Orr, B.J. 2012. Post-fire flowering and
fruiting in the caulescent rosette Vellozia sincorana, an endemic
plant to the Northeast of Brazil. Acta Botanica Brasílica 26: 94100.
[4] Obeso, J.R. 2002. The costs of reproduction in plants. New
Phytologist 155:321-348.
[5] Howe, H.F. & Westley, L.C. 1997. Ecology of pollination and
seed dispersal. Pp: 262-283. In: M.J. Crawley (ed.). Plant
Ecology. Blackwell Science, Oxford.
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