VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X EDUCAÇÃO DE SURDOS: UMA DISCUSSÃO TEÓRICA ACERCA DO TRABALHO PEDAGÓGICO NUMA PERSPECTIVA BILÍNGUE DE ENSINO Paula Naranjo da COSTA- UEA/ FAPEAM1 Joab Grana REIS-UEA2 Andrezza Belota Lopes MACHADO- UEA3 INTRODUÇÃO A presente pesquisa é decorrente dos estudos desenvolvidos, durante o Projeto de Iniciação Científica – PAIC, que propõe investigar e conhecer os estudos teóricos que tratam da educação bilíngue para estudantes surdos e os desafios do trabalho pedagógico nesta perspectiva de ensino. A trajetória da Educação de Surdos é marcada por práticas pedagógicas que dificultaram o acesso ao processo de aprendizagem, tendo como resultado o fracasso escolar. Por muito tempo os surdos foram vistos como doentes, deficientes, aprisionados em uma sociedade normativa e sem respeito às diferenças. A partir das lutas dos movimentos surdos, aliadas aos estudos sobre surdez e língua de sinais, os sujeitos surdos vêm ganhando reconhecimento e espaço na sociedade nos últimos anos. Fato comprovador dessa argumentação é a oficialização da Libras por meio da Lei 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto nº 5626/2005, configurando um avanço significativo no direito a uma educação bilíngue, formação de professores, intérprete de Libras e outrem. Apesar do avanço nos documentos legais há ainda, necessidade de se romper com um paradigma de ensino pautado numa concepção patológica e de reabilitação do sujeito surdo. Por isso tem-se o desafio de se construir um trabalho pedagógico que atenda uma abordagem bilíngue de ensino na qual a surdez, tenha um enfoque na perspectiva da diferença e não da deficiência. Diante do exposto, o presente estudo tem por objetivo geral conhecer os estudos teóricos que tratam acerca da educação bilíngue e os desafios do trabalho pedagógico para o ensino de estudantes cuja experiência de mundo é visual. Assim, têm-se como objetivos específicos: identificar os estudos e literaturas que discutem a educação bilíngue para estudantes surdos; compreender a organização do trabalho pedagógico fundamentadas nessa perspectiva de ensino e refletir acerca das barreiras, possibilidades e desafios encontrados para o desenvolvimento de uma educação bilíngue que atenda as diferenças linguísticas, identitárias e culturais do estudante surdo. 1 Graduanda de Licenciatura em Pedagogia pela Universidade do Estado do Amazonas; bolsista do PAIC; e-mail: [email protected]. 2 Mestra em Educação; Professora da Universidade do Estado do Amazonas. e-mail: [email protected] 3 Doutaranda pela Universidade do Minho - Portugal; Professora da Universidade do Estado do Amazonas; e-mail:[email protected] 3232 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Dito isto, destaca-se a relevância acadêmica e social da pesquisa, pois buscou-se estudos que fundamentassem uma prática pedagógica de ensino bilíngue para atender o estudante surdo, frente aos desafios, barreiras e inquietações no desenvolvimento de um fazer pedagógico que atenda na e para a diversidade. Abordagem Educacional Bilíngue No contexto atual da Educação de Surdos, discuti-se o processo de escolarização, o qual reconhece e valoriza as especificidades linguísticas e culturais do estudante surdo. Nesse sentido, configura-se a abordagem educacional Bilíngue, a qual se fundamenta em pressupostos sócios antropológicos, para compreender a surdez numa perspectiva da diferença e não da deficiência. Diante do exposto, destacam-se as rupturas com as práticas pedagógicas anteriores. Skliar em seus estudos destaca a esse respeito que “foram mais de cem anos de práticas enceguecidas pela tentativa de correção, normalização e pela violência institucional [...]” (2001, p.7). Temos diante desse contexto, a abordagem educacional Oralista que buscava a integração da pessoa surda pelo desenvolvimento da língua oral. Conforme Goldfeld “o Oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser minimizada através da estimulação auditiva” (2001, p. 31). Por sua vez, as práticas pedagógicas consistiam na oralização dos alunos para que, dessa forma, a aquisição da leitura e escrita pudesse ocorrer igual às demais crianças ouvintes. Com relação a essa abordagem educacional, Slomski vai além e faz as seguintes considerações: “a surdez é vista como uma patologia, um déficit biológico, e a pessoa surda, como deficiente auditivo, e/ou ‘incapaz’ que precisa ser ‘curado’ por profissionais por meio da reabilitação da fala [...]” (2010, p. 29-30). A respeito disso, Dorziat (2006) caracterizou técnicas, que segundo ela são as mais usadas na abordagem oralista: o treinamento auditivo: estimulação auditiva para reconhecimento e discriminação de ruídos, sons ambientais e sons da fala; o desenvolvimento da fala: exercícios para a mobilidade e tonicidade dos órgãos envolvidos na fonação (lábios, mandíbula, língua etc), e exercícios de respiração e relaxamento (chamado também de mecânica de fala); a leitura labial: treino para a identificação da palavra falada através da decodificação dos movimentos orais do emissor. Os resultados em relação ao processo de escolarização do estudante surdo têm suscitado inquietações, enfatizadas nas últimas décadas por estudos e pesquisas os quais sinalizam a necessidade do rompimento com a perspectiva normativa e patológica, em vista a uma perspectiva sociolinguística e cultural. Dessa maneira, a partir desta nova perspectiva busca-se fundamentar um trabalho pedagógico na escola, ancorado na abordagem bilíngue, que considera a língua de sinais, como a língua natural do surdo, que mesmo sem ouvir é capaz de desenvolver uma língua espaço-visual, juntamente com a Língua Portuguesa, na sua modalidade escrita. Em relação à questão do bilinguismo, Fernandes e Moreira salientam que: “os surdos podem ser considerados bilíngues ao dominarem duas línguas legitimamente brasileiras, 3233 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X posto que ambas expressam valores, crenças e modos de percepção da realidade de pessoas que compartilham elementos culturais nacionais” (2009, p.226). Slomski destaca ainda que: A proposta educacional bilíngue busca captar o direito que as pessoas surdas têm de serem ensinadas na língua de sinais. Trata-se essencialmente de uma proposta de educação que parte das capacidades e potencialidades do sujeito surdo (aptidão para adquirir a língua de sinais) e não daquilo que limita seu desenvolvimento (2010, p.22). Diante disso, para que a escola possa ser bilíngue faz-se necessário mudanças significativas em relação à formação dos professores, bem como da organização do trabalho pedagógico que atenda as diferenças linguísticas, identitária e cultural do estudante surdo. A esse respeito Moura (1996) alega que a escola bilíngue deverá contar, no seu corpo docente, com representantes surdos e ouvintes, sendo que todos deverão ser fluentes na Língua de Sinais, pois será com base nesta língua que se desenvolverá a leitura e a escrita e dessa forma serão apresentados aos alunos os conteúdos escolares. Diante do exposto, sabemos que pensar em uma educação bilíngue para surdos, requer, sem sombra de dúvida, a discussão em torno da relevância da Língua brasileira de sinais - Libras - como princípio fundamental que orienta esta proposta educacional, tendo em vista que ela é a língua natural dos sujeitos surdos. Importância da Libras na abordagem educacional bilíngue Sabemos que as línguas expressam aspectos culturais de determinados grupos e o processo de aquisição é essencialmente social. Dessa feita, destaca-se a relevância das interações sociais como meio constituinte de um pensar, agir e da leitura de mundo. Somando-se a este aspecto Lodi e Luciano utilizam-se da seguinte argumentação: “[...] compreende-se que todo o desenvolvimento da criança depende da presença do outro, daquele que possui domínio da linguagem para, dialeticamente, constituir-se como sujeito da e pela linguagem” (2009, p. 33). Em relação às crianças ouvintes e surdas, as primeiras desenvolvem a linguagem de maneira oral-auditiva e as segundas, devido ao impedimento auditivo, é dada a aquisição da linguagem pelo canal espaço-visual. Assim, no âmbito familiar, as crianças ouvintes desenvolvem sua linguagem através das interações com seus pares adultos, já as crianças surdas, por serem, cerca de 90% (MALLORY, ZINGLE & SCHEIN apud FERNANDES & MOREIRA, 2009), oriundas de famílias de pais ouvintes, acabam tendo seu processo de socialização limitado e, na maioria dos casos, entram em contato com a língua de sinais tardiamente. De acordo com Fernandes e Moreira (2009), os surdos passam por uma “condição de carência linguística”, isto é, acabam criando um mecanismo de comunicação que por vezes é baseado em mímicas, não desenvolvendo uma interação efetiva. Os conhecimentos e leitura de mundo são restritos, visto que os significados são mediados por línguas diferenciadas. Este impedimento compromete, por vezes, o desenvolvimento linguístico, social e emocional na fase adulta. 3234 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Dessa forma, como garantir aos surdos o desenvolvimento de uma linguagem própria, de modalidade viso-espacial, em um país cuja língua é majoritariamente oral-auditiva? Como não torná-los estrangeiros em seu próprio país? Segundo estudos realizados, a aquisição da língua de sinais em crianças surdas e das línguas orais em crianças ouvintes é dada da mesma forma, diferenciando somente a modalidade linguística. Partindo dessa premissa, as línguas de sinais são consideradas como línguas naturais, cuja aquisição é espontânea e se dá pelo contado com pares também surdos, da mesma maneira que as línguas orais são adquiridas pelos ouvintes. Ou como sintetiza Fernandes “a língua de sinais é a manifestação de uma forma de linguagem verbal, por meio de palavras sinalizadas, que difere de país para país, sofre mudanças históricas e é passível de variações regionais e/ou sociais” (2006, p. 03). De fato, as línguas de sinais são línguas complexas que se utilizam do canal visualespacial para serem manifestadas. Vale ressaltar que a mesma não é universal, tendo em cada país sua própria língua. No caso da Língua brasileira de sinais - Libras, esta também possui sua estruturação própria, dotada de aspectos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos como qualquer outra língua. Como elucidado anteriormente o seu reconhecimento ocorreu com a Lei 10.436/2002, regulamentada pelo decreto 5.626/2005 o qual se preocupa em assinalar a definição de pessoa surda, corroborando a experiência de mundo por meio do canal visual: Art. 2º- considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais- Libras. Este mesmo decreto afirma como legítima a escolarização de surdos em escolas bilíngues que se utilizará da Libras como língua de instrução, mencionada no Art. 22: As instituições federais de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva, por meio da organização de: I - escolas e classes de educação bilíngüe, abertas a alunos surdos e ouvintes, com professores bilíngües, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental; II - escolas bilíngües ou escolas comuns da rede regular de ensino, abertas a alunos surdos e ouvintes, para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio ou educação profissional, com docentes das diferentes áreas do conhecimento, cientes da singularidade lingüística dos alunos surdos, bem como com a presença de tradutores e intérpretes de Libras - Língua Portuguesa. (grifo nosso) Certamente sabemos que os dispositivos legais garantem juridicamente os direitos sociais e que as mudanças só são válidas se forem de fato materializadas. A partir de tais documentos compreendemos como legítima uma proposta de educação bilíngue, que entende a experiência de mundo do sujeito surdo e assim, coloca em prática um fazer pedagógico que valoriza a Língua de Sinais e suas demais especificidades. Para tanto, as inquietações e desafios estão em estabelecer uma escola genuinamente bilíngue, que se oponha a uma pedagogia de reabilitação e que disponha de metodologias não somente para o ensino de Libras, mas também para a Língua 3235 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Portuguesa como segunda língua, na forma escrita, configurando um ambiente linguístico e cultural favoráveis ao pleno desenvolvimento dos estudantes surdos. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA O estudo se constituiu, por meio de uma pesquisa bibliográfica, visto que implicou em um estudo exploratório de literaturas como: livros, artigos, dissertações e teses encontradas em sites divulgadores de pesquisas científicas, de universidades brasileiras, bem como em eventos sobre Educação de Surdos. De acordo com Oliveira (2008, p.69) esse tipo de pesquisa possibilita ao pesquisador entrar em contato direto com fontes de conhecimentos legitimados cientificamente. A pesquisa apresenta um caráter qualitativo, pois segundo Minayo este enfoque “se aprofunda no mundo dos significados. Esse nível de realidade não é visível, precisa ser exposta e interpretada” (2007, p.22). Quanto ao método utilizou-se o dialético, visto que, requer o “estudo da realidade em seu movimento, analisando as partes em constante relação com a totalidade”, pois temos como objeto de estudo as práticas pedagógicas a partir de uma perspectiva bilíngue de ensino, fenômeno que nos desafia diante de uma discussão atual (OLIVEIRA, 2008, p.54). Assim, para a construção desta pesquisa empregou-se as etapas definidas por Salvador (1986) e pontuadas abaixo: a) Investigação das soluções – fase comprometida com a coleta da documentação, envolvendo dois momentos distintos e sucessivos: levantamento da bibliografia e levantamento estudo dos dados e/ou das informações presentes no material bibliográfico; b) Análise explicativa das soluções – que consiste na análise da documentação, no exame do conteúdo das afirmações e c) Síntese integradora – que se configura como produto final do processo de investigação, resultante da análise e reflexão dos documentos. DISCUSSÕES E RESULTADOS No presente estudo, salientamos o que as pesquisas nas últimas décadas apontam em direção a uma prática bilíngue de ensino, acerca do processo escolar dos estudantes surdos. Há uma nova visão desse campo educacional, uma concepção que (re) significa à surdez e aceita a condição da experiência visual. Entretanto, que prática de ensino é essa? Como se configura a organização do trabalho pedagógico fundamentada na perspectiva bilíngue de ensino? Práticas educacionais bilíngues Estas questões giram em torno da constituição de metodologias veementemente diferenciadas. Assim, é válido ressaltar que as práticas bilíngues de ensino desenvolvem-se em conjunto no cotidiano escolar, entretanto, no presente estudo, sistematizamos os principais resultados de maneira que contribua para a melhor compreensão das práticas educativas pautadas nessa perspectiva. Sinalizamos, também, 3236 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X que os aspectos discutidos resultam em um ponto possível e defendido, a utilização de recursos visuais. As práticas educacionais bilíngues são pautadas no ensino de duas línguas, com aspectos diferenciados. A Libras é a língua de instrução, que dará todo o suporte linguístico para o ensino da segunda língua, no nosso caso, a Língua Portuguesa. Quadros a partir de pesquisas realizadas sobre a aquisição da língua de sinais por crianças surdas, sugere algumas práticas pedagógicas visuais que colocam em foco o reconhecimento da Libras, assim como os aspectos culturais e sociais dos surdos. Estas perpassam por pontos de destaque que vão de atividades relacionadas à aquisição da linguagem até as diferentes funções e usos da linguagem pelos surdos. A esse respeito à autora destaca atividades valorizando o input visual: Atividades de rotina em sinais; Brincadeiras e jogos em sinais; Exploração de jogos dramáticos; Acesso à mini-palestras, à aulas em vídeo, à jornais televisionados, etc; Produção de estórias usando o alfabeto manual, números, configurações de mãos específicas; Produção de estórias sobre pessoas surdas e pessoas ouvintes; Relatar estórias, contos e fábulas explorando os jogos de posições do corpo e direção dos olhos para estabelecimento de personagens. (2004, p. 10-12). Sabendo que a Libras é uma língua de modalidade espaço-visual, a utilização de tais recursos, principalmente no processo de alfabetização dos estudantes surdos são indispensáveis, pois o foco de aprendizagem se diferencia de métodos sonoros auditivos como utilizados na alfabetização de crianças ouvintes. Um fator de relevância para o desenvolvimento de práticas bilíngues é o papel do professor. Sabendo que, grande parte dos alunos surdos entra em contato com a Libras tardiamente e por vezes a escola é o primeiro ambiente linguístico para a relação com a língua materna, a figura do docente bilíngue se torna indispensável. Pereira e Vieira ressaltam, em particular, a importância do professor surdo, pois este “é visto como o desencadeador de um ambiente linguístico que favorecerá a aquisição e o aprofundamento do conhecimento da língua de sinais pelos alunos e a sua aprendizagem pelos pais e pelos professores ouvintes” (2009, p.65-66). Os estudos defendem a relação surdo-surdo para o aprendizado dos conteúdos curriculares e a construção identitária do estudante surdo. Assim, a formação de professores bilíngues se torna indispensável, visto que estes profissionais além de interlocutores que compreendem sua língua são modelos que desempenham o papel de liderança e dessa maneira se tornam referências na construção identitária do aluno surdo (RANGEL e STUMPF, 2013). Ensino da língua portuguesa Aspecto importante para discussão diz respeito ao ensino da Língua Portuguesa, como segunda língua. Esta é reconhecida em sua modalidade escrita, como assinala o decreto já mencionado anteriormente, visto que a Língua de Sinais é considerada ágrafa no Brasil, apesar da ocorrência de estudos da escrita dos sinais. Outro fator que justifica seu reconhecimento é que por ser a língua majoritária do país faz-se necessário como meio de integração do surdo na sociedade. Assim, a relevância 3237 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X da língua portuguesa como segunda língua “baseia-se no fato de que esses são cidadãos brasileiros, têm o direito de utilizar e aprender está língua oficial que é tão importante para o exercício de sua cidadania” (QUADROS& SCHMIEDT, 2006, p. 17). Slomski discorre, também, sobre a importância da segunda língua afirmando que: A língua escrita é um instrumento vital para o desenvolvimento intelectual da pessoa surda e para a comunidade de surdos manter intercâmbios comunicativos com os ouvintes, constituindo o instrumento que possibilitará aos surdos serem realmente bilíngues, isto é, usuários fluentes de sua língua primária de sinais (LIBRAS) e da secundária, português escrito (2010, p. 72). Nesse sentido, salienta-se que o impedimento auditivo nada interfere no aprendizado da língua portuguesa, pois como sinaliza Fernandes: [...] a língua escrita pode ser plenamente apropriada pelos surdos, se a metodologia empregada não enfatizar a relação letra-som como pré-requesito, mas recorrer, principalmente, a estratégias visuais, prioritariamente pautadas na língua de sinais, similares metodologicamente àquelas utilizadas no ensino de línguas estrangeiras para ouvintes. (2006, p. 05). Quadros e Schmiedt (2006) também apresentam em “Ideias para ensinar português para alunos surdos” sugestões de atividades as quais se preocupam em explorar o contexto visual para a melhor aprendizagem dos alunos. Aliado as questões das imagens, o desenvolvimento da leitura e interpretação são bem explorados. Semiótica imagética Breves apontamentos serão postos aqui, tendo em vista o campo amplo que esta ciência abarca. É válido mencionar que atualmente vivemos em uma sociedade visual. Como exemplo, pensemos em uma criança na fase de aquisição da linguagem, onde para aprender nome de algum objeto apontam em sua direção, utilizando-se assim de instrumentos visuais capazes de facilitar a aprendizagem da linguagem. Dessa forma acontece com as crianças surdas. Seu canal de comunicação não é o ouvindo e a boca e sim, o olho e as mãos. Sendo assim, em se tratando de metodologias diferenciadas para alunos surdos, a semiótica imagética pode ser utilizada como forma de uma comunicação visual. Como sintetiza Rosa e Luchi a semiótica é “o estudo dos signos linguísticos” e imagética “o modo de ver o mundo através de imagens”. O que resulta no “estudo dos signos linguísticos por representações de imagens” (2010, p.02). Ou como na breve explanação de Campello a semiótica imagética: [...] é um estudo novo, um novo campo visual onde se insere a cultura surda, a imagem visual dos surdos, os olhares surdos, os recursos visuais e didáticos também. Quero esclarecer que isto não é um gesto ou mímica, e sim signo [...] podem usar os braços, os corpos, os traços visuais ótica como expressões corporais e faciais, as mãos, os dedos, os pés, as pernas em semiótica imagética. (2007, p. 106) 3238 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Embora seja um campo novo de estudo a semiótica, é de certo há tempos explorada pelos sujeitos surdos, que vivem da experiência visual, isto é, da língua de sinais. Nesse sentido é apropriado mencionar a importância da Libras no desenvolvimento da semiótica imagética, uma vez que é uma língua de modalidade espaço-visual. Para Rosa e Luchi a Libras “permite a cada sinalizante ser o objeto em perspectiva e não só o objeto, mas também pode delimitar em sua volta sujeitos que serão em um dado momento do discurso representações de objetos e sujeitos” (2010 p. 02). Assim, no ensino do Sistema Digestório (pensando no conteúdo da disciplina de Ciências, nas séries iniciais do ensino fundamental), por exemplo, o corpo do professor, do intérprete ou mesmo do estudante, será a representação dos órgãos constituintes do sistema, contribuindo para o aprendizado do referido conteúdo. Uso das tecnologias para acesso a uma comunicação visual Atualmente vivemos na era da tecnologia. Com a popularização da internet, o acesso a todo tipo de conhecimento está facilitado. As novas tecnologias se inserem repentinamente nos mais diferentes campos, inclusive na educação. Nesse sentido, as tecnologias apresentam possibilidades na construção de ferramentas, as quais possam contribuir para uma educação bilíngue. A utilização de recursos tecnológicos se torna, assim, facilitadora no aprendizado dos estudantes surdos. Os estudos de Basso e Masutti, acerca do uso das tecnologias apontam que: Para a construção de experiências visuais e ensino de línguas na atualidade, as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) têm-se revelado como um importante campo a ser explorado. Mais que um mero uso de uma ferramenta de trabalho sofisticada, as experiências que utilizam as mídias tecnológicas [...] têm ganhado terreno junto ao processo de alfabetização e letramento. As TICs também têm sido muito utilizadas pela comunidade surda em suas atividades diária de comunicação. Vale lembrar, nesse sentido, o uso que os surdos fazem das salas de bate-papo [...] e das mensagens via aparelhos celulares, transformando o uso dos códigos escritos até então desconhecidos (2009, p. 26). Os recursos tecnológicos, dessa maneira, configuram-se como ferramentas potencializadoras na inserção dos surdos em uma sociedade letrada. A internet, por exemplo, é um instrumento que possibilita a o acesso a fontes de conhecimentos, bem como estimula o aprimoramento da linguagem escrita. Como mencionam Rosa e Cruz a Internet tem a “possibilidade de se dispor de recursos visuais, como animação de imagens e sinais gráficos, que são de muito fácil compreensão para o surdo, visto que a língua com que se comunicam (a língua de sinais) é uma língua espaço-visual”. (2001, p. 43-44) Assim, a utilização de redes sociais, blogs, salas de bate-papo, jogos digitais, sites da comunidade surda, são meios pelos quais os surdos constroem e compartilham saberes, além da integração social que os fazem romper com parâmetros discriminatórios. Outro ponto importante, é que tais tecnologias podem ser instrumentos pedagógicos aliados nas práticas educativas dos professores, de maneira que se empregados apropriadamente, podem ter resultados satisfatórios. 3239 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Ramirez e Masutti, através de uma pesquisa produziram um protótipo de software educacional, cujo um dos principais objetivos é “usar a informática como apoio pedagógico para o ensino com o enfoque na Língua brasileira de sinais, na Língua portuguesa escrita e em recursos visuais” (2009, p. 69). Assim, foram apresentados os resultados da experiência na aplicação do Sistema de Educação de Surdos (SES) para o ensino da Língua Portuguesa e Biologia, o qual teve grande aceitação por parte dos estudantes surdos. Tal experiência direciona para a necessidade de estudos e produções acerca de tecnologias que possam contribuir para o ensino de Libras, bem como da Língua Portuguesa, tendo em vista as poucas produções voltadas para o ensino dessa minoria. Fica evidente, assim, a possibilidade na construção de tecnologias surdas, que possam servir como ferramentas educacionais dentro e fora do espaço escolar. Discutindo as barreiras e desafios As discussões estabelecidas não visam soluções ou respostas acerca da construção de um trabalho pedagógico que atenda uma perspectiva bilíngue de ensino para surdos. A reflexão e questionamentos enfatizam a necessidade de uma abordagem educacional que contemple as peculiaridades desses sujeitos. Dessa forma, quais as barreiras, possibilidades e desafios encontrados para o desenvolvimento de uma educação bilíngue que atenda as diferenças linguísticas, identitárias e culturais do estudante surdo? De certo são inúmeros os impasses encontrados no cotidiano escolar, o que nos instiga a busca de um trabalho pedagógico que contemple uma educação que de fato, contribua para a formação e necessidades do estudante surdo. Para Santos, Um dos grandes desafios dos educadores é que o tipo de oferta educativa deve ser baseado na compreensão do respeito à cidadania, do efetivo exercício da pluralidade cultural, da constituição de conhecimentos e a formação de sujeito crítico e participativo. (2012, p. 79) Sabemos assim, que para a formação de sujeitos críticos e participativos, faz-se necessário reconhecê-los como integrantes da escola e sociedade. Ou seja, uma barreira ainda a ser superada gira em torno do reconhecimento dos surdos em sua diferença, distanciando-se de estereótipos que os veem como incapazes e deficientes. Cabe ressaltar que o primeiro espaço de aceitação da diferença se dá no seio familiar. Assim, juntamente com a escola, a família pode unir forças para romper com o paradigma da deficiência. Partindo dessa premissa, sinaliza-se a possibilidade da construção de uma escola verdadeiramente bilíngue. Outro grande desafio a ser superado diz respeito ao reconhecimento da Libras, como língua natural dos surdos e norteadora da construção de uma prática pedagógica que atenda uma especificidade linguística. Ressaltamos isso, pois ainda é presente o desconhecimento da Língua Brasileira de Sinais, tanto pela sociedade, quanto pelos membros da escola. É necessário valorizá-la e aceitá-la como legítima no processo de escolarização dos sujeitos surdos. 3240 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X Para tanto, garanti-la no currículo escolar se torna imprescindível, de modo que este seja dinâmico e predominantemente surdo. Nesse sentido a escola precisa considerar no seu currículo aspectos culturais da comunidade surda, bem como sua história, seus direitos, literaturas surdas entre outros, a fim de valorizarmos e respeitarmos suas diferenças e identidades. Construir metodologias e tecnologias para o desenvolvimento da prática pedagógica também são inquietações a serem superadas. A necessidade de recursos visuais para o ensino da Língua de sinais, bem como da Língua portuguesa na modalidade escrita já foram mencionadas aqui e sinalizamos a suas contribuições num fazer pedagógico que entenda a experiência visual. Quanto às tecnologias, julgamos como fortes aliadas para a integração social dos surdos. Como afirmam Rangel e Stumpf, “a escola bilíngue precisa estar atenta às novas tecnologias que podem proporcionar as ferramentas necessárias para que seus alunos encontrem, também por meio de outras linguagens, oportunidade de inserção social e laboral” (2012, p. 119). Por fim, destacamos a formação de professores bilíngues como possibilidade de superação das inúmeras dificuldades sentidas por estes profissionais no dia-a-dia escolar. A fluência na língua de sinais é o primeiro passo para um ensino significativo e talvez esta seja a maior barreira encontrada. É necessário reconhecer a Libras como aspecto identitário dos surdos e não como ponte para o ensino da Língua portuguesa. Mas como fazer isso? Como ensinar sujeitos cuja experiência de mundo é visual? Podemos resumir que é um grande desafio, apesar dos avanços. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos apontam os avanços e ainda os desafios, pois há inquietações e necessidade da construção e organização de um trabalho pedagógico que atenda as especificidades lingüísticas do estudante surdo. Destacamos que a configuração do trabalho pedagógico pautado na perspectiva bilíngue caminha para construção de metodologias que atenda um input pelo canal visual. Para tanto, faz-se necessário um currículo que atente para as particularidades linguísticas do surdo, a utilização de tecnologias, bem como a formação de professores bilíngües, questão discutida neste estudo. Há necessidade de um olhar de respeito e valorização das diferenças para que se possa construir uma educação que possa levar o estudante surdo aos conhecimentos de mundo da mesma forma que um estudante ouvinte. Precisamos olhá-los com óculos de surdos, como capazes de alcançar aprendizagens significativas. Assim, esperamos que as considerações elucidadas, possam contribuir para estudos e reflexões posteriores, objetivando a superação das inquietações presentes na educação de surdos. Destacamos, por fim, que a busca por pressupostos teórico-metodológicos que fundamentem essa nova abordagem educacional bilíngue, provoca e convoca educadores a repensar uma prática pedagógica que valorize as diferenças e, principalmente, que considere uma pedagogia visual. 3241 VIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Londrina de 05 a 07 novembro de 2013 - ISSN 2175-960X REFERÊNCIAS BASSO, I. M. S; MASUTTI, M .L . A mediação do ensino de Português na aprendizagem escolar do surdo por meio do SES. In: RAMIREZ, A. R. G; MASUTTI, M. L. (orgs). A educação de surdos em uma perspectiva bilígnue: Uma experência de elaboração de softwares e suas implicações pedagógicas. – Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2009. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. 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