Relatório de Pesquisa
DESDOBRAMENTOS DA COPA DO MUNDO NA
PERCEPÇÃO DOS MORADORES DO MUNICÍPIO DE
VITÓRIA
2014
Equipe Técnica
Diretor Responsável
Flavilio Silva Pereira – Sociólogo
Coordenador da Pesquisa
Felipe Sellin – Sociólogo, Mestre em Sociologia Política
Equipe de Campo
Juliana Kaoro
Cicero Frechiani
Elaine Macedo Siqueira
Letícia Macedo Siqueira
Paola Barreto
1
APRESENTAÇÃO
A ETHNOS PESQUISA E CONSULTORIA apresenta a PESQUISA DESDOBRAMENTOS DA
COPA DO MUNDO NA PERCEPÇÃO DOS MORADORES DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA. A
Ethnos atua agregando elementos Ethnográficos às técnicas de pesquisa
predominantemente baseadas em entrevistas e levantamento de dados secundários.
Lançando mão de técnicas consolidadas obtemos uma percepção dos elementos e
símbolos socioculturais fundamentais para construção das identidades dos grupos
sociais, através de levantamento de opiniões de segmentos sociais e o posicionamento
desse público diante de situações diversas.
METODOLOGIA
A pesquisa buscou levantar os desdobramentos da Copa do Mundo da FIFA de 2014 na
opinião dos moradores do município de Vitória, considerando temas relacionados ao
futebol e seleção brasileira.
O levantamento de dados utilizou como parâmetros uma amostragem estratificada
em cotas por gênero e escolaridade. Foi considerado uma margem de erro de 5% para
mais ou para menos e nível de confiança de 95%, o que gerou uma amostra de 385
questionários com moradores de Vitória.
Os questionários foram aplicados in loco em várias regiões da cidade entre os dias 10 e
16 de Julho de 2014.
IDENTIDADE NACIONAL POSTA A PROVA
O debate entre a identidade nacional e futebol é antiga no Brasil. O ponto chave deste
debate ocorre em 1950 no fatídico episódio que ficaria conhecido como “Maracanaço”
em 1950. Mas, para compreendermos como este evento ganhou essa relevância para
a compreensão nacional temos que contextualizar a ascensão do futebol em terras
brasileiras.
O futebol chega ao Brasil por influência inglesa no final do século XIX. Na primeira
década do século seguinte os brancos já haviam criado clubes para a prática do
esporte. A sua popularização começa a se dar quando um clube fundado por
2
portugueses, o Vasco da Gama, ganha o campeonato carioca com jogadores
recrutados entre as camadas populares e um time formado por negros, mestiços e
operários. O campeonato que era amador, na prática limitava a participação de jovens
pobres. A estratégia utilizada foi de os imigrantes portugueses (supostamente)
empregarem os jogadores em suas empresas. Na prática o futebol começava a ser
profissionalizado1.
Na década de 1930 se consolida a presença de jogadores de futebol negros com a
formação de um grande ídolo que é Leônidas da Silva. Contemporâneo de outros
ícones negros do esporte como Jesse Owens, o negro que venceu a prova de atletismo
em o nazismo esperava provar a superioridade ariana nas Olimpíadas de 1936, Joe
Louis, campeão mundial de Boxe derrotando o atleta alemão Max Schmeling2, o
campeão de Hitler. Nosso “diamante negro” como era conhecido Leônidas tem
importância semelhante a estes atletas. Ele consolida a participação negra e mestiça
no futebol num momento importante da virada interpretativa que se tinha sobre o
Brasil.
Durante o século XIX a composição étnica racial da população era vista como entrave
ao desenvolvimento do país. Não por acaso o Brasil buscando se tornar um país mais
moderno “importou brancos” através do incentivo a imigração de italianos e alemães.
Mas, durante o período do Estado Novo o governo começa uma campanha de
autoafirmação e de valorização de nossa identidade cultural. A ideologia empreendida
por Getúlio Vargas de ufanismo e unidade já havia percebido que o futebol exercia um
fascínio nas massas e utilizou-se do esporte para construção de símbolos da
brasilidade3.
Contribuindo com essa nova percepção do Brasil aparece o grande clássico da
sociologia brasileira Casagrande e Senzala de Gilberto Freyre (1933). A grande virtude
deste livro é criar uma atmosfera cientifica para todo este fervor popular de
1
Revista Ciência Hoje Futebol Mestiço
O Campeão de Hitler (Alemanha, 2010) conta a história de Max Schmeling que passou de herói
nacional ao recrutamento obrigatório para a guerra quando perdeu a luta e poderia se tornar uma vergonha
sem que em nenhum momento tenha aderido ao nazismo.
3
Outros exemplos de símbolos incentivados por Vargas são as escolas de samba que passam a receber
verba pública para organizar os desfiles.
2
3
valorização da cultura nacional que estava surgindo. Diferente das interpretações
sociais do Brasil existentes até então Freyre traduz a miscigenação como a grande
virtude do povo aqui existente congregando como nenhum outro o melhor de três
culturas. O autor acaba por tratar episódios violentos de nossa história com algo de
menor importância frente à congregação étnica gerada. Ainda assim, Freyre inaugura
uma valorização da mestiçagem que é perceptível quando se fala de futebol. As
afirmações comuns sobre a ginga, a malandragem, o drible como características do
“país do futebol” têm a ver com a consolidação da ideia de que ninguém no mundo é
como nós e há elementos que só o brasileiro é capaz de realizar devido a sua
composição étnica (como o samba, o carnaval e o improviso).
No entanto, em 16 de Julho de 1950 todo este ideal é porto à prova. A seleção
brasileira de futebol após uma campanha belíssima na copa, com vitórias
acachapantes sobre os rivais, necessitando apenas de um empate para consagrar-se
pela primeira vez campeã mundial, perde de virada para o Uruguai por 2 a 1 em pleno
Maracanã diante do maior público já registrado num estádio de futebol. Há todo um
debate sobre essa brasilidade, a suposta falha do grande goleiro negro Barbosa, o
único personagem brasileiro lembrado quando se refere a esse episódio. A derrota
ficou marcada pela famosa expressão de Nelson Rodrigues: Complexo de Vira Latas.
Numa alusão a uma característica que o autor encontrava para justificar a derrota
brasileira, sua auto inferiorização diante do mundo.
Na copa de 1958 a seleção entra no primeiro jogo com um time que só tinha um
negro, Didi (que seria posteriormente eleito o melhor do campeonato). Mas aos
poucos os jogadores reservas vão se destacando até chegarem à vitória na final por 4 a
1 se consagrar campeão mundial. Encantando o mundo com um jovem negro franzino
(Pelé) e um mulato de pernas tortas (Garrincha).
Se por um lado a qualidade do futebol apresentado colocou o Brasil entre os grandes.
Por outro todo este debate em torno da identidade qualificou como o “país do
futebol”. Mas o “complexo de vira latas” não deixou de nos perseguir. Diante de
qualquer adversidade ele sempre é lembrado. Não por acaso, criou um padrão
4
justificador para nossas derrotas. Combinando ao que possui de semelhante com
Freyre sempre se busca alguma justificativa em supostas características emocionais (a
paixão, o medo, a malícia, a sensualidade, a intempestividade). Utilizando outras
expressões, sempre encontram em nós mesmo os fatores do fracasso4: o jogador que
passou mal porquê não aguentou a pressão, o excesso de festas, o clima de já ganhou,
e agora o chamado apagão em campo.
Diante de um evento tão importante da realidade nacional e perante um novo debate
sobre o reconhecimento de nós mesmo a ETHNOS Consultoria e Pesquisa Social foi
para as ruas perguntar como os moradores de Vitória interpretam a relação do país
com o futebol após a derrota por um placar elástico diante da Alemanha.
RESULTADOS: AINDA SOMOS O PAÍS DO FUTEBOL?
Tabela 01 - Com relação a frase: “O Brasil é o país do futebol”
Freq.
%
Concordo Totalmente
112
Concordo Parcialmente
Neutro
Discordo Parcialmente
Discordo Totalmente
NS/ NR
Total
115
21
43
84
10
385
% cumulativo
29,1
29,1
29,9
5,5
11,2
21,8
2,6
100,0
59,0
64,4
75,6
97,4
100,0
Essa questão abre as perguntas de opinião no questionário e o entrevistado já se
coloca diretamente responsável por avaliar nossa participação no mundial e a
capacidade que temos para além dele. Nossos entrevistadores perceberam que
constantemente havia risos ou comentários ao responder essa questão. Por isso a
resposta mais comum é daqueles que concordam com ressalvas que chegaram a 29,9%
dos entrevistados. Ainda assim um número próximo a 60% (59%) dos entrevistados
4
As grandes exceções são o campeonato de 1978 em que o Brasil não perde um jogo sequer e diante a
duvidosa idoneidade da Organização do mundial na Argentina o técnico brasileiro se declara campeão
moral. E em 1982 em que a técnica do time de Zico, Sócrates e Falcão perdeu para a força do futebol
europeu.
5
concorda que com a frase o que demonstra que não acreditam que os resultados por si
só não definem o título adquirido. Mas essa avaliação é ainda mais acentuada entre os
homens (como pode ser vista em tabela no final do texto) certamente por uma
socialização em que o futebol exerce muito mais influencia desde a infância.
Tabela 02 - Com relação a frase: “A copa do mundo no Brasil foi positiva para o país”
Freq.
Concordo Totalmente
Concordo Parcialmente
Neutro
Discordo Parcialmente
Discordo Totalmente
NS/ NR
Total
%
52
102
23
51
148
9
385
13,5
26,5
6,0
13,2
38,4
2,3
100,0
% cumulativo
13,5
40,0
46,0
59,2
97,7
100,0
Apenas 40% dos entrevistados acreditam que a copa foi positiva para o país. O que
demonstra que embora uma grande parte acredite ser o país do futebol, sediar o
mundial não foi interessante. O número dos que concordam (totalmente e
parcialmente) é semelhante ao daqueles que responderam que discordam totalmente.
Se por um lado o resultado alcançado dentro de campo pode ser um fator explicativo,
por outro, as tabelas a seguir podem demonstrar a politização alcançado pela
população diante do evento.
Tabela 03 - Com relação a frase: “Os protestos contra a copa estão corretos”
Freq.
Concordo Totalmente
Concordo Parcialmente
Neutro
Discordo Parcialmente
Discordo Totalmente
NS/ NR
Total
%
106
102
24
39
105
9
385
6
27,5
26,5
6,2
10,1
27,3
2,3
100,0
% cumulativo
27,5
54,0
60,3
70,4
97,7
100,0
Mais da metade dos entrevistados (54%) responde que os protesto contra a copa
estão corretos. Vale a pena ressaltar que muitos dos respondentes (que discordam de
alguma forma dos protestos) fizeram criticas a modalidade de ação coletiva
empreendida em algumas destas manifestações. O uso de expressões como quebraquebra e vandalismo foi constante e contribui para pensar que na insatisfação que a
organização do evento causou entre os moradores de Vitória.
Há de se ressaltar que a cidade não foi diretamente afetada por bônus ou ônus da
copa. Apesar de receber duas seleções para treinamentos não passou por questões
diretas das cidades sede como as obras de mobilidade urbana (na maioria não
entregue), incremento do turismo e aquecimento da economia. Pelo contrário, o
comércio capixaba foi geralmente atingido negativamente com a perda nas vendas em
dias de jogos.
Tabela 04 - Com relação a frase: “A copa deixou melhorias para a população
brasileira”
Freq.
Concordo Totalmente
Concordo Parcialmente
Neutro
Discordo Parcialmente
Discordo Totalmente
NS/ NR
Total
%
39
89
23
47
178
9
385
10,1
23,1
6,0
12,2
46,2
2,3
100,0
% cumulativo
10,1
33,2
39,2
51,4
97,7
100,0
Apenas um terço dos entrevistados concorda que a copa deixou melhorias para a
população brasileira um número muito pequeno para evento de tal magnitude. Ainda
mais se pensarmos nos gastos com 12 arenas modernas de futebol e aos benefícios
intangíveis de propaganda do país perante o mundo – desde sua capacidade de
organizar um evento de grande porte até sua receptividade tão comentada pelos
jogadores de outros países.
7
Tabela 05 - Com relação a frase: “O Brasil perdeu porquê tem um futebol pior que o
da Alemanha”
Freq.
Concordo Totalmente
Concordo Parcialmente
Neutro
Discordo Parcialmente
Discordo Totalmente
NS/ NR
Total
%
159
48
11
59
95
13
385
41,3
12,5
2,9
15,3
24,7
3,4
100,0
% cumulativo
41,3
53,8
56,6
71,9
96,6
100,0
Esta pergunta busca por a prova a nossa capacidade enquanto brasileiros de não
enxergar o outro e recorrer apenas a nós mesmos para explicarmos o fracasso no
resultado. Mas a maiorias das pessoas admitem que o futebol da Alemanha é superior.
É verdade que para as mulheres é mais fácil fazer essa afirmação. Aos homens talvez
porque tenham uma relação mais estreita e conheçam melhor ou porque não
conseguem aceitar a superioridade de outro como uma questão de orgulho.
Tabela 06 - Você concordaria que a seleção brasileira fosse treinada por um técnico
estrangeiro
Freq.
195
182
Sim
Não
Não Respondeu
Total
8
385
%
% cumulativo
50,6
50,8
47,3
98,2
2,1
100,0
100,0
Não por acaso, pouco amis da metade dos respondentes admite que o treinador da
seleção possa estrangeiro. Demonstrando que podemos sim aprender futebol com
outro país e que um intercambio seria positivo para o futebol brasileiro. Entre os
entrevistados 43,2% apontaram algum nome de técnico, entre esses, 22% gostaria de
ver o Guardiola, técnico do Bayer de Munique na seleção brasileira. Ainda 10% afirmou
que deveria ser o técnico da Alemanha (alguns podem estar pensando em Joaquim
Low, mas outros podem ter confundido a nacionalidade do treinador do time de
8
Munique). Mas merece a atenção o fato de 16% ainda queria ver o Felipão como
Técnico. Mesmo diante a demissão do treinador muitos preferiam que não ocorressem
modificações de nomes no comando técnico da seleção brasileira.
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Relatório de Pesquisa DESDOBRAMENTOS DA COPA DO MUNDO