Uma Avaliação do Acesso à Qualidade de Vida dos Moradores de Dois Bairros em Porto Alegre/RS Autoria: Claire Gomes dos Santos, Luis Roque Klering Resumo De acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano de 2000 (PMPA, 2004a, 2004b), existem grandes disparidades econômicas entre os bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS. Inicialmente, elegeu-se neste trabalho o quesito renda para, na seqüência, partir-se em busca de dimensões mais abrangentes em termos de qualidade de vida. Foram realizadas entrevistas baseadas da Abordagem da Capacitação e, mais especificamente, nas capacitações centrais de Martha Nussbaum (2000). Adicionalmente, discute-se a possibilidade do enfoque da capacitação contribuir para a elaboração e avaliação de programas sociais. Uma pesquisa de campo caracteriza o tipo de estudo, sendo a análise interpretativa o método de investigação, fundamentada em entrevistas baseadas nas dez capacitações centrais de Nussbaum (2000), bem como nos métodos comparativo e observacional assistemático. As entrevistas foram realizadas junto a membros das associações de moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento. Como resultados, a pesquisa apresenta alguns elementos que levam a crer que alguns blocos temáticos sintetizam as maiores preocupações dos moradores de ambos os bairros pesquisados. 1. Introdução A forte disparidade econômica existente entre os bairros Moinhos de Vento e Rubem Berta, em Porto Alegre/RS foi a motivação inicial para a dissertação que deu fundamento a este trabalho. Com base no rendimento médio mensal dos responsáveis pelo domicílio nos bairros referidos, captados pelo Censo Demográfico realizado no ano de 2000 (PMPA, 2004a, 2004b) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), observam-se os valores de 29,33 salários mínimos no Moinhos de Vento, contra apenas 4,05 salários mínimos no bairro Rubem Berta. A escolha dos bairros acima referidos também se deu por características em comum de participação ativa de suas comunidades, o que despertou um interesse maior para a pesquisa nesses locais. Entendendo o tema do desenvolvimento a partir de uma perspectiva mais pluralista neste trabalho (por meio da Abordagem da Capacitação), dever-se-ia eleger um critério para que, a partir dele, fosse possível ir em busca de aspectos conceituais mais ricos acerca do desenvolvimento que pudessem caracterizar os dois bairros, a fim de se realizar um estudo comparativo. Partiu-se, então, do argumento mais afeito aos estudos sobre desenvolvimento até a década de 1990 e, ainda hoje, muito utilizado e discutido: a renda. Este trabalho se baseia no enfoque do Desenvolvimento Humano e, essencialmente, na Abordagem da Capacitação de Amartya Sen e Martha Nussbaum. Para estes autores, entender o desenvolvimento apenas com base na existência de uma realidade econômica privilegiada configura um retrato muito simplista, sendo necessária uma noção mais aberta e multidimensional de desenvolvimento. Toda a análise apresentada neste trabalho está relacionada à questão do acesso à qualidade de vida nos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento, em Porto Alegre/RS, ou seja, se este acesso se dá a partir de uma ampla gama de indicadores no que diz respeito à qualidade de vida ou não. Sua relevância está no esforço realizado visando a captar diferentes indicadores sociais subjetivos, o que os institutos de pesquisas usualmente não realizam em 1 suas aferições e avaliações de qualidade de vida. Na pesquisa como um todo, e principalmente nas entrevistas realizadas, foram investigadas questões socioeconômicas e culturais que pudessem afetar o acesso à qualidade de vida nos bairros Moinhos de Vento e Rubem Berta. Nesse sentido é que se pretendeu dar forte enfoque à Abordagem da Capacitação de Amartya Sen e Martha Nussbaum, inclusive numa tentativa de ampliar ou abreviar a lista de capacitações centrais proposta por Nussbaum (1999, 2000), haja vista as peculiaridades intrínsecas à Porto Alegre, como também aos bairros estudados. Após o referencial teórico que dá suporte à pesquisa, o qual introduzirá a abordagem da capacitação de Sen e de Nussbaum como também alguns conceitos importantes, o trabalho abordará as técnicas de pesquisa utilizadas, os sujeitos pesquisados, os resultados da pesquisa e, finalmente, as conclusões. 2. Conceitos relevantes para o Desenvolvimento Humano Existem três conceitos que merecem especial atenção na abordagem do Desenvolvimento Humano. São eles funcionamento (functioning), capacitação (capability) e intitulamento (entitlement). De acordo com Sen (2000, p. 95), o funcionamento reflete as várias coisas que uma pessoa pode considerar valioso fazer ou ter. Os funcionamentos valorizados podem variar dos elementares, como ser adequadamente nutrido e livre de doenças evitáveis, a atividades ou estados pessoais muito complexos, como poder participar da vida da comunidade e ter respeito próprio. Já a capacitação de uma pessoa pode ser conceituada da seguinte forma: consiste das combinações alternativas de funcionamentos cuja realização é factível para ela. Portanto, a capacitação é um tipo de liberdade: a liberdade substantiva de realizar combinações alternativas de funcionamentos (ou, menos formalmente expresso, a liberdade para ter estilos de vida diversos). Por exemplo, uma pessoa abastada que faz jejum pode ter a mesma realização de funcionamento quanto a comer ou nutrir-se que uma pessoa destituída, forçada a passar fome extrema, mas a primeira pessoa possui um “conjunto capacitário” diferente do da segunda (a primeira pode escolher comer bem e ser bem nutrida de um modo impossível para a segunda). Finalmente, entitlement, que ganha a denominação de intitulamento em Sen (2000, p. 53-54 – nota de rodapé): O entitlement de uma pessoa é representado pelo conjunto de pacotes alternativos de bens que podem ser adquiridos mediante o uso dos vários canais legais de aquisição facultados a essa pessoa. (...) O conjunto do entitlement de uma pessoa é determinado pelo pacote original de bens que ela possui (denominado “dotação”) e pelos vários pacotes alternativos que ela pode adquirir, começando com cada dotação inicial, por meio de comércio e produção. A natureza da concepção dos conceitos de funcionamento e de intitulamento apresentados se assemelham muito ao ponto de vista Aristóteles (2004a, 2004b). Na abordagem da capacitação (SEN, 2000, 2001), realizar funcionamentos dependeria da posse e do uso de bens. Os funcionamentos, então, podem ser vistos como fins (o que as pessoas desejam fazer ou ter), alcançados via intitulamentos, que seriam os meios pelos quais se daria a posse dos funcionamentos. Conforme Aristóteles (2004a), a riqueza não reflete os objetivos dos homens, sendo ela meio para a consecução de outras coisas. Assim, a abordagem da capacitação parece seguir seus passos na medida em que concilia a ética aristotélica à economia. 3. A Abordagem da Capacitação 2 Desenvolvimento, no seu sentido mais contemporâneo, tem-se mostrado um conceito multidimensional. A abordagem do desenvolvimento humano, “como freqüentemente é chamado o processo de expansão da educação, dos serviços de saúde e de outras condições da vida humana” (SEN, 2000, p. 58), apresenta premissas que fazem com que se compreenda que o crescimento econômico não é alternativa para todos os males sociais, recorrendo adicionalmente à questão do reconhecimento e da expansão das liberdades dos indivíduos como fator indispensável para a promoção do desenvolvimento. Sobre o papel da liberdade na abordagem de Sen (1999, 2000, 2001), ela é vista tanto como meio (papel constitutivo) quanto como fim (papel instrumental) do desenvolvimento. Quando as liberdades são vistas como meio do desenvolvimento, toca-se na importância da liberdade substantiva para os seres humanos, ou seja, as capacitações humanas fundamentais, tais como evitar a fome, a morte prematura, ou assegurar liberdade de expressão. Portanto, o papel das liberdades humanas não é somente o de resultado do desenvolvimento a posteriori, como é comum que se considere nas visões mais tradicionais sobre desenvolvimento, nas quais o mais forte indicador da questão é o crescimento da renda per capita de uma localidade. O enfoque do desenvolvimento como liberdade encara as privações de liberdade como não-conducentes ao desenvolvimento, como também não representativas de desenvolvimento. De acordo com Sen (2000), por exemplo, mesmo uma pessoa muito rica, se não tiver respeitados seus direitos de livre-expressão ou de participação política, estará sendo privada de algo que ela teria motivos para valorizar. Alguns autores não concordam com alguns pontos de vista com que Amartya Sen aborda certas questões. Sugden (1993), por exemplo, sustenta que a abordagem da capacitação seja uma contribuição inegável à economia normativa, mas crê que falte fôlego em argumentação justamente em relação à diferenciação entre funcionamentos e capacitações para se avaliar o bem-estar de uma pessoa. Em relação à operacionalidade da abordagem, Sugden (1993, p. 1953) questiona: Dada a rica disposição de funcionamentos que Sen toma por relevantes, dado o grau de desacordo entre pessoas racionais sobre a natureza do que seja uma boa vida, e dado o problema não resolvido de como dar valor aos conjuntos, é natural questionar até onde a estrutura de Sen é operacional. É ela uma alternativa realista aos métodos que os economistas tipicamente recorrem — medidas de renda real, e o tipo de análise prática de custo-benefício, nascida da teoria marshalliana do consumidor? Já Srinivasan (1994) aponta para a questão de que renda nunca teria sido uma medida de desenvolvimento, nem na opinião dos economistas, e muito menos na opinião dos formuladores de políticas públicas. Desta forma, aponta o crescimento da renda como um fator relevante nesse sentido, pelo seu papel instrumental. Chiappero-Martinetti (2004) discute se o enfoque com que a abordagem é trabalhada por Sen e Nussbaum, discutindo e operacionalizando conceitos complexos e vagos como pobreza e bem-estar, teria mais características de força ou fraqueza. A autora expõe que o conceito de bem-estar envolve uma diversidade de variáveis e dimensões que muitas vezes não possuem fronteiras muito claras entre elas. Esse e outros argumentos, tais como a natureza contexto-dependente e multidimensional do enfoque, a falta de especificidade em relação às dimensões que deveriam ser abordadas e como deveriam fazê-lo, a falta de formalização rigorosa e de um índice que pudesse ser usado para estabelecer um ranking interpessoal, costumam fazer parte das opiniões não-simpáticas à validade científica ou à possibilidade de operacionalização da abordagem da capacitação, tratando-as todas como características de fraqueza, e não de força do enfoque. A autora coloca, no entanto, que esses mesmos pontos lembrados acima como responsáveis pela fraqueza da abordagem, são os mesmos que costumam ser destacados pelos acadêmicos de várias áreas como representativos da força da abordagem. 3 Robeyns (2005) destaca a “explosão de interesse” que sobreveio por parte de pesquisadores e formuladores de políticas públicas relativamente ao enfoque da capacitação na última década. Em parte, essa corrida é devida ao caráter multidisciplinar dos temas que são discutidos sob esse escopo teórico, provocando uma pesquisa por diversos campos do saber. A fundação teórica de um paradigma do desenvolvimento humano é mesmo apontada pela autora, evidenciando que essa forma de desenvolvimento não objetiva explicar o bemestar, a pobreza ou a desigualdade social, mas oferece uma estrutura e uma ferramenta que podem avaliar e conceituar esses fenômenos. Estaria havendo, inclusive, ressonância do tema em diversas disciplinas acadêmicas (economia heterodoxa, economia do desenvolvimento, ética do desenvolvimento, e filosofia política e econômica), lembrando que a literatura produzida nessa área “é caracterizada pela sua natureza altamente interdisciplinar e a predominância de reflexão conceitual e filosófica ao invés de modelagens e formalizações” (KUKLYS; ROBEYNS, 2004, p. 2), tão comuns na economia ortodoxa. Nesse sentido, não existindo consenso sobre a forma a ser utilizada para operacionalizar o enfoque da capacitação, muitos economistas preferem ignorá-la (KUKLYS; ROBEYNS, 2004). 3.1 As capacitações centrais de Nussbaum Nussbaum (2000) elaborou uma uma lista com dez capacitações centrais, com base na qual foram construídas as questões das entrevistas aplicadas junto a membros das associações de moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento. A autora, estudiosa da área jurídica, aborda as capacitações como direitos que as pessoas teriam razão para valorizar. Adicionalmente, considera a diversidade cultural das diferentes sociedades, uma vez que abre espaço para o pluralismo nas possíveis reinterpretações de sua lista de capacitações. Para propósitos de políticas sociais, as capacitações centrais de sua lista passariam a necessitar de maior precisão. Assim, ela justifica a interpretação de cada item da sua lista com a forma como são descritos os direitos humanos mais fundamentais e como eles se apresentam em cada tradição constitucional: todos têm um certo grau de generalidade e, baseado na interpretação e na deliberação, derivam-se especificações mais claras. Alguns elementos da abordagem da capacitação têm suas raízes em Aristóteles, Adam Smith e Karl Marx (ROBEYNS, 2000), embora Amartya Sen já tenha proposto sua teoria de maneira bastante consistente mais recentemente (SEN, 1999; 2000; 2001), inclusive proporcionando inspiração para outros autores contribuírem com o enfoque supracitado, tal como Nussbaum (1999, 2000). A crença de que as pessoas tendem a alterar suas preferências e melhorar seu nível de exigência e expectativas se forem expostas a opções e oportunidades diferentes é o que moveu Nussbaum (2000) a apresentar um rol em que constam capacitações fundamentais visando à realização de um amplo e integral desenvolvimento focado no ser humano. É sabido que Sen não concorda plenamente com a elaboração de índices de qualidade de vida ou listas de capacitações ou necessidades básicas (SEN, 2000), nas quais se pode, de certa forma, correr o risco de ser demasiadamente específico e de compor uma lista sob um conjunto estreito de visões de mundo (MATHAI, 2003). Já Nussbaum acredita que, para a pesquisa e para a reivindicação prática das capacitações junto aos governos, a elaboração de uma lista na qual se possa, de certa forma, pôr um marco limitador às fronteiras das capacitações humanas muito discutidas por Sen, é útil e necessária. Embora não haja nenhuma escassez de listas relacionadas a bem-estar, valores ou necessidades humanas básicas, existe o que se pode chamar de “fenômeno das listas” (ALKIRE, 2002, p. 181), em que cada autor desenvolve a sua em resposta a questões específicas, cada qual tendendo a diferentes vertentes filosóficas. Nesta trabalho, foi escolhida 4 a de Nussbaum por ser uma das mais difundidas, além de ser uma lista de referência para pesquisadores que trabalham com o tema das capacitações. Observa-se, no entanto, que as capacitações listadas de maneira alguma esgotam as possibilidades de realização humana (NUSSBAUM, 1999), sendo apenas passos iniciais necessários para que, a partir desse ponto, possa-se explorar outras condições de vida. Em suma, a lista completa das capacitações consideradas elementares por Nussbaum (2000, p. 78-80) são as que seguem: a) Vida: Ser capaz de viver até o final de um período de vida humana normal; não morrer prematuramente; b) Saúde física: Ser capaz de gozar de boa saúde, incluindo saúde adequadamente nutrido, ter abrigo adequado; reprodutiva; estar c) Integridade física: Ser capaz de se mover livremente de um lugar a outro; ter respeitadas as fronteiras de seu corpo, isto é, estar seguro contra ataques, como os de violência sexual, abuso infantil e violência doméstica; ter oportunidade de satisfação sexual e de escolha em relação à reprodução; d) Sentidos, imaginação e pensamento: Ser capaz de usar os sentidos, imaginar, pensar e raciocinar – e fazê-lo de uma forma “verdadeiramente humana”, uma maneira informada e cultivada por uma educação adequada, incluindo, mas sem limitá-la a isso, alfabetização e ensinamentos científicos e de matemática básica. Ser capaz de usar a imaginação e o pensamento em conexão com trabalhos e eventos auto-expressivos, produtivos e que proporcionam experiência, fundamentadas na própria escolha, religiosa, literária, musical, etc. Ser capaz de usar a mente de forma protegida por garantias de liberdade de expressão e respeito a discurso político e artístico, como também a liberdade de exercício da religião. Ser capaz de procurar pelo significado da vida à sua maneira. Ser capaz de ter experiências prazerosas e de evitar a dor desnecessária; e) Emoções: Ser capaz de ter apego a coisas e pessoas além de si mesmo; de amar aqueles que nos amam e se preocupam conosco, de lamentar sua falta; em geral, amar, lamentar, experimentar saudade, gratidão e raiva justificada. Não ter o desenvolvimento emocional bloqueado por medo e ansiedade dominadores, ou por eventos traumáticos de abuso ou negligência; f) Razão prática: Ser capaz de formar uma concepção do que é bom e se engajar em reflexão crítica sobre o planejamento de sua vida; g) Afiliação: A) Ser capaz de viver em sociedade, de reconhecer e mostrar interesse por outros seres humanos, engajar-se em diversas formas de interação social; ser capaz de imaginar a situação de outro e ter compaixão pela situação; ter capacitação para justiça e amizade. interagir socialmente, mostrar interesse por outros indivíduos, ter sentimentos de justiça e amizade. B) Ter as bases sociais de auto-respeito e não-humilhação; ser capaz de ser tratado como um ser digno cujo valor é igual ao dos demais seres. Isso significa, no mínimo, proteção contra discriminação baseada em raça, sexo, orientação sexual, religião, casta, etnia, ou nacionalidade. No trabalho, ser capaz de trabalhar como um ser humano, exercendo a razão prática e entrando em relacionamentos significativos de reconhecimento mútuo com outros colegas de trabalho; 5 h) Outras espécies: Ser capaz de viver considerando animais, plantas e o meio-ambiente; i) Diversão: Ser capaz de sorrir, divertir-se e apreciar atividades recreativas; j) Controle sobre o próprio ambiente: A) Político. Ser capaz de participar efetivamente das escolhas políticas; ter o direito de participação política, proteção ao livre-discurso e ao direito de associação. B) Material. Ser capaz de ter direitos de propriedade (terra e bens móveis), não só formalmente, mas em termos de oportunidades reais; e ter direitos de propriedade numa base de igualdade com os demais; ter o direito de procurar e manter emprego numa base de igualdade com os demais. Não só o tempo, como também as especificidades locais de onde se pesquisa podem representar um impacto considerável sobre a lista de capacitações. Se por um lado Nussbaum (2000) trata as capacitações como direitos que todos os indivíduos, de qualquer parte do mundo, deveriam ter a liberdade de reivindicar junto a seus governos, por outro lado, a autora também abre um espaço importante para que sejam agregadas novas capacitações a sua lista, escolhendo incorporar um alto nível de relativismo cultural em sua perspectiva das capacitações. Nussbaum (1999, 2000), por sua vez, também não pretende propor uma única forma de encarar bem-estar, embora tenha elaborado uma lista de capacitações fundamentais. Isso porque a autora concorda com a relativização da importância das capacitações listadas de acordo com a relevância que outras possam apresentar nas localidades onde a lista servirá como instrumento de pesquisa. Fez-se a opção, neste trabalho, da lista como ela se apresenta nas publicações da autora (NUSSBAUM, 1999, 2000), uma vez que não se realizou nenhum estudo prévio sobre a cultura dos locais de coleta de dados (embora algumas referências culturais estejam presentes ao longo deste trabalho). Nussbaum (2000) deixa claro que, embora alguns itens da lista possam parecer mais permanentes que outros, a lista sempre poderá ser contestada e refeita, havendo a possibilidade, portanto, de se inserir ou excluir alguma capacitação conforme a necessidade das pesquisas que utilizem o modelo proposto por ela. Além disso, a autora crê em sua proposta tendo como objetivo o atendimento das necessidades do mundo contemporâneo, não recomendando qualquer viés de atemporalidade em relação à lista. Convém salientar que a lista de Nussbaum agrupa capacitações, e não funcionamentos. Transporte público e água potável, por exemplo, indicadores importantes para a constituição de condições melhores de vida, não se encontram listados por Nussbaum porque, sendo funcionamentos, participam de conjuntos mais amplos denominados capacitações: cada qual se encontra em alguma capacitação, de forma mais ou menos explícita (aquelas que considerem em maior dimensão o direito de ir e vir, a saúde, e assim por diante). Outra questão relevante a respeito da lista é que, de acordo com a autora, dever-se-ia evitar promover uma capacitação em detrimento de outra. Isto é, evitar realizar uma análise de custo-benefício entre elas. Todos os elementos listados seriam de importância central na sua interpretação, como também distintos em qualidade, o que impediria uma análise puramente quantitativa da questão. Na abordagem proposta não se supõe que seja possível, por exemplo, interpretar que a falta de liberdades políticas poderia ser aceitável como contrapartida de um aumento considerável na taxa de crescimento econômico de uma localidade qualquer. Enfim, Nussbaum (2000, p. 83) fala dos “objetivos morais” que cercam a objetivação das capacitações. Para ela, “seres humanos são criaturas que, se supridas por educação correta e suporte material, podem-se tornar plenamente capazes de realizar todos os funcionamentos humanos”. No caso de as pessoas serem privadas do suporte necessário que lhes proporcione realizar seus funcionamentos, de terem impedidos seus direitos de ação humana, a autora acredita que haveria um grande desperdício do potencial humano. 6 4. Técnicas de pesquisa 4.1 Sobre a operacionalização da Abordagem da Capacitação Robeyns (2000 aborda a questão da dificuldade que cerca a operacionalização ou aplicação do enfoque. Ela afirma que, embora um grande número de economistas do bemestar tenha formalizado teorias de redistribuição de renda perseguindo claramente prescrições redistributivas, Amartya Sen preferiu manter o foco sobre o “caráter multidimensional, nebuloso e ambíguo” (ROBEYNS, 2000, p. 21) do bem-estar. Desta forma, em decorrência dessa multidimensionalidade, a autora coloca que é um erro esperar que a abordagem da capacitação fosse operacional da mesma maneira que uma medida de renda real ou uma análise de custo-benefício, que são perspectivas unidimensionais. A partir daí, Robeyns (2000) lista algumas aplicações empíricas da abordagem da capacitação de maneira a chamar a atenção para a variedade de formas como pesquisadores a operacionalizaram — o que proporciona um panorama mais amplo acerca das limitações e possibilidades do enfoque da capacitação — como também para a diversidade de temas analisados. Também Chiappero-Martinetti (2004) se refere a alguns métodos os quais foram úteis até o momento no sentido de possibilitar a operacionalização da abordagem da capacitação. Todos a que ela se refere, no entanto, são exemplos de técnicas quantitativas multivariadas: análise fatorial, modelagem de equação estrutural, análise de clusters, modelos log-lineares, análise de componentes principais, e teoria dos conjuntos fuzzy. Todos são exemplos das técnicas mais utilizadas em análises envolvendo pobreza e qualidade de vida no sentido de “reduzir, medir e agregar dimensões de privação, como também analisar relações causais entre elas” (CHIAPPERO-MARTINETTI, 2004, p. 16). Nussbaum (2000), adicionalmente, teria mostrado que é possível trabalhar com a abordagem da capacitação por meio de métodos não-quantitativos, como relatos, métodos biográficos, entrevistas em profundidade e outros. Comim e Bagolin (2002), por exemplo, crêem que entrevistas reflitam um modo de estudo participativo que possibilita atentar diretamente para a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas estudadas. Contudo, além de destacarem a grande capacidade informacional que as entrevistas podem propiciar, os autores advertem para a existência de limitações quanto à generalização de programas sociais (no âmbito de regiões mais amplas, como estados ou países, ou mesmo municípios) fundamentados nos resultados colhidos por meio de entrevistas porque esse enfoque seria contexto-específico. De acordo com Sen (2001), a abordagem da capacitação é mais sensível no que se refere à privação dos seres humanos que as abordagens baseadas na utilidade, porque entende que a situação de privação contínua pode “ajustar” as escolhas pessoais às reais oportunidades que os cercam. 4.2 Caracterização da população pesquisada Foram entrevistados membros da Associação Comunitária de Moradores do Conjunto Residencial Rubem Berta (AMORB) e da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Moinhos de Vento (Moinhos Vive). Primeiramente, é conveniente considerar a maneira como se deu a conformação histórica do bairro Rubem Berta para, na seqüência, abordar o bairro Moinhos de Vento. 7 De acordo com o projeto Mudando a Cara (2005), há uma divisão quando se trata de toda a comunidade do bairro Rubem Berta e daquela representativa dos que residem no conjunto habitacional especificamente. A fim de esclarecer um pouco mais essa questão relativamente ao conjunto habitacional, este se encontra na região Eixo-Baltazar do Orçamento Participativo. Toda a área do conjunto habitacional pertence à Companhia de Habitação do Estado do Rio Grande do Sul (COHAB), que atualmente estaria em fase de liquidação. Contudo, 97% dos imóveis já estariam com sua situação regularizada. De acordo com o projeto do bairro idealizado pela AMORB (MUDANDO A CARA, 2005), os beneficiários diretos das ações do projeto seriam os moradores de 4.992 apartamentos que estariam em situação de vulnerabilidade social (pessoas com renda média de até dois salários mínimos mensais), o que se traduziria em cerca de 25.000 pessoas, pouco mais de 30% (trinta por cento) de toda a população do bairro, que perfaz o montante de 78.624 habitantes de acordo com o Censo Demográfico de 2000 (IBGE, 2000) (há 23.243 domicílios no bairro, de acordo com PMPA, 2004b). O bairro possui uma grande extensão territorial (851 hectares, conforme PMPA, 2004b, frente aos 82 hectares do bairro Moinhos de Vento, conforme PMPA, 2004a), e existem dados que apontam para um grande crescimento populacional ocorrido na década de 1980 — 8,75% de 1980 a 1991, contra apenas 1% de 1991 a 2000 (PMPA, 2004d) — o que, certamente, traduz o movimento de ocupação permanente de seus terrenos ao longo da década de 1980. Apesar de a associação do bairro Rubem Berta se encontrar na região do conjunto habitacional, a opinião das pessoas entrevistadas não reflete somente a idéia que fazem do seu entorno mais próximo. Isso porque há reuniões freqüentes entre a diretoria das associações das vilas que compõem o bairro (de acordo com o Entrevistado A, são dezenas de vilas) em conjunto com a diretoria da AMORB, o que proporcionaria um contato bastante direto com essas realidades. O grupo de moradores do conjunto habitacional tem-se feito representar ao longo das últimas duas décadas por meio de uma mobilização social marcante, incluindo conquistas sociais e econômicas importantes para o bairro. A regularização do loteamento, por exemplo, sempre foi um dos maiores objetivos da comunidade, e que já está praticamente alcançado, como já relatado. A AMORB, criada em 1987 (embora o bairro Rubem Berta tenha sido criado em 1968, conforme PMPA, 2004b), teria representado um papel importante no que tange a esse assunto. Como o próprio projeto do bairro expõe (MUDANDO A CARA, 2005, p. 1), a AMORB “tem por finalidade lutar pelo bem comum, em todos os aspectos, com prioridade para assuntos referentes à moradia, alimentação, educação e saúde”. Além do projeto Mudando a Cara que, inicialmente, dizia respeito somente à pintura dos blocos residenciais do bairro, também faz parte dos esforços da associação do bairro a parceria firmada entre a associação dos comerciantes do bairro Rubem Berta (ASCORB) e a organização não-governamental Instrodi (Instituto Strohalm de Desenvolvimento Integral), financiada pela fundação holandesa Strohalm (de origem bancária) através de uma moeda (circulante local) denominada Rubi (no bairro existe a Feira do Rubi, na qual produtos de alimentação, artesanato, e confecções e brechó são vendidos em Rubi e em Reais). Tem-se discutido também a possibilidade de empréstimo da moeda local a feirantes, comerciantes e instituições locais, com o propósito de ativar a economia local. Quanto ao bairro Moinhos de Vento, a Moinhos Vive foi criada em 2003 com o intuito de reivindicar por questões importantes para a região junto à prefeitura municipal de Porto Alegre/RS. Apesar da recente criação da associação, o bairro não é em nada recente na história de Porto Alegre: foi fundado em 1959. Antes dessa época, apenas o bairro Medianeira havia sido criado, em 1957 (PMPA, 2004c). Hoje, o bairro Moinhos de Vento conta com uma grande variedade cultural, praças, restaurantes e bares que atraem não somente moradores do bairro, como também pessoas de outras regiões de Porto Alegre e cidades da Região 8 Metropolitana. No entanto, o bairro tem perdido população: de 1980 a 1991, a taxa foi de 1,6% (taxa decrescente), e de 1991 a 2000, a taxa foi de –0,2% (taxa decrescente) (PMPA, 2004d), provavelmente, em vista da mudança de perfil que vem sofrendo, de um bairro tradicionalmente residencial para comercial, focado na oferta de produtos e serviços destinados a consumidores de renda mais elevada. Além disso, tanto a associação do bairro (Moinhos Vive), como também o Conselho dos Moradores e Usuários do Parque e do Bairro Moinhos de Vento têm-se mobilizado no sentido de evitar uma maior verticalização no bairro, decorrente da construção de altos edifícios permitidos pelo mais recente Plano Diretor de Porto Alegre (PMPA, 1999) (a maioria dos prédios são construídos no lugar de antigas residências, haja vista a inexistência de terrenos desocupados no bairro), além de quaisquer outros infortúnios para a região. De acordo com Carvalho (2006), a história do bairro tem seu início a partir de muitas chácaras que caracterizavam a região, sendo a da família Mostardeiro a de maior destaque. Essas chácaras possuíam “moinhos de vento” para irrigação e para conduzir água dos poços existentes para depósitos. A divisão do bairro em ruas e o início do seu desenvolvimento remonta a meados do século XIX. Com o passar dos anos, a região foi-se tornando aristocrática, passando a habitar no bairro as famílias mais tradicionais de Porto Alegre, dos ramos do comércio e da indústria. 4.3 Coleta e análise dos dados Na presente pesquisa de campo, foram entrevistados 07 (sete) sujeitos no bairro Rubem Berta e 07 (sete) sujeitos no bairro Moinhos de Vento, todos pertencentes às diretorias ou membros atuantes nas associações de bairro a que são vinculados. A escolha por estes sujeitos específicos se deu sob a suposição de que esses indivíduos teriam maior conhecimento ou consciência não apenas dos problemas mais relevantes de seus bairros, como também dos pontos positivos das regiões estudadas. Foram aplicadas 17 (dezessete) questões estruturadas em entrevistas fundamentadas sobre a lista de capacitações centrais de Nussbaum (2000). É de se ressaltar, no entanto, a amplidão de conteúdo e a complexidade que envolve a lista supracitada. Dessa forma, foram feitas algumas adaptações e simplificações de maneira a moldar as questões aplicadas para o tempo, o espaço e a linguagem requeridos por uma entrevista. Todas as entrevistas (com a exceção de quatro da Moinhos Vive — a associação não dispõe de sede própria, o que por vezes dificultou o contato com os associados —, que foram respondidas por meio de correio eletrônico, não necessitando de transcrição) foram gravadas com a devida autorização de cada um dos entrevistados e, em seguida, transcritas para posterior análise interpretativa. Cada uma das dezessete questões das entrevistas está vinculada a uma capacitação da lista de Nussbaum (2000), sendo que algumas capacitações contam com uma ou mais questões, de acordo com a complexidade da temática de que tratam. A análise dos dados obtidos nas entrevistas com os membros das associações dos bairros Moinhos de Vento e Rubem Berta foi realizada com o emprego da técnica qualitativa de análise interpretativa, na qual os processos de interpretação e de análise mantêm uma ligação muito íntima entre si, em que se busca um entendimento interpretativo do que foi exposto. O método de investigação se deu por meio da técnica de entrevistas, embora também tenham sido utilizados os métodos comparativo e observacional assistemático no decorrer do estudo. 5. Resultados da pesquisa 9 O acesso à qualidade de vida nos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento foi comparado entre si com base em todas as informações coletadas durante a pesquisa (entrevistas, documentos, observação, etc.). Cabe agora fazer uma relação dos principais êxitos ou preocupações no atendimento das diferentes capacitações nas quais foi baseado o roteiro de entrevistas. a) SAÚDE: observa-se que há duas capacitações em que se pode falar objetivamente sobre saúde na lista de Nussbaum (2000). São elas as capacitações “a) Vida” e “b) Saúde Física”. Esse tema pode ser entendido como uma grande preocupação e um dos principais elementos para a melhoria da vida dos moradores do bairro Rubem Berta. Seja considerada a emergência de saúde ou os serviços médicos em geral, os moradores dessa região, basicamente, acessam ao serviço público. Sabe-se, contudo, que as situações de morosidade e de falta de estrutura relatadas nas entrevistas não são exclusivas ao bairro, pois se sabe que existem bairros bem mais carentes que este em Porto Alegre, conforme se pode confirmar pelos dados dos últimos Censos Demográficos (PMPA, 2004d), bairros esses nos quais se pode ter ainda menos acesso à saúde. Apesar das deficiências, são aguardadas melhorias num futuro próximo, a partir do sistema público de saúde: o início das operações do Programa de Saúde da Família e a abertura do posto de saúde local durante 24h (ainda não previsto). No bairro Moinhos de Vento, encontra-se o inverso da situação: o serviço de saúde recebe apenas elogios. Porém, há sempre um ônus para o usuário: só existem serviços pagos, não havendo sequer demanda por atendimento público. b) VIOLÊNCIA: ambos os bairros se preocupam muito com esta questão. A violência é o tema em que existem mais interligações com outras capacitações. A inquietação dos moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento deve residir exatamente aí, enquanto vêem a situação se agravar e compreendem que a violência nasce e se dissemina por diversas razões. Ao todo, na lista de Nussbaum (2000), encontram-se cinco capacitações com as quais o tema está direta ou indiretamente relacionado, sendo elas as seguintes: a) Vida, c) Integridade Física, d) Sentidos, Imaginação e Pensamento, i) Diversão, e j) Controle sobre o Ambiente. A violência com morte e a violência contra a pessoa são algo que no bairro Rubem Berta, em algumas situações, chega a ser comentado com certa ironia, visto que a banalização foi o caminho encontrado para a situação de criminalidade permanente que cerca o bairro. No bairro Moinhos de Vento o pavor ainda é decorrente da chegada relativamente recente da violência no bairro, fato que os faz procurar dialogar permanentemente com o poder público, além de se cercar de segurança particular para tentar constranger as ocorrências criminosas. O acesso a atividades educativas, criativas e culturais e o acesso a momentos e locais para diversão e atividades recreativas (abordados nas entrevistas) estão fortemente interrelacionados (capacitações “d) Sentidos, Imaginação e Pensamento” e “i) Diversão”) com a violência na medida em que o bairro Rubem Berta praticamente não tem opções de lazer a oferecer a seus moradores. Somando-se a isso a falta de perspectiva de muitos jovens quanto ao futuro (capacitação “f) Razão Prática”) e o tempo ocioso, o crime pode se apresentar como uma alternativa atraente. No bairro Moinhos de Vento, pelo contrário, há muitas opções de lazer, de acesso à cultura e à educação, bem como condições econômicas para arcar com um acesso pelo menos satisfatório a crianças, jovens e adultos. A violência que os assola vem de fora do bairro, na maioria das vezes. A liberdade de expressão (capacitação “d) Sentidos, Imaginação e Pensamento”) no bairro Rubem Berta já foi inibida em decorrência da violência. Isso porque foi relatada a ocorrência de toque de recolher no bairro (de acordo com mais de um entrevistado do bairro), 10 impedindo momentaneamente seus moradores de ir e vir e, obviamente, de falar (uma vez que a atitude tomada por um grupo criminoso almejava, provavelmente, o silêncio dos moradores da região em relação a algumas situações criadas por eles). Apesar de ter havido um relato de que essa ordem de um grupo violento do bairro teria sido falsa, isso não minimiza seus efeitos negativos na comunidade. Com medo, esta seguiu as instruções prescritas para não ser um possível alvo da violência local. As informações coletadas nas entrevistas não dão suporte a uma maior exploração do assunto e, apesar de ter havido um questionamento mais incisivo em relação ao tema, apenas um entrevistado relatou a falsidade do toque de recolher (o que pode ser questionável), enquanto ele e os demais não souberam sequer dizer como essa restrição teve início (que pessoas desencadearam a reação de medo ou mesmo quando começou exatamente). Por fim, a questão dos direitos de propriedade serem assegurados ou não (capacitação “j) Controle sobre o ambiente”) reflete dois problemas graves nos bairros estudados. No bairro Rubem Berta, que nasceu a partir de uma área de prédios residenciais invadida na zona norte de Porto Alegre, a situação de regularização de imóveis já se encontra praticamente solucionada no que diz respeito aos prédios residenciais. Entretanto, muitas outras construções foram erguidas em áreas originalmente reservadas para o uso comum dos moradores do bairro (como praças e calçadas), o que faz com que hoje elas não alcancem as mínimas condições para a regularização imobiliária e, além disso, ainda afetem negativamente o direito da comunidade a bens públicos (como praças, calçadas e outros espaços), pois que foram invadidos. Assim, boa parte do bairro é composta por casebres sem manutenção e sem ampliação porque seus atuais ocupantes temem perder os recursos que despenderam neles a qualquer momento, se a prefeitura desejar despejá-los desses locais. No bairro Moinhos de Vento muitos imóveis já foram e ainda são invadidos para furto (casas e prédios), além dos freqüentes roubos de veículos estacionados nas ruas da região. A saída encontrada, por enquanto, além da solicitação da presença mais efetiva da polícia, foi a contratação de segurança particular no bairro. c) NUTRIÇÃO E HABITAÇÃO: o bairro Rubem Berta comporta realidades muito diferentes dentro de suas fronteiras. Enquanto uma grande parcela de seus moradores tem condições de manter uma alimentação adequada e uma habitação que garanta um conforto satisfatório, outra parcela não tem acesso a nada disso, vivendo de doações e do auxílio de vizinhos, parentes e da associação de moradores do bairro. A falta de informação é um dos fatores que mais atua contra uma alimentação saudável e balanceada (há crianças menores de dois anos cadastradas pelo posto de saúde local por correrem risco nutricional) e uma habitação onde se garanta a privacidade dos que nela vivem, bem como a higiene que garanta conforto e saúde. Existem muitas construções precárias, ainda existe falta de saneamento em algumas vilas, e uma quantidade razoável de desempregados, o que contribui para piorar, muitas vezes, as condições de alimentação e de habitação das famílias. No bairro Moinhos de Vento, as condições de alimentação e de habitação mostram-se excelentes, permitindo a seus moradores optar por diferentes alternativas, levando em conta suas preferências pessoais, e tendo o conhecimento do que seja mais adequado a sua saúde física. d) PLANEJAMENTO FAMILIAR: falta de informação, principalmente no que se refere às mulheres (SEN, 2000), acarreta problemas ligados ao planejamento familiar no bairro Rubem Berta. Conforme duas entrevistadas do bairro Rubem Berta (referente à capacitação “c) Integridade Física”), de posse das informações necessárias, as mulheres poderiam exercer com maior plenitude o direito de dispor do próprio corpo com consciência, além de compreender que um número grande de filhos provavelmente tornaria a vida da família mais difícil no futuro. No bairro Moinhos de Vento, onde o nível educacional e informacional é 11 bem maior, notam-se bem menos bebês e crianças nas ruas (de acordo com PMPA, 2000, a taxa de natalidade no bairro Moinhos de Vento é de 8,3 contra 19,3 no bairro Rubem Berta, e o coeficiente de fertilidade é de 29,3 no bairro Moinhos de Vento contra 64,3 no bairro Rubem Berta)1. e) EDUCAÇÃO, CULTURA E DIVERSÃO: o bairro Rubem Berta se limita a oferecer o fundamental no que se refere à educação. Não há praticamente alternativas culturais e para a diversão dos moradores. Escolas e creches são as principais alternativas encontradas no bairro. Quanto à cultura, novamente as escolas são as únicas que a oferecem às crianças. Não há cinema, teatro ou exposições artísticas no bairro e sequer na região onde este se encontra. Nas entrevistas, ao serem citados cinema e teatro como exemplos de atividades culturais e educativas, houve a resposta de que seriam opções muito caras para o povo local. Também não há praças no bairro (invadidas por moradores). A AMORB é a grande responsável por ampliar o leque de atividades no bairro, disponibilizando oficina de leitura e escolinhas para a prática de esportes ao público infantil. Para ao adultos, parece haver apenas aulas de ginástica, além de oficinas visando a sua profissionalização. As principais atividades recreativas presentes no bairro ocorrem apenas três vezes ao ano, quando a AMORB organiza as três festas anuais do bairro: na Páscoa, no Dia das Crianças e no Natal. Um curso pré-vestibular gratuito também é oferecido (em parceria com o Diretório Central dos Estudantes das Faculdades Porto Alegrenses - FAPA) e o Projeto Escola Aberta (que ocorre na escola pública Grande Oriente) proporciona a utilização de sua estrutura para o lazer dos moradores. Já no bairro Moinhos de Vento a condição de acesso a opções educativas e culturais variadas é excelente, havendo muitas escolas de língua, música, cinemas, clubes, etc. f) MEIO-AMBIENTE: falta ao bairro Rubem Berta um trabalho de conscientização voltado a seus moradores. Apesar de uma das entrevistadas acreditar que a situação atual está melhor que há alguns anos (referente à capacitação “h) Outras Espécies”), outros dois entrevistados percebem pelas ruas do bairro muitos animais de rua, lixo e restos de construção. Nota-se assim, por meio destes dois últimos depoimentos, que estes entrevistados interpretam esse ambiente como hostil, na medida em que apresenta tipos diversos de poluição e, por mais que acreditem numa possibilidade de melhora para o bairro, não vêem grandes mudanças no presente. Algumas vilas do bairro ainda apresentam esgoto a céu aberto (que deveria ser preocupação da prefeitura municipal), o que além de atentar contra o meio-ambiente, também representa um perigo à saúde dos habitantes daquelas localidades. No geral, respeita-se à questão do meio ambiente no bairro Moinhos de Vento. Contudo, também há um problema de conscientização no bairro na medida em que falta o respeito ao próximo a muitos donos de animais de estimação, que os levam para passear deixando para trás, nas calçadas e nas praças, detritos que deveriam recolher para o bem de todos. Carroças puxadas a cavalo (carroças essas provenientes de forma do bairro) são um problema recorrente no bairro Moinhos de Vento, assim como em outras áreas de Porto Alegre. Os moradores dizem (no item “h) Capacitação: Outras Espécies”, referente à análise interpretativa no bairro Moinhos de Vento) que costumam presenciar maltrato aos animais, problemas relativos ao trânsito de veículos nas ruas e avenidas movimentadas, além de lixo espalhado em algumas calçadas. 6. Conclusões Os seis temas apresentados como resultado da pesquisa sintetizam as maiores preocupações dos moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento analisados em conjunto, existindo uma forte carência do bairro Rubem Berta no que se refere aos seis temas, e uma privação mais acentuada em relação a dois deles no bairro Moinhos de Vento: violência e meio-ambiente. 12 Não obstante a possibilidade de reelaboração de algumas questões para os bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento, no sentido de que o roteiro de entrevista fique mais sintético e as capacitações mais delimitadas (visto que percebem-se alguns temas abordados mais de uma vez, embora com sentidos um tanto diversos, como é o caso da saúde nas capacitações “a) Vida” e “b) Saúde Física”, e da violência nas capacitações “a) Vida” e “c) Integridade Física”), optou-se por sugerir a manutenção do roteiro original e da lista de capacitações de Nussbaum (2000) sem propor modificações a futuras pesquisas junto aos bairros supracitados. Apenas acredita-se que uma ampliação no campo de coleta dos dados, para além dos membros de associações de bairro no que se refere a algumas questões, já seria o suficiente para a captação de dados mais confiáveis e mais completos. Delimitando-se a quantidade das capacitações centrais de Nussbaum (2000), correr-se-ía o risco de desvirtuar o sentido de muitas delas, bem como das questões no roteiro de entrevistas, pois que a leitura das respostas realizada concomitantemente às capacitações apresenta um sentido mais claro. Ademais, circunstâncias as mais variadas podem fazer com que as questões que atualmente não parecem muito representativas dos bairros, tempos depois o sejam. Os resultados obtidos permitem afirmar que o acesso à qualidade de vida nos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento parece se dar por variadas capacitações, embora o acesso seja mais restrito no bairro Rubem Berta (no qual seis temas — saúde, violência, nutrição e habitação, planejamento familiar, e educação, cultura e diversão — mostraram-se num estágio preocupante) do que no bairro Moinhos de Vento (no qual dois temas — violência e meioambiente — são as mais inquietantes). Além disso, alguns temas mostraram-se relevantes para a análise conjunta dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento (aqueles ligados à violência e ao meio-ambiente). Um elemento que poderia ser questionado em relação a esse pressuposto se encontra na gravidade e na forma como cada um desses temas afetam as diferentes realidades dos bairros. Por outro lado, o próprio enfoque da capacitação tem a resposta para essa questão, na medida em que a capacitação de uma pessoa “consiste das combinações alternativas de funcionamentos cuja realização é factível para ela” (SEN, 2000, p. 95). Isto é, a forma como cada capacitação afeta as diferentes realidades dos bairros está intrinsecamente ligada ao próprio conceito de capacitação, onde se afirma que diferentes combinações de funcionamentos podem suprir as mesmas necessidades em diferentes sociedades (no presente caso, nos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento). Finalmente, as entrevistas coletadas serviram de subsídio a um melhor entendimento das realidades de ambos os bairros, o que difere radicalmente do modelo de pesquisa realizado por muitos dos órgãos de pesquisa brasileiros. Acredita-se, pois, que somados os dois tipos de dados, pôde-se chegar a conclusões mais profundas a respeito do acesso à qualidade de vida em cada um dos bairros. Realizou-se um esforço no sentido de operacionalizar a abordagem da capacitação por meio da lista de capacitações centrais de Nussbaum (2000), e acredita-se ter chegado a algumas conclusões interessantes a respeito do acesso à qualidade de vida dos moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento. Contudo, sugere-se para pesquisas futuras a ampliação do público pesquisado para além de membros de associações de bairros, bem como a ampliação das técnicas de pesquisa, principalmente no que diz respeito às capacitações ligadas à religiosidade (capacitação “d) Sentidos, Imaginação e Pensamento”) e à violência doméstica (capacitação “c) Integridade Física”), com vistas a obter melhores resultados, visto que não foi possível obter informações satisfatórias sobre os temas questionando apenas os membros das associações dos bairros. Ademais, é preciso salientar que a literatura que lida com o enfoque da capacitação é muito vasta, e de maneira alguma se pretendeu esgotá-la neste trabalho. De fato, foi feita uma escolha teórica na dissertação que deu origem a este artigo em relação a seguir genericamente a abordagem da capacitação de acordo com Sen e Nussbaum, e no que se refere às técnicas de investigação, a lista de capacitações centrais de Nussbaum 13 (2000) mostrou-se bastante presente, juntamente com o método comparativo e observacional assistemático, que compuseram a base da análise interpretativa do trabalho. Os resultados do trabalho apontam no sentido de que o método da análise interpretativa, assim como utilizado neste trabalho, pode ser muito útil como subsídio à elaboração e à avaliação de programas sociais. Somado às informações convencionalmente coletadas pelos institutos de pesquisa, acredita-se que poderia ser de grande apoio. Apesar das limitações referentes à operacionalização da abordagem — como a natureza contexto-dependente e multidimensional do enfoque, a falta de especificidade em relação às dimensões que deveriam ser abordadas e como se deveria fazê-lo, dentre outras (CHIAPPERO-MARTINETTI, 2004), chama-se a atenção para a extensão e os resultados de sua contribuição para este trabalho. Se por um lado as entrevistas impediram que se tivesse acesso a alguns dados, por outro lado abriram a possibilidade para se pesquisar mais profundamente questões específicas, muitas vezes percebidas somente no momento exato da entrevista, e pela própria atenção que alguns entrevistados colocaram sobre determinados tópicos. Entende-se que o mérito do presente trabalho consiste em fazer uso de uma estrutura razoavelmente simples como a lista de capacitações centrais de Nussbaum (2000), construir um roteiro de entrevista com base nessa lista e obter o máximo de informações junto aos habitantes dos bairros. Percebeu-se que os entrevistados e as visitas freqüentes a ambos os bairros proporcionaram um entendimento das regiões com dados tão ricos que não seria possível obter por meio de dados sintéticos obtidos por institutos de pesquisa simplesmente. Entende-se, dessa maneira, que fatores como o compartilhamento de preocupações referentes a algumas das capacitações abordadas nas entrevistas (preocupações relativas à violência e ao meio-ambiente) confirmam certa universalidade de valores presente no enfoque das capacitações. Isso porque, apesar das muitas diferenças de caráter socioeconômico e cultural externalizadas pelos moradores dos bairros Rubem Berta e Moinhos de Vento (analisadas por blocos temáticos ao longo da análise interpretativa), grande parte das questões elaboradas com base nas capacitações centrais de Nussbaum (2000) (as questões foram uma livre adaptação) foram tomadas como importantes para a qualidade de vida em ambos os bairros pesquisados, além das temáticas da violência e do meio-ambiente. Apesar da falta de acesso a muitas capacitações na região, o presente trabalho apresenta elementos que podem auxiliar o poder público (embora modestamente) na eleição das prioridades mais urgentes, visto que alguns entrevistados, inclusive, sugeriram atitudes a serem tomadas objetivando um possível controle da violência, por exemplo (com atividades extra-escolares para crianças e adolescentes, auxílio ao Projeto Escola Aberta, etc.). No bairro Moinhos de Vento, a grande prioridade é a questão da violência, seguida pelo meio-ambiente. Esta última, de mais fácil resolução, poderia inclusive ser objeto de uma parceria entre a prefeitura de Porto Alegre e a Moinhos Vive, objetivando a conscientização dos moradores. Apesar de haver estudado a contribuição da abordagem da capacitação para programas sociais, o presente trabalho defende que não só o governo seja atuante no sentido de realizar o bem-estar dos indivíduos (embora essa afirmativa em nada o exima de suas responsabilidades). Dada a situação de quebra do estado de bem-estar social em todo o mundo (SACHS, 2001), não só em países em desenvolvimento como também nos desenvolvidos, faz-se necessária uma maior conscientização e uma maior mobilização dos indivíduos em prol de seus próprios objetivos de vida. Nesse sentido, as associações de bairro escolhidas para o presente estudo representam bem esse papel. Referências 14 ALKIRE, Sabina. Dimensions of Human Development. World Development, v. 30, n. 2, 2002. p. 181-205 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2004a. ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2004b. CARVALHO, Vera Nanci Oliveira. História do bairro e parque Moinhos de Vento. Disponível em: http://www.fksistemas.hpg.ig.com.br/historiamoinhos.htm. Acesso em: 26 fev. 2006. CHIAPPERO-MARTINETTI, Enrica. Complexity and vagueness in the capability approach: strengths or weaknesses? The 4th International Conference on the Capability Approach. University of Pavia, 2004. Disponível em: http://cfs.unipv.it/opere/chiapper/vaghezza.pdf. Acesso em: 23 dez. 2005. COMIM, Flávio; BAGOLIN, Izete. Aspectos qualitativos da pobreza no Rio Grande do Sul. Ensaios FEE, v. 23, n. especial, 2002. p. 467 - 490 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Banco de Dados Agregados – Bairro Rubem Berta – Porto Alegre – RS. 2000. Disponível em: http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/territorio/unit.asp?codunit=26310&z=t&o=4&i=P. Acesso em: 23 jan. 2006. KUKLYS, Wiebke; ROBEYNS, Ingrid. Sen’s Capability Approach to Welfare Economics. Disponível em: https://papers.mpiew-jena.mpg.de/esi/discussionpapers/2004-03.pdf, 2004. Acesso em: 05 out. 2005. MATHAI, Manu V. Case studies: observations on operationalizing Sen’s capability approach. Disponível em: http://www.fas.harvard.edu/~freedoms/ca_manuscripts/ca_manuscripts_pdf/mathai_case_stud ies_070103.pdf, 2003. Acesso em: 05 nov. 2005. MUDANDO a Cara: Desenvolvimento Integral do Bairro Rubem Berta. Porto Alegre, 2005. Mimeo. NUSSBAUM, Martha. Women and equality: the capabilities approach. International Labour Review, v.138, n.3, 1999. p. 227-245 NUSSBAUM, Martha. Women and human development: the capabilities approach. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Lei Complementar nº 434/99. (Lei que institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental de Porto Alegre). 1999. Disponível em: http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/spm/usu_doc/pddua_com_alteracoes_de_2005 .pdf. Acesso em: 01 fev. 2006. 15 PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Relatório de Indicadores Sociais de Porto Alegre. Gabinete do Prefeito – Assessoria de Economia. Porto Alegre, ano III, 2000. PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Bairro Moinhos de Vento. 2004a. Disponível em: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/spm/default.php?reg=53&p_secao=43. Acesso em: 01 fev. 2006. PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Bairro Rubem Berta. 2004b. Disponível em: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/spm/default.php?reg=69&p_secao=43. Acesso em: 28 jan. 2006. PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Criação dos bairros (breve histórico). 2004c. Disponível em: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/spm/default.php?reg=2&p_secao=43. Acesso em: 28 jan. 2006. PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (PMPA). Situação Demográfica de Porto Alegre – Censos 1980/1991/2000. 2004d. Disponível em: http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/spm/usu_doc/censos_de_80_90_e_2000.pdf. Acesso em: 28 jan. 2006. ROBEYNS, Ingrid. An unworkable idea or a promising alternative? Sen’s capability approach reexamined. Center for Economic Studies. 2000. Discussion paper n.30. Disponível em: http://www.ingridrobeyns.nl/Downloads/unworkable.pdf. Acesso em: 21 out. 2005. ROBEYNS, Ingrid. The Capability Approach: a theoretical survey. Journal of Human Development, v.6, n.1, mar/2005. p. 93-114 SACHS, Ignacy. Repensando o crescimento econômico e o progresso social: o âmbito da política. In: ARBIX, Glauco; ZILBOVICIUS, Mauro; ABRAMOVAY, Ricardo (Orgs.) Razões e Ficções do Desenvolvimento. São Paulo: UNESP; Edusp, 2001. p. 155-163 SEN, Amartya. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. SEN, Amartya. Desigualdade Reexaminada. Rio de Janeiro: Record, 2001. SRINIVASAN, T. N. Human development: a new paradigm or reinvention of the wheel? The American Economic Review, v.84, n.2. 1994. p. 238-243 SUGDEN, Robert. Welfare, resources and capabilities: a review of Inequality Reexamined by Amartya Sen. Journal of Economic Literature, v.31, n.4, 1993. p. 1947–1962. Notas 16 1 Coeficiente de natalidade é o número de nascimentos por mil habitantes, enquanto que coeficiente de fertilidade é o número de nascimentos por mil mulheres em idade fértil (de 15 a 49 anos). Dados da Contagem da População realizada em 1996 (PMPA, 2000). 17