A VILA MARIA ZÉLIA: INTERESSES,
INTERESSADOS E PONTOS DE VISTA
DIVERGENTES SOBRE SUA CONSERVAÇÃO
Ronaldo da Mota Vieira (UNIFAI/FACEQ) *
Resumo
Entre as vilas operárias que surgiram no início do século XX, todas com interesse de
manter os funcionários mais próximo do trabalho, e por consequência, a disposição dos
empregadores, a Vila Maria Zélia no bairro do Belenzinho em São Paulo, se destaca
como modelo quase utópico, não fosse sua existência constatada e documentada,
mantendo-se historicamente como única representante de um modelo socialista e
ousado, defendido por seu idealizador e proprietário, Jorge Street, que revolucionou de
forma ímpar, o relacionamento entre empregado e empregador de tal forma que, ainda
hoje, moradores da Vila o defendem como um tipo de “santo” benfeitor sem igual na
história. Entretanto, precisam ser analisados, de forma imparcial, os interesses que vão
além do paternalismo de Street, que certamente tinha interesses que iam além do
simples desejo de uma melhor divisão do lucro em prol da qualidade de vida dos
operários ou idealisticamente, de fazer “justiça social”, o que ficou marcado na história
pessoal dos moradores e seus herdeiros, hoje divididos entre os que querem, apenas, a
reforma pura e simples de suas casas, e os que desejam a recuperação e restauração do
local.
Palavras-chave: Vila Maria Zélia. Bairros operários. Habitações populares.
Comunidades. São Paulo.
Introdução
A Vila Maria Zélia foi idealizada e construída na Década de 1910, pelo médico
carioca e industrial Jorge Street para servir como moradia dos operários da fábrica de
tecidos Companhia Nacional de Tecidos da Juta, de sua propriedade. Durante a
construção, Street procurou assegurar, toda infraestrutura necessária a uma vida em
*
Bacharel em Biblioteconomia pelo Centro Universitário Assunção (UNIFAI) com pós-graduação em
Gestão de patrimônio e cultura, poeta e autor de diversos livros. É responsável pela Biblioteca da
Faculdade Eça de Queirós – FACEQ.
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comunidade. Em decorrência das dívidas acumuladas, Jorge Street vendeu o seu
patrimônio à família Scarpa, que revendeu à família Guinle, e que foi finalmente
adquirido em parte pela Goodyear, responsável pela demolição da creche, coreto e
dezoito casas, incorporando-os à fábrica no ano de 1939.
Em 1969, as casas foram vendidas pelo sistema financeiro da habitação a seus
moradores, e em 1970, deixou de ser uma vila particular para se transformar em
logradouro público, que desde então vive um complexo dilema sobre sua preservação, e
apesar de ser tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio
Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) e pelo Conselho
de
Defesa
do
Patrimônio
Histórico,
Arqueológico,
Artístico
e
Turístico
(CONDEPHAAT), sofre com o embate entre interesses, interessados e pontos de vista
divergentes, não só de órgãos governamentais, como também dos próprios moradores,
divididos sobre qual finalidade dar à Vila Maria Zélia, que antes de qualquer
consideração, certamente é o único patrimônio com suas características.
Pequeno Histórico Da Vila Maria Zélia
Por volta de 1912, o médico Jorge Street, buscou na Europa um arquiteto capaz
de construir instalações dignas e compatíveis com seu ideal de justiça social. A escolha
foi o francês Paul Pedraurrieux. Inspirado nas construções de vilas europeias das
primeiras décadas do século 20, que contemplavam além do plano de ruas, casas,
escolas, e estabelecimentos comerciais, começa a construção da Vila Maria Zélia,
inaugurada em 1917, para ser utilizada como moradia dos 2500 funcionários da
tecelagem Companhia Nacional de Tecidos da Juta, no Belenzinho, com sede na Rua
Gabriel Piza, em Santana.
Foram construídos, dois armazéns, duas escolas (meninos e meninas separados),
uma capela, um coreto, uma praça, um campo de futebol, um salão de festas e
ambulatórios e consultórios médicos (NASCIMENTO, 2012). Em 1924 Jorge Street
decidiu vender a vila e a fábrica para o pagamento de dívidas, que foi comprado pela
família Scarpa que mudou o nome do local para Vila Scarpa.
Em 1929, com a crise financeira mundial, a família Scarpa sofre com
dificuldades para pagar algumas hipotecas, e assim, vende a vila ao Grupo Guinle, que
reestabelece o nome original Vila Maria Zélia. Nos anos 30, devido a débitos fiscais
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com o Governo Federal a vila e a fábrica são confiscadas pelo Instituto de
Aposentadorias e Pensões dos Industriários (antigo IAPI, atual Instituto Nacional do
Seguro Social – INSS).
Em 1931, a fábrica é desativada, permanecendo fechada até 1939, reaberta como
Goodyear. Em 1936, a vila foi transformada em presídio político durante o Estado Novo
e ficou ativo por cerca de um ano, desativado no final de 1937. A partir de 1939 os
moradores da vila começaram a pagar aluguel ao IAPI até o ano de 1968, quando,
finalmente, foram autorizados a comprar os imóveis em que moravam, por meio do
sistema do Banco Nacional de Habitação (BNH), órgão extinto em 1986.
A Vila Zélia foi palco de várias produções artísticas. Em 1959, cedeu seu espaço
ao filme “Ravina" com Eliana Lage. Em 1966, nela foi filmado o 19º filme do
Mazzaropi, “O corintiano”, dirigido por Milton Amaral. Em 1987, "No País dos
Tenentes" e, mais recentemente, a Vila Zélia ambientou as filmagens da nova versão da
novela “Carrossel”.
Em 09 de Dezembro de 1992, os órgãos de preservação em nível Estadual CONPRESP, e Municipal - CONDEPHAAT, optaram pelo tombamento da vila, em três
níveis, englobando o traçado urbano, o conjunto de casas e vegetação de porte arbóreo.
As escolas e os armazéns permaneceram abandonados desde que se tornaram
propriedade federal, e ainda hoje é propriedade do INSS. A capela é administrada pela
Paróquia de São José do Belém (DELMO, 2013).
O nome Maria Zélia
O nome da Vila foi dado em homenagem à filha de Jorge Street, que nasceu em
março de 1899, e faleceu em 12 de setembro de 1915, quando a Vila ainda estava sendo
construída. Maria Zélia foi sepultada no túmulo da família localizado no Cemitério da
Consolação.
Maria Zélia Street aos 15 anos de idade – Fonte: http://www.saopauloantiga.com.br/vilamariazelia/ 2013.
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Tombamento da Vila Maria Zélia
Localização: Rua Cachoeira, s/n - Belenzinho
Número do Processo: 24268/85
Resolução de Tombamento: Resolução 43 de 18/12/1992
Publicação do Diário Oficial Poder Executivo, Seção I, 19.12.1982, p. 25
Livro do Tombo Histórico: inscrição nº 305, p. 77, 28.maio.1983
Fonte: Prefeitura do Município de São Paulo, 2013.
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O Presídio Maria Zélia
Em 1936, a antiga Companhia Nacional de Tecidos da Juta, fechada desde 1931,
foi utilizada como Presídio Político pelo Estado Novo até o final de 1937, abrigando
nesse período, cerca de 700 presos como: Caio Prado Jr., Quirino Pucca, Abdon Prado
Lima, Fúlvio Abramo, Paulo Emilio Salles Gomes entre outros, o que fez com que
apelidassem o presídio como "Universidade Maria Zélia", obviamente devido a grande
quantidade de intelectuais, catedráticos e historiadores detidos no local.
O que se alega para a não liberação da verba para restauração da Vila Maria Zélia
Teoricamente a Vila Maria Zélia deveria estar em processo de restauração
realizado pelos poderes públicos. Quatro imóveis pertencentes ao INSS foram doados à
Prefeitura Municipal de São Paulo. No projeto, os imóveis deverão ser devolvidos à
comunidade, em forma de escolas técnicas, oficinas de arte e um museu. O projeto bate
de frente com a reação de parte da comunidade dividida entre a preservação desse
espaço histórico/urbano de um passado do qual se orgulham e dos que visam a
valorização imobiliária.
Para se ter uma ideia da morosidade e descaso dos órgãos públicos, em 25 de
agosto de 2006, foi assinado um termo de compromisso entre o INSS e a Prefeitura,
sendo uma das obrigações a restauração das construções e a preservação do patrimônio.
O prazo venceu em 2011, e até o momento (novembro de 2013), os prédios não
receberam qualquer revitalização, excetuando-se a troca do telhado do prédio
"multiuso", que abrigou uma loja de chapéus e calçados e um restaurante, entre outros.
"Na época, fiquei animado, até o cortei o cabelo", conta Edélcio Pereira Pinto, 62, o seu
Dedé, zelador voluntário da vila. Ele havia prometido que tiraria o rabo-de-cavalo assim
que as obras começassem. "Mas, olha, segue na mesma. Desanimei" (ROSSI, 2011).
Restauração da Capela Da Vila Maria Zélia
Segundo Martellota (2013), a primeira etapa para a reforma da Capela da Vila
Maria Zélia estava prevista para iniciar no mês de outubro de 2013, e que o projeto
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precisaria ainda ser aprovado pelo CONDEPHAAT e pelo CONPRESP, o que deverá
acontecer até meados de abril de 2014.
As obras inicialmente orçadas parcialmente em R$ 2,5 milhões, agora têm uma
previsão para ficar em torno de R$ 5 milhões. Foi contratada a empresa Formart
Arquitetura para a execução do projeto que envolve, numa segunda etapa, a captação de
recursos, por meio do Ministério da Cultura (Lei de Incentivo à Cultura, conhecida
como Lei Rouanet) ou por meio de empresas particulares, com prazo final para o
término da reforma em outubro de 2016.
O verdadeiro valor do operário
Os migrantes só têm valor devido à sua mão de obra, ou seja, seu trabalho, caso
contrário seriam intrusos não bem vindos. Nesse aspecto, Teixeira (2009, p.1) esclarece
que “as famílias mais numerosas e que contribuíam com maior número de operários,
moravam nas casas maiores, assim como os administradores.” Os solteiros viviam em
um prédio em comum, destinado a eles, e apesar da boa qualidade das habitações, o
aluguel era descontado em folha de pagamento, assim como as taxas cobradas pelo uso
de água e eletricidade.
Apesar do reconhecimento pelos benefícios aos trabalhadores, numa época em
que não havia direitos trabalhistas, fica explícita a intenção de manter os funcionários à
disposição da empresa, de forma quase que incondicional, já que tais benefícios eram
exclusivos dos que trabalhavam para a tecelagem Companhia Nacional de Tecidos de
Juta.
Do ponto de vista patronal, Jorge Street procurava passar para os operários a
ideia de que formavam uma grande família e consideravam a fábrica como um bem
comum. As concessões feitas influenciavam os trabalhadores e suas famílias, inibindo
sua livre manifestação política por sentirem-se privilegiados em relação aos demais
operários, numa época de avanço do movimento operário e de fortes embates entre o
capital e o trabalho.
Para os trabalhadores, não havia direitos trabalhistas como contrato de trabalho
escrito (mas apenas verbal), adicional noturno, descanso remunerado, licença saúde,
seguro acidente de trabalho, proteção da mão de obra feminina ou do menor, nem férias.
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Contextualização histórica do problema de mão de obra e seu relacionamento com
as vilas operárias
Com a abolição da escravidão e a industrialização, acentuou-se o problema da
mão de obra, quando a indústria gerou o chamado trabalhador fabril ou operário. O forte
impulso no crescimento das culturas urbanas inaugura uma nova era de produção que
durante o período colonial e imperial era mantido pelo serviço escravo. A troca do
escravo pelo assalariado permitiu que São Paulo sofresse menos que as outras
províncias a crise provocada pela abolição da escravidão. Porém, com a demanda de
operários surgiram problemas de habitação e serviços básicos, levando os paulistanos a
morar em cortiços, que absorviam metade do salário do trabalhador. Na tentativa de
solucionar o problema de habitação e da mão de obra, alguns industriais iniciavam a
construção de vilas operárias junto às fábricas. Eram habitações em série, casas
pequenas e modestas, sem jardim, ou nos fundos dos terrenos.
Em sentido contrário, Jorge Street, pensava na obra voltada para o futuro,
pensava na criança em seu ensino profissional, tirando-a do perigo da delinquência e
formando mão de obra qualificada: “A criança abandonada e desamparada constitui um
grande perigo de se transformar em breve em uma criança delinquente. A oficina é
preferível à rua” (STREET, 1917 apud TEIXEIRA, 1990, p. 4).
A Vila e seus moradores ilustres
Em 1932, a escritora e jornalista Patrícia Galvão, Pagu (1910-1962), seguindo
orientação do Partido Comunista muda-se para a vila operária Maria Zélia, e se dedica a
vários trabalhos e ofícios como o de tecelã. O jornalista Octávio Frias de Oliveira da
Folha de São Paulo, também morou na Vila, dos cinco aos dezessete anos. Outra figura
ilustre que morou no local foi o artista Amácio Mazzaropi, dos três aos doze anos
(MARTELLOTTA, 2013).
As verdadeiras intenções ou desejos
Inicialmente, os moradores faziam tudo na Vila, um tipo de grupo fechado,
como se estivessem numa redoma, fora da realidade de outros bairros operários. O
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armazém que lhes servia, vendia tudo com subsídio de 50%. De certa forma, havia um
controle sobre as vidas dos operários e por viverem na Vila e terem tudo o que
necessitavam no mesmo local, permaneciam sempre à disposição do patrão, que fazia
certo tipo de controle permissivo.
Teixeira (1990, p. 86) resgata o rico depoimento de Dona Cínta Ramos
Amantero, moradora da Vila, sobre sua vida e dos operários da fábrica: “Minha mãe
veio aqui na vila e conversou com o Prefeito... tinha bastante gente para trabalhar eram
sete filhos...” Dona Cínta iniciou seu trabalho na fábrica aos dez anos de idade, como
criança operária, mas não reclamava. Ao contrário, enaltecia o tratamento dado às
crianças na fábrica: “Tempo antigo foi muito judiado... noutras fabricas, fora daqui, da
Maria Zélia foi também...” (Ibidem, p. 86). Da mesma forma, Dona Conceição,
moradora da Vila afirma que “Quando não ganhava bem num emprego eu ia para outro.
Naquele tempo não tinha importância, a gente pulava, pulava”.
A Sociedade Amigos da Vila Maria Zélia (SAVMZ) foi fundada em 1917. De lá
até os dias atuais, muita coisa mudou. O primeiro site oficial da Vila Maria Zélia faz a
seguinte campanha: “Pecisamos melhorar nossa arrecadação! Contribuam com a
SAVMZ! Ajude a melhorar sua qualidade de vida!”
Entre os moradores da Vila existe uma divisão de interesses: há os que desejam
a reforma pura e simples de suas moradias e os que desejam a restauração de toda a Vila
como monumento histórico. Os mandos e desmandos do governo não visam a
restauração e a conservação, talvez movidos por forças externas como especulação
imobiliária, interesses políticos, dentre outros motivos.
Considerações finais
Atualmente, a grande atração da Vila Maria Zélia é sua arquitetura, que preserva
as linhas baseadas nas cidades europeias. Além disso, ressalta-se e sua importância
histórica, como única vila operária com tais características. De um total de 220 casas,
sobraram 171 com tamanhos, divisões e fachadas diferentes das originais, além da
igreja e prédios que abrigavam as escolas e o comércio da época.
Em Dezembro
de 1992, os órgãos de preservação
CONPRESP
e
CONDEPHAAT tombaram a Vila Maria Zélia em três níveis, englobando o traçado
urbano, conjunto de casas e vegetação de porte arbóreo. Porém, políticas, desejos e
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interesses divergentes impedem que sua restauração seja iniciada, e com isso, a Vila
resiste. No entanto, os sinais graves de degradação estão por toda parte, sendo que a
sociedade e governo assistem a mais um patrimônio histórico, entre muitos outros,
sendo apagado da memória da cidade e do país, o que vai à contramão do que Rossi
(2001) afirma sobre a história e memória coletiva, como fato material construído no
tempo, que com seus vestígios são o texto da história.
O polêmico Jorge Street provavelmente não previu que sua criação resistiria ao
longo do tempo como algo sui-generis e que a Vila Maria Zélia seria motivo para
muitas polêmicas, mesmo que agonizante. A ousadia e visão futurista de Street sobre o
relacionamento patrão-empregado foi o combustível para a idealização da Vila, e talvez
por isso, ainda hoje, seja visto por muitos moradores do local como um pai; ou por
industriais da época como um sonhador, um “poeta” e pelo sindicato da época,
responsável pelo movimento operário, como um “hipócrita”, que apesar de tudo e de
todos, contribuiu para a melhoria da qualidade de vida de seus operários por meio da
construção da tão controversa Vila Maria Zélia, dividindo opiniões dos moradores
atuais entre sua preservação ou derrubada total, para dar espaço a moradias modernas e
confortáveis. Assim, defendemos o ponto de vista de Choay (2001, p. 213) de que
“conservação e restauração: são estes os fundamentos de toda valorização.” Contudo, e
apesar das contradições, a maioria ainda vê o local como lugar tranquilo para os antigos
operário-moradores.
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