PESQUISAS / RESEARCH / INVESTIGACIÓN
O convívio social dos moradores das residências terapêuticas do
município de Teresina – Piauí: realidades e desafios
The social living of the residents of therapeutics residentials of Teresina-Piauí municipality: reality and
challenges
El convivio social de los moradores de las residencias terapeuticas del municipio de Teresina – Piauí:
realidades y desafios
Francisca Zenaide Fernandes Oliveira
Nascimento
Enfermeira. Especialista em Saúde Pública.
Especialista em Saúde da Família em Atenção Básica.
Especialista em Enfermagem do Trabalho. Docente
em escola pública de Ensino Médio.
Márcia Astrês Fernandes
Enfermeira. Graduada em Farmácia. Professora
Mestre. Docente da Universidade Federal do Piauí do
Curso de Enfermagem da Disciplina Saúde Mental.
Docente da Faculdade de Saúde, Ciências Humanas
e Tecnológicas do Piauí – NOVAFAPI das Disciplinas
Saúde Mental e Psiquiatria.
Diretora do Hospital Areolino de Abreu.
Joana Maria da Conceição Leite
Enfermeira do Hospital Getúlio Vargas. Especialista
em Saúde Pública.
RESUMO
Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa e tem como objetivos descrever o convívio
social dos moradores das residências terapêuticas em Teresina - PI, as realidades e desafios presentes
no processo de ressocialização e analisar o convívio social dos mesmos na sociedade. Foram entrevistados sete moradores das três residências e seis membros da equipe multidisciplinar. Na análise
de dados, a partir da apreensão dos significados das falas dos sujeitos do estudo, foram classificadas
em três categorias. Constatou-se que o espaço oferece meios para a autonomia dos sujeitos, mas
que o preconceito social ainda é muito forte na sociedade.
Descritores: Saúde mental. Transtornos mentais. Enfermagem.
ABSTRACT
This is a research with qualitative approach and have as objectives the social company of inhabitant
of the therapeutics houses in Teresina – PI, the realities and challenges presents in the process of resocialization and analyze of social company about the same at society. Were interviewed seven inhabitant of three houses and six members of multidisciplinary staff. At the analyze of given according
to, apprehension of means subject talker of study, were classificated in three classes. Was seen that
the space offer means for autonomy of persons, but that social prejudice is very strong at society.
Descriptors: Mental health. Mental disorders. Nursing.
RESUMEN
Trata-se de uma pesquisa com abordajen cualitativa y tiene como objetivos describir el convívio
social de los moradores de las residencias terapeuticas em Teresina – PI: las realidades y desafíos presentes en el proceso de la resocialización y analisar lo convívio social de los mismos em la sociedad.
Fueron entrevistados siete moradores de las tres residencias y seis miembros del equipo multidiciplinario. En el análisi de datos, a partir de la aprensión de los significados de las hablas de los sujetos
del estudio, fuerón clasificados em tres categorías. Se constatou que el espacio ofrece medios para la
autonomía de los sujetos pero que el preconcepto social es aún muy fuerte em la sociedad.
Descriptores: Salud mental. Trastornos mentales. Enfermería.
1INTRODUÇÃO
Submissão: 06/01/2010
Aprovação: 08/04/2010
O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) ou simplesmente Residência Terapêutica (RT) são
casas localizadas no espaço urbano constituídas para responder às necessidades de moradia de
pessoas portadoras de transtornos mentais graves, institucionalizadas ou não. Configuram-se como
dispositivos substitutivos ao hospital psiquiátrico, fazendo parte da política de desinstitucionalização, fruto do avanço da Reforma Psiquiátrica (BRASIL, 2004).
Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.3, n.3, p.17-20, Jul-Ago-Set. 2010.
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Nascimento, F. Z. F. O. C. ; Fernandes, M. A. ; Leite, J. M. C.
A Reforma Psiquiátrica surgiu como um pleito permanente de
construção de reflexões e transformações que ocorrem a um só tempo
nos âmbitos assistenciais, culturais e conceituais. O processo de desinstitucionalização objetiva dar um novo rumo às relações que se estabelecem
com a loucura, construindo com ela um novo elo que vise à coexistência,
a troca, a solidariedade e os cuidados necessários (AMARANTE, 1997).
No início dos anos noventa, surgiram no Brasil, iniciativas pioneiras de residências terapêuticas. Modelo voltado para a reinserção dos
internos de longa data e sem vínculos familiares na sociedade e no espaço
urbano. O termo Serviço Residencial Terapêutico (SRT), foi oficialmente
nomeado pelo Ministério da Saúde em 2000, com o advento das Portarias
106 e 1.220 que tratam da organização, funcionamento e financiamento
das residências (FURTADO, 2006).
Os beneficiados com o programa são os portadores de transtornos mentais de longa data de internação, sem vínculo familiar, egressos
de internação de hospital de custódia e em tratamento psiquiátrico, de
acordo com decisão judicial; pessoas em acompanhamento nos Centros
de Atenção Psicossocial (CAPS), em referência pela equipe e de forma
estratégica do projeto terapêutico; moradores de rua com transtornos
mentais severos depois de inseridos em projetos terapêuticos especiais e
acompanhados nos CAPS (BRASIL, 2004).
O Piauí deu um passo importante no que diz respeito à implementação da Reforma Psiquiátrica no estado quando implantou em
março de 2006 o SRT, no total de três residências, todas em Teresina, efetivando a desinstitucionalização de dezoito pacientes com transtorno mental que há longo tempo viviam internados no Hospital Areolino de Abreu
(HAA).
A equipe multidisciplinar é composta de dois cuidadores em
cada residência, em regime diário: um durante o dia e um durante a noite, de forma que os moradores são assistidos vinte e quatro horas, uma
coordenadora para cada residência e um gerente do programa de saúde
mental do estado. Os moradores recebem auxílio advindo do programa
“de volta para casa” de duzentos e quarenta reais por mês. Há um convênio/parceria com os CAPS para que os mesmos sejam acompanhados
regularmente por equipe multidisciplinar.
Diante desse este estudo objetiva analisar o convívio social dos
moradores das residências terapêuticas do município de Teresina – PI.
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METODOLOGIA
Trata-se de um trabalho com abordagem qualitativa. A abordagem
qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações,
crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo
das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 1993). O tipo de pesquisa
adotado foi a pesquisa de campo, caracterizada como exploratória.
No âmbito deste estudo, foram considerados como sujeitos para
participarem do estudo os próprios moradores, os cuidadores e as coordenadoras. Dentre os quais participaram ativamente das entrevistas sete
moradores de ambos os sexos e idades de 32 a 72 anos e seis membros da
equipe multidisciplinar, do sexo feminino, dispostos nas três residências
existentes na cidade.
A técnica utilizada foi a da entrevista semi-estruturada, do tipo
aberta, estimulando a conversação em que, a partir da fala do entrevistado, formulou-se novas perguntas de modo a obter informações que não
constam na entrevista.
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A coleta dos dados aconteceu nas dependências das residências nos meses de fevereiro e março de 2008, após visitas às casas e testes
pilotos. A análise de dados foi de acordo com os propósitos de teoria de
Bardin (BARDIN, 2004).
A pesquisa respeitou os critérios pertinentes às pesquisas que
envolvem seres humanos, como os termos de consentimento livre e esclarecido dos sujeitos a fim de preservar a identidade dos sujeitos obedecendo às diretrizes referentes à resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996 do
Conselho Nacional de Saúde. Dessa forma, os nomes dados aos depoentes
são fictícios.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados estão expressos através de categorias temáticas, tais
como: o convívio na residência terapêutica contribui para a auto-estima
positiva; habitar na residência terapêutica desperta preconceito social; o
desafio de enfrentar a liberdade.
O convívio na residência terapêutica contribui para a auto-estima positiva
Nessa categoria, discute-se os relatos de fatos ocorridos antes
e após a inserção na residência terapêutica, o dia-a-dia, experiências, atividades dentro da casa e fora dela, narrados pelos sujeitos.
Ao indagar aos sujeitos sobre a realidade do convívio atual,
observou-se que a maioria deles comenta, de forma satisfeita, a alegria de
estarem num ambiente familiar, fazendo comparações entre o ambiente
hospitalar e a residência terapêutica, conforme foi ressaltado nestas falas:
Minha vida mudou, mudou muito, entendeu? Mudou da água para o vinho,
porque lá a vida era outra, eu me sentia lá no fundo do poço, eu bebia, eu
usava droga, eu era alcoólatra [...] a vida é outra porque eu tenho liberdade
da casa de sair, eu fico no CAPS...o que eu mais gosto de fazer é aguar planta...plantar uma planta, ajeitar uma planta, fazer uma planta renascer (José
- morador).
Melhorou mais a minha vida porque...eu não posso ver tristeza dentro do
meu coração. Aturei muito. Deus matou a tristeza dentro do meu coração.
Aqui a tristeza não pode ficar dentro do meu coração (Luís - morador).
Aqui, a realidade da auto-estima positiva no convívio social foi empregada como categoria para melhor direcionar o contexto das realidades
captadas dos moradores. O tema auto-estima é justificado pela necessidade de um enfoque científico, sendo deixado de lado o teor popularizado
por livros de auto-ajuda.
A auto-estima é sentimento de amor-próprio, a aceitação do “eu”,
com as limitações, erros e acertos, qualidades e defeitos, valorizando e
satisfazendo as vontades dela própria. E isto é a avaliação positiva ou negativa que cada um faz de si mesmo e não o que os outros pensam, o que
contribui fundamentalmente para um desenvolvimento saudável do ser
humano (BRANDEN, 2001).
É através de atividades que as pessoas se sentem autônomas,
quando é despertada a auto-estima, o convencimento de ser útil na sociedade. Nos relatos seguintes é observado:
Gosto do meu colégio, estudo à noite, o lazer que eu tenho mesmo é o colégio e minha Legião de Maria, que eu freqüento...faço tapete também, faço
tapete (Luzia - moradora).
Estudo, faço a 3ª com a 4ªséries. Eu participo da terapia ocupacional, sabe, no
CAPS. Lá tem um curso de fazer papel...na TO tem um bocado de coisa para
fazer, pintura... (Mateus - morador).
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O convívio social dos moradores das residências terapêuticas do município de Teresina – Piauí: realidades e desafios
Eu gosto de fazer crochê, pintura, lá no CAPS, lá eu faço pintura de bichinho,
passarinho, também brinco, danço, desenho, só não pode levar pra casa [...]
Aqui em casa eu acho interessante, cada um faz uma coisa que gosta: eu gosto de lavar, lavo pano de prato, boto de molho [...] As coordenadoras eu acho
muito legais, eu vou passear com ela na igreja... (Constância - moradora).
Um indivíduo com uma boa auto-estima é um indivíduo socialmente competente, o que facilita seu convívio com as dificuldades e obstáculos que podem encontrar e as habilidades sociais de cada um podem
ser consideradas importantíssimas para o desenvolvimento sócio-emocional e no controle de ajustamento na comunidade (DE LUCCA, 2008).
Habitar na residência terapêutica desperta preconceito social
Um aspecto marcante que apareceu nos relatos dos sujeitos foi o
preconceito social. A discriminação e o preconceito é uma realidade abordada pelos que padecem de transtorno mental.
Tem esse velho que chegou agora..(refere a um vizinho). A dona Marta disse
que não é para dar muita atenção, não é para brigar. Fica jogando piada na
gente (Luzia - moradora).
Eu gosto daqui porque todo mundo tem respeito e educação. Todo mundo
aqui tem. Mas quando nós vamos passear, todo mundo olha feio para nós,
tem medo de nós, nem fala, não tem educação nem respeito (Luís - morador).
Pensar em direitos humanos em saúde mental é pensar na integralidade da atenção, na necessária articulação entre as políticas setoriais e
na luta permanente dos agentes sociais contra a violação aos direitos mais
importantes dos cidadãos. Assim, se os direitos humanos agregam direitos
e valores universais, nenhuma pessoa pode ser excluída desse respeito, e
toda exclusão social é negação do ser humano (DALLAI, 2000). O mito da
incapacidade é aquele que mais contribui para a marginalização e exclusão das pessoas com perturbações mentais. A idéia de que essas pessoas
não são capazes de trabalhar, de assumir responsabilidades, de provir o
seu sustento, de educar os filhos, de tomar decisões, está muito difundida.
Acrescente a isto o fato de alguns moradores serem idosos, que também é
outro agravante para o preconceito social.
Tenho vontade de trabalhar como vendedora, no supermercado, empacotar
compras. Procurei uma vez com a cuidadora (...) mas eu não consegui nada.
Eu tenho capacidade para trabalhar, só que é difícil arranjar alguma coisa.
Acho que as pessoas não acreditam em mim, mas eu sei fazer muita coisa, eu
estudei, meus diplomas que ficaram no Rio (Teresa - moradora).
Aqui se abre uma reflexão acerca do exercício da cidadania, da autonomia destes indivíduos considerados “desprovidos de razão” porque
diante da sociedade, eles se apresentam com direitos iguais a concorrer
no mercado de trabalho, mas que, na realidade, essa é uma afirmação,
pelo que foi visto no relato da moradora, da impossibilidade de uma cidadania pelo trabalho numa sociedade marcada pelas desigualdades sociais.
[...] A sociedade não fala muito com eles, só o homem da quitanda que fala,
mas os outros ignoram (Idalina - cuidadora).
Eles são discriminados nos ônibus, onde eles andam [...] Eu fico sentido com
isso porque lá no hospital eu vivia preso, era agarrado ao tratamento, como os
outros...vamos dizer que eles são doentes mentais e são limitados, é...eles tem
limites, não têm acesso de sair, mas não precisava as pessoas discriminarem,
está certo que são diferentes... (José - morador).
A perspectiva de cidadania como sinônimo de igualdade e liberdade apresenta equívocos. A exclusão dos sujeitos pela sociedade no
caso está muito mais referendada e mais eficaz do que muros e grades
Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.3, n.3, p.17-20, Jul-Ago-Set. 2010.
fisicamente edificados no convívio asilar. A igualdade pode ser identificada como injusta, porque não é o caso de tratar todos igualmente e sim
identificar e respeitar as diferenças (BEZERRA, 1994).
A maioria do pessoal desconhece a existência das residências terapêuticas,
dos moradores, acho que a comunidade não tem idéia da doença dos moradores, porque se soubessem eu acho que eles iriam entender, não iriam
discriminar tanto como eles discriminam. A gente vê como eles são preconceituosos [...] quando não ignoram, aparecem com aquela cara de pena e
medo...(Dolores - cuidadora).
Aqui, observa-se claramente que a comunidade não está preparada para o acolhimento de pessoas com transtornos mentais. Há um nítido
desconhecimento no que se refere ao programa de serviço residencial
terapêutico.
O desafio de enfrentar a liberdade
A liberdade, a vontade de alçar vôo, foi relatada, expressada por
todos os sujeitos entrevistados, de formas diferenciadas. Através das falas,
expressões, percebeu-se a afirmação da responsabilidade de cada um pela
sua própria existência. Assim relatam os moradores:
O meu maior sonho é ser professor (Mateus - morador).
Eu me sinto bem, é como se estivesse com a família. Eu queria muito achar a
família, mas do jeito que está também é bom, as cuidadoras são boas, gostam
de mim, levam pra passear, dão o remédio, recebemos visitas [...] Tenho o
sonho de ser cantor (Deoclécio - morador).
A liberdade está implícita quando se aceita as realidades, não por
cega necessidade, e sim por opção. Isto expressa que a aceitação de limitações não precisa ser uma “rendição”, mas pode e deve ser uma ação livre
e construtiva ( MAY,2005).
Pode ser possível concretizar alguns sonhos porque o homem é um
ser de possibilidades e principalmente quando se tem do seu lado fatores
predisponentes agregantes como auto-estima positiva, autonomia, liberdade, ele pode internalizar um sentimento de vitória, de conquista, que
alimenta dia a dia, atribuindo sentido, direcionando a intenção e forma de
agir até torná-lo real (FREITAS, 2004).
A liberdade não chega de repente, de forma inesperada, ela é conquistada, ela chega com a decisão de aceitar o fato de a pessoa ser ela
mesma, aceitar o fato de que cada um deve fazer suas próprias opções
fundamentais. Nas residências foi observado, através do relato de Luzia:
Hoje em dia tenho meu quarto, minha cama, durmo na hora que quero, acordo na hora que quero, tenho tudo do bom e do melhor, comida no tempo
e na hora (...) cada um tem a sua parte. Eu faço o cuscuz de manhã, beiju
pra eles, vou fazer meu tapete, outro lava louça, passa pano na casa, todos
ajudam, lavam banheiro, ágüam plantas... (Luzia - moradora).
Nesse depoimento, observa-se que os moradores sentem-se como
parte de uma família, na residência, em que as atividades domésticas são
divididas, escolhidas. Eles sentem-se responsáveis pelo que fazem, demonstram prazer nas atividades exercidas. As atividades não são impostas.
Fazem somente o que gostam.
Meu maior sonho...ter uma casinha, uma areazinha no quintal e viver minha
vida particular, com liberdade, assim por conta própria, só, entendeu, poderia
até conseguir uma mulher que [...] poderia até formar uma família, uma mulher pra ajudar...trabalhar...criar porco, galinha... (José - morador).
Então, é no “lar” que os moradores entendem o que é liberdade,
o que é construir autonomia, fazer opções, escolhas como que roupa irá
vestir, o horário de acordar e dormir. Experimentam a sensação de ser um
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Nascimento, F. Z. F. O. C. ; Fernandes, M. A. ; Leite, J. M. C.
cidadão, de ser escutado, respeitado. As RT’s são dispositivos importantes no processo de reforma psiquiátrica e de inserção dos portadores de
transtornos mentais na vida extramanicomial. Utiliza o espaço público e a
cidade para concretizar ações que visam à circulação do usuário na cotidianidade quando investe em estratégias de enlace social.
Eles passeiam, vão sempre ao shopping, quando tem festa de aniversário,
uma vez por mês, duas vezes, eles se divertem, é assim [...] no carnaval, eles
vão todos, dançam, se divertem (Dolores - cuidadora).
A realidade da equipe é nos reportarmos ao passado e perceber que é possível resgatar a cidadania de alguém com transtorno mental, abandonado
por seus familiares em hospitais psiquiátricos. Desafios é nunca perder a esperança, é acreditar no ser humano de boa vontade que teve a idéia de tocar
este projeto de “Residências Terapêuticas” para acolher pessoas que apesar de
diferentes, são pessoas, gente, que merecem todo o nosso respeito (Marta coordenadora).
A realidade para nós é também a gratificante verificação da evolução de suas
atitudes e potencialidades (Sônia – coordenadora).
Para nós, são desafios: inclusão dos moradores no mercado formal de trabalho (Ana - coordenadora).
Os sujeitos apresentaram expectativas de futuro, entraves, ânsias,
sentimentos de rejeição por parte da sociedade, valorização pessoal,
união, companheirismo, todos de acordo com as suas realidades e verdades.
A realidade é que eles se encontram adaptados em vista do que eram, quando chegaram aqui. São outras pessoas, mudaram 100%, só alguns que a mudança fica em 50%, mas é uma minoria, são os moradores com transtornos
mentais considerados graves. (Celeste - cuidadora).
Observa-se que este modelo de desinstitucionalização, que são as
residências terapêuticas tem, sem dúvida, mais potencial de desconstruir a
lógica manicomial, é uma das grandes ações quando se pensa em reforma
psiquiátrica, mas adentrando-se na lógica de Santos (SANTOS, 2001) que,
para pensar em reforma psiquiátrica como movimento social, as formas de
opressão e de exclusão, tão abolidas no processo de luta, não são extintas com meia concessão de direitos, observados como fator de cidadania,
mas exige-se um novo olhar, maior divulgação, aumento da rede de serviços, desligar da rota da sociabilidade capitalista e provocar novos conceitos de socialização em que cabe a inclusão trabalhista dos portadores
de transtornos mentais para, assim, eles sentirem na pele a realização dos
sonhos como quaisquer cidadãos comuns.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos dados apontou para uma riqueza de informações que
podem contribuir para reflexão e formulação de estratégias e experiências
no enfrentamento ao modelo psiquiátrico tradicional.
Vale salientar que o atual Programa de Serviço de Residência Terapêutica de Teresina permite aos pacientes um equilíbrio de saúde físico,
social e mental, uma vez que é possível entrar em contato com diferentes
realidades sociais e sobretudo subjetivas.
Dessa forma, é importante ressaltar que os moradores das residências terapêuticas tiveram progresso no tratamento, uma vez que dentre os
objetivos do programa estão: estimular a autonomia, resgatar a cidadania
e inseri-los socialmente na comunidade.
No entanto, como foi constatado, o preconceito social ainda é
muito forte na sociedade. A falta de informação é um fator importante na
exclusão e no preconceito. É preciso haver maior estímulo, consciência,
por parte da população em geral, de conhecimentos sobre as doenças
mentais para compreender toda a complexidade da mente humana. É necessário criar uma cultura livre de preconceitos para que os portadores de
transtornos mentais possam transitar livremente pela comunidade, produzirem e se sentirem parte da vida social, política e econômica do país.
REFERÊNCIAS
AMARANTE, P. Loucura, cultura e subjetividade: conceitos e estratégias,
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Acesso: 20 abril 2008.
BARDIN L. Análise de Conteúdo. 3 ed. Lisboa: Edições 70, 2004.
FURTADO J. P. Avaliação da situação atual dos Serviços Residenciais Terapêuticos no SUS. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 11, n. 3, p.
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BRANDEN N. Auto-estima, como aprender a gostar de si mesmo. 39 ed.
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terapêuticas: o que são, para que servem. Departamento de ações programáticas estratégicas. Brasília: Ministério da saúde, 2004.
FREITAS M. E. A. A. Consciência do corpo – vivência que assusta: a percepção de profissionais de enfermagem na área hospitalar. Revista Mineira
Enfermagem - REME, Belo Horizante, v. 8, n. 2, p. 283-289, 2004.
MAY, R. O homem à procura de si mesmo. 31 ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
BEZERRA JUNIOR, R. B. Da verdade à solidariedade: a psicose e os psicóticos. In: BEZERRA JUNIOR, R, B, AMARANTE, P. (Org.) Psiquiatria sem hospício: contribuições ao estudo da reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Relume – Dumará, 1994.
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Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.3, n.3, p.17-20, Jul-Ago-Set. 2010.
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