“Levantamento Da Condição Sócio-cultural-econômica Dos Moradores Da APA / Coqueiral – MG” Ana Cristina Campos Rodrigues, bolsista da Proex 1 no 3º e 4º módulo da graduação, atualmente no 8ºmódulo de Ciências Biológicas, [email protected], UFLA; Luiz Antônio de Bastos Andrade, orientador do projeto e professor titular do DAG / UFLA; Vicente Gualberto, co-orientador, [email protected], professor titular do DCS / UFLA; Exzovildres Queiroz Neto, co-orientador, [email protected], doutorando na UNICAMP. A APA-Coqueiral foi criada com a finalidade de proteger e conservar a qualidade ambiental e os sistemas naturais ali existentes. Está localizada no município de Coqueiral, sul de Minas Gerais. O objetivo central do projeto apoiado pela Proex-UFLA e Emater-Coqueiral, foi efetuar o levantamento da condição sócio-cultural-econômica. O critério estabelecido para a análise foi baseado nos dados de entrevistas por uma amostragem de 79 famílias moradoras da APA. A pesquisa aponta que a economia local gira em torno principalmente do café. Com uma média de quatro moradores por casa, a grande maioria reside no próprio estabelecimento, sendo que cerca de 25 % das famílias tem um morador que presta serviços fora da propriedade. Muitas famílias possuem outros terrenos de plantio em comunidades mais próximas ao lago de Furnas. A desigualdade social também está presente entre os moradores da APA Palavras chave: Levantamento, realidade sócio-cultural-econômica, APA. Introdução Segundo o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) as afaz são unidades de conservação, destinadas a proteger e conservar a qualidade ambiental e os sistemas naturais ali existentes, visando à melhoria da qualidade de vida da população local e também objetivando a proteção dos ecossistemas regionais. (Resolução nº. 10, 1988, art. 1). Em 17 de 1 Projeto de extensão “Levantamento da condição sócio-cultural-econômica e percepção ambiental dos moradores da APA – Área de Proteção Ambiental / Coqueiral – MG”, apoiado pela Proex-UFLA em 2007, realizado na APA do município de Coqueiral, MG. maio de 2002 foi criada a APA de Coqueiral, no município de Coqueiral com a finalidade de assegurar o bem estar das populações ali existentes, bem como a de todo município; a melhoria da qualidade de vida, além de proteger e preservar a fauna, flora e os recursos hídricos, promovendo assim o uso sustentável da área para as gerações futuras. A administração da APA e as demais atividades a ela referentes serão reguladas e exercidas pelo Conselho Municipal de Conservação e Defesa do Meio Ambiente (CODEMA – Coqueiral). Este projeto titulado de “Levantamento da condição sócio-cultural-econômica e percepção ambiental dos moradores da APA – Área de Proteção Ambiental / Coqueiral – MG”, aprovado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFLA teve como objetivo central efetuar o levantamento da condição sócio-cultural-econômica dos moradores da APA / Coqueiral – MG. Para a implantação de uma APA é necessária a geração de dados, embasados em informações científicas, visando o registro definitivo e oficial junto aos órgãos ambientais pertinentes (Arruda, 1999). O resultado deste projeto indica as potencialidades e as limitações dos moradores da área, através de métodos de pesquisa social e acrescenta embasamentos científicos na construção do Plano de Manejo da APA. 1 Referencial teórico Considerando a necessidade de aliar a recuperação dos recursos e a permanência dos proprietários nas terras, foi sugerida a elaboração da APA no município de Coqueiral, a qual se encontra em processo de implantação. Para um bom funcionamento de uma APA é necessária a adoção de critérios estabelecidos por Lei que visem estreitar as relações das atividades produtivas com as de conservação ambiental. A Área de Proteção ambiental do Município de Coqueiral possui 6837,5 hectares e está localizada no extremo norte do município, limitando-se com parte do lado formado pela Represa de Furnas, com os municípios de Boa Esperança, Aguanil, Campo Belo e Nepomuceno. Esta área foi selecionada por ser a que mais se destaca no município em termos de existência de mosaicos de mata atlântica, ainda em bom estado de conservação, sendo praticamente a única área do município onde ainda restam fragmentos da vegetação nativa. (EMATER, 2002) Uma das grandes questões atuais em termos de atividades agropecuárias é, em termos práticos, saber como conciliar produção com agressões menos drásticas, conseqüências naturais advindas de práticas de manejos pertinentes, aos diferentes compartimentos ambientais de um ecossistema, notadamente ‘a pedosfera, atmosfera e hidrosfera’(Gualberto et al., 2003). Assim uma segurança na geração de informações se torna muito importante. A Área de Proteção Ambiental (APA), como Unidade de Conservação, é uma área em geral extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais (IBAMA, 2004). Conforme Griffith et al. (1995), as APAs diferem da maioria das outras categorias de unidades de conservação principalmente porque suas terras permanecem nas mãos dos proprietários, ou seja, seus donos podem usar e alterar a área de forma controlada, sem que o Estado exija sua total preservação. A não necessidade de desapropriação, tão problemática às unidades de conservação de uso indireto, foi a característica que mais contribuiu para a explosão de APAs durante a década de 1980, entretanto apesar da aparente facilidade com que poderiam ser criadas, necessitando apenas de um decreto e sem necessidade de se levantar fundos para indenizações, sua implantação revelou-se tão complicada quanto a das outras categorias de UC’s (Unidades de Conservação). Assim, muitas APAs passaram a constituir o rol dos chamados parque de papel. (ROPER, 2001) Cortês, 2003 assevera que “A gestão exige a participação dos agentes envolvidos, daqueles que participaram da imposição de limitação do direito de propriedade e daqueles que tiveram seus direitos limitados”. Essa problemática registrada em outras APA’s ocorre devido à quantidade de agentes com os quais deve se lidar nestas áreas, diferentemente das demais categorias de UC’s cuja decisão está no poder publico, via de regra o único detentor do direito de propriedade sobre a área. No caso da APA Coqueiral esta colocação se encaixa no sentido de que a organização da área esta sob responsabilidade de órgãos da prefeitura, da EMATER e dos próprios moradores da área. A Universidade se faz presente através de pesquisas cientificas, como no caso dessa pesquisa a qual procura esclarecer as realidades sóciocultural-econômicas tanto dos moradores como dos órgãos envolvidos, facilitando o diálogo entre eles. Segundo o MMA, 1999, em relação ao acesso de informação: Não basta que as instituições públicas responsáveis pelas diversas fases da gestão divulguem e disseminem dados e informações. Para a efetivação dessa participação, é preciso que as informações derivadas dos exercícios de gestão possam ser adaptadas aos diferentes públicos a que se destina, criando condições de comunicação necessárias ao entendimento dos meios e dos objetivos da gestão pretendida. 2 Metodologia 2.1 O método do estudo sócio econômico dos moradores da APA – Coqueiral. O critério estabelecido para a análise da realidade sócio-cultural-econômica dos moradores da APA foi baseado nos dados obtidos de entrevistas de uma amostragem de 79 famílias moradoras da APA, além do Levantamento expedito, informações documentais e entrevistas com o responsável pelo projeto da APA, Sr. Luis Geraldo Marciano Reis – responsável pelo escritório local da EMATER e; com outros agentes sociais envolvidos com a APA. Em um primeiro momento foi feito um levantamento expedito, ou seja, um reconhecimento geográfico da área. A princípio serviu para um conhecimento da área sob a óptica geográfica e com isso foi possível aperfeiçoar os questionários de acordo com esta realidade. Em outro momento, dentro das comunidades do Ermo e Capituvas foram aplicados os questionários para as entrevistas semi-estruturadas. Outras fontes de informação para analisar a realidade sócio-cultural-econômica dos moradores da área foram os registros em diários de pesquisa, uma revisão dos documentos da APA e a transcrição de uma conversa entre os pesquisadores, gravada logo após um dia de campo durante a segunda viagem. 2.2 Entrevistas Inicialmente usamos como referência o questionário usado no subprojeto coordenado por Helena Maria Ramos Alves: “Identificação de estratégias de desenvolvimento rural sustentável para cafeicultores do Sul de Minas Gerais” dentro do projeto: “Estratégias, Modelos e Geotecnologias para a caracterização e monitoramento de Agroecossistemas Cafeeiros de MG”. Um questionário é uma série de perguntas organizadas com o objetivo de levantar dados para a pesquisa (Nogueira, 1968); e justamente por se tratar de problemas centrais distintos a serem pesquisados, os objetivos do questionário foram adaptados. Este questionário é constituído de perguntas fechadas que, segundo Phillips, 1974, limita o entrevistado a uma escolha entre alternativas específicas. Este tipo de pergunta produz uma maior uniformidade entre os entrevistados nas dimensões específicas para análise. Ao mesmo tempo, as perguntas funcionaram como um roteiro de entrevista semi-etruturada. As entrevistas foram feitas nas próprias casas dos moradores da APA; e muitas vezes a equipe foi recebida com café e quitandas, como tradicionalmente se faz em Minas Gerais. Por causa desse acolhimento e por ter a entrevista caráter de uma conversa, mesmo que direcionada, se criou uma interação entre os entrevistados e entrevistadores. Nogueira (1968) cita esta interação como um motivo de dúvida quanto à validade científica dos dados, pois há possibilidade de os entrevistados serem influenciados em suas respostas, consciente ou inconscientemente, pelo entrevistador. Em nossa equipe discutimos cada pergunta com o intuito de impedir ao máximo a possibilidade de tendenciar às respostas. A metodologia escolhida foi a amostragem, isto é, uma seleção de um subconjunto de unidades de um conjunto maior (Phillips). Essa ferramenta ajuda o pesquisador a generalizar, com uma margem de erro conhecida, as descobertas baseadas nos seus dados. A equipe teve auxilio do morador Dé do Ermo, o qual demonstrou uma importante consciência ambiental e grande dedicação e conhecimento sobre a APA. Durante as idas de campo, Dé esteve presente no momento de apresentação entre pesquisadores da equipe e moradores. Este fato foi decisivo para a boa recepção por parte dos entrevistados. Também auxiliou o grupo, em relação à localização e a infra-estrutura. 2.3 Diário de pesquisa e outros registros Nogueira (1968) separa diferentes fontes de dados a serem analisados. Dentre as citadas em seu livro foi utilizado nesta pesquisa um diário, isto é, um registro cotidiano e minucioso das observações, acontecimentos, manifestações de comportamento, conversas, estabelecimento de novos contatos, desenvolvimento ou transformação das relações já estabelecidas com elementos da comunidade, sendo muito útil para visualizar o conjunto da organização social e cultural. Também foi utilizado um registro gravado de uma conversa entre a equipe de pesquisadores logo após um dia de campo. Este foi transcrito e utilizado para acrescentar à análise, as experiências e conhecimento dos outros membros do grupo, referente ao objeto da investigação. A pesquisa documental é capaz de reforçar o entendimento em estudos de caso pela capacidade de situar os relatos contemporâneos em um contexto histórico. Estes nos falam das aspirações e intenções dos períodos aos quais se referem (MAY, 2004). As fontes incluem leis, declarações estatutárias, os próprios relatos de pessoas sobre incidentes ou períodos. Para esta pesquisa o documento referente ao Projeto da APA foi utilizado, assim como a Internet que foi consultada para verificação das leis ambientais, artigos, contatos, dados e valores. 3 Análise e discussão dos resultados Neste capítulo serão apresentados os resultados da pesquisa sócio-econômica-cultural, a partir das entrevistas, diário de pesquisa e outros registros. O resultado da Percepção Ambiental será analisado em outro trabalho. Estes dois estudos se confrontam e se complementam já que as ações sócio-econômicas estão intrinsecamente ligadas ao meio ambiente. 3.1 Comunidades As principais comunidades rurais existentes na área são Posses, Capituvas, Ermo, Sapé, Santa Clara, Barbosas, Belém, Serra e Cachoeira. Sobre esta última há divergências quanto a sua localização, pois, segundo os documentos do projeto da APA – Coqueiral, a comunidade de Cachoeira está localizada dentro da área, e segundo as informações obtidas durante o levantamento expedito, apenas uma parte dela, denominada Cachoeira de baixo, consta dentro da APA. Ali havia uma hidrelétrica que foi desativada em 1920 e que hoje é tida como ponto turístico. Capituvas engloba as comunidades de Mandioca, Coelho, Arroz Doce, Córrego das Canas, Serra dos Pedro. Na comunidade Barbosa desponta uma grande quantidade de cupinzeiros. Em Boa Vista está localizada uma enorme formação rochosa, de onde se avista toda a região. Na comunidade do Ermo está localizada, a 1021 metros de altitude e área superior a 40 hectares, a principal formação rochosa do município, conhecida como Pedra do Ermo de onde também se tem uma visão panorâmica da região. Estas formações rochosas são apontadas como potencialidades ecoturísticas para a APA. Entre todas, as comunidades do Ermo, Capituvas, Cachoeira, Posses e Sapé são mais estruturadas por possuírem venda, Igreja e Escola. 3.2 Estrutura familiar O método de amostragem desenvolvido deu-se de forma aleatória na escolha de qual integrante da família seria entrevistado, o que resultou em 40% das entrevistas concedidas pelas mulheres da casa. A grande maioria dos moradores de Capituvas e do Ermo reside no próprio estabelecimento, sendo que alguns possuem outros terrenos de plantio em comunidades mais próximas ao lago de Furnas. Em cerca de 25 % das casas tem um morador que presta serviços fora da propriedade, mas a grande maioria tira a renda apenas do próprio terreno. 14 % das famílias recebem salário, além da renda do próprio terreno. A média é de quatro moradores por casa. Os casais mais idosos moram na área há mais de 20 anos, mas também há uma quantidade razoável de casais que se juntaram entre 10 e 20 anos atrás. Nos últimos cinco anos, poucas famílias de fora migraram para a área, enquanto que o caminho inverso é percorrido por um grande número de jovens que abandonam os estudos e o trabalho na roça em busca de um emprego na cidade. Muitos casais jovens, filhos dos moradores mais antigos, moram em terras herdadas ou dadas como presente de casamento. A repartição com a família foi um dos motivos dos terrenos terem diminuído de acordo com o que foi evidenciado através dos questionários. Como estes aposentados não têm mais como trabalhar na lavoura, sua terra costuma ser dividida, sendo que a parte maior fica para os filhos. Sua propriedade consiste da própria casa e uma pequena área ao redor. Em Capituvas a quantidade de aposentados é grande e estes costumam mudar para a beira da estrada, ou para alguma comunidade com posto de saúde, devido às dificuldades. No caso das famílias mais jovens, a diminuição dos terrenos se deu por causa de dificuldades financeiras oriundas de endividamento e do gasto excessivo no combate a pragas e besourinhas típicas da região. 3.3 Café e leite A economia local gira em torno principalmente do café, o qual é produzido em Coqueiral e levado às Cooperativas pelos próprios agricultores. Independente de quantas sacas serão transportadas, são eles próprios que pagam o frete da viagem. Segundo dados não oficiais, 70% dos produtores do município são cooperados da Capeb localizada em Boa Esperança a 30km de Coqueiral. Apenas 30% dos produtores são cooperados da Cocatrel localizada em Três Pontas a 60km de Coqueiral. As cotas para se tornar cooperado, segundo informações, fornecidas em abril de 2007 das próprias cooperativas, são de R$240,00 e R$1000,00. A relação entre o valor das cotas e a porcentagem de produtores em cada cooperativa, demonstra uma realidade sócio-econômica, na qual a maioria dos agricultores paga uma cota mais barata para conseguir escoar seu café e garantir o lucro. Pelas observações da pesquisa, os agricultores não mostram insatisfação com o café, mas também não mostram nenhuma empolgação. Muitos ainda vendem o café para atravessadores e perdem grande parte do valor de seu café. Mesmo que em Coqueiral estejam localizados o Sindicado dos Trabalhadores Rurais e o Sindicato dos Produtores Rurais, dentre os entrevistados apenas citaram a participação em algum destes dois Sindicatos. Embora os agricultores demonstrarem seu interesse em que a comunidade se organize a fim de valorizar seu produto, existe certa dificuldade em relacionar-se. A pecuária leiteira também tem bastante expressividade dentro da APA. São oito tanques espalhados pelas comunidades e inseridos no sistema de leite granelizado. As Cooperativas que atendem o município também são a Capeb e a Cocatrel. O leite a granel consiste na coleta de leite nas propriedades rurais, onde o leite é resfriado em tanques distribuídos nas rotas da coleta. Em artigo da revista Tecnologia e Treinamento, são destacadas as principais vantagens da granelização como diminuição dos gastos com latões, economia de transporte, melhoria na qualidade do leite devido a uma melhor higienização em todo o processo. 3.4 Dívidas O Pronaf, Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar é um programa da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário(SAF/MDA) que disponibiliza crédito rural de acesso simplificado para promoção do aumento da renda familiar; criação de novos postos de trabalho no campo e estímulo a produção de alimentos. Durante as entrevistas algumas famílias citaram o endividamento com o Pronaf. Para solicitar o financiamento, a família deve ser enquadrada em um dos Grupos, o que vai depender da renda bruta anual familiar, do tamanho da terra e do número de empregados permanentes. A Emater em Coqueiral, há dez anos, é responsável pela mediação entre o agricultor e o Banco do Brasil. Segundo o órgão, 90% dos agricultores do município utilizam financiamento do Pronaf. Os extensionistas da Emater acreditam que o endividamento é causado pela frustração nas lavouras por causa das mudanças ambientais. 3.5 Escolaridade Segundo dados do IBGE, no município de Coqueiral são 1694 estudantes matriculados no ensino fundamental, 400 no ensino médio e 243 no ensino pré-escolar público estadual ou municipal. São 97 docentes no ensino fundamental, sendo que 66 lecionam em escola estadual e 31 lecionam em escola municipal No ensino médio são 17 no ensino estadual e no ensino pré-escolar municipal são 19. No total são 13 escolas para ensino fundamental, uma escola para ensino médio e 11 escolas para grupo pré-escolar. De acordo com a Fundação João Pinheiro, órgão de pesquisas do Estado de Minas Gerais, o município de Coqueiral usa 70 % do seu potencial em educação. Das 79 casas visitadas, em 67 destas, havia pelo menos um adulto (20-80 anos) desistente de escola e apenas seis casos de pessoas que estudaram ou ainda estudam em nível superior. Foram registrados dezenove adolescentes e jovens que abandonaram a escola devido à necessidade de sua mão de obra no serviço doméstico. Em geral, as crianças vão à escola, tanto nos grupos das comunidades ou na própria cidade de Coqueiral com o auxílio de transporte. Isso pode significar que os estudos e o diploma ganharam mais valor nos últimos 20 anos (tempo pressuposto de quando houve maior desistência da escola). Também foram registrados dois casos de idosos com mais de 60 anos que se declararam analfabetos. Os grupos escolares até 1º grau situados dentro da APA estão nas comunidades do Ermo, Capituvas e Posses. Nas demais comunidades as crianças e adolescentes contam com o transporte escolar da prefeitura nos períodos de manhã, tarde e noite para levá-los até estas escolas na zona rural ou até mesmo na zona urbana de Coqueiral. Outros grupos escolares nas comunidades de Santa Clara e Barbosas atendem crianças que ainda não freqüentam o 1ºgrau, os chamados grupos. 3.6 Água e Saneamento básico Os moradores em sua maioria aproveitam as nascentes, minas ou córregos d’água para o abastecimento. A bomba elétrica é comumente utilizada para puxar água, que acaba sendo dividida entre duas ou mais famílias. Algumas comunidades têm a opção pela água de poço artesiano do SAAE, a qual deixa 80% dos beneficiados satisfeitos. Quanto ao saneamento básico da casa, segundo o respondido às entrevistas, a água usada na cozinha e na lavanderia costuma ser despejada a céu aberto, sendo às vezes desviada para a horta. O destino da descarga é a fossa, na maioria das vezes seca. Alguns ainda destinam às fossas, a água da lavanderia e da cozinha. Foi observado que as fossas estão localizadas próximas de onde tiram a água para sustento. Outros casos de famílias entrevistadas que não possuem nem ao menos uma fossa para o banheiro reforça a desigualdade na consciência ambiental dos moradores. 3.7 Transporte Em épocas de chuva, o transporte escolar não alcança chegar até algumas comunidades, como Capituvas, por onde passam estradas de difícil acesso, onde 40 % das famílias entrevistadas reclamaram do acesso às suas propriedades. Dentre os restantes, alguns afirmaram que a situação melhorou desde que o volume das chuvas diminuiu, por isso não consideram tal dificuldade como um problema. Alguns contaram casos de quando eram crianças e costumavam caminhar à escola por mais de 10 km debaixo de chuva e por isso vêem no passado a glória do presente. Estes fatos podem mostrar uma das causas que influenciaram a grande desistência da escola há duas décadas atrás. 3.8 Coleta Seletiva Foi contabilizado na pesquisa que 77,5% dos moradores queimam o lixo, 11% enterram, 7,5% queimam e enterram e 4% usufruem serviços de lixeiros. Informalmente foram notificadas algumas idéias circundantes. A primeira é que pela proximidade com a cidade, há facilidade e certa dependência de consumo, acarretando no acúmulo de muitas embalagens de produtos. A segunda é que já existe um projeto para colocar um ponto de coleta seletiva na comunidade do Ermo, faltando apenas escolher o local e implantá-lo. A verba adquirida com a venda dos materiais recicláveis seria revertida à própria comunidade. A partir de informações das entrevistas 57,5% acreditam que o correto a fazer com o lixo é enterrar. Os que acham que o certo é a coleta são 38%, e 4,5% não sabem qual seria o modo correto. 3.9 Embalagens dos agrotóxicos O principal motivo para darmos a destinação final correta para as embalagens vazias dos agrotóxicos é diminuir o risco para a saúde das pessoas e de contaminação do meio ambiente. (ANDEF). A Lei Federal nº de 09.974 de 06/06/00 e Decreto n.º 4.074 de 08/01/02 tem como objetivo disciplinar a destinação final de embalagens vazias de agrotóxicos e determinar as responsabilidades para o agricultor, o revendedor, o fabricante e para o Governo na questão de educação e comunicação. O não cumprimento destas responsabilidades poderá implicar em penalidades previstas na legislação específica e na lei de crimes ambientais (Lei 9.605 de 13/02/98), como multas e até pena de reclusão. O Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (INPEV) é responsável pelo transporte adequado das embalagens de agrotóxicos devolvidas às Unidades de Recebimento, ambientalmente licenciadas para o destino final (Recicladoras ou incineradoras). Foi abordado nos questionários o suposto destino destas embalagens na área da APA e foi detectado que de todos os usuários de agrotóxicos, 31% queimam as embalagens de agrotóxicos junto às outras embalagens, 15% enterram as embalagens, 46% as devolve e 8% as guarda. Na comunidade de Arroz Doce, dentro de Capituvas, os moradores demonstraram um maior cuidado com o destino das embalagens de agrotóxicos, mas as informações com relação à regulamentação sobre destinação final de embalagens não parece ser bem esclarecida. 4 Conclusões e recomendações Pelas estradas do sul de Minas Gerais se vê muitos plantios de café, mas entrando nas comunidades rurais do município de Coqueiral se nota que a qualidade de vida, como em todo sul de Minas, diminuiu. Uma das causas ocorre em virtude da queda da fertilidade do solo, assoreamento dos córregos e rios e erosão. Estes são fatores ligados ao uso indevido do solo e às práticas de plantio depreciativas, que em conjunto com as atividades abióticas potencializam a degradação e diminuem a produtividade e geração de renda. A desigualdade social também está presente entre os moradores da APA. Há diferenças, no que diz respeito a bens materiais como a infra-estrutura da casa, a posse de máquinas para a roça e meios de transporte. Esta pesquisa não buscou identificar se os diferentes incentivos, desde a educação até à falsa ilusão de que adquirir bens materiais é sinal de qualidade de vida, dependem da classe social a que a família se inclui. Segundo Américo Sommerman o sistema competitivo que move o mundo atualmente leva a humanidade ao avanço tecnológico, gera muitas riquezas materiais, mas trás a tona uma perda do sentido profundo da vida, responsável pela destruição da natureza do meio ambiente e pelo grande sofrimento moral da sociedade, sendo uma das causas do grande número de males psíquicos e físicos que se proliferam. Este contexto também atinge as zonas rurais e neste caso a área da APA de Coqueiral. Durante as entrevistas foi notável a falta de interação entre os vizinhos na comunidade de Capituvas, mesmo morando em casas próximas. As recomendações partem diretamente dos relatos dos moradores sobre suas dificuldades e suas demandas primordiais, como exemplo Seu Geraldo da comunidade do Ermo, o qual mostrou a demanda de incentivo por parte da prefeitura para que os jovens permaneçam na zona rural. Ele também espera vender sua horta em Coqueiral através de um caminhão da prefeitura que passe em todas as casas que se interesse em fazer horta para vender e adquirir uma renda a mais. Em relação à água, enquanto uns desviam a água, que se torna cada vez mais escassa para reaproveitamento na horta, outros poluem a única oportunidade que tem. Foram registradas algumas reivindicações informais por um sistema simples de tratamento de esgoto, principalmente para as comunidades onde as casas são próximas umas das outras. . Em uma das estradas que saem do Ermo, mora Seu Tarcísio em uma área baixa de brejo que está subindo devido à inundação. Está buscando uma maneira de drenar a água. Os outros moradores ao redor deste brejo soltam o esgoto diretamente. A qualidade das escolas também foi citada pelos entrevistados e a demanda apresentada é a inclusão no mundo digital, através de aulas de computação. Foram evidenciados moradores que buscam alternativas de renda, valorizando o saber local. É o caso de Dona Maria Waldecir que na época da goiaba faz doces e vende na cidade. Em Capituvas mora Dona Rosa, uma senhora artesã de 73 anos que trabalha desde a plantação do algodão até a finalização das rendas no tear e também a família de Seu Nivaldo, que se dedica à fabricação caseira de doces e queijos a partir do leite, buscando uma alternativa, agregando valor aos seus produtos. Referência bibliográfica BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução n.º 10 , 1988, art. 1. Resoluções do Conama: Resoluções vigentes publicadas entre julho de 1984 e novembro de 2008 – 2. ed. / Conselho Nacional do Meio Ambiente. –Brasília: Conama 2008, 928p. 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