A Biblioteconomia e a Situação Frente as Novas Tecnologias e ao Novo Usuário 1
Luciano Soares Duarte 2
Resumo:
Apresenta características da profissão de biblioteconomia, do uso das
novas tecnologias e da relação com o usuário. Coloca também, as
conseqüências do advento dessas tecnologias na formação do perfil do
usuário e profissional da informação. Relata considerações pessoais
quanto a situação da formação do estudante de biblioteconomia,
atualização dos profissionais e a influência destes na formação crítica do
usuário.
Palavras-chave:
Bibliotecário/Perfil. Usuário/ Perfil. Novas Tecnologias da Informação.
Biblioteconomia/Futuro.
1
INTRODUÇÃO
A três anos da virada do milênio lutamos para não ficarmos para trás. As novas
tecnologias estão a pleno vapor, modificando a rotina do mundo a cada dia que passa. Onde
fica o Bibliotecário em relação a essas mudanças. E seu usuário, ou deveríamos chamar de
clientes. Mudanças nunca causaram tanto impacto. Desde a revolução industrial, o mundo não
sofria um impacto tecnológico tão grande, não podemos negar, estamos na ‘era da
informação’.
1
Trabalho apresentado no XX Encontro Nacional de Estudantes de Biblioteconomia e
Documentação, São Luís - MA, julho de 1997.
2
Estudante do 7º semestre do Curso de Biblioteconomia da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Considerando essas mudanças, qual será o perfil do bibliotecário para o novo
milênio? E as tecnologias continuarão mudando? Como o bibliotecário deve enfrentar esta
evolução? Qual será o perfil do usuário da informação? São questionamentos que este artigo
procurará abordar de maneira sucinta, apesar disso alguns aspectos podem servir de incentivo
à reflexões.
2
AS NOVAS TECNOLOGIAS
Conceituemos aqui novas tecnologias como a união das tecnologias da informática
e das comunicações, e seus diversos produtos gerados a partir dessa união. Muitos
referenciam-se a essas tecnologias, e principalmente a figura do computador, como sendo a
ferramenta de auxílio ao bibliotecário. Ele usará esses recursos para buscar, armazenar, tratar e
disseminar a informação, com maior rapidez e precisão.
Outros, dizem que as novas tecnologias são complicadas e só atrapalham. Quem
terá a razão? Cada um, do seu ponte de vista, terá razão.
2.1
Acabou o Papel
Lancaster, a quase 30 anos previu a ‘sociedade sem papel’. Revendo suas
previsões, dez anos depois, declarou que a evolução estava se dando até mais rapidamente.
Hoje ainda temos o papel e por muito tempo ainda viveremos com ele. Mas as
previsões de Lancaster não estavam totalmente erradas, muitas publicações eletrônicas estão
disponíveis no mercado. O problema é o acesso a essas publicações, se analisarmos o custobenefício, veremos que as publicações eletrônicas são vantajosas, e ainda nem falamos em
espaço físico e acesso mais rápido. Então porque não substituir a velha Barsa em papel por um
CD-ROM. LANCASTER apud FIGUEIREDO (1995, p.110) diz que “a não aceitação desta
evolução é previsível e a rejeição da publicação eletrônica é, na maioria das vezes, baseada em
vago sentimento de que o livro impresso é um elemento indispensável na sociedade e que ele
tem estado conosco a muito tempo para ser facilmente substituído”.
Como podemos notar, Lancaster previu mudanças radicais, mas nunca esqueceu a
cautela em suas afirmações. Por isso a cautela é importante para medir a real necessidade desta
mudança, tudo vai depender do contexto em que esta inserida a unidade de informação.
2.2
A Internet
Rede mundial de computadores, com milhões de usuários espalhados pelo mundo,
e com incalculáveis informações abrangendo todas às áreas do conhecimento humano.
Qualquer pessoa pode acessar a Internet e seus serviços (até mesmo o
bibliotecário), a qualquer hora do dia ou da noite, basta para isso um computador, uma linha
telefônica e ligar-se a um provedor de acesso, pronto já está ‘plugado’ a uma das maiores
fontes de informação, senão a maior, que dispomos atualmente.
A escolha do provedor de acesso é muito importante, pois dele vai depender a
eficiência e rapidez na busca da informação. Podemos incluir nos conhecimentos específicos
do bibliotecário, todos esses itens citados anteriormente, até mesmo para orientar aquelas
pessoas que desejam pesquisar através da Internet.
Dos produtos e serviços disponíveis na Internet, existe um em especial para nosso
contexto, a Biblioteca Virtual (BV).
Segundo PEREIRA (1995, p.105), “a biblioteca virtual é uma experiência apoiada
pela Rede Nacional de Pesquisa do Brasil - backbone nacional da Internet - e pelo
Departamento de Ensino e Pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia”. Este projeto pretende auxiliar os especialistas brasileiros da área da informação
para obterem os requisitos necessários para explorar os recursos da Internet, usar esses
recursos e serviços para melhoramento profissional e disseminar os requisitos para
padronização dos recursos locais de informação, no momento da integração.
A BV é a soma total de informações acessíveis disponíveis em qualquer lugar, e
portanto ela pode ser implantada em qualquer lugar, na biblioteca, nos centros de informação,
nos centros de documentação, no trabalho e em casa.
Na verdade, o ponto chave não é a tecnologia, mas sim o acesso à informação e o
atendimento às necessidades do usuário. O computador não formará um bom bibliotecário, ele
só servirá de ferramenta no auxílio às atividades técnicas, liberando mais tempo para que este
profissional possa atender melhor o seu usuário.
3
PERFIL DO BIBLIOTECÁRIO
Ainda hoje vemos pessoas indiferentes a transformação por que a sociedade
mundial esta passando, os impactos das novas tecnologias são constantes e sem dúvida
estamos entrando na era da informação. As novas tecnologias devem auxiliar para melhoria na
qualidade da educação e no bem estar social. Vem a ser papel do bibliotecário auxiliar nessa
tarefa, planejando serviços e produtos adequados a todos os tipos de usuários, os que
dominam e os que ainda encontram dificuldades no manuseio das novas tecnologias, e isso só
será possível se o bibliotecário se adequar a realidade atual e pensar no futuro.
Como se comportará o bibliotecário frente a essa situação?
Os bibliotecários que tem a mente aberta a evolução, certamente reagirão bem. Os
que não tem essa característica, normalmente evitarão as mudanças, e estarão comprometendo
a profissão e a sua própria existência, enquanto profissionais da informação.
Conforme DIAS (1995, p.199), as mudanças que caracterizam a pós-modernidade
exigirão um profissional com as seguintes características:
“ a) dedicar-se menos aos processos técnicos e mais ao usuário;
b) adotar estratégias de marketing no seu trabalho;
c) desenvolver ‘visão econômica’;
d) trabalhar com grupos interdiciplinares;
e) saber manipular as novas tecnologias;
f) atuar na gerência da informação.
Além disso, a intuição, a criatividade e a flexibilidade, seriam qualidades
essenciais.”
A partir da adoção dos recursos automatizados nos processo técnicos e nas rotinas
da instituição informacional, certamente o bibliotecário terá mais tempo livre para estudar,
conhecer e adequar-se ao seu usuário.
O marketing deve ser feito, não só dos serviços, mas da própria profissão, será
importante pois ‘a propaganda é a alma do negócio’, mesmo que seja sem fins lucrativos.
Um ponto a destacar é a habilidade em manipular as novas tecnologias, pois o
bibliotecário que não souber usar as novas tecnologias em prol da informação, estará limitado
a fornecer informações desatualizadas que nada interessam, e que na maioria das vezes não
suprirá as reais necessidades dos seus clientes.
Entraremos no ponto referente a formação do profissional da informação. Um dos
destaques é para a gerência da informação e dos recursos informacionais. Certamente o
profissional da informação não pode mais ficar somente se especializando em fazer o trabalho
rotineiro da biblioteca e os processos técnicos, ele deve sair da passividade e desenvolver
habilidades analíticas e gerenciais que possam ser aplicadas na aquisição e organização de
recursos e na promoção da biblioteca e dos serviços de informação.
Não podemos esquecer a criatividade, pois AMARAL (1995, p.225) diz que:
“o profissional criativo conseguirá adaptar-se às novas demandas
informacionais dos usuários e do mercado de trabalho, pois, no futuro, o
único elemento não disponível por meio de computadores, por mais
inteligente que esses venham a ser, será a criatividade, essencial para a
sobrevivência do profissional da informação”.
Essa criatividade e o interesse pelas mudanças políticas e sociais, levarão o
bibliotecário a despertar o seu usuário para a importância da informação no contexto do
mundo atual e futuro.
Nos dias atuais, toda pessoa que trabalhar com a informação, seja bibliotecário ou
estudante de biblioteconomia, deve repensar seu papel referente ao gerenciamento da
informação, o estudante procurando subsídios adicionais ao aprendizado em sala de aula e o
bibliotecário atualizar-se a todo instante, pois as mudanças são constantes. Enquanto não
temos uma maior preocupação dentro das faculdades para aprimoramento do aprendizado,
temos que nos mesmos procurar vias e caminhos para um aperfeiçoamento na função de
gerente da informação e de recursos informacionais.
4
O USUÁRIO
Como se comporta o usuário frente as mudanças para as novas tecnologias? Em
primeiro lugar devemos levar em consideração as palavras de MILANESI (1997), que diz não
considerar a palavra usuário ideal, pois esta restringe aquelas pessoas que usam as instituições
de informação, e exclui as pessoas com potencial em utilizar os serviços informacionais,
prefererindo descrever-los pela palavra público.
CARVALHO (1996), costuma chamar o usuário de ‘cliente’, e inclusive cita o
termo ‘clínica de informações’, tratando a informação como um remédio para a solução de
problemas.
Independente do nome atribuído ao usuário (continuaremos usando esse termo,
por ser o mais aceito atualmente), devemos levar em consideração o perfil desse usuário,
partiremos dos princípios abaixo:
a) existem pessoas que se adaptam facilmente a mudanças;
b) existem pessoas que tem dificuldade em assimilar essas mudanças;
c) existem pessoas que ignoram totalmente essas mudanças.
Com o primeiro caso, praticamente não existem problemas, é só orientá-los no uso
adequado dos recursos disponíveis e, potencialmente, terão capacidade de suprir suas
necessidades informacionais.
Com o segundo caso, certamente existirão barreiras invisíveis, mas sabendo-se sua
necessidade e que eles desejam adequar-se a nova situação, será mais fácil orientá-los.
A verdadeira barreira estará no terceiro caso, mas o bibliotecário deverá mostrar,
de modo prático e convincente, as vantagens dos recursos automatizados. Para convencer
poderá comparar os resultados obtidos através dos meios tradicionais e dos meios
automatizados.
Devemos levar em conta nossa situação de país ‘em desenvolvimento’, com
disparidades sócio-econômicas visíveis. É verdade que nosso usuário está mudando, mas
sabemos que a grande maioria não esta a par das novas tecnologias, muitos não sabem nem
como ligar um computador, e pior, não sabem nem o que vem a ser um computador.
Conforme DIAS (1995, p.202) os profissionais da informação devem “assumir
uma atitude pró-ativa em relação ao ambiente e especificamente aos seus clientes. Que
contribuam para a formação do cidadão crítico através de todo tipo de biblioteca e que as
novas tecnologias sejam utilizadas também para este fim.”
Enfim, o bibliotecário deve interagir com seu usuário, para que este possa
expressar suas reais necessidades e com isso despertar sua consciência crítica em relação a
situação social, econômica, política, educacional e cultural em que vivemos, quebrando o ciclo
vicioso da desinformação, e interessando-se pelas verdadeiras mudanças que devem acontecer
em todas essas áreas, e que realmente irão levar a amenizar as desigualdades encontradas em
nossa sociedade.
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como considerações finais, quero expressar a minha preocupação com o futuro da
profissão de bibliotecário e dos profissionais e estudantes de biblioteconomia. Tendo apenas
um ano para concluir o curso, não sinto segurança para enfrentar o mercado de trabalho.
Na minha condição de estudante, percebo o quanto colegas já formados não estão
preparados para continuarem bem sucedidos em suas carreiras profissionais. Na condição
atual, estão apenas exercendo a função de ‘guardadores de livros’. É preciso à
conscientização, no que diz respeito a atualização dos profissionais que atuam hoje no
mercado de trabalho, e essa necessidade somente eles poderão perceber, espero que quando
isso acontecer não seja tarde demais.
Quanto aos colegas estudantes, precisamos mudar nossa condição e juntos
quebrarmos o ciclo passivo do ‘fingem que ensinam, que eu finjo que aprendo’, e também
buscar novos conhecimentos fora da sala de aula.
Para embasar minhas considerações cito DIAS (1995, p.202), quanto as
recomendações feitas no BIBLOS 2000, às Escolas de Biblioteconomia e aos profissionais da
informação.
“ Às Escolas de Biblioteconomia
a) Que haja uma identificação e renovação sistemática dos aspectos teóricos
e práticos no ensino das novas tecnologias da informação.
b) Que haja aplicação e ensino do uso das novas tecnologias de informação
como ferramenta de trabalho na execução de tarefas extraclasse, trabalhos
independentes, trabalhos científicos, investigações, seminários,
conferências eletrônicas e trabalhos de conclusão de curso.
c) Que haja integração de preparação tecnológica mediante a interrelação e
incremento dos conteúdos de tecnologias da informação em todas as
disciplinas do currículo.
d) Que se faça uma revisão da formação básica e de pós-graduação dos
bibliotecários, de forma a capacitá-los a interagir nos novos ambientes
educacionais.
Aos profissionais da Informação
a) Que ocupem o espaço que lhes compete no planejamento e operação das
redes eletrônicas de informação.
b) Que assumam uma atitude pró-ativa em relação ao ambiente e
especialmente aos seus clientes.
c) Que contribuam para a formação do cidadão crítico através de todo o
tipo de biblioteca e que as novas tecnologias sejam utilizadas também para
este fim.”
Os estudantes, por fim, devem participar ativamente de seus Centros Acadêmicos,
Diretórios Acadêmicos, Encontros Regionais e Nacionais, Seminários, Fóruns, enfim participar
de todos os acontecimentos a fim de discutir a melhoria do curso e da profissão.
6
CONCLUSÃO
Como conclusão, quero acrescentar que este artigo não pretendeu aprofundar
conceitos acerca das novas tecnologias, do futuro profissional, e da relação destes com o novo
usuário. O objetivo foi de despertar os estudantes e profissionais para o futuro que podemos
dar a nossa profissão e ao curso.
Cabe a cada bibliotecário, estudante e docente do curso de biblioteconomia,
decidir qual a condição que melhor lhe convier, e também refletir sobre o futuro da profissão.
Cabe ao usuário decidir se quer realmente suprir suas necessidades informacionais, e
juntamente com os três primeiros, mudar os rumos do país.
Vejo que nossa situação não é das melhores, mas ainda a tempo para que no
mínimo ela não piore. Não será esse artigo que mudará os rumos da profissão, mas espero que
possa servir de reflexão profunda e crítica de nossa situação. Desejo ainda que sirva de
estimulo para que outros estudantes, sigam este exemplo e produzam discussões acerca da
situação atual e relatem essas experiências, gerando um ciclo de mudanças positivas e
proveitosas para nosso curso, formação profissional e futuro da profissão.
Abstract:
Librarianship and new tecnologies utilization caracteristics, and the
relation of it with the user. Shous it new tecnologies coming
consequencies on the user’s and information professional’s profile too.
Report personal consideration about student formation situcition, about
professional’s optating and the influence of botth to tings on the user’s
critical formation.
Keyworks:
Librarinship/Profile. User/Profile.
Librarinship/ Future.
New Information Technologies.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
1
AMARAL, Sueli Angélica do. Serviços Bibliotecários e Desenvolvimento Social: um
desafio profissional. Ciência da Informação, Brasília, v.24, n.2, p.221-227,
maio/ago. 1995.
2
CARVALHO, Walder. Palestra proferida no XIX Encontro Nacional dos Estudantes de
Biblioteconomia e Documentação. Belo Horizonte, EB/UFMG, junho de 1996.
3
DIAS, Eduardo José Wense. Recomendações Finais Bilblos 2000. In ANAIS do 2º
Congresso Latino-Americano de Biblioteconomia e Documentação, 17º
Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação. Belo Horizonte,
ABMG, 1995. v.2.
4
FIGUEIREDO, Nice. As Novas Tecnologias: previsões e realidade. Ciência da
Informação, Brasília, v.24, n.1, p.110-118, jan./abr. 1995.
5
MILANESI, Luiz. Palestra proferida no Fórum Biblioteconomia InTransformação.
Porto Alegre, FABICO/UFRGS, janeiro de 1997.
6
PEREIRA, Maria de Nazaré Freitas. Bibliotecas Virtuais: realidade, possibilidade ou alvo
de sonho. Ciência da Informação, Brasília, v.24, n.1, p.101-109, jan./abr. 1995.
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