ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128
Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra
São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015
CENAS DA RESISTÊNCIA: TEATRO FEMININO NA BAHIA DOS ANOS SETENTA
Rosinês de Jesus Duarte (UFBA)
1 A Filologia lendo um Teatro produzido por mulheres: primeiras palavras
O estudo das peças teatrais censuradas escrita por mulheres busca
entender como e sob que circunstâncias esses textos foram escritos, como foi sua
circulação e quem são esses sujeitos, o que as identifica, que discursos produzem
suas subjetividades e que “ficção” forma o eu de cada uma delas. Para tanto,
parte-se do porto Filologia para ativar uma leitura minuciosa da materialidade
textual, entendendo que, na construção do sentido dos textos, estão imbricados
os sujeitos-autores, editores, censores, público etc.
Usufruindo do viés multi e transdisciplinar das práticas filológicas,
este artigo objetiva produzir-se a partir do diálogo da Filologia com a História,
com a Literatura, com o Teatro, etc. Esse diálogo será viabilizado pela breve
apresentação dos textos e das autoras que protagonizaram a cena do teatro
baiano na década de setenta, observando as formações discursivas que mobilizam
esses discursos e como esses sujeitos-autores produzem sua subjetividade e
inscrevem essa identidade feminina em seus textos, driblando e resistindo à força
da censura militar. Busca-se, com isso, observar como a escrita feminina ganha
eco nos teatros baianos. Ou ainda, se é possível perceber essa “escrita feminina”
nos textos ou se, em meio à Ditadura, essa escrita foi silenciada.
De acordo com Nelly Richard, “falar em ‘escrita feminina’ é o mesmo
que se perguntar como o feminino, em tensão com o masculino, ativa as marcas
da diferença simbólico-sexual e as recombina na materialidade escritural dos
planos do texto?” (RICHARD, 2002, p. 129). Ressalte-se que escrever sob a égide
do “feminino” é, de certo modo, desafiar uma constituição ideológica dos modos
de representação predominantes na sociedade, é assumir o lugar e o modelo da
“diferença”.
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Sendo assim, a linguagem ativada por essas mulheres no teatro
baiano dos anos setenta imprime marcas de uma escrita feminina em tensão com
um teatro predominantemente masculino, pois como lembra Elódia Xavier:
Sabe-se da estreita relação entre linguagem e sujeito, e,
portanto, quando uma mulher articula um discurso este traz a
marca de suas experiências, de sua condição; práticas sociais
diferentes geram discursos diferentes (XAVIER, Elódia, 1991,
p. 13).
É importante salientar que ao trazer à cena uma representação do
feminino nos textos teatrais, não se pretende estabelecer um sujeito único,
central, mas é sob o descentramento do sujeito que se pretende essa análise, ou
seja, pensa-se esse feminino perpassado por múltiplas forças heterogêneas que
proporcionam um constante desequilíbrio desse sujeito.
2 O TEATRO PRODUZIDO POR MULHERES
Apresenta-se aqui um panorama da atuação de algumas mulheres no
teatro baiano, entrecortado por fatos biográficos, por suas preferências e suas
denúncias. Para dar início a esse percurso, trazemos à cena peça teatral Sarna
(1975) de Aninha Franco. Nesse texto, a dramaturga traz à cena a personagem
Dona Senhor que, considerando a sua classe social, acredita que não será
acometida por uma epidemia de sarna que persiste por sete anos, até que sua
filha seja atingida e o fato a faça entender que qualquer um pode ser prejudicado.
O caráter satírico impresso nesta peça pode ser notado já na abertura, em que a
autora dá o significado dicionarizado de ‘sarna’ e, em seguida, apresenta o nome
das personagens: Dona Senhor; Senhor Dona; Filha Gente; Empregada Coisa;
Liquidificador Histérico; Criado Mudo, etc.
Note-se que não há sequer uma personagem com nome próprio, a
caracterização dessas é sugerida e ironizada pelo próprio nome: Dona Senhor;
Senhor Dona; Filha Gente etc. Todos imbrincados numa trama que consiste em
esquivar-se da epidemia ‘sarna’. A epidemia de ‘sarna’ pode ser lida como
alegoria para os males causados pela Ditadura Militar. Através de uma linguagem
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cheia de símbolos, Aninha Franco imprime seu discurso, pautada na situação de
produção dos anos setenta.
Nivalda Costa é a segunda dramaturga a integrar esse mapeamento.
Sua produção teatral na década de setenta é o resultado de um dos seus dois
grandes projetos artísticos: "Série de Estudos Cênicos sobre Poder e Espaço", e o
segundo é a "Série de Estudos sobre Etnoteatro Negro Brasileiro".
Em entrevista concedida a ETTC, em 2007, Nivalda Costa ressalta que
“nossas vidas aqui era fazer arte, uma arte de driblar leões e atacar dragões e essa
era nossa arma” (COSTA, 2007). Sua produção teatral, principalmente na década
de setenta, corrobora esse compromisso com a arte e com a sociedade, no que
tange à resistência, à luta da linguagem cênica contra a força bruta da ditadura
militar.
Em Anatomia das feras, peça de Nivalda Costa, de 1978, o cenário é
um sanatório, no qual os pacientes encenam um auto sobre a morte da
Liberdade. As personagens lançam mão da linguagem simbólica, de jogos
silenciosos para trazer à baila o contexto ditatorial. Esta peça teve um parecer
desfavorável à liberação pelos censores, de acordo com o parecer, com carimbo
da Divisão de Censura de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal,
“Anatomia das feras, embora possua uma descrição simbólica, revela toda uma
contestação político-ideológica contra determinado poder”. Ainda neste parecer,
os dois censores que o assinam, detalham a simbologia de cada personagem e
afirmam: “Ernest Bravos Fortes, o coisa = alusão insofismável ao nosso atual
presidente da República”. O atual presidente era o general Ernesto Gaisel.
A produção de Nivalda Costa mostra que, mesmo em tempos de
chumbo, é possível fazer um teatro subversivo e político-ideologicamente bem
definido.
Este mapeamento segue trazendo à cena a multifacetada Jurema
Penna que foi advogada, atriz, dramaturga. Em parceria com Leonel Nunes,
Reinaldo Nunes e Sóstrates Gentil fundou a Companhia Baiana de Comédia − CBC.
Em entrevista concedida a Lena franca, em 1984, ela diz que a CBC foi criada com
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o intuito de fazer um teatro profissional na Bahia, que se preocupasse em levar o
teatro aos desfavorecidos, nas periferias, nas penitenciarias, etc. (ALMEIDA, 2011,
p. 43).
Após passar muitos anos no Rio de Janeiro, no auge da carreira como
atriz na rede globo, em 1973, Jurema Penna retorna à Bahia, estreando Negro
amor de rendas Brancas, de sua autoria. Nesse texto, a dramaturga problematiza
questões como os preconceitos de raça e de gênero. Põe em cena o drama de um
casal: Juliana Rezende, atriz, branca; e Paulo Bispo dos Santos, arquiteto, negro e
mais jovem do que Juliana. A relação entre os dois se complica no momento em
que Paulo enfrenta um desafio profissional e Juliana interfere no sentido de
beneficiá-lo. Esse fato desencadeia uma desconfiança por parte de Paulo que
questiona a validade do relacionamento. Essa crise gera, no decorrer da peça,
uma série de situações que traz à tona a continuidade dos discursos sobre a
mulher que devem estar subjugadas à dominação masculina, através da cena em
que Paulo dá uma bofetada em Juliana e, simultaneamente, o preconceito contra
o homem negro que chega a ser chamado de “negro sujo” pela própria esposa,
em meio à uma briga do casal. Observe-se como Jurema Penna levanta questões
sociais importantes através de um drama numa relação conjugal.
As escolhas feitas pelas autoras aqui apresentadas mostram como
essas mulheres usaram a linguagem teatral para acessar formas simbólicas de
cultura e de poder na Bahia, na década de setenta. Pois, como lembra Cunha
(2012, p.9), quando uma mulher escreve, quando usa a palavra, o faz para veicular
perspectivas.
3 PALAVRAS FINAIS
Reunir os sujeitos que atuaram na produção de um teatro feminino
na Bahia da década de setenta, é um exercício necessário para viabilizar futuras
análises filológicas dos textos aqui elencados. Aninha Franco, Nivalda Costa e
Jurema Penna são exemplos da atuação feminina num teatro cuja palavra estava
controlada pelo poder militar. Entretanto, percebe-se que a escrita feminina, seja
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através do drama numa relação conjugal, seja através de releituras de clássico
como o Pequeno Príncipe ou através de musical que traz a música folclórica
tradicional baiana para o foco; denuncia, resiste e coloca em pauta a realidade
vivenciada.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Isabela Santos de. Três fios de bordado de Jurema Penna: leituras
filológicas de uma dramaturgia baiana. Salvador, 2011. Dissertação de mestrado,
orientada pela Profa. Dra. Rosa Borges dos Santos.
CHARTIER, Roger. Do Palco à Página: publicar teatro e ler romances na época
moderna, séc. XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.
COELHO, Nelly Novaes. A literatura feminina no Brasil contemporâneo. São
Paulo: Siciliano, 1993.
CUNHA, Paula Cristina Ribeiro da Rocha Morais. Da crítica feminista e a Escrita
feminina. Revista Criação & Crítica, n.8, p.1-11, abr, 2012. Disponível em:
http://www.fflch.usp.br/dlm/criacaoecritica. Acesso em jan 2013.
RICHARD, Nelly. A escrita tem sexo? In.: RICHARD, Nelly. Intervenções críticas.
Arte, Cultura, Gênero e Política. Trad. Romulo Monte Alto. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2002.
RODRIGUES, Carlos; MONTEIRO, Vicente; GARCIA, Wilson de Queiroz. Censura
Federal. Brasília: C.R. Editora Ltda., 1971
XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa de autoria feminina. In. XAVIER, Elódia
(Org.) Tudo no feminino: a mulher e a narrativa brasileira contemporânea. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1991.
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