SEMINÁRIO DE ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS – APL’s - Gerando desenvolvimento em cada canto do Espírito Santo Vitória, 13 de maio de 2009, FINDES. SÍNTESE DO SEMINÁRIO Palestra: APL como Instrumento de Interiorização do Desenvolvimento Palestrante: Marco Crocco O tema é extremamente importante especialmente para aqueles que trabalham com APL regional e desenvolvimento, preocupados com o combate as disparidades regionais. Como a platéia é composta por gestores envolvidos na elaboração e na implementação de políticas públicas e na condução dos instrumentos voltados para os arranjos produtivos locais (APL), a palestra não enfatiza a visão acadêmica do assunto, traz uma visão provocativa, um olhar de fora. Geralmente as pessoas que estão diretamente envolvidas na condução e na elaboração de políticas para arranjo produtivo têm dificuldade de olhar de fora e ver como as coisas estão evoluindo. O tema arranjos produtivos locais, como o nome ficou conhecido no Brasil, gerou uma grande discussão, que se estende por dez anos no país. Devido a esse longo período de discussão faz-se necessário um resgate da história desse conceito, determinando como ele vem sendo utilizado e como poderia estar sendo utilizado. O objetivo é entender como esse conceito foi evoluindo e sendo instrumentalizado, e a partir daí, entender os limites de sua potencialidade. A discussão de arranjo produtivo local, onde há aglomerações industriais especializadas e concentradas num determinado espaço, tem origem e é difundida através de três trabalhos clássicos: SCOTT (1980)1, PIORE & SABEL (1984)2 e seis anos depois MICHAEL PORTER (1990)3, The Competitive Advantage of Nations. Esses três trabalhos são praticamente seminais na discussão de arranjos produtivos locais, ou clusters como foram chamados anteriormente. 1 Scott (1980) New Industrial Spaces: flexible production organization and regional development in North America and Western Europe. Descrições de casos de desenvolvimento de regiões bem sucedidos. 2 Piore & Sabel (1984) Second Industrial Divide. Descrições de casos de desenvolvimento de regiões bem sucedidas. 3 Michael Porter (1990) The Competitive Advantage of Nations. Possui um aspecto normativo. Ocorre a transposição direta de analises de casos de desenvolvimentos naturais, para uma postura normativa. Há suposição de que o desenvolvimento natural de clusters em espaços geográficos específicos poderia ser replicado na forma de políticas planejadas de desenvolvimento de áreas menos favorecidas. Dentro desta perspectiva também está à suposição de que os vários fatores não tangíveis que foram determinantes para a explicação dos sucessos das áreas pioneiras podem ser induzidos. Os dois primeiros trabalhos eram descrições de casos de regiões bem sucedidas, são meras discussões da Terceira Itália e do Vale do Silício. Essas experiências têm como características a forma de organização da produção. Essa forma consiste em pequenas empresas especializadas e do mesmo setor, localizadas em uma mesma região, que conseguirem por meio de experiências de cooperação e de compartilhamento de risco, mesmo em um mundo extremamente competitivo, simular e disputar com grandes empresas foram trabalhos de descrições de caso. O terceiro trabalho, cujo autor é Michael Porter, se diferencia por não ser um trabalho de descrição de caso. Por esse motivo pode-se dizer que há uma perspectiva mais normativa. Porter diz que a organização da produção deve ser feita de determinada forma, possibilitando a transposição direta de análises de casos. Dessa forma temos não uma descrição, mas uma norma. Isso possibilitou a transposição direta de análises de casos de desenvolvimentos naturais para uma postura normativa. Por trás do conceito de Porter estava a suposição de que o desenvolvimento natural de APL’s em espaços geográficos específicos poderia ser replicado na forma de políticas planejadas de desenvolvimento de áreas menos favorecidas. Essa é a importância do trabalho de Porter, ele analisa uma experiência e transforma isso num modelo a ser implementado. A suposição de que vários fatores não tangíveis como cooperação e confiança, poderiam ser induzidos e que foram esses fatores determinantes para explicar o sucesso da Terceira Itália, do Vale do Silício e de outras experiências é de extrema relevância. Esses fatores não são mensuráveis, mas especificamente podem ser induzidos. Dessas três abordagens, a de Porter tornou-se a mais difundida. Transformou-se em parâmetro de avaliação ou instrumento de aplicação de arranjos produtivos locais. São três os motivos que tornaram sua abordagem a mais difundida. O primeiro motivo consiste na discussão de arranjo produtivo local de forma específica, parte do conceito de produção e chega ao de competitividade e inserção internacional. Para os policies makers e para os gestores públicos isso é favorável. Porter transforma aquele instrumento e liga aquela experiência na discussão de se tornar competitivo e ter inserção internacional. Isso se firmou como um elemento fundamental para aqueles que são responsáveis pela elaboração de políticas, porque lhes oferece um instrumento. Para iniciar a discussão a respeito do segundo motivo, é necessário saber que a literatura de hoje reconhece o conceito de APL. As pessoas que trabalham ou trabalhavam com APL sabem que esse é um conceito extremamente vago. Para exemplificar tal fato cita-se uma publicação de MARTIN (2004)4 que lista dez definições distintas de APL. Na literatura internacional, o termo APL é denominado cluster. No Brasil, a literatura possui as seguintes definições: arranjo produtivo local, sistema produtivo local, sistemas industriais descentralizados e clusters. A literatura, no seu início, usa de várias definições. Ainda hoje existem teses de mestrado e de doutorado que trabalharam conceito e acharam classificações distintas. Na verdade, o tema arranjo produtivo local que surge foi muito difundido em função do trabalho que a REDESIST5 realizou. Por ser extremamente vago o conceito, permitiu que seu uso fosse feito de forma indiscriminada. O termo APL, poderia se aplicar para qualquer setor onde se observava uma aglomeração. Utilizar termos como: APL, APL imaturo, sistema desenvolvido, não desenvolvido; permitiu o uso de uma forma para definir as aglomerações e isso facilitou a sua difusão. E o terceiro motivo é que tudo isso ocorre num momento em que o estado keynesiano clássico, estava passando por uma crise. O Estado interventor da economia a dirige por meio de uma forte inserção ou por meio das suas próprias empresas atuando no setor produtivo. Esse modelo de gestão pública estava passando por uma crise. O momento atual é de políticas top- down (de cima para baixo), por meio dessas o desenvolvimento regional seria feito por pólos de encadeamento os chamados a la Perroux. Ao introduzir uma grande fábrica no meio do Nordeste, por exemplo, o desenvolvimento se realizaria e sem a consulta se a cidade precisava ou não disso, não se analisava de forma direta a cidade e quais seriam os encadeamentos resultantes dessa política. Ocorre então uma substituição. Essa política está em crise e por isso tem-se uma mudança para a política botton-up. Nessa concepção de arranjo produtivo local, se dá ênfase da região. Essa substituição de políticas ocorre no momento em que essa experiência, que tem ênfase no setor, na especialização regional e na mobilização do potencial local, apresenta a combinação de três fatores. O primeiro deles é o instrumento de política que Porter conseguiu operacionalizar, contudo, o conceito de APL é complicado, vago e posteriormente será demonstrado como é pouco definido. Aqueles que trabalham com APL sabem como é difícil determiná-lo, onde ele começa e onde ele termina, qual setor entra e qual setor não entra, se ele termina aqui ou se vai até a cidade seguinte. Soma-se a isso a crise do Estado. Tudo isso permitiu a propagação desse instrumento de organização industrial e a sua difusão enquanto instrumento de política. 4 Conceito extremamente vago (Martin 2004, Perry 1999, Steiner 1998). Uma rede de pesquisa interdisciplinar, formalizada desde 1997, sediada no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e que conta com a participação de várias universidades e institutos de pesquisa no Brasil, além de manter parcerias com outras instituições da América Latina, Europa e Ásia. 5 Os benefícios trazidos pelo debate sobre APL permitiu uma discussão sobre os prós e contras da difusão do conceito e tentou chegar numa reflexão um pouco mais crítica. O maior benefício é ter possibilitado o surgimento de um instrumento de mobilização local, independente do nome dado e de qual conceito se utilize. Foi possível ainda instrumentalizar os agentes locais como um mecanismo, como um objeto. Possibilitou um discurso em que os interesses coletivos seriam colocados em primeiro lugar. Não é mais a competitividade da empresa que importa, mas sim a competitividade da região. No arranjo produtivo local encontramos o binômio competição e cooperação, apesar disso não é mais sua discussão que importa, mas sim a que gira em torno das empresas que competem por pertencerem a um mesmo setor e que por isso cooperam entre si. O agente possibilita colocar interesses coletivos, dar materialidade a valores intangíveis, tais como cooperação e identidade cultural. Existe a possibilidade de se instrumentalizar isso com um objetivo. Se um indivíduo produz e vende sapatos, por exemplo, porque um outro empresário da mesma atividade iria cooperar com ele? Mas isso ocorre para se incorporar valores culturais, para partilhar experiências, tudo isso está na concepção de arranjo produtivo local. A sociedade é detentora desse instrumento, o maior benefício da discussão a respeito da experiência de arranjos produtivos locais é a sua instrumentalização, é a possibilidade de mobilização. O segundo benefício se tornou uma das possíveis formas de transmissão de conhecimento e tecnologia. Numa sociedade baseada na era do conhecimento, como a de hoje, isso é de grande importância. A incorporação dessa informação é sempre importante, seja para gerar inovação, seja para agregar valor. Não se agrega valor reduzindo apenas custos, agrega-se valor ao produto introduzindo conhecimento. Na sociedade atual, essa forma de organização e difusão facilitou muito a transmissão de informações por diversos mecanismos. O APL facilita a transmissão do conhecimento tácito, aquele que não pode ser formalizado. Um agente pertence a uma cidade que produz calçados, por exemplo, e outro agente de outra cidade também produz calçados. Eles, então, compartilham da mesma experiência; pertencem, as vezes a uma mesma associação ou até a um mesmo clube. Isto permite uma troca de práticas e de conhecimento tácito. Esse permite a transmissão e a geração de práticas e de tecnologia; o compartilhamento de custos e riscos no desenvolvimento de tecnologia, isso é de extrema importância o APL permite a absorção de externalidades de conhecimento devido à proximidade. Por exemplo: um agente faz uma experiência em um local, e outro agente que se encontra no mesmo local recebe esse conhecimento que ou transborda para ele de alguma forma, ou é passado por meio do contato entre eles. Então essa difusão influi de forma importante. O terceiro benefício possibilitou o surgimento de instâncias de planejamento nas quais distintas escalas podem ser consideradas. Ou seja, o diálogo entre o local, o regional e o nacional. Em determinadas aglomerações, o diálogo é global ou local. Isso forçou uma forma de planejamento não necessariamente generalizada. Abre-se a possibilidade do local passar a ter importância e ser um elemento central no processo de elaboração de políticas. A concepção de planejamento permite que distintas escalas sejam consideradas, como o local, o regional e o nacional. Essa discussão de APL possibilitou tal consideração na qual não é generalizada. Tem formas e intensidades distintas. Em alguns locais, o planejamento ficou apenas no local e outros continuam apenas no nacional. Ou seja, o APL sendo top-down inteiramente ou botton-up inteiramente. Há alguns locais que tentam fazer essa intermediação. Para uma visão crítica, analisemos alguns problemas. O primeiro problema é a imprecisão do conceito que permite que o mesmo seja utilizado para diversas perspectivas, às vezes contraditórias. APL virou um mero instrumento de política, seja industrial, de inovação, de combate à desigualdade regional, de comércio exterior e de inserção internacional. Tais conceitos foram tirados do “Termo de Referência para a Política de Apoio ao Desenvolvimento de Arranjos Produtivos Locais” do GTP. Um grupo de trabalho permanente, coordenado pelo ministério. Consta no Termo de Referência quais os objetivos do plano, são eles: o desenvolvimento econômico, a redução das desigualdades sociais e regionais, a inovação tecnológica, a expansão e a modernização da base produtiva, o crescimento do nível de renda e emprego, a redução da taxa de mortalidade de micro e pequenas empresas, o aumento da escolaridade e capacitação, o aumento da produtividade e competitividade, o aumento das exportações. Tudo por um único instrumento. Nesta abordagem só não há o combate a inflação. Esses são os problemas que a teoria econômica propõe ao conceito de APL para que sejam resolvidos. O conceito de APL resolveu o problema que a teoria econômica vem tentando resolver desde que Smith escreveu A Riqueza das Nações, o problema do conceito vago. Não necessariamente uma política de inovação tecnológica, vai ser coincidente com a política de redução das desigualdades regionais. Tecnologia não é necessariamente bem distribuída no espaço, mas pode tornar-se bem distribuída. Sabe-se muito bem que a estrutura de ciência e tecnologia no Brasil é concentrada. Então se não se utiliza o APL como instrumento de inovação, parte-se de um principio de restrição espacial. A estrutura da ciência e tecnologia é concentrada em centros urbanos. A proximidade é importante para a difusão da tecnologia. Como ela pode ser feita num APL que está no interior do Estado se em três horas eu posso estar em qualquer lugar no Estado? Em Minas Gerais as cidades se distanciam de 800 km, neste Estado. Isso é importante para entender o problema do conceito vago, o termo foi usado de forma generalizada e às vezes, para políticas contraditórias. O APL pode ser usado para o desenvolvimento regional, para a inovação e pode ser usado ainda para o aumento das exportações, mas não necessariamente todo APL vai conter essas características. Existe APL que irá resultar numa coisa e APL que irá resultar numa outra coisa. O conceito vago faz com que não exista um método de identificação e mapeamento de APL’s que seja amplamente aceito, seja pelos estudiosos, seja pelos policies makers. Há ausência de fronteira bem definidas, tanto do ponto de vista geográfico, quanto industrial. Em qual nível de agregação industrial um APL deve ser definido, e quais atividades industriais associadas devem ser incluídas? Se alguém se propõe a estudar calçados, até onde o APL deve descer para ser considerado APL, qual o nível de fornecedor pode-se considerar como membro do APL ou qual nível de atividade que deve-se tentar trazer para aquele APL. O modo como se faz a desagregação não é consenso. Qual deve ser a intensidade das relações entre as firmas dentro do APL? APL requer cooperação? Como mede-se e em que nível será a intensidade que essa cooperação deve ter. Como mensurar, qual a escala espacial, como definir, é cidade, é bairro, é microrregião, quantas cidades? No site do CEDEPLAR6 está disponível uma metodologia da identificação. Mas chegará um momento em que se terá que tomar uma decisão e não se chegará num acordo. Um conceito vago faz com que as políticas se tornem pouco associadas ao referido conceito. O texto do MARTIN (2004)7 lista quatro ações de instrumentos que praticamente todo APL possui: criação de redes de cooperação e encorajamento de diálogo entre atores (firmas, agências, governo), marketing coletivo, provimento de serviços especializados às firmas locais e identificação das fraquezas existentes. Essas ações se mantêm ainda que o termo APL seja retirado, elas não precisam do termo APL para se sustentarem. O SEBRAE já fazia identificação de fraquezas; sempre trabalhou nesse sentido. Vários órgãos estaduais fazem isso para o desenvolvimento de 6 Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG. O CEDEPLAR abriga os programas de pósgraduação (mestrado e doutorado) da UFMG em Demografia e em Economia e desenvolve um amplo programa de pesquisas nestas áreas. 7 Martin (2004) setores especializados. Mede-se a abordagem de APL, o quanto ela é necessária para a implementação de políticas e em que medida aumenta sua eficácia ou não. Por exemplo, o marketing coletivo já existia na política sem se falar de APL. Quando se fala do vinho de Bordeaux, por exemplo, já existia um marketing coletivo há muito tempo. Outro problema e outra restrição é a capacidade de uma região autônoma de enfrentar um mundo globalizado, esse é um problema que hoje se tornou uma questão central. Com ênfase no local, surgiu a discussão de que desenvolvimento é algo local, mas em que medida e em qual potencial as políticas botton-up tem de combater forças como as que marcaram a década de 1980 e 1990 e que tiveram a centralização do sistema financeiro e a integração produtiva. O APL tem extrema dificuldade em controlar forças que podem afetar diretamente as ações locais e que possuem uma dimensão trans-territorial, tais como: regras de comércio e padrões de funcionamento do sistema bancário. O APL, hoje, possui um papel frente à crise. Existe uma necessidade de reconhecimento cada vez maior da importância de fatores extra APL´s para o desenvolvimento deste APL. Não se pode cair na falácia do botton-up descrito, do mesmo jeito que era o top-down descrito, e achar que só porque hoje se está num local coordenando esforços e identificando as potencialidades se pode enfrentar um mundo globalizado. Se existe um APL e normalmente os focos de políticas estão dentro dele próprio, é importante ressaltar que hoje existe uma série de fatores extra APL que tem influência sobre o seu desenvolvimento e devem necessariamente ser fonte de política. Essa deve dialogar com a política tributária e com a política macroeconômica. Não se deve ajudar na balança comercial com uma taxa de câmbio flutuante se o objetivo é um APL de inserção internacional, isso porque, fica-se sujeito a forte desvalorização. Por exemplo, se o câmbio flutua e permite valores como os que se tinha recentemente à exportação de calçados, roupas, produtos mais tradicionais e as commodities ficam diretamente afetadas, se faz necessária, então, uma organização. Estabelecer esse diálogo não significa limitar o APL ou diminuir a importância dele, mas entender que a política de desenvolvimento do APL passa por um diálogo constante com políticas fora dele. Existe um pouco a visão idealista do local, de como aquela comunidade vai se organizar e gerar o desenvolvimento daquela região. Na verdade, os atores locais também têm diferenças entre eles. Não é por que alguém nasce em Ubá, que não há diferença entre ele e seu vizinho. Não se pode ter uma visão diferenciada para do que é importante para o desenvolvimento de uma cidade. Existe uma visão idealista. O que se tenta é superar diferenças locais através de um plano de desenvolvimento para a região. O planejamento estratégico é um elemento de convênio com a sociedade. A partir daí se estrutura a governança que vai dirigir aquele APL por meio desse planejamento. Ele é um instrumento de gestão administrativa que substitui a construção cultural e sociológica daqueles casos, esse é o problema da transposição. Como exemplo, temos a Terceira Itália. É uma história que vem antes da Primeira Guerra Mundial, de produtores artesanais que enfrentaram o fascismo da Segunda Guerra Mundial. Apresenta toda uma trajetória de construção de laços que permitiu que tivessem cooperação e entendimento entre eles, fatores importantes para o desenvolvimento do APL. Hoje quando se tenta construir ou induzir o APL, essa forma de organização é feita por meio de um elemento de gestão, o planejamento estratégico, e aqui isso representa o maior risco que o desenvolvimento do APL possui, o risco da captura. O fato de alguém elaborar um plano de desenvolvimento, um plano estratégico, e de estar dialogando com o local, não impede e nem elimina os riscos desse desenvolvimento ser capturado por outros grupos de interesse da região. Esse risco existe porque faz parte da sociedade e não deve ser encarado como um problema e nem, tampouco, como juízo de valor, pois é um risco real. Essa captura pode ser positiva e negativa. A construção da governança local, por isso, é considerada uma visão idealista do local. A região também é conflituosa e necessariamente isso pode atrapalhar ações de cooperação que são fundamentais para o desenvolvimento. Existe também a idéia de que o empoderamento e o desenvolvimento local são uma relação direta, se alguém possuir poder tem-se desenvolvimento. Na verdade, isso não é uma relação direta, dar poder é importante, mas isso não significa desenvolvimento econômico. O mais importante seria o ponto de vista do planejador ou dos gestores de políticas públicas. Pouco se sabe sobre impactos do APL no seu entorno. Quais são os efeitos sobre as áreas não abrangidas pelos APL´s? O que fazer com essas áreas em que não existem APL’s. As disputas entre APL’s provocam conseqüências e essas constituem um problema que acompanha os novecentos APL´s registrados no MDIC. Isso porque todos deveriam ter um APL em sua região. Se eles não existissem no Brasil, não se conseguiria ter política. Uma quantidade de recursos está sendo aportadas para esse instrumento. Se não existir numa cidade um APL, não se terá acesso a esse recurso. A política generalizou dessa forma, e quem não conseguiu? Citando um exemplo de Minas, Nova Serrana é um APL conhecido de calçados que tem à sua disposição recursos. Três cidades vizinhas a Nova Serrana não possuem APL, como proceder com estas cidades, então? Nova Serrana está disputando recursos com Divinópolis e Ubá. Isso demonstra a necessidade de um planejamento que vai além do APL. Apresenta o limite desta política enquanto instrumento de desenvolvimento, porque ela vai cuidar de um local enquanto outros também merecem atenção. Depois de toda essa reflexão chega-se ao tema da palestra, “O APL como instrumento de interiorização do desenvolvimento”. Desde que entendido prioritariamente como instrumento de política regional, o APL pode ser considerado instrumento de interiorização do desenvolvimento, mas antes de ser visto como um instrumento de política regional é necessário definir os instrumentos, objetivos, metas e principalmente critérios de avaliação condicionados claramente pela perspectiva regional. Se o que se deseja é interiorizar o desenvolvimento, deve-se levar em consideração as variáveis que serão utilizadas e as metas que se tem em vista. Não são necessariamente metas de exportação, o que não significa que não se vai buscar esse objetivo. Se o que se quer é interiorizar o desenvolvimento, os instrumentos e os critérios que devem ser avaliados não necessariamente precisarão que se introduza metas de inovação. Com o tema “O APL como instrumento de interiorização do desenvolvimento” temos o objetivo definido. Falta, então, determinar uma configuração específica para esse APL. Se vai interiorizar o desenvolvimento, deve possuir um impacto claramente regional. Se o objetivo fosse o APL como instrumento de inovação, deveriam ser definidos instrumentos, objetivos e metas distintas se for o caso outro APL deveria ser escolhido para se discutir o assunto. No caso especifico, enquanto instrumento de política regional, o APL tem que ser entendido como instrumento de geração de renda e de objetivo emprego, por que do ponto de vista das diferenças regionais isso é o mais importante. Uma experiência que vale a pena ser citada é o APL de Nova Serrana, visitado pelo palestrante em 2001. Essa cidade está localizada perto de Belo Horizonte. É considerada a capital nacional do tênis por possuir a maior concentração de fábricas de tênis. Esse APL se desenvolve numa cidade de boiada, de parada de vaqueiros. Em função disso desenvolveu-se habilidades para concertar couro, arreio e materiais de couro que eram utilizados pelos vaqueiros. Inicialmente se tem o desenvolvimento de uma indústria de couro para calçados. Em 1970, Chiquinho Cheiroso vai para Nova Serrana, e monta uma grande fábrica de falsificação de tênis. Lá eram feitas falsificações de Rebook, Adidas e várias outras marcas. Chiquinho Cheiroso é preso e muitas pessoas especializadas em produzir tênis ficam sem ter onde produzir. Uma fábrica de caçados possui uma barreira tecnológica e de entrada muito pequena, com dez mil reais é possível montar uma fábrica de calçados. As pessoas que antes trabalhavam com Chiquinho Cheiroso começaram a montar suas próprias fábricas de tênis e hoje no local existem muitas delas, não se produz mais artigos falsificados. Esse era o APL de Nova Serrana da última vez que foi visitado. A principal forma de comercialização desse calçado era por meio do marreteiro, indivíduo que comprava vários pares do calçado nas fábricas e com veículo próprio fazia as vendas principalmente no interior de Minas e sertão da Bahia. O público alvo era geralmente as classes C, D e E. Em Nova Serrana, havia em torno de trezentas empresas. A contagem feita pela Cemig8 aponta para cerca de oitocentas empresas. Não havia exportação nesse APL, o departamento de P&D dele consistia num único indivíduo cujos recursos eram revistas italianas de onde ele retirava a moldura dos tênis, não usava nem o CAD/CAM, nem computador para fazer o desenho e definir o corte do produto. Todas essas características são condenáveis num APL. Esse APL era pouco desenvolvido, não exportava e não tinha introdução de tecnologia. No entanto, todos da região estavam empregados; jovens empreendedores abriam lojas. Alguns saiam da empresa, juntavam dinheiro e montavam sua própria fábrica de tênis. Do ponto de vista do desenvolvimento regional esse caso era um sucesso absoluto, se forem levados em consideração os indicadores, por exemplo, o IDH da cidade em 2000 e do censo anterior. Nova Serrana, comparada com cidades do mesmo tamanho, encontrava-se na septuagésima posição. Já entre 1990 e 2000, ela se encontrava no vigésimo sexto lugar no IDH entre as cidades de mesmo tamanho. Por isso é que se considera a geração de renda muito importante. Do ponto de vista do APL enquanto instrumento de desenvolvimento regional podese considerar este APL um grande instrumento, mesmo que ainda não esteja desenvolvido. A partir daí foram feitas várias políticas específicas para a região, políticas de exportação e definição de marcas. Se o resultado do APL de Nova Serrana for julgado por outros critérios que não o desenvolvimento regional, talvez não seja o mesmo sucesso. Poucas empresas estão exportando, em média 20. Contudo, não se pode dizer que o APL não deu certo porque ele não está exportando. Deve-se adequar instrumentos do ponto de vista regional. Se o que se quer é interiorizar o APL, o instrumento deve gerar renda. O sucesso é avaliado pelo número de empregos, quem está empregado, quem não está empregado, se está gerando renda se não está gerando renda. O APL enquanto instrumento para interiorização do desenvolvimento é fundamental para uma discussão de desenvolvimento regional que consiste na construção de novas centralidades. A Secretaria de Planejamento do Estado está desenvolvendo um projeto com os gestores do Plano 2025 Estratégico – Espírito Santo. Lá está prevista a interiorização para que o desenvolvimento aconteça. 8 Companhia Energética de Minas Gerais - A Cemig atua nas áreas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica e soluções energéticas. Para interiorizar o Estado, é necessário construir novas centralidades. Esse processo consiste em criar novas cidades pólo que apresentem oferta de serviços e sejam capazes de trazer ou induzir o desenvolvimento daquela região. O APL pode ser um elemento fundamental para o adensamento dessa região. Ele deve ser avaliado como um instrumento adicional dessa política de condicionantes de novas centralidades. Por fim o APL pode ser instrumento fundamental também do ponto de vista da interiorização, de desfragmentação do espaço. O território brasileiro é extremamente fragmentado. Muito próximo de uma cidade considerada desenvolvida fica uma cidade muito menos desenvolvida. O espaço fragmentado traz implicações fundamentais do ponto de vista da política, das externalidades que podem existir e que a maioria das pessoas discutiam no APL. O APL é importante para se desfragmentar esse espaço, não necessariamente construindo novas centralidades, mas fazendo com que esse espaço não seja tão grande, isso é fundamental para explicar o sucesso do APL. Por exemplo, o APL de calçados de Novo Hamburgo, que é um sucesso absoluto, vende calçados para Porto Alegre. À proporção que se vai andando aumenta-se a distância. Se o espaço é fragmentado o custo de transporte aumenta sem necessariamente ampliar a demanda. Se a pretensão é vender a trezentos km de onde se produziu, e se esse local estiver no interior. No entanto, nos vários pontos onde se tem rede de cidade os custos de transporte serão maiores, haverá renda e aglomeração, e mesmo que tenha o custo de transporte significativo, em contrapartida novos mercados poderão ser conquistados. A estrutura brasileira possui grandes pólos urbanos e um entorno muito desigual. Um produto circula num determinado espaço, mas não vende, é necessário que circule muito para voltar a vender, essa situação provoca problemas porque fica difícil para se aumentar a escala de produção e para se obter ganhos de escala, para finalizar, APL é um dentre os vários instrumentos de desenvolvimento, sua eficácia depende fortemente de sua interação com outras políticas e sua função não deve ser homogênea. É essa a proposta da palestra, ser provocativa. Se fossem abordadas apenas às vantagens do APL não se estaria contribuindo. Ser a favor do APL não é apenas julgar com os olhos de entusiasmo, mas com olhos críticos senão não se consegue julgar sua função efetiva. 2ª Mesa – Experiências Institucionais, Políticas de Arranjos Produtivos no Brasil e Resultados Alcançados 1ª palestra – Marcos Otávio Trabalhar a política de APL não é panacéia para todos os problemas da sociedade brasileira e desafios para o desenvolvimento do país. O APL tem como foco agregar as pequenas e médias empresas. É muito mais sensato do ponto de vista da política pública e do ponto de vista das instituições que atuam nessa interface com pequenas e médias empresas atuar sobre o agregado do que atuar sobre a individualidade, essa é a questão chave do processo. Trabalhar com empresas que possuem uma convergência em termos de atuação em torno de uma mesma cadeia e de uma mesma base territorial é o grande atrativo de se estabelecer políticas públicas por meio do APL. Não é conseguir, porém, todas as soluções de problemas simultaneamente, seja a questão de aumento da exportação, a questão da inovação, a do desenvolvimento econômico, a da redução das desigualdades sociais e regionais e a do crescimento do nível de emprego e de renda. Não são todos esses objetivos ao mesmo tempo. Cada APL tem um perfil, e em algum deles a questão de maior ênfase pode ser a inovação; em outro a relação de emprego e renda pode ser a mais importante; para outro, ainda, a exportação, isso depende muito do interesse de cada arranjo. A política voltada para os APL’s começou a ser organizada a partir de 2004 após a constituição do Grupo de Trabalho Permanente de Arranjos Produtivos Locais – GTP / APL’s. A criação deste grupo foi importante porque a partir dele foi possível criar uma sinergia e uma coordenação das ações em nível do governo federal, que, até então, não era possível; pois cada instituição atuava isoladamente. O grupo conseguiu reunir trinta e três instituições governamentais que passaram a contemplar nas suas políticas e nas suas diretrizes de aplicação de recursos essa temática do APL. Isso por si só, já é um avanço muito grande. As entidades são de extrema importância, possui mais de dez ministérios e uma série de entidades de fomento e de representação do setor industrial e sistema financeiro. Alguns exemplos são a Caixa Econômica e o BNDES. Este chegou a criar uma secretária executiva para os APL’s ligada à presidência do banco. Hoje, o BNDES tem a questão do APL em seu plano estratégico, formulando políticas de apoio ao desenvolvimento regional com foco em APL. Antes desse trabalho o BNDES não tinha nenhum tipo de ação estruturada voltada para APL. Está presente entre os trabalhos desenvolvidos pelo GTP, o esforço de identificar os APL’s que existem no país, para se ter uma idéia de que universo se trata. Foi feito um termo de referência com os aspectos conceituais e metodológicos referentes ao tema. A questão conceitual é polêmica, mas existem conceituações que estão dadas no próprio termo de referência. O aspecto metodológico é questão de organizar e sistematizar o processo de interação dos formuladores de política e entidades públicas com o setor privado através da criação de Planos de Desenvolvimento de APL’s. Para orientar como deve ser elaborado este plano existe o Termo de Referência. Há um grupo de trabalho, portanto, que se reúne e tem a partir do plano de desenvolvimento as ações que precisam ser implementadas. Cada entidade vai promovendo as suas iniciativas de forma convergente com aquilo que está colocado como prioridade por meio dos Planos de Desenvolvimento Preliminar PDP’s apresentados pelos estados, a partir das associações setoriais de cada APL. O conceito de APL que está no termo de referência é este: “ter um número significativo de empreendimentos no território de indivíduos que atuam em uma atividade produtiva predominante, e o objetivo é compartilhar formas percebidas de cooperação e algum mecanismo de governança, são as características para o APL. Existência de canais, pessoas físicas e organizações capazes de liderar e organizar atores em pró de objetivos comum”. Isso é importante pela seguinte razão: as pequenas e médias empresas vivem mergulhadas na busca por sobrevivência, dificilmente elas conseguem ter uma visão estratégica setorial daquela atividade onde ela está inserida. O APL dá a elas esse posicionamento. Quando se define um plano de desenvolvimento do agregado, de um conjunto de empresas, isso dá um posicionamento estratégico para o processo de competitividade. Somando a isso, o processo de situar onde estão os melhores arranjos daquele setor; onde estão as melhores experiências; onde elas estão compostas, se consegue auxiliar ainda mais esse processo de desenvolvimento. Gerar uma visão estratégica é uma coisa da maior importância para o desenvolvimento mais rápido dos APL’s. Olhando para a cadeia de madeira e móveis no Brasil inteiro, por exemplo, uma das coisas vistas no Ministério de Desenvolvimento no período de 1995 a 2000 foi que o mercado de móveis no Brasil teve um aumento de trinta e cinco bilhões de dólares para cinqüenta bilhões de dólares. O que significa que em cinco anos, o mercado cresceu quase cinqüenta por cento. Tal fato no Brasil não era conhecido. Nenhum setor, nenhuma indústria, nenhum sindicato sabia dessa situação. Essa informação estava disponível no “Cesil Millano” que é uma entidade italiana que estuda o mercado de móveis em cinqüenta países do mundo e faz, inclusive, uma projeção de como vai ser o comportamento do mercado de móveis no ano seguinte e mercado dos diversos tipos: móveis de cozinha, móveis de dormitório dentre outros. Essa entidade faz, inclusive, um balanço de como está à produção e o consumo no mundo; qual país está exportando mais; qual está exportando menos; que país está consumindo mais ou menos. Esse tipo de informação estratégica, portanto, é fundamental para orientar o processo de desenvolvimento dos APL’s, pois aponta para oportunidades de negócios que, às vezes, estão passando despercebidas pelo empresário. Dificilmente uma empresa média de móveis vai criar um centro de inteligência comercial para apurar esse tipo de informação. O nível de organização de um APL, sua governança; e a busca a essas informações fazem com que as empresas melhorem a competitividade, promovendo o desenvolvimento. Trabalhar com APL é uma questão estratégica do ponto de vista local e regional. Houve a incorporação do tema no PPA. Hoje existem ações dentro do PPA que destinam recursos orçamentários para apoio as APL’s. Um exemplo no Estado do Espírito Santo foi o feito em dois PEIEX’s. Está para acontecer o terceiro no setor moveleiro, com aplicação de R$ 420.000,00. Essa questão de ter o tema contemplado no PPA é importante sobre o aspecto de se disponibilizar recursos para apoio do APL. O GTP está agora formulando um projeto em busca de recursos internacionais no BIRD para o planejamento do programa para os próximos anos. A idéia é utilizar os recursos do BIRD e juntar com os outros recursos para um programa nacional que feche as contrapartidas do lado brasileiro, dos ministérios e de algumas entidades que participam do GTP. Se o grupo obtiver sucesso nesse processo, haverá um volume de recursos mais expressivo para um apoio mais contínuo e persistente aos APL’s e também ao PPA 2008 a 2011, vale lembrar que as ações do PPA continuarão sendo contempladas. O GTP já produziu uma série de documentos normativos e de orientação, como o manual operacional e termo de referência. O manual trás entidades e respectivo apoio as APL’s oferecido por cada uma; qual tipo de linha de financiamento, se ela existe, e de linha de fomento, trás; ainda quem são os contatos para maiores informações. E o GTP tem realizado muitos seminários trazendo representantes dos bancos para reuniões com os arranjos. Eles explicam quais são suas linhas de financiamento e qual a melhor forma de apoio que eles podem oferecer. Há também seminários que tratam da questão da inovação fazendo com que no Espírito Santo, entidades ligadas à inovação, busquem se conscientizar sobre a importância desta. Há também uma conferencia nacional de APL que irá acontecer a quarta este ano no final de outubro, em Brasília foi criado o Núcleo Estadual de Apoio aos APL’s. Já foram criados os Núcleos Estaduais (NE-APL / ES). Existe toda uma institucionalidade. Há cento e vinte planos de desenvolvimento elaborados. Há em cada estado pelo menos cinco arranjos prioritários. Tudo isso já foi alcançado. A próxima etapa é colocar esses planos de desenvolvimento em execução. São três as ações a serem conduzidas. Primeira é fazer uma ação em termo de política pública, congregando arranjos de menor natureza. Um exemplo interessante aconteceu no Nordeste onde existem doze estados com propostas de planos de APL na ovinocaprinocultura que é uma cadeia agroindustrial. Ou seja, onde há uma parte de produção na fazenda, na criação de cabras e produção de leite e há na parte industrial, o processamento disso. Essa cadeia ou todos os estados onde ela aparece, apresenta o problema de melhoria de genética de rebanho. Possuem o problema de abate clandestino, pois é preciso criar toda uma estrutura de abate. Há o problema do controle sanitário do plantel e além de todas essas questões existem os problemas da industrialização, o problema do couro e o processamento da carne. O SEBRAE do Nordeste se constitui de uma rede de oito SEBRAE’s. Fizeram um projeto comum de apoio ao desenvolvimento da ovinocaprinocultura no Nordeste, e fizeram uma pesquisa internacional para ver qual é o mercado potencial da ovinocaprinocultura. Seguiram o exemplo de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde existe uma escola de queijaria que possui a informação de que 5% da humanidade não têm tolerância à lactose do leite de vaca, e por isso consome o leite de cabra. E este mercado está inexplorado, não tem oferta suficiente no mundo, podendo surgir daí oportunidades. A idéia é atrair investimentos, trazer indústria de maior porte, porque esta indústria sendo ancora na cadeia ela se torna irradiadora de progresso técnico. A âncora permite capacitação tecnológica ao longo da cadeia, fornece crédito para as empresas mediante contrato de fornecimento. Então se poderá atrair investimentos por meio de indústrias mais estruturadas que organizaram essa cadeia e poderá ter um grande potencial de desenvolvimento regional, que não foi explorado até agora. O trabalho do GTP, portanto, passa a ser agora além de programar os planos e sim procurar identificar oportunidades de mercado e de melhoria na cadeia como um todo. Ou seja, resolver primeiro os gargalos nacionais e ao mesmo tempo trabalhar os projetos a partir da base local, como é o caso de Cachoeiro de Itapemirim e região. Essa é a lógica de atuação que o GTP. Pretende imprimir. Outra coisa é a questão da informação sobre o arranjo. Neste ponto, também há uma lacuna grande no país. O que precisa ser feito é estruturar o portal com informações detalhadas sobre cada APL. Mais detalhado do que já está disponível, inclusive com indicadores de desempenho dos APL’s, que possa estabelecer um nível de comparação entre eles. Podendo assim, apontar APL’s os que se destacam mais que os outros e com isso criar oportunidade para que aqueles que estejam em um estágio menos avançado. Divulgam experiência daqueles que foram mais além e assim promover um processo de melhoria nos demais. Este indicador de desempenho também tornaria possível analisar o dinamismo dos arranjos produtivos e como eles estão em relação ao crescimento do setor como um todo e como também no mundo. Seria possível saber se eles estão crescendo na mesma velocidade se estão mais rápido ou ficando para trás. Este tipo de informação é fundamental para que todas as entidades que atuam em APL produtiva nacional possam ter uma noção mais clara e mais precisa do que está acontecendo com determinado arranjo produtivo e quais as potencialidades que podem ser ali tratadas ou então identificar problemas que podem estar acontecendo, fazendo o APL perder produtividade. Se o dinamismo de um determinado APL estiver menor do que o da cadeia dele ou em relação à cadeia no mundo significa que o APL está se extinguindo. A solução seria, então, fazer uma análise para identificar os problemas que estão acontecendo e, assim, intervir no sentido de corrigir eventuais falhas. Deve ser feito pelo GTP-APL, um detalhamento maior dos APL’s no portal com indicadores comparativos. Em linhas gerais, cinco arranjos foram eleitos aqui no Estado como prioritários: como confecções em Colatina; moveleiro em Linhares; o metal mecânico de Vitória; turismo na região das montanhas e rochas ornamentais, em Cachoeiro de Itapemirim. Todos estes APL’s possuem planos de desenvolvimento e o GTP vem interagindo com o Núcleo Estadual no sentido de dar andamento aos projetos, além de procurar trazer o Espírito Santo para uma base nacional e gerar um processo de interação mais proveitoso nesse ambiente em que estão todas as entidades federais, os núcleos estaduais e a governança dos arranjos nos estados. 2ª palestra - Arranjos Produtivos Locais como estratégia de desenvolvimento Palestrante: Renato Caporali A palestra apresentará uma abordagem clara a favor dos arranjos produtivos como uma estratégia de desenvolvimento, não sendo a única absolutamente. Existe espaço para outras políticas industriais. A CNI vê com ceticismo, institucionalmente, a política industrial focada em setores. Acredita-se que uns cinco ou seis setores irão ser beneficiados e o resto esquecido. A CNI acredita em políticas mais horizontais que beneficiem uma amplitude maior da indústria brasileira, até porque a CNI sendo a confederação nacional da indústria, representa a indústria brasileira e não determinados setores. Arranjo produtivo local é exatamente um tipo de política de desenvolvimento horizontal que atinge a amplitude dos setores industriais e alcança difusamente o território nacional, não concentrando o desenvolvimento em determinadas regiões. APL é um processo de distribuição de desenvolvimento. O APL surge na redescoberta das economias de aglomeração. Trata-se de redescoberta porque desde 1900 Alfred Marshall já tinha escrito princípios de economia política 1 com capítulos sobre os distritos industriais em que a concentração empresarial, com a densidade empresarial gera sinergias. O que os economistas vão chamar de externalidades positivas e depois é que descobrem as externalidades negativas como poluição, geradora de problemas ambientais, de saúde dentre outros. Naquele tempo, porém, todos estavam preocupados com as externalidades positivas, que eram os processos de adensamento que geram efeitos positivos sobre uma empresa que está dentro desse sistema, simplesmente por estar dentro desse ambiente. Algo que ela não teria se estivesse isolada. Conhecimento, informação, formação de recursos humanos, sistemas de distribuição seja de insumos, seja de produção, são as chamadas externalidades positivas de economia de aglomeração. O APL, portanto, está inserido nesse eixo teórico formulado por Alfred Marshall em 1900 defendendo os benefícios das economias aglomeradas. No final dos anos 90, o Brasil começa a trabalhar APL. Primeiro em Minas Gerais em 1997 com o estudo da Federação das Indústrias de Minas Gerais, que ainda chamavam clusters. Em política de desenvolvimento econômico o Brasil saiu depois de outros países da América latina, como México e Chile. Hoje, o Brasil está na frente do México e o Chile se encontra no mesmo patamar. Como se faz o projeto de APL? Primeira questão é esclarecer que ninguém faz um APL. Um APL é feito por empresários, fruto do esforço, da competência e do trabalho. Existem pelo menos três termos de trabalho muito importantes para o desenvolvimento do APL. Primeiro, a organização dos empresários. Prepararem um setor que é instintivamente desorganizado, criando uma governança ou trabalhando para se criar essa governança. O termo de referência deve ser atualizado, pois ele foi feito em 2002 e colocava a governança como critério para existir o APL. Mas, o requisito para haver APL é o adensamento empresarial, a governança é resultado do projeto de desenvolvimento. Não é a pré-condição. É o que ainda se vai atingir. A governança é um objetivo a se seguir. Se faz um projeto tentando criar uma governança empresarial e isso é extremamente importante porque empresários organizados são um trunfo para o desenvolvimento da região. Um dos projetos feitos pela CNI agora é tentar fazer com que os 1200 sindicatos deixem de fazer apenas representação de interesse para fazer também projeto de desenvolvimento de sua região. E a CNI acredita que vai prestar grande serviço para a sociedade brasileira se conseguir envolver os sindicatos empresarias nos projetos de desenvolvimento regionais. Segunda questão: coordenando o setor público, as universidades e outras instituições para estudar a problemática de desenvolvimento. Tema que era ignorado. Significa colocar as instituições de desenvolvimento e de conhecimento a serviço das estruturas empresariais que nasceram e se consolidaram. Terceira questão, por meio da transferência de conhecimentos, um APL se faz levando conhecimento de mercado, tais como problemas de competitividade, de distribuição, conhecer canais de distribuição; como o produto pode chegar ao mercado; quais as alternativas que existem; processos produtivos inovadores; o que se pode fazer de diferente do que já se faz; qual tecnologia se pode usar: design de produtos que antes na micro e pequena empresa não eram conhecidos, e que vieram a ser conhecidos a mais ou menos oito anos depois que o SEBRAE se dedicou a isso. Hoje já se têm no Brasil pessoas formadas, trabalhando produzindo serviços de inovação e design, este avanço é extraordinário para o Brasil. Treinamento de mãode-obra, formação profissional adequada às necessidades do ambiente. Tudo isso produzindo upgrades, passos para cima e melhoras incrementais. Projetos de APL’s constituem uma forma de transferência de conhecimentos para ambientes empresariais altamente especializados e propensos ao aprendizado. Os empresários conhecem o setor em que atuam, pois se trata do trabalho deles e é impressionante a sua capacidade de aprendizado. A política de APL foi muito bem iniciada e produziu um processo de distribuição de conhecimentos cujo único benefício histórico recebido do Estado foi à redução do distanciamento. A mão tributária do estado não chegava, a mão fiscalizadora não chegava, as estruturas permaneceram a margem no Brasil com grande parte delas em empresas informais que não recebiam beneficio nenhum e o estado brasileiro sequer sabia que existia. Pela primeira vez atingiu-se a amplitude do território nacional, não em todo território. Mas, os arranjos produtivos locais abrangem a maior parte do território. O nordeste é uma região que possui uma enorme quantidade de APL’s e que produziu um raro consenso entre as instituições públicas responsáveis pelo desenvolvimento. E esse é um trunfo que não se pode deixar perder. Essa é uma responsabilidade que o Ministério de Desenvolvimento tem de manter essa coordenação, essa aglutinação em torno de interesses comuns. Mas com alguns problemas, de fato, relevantes: de um entusiasmo exagerado a uma decepção precipitada, pois as mudanças não acontecem a partir do momento em que os projetos são implementados. Há um tempo adequado de desenvolvimento. E esta teoria, o governo ainda está desenvolvendo. Houve erros na definição do que era ou não APL. Erros na expectativa de temporalidade, na obtenção de resultados positivos e alguns erros metodológicos graves em projetos, desde como se conduz o projeto até o seqüenciamento das ações. Se primeiro deve haver produção, devese descobrir o mercado e vir do mercado para trás. Mas essa política possui alguns resultados muito relevantes. Cerca de 300 ambientes empresariais trabalhados que certamente atingem um milhar de municípios. Outra coisa a se evitar é que a regionalização do APL seja municipalizada. Tem de ser o pólo ou a região que possui a estrutura produtiva. Por exemplo, o pólo de Nova Friburgo era tomado por sete municípios que produziam. Alguns APL’s possuem um município, outros têm três ou quatro. Por meio de um cálculo estatístico é possível afirmar que um quinto dos municípios brasileiros introduziram conhecimento em um ambiente que nunca o recebeu em quantidade significativa. Grande parte dos microempresários do país possuem uma formação técnica muito deficiente. É parte dessa formação técnica deficiente que emprega a população. O projeto do APL é uma forma de retomar o processo de aprendizado e instrução técnica de um setor tão importante como é o de empresários. Promover uma cultura de formação profissional, de tecnologia, de design de produtos é uma das coisas que o SEBRAE fez de formidável. Além disso, introduziu o conceito de olhar para a própria cultura e produzir a identidade do produto. Pequenas empresas buscam a tradição cultural para fazer um design de produtos com mais identidade e personalidade naquele território. São ações que significam avanços e, que, bem trabalhadas durante décadas, nos colocam numa trilha de desenvolvimento significativo. O ambiente de governança empresarial pode contribuir na cultura de monitoramento de projeto no interior do país. Quando a CNI desenvolveu seu primeiro projeto, os técnicos analisaram algumas universidades do Pará, da Paraíba, do Rio de Janeiro e de Sergipe para monitorar os projetos de APL’s, pois nunca tinham medido pequenas empresas. O projeto começou pesquisando os empresários sobre como o monitoramento seria feito. O monitoramento se referia aos dados de emprego e, no final, seria feita a avaliação. Isso é um avanço. O SEBRAE atualmente monitora a totalidade dos projetos de APL e tem empresas fazendo o serviço de monitoramento espalhadas por todo Brasil, e isso em menos de 10 anos. O desafio atual é formular uma segunda fase de políticas de APL que tenham definições conceituais mais precisas, com quadro de gestores e consultores mais qualificados, mais bem treinados, menos voluntariosos e mais competentes para fazer e conduzir os projetos. O Brasil tem uma enorme deficiência em conhecimento técnico adequado aos problemas produtivos e de distribuição das empresas. É preciso formar gestores com abordagens mais qualificadas. É preciso ter cursos de pós – graduação nessa área, cursos de graduação que não estudem somente o modelo da grande empresa e comece a estudar também o modelo da pequena empresa e as estruturas clusterizadas. É necessário haver maior discernimento das verdadeiras possibilidades e impossibilidades. O primeiro APL visitado pela CNI no Pará, de madeira e móvel, propunha exportar para os Estados Unidos, mas não suportava nem ao menos vender para Belém. Deve-se estabelecer o que é possível e saber se ainda é viável alcançar mais alguma coisa, não é possível realizar tudo que se pretende. Este discernimento precisa ser criado e transmitido para as pessoas com formação, e uma maior articulação institucional porque existe ainda, apesar dos esforços do MDIC, muita dispersão de técnica. Propõe-se um conceito de APL e explica-se que se trata de uma composição própria. Uma das características de um APL é ter um número significativo de empresas. Não menos do que várias dezenas, seis ou cinco não constitui um projeto de APL. Dificilmente irá ser discutido o posicionamento competitivo de cinco empresas, por exemplo. Em relação aos distritos italianos, aos clusters, isso não é possível. Com cinqüenta, cem seria um bom número, exceções podem existir. É possível fazer um projeto com trinta e sete empresas, mas devem ser muitas dezenas para se ter a massa critica empresarial necessária para fazer um trabalho de construção, de cooperação, de busca de mercado, de introdução de alternativas e de buscas tecnológicas, dentre outras. Outra característica é ter uma base territorial precisa, que seja mais da ordem do município do que da região. Temos o caso do sisal produzido na porção oeste da Bahia. Esse exemplo é citado como uma área que não constitui um APL. Isso porque são várias áreas produtoras do artigo na região. A questão do Espírito Santo também é parecida, no setor de rochas ornamentais não há apenas um APL que abranja sul, centro e norte. A região sul do estado possui APL bem como a região norte e a região de Vitória. Eles podem e devem trabalhar juntos. Projetos de APL’s podem se combinar, mas a governança de Cachoeiro de Itapemirim não tem relação com a governança de Nova Venécia. Tem que ser uma base onde os municípios se identifiquem, para que possa adequar um projeto de desenvolvimento com o território. É o quadro que a CNI almeja. São duas coisas diferentes conforme a estrutura produtiva que se tenha para que vários APL’s possam trabalhar juntos, inclusive para que esses APL’s possam competir com outros de regiões distintas. Isso deve ser claro para todos. A base deve ser do município onde estão as empresas. Cada município deve ter um projeto de APL. Se existem dois, três municípios que estão especializados no mesmo produto, apenas um deve ser a base. Não dá para fazer APL da cidade A, da cidade B ou da cidade C. Pode até existir um subgrupo ou as subgovernanças. A logística e externalidades serão as mesmas. Não dá para fazer uma escola do SENAI em cada uma das três cidades, pois o SENAI não suportaria essa demanda. As externalidades podem ser as mesmas para o conjunto de municípios, mas também não dá para supor que as externalidades que funcionaram para Cachoeiro de Itapemirim serão perfeitas para Nova Venécia. Deve-se pensar em criar uma adequada externalidade para as necessidades do norte do estado. São projetos que seriam conjugados, mas diferentes. Deve ser especializado em um tipo de produto cujos mercados não são locais, ou seja, são dominantemente externos ao município, pois se não fosse assim teríamos os APL’s das padarias de Brasília. As padarias de Brasília são em mais de 50 e não constituem um APL, porque elas disputam o mercado local, e a cooperação que está sendo tratada não pode ser feita por um grupo de empresas que disputam um mesmo mercado local. As oficinas mecânicas de Vitória não formam um APL porque os mercados delas são locais. Um APL exporta não para fora do país, mas sim para fora da sua região. Esse é um critério que ainda não foi colocado. Nesta palestra, propõe-se que seja inserido pois ele simplifica muito a análise dos projetos de APL’s no SEBRAE. Acaba existindo certa dificuldade, porque não há um definidor, e esse critério eliminaria muitas etapas. É preciso, então, agir com menos idealismo como “coopere e tudo estará resolvido”. Quando se fala em cooperar deve-se definir em torno do que gira essa cooperação, é necessário ser mais preciso. Ter mais realismo. É o que se necessita e o que é necessário para dar um up grade à nossa competitividade. É preciso lidar com as rivalidades e divergências, pois são fatores que estão sempre presentes e a cooperação vem de um idealismo que é muito bom, mas que é difícil de acontecer. Não se pode achar que o programa está fracassando porque alcançar os objetivos é difícil, ou porque a cooperação é um instrumento para determinadas coisas. O palestrante faz referência aos distritos italianos e diz que neles a cooperação acontece quando eles possuem interesse comum quando há sinergias para que eles obtenham lucro. O empresário pensa em lucro e essa é a sua missão, ao mesmo tempo é necessário produzir riqueza social. É assim que a sociedade capitalista funciona. É preciso avançar na capacidade do sistema de apoio à competitividade empresarial em prover soluções adequadas em termos de qualidade, de preço e de prazos às necessidades das empresas. Implantar programas de financiamento à inovação adequada aos APLs: em termos de produtos, de processos e em modelos de negócios. Isso já está montado no Brasil do ponto de vista macro, é preciso adequar isso à política de APL. É necessário criar um programa de financiamento em inovação em APL e aos projetos de desenvolvimento do mesmo isto irá produzir resultados extraordinários. É necessário manter a clareza de que resultados estruturais chegam no “prazo da década” e não no “prazo do ano”. E que, em curto prazo, se obtém apenas resultados marginais, avanços incrementais em tecnologia, processos, qualidade e mercado. O resultado de projeto de APL aparecem com cinco anos ou mais. Se os agentes forem capazes de utilizar a política de APL para se defender e ter a consciência que a política industrial de APL pode tanto ser uma política de ataque ou de agressão a mercados externos, como pode ser uma política de defesa da indústria. Um exemplo é a China, produtora de artigos industriais, competidora da nossa indústria. Com a chegada da recessão dificilmente eles venderão para os EUA. A preferência será vender para outros lugares. O palestrante rebate algumas críticas que já ouviu caracterizando-as como precipitadas. Para ele um projeto de APL não cria um cluster de escala mundial, como o Vale do Silício que domina o mercado mundial. Isso não é preciso, o que se precisa é primeiramente sobreviver e se a decadência for revertida, juntamente com a perda de competitividade para clusters industriais de outros países já será um bom avanço. Essa é uma política industrial que o governo brasileiro se mostra sensível. Como são as bases das necessidades da população brasileira, ela deveria, então, ser aplicada. Até mesmo porque não existem alternativas. O que milhares de pessoas que trabalham em Nova Friburgo farão se perderem completamente o mercado? O Brasil deve manter sua indústria, pois 90% da população é urbana. Se formos capazes de usar a política de APL’s para nos defender da competição externa, ela também terá cumprido seu papel. 3ª palestra – O APL de Ubá - Alexandre Ambrosine O palestrante trabalha no SEBRAE Nacional, coordena a cadeia produtiva de móveis, e vem ao seminário falar do APL de móveis de Ubá. Será abordada na apresentação, a atuação do Sistema SEBRAE em APL, os antecedentes da ação em APL, definição de APL e como o SEBRAE trabalha em APL’s por meio da Gestão Estratégica Orientada para Resultados, o caso do APL de Móveis de Ubá – MG. No redirecionamento estratégico, o SEBRAE começa a pensar não em APL, mas em projetos coletivos. Deixa de atuar em empresas individualmente para atuar também em conjuntos de empresas. Ele começa, então, a analisar o empreendedor e a empresa em seu ambiente e em seu território. Não basta mais um olhar na empresa moveleira, deve-se saber onde ela se encontra e qual seu território. A referência pode ser uma empresa moveleira no interior da Amazônia, em Cruzeiro do Sul, que utiliza madeira maciça e tem problemas de logística de Linhares ou Ubá, que se encontra na região sudeste, e utiliza o MDF que já é de madeira industrializada. De qualquer forma os processos competitivos, de gestão e de tecnologia são completamente diferentes e são influenciados pelo ambiente e pelo território em que se encontram. Não podemos olhar apenas Linhares ou Ubá, mas devemos olhar Ubá, Linhares, Brasil e o global. E também o território. O SEBRAE começa a pensar na questão coletiva, móveis em Ubá, móveis em Linhares, individuais e coletivos. O SEBRAE não deixa de atender a empresa individualmente. A empresa poderá ter todo um processo de análise de seus problemas e de suas necessidades. Como também há projetos exclusivos para quantidade de empresas numa mesma base territorial. Ao tentar analisar as diversas oportunidades coletivas, identificamos que existem várias. APL é apenas uma delas. Existem diversas empresas que possuem algumas ações conjuntas: Núcleos Setoriais é um grupo de empresas de um mesmo segmento produtivo que possuem uma visão comum de futuro; Redes de Empresas são empresas com marcas comuns e ações conjuntas, como uma rede de farmácias ou rede de pequenos supermercados, e franquias como “O Boticário”, é um licenciamento de marca. Encadeamento que engloba grandes, pequenas e médias empresas, como ocorre no Espírito Santo, a ArcelorMittal, Vale e seus fornecedores. Ou seja, uma hierarquia e o uso do poder de compra. O SEBRAE possui sua definição de APL. Cada instituição possui a sua própria, mas existem alguns elementos comuns a essas definições que serão abordados mais à frente. Redes de APL’s podem vir a ser, no caso, atuar em complementaridade. Um exemplo disso, é a integração de um APL fornecedor de componentes para a indústria moveleira os APL’s produtores de móveis. Ou seja, esse pode fornecer e fazer rodada de negócios, promoção diferencial junto com os demais APL’s produtores de móveis. Isso é um projeto que o SEBRAE pretende iniciar neste ano, talvez no próximo. Nesse sentido, após a análise das diversas formas de abordagens coletivas, o SEBRAE muda seu organograma e cria uma unidade exclusiva que então é chamada de unidade de desenvolvimento setorial. Tem como objetivo atuar no desenvolvimento de setores, cadeias e arranjos produtivos locais, com expressiva presença de micro, pequena empresa MPE, visando sua inserção competitiva no mercado, superando gargalos em sua estrutura produtiva, organizacional e relacional. Paralelo a isso dois projetos são iniciados, um deles é o projeto SEBRAE Promos/BID, cujo diretor foi Caporalli. O objetivo foi promover o desenvolvimento de setores e regiões, em estágios diferentes de amadurecimento: emergente, em consolidação e consolidado no modelo italiano de “Distrito Industrial”. Era necessário buscar experiência no modelo do distrito industrial italiano, uma adaptação simples, analisar o que eles têm de melhor e a partir daí utilizar dentro da nossa realidade. Há também, o Projeto Espelhos do Mundo, em 2001, que visou aprofundar o conhecimento sobre o modelo de desenvolvimento da “Terceira Itália” por meio de entrevistas com especialistas, autoridades governamentais e empresários para identificar os fatores de sucesso de doze Distritos Industriais da Lombardia, Veneto, Toscana e Emilia Romana. Assim, foram observadas variáveis universais, tais como, cooperação, ambiente inovativo, aprendizagem coletivo, conhecimento do negócio, especialização produtiva e competitividade. Em 2002, o APL tornou-se prioridade para o SEBRAE. Foi criado o Termo de Referência, em 2002/2003, com apoio da REDESIST. Essa é uma rede de universidades brasileiras que estudam APL. A coordenação dos estudos foi da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que conta com o apoio de várias universidades brasileiras tanto para a definição teórica e também nos estudos de caso e de intervenção. Os estudos constituem a base da atuação do Sistema SEBRAE em Arranjos Produtivos Locais. Chega-se, assim, em mais uma definição de APL que constitui o conceito do SEBRAE para nortear a sua atuação. Dessa forma, Arranjos Produtivos Locais são aglomerações de empresas, localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantém vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem, entre si e com outros atores locais, tais como: governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa. A atuação em APL no SEBRAE visa promover a cultura da cooperação e o aprendizado coletivo; promover processos de geração, aquisição e difusão do conhecimento; estimular a construção e o fortalecimento de governança local; estimular a construção e fortalecimento de identidade local; construir parcerias em âmbito nacional, regional e local. O SEBRAE e outras instituições parceiras vem acompanhando os projetos do SEBRAE em APL e outros projetos que não são em APL, mas que adotaram a Gestão Estratégica Orientada para Resultados GEOR. É uma metodologia que visa, a partir de oficinas e reuniões com o público alvo, com micro e pequenas empresas e com as instituições de apoio daquele território, reconstruir um projeto que pertença àquelas empresas. No projeto é definido o público alvo e as ações. Os pilares da GEOR são um direcionamento para clientes; foco em resultados; adensamento da visão estratégica; intensidade e proximidade da ação gerencial. APL de Móveis de Ubá - Localizado na Zona da Mata Mineira, fica eqüidistante de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Ou seja, ele tem uma localização estratégica tanto para o recebimento de matéria-prima, como as chapas, os MDF’s, quanto para o escoamento da produção, móveis residenciais seriados, sendo que são boa parte voltados para a classe mais popular. Ainda que haja pequenas empresas que forneçam móveis de maior valor agregado. Existem em torno de 320 empresas com predominância absoluta de micro e pequenas empresas; seus principais mercados são a região Nordeste e Sudeste de Brasil. A atuação do SEBRAE junto ao APL de Ubá pode ser considerada um projeto de sucesso em APL’s. Inicia-se com o PRODER a partir de 1998. Nessa época ainda nem se debatia a questão de APL’s. Na época se pretendia fomentar as lideranças e o próprio desenvolvimento daquele território. A partir daí começa a se estimular os atores daquela localidade, empresas, instituições para o sentimento de pertencimento, ao saber que o desenvolvimento de sua região depende deles próprios e não de terceiros. Assim, começa a estimular projetos e também o espírito de coletividade. A partir daí, eles buscam o projeto de capacitação de fornecedores. Aqueles que possuíam grandes indústrias moveleiras capacitaram pequenas indústrias como seus fornecedores. Em 2003 foi implantada a Gestão Estratégica Orientada para Resultados GEOR, com suas mensurações e avaliações; transferência da coordenação. Este foi um programa de gestão tão bem estruturado que os projetos GEOR já passam de um mil em todo Brasil. Ele é o único em que a gestão do projeto não pertence ao SEBRAE. O gestor local não é um funcionário do SEBRAE na localidade e, sim, o sindicato. O projeto GEOR do APL de Ubá é construído de oficinas do setor junto com as empresas. É um projeto participativo, no qual as primeiras definições são o público alvo, objetivo geral e os resultados finalísticos. Esses resultados definem metas para um ano ou três de aumento de produção, aumento de emprego e diminuição do prazo de entrega de mercadorias. Isso quem define são as empresas com o apoio das instituições, trazendo conhecimento de fora. Para que esse conhecimento possa servir de critério para onde se deseja chegar. Assim são definidas as ações. Os recursos são, então, estabelecidos. Primeiro se define onde se pretende chegar dentro de um período, que tipo de ações são necessárias para dar suporte a esses resultados de aumento de emprego ou aumento de produção ou redução no tempo de entrega, e a partir das ações definidas saber quem é o responsável pelo aporte financeiro. Dentro das ações definidas nesse projeto, tem-se participação em feiras, seminário moveleiro, avaliação da qualidade de produtos, promoção comercial, feiras internacionais, melhoria no processo de produção, capacitação de mão-de-obra, capacitação em gestão empresarial e projetos de design. Novamente é importante frisar que essas ações são definidas pelos empresários com a participação das instituições do setor, ou seja, é definido pelas necessidades dos empresários, mas também com o conhecimento que essas instituições já trazem para sua melhor definição. Dentro desse projeto são feitas avaliações para saber se essas ações estão tendo resultado e em que nível chegaram. Não é objetivo do SEBRAE saber se foram feitos dez consultorias. Isso é importante para o controle do projeto, mas o objetivo é saber se essas dez consultorias geraram algum resultado que tenha feito diferença na vida das micro e pequenas empresas. No caso, eles tinham a meta de aumentar em 3% o número médio de clientes até dezembro de 2007; 7% até dezembro de 2008, e 9% até dezembro de 2009. Outro resultado que eles desejam alcançar é aumentar o número de empregos na indústria de móveis em 3% até dezembro de 2007; em 6% até dezembro de 2008 e em 7% até dezembro de 2009. Eles vêm obtendo sucesso. Outro resultado é reduzir o prazo médio de entrega a partir do pedido até a entrega ao cliente em 10% até dezembro de 2007; em 15% até dezembro de 2008; e 20% até dezembro de 2009. Esse prazo vem diminuindo, mas não tanto quanto eles desejavam isso porque é uma ação que precisa ser intensificada, que é de logística com foco principal em central de fretes. Dentro desses resultados também podem alentar os resultados mais qualitativos. Por exemplo, a criação do núcleo de design. O móvel brasileiro é caracterizado pela cultura da cópia, olhando modelos estrangeiros e fazendo a cópia. Em Ubá, eles decidiram que essa cultura deve ser quebrada. Mas, esse não é um processo que acontece de uma hora para outra. Junto com o SEBRAE, SENAI e outras instituições constituíram o Núcleo de Design. Este núcleo tem a função de disponibilizar consultoria nessa área para o controle de pequenas e médias empresas. Uma de suas ações foi a “Mostra Ubá Móveis de Minas”. Doze micro e pequenas empresas participaram do projeto, ministrado por um designer contratado e um antropólogo. Este último deveria identificar o que significava ser mineiro da Zona da Mata. Foram identificadas as curvas dos morros, as cores das casas barrocas. O designer traduziu isso nos móveis, feitos por indústrias que queriam vender para alavancar suas rendas. Assim, esses móveis foram expostos na feira de móveis da Região FEMUR. Essas indústrias conseguiram um bom sucesso de vendas e algumas até exportaram. Vale ressaltar que essa feira também é uma ação coletiva deles que construíram um galpão de 12.000 m² por iniciativa própria. É uma feira regional, não é de porte nacional. Hoje está com 18.000 m² e tem sucesso de vendas. No ano que ela ocorre, as empresas voltam toda sua produção para este momento. Outra ação coletiva é o plantio de eucalipto do qual depende essa indústria devido à necessidade de MDF (chapas de madeira feitas a partir do processamento da madeira de eucalipto). No Brasil existem poucas empresas produtoras desse artigo. Com isso os preços são elevados e o volume a ser pedido não viabiliza pequenas quantidades. Depara-se ainda com a demora na entrega. Olhando a região em torno do APL, percebe-se que ela possui muitos morros, com muitos pastos sem gado. Surgiu uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa. Eles fizeram um projeto de plantio de eucalipto, já que existe mais de 600 espécies. Existe, portanto, todo um trabalho de pesquisa cientifica e engenharia florestal e para identificar qual a melhor espécie para aquela região, com aquele solo e aquele clima, que possa servir pelo menos como substituto do MDF. Para que os empresários saiam da dependência deste tipo de matériaprima, ou pelo menos minimizem essa dependência. Este projeto já está envolvendo mais de 900 produtores daquela região, é uma externalidade que surgiu da indústria moveleira e já atingiu outro público, que é o produtor rural. Outra ação coletiva é a promoção comercial como a mostra de móveis. Os empresários estão neste momento colocando o móvel de Ubá em exposição nas principais capitais brasileiras. Em relação à logística, apesar de Ubá estar bem localizada geograficamente, é uma cidade que está no meio de morros e parte do mercado deste APL é o Nordeste. Um caminhão que antes fazia o carregamento de uma empresa e voltava vazio, encarecia o frete, limitando a distância do mercado abrangente. Só era possível chegar até a Bahia ou Sergipe no máximo. Não era possível ir a lugares mais distantes porque o frete encarecia muito e o produto deixava de ser competitivo. A solução vem surgindo por meio dos empresários que estão elaborando um projeto no qual será criada uma central de fretes. Existirá uma coordenação dentro do sindicato que organizará os destinos dos fretes. Por exemplo, um caminhão está saindo para Recife, deve-se determinar quantas empresas têm móveis para vender em Recife para uní-las, com isso diminuir seus custos, ampliar o seu mercado e a possibilidade de vendas. Outro resultado é o redirecionamento estratégico. Isso por que quando se fala de móveis de Ubá, o termo se torna muito genérico, é preciso segmentá-lo. Cada empresa possui uma especificidade. Como seria possível segmentar ainda mais os móveis de Ubá? Deve-se estabelecer com que tipo de móveis se irá trabalhar, móveis de madeira, residenciais, retilíneos de madeira maciça. A questão da secagem e o fornecimento são diferentes na de retilíneos de madeira maciça conjugada com aglomerado, que constituem outra realidade de móveis que os empresários atuam e que possuem características diferentes. Há também móveis para escritório que é outro tipo de concorrência. O Brasil hoje importa poucos móveis, em geral. Os móveis de escritório, porém, sofrem forte concorrência do mercado externo que atua no Brasil. O que não é a realidade em relação aos móveis residenciais. O Brasil importa poucos móveis residenciais. Os mais importados são móveis para escritório sob encomenda, seriados avulsos e móveis de metas que tem outro processo produtivo, mas que concorre no mesmo mercado. Assim, os empresários estão refazendo este projeto para atender às especificidades do segmento das micro e pequenas empresas produtoras de moveis de Ubá. Esse trabalho está sendo feito pelo SEBRAE de Minas Gerais em parceria com uma empresa de consultoria chamada Competitivos, que tem origem na Espanha e atuação internacional, possibilitada pela parceria com o SEBRAE Nacional. As lições aprendidas com a experiência do SEBRAE indicam que os projetos para dinamizar a competitividade e o crescimento de arranjos produtivos devem contemplar: alianças estratégicas entre os distintos atores; conhecimento do ambiente do arranjo produtivo; intervenção integral de apoio orientada para a demanda das empresas; metas e objetivos comuns a todos os atores envolvidos no projeto; monitoramento das ações e avaliação dos resultados. Isso é um ideal, não significa que os projetos contenham todos esses elementos, mas com um bom trabalho é possível que venha a ter. 3ª Mesa – APL moveleiro de Linhares 1ª palestra - Palestrante: Roque Felix - SINDIMOL O pólo de Linhares abrange treze municípios do litoral Norte do Espírito Santo. São cerca de 200 empresas do setor madeireiro e do mobiliário, sendo que 40% destas empresas são associadas ao SINDIMOL Sindicato das Indústrias da Madeira e do Mobiliário de Linhares e Região Norte. Estes 40% detém cerca de 90% do número de empregados da região. O pólo gera aproximadamente 4,5 mil empregos diretos e 9 mil indiretos. São empresas familiares e tradicionais de capital nacional, algumas delas remanescentes das serrarias que na década de 1950 a 1970 eram significativas de Linhares. Com a escassez da madeira, a principal matéria-prima, parte dessas serrarias se deslocaram para o sul da Bahia e para o Pará. Algumas delas passaram a fabricar móveis. Atualmente, 74% são fabricantes de móveis de madeira/chapas seriados, 9% fazem móveis por encomenda, 9% produzem estofados, 8% restantes são serrarias e fabricantes de esquadrias. As serrarias de hoje trabalham com madeira reflorestada do eucalipto. Em 2005, para fortalecer essas empresas deu-se início ao GEOR – Gestão Estratégica Orientada para Resultados. O projeto previa uma série de ações visando o desenvolvimento da cadeia produtiva de móveis de Linhares. Duas das ações que mais fortaleceu foi o INVEST-ES e o COMPETE-ES, do Governo do Estado. Na primeira fase do GEOR, encerrada no final de 2007, foram investidos mais de R$ 2 milhões em ações. Aproximadamente, 45 empresas foram beneficiadas nesse programa. O SINDIMOL possui quatro grandes metas, uma delas é aumento do número de empregos gerados em 4%. Outra é a elevação do volume de peças produzidas em 20% e a terceira é a elevação da produtividade das fábricas de móveis que participaram do projeto, em 10%. Ao final de 2007, obtiveram o resultado de 11,47% para o número de empregos gerados, 20% em peças produzidas e 195,63%, em produtividade. Esses resultados foram alcançados por meio das parcerias que geraram várias consultorias. Foi detectado dentro das empresas que estas não tinham mais capacidade de crescer, por falta de espaço para aumentar a sua capacidade. Então surgiu a proposta da terceirização. Hoje, em área existe uma empresa que produz somente gavetas com 62 funcionários, outra empresa que só produz forros com 57 funcionários e várias empresas pequenas que produzem somente moldura. Esses produtos eram os gargalos dentro das empresas e travavam a produção impedindo-as de evoluir. Ao retirar esses gargalos do sistema produtivo, as empresas conseguiram alcançar esses resultados. Para alcançar esses resultados foram contratadas várias consultorias como em design e processos produtivos, pois os móveis de Linhares eram vistos como cópia. Esse paradigma foi quebrado, pois hoje os modelos são criação própria. Aconteceram várias consultorias também na área produtiva, especialmente para o crescimento real e de processo produtivo. Uma das consultorias detectou incapacidade maquinaria e da velocidade das máquinas que já existiam. As empresas não conseguiam atingir o resultado esperado. A consultoria agiu de forma diferente tirando o foco da máquina e voltando para o trabalho, o trabalhador efetivamente produzia. Esses detalhes foram alavancados e com isso conseguiram elevar a produtividade. Sem recursos financeiros, porém, não há como crescer. Era preciso conseguir estes recursos, mas para isso a empresa deve estar legalmente constituída. Um dos problemas da indústria moveleira era conseguir o licenciamento ambiental. Foi através de mais uma parceria feita com o SEBRAE, por meio das consultorias, que várias empresas foram certificadas, e outras estão em processo de certificação. Outra ação foi à realização da rodada de negócios com empresários e lojistas. Em Linhares, no ano de 2005 aconteceu a primeira rodada com fechamento de R$ 250.000 em negócios. Observa-se que não é suficiente, crescer a produtividade e melhorar a qualidade se não houver mercado para aquele produto. Para tanto, promoveram a exposição de móveis em shoppings em busca por novos mercados. Isso aumentou significamente às vendas. As pequenas empresas não tinham como expor seus produtos pelo custo, que só foi possível quando o SINDIMOL obteve o apoio do SEBRAE e da prefeitura. Em 2005 foi possível levar pequenas empresas para expor na FENAVEM - Feira de Móveis e Decoração. Lá foram feitos negócios em torno de R$ 78.000. Já em 2007, este número foi para R$ 1.200.000, com 53,85% de acréscimo. Na primeira semana de móveis, que aconteceu em Linhares do dia 27 a 31 de agosto, o SEBRAE apoiou estes negócios contribuindo com a parte do planejamento como nas ações, Mostra de Móveis, Clínicas Tecnológicas, Palestras, Seminário de Desenvolvimento de Produtos, Lançamento do Selo do APL, Lançamento do Caderno Tendências do Design, Lançamento do Prêmio Capixaba de Design de Móveis, Oficinas de Capacitação e Cursos de Capacitação. Estiveram presentes 1200 visitantes e 180 colaboradores capacitados. O selo Móvel Capixaba foi criado com a ajuda do grupo de design do SENAI de Linhares e atualmente os móveis com este selo têm a garantia de ser do pólo de Linhares. Na fase dois do Programa APL “Resultados avaliação preliminar Empresas Projeto GEOR”, o número de empregados das empresas aumentou em 10% em 2008 com relação a 2007; 100% das empresas com licença ambiental ou em fase de obtenção, com 83% já licenciadas e 17% em período de implantação. Aumento do faturamento de 13% em 2008, comparado a 2007, 100% das empresas tem expectativas excelentes ou boas em relação ao Projeto. O resultado desta avaliação foi de 43% como “excelente” e 57% como “bom”. Por fim o palestrante agradece a todos os parceiros que seguem: SINDIMOL; SEBRAE-ES; SENAI-ES; FINDES; IEL-ES; Ministério Ciência e Tecnologia - MCT; Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC; BANDES; Banco do Brasil; Banco do Nordeste; Governo do Estado do Espírito Santo; SEDES; SEFAZ; SECT; IEMA; Prefeitura Municipal De Linhares. 2ª palestra - O APL de Calçados Femininos de Jaú Palestrante: Emilena Josimari Lorenzon Jaú é um APL formado por 1.182 estabelecimentos da cadeia produtiva do couro e calçados. É formado por sendo: 250 fábricas de calçados; 800 bancas de prestação de serviços, a maior parte da informalidade do setor se encontra nestas bancas; 3 curtumes; 4 empresas de artefatos de couro; 122 empresas atacadistas e representantes de componentes; 3 shoppings centers; com 175 lojas de sapatos. Para uma cidade com aproximadamente 120.000 habitantes, nota-se que estes números são bastante relevantes para o município. Essa indústria representa 65% do PIB do município sendo que, o restante refere-se principalmente à cana de açúcar. Este setor gera aproximadamente 17 mil empregos diretos. É fato, porém, que na indústria calçadista, cada emprego formal gerado, pelo menos, três empregos informais. Portanto, é quase uma cidade inteira trabalhando no setor calçadista. Os empregos formais são divididos da seguinte forma: 8.309 na indústria de calçados; 4.000 nas bancas prestadoras de serviços; 1.400 nas empresas de componentes; 80 nos curtumes de Jaú e 2.400 em Bocaina; 100 nas empresas de artefatos; 150 nos atacadistas e representantes, e 400 empregos nos shoppings centers. A maioria das empresas são de pequeno porte, sendo: 46% de micro porte, 41% de pequeno porte, 5% de médio e 8% de grande porte. A produção do APL está voltada, principalmente, para o calçado feminino (95%) e para o mercado interno (90%); 75% da produção é feita em couro. Quanto às vendas, 70% estão concentradas no Estado de São Paulo, 10% na região Sul do país, 10% no Centro-Oeste e Brasília, 5% no Nordeste e 5%, em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Jaú é um pólo com pequenas empresas com alta especialização na produção do calçado em couro. Este possui valor agregado, trabalha com o ciclo da moda e atende, quase que exclusivamente, à capital paulista. O APL produz aproximadamente 140 mil pares de calçados por dia, com capacidade instalada para mais 40%. O APL de Jaú foi o segundo maior empregador, em percentual, do setor no Estado de São Paulo, no ano de 2007. Isso significa que as ações realizadas de 2003 a 2007 surtiram resultados. Enquanto a cadeia de couro e calçados demitia, o APL de Jaú estava contratando. Antes de detalhar como foi feito o trabalho de APL em Jaú, a palestrante apresenta as tipologias de APL. Existem, portanto, modelos de APL incipientes, mas que na realidade são um aglomerado de empresas. Existem APL’s intermediários, pois eles possuem alguma relação de cooperação, mas ainda não muito expressivas. Se parece um pouco com o APL incipiente. Existe o APL, em relação à organização mais preparado, onde realmente a cadeia produtiva se envolve, os atores locais também, como SEBRAE, SENAI, SESI e prefeituras; sendo uma estrutura que dá suporte ao desenvolvimento econômico na região. Existe também o APL inovativo, aglomerado que troca informação e conhecimento para competir em grandes mercados e desenvolvem produtos inovadores para o mercado. Pensando em um cenário com quatro tipos de APL’s, aplicou-se está metodologia para se saber em que nível o APL se encontrava. Surpreendentemente ele se encontrava no nível intermediário, pois tinha alguma relação de cooperação desenvolvida por algumas empresas, especialmente para a compra de insumos ou para exportação. Contudo, a grande maioria eram empresas que apenas para produzir calçado. Em 2002 foi iniciado o trabalho “desenvolvimento e a consolidação do APL em Jaú” no qual havia muitas ações isoladas e sem articulação das entidades que lá se encontravam. Assim, o SEBRAE, o SENAI e a prefeitura ofereciam cursos. Todas as instituições chegavam com seus pacotes prontos e os empresários ou se conformavam ou não participavam. O índice de participação dos empresários, nas ações, era pequeno. Dentro do quadrante da evolução do APL e desenvolvimento econômico, foi tomada a iniciativa de estabelecer metas estratégicas que, transformadas em ações, poderiam obter um modelo de APL futuro, desejado e idealizado conjuntamente, não por uma única entidade que representasse, por exemplo, os empresários. Em 2003, efetivamente começaram a trabalhar no APL. Deram início ao programa por meio de um planejamento participativo feito entre as lideranças locais que trabalhavam com calçados, direta ou indiretamente, e alguns empresários. Nesse planejamento, começaram a olhar primeiro para dentro do próprio APL e criaram, então, a análise do setor calçadista de Jaú. Nela perceberam quais eram as oportunidades; quais eram as dificuldades, e, principalmente quais eram os pontos fracos e quais as fortalezas. Dentro dessa perspectiva foi estabelecida uma dinâmica no pólo produtor. Essa dinâmica foi feita por meio de estudos e diagnósticos dentro das empresas. Começou a ser percebido o que, de fato, a empresa precisava e, assim, foram estabelecidos convênios entre as instituições, principalmente com o SEBRAE que era uma entidade fomentadora de ações, muito importante naquela região. Foi proposta uma intervenção diretamente dentro da empresa. Os empresários, em 2003, começaram a receber capacitação em diferentes áreas: de finanças, de gestão empresarial, marketing e na própria produção. Muitas ações para difusão de conhecimento no APL aconteceram nesse ano. Foi feito, portanto, um diagnóstico aplicado para entender em que nível as empresas estavam e o que elas precisavam para sair daquele cenário de empresa que só fazia parte de um aglomerado conforme a metodologia de APL. Começou-se a pensar em alguma coisa mais organizada. Em 2004, a partir desses diagnósticos começaram a trabalhar muitas ações separadas por tema e mercado, por exemplo. O SENAC, que a entidade local, que possui faculdade de moda em São Paulo, liderou o tema sobre moda. O SENAI como possui vocação para a formação de mão-de-obra, da indústria e tecnologia, começou a coordenar as ações para essas áreas. Assim, foram dividindo cada grupo com uma liderança local, e mais um grupo de empresários para a construção das ações que aconteceriam em 2004. Nesse ano aconteceram muitas ações que foram divididas por temas. Dentro destas ações, por exemplo, foram planejadas visitas técnicas para os pólos internacionais ou distritos italianos que apresentavam vocações muito parecidas com as do Pólo de Jaú. O grupo de empresários que participou dessa iniciativa se surpreendeu, pois o Pólo fabril de Jaú possui muito mais tecnologia do que o pólo fabril visitado na Itália. A diferença estava na qualificação da mão-deobra. Neste período, então, o foco foi programar ou trazer para o município instituições que trabalhassem com a formação da mão-de-obra. Trabalhando com a FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e o SENAI, construíram uma planta maior e lá se instituiu um curso básico para a produção de calçados. Este período no ano de 2004 foi voltado mais para a educação. Em 2005 foi feito um novo planejamento. Sendo que esse novo planejamento já começou a se pensar na implementação da governança, a educação continuava tendo prioridade. Neste ano foi construído na FATEC Faculdade de Tecnologia, o curso de gestão em calçados e, o técnico em calçados do SENAI. Eram trabalhados três níveis para a capacitação de mão-de-obra: o ensino básico, o intermediário, que é o técnico e o superior em gestão de calçados. Quem também começou a assumir as bancas de corte informais, foram às prefeituras em conjunto com o sindicato patronal por meio do Programa de Escolas de Pesponto (PROIP), que na verdade é um programa de apoio ao desenvolvimento de formação básica. Neste mesmo período foi percebido que era preciso trabalhar mais dentro da própria empresa. Para tanto, foram até o Ministério e conseguiram o PEIEx Projeto Extensão Industrial Exportadora. Alguns extencionistas também foram conseguidos. Estes foram colocados dentro das empresas para trabalhar algumas áreas, priorizando produção, marketing e gestão financeira; a maior deficiência do APL. Assim o APL de Jaú começou a se mostrar para o Estado de São Paulo a partir da inscrição do projeto no Sistema GEOR - Sistema de Gestão Orientada para Resultados. A estrutura de governança estabelecida foi à seguinte: tinha-se um comitê gestor de empresários com parceiros, formados pelo SEBRAE, SENAI - Prefeitura, Universidade Federal de São Carlos, Universidade Estadual Paulista, Federação das Indústrias de São Paulo, MDIC, e muitos outros, além de outras entidades da cadeia de couro e calçados, formando um comitê gestor que possuía um representante de cada uma das entidades. Estas se reuniam periodicamente para identificar necessidades, avaliar e deliberar ações para um grupo executivo do sindicato patronal. A gestão do projeto ficou locada dentro do sindicato da indústria de calçados, por representar o empresário na sua plenitude. Para ele executar, porém, algum tipo de ação, deveria passar por uma diretoria do próprio sindicato, isto porque era essa diretoria que iria negociar, buscar soluções e encaminhar as tarefas. Tinha-se o comitê consultivo que examinava as ações. Os tomadores de decisão eram a diretoria e o executivo exercido pelo sindicato que por meio de projetos buscava recursos financeiros, humanos e o que fosse necessário para a implementação das ações. Foi baseada nessa estrutura que em 2005 começaram a atuar. Em 2006 foi percebido que um dos grandes gargalos para o desenvolvimento das ações era a cultura empresarial. Em conjunto com o SEBRAE foi trabalhado um curso de atitudes empreendedoras. Vinte empresas participaram em um primeiro momento, o que foi fundamental para definir qual seria o planejamento estratégico do APL até 2012. Ainda em 2006 aconteceram muitas palestras, consultorias (produção, marketing, finanças e design), cursos, seminários, feiras, enfim, toda ação que já havia sido idealizada em 2003 e que continuava, pois era um planejamento de longo prazo. Em 2007 foi feita a elaboração das Diretrizes do APL. Por meio delas foi definida qual era a missão do arranjo produtivo local; quais eram as ações de curto, médio e longo prazo para atingir uma visão em 2012. Fizeram outros cursos voltados para o mercado e muitas palestras com foco em moda. Já que até 2005/2006 o foco era educação, foram realizados todos os investimentos nesta área sendo que agora o foco é a moda. Devido à característica do pólo jauensse que consiste em baixo volume produtivo e grande variedade, a competição no mercado deveria basear-se na diferenciação. Neste pólo, será foco moda, mercado e design; definição de metodologias de atendimento (metodologias para: diagnóstico integrado, mensuração dos resultados); implantação do clipping de notícias diário e newsletter, que informa diariamente noticias sobre o setor por meio de um recolhimento de todas as informações sobre calçados divididos por temas e enviado para o e-mail do empresário. Em 2008 foi feito um balanço das ações anteriores e o ano foi planejado. Houve a reformulação das ações que existiam no SIGEOR, para apresentaram ao MDIC por meio do PDP Plano de Desenvolvimento Preliminar. Programaram um novo site para o sindicato, pois dentro da questão de classificação do APL em incipiente, intermediário, organizado e inovativo; percebiase um ambiente de informação e conhecimento. É a necessidade por meio do conhecimento que iria criar novos produtos. Essa era a estratégia escolhida pelo grupo de empresários, pois eles não queriam competir por preço. Eles não querem brigar com a China, por exemplo. Querem disputar no mesmo nível da Itália, até em função das próprias características. Começaram a pensar em uma ferramenta de inteligência comercial e competitiva que cresceu, inclusive, para o sistema nacional. Hoje existe um sistema de inteligência competitiva da cadeia do couro e calçado nacional que surgiu do projeto de inteligência competitiva do pólo de Jaú, no qual a palestrante coordena frente as entidades nacionais. A visão para 2012 é ter qualidade vida e responsabilidade socioambiental, ter foco no mercado, na produção, fortalecer marca, ser destaque em moda e tecnologia, design, inovação e gestão eficiente. Os desafios para alcançar essa visão eram: superar a ausência de marca; redução da alta concentração de mercado e do alto poder de barganha dos compradores. Observou-se que não havia como negociar preço, devido ao crescimento do sudeste asiático. A importação de calçados aumentou em 214% em relação ao mesmo mês no ano passado. Isso é percebido no setor calçadista onde está acontecendo demissão em massa e o fechamento de muitas empresas nesse primeiro trimestre. Em relação ao produto haverá pouca inovação em design e tecnologia; alta dependência nos representantes para vendas; dificuldade de acesso ao mercado e altos custos de produção. Ou seja, havia pouca integração real entre as empresas. A metodologia que mostra que o APL era intermediário, era só em função de algumas empresas que se ajudavam em alguns momentos, mas o APL era mesmo incipiente, apenas um aglomerado de empresas. Para superar os desafios foi criado um calendário único com ações planejadas para todos os parceiros. Seguindo o calendário com essas ações, segundo as diretrizes do APL, foi lançado a cada início de semestre um ciclo de (palestras, cursos, consultorias, programas etc.), viabilizados através de uma consultoria pelo SEBRAETEC. As ações contemplam diferentes áreas da produção e de design, projetos voltados para grupos de empresas exemplo Jaú – Recicla, consórcio de exportação dos componentes. Hoje, o SEBRAE, SENAI, FATEC, IPT, entidades que trabalham para o desenvolvimento deste APL, todo ano, em janeiro se reúnem e avaliam o resultado do ano anterior e pensam as ações do ano posterior seguindo as diretrizes estabelecidas. As consultorias passaram a ser via projeto SEBRAETEC, em produção e design. E alguns projetos, grupos de empresas formam o “Jaú – Recicla”, que é um projeto de reutilização do próprio couro, com dez empresas. Eles irão comercializar na próxima feira, como produto novo desenvolvido e fizeram um consórcio para exportação. Se for resumir a participação financeira de 2005 a 2008 foram investidos no APL cerca de R$ 10 milhões e R$ 372 mil reais respectivamente. As diretrizes para os próximos cinco anos, em termos, de ação estruturante para se ter um APL organizado, estão em convênio entre todos os parceiros e a estrutura de governança do APL. Esta determinou várias ações de formação, informação, consultoria, bem como ações focadas no associativismo e na cooperação. Esse acordo foi assinado pelas entidades em fevereiro de 2008. Conseguiu-se para esse ano, R$ 8 milhões de reais na ampliação da estrutura física da faculdade onde será ministrado o curso superior de calçados estão conseguindo implementar o curso de especialização, mestrado e doutorado em gestão da produção de calçados. Conseguimos R$ 1 milhão e quinhentos mil para a implantação de um núcleo de inteligência e também R$ 6 milhões com o BIRD, para implantação do CRIETEC, Centro Referencial e Inteligência em Tecnologia em Couro e Calçados. Agora estão fazendo uma parceria com o Centro de Tecnologia de Franca. Para ter um APL inovativo está sendo proposto, a implantação dessas ações. A partir do momento que se tem ação organizada por meio desses acordos de resultado, pelas entidades mais grupo de empresários, o APL começa a ser organizado. O passo para o arranjo organizado é o arranjo inovativo, mas para isso devem ser criadas estruturas que irão levar informação e conhecimento para a geração de tecnologia de novos produtos, de novos materiais. Enfim, o que for necessário dentro da cadeia produtiva. O CRIETEC, na verdade, está sendo idealizado como um tripé. Esse núcleo de inteligência tem a função de trabalhar a informação para a tomada de decisão. Um exemplo seria saber quantas botas devem ser produzidas num ano. A resposta para essa questão vai ser analisada em várias fontes de informação. Em termos de análise climática, de tendência, de demanda de mercado. A resposta será: a empresa irá produzir ou ela não irá produzir. São elementos simples ou mais elaborados, como planos de inserção para exportação em algum mercado alvo. O CRIETEC além do núcleo de inteligência estará focado na pesquisa e no desenvolvimento que consiste na geração de novos conhecimentos e na transferência da tecnologia para micro e pequenas empresas. Este projeto vai ficar na instalação da FATEC. O APL já está com todos esses projetos assinados e em andamento, assim, até o final do ano, serão desenvolvidas ações para um APL inovativo.