Relatório de viagem ao Rio Negro. Ordenação de Fr. Salvador. Exposições de fotos e vídeos sobre a Marcha e Conferência Indígena 2000. 13 a 30 de setembro de 2000 Arizete Miranda csa e Fernando López sj Croques da Dioceses de São Gabriel da Cachoeira Venezuela Colômbia S.Felipe S.Carlos R. Jufarís Cucuí Assunção R. Padauirí R. Branco R. Demení R. Ajuricaba R. Içana Iauareté R. Tiquié Pari-Cachoeira Marauiá Maturacá do Içana R. Cauaburí R. Uaupés Taracuá R. Marauiá R. Negro Santa Isabel do Rio Negro São Barcelos Moura R. Unini R. Marié R. Jaú • Extensão: 286.866 Km2 • População: 50.000 habitantes. 0,17 hab./Km2. 90 % indígena. • Missionários/as: 17 padres; 5 irmãos; 40 irmãs; 5 seminaristas. MANAUS Quadro de distancias entre cidades e vilas Cidades ou vilas Via Aérea Via Fluvial (Km) (Km) Manaus - Barcelos 369 496 Manaus - Santa Isabel 631 781 Manaus - San Gabriel 852 Via Aérea Via Fluvial (Km) (Km) São Gabriel – Taracuá 164 213 São Gabriel – Iauareté 246 325 1.061 São Gabriel - Pari-Cacho. 303 420 - 285 São Gab. - Asunção Içana 140 - Sta. Isabel - Marauia 105 - São Gabriel - Maturacá 133 - Sta. Isabel - Barcelos - 267 São Gabriel - Sta. Isabel - 202 Taracuá - Iauareté 90 112 São Gabriel - Cucui - 240 Iauareté - Pari-Cachoe. 78 - Manaus - Moura Cidades ou vilas Río Negro (Cucui-foz) 1.300 (?) 1 De 13-18/09/00 em Iauretê. Viagem. Saímos de Manaus às 6:30 h do dia 13.09.00, no avião fretado pelos Capuchinhos para conduzi-los, juntamente, com alguns amigos de frei Salvador até o local de sua ordenação, com uma parada rápida em São Gabriel da Cachoeira, onde encontramos várias pessoas amigas,dentre elas, a Tenente Graciete da Compensa, Ir. Firmina salesiana, pe.Nilton, que com seus sorrisos e palavras amigas nos acolhiam. Éramos 18 passageiros. Foi uma viagem super alegre. Clíma de festa. Iauretê. A missão está situada na fronteira com a Colômbia, na foz do rio Papuri sobre o Waupes. A igreja católica e o exército são as duas instituições presentes de maior peso. Nos últimos anos também se tem feito presente algumas ONGs. A população média ao longo do ano escolar é de umas 2300 pessoas. Os povos presentes são: tukano, desano, tariano, wanano, piratapuio, miriti-tapuio, barasano, hupi, tujuka, arapaso, baniwa, etc. Em geral todos afirmam que desceram para Iauaretê para que os filhos pudessem continuar os estudos. A cidade está organizada em dez vilas; cada uma funciona como se fosse uma aldeia, tem capela, centro comunitario e organização própria. Existem algumas tendas e comercios. Antigamente eram levados por brancos. Hoje, os brancos foram expulsos e os próprios índios “controlam” o comercio em Iauarete. Militarização. É cada vez mais ostensiva a dominação do exército na região. Os quarteis estão crescendo e ampliando suas instalações na fronteira. No aeroporto de S. Gabriel, quando chegamos, estava cheia de militares todos armados. Um elicoptero de guerra e um avião de transporte estavam sendo carregados. No aeroporto de Iauarete também nos reciveram os militares com um sem número de crianças e familias indígenas. Muitos soldados indígenas estavam pintados com pinturas de guerra. Em todas as comunidades se escuta sobre a reativação do projeto CALHA NORTE, na atualidade SIVAM. Em algumas comunidades os postos de saúde construídos e equipados pelo CALHA NORTE nunca funcionaram e se estão caindo aos poucos. Igual acontece com o hospital de Iauaretê; agora os militares, com os novos recursos do SIVAM, vão assumir a saúde em Iauaretê e as irmãs vão fechar seu pequeno hospital. Segundo o Pe. Nilton a FUNASA ofereceu este hospital à diocese, como ela não quis assumir, passaram a proposta para os militares porque não tem outra instituição que queira tomar conta dele. Em Pari-Cachoeira o abuso sexual das meninas do colégio é constante, muitas ficam grávidas e deixam de estudar. Suas famílias, a escola,as irmãs e os padres não sabem o que fazer. Os militares são índios e não índios. O fato que aconteceu uns dois meses atrás, tem deixado as comunidades muito revoltadas: um sargento que levava mercadoria para o quartel que ficou bravo ameaçando e apontando com o revolver as pessoas do barco da organização no que viajava, até que conseguiram tirar o revolver dele, amarra-lo e dar-lhe uma surra. O sr. Pedro Garcia,presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), nos disse que está tomando as devidas providências quanto as atitudes dos militares na área. O clíma está tenso. Para Dom Walter, mais preocupante que o processo de militarização é a ameaça da invasão dos EE.UU. que, segundo uma reunião privada na que foi convidado pelos altos mandos, esse é o perigo principal. Os argumentos "públicos" da militarização, que as comunidades contam, são: segurança da fronteira, narcotráfico e guerrilha. Os militares estão justificando também sua presença com prestação de serviços sociais em saúde, odontologia, caminhos, construções diversas, etc. Também recrutam os próprios indígenas como soldados. Em todos esses serviços os indígenas são atendidos sempre depois dos não-indios... Um joven indígena me comentou sobre as muitas coisas ruins que aconteceram com ele no quartel e que ele "aprendeu" e que agora faz, "sem querer", na sua comunidade. Para os comerciantes de S. Gabriel sobretudo, mas também para os pequens comerciantes de Iauarete e Pari-Cachoeira, os militares são muito importantes porque eles movimentam grande parte da economia. Desde nosso ponto de vista, o processo de militarização crescente seja, a longo prazo, o problema mais grave desta região indígena. Aos poucos eles vão sendo os donos da região e gerando seu próprio modelo de sociedade. As áreas indígenas de fronteira da amazônia são uma "fortaleza" de segurança e o lugar de refúgio que sobra para os militares. Do sul do país tiveram que sair porque a sociedade ocidental vai tomando cada vez mais conscieêcia do gasto inútil que significa manter os quartéis; dentro das áreas indígenas não tem a pressão da sociedade ocidental. Pouco a pouco terá que ir crescendo a consciência indígena para que também os quartéis saiam de suas terras demarcadas, e sejam 2 substituidos por hospitais e escolas, para que os orçamentos astronômicos da instituição castrense sejam investidos em respostas concretas as necessidades dos povos indígenas. Ordenação A ordenação sacerdotal de pe. Salvador, indígena do povo desano, aconteceu no final da tarde do dia 13.09.00. Tudo estava muito bonito!. O irmão sol, ainda forte, contribuía para que o reflexo das nuvens azuis, espelhassem sobre as águas escuras dos rios Papuri e waupés que corriam por entre as enormes pedras, formando belíssimas cachoeiras. Era a Mãe Natureza dando o som e o tom todo especial para o momento. O ambiente físico(entre a igreja e a casa dos salesianos), foi preparado, com muito carinho e capricho, por um grupo de parentes indígenas e alguns não indígenas que utilizaram recursos da natureza para acolher os participantes da cerimônia. Tucano, Desano, Arapaso, Tuyuca, Baniwa, Tariano, Mirititapuio, Piratapuio, Huped, Barasano,Wanano e outros povos indígenas chegaram de muito longe para participar da celebração, tão importante para eles. Geraldo e Galdino, dois professores indígenas foram os comentaristas da celebração e em tucano diziam: "Os representantes dos povos indígenas de Iauretê, em louvor ao Deus Criador, entrarão com cantos, danças e instrumentos tradicionais: Bastão Sagrado, Japurutú, Cariços e as danças usadas nos momentos festivos . D.Walter incensará o altar e alguns pajés purificarão com a cicanta, todo o ambiente". A celebração iniciou com a chegada de grupos de indígenas, todos pintados, enfeitados e com trajes próprios ao momento. Uma mulher falava na língua tucana e os demais dançavam. Havia, entre todos, uma linguagem e comunicação muito forte... O que nos chamava a atenção era a perfeita “combinação” entre os ritos dos indígenas e os ritos da igreja.Depois da imposição das mãos dos bispos e dos sacerdotes presente, Galdino Tucano disse:"Meus irmãos e irmãs, nossas culturas possuem ritos de bênçãos para proteger e fortalecer a pessoa. Por isso, neste momento o ancião Venceslau da etnia desano vai abençoar com a fumaça de cigarro-benzido, o frei Salvador para dar-lhe a força para a sua missão". No ofertório, foram entregues a Salvador vários símbolos religiosos indígenas. O Pajé ancião Venceslau, entrega os instrumentos sagrados de seus ancesrais ao neo sacerdote. CETRO-MARACÁ: bastão-sagrado, vínculo entre a terra e o céu. SUPORTE DE CUIA: depósito de ipadú ou tapioca, fonte de sabedoria para o fortalecimento da vida. FORQUILHA PORTA-CIGARRO: fogo, sopro... que faz surgir da fumaça novo ser e uma nova missão. COLAR E COCAR: ornamentos usados pelo mestre-bayá, aquele que entoa as danças e anima os momentos festivos da vida em comunidade. Os pais de Salvador também participaram. A celebração toda foi muito bonita. A participação de vários/as indígenas durante toda a festa também marcou. A festa continuou com um lanche e a festa do dabucuri. N esse momento todos os membros de cada comunidade ofereceram um presente. Na dança do Cariço... dançamos para completar a alegria. Foi tão bom! E quando a luz elétrica foi-se embora, a irmã lua ocupou o seu lugar, dando um brilho todo especial à noite que tornouse ainda mais bela. No dia seguinte, muita gente para a celebração da 1ª missa de pe. Salvador. A comunidade preparou tudo muito bem. Pe. Fernando, a pedido de Salvador, tocou sua flauta. O silêncio foi total e impressionante o rosto de alegria demonstrado, principalmente pelos homens que são os tocares das "flautas sagradas". Depois da missa e durante as visitas nas comunidades, todos se aproximavam de Fernando pedindo-lhe que tocasse novamente. Gerava toda uma boa conversa a respeito dos povos indígenas que fazem e tocam suas flautas e da proibição das flautas sagradas dos povos do Rio Negro. O incentivo para que voltassem a tocar e a ensinar aos jovens e as crianças animava os tocadores, dentre os quais o sr. Domingos Tariano que dizia: "foi um descuido nosso", referindo-se a aos antigos missionários... Encontro de professores. No dia 14 tivemos a oportunidade de participar de um encontro com 39 professores indígenas em Iauretê. Ir. Edwirges, coordenadora de ensino, apresentou um cartaz com a frase:"A educação integral da criança e do adolescente no seu próprio contexto e fora dele". Muitos reagiram dizendo: Domingos Tariano, " A educação integral já fez muita destruição: quis fazer índio integrar-se no mundo do branco, negar-se como índio...hoje, não queremos isso". 3 Paulo Piratapuio,"Temos de pensar a educação como um todo para não repetirmos as divisões feitas pelas secretarias de educação que a dividem em matérias isoladas." Geraldo Tucano," Nossa preocupação é fazer valer a educação diferenciada." Ir. Dária e Ir. Edwirges, contaram que o colégio São Gabriel há dez anos faz atividades culturais na semana da pátria e está indo muito bem, mas no começo foi difícil. Tarcísio Piratapuio,"Estou sendo muito cobrado, principalmente pelos antigos, por não realizar o desfile escolar da semana da pátria. Mas isso é do tempo da ditadura, do autoritarismo. "Temos que inventar outras coisas." Partilhamos um pouco da experiência vivida com os sateré-Mawe. Percebemos que os problemas são bem parecidos: Insegurança diante do novo. Medo de assumir a educação diferenciada por não saber os caminhos a serem percorridos. Problemas devido a tanta bebida alcoólica, também entre os professores. Tensão com os comunitários. Falta de recursos (econômicos e humanos, para a qualificação de professores), disponíveis para investir na educação diferenciada. No fundo, surge uma grande pergunta: o que é uma escola-educação diferenciada? Pensamos que só os próprios sujeitos, os indígenas puderam gerar esse instrumento novo. Os não-índios poderemos facilitar ou atrapalhar esse projeto. Um passo para frente: "Colegiado" na direção das escolas. O clíma entre os professores e diretora da escola grande de Iaueretê está tenso. Eles acham que ela não tem paciência com eles. Na verdade, desejam assumir a direção. A diretora pensa em, aos poucos, ir organizando um colegiado e mais tarde entregar a direção. E...com certeza, é o caminho certo. Falta de trabalho em equipe. Conflito entre salesiano e salesiana. Qualquer pessoa que chega no Rio Negro onde estão os salesianos e as salesianas, percebe que o relacionamento entre os mesmos não é muito bom. Parecem estranhos. A frieza com que comunicam-se faz mal a qualquer animal.Verdade! Tem um caso horrível..., o pároco tem problemas pessoais com uma das irmãs. Sabe que ele faz tudo para atrapalhar o trabalho dela? Sabemos que isso não é novidade, mas serve somente para chamar a nossa atenção de tão humanos... Não tem como trabalhar em equipe, ou pelo menos é muito desgastante; infelizmente. Movimento político. Foi muito interessante observar que em todas as comunidades, muitas famílias tinham todos os "santinhos" pendurados nas paredes de suas casas. "Comer a isca sem engolir o anzol", parece ser a consigna, é dizer, aproveitar-se de todos os candidatos sem vender o voto para ninguém. Nestas duas últimas semanas antes das eleições, muitos candidatos foram até Iauarete que é onde, em grande medida, se decide a eleição de S. Gabriel. O nível dos debates políticos muito ruim. Muita baixaria de acusações. Crescimento das associações e atomização. Para conseguir mais recursos surgem muitas pequenas associações. Para Dom Walter, esse processo está gerando a atomização do povo que acaba dividindo-se e perdendo força. De fato, visitando as comunidades, deu para perceber em algumas comunidades mais numerosas as brigas entre as associações, para ganhar os recursos de determinados projetos. Esse processo junto com as divisões criadas pelos partidos políticos geram um forte processo de atomização que os próprios tuxauas não estão sabendo administrar. Casamento em Santa Maria. Com o padre Salvador atravessamos o rio Waupés e fomos a uma festa de casamento na comunidade Santa Maria, em frente à Iaueretê. Na festa, estavam todas as famílias da vila e convidados. Nossa chegada foi acolhida com muito carinho. Todos felizes com a presença do padre novo e filho da terra, que comunicava-se na língua deles. Muitos senhores aproximaram-se de pe. Fernando, que brincava falando em tucano e nheengatu e logo diziam que falavam português,espanhol, tucano, tariano, tuyuca, wanano e outras. Outra coisa legal foi novamente, comentários sobre a flauta tocada na missa e na festa de casamento. Foi aí que um sr. disse:"Foi um descuido nosso", referindo-se aos seus antepassados que foram proibidos de continuar tocando suas flautas sagradas. Hoje, alegram-se ao ver e ouvir os padres novos tocando cariço nas missas e festas. 4 Exposição de fotos e vídeos sobre a Marcha e Conferência Indígena 2000. Em Iaueretê, tivemos todo o apoio tanto dos padres que são os donos do espaço físico, da aparelhagem de vídeo, quanto das lideranças indígenas que levaram o convite para o padre divulgar na sua "voz de alto-falante". Nos dias 15,16 e 17 - exposição das fotos e exibição das fitas de vídeo. Foi grande a participação das vilas e de outras pessoas vindas de outros lugares mais distantes. O interesse era grande. E o bom nisso tudo, foi a presença dos indígenas que participaram da marcha e que passaram a contar, a partir das fitas e na língua tucana, as experiências vividas. Os "parentes" prestavam muita atenção e demonstravam indignação diante da repressão policial.. Quando viam um de seus representantes no vídeo, vibravam de alegria ou tristeza quando os viam chorando. Mas o pajé tucano Laureano Maia, um dos representantes, era convicto ao afirmar:"Valeu a pena ter ido. Ganhei experiência, descobri que existem muitos parentes espalhados pelo Brasil." Estou convencido de que a luta dos povos indígenas é desafiadora, precisa ter coragem pra continuar lutando por seus direitos"dizia outro que foi, sr. Miguel tucano. Uma das fotos mais procuradas e comentadas foi a do Gildo Terena, o índio jovem que enfrentou a polícia padindo paz. Era a foto que passou na globo, mexia e revoltava a todos. Padres e catequistas Colombianos. O padre Norberto Blanco, o diácono Ernesto Wanano, e um g rupo de 21catequistas atravessaram o rio Waupés para participar da exposição, vídeos e uma boa conversa sobre a marcha. Partilharam um pouco da vida na Colômbia... Algumas comunidades pediram as fitas para refletir mais devagar sobre a Marcha Indígena e a represão de Porto Seguro. Outras comunidades e escolas queriam as fotos e fitas, porém...ficou a possibilidade de regravá-las e enviá-las para que continuem passando as informações para os que não tiveram oportunidade. Uma das possibilidads assim que as fitas chegarem é de serem repassadas pela globo do local. As irmãs viram as fotos e fitas num momento exclusivo. As reações delas foram boas. Os padres psdiram as fitas e também eles gostaram e pediram cópias, assim como tantos grupos. Pensamos que estas fitas dão para fazer um bom trabalho nas comunidades sobre a tomada de consciência de "corpo" com os outros "parentes," e de crescimento na consciência política das comunidades e do povo da base mais que das organizações e lideranças. É importante continuar percorrendo as comunidades aprofundando a questão indígena (identidade) a partir da Marcha. As celebrações de Fr. Salvador. As celebrações eucarísticas presididas pelo pe. Salvador, pareciam ter outro"gosto", isto é, era gente deles, falava a língua e de coisas deles. O evangelho tinha um significado mais próximo e especial... Os leigos/as sentiam-se com mais segurança nas animações. O Pe. Fernando foi convidado a concelebrar. Salvador ficou-lhe grato e dizia-lhe:"Obrigado pela presença amiga e irmã,"nos meus primeiros dias de padre. A flauta continuou dando um clíma diferente com um som novo e lembranças tão antigas. Numa das vilas, bairros para nós, após a reza teve o encontro das pessoas para rever suas vidas.É interessante a experiência. Tratam de seus problemas e tentam encontrar soluções para os mesmos. Problemas referente a educação, por exemplo, são levados a sério. Os filhos passam os problemas e a comunidade toda participa das discussões e os professores são procurados e cobrados.Normalmente eles também participam. Os encontros acontecem aos sábados. Terminam com as comidas e bebidas típicas, quinhampira e caxiri. De 19-25/09/00, Taracuá. Em Taracuá chegamos na madrugada do dia 19, algumas pessoas da comunidade que esperavam o barco nos convidaram a ficar na palhoça (casa de zinco) da comunidade que a prefeitura fez nova, por estes dias junto com o pavimento duma das ruas principais. Tempo de eleição! Ao amanhecer fomos junto às irmãs. A irmã Rose nos deu hospedagem no hospital. De tarde visitamos o Pe. Bruno e o irmão José. Colocamos a proposta de passar os vídeos da marcha para a comunidade, gostaram e ofereceram o salão paroquial com a TV e o video. No dia 20 a ir. Arizete viajou com a Ir. Eduwirgem para Pari-Cachoeira para desenvolver um pequeno trabalho com os professores e passar os vídeos da Marcha para a comunidade. Voltaram a Taracuá no dia 24. No dia 21 o Pe. Fernando saiu a visitar algumas comunidades com a Ir. Rose. Voltaram a Taracua no no dia 25. 5 Os videos foram apresentados em Taracuá no sábado 26 para os jovens e no dia 27 para as pessoas maiores da comunidade. Com os adultos principalmente, os comentários sobre as fotos e as fitas foram muito bem proveitosos. Algumas senhoras lagrimavam com medo das bombas e fumaça e diziam que tinham medo de sair da área.Um sr. guardou a fala do Tominho Guarani e repetiu com suas palavras "Ele está certo. Em 1500, maltrataram nossos parentes, destruíram o que era nosso ,roubaram nossas terras e era só os índios que moravam nessas terras". Os alunos de Taracua estavam muito por dentro da geografia e a historia dos 500 anos. De 19-22/09/00 em Pari-Cachoeira. Ir. Edwirges nos convidou para irmos com ela à Pari Cachoeira. Como a voadeira só cabia mais uma pessoa, a Arizete foi. A viagem foi muito boa; horas e horas de água, floresta, pássaros, sol , chuva e tempo para conversar, contemplar a beleza e agradecer a Deus por tudo. Paramos em algumas comunidades, foi tão gostoso o encontro com mais pessoas. Não dá para viajar à noite sem uma boa lanterna... foi a conclusão que chegamos depois de termos passado por uma aventura imprudente, gostou? No dia 20 pela parte da tarde, nos reunimos com os 18 professoresindígenas de Pari. No início, alguns achavam que eu era fiscal da secretaria, mas um deles, o Evilázio, que foi seminarista e eu o conheci disse aos seus colegas:" Não. Ela é a irmã Arizete. É gente nossa",quem contou-me foi o prfº Ricardo, que tornou-se um bom amigo. Ele é um que bebe muita cachaça e atrapalha os alunos. A escola tem como diretora a irmã Rosilene Tucana. Foi emocionante ouví-la falar em tucano, em tuyuca ou em alguns momentos em português com seus alunos, professores e outros funcionários ou comunitários. A escola atende 296 alunos do ensino fundamental. Várias alunas(18), desistiram devido a problemas de gestação. São os militares indígenas e não indígenas os maiores responsáveis... A formação dos professores é de ensino fundamental e alguns poucos, de ensino médio. Os problemas são muitos: recursos eonómicos, recursos humanos, os alunos são de varias etnias, porém o tukano é a lingua em que os professores explicam os assuntos, mas escrevem em português por não dominarem a escrita tucana. Pedem cursos e acompanhamento de profissionais na linha de linguística. Assim o tukano vai reforzando-se frente as outras linguas da região. Como saída imediata, Anacléia, uma das professoras que fez um curso com o Henri Ramirez estudioso da língua tucana, vai repassar o que ela aprendeu aos seus colegas, com ajuda da diretora e de um outro que é professor da língua tucana. Dentre essas várias etnias, destacam-se os tuyuca que só falam tuyuca. Alguns filhos de militares que só falam o português ou alguns parentes colombianos que falam o espanhol. Os professores sentem-se esquecidos, abandonados. Mas realmente é difícil chegar lá. Porém, a secretaria de educação deixa muito a desejar. A secretaria de educação do município construiu uma palhoça para funcionar uma sala de aula e os pais não aceitaram. Estão acotumados com os bonitos colégios salesianos. Ir. Edwirges foi trabalhar com os professores, o referencial curricular da educação escolar indígena. A diretora foi super aberta. Conversou com o seu grupo de trabalho e suspenderam as aulas para que houvesse o estudo, durante um dia e meio.É que não deu para avisar a chegada. Os professores foram divididos em vários grupos, por área específica. O grande desafio ficou: Planejarar e desenvolver atividades culturais, como escola toda, a partir das iniciativas que já deram certo. O profº. Brasilino dizia:"Antes, eu mandava meus alunos fazerem.Hoje, eu faço junto com eles e todos participam. A comunidade começou a entender o compromisso que existe entre ela e a escola onde estão os seus filhos." Os professores ficaram de continuar encontrando-se para estudar os assuntos importantes e necessários para o melhor desempenho do grupo. Irão dar o jeito de participar de um encontrão de professores que acontecerá em Barcelos, no mes de dezembro deste ano. Irão procurar assessoria. 6 Na noite do dia 20, mais de 300 pessoas entre alunos, pais de alunos, professores, lideranças indígenas do local participaram da sessão de vídeos sobre a marcha e conferência indígena 2000. Foi interessante a reação, o interesse e até uma certa revolta demonstrada por muitos que perguntavam: por que a polícia fez isso? Rendeu uma boa conversa. Os alunos levaram caneta e papel e fizeram boas anotações. Algumas crianças atrapalharam-se com a fala do presidente e anotaram tudo positivo, isto é, não perceberam a incoerência existente entre a sua fala e a sua prática... Dia 21 pela manhã, houve a exposição das fotos sobre a marcha. Os estudantes participiamosaram olhando-as, anotando os dizeres das frases, o nome dos povos presentes e o mais bonito, interessados em maiores informações sobre esse grande acontecimento. Uma turma muito querida, abriram-se novos laços de amizade. De 20-24/09/00, itinerancia do Pe. Fernando com a Ir. Rose. Varias comunidades de fala tukano visitamos sobre o rio Tiquie, Coro Coro, Matapi, Vila Nova e Colina; também uma comunidade Hupi, Fátima, sobre o rio Cunuri, afluente do Tiquie. Mais o menos um dia ficamos em cada comunidade. Tinhamo distintas atividades. A Ir. Rose tomava conta da saúde da comunidade, visitavamos as familias, os rosados, brincavamos com as crianças, faziamos reunião com a comunidade para escutar a situação, apresentavamos as fotos da marcha indígena, comentavamos a ordenação de Fr. Salvador... Terminavamos a visita com a celebração da eucaristia. Alguns pontos a destacar: As comunidades gostam muito da Ir. Rose. Ela tem uma energia impressionante. Vai trocando produtos da pesca, roça, caça, artesanato, etc. por roupa, sabão, veneno para formigas, anzos, ferramentas, etc. Também vai comprando pixe, fresco e moqueado, para os doentes do hospital. A situação da comunidade Hupi é muito diferente das comunidades Tukano. Eles continuam sendo muito nómades. As roças da comunidade Fátima não estão mal, tem: maniva, banana, cana, abacaxi, ipadú (folha de coca), cara. Estão esperando que a Ir. Rose volte em novembro com a motoserra para derrubar e fazer ouras roças mais grandes. Um tema complicado é a confissão. Em cada comunidade, antes da missa, a Ir. Rose me indicava para ir na igreja a ouvir confisssões, que as pessoas da comunidade estavam esperando... Toda a comunidade, em fileira ia passando. Muitas mulheres e alguns homens falavam em tukano ou hupe... Muitos deles chegavam tremendo junto ao padre... Em alguns momentos teve problemas de conciência, porém não coloquei nada para a irmã... Numa primeira itinerância com ela não pensei que fosse bom questionar esse tema. O custo da itinerancia é muito alto. A itinerancia foi muito boa. A Ir. Rose nos convidou para voltar. Em geral as irmãs se mostraram muito amigas e acolhedoras. Os padres não tanto. De 26-27/09/00 em São Gabriel da Cachoeira Nosso passo por S. Gabriel foi muito rápido. Arizete ficou com as irmãs e eu fiquei na diocese. Deixamos os vídeos com o Ir. Guli e a FOIRN para fazer cópias e enviar para Iauarete, Pari-Cachoeira e Taracua. Parece que esperam a nomeação do sucesor de Dom Walter para antes do fim do ano. Muitos desejam que não seja um salesiano. Nos encontramos com vários indígenas que etavam na ordenação de Salvador. Encontramos três padres espanhóis, estão conhecendo a área para uma possível inserção. 28/09/00, Santa Isabel. Debate político entre os três candidatos à prefeito da cidade. O mediador foi o pe. Francois salesiano, o nível do debate foi muito bom. Era proibido acusação. Fomos na praça, onde colocaram um carro-som e reuniu muitos populare para ouvir o debate. Eles reagiam de acordo com a fala de seus candidatos, aplaudindo-os ou vaiando os adversários. Estava bem animado... A bebida alcoólica fazia muitos bêbado. Saímos a procura da sra. Diva Piratapuia e a encontramos juntamente com o Jerôncio Yanomami e Carlos outro indígena(candidato a vereador), lideranças que participaram da marcha. Nos emprestaram as fitas que gravaram durante a viagem. Convidaram para ficarmos e ajudá-los no trabalho sobre a marcha. A proposta ficou para ser estudada para o próximo ano, se Deus quiser. Fomos na casa das irmãs visitá-las e tomar café com elas. O encontro foi muito agradável, elas foram super acolhedoras. 7 Pe. Fernando deixou no computador do colégio, as fotos sobre a marcha. Elas ficaram de repassá-las as outras pessoas. O barco atrazou mais de uma hora. A ir. Terezinha nos convidou para Fazermos uma experiência, acompanhando as irmãs do Maiá que trabalham com os Yanomami. Proposta para o próximo ano... De 28-29/09/00 em Barcelos. Pela manhã encontramaos as irmãs Terezinha e Socorro. Acompanhavam um grupo de alunos que estavam indo para um retiro orientado pelo pe. Melchior. Fomos a casa dos padres Francisco e Melchior que nos receberam com amizade Tomamos café, encontramos muitas pessoas de fala tucana e nheengatu. Visitamos algumas comunidades e outros lugars da cidade. Era assustador o número de pessoas bbadas pela praça, porto e ruas. Estavam chegando de várias comunidades para as eleições. Os padres são muito conhecidos, quase todos os bêbados os conhecem. Isso era legal. Os eleitores têm dois candidatos para votar para prefeito, um que já foi e o outro que é. Para vereadores, o número de candidatos é enorme, até Benjamin Baniwa, por quem procurávamos sem encontrá-lo. Pe. Francisco estava muito feliz com a reabertura da rádio comunitária, assim como a grande maioria da população, também. As bruxinhas estão devagar... Estão fazendo reformas nas igrejas... Pedem parceria para as visitas pastorais... Notas da Ir. Arizete Hierarquia entre os distintos povos é muito forte. Em Iauarete muitos professores estão com outros cursos superiores (antropologia, ciencias sociais, geografia, etc.). Conflito entre salesianos e salesianas. A alimentção não parece tão fraca. Agora á bastante peixe que moqueiam. Muito caro os produtos que vem de fora. Peixe mokeado R$ 3. A gasolina R$ 3 (litro). Isso faz que o custo da missão seja muito alto. Se nós tivéssemos que pagar todos os movimentos destes dias de itinerancia seria uns R$ 3000 ou mais. O "oratorio" de final de semana que envolve a familia toda. Os pais de Pari não gostaram da palhosa para a escola. Os de Iauarete fizeram palhosas para impartir distintas aulas. Os Yanomami do Maia quiseram uma escola como a dos brancos, não uma palhosa como a que propunham as irmãs. Padres indígenas "Será que Fr. Salvador vai trabalhar com os indígenas nas nossas aldeias?", perguntou-me uma senhora do povo tucano. Será que Domingos, João, e Josimar tem que estar trabalhando em S. Gabriel? João, em que teu trabalho é diferente ao de um padre não indígena? 8