ELIANA MORAES DE ALMEIDA LIVRO DE REGISTRO DO TRATADO DE SANTO ILDEFONSO (Volumes I,II,III) – 1777 a 1793 : Edição de textos e estudo da pontuação CUIABÁ UFMT/ 2005 ELIANA MORAES DE ALMEIDA LIVRO DE REGISTRO DO TRATADO DE SANTO (Volumes I, II, III) – 1777 a 1793: Edição de textos ILDEFONSO e estudo da pontuação Dissertação apresentada ao Programa de pós-graduação do Dep. de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagem, na área de Descrição Lingüística. ORIENTADOR: Prof. Dr. Manoel Mourivaldo Santiago de Almeida. CUIABÁ UFMT/ 2005 “Não há limite para a produção de livros, e estudar demais deixa exausto o corpo. Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos mandamentos, porque isso é essencial para o homem.” Eclesiastes 12: 12,13. “Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele seja a glória para sempre! Amém.” Rm 11:36 RESUMO O Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso, formado por três volumes, reúne uma série de documentos (cópias), relatórios, cartas em sua maioria, incluindo uma cópia do tratado de Madri e do tratado de Santo Ildefonso. De valor histórico inegável, compõe-se de memórias, instruções, antecedentes e trabalhos demarcatórios envolvendo o período de 1777 a1793 no governo de Luís de Albuquerque Mello Pereira e Cáceres. Esta pesquisa é uma tentativa de se posicionar quase na fronteira entre o trabalho filológico e a investigação histórica da língua. Extrapola os limites da fixação de uma fonte historiográfica no contexto regional, consistindo numa reflexão sobre o estado da língua nos idos do séc. XVIII, focalizando um estudo da pontuação nos manuscritos. O trabalho se realiza em três etapas: seleção de documentos com análise codicológica, edição dos textos e análise preliminar da pontuação. O primeiro capítulo traz as bases metodológicas e científicas do trabalho filológico. O segundo, a história dos textos e um pouco do contexto social e das personagens que os compõem. A edição dos manuscritos, bem como as normas de transcrição, são apresentadas no capítulo três. O estudo lingüístico, com análise dos principais sinais de pontuação : ponto final, vírgula , ponto-e-vírgula e dois pontos compreendem o capítulo quatro. Ao fim, apresentam-se algumas considerações sobre o trabalho e uma seção de anexos com fotos de visualização dos manuscritos. AGRADECIMENTOS Ao Senhor da minha vida, dono da minha alma, dono do meu coração. Eu não seria nada sem Ele, porque sem Ele nada poderia eu fazer. Sou o que sou pela Sua infinita misericórdia, amado Jesus Cristo. Ao meu amado, parte de mim, metade de mim, e meu tudo...Diogo Alves. Você trouxe toda motivação e força que eu precisava neste processo. Foi bom ter esperado você... A minha família, meus pais principalmente. Jamais mediram esforços para minha educação, amo vocês. A minha " irmã mais velha" e amiga maior, Josenice, posso ver um pouco de você em tudo que construímos juntas. Obrigada pela força no trabalho. Ao meu orientador, pelas críticas, pelo apoio, por tudo...Admiro muito seu trabalho. Aos meus professores, principalmente da coordenação de pós-graduação , o Mestrado em Estudos de Linguagem: por trás de todo profissional bem sucedido há mestres de inestimável valor, como vocês. Ao professor Doutor César Nardelli e à professora Doutora Maria Rosa Petroni, por serem a luz que faltava no final desta pesquisa. Ao Arquivo Público de Mato Grosso e todas as demais instituições que forneceram as fontes deste trabalho. A todos os meus amigos e colegas, que ajudaram a escrever mais uma página de uma história de lutas e preciosas vitórias. ABSTRACT Saint Ildefonso Treaty Register Book composed by three volumes, containing several documents (copies), reports and most of them letter, including a copy of Madrid Treaty and Saint Ildefonso Treaty is an inestimable historical and linguistic source. Memories, instructions, records and demarcation works from 1777 to 1793, when Luís de Albuquerque Mello Pereira e Cáceres was the governor of Mato Grosso formed these Books. This research is in the frontier of Philology and History, trying to realize an investigation besides establishing a document. Focused on language description it’s more than a regional historic source: it deals with a reflection about our language in Eighteen Century. The study is divided in three stages: manuscript selection with a codicological analysis, text editions and a preliminary essay about punctuation. The first chapter brings scientific and methodological basis. The second, based on the history of selected manuscripts also shows the social context about that time. The editions of these manuscripts, as well as transcription rules are presented in chapter three. An analysis of language structure in chapter four emphasizes the system of punctuation: full stop, semicolon, colon and comma. Special status is given to certain points of the study in the last chapter. Finally, photos of some manuscripts also illustrate all. FICHA CATALOGRÁFICA A447l Almeida, Eliana de Moraes. Livro de registro do tratado de Santo Ildefonso (Volumes I, II, III) – 1777 a 1793: edição de textos e estudos de pontuação. / Eliana de Moraes Almeida. – Cuiabá: a autora, 2005. 185p. Orientador: Prof.Dr. Manoel Mourivaldo Santiago de Almeida. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Mato Grosso. InstiTuto de Linguagens. Campus Cuiabá. 1. Lingüística. 2. Literatura. 3. Filologia. 4. Análise codicológica. 5. Edição de manuscritos. 6. Pontuação. 7. Capitania do Mato Grosso. I. Título. I – INTRODUÇÃO Philologie ist die Erkenntnis des Erkannten. Filologia é o conhecimento do conhecido August Boeckh (1785-1867) Os interesses da Filologia têm variado conforme as épocas em que se praticou a atividade filológica e de acordo com autores e lugares onde fora praticada. O labor filológico tem seu campo específico e, tanto quanto possível, bem determinado. A Filologia não subsiste senão no texto, concentra-se no texto para restituí-lo à sua genuinidade e prepará-lo para ser publicado (Spina: 1994). De forma objetiva, ela se preocupa em restituir o texto à sua forma original através dos princípios da crítica textual, mais especificamente da Edótica, compreendendo a organização material e formal do manuscrito, além de outros problemas que não se limitam ao texto, mas se deduzem dele, tais como: autoria, datação e importância perante os textos da mesma natureza. Em reconhecimento a isso, na fronteira entre o trabalho filológico e a investigação histórica da língua, esta dissertação surge como resultado de um trabalho que extrapola os limites da fixação de uma fonte historiográfica no contexto regional apenas, consistindo também numa reflexão sobre o estado da língua nos idos do séc. XVIII (1777-1793). O Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso encontra-se no acervo do Arquivo Público Histórico de Mato Grosso e faz parte do fundo da Secretaria de Governo, inscrevendo as correspondências da Capitania de Mato Grosso, no período das administrações de Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres e, posteriormente, João de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres. São três volumes que compreendem documentos envolvendo o período de 1777 a 1793, muito embora os termos de abertura e encerramento datem de 1774. Foram elaborados por ordem do governador da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque, para 1 servir de registro das ordens de Sua Magestade e quaisquer outros documentos relativos a Demarcação dos Reaes Dominios. (Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso, Volume I, termo de abertura). Dada a extensão da fonte escolhida, foram selecionados alguns textos mais relevantes que compõem o Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso: cópia do Tratado de Santo Ildefonso (volume I), três cartas (volume II) e um diário de viagem (volume III), para edição e análise. 1.1 Princípios científicos do trabalho filológico A atividade filológica também considera a língua, analisa suas formas e construções, acompanhando, por meio de documentos cronologicamente sucessivos, a evolução dos fonemas, das formas, do emprego das formas e da construção da frase (transformações sintáticas). Assim, o desenvolvimento deste trabalho percorre três etapas bem definidas: a) Seleção e reconstrução histórica dos manuscritos (capítulos I e II); b) Edição dos manuscritos (capítulo III); c) Análise lingüística (estudo da pontuação- capítulo IV). Anterior à seleção, alguns princípios científicos que constituem a crítica textual foram considerados, a fim de preencher todas as lacunas na definição do foco e da metodologia da pesquisa. Com base no sistema de Lachmann (Spina: 1994) e nas etapas apresentadas por Bassetto (2001), Azevedo Filho (1987), Vasconcellos (1959), entre outros, a recensio permitiu um levantamento de todos os códices existentes do Tratado de Santo Ildefonso, das cartas e do Diário de Navegação. É importante destacar que todos os volumes possuem um índice, que, além de definir os fólios de localização dos documentos, também descreve resumidamente o conteúdo de cada um deles , afirmando que os manuscritos presentes nas obras são cópias. Quando tal informação não aparece diretamente nos índices, ela está presente no início dos textos no interior dos volumes. 2 Fig. 1 - Índice no início do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. III. Por outro lado, sabe-se, pelo próprio Arquivo Público de Mato Grosso, que dos originais das correspondências, diários de viagem, instruções, relações, memórias, recibos, cartas e respostas de cartas faziam-se cópias que formavam os livros de registro. Os originais podem ou não ser localizados em acervos do país, Portugal ou Espanha, logo não haveria como estabelecer parâmetros para uma edição crítica. A natureza desta pesquisa não focaliza a produção de uma edição crítica no atual contexto. Entretanto, pela existência de edições dos 3 Tratados de Madri e Santo Ildefonso (Volume I), pode-se abrir espaço para uma produção posterior de obra crítica, mas apenas dos Tratados, visto que, até o presente momento, não se sabe de outra cópia semelhante à do livro de Santo Ildefonso na íntegra dos volumes, contando as cartas e demais documentos, nos acervos da região Centro Oeste pelo menos. O tratado de Santo Ildefonso tem seu original fortemente guardado na Biblioteca da Torre do Tombo em Portugal, mas o conteúdo das correspondências da capitania de Mato Grosso faz supor que algumas cópias foram entregues às demais capitanias envolvidas nos trabalhos demarcatórios e, destas, uma delas encontra-se no livro de registro, intitulando-o. Por se tratar de um documento de grande valor histórico, já foi editado e consta de obras da História Geral do Brasil, a exemplo da edição de Soares (Siqueira 2002:57), cujo fragmento do Artigo X é reproduzido a seguir. Fig. 2 - Fragmento da edição de Soares (In: Siqueira 2002:57). O exemplar editado aqui tem valor lingüístico e histórico e será considerado como fonte do registro formal da língua setecentista no processo de análise, postura que será esclarecida no desenvolvimento da pesquisa. Os três volumes contam com um total de 348 cartas (respostas e as chamadas “ditas”/”dito”). Como explicado anteriormente, conforme descrição do próprio livro, os manuscritos constituem-se em cópias, cujos originais se perderam ou fazem parte de acervos fora do país (Portugal e Espanha). 4 O histórico dos códices, como dito anteriormente, será apresentado no segundo capítulo da dissertação, fornecendo também o contexto social e político, os quais envolvem a elaboração das obras. Tornou-se indispensável, devido ao grande volume de manuscritos, a adoção de alguns critérios, com o objetivo de determinar quais exemplares comporiam esta pesquisa, tais como: 1. Relevância histórica de conteúdo, isto é, a natureza do conteúdo dos manuscritos deve possuir relevância para o contexto histórico regional; 2. Adequação ao contexto de formação do Livro – relação com o Tratado de Santo Ildefonso, pois vários manuscritos relacionam-se a acontecimentos de menor relevância. 3. Mudança de punho indicando alteração de autores/copistas – revelada também pela grafia e estilo na linguagem. Quanto ao processo de edição, apresentado no terceiro capítulo, convém destacar que os textos têm capital importância como documentos da língua, pois noticiam e apresentam visão geral do estado da língua em épocas anteriores, permitindo fazer a história do idioma. Desta maneira, cabe ao pesquisador a escolha da melhor edição, a qual favoreça a análise das ocorrências no interior da estrutura da língua. Das edições apresentadas por Spina (1994), Bassetto (2001), Cambraia (1999), Acioli (1994), entre outros – edição crítica, diplomática, semidiplomática ou diplomáticointerpretativa, paleográfica e fac-símile – optou-se, nesta pesquisa, pela apresentação da edição diplomática, justificada e descrita detalhadamente também no capítulo III. Além disso, dentro dos limites possíveis ao trabalho de pesquisa, acompanha este estudo uma lista de abreviaturas dos fólios selecionados e de um acervo de fotos para visualização dos manuscritos. A edição fac-símile ainda não se tornou possível devido à falta de material especializado para reprodução (inúmeras tentativas frustradas de reprodução foram realizadas com os recursos disponíveis), aos danos irreversíveis nos únicos microfilmes da obra e, ainda, à negativa da instituição em remover o documento para reprodução em outro arquivo. De acordo com o APMT, talvez até o próximo ano, o laboratório em construção possa oferecer reproduções dos documentos. No quarto capítulo são contemplados alguns pontos de descrição da norma gramatical no período setecentista pelo estudo da pontuação dos manuscritos. 5 Sob o ponto de vista diacrônico, considera Bassetto (2001:41) que qualquer variedade lingüística pode ser analisada em sua história externa ou interna. A primeira envolve a investigação da origem da língua ou do dialeto, o território ocupado e possíveis expansões, as influências do substrato, do superstrato e do adstrato, os fatos políticos, econômicos, sociais e culturais que, de alguma forma, influíram em sua evolução. A história interna, por outro lado, tem como objeto de estudo a língua em sua evolução interna, nos vários níveis lingüísticos – fonético, morfológico, sintático, léxico e estilístico. Em filologia românica, completa o autor, esses dois aspectos são pesquisados no latim e suas variedades (vulgar) e nas línguas e dialetos românicos. Os textos constituem a base de pesquisa; mas é importante que essa base seja realmente confiável. Essa confiabilidade é obtida através do trabalho filológico da Edótica. (Bassetto 2001:42) As noções correspondentes aos trabalhos de edição e análise dos manuscritos desta pesquisa compreendem a disciplina denominada Edótica, cujas normas gerais (Spina: 1994) são aplicáveis à publicação de documentos históricos, filosóficos e religiosos. A Edótica representa como que o ponto de chegada de todo o labor filológico, embora hoje o papel da Filologia apresente um propósito mais arrojado, mais pretensioso do que a simples canonização dos textos literários através de procedimentos que se consubstanciaram na chamada “crítica textual” (Spina 1994:60). 6 II – HISTÓRIA DOS TEXTOS Sabe-se que toda produção escrita revela uma história única que, ao ser percorrida e recontada, pode mostrar a constituição não somente da obra, mas de seu contexto, autor e demais personagens que a produziram. O Brasil pouco tem se preocupado em preservar sua própria história. Grande parte de sua produção acaba se perdendo no passar dos anos, esquecida nos sótãos e pequenas salas, sem o devido cuidado de preservação. Alguns estados e municípios, porém, tentam resistir, investindo recursos na abertura de espaços especializados para cuidar e manter vários registros antigos. Não existem registros que indiquem os procedimentos de incorporação dos materiais que compõem o Livro de Santo Ildefonso ao acervo do Arquivo Público de Mato Grosso. Essa ausência de registros dificultou o conhecimento imediato acerca da proveniência, classificação e ordenação originais, bem como datas-limite e outros elementos fundamentais para a pesquisa. A maior parte dos documentos não apresenta dificuldades para o entendimento paleográfico, contudo o vocabulário do período ainda não estava normatizado e a utilização de abreviaturas era corrente. Além disso, a deterioração da tinta de alguns fólios não permite mais a leitura de vários trechos dos textos, muito menos a reprodução por fotografia, senão por microfilmagem. Neste capítulo, tratar-se-á da reconstituição histórica dos códices, apesar de muitas informações terem se perdido, gerando lacunas irrecuperáveis no percurso. Também, algumas observações quanto ao aspecto material dos códices e notas paleográficas serão destacadas. 2.1 Os códices 7 O Arquivo Público de Mato Grosso (APMT) tem um acervo de setenta e um livros de registros da Capitania de Mato Grosso, correspondentes ao período de 1702 a 1825, provenientes em sua maioria da Secretaria de Governo. Para entender os acontecimentos registrados nos livros que serviram de fonte a este trabalho, torna-se necessário retomar alguns elementos da história de Mato Grosso e do Brasil colonial. Silva (1994:29) relata que o século XVII, para Mato Grosso, foi marcado por invasões de bandeirantes paulistas na busca do índio. Por outro lado, o século XVIII se destaca pela chegada de aventureiros de toda ordem e gente de toda a espécie, principalmente de São Paulo, à procura de ouro. Sob a jurisdição e ordens da então Capitania de São Paulo, Mato Grosso era uma constante preocupação para a Coroa portuguesa. Até 1746, reconhece-se que a penetração, conquista e povoamento de todo o Mato Grosso estavam bem consolidados. O domínio português se estendia aos mais longínquos sertões, dos pequenos arraiais às lavras auríferas. Contudo, apesar do efetivo e inconteste domínio colonial português, o Tratado de Tordesilhas, firmado por Portugal e Espanha em 1494, conferia ao Reino Espanhol o direito de posse das terras. Somente em 9 de maio de 1748, D. João V, Rei de Portugal, criou a Capitania de Mato Grosso, por Carta Régia, desmembrando-a de São Paulo. O Tratado de Madri, cuja cópia abre o I Volume do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso, deu nova configuração e contorno às posses geográficas portuguesas e espanholas. Desde sua assinatura em 1750, passaram por Mato Grosso três Capitães Generais. O quarto Capitão General de Mato Grosso foi Luis de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, o qual tomou posse em 13 de dezembro de 1772, governando por quase 17 anos os destinos de Mato Grosso no período colonial e destacando-se como aquele que por mais tempo administrou o estado em toda sua história. 8 Fig. 3 - Capitão-general Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres. Autor não identificado (década de 70 - século XVIII). Acervo da Casa da Ínsua, Portugal ( Siqueira 2002:56). Na opinião dos historiadores regionais, esse governador pode ser considerado o grande estadista de Mato Grosso em épocas coloniais, pois sua visão geopolítica foi extraordinária, ao ampliar e consolidar as fronteiras coloniais portuguesas em nossas terras (Silva 1994 :30). Continuando nossa leitura pelos caminhos da histórica Capitania de Mato Grosso, descobrimos, ainda, que Luis de Albuquerque ...determinou a fundação do Forte de Coimbra em 1775, à margem direita do rio Paraguai, no local denominado Fecho dos Morros, que de acordo com o Tratado de Madri, estaria em território notadamente pertencente à Coroa espanhola. Nesse mesmo ano iniciou a construção do Forte Príncipe da Beira, às margens do rio Guaporé, num feito incrível, pois que, todo o material para essa obra, bem como os artífices e posteriormente o armamento, vieram penosamente de Belém do Grão Pará, pela rota do rio Madeira. Esses dois fortes, monumentos da audácia portuguesa e ainda da coragem e da visão do homem luso-tropical, na época coibiram 9 qualquer nova tentativa espanhola de assenhorear-se de terras portuguesas, arrefecendo os seus ânimos conquistadores (Silva 1994: 30). Tanto entusiasmo é justificado diante dos mais importantes atos de seu governo, os quais incluem: • Fundação, em 1778, da povoação de Albuquerque, hoje Corumbá; • Fundação, em 1781, de Vila Maria, atualmente Cáceres; • Fundação de São Pedro Del Rey (nesse mesmo ano), hoje cidade de Poconé; • Fundação dos registros do Jauru e Insua, este no rio Araguaia, e em 1783, a povoação de Casalvasco; • Ocupação da margem esquerda do rio Guaporé, fundando a povoação de Viseu. Alguns desses acontecimentos, dados sobre a rotina administrativa e do relacionamento deste governador com outros governadores de Capitanias brasileiras, ou com a Coroa, encontram-se registrados nas cartas, ofícios, diários e outros documentos dos Volumes I e II, do Livro de Registro. Luis de Albuquerque esforçou-se ao máximo para corresponder aos anseios da Coroa portuguesa, especialmente no período que sucedeu ao Tratado Preliminar de Limites, assinado em 1 de outubro de 1777, em Santo Ildefonso. Silva (1994:32) acrescenta que Além desses feitos todos, procedeu medições de fronteira, a elaboração de relatórios de viagens e determinou a hidrográficos, confecção deixando, de mapas inclusive, terrestres uma série e de trabalhos de sua própria autoria. Muitos desses relatórios, descrições, estudos, desenhos, plantas e mapas, produzidos durante o seu governo, encontram-se até hoje conservados na Casa da Insua, antiga e senhorial residência da família de Luis de Albuquerque em Portugal. Nos segundo e terceiro volumes dessa coleção acompanhamos a substituição, a partir de 1789, deste governador por seu irmão João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, que muito pouca coisa fez em favor da Capitania de Mato Grosso. Apenas continuou o processo 10 de medição e levantamento das fronteiras e promoveu a pacificação dos índios Guaicurus. Dois engenheiros e astrônomos, Francisco José de Lacerda e Almeida e Antonio Pires da Silva Pontes se destacaram nessa época por seus trabalhos em favor da capitania. De acordo com o Arquivo Público de Mato Grosso, esses livros existem e fazem parte do acervo específico da antiga Secretaria de Governo, na época colonial. Por eles é possível delinear um retrato claro da história de Mato Grosso, pela riqueza de informação não contemplada em livros didáticos ou de História. Algumas informações preciosas se perderam ao longo do tempo e são irrecuperáveis, como, por exemplo, a explicação do por que guardar tantos registros, como este acervo foi constituído, quem era responsável pelos livros e, principalmente, quem eram os copistas, visto que as assinaturas dos textos representam os autores das cartas. Da observação do material, pela descrição histórica dos personagens que compõem o texto e em comparação com outros documentos da mesma época que fazem parte de um trabalho anterior de edição para estudo das conjunções coordenativas (Almeida e Silva: 2001), podemos ao menos assumir como pressuposto que o bom conhecimento da língua por parte dos copistas seria pré-requisito para registrar documentos importantes e de caráter oficial. Os textos deveriam ser cuidadosamente reproduzidos. Pelo menos quanto ao Tratado, pode-se levantar tal hipótese quando comparamos a minuta do texto, encontrada no acervo da torre do Tombo, com a cópia presente no Livro. Assim, percorrida essa etapa, passa-se a observar, mais detalhadamente, uma breve apresentação da história que forma o contexto de formação dos códices. 2.1.1 Os tratados de limites: trabalhos demarcatórios em Mato Grosso 11 Fig. 4 – Observações de Pontes e Lacerda. Moacyr Freitas (2000). Acervo da Fundação Cultural de Mato grosso (In: Siqueira 2002:50). De acordo com Siqueira (2002:50), os limites fronteiriços no Período Colonial eram estabelecidos por marcos geográficos e, principalmente, pela movimentação dos homens nos territórios. O processo de colonização do Centro-Oeste demarcou, assim, a partir de 1750, as terras que pertenciam ao rei de Portugal ou ao rei da Espanha. Com o rompimento do Tratado de Tordesilhas, o Tratado de Madri estabeleceu outra fronteira para a Coroa lusitana. No século XVIII, não se tinha precisão quanto à extensão das terras brasileiras e tampouco de seus rios, o que dificultava os trabalhos da Comissão Demarcadora (op. Cit. 2002:50). Esse tipo de comissão era responsável por delimitar as áreas das Coroas portuguesa e espanhola, através de registros em viagens pelos rios que duravam meses. O rio Guaporé é o mais mencionado, pois os tratados de limites reforçaram sua importância por ligar as regiões setentrionais com o alto Guaporé. Onze anos depois do Tratado de Madri, em 1761, foi assinado o Tratado de El Pardo, curiosamente não mencionado nos volumes do livro de registro do Tratado de Santo Ildefonso. Siqueira (2002:56) esclarece, ainda, que a anulação do Tratado de Madri não afastou o interesse do governo lusitano de garantir a posse das áreas a Oeste, especialmente daquelas conquistadas pelo avanço bandeirante e expandidas durante o governo dos primeiros capitães12 generais de Mato Grosso. Foi assim que Portugal procurou aumentar os postos militares na fronteira ocidental da Capitania de Mato Grosso e Luís de Albuquerque mandou construir o Forte de Coimbra, no ano de 1775. Com mais esse importante posto militar, buscava o senhorio da navegação do baixo rio Paraguai, não permitindo que espanhóis e índios dominassem esse importante ponto estratégico. O Forte Real Príncipe da Beira, inaugurado a 20 de junho de 1776, também construído por ordem de Luís de Albuquerque, possuía uma excelente posição geográfica. Estrategicamente situado à margem direita do rio Guaporé, acima da capital, Vila Bela, serviu esse monumento como mais um ponto de fixação da fronteira. A fundação da povoação de Viseu foi outro feito estratégico deste governador. Assim, podemos entender por que a ata de fundação (cópia) de Viseu consta do primeiro volume do Livro do Tratado, fólio 49v. 2.1.2 O Tratado de Santo Ildefonso: a comissão dos cientistas No parecer de Siqueira (2002:56), a construção dessas edificações deveu-se principalmente a uma questão de garantia dos territórios situados entre as duas principais vilas da Capitania, Cuiabá e Vila Bela, pois um novo tratado de limites estava sendo negociado entre as duas coroas. Destaca a autora Era o Tratado de Santo Ildefonso, assinado a 1 de outubro de 1777, marco da nova política lusitana, implementada pela rainha D. Maria I, que inaugurou um período conhecido como Viradeira, cuja política se opunha, frontalmente, àquela implementada pelo governo anterior, de D. José I, que tinha à frente o esclarecido Marquês de Pombal. Por esse novo Tratado, o Brasil perdia para a Espanha o vasto território das Missões, mantendo, praticamente intactos, os limites fixados na fronteira Oeste pelo Tratado de Madri. Assim, a fundação de Vila Maria, do Forte do Príncipe da Beira e de Viseu, às vésperas da assinatura de Santo Ildefonso, demarcou as firmes posições portuguesas na fronteira setentrional da América do Sul, especialmente no desconhecido trecho que mediava os rios Jauru e Guaporé (Siqueira 2002:57). 13 O teor do Tratado refere-se principalmente às normas de demarcação das terras pertencentes às Coroas de Portugal e Espanha, os limites de terras (onde iniciam e terminam), os direitos e deveres dos "subditos", a retirada ou permanência nas povoações, normativas acordadas e estabelecidas em vinte e cinco artigos, num texto de estrutura bem definida e carregado de componentes formulares da época. Para compor a comissão demarcadora do Tratado de Santo Ildefonso, por ordem de D. Maria I, em nome de Portugal, forma nomeados os lusitanos Ricardo Franco de Almeida Serra e Joaquim José Ferreira, e os brasileiros Francisco José de Lacerda e Almeida e Antônio Pires da Silva Pontes, além de um capelão, Pe. Álvaro de Loureiro da Fonseca Zuzarte, dois desenhistas e três oficiais inferiores. Após o Tratado, completa Siqueira (2002:57), a Capitania de Mato Grosso já possuía grande parte de sua fronteira Oeste guarnecida com fortes, fortalezas e prisões, trabalho implementado durante o Período Colonial. Até mesmo a raia máxima do Sul da Capitania fora agraciada com uma importante guarnição, o Forte de Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, próximo à antiga Vila de Albuquerque, mais tarde intitulada Corumbá. Outro dado relevante para este trabalho relaciona-se ao envio de homens cultos para a Capitania, logo após sua criação em 1748. Eram portugueses e brasileiros que, educados na Europa e dedicados ao estudo e à investigação científica, davam contornos bem definidos aos trabalhos de colonização implementados inicialmente por bandeirantes paulistas rudes, quase analfabetos. Destacam-se: Alexandre Rodrigues Ferreira (naturalista), Álvaro da Fonseca Zuzarte (capelão da Comissão Demarcadora de limites de 22 de fevereiro de 1782), Antônio Pires da Silva Pontes (astrônomo e matemático) da referida Comissão, Joaquim José Ferreira (sargento-mor de Engenheiros), Francisco José de Lacerda e Almeida (também astrônomo, autor do diário editado aqui), Pe. José Manoel de Siqueira e Ricardo Franco de Almeida Serra (militar) também membro da Comissão (Siqueira 2002:69). 14 Fig. 5 - Início do Diário de Viagem de Francisco José de Lacerda e Almeida. 2.2 Análise codicológica O processo da análise codicológica é mais bem compreendido quando se torna claro o papel de três disciplinas familiares à Edótica: a Diplomática, a Paleografia e a Codicologia, conforme Spina (1994) e, também, Azevedo Filho (1987:20) descrevem. Explica Spina (1994) que os documentos, também denominados vulgarmente códices ou manuscritos, classificam-se em documentos particulares e documentos públicos. Estes últimos, registrados oficialmente por pessoa pública, recebe cada um o nome de documento público; neste caso, ou é um diploma – produzido diretamente pelo soberano, por sua imediata autoridade, ou por um alto magistrado ( licença e alvarás régios, patentes, mandatos, éditos, que levam o selo de arma do soberano); ou uma carta – nos demais casos (forais, cartas conselhiais, senhorias, etc.). É o caso da cópia do Tratado de Santo Ildefonso e do Tratado de Madri presentes no Volume I, do Livro de Registro, um documento diplomático produzido pelas Coroas de Portugal e Espanha. Por outro lado, os documentos particulares são destinados a conservar o direito de alguém, neles não interferindo qualquer pessoa pública ( um testamento, uma doação, uma procuração, um requerimento, um contrato de compra e venda etc.). Muitos exemplos podem ser encontrados no Arquivo Público, no setor de documentos avulsos ou em livros próprios. E se a Diplomática tem como objetivo o documento público e privado, continua Spina (1994), a Edótica interessa-se, sobretudo pelo documento literário. Se considerarmos que o 15 gênero diário de viagem tem um caráter literário bem definido, com elementos narrativos e informativos, além de associar elementos do imaginário (mitos, lendas) de seu narrador-autor, então, a Edótica servirá bem ao trabalho proposto aqui. Mas também, empresta algumas ferramentas úteis para estabelecimento dos demais textos. Atualmente, a Diplomática restringe-se ao estudo dos documentos das chancelarias, documentos histórico-jurídicos - régios, pontifícios, consulares. Isto é, aos documentos propriamente diplomáticos, que se distinguem dos documentos comuns pelo fato de estes não estarem vazados no formulário conveniente (Spina 1994:19-21). Quanto ao estudo do documento, o campo da Diplomática é muito mais amplo que a Paleografia. A Paleografia tem como objeto apenas o estudo da escrita dos documentos e sua interpretação, ao passo que a Diplomática extrapola esses limites, consistindo no estudo de todos os caracteres externos do documento - a matéria escriptória, os instrumentos gráficos, as tintas os selos, as bulas, os timbres, inclusive a letra, a linguagem, as fórmulas - , isto é , numa crítica formal dos documentos, visando com isso a determinar o grau de autenticidade dos mesmos. Na verdade, Paleografia e Diplomática são objetos de certa confusão conceitual no campo da Filologia. Como ambas coincidem nos instrumentos e se diferem apenas nos objetivos da análise e interesse, completam-se e seguem grande parte do caminho lado a lado. Nesse sentido, Acioli (1994:5), por exemplo, argumenta que a Paleografia é, antes de tudo, um instrumento de análise do documento histórico. Não cabe ao paleógrafo somente ler textos; a ele compete igualmente datá-los, estabelecer sua origem e procedência e criticá-los quanto à sua autenticidade, levando em consideração o aspecto gráfico dos mesmos. Das ciências auxiliares da História, a Paleografia é a mais importante porque ela se dedica ao estudo da escrita sobre o material brando, principal fonte de informação do historiador. A autora considera a Diplomática e a Paleografia como complementares e auxiliares entre si. Muitas vezes a Diplomática é identificada como a Paleografia, mas, embora tenham como objeto comum a escrita, suas tarefas são diferentes. Parecendo contrariar Spina (1994), ressalta que enquanto esta lê e analisa o documento levando em consideração o seu aspecto exterior (grafia, material, selo), aquela procura avaliar a veracidade dele através de seus caracteres internos (língua, texto), de sua parte formal e alterações que possa ter experimentado através dos séculos. Pode-se, assim, resumir o que foi dito numa definição mais completa de Paleografia: é a ciência que lê e interpreta as formas gráficas antigas, determina o 16 tempo e lugar em que foi redigido o manuscrito, anota os erros que possa conter o mesmo, com o fim de fornecer subsídios à História, à Filologia, ao Direito e a outras ciências que tenham a escrita como fonte de conhecimento(Acioli 1994:6). São essas as bases que definirão a análise que compõe esta pesquisa. 2.2.1 Os volumes e suas características materiais: a) Capa O Volume I do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso é composto de 195 fólios, compreendendo os anos de 1780-1783. As dimensões variam para o índice e demais fólios: 21 cm de largura x 31 cm de altura no índice e 23,5 cm de largura x 32,5 cm de altura nos fólios seguintes. Exceto pelo índice, as medidas se repetem também nos volumes II e III. Fig. 6 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I 17 Fig. 7 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I 18 Fig. 8 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I O material, conforme Fig. VI e VII, que constitui especificamente a capa do volume I (única restante no momento da elaboração desta pesquisa), é todo trabalhado artesanalmente em couro genuíno. Nota-se que a capa inicialmente era de fácil manuseio, mas com o passar dos anos e à mercê das agressões do ambiente encontramos uma forma grosseira. Outros aspectos importantes a serem destacados são: desenhos em alto relevo e uma inscrição em letra cursiva humanista. Na falta de várias letras do título do volume I, podemos apenas inferir ou supor que, seguindo o índice, a inscrição deveria constar: Livro (de Registro?) para as Demarcações. Ao centro da capa, na parte superior e inferior, há dois retângulos. No primeiro, a inscrição do título do volume, no segundo, também ao centro um brasão semelhante ao do fabricante do papel, mas dificilmente identificável. Ao redor, um quadro maior margeia a capa e, principalmente entre os espaços formados entre ele e os demais retângulos, encontram-se desenhos contemporâneos àquela época. No interior dos volumes, as letras são corridas, traçadas de um só lance e sem descanso da mão. Apresentam entre si nexos ou ligações. Sendo seu traçado mais livre, a escrita oferece certa dificuldade, agravada pela deterioração do documento, na leitura (Acioli 1994:13). Os originais das capas dos volumes não podem mais ser encontrados, visto que a deterioração dos materiais e a alta contaminação mostravam a necessidade de sua destruição, pois afetariam outros documentos de igual valor histórico. Em 2004, apenas a capa do volume I ainda resistia aos maus tratos sofridos pela não preservação. Hoje, restam somente os registros digitalizados presentes neste trabalho. Por enquanto, não há notícia de outros registros existentes. Na figura VIII, pode-se perceber um traço de arquivologia (numeração e catalogação do livro), marcado por uma qualidade de papel constituída por celulose, mas a espessura é 19 grossa e resistente ao tempo. O material difere dos fólios presentes no interior dos livros, o que nos faz supor que é posterior à formação do Livro de Registro, pois sua fabricação data do último quartel do século XIX no Brasil ( Beck 1994:9; Maia 1997:10). b) Os fólios Em todos os volumes os fólios são rubricados e numerados, no canto direito da margem superior, apenas no recto (frente), o verso não é numerado nem rubricado. A rubrica pertence ao autor dos termos de abertura e encerramento: Joze de Carvalho de Andrade, datados de 11 de setembro de 1774, conforme fig. IX e X. Fig. 9 - Início do Tratado, Fólio de abertura do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I No corpo do fólio, pelo primeiro punho, encontramos os seguintes dizeres: 20 Temeste Livro cento enoventa esinco folhas numeradas errubricadas pormim comaminha cos tumada rrubricaSeguinte = (rubrica) = Do meu uzo; do= que fis este termo de abertura. Lisboa onze de Se= tembro de milsete Centos, esetenta e quatro. (rubrica) Abaixo, escrito à caneta esferográfica vermelha, em segundo punho, a datação 1974 indica a intervenção posterior no texto. Fig. 10 - Cópia do Tratado de Santo Ildefonso, Fólio 18r (ilustração da numeração do fólio na margem superior direita), Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I. 21 Logo após o termo de abertura, um fólio (figura XI) anuncia outra data de início dos registros das demarcações, conforme mostra o seguinte texto de abertura: Este livro sedestinoupor Ordem do Ill.mo e Ex.mo Sr. Luizde Albuquerque deMello Per.a eCaceres; GovernadoreCap.m General destaCap.ta paraservir de Reg.o dasordens deSua Mag.e e quaesqueroutros Documentos Relativos aDemarcaçaõ dosReaesDominios; detreminada pelo Tratado PreleminardeLemites do1.° deOutubro E1777 celebrado emS.to Ildefonso Villa Bella 18 deJulho de 1780. Belchior A.(?).Per.a (rubrica) Fig. 11 - Termo inicial, Fólio do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I 22 c) As filigranas As filigranas, marcas d’água no fólio somente visíveis a um feixe de luz, podem ser encontradas em fólios que introduzem os volumes. Nos volumes II e III são mais comuns fólios em branco. No volume I, em fólios não numerados são mais facilmente percebidos: um brasão ao centro (um fólio avulso), palavras Vorno e Quartino, em outros dois fólios avulsos. No volume II, no interior da obra há uma marca constante no inferior à direita do recto dos fólios. Marca d’água – fl. avulso, v. II O volume II tem 195 fólios, compreendendo os anos de 1783 a 1789. O termo de abertura, datado de 13 de julho de 1774, difere apenas nisto do volume I. Ao centro de alguns fólios avulsos, pode-se observar também um desenho de um touro, pouco acima da palavra Quartino. Estes elementos indicam que pelo menos dois fabricantes diferentes de papel forneceram os fólios para composição do códice. Esta hipótese é corroborada no volume III, o qual envolve os anos de 1777-1793, com 169 fólios. Em alguns fólios encontra-se no canto esquerdo superior as letras B,C, V, disposta da seguinte forma: B C V 23 Ao centro, mais facilmente observado em fólio avulso, vê-se um Brasão com uma coroa ou a marca Porrata. Em outros casos, no canto esquerdo da margem inferior encontram-se as letras G, A,P. Dessa maneira: GA P Um aspecto importante, na descrição de Beck (1998:9) , relaciona-se às marcas d'água ou filigranas - iniciais, nomes, brasões ou símbolos executados em arame fino sobre a tela vistos na folha de papel contra a luz, da mesma forma que as linhas da tela na produção do papel cuja matéria-prima era o trapo. Fizeram-se as primeiras marcas d'água nos moinhos de papel de Bolonha (1286) e Fabriano (1293-1294). Apesar de se tornarem comuns a partir do início do século XIV, jamais foram utilizadas em papéis orientais. Compostas em geral pelas iniciais ou pelo nome completo do fabricante, podem informar origem, idade ou qualidade do papel, constituindo um importante auxílio para identificar e constatar a autenticidade de um documento ou de uma obra de arte. As marcas presentes nos fólios pesquisados registram algumas iniciais e figuras, que permanecem incógnitas diante da falta de referências para definição melhor e mais profunda da origem do material que compõe os códices. Pode-se, apenas, com base nos manuais dos arquivos públicos (APSP: 1998; Beck:1998; Maia:1997), atestar os materiais, a origem portuguesa e a datação do século XVIII, conforme descrito anteriormente. d) Notas paleográficas: o papel, a tinta, a escrita. Sabe-se que até fins do séc. XII, a documentação portuguesa ainda permanecia restrita aos pergaminhos e que somente a partir de princípios do século XIII surgem os primeiros documentos em papel. A técnica desse período é superada apenas por volta do século XV. Já no reinado de D. Manuel, no século XVI, havia ordem para que determinados documentos fossem registrados em papel. Assim, o pergaminho antigo ficava destinado apenas às Cartas, com material fornecido pela Chancelaria, e o papel reservava-se aos processos e demais 24 documentos forenses. Há também um documento datado de 1288, existente no Cartório da Fazenda da Universidade de Coimbra, mencionando o pergaminho de papel (Spina:1994). Segundo Beck (1998:7) , a partir do século XIV, o papel era fabricado em larga escala e usado comumente em documentos, desenhos, pinturas, gravuras e, mais tarde, na impressão de livros. No Brasil, o despertar da manufatura do papel está ligado às mudanças políticas ocorridas após a chegada de Dom João VI. Entre 1809 e 1810, Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva instalaram no Andaraí Pequeno a primeira fábrica de papel; em 1837 surgiu a de André Gaillard e quatro anos mais tarde, a de Zeferino Ferrez, no Engenho Velho. Em 1852 criou-se a Fábrica de Oreanda, na Raiz da Serra, falida em 1874 pela falta de matéria-prima, o trapo, que chegou a ser importado de Portugal. A escassez cada vez maior do trapo levaria o botânico frei José da Conceição Veloso a pesquisar, em 1809, outros tipos de fibra presentes na flora brasileira. Em 1880, em Salto, São Paulo, inaugurou-se a primeira fábrica de papel bem-sucedida no Brasil. Explica Beck (1998:9) que até o século XVIII a técnica de fabricação do papel baseavase num sistema de pilão, em que martelos, movidos pela força de água, maceravam os trapos molhados até que estes se desfiassem, formando uma pasta. Em seguida, desenvolveu-se a 'holandesa', composta de um cilindro cuja rotação movimentava constantemente a substância líquida (água e trapos) até a formação da pasta. Antes desse maceramento os trapos eram batidos, a fim de eliminar a poeira, separados pelo tipo de fibra e pela cor, rasgados em pedaços e lavados. As fibras longas davam ao papel maior resistência e suas extremidades deviam ser pontudas e esgarçadas para que se entrelaçassem melhor; por isso os trapos não eram cortados. A folha do papel (Beck:1998; Maia :1997) era conseguida manualmente: usava-se uma tela especial, na qual os fios de cobre, chamados vergaduras, corriam paralelos e muito próximos; no sentido oposto, corriam fios mais distanciados, apenas para dar firmeza à tela, denominados pontusais. Depois de colocar uma moldura de madeira solta sobre a tela, recolhia-se a pasta das tinas; com rápidos movimentos circulares, esta era distribuída de maneira uniforme, deixando a água escorrer pela tela. Em seguida, retirava-se a moldura que limitava os bordos do papel; este era empilhado entre feltros, um a um, e prensado a fim de se extrair a água restante. Quando as folhas estavam enxutas, eram encoladas com um pincel ou por imersão, secas em varais e novamente prensadas. Apenas na Europa se utilizavam telas de arame de cobre, no Oriente eram de bambu. Podem-se perceber nitidamente as marcas das vergaduras e dos pontusais, pois sobre os fios de arame formava-se um depósito menos espesso de fibras, o que acarretava maior translucidez. 25 Fig. 12 - Tinta nítida no Fólio do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso, Tratado de Santo Ildefonso - Artigos II e III – vol. I. A fim de preencher o vazio entre as fibras, permitir uma superfície lisa, opaca e, assim, facilitar a impressão e a escrita, adicionavam-se à pasta elementos de carga: pós brancos como o gesso, o carbonato de magnésio e o caulim, entre outros. Para a fabricação de papéis coloridos, acrescentavam-se à massa pigmentos finamente moídos. Esse tingimento também podia fazer-se depois de pronta a folha de papel, através de imersão em tinta. Na 26 encolagem, que dá ao papel maior resistência e impermeabilidade, possibilitando a escrita dos dois lados, utilizava-se principalmente a goma de amido, além de resinas vegetais e a cola animal (gelatina). Essa descrição de Beck (1998:9) permite-nos associar tal produção ao papel dos fólios que compõem os livros deste período. Também, é possível compreender a durabilidade do material, espessura incomum e dimensões. O Manual de Procedimentos para tratamento documental, do Arquivo do Estado de São Paulo (1998:17), destaca o uso já da pasta celulósica, mas apenas no séc. XIX, paralelamente ao outro tipo descrito anteriormente ( o trapo). Os códices dos volumes I, II, III do Livro de Registro de Santo Ildefonso foram originalmente costurados com um tipo de linha empregado (algodão) posteriormente, no final do século XIX para documentação oficial. Contudo, não restavam senão, no início da pesquisa pouquíssimos vestígios deste material nos códices, os quais atualmente, depois da mais recente catalogação do APMT, estão soltos. A tinta, clareada com o tempo, é bem nítida nos fólios do Tratado, mas quase ilegível em algumas partes dos outros volumes do Livro. Esse fator, somado à grafia por vezes de letras bem finas e próximas, torna o trabalho de leitura exaustivo e demorado. Pelas formas de deterioração dos fólios, conforme veremos na descrição de Beck (1998:16-17), pode-se considerar tratar-se da tinta ferrogálica. Fig. 13 - Mudança de punho e tinta clareada no fólio do Diário de Viagem do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. III A tinta mais antiga já conhecida é a nanquim, feita à base de fuligem e não agressiva ao papel, além de apresentar boa permanência. É usada até hoje, recomendada na produção de 27 documentos de valor permanente. Na Europa, durante a Idade Média, ocorreram significativas mudanças na composição da tinta. A ferrogálica, no dizer de Beck (1998:16), conhecida desde a Antigüidade, reapareceu e ocupou o lugar da tinta de fuligem, que se tornaria cada vez mais rara a partir do século XV. Compunha-se basicamente de sulfato de ferro e ácido gálico, sendo este último extraído da noz da galha (nódulos do carvalho); acrescia-se, como aglutinante, a goma arábica diluída em água. No período colonial essa tinta era importada de Portugal, já que o Brasil não tinha permissão de industrializá-la. Ela pode provocar a corrosão irreversível do papel. A forte acidez, desencadeada com a absorção progressiva do oxigênio, da umidade e de poluentes atmosféricos, como os gases sulfurosos, destroem os papéis e em processo ainda mais acelerado, os compostos de fibra de madeira. A letra, segundo a classificação de Spina (1994) considerada uma variante da humanista, muda de punho em vários trechos dos volumes. Trata-se de uma cursiva mais simples e moderna, assemelhando-se tanto no século XVIII quanto no século XIX. Para Acioli (1994:62), a cursiva do século XIX pouco difere da atual. Quando a grafia é bem feita, a leitura é fácil e corrida. São poucos os deslizes cometidos pelos copistas e raramente aparecem palavras riscadas ou entrelinhadas. Nos escrivões, sobretudo nos profissionais, sente-se a influência caligráfica: traçado regular, iniciais graúdas, distribuição perfeita na página, espaços bem ocupados. Fig. 14 - cursiva presente no Tratado de Santo Ildefonso - V. I roaz . [ ]1 Sua Magestade Catholica,em seu Nome, ede Seus Herdeiroz, e successorez, cede afavor de Sua Magestade Fedelissima, de seus Herdeiroz, eSuccessores, todos, equa es quer Direitos, que lhepossaõ pertencer aos Territorioz, que, segundo vay explicado neste Artigo, devem pertencer á Coroade Portugual. (fl 13r, linhas 24-29). 1 Símbolo que indica espaço, convencionado na edição do texto. Ver capítulo III. 28 Fig. 15 - cursivas presentes (fragmentos I e II respectivamente) no diário de viagem2 - V. III 2 []Dia 30 Naveguey duas léguas e 74 pr entre agoapez do pantanal, retrocedendo de varias veredas que seguy por que as achava secas athe que finalme sahy a hum lugar que lhe chamam o Boqueiraõ, ponto em que o Ryo torna novamente a correr encanado por entre humas margens que tinham de hum athê dous palmos de altura Fuy seguindo este canal – vencendo a correnteza da agoa e algumas vezes encalhando nos baixos pois nas partes concavas das enseadas tinha mto irregular fundo de (fólio 39v, linhas 17-27) Fragmento I 29 Ainda, do ponto de vista gráfico, completa Acioli (1994:62), o retrocesso de cem anos na escrita representa poucas diferenças nos sinais e também na ortografia de então. A dificuldade de leitura não reside obrigatoriamente no retrocesso cronológico. Uma escrita mais antiga, por exemplo, do século XVI, pode ser mais legível do que uma do XVIII ou XIX. O inverso, contudo, é mais comum. Também, a simples mudança de século não implica a mudança de escrita. Sendo assim, tal como Acioli (1994:62, 63) e servindo-se de algumas bases de seu trabalho nos manuscritos dos séculos XVIII, há que se destacar apenas as diferenças gráficas ou ortográficas da escrita antiga para a atual. Diferenças Paleográficas: - A letra e possui três grafias diferentes nos fólios do Tratado. Uma para maiúscula, uma para minúscula e outra que também parece ser minúscula , mas isso não fica claro no manuscrito - E eos Estabelecimentos. O h é semelhante ao 'e' e ao 'l', exceto por um ligeiro traçado curvo que o distingue especialmente em pronomes como "lhe" - A Artelharia, . As maiúsculas e minúsculas são de difícil distinção nas letras C, R, M e E, principalmente por existirem duas formas de maiúsculas em algumas delas. - A letra s, quando dobrada, a primeira delas é longa e a segunda é curta (- s) deSuas Magestades Fedelissima, e Catholica, [] Copia da Carta Senhor Doutor Francisco Joze de Lacerda. C. Muitissimo e Excelentessimo Senhor Bernardo José de Lorena meu amabilissimo General he servido deter minar-me, que da sua parte mande eu dizerá vossa mer ce, que logo que Recebereste avizo, seponha em marcha, (fólio 51r, linhas 04-09) Fragmento II 30 - Em vários trechos, quase não existe distinção entre o traçado do s e do z, especialmente nos finais de palavras. Ora o s tem um traçado longo, assemelhando-se ao z, ora é curto, e vice-versa - aguaz/s. dealgumaz/s acçoẽs de Os sinais diacríticos são usados de formas diversas: ora o circunflexo indica sílaba tônica, em vogais fechadas na pronúncia atual: medêaõ. O acento agudo aparece na sua função já estabelecida, como também é usado em crases. O til aparece solto em letras finais nos casos de nasalização, como Missaõ, chamaõ. Às vezes, aparece conjuntamente com o acento grave em determinados verbos: ficaràõ, dividiràõ, comunicaràõ. - A pontuação resume-se à vírgula, ponto e vírgula e ponto, às vezes transformados em traços oblíquos. Geralmente os períodos são longos. Diferenças ortográficas: - Há ocorrências freqüentes de letras dobradas, especialmente o l, m, f, t, r e, às vezes, s daquelle, officio, sellar, occidental. - As formas plurais ão e ões são grafadas com -n- navegaçoens, missoens. Também, palavras terminadas em -l- recebiam o plural -aes sinal - sinaes; as terminações em -ua, colocava-se -oa legoa, agoa; em -eu, -eo perdeo.3 - O e, quando verbo ser, vem precedido de h, enquanto o verbo haver ou outras palavras que deveriam ser grafadas com H, não o utilizam ouve, orizonte, hé, he. - Em sílabas como - ter, trocam-se as letras determinou = detreminou.4 - O - i no interior das palavras é substituído pelo -e e vice-versa Fedelissima, lemites, difinitivo, Miridional. Em alguns casos o - i é substituído pelo - y Ryos, Rey, Correyos, Arroyo. - Uso de formas como -sç, -bd, -cç, pt excepto, subdito, estabelesça, protecçaõ. 3 Ao contrário de Acioli (1994:63), que prevê meras alterações em termos de ortografia, ver Almeida (2004:9) para apresentação dos períodos de evolução dos morfemas flexionais na categoria nominal e defesa de hipótese. 4 Estas ocorrências talvez estejam mostrando certa variação lingüística. 31 Algumas formas ainda não estavam estabilizadas como o uso do sufixo - mente, nos advérbios comum mente, feliz mente, expressa mente. Ou, por exemplo, a forma quaes quer = quaisquer. 2.3 As abreviaturas Justificadas pela raridade e também pelo alto custo dos materiais, as abreviaturas constituem um elemento importante para compreensão lingüística do manuscrito. Pelos trabalhos de Spina (1994:44) e Acioli (1994:46), podemos descrever os tipos mais freqüentes dos volumes I, II, III: • Abreviação por supressão (suspensão) ou apócope - quando desaparece quase toda a palavra permanecendo somente a letra inicial, ou sílaba inicial. Este sistema deriva das siglas; as abreviaturas não têm terminação. Exemplos: d. - de p. - para q. - que V.A. - Vossa Alteza. • Abreviação por síncope; ou por letras sobrepostas (contração) - consiste na supressão de letras intermediárias de uma palavra. Sempre permanece a terminação. O sistema deriva das notas tironianas (de radical e terminação). Exemplos: Snõr - señor prim.ro - primeiro Ill.mo - illustrissimo q.quer - qualquer 2.3.1 Lista das abreviaturas (Baseada no modelo de Flexor: 1979): Tabela 2.1 – Lista de abreviaturas Albuqr.e Albuquerque Albuq. e atrasam to Atrasamento Cap. a(s) Capitania (s) Cap. m Capitam, Capitão Cap. an Cavalc te Cavalcante 32 Comp. nt Comprimento Com. am Conceiçam, Conceição confr e conforme consideravelm e consideravelmente continuam te continuamente d. de D. Dom, Doutor D. r Doutor d.o dito D.os G. a VMC Deos Guarde a Vossa Mercê ou D.os Guarde a VM ce . m. anñ. Deos Guarde a Vossa Mercê muitos anos D.os G.de a V. Ex ca m. anñ. Deos Guarde a Vossa Excelência muitos anos Dez br , Dez bro , Dez ro divertim to Dezembro divertimento docid. e docidade effectivam e effectivamente Entrepassadam. e entrepassadamente E.S. Excellentíssimo Senhor extremid e extremidade facilidad e facilidade finalm e finalmente Goven. or Governador Ill. mo Illustrissimo inteiram e inteiramente jabuticabr as jabuticabeiras Joaq m Joaquim m. ta muita, muitas m. tas m. to muito, muitos m. tos 33 necessid e necessidade naq l naquel, naquela Occid. e Occidente p. a para p. te parte p. lo pelo p. r por Per. a Pereira placidam e placidamente preced. e precedente principalm e principalmente S. or Senhor summam. e summamente trigonometricam e trigonometricamente q. to quanto V. a Villa, Vila V. Ex.ca Vossa Excelência VMC Vossa Mercê V. S a Vossa Senhoria V.a Bella Vila Bella 2.4 Componentes formulares dos textos Seguindo a análise de Spina (1994:53), foram observados que os documentos selecionados para análise dos volumes I, II e III do Livro de Registro possuem uma partição bem definida e orientada por normas de constituição dos tipos textuais. O Tratado de Santo Ildefonso é um documento organizado em duas partes, conforme Spina(1994): uma interior que constitui o corpo do documento e contém o fato registrado – o texto; outra exterior que serve de moldura do documento, e contém as fórmulas que conferem a ele perfeição legal e personalidade, servindo também para a sua autenticação, datação e publicidade. A parte exterior é dividida em Protocolo (abertura) e Escatocolo (fechamento). Assim, temos: No início do texto (abertura): 34 O Protocolo A intitulação – título do texto (f.11r); [] Segundo Tratado Preleminar, de lemites, celebrado em Santo Ildefonso, em o prim.ro deOutubro de 1777 dequefaz mençaõ a Carta daSecretaria doEstado, antecedente.[] Dona Maria, por graça de Deos, Raynha dePortugal, • O endereço – a quem se destina (f.11r); [] Faço saber atodos os que aprezente Carta deConfirmaçaõ, Aprovaçaõ, e Rateficaçaõ virem, que em oprimeiro doprezente Mêz, e Anno, se concluio, eassinou emSanto Ildefonso hum Tratado Preliminar... • A invocação divina (f.11v); [] Em nome da Santissima Trindade Havendo a Divina Providencia, excitado nos Augustos Coraçoẽs deSuas Magestades Fedelissima, e Catholica, osincero dezejo de ex- No interior do texto (desenvolvimento): • Preâmbulo (característica oratória) (f.11v); de extinguir as discordias, que tem havido, entre as duas Coroas de Portugal, eHespanha, e Seus respectivos Vassallos, no espaço de quazi trez Seculos, Sobre os lemites dosSeus Dominios daAmerica, eda Azia: para lograr este importante fim, eEstabelescer perpetua mente a harmonia, amizade, eboa inteligencia, que correspondem ao estreito Parentesco, eSublimes qualidades de taõ Altos Princepes, ao Amor reciproco que Seprofessaõ, ao interesse das Naçoẽs, que feliz mente governaõ: • Cláusulas combinatórias. 1. de garantia (f.11v); Parentesco, eSublimes qualidades de taõ Altos Princepes, ao Amor reciproco que Seprofessaõ, ao interesse das Naçoẽs, que feliz mente governaõ: tem resoluto; convindo; eajustado opresente Tratado Preliminar, que servirá de base, efundamento ao Difinitivo deLimites, que se hade es- 35 tender aseu tempo, com aindividuaçaõ , exacçaõ, enoticias necessarias; 2. de renúncia (f.12r); Todos os prezioneiros que se ouverem feito no Mar, ou naterra, Seraõ postos logo em liberdade, sem outra condiçaõ que adesegurar opagamento das dividas que tiverem contrahido no Paiz, em que se acharem 3. de corroboração (f. 12r); Artelharia, petrexos, e o mais que tambem se ouverem ocupado, Seraõ mutua mente restituidos deboa fé, no termo de quatro Mezes Seguintes, á data da Rateficaçaõ deste Tratado, ou antes se possivel for;(...) No fechamento do texto (conclusão): O Escatocolo: • A data (f.18v); Para isso nos Authorizaraó, o prezente Tractado Preliminar de Limites, eofizemosSellar, com osSellos de nossas Armas. Feito em Santo Ildefonço ao primeyro de Outubrodemil sette centos Settenta esette.=S.S. D.Francisco Innocen cio de Souza Coutinho=S.S. El. Conde de Florida Blanca.= [] • A validação (subscrição, assinaturas, selos, sinais) (f.19r); Eem testemunho, firmezadoSobredisto, na que faz apresenteCarta por Mim assinada e Sellada com oSel lo Grande das Minhas Armas, ereferendada pelo Meu secretario d'Estado Abaixo assinado. Dada no Palacio de Quélluz, a dia de Otubro demil Sette centos Setten ta e Sette.= ARaynha= Lugar doSello=Ayres de Sá eMello. Antº Soares Lima [rubrica] Com relação ao Diário de Viagem: O Protocolo: • Intitulação – título do texto 36 • Ordenação – por ordem de quem • Notação – observação do motivo que originou a viagem (f.38v): Diário de Viagem que por Ordem do Ill. mo e Ex.mo Luiz d'Albuquerque de Mello Pereira Caceres, Govern. or e Cap.m General das Capit.as de Matto Grosso e Cuyaba foi de Villa Bella athé a Cidade de S. Paulo pela ordinaria derrota dos Ryos no anno de 1788. [] Setembro dia 13 Por quanto no anno de 1786 ja tratey com individuaLegoas çaõ da derrota que fez de Villa Bella p.a Cuyabá e as circunstancias atendiveis na navegaçaõ dos Ryos Cuya- Villa Bellas ba, Porrudos, e Paràguay, darey principio a hum circunstanciado Diario na foz do Ryo Taquary, eagora somente direy que nesse dia party de Villa Bella [] Dia 22 O Texto: • Narrativa – 1ªpessoa [] Dia 22 Cheguey a V.a do Cuyabá onde me demorey em Me apromptar athê o dia 14 de Outubro [] Outubro dia 15. Pelas 7 horas e meya da manhâa dey principio a minha navegaçaõ em huma canoa e levando na minha Companhia mais hum batelaõ, pa em ambas se poderem acomodar 26 trabalhadores que tantos eram precizo p.a as varaçoens nos fatos doque ao diante tratarey O Escatocolo: • Intitulação – quem escreveu o diário • Petição divina (não aparece no diário editado neste trabalho) • Datação, Subscrição, Assinaturas S. Paulo 25 de Maio de 1789 annos Dr Francisco Joze de Lacerda e Almeida 37 Com relação às cartas: O Protocolo: • Saudação; Ill. mo eExmo Senhor= Dipois quecheguey daentrada, q´ fiz • Notação; Reg.o dehumacarta de SExca pa o Mathematico oDr Francisco Jose deLacerda sobre varias materias Relativas Recebi aConfiguraçaõ que VMC meremete do Leito do Rio Itona Mas [que acho muito propria] como tambem a Latitude em que Podeobservar aMissaõ deSantaMaria Madalena, cujos monumentos O Texto: • Notícia; Corresponde a todo o conteúdo tratado. O Escatocolo: • Petição divina; • Datação; • Subscrição; • Assinaturas. [parágrafo] Dezejo aV.Ex.ca vigorozaSaûde, eq´ D. G.de aV.Ex.ca m. Anñ. Forte 28 deMayode1783 = Sou comprofundo respeito = Ill. mo e Ex. mo S.or LuizdÁlbuquerquede MelloPereira 38 III – A EDIÇÃO DOS MANUSCRITOS Tanto Cambraia (1999) quanto Santiago-Almeida (2000) sintetizam a preocupação do lingüista ao proceder um estudo de caráter filológico. O estudo diacrônico do português relaciona-se diretamente “à fidedignidade da fonte utilizada para a coleta de dados” (Cambraia, 1999:13). Quanto mais distanciados do período em que se encontra o lingüista estiverem os textos, tanto maiores serão os problemas com as cópias pela maior probabilidade de apresentarem “erros no processo de transmissão manuscrita”. Outros problemas surgem na escolha da edição dos textos manuscritos, pois, no dizer de Cambraia (1999:14) ...nem toda edição de textos antigos é adequada para o estudo lingüístico: muitos editores realizam intervenções no texto editado com o objetivo de regularizar formas – desde grafemas até itens lexicais – para facilitar a leitura às pessoas que não estejam habituadas a lidar com esse tipo de texto, regularização esta que apaga e altera os traços lingüísticos presentes no texto original. Santiago-Almeida (2000) relembra que o êxito do trabalho e a solidez dos resultados certamente estão condicionados à qualidade da edição dos textos. Na verdade, é a natureza dos textos e, sobretudo a finalidade da edição que, de certa forma, determinam os métodos e normas de transcrição. Por essas razões, os autores citados anteriormente defendem a edição semidiplomática. Spina (1994) e Bassetto (2001) destacam o uso da edição diplomática. Esta, diz Bassetto (2001:60), deriva da forma dos documentos emitidos por altos funcionários romanos, numa espécie de passaporte ou salvo-conduto, um documento “dobrado em dois”. O intuito dessa edição é fazer uma "reprodução tipográfica do original manuscrito, como se fosse completa e perfeita cópia do mesmo, na grafia, nas abreviações, nas ligaduras, em todos os seus sinais e lacunas", até mesmo nos erros e rasuras (Spina 1994:78). Esse tipo de edição foi o selecionado para a transcrição dos documentos dessa pesquisa. Isto porque, justifica-se uma edição diplomática pela necessidade de tornar o documento acessível a um número maior de interessados e evitar maiores danos à fonte, além de tornar o texto um pouco mais acessível, facilitando-se a leitura (Bassetto 2001:60-61). A princípio, para o foco da pesquisa, o não desenvolvimento das abreviaturas realizado nas edições semidiplomáticas não interfere na análise proposta. As lacunas poderão 39 ser preenchidas com a consulta ao quadro das abreviaturas no capítulo anterior, melhor sistematizadas para compreensão e estudo lingüístico. A norma geral, tanto na edição diplomática, como semidiplomática5, é manter o máximo de fidelidade à fonte, preservando o texto, pois isto torna possível uma análise dos textos nos níveis grafemático, fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico e lexical. Neste ponto, diferem-se as edições visto que na diplomática as abreviaturas não são desenvolvidas, mantém-se a grafia dos manuscritos independentemente dos critérios adotados pelo copista. As edições envolvem também o respeito às separações inter e intravocabular, pois possibilita o desenvolvimento de um estudo histórico da ortografia. As fronteiras de palavras são fiéis ao manuscrito fonte, especialmente nos casos em que o copista usa separação em palavras grafadas de forma única ou insiste em manter juntas aos substantivos e verbos, pronomes, preposições e conjunções, de caráter independente. Ex.: rapida mente, feliz mente, ecomas, elhedei, dareferidacarta, etc. Deve-se, ainda, manter forma e posição de diacríticos, para fornecer uma fonte segura para estudos de natureza fonético-fonológica. Não são acrescentados quaisquer elementos no intuito de proceder a correção aos textos. A pontuação é rigorosamente mantida, principalmente dada a proposta de análise procedida nesta pesquisa. Além de obterem-se dados para compreensão da sintaxe e da semântica, também a natureza fonético-fonológica da língua. Uso de maiúsculas e minúsculas, para compreensão de fenômenos de origem sintática e semântica é destacado conforme a leitura possível dos manuscritos. As variações, por outro lado, resultantes de fatores cursivos, tornando confusas as grafias, são comparadas para definição do traçado original. Isso, também implica em manter as variantes fonológicas, morfológicas e sintáticas, para a investigação de processos de variação e mudança lingüística no período que compreende o texto. As ocorrências de desgaste ou deterioração do documento, tornando ilegíveis os textos, são marcadas por símbolos específicos: [?] documento ilegível; [†] documento danificado. Os espaços no início e interior dos parágrafos são marcados por simbologia específica: []. Nas cartas optou-se por descrever o [parágrafo]. As linhas são numeradas de 5 em 5, na 5 Consultar Cambraia (1999) e Santiago-Almeida (2004). Este último, documento de trabalho apresentado no V Seminário de Linguagens –UFMT – 2004. 40 margem esquerda. Os fólios são numerados à esquerda, com as marca r (para recto) e v (para verso), frente e verso respectivamente. 3.1 Edição Diplomática Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso (antecedentes, instruções, memórias e trabalhos demarcatórios) Governo de Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres. Volume I – 1777-1783 = Cópia do Tratado Preliminar de Limites de Santo Ildefonso (fólios 11r - 19r). Volume II - 1783-1789 = Cópia de três cartas ( fólios 5v-6r, 8r-8v, 11v-12r). Volume III - 1777-1793 = Cópia do Diário de Viagem de Francisco Joze de Lacerda e Almeida ( fólios 38 v - 51v). Fonte: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso (C-23) 41 SEGUNDO TRATADO PRELIMINAR DE LIMITES DE SANTO ILDEFONSO (Fólio 11r – abertura) Simbologia: [?] – ilegível [†] – documento danificado [] – espaço [parágrafo] - parágrafo nas cartas Fig. 16 - Início do Tratado de Santo Ildefonso (fólio 11r- Vol. I). 42 11r [] Segundo Tratado Preleminar, de lemites, celebrado em Santo Ildefonso, em o prim.ro deOutubro de 1777 dequefaz mençaõ a Carta daSecretaria doEstado, antecedente.[] Dona Maria, por graça de Deos, Raynha dePortugal, edos Al5 garves, d’aquem, ed’alem Mar, em Affrica, Senhora de Guiné, edaConquista, Navegação, eComercio, deEthiopia, Arábia, Pérsia, edaIndia[?] [] Faço saber atodos os que aprezente Carta deConfirmaçaõ, Aprovaçaõ, e Rateficaçaõ virem, que em oprimeiro doprezente Mêz, e Anno, se concluio, eassinou emSanto Ildefonso hum 10 Tratado Preliminar, entre Mim, eo Muito Alto, ePoderozo Princepe D. Carlos III Rey Catholico deEspanha, Meu Bom Irmaõ, eTio, sendo Plenipotenciarios, para este efeito, da Minha parte, D. Francisco Innocencio de Souza Coutinho, do Meu Conselho, e Meu Embaixador nadita Corte; e por parte d. El Rey Catho15 lico, D. Joseph Moninõ, Conde de Florida Branca Cavalleiro da Sua Real Ordem de Carlos III, doseu Conselho de Estado, Seu Primeiro Secretario deEstado, e do Despacho eSupeintendente Geral deCorreyos Terrestres, e Maritimos, edas Postas, eRenda de Estafetas em Espanha, eIndia: Do qual Tratado, o teor hé o 20 Seguinte. [] Em nome da Santissima Trindade Havendo a Divina Providencia, excitado nos Augustos Coraçoẽs deSuas Magestades Fedelissima, e Catholica, osincero dezejo de ex- 43 11v de extinguir as discordias, que tem havido, entre as duas Coroas de Portugal, eHespanha, e Seus respectivos Vassallos, no espaço de quazi trez Seculos, Sobre os lemites dosSeus Dominios daAmerica, eda Azia: para lograr este importante fim, eEstabelescer perpetua mente 5 a harmonia, amizade, eboa inteligencia, que correspondem ao estreito Parentesco, eSublimes qualidades de taõ Altos Princepes, ao Amor reciproco que Seprofessaõ, ao interesse das Naçoẽs, que feliz mente governaõ: tem resoluto; convindo; eajustado opresente Tratado Preliminar, que servirá de base, efundamento ao Difinitivo deLimites, que se hade es- 10 tender aseu tempo, com aindividuaçaõ , exacçaõ, enoticias necessarias; mediante oqual se evitem, eacautelem para sempre novas disputas, esuas consequencias. [] Para efeito pois de conseguir taõ importantes objectos, nomeou por parte de Sua Magestade a Raynha Fedelissima, por seu Menistro Plenipotenciario, oExcelentissimo Senõr D. Fran15 cisco Innocencio deSouza Coutinho, Comendador na Ordem deChristo, do Conselho deSua Magestade Fedelissima, eSeu Embaixador junto aSua Magestade Catholica; epela de sua Magestade El Rey Catholico, por Seu Menistro Plenipotenciario, oExcellentissimo Senõr Joseph Moñino, Conde de Florida Branca, Cavalleiro 20 Da Real Ordem de Carlos III doConselho de Estado de Sua Magestade, Seu Primeiro Secretario deEstado, edo Despacho, Superintendente Geral de Correyos, Terrestres, e Maritimos, edas Postas, eRendas deEstafetas em Espanha, e Indias: Os quaes depois de haver-se comunicado os seus Plenos poderes, e de havelos julgado expedidos em boa, 25 edevida forma, convieraõ nos Artigos Seguintes, regulados pelas Ordens, e intençoẽs deSeus Soberanos. [] Artigo – I - [] Haverá huma Páz Perpetua, e constante, assim por mar, como por terra, em qualquer parte do Mundo, entre as duas Nasçoẽs, Por30 tugueza, eEspanhola, com esquecimento, total do passado, e dequanto houverem obrado as duas em ofença reciproca; ecom este fim, rateficaõ os 44 Tratados de Paz, de 13 de Fevereiro de 1668, de 6 de Fevereiro de 1715, ede 1. de Fevereiro de 1763, como sefossem insertes neste, palavra, por palavra, em tudo aquillo que expressa mente sede Fig. 17- Início do Artigo I, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 11v- Vol. I) 45 12r Se derogue pelos Artigos do prezente Tratado Preliminar, ou pelos que se hajaõ de seguir para a sua execuçaõ. [] Artigo II [] Todos os prezioneiros que se ouverem feito no Mar, ou naterra, Seraõ 5 postos logo em liberdade, sem outra condiçaõ que adesegurar opagamento das dividas que tiverem contrahido no Paiz, em que se acharem.[] A artelharia, emuniçoẽs, que desde oTratado de Pariz de 1. de Fevereiro de 1763, se ouverem occupado por algumas das duas Potencias, aoutra, e os Navios assim mercantes, co 10 mo de Guerra, com suas Carregações, Artelharia, petrexos, e o mais que tambem se ouverem ocupado, Seraõ mutua mente restituidos deboa fé, no termo de quatro Mezes Seguintes, á data da Rateficaçaõ deste Tratado, ou antes se possivel for; ainda que as prezas ou preocupaçoẽs procedaõ dealgumas acçoẽs de 15 Guerra no Mar, ou na Terra, deque oprezente naõ possa haver chegado noticia;pois sem embargo deveràõ comprehenderse nesta restituiçaõ igual que os Bens eeffeitos tomados com os prezioneiros, eos Territorios, cujo dominio vier aficar segundo oprezente Tratado, dentro da Demarcação do Soberano, 20 aquem se haõ-de restituir. [] Artigo III [] Como huns dos principaes motivos das discordias ocorridas entre as duas Coroas, tem sido oestabelecimento Portuguêz daColonia do Sacramento, Ilha de S. Gabriel, eoutros Postos,e Territorios, 25 que setem pertendido por aquella Nasçaõ, na Margem Septentrional do Rio da Prata, fazendo Comua com os Espanhoẽs a navegaçaõ deste, e ainda a do Uruguay: Convieraõ os dois Altos Contratantes, pelo bem reciproco de ambas as Naçoẽs, e para segurar huma Páz perpetua entre as duas, que a ditta Nave30 gaçaõ dos Rios da Prata, e Uruguay, e os Terrenos das suas duas Margens, Septentrional, e Miridional, pertençaõ privati46 va mente á Coroa de Espanha, e aseus subditos, até olugar, em que se desemboca no mesmo Uruguay pela Margem Occi- Fig. 18 - Início dos Artigos II e III, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 12r- Vol. I). 12v 47 Occidental o Rio Pequirí, ou Pepiri -Guaçú, estendendo-se o Dominio deEspanha, nareferida Margem Septentrional, até alinha divizoria, que seformará, principiando pela parte do Mar no Arroyo de Chui, e Forte de Saõ Miguel incluzivè, ese5 guindo as Margens da Lagōa Merim, até nas suas cabeceiras, ou vertentes do Rio Negro; as quaes, como todas as outras dos Rios, que vaõ a dezembocar nos referidos da Prata, eUruguay, até A entrada neste ultimo Uruguay do dito Pepiri-guaçú, ficarùõ privativas da mesma Coroa d’Espanha, com todos os Territorios, 10 que possue, eque comprehendem aquelles Paizes, incluza arefe rida Colonia do Sacramento, e seu Territorio, a Ilha de Sam Gabriel, eos de mais estabelecimentos, que até agora tem possuido, ou pertendido possuir a Coroa de Portugal até á Linha, que se formara.: a cujo fim Sua Magestade Fedelissima, em 15 Seu Nome, ede seus Herdeiroz, e Successores, renuncia, ecede aSua Magestade Catholica, eaSeus Herdeiros, eSucessores q. quer acção, e direito, ou posse, que lhe tenhaõ pertencido, epertençaõ aos ditos Territorioz, pelos Artigos V. e VI. do Tratado de Utrecht de 1715, ou emdistinta forma. 20 [] Artigo IV -[] Para evitar outro motivo de discordeas entre as duas Monarquias, qual tem sido aentrada daLagoa dos Patos, Rio Grande de S. Pedro, seguindo depois por suas vertentes até oRio Jacuí, cujas duas Margens, e navegaçaõ tem pertendido perten25 cer-lhes ambas as Coroas: Convieraõ agora em que adita Navegaçaõ, e entrada fiquem privativa mente para a de Portugal, estendendo-se oseu Dominio pela margem Meridional até o Arroyo Tahim, seguindo pelas Margens daLagoa da Mangueira em linha recta até o Mar; epela parte do Continen30 te irá a linha desde as Margens da dita Lagôa de Merim, to mando a direcçaõ pelo primeiro Arroyo Meridional, que entra no Sangradouro, ou desaguadouro della, eque corre pelo mais imediato ao Forte Portuguêz de S. Gonsallo; desde oqual,sem 48 Figura 19 - Início do Artigo IV, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 12v- Vol. I) 49 13r6 Sem exceder o limite dodito Arroyo, continuará oDominio de Portugual, pelas Cabeceiraz dos Rioz, que correm até omen cionado Rio Grande, e o Jacuí, até que passando por cima das do Rio Ararica, e Coyacuí, que ficaràõ daparte de Portugal, e as 5 dos Rios Piratini, e Idimini, que ficaràõ daparte de Espanha, se tirará huma linha, que cubra os estabelescimentos Portuguezez até odezembocadouro do Rio Pepiri-Guaçú e no Uruguay: eassim mesmo salve, ecubra os estabelescimentoz, e Missoẽz Espanholaz do proprio Uruguay,que haõ-de ficar no actual estado em 10 que pertencem á CoroadeEspanha; recomendando-se aoscommessarios, que verificarem esta linha divizoria, que sigaõ emto da ella, as direçoẽz dos Montez, pelos cumesdelez, ou dos Rioz, aonde os houver apropozito; eque as vertentez dosditos Rios, enascentes delez,sirvaó de Marcoz ahum, eaoutro Dominio, a 15 onde assim se puder executar, paraque os Rioz, que nascerem em hum Dominio; epara elle correrem, fiquem desde o nascente deles, para esse Dominio; oque melhor sepodeexecutar na Linha, que correrá desde aLagoa Merim, até oRio Pepiri-Guaçu,e em que naõ hâ Rioz Grandez, que atravessem de hum terreno a 20 outro; por quanto a onde os houver, se naõ poderá virificar este methodo, como hé bem notorio; esesiguirá o que nos seus respe ctivoz cazos, se especifica em outroz Artigoz deste Tratado, pa ra salvar os Dominioz, e Possessoẽz principaes deambas asCoroaz . [ ] Sua Magestade Catholica,em seu Nome, ede 25 Seus Herdeiroz, e successorez, cede afavor de Sua Magestade Fedelissima, de seus Herdeiroz, eSuccessores, todos, equa es quer Direitos, que lhepossaõ pertencer aos Territorioz, que, segundo vay explicado neste Artigo, devem pertencer á Coroade Portugual. A partir deste fólio, o (s) final adquire um estilo diferente de grafia assemelhando-se ao (z) e causando uma dúvida quanto às duas letras, por essa razão as palavras foram grafadas com z final para marcar essa diferença. 50 30 [] Artigo -V- [] Conforme ao estipulado nos Artigos antecendentes, ficaraõ re sevadas, entre os Dominios dehuma e outra Coroa as lagoas de Merim, eda Mangueira eas lingoas de terra, que medêaõ entra ellas, e a Costa de Mar, sem que nenhuma das duas Nas 35 çoẽz as occupe, servindo só de separaçaõ; desorte, que Fig. 20 – Artigo V do Tratado de Santo Ildefonso (fólio 13r- Vol. I) 51 13v que nem os Portuguezez passem os Arroyo de Tahym, linha recta ao Mar, até aparte Meridional, nem osEspanhóez oArroyo de Chui, edeSaõ Miguel, até à parte Septentrional: Cedendo Sua Magestade Fidilissima em seu Nome, ede Seus Herdei 5 ros, eSucessores, afavor da Coroa deEspanha, edesta divizão q.l quer Direito, que possa ter ás Guardas de Chui, eseu destrito, á Barra de Castilhos Grandes, ao Forte deS. Miguel, e atudo o maiz que nellasecomprehende. [ ] Artigo VI- [] 10 A similhaça do estabelescido no Artigo antecidente, ficará tambem rezervado, no restante daLinhadivizoria, tanto até aentrada No Uruguay do Rio Pepiri-guaçú, quanto noprogresso, queseespecificará nos seguintes Artigoz, hum espaço suficiente, entre osLemitez de ambas as Nasçoẽs, ainda que naõ seja deigoal Largura à das referi15 das Lagoas, noqual naõ possaõ edeficar-se Povoaçoẽz por nenhuma das duas partez, nem Construir-se Fortalezaz, Guardas, ouPortos de Tropas, de modo, que ostaes espaços sejaõ Neutroz, pondo-se marcos, esignaes seguroz, que façaõ constar aos vassallos decada Nasçaõ ositio deque naõ deveraõ passar, acujo fim se buscaràõ osLagoz, 20 e Rioz, que possaõ servir deLemite fixo einalteravel, eemsua falta, os Cumes dos Montez mais signalados,ficando estes, eas suas toldas, por termo Neutral divizorio, emquesenaõ possa en trar, povoar, edificar, nemforteficar por alguma das duas Nasçoẽs. [] Artigo – VII - [] 25 Os habitantes Portuguezes, que ouver naColonia doSacramento, Ilha de S. Gabriel, e outros quaes quer estabelescimentos, que vaõ cedidos áEspanha pelo Artigo III; e todos os mais que desde asprimeirascontestaçoẽs do Anno de 1762, se ouverem conservado emdiverso Dominio, teràó aliberdade de retirar-se, oupermanecer ali 30 comseus efeitos emoveiz; eassim delles, como ogovernador, Officiaes, eSoldados da Guarniçaõ daColoniadoSacramento, que 52 14r que sedeveràó retirar, poderàó vender os bens de Raiz; entregando-se aSua Magestade Fedelissima, aArtelharia, Armaz, e Muniçoẽs, que lhe houverem pertencido nadita Colonia e Estabelescimentoz. [ ] Amesma liberdade, edireitos gozaràó os 5 habitantes, Officiaes, eSoldados Espanhoes, que existirem em alguns dos estabelescimentos cedidos, ou renunciados à Coroade Portugal pelo Artigo IV, restituindo-se aSua MasgestadeCa tholica, toda aArtelharia, eMuniçoẽs, quese houverem achado, ao tempo da ultima entrada dos Portuguezes noRio Grande de 10 S.Pedro,Sua Villa, Guardas, ePostos dehuma, eoutra Margem, excepto aquella parte, que houvesse sido tomada, epertencesseaos mesmos Portuguesez, ao tempodaentrada dosEspanhoẽz naquelles estabelescimentoz no anno de 1762. Esta regra Se observará reciproca mente em todas as mais cessoẽs, quecontem este 15 Tratado, para estabelescer osDominios deambas asCoroas, eseus respectivos Limitez. [ ] Artigo VIII- [] Ficando já signalados osDominios de ambas as Coroas até áEntrada do Rio Pequiri, ou Pepiri- guaçú no Uruguay, convieraõ osdous Altos contratantez, emque alinha divizoria, seguirá Aguas acima dodito Pepiri – guaçú até aSua Origem principal; edesde Esta, pelo mais alto do Terreno, debaixo das regras dadas noArtigo, VI, continuará aencontrar as Correntes do Rio Santo Antonio, quedesemboca noGrande deCurituba, por outro Nome cha25 mado Iguaçú, seguindo este agoas abaixo até aSuaEntrada no Paranâ e, pelaSua Margem Oriental, econtinuando em taõ aguaz acima do mesmo Paraná, até onde se lhe ajunta o Rio Igurei pela sua Margem Occidental. [ ] ArtigoIX [] 30 Desde aboca, ou entrada da Igurey, seguirá a Raya aguas aci- 53 ma deste até aSua Origem principal; edesde ella se tirará huma linha recta, pelo mais alto do Terreno, com attençaõ ao a justado no referido Artigo VI; até achar a Cabeceira, e ver- Fig. 21 - Início do Artigo VIII, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 14r- Vol. I) 54 14v Evertente principal do Rio mais vezinho á dita linha, que desague no Paraguay, pelaSua Margem Oriental, que talvéz será oque chamaõ Correntes; Eentaõ baixará aRaya pelas Agoas deste Rio , até á sua entrada noParaguay, desde cuja boca subirá 5 pelo Canal principal, que deixa este Rio em temposeco, eseguirá pelas suas aguas, até encontrar ospantanos, que forma oRio, chamados a lagoa dos Xarayes, eatravessará esta lagôa até à boca do Rio Jaurú. [ ] Artigo X - [] 10 Desde aboca do Jaurú pela parte Occidental, seguirá aFronteira em linha recta, até a margem Austral do Rio Guaporé ou Itenes de frote daboca do Rio Sararé, que entra nodito Guaporé, pela Sua Margem Septentrional; mas se os comissários encarrega dos deregular os contins, eexecuçaõ destes Artigos, acharem a 15 o tempo de reconhecer oPaiz, entre os Rios Jaurú, e Guaporé, ou outros Rios, ou Balizas naturaes, por onde mais comodamente, e com mayor certeza, se possa assignalar aRaya, naquella paragem, salvando sempre a navegação do Jaurú, que deve ser privativa dos Portuguezes, eo caminho que costumaõ fazer do Cuyabá 20 até oMato Grosso: Os dous Altos contratantes consentem, eaprováo, que assim seestabelesça, sem attender a alguma porçaõ mais, ou menos de terreno, que possa ficar ahuma, ou aoutra parte. Desde oLugar que na Margem Austral do Guapore for assignalado para termo da Raya, comofica explicado, bai25 xará aFronteira por toda a Corrente do Rio Guaporé, até mais abaixo dasua união com o Rio Mamoré, que nasce naProvincia deSanta Cruz da Serra, eatravessa a Missaõ dos Moxos, formando juntos o Rio, que chamáo deMadeira, ogual entra no Maranhaõ ou Amazonas, pala sua Margem Austral 30 [ ] Artigo XI -[] Baixará alinha pelas agoas destes dous Rios, Guaporé, Mamoré, já unidos como o nome daMadeira, até à paragem situada 55 15r em igual distancia do Rio Maranhaõ, ou Amazonas, e da boca do ditto Mamoré; e desde aquella paragem, continuará por huma Linha Leste Oeste, até encontrar com a margem Oriental doRio Jabarí, que entra no Maranhaõ, pela Sua Margem 5 Austral; e baixando pelo alveo do mesmo jabarí, até onde desemboca, no Maranhaõ, ou Amazonas, prosseguiará aguas abaixo deste Rio, oque os Espanhoes costumaõ chamar Orellana, eos Indios Guiena, até à boca mais Occidental do Japurá , que dezagua nele pela Margem Septentrional. 10 [ ] Artigo XII - [] Continuará a Fronteira, subindo aguas acima da ditta boca, mais Occidental do Japurá; epelo meyo deste Rio, até áquelle ponto, em que possaõ ficar cobertos osEstabelecimentos Portuguezes das Margens do dito Rio Japurá, edo Negro, como também a comunicação 15 ouCanal, dequesesirvaõ os mesmos Portuguezes, entre estes dous Rios, ao tempo deCelebrar-se o Tratado deLimites de 13 deJaneiro de 1750,conforme aosentido literar delle, edoseu Artigo IX, que inteira menteseexecutará, segundo oEstado, que entaõ tinham as couzas, sem prejudicar taõ pouco as Possessoẽs Espanholas, nem 20 aos seus respectivos Dominios, ecomunicaçoẽs com elles, ecom oRio Orinoco: de modo, que nem osEspanhoẽs possaõ introduzir-se nos refe ridos estabelescimentos, eComunicaçaõ Portugueza, nem passar a guas abaixo da ditta boca Occidental do Japurá, nem do ponto da Linha, queseformar no Rio Negro, e nos demais que nelle seintro25 duzirem; nem os Portuguezes subir Agoas acima dos mesmos, nem outros Rios, que se lhes uzaõ, para passar doreferido ponto da linha aos Estabelecimentos Esapanhoes, e ás suas Comunicaçoẽs; nem subir para ORio Orinoco, nem estender-se para as Provincias povoadas por Espanha, nem para os despovoados,que lhe 30 haõ de pertencer, conforme os prezentes Artigos: para oqual effeito as pessoas, quese nomearem para a execuçaõ deste Tratado, assignalaraõ aquelles Limites, buscando as Lagoas, e Rios, 56 que se juntem ao Japurá, e Negro, e se avezinhem mais ao rumo do Norte, e, nelles fixaraõ o ponto, de que naõ deverá 35 passar a Navegaçaõ; e uzo dehuma, nem de outra Nasçaõ Fig. 22 – Artigos X, XI e XII do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 14v e 15r- Vol. I) 57 15v Nasçaõ, quando apartando-se dos Rios, haja de continuar a Frontei ra pelos Montez, que medêaõ entre oOrinoco, eMaranhaõ, ou Amazonas, endireitando tambem aLinha daRaya, quanto puder ser, para aparte do Norte, sem reparar nopouco mais, ou me 5 nos de terreno, que fique ahuma, ou aOutra Coroa;Comtanto, que selogrem os fins já explicados, até concluir adita Linha, on de findaõ os Dominios de ambas as Monarquiaz. [ ] Artigo XIII-[] A navegação dos Rios, por onde passar a Fronteira, ou Raya, sera 10 comúa ás duas Nasções, até àquelle ponto, em que pertencerem a ambas respectiva mente as suas duas margem; eficará priva, tiva adita Navegação, e uzo dos Rios áquella Nasçaõ aquem pertencerem privativa mente as suas duas Margenz desde o ponto, em que principiar este Dominio; de modo, que em todo 15 ou emparte será privativa, ou comua[?] a Navegação, segundo oforem as Ribeiraz, ou Margens do Rio: e para que osSubditos dehuma, ede outra Coroa, naõ possaõ ignorar esta regra, Se poràó Marcos, ou Balizas nos lugares em que aLinha divizoria, se una a alguns Rios, ouse separe dellez, com Inscripções, 20 que expliquem ser comum, ou privativo ouzo, enavegaçaõ da quelle Rio de ambas, oude huma Nasção só, com expreção da que possa, ou não passar daquelle ponto, debaixodaspenas, quese estabelescem neste Tratado. [ ] Artigo XIV-[] 25 Todas as Ilhas, quese acharem em qualquer dos Rios, por onde hade passar aRaya, segundo oconvindo nos prezentes Artigos Preliminarez, pertenceràó ao Dominio, aque estiverem mais proximas em tempo, e estaçaõ mais seca; eseestiveremsituadas a igual distan cia de ambas as margens, ficaràó Neutraez, excepto quando fo30 rem degrande extenção, e aproveitamento,pois então sedividiràó por metade, formando acorrespondente Linha desepara ção, paradeterminar os Lemites de ambas as Nasções Ar58 16r [ ] Artigo XV-[] para quese determinem tambem com amayor exacçaõ osLimites insinuados nos Artigos deste Tratado, ese especefiquem, sem que tenha lugar a mais leve duvida nofuturo, todos os pontos, por onde deva pas5 sar a Linha divizoria, de modo que sepossa estender hum Tratado definitivo, com expreção individual de todos elles : se nomearam comissarios por Suas Magestades Fedelissima, e Catholica, ouse dará faculdade aos Governadores das Provincias, para que elles, ouas pessoas que se ellegerem, as quez sejáo deconhecida probidade, 10 inteligencia, econhecimento do Paiz, pintando-se nas paragens daDemarcaçaõ,assignalem os ditos pontos, regulando-se pelos Artigos deste Tratado, Outorgando os Instrumentos correspondentes, formando hum Mappa individual, de toda aFronteira, que reconhecerem, eassignalarem; cujas copias authorizadas, eforma15 das dehuns, e outros, secomunicaràó, eremeteràó as duas Cortes, pondo desde logo em execução, tudo aquillo, em que estiverem Conformez, e reduzindo ahum ajuste, eexpediente interino os pontos, em que houver alguma discordia, até que pelas suas cortez, aquem daràó parte, seresolvadecomum acordo, oque julgarem 20 conveniente. [] Para queseconsiga amayor brevidade nodito reconhecimento, eDemarcaçaõ daLinha, e execuçaõ dos Artigos deste Tratado, se nomearàó os Comissarios praticos dehuma, eou tra Corte por Provincias, ou territorios, de modo que hum mesmo tempo sepossa executar por partes, todo oajustado econ 25 vindo, Comunicando-se reciproca mente, e com antecipação os Governadores de ambas as nasções na quellas Provincias aextenção de Territorio, que comprehenda a Comissão, efaculdades do Comissano pratico, nomeado por cada parte. []Artigo XVI- [] 30 Os Comissarios ou pessoas nomeadas nos termos, que explica o Artigo precedente, alem das regras estabelecida neste Tratado, te- 59 raõ prezente, para o que nelle naõ estiver especeficado, que os seus objetos na Demarcaçaõ da Linha divizoria devemser areciprocasegurança, perpertua páz,e tranquilidade Fig. 23 – Artigos XIII a XIX do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 15v a 17r- Vol. I) 60 16v etranquilidade de ambas as Nasções e o total exterminio dos contrabandos, que os subditos de huma, possão fazer nos Dominios,ou com os Vassallos da outra: pelo que com attençaõ aestesdois objectos, selhes daràó as correspondentes Ordens, para queevitem 5 disputas, que não prejudiquem directamente ás actuaes poces sões de ambos os Soberanos, á Navegação comua, ou privativa dos seus Rios, ou Canaes, segundo oajustado no Artigo XIII, ou aos Cultivos, Minas, ou Pastos, que actual mente possuáo, e naõ sejaõ cedidos por este Tratado, embeneficio daLinha divi- 10 zoria; sendo a intenção dos dous Augustos Soberanos, que aofim de conseguir, averdadeira páz, eamizade, acuja perpetuidade, e estreiteza as seraó, para osocego reciproco, e bemdeseus Vassalos; somente se attenda na quellas vastissimas Regioẽs,por onde hade estabelercer-se aLinha divizoria; á conservação do 15 que cada hum fica possuindo em virtude deste Tratado, edo de finitivo delimites, eassegurar estes demodo, que em nenhum tempo se possaõ oferecer duvidaz, nem discordias. []ArtigoXVII [] Qual quer individuo das duas Nasçoẽs quese aprehender fazen- 20 do o comercio de contrabando, com os individuos da outra, será castigado nasua pessoa, e bens, com as penas impostaz pelas leys da Nasçaõ que ohouver aprehendido, enas mesmas penas encorreràó os subditos dehuma Nasçaõ, pelo unico facto deentrar no Territorio da outra, ou nos Rios, ou parte delles, que não sejaõ pri- 25 Vativos dasua Nasçaõ, ou Comuns a ambaz; exceptuando-sesó ocazo, em que alguns arribem ao Porto, e Terreno alheyo, epor indispensavel, e urgentenecessidade, que haõ de fazer constar em toda aforma; ou que passarem ao Territorio alheyo; por Comissão do Governador, ou superior doseu respectivo Paiz paraco- 30 municar algum officio, ou Avizo, em cujo cazo deveáo levar Passaporte, que expresse o motivo. []ArtigoXVIII- [] Nos Rios, cuja Navegação foi comúa as duas Nasçoẽs 61 17r Nasçoẽs em tudo, ou em parte, naõ sepoderá Levantar, ouconstruir por algumadellas, Forte, Guarda, ou Registo; nem obrigar aos Subditos de ambas as Potencias, que navegarem, a sofrer vizitas, Levar Monçaõ, nem sugeitar-se aoutras formali5 dades; esómente seràó castigados com as penas expressadas no Artigo antecedente, quando entrarem em Porto, ou Terreno alhe yo , ou passarem daquelle ponto, até onde aditta Navegação seja comua, para introduzir -se na parte do Rio, que já for privativa dos subditos daOutra Potencia. 10 []Artigo XIX- [] No cazo de ocorrerem algumas duvidas, entre osVassallos Portuguezes, eEspanhóez, ou entre osGovernadores, ecomandantes das Fronteiras das duas Coroas, sobre excesso dos Limitez, assignalados, ou inteligencia de algum delles, não seprocederá demodo algum 15 por viaz defacto, aoccupar terreno, nem atomar satisfaçaõ reciproca mente asduvidaz, econcordar interinamente alguns meyos de ajuste, até que dando parte ás suas respectivas Cortes, Se lhes partecipem por estas, decomum acordo, as resoluçoẽs neces sarias; e osque contravierem aodisposto neste Artigo, seràó cas 20 tigados, a arbitrio da potencia ofendida, acujofim sefaràm notorias aos Governadores, ecomandantes asdisposiçoẽs delle. O mesmo Castigo padeceràó, os que intentarem povoar, aproveitar, ou entrar nafaxa, Linha, ou espaço deTerritorio quedevaser neu tro entre os limites de ambas as Naçoẽs. Eassim para isto, como 25 para que nodito espaço por toda a Fronteira, seevite osasylode Ladroẽz, ou assassinos, osGovernadores fronteiras, tomaràó tambem deComum aCordo, as providencias necessarias, concordando omeyo de aprehendello, edeextinguillos, impondo-lhes severissimosCastigos. []Assim mesmo, consistindo as riquezasdaquellePais 30 nos escravos, que trabalhaõ nasua Agricultura, Conviràó os proprios Governadores, nomodo de entregallos mutua mente no Cazo defuga, sem que por passar adiverso Dominio Consigaõ aLiberdade; esó sim aprotecçaõ, para que naõ padeçaõ 62 17v padeçaõ castigo violento, se o não tiverem merecido por outro Crime. []Artigo XX- [] Para aperfeita execuçaõ doprezente Tratado, esua perpetua firmeza, os dous Augustos Monarcas Contratantes, anemados 5 dos principios da Uniaõ, paz, eamizade, quedezejaõ estabelescer solida mente: cedem, renunciaõ, etraspassaõ hum aoutro em Seu nome, edeseus Herdeiros, eSucessores, toda aposse, edireito, que possaõ ter, ou alegar, aquaes quer Terrenos, ou Navegaçoẽs dos Rios, que pela Linha divizoria, assignalada nosArtigos 10 deste Tratado para toda aAmerica Miridional, ficarem a favor dequalquer das duas Coroas, como, por exemplo, oque se acha ocupado, efica para aCoroade Portugal, nas duas Margens doRio Maranhaõ, oudasAmazonas, na parte, em que lhe haõ deser privativas; eoque occupa nodestricto de 15 Matto Grosso, edelle para apartedo Oriente; como igoal mente oqueserezerva á CoroadeEspanha, na parte do mesmoRio Maranhaõ, desdeaentrada do Japurá, emque o re ferido Maranhaõ hade dividir oDominio de ambas as Coroas até a boca mais Ocidental do Japurá, cem qualquer outra 20 parte que pela Linhaassignalada neste Tratado ficarem terrenoz, ahuma ,ou aoutraCoroa, excetuando se osditos Terre nos na parte, emque estiverem ocupados,dentrodotermode quatro mezes, ou antes sefor possivel, debaixo daquella Liberdade desairem os habitantes individuos da Nasçaõ, que os 25 evacuassem com os seus bens, eefeitos, edevender osderaiz, que já fica Capitulada no Artigo VII. []ArtigoXXI -[] com ofim deconsolidar a dita uniaõ, páz, eamizade, entre as sua Monarquias, edeextinguir todo o motivo dediscordia, ain da pelo que respeita aosDominios daAzia: Sua Magestade Fedelissima, emseu Nome, e no deseus Herdeiros, esucesores, cede afavor desua MagestadeCatholica,Seus Her 63 18r Herdeiros, eSucessores, todo o direito que possa ter, ou allegar ao Dominio das Ilhas Filipinas, Marianas, Eomais que possue naquellas partes aCoroadeEsapnha; renunciando a de Portugal qual quer acçaõ, oudireito, que possa ter, 5 ou promover pelo Tratado de Tordesilhas de 7 de Junho de 1494, e pelas condiçoẽs da escriptura Celebrada em Çaragoça á 22 de Abril de 1529, sem que possa repetir couza al guma dopreço que pagou pela Venda, Capitulada naditaEscriptura, nem valer-se de outro qualquer motivo, ou funda 10 mento, contra aCessaõ convinda neste Artigo. []Artigo XXII- [] Em prova da mesma uniaõ,eamizade, que taõ eficaz mente Se dezeja pelos dous Augustos Contratantes, Sua Magestade Catholica,oferece restituir, eevacuar dentro dequatro mezes se 15 guintez á Ratificaçaõ deste Tratado, a Ilha deSanta Catherina, e aparte docontinente imediato aella que houvessem occupado as Armas Espanholas, com aArtelharia, Muniçoẽs, eomais efeitos, quese ouvessem achado ao tempodaOcupa çaõ. EsuaMagestade Fedelissima emcorrespondencia 20 desta restituiçaõ, promete que emtempo algum, seja depaz oude Guerra, em que a Coroade Portugal naõ tenha parte, comoseespera, edezeja, naõ Consentirá que alguma Esquadra, ouEmbarcaçaõ deGuerra, oudeComercio Estran geiras, Entrem nodito Porto deSantaCatherina, ou nos 25 dasuaCosta immediata,nem que nelles seabriguem, ou detenhaõ,Especial mente sendoEmbarcaçoẽs de Poten cia, quese ache em Guerra com aCoroa deEspanha, ou que possa haver alguma Suspeita deserem distinadas afa= zer oContrabando. Suas Magestades Fedelissima, eCa 30 tholica,faràó prompta mente expedir as Ordens conveniientes, para aExecuçaõ, e pontual observancia dequanto seEstipula neste Artigo; E setrocará mutuamente hum 64 duplicado dellas, afim deque naõ fique a menor duvida Sobre oexacto Cumprimento dos objetos que inclúe 35 Ar- Fig. 24 – Artigos XX a XXII do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 17v e 18r - Vol. I) 65 18v []Artigo XXIII -[] AsEsquadras, e tropas Portuguesas, eEspanholas, que se achaõ nos Marez, ou Pontes daAmerica Miridional, seretiraràó dali aseus respectivos distinos, ficando só asregulares emtem5 po dePaz, de que Sedaràó avizos reciprocos, aosGeneraes, e Governadores de ambas asCoroas, para que aEvacuaçaõ sefaça com apossivel igualdade,eCorrespondente boafé, no breve termo dequa tro mezes. []Artigo XXIV- [] 10 Se para cumprimento, e mayor explicaçaõ deste Tractado, senecessitar de estender, e estenderem algum, ou alguns Artigos mais dos referidos, se teràó como partedeste mesmo Tractado; e os Altos Contratantez, seràó igual mente obrigados, á sua inviolavel observancia, earateficallos no mesmo termo, quese as 15 signará neste. []Artigo XXV- [] O presente Tratado Preliminar, serateficará noprecizo termoa de quinze diaz, depois defirmado, ou antes, sefor possivel. Emfé doque, Nós outros os infra escriptos Menistros Ple 20 nipotenciarioz, assignamos de Nosso punho, em Nome de Nossos Augustos Amos, e em virtude das Plempotencias, com que Para isso nos Authorizaraó, o prezente Tractado Preliminar de Limites, eofizemosSellar, com osSellos de nossas Armas. Feito em Santo Ildefonço ao primeyro de Outubrodemil sette 25 centos Settenta esette.=S.S. D.Francisco Innocen cio de Souza Coutinho=S.S. El. Conde de Florida Blanca.= [] E sendo-me prezente o mesmo Tratado, cujo theor, fica acima inferido, e bem visto, Conciderado, e examinado porMim, tu- 30 do oque nelllese Contem, o Aprovo, retifico, e confirmo, as sim no todo, como em cada humadas suas clauzulas, e esti 66 19r lestipulaçoés; epela prezente dou por firma, evalios para sempre: prometendo emfé, epalavras Real, observallo, e cumprillo inviolavel mente, fazelo cumprir, eobservar, sem permitir, quesefaçaõ couza alguma encontrario, por 5 qualquer modo que possa ser, renunciando aqual quer vistto Tratado, ou Detreminaçaõ que hoje, se possa haver em Contra Rio: Eem testemunho, firmezadoSobredisto, na que faz apresenteCarta por Mim assinada e Sellada com oSel lo Grande das Minhas Armas, ereferendada pelo Meu 10 secretario d'Estado Abaixo assinado. Dada no Palacio de Quélluz, a dia de Otubro demil Sette centos Setten ta e Sette.= ARaynha= Lugar doSello=Ayres de Sá eMello. Antº Soares Lima [rubrica] Fig. 25 – Artigos XXIII a XXV do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 18v e 19r Vol. I). 67 EDIÇÃO DAS CARTAS 5v 30 Reg.o dehumacarta de SExca pa o Mathematico oDr Francisco Jose deLacerda sobre varias materias Relativas Recebi aConfiguraçaõ que VMC meremete do Leito do Rio Itona Mas [que acho muito propria] como tambem a Latitude em que Podeobservar aMissaõ deSantaMaria Madalena, cujos monumentos 35 Entreguei desdelogo aoCap. an Ricardo Franco [†] para servirem nacarta Fig. 26 – “Prospecto das canoas em que navegaram os empregados na Expedição Filosófica pelos rios Cuyabá, São Lourenço, Paraguay e Jauru...”. Autor não identificado (1789-1792). Expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. Acervo do Museu Bocage, Portugal. (Lima 2005:48). 68 6r que lhetenho encarregado delevantar; estimando sumamente que orestabelecimento das molestias de VMC naõ só lhepermitisse aquella util degreçaõ; mas haja depermitir as outras q.o me anuncia, e que ja detremineis de penetrar quando for possivel; 5 nao só pelo Bauris mas pelo Mamoré: Oponto estará em que os Espanhoes o naõ embaracem, nem ainda estranhem: Pelo que hade ser necessario metersempre em úzo alguns extratagemas, ou apa rencias muito diverças, sigundo tendo advertido que imponham de alguma sorte aosditos Espanhoes. 10 [parágrafo]Agora faço remeter aVMC o Oculo Astronomico, dezejando que possa repetir aobservaçaõ desse primeiro Satelite emfor= ma que o calculo daverdadeirasituaçaõ geographica do importante ponto dessa Fortaleza, se aproxime, ou detremine omais que for possivel; eassim mesmo quaesquer outros interessantes porondeVMC 15 passar, bem persuadido alias de que VMC naõ omitirá pelo seu claro desentendimento de apontar sempre quaes quer memorias[?], ou Historias quelheparecerem dignas [parágrafo] Naforma darecomendaçaõ de VMC arespeito das Ephemerides debaixo do Titulo de = Connoissance destemps = 20 agora afaço tambem para Lisboa com todo o empenho, pelo q' tenho, naõ só desatisfazer aVMC mas anecessidade urgente q'suponho das ditas Taboadas para asobservaçoens Celestes que sedeveraõ repe tir pozitivamente [parágrafo] Nocazo de que esseIndio doPara pornome Albino 25 daCosta em que VMC mefalla queira muito espontaniamente ficar naSuaCompanhia; convenho nisso deboavontade: efico esperando assuasboas noticias com repetidas ocazioens delhe dar gosto. Dos Guarde aVMce. m. anñ. V.a Bélla 2deAbril de 1783= Luizd'AlbuquerquedeMello Pereira eCaceres= jos 69 30 D.or Francisco Joze de Lacerda eAlmeida. Ant.o Felippe da Cunha 8r Ill. mo eExmo Senhor= Dipois quecheguey daentrada, q´ fiz 5 PelosRios Bacires, Branco, daConceipçaõ edo Joaquim tive ahonrra dereceber aprezadiscima cartade V.Exca , naq.l novamente medeterminava aentrada dodito Bacires, eMamore, quando fosse poscivel com ascautellas necessarias p.a qe osEspanhoes menaõ embaraçascem aentrada dosditos Rios 10 the oprezente livremente tenho navegado, semhaver aminima suspeita dequem fose, eofim oque sedirigem as m.as digreçoens ecommuito mais liberdade pascaria alem doponto de Baures (Bacires), athe onde cheguey, [?] doGentio, q´ medi= zem ter bastantes, eoscezto deficar semcanoa pelo mal con 15 certado della, menaõ fizescem retroceder, ecombem magoa minha; pois peladireçaõ, que parece tomar, epelas intençoens deV. Ex.ca arespeito dalinha divizoria, parece termo mto proprio; pois osEspanhoes, alem denaõ terem nassuas margens Missaõ algũa, bem cobertas ficam ambas asFronteiras 20 [parágrafo] V.Ex.ca serà servido detreminarme, sehé conveni= ente quesegundavez intente estadeligencia entrando q.to for poscivel, comaescolta necescaria, para algũa invazaõ do Gentio, que possa haver: toda brevidade meparece nes cessaria afim deseachar oRio com Agoa suficiente desepo25 der navegar livre deCaxoeiras, q´ medizem ter muitas [parágrafo] Tendo lembrança, oque osCalculos Astronomicos longos saõ sugeitos aalguns erros, partã procedidos dezcuido, parte dos erros das impressoens dastaboas [como jà me aconteceo noRio Negro emhum Eclipse dosol 30 q´ observey em Abril de 81] neste tempo que tenho tido dedescanso tornando arever astaboadas, os Calculos, eobservaçoens feitas noMez de Dezbro passado, achei que a quarta letra dehum logaritmo [contando da caracteristi= 70 ca] era zero devendo ser nove, oq´ produzia hûã diferença 35 notavel norezultado; pois tendo atençaõ aeste erro, alongi tude determinada pelas distancias daLûa aosol, eaEstrella Aldebaram E amesma, q´de duzi deduas imersoens do 1.˚ 2.˚ Satelite deJupiter [com inatendivel diferença] Pelo que adiferença meridional deste Forte ao Occidente 40 deParis, É determinada por 4 Observaçoens, eseamadrugada estiver boa, sera por 5 [parágrafo] Pelo que pertence a ver 71 8v averdadeira poziçaõ dafoz desteRio, nada dou por certo; pois hum contador muito mào, que tive, trocava os minutos, emenaõ deixa fazer juizo certo. [] Porfaltade gente naõ vou novamente determinalla 5 [parágrafo] As duvidas, quetem havido sobre oponto da Ilha deFerro, de donde sedevem contar as Longitudes, só V. Ex.ca aspode tirar; pois sendo certo, q´adita Ilha naó hé hum ponto, nem hûa linha recta dirigida aoNorte, eSul, aparte mais oriental deve ter diferente Longitude damais ocidental. Esta hé are 10 zaõ dadiferença, que seacha nas taboas antigas, emadeiras pois estas daõ alongitude doponto mais occidental; como sedeve entender dadeclaraçaõ que trazem, dizendo= Long. Isse deFercà l´oucit. 28.30 = e as outras = auBurg = Porestes motivos, só V. Ex.ca por expressa ordem, pode fixar oponto dedonde sedeve principi- 15 ar acontar asLongitudes, ahinda que dequalquer partes que seja sempre nosMapas sehadepôr adeclaraçaõ dod.o ponto. [parágrafo] Na ocaziaõ prezente remeto aV.Ex.ca adiferença meridional doFortedo Principe da Beira para o Occid.e de Paris emtempo, para que meucompanheiro D.r Pontes, ou os mesmos 20 officiaes Engenheiros de duzam desta diferença averdadeira Longitude, conforme aoque V.Ex.ca determinar. [parágrafo] Alem deste rezultado, tambem remeto as configuraçaó dealgûa p.te dosRios Baures (Bacires), Branco, daConc.am e deS. Joaquim sem q´mefosse possivel emqual quer destas Mi= 25 çoens poder fazer observaçaõ algûa, eestar fora dellas oterre no taõ alagado, q´ nem para pouzo havia comodidade [parágrafo] Tambem envio aV.Ex.ca hum risco p.a hum quadrante solar, no cazodeq. V.Ex.ca o queiramandar levantar. Para naõ haver o encomodo defazer natàboa duas divizoens, 30 edous Estilos, risquei este, q. Emtodo o anno mostrarà só de hûa parte ashoras, quartos, emeyashoras, elhedei asdivi= 72 zoens, que pedem alatitude dessa Villa ea inclinaçaõ que determinei dar aoplano databoa [parágrafo] Ahinda menaõ àcho inteiramente bom 35 ecomas friágens tenho tido meus leves incomodos [parágrafo] Dezejo aV.Ex.ca vigorozaSaûde, eq´ DE. G.de aV.Ex.ca m. Anñ. Forte 28 deMayode1783 = Sou comprofundo respeito = Ill. mo e Ex. mo S.or LuizdÁlbuquerquede MelloPereira 73 11v [†] [†] As minhas continuadas morteficantes escriptas destes ultimos dias afim depoder desembaraçar ao [?] visto seachar apartir para oRio deJa 5 neiro Serviram deobstaculo para que eu mais sedo respondesse segun dodezejava, a carta de VMC dos 19 decorrente [parágrafo] Fico enteirado do quanto VMC mepartecipava arespeito dessasobras em quesey naõ omitiria todas equaes quer providencias que lheparecessem adquadas digo parecessm acerta 10 das, eoportunas aoadiantamento quedezejamos, o que observo naõ só pelocontexto dareferidacarta mas pelo doque ultimamente es creveu tambem aJozeManoel Cardozo, eaoPorta Estandarte Re bello sobre aspraterias emmeu nome recomendadas semqueseja precizo repetir denovo cadahumadellas 15 [parágrafo] OsoldadoCruz quedaqui foy conduzir esses taes ou quaes novos Moradores, eque aomesmo tempo sedestinou para algum mais urgente serviço que seofrecesse desdelogo; co mo porexemplo odese domesticarem alguns boys docostodios porserem naverdade muitos poucos ao uzo docarro osquatros 20 mancos quedaqui seremeteram, serà bom que sedesembarace com apossivel brevidade para voltar aestaVilla aonde saõ poucos ossoldados, emuitas asocupaçoens [parágrafo] Ocapitaõ Joaquim JozéFerreira suposto tenha feito toda apossivel deligencia para concluir oMapa trabalhando 25 athe nosdiasSantos, ainda nao pode conceguillo mas creyo ofarà dentro dequatro ouCinco dias para denovo subir aesse lugar assistindo aoDeleniamento, ou regulaçaõ de quaes quer novas medidas emque assentey comele sefizesse alguma piquena alteraçaõ arespeito doprimeiro projecto 30 [parágrafo] Pelas ultimas quedaqui foram veria VMC queeu fiz remeter aspoucas, eredicullas pessas daTenda do Gua= 74 tura que haviam ficado nesta villa; como tambem Farinha, al= gum Aço, emais ferramentas para as rossadas quepoderaõ ede veraõ fazer osEscravos nosdiasSantos VSa Ecomo VMC reconhece 35 perfeitamente quanto será conveniente que nessa paragem seaumentem as Lavouras demilho, afimdeque no anno futuro senaó experimte aextraordinaria escacez desse genero que ja vai havendo noprezente tenho aliaz porcerto que ha depromover estasementeyra omais que sefizer praticavel durante ospoucos dias que ja agora sede 40 morará nessadita paragem; tudo isto naforma das minhas ante cedentes eeficazes recomendaçoens. [parágrafo] Estimarey queodito Costodio Joze daSilva dipois deter dado os ordinarios finaes doseu natural eimportuno vila= nismo sobre que fui obrigado asacudillo de algum modo como VMC 45 veria no Despacho se acomodasse porfim sem mayor replica ao que parece justo, enecessario na actual conjuntura; mas, 75 12r atudo obriga anecessidade [parágrafo] O arbitrio do Marraõ e Cunhas que VMC bem advirtio como tambem do uzo dealgum fogocom Broca nessas pedreiras, meparece que seraõ bastante 5 proveitozo, evisto que VMC ja tinha osditos Instrumentos equiz fazer o favor deempreitallos, mandando avizo para seremeterem o que mecerteficam severificara, estou certo que ja com eles seteraõ feito oufaraõ ainda as experiencias necessarias, epelo que respeita aouzo dadita Broca seacazo for praticavel, detre 10 minarey que seremeta alguma polvora que emtal cazo se rà indispençavel; o que mais cabalmente seexaminarà nasu= bida domesmo Capitaõ Joaquim Jozé Ferreira. [parágrafo] Portador desta hé Inacio Soares q´ tambem vay cuidar emque selhefaça maior rossa, elevarà comsigo algu 15 ma Estopadecalafeto naforma do avizo de VMC. D.os G.e a VMC V.a Bella 28 de Julho de 1783= Luizd´AlbuquerquedeMello Per.a ECaceres= S.or Antonio FelipedaCunha Pontes Joaq.m Jozê Cavalc.te d Albuqre. Lins 76 EDIÇÃO DO DIÁRIO DE VIAGEM Fig. 27- Início do Diário de Viagem (fólio 38v - Vol. III). 77 38v Diário de Viagem que por Ordem do Ill. mo e Ex.mo Luiz d'Albuquerque de Mello Pereira Caceres, Govern. or e Cap.m General das Capit.as de Matto Grosso e Cuyaba foi de Villa Bella athé 5 a Cidade de S. Paulo pela ordinaria derrota dos Ryos no anno de 1788. [] Setembro dia 13 Por quanto no anno de 1786 ja tratey com individuaçaõ da derrota que fez de Villa Bella p.a Cuyabá Legoas 10 Villa e as circunstancias atendiveis na navegaçaõ dos Ryos Cuya- Bellas ba, Porrudos, e Paràguay, darey principio a hum circunstanciado Diario na foz do Ryo Taquary, eagora somente direy que nesse dia party de Villa Bella [] Dia 22 15 Cheguey a V.a do Cuyabá onde me demorey em Me apromptar athê o dia 14 de Outubro [] Outubro dia 15. Pelas 7 horas e meya da manhâa dey principio a minha navegaçaõ em huma canoa e levando na mi- 20 nha Companhia mais hum batelaõ, pa em ambas se poderem acomodar 26 trabalhadores que tantos eram precizo p.a as varaçoens nos fatos doque ao diante tratarey [] Dia 22 Pelas 8 horas entrey no Ryo Porrudos sendo avistado 25 pe- 78 39r pelas 7 horas uma piquena canoa de [?] que logo que nos viram meteram huma Bahia adentro [] Dia 24 Entrey no Paraguay pelas 7 horas da manhaã 5 [] Dia 26 Neste dia cheguey a Povoaçaõ de Albuquerque [] Dia 28 Cheguey a fôz do Ryo Taquary pelas 10 horas da Manhaâ, e nella dou principio a tirar do leito deste Ryo 10 e dos mais por onde for precizo Navegar pa chegar a Arantagabá. Freguezia pertencente a Capita de S. Paulo e escalla das Canoas de Comercio que navegam pa Cuiabâ fornecido nesta longa derrota as observaçoens. Astronomicas que necessarias, e possiveu formem pa levantar dipoys 15 hum exacto, e completo Mapa conforme as ordens que do dito p. General receby naveguey pois o restantante deste dia pelo Ryo Taquary abeirando huma grande Campanha que lhe serve de Leito, e taõ baixa que estando o Ryo quazi na sua menor altura estavam as suas agoas pouco 20 mais baixas do nivel do Campo. A numeravel quantidade de diferentes aves aquaticas que por toda esta vasta campanha se divizava, bem mostrava abundancia do peixe nas suas Lagoas : naõ deixou tam bem de me admirar as muitas Arrayas que sobre as áreas 25 se viram neste dia, e de tal grandesa que algumas tinham de 4 pa 5 palmos de diametro. Tinha o Ryo na sua mayor altura 15 pa 16 palmos, e os sinaes q. as arvores mostravam deixavam ver que o ryo subia mais 12 palmos, vindo a ficar por este comp.nto 30 a Campanha com 11 palmos de inundaçaõ o que abre 79 via muito a navegaçaõ da Canoas que em semelhan tes tempos navegam de S. Paulo pa Cuiabá e de Cuiabá pa S. Paulo pois nesta travessia se livram de navegar por huma parte do mesmo Ta 35 quary por todo o Paraguay e Porrudos, e vão subir no []Cuya 80 39v Cuyabâ[?] da sua fôz. Naveguey 4 legoas ehum 4/4 Quarto quazi tudo a Norte. [] NB. Para se saber orumo geral que fiquei em cada hum 5 dia, tirarei do ponto da partida pa o ponto do pouso huma linha recta, e dezignarei tambem o angulo que ella faz com hum dos 4 ventos principaes, e o dezignarey com a Letra =A= [] Dia 29 Com 10, ou 11 braças de andamento perdeu o Rio a 10 sua forma de encanado, e entrey por hum pantanal pelo qual estava espalhado o Rio com infinitas entradas que fazia dificil achar o verdadeiro caminho que se devia seguir, e naõ obstante vir hum guia tido por muito experiente, seguimos por duas vezes humas veredas falças. Este esprayado do Ryo fez diminuir tanto a sua pro- 15 fundide que muitas veses era precizo varar a canoa pa sima das areas: Naveguey 5 legoas e meya A= 22˚ , de N pa E 5/2 []Dia 30 Naveguey duas léguas e 74 pr entre agoapez do pan20 tanal, retrocedendo de varias veredas que seguy por que as achava secas athe que finalme sahy a hum lugar que lhe chamam o Boqueiraõ, ponto em que o Ryo torna novamente a correr encanado por entre humas margens que tinham de hum athê dous palmos de altura 25 Fuy seguindo este canal – vencendo a correnteza da agoa e algumas vezes encalhando nos baixos pois nas partes concavas das enseadas tinha mto irregular fundo de 5 // 7, e 10 palmos Alargura do Ryo hum com muito 81 pouca mudança de 22 braças =A= 21/2 de N.pa 30 E [] Dia 31 Com marcha de 3 légoas passei deixando na margem Oriental hum sangrador, Canal antigo que se seguia e que ja está entupido das areaes; incoveniente que tem sucedido a outro muitos esucederá também aeste 35 pa onde vou navegando pois aqualide do terreno []bai- 82 40r baixo, arenozo, como também a pouca altura do Ryo em varias partes o estâ prometendo: Do meyo dia a tarde jâ as ribanceiras tinham de 4 pa 5 palmos 7/4 5 d’altura. Naveguey 7 legoas e /4 =A=28º de N. pa E . [] Novembro Dia 1o Naveguey neste dia conservando o Ryo a n.ma altura de Ribanceiras da tarde antecedente o mesmo fundo e a mesma largura, naõ permitio o tempo obsevar a imersão do 1º Satelite de Jupiter = A = 43.º de N 10 pa E [] Dia 2 Das 10 horas pa diante foram as margens do Ryo diminuindo a sua altura athê chegarem de 1 palmo que se conservou pelo resto do dia. Passei 12 Ilhas 15 piquenas. Detreminey a latitude deste lugar que achey de = 18º 12’ 58” e a variação N. E.= 9º 12 Naveguey 6 ½ léguas. A = 53º de N. pa E. [] Dia 3 Principiey a marcha pa hum Pantanal posto que naõ 20 taõ esprayado, e sugeito a perdas como o 1º comtudo taõ baixo que huma especie de ribanceira que tinha com qualquer repiquete se inundaria: Fuy pernoitar huma legoa acima do pouzo alegre, sendo deixado na margem Septentrional huma legoa /4 abaixo do d.o pou- 25 zo alegre a foz de hum sangrador que me asseverou o guia ter sido a antiga madre do Ryo q^ ainda a G Annos se seguia e hia sahir no Paraguay as baixo das tres Barras, mas que agora se acha entupido pelas areyas: Este Capão ou pouzo alegre esta no meyo d'hu 83 30 ma grande resacada cheya de piquenas ilhas, e de tantos bancos de areya que custou muito achar Canal pa se navegar = A = 70 graus de N. pa E [] Dia 4 Todo este dia naveguey entre piquenas ilhas, ebancos 35 de arreya de que tambem saõ as margens do Ryo A pouca existencia de semelhantes margens faz q'o Ryo se alargue m.to , e que se consuma muito 84 40v tempo na deligencia de achar pr entre as areyas fundo Capaõ de se poder navegar, correndo pr este motivo varios rumos nesta penosa carreira A = 63/2 de N pa E []Dia 05 5 No desvio dos baixos prolonguey o caminho considera a grande profundide do Ryo no seu principio em comparaçaõ da piquena que tem tido nestes dias provem naõ só de serem as suas agoas reprezadas pelas do Paraguay mas tambem de correrem por hum canal 10 mais estreito pois logo que se esprayaram pelo Pantanal, epor esta parte que ha dias tenho navegado principalme de pouzo alegre pa diante principiey a sentir o referido incomodo: Naõ deve igualme causar admiração o achar na deligencia do reconhecimto do 15 Paraguay da Lagoa Uberava Gayoa eMandiorem fei- ta no anno de 1786 a Campanha com 20 palmos de inundaçaõ, pois ella hé piquena recepitaculo pa as agoas que em semelhante tempo continuam ter o Paraguay Porrudos, e Cuyabá Taquary Mondego, e outros m.tos 20 e grandes Ryos que nestes despejam as suas agoas: As margem deste Ryo ja tem de 11 pa 12 palmos d’altura A = 80º /2 de N. pa E. 7/2 [] Dia 6 Naveguey todo este dia abeirando terras firmes e as 25 circunstancias da navegaçaõ foram as mesmas do dia precedente: pousey /4 de légoa acima d’hum lu- = Cocaes gar que lhe chamam Cocaes pelos m.tos Cocos que tem A 82º de N. pa E [] Dia 7 85 30 Este Ryo já alegre, e vistozo pelos seus estiroens, Ilhas posto que piquenas, grandes Prayas, mattos, e ribanceiras de 20 palmos d’altura apesar de correr reprezada entre ellas naõ sobre a grande altura, pois os sinaes que nas mesmas margens se divizam, mostram que 35 do estado actual sobe altura de 16 pa 18 palmos []naõ 86 41r não deixando rapida [?] acomodaransse mais na suas agoa A = 78’do n. pa E. [] Dia 8 A largura do Ryo tem sido bem irregular pois em 5 partes tem tido 25 braças em partes [?], e ainda mais nas enseadas onde hâ ilhas: a parte mais estreita que tenho encontrado foy hum lugar onde fiz atto pa jantar e que lhe chamam Varal, porque nele se provem de varas sendo nos vindo athé aquy remediando com humas 5/2 10 Canas que tiraõ no Paraguay de frente do monte chamado Dourado A = 6º 72 de E pa S. [] Dia 9 Correo hoje o Ryo entre nacente eSul obrigado talvez de huma Cordilheira que a o longe se desviava desde 15 7/4 ontem quando a proa tendia pa Noroeste A= 38º de E pa Sul []Dia10 Huma legoa acima do pouzo está huma praya contigua a ponta, e principio da Cordilheira de que tenha falado onde o Gentio Cavalheiro costuma a- 20 travessar o Taquary. Vi rastos frescos, e estacas em q. prederam Cavallos. As primeiras pedras que encontrey a que daõ o nome de Beliayo distam 4 legoas da partida esaõ com huns principios das Cachoeiras, e com efeito navegadas mais duas legoas e/4 25 cheguey a primeira Cachoeira chamada da Barra que tem 725 braças de extençaõ cuja ametade foy passada com a Canoa carregada, e aoutra com ella inteirame vazi pa se precipitar o Rio com grande violecia pa Canaes muito estreitos cheyos de pedras 87 6/2 30 e muito inclinados A = 13º/2 de E pa Sul latitude A= 18º 33’38’’ Longitude 322º.37’18” [] Rio Cuxim [] Dia 11 No fim da referida Caxoeira estâ afôz do Ryo 35 Cochim de 25 braças de largo pa onde entrey pa pr ele seguir viagem: Este Ryo logo diminue concideravelm. e a sua largura, pois nadistancia de 3/4 de Fig. 28– Diário de Viagem (fólio 41r - Vol. III). 88 41v de Legoas e ponto em que nele desagoa pela margem Meridional o Ryo Taquary mirim de 15 braças de largo e de pouca agoa ja tinha 19 braças. Pouco acima do referido Taquary mirim está a 1º Caxoeira de 5 nominada La Ilha Passada huma Carga, e descarregada inteirame a Canoa a meteram por hum estreito de dez braças de largo, e passado ele a vararam por hum Canal que tinha dous palmos de agoa por quanto da outra parte estava hum salto de 3 braças de altura. Nesta 10 manobra se conssumiram 4 horas huma legoa acima desta Caxoeira hâ outra chamada giquitaya que forma huma outra Cascata e foy passada a meyaolarga. A outra Caxoeira que se chama choradeira e que dista da precedente huma legoa e/4 hé hum plano inclinado com 15 fundo de pedras pelo qual corre o Ryo em varios [?] com grande velocidade fuy pernoitar com mais huma legoa de marcha no principio d’outra Caxoeira A 3º de E pa S [] Dia 12 Passada esta caxoeira denominada Avanhandava 20 Mirim com a Canoa vazia e por hum Canal de 20 braços de extenção cheguei com piqueno andamento aoutra chamada Avanhandava guassu transportadas ascargas pa hum descarregada de 300 braças foy conduzida a Canoa por hum unico Canal que tem esta Ca- 25 choeira por onde corre com grande furia pois vay represada entre margem de pedra por hum estreito de 3 braças. No fim deste Canal foy varada a Canoa por sima de hum penedo para salvar o salto que dá principio a Cachoeira consumiramse 30 nesta manobra toda 1 horas e /2 trabalhando effectivame 26 homens [?] legoa distante desta está 89 outra menos furioza denominada do Jauru pr que no fim della estaõ na margem oriental hum Ryo deste nome e de des braças de largura 90 42r na sua foz A=62’de E pa S. [] Dia 13 A navegação deste dia foy summam. e trabalhoza pois alem de passarem 5 legoas’/2 7 cachoeiras 5 denominada de [?] da Pedra redonda de Vamuanga, do Bicudo, das Anhumas, de Robalo e do Alvaro, não naveguey intrepassadame huma legoa sobre Ryo manço, ou sobre plano Orizontado 5/2 10 pois o Leito do Rio foy hum continuando plano inclinado com fundo de pedra que todo foy subido com grande trabalho e força de varejoens em que ja no dia precede se tinham armado de espontoens de ferro acrecendo tambem a circunstancia de navegar pa entre montanhas de considerável altura Navegada a 1º Legoa e ‘/2 che 15 guey a hum monte summame alto que dava como de Paredam aberto a picão aprumo por entre o qual corria o Ryo placidame apesar de ser neste lugar sinco braças de largo. Hê digna de sever e de se admirar esta obra da natureza. Huma legoa acima deste 20 paredaõ esta outro pouco inferior ao primeiro, e imediato a sua extremide superior hum Ribeirão de larga entrada e da parte do meyo dia: He provavel que nas suas cabeceiras que são estes montes por entre os quaes corre o Coxim haja ouro pois me asevera o Guia que se chama Salvador Ribeiro o 25 Ribeiraõ do Paredaõ homem que em huma praya que fica pouco mays abaixo do referido Ribeiraõ e na Cachoeira da Choradeira achava ouro que mostrava ser de sabido Sinaes de quilate: Por falta de instrumentos proprios o não haver oiro foi a mesma experiencia A = 44º de E pa S. 30 [] Dia 14 91 A primeira vizita que tive ao sahir do pouzo foy a dos 3 Irmaõs , nome que dão a 3 Caxoeiras que se sucedem humas, as outras, a ellas mediata esta a chamada da [?] que se passa com a canoa vazia, e formando os 35 []por 92 42 v por cima dos paredoẽs. Duas legoas e meya acima deste estâ outra chamada quebra proa, e de canal passagero pouco acima della encontrey da parte do meyo dia hum dezaguador, que pela sua largura, merecia ono5 me de Figueira, que assim o denominey. Já pela tarde Naveguey pr entre montes menos asperos emais 3/2 baixos. A= 50º de E pa S [] Dia 15 A chuva que por todo dia me encomodou, compensou muito bem afacilide com que se passaram as Caxoei- 10 rãs denominadas das 3 pedras da e do Varé distante a primeira do ponto da partida legoa e/ 2 afog.da dista ¾ e a 3ª da imediada huma legoa e ¾ e A= 5¾ 78º de N. pa E [] Dia 16 15 Era minha tenção falar de grandezas de cheya quando acabasse de navegar pr este Ryo, mas a circuntancia da navegação deste Ryo me obriga a fazello agora. Este estreito Ryo reprezado entre montanhas, e apertadas ribanceiras sobe a mais de 50 palmos d'altura como 20 mostram os sinaes das arvores: Para atese fazer inavegavel naõ necessita de tanto peso de agoa pois sô com 8 palmos que creceu com a chuva d’ontem impedia de tal sorte a viagem que em todo o dia naveguey somente 2/2 legoas. Se o Leito do Rio fosse taõ inclinado 25 como nos dias precedentes, ou houvesse alguma cachoeira naõ faria viagem alguma Navegando a 1a/2 le goa deixey na margem orizontal hum ribeiraõ chamado o do Barreiro: Latitude A= 19º.3’16” A= 78 de E pa S [] Dia 17 30 Com a mesma facilidade com que neste Rio com a mes- 93 ma vaza pa felicidade pa os Navegantes 4 palmos que abaixou durante a noite fez diminuir muito asua fúria e me poz em estado de poder seguir viagem passando nella dias duas Cachoeiras chamadas de Peralta e da Pedra 35 []bran- 94 43r branca A= 49º de E. pa S []Dia 18 As agoas claras e saborosas deste fúnebre, e melancolicos Ryo, se pertubaram de tal forma com o Repiquete de 5 que tenho falado, que so a necesside me podia obrigar a beber della: mas pa outra parte naõ deixou de ser conveniente que o Ryo tomasse mais agoa do que tinha, pois com menos trabalho se varava a Canoa por sima dos troncos das arvores que das ribanceiras nele cahem, e o tornam 10 de parte a parte: Distante do ponto de partida 2’/2 legoas dezagoa pela margem Oriental hum Ribeiraõ e chamado o da Celada, e acima deste huma legoa e ‘/4 está a Cachoeira do Mangabal ultima e a vigessima 4ª des 6/4 15 te Ryo A 65º de E. pa S. []Dia 19 Com tres legoas e /2 de navegaçaõ cheguey a foz de estreitissimo Rio de Camapuam que dezagoa no Cuxim pela Margem Oriental por aquele seguy viagem ter sido deixado o Cuxim que me dizem se dividir em 2 braços pouco mais 20 acima do Ryo Camapuam. A largura deste Ryo na sua foz hê de ½ braças mais pouco acima della se estreita ainda mais e tem taõ pouca agoa que as Canoas vaõ pela mayor extençaõ do Ryo arastadas por sima de seu fundo passando a o mesmo tempo pelos 25 troncos das arvores que toda via saõ muitos apesar da frequencia das Canoas do Comercio que por dele pode navegar a meya Carga: Naveguey por este Ryo 3 legoas no meu Batelaõ em que me embarquey pa chegar a fazenda abaixo de Camapuam com antecipaçaõ a 30 Canoa grande pa poder fazer e reiterar as observaçoens Astronomicas sem atrasamto da viagem e A. 95 53º de E pa S []Dia 20 8 A proporçaõ que fuy deixando alguns Ribeiroens, foy tambem perdendo o Ryo mto do seu Cabedal e fazendo 35 se mto penoza a navegação por Conta dos bancos, não obstante ser piquena a Canoa do transporte e A= 58 de E pa S 96 43v [] Dia 21 Com seis legoas de navegaçaõ, e com os mesmos inconvenientes cheguey a Fazenda de Camapuam tendo deixado 3/4 de legoa abaixo della afoz do Ryo Camapuam Guassu 5 que dezagoa pela margem Meridional e que por entrepido pelas arvores cahidas se tem feito navegavel. []Dia 22 Nem na noite passada nem nesta permitiu o tempo fazer observaçaõ alguma. 10 [] Dia 23 Cheguey a Canoa grande pelas 5 horas da tarde, elogo foy posta no Carro, e mandado conduzir pa o Ryo da Sanbixuga a tempo nublado naõ sô naõ deu lugar de observar a imersaõ do 2° Satelite de Jupiter, mas 15 tambem de poder pelo menos detreminar a latitude deste lugar. [] Dia 24 Neste dia apareceu o Sol, e a lua entre nuvens menos espessas, e tomey algumas distancias pelas quaes vim 20 a detreminar a longitude deste lugar = 323º 38’45” e a latitude Austral = 19º 35’14”. Variação N. E= 9º. 27” Pelas 6 da manhaã montey a Cavalo e cheguey ao lugar em que entravam as Canoas que tinham sido conduzidas por hum varador de 623 o braças. Embarcado nella 25 decy plo Ryo que denominam Sanguechuga athé a o encontro do Ryo vermelho onde perde o nome, e toma o de Pardo naõ sendo o da Sanguechuga com efeito outro mais que o Pardo tem como o Amazonas que da foz do Ryo Negro pa sima se denomina Soli- 30 moens. Este Ryo vermelho dezagoa no Pardo a distan- 97 cia de trez legoas /2 do ponto da partida e a suas agoas saõ taõ vermelhas que naõ diferem do Sangue Naõ parece exageraçaõ o que acabo de proferir, pois naõ faço d’hum Pigmeu hum Gigante. A sua 35 []lar- 98 44r largura saõ as mesmas que o da Sanguexuga, ou Pardos que hé entre o limite de 9, ou 12 palmos confirma suficiente pa navegarem as Canoas com toda a Carga e livres dos incomodos dos troncos, pois corre pelas encostas 5 de huns chapadoês de relva mimoza e propria pa aboa. Criação de gado Vacum, mas o Ryo vermelho so tem hum palmo de profundidade e basta estapequena porçaõ d’agoa pa pertubar as do Sanguexugas que hê crista lina, fresca e delicioza efaze incapaz naõ sô de se beber 10 mas tambem de se poder nellas lavar a roupa. Porem suprem a estes defeitos os muitos Ribeiroens que no Par do dezagoaõ: Hum quarto de legoa abaixo do lugar da partida estā a Cachoeira chamada a do Barquinho e duas Legoas e/2 distante desta o Saltinho e finalmente 15 a chamada Taquarapaya A= 67º de E pa S [] Dia 26 = O Ryo vermelho o Ribeirão claro, eo Ryo Sucuria que passey pelas 5 horas da tarde, e outros Ribeioens sem nome, alem de mtos regatos que continuamte nele 20 dezagoa tem aumentado consideravelme a suas agoas e Largura pois ja sobre a tarde tinha 5 braços de largo: 10 Cachoeiras passey neste dia, alem de m.as Sirgas e correntezas onde os que seguem pa Cuyaba descarregam as Canoas ou em parte confre 25 estā o Ryo mais ou menos possante: ellas foram as pedras de anidar, o formigueiro o paredaõ o imbiricu guassu, e Mirim a lag. e grande e piquena que se passaram com a Canoa vazia precipitando se com o Ryo por trez degraus a Canoa velha, Sucuriu, e a 30 Bangue, recebendo e penultima o nome do Ryo que pouco abaixo esta A= 55º de E pa S. 99 [] Dia 27 Com 8 legoas de navegaçaõ passando mtas cirgas e correnteza cheguey ao Salto do Curral hum quarto 35 de legoa antes de chegar a descarregar 100 44v a Canoa, athé a suas proximidade se navega por en tre Caxoeiras, e depois se vara a Canoa por terra por sima do varador de 30 braças que para salvar do salto que terâ quatro braças d´altura: 6vz alto neste Salto 5 pa observar o eclipse do Sol que devia suceder nesta tarde que naõ teve efeito pela continuaçaõ do Ceo, furtado que mto tempo se conserva chuva: Pelo mesmo incoveniente naõ observei o eclipse do 2º Satelite de Jupiter que devia suceder na madrugada deste dia 10 e apenas detreminey a latitude deste Salto que está em 20º 6´Austral A= 16º de E pa S [] Dia 28 Em 8 legoas e/2 que hoje naveguey passey 12 Caxoeiras A saber, o Robalo, o Tamandua que sepassa varando 15 a Canoa por sima de Lages, e vazia os 3 Irmaõs, o Taquaral que se vara pa terra pela distancia de 21 braças, o Anhanduy, o Jupia, o Tyjuco, varado por terra de 60 braças, o Magangoal e cheyo Santo e o Embirucu, Caxoeira todas concideraveis, onde se 20 tem por varas perdidas mtas Canoas, eeu perdy hum Batelaõ que como disse veyo so pa a comodaçaõ da gente da equipagem: Neste pequeno espaço em que decendo gastey hum dia, gastam os comerciantes na subida 15, e 20, como o unico divertimto de ma- 25 tarem mta perdiz, viado de que abundam estes chapadoens, sendo mto esteril no que pertence a outras especias de avez, e o Ryo de peixes que pelo em varado das Cachoeiras, e saltos naõ podem subir do Paraná. E sô o há do ultimo galho para baixo como measevera 30 o guia: o Ryo ja tem de largo 22 braças e da foz do 101 Ryo Anhanduy Mirim que dezagoa pelas margens Ocidental na distancia de 6 braças de largo, tem mais 3 braças. A= 53º de E pa S [] Dia 29 35 Passado a Larga comprida que tem 39 braças 102 45r de extençaõ passey o banco que se [?] imediatame varando se a Canoa por terra pela distancia de 57 braças: segue dequazi a [?] Negra o do Matto o Salto de Cajuru onde se siga a Canoa por hum 5 estretissimo Canal que forma huma ilha mto conti gua a margem Meridional, e Caxoeira vistoza porque o Ryo com bastante largura se precepita pela altura de 3 braças e /2 formado varias Caxoeiras que mto bem se divisa d´huma praya que estâ abaixo della. Di- 10 pois deste salto estā o Cajuru Mirim, a Caxoeira da Ilha ultima, e a 33 deste Ryo 36 /2 de E pa S []Dia 30 passei hoje pelas dezembocadeiras dos dois Rios chamados Orelha d´e Anta, e Orelha d`Onça que dezaguam 15 pella margem Boreal; e distante hum d´outro tres legoas e /2 e a primeira 3 legoas do ponto da partida e 6o de E pa S. []Dezembro dia 1º Sendo decido 5 legoas passey pela confluencia do 20 Ryo Anhanday guassu de 18 braças de largura que vem do Ocidente, athê este ponto tem o Ryo corrido pelo Rumo geral de S. E. Mas do d.o Ryo para baixo mudam o seu curso pa o Nacente []Dia 25 Por Conselho dos Pilotos detreminey seguir viagem logo dipois de meya noite pa poder chegar athe as 7 horas da manhaã a boca do Ryo Pardo pa poder alcançar no Ryo grande hum lugar que serve dea brigo as Canoas pa se livrarem da furia dos Ryos 30 nas tempestades: mas as chuvas que desde o Ryo 103 tem cahido sem interrupçaõ me naõ deu lugar de poder partir asemelhantes horas principalme em noite taõ escura: Com o dia pois seguy viagem e fuy jantar pelas duas horas nadesembocadura do 35 Ryo Pardo no Ryo grande com o andamento de dez legoas: Naõ admira o navegar[?] legoas em 104 45v menos de 6 horas, pois a docid.e das agoas do Ryo Pardo a sem Caxoeiras hé tal que correm duas mi lhas e 7 decimos em huma hora. A largura deste Ryo na sua foz tem 64 braças. 5 []Rio Grande O resto do dia naveguey subindo pelo Ryo Grande, cuja largura avalio athe achar parte de donde possa medir Trigonometricam. e por naõ poder fazer d´outra sorte em 300 braças. As suas agoas saõ barrentas epestilentes 10 mas pelos seus estiroens, Ilhas e Matos tem toda a magestade de hum grande Ryo: Naveguey duas legoas e ¾. A= 32º de N. pa E 2¾ [] Dia 3 Naveguey pelas grandes enseadas deste Ryo 5 ¾ impedin 15 do-me huma grande trovoada que sobre veyo o poder seguir mais avante: Naõ obstante estarmos hum tanto abrigados da furia do vento, com tuda foy precizo des carregar a Canoa pa se naõ alagar com o movimento e 5¾ 20 impulso das ondas: Distante do pouzo 2/2 legoas desagoa pelas margem ocidental o Ryo Orelha d´Onça, e mais acima dous ribeiroens A 16º de E pa S [] Dia 4 A chuva continuou por toda a noite sem interrupçaõ alguma: naõ sô todas a passamos ensopados, mas 25 tambem me fes perder a observaçaõ do 1º Satelite deJupiter. As arvores mostram que o Ryo sobe o Rayo 7/4 a 25 palmos d´altura A 5º de N pa E Acimado pouzo tres legoas e meia esta huma piquena7 7 Na linha 27 o traçado da caligrafia muda totalmente, mostrando a mudança de punho (segue até o final do diário). 105 Ilha chamada de Manoel Homem. Este criminozo 30 se refugiou nas sua vizinhanças tendo trazido comsigo huma veneranda a Imagem do Sñr. Bon Jezu, sendose obrigado a retirarse, naõ sei por que mo tivo fez um piqueno rancho de palhas,e nelle deixou abrigada das injurias do tempo aRespeitavel Imagem: 35 Recolhendose para S. Paulo hum commerciante aa 106 46r aacharao, e querendoa conduzir [?] tradiçaõ conste que anaõ poderaõ abalar, sendo feita de Lenho de mediocrequalidade, por isso adeixaraõ, e foi depois conduzida para a Villa de Cuiabá com a facilidade na5 tural, e hé venerada, e Respeitada nesta Villa, de que tomou onome, alem de terjaouvido este cazo amui tos individuos, mo repetio novamente hum Neto do dito Manoel Homem. [?]uam incomprihensibi lia Sunt Judicia tua Domine. 10 []Dia 5 meia legoa acimadopouzo, eno fim de huma Ilha, des peja as suas agoas pela parte do Poente Rioverde de Rio Verde quarenta e duas braças de largo, e quatro legoas e hum quarto, distante deste, e da parte opposta desagoa o Rio Agu 15 apeis de doze braças. Aturaõ hoje ao Rio Varias pedras, en- Rio Ago- tre as quaes havia o algumas [?], de que fiz algum pro apeis vimento, e poderia talvez fazer maior, e demais esquezitas, se o Rio ja naõ tivesse tomado bastante agoa. Para me livrar de huma eminente trovoada, entrei, e pouzei 20 em hum Ribeiraõ que denominei do Abrigo. A 18º de N pa L Dia 6 Abalhado Ribeiraõ, digo a balhaque na Barra do Ribeiraõ faziao os dourados menaõ deixoudormir, enaviagem erao tantas as Pirancajubas, peixes de escama pra- 25 teada, emimozo, e os Piabucis, que saltavaõ para acannoa, que me vi obrigado, acorrer as Cortinas da barraca para me Livrar do Choque d´alguns, que doia muito con forme me tinha jamostrado aexperiencia. Pelas 30 treshoras datarde parei fronteando abarra do Rio Su Rio do curüi, que vem do Occidente, cujalagura deixei de- Sucurüi 107 medir, por nao poder atravessar o Rio; por cauza das ondas; mas peloque me pareceu excederia á Sincoenta braças. Hé tradiçaõ constante, que huma cannoa, que escapara de hum ataque do Gentio Payaguá nas 35 vezinhanças do Rio Cuyabá Subia pelo Rio Porru- 108 46v Porrudos; por outro que nelle deita as suas agoas, e que com huma piquena varaçaõ passara para o Sucurüi, de que estou falando sem ter o incommodo das cachoeiras, de que tenho tratado; mas que em recompença encontrara mui5 to Gentio Caiapó, porcujo motivo tinhaõ desprezado esta navegação, que parece devia ser preferida, á que prezente se faz, se não ouvesse o interesse de extender os Dominios de Sua Mage Fidelissima, que Deos guarde, o mais que podesse ser procurando o Paraguay. Ouxala que de baixo 10 de pretexto da mais facil Navegaçaõ para Cuiabá, e MattoGrosso dezistisse S. Mag.e Catholica, a parte, que tem no Rio Paraná, ena Margem Oriental do Rio Paraguay da Foz do Rio Grande para o Norte para por este senavegar àthe o Paraguay cazo as Cachoeiras deste grande Rio permittaõ / 15 e seguir depois a ordinaria Navegação para asdittas Villas. Pernoitei na Foz do Rio Tieté com sete leguas de navegaçaõ. A= 9’ de N para E [] Rio Tieté – Dia 7 Deixado o Rio Paraná, que medizem ter subindose ma- 20 is meio dia deviagem, hum Salto chamado Urubupungá, naveguei, Subindopelo Rio Tieté, cuja Foz tem de largo setenta braças. Com sinco horas de navegaçaõ, emar cha de tres leguas, e hum quarto cheguei ao grande Salto denominado Itapura, cuja figura se deixaver no 25 Mappajunito. Foi varada a Cannoa em Sinco horas por humpalmo digo por hum plano de quarenta, equa tro palmos d’alto, que tanta hé a altura o Salto, e de se centa braças de extençaõ. Acimadeste Salto, nadistancia de huma legua esta outra Cachoeira chamada Itapura 30 mirim, que em nada se asemelha aprimeira. A8º o de N para E. 109 []Dia 8 As tres Cachoeiras chamadas as dos Tres Irmaons Se passaraõ bem facilmente, mas o Ituperii levou toda 35 a tarde, e tem meia légoa de extençaõ. Noprincipio desta Cachoeira encontrei ahuns Commerciantes, que estavao enxugando os fardos de tres Cannoas, que se tinh- 110 47r se tinhaõ alagado. A= 70’ s de N para E (ou L) []Dia 9 A chuva que durou por toda anoite e parte o dia naõ medeixou seguir viagem á horas competentes, e porestemotivo, 5 e porjá ter tomado o Rio bastante agua , e correr comviolencia, apenas naveguei Sinco legoas e hum quarto tendo passadopor huma ponte depedra, que lhe chamaõ Pirataraca A. a18’ de E para S []Dia 10 10 Sem outra novidade mais que amuita Chuva ter deixado na margem septentrional a dous ribeiroens, naveguei seis leguas e hum quarto. A [?] de E para S. [] Dia 11 Amuitachuva apenas medeu lugar depoderembarcar 15 pelas sete horas damanha ; eporterestado o Rio muito tur vado, nao obsevei a emerçaõ do primeiro Satelite de Jupiter. Passei com a Cannoa carregada as duas Cachoeiras chamadas Taiurutuba merim, e a Itupeba, estaultima dehum quartode leguadeextençaõ, e trabalhoza. A 3º chamada Ara 20 racanguaguaii, foi passada sem Carga alguma. Huma legoa acima dopouzo deixei namargem Borial hum grande Ri beirao, que odenominei de Socuri pormedizer o Guia que antigamente, pernoitando na sua Foz,varias pessoas passa raõ por cima de hum detalgrandeza, que naõ fazia cazo dos 25 que pizavaõ atheque, julgando ser hum tronco lhemete rao hum machado para fazer lenha, eentao virao o seu engano. Todo o Tiaté tem grande abundancia destas cobras, e de outras serpentes, e muitoprincipalmente o Rio Pardo, emque ordinariamente saõ mordidas al 30 gumas pessoas, eprincipalmente, quando sobem pelo 111 muito tempo, que nelle gastaõ. O meu Piloutojafoi mordido por tresvezes, e uza por contraveneno da agoa ardente, que se faz da Cannade asucre, emque lhe deita algum Sal, e naõ obstante a beber em prodigiozaquan 35 tidade onaõ embebeda, quando em outra ocaziaõ, que abebe, como escudo contra o frio, e a chuva qualq.r piquena porçaõ lhe sobe a cabeça. A [?] de E pa S. 112 47v []Dia 12 Pelo mesmo incoveniente do dia precedente naveguei Sinco leguas e tres quartos, tendo passado as cachoeiras, a Araracangua merim, e Araçatuba A 27º ½ de L (ou E)par S. 5 5 1/4 []Dia 13 Sinco Cachoeiras chamadas [?] de mais de hum quarto de leguadeextençaõ, e funil grande, epiqueno, as ondas piquenas, e grandes, pasei em sinco leguas, e hum quarto, que tanto naveguei neste dia . A [?] d’ L pa N 10 []Dia 14 A cachoeira chamada Mato Secco dista dopouzo hum quarto de Legua, a da Ilha duas e meia e a Itapanema, quatro e hum quarto. As continuadas chuvas temenchido o Rio de forma que sevai fazendo trabalhozissima asua 5/4 15 subida. Naveguei sinco legoas e hum quarto. A 5/4 [?] para S []Dia15 Pelas dez horas cheguei a Cachoeira, que lhe chamao Esca= mussa, e pelas quatro ao Salto Avanhandava, tendo deixado huma legua a baixo deste, e daparte septentrional huma 20 medeano Rio, que o denominei de S Jozé. Hum quarto de legua antes de chegar ao Salto, corre o Rio por fundo de pe 4½ dra, e reprezado entre ellas, que faz anavegaçaõ laborioza, e muito ariscada. A 7º [?] para S [] Dia 16 25 Naõ obstante estar o tempoprometendo chuva sedes carregou aCannoa por hum descarregador de trezentos secenta e tres braças, e depois sedeoprincipio a sua varação, que levou athé as sinco datarde, sendovaradopela distancia de Cento e sincoenta braças, e pela altura de Sin 30 coenta e tres palmos, que tanto tem o Salto que se faz me 113 donhos nao so pelo embate das agoas despenhadas, mas tambem pelos penedos, e Ilhas, que pela sua largura tem formado varios Cannaes, e quedas. Quando o Rio está mais cheio cresce e varados mais Cem braças. 35 [] Dia 17 [†] Cachoeira chamada Avanhandava Mirim 114 48r Mirim, e ado Campo A [?] [ ?] [?] para S. 7¾ []Dia 18 O espaço por ondenaveguei, que possodizerque foi hum só Estiraõ, hé livre de Cachoeiras, mas aCorrente do Rio foi 5 muito rapida, enas suas margens ha muitas margens, digo arvores, que lhe chamaõ jabuticabras , que daõ hum fruto o mais saborozo, que tenho comido. Há quatro especies dellas. As grandes, que terão huma polegada de diametro, sao decor negra, e nascem pelos troncos com 10 hum cumprido, como aCereija. [] As Punhemas, que de ferem das grandes nagrandeza, e no pé curto. As pintadas, eas Numichamas sao as outras duas especies, e nascem em arvores mais baixas, e saõ do tamanho de huma bala dearcabuz. A casca detodasellas he delgada, 15 e tem avirtude adstringente, e saõ taõ acidas, que dellas se faz optimo vinagre. Esteacido da casca, que facilmente se communica amassa mimoza da fruta, faz que se naõ possaõ comer; passadas vinte equatro horas, de pois de colhida, naõ obstante serem muito doces, 20 quando se apanhaõ, e serem hum aroma,que em lugar de cauzarem tedio, incicitao o appetite. Pelos mesmos inconvenientes dos dias passados, naõ observei aimerçaõ do Segundo Satelite de Jupiter.A 26 º de E. pa S. []Dia 19 25 6¾ Em seis legoas e tres quartos quehojenaveguei, passei facilmente por estar o Rio cheio as tres Cachoeiras, [?] [?]. Tambaulni digo Tambacui Mirim, e Guassû Pela imersaõ do primeiro Satelitede Jupiter achei que a Longitude deste lugar hé 328- [?]30’ e a Lat. A= 30 21.4.5.21” – A 25 8’ L para S 115 []Dia 20 Navegado o primeiro quartodeLegua passei a Cachoeira Tam[?] batiririca, e tres leguas distantes desta vizinhança. Pouzei com Sete leguas de marcha pouco acima da foz do Rio [?] 116 48v Jacare, [?] quinze braças de largo, e de parte Boriel, e oprimeiro que desta secai agoa no Tieté A 8 18’ e L para S []Dia 21 5 Vencidos 31/4 de legua de navegação passei fronteando a foz do Rio Rio Jacaré Jacaré guassu, digo, Mirim da mesma a parte do [?] Apipiramirim 74º do E par S. [] Dia 22 Pouco depois de estar em marcha passei aCachoeira chamada Congonha de legoa, e ½ de extençaõ, desta se segue o Sayré, o 10 Barueri guassú, e Mirim, e o Barueri comprihendidas em Sete legoas [?] /11 que tanto naveguei neste dia=A=38º [?] E para S []Dia 23 Aprimeira Cachoeira que passei, e que dista humalegoa do ponto da partida foi achamada Itapuá, epouco depois a do 15 sitio e assim chamada, por estar fronteira ao Lugar chamado Putunduva, ondejaouveraoMoradores, que ja se tinhao retirado, por estarem muito longe do Porto Espiritual, e naõ pela má qualidade dos matos, que, segundo se explicava hum Pilouto que tambem este lugar tinha morado, e nao aque 20 [?] terras E com e effeito, se pelo copiado, e viçozo das arvores, e pela grossura dos troncos se pode julgar de boa, ou má qualidade da terra, possa dizer, que naõ será facil achar melhores. Estatapera esta no principio de hum estiraõ, em cujo fim esta huma Cachoeira chamada 25 do Estiraõ. A 51º E para S Pela distanciade huma legoa a baixodopouzo,deixei tres passos chamados.Miapancipia Mirim, e guassú, e dos Lençoes.Estes possos saõ huns lugares muito fundos, e que tem dequinze para vinte braças de profundidade, como me asseveraõ va- 30 rias pessoas, que vem na minha companhia e que por vezes se tem medido, naõ por curiozidade, mas porque nelles vem 117 pescar em tempo secco, como em viveiros de peixes, e [†] Linha, de que uzaõ lhes mostra aprofundidade. Eu os nao pude sondar pela violencia com que corria o Rio, 35 por estar com bastante agoa. Asseverou e tambem hum Proeiro que por inteligencia dasCachoeiras, e porme tido a letrado hé estimado dos mesmos Guias, e Pilotos 118 49r e pilotos quenestes passos havia Maens d’ Agoa; cu ja descripçaõ lhe[?], e , apesar denunca os ter visto, me pintou hum Monstro mais horrendo que aquelle que de [?]Horacio no principio da Suas Artes 5 Poeticas. Querendo eu distancio desta quimera ficou este Homem a como se lhe tivera negado algum ponto de Pé, e chegando se a mim com a testa franzida, com os O lhos aregalados, e finalmente com todos os gestos de hum furiozo Peripatetico, me disseque eu entendia muito 10 bem dos meos Relogios/ nome, que dava aos instrumentos Astronomicos/, e que elle sabia mais, do que eu, o que havia pelos Certoens pela experiencia, que tinha, e pelo que tinha visto, e com isto deo principio a hum aten[?] tendentes todas aprovar a existencia 15 das Maens d’agoa pelo limiti d’outros inumeraveis, e horrendos animaes, que dizia tenha visto, que eu vendo que elle era capaz dequererde Herider aSeita das Ma ensd’agoa, como os Mahometanos o seu Alcorão, assentei comigo ser hum grande passo de prudencia 20 conformar me com a sua opiniaõ principiando, á quei xarme daminha incredulidade, que sō com tomar, e Soltar aRespiraçaõ cauzaraõ grandes marés, que viamos, propoziçaõ que abraçou e logo confirmou aexistencia de Similhantes gigantes no fundo do mar, porque quando 25 esteve no Guatemem tinha ouvido Lerem hum Livro, que naturalmente seria Carlos e Magno, que hum homem correra algumas horas acavalo ápos de humaserva pordentro da Canella de hum. Estanarração hé alhêa d’hum Diário; mas a Repito para dezenfado, epara mos 30 trar que hé trabalho perdido o quererdes abuzar ahomens Rústicos, e amuitos sábios e Herrados na sua opiniaõ, ou teimozos por natureza. A effervecencia da agoa nestes lugares cujo effeito atribuem estes homens a Mayd’a 119 goa provem do muito peixe, que nellas há, e principal. 35 mente de hum chamado Jaú que he de tal grandeza, 120 49v grandeza, que meu primeiro Guia, que abrindo com hum paõ abocca de hum, que matara, por ellapodia entrar hum homem sem enxoucalhar os vestidos. Dei lhe crê dito porque vi hum, que tinha sete palmos, e na Com 5 mitiva vinhaõ mais testemunhas de vista; eporque finalmente em dous mezes decommunicaçaõ tenho observado que o Guia he homem, que nem por graça deixa de fallar verdade, virtude, que raras vezes se encontra, principalmente em homens de similhante 10 profissaõ. Com tres horas denavegação, passei a Cachoeirinha do Ban- Monte haron e pouco acima hum posso domesmonome. Hum quar Arara= to de Legoa acima deste posso, e da parte concova daenseada quara se avista adistancia de tres legoas p ara N.E. huns montes, 15 que lhe chamaõ d’Araraquara, que pela tarde, quando lhe bate o Sol Representaõ huma grandecidade. Por estas este Planeta entre nuvens, naõ logres deita delicioza 6¼ prospectiva. He tradição, que neste montes há muito ou ro, varias pessoa tem tentado chegar aelles, e naõ tem 20 conseguido pelos muitos pantanaes, e obstacolos, que encontraõ; mas eumepenso a do que esta tentativa tem sido feita por homens puzilassimes, e fracos certanistas; pois naõ hé cruel que entres legoas de terreno possa haver obstaculo, que com tempo o trabalho se naõ ven 25 ça. Pouzei meia legoa acima do Rio Piracicabá, que R.o de Piracicaba despeija as sua agoas pela margem Boreal por huma abertura de vinte e oito braças A=15º ½ d’E para S. []Dia 25 30 7½ Com a perda das agoas do Rio Piracicaba se Reduzio a Largura do Tieté a quarenta braças, largura, que pade ce suas alternativas para mais, e para menos; mas nem 121 porisso ficou mais baixo, antes tão fundo que so navegamos á Remos e a ganchos, ecustando muito a vencer 35 a sua correnteza por falta dos baixios, que há pelo Leito do Rio, que tenho navegado, passando de extremo aeste, mo já muito fundo, e já taõ baixo, que apenas sepo- 122 50r se pode navegar; o que faz, que as Cannoas de ne gocio, por virem carregadas gastem mais tempo em adescer, do que aquellas que se recolhem Qua zi vazia e subir corre o Rio por entre Ribanceiras 5 muito altas. Passei apiquena Cachoeira do [?]. A 15º de E. para S. []Dia 26 Neste dia naveguei quatro legoas e meia; por medemorar Sinco horas e meia em matas, esperar, que surgissedo 10 fundo do Rio huma Antha, que no fim dequatro horas appareceu com grande alegriade todos, em que eu tambem tive parte; porter com que fazer o meu banquete de post diem de Nascimento do Nosso Redem ptor ja que o de ontem consistio no panem nostrum 15 quotidianum; que hé o feijão capaz ainda de ter filhos, e neptos, e em Bogio cozido, em Bogio com arroz, e em Bugio moqueado, cujo papo comi, por ser aparte mais saboroza deste [?]. Todos os Rios, desde o Coxim inclusive, entrando tambem o Tieté, tem muita abun- 20 dancia de Anthas, chamadas Russas, que saõ dagran deza de huma mediana vaca, e no gosto muito melhores. [?] 4º d’ L para S. []Dia 27 Passei dous grandes Ribeiroens, vindos dapartedo Meio dia, 25 o primeiro chamado Ituacatu, e o segundo sem nome, e distante do primeiro huma legoa, e tres quartos. Dexei tambem o [?] pão [?]. A 32º d’E para S. []Dia 29 30 Sete legoas e meia naveguei neste dia comprihendendose nellas o posso Paquaranxim, o Ribeiraõ da Onça, a Ca choeira da Pedemira de ½ de legoa de extenção o Rio 123 Soroaba da margem Meridional, dos Rios Capivary mirim,[?] pela aposta; e comprihendido estes 35 tres Rios no espaço dehuma legoa, duas Cachueiras chamada Hapema guassu emirim, e hum porto do mesmo nome ª2[?] d’E para S. Fig. 29– Diário de Viagem (fólio 50v - Vol. III). 124 50 v []Dia 29 Passei as Cachoeiras de Malhas, Tieté, e de Garcia, e tres po sos, Supupema mirim, e Guassu, e o Curaçá, e pouza de frente do primeiro sitio deste Rio Tieté com[?] de 5 vinte legoas, e hum quarto. A 35º d’ L para S. []Dia 30 Todo este dia naveguei por entre infinidade de sitios fun dados em ambas as margens do Rio, e tamcontiguos, que naõ sei como os Moradores tem terras para se cultiva- 10 rem se he que necessitaõ dellas; pois pelo que vi, vivem a maior parte em humacontinuada criacção e preguiça. Naõ so deixei de admirar a multidão de Rapazes, que no Terreiro de cada huma das Cazas se ajuntavaõ para ver passar a Cannoa, oque mostra muito bem a bondade do 15 clima, naõ so pela fecundidade das mulheres, mas taõbem pela nutriçaõ boa, e cores dos mininos, e muito principalmente pelos poucos, que em taõ tenra idade fales sem, pois pela sua sucessiva altura se conhece a successiva idade, ou nascimento de cada hum. Passei seis 20 cachoeiras, pirigozas, o Pirapora mirim a Itagasaba mirim, e quen[?], e foz alto com andamento de quatro lêgoas e hum quarto. A 17º d’L. para S. []Dia 31 Com o fim do ano dei tambem fim aminha navegaçaõ 25 tendo passado pela Cachoeira do Machado, Tiririca, Ita nhá, e Avarandanduava, Iurumiry, e Acanguera ultima e a cento e treze que há nestes Rios athe Araritaguaba em cujo Cartozes fundo 125 51r que [?] do Excelentíssimo Senhor meu General, Recebi no dia Sete a Carta Seguinte do Capitão Mor da Villa de Itú [] Copia da Carta 5 Senhor Doutor Francisco Joze de Lacerda. C. Muitissimo e Excelentessimo Senhor Bernardo José de Lorena meu amabilissimo General he servido deter minar-me, que da sua parte mande eu dizerá vossa mer ce, que logo que Recebereste avizo, seponha em marcha, 10 e vá em [?] aprezentarselhe, sem que em aminimacouza continue vossa mercê adiligencia, deque pelo seu Excelentissimo General estaencarregado. As sim espero ocumpra vossa mercê, aquem Deos guarde muitos annos. Itú SetedeJaneiro de mil Sete Centos 15 oitenta e nove. De Vossamerce-Muito obsequiozo venerador. Vicente da Costa Taques Góes e Aranha Em virtude destaOrdem mepuzem marcha no dia oito e cheguei acidade de Sam Paulo no dia dez, e logome a prezentei a S. Exa que me ordenou naaõ fizesse opera- 20 çaõ alguma geometrica, e Astronomica na sua Capita. nia, naõ obstante saber que eu era Portuguez, e natural desta cidade, que naõ era espiaõ, e que finalmente eu estava empregado por sua Magestade Fidelissima nas Demarcaçoens dos Reaes Dominios em 25 Villa Bella de Mato Grosso: apezar das minhas instancias naõ me tem [?], e concedido adezejada Licença de dar cumprimento a ordens, que tenho. Latit. Da Cide de S. Paulo = 23º 3[?]. 58 = ª Log................................... 30 Mar. N. E ........................ 3’30 5[?] 3o 7’15. 126 51v Boca do Taquary lat. A=19’15’16 32o-28.18.8/E=9º37. Nolugar em que pernoitei no dia [?] de [?] 18-12-58 Bocado Rio Cuxim................................. 18’33.58=322.3’l=18 Onde pernoitei no dia 16 de Dezbro .............. 19.3.16 5 [?]............................................. 19.35.11=323.38,45=9º.22 [?]................................................... 20.5 br 21.45.11=318.21.30 ondepernoitei a 19 de Dez .................. S. Paulo 25 de Maio de 1789 annos Dr Francisco Joze de Lacerda e Almeida 10 [] Joaqm Joze Cavalcte de Albuqe Lins. Fig. 30 – cópia da carta no final do Diário de Viagem (fólio 51r - Vol. III). 127 IV – ANÁLISE DA PONTUAÇÃO No campo das pesquisas lingüísticas e filológicas, autores como Mattos e Silva, Melo, Azevedo Filho e Mattoso Câmara Jr. apresentaram pesquisas abrangendo áreas como a Fonética e Fonologia, a Morfologia e a História da língua. Contudo, a maioria dos trabalhos refere-se ao período arcaico, quando em continuidade ao latim o galego-português cedia espaço para o português lusitano, do qual herdamos nossas raízes. A análise da pontuação é parte integrante deste trabalho. Por não ser o foco único, e sim complementar, apresenta-se apenas um estudo preliminar da pontuação no período setecentista, uma proposta de descrição de ocorrências, uma tentativa de definição das normas que sustentavam a produção escrita no contexto pesquisado. Por essa razão, tratar-se-á apenas de forma objetiva cada item conceitual que servirá de baliza para a análise. 4.1 O conceito de pontuação Assim como várias definições e, especialmente na gramática normativa, prescrições no uso da língua, a pontuação tem sido tratada de forma incoerente e confusa nos estudos contemporâneos. Isso decorre da confusão de critérios para atribuir a cada sinal gráfico uma função específica e adequação de uso. Os critérios podem ser sintáticos, prosódicos, semânticos e gramaticais. Lima (2005:12) apresenta uma discussão relevante sobre o conceito e itinerário histórico da pontuação, tratando destes critérios, na visão de alguns autores como Câmara Jr. (1985), Sacconi (1994), Dubois (1998) e Catach (1996). Sendo assim, apresenta uma definição que serve de base para seu trabalho, Estudo contrastivo da pontuação em dois testemunhos da obra medieval espanhola <<Memorial de Jesucristo>> (Lima: 2005), a qual faço referência e considero norteadora para realização desta pesquisa, pois atende também ao contexto do trabalho. ...entende-se aqui por pontuação o sistema constituído por sinais próprios da língua escrita, que tem por objetivo organizar as estruturas nos níveis sintático e semântico, e que mantém uma certa relação com a prosódia, visto que, por meio de alguns sinais, são representadas na escrita algumas particularidades da língua falada, como, por exemplo, a 128 entonação ascendente, pelo ponto de interrogação; ou a descendente, pelo ponto-de-exclamação (Lima:2005,13). 4.2 Itinerário Histórico De acordo com Acioli (1994:53), atribui-se a criação dos sinais de pontuação ao gramático grego Aristófanes, nos meados do século III a.C. A princípio o sistema baseava-se exclusivamente no ponto, cuja posição indicava o tipo de pausa (se breve ou longa). Com valor de pausa breve (atual vírgula) era conhecido como Koma para os gregos e incisum para os romanos. Como pausa longa (ponto parágrafo ou final) os gregos chamavam-no de Kolon e os romanos de membrum. Por volta do século VI, algumas escritas conhecidas como nacionais, a Visigótica, por exemplo, apresentavam outros sinais de pontuação: o ponto e vírgula (colocava-se a vírgula acima do ponto, assemelhando-se ao atual sinal de interrogação); os dois pontos (usados primeiramente nas abreviaturas latinas); o sinal de interrogação (constituído de linha reta perpendicular com ponto embaixo, parecido com o atual ponto de exclamação) e, raramente, o sinal de admiração (consistindo num círculo com um ponto em seu centro). Na escrita Carolina o uso dos sinais de pontuação restringiu-se, quase sempre, ao ponto. Depois, na escrita Processada, as pausas na leitura passaram a ser indicadas por um travessão oblíquo ( / ) e, quando no término do parágrafo ou do texto, por travessões duplos. Nessa pesquisa, apenas quatro tipos de pontos são analisados: o ponto final, a vírgula, o ponto e vírgula e os dois pontos. Assim, destacar-se-ão alguns dados relevantes quanto à evolução histórica destes sinais. Diz Lima (2005:22)8, que os primeiros tipógrafos reproduziam as formas dos sinais que constavam nos manuscritos que copiavam e a maioria utilizava três pausas representadas pelo punctos, virgula e interrogativus; outros sinais dependiam da natureza do texto. O processo de talhe de tipos era especializado, lento e dispendioso. Como os talhes para os sinais de pontuação eram cortados junto com o resto da fonte, as formas de pontuação foram disseminadas com os tipos. Assim, os tipógrafos, ao contrário dos escribas, poderiam gradualmente atingir um grau de padronização nas formas dos sinais de pontuação usados ao longo dos séc. XVI e XVII na Europa. 8 Citando Parkes (1993). 129 No séc. XVI, disponibilizou-se um amplo conjunto de sinais de pontuação para todos os tipógrafos, o que diminuiu a discrepância entre as práticas de diferentes impressores. As novas convenções foram estabelecidas e disseminadas mais rapidamente por meio de livros impressos do que por manuscritos, devido ao número de cópias idênticas produzidas pelo novo processo. A circulação de múltiplas cópias com pontuação idêntica levou a uma ampla disseminação de textos que poderiam servir como modelos. Lima (2005:27) também destaca que, no século XVIII, a interação entre a análise lógica e a retórica foi afetada pelas investigações filosóficas de John Locke e pelos elocucionistas. Os elocucionistas se concentraram na parte do sistema tradicional da retórica que focalizava a transmissão oral, enfatizaram a importância da voz e da gesticulação na transmissão dos diálogos e da leitura da liturgia e argumentaram a favor da superioridade da língua falada sobre a escrita. O confronto dessas idéias encorajou tentativas de representar o fenômeno do discurso falado, com o emprego da pontuação para indicar unidades "declamatórias" ou "elocutórias", em que o falante ou leitor deveria pausar para causar o efeito desejado. Assim, observou-se que, nos textos dos elocucionistas, a função mais evidente dos dois-pontos e do ponto-e-vírgula era a de indicar pausas maiores que as vírgulas. No século XVIII, ocorreu o desenvolvimento de convenções especiais envolvendo a escolha de vocabulário e características sintáticas para a representação da língua falada. No Brasil, comenta Melo (1975:143) que, por volta do século XVIII, a língua usada pelos escritores apresentava traços bem definidos, pois a ação das bandeiras favoreceu a unidade na fala popular. Pode-se dizer que a construção portuguesa se caracteriza pela grande riqueza, variedade e liberdade, resultantes de um conjunto de fatores histórico-culturais. Nisso concordam Melo (1975), Mattoso Câmara (2004), Teyssier (1982), Coutinho (1976) quando reconhecem ser nossa sintaxe uma continuação da sintaxe do latim vulgar e da românica, a qual recebeu influência incontestável latino-clássica, mas também soube desenvolver tendências próprias e incorporar estrangeirismos. Além disso, em comparação com outros idiomas, poucos têm sido os fenômenos de arcaização (Melo:1975). Lima (2005:79) comparou diversos estudos sobre a pontuação e concluiu que o critério sintático foi utilizado por todos os lingüistas, em maior ou menor grau, mesmo não o declarando diretamente, para descrever as ocorrências. Os papéis ou funções desempenhadas pela pontuação na análise dos autores, sob a perspectiva de Lima (2005) apontam: separadores, esclarecedores e diferenciadores (Roudil: 1981), especificadores (Aufray: 1981), separadores, coordenadores, apresentadores e indicadores (Ferreira: 1986). 130 É interessante a apresentação dessas funções, especialmente porque Lima (2005) segue além em sua análise, destacando também alguns autores modernos e, no foco de sua pesquisa, gramáticas tradicionais de língua espanhola. Sua pesquisa segue-se resumindo importantes contribuições sobre o papel da pontuação no seguinte quadro (Lima 2005:81, quadro 10): Tabela 4.1 – O papel da pontuação. Papel Gramáticas Estudos Modernos Estudos da Pontuação Medieval Indicadores X X X Separadores, X X X limitadores ou delimitadores Apresentadores X Especificadores, X sinalizadores X X X ou diferenciadores Organizadores X Segmentadores X Coordenadores X Esclarecedores X Muito embora se tenha discutido9 a influência da oralidade no uso da pontuação, compreender o papel ou função da pontuação é essencial, pois, como veremos, muitas ocorrências dentro dos manuscritos editados estão intimamente relacionadas a fenômenos de natureza semelhante à descrição dos autores compreendidos no trabalho de Lima (2005), como a estruturação do parágrafo na ausência de conectivos que estabeleçam a progressão textual e a relação entre períodos. Para o foco deste estudo considera-se a análise bibliográfica de Lima (2005) relevante no sentido que marca as relações sintáticas e discursivas, e, ainda, prosódicas. A partir dessas considerações e pressupondo que o critério sintático sobrepõe o critério prosódico, foram selecionados apenas um fólio do Tratado, uma carta e 1 fólio do diário para 9 Para discussão mais profunda neste aspecto, consultar (Lima, 2005). 131 análise. Este recorte permitirá uma descrição mais objetiva, considerando apenas uma amostra dos corpora. 4.3 A frase e o período Especialmente, no que tange à morfologia e sintaxe, a evolução que se processa do latim ao galego-português é semelhante à que ocorre em outras línguas românicas, em particular o castelhano. Conforme considera Teyssier (1982:16, 17), a declinação nominal simplifica-se e acaba por desaparecer: sobrevivem apenas duas formas oriundas do acusativo latino, uma para o singular e outra para o plural. Acrescenta, ainda, o autor: As relações que o latim exprimia pelas desinências casuais são agora expressas por preposições ou pela colocação da palavra na frase. Os gêneros, com a supressão do neutro, reduzem-se a dois e, por fim para compensar o empobrecimento da morfologia nominal, a ordem das palavras torna-se mais rígida. Os textos das correspondências e suas estruturas frasais diferem da liberdade com que se expressa a narrativa-descritiva do diário de viagem. Também, há certo distanciamento entre as datas de produção dos textos analisados. O Tratado é de 1777, as cartas de 1783 e o diário de 1788-1789. Considerando-se o relativo curto período entre os textos, apenas 12 anos, pressupõe-se pouca diferença no uso dos sinais de pontuação, fato que não é corroborado, principalmente quanto à quantidade de ocorrências encontradas nos textos. A ordem conhecida e concisa do Português atual (sujeito + verbo + complemento) é representada nos textos, principalmente em períodos únicos e longos, compostos por mecanismos de coordenação e subordinação. Os períodos simples são menos freqüentes. Assim, os diversos termos e frases são ligados apenas por vírgulas, na falta de síndetos (como conhecemos na atualidade) que efetuem a progressão dos textos. Por vezes, o leitor se perde na identificação do sujeito a que se referem os inúmeros complementos. Contudo, percebe-se uma tentativa de manter a continuidade do texto, recorrendo-se a gerúndios, infinitivos e 132 demais expressões, adverbiais ou não, que cumprem a função conjuncional. Esse dado está presente em todos os corpora, mostrando-se um padrão da época. Compare-se a estrutura dos períodos nos textos escolhidos: []Dia 25 30 7½ Com a perda das agoas do Rio Piracicaba se Reduzio a Largura do Tieté a quarenta braças, largura, que pade ce suas alternativas para mais, e para menos; mas nem porisso ficou mais baixo, antes tão fundo que so navegamos á Remos e a ganchos, ecustando muito a vencer 35 a sua correnteza por falta dos baixios, que há pelo Leito do Rio, que tenho navegado, passando de extremo aeste, mo já muito fundo, e já taõ baixo, que apenas sepose pode navegar; o que faz, que as Cannoas de ne gocio, por virem carregadas gastem mais tempo em adescer, do que aquellas que se recolhem Qua zi vazia e subir corre o Rio por entre Ribanceiras muito altas. (diário de viagem, fl 49v e 50r) Sua Magestade Catholica,em seu Nome, ede 25 Seus Herdeiroz, e successorez, cede afavor de Sua Magestade Fedelissima, de seus Herdeiroz, eSuccessores, todos, equa es quer Direitos, que lhepossaõ pertencer aos Territorioz, que, segundo vay explicado neste Artigo, devem pertencer á Coroade Portugual. ( Tratado de Santo Ildefonso, fl 13r) [parágrafo] Na ocaziaõ prezente remeto aV.Ex.ca adiferença meridional doFortedo Principe da Beira para o Occid.e de Paris emtempo, para que meucompanheiro D.r Pontes, ou os mesmos 21 officiaes Engenheiros de duzam desta diferença averdadeira Longitude, conforme aoque V.Ex.ca determinar. (carta, f 8v) 133 Lima (2005:96) apresenta o trabalho de Machado Filho 10 (1999), o qual examinou diferentes documentos que representam a primeira fase do período arcaico da língua portuguesa – O Livro das Aves, O Testamento de Afonso II (1214), os Diálogos de São Gregório dos séc. XIV e XV, e um flos sactorum, constituído pela Vida de Santa Pelágia e Vida de São Simeão – buscando conhecer os elementos lingüísticos que interferiam e condicionavam o uso da pontuação em manuscritos medievais em língua portuguesa, demonstrando de maneira sistemática as possíveis relações entre os elementos detectados e sua regularidade de uso ( Machado Filho 1999:13 apud Lima 2005: 74). Em resumo, a pesquisa deste autor apontou segundo Lima (2005:74) a possibilidade de ocorrências de sinais de pontuação nas mais diversas fronteiras do enunciado, não somente no âmbito da coesão sintática, mas também no sentido de uma marcação prosódica influenciada pela língua oral. Nesse sentido, o parâmetro de análise de Machado Filho (1999 apud Lima: 2005) foi a normatização atual da língua, a fim de avaliar o grau de distanciamento, ou não, de uso entre os dois pontos sincrônicos. O lingüista concluiu que a pontuação medieval portuguesa registrada nos manuscritos analisados por ele demonstrou uma sistemática bastante regular em relação ao emprego do ponto seguido de maiúscula, que era constituída por um “espólio de sinais de diferentes sistemas antigos” perpetuados pela tradição ao culto latino e “parecia transitar entre uma utilização lógico-gramatical e um emprego provavelmente apoiado em características da língua falada”(Machado Filho, 1999:91). Verificou que existe uma correspondência do sistema de pontuação medieval com uma lógica gramatical moderna e apresenta trechos de testemunhos nos quais se poderia substituir, por exemplo, o ponto de vista do sistema de pontuação moderno. Exemplifica também casos que não seriam aceitos se observados sob a perspectiva da sintaxe contemporânea, o que levaria à falsa idéia de que a pontuação medieval é “assistemática” ou até mesmo “indiligente”. Do total de sinais, constatou que menos de um terço não teria correspondência com o sistema moderno, isto é, não poderia ser substituído por nenhum sinal de pontuação contemporânea (2606 sinais que apresentam correspondência com a pontuação moderna, o que representa 69,7% contra 1131 sem correspondência, 30,3% das ocorrências) ( Lima 2005:74, 75). 10 Embora as demais pesquisas de outros autores citados por Lima (2005) destaquem também o estudo da pontuação, esses são gerais e variam entre línguas estrangeiras. A obra de Machado Filho tem especial relevância para o foco dessa pesquisa. 134 Passemos agora para uma análise mais detalhada, considerando os estudos de Lima (2005) e Machado Filho (1999 apud Lima: 2005). 4.4 Descrição da Norma que caracteriza os manuscritos Em todos os textos há quatro tipos de pontuação: o ponto final [.], a vírgula [,], o ponto e vírgula [;] e os dois pontos [:]. Retomando os papéis descritos por Lima (2005), sabemos que a pontuação na perspectiva de autores modernos pode funcionar como: • Indicadores de termo das estruturas escritas ou aspectos métricos do ritmo, as marcas do discurso; • Separadores, limitadores ou segmentadores de termo ou sintagmas das estruturas escritas; • Apresentadores que introduzem ou apresentam enumerações e citações textuais; • Especificadores que destacam determinadas palavras ou trechos textuais, alguma característica particular; • Organizadores responsáveis pela organização sintática. Interpretando as ocorrências no interior do Tratado encontramos grande incidência de casos da função indicadora da vírgula. Muitos termos que não deveriam ser separados por servirem de complementos verbais e nominais revelam provavelmente marcação prosódica. Para evitar generalizações, especificamente, foi analisado o fólio 11v, com 64 vírgulas, 5 ocorrências de ponto-e-vírgula, 3 de dois-pontos e 2 pontos finais. Neste fólio, encontramos: (...osincero dezejo...) de extinguir as discórdias /, / que tem havido /, / entre as duas Coroas de Por2 (função indicadora e especificadora: destaque aos termos) tugal /,/ eHespanha /,/ e Seus respectivos Vassallos /, / no espaço de quazi 3 (função indicadora de pausas e segmentadora) trez Séculos /,/ Sobre os lemites dosSeus Dominios daAmerica /,/ eda 135 2 ( função indicadora: natureza sintática e discursiva dos termos) Azia /: /para lograr este importante fim /,/ eEstabelescer perpetua mente 1 (função apresentadora e organizadora) 1 (função indicadora: hierarquia entre os termos) a harmonia /,/ amizade /, / eboa inteligência /, /que correspondem ao estreito 3 (função indicadora de pausas e segmentadora) Parentesco/,/ eSublimes qualidades de taõ Altos Princepes /,/ ao Amor re2 (função indicadora e especificadora: destaque aos termos) ciproco que Seprofessaõ /,/ ao interesse das Naçoẽs /,/ que feliz mente governaõ /: / 2 (função indicadora de pausas e segmentadora) 1 (função apresentadora e organizadora) tem resoluto /; /convindo /; / eajustado opresente Tratado Preliminar /,/ que 2 (função indicadora e especificadora: destaque ao termo) 1 (função delimitadora) servirá de base /,/ efundamento ao Difinitivo deLimites /, / que se hade es2 (função delimitadora) tender aseu tempo /,/ com aindividuaçaõ /,/ exacçaõ /,/ enoticias necessárias /; / 3 (função indicadora de pausas e segmentadora) 1 (função especificadora: destaque ao termo) mediante oqual se evitem /, / eacautelem para sempre novas disputas /,/ ( função delimitadora e indicadora: natureza sintática e discursiva dos termos) esuas conseqüências /./ [] Para efeito pois de conseguir taõ importantes 1 (função indicadora de pausa maior e organizadora sintática) Objectos /,/ nomeou por parte de Sua Magestade a Raynha Fedelissima /, / 2 (função indicadora de pausas e segmentadora) por seu Menistro Plenipotenciário /,/ oExcelentissimo Senõr D. Fran1 (função apresentadora e organizadora) cisco Innocencio deSouza Coutinho /, /Comendador na Ordem deChris1 (função apresentadora e organizadora) to /, /do Conselho deSua Magestade Fedelissima /,/ eSeu Embaixador jun2 (função apresentadora e organizadora) to aSua Magestade Catholica /;/ epela de sua Magestade El 1 ( função delimitadora e indicadora: natureza sintática e discursiva dos termos) Rey Catholico /, / por Seu Menistro Plenipotenciario /, /oExcellentissimo 2 (função apresentadora e organizadora) 136 Senõr Joseph Moñino /, /Conde de Florida Branca /,/Cavalleiro 1 (função apresentadora e organizadora) 1 (função indicadora de pausas e segmentadora) da Real Ordem de Carlos III doConselho de Estado de Sua Magestade /, /Seu Primeiro Secretario deEstado /,/ edo Despacho /,/ Superintenden3 (função indicadora de pausas e segmentadora) te Geral de Correyos /,/ Terrestres /,/ e Marítimos /,/ edas Postas /,/ eRendas 4 (função indicadora de pausas e segmentadora) deEstafetas em Espanha /,/e Indias /:/ Os quaes depois de haver-se co1 (função indicadora de pausas e segmentadora) 1 (função apresentadora e organizadora) municado os seus Plenos poderes /,/e de havelos julgado expedidos em boa /,/ 2 (função indicadora e organizadora) edevida forma /,/ convieraõ nos Artigos Seguintes /,/ regulados pelas Or2 (função indicadora e organizadora) dens /,/ e intençoẽs deSeus Soberanos /./ 1 (função indicadora) 1(função indicadora de pausa maior e organizadora sintática) [] Artigo – I - [] Haverá huma Páz Perpetua /, / e constante /,/ assim por mar /,/ como 3 (função indicadora de pausas e segmentadora) por terra /, / em qualquer parte do Mundo /, / entre as duas Nasçoẽs /, / Por3 (função indicadora de pausas , segmentadora ou limitadora) Tugueza /, / eEspanhola /,/ com esquecimento /,/ total do passado /,/ e dequanto hou4 (função indicadora de pausas e segmentadora) verem obrado as duas em ofença recíproca /; / ecom este fim /,/ rateficaõ os 1 (função apresentadora e organizadora) 1 (função indicadora de pausas e segmentadora) Tratados de Paz /,/ de 13 de Fevereiro de 1668 /,/ de 6 de Fevereiro de 2 (função indicadora de pausas e segmentadora ou delimitadora) 1715 /, / ede 1. de Fevereiro de 1763 /,/ como sefossem insertes neste /, / 3 (função indicadora de pausas e segmentadora ou delimitadora) Palavra /,/ por palavra /,/ em tudo aquillo que expressa mente sede 2 (função indicadora de pausas e segmentadora) 137 Assim: Tabela 4.2 – FUNÇÕES/SINAIS. FUNÇÕES/ SINAIS Ponto Vírgula Ponto-e- Dois pontos vírgula Indicadores 2 (100%) 50 (78%) 04 (80%) - Separadores, - 40 (62,5%) 03 (60%) - Apresentadores - 07 (10,9%) 01 (20%) 3 (100%) Especificadores - 04 (6,25 %) - - Organizadores 2 (100%) 09 (14%) 01 (20%) 3 (100%) limitadores ou segmentadores A vírgula no Tratado tem função mais indicadora (78%) de pausas e segmentadoras (62,5%). Isso implica numa relação mais direta com a prosódia que a estrutura sintática do texto. Por outro lado, ao segmentar e hierarquizar os termos, indicando a natureza de suas relações, segue além, apresentando (10,9%), especificando (6,25 %) e organizando (14%) estruturas mais complexas dentro dos períodos. O ponto e vírgula, mesmo indicando (80%) pausas e a natureza dos termos, segmentando (60%) estruturas maiores, também podem ser apresentadores (20%) e organizadores (20%). O ponto final apenas marca uma pausa maior e organiza sintaticamente a distribuição dos períodos. Os dois pontos, além de organizadores textuais, servem principalmente como apresentadores de expressões explicativas e esclarecedoras, envolvendo o nível discursivo do texto. Vejamos como se comportam esses sinais em amostras de uma carta e do Diário de Viagem. Descrevendo a carta... Fl. 5v 138 Reg.o dehumacarta de SExca pa o Mathematico oDr Francisco Jose deLacerda sobre varias materias Relativas Recebi aConfiguraçaõ que VMC meremete do Leito do Rio Itona Mas [que acho muito propria] como tambem a Latitude em que Podeobservar aMissaõ deSantaMaria Madalena /, /cujos monumentos 1 (função indicadora, apresentadora e organizadora) Entreguei desdelogo aoCap. an Ricardo Franco [†] para servirem nacarta que lhetenho encarregado delevantar /; /estimando sumamente 1 (função indicadora, apresentadora e organizadora) que orestabelecimento das molestias de VMC naõ só lhepermitisse aquella util degreçaõ /; / mas haja depermitir as outras q.o 1 (função indicadora, apresentadora e organizadora) me anuncia /, / e que ja detremineis de penetrar quando for possível /;/ 2 (função indicadora, segmentadora, apresentadora e organizadora) nao só pelo Bauris mas pelo Mamoré /: / Oponto estará em que os 1 (função apresentadora e organizadora) Espanhoes o naõ embaracem, nem ainda estranhem /: / Pelo que hade 1 (função apresentadora e organizadora) ser necessario metersempre em úzo alguns extratagemas /, /ou apa 1 (função indicadora, segmentadora, apresentadora e organizadora) rencias muito diverças /,/ sigundo tendo advertido que imponham de 1 (função indicadora, segmentadora, apresentadora e organizadora) alguma sorte aosditos Espanhoes /./ 1 (função indicadora de pausa maior e organizadora sintática) [parágrafo]Agora faço remeter aVMC o Oculo Astronômico /,/ 1 (função indicadora, segmentadora e organizadora) dezejando que possa repetir aobservaçaõ desse primeiro Satelite emfor= ma que o calculo daverdadeirasituaçaõ geographica do importante ponto dessa Fortaleza /,/ se aproxime /,/ ou detremine omais que for 2 (função indicadora, segmentadora) possivel /;/ eassim mesmo quaesquer outros interessantes porondeVMC 139 1 (função indicadora, segmentadora e organizadora) passar /,/ bem persuadido alias de que VMC naõ omitirá pelo seu claro 1 (função indicadora, segmentadora e organizadora) desentendimento de apontar sempre quaes quer memorias[?] /, / ou 1 (função indicadora, segmentadora e organizadora) Historias quelheparecerem dignas [parágrafo] Naforma darecomendaçaõ de VMC arespeito= agora afaço tambem para Lisboa com todo o empenho /, / pelo q' tenho /,/ 2 (função indicadora e segmentadora) naõ só desatisfazer aVMC mas anecessidade urgente q'suponho das ditas Taboadas para asobservaçoens Celestes que sedeveraõ repe tir pozitivamente [parágrafo] Nocazo de que esseIndio doPara pornome Albino daCosta em que VMC mefalla queira muito espontaniamente ficar naSuaCompanhia /; / convenho nisso deboavontade /:/ efico 2 (função indicadora, segmentadora, apresentadora, especificadora e organizadora) esperando assuasboas noticias com repetidas ocazioens delhe dar gosto /. / Dos Guarde aVMce. m. anñ. V.a Bélla 2deAbril de 1 (função indicadora de pausa maior e organizadora sintática) 1783= Luizd'AlbuquerquedeMello Pereira eCaceres= jos D.or Francisco Joze de Lacerda eAlmeida. Ant.o Felippe da Cunha Analisando as ocorrências... O registro dessa carta apresenta 2 pontos finais, 5 ocorrências de ponto-e-vírgula, 3 dois pontos e 11 vírgulas. O quadro abaixo destaca as funções desempenhadas pelos sinais: 140 Tabela 4.3 – Análise das ocorrências. FUNÇÕES/ SINAIS Ponto Vírgula Ponto-e- Dois pontos vírgula Indicadores 02 (100%) 10 (90,9%) 05 (100%) 01 (33,3%) Separadores, - 09 (81,8%) 03 (60%) 01(33,3%) Apresentadores - 03 (27,2%) 04 (80%) 03 (100%) Especificadores - - 01(20%) 01(33,3%) Organizadores 02 (100%) 06 (54,5%) 05 (100%) 03 (100%) limitadores ou segmentadores A vírgula neste registro também tem função mais indicadora (90,9%) de pausas e segmentadoras (81,8%). Pressupõe-se certa correspondência com a oralidade, contudo, o padrão das ocorrências revela um diferencial: elas exercem destacável função na organização sintática dos períodos, apresentando termos de ordem explicativa e organizando (54,5%) as relações hierárquicas entre os termos dos períodos. Os casos de ponto e vírgula servem melhor para a indicação (100%) de pausas e a natureza dos termos, segmentando (60%) estruturas maiores, também podem ser apresentadores (80%) e organizadores (100%). Nos dois últimos casos, merecem especial atenção, pois se pode levantar a hipótese de mudança das funções quanto à natureza do texto: carta. O ponto final exerce as mesmas funções descritas anteriormente: indicador de pausa maior e organizador sintático (100%). Os dois pontos variam sensivelmente de funções quanto às ocorrências do Tratado: 100% dos casos permanecem como apresentadores de termos de origem explicativa e organizadores da estrutura sintática. Por outro lado, são segmentadores, indicadores de pausas e segmentadores (33,3%). O Diário de Viagem... Fl. 45r de extençaõ passey o banco que se [?] imediatame 141 varando se a Canoa por terra pela distancia de 57 braças /: / segue dequazi a [?] Negra a do Matto 1 (função indicadora, segmentadora, apresentadora e organizadora) o Salto de Cajuru onde se siga a Canoa por hum estretissimo Canal que forma huma ilha mto conti gua a margem Meridional /,/ e Caxoeira vistoza porque o 1 (função indicadora e segmentadora, organizadora) Ryo com bastante largura se precepita pela altura de 3 braças e /2 formando varias Caxoeiras que mto bem se divisa d´huma praya que estâ abaixo della. Dipois deste salto estā o Cajuru Mirim /,/ a Caxoeira da 1 (função indicadora e segmentadora, organizadora) Ilha ultima, e a 33 deste Ryo 36 /2 de E pa S []Dia 30 passei hoje pelas dezembocadeiras dos dois Rios chamados Orelha d´e Anta /,/ e Orelha d`Onça que dezaguam 1 (função indicadora e segmentadora, organizadora) pella margem Boreal /;/ e distante hum d´outro tres legoas 1 (função indicadora e segmentadora, organizadora) e /2 e a primeira 3 legoas do ponto da partida e 6o de E pa S /./ 1 (função indicadora e organizadora) []Dezembro dia 1º Sendo decido 5 legoas passey pela confluencia do Ryo Anhanday guassu de 18 braças de largura que vem do Ocidente /, / athê este ponto tem o Ryo corri1 (função indicadora e segmentadora, organizadora, apresentadora) do pelo Rumo geral de S. E. Mas do d.o Ryo para baixo mudam o seu curso pa o Nacente 142 []Dia 2 Por Conselho dos Pilotos detreminey seguir viagem logo dipois de meya noite pa poder chegar athe as 7 horas da manhaã a boca do Ryo Pardo pa poder alcançar no Ryo grande hum lugar que serve dea brigo as Canoas pa se livrarem da furia dos Ryos nas tempestades /: / mas as chuvas que desde o Ryo 1 (função indicadora e segmentadora, apresentadora, organizadora) tem cahido sem interrupçaõ me naõ deu lugar de poder partir asemelhantes horas principalme em noite taõ escura /: / Com o dia pois seguy viagem 1 (função indicadora e segmentadora, apresentadora, organizadora) e fuy jantar pelas duas horas nadesembocadura do Ryo Pardo no Ryo grande com o andamento de dez legoas /: / Naõ admira o navegar[?] legoas em 1 (função indicadora e segmentadora, apresentadora, organizadora) Tabela 4.4 – FUNÇÕES/SINAIS. FUNÇÕES/ SINAIS Ponto Vírgula Ponto-e- Dois pontos vírgula Indicadores 01 (100%) 04 (100%) 01 (100%) 04 (100%) Separadores, - 04 (100%) 01 (100%) 04 (100%) Apresentadores - 01 (25%) - 04 (100%) Especificadores - - - - Organizadores 01 (100%) 04 (100%) 01 (100%) 04 (100%) limitadores ou segmentadores 143 No Diário de Viagem a redução do uso do ponto final é relevante, pois está relacionada ao grande número de anotações matemáticas como dimensões, profundidade, extensão, etc. Conforme o autor permanece descrevendo sua rotina e o caminho percorrido, ele recorria a um riquíssimo detalhamento geográfico (latitude e longitude). No caso do fólio selecionado temos apenas uma ocorrência mais diretamente ligada a uma abreviatura que ao término do período. Há ainda, um ponto-e-vírgula somente, quatro ocorrências de dois pontos e 4 vírgulas. As vírgulas exercem três funções: indicadoras de pausa, segmentadoras ou delimitadoras de termos e, também, organizadora (100% em todos os casos). Em apenas um caso ela apresenta termo de caráter explicativo (25%). Semelhantemente, os dois pontos repetem as mesmas funções em todas as ocorrências (100%), inclusive como apresentador. Pode-se levantar como hipótese, a partir dessa amostra, que as funções indicadoras e organizadoras se sobressaem nos manuscritos. Isso indica que há fortes indícios de marcação prosódica e correlação com a oralidade, especialmente no tratado e um dado de maior relevância é o caráter de organizadores sintáticos dos sinais em análise. De forma geral, observa-se que as ocorrências da vírgula, por exemplo, no Tratado são mais numerosas que nas cartas e no diário (~826). No Tratado, a maioria das ocorrências, nas relações entre os termos da oração, parece referir-se a termos de mesma função sintática (sujeito composto, complementos e adjuntos) e apostos, mas quase à mesma proporção ocorre o uso da vírgula em casos que as gramáticas não consideram adequados: complementos verbais, entre sujeito e predicado, termos de mesmo valor sintático, mas unidos por e, ou e nem. Há registros de casos entre as orações que marcam isolamento de subordinadas, mais especificamente as adverbiais reduzidas de gerúndio e adjetivas introduzidas por QUE, mas o que se destaca são ocorrências de coordenadas alternativas ( ou... ou, nem... nem), e menos freqüentes as aditivas e adversativas. tem resoluto; convindo; eajustado opresente Tratado Preliminar, que servirá de base, efundamento ao Difinitivo deLimites, que se hade estender aseu tempo, com aindividuaçaõ , exacçaõ, enoticias necessarias; mediante oqual se evitem, eacautelem para sempre novas disputas, esuas consequencias.(f.11v) Convieraõ os dois Al144 tos Contratantes, pelo bem reciproco de ambas as Naçoẽs, e para segurar huma Páz perpetua entre as duas, que a ditta Nave30 gaçaõ dos Rios da Prata, e Uruguay, e os Terrenos das suas duas Margens, Septentrional, e Miridional, pertençaõ privativa mente á Coroa de Espanha, e aseus subditos,(f.11v) noqual naõ possaõ edeficar-se Povoaçoẽz por nenhuma das duas partez, nem Construir-se Fortalezaz, Guardas, ouPortos de Tropas, de modo, que ostaes espaços sejaõ Neutroz, pondo-se marcos, esignaes seguroz, que façaõ constar aos vassallos decada Nasçaõ ositio deque naõ deveraõ passar, acujo fim se buscaràõ osLagoz, e Rioz, que possaõ servir deLemite fixo einalteravel, eemsua falta, os Cumes dos Montez mais signalados,ficando estes, eas suas toldas, por termo Neutral divizorio, emquesenaõ possa en trar, povoar, edificar, nemforteficar por alguma das duas Nasçoẽs.(f.12r) No diário as orações são mais independentes, obedecendo à estrutura narrativa e descritiva. Os períodos são menores e a diferença está na moderação do vocabulário e na seleção vocabular: menos expressões enfáticas e adjetivação. Os casos mais destacados de isolamento de orações subordinadas, novamente referemse às adjetivas explicativas e apositivas que, exceto pela distinção entre seu caráter sintático, no conteúdo basicamente, cumprem a função declarativa, acrescentando à oração principal mais informação quanto aos termos que as antecedem. O pronome relativo 'que' torna-se uma constante no texto. Também, pela estrutura narrativo-descritiva podemos entender como termos de mesma função sintática aparecem isolados: são nomes de lugares, enumerações de objetos, dados numéricos, entre outros casos. Os adjuntos adverbiais referindo-se a modo, lugar, intensidade, são também freqüentes. Cheguey a fôz do Ryo Taquary pelas 10 horas da Manhaâ, e nella dou principio a tirar do leito deste Ryo 10 e dos mais por onde for precizo Navegar pa chegar a Arantagabá. (f. 39r, diário de viagem) Tinha o Ryo 145 na sua mayor altura 15 pa 16 palmos, e os sinaes q. as arvores mostravam deixavam ver que o ryo subia mais 12 palmos, (f. 39r, diário de viagem) Pouco acima do referido Taquary mirim está a 1º Caxoeira de 5 nominada La Ilha Passada huma Carga, e descarregada inteirame a Canoa a meteram por hum estreito de dez braças de largo, e passado ele a vararam por hum Canal que tinha dous palmos (f.41v, diário) Na estrutura da carta, a ocorrência de vírgulas entre orações merece atenção. Como o conteúdo e a intenção mudam a estrutura também se altera. Os arranjos sintáticos agora tratam de estabelecer as relações dentro do período. Há orações coordenadas aditivas, conclusivas e adversativas, mas as subordinadas são mais recorrentes, indicando conformidade, concessão, finalidade ou causa. [parágrafo] Na ocaziaõ prezente remeto aV.Ex.ca adiferença meridional doFortedo Principe da Beira para o Occid.e de Paris emtempo, para que meucompanheiro D.r Pontes, ou os mesmos 22 officiaes Engenheiros de duzam desta diferença averdadeira Longitude, conforme aoque V.Ex.ca determinar.(carta, f. 8v) Não podemos argumentar em favor de uma conclusão definitiva, pois há necessidade de um trabalho mais profundo para uma definição. Como afirmado, tratam-se de pontos preliminares que abrem espaço para uma discussão sobre o tema. Aliás, estudos com pressupostos em critérios sintáticos e semânticos demandam a adoção de um modelo mais sistemático de análise para compreensão do funcionamento da língua. Em caráter preliminar, também outro estudo anterior já havia demonstrado que o uso mais freqüente da vírgula nos manuscritos do século XVIII, em relação aos períodos, envolve a separação de orações coordenadas aditivas e adversativas, marcadas pelas conjunções [e], [mas] e outras expressões que cumprem o papel das conjunções acidentais. Não há critério que não admita o uso de conjunção + vírgula, conforme prescrevem as gramáticas normativas contemporâneas. Também, isolam-se orações subordinadas adverbiais e adjetivas explicativas (Almeida 2004: 6). 146 O ponto final [.] marca definitivamente o término dos períodos, como ditos anteriormente, muito extensos e únicos. Ele é mais recorrente no diário porque não só a extensão dos períodos é menor, como os parágrafos, mas também servia para isolar contextos de dados numéricos e geográficos. Os dois pontos [:] marcavam ou introduziam palavras, expressões, orações ou citações que funcionam como um aposto, conclusão, explicação, conseqüência ou um esclarecimento. Há ocorrência em que tanto os dois pontos quanto o ponto e vírgula são utilizados para encerrar períodos intercalados no texto cuja função seja prestar esclarecimento ou explicação, uma espécie de apositiva. Como apresentamos eu estava empregado por sua Magestade Fidelissima nas Demarcaçoens dos Reaes Dominios em Villa Bella de Mato Grosso: apezar das minhas instancias naõ me tem (diário, f.51r) que lhetenho encarregado delevantar; estimando sumamente que orestabelecimento das molestias de VMC naõ só lhepermitisse aquella util degreçaõ; mas haja depermitir as outras q.o me anuncia, e que ja detremineis de penetrar quando for possivel; 5 nao só pelo Bauris mas pelo Mamoré: Oponto estará em que os Espanhoes o naõ embaracem, nem ainda estranhem: Pelo que hade ser necessario metersempre em úzo alguns extratagemas, ou apa rencias muito diverças, sigundo tendo advertido que imponham de alguma sorte aosditos Espanhoes. (carta, f. 6r) 21 [parágrafo] V.Ex.ca serà servido detreminarme, sehé conveni= ente quesegundavez intente estadeligencia entrando q.to for poscivel, comaescolta necescaria, para algũa invazaõ do Gentio, que possa haver: toda brevidade meparece nes cessaria afim deseachar oRio com Agoa suficiente desepoder navegar livre deCaxoeiras, q´ medizem ter muitas (carta, f. 8r) lestipulaçoés; epela prezente dou por firma, evalios para sempre: prometendo emfé, epalavras Real, observallo, e cumprillo inviolavel mente, fazelo cumprir, eobservar, (Tratado, f. 19r) 147 O ponto e vírgula [;] marca explicações longas e enumerações, especialmente quando os períodos são subdivididos por vírgulas. São enumerações descritivas e narrativas, como no caso do diário de viagem. Este procedimento era usual no estilo oratório (Kury, 1999: 72). Contudo, duas funções podem ser destacadas quanto ao uso deste sinal: isolam ou introduzem orações coordenadas sindéticas conclusivas ou adversativas e, ainda, estabelecem não só uma relação de explicação, mas de completude semântica dentro dos períodos compostos. Ou seja, neste caso específico elas assumem o papel das vírgulas nas orações subordinadas. Pelas treshoras datarde parei fronteando abarra do Rio Su 30 curüi, que vem do Occidente, cujalagura deixei demedir, por nao poder atravessar o Rio; por cauza das ondas; mas peloque me pareceu excederia á Sincoenta braças. (diário,f. 46r) Subia pelo Rio PorruPorrudos; por outro que nelle deita as suas agoas, e que com huma piquena varaçaõ passara para o Sucurüi, de que estou falando sem ter o incommodo das cachoeiras, de que tenho tratado; mas que em recompença encontrara muito Gentio Caiapó,( diário, f. 46v) Herdeiros, eSucessores, todo o direito que possa ter, ou allegar ao Dominio das Ilhas Filipinas, Marianas, Eomais que possue naquellas partes aCoroadeEsapnha; renunciando a de Portugal qual quer acçaõ, oudireito, que possa ter, 5 ou promover pelo Tratado de Tordesilhas de 7 de Junho de 1494, e pelas condiçoẽs ( Tratado, f. 18r). Muitos fenômenos e ocorrências, hoje cristalizadas na língua padrão, passavam por intenso processo de construção e reconstrução. Contudo, faltam ainda muitas etapas para preencher as lacunas que permanecem e responder questões que ficaram em aberto. 148 São observações gerais que demandariam uma pesquisa minuciosa para quantificação dos dados presentes nos manuscritos. V - CONSIDERAÇÕES FINAIS Fortes fortuna adiuvat A fortuna (sorte) ajuda aos fortes. Leite de Vasconcellos (1959) há tempos já defendia a publicação de textos, lamentando a existência de materiais publicados em países alheios a história portuguesa. Melhor que formular regras, dizia, ou citar exemplos, é aconselhar aos estudiosos que recorram aos trabalhos modelares, os compulsem, e meditem no que lá virem (1959:224). É justamente observando o desenvolvimento dos estudos filológicos no Brasil e desejando somar forças, a partir de outros "trabalhos modelares" que se tem aqui impelido semelhante pesquisa. O ideal de estabelecer, ao menos parcialmente, uma fonte historiográfica regional, a par das carências existentes, fortaleceu a descrição do percurso da Capitania durante o período das Demarcações dos Reaes Dominios. Conheceu-se um pouco de personagens importantes no contexto regional, como Joze de Lacerda, autor do diário; também, como se davam os registros das correspondências por ordem do governador da Capitania. São raras, ainda, as investidas nos campos paleográficos. Desenvolver uma análise codicológica completa demanda muito trabalho e horas de exaustão, especialmente devido à carência de profissionais da área. Contudo, algo ainda pôde ser realizado na pesquisa. Quanto aos trabalhos de edição, uma lacuna na apresentação do exemplar fac-símile talvez possa desfavorecer a pesquisa, mas espera-se estender o foco em níveis mais específicos, tão logo se faça possível, indicando que o trabalho não termina aqui. A produção de edições críticas e edição de textos antigos muito têm se desenvolvido na academia brasileira. Finalmente, podemos apresentar um breve estudo sobre as ocorrências de alguns sinais de pontuação, principais, nos textos: [.] ponto final, [,] vírgula, [;] ponto-e-vírgula e [:] dois 149 pontos. Concluiu-se, em caráter preliminar, que as normas são razoavelmente estáveis e próximas ao uso atual, com destaque para a correlação com a oralidade. São bases para a realização de uma pesquisa favorecendo o desenvolvimento da língua no contexto regional, percorrendo etapas que facilitem o trabalho de lingüistas, historiadores e quaisquer outros que se interessem pelo tema. La langue n'est pas l'unique objet de la philologie, Qui veut avant tout fixer, interpreter, commenter les textes; cette première étude à s'occuper aussi de l'histoire littéraire, des mocurs, des instituitions etc; partout elle use de sa méthode propre, Qui est la critique. Si elle aborde les questions linguistiques, c'est surtout pour comparer des textes de différentes époques, determiner la langue particulière à chaque auteur, déchiffrer et expliquer des inscriptions dans une langue archaïque et obscure. (Saussure,in Bassetto:2001,35). 150 VI - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACIOLI, V.L.C. A Escrita no Brasil Colônia: um guia para leitura de documentos manuscritos. Recife: Ed.UFPe, Fund. Joaquim Nabuco e Ed. Massngana, 1994. ALMEIDA, E.M. Morfemas Flexionais Nominais No Português Do Séc. XVIII: Estudos Preliminares. Cuiabá: MeEL/ UFMT, 2004. ________________ A estrutura do texto no Português setecentista. Cuiabá:UFMT/ MeEL, 2004. ALMEIDA, E.M; SILVA, J.F.Conjunções coordenativas no Português Do Séc. XVIII: Estudos Preliminares. Cuiabá: UFMT, 2001. AZEVEDO FILHO, L. Iniciação em Crítica Textual. Rio de Janeiro: Presença/ EdUsp, 1987. 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Tipologia dos morfemas (documento de trabalho da disciplina de tópico de Descrição Lingüística: Morfologia – Mestrado em Estudos de Linguagem, UFMT,2003). ________________ Normas para a transcrição de documentos manuscritos (documento de trabalho da disciplina de tópicos de Crítica Textual de manuscritos modernos em Língua Portuguesa – Mestrado em Estudos de Linguagem, UFMT, 2003). ________________ Estudo lingüístico de um manuscrito setecentista. In: POLIFONIA: revista de linguagem. Ano 5. n.º 4. Cuiabá: Ed. UFMT,2002. 152 SILVA, P.P.C. Governantes de Mato Grosso. Cuiabá: Arquivo Público de Mato Grosso, 1993. __________ Breve História de Mato Grosso.In: SILVA, P.P.C; FERREIRA, V. Breve História de Mato Grosso e de seus municípios. Cuiabá: [s.n.] 1994. SILVA, P.P.C; FREITAS, M. Quadros Históricos de Mato Grosso: período colonial. Cuiabá: [s.n.] 2000. SIQUEIRA, E.M. História de Mato Grosso: Da ancestralidade aos dias atuais. Cuiabá: Entrelinhas, 2002. SPINA,S. Introdução à edótica. 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Rio de Janeiro: Livros de Portugal,1959. 153 ANEXOS 154 Fig. 1 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 155 Fig. 2 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 156 Fig. 3 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 157 Fig. 4 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 158 Fig. 5 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 159 Fig. 6 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 160 Fig. 7 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 161 Fig. 8 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 162 Fig. 9 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 163 Fig. 10 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 164 Fig. 11 – Índice do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – Vol. III 165 Fig. 12 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 166 Fig. 13 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 167 Fig. 14 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 168 Fig. 15 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 169 Fig. 16 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 170 Fig. 17 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 171 Fig. 18 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso 172 Fig. 19 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso. 173 SUMÁRIO ABSTRACT RESUMO AGRADECIMENTOS SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS LISTA DE TABELAS I – INTRODUÇÃO.......................................................................................1 1.1 Princípios científicos do trabalho filológico...........................................2 II – HISTÓRIA DOS TEXTOS....................................................................7 2.1 Os códices...............................................................................................7 2.1.1 Os tratados de limites: trabalhos demarcatórios em Mato Grosso......................11 2.1.2 O Tratado de Santo Ildefonso: a comissão dos cientistas...................................13 2.2 Análise codicológica...........................................................................15 2.2.1 Os volumes e suas características materiais........................................................17 2.3 As abreviaturas.....................................................................................32 2.3.1 Lista das abreviaturas..........................................................................................32 2.4 Componentes formulares dos textos...................................................34 III – A EDIÇÃO DOS MANUSCRITOS...................................................39 3.1 Edição Diplomática...............................................................................41 IV – ANÁLISE DA PONTUAÇÃO.........................................................128 4.1 O conceito de pontuação....................................................................128 4.2 Itinerário Histórico.............................................................................129 4.3 A frase e o período..............................................................................132 4.4 Descrição da Norma que caracteriza os manuscritos..........................135 V – CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................149 VI – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..............................................151 ANEXOS...................................................................................................154 LISTA DE FIGURAS Fig. 1 - Índice no início do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. III................................................................................................................................. Fig. 2 - Fragmento da edição de Soares (In: Siqueira 2002:57)................................ 3 4 Fig. 3 - Capitão-general Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres. Autor não identificado (década de 70 - século XVIII). Acervo da Casa da Ínsua, Portugal ( Siqueira 02:56).................................................................................................................. 9 Fig. 4 – Observações de Pontes e Lacerda. Moacyr Freitas (2000). Acervo da Fundação Cultural de Mato grosso (In: Siqueira 2002:50)......................................... 12 Fig. 5 - Início do Diário de Viagem de Francisco José de Lacerda e Almeida........................................................................................................................ 57 Fig. 6 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I............... 17 Fig. 7 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I............... 18 Fig. 8 - Capa do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I................ 19 Fig. 9 - Início do Tratado, Fólio de abertura do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I................................................................................................ 20 Fig. 10 - Cópia do Tratado de Santo Ildefonso, Fólio 18r (ilustração da numeração do fólio na margem superior direita), Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I.......................................................................................................... 21 Fig. 11 - Termo inicial, Fólio do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. I.......................................................................................................................... 22 Fig. 12 - Tinta nítida no Fólio do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso, Tratado de Santo Ildefonso - Artigos II e III – vol. I................................................... 26 Fig. 13 - Mudança de punho e tinta clareada no fólio do Diário de Viagem do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – vol. III........................................ 27 Fig. 14 - cursiva presente no Tratado de Santo Ildefonso - V. I 28 Fig. 15 - cursivas presentes (fragmentos I e II respectivamente) no diário de viagem1 - V. III............................................................................................................ Fig. 16 - Início do Tratado de Santo Ildefonso (fólio 11r- Vol. I).............................. 29 42 Fig. 17- Início do Artigo I, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 11v- Vol. I)............... 45 Fig. 18 - Início dos Artigos II e III, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 12r- Vol. I). 12v............................................................................................................................... 47 Figura 19 - Início do Artigo IV, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 12v- Vol. I)........ 49 Fig. 20 – Artigo V do Tratado de Santo Ildefonso (fólio 13r- Vol. I)......................... 51 Fig. 21 - Início do Artigo VIII, Tratado de Santo Ildefonso (fólio 14r- Vol. I)......... 54 Fig. 22 – Artigos X, XI e XII do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 14v e 15r- Vol. I).................................................................................................................................. 57 Fig. 23 – Artigos XIII a XIX do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 15v a 17r- Vol. I).................................................................................................................................. 60 Fig. 24 – Artigos XX a XXII do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 17v e 18r Vol. I).......................................................................................................................... 65 Fig. 25 – Artigos XXIII a XXV do Tratado de Santo Ildefonso (fólios 18v e 19r Vol. I).......................................................................................................................... 67 Fig. 26 – “Prospecto das canoas em que navegaram os empregados na Expedição Filosófica pelos rios Cuyabá, São Lourenço, Paraguay e Jauru...”. Autor não identificado (1789-1792). Expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. Acervo do Museu Bocage, Portugal. (Lima 2005:48).................................................................. 68 Fig. 28 – Diário de Viagem (fólio 41r - Vol. III)........................................................ 88 Fig. 29 – Diário de Viagem (fólio 50v - Vol. III)....................................................... 124 Figura 30 – cópia da carta no final do Diário de Viagem (fólio 51r - Vol. III).......... 127 ANEXOS Fig. 1 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 155 Fig. 2 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 156 Fig. 3 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 157 Fig. 4 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 158 Fig. 5 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 159 Fig. 6 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 160 Fig. 7 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 161 Fig. 8 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 162 Fig. 9 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso.......................................................... 163 Fig. 10 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 164 Fig. 11 – Índice do Livro de Registro do Tratado de Santo Ildefonso – Vol. III........ 165 Fig. 12 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 166 Fig. 13 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 167 Fig. 14 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 168 Fig. 15 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 169 Fig. 16 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 170 Fig. 17 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 171 Fig. 18 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 172 Fig. 19 – Artigos do Tratado de Santo Ildefonso........................................................ 173 LISTA DE TABELAS Tabela 2.1 – Lista de abreviaturas.............................................................................. 32 Tabela 4.1 – O papel da pontuação............................................................................. 131 Tabela 4.2 – FUNÇÕES/SINAIS............................................................................... 138 Tabela 4.3 – Análise das ocorrências......................................................................... 141 Tabela 4.4 – FUNÇÕES/SINAIS............................................................................... 143