Medicina e Espiritualidade – O Paradigma Médico-Espírita
Dra. Rosane Terezinha Gonçalves
Neuropediatra - CRM- SC 5806
Presidente da Associação Médico Espírita de Santa Catarina – AME/SC
Em maio deste ano, como tradicionalmente ocorre a cada dois anos
durante o feriado de Corpus Christi, aconteceu o IX Congresso Nacional
Médico-Espírita – Mednesp 2013, onde médicos de todo o país estiveram
reunidos para discutir saúde do corpo, da mente e do espírito. Este ano, a
cidade escolhida foi Maceió, em Alagoas. O evento, até 2007, era realizado
somente em São Paulo, mas em 2009 aconteceu na região sul, em Porto
Alegre e no ano 2011 foi a vez de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Neste ano, participaram cerca de 1500 pessoas, médicos e outros
profissionais de áreas da saúde. Com o tema “Os desafios do paradigma
Médico-Espírita no ensino, na pesquisa e na prática clínica”, no Congresso
MEDNESP 2013 realizaram-se 96 palestras, distribuídas em três auditórios,
com diversos assuntos.
A Associação Médico-Espírita do Brasil, AME-Brasil, foi fundada em
1995 em São Paulo, durante a realização do 3º Congresso Nacional de
Médicos Espíritas, MEDNESP 1995, realizado pela Associação Médico-Espírita
de São Paulo (AME-SP), instituição pioneira, existente desde 1968. Até 1991,
quando se iniciaram os encontros nacionais bienais, existiam somente a AMESP e a AME- MG. A partir de então, fundaram-se outras, em vários Estados do
Brasil,
possibilitando
o
surgimento
da
entidade
federal,
AME-Brasil.
Atualmente, são 54 AMEs no País, entre estaduais e regionais. Em Santa
Catarina, temos a AME-Santa Catarina, a AME-Chapecó e a AME-Blumenau.
As AMEs tem por finalidade divulgar o paradigma Médico-Espírita, colaborar
com instituições educacionais, assistenciais, estudar a Doutrina Espírita e sua
fenomenologia, suas relações, integração e aplicação nos campos da filosofia,
da religião e da ciência, em particular da Medicina, procurando fundamentá-la
por meio da criação e realização de estudos e experiências científicas.
A Associação Médico Espírita de Santa Catarina (AME-SC) recebeu
convite de Dra. Marlene Nobre, presidente da AME-Brasil, para expor uma
palestra sobre o trabalho do médico no Centro de Apoio ao Paciente com
Câncer – CAPC. Fomos representando a AME-SC, que mantém parceria com
o CAPC, através do seu departamento de solidariedade, e realizamos a
palestra intitulada “O trabalho do Médico Espírita e a Medicina Complementar
no Centro de Apoio ao Paciente com Câncer-CAPC”. O CAPC é um centro de
tratamento em saúde complementar, desenvolvendo trabalho numa visão de
Medicina Integrativa. Trabalha no paciente as suas crenças, sua dimensão
energética e seu conteúdo espiritual, associados ao tratamento médico
convencional. Esta visão integrativa da saúde e da medicina está sendo
resgatada nas últimas décadas e, para compreender o momento em que
vivemos, devemos lembrar a história das civilizações e de como as sociedades
integravam a espiritualidade em práticas de saúde.
Desde os primórdios das sociedades, as práticas em espiritualidade
foram utilizadas para entender o significado do viver e do morrer, utilizando
conhecimentos religiosos para tratar doenças e manter a saúde, além de
também buscar soluções para o enfretamento de problemas. Nas primeiras
civilizações, estudos arqueológicos demonstram em locais como Índia, China e
Egito que os sacerdotes, considerados os primeiros terapeutas, incluíam uma
série de rituais espirituais na obtenção da cura de muitas moléstias. O xamã, o
pajé eram a figura única que unia o curador e o religioso. Quem cuidava da
saúde cuidava também do espírito. Quando a medicina hipocrática se inicia, na
Grécia antiga, as práticas e conhecimentos espirituais permeavam os
tratamentos dos pacientes, observados pelos grandes estudiosos da época.
Neste período, existe uma busca de entendimento de como fatores ambientais,
crenças, hábitos ou ervas influenciavam a saúde e o adoecer.
Na idade média, o estudo da medicina era organizado por instituições
religiosas, instituições muitas vezes fomentadoras e financiadoras das artes, da
filosofia e da ciência. As escolas tinham este vínculo, muitos monges eram
médicos e as instituições religiosas eram responsáveis pela liberação dos
diplomas médicos. Na atualidade, existem diversas instituições religiosas, pelo
Brasil e pelo mundo, que continuam dirigindo vários hospitais, casas de saúde,
orfanatos e asilos, realizando trabalho de assistência à saúde.
Durante o período da história conhecido como renascimento, a
associação entre saúde e espiritualidade começa a ser questionada e mesmo
separada, especialmente com a visão exclusiva da medicina com ciências
como a biologia, a física e a química orgânica. A descoberta de doenças
associadas com agentes causais biológicos, como vírus, bactérias,
protozoários induz ao conceito de que todas as doenças teriam um agente
externo, provocador. Posteriormente, a medicina observa que as doenças,
mesmo as que têm um agente biológico, dependem do estado do hospedeiro,
de seu sistema imunológico, de sua capacidade de defesa e adaptação ao
meio externo. Com o tempo, o paradigma científico atual foi se enraizando e a
“crença” de tudo que se refere à religiosidade/espiritualidade seria pressuposto
de fé, não científico.
Entretanto, este paradigma, que parecia tão sólido, foi abalado por
epidemiologistas norte-americanos durante a década de 1960. George
Comstock e Kay Partridge observaram a relação entre frequência religiosa em
cultos e melhores indicadores de saúde e publicaram no Journal of Chronic
Diseases. Desde então, diversos pesquisadores e cientistas começam a
cruzar dados relacionados a práticas de religiosidade com indicadores de
saúde e, para surpresa geral da comunidade científica e médica, os
pesquisadores perceberam que existe uma real associação entre saúde e
espiritualidade, com melhores indicadores de saúde mental e física, maior
longevidade e melhor qualidade de vida entre pessoas portadoras de
espiritualidade e práticas religiosas. Além destas descobertas, muitos estudos
demonstram, claramente, que crenças religiosas modificam o modo de como
uma pessoa encara o seu tratamento, desde a concordância com dieta, a
aderência e a cooperação com o tratamento médico, a aceitação do uso de
quimioterapia ou radioterapia, transfusão de sangue, vacinação e antibióticos.
Milhares de estudos e artigos científicos são publicados por ano
pesquisando a relação entre a espiritualidade e saúde, demonstrando o
trabalho de investigação que está sendo realizado mundo afora, em ambientes
de tratamento de saúde, em universidades, nos meios acadêmicos. Os Estados
Unidos estão à frente não só nas pesquisas, mas também implantando em
mais de 70 % dos cursos de medicina currículos com conteúdos relacionados à
medicina e espiritualidade, com disciplinas obrigatórias ou optativas versando
sobre esta temática. Naquele país, o futuro médico estuda o impacto da
espiritualidade e religiosidade nas práticas de saúde, como melhor abordar o
tema espiritualidade com o paciente, buscando colher um histórico espiritual do
paciente, com questionários padronizados. No Reino Unido, 59% das escolas
médicas oferecem algum tipo de curso relacionado à espiritualidade.
No Brasil, um estudo publicado por Lucchetti e Granero aponta quão
paradoxal está nosso país. Somos um dos países mais religiosos do mundo,
porém, pouquíssimas escolas médicas oferecem cursos abordando a relação
espiritualidade-medicina. Somente são ofertadas disciplinas optativas, como na
Universidade do Ceará, Universidades Federais em São Paulo, Rio Grande do
Norte e Minas Gerais. Existem alguns grupos de pesquisa em espiritualidade e
saúde, como o PROSer (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade)
do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, o NUSE (Núcleo
Universitário de Saúde e Espiritualidade) da Universidade Federal de São
Paulo e o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da
Universidade Federal de Juiz de Fora responsáveis por grande parte das
publicações relacionadas à medicina e espiritualidade no Brasil
Como se vê, ainda há muito a trilhar e, como disse Dra Marlene Nobre
para os médicos presentes ao MEFNESP 2013, “o terreno é muito árido, está
quase tudo por fazer...”. Mas existem progressos importantes, e estamos muito
felizes de poder participar deste movimento e deste momento na medicina.
Solicitamos que o Divino Mestre ilumine os profissionais da saúde,
fortalecendo e guiando no caminho a ser realizado!
Gostaríamos de deixar o endereço de alguns sites, com pesquisa neste
tema de saúde e espiritualidade, para os leitores do Informativo Nosso Lar
possam conhecer este assunto, compartilhar e divulgar.
- Biblioteca virtual em Saúde e Espiritualidade:
http://www.hoje.org.br/site/bves.php
- Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF): http://www.ufjf.br/nupes
- Uniespírito – da Fundação Espírita André Luiz: http://www.uniespirito.com.br
- World Psyquiatric Association - Section on Religion Spirituality and
Psyquiatry:
http://www.religionandpsychiatry.com
-Society for the Psychology of Religion and Spirituality:
http://www.apa.org/about/division/div36.aspx
Publicado no Informativo Nosso lar de julho de 2013
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Medicina e Espiritualidade – O Paradigma Médico - AME