Márcia Helena Batista
A Restauração Católica no cotidiano da cidade:
Círculo Operário, Imprensa e Obras Sociais em
Divinópolis entre os anos 30 e 50
Belo Horizonte
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Mestrado em Ciências Sociais – Gestão das Cidades
2002
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG
Mestrado em Ciências Sociais – Gestão das Cidades
Márcia Helena Batista
A Restauração Católica no cotidiano da cidade:
Círculo Operário, Imprensa e Obras Sociais em
Divinópolis entre os anos 30 e 50
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado em Ciências Sociais – Gestão
das Cidades da Pontifícia Universidade
Católica de Minas como requisito parcial
à obtenção do título de Mestre em
Ciências Sociais.
Área de Concentração: Cultura urbana e
modos de vida
Orientadora: Lucília de Almeida Neves
Belo Horizonte
2002
Dedico esse trabalho aos franciscanos ainda presentes e
atuantes em Divinópolis, que disponibilizaram seu acervo
para que a pesquisa fosse feita, em especial à Frei
Leonardo Lucas Pereira, por acompanhar todo o
processo e sem o qual seria impossível realizá-la.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos aqueles que possibilitaram a realização desse trabalho. É
com imenso carinho e reconhecimento que me refiro às pessoas que viveram no
período estudado e que, com seus depoimentos, ajudaram a reconstituir um pouco
do cotidiano da cidade, reforçando a idéia de que a memória ajuda a eternizar
experiências vividas e sustenta a escrita da história.
Aos senhores José Carlos Pereira, Evaristo Garcia, Galba L. Oliveira,
Manoel Valério, José Valério, Salviano Avelar, Elizeu Ferreira, Orozimbo
Vasconcelos, Simão Salomé pelas entrevistas enriquecedoras que concedera.
Ao Sr. Milton Pena e à Dª. Benigna Moreira de Souza que além das
entrevistas, colocaram à minha disposição seus documentos particulares.
Ao franciscano mais idoso, Frei Helano, que viveu de perto toda essa
história e cujo livro foi de grande valia na compreensão de todo o processo da
chegada e instalação dos franciscanos no Brasil e em Divinópolis.
Aos religiosos Frei Carlos Josapha, Frei Bernardino Leers e Dom Aloísio
Lorscheider que contribuíram com sua vivência e com seus conhecimentos, não só
como membros da Igreja mas também como estudiosos da mesma.
À Lucília Neves, por ter sido competente e atenciosa no exercício de seu
trabalho de orientação.
E agradeço, de coração, o apoio recebido de meus familiares, em especial
de minha filha que me ajudou diretamente na pesquisa e de meu pai que
acompanhou
curioso
o
desenrolar
da
pesquisa,
estimulado
pelas
recordações,acreditando que poderia resultar de todo o esforço despendido, um
trabalho de qualidade.
“Nós, os livres de Divinópolis, estamos garantidos
pela Constituição do nosso País, e mais ainda, pela
Carta das Nações Unidas, assinada pelo Brasil.”
(Pedro Xavier Gontijo)
“Os olhos que não vêem com a Igreja Católica –
única, verdadeira e por isso mesmo depositária das
promessas da assistência divina, não atingem o
âmago das questões.” (Benigna Moreira de Souza)
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS ....................................................................................................................... 5
ABREVIATURAS ........................................................................................................................... 6
RESUMO ...................................................................................................................................... 7
SUMMARY ................................................................................................................................... 8
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 13
CAPÍTULO I................................................................................................................................ 18
Cidade do Divino: espaço da diversidade ................................................................................ 18
1.1 A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos .......................................... 18
1.2 A Ordem de São Francisco: inspiração da Ação Católica.................................................. 43
1.3 A Província de Santa Cruz e a presença dos frades em Divinópolis.................................. 50
CAPÍTULO II .............................................................................................................................. 74
O Movimento Operário Cristão no cotidiano da cidade de Divinópolis .................................. 74
2.1 Estado e Igreja no controle corporativo do trabalho.......................................................... 74
2.2 Os operários na cidade: o caso de Divinópolis no centro oeste mineiro ............................ 81
2.3 Pensamento e prática do Círculo Operário: aspectos de seu cotidiano .............................. 83
2.4 A moral católica e a luta revolucionária: os operários entre dois discursos.................... 102
CAPÍTULO III ........................................................................................................................... 121
A mulher na paróquia: as obras e a família ............................................................................ 121
3.1 A presença do leigo na Igreja e o trabalho pastoral da mulher......................................... 121
3.2 A Ordem Terceira e as associações católicas na vida da paroquia.................................. 127
3.3 A Liga Feminina Católica pela renovação cristã da família............................................ 137
3.4 Apontar o bem e pô-lo em prática: a obra social das mulheres na paróquia ................... 165
CAPÍTULO IV ........................................................................................................................... 176
O jornal vai ao encontro de todos moldando pensamentos e opiniões................................... 176
4.1 O lugar central da Imprensa no processo de Restauração Católica................................. 176
4.2 A efervescência cultural da cidade: jornais e boletins..................................................... 183
4.3 A força da Imprensa Católica em Divinópolis ................................................................ 193
4.4 Os jornais à serviço do combate ao Espiritismo............................................................... 197
4.5 A difícil convivência com os Protestantes........................................................................ 200
4.6 O debate com Maçonaria pelos jornais e boletins ............................................................ 204
4.7 Uma imprensa essencialmente anticomunista .................................................................. 205
4.8 A divulgação da Liga Eleitoral Católica .......................................................................... 216
4.9 A imprensa e o movimento de ação católica .................................................................... 225
4.10 As notícias do mundo e do Brasil.................................................................................. 229
CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................... 236
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................... 248
Arquivos ................................................................................................................................. 253
Arquivos Particulares ............................................................................................................. 253
Museu Histórico Municipal .................................................................................................... 254
Cartório de Registro de Títulos e Documentos ...................................................................... 254
Jornais e Boletins.................................................................................................................... 254
Revistas................................................................................................................................... 255
Entrevistas .............................................................................................................................. 256
LISTA DE FIGURAS
1. São Francisco de Assis – Mural do pintor Humberto Randag (Santuário de Santo
Antônio 1949).
2. Santuário de Santo Antônio s/d.
3. Igreja do Racionalismo Cristão s/d.
4. Primeira Igreja Batista de Divinópolis 1919.
5. Organização da Igreja Batista de Divinópolis 27.07.1919.
6. Comemoração dos 25 anos do Comissariado
7. Congresso da Ordem Terceira Franciscana s/d.
8. Antigo prédio do Seminário Seráfico s/d.
9. Novo prédio do Seminário Seráfico s/d.
10. Reunião de professores dos seminários e clericatos da Província Franciscana de Santa
Cruz s/d.
11. Sala de aula do Seminário Seráfico s/d.
12. API – Grupo de Mães e crianças beneficiadas pela entidade s/d.
13. API - Salão de espera para mães e gestantes s/d.
14. API – Distribuição de mingaus à população carente s/d.
15. API – Sopa de Santo Antônio s/d.
16. API – Salão de Costura Frei Hilário – festa de distribuição de diplomas s/d.
17. API – Salão de Costura – primeira turma de alunas s/d.
18. API – Atendimento feito pelo dentista Dr. José Alves s/d.
19. Membros do Grupo Teatral Mariano s/d.
20. Residências dos Ferroviários da R.M.V. – Vila Operária s/d. Folheto constando o
programa das comemorações de 1º de Maio s/d.
ABREVIATURAS
API
– Associação de Proteção à Infância de Divinópolis
ACAR
– Agência de Crédito e Assistência Rural
CNBB
– Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CCGG
– Constituições Gerais
CODAR – Conselho de Desenvolvimento e Assistência Rural
MRP
– Mui Reverendo Padre
OFM
– Ordem dos Frades Menores
RMV
– Rede Mineira de Viação
SS
– Província dos Santos Mártires
RESUMO
O estudo está voltado para os detalhes da reorientação da Igreja a partir dos anos 20
numa fase particularmente rica de consolidação da República no Brasil. A Igreja, nesse
momento, lançou as bases de um projeto de “restauração católica”, buscando conquistar um
maior espaço político e, ao mesmo tempo, passando a defender os princípios de sua doutrina
social. Essa movimentação foi possível através da Ação Católica, que garantiu o
envolvimento dos leigos no apostolado controlado pela hierarquia.
O recorte temporal compreende o período entre os anos 30 e 50 e toma como
referência a presença institucional da Igreja em Divinópolis, cidade do centro oeste mineiro,
destacando a presença dos frades franciscanos que receberam de Dom Antônio dos Santos
Cabral o controle da Paróquia do Divino Espírito Santo em 1924, passando, a partir de então,
a exercer grande influência na vida social, política e cultural da cidade.
A pesquisa buscou ressaltar, através de estudo documental e de fontes orais, os
investimentos na imprensa católica, a criação e o funcionamento do Círculo Operário, a ação
social das mulheres da Ação Católica, demonstrando que havia um confronto de idéias em
função de grupos liberais, maçons, livres pensadores e de outras doutrinas religiosas que
discordavam da ideologia e de alguns procedimentos assumidos pela Igreja no local.
A experiência de Divinópolis permite uma compreensão do que representou esse
movimento da Igreja enquanto uma orientação estabelecida a partir de Roma, como foi sua
aplicação em Minas Gerais, estado conhecido por sua forte tradição católica. O enfoque local
do estudo garantiu uma melhor percepção da dinâmica das relações sociais, através dos
discursos, dos debates, do trabalho pastoral, da penetração dessas idéias no imaginário
coletivo e dos traços de comportamento experimentados na vida da cidade.
Foi possível entender a relação da Igreja Católica com o Estado no Brasil a partir dos
anos 30, por meio da aplicação de um modelo de sociedade calcado na ordem, a partir das
concepções de corporativismo idealizadas e colocadas em prática, principalmente na relação
entre patrões e empregados; e como essa aliança foi fortalecida no combate aos inimigos do
Estado e da Igreja, representados pelo crescimento das idéias comunistas entre os operários e
pela ampliação do espiritismo e do protestantismo ameaçando a hegemonia Católica.
SUMMARY
The study is turned to the details of a redirection of Catholicism starting from the 20’s
in a phase particularly rich of consolidation of the Republic in Brazil. The Catholic Church, in
this moment, threw the basis of a project of “catholic restoration”, trying to achieve more
political space and, at the same time, started to defend the principles of its social doctrine.
This movement was possible because of the Catholic Action, which guaranteed the secular’s
evolvement in the apostleship controlled by the hierarchy.
The temporal determination cover the period between the 30’s and the 50’s and get as
reference the institutional presence of the Catholic Church in Divinópolis, a middle-west city
located in Minas Gerais, emphasizing the Franciscans Gray friars’ presence, who received
from Dom Antônio dos Santos Cabral the control of the Divine Holly Spirit Parish in 1924
and started, from then on, to exercise large influence on social, cultural life of the city.
The research tried to stand out, through documental study and oral sources, the
investments on catholic press, the creation and functioning of the Working Circle, the social
action of women from the Catholic Action, showing that was a conflict of ideas because of
groups of liberals, masons, free thinkers and others religion doctrines that disagree with the
ideology and some procedures used by the Catholic Church on the local.
Divinópolis’ experience allows a great understanding of what this Catholic Church
movement represented as a orientation established by Rome, such as happened in Minas
Gerais, state known because of its strong catholic tradition. The local approach of the study
guaranteed a better perception of the dynamic of the social relations, through the speeches,
debates, pastoral working, the penetration of these ideas on collective imaginary and the
dashes of behavior experimented in city’s life.
It was possible to understand the relation between the Catholic Church and the State in
Brazil, starting from the 30’s, in the application of a model of society based on order, using
the conceptions of corporatism idealized and applied, specially in the relation between
employees and employers; And how this alliance was strengthened on the combat of the
enemies of the State and the Catholic Church, represented by the growth of communists ideas
between the working class and by the enlargement of the Espiritualism and Protestantism,
threatening the catholic hegemony.
13
INTRODUÇÃO
A proposta desse trabalho é analisar as ações da Igreja Católica, que a partir da década
de 20, investiu num grande “projeto de restauração”1 apoiado no Movimento de Ação
Católica, voltado para um conjunto de estratégias capazes de organizar leigos militantes como
participantes do apostolado hierárquico. Posicionou-se obstinadamente pela conquista de
espaço frente ao Estado, ao movimento operário, ao ensino formal, enfrentando seus inimigos
encarnados no liberalismo, positivismo, comunismo, protestantismo e espiritismo. Segundo
Riolando Azzi -“sucede, a partir da segunda década do século XX, um espírito de otimismo,
de coragem e de cruzada: a meta da Igreja é restabelecer seu domínio na sociedade”.2
A origem do novo posicionamento da Igreja frente ao Estado e à sociedade deve ser
buscada no final do século XIX, momento de desmoronamento da instituição imperial, que se
fez embalado pelos ideais liberais, democráticos e positivistas que representavam a
modernidade cientificista e progressista daquele momento.
No pontificado de Pio XI nas décadas de 20 e 30, a idéia baseada em São Paulo sobre
a Igreja como corpo único, no qual Cristo, sendo a cabeça opera a divinização dos membros,
foi reforçada. A eclesiologia do Corpo Místico se expressou muito concretamente numa
renovação litúrgica e numa nova pastoral. Os leigos foram chamados a participar da missão da
Igreja no mundo, definindo-se os primeiros traços da Ação Católica (Matos, 1990:152).
No Brasil, foi definido um Plano Nacional de Ação Católica, seguindo diretrizes da
Santa Sé por uma reforma social cristã e pela recuperação econômica, social, política e
espiritual do país. A Igreja procurou dar muita atenção à recuperação da família e do
equilíbrio entre o bem estar material e espiritual. Preocupava-se em fazer com que cada
católico fosse disciplinado e atuasse na vida privada e pública com a mesma consciência
iluminada da fé (Dale, 1985:74).
1
Azzi explica que nos anos 30 veio a “Restauração” com a preocupação da hierarquia eclesiástica em criar
condições de reafirmação da Igreja na sociedade. A nova proposta foi lançada no pontificado de Pio XI. Estava
embasada no lema de restaurar tudo em Cristo, restaurar no mundo o domínio espiritual da fé católica. O autor
faz considerações sobre o significado de restauração como simbolizando o resgate de um modelo antigo que
coloca a fé de volta enquanto elemento constitutivo da sociedade (Azzi, 1980: 21-22).
2
Azzi, 1994. p. 24.
14
Investiu-se numa obra educativa para a formação de uma consciência cívica que
criasse uma falange de cristãos exemplares, destacando-se o modelo de uma conduta
adequada no âmbito do privado e do público, a partir da aplicação de princípios católicos em
toda a vida social. Essa obra se concretizou através várias frentes como a penetração da
imprensa, a atuação das Ligas Católicas, a organização do movimento operário cristão através
da Juventude Operária Católica e dos Círculos Operários fundamentados nos preceitos
estabelecidos pela Rerum Novarum, o cuidado com a educação e uma maior atuação política
através de representações e de legislação pertinente. Todas essas ações estavam
comprometidas com o projeto católico de sociedade.
A tradição religiosa no interior de Minas Gerais criou o cenário adequado para o
florescimento dessas ações da Igreja, através de Dom Antônio dos Santos Cabral na
Arquidiocese de Belo Horizonte, administrando a aplicação desse novo modelo de Igreja na
capital e ampliando suas definições para as paróquias no interior do estado. Dom Cabral
participava de uma estrutura da qual fazia parte o episcopado brasileiro personificado em
figuras como Dom João Becker no Rio Grande do Sul e liderados por Dom Sebastião Leme,
cardeal do Rio de Janeiro, que da capital apontava os rumos da restauração católica. Apoiado
numa aliança bem articulada com o Estado e com as classes dominantes, vistas como
instrumentos de realização das “aspirações católicas”, a situação foi chamada por alguns
autores de “neocristandade” (Isaía, 1998:47).
A experiência da cidade de Divinópolis, situada no centro oeste mineiro, retrata bem
os detalhes do movimento empreendido pela Igreja entre os anos 30 e 40, suas transformações
nos anos 50 e suas peculiaridades, contribuindo para o aprofundamento de uma reflexão
sociológica e histórica sobre o tema no contexto do cenário mineiro.
O foco está centrado nos investimentos da hierarquia católica na construção e
revigoramento de símbolos e no estabelecimento de um discurso direcionado para o controle
do imaginário coletivo, objetivando restaurar a idéia da identidade católica do povo brasileiro.
Nessa perspectiva, os questionamentos desse trabalho voltam-se para a forma como a nova
inserção da Igreja teria influenciado na configuração de um tipo de vivência cívica e moral em
meio à comunidade católica, em contraposição a outras concepções de civismo laicas e até
anticlericais.
Num aspecto estrutural, é interessante compreender como a Igreja, ao investir no
processo de “restauração”, teria se transformado e adotado um estilo europeizado, o que
15
segundo Luiz Alberto Gomes de Souza, afetou seu funcionamento no campo das duas
religiosidades: a que se refere a Igreja institucional e clerical ligada a setores dominantes e a
da relação direta com a sociedade, das expressões de religiosidade do povo simples, ambas
acontecendo articuladas e em confronto (Souza, 1984:26-28).
A tradição católica foi parte importante na formação de Divinópolis, que teve como
traço distintivo, a presença da religião na sua origem e constituição. A Igreja foi atuante na
localidade enquanto esta ainda era um simples Curato, posição que se ampliou após a
emancipação do município oficializada em 1911. A cidade esteve sujeita a orientações
sistemáticas da arquidiocese de Belo Horizonte que entregou a paróquia à ordem dos frades
franciscanos em 1924.
A diversidade e as influências do mundo moderno apresentavam-se como parte da
realidade sócio-cultural e política da cidade em sua evolução. Tal fato foi evidenciado pela
presença de outros credos como os protestantes e espíritas, além de grupos que defendiam
posições ideológico-políticas contrárias ao ideário católico, representados pelos livres
pensadores, maçons e comunistas.
Os jornais e revistas católicos produzidos no âmbito local estavam afinados com o
discurso do episcopado e cumpriam o papel de alertar a população sobre os perigos do mundo
moderno, definindo os princípios de uma conduta cristã, moral e de um tipo de civismo
comprometido com a idéia de manutenção da ordem social. Nesse aspecto, a cidade de
Divinópolis representou um espaço particularmente rico pois, através dos franciscanos, a
Igreja atuou com firmeza, produzindo material de circulação permanente e renovado com um
discurso de combate aos grupos laicizantes, exercendo influência também sobre as cidades
vizinhas.
O que torna a história do lugar matéria-prima para a análise desse fenômeno religioso
é justamente o fato de ter sido palco da resistência ao discurso católico. A capacidade de
enfrentamento dos grupos adversários representados pelos liberais, maçons, livres pensadores,
espíritas, protestantes e comunistas, que contra-argumentavam, forçava um embate políticoreligioso eclético, dividindo opiniões e transformando o local em centro das atenções das
autoridades laicas e eclesiásticas.
O recorte temporal considera as bases lançadas na década de 20, rica em
acontecimentos no mundo e no Brasil em particular, que também foi fundamental na
definição identitária da cidade. Mas a pesquisa toma como referência analítica a oficialização
16
do Movimento de Ação Católica no Brasil em 1935. A conjuntura sócio-política, cultural e
econômica, subjacente ao período referente ao governo de Getúlio Vargas e sua relação direta
com a Igreja nos anos 30 e 40, sustentam o estudo da experiência de Divinópolis. As
mudanças de rota no apostolado católico e na organização da Igreja no Brasil, bem como o
processo de abertura política ocorridos na década de 50, são considerados, mesmo que sem
aprofundamento, para uma melhor compreensão do esgotamento do modelo analisado.
A pesquisa esteve fundamentada em abundante fonte documental e pelo método da
História Oral. A diversidade e a qualidade dos documentos escritos materializados em jornais,
boletins, atas, discursos, cartas teriam levado a uma interpretação unilateral sem o
enriquecimento dos depoimentos de personagens que participaram da rede de relações
estabelecidas naquele cotidiano de uma cidade do interior mineiro. O estilo narrativo do texto
possibilitou a valorização da rede de relações estabelecidas entre os diversos personagens e,
ao mesmo tempo, garantiu as condições para a interpretação e análise.
De acordo com Chartier, “a história é sempre relato”, mas mesmo quando foge desse
modelo, o seu modo de compreensão permanece tributário dos procedimentos que assegurem
a encenação na forma de intriga das ações representadas. Segundo Chartier, “este modo de
compreensão histórica não exclui a inteligibilidade, porque seria construído no próprio
relato, pelos seus ordenamentos e pelas suas composições”.3
Guardadas as peculiaridades do lugar, de seu povo, de suas lideranças, e, consideradas
as proporções dos acontecimentos em suas dimensões mais amplas, Divinópolis expressa um
recorte desse fenômeno político-religioso ao acatar as orientações da Igreja Universal, ao
expressar posições no âmbito político-partidário, ao manifestar parte de uma história
encenada por clérigos, operários, professoras, donas de casa, profissionais liberais e outros.
O estudo contempla a experiência do movimento operário cristão através da atuação
corporativista do Círculo Operário, a ação dos leigos com destaque para a presença da mulher
em associações e como membro da Ação Católica e a importância da imprensa como veículo
propagador do modelo católico de sociedade, debatendo com outras visões de mundo.Toda a
movimentação da Igreja, representada localmente pelos franciscanos, expõe sua concepção de
Chartier, Roger. (1990) A história cultural. Lisboa, Difel, p. 82. In: Narrativa e história. Irene Cardoso. Tempo
Social – Revista de Sociologia da USP, volume 12, nº 2, novembro de 2000.
3
17
justiça social e de organização política capazes de garantir um resgate moral e o
funcionamento harmônico da sociedade.
O objetivo do trabalho é mostrar como aconteceu a experiência de aplicação do
projeto de restauração católica no cotidiano da vida da cidade a partir do protagonismo
franciscano, considerando relevante o fato de o franciscanismo enquanto movimento ter sido
inspirador do modelo de Igreja que se erigia no início do XX, preparando-se para lidar com o
mundo moderno em transformação como ocorrera no século XIII, época de São Francisco.
Importante é perceber também que a trajetória da Igreja, sua inserção na dinâmica
social, aconteceram numa movimentação dialética. Ela fomentou de início uma militância
disciplinada pela hierarquia, ciosa frente à modernidade. Com isso, porém, acabou por abrir
um novo espaço de atuação política, levando, gradativamente nos anos 50, à autonomia de
seus membros que se vincularam mais estreitamente à problemática social, posição acentuada
no Brasil diante das mudanças conjunturais dos anos 60 trazidas pela ditadura militar.
CAPÍTULO I
Cidade do Divino: espaço da diversidade
Pretende-se nesse texto mostrar o processo de formação da cidade e destacar a rede de
relações que foram sendo construídas, definindo modos de vida perpassados pela presença de
registros ligados à religião católica e de expressões contrárias ligadas a outras religiões, seitas
e opiniões políticas que, ao voltarem-se para o debate, influenciaram na composição de uma
cultura própria do lugar.
Ao mesmo tempo que as diferenças ideológico-políticas são mostradas, bem como as
dificuldades de convivência entre credos religiosos diferentes, o centro da narrativa se coloca
na atuação dos frades franciscanos desde sua instalação na cidade em 1924 e a expressiva
presença de religiosos holandeses.
A influência desses religiosos na vida da cidade e no seu desenvolvimento oferece
elementos que permitem compreender aspectos originais da história e da memória de
Divinópolis.
1.1 A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos
“O ritmo nas artérias da cidade é crescente. Sente-se o entusiasmo do progresso.
Respiram-se esperança e ânimo, a plenos pulmões. O cenário sofre mudanças
sucessivas. Calçam-se ruas, levantam-se casas, estabelecem-se empresas. Tudo
crepita em ação. A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos.”1
O estabelecimento de um conceito preciso de cidade sempre foi motivo de
controvérsias entre os estudiosos do fenômeno urbano. A definição de categorias e de
tipologias que levam em consideração determinados elementos próprios do processo de
urbanização tem norteado a produção teórica relativa ao tema. Louis Wirth chama a atenção
para a importância de, ao buscar uma definição do urbanismo, a sociologia não se restringir a
características de enquadramento, devendo considerar como relevantes a descoberta e a
Crônica “Em torno da cidade” de Osmar Barbosa publicada periodicamente no Divinópolis-Jornal, Ano VI, nº
37, 13.06.1943.
1
19
análise das variações que assinalam o desenvolvimento diferenciado das cidades (Wirth,
1967:102).
Na concepção de Robert Park, a cidade é mais do que um amontoado de indivíduos e
de conveniências sociais tais como ruas, edifícios, infra-estrutura, instituições administrativas.
Segundo o autor, a cidade é, antes de qualquer coisa, um estado de espírito, um corpo de
costumes e tradições, de sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes que
são transmitidos por essa tradição. De acordo com Park (1967: 29-32),“a cidade está
enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam”, a partir de uma relação de
reciprocidade entre sua organização física e moral”.
O tamanho, a densidade, sua dinâmica econômica e organização político
administrativa, são características tomadas como referência para a definição da estrutura
urbana. Wirth, ao focar o aspecto do modo de vida urbano, lembra que a cidade é um produto
do crescimento e como tal, ao tornar-se um ambiente cada vez mais complexo, guardaria as
influências de sua estrutura anterior no que se refere à sua organização e formas de
manifestação da cultura urbana. Completa sua reflexão mostrando que as pessoas e as
diversas formas de organização na cidade estão sujeitas à manipulação por símbolos e
estereótipos comandados por indivíduos ou grupos, operando invisivelmente por trás dos
bastidores (Wirth, 1967:99-120).
Wirth chamou a atenção para as limitações de se identificar o urbanismo a partir de
aspectos físicos delimitados pelo espaço, restringindo as possibilidades de se analisar o
urbanismo como um modo de vida. As características consideradas como próprias da cidade
enquanto núcleo relativamente grande, denso de indivíduos socialmente heterogêneos,
somente são sociologicamente relevantes enquanto condicionantes da vida social. O
urbanismo não estaria, segundo o autor, confinado às localidades enquadradas ou
padronizadas pelas variáveis de identificação, mas estaria propenso a se manifestar em graus
diferentes onde pudessem chegar as influências das cidades.
Os questionamentos e inferências feitos pelo autor, relativizando conceitos e buscando
caminhos para uma identificação do fenômeno urbano, servem como referência para uma
tentativa de análise sobre a formação de Divinópolis, tomada como objeto de estudo a partir
de suas relações sociais, da presença do sagrado em sua fundação e desenvolvimento, das
contradições ideológicas em sua composição política, da trama tecida no seu cotidiano e do
modo de vida de seus moradores.
20
É por meio de referências e símbolos legitimados coletivamente que se definem os
elementos constitutivos das mentalidades e as formas de organização diferenciadas,
estabelecidas a partir de grupos políticos, de interesses e de afinidades a partir dos quais,
expressam-se os conflitos ideológicos sustentados em concepções de mundo distintas. É nessa
perspectiva que se pretende analisar a cidade de Divinópolis, como uma entidade social que
superou uma forma rural de organização, ganhando a amplitude de um centro urbano na
região centro-oeste de Minas Gerais mas que tem uma consistência sócio-cultural tão
relevante quanto seu desenvolvimento econômico. No processo de sua formação, ganhou
características sui generis, pelo trajeto histórico definidor de sua dimensão marcado pela
riqueza de suas instituições e pelas manifestações e representações usadas por seus sujeitos
históricos diferentes e até conflitantes envolvidos num mesmo espaço e tempo.
O nome da cidade sugere o tema religioso, “Cidade do Divino, Divinópolis!”. A
escolha desse nome2 aconteceu após a emancipação em 1912, resgatando as origens de sua
fundação pela iniciativa do pioneiro Candidés3, quem erigiu uma capela em devoção ao
Divino Espírito Santo. Mais tarde foi edificada a nova igreja no largo da matriz tendo como
padroeiro além do Espírito Santo, também São Vicente de Paula. A influência católica no
nome expressa a relação identitária dos habitantes com a religião, deixando patente a
representação simbólica do padroeiro e o espaço institucional da Igreja demarcado. Essa
demarcação prossegue no processo de consolidação e ampliação da influência da cidade na
região centro oeste, quando em função da estrada de ferro, transformou-se em cidade operária
como sede da oficina da Rede Mineira de Viação e posteriormente como centro siderúrgico.
Transformou-se também num importante núcleo religioso após a instalação dos frades
franciscanos, sediando o Curso de Teologia.
Além da devoção dos fundadores, construindo a primeira igreja e posteriormente
doando o patrimônio para a criação do Curato do Espírito Santo do Itapecerica, filiado à
Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, a Igreja esteve presente na criação oficial
do município através da atuação do padre Matias Lobato:
A sugestão do nome foi dada por Antônio Olimpio de Morais, primeiro presidente da Câmara Municipal, o que
na época significava ser o primeiro prefeito. Van Der Vat (1995) p. 29.
2
Personagem que segundo a tradição oral do lugar teria sido o iniciador do Arraial do Espírito Santo do
Itapecerica, vindo dos lados da cidade de Barbacena, provavelmente instalando-se no local fugindo de processo
por envolvimento na Guerra dos Emboabas de 1708. Van Der Vat (1995) p. 6-10.
3
21
“Foi durante o paroquiato do Padre Matias Lobato que pela lei estadual nº 556 de 3
de agosto de 1911, foi criada a Vila e Município de Henrique Galvão, ou seja,
Divinópolis. O nome Henrique Galvão, seja dito de passagem, vinha da estação da
Estrada de Ferro oeste de Minas, construída pelo engenheiro Henrique Galvão, e
inaugurada em 30 de abril de 1890. Em 30 de setembro de 1912, porém, este nome
recém criado do município foi mudado para o de Divino Espírito Santo. A bem da
verdade devemos acrescentar que a elevação de Divinópolis à categoria de
município se deve, em grande parte, ao empenho do Padre Matias. Ficou assim a
nossa cidade desmembrada do município de Tamanduá, hoje Itapecerica, a que
pertencera desde o ano de 1847.”4
A tradição de se tomar a construção de uma igreja como ponto de convergência e de
referência para a organização do ambiente social de germinação da cidade aconteceu também
na formação de Divinópolis. Daí para frente, a presença institucional da Igreja Católica
atravessou a história do lugar, definindo os registros do sagrado para o povo e perpassando
toda a organização social. Essa regra, porém, no caso de Divinópolis, aconteceu seguindo um
trajeto peculiar, pela presença de instituições, de personagens e de um ideário diferente da
tradição católica. A contradição esteve presente na vida social, política e cultural da cidade e
nas várias etapas de seu desenvolvimento econômico.
A pesquisadora Batistina Corgozinho analisou esse traço constitutivo na formação e
no desenvolvimento de Divinópolis a partir do que ela apontou como sendo “as contradições
entre o velho e o novo”. A autora analisa a modernização desencadeada pela instalação da
ferrovia no local, fato que provocou transformações econômicas, sociais e político-culturais
fundamentais para o delineamento do perfil da cidade. Segundo ela, a heteronomia
característica do tempo do Arraial foi sendo substituída pela gradativa autonomia dos sujeitos
históricos, e essa individualização dos novos agentes sociais se sobrepôs à autoridade moral
até então dominante. Novas forças políticas, religiosas e culturais passaram a se confrontar no
espaço público. Nesse meio, o domínio da Igreja Católica nas dimensões privada e pública e
os valores que preconizava ligados ao espírito comunitário foram sendo questionados pela
mentalidade ligada ao progresso e à laicidade (1999:99).
4
Frei Odulfo Van Der Vat, historiador, especialista em História Eclesiástica, publicava no Jornal A Semana, em
sua coluna na forma de crônica histórica denominada “Coisas do Nosso Passado”, sobre a origem e evolução do
município. Registrou seu trabalho de pesquisa de forma pioneira e criativa ao usar a imprensa como instrumento
de formação, estimulando o interesse dos moradores pela história da cidade. Suas 15 crônicas históricas foram
divulgadas de agosto de 1946 à janeiro de 1947, transformando-se numa edição especial publicada em 1995 pela
Academia Divinopolitana de Letras, da qual foi membro.
22
Carlos Fortuna contribui para a análise deste quadro em sua interpretação do conceito
de “destruição criadora” de J. Shumpeter. O autor faz inferências sobre o caráter libertador da
cidade moderna, responsável pela definição das identidades dos sujeitos que passam a agir de
acordo com suas competências, resultantes de escolhas e possibilidades individuais. O
processo de destruição criadora das identidades guarda a dialética da relação entre o velho e o
novo, a capacidade de adequação das identidades às transformações econômicas, sociais,
políticas, técnico-científicas e culturais constantes na sociedade contemporânea e que
provocam o reajustamento das matrizes identitárias. Internamente, a sociedade capitalista
estaria vivendo uma dinâmica permanente de superação e criação (Fortuna, 1997:127-129).
A dimensão da vida urbana só pode ser apreendida a partir da percepção da
diversidade. A cidade é por excelência o ambiente das diferenças, guarda o dinamismo
próprio dessa interação entre elementos contraditórios e contrastantes, dialeticamente
divergentes e convergentes ao mesmo tempo.
A articulação política para a emancipação do município aconteceu envolvendo
personagens expressivos do lugar como Francisco Ribeiro de Carvalho, Pedro Xavier Gontijo,
o Major Francisco Machado Gontijo, Antônio Olímpio de Morais, que viria a ser o primeiro
presidente da Câmara, todos membros de uma comissão que, segundo registros de
memorialistas, tomou a frente do processo de emancipação com a participação direta do
vigário, padre Matias Lobato.
A atuação de padre Matias Lobato foi decisiva no sentido de salvaguardar a posição da
Igreja no contexto de formação do município, além de ter sido o responsável por reforçar o
comprometimento dos leigos na prática social de cunho devocional a partir da criação de
várias associações religiosas. O referido padre foi empossado em 1911 e em seus relatórios
apontou algumas deficiências da vida religiosa do lugar:
“O estado espiritual não tem adiantamento algum, pouca prática religiosa, alguma
freqüência à Missa e quase nenhuma comunhão, o catecismo muito atrasado, duas
associações, uma conferência de São Vicente, com 10 a 12 confrades que não
observavam com exatidão os estudos, e as Damas do Sagrado Coração de Jesus,
umas 30 mais ou menos, bastante desanimadas, mas que ainda auxiliam na igreja.”5
5
Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 25.
23
Após investir num trabalho pastoral, arregimentando os fiéis e introduzindo a prática
do estudo do evangelho, seu relatório de 1915 apresentou os progressos alcançados:
“O estado atual da freguesia é mais animador. Existem hoje três conferências de São
Vicente de Paulo ... [...] Existe uma associação de São José, fundada em 1912, as
Damas do Sagrado Coração, a associação das Filhas de Maria, fundada em 1914. O
Apostolado da Oração, fundado em 1914, a União Católica Operária, sendo esta
última fundada a 30 de setembro de 1915. Graças ao bom Deus, todas estas
associações funcionam regularmente e têm produzido muitos frutos.”6
O padre explicou, em seus relatórios endereçados à diocese, as características da
comunidade, que sempre recebia pessoas com hábitos e costumes diferentes, exigindo
esforços das autoridades civis e eclesiásticas no sentido de acompanharem esse processo de
ressocialização:
“Apesar de nossos esforços, ainda existem alguns amancebados e casados só
civilmente, e algum ataque religioso devido a ser a população desta freguesia muito
inconstante e todos os dias chegarem e saírem famílias de todos os costumes, o que
muito embaraça e muito dificulta o ministério paroquial nesta freguesia.”7
Comentou também acerca das características da cidade no período de criação do
município:
“A freguesia neste período, em 1912, foi elevada, isto é, o distrito foi elevado a
município com o nome de Vila Divinópolis. Começamos um prédio para o hospital e
para este fim adquirimos um sobrado e casa no Largo da Matriz, como consta da
escritura pública. A população calcula-se mais ou menos em 8000 almas, sendo
pequena e bem populosa. É ainda muito atrasada a lavoura, indústria, criação e
instrução em toda a freguesia.”8
As observações feitas pelo arcebispo Dom Viçoso, após sua visita à paróquia em 1915,
mostram que desde o início, mesmo no período de padre Matias, que construíra um bom
relacionamento com as figuras expressivas da comunidade, a ponto de ser membro atuante na
comissão responsável pela criação do município, haviam manifestações contrárias ao
catolicismo no lugar:
6
Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27.
7
Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27.
8
Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27.
24
“Por todos estes bens dou muitas graças ao Senhor Nosso Deus, de quem todo bem
procede; e encomendo a este nosso querido vigário, que continue a usar de todas as
cautelas para vencer o inimigo que se acha irritado com as boas obras e atos de
religião e piedade que o mesmo vigário continua a promover nesta paróquia.”9
A Igreja Católica buscou reforçar sua posição política na consolidação do município
pela sacralização dos espaços de uso coletivo. Empenhou-se em criar momentos vigorosos
pelo significado simbólico através de cerimônias públicas envolvendo autoridades, aguçando
desta forma, o debate entre grupos liberais e católicos. Em Divinópolis, a Igreja promoveu em
abril de 1918 a solenidade de entronização do Cristo, na inauguração do Grupo Escolar e no
salão nobre do paço Municipal. Pedro Xavier Gontijo, como inspetor escolar, liderou uma
reação contra tal procedimento, tomando como base o artigo 72 da Constituição Federal.
Chegou a formar uma comissão para reivindicar, junto ao governo do Estado, o direito à
liberdade, opondo-se ao privilégio concedido ao catolicismo de ocupar espaços públicos. Os
comentários que teceu sobre o acontecimento demonstram sua indignação diante da atitude
arbitrária das autoridades:
“... Juntamente com uma comissão dos acatólicos de Belo Horizonte, levei
diretamente ao palácio o meu protesto contra a entronização de Cristo no grupo
escolar. Como porém, julguei que não me saísse bem no meu protesto cara a cara,
resolvi levar comigo um pastor norte americano. [...] Como me achasse em plena
agitação interna e externa, foram convidados todos os meus adversários de fora,
jornalistas, oradores, panfletários etc. Foi um verdadeiro toque de reunir contra mim,
e tudo garantido pela força pública do Estado, que sitiou o quarteirão onde moro,
imobilizando-me dentro de casa. Divinópolis viveu como disseram o “seu grande
dia”. O meu jornal empastelado, eu preso em casa e “esmagado.”10
No opúsculo publicado sobre a cerimônia de entronização, constam os discursos
proferidos pelas autoridades, demonstrando com clareza o conteúdo político sacralizante do
evento em tom apologético e de combate explícito à liberdade de culto, destacando a ameaça
protestante.
Como epígrafe consta a inscrição destacando a obediência dos oradores para com a
Santa Sé:
9
Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 28.
10
Gontijo, Pedro Xavier. História de Divinópolis. 2ª Ed. Divinópolis: Sidil, 1995 p. 36.
25
“Fazendo timbre de inteira obediência à Igreja Católica, os autores dos discursos
reunidos neste folheto declaram reprovar tudo quanto não esteja conforme ao seu
ensino infalível e se submetem, em absoluto às decisões emanadas da Santa Sé.”
No texto dedicado ao leitor, escrito pelo padre Joaquim Martins, em tom de denúncia,
tenta-se apresentar o sentido simbólico da cerimônia, destacando sua legitimidade pela
presença de quatro mil pessoas e mostra a teia conspiratória criada em torno da Igreja no
local:
“As páginas que se seguem revelam, com exatidão, o esplendor da deslumbrante
apoteose feita a Cristo Redentor no dia 21 de abril deste ano, por ocasião da
instalação festiva do Grupo Escolar da cidade de Divinópolis. Foi admirável e
emocionante ver-se aquele povo culto e crente celebrar com ruidosas festas a
inauguração de um templo de instrução primária, dando lhes um caráter
essencialmente religioso. Cristo Redentor foi violentamente atacado em Divinópolis
por uma diminuta parcela de livres pensadores, mas, Cristo vive, reina, impera e há
de triunfar sempre da versucia de seus adversários, como triunfou na ressurreição
gloriosa da iniquidade de seus inimigos. Seu triunfo em Divinópolis teve um brilho
excepcional, radiante, significativo. [...] Foi uma resposta completa e categórica a
esses espíritos superficiais que fizeram da imprensa um aríete contra a Igreja em
nome duma ciência em bancarrota.”11
O discurso do advogado Dr. José de Assis Rocha chama atenção para o laicismo
liberal e para a necessidade de uma formação escolar calcada na religião:
“Esta instalação revestida de toda a solenidade é um protesto enérgico deste povo
contra as intempestivas interpretações que se tem querido dar as leis liberais de um
país como o nosso e ao espírito de sabedoria e concórdia que vem guiando
altaneiramente o governo do nosso Estado. [...] À Instrução imoral, porém, é
preferível o analfabetismo. [...] E educar como eu o entendo, educar consiste
exclusivamente em formar o coração – o caráter da crença.”
O Sr. Augusto Fonseca, inspetor do grupo escolar, fez menção ao laicismo e à
presença descristianizadora do protestantismo na sociedade:
“Senhores! Também na jovem República brasileira, não poucos divorciados da
maioria católica, grimpados às culminâncias da política e da imprensa, tentam
pertinazmente derrotar os princípios da nossa fé que defendeu o berço de nossos
11
Discurso do padre Joaquim Martins, vigário da Vila de Contagem e redator do jornal “O Movimento”.
26
antepassados e que tanto tem concorrido para o engrandecimento de nossa pátria.
Huguenotes também existem, senhores, no nosso caro Brasil, que se emprenham na
descristianização do povo, por medidas revolucionárias que eles apelidam liberais,
procurando nas suas mais avançadas e ousadas investidas desterrar das escolas a
Jesus Cristo.”
O discurso do padre Joaquim Martins teve um tom patriótico, mostrando a importância
da proximidade entre Estado e religião católica:
“A sociedade não pode se desenvolver nem progredir sem os princípios do
cristianismo e só entre nações cristãs há vida e progresso. Banido o cristianismo do
coração do povo e da infância amanhã teremos uma sociedade em delinqüência, uma
nação em ruínas. [...] Feliz e bem inspirado andou o patriótico governo do Estado,
consentindo neste ato de alta significação. Compreendendo em toda a sua extensão a
letra e o espírito da Constituição Mineira, que não adotou o laicismo no ensino
primário, o Exmo. Sr. Dr. Delfim Moreira, egrégio Presidente do Estado e o Sr. Dr.
Américo Lopes, benemérito Secretário do Interior, conquistaram a simpatia de todos
os católicos mineiros.”
À medida que a cidade tomava forma, o conflito entre grupos católicos e os adeptos do
livre-pensamento foi se ampliando e o embate político-religioso aconteceu em vários
momentos da história da cidade, como na formação dos Partidos Macho e Fêmea, em 1918.
Na verdade, foram apelidos criados para o Partido Reformador, que representava os liberais e
era liderado por Pedro Xavier Gontijo, e para o Partido Conservador composto pelo grupo
católico. As expressões foram criadas pelos próprios liberais, no sentido de fazer referência à
saia feminina simbolizada pela batina. Esses partidos dominaram a cena política do local por
cerca de 30 anos e suas ações mostravam a disputa corpo a corpo para garantir o
convencimento do eleitorado:
“O Reformador era intitulado “O partido inimigo da religião católica”. Assim o
senhor Fidelis Ferreira da Silva ia ao Arraial dos Costas e conseguia diversos
eleitores. No dia seguinte o Padre Vicente ia lá, trabalhava, pregava e desfazia o
compromisso dos eleitores. Esta luta crescia dia a dia. Recomeçou o Sr. Pedro
Gontijo pelo jornal ferindo os seus adversários, insultando, difamando, enquanto o
padre Vicente fazia o mesmo através do púlpito. Os reformadores apelidaram o
Partido Dominante de “Partido das Fêmeas”, enquanto o seu partido era o “Partido
dos Machos”. Esta apelido feria muito os elementos do Partido Dominante e
enaltecia os do Partido Reformador. [...] Todos os elementos do Partido Reformador
trabalhavam sem medir esforços nem meios. Só é feio perder as eleições: era o lema.
O Padre Vicente Soares sofreu muito com a luta política. Afinal no pleito de 1º de
novembro de 1918, o Sr. Pedro Gontijo venceu o Partido Dominante por 17 votos e
enfeixou em suas mãos o destino de Divinópolis até 1935, data em que foi
27
exonerado do cargo de prefeito, pelo governo do estado.”12
A distinção entre as características rurais persistentes e o traçado do urbano nas ruas,
nas edificações, na ampliação das áreas de comércio e na instalação de indústrias, mostra a
reciprocidade entre cidade e campo e as marcas distintivas e complementares existentes na
relação entre ambos.13 A cidade, até os anos 50, apesar de seu caráter operário, enquanto sede
da maior oficina da estrada de ferro, ainda guardava um estilo simples da vida rural na sua
organização, como foi comentado numa crônica especial publicada em 1950, dedicada a Dom
Cabral:
“Entretanto não há nada aqui que lembre o aspecto daqueles centros industriais, cujo
moderno urbanismo está coberto pelo preto da patina das próprias chaminés. Ao
contrário! Esta cidade de inúmeras máquinas e de milhares de operários deixa a
impressão duma tranqüila comunidade rural, banhada, pelo menos em dia de verão,
duma luz forte quase pungente, mal explicável à 200 metros abaixo do nível de Belo
Horizonte, distante apenas pouco mais de cem quilômetros. E só a quadratura de seu
roteiro (em parte arborizado), revela a mão do urbanista do planejador.”14
Essa descrição assinala a metamorfose da cidade, o dinamismo do progresso
proporcionado pela indústria, o uso de tecnologia, a ampliação do comércio, o ritmo acelerado
das relações mas demonstra também, a sobrevivência das feições rurais e singelas da
localidade. Esse envolvimento foi explicado por Louis Wirth: “A cidade e o campo podem ser
encarados como dois pólos em relação aos quais todos os aglomerados humanos tendem a se
dispor”.15
A instalação das oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1916 mudaram
gradativamente as feições do Arraial, que foi tomando a forma de cidade pela instalação das
12
Azevedo e Azevedo, 1988. p. 126.
Maria Isaura Pereira de Queiroz, em seu texto Do rural e do urbano no Brasil propõe uma interpretação que
considera a reciprocidade entre cidade e campo, criticando a tendência de análise que aborda a existência de duas
realidades paralelas. Admite que, numa sociedade global, a estrutura e a organização podem reunir em arranjos
variados os tipos sociais diferentes (Queiroz, Maria Isaura. Do rural e do urbano no Brasil. In: Szmrecsánui,
Tomás e Queda, Oriowaldo. (org.) Vida rural e mudança social. 3ª Ed. São Paulo: Editora Nacional, 1979, p.
163.
13
14
Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950 p. IV.
15
Wirth, 1967. p. 99.
28
famílias dos operários. Essa gente da estrada foi se misturando à gente do largo da matriz
numa convivência inicialmente difícil para os antigos moradores:
“Esta gente era mais liberal, mais alegre que os habitantes do lugar, pois contavam
com um ordenado certo no fim do mês. [...] A hostilidade e a desavença que
existiam entre o povo da Estrada de ferro e o pessoal do Arraial se acentuava cada
vez mais, tomando proporções bem desagradáveis.”16
Eram estilos de vida diferentes; o trabalho nas oficinas atraiu para o local um volume
grande de pessoas cuja multiplicidade de ofícios, traços culturais e credos diferentes se
distanciavam do padrão de vida e de comportamento marcadamente religioso e pacato da
população original, comportamento este prescrito e acompanhado de perto pelos párocos que
trabalharam na comunidade.
As pesquisas e os memoriais confirmam esse desenvolvimento característico da
cidade, o qual foi também analisado pelo Sr. Milton Pena:
“Nosso povo era lavrador e de pouco conhecimento, quando surgiu a oficina,
precisava de mão de obra especializada para trabalhar com as locomotivas.
Manipulavam ferro fundido, aço, precisava então, de torneiro, funileiro, ajustador,
ferreiro, encanador, e uma série de outros ofícios que a cidade não tinha. Onde
formos buscar mão de obra? Nos grandes centros, e muitos estrangeiros vieram
também. As pessoas vindas de fora estavam propensas a ouvir novas idéias como o
determinismo, o comunismo ... Então aqui havia um caldo, uma possibilidade
porque não se tinha compromisso com a cidade e com a tradição. Juntando estes
com os que já viviam aqui, Manoel Ferreira Pena, Pedro X.,Virgílio Braga ... [...]
Divinópolis ganhou uma característica, a de ser uma cidade onde as pessoas pensam
e falam o que querem, mas isto custou muito caro. Custou caro para os que
enfrentaram a Igreja, pois ela estava com a palavra. Divinópolis é naturalmente
cosmopolita!”17 (Milton Pena)
Os católicos logo tiveram de enfrentar o peso das diferenças em relação aos valores e
ao comportamento dos moradores, como foi o caso da manifestação de ideologias políticas e
de credos contrários aos preceitos católicos. Do ramo protestante, a Igreja Batista foi pioneira
a se instalar oficialmente na cidade através lançamento da pedra fundamental de seu templo
em julho de 1919. Nessa época, contava com trinta e um membros ativos, tendo como Pastor
16
Azevedo e Azevedo, 1988 p. 87-89.
17
Entrevista realizada pela autora no dia 24.04.01 com Sr. Milton Pena.
29
o Sr. Henrique Edwin Cockel. A aquisição de um terreno da municipalidade pelos
protestantes provocou questionamentos do pároco Vicente Soares e reascendeu a polêmica
sobre o uso do patrimônio da Igreja pelo poder municipal. O patrimônio reivindicado
correspondia a 40 alqueires, já doado por Manoel Fernandes Teixeira em 1770 para criação do
Curato18, constituindo-se para a Igreja, portanto,como parte de seu patrimônio. Esse impasse
foi levado às instâncias judiciais e acabou provocando a formulação de um pacto políticoreligioso selado em 1920. O teor desse acordo foi, por várias vezes, comentado pelo líder
político Pedro Xavier Gontijo, e em um de seus boletins consta:
“Padre Vicente tomou para advogados da Igreja os dois ilustres profissionais, Dr.
Afonso dos Santos e José Maria Lopes Cançado, e eu tomei para defesa da Câmara o
Dr. Noronha Guarany de Belo Horizonte. A coisa não chegou a ferver com espuma
porque até um rábula de terceira classe ganharia a questão a favor da Câmara. Já no
fim, na liquidação do caso, procurou-me o monsenhor Fernando da Onça, meu velho
amigo do tempo do padre Matias, pedindo-me fazer um acordo com a Igreja. Fiz o
pacto religioso-político com festas, fogos, discurseiras, etc. Resumo: o patrimônio
continuou sendo do município, como de antes, e o meu diretório foi acrescido
belíssimos elementos do diretório contrário.”19
A convivência entre católicos e protestantes foi por muito tempo bastante tumultuada.
Sr. Eliseu Ferreira, membro da Igreja Batista e estudioso da história da cidade, explica
aspectos dessa convivência: “Foi criada uma comissão para a construção do templo, que
seria a prédio mais bonito de Divinópolis, e mais bonito de Minas Gerais ... Foram
comprados quase 7500 metros de terreno à 200 réis o m²...”20 (Eliseu Ferreira)
A convivência entre católicos e protestantes foi marcada pelo uso de estratégias de
afirmação e de convencimento junto aos fiéis. Há depoimentos sobre o uso da Cruzada
Eucarística ou “Cruzadinha”21 para afrontar os fiéis da Igreja Batista. Eram comuns pregações
A escritura foi passada por Manoel Fernandes Teixeira, fazendeiro da localidade (paragens do Itapecerica), em
Mariana, à folha 16 e verso, do livro 51, em 24 de março de 1770, transcrita no registro de Imóveis de
Divinópolis, em 19 de agosto de 1959, livro 3-R, folha 81 (Van Der Vat (1995) p. 11).
18
19
Boletim nº 195, 15-03-60 de Pedro Xavier Gontijo.
20
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Eliseu Ferreira no dia 31/07/01
21
Explicações publicadas no jornal A Semana sobre o significado das associações católicas caracteriza a visão da
época sobra essas entidades. De acordo com o jornal, existiam dois tipos de associações paroquiais: as dedicadas
às obras de piedade e de apostolado e as voltadas para a formação espiritual, consideradas associações de elite. A
cruzada Eucarística se enquadraria no segundo modelo, exigindo seleção e boa formação para seus membros.
Um grupo de meninos de elite dedicados a uma ação cotidiana, rezando o terço, participando de reuniões para
30
criticando espíritas e protestantes, além da mobilização através de alto falantes, numa batalha
sonora que tomava conta de amplo espaço da cidade: “... os acordes sonoros transmitidos
pelos alto falantes davam aos céus de Divinópolis ares “belentinos”, por sobre cujas casas e
campos soavam as vozes angelicais”.22 Na crônica sobre a vida paroquial, publicada na revista
de Santa Cruz em 1949, foi comentada a instalação e o uso de alto-falantes pelas igrejas:
“Os protestantes outrora tão quietos e pacíficos começaram também a agir. Na festa
de São Francisco foi inaugurada a instalação dos alto-falantes na torre do Santuário
que daqui em diante com três cornetas fortes podem dominar toda a cidade. A Igreja
Batista adquiriu também um aparelho e todos os domingos depois da bênção no
Santuário o bom pastor das 90 ovelhas (dizem que não tem mais) começa a desopilar
o fígado contra o papado, a confissão auricular etc. O pastor fala muito, mas ao que
parece, o povo na cidade não liga nada, mas nada mesmo, a essa propaganda.”23
O Sr. Elizeu apresenta a versão dos protestantes para a instalação do alto falante: “A
Igreja colocou alto falantes, nós também colocamos o equipamento. O objetivo era transmitir
o culto para fora aos domingos, tocava música, e as dez tinha o culto”.24 (Eliseu Ferreira)
Completou seu depoimento mostrando o crescimento do protestantismo, que
juntamente com outros grupos, teria levada a Igreja Católica a se preparar para reforçar sua
presença no lugar:
“O número de batistas locais, eram mais de 50 só em 1919. Nós tínhamos só em
1919, 31 membros da igreja que foram transferidos de Belo Horizonte. Desses,
tinham também as famílias que chegavam à uns 70 batistas, entre membros e
familiares. Já existia uma boa quantidade de livres pensadores, espíritas e maçons na
cidade. Quer dizer que num universo de Divinópolis naquela época, com uns 15 mil
habitantes, talvez nem isto, padre Bicalho ficou assustado ...” (Eliseu Ferreira)
A doutrina espírita também encontrou receptividade em meio à liberdade políticoreligiosa defendida pelos novos personagens que tomavam assento à frente dos investimentos
na cidade. Em dezembro de 1928, tiveram início as atividades do Racionalismo Cristão na
instrução religiosa e formação espiritual atuariam trabalhando como arautos do Cristo-Rei e “benjamins da Ação
Católica” (Jornal Interno A Semana de 24 à 31 de outubro de 1943).
22
Revista de Santa Cruz, Ano XV, janeiro de 1950, p. 10.
23
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, fevereiro 1949 p. 22-23.
24
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Eliseu Ferreira no dia 31.07.01.
31
localidade por intermédio do Capitão Sinfrônio Gontijo. Dessa articulação nasceu o Centro
Espírita Filial Redentor de Divinópolis, ligado ao Centro Espírita Redentor do Rio de Janeiro.
Seu templo foi construído em terreno concedido pela Câmara Municipal e foi inaugurado em
maio de 1937 (Corgozinho, 1999:140).
Em 1947, um grupo kardecista fundou o Centro Espírita Estudantes do Evangelho.
Esses elementos contaram com o apoio do farmacêutico Sr. José Maria Campos que se
mudara de Carmo do Cajuru para Divinópolis no início da década em função de perseguição
promovida pelo vigário daquela paróquia. O Sr. José Carlos Pereira conta como
arregimentou-se um conjunto de filiados à doutrina para a criação do Centro:
“Naquela ocasião tinha uma turma aqui eu, o José Guimarães e outros, mas o
negócio foi crescendo para se manter apenas como uma reunião familiar, foi ficando
difícil, mesmo porque, depois quando eles acabaram com as oficinas da Rede em
Cruzeiro, o pessoal veio para cá, e veio muita gente com militância no movimento
espírita. Então nós fizemos em 1947 o Centro. Existia um grupo aqui do Veloso que
eles diziam que era mais de tendência sincretista, era mais umbanda, e existia um
grupo espiritualista, uns dois ou três elementos que se reuniam mais para conversar
[...] Então nós nos reunimos com os elementos daqui e com os de Cruzeiro, logo
depois veio o Rozenwal Udison de Oliveira para cá também, e nós fizemos o
primeiro Centro, inaugurado em setembro de 1947.”25 (José Carlos Pereira)
A Igreja Católica reagiu ao crescimento dos espíritas no local e administrou uma
campanha de combate apoiada principalmente nas famílias tradicionais, no sentido de que se
tornassem a linha de frente na defesa do catolicismo. Sr. Pereira fala sobre as retaliações
promovidas contra o movimento espírita:
“Tínhamos o jornal “Idéia Viva”, nessa ocasião começou uma perseguição, foi uma
perseguição tremenda, comandada principalmente pelo Frei Rafael. [...] Minha mãe
foi a que sofreu mais, ela ia à missa e o padre, esse Frei Rafael me atacava lá assim
de público ...” (José Carlos Pereira)
Como figura de proa na ação contra o domínio do pensamento católico mais
tradicional, teve destaque a Maçonaria26, numa querela histórica face à Igreja Católica.
25
Entrevista realizada pela autora com o Sr. José Carlos Pereira no dia 25-07-01.
“A primeira notícia acerca da Maçonaria propriamente dita no Brasil, nos é fornecida pelo manifesto que José
Bonifácio dirigiu em 1832 aos maçons de todo o mundo, comunicando que em 1801 fora instalada a primeira
26
32
Apoiada pelos adeptos do livre pensamento, atuantes na defesa da liberdade e do estado de
direito. Teve sua atuação de maior ressonância associada aos ideais libertários lançados no
século XVIII e aplicados a partir da Revolução Francesa. No Brasil, foi atuante politicamente,
tendo influenciado as conjurações e, durante o Império, conquistou espaço entre as elites,
além de ser motivo de status sócio-intelectual27, ocorrendo a ampliação de clubes e de
entidades secretas por todo o país.
“Por volta de meados do século XIX, as irmandades tinham se tornado centros de
atividade maçônica. Já que entre os maçons se encontravam padres e importantes
autoridades do governo, não era de se estranhar que houvessem Irmandades
maçônicas. Havia se discutido se a forma brasileira de maçonaria era anti-católica ou
anticlerical, mas após o Syllabus e o anátema lançado sobre a Maçonaria, ela tomou
posição contra todos aqueles que eram contra ela ...”28
A Maçonaria incorporou e difundiu o pensamento liberal, chegando a assumir posturas
anticlericais. Seu caráter secreto, a defesa da liberdade do cidadão e seu princípio deísta,
teriam feito com que se transformasse numa entidade prescrita pela Igreja Católica. De acordo
com Ferrer, a condenação pontifícia a essa entidade se fez por um conjunto sucessivo de
documentos:
“A primeira condenação pontifícia da Maçonaria deveu-se a Clemente XII na sua
carta apostólica de 28 de setembro de 1751. De então – praticamente as condenações
se sucederam ininterruptamente: Pio VII com a const. Ecclesiam a Jesu Christo (1309-1821), Leão XII com a const. Quo Graviora (13-03-18250...; e depois Leão XIII
com a enc. Humanum Genus (20-04-1884).”29
Na instalação da República, o espírito modernizante foi, em grande parte, estimulado
por maçons, figuras presentes no processo de consolidação do novo Estado. Essa situação
loja simbólica regular, debaixo do título de ‘Reunião”, filiada ao Grande Oriente da França.”. (Op. Cit.
Kloppenburg, 1992, p. 10)
Sérgio Buarque fala sobre os falsos católicos, sobre a defesa da liberdade de pensamento e das tendências
positivistas ortodoxas, heterodoxas e liberais que envolviam as elites na passagem do século. (Op. Cit., p.p. 322324)
27
28
Bruneau, 1974. p. 61.
29
Ferrer, 1983. p. 23.
33
incomodava a Igreja de Roma, como foi explicitado pelo Cardeal Vives Y. Tuto, ao comentar
um plano maçom arquitetado para promover a marginalização da Igreja:
“... Saiba que a Maçonaria vai realizar a partir de 14 de julho próximo, no Rio de
Janeiro um congresso nacional para estabelecer um programa de descristianização
do Brasil e que vai levantar para a eleição de março de 1910 a candidatura de um
militar de alta patente do Exército brasileiro a presidência da república, para que,
filiado à Maçonaria, execute o programa assim traçado.”30
Essa concepção de que a Maçonaria representava uma entidade anticlerical e que
desde suas primeiras manifestações agia no sentido de dessacralizar a sociedade brasileira era
encarada com seriedade pela hierarquia eclesiástica e prosseguiu em outros momentos da
história da República.
Parte do clero brasileiro, que cerrou fileiras no combate aos chamados inimigos da
Igreja, acreditava inclusive na ligação entre a Maçonaria e o crescimento do comunismo ateu.
Esse segmento estava convencido de que ambos teriam sido gestados no processo de
afirmação do mundo moderno, industrialista, racionalista, individualista e secularizado
decorrente da vitória do ideário liberal burguês.
Todo esse caldeamento de idéias apontava para a propagação de um pensamento de
tendência moderna e para a canalização de esforços no sentido de desenvolver ações voltadas
para a modernidade. Estar em sintonia com as transformações do mundo moderno implicava
na defesa da liberdade e do progresso, o que muitas vezes representava armar uma resistência
mais incisiva diante da persistência da tradição, presente no mundo sagrado e, quase sempre,
no discurso e na prática institucionais da Igreja Católica.
As conseqüências advindas do progresso sempre tiveram a força da inevitabilidade,
expressas na industrialização, na complexidade urbana, na paradoxal relação entre a multidão
e o indivíduo, nas transgressões da tradição. A Igreja percebia a dimensão das mudanças,
ciente de que estaria no caminho desse turbilhão, podendo perder sua posição de condutora da
vida social e sua influência nas decisões políticas, além de enxergar com cautela a apologia
feita ao significado que tomava a defesa da liberdade.
30
Lustosa, 1983. p. 14.
34
Na linha de frente dessa movimentação em defesa do novo, normalmente destacava-se
uma elite instruída, composta em sua maioria de profissionais liberais, personagens que
emergiram no processo de urbanização e de ampliação da presença da classe média na vida
social e política do país.
No Brasil, a transição da velha sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial se
deu mais amplamente a partir de 1930, quando houve um crescimento da classe média
empenhada numa maior participação política, consolidando-se como formadora de opinião e
aliada às propostas comprometidas com o desenvolvimento do país. No entanto, esses grupos
apresentavam-se divididos entre aqueles adeptos da sociedade de direito e da liberdade,
envolvendo-se em organizações laicas e simpáticos às ações consideradas progressistas, e
aqueles cuja tendência de formação católica era mais arraigada, que acreditavam em saídas
consensuais e harmoniosas para um desenvolvimento referendado pelo projeto político-social
da Igreja. Obviamente essas duas referências básicas não alcançam a diversidade progressiva
da sociedade urbano-industrial, em que se manifestavam outras posições e concepções
defensoras de formas diferentes de organização social e política para o país.
A Igreja Católica acompanhava de perto as transformações que vinham se processando
no Brasil, percebendo a necessidade de buscar a adesão dos grupos urbanos em torno da
proposta de recristianização da sociedade brasileira. Para alcançar esse objetivo, tomou frente
em ações políticas, investiu no campo social e utilizou os recursos da comunicação de massa,
preocupando-se também com a formação de uma elite pensante envolvendo-se no campo da
educação.
Na verdade, a própria Igreja não estava coesa nessa transição, apesar de agir
firmemente para esse fim, principalmente a partir da década de 20. Tomando as análises de
Luiz Gonzaga de Souza Lima (1979, 19-20), é como se existissem duas Igrejas: uma para a
sociedade rural, ainda tradicional e dominada pelas oligarquias dominantes e uma outra
urbana, em franco processo de metamorfose, podendo ser observado que:
“A organização da Igreja nas zonas urbanas se baseava nas classes médias, dentro
das quais se reproduzia um estilo de trabalho pastoral prevalentemente europeu. [...]
Basear-se nas classes médias no período de transição da sociedade brasileira era
adaptar-se sabiamente às novas condições de urbanização acelerada. Eram as classes
médias que mantinham permanente agregação social e um alto nível de participação
e mobilização.”
35
Essa preparação de uma elite comprometida aconteceu nas paróquias a partir de um
compromisso de ação social apostólica junto às classes populares. Paralelamente, um trabalho
similar era desenvolvido por grupos contrários ao projeto católico de sociedade, assumido por
elementos que detinham conhecimento e formação teórica capaz de amparar um debate frente
ao clero e à elite católica militante. Eram cidadãos conectados com os acontecimentos
políticos e culturais do país e bem informados sobre as reformas e avanços em processo no
exterior. Destacaram-se, no cenário municipal, as figuras de Pedro Xavier Gontijo, Francisco
de Azevedo Gontijo, João Manoel Ferreira Pena e outros que em muitas situações, ao
defenderem suas idéias, assumiram posturas anticlericais. No caso específico de Pedro X.
Gontijo, personagem mais polêmico no contexto geral dos embates, tinha boa formação
intelectual, era farmacêutico, foi estudante no Colégio Caraça e da Universidade de Ouro
Preto.
Identificava-se como “anarquista cristão” e gostava de usar a máxima “procuro
construir agitando - lembro o ontem, discuto o hoje e prego o amanhã”, justificando sua
tendência de polemizar sobre fatos da vida do município.
Pedro X. Gontijo esteve presente em grande parte dos momentos críticos vividos pela
cidade, da sua criação até os anos 60, e encabeçou vários momentos de litígio com os
católicos, sendo motivo de polêmica em várias passagens registradas em crônicas e
documentos da Igreja local. Era alvo da atenção dos católicos pela liderança exercida junto
aos maçons e por confrontar-se com os católicos através de boletins, sempre recebendo
respostas por meio do jornal católico “A Semana”:
“O redator da Semana provocou descontentamento nas fileiras dos maçons. Com
franqueza e intrepidez verberava ele os métodos e as práticas da gente dos três
pingos. O grande desaforo para o povo católico de Divinópolis de organizar uma
ceia festiva na sexta-feira santa foi energicamente rejeitado na Semana. A
Maçonaria reuniu novamente os seus adeptos e começou a publicar uma série de
panfletos e boletins contra Frei Rafael e o clero. O de Pedro X., leitura engraçada e
divertida, só xingar, o de Benjamim Azevedo cheio de coisas batidas e mil vezes
refutadas, o de Francisco Severino de Azevedo, boletim ridículo.”31
Foi polêmico o incidente provocado durante a semana pedagógica, que reuniu
professores da cidade, realizada por iniciativa do professor Antônio Ribeiro de Avelar,
31
Revista de Santa Cruz Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 22.
36
inspetor técnico regional, coadjuvado pelo prefeito e pelo vigário. No momento em que se
ressaltava a premissa, “sem educação religiosa não há educação”, Pedro X. Gontijo,
convidado a explanar sobre educação, defendeu junto aos presentes que educação era uma
palavra oca, provocando grande alvoroço na platéia.32
Os grupos que questionavam a Igreja normalmente faziam parte da Maçonaria ou
tinham nela um aliado na defesa do pensamento liberal e na articulação das peças envolvidas
no jogo político e na influência sobre a opinião pública, através de idéias e reformas, segundo
eles, condizentes com o processo de modernização em curso.
A primeira reunião de maçons em Divinópolis ocorreu sob a liderança do Dr. Behring,
engenheiro da estrada de Ferro Oeste de Minas, em 1923 na casa do Sr. Francisco José de
Assunção. Nessa reunião foi constituída a mesa responsável por consolidar a entidade no
município pela construção de sua sede, como Loja Maçônica Estrela do Oeste de Minas,
inaugurada com grande festividade em 17 de novembro de 1923.33
Na cidade de Divinópolis parece ter ocorrido uma aliança dos grupos combatidos
pelos católicos, que se alinhavam, em algumas situações, contra o clero local. Esse fato pode
ser comprovado pelo apoio oferecido pelo poder público na instalação das novas religiões e
templos no município, como foi o caso do Racionalismo Cristão e o acordo para compra e
venda de um terreno destinado à construção da Igreja Batista.
Comprova também essa tendência de uma frente de colaboração para o enfrentamento
do poder católico, a realização de um evento espírita no espaço da loja maçônica na década de
40, que foi comentado pelo Sr. Pena:
“Os espíritas Kardecistas estavam em etapa de desenvolvimento inicial. Havia
aquele amor à causa, próprio dos neófitos. Planejaram uma conferência e
convidaram a um dos expoentes da doutrina em Minas Gerais que era o Dr. Cesar
Brunier Pessoa de Mello, homem ilustrado, escritor, advogado, grande orador. [...]
Na aprazada data, a reunião se deu no prédio da Maçonaria na rua São Paulo, com
cadeiras emprestadas pela Igreja Batista.”34
32
Revista de Santa Cruz Ano VII, fevereiro de 1942 p. 31.
33
Azevedo e Azevedo, 1988. p. 133-134.
34
Pena, Milton. Memorial Comprometido, Jornal Primeira Página, Divinópolis, 28.05.2000.
37
Segundo consta do fato, a realização do evento foi ameaçada por grupos católicos, o
que levou os membros da Maçonaria que davam sustentação aos espíritas, a manterem
vigilância armada no local. O desfecho se deu sem a ocorrência de um confronto direto entre
os opositores.
Um conjunto de acontecimentos ocorridos na década de 20 demonstra sua importância
na definição de um perfil identitário35 para o município. A Igreja Católica, que já tinha raízes
consolidadas no lugar, deparou-se com a ameaça das novas seitas e da atuação dos grupos
laicizantes, exigindo uma tomada de posição no sentido de se preservar e de restaurar sua
liderança a partir de uma maior inserção na vida da comunidade. Foi para enfrentar essa
situação que a arquidiocese de Belo Horizonte, através de Dom Antônio dos Santos Cabral,
concedeu aos frades franciscanos o controle da paróquia de Divinópolis, tal como consta nas
explicações de Frei Olavo sobre o desenrolar dos acontecimentos:
“Ele nos faz compreender que este centro industrial, ameaçado por propaganda
anticlerical e, quem sabe, comunista, fosse entregue aos cuidados de uma
congregação religiosa. Foi neste sentido que o vigário da vizinha paróquia de
Cajuru, o Pde. José Alexandre Mendonça, insinuou a Dom Cabral de Belo Horizonte
entregar a paróquia de Divinópolis aos Padres Franciscanos. Aliás S. Exa. já estava
tratando com os franciscanos sobre a paróquia de Santa Efigênia do Barro Preto em
Belo Horizonte e mais tarde sobre a de Sabará, quando de repente, em 8 de abril de
1924, lhes ofereceu a paróquia do Divino Espírito Santo de Divinópolis.”36
A iniciativa foi motivada por um conjunto de fatores considerados relevantes tanto
para os frades que recebiam a paróquia como para a arquidiocese que estaria se resguardando
à frente de uma cidade que se projetava cada vez mais no contexto geral de Minas Gerais.
Justificava a medida o fato de os franciscanos receberem uma paróquia importante e
complexa, tendo a cidade potencial para se tornar um centro de ação da Ordem Franciscana e
da Arquidiocese e, por suas características, os franciscanos poderiam evitar as emboscadas
políticas, nas quais quase todos os párocos seculares acabaram se envolvendo. Completando
Berger e Luckman afirmam que os processos sociais implicados na formação e conservação da identidade são
determinados pela estrutura social, sendo que as identidades individuais sofrem sua influência mas também
atuam sobre essa estrutura, mantendo-a, remodelando-a ou modificando-a. Argumentam também que as teorias
sobre identidade estão sempre encaixadas em uma interpretação mais geral da realidade. Sua análise só é
possível quando localizada num mundo de representações e significados (1978: 230-231).
35
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 58.
36
38
essa ação ampla, os frades representariam uma frente de resistência à propaganda protestante
e principalmente espírita.37
É importante salientar que a intolerância do clero local diante do protestantismo e do
crescimento do espiritismo demonstrava uma posição oficial da Igreja Católica frente a esse
fenômeno em todo o mundo, como aconteceu também na luta contra o comunismo
internacional.
Dentre os prejuízos ao equilíbrio social, advindos da avalanche modernizadora,
destacou-se também ameaça comunista, projetando um modelo de justiça social contrário ao
modelo católico e, ao mesmo tempo, afetando a sobrevivência da ordem capitalista já
instalada. Particularmente, para a Igreja Católica, o comunismo representava a proliferação do
ateísmo, do materialismo e o perigo do revolucionarismo, tudo o que punha em risco seu
projeto de “recatolização”, já bastante afetado pelo utilitarismo e individualismo burguês.
Com as instituições capitalistas era possível fazer acordos, estabelecer consensos e
aplicar alternativas reformistas. Mas quanto à proposta socialista e comunista, as
possibilidades de transformação social que defendiam passavam pelo desmonte das
instituições burguesas. Percebendo a incompatibilidade de convivência em função do
antagonismo doutrinário, os documentos papais passaram a explicitar a dissonância entre
sociedade cristã e o caminho materialista apontado pelo movimento comunista. Na Encíclica
Divini Redemptoris de 1937, o papa Pio XI expôs os motivos de discordância da Igreja diante
do comunismo ateu. Procurou denunciar a campanha anticristã promovida pela doutrina
comunista, adepta da revolução social, que estaria seduzindo os humildes com a promessa de
um igualitarismo apoiado no materialismo evolucionista de Karl Marx, o que na encíclica foi
chamado de falso ideal.
“A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais
acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara
de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de
fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a
atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas
falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um
ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 58.
37
39
pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria
anormal de muitos.”38
O Estado e a Igreja aliaram-se no combate ao comunismo no Brasil. Principalmente
depois de 1930, estabeleceu-se o binômio fé católica e pátria brasileira, pressuposto para a
cidadania. A idéia era reparar as injustiças sociais e enfrentar a propaganda comunista,
apoiados num modelo corporativista de ação capaz de garantir a harmonia social.
A adesão ao comunismo foi constantemente denunciada em Divinópolis pelos
franciscanos que atuavam no Círculo Operário. O jornal católico “A Semana” divulgava sobre
a existência de uma célula comunista na cidade e alertava para sua atuação nos movimentos
de ferroviários da Rede Mineira.
Em períodos de greve, há informações sobre a presença de militantes de Belo
Horizonte na cidade, distribuindo boletins e organizando reuniões. Em 1949, adeptos do
comunismo sob a orientação de Evaristo Garcia apoiado por Sebastião Vitorino, Nilton
D’Ávila, Carlos Schimer, João Alves, Bengala, Adão, Sanches, Armando e outros teriam
criado um Comitê Ferroviário e um panfleto chamado “O Apito”.39
Apesar de existirem evidências sobre a atuação dos comunistas na cidade, devido à sua
militância predominantemente clandestina, fica difícil circunscrever com precisão sua
abrangência. O Sr. Evaristo Garcia contou sobre sua atuação junto aos ferroviários:
“Cruzeiro então era o foco maior. Tinha as oficinas em Lavras e Divinópolis. Então
o Partido criou um comitê de ferroviários, mas nenhum de nós era ferroviário. Tinha
que articular readaptar o pessoal que tinha sido transferido de Cruzeiro. [...] A gente
articulava com o Venâncio, o Adão, o Sanches, eles eram lá de Cruzeiro, a gente
discutia as questões dos ferroviários. Eu ficava mais em Lavras e Itajubá, a minha
função era articular, eu tinha habilidade com as mulheres dos ferroviários.”40
(Evaristo Garcia)
Divini Redenptoris – Carta Encíclica de sua santidade o papa Pio XI sobre o comunismo ateu. São Paulo:
Edições Paulinas, 1965 p. 8.
38
Barreto, Lázaro. Memorial de Divinópolis – História do Município. Divinópolis. Divinópolis: Serfor, 1992 p.
102.
39
40
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Evaristo Garcia no dia 18.12.01.
40
O advogado Dr. Simão Salomé era irmão de um dos líderes do Partido Comunista, o
Sr. Francisco Salomé de Oliveira, mais conhecido como Chico Espingarda. Relembrando sua
ação em Divinópolis, acrescenta algumas informações:
“O Garcia era muito atuante, aqui ele deu uma sacudida no Partido, e nessa mesma
ocasião, meu irmão, Francisco Salomé de Oliveira, que tinha apelido de Francisco
Espingarda era da prateleira de cima do partido em Minas e Goiás. Então ele vinha
de Belo Horizonte se encontrar com eles aí, com o Garcia, e haviam poucos
comunistas não ferroviários. [...] O Chico vinha sempre correndo, para encontrar
com os camaradas. [...] O Chico trazia sempre literatura para eles...” 41 (Simão
Salomé)
Retomando a importância dos anos 20 no contexto internacional e para a sociedade
brasileira, deve-se ressaltar que, nessa década, o mundo vivia os resultados da primeira grande
guerra. A doutrina fascista se consolidava na Itália, a vitória do socialismo na Rússia fazia
surgir um modelo de Estado e de sociedade capaz de se contrapor ao modelo capitalista. No
Brasil, o clima era de rupturas; o modernismo trazia a expressão de uma arte que se libertava
das regras e das concepções culturais arcaicas, o movimento operário ganhava nova
orientação comunista, o tenentismo questionava o domínio oligárquico, levantando a bandeira
da moralização política e o predomínio político de São Paulo e de Minas Gerais começava a
ser questionado pelas oligarquias dissidentes, desejosas de assumirem seu papel à frente das
decisões políticas do país.
Os acontecimentos desse período lançaram as bases para as transformações e
definições político-institucionais das três décadas seguintes. No caso da organização do
Estado, a desagregação da República Oligárquica desencadeou a aglutinação de forças dos
grupos dissidentes com a formação da Aliança Liberal, centrada em torno de uma plataforma
política que contemplava reformas sociais, apoio ao desenvolvimento industrial e a definição
de uma legislação eleitoral. Os conflitos que levaram à Revolução de 1930 possibilitaram a
ascensão de Getúlio Vargas ao poder e sua permanência na cena política até a década de 50.
Durante a Era Vargas, o programa da Aliança Liberal foi resgatado e enriquecido com a
influência positivista que Vargas trazia do Rio Grande do Sul e, posteriormente, pela
41
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Simão Salomé no dia 20.11.01.
41
incorporação de aspectos do fascismo italiano ligados ao corporativismo na relação do Estado
com patrões e trabalhadores.
A ruptura provocada pela Revolução de 1930 colocou um fim na hegemonia política
de São Paulo e fez ascender a oligarquia gaúcha ao poder, dominando através de Vargas os
estados e municípios. Esse movimento teve na cidade de Divinópolis a adesão de um grupo
organizado através do Batalhão João Pessoa42, além de uma legião de mulheres que atuou pela
Cruz Vermelha. Após a vitória do movimento, Pedro X. Gontijo, que foi membro do batalhão,
tomou posse como prefeito, nomeado por Olegário Maciel, presidente do estado de Minas
Gerais.43
O Sr. Orozimbo Vasconcelos, atualmente com cem anos de idade, lembra da
arregimentação de forças no município em apoio à Revolução de 1930 e atuou como
participante no grupo de “bate pau” criado para policiar a cidade:
“A polícia daqui foi para a Serra da Mantiqueira, então fizeram um quartel geral ali
onde está o fórum, o presidente era o Pedro Gontijo, os participantes eram Sr.
Juvelino, o José Pinto, o capitão Silva. Veio até farda para eles. Nós fazíamos a
ronda, policiávamos a cidade, na ausência da polícia formamos uma força.”44
(Orozimbo Vasconcelos)
Após ininterruptos 15 anos no poder, assinalado pelo centralismo político que foi
acentuado durante o Estado Novo, esgotaram-se as condições de permanência de Getúlio
Vargas no poder em 1945. O processo de abertura política fez nascer uma estrutura partidária
diferente da experiência regionalizada da Primeira República. Os partidos estruturaram-se em
âmbito nacional e tomaram conta da vida política do país até o golpe de 1964.
Os partidos criados na fase de abertura, promovida a partir de 1945, foram atuantes no
município, com destaque para o tradicional confronto entre o PSD e a UDN. Convergiram as
antigas forças políticas para esses dois pólos.
Esse batalhão de voluntários foi organizado pelo capitão do exército Carlo Pirfo, chegando a contar com 122
membros, apesar de não possuírem material adequado como farda e munição. Era um grupo movido pelo espírito
patriótico, levantado pelo movimento de 1930 em todo o país e pelas notícias que chegavam da capital. Nessa
época foi também organizado um destacamento de paisanos para proteger a cidade, já que o destacamento oficial
havia sido deslocado para a frente de combate (Azevedo e Azevedo, p. 145).
42
43
Gontijo, 1995. p. 50.
44
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Orozimbo Vasconcelos no dia 04.03.02.
42
A Igreja Católica também sofreu uma profunda metamorfose na década de 20,
processo que vinha sendo preparado desde o Movimento de Romanização iniciado no final do
século XIX e que, no Brasil, ganhou impulso com a instalação de uma República laica em
1889. Progressos foram alcançados a partir da liderança de Dom Sebastião Leme como
arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro. Através de sua liderança nessa arquidiocese, foi
lançado o programa de Ação Católica no estado em 1922, criada a Confederação Católica e,
no mesmo ano, realizado o Primeiro Congresso Eucarístico Nacional.
A aproximação da Igreja com o Governo Vargas aconteceu no sentido da colaboração
mútua, já que ambos buscavam moldar a sociedade em torno de algumas referências, tomadas
como fundamentais para a garantia da ordem e do desenvolvimento.
Entre 1945 e 1964, a Igreja canalizou seus esforços em torno da consolidação de sua
autonomia, pelo amadurecimento progressivo da Ação Católica e principalmente pela
centralização das ações institucionais através da criação da CNBB em 1952.
A ação política da Igreja, durante a República, aconteceu primeiramente pela tentativa
de formação de um partido católico45 e depois, entre 1932 e 1946, por meio da Liga Eleitoral
Católica, optou-se por uma organização suprapartidária. O objetivo da Liga era:
“Instruir, congregar, alistar e assegurar a candidatos dos diferentes partidos a
aprovação da Igreja e, portanto, o voto dos fiéis, mediante a aceitação por parte dos
candidatos dos princípios católicos e o compromisso de defendê-los na Assembléia
Constituinte.”46
Em Divinópolis foi criado um núcleo da LEC, cujo decálogo e atividades foram
divulgados pelo jornal católico “A Semana”. Essa entidade investiu mais na propagação de
um discurso anticomunista na década de 40, combatendo a atuação legal do Partido
Comunista, conquistada na abertura política de 1945. Essa tendência refletia uma
Oscar Lustosa explica que entre 1909 e 1911, após o impacto da ruptura imposta pela instalação de uma
República liberal laica, a Igreja investiu na formação do Partido Católico para que fossem eleitos deputados e
senadores católicos capazes de lutarem pelas prerrogativas da comunidade eclesial no legislativo. Formou-se um
diretório central no rio de Janeiro, organizando bases em todos os estados onde funcionavam diretórios regionais
e locais. Foram lançados manifestos, programas, circulares, além da formação de chapas. Seus resultados não
foram imediatos, servindo porém, como força mobilizadora dos leigos em torno do projeto político da Igreja.
(Lustosa, Oscar de Figueiredo. Igreja e política no Brasil – do partido católico à LEC 1874-1945. Loyola, São
Paulo, 1983 p. 12-13).
45
46
Bandeira, 2000. p. 43.
43
característica geral da LEC nesse período, talvez acentuada em Divinópolis em função do
caráter operário da cidade.
Os franciscanos foram responsáveis por dinamizar a ação da Igreja em Divinópolis e
região, desenvolvendo atividades que afetavam as várias manifestações da vida social no
âmbito público e privado, seguindo as orientações traçadas pelas instâncias superiores. Como
agentes multiplicadores da presença religiosa na rotina da cidade, assumiram vários
empreendimentos nos campos político, social e cultural necessários para a garantia de
preservação e ampliação do espaço institucional da Igreja Católica no município e região.
1.2 A Ordem de São Francisco: inspiração da Ação Católica
“... Parece lícito afirmar que jamais houve em quem brilhasse mais viva e mais
semelhante a imagem de Jesus Cristo e a forma evangélica do que em Francisco.”47
Na virada do século XII para o XIII, período em que a Europa Medieval passava por
um processo de transformação profunda, marcado pelo aumento populacional e por um certo
dinamismo urbano, São Francisco lançou os fundamentos de um apostolado voltado para a
nova sociedade cristã em processo de formação, inovando no modelo da prática de vida
religiosa centrado na pobreza, na humildade e no uso da palavra. O franciscanismo
transformou-se num grande movimento religioso que, diferente das ordens mendicantes
tradicionais, rompeu com o isolamento próprio do monaquismo, colocando seus membros em
contato direto com o mundo (Le Goff, 2001:101-125).
No princípio, até 1217, não se pode falar de uma organização propriamente dita. Na
Primeira Regra, São Francisco propõe que os frades não tivessem autoridade e nem
dominação alguma; deveriam obedecer-se mutuamente. Até a introdução do noviciado, em
1220, o ingresso na Ordem acontecia mediante a vestição do hábito e do cordão. A prova de
vocação era a renúncia aos bens e a dedicação à caridade (Iriate, 1985:45).
Pio XI na sua encíclica “Rite Expiatis”, sobre São Francisco patrono da Ação Católica (Revista de Santa Cruz
Ano XIII, 1948 p. 21.)
47
44
Os frades menores eram encaminhados para a atividade apostólica sempre de dois a
dois, reforçando a idéia de obediência para que juntos rezassem o divino ofício. Mantinham
assim um costume dos religiosos de não saírem sozinhos, para evitar os perigos morais e
corporais próprios ao contato com a realidade social.48
A obra franciscana, espalhando-se pelo mundo, levou aos lugares mais distantes um
estilo apostólico idealizado por São Francisco de Assis que, ao criar a Ordem em 1210,
procurou torná-la reconhecida pela Igreja de Roma:
“No ano de 1210, São Francisco escreveu “paucis et simplicibus verbis” a vida
“secundum envangelii” que o Altíssimo lhe revelara, e foi com os seus primeiros 11
discípulos à Roma para pedir a aprovação da Santa Sé. Inocêncio III aprovou
oralmente seu modo de viver, Francisco lhe prometeu obediência, e os demais
irmãos a prometeram a Francisco. O Papa deu-lhes ainda licença “praedicandi
paenitentiam” e o Cardeal João de São Paulo fez-lhes dar a tonsura, para que
pudessem exercer com mais liberdade o seu apostolado.”49
Quando o texto de sua regra foi apresentado ao Papa Inocêncio III, este mostrou-se
impressionado com a disposição de Francisco em acatar o evangelho integralmente. Aprovou
a organização dos frades, mandou tonsurar todos eles que eram leigos, conferindo a Francisco
o diaconato. A primeira Regra de 1221 foi retocada a pedido do papa e do cardeal Ugolino,
cujas alterações originaram a Regra de 1223, passando ainda por retoques feitos pelo cardeal e
aprovada pelo Papa Honório III pela bula Solet annuere50, conhecida em função disso pelo
nome de Regula bullata (Le Goff, 2001:73-86).
48
Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955 p. 33.
Van Der Vat, Odulfo. História Franciscana – Província Franciscana de Santa Cruz. Belo Horizonte: Província
Franciscana de Santa Cruz, 2001 p. 65.
49
Le Goff expõe sobre a insatisfação de Francisco quanto às deformações impostas à sua proposta, tendo sido
suprimidas as passagens líricas e prevalecendo em seu lugar fórmulas jurídicas. Foram alteradas também
proposições relativas a pobreza rigorosa, ao trabalho manual e sobre a posse de livros pelos frades. O autor
destaca sobre as versões biográficas do santo, prevalecendo a escrita oficial autorizada pela Igreja feita por São
Boaventura, que apresenta um Francisco mais resignado. Entretanto, registros exlicitam que o mesmo
demonstrava insatisfação quanto ao caráter institucional imposto à Ordem. Uma demonstração dessa
discordância aparece no Testamento de São Francisco, escrito entre 1225 e 1226, tentando através dele, ferir um
conjunto de prescrições que haviam sido suavizadas na Regra de 1223. Essa tentativa foi infrutífera diante da
medida do papa Gregório IX, que através da bula Quo elongati, anulou essas prescrições em 1230 (Le Goff,
2001).
50
45
Partindo da Itália, espalharam-se pelo mundo através das províncias51 com a missão de
cumprir o evangelho e de multiplicá-lo em obras:
“Ainda não tinham passado sete anos depois da aprovação papal, e já os
franciscanos se espalharam para fora da Itália.Vemo-los em grupos, atravessar os
Alpes, dirigindo-se para a Espanha e Portugal, França e Alemanha, Holanda e
Inglaterra, e até atravessar os mares para converter os infiéis nas terras do
paganismo.”52
A Ordem instituiu-se no sentido canônico da palavra pela adoção das Regras
definidoras do noviciado, da profissão dos três votos, do uso do hábito e da definição de um
governo próprio. A obediência às Regras foi um traço original da Ordem, que em geral
estabeleceram a vida evangélica e católica e em particular o cultivo das virtudes: pobreza,
humildade, caridade abnegação, vida voltada à oração e ao apostolado.53
A Regra de 1223 estabeleceu um sistema misto clerical e laical com ofício divino para
ambos e definiu as linhas gerais do modo de viver e do sistema de governar da Ordem, através
do ministro geral, dos ministros provinciais e dos custódios, além de estabelecer detalhes
relativos ao funcionamento da Ordem (Van Der Vat, 2001:72-74).
A Ordem foi fundada para ser laical e no começo, muitos superiores eram leigos.
Ocorreu uma mudança em 1239, quando os governos adaptaram-se à evolução clerical e os
leigos foram excluídos do ofício de superior e do governo em geral.54
A pobreza ocupa o primeiro lugar na Regra como imitação da vida de Cristo:
“... vivendo sem propriedade” (cap. 1); os candidatos à ordem vendam tudo o que
possuem, e tratem de o distribuir entre os pobres; mas, se não o puderem, basta-lhes
De acordo com Iriate, a organização de províncias vem da idéia de comunidade itinerante que se move e atua
numa região sob a direção do ministro provincial. A conseqüência dessa divisão foi a expansão da Ordem para
fora da Itália e no Oriente. Representou uma estrutura que manteve o caráter unitário e centralizado da Ordem,
permitindo um mínimo de organização regional (Iriate, 1985:51 e 115).
51
52
Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, junho de 1934 p. 3.
53
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, setembro de 1954 p. 120-121.
54
Revista de Santa Cruz, Ano XX, outubro de 1955 p.
46
a boa vontade” (cap. 2); “os irmãos não tenham propriedade sobre coisa alguma,
nem sobre casa, nem lugar, nem outra coisa qualquer” (cap. 6)”.55
Através do “capítulo provincial” são tomadas as decisões sobre o funcionamento das
províncias, por meio de deliberações e estudos, examinando todas as questões referentes ao
progresso material e espiritual da organização. Cabe ao capítulo também a eleição do governo
provincial, do ministro, do custódio e dos definidores:
“O capítulo provincial é um congresso de frades da Província para deliberar e
estudar todas as questões atuais, visando um ambiente favorável ao bem comum:
disciplina regular, apostolado, formação por meio de uma boa administração. O
principal portanto, do capítulo não são as eleições e nomeações, e sim as
deliberações, resultando em decretos e ordenações, projetos etc. [...] Compete,
portanto, ao capítulo estudar a situação da Província, indicar o rumo a seguir, tomar
as medidas e baixar os decretos necessários, e afinal, eleger as pessoas mais
indicadas para executar “suaviter et fortiter” o que ficou resolvido.”56
À medida que o número de irmãos crescia, a definição sobre o tamanho das casas foi
alterando as concepções iniciais propostas por São Francisco. Apesar da Regra não dispor
sobre o tamanho das casas, São Francisco propôs comunidades pequenas, mais suscetíveis ao
cumprimento do voto de pobreza. Entretanto, a formação científica dos noviços e clérigos
jovens impôs a ampliação dos espaços voltados também para a formação dos irmãos. As casas
possibilitaram a vida comum e passaram a distinguir-se pela função, os Guardianatus ou
“conventus formatus”, caracterizados pela vida comum e pela existência de religiosos
professores. Existia também a Residentia ou “conventus non-formatus” e o Hospitium, onde
os frades não moram habitualmente.57
A partir das C.C.G.G. de 1953, as casas da Ordem passaram a organizar-se em duas
categorias: os conventos e as casas filiais. Os conventos representam uma “casa formada” ou
“guardianato”. Neles o ofício coral e os demais exercícios da vida religiosa se realizam com
regularidade. As casas filiais não são canonicamente eretas e passaram a ser mais comuns em
função das exigências do apostolado moderno.58
55
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, setembro de 1954 p. 121.
56
Revista de Santa Cruz, Ano XX, novembro de 1955 p. 180.
57
Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955. p. 33-35.
58
Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955. p. 35-37.
47
O sentido apostólico da vida franciscana levou a Ordem a espalhar-se, aprimorando-se
internamente, e a assumir uma missão pública, criando províncias responsáveis pela formação
dos irmãos, investindo, portanto, no apostolado interno, fundamental para a preparação do
apostolado externo: “E convém lembrar que todo apostolado externo da nossa Ordem ou
Província depende do apostolado interno e de seu resultado, ou seja, o bem estar geral da
Ordem ou Província”. 59
São Francisco iniciou um movimento que nasceu moderno, uma vez que seu tempo lhe
impôs uma conduta de enfrentamento das inovações, num período marcado por lutas sociais e
políticas constantes. A sociedade feudal mostrava sinais de declínio no alvorecer do século
XIII. Na Itália, e em outras regiões da Europa mais expostas ao comércio, surgiam as
comunas. Ocupadas por artesãos e comerciantes, apresentavam uma nova dinâmica urbana
movimentada por economia monetarizada, ensaiando novas formas de organização políticoadminstrativa e exigindo novas condutas éticas e religiosas (Iriate, 1985:33).
A Igreja soube capitanear a força apostólica e de inspiração evangélica do
franciscanismo no momento da emergência do novo na sociedade medieval, percebendo sua
capacidade de reforçar a doutrina cristã. Promoveu sua dispersão entre pagãos e desgarrados,
num momento em que caberia à Igreja de Roma reforçar sua presença para enfrentar o
advento de uma sociedade que se tornaria urbana, mercantil e aberta à mentalidade utilitarista
e individualista diante do mundo.
A figura São Francisco foi ressignificada no momento em que a Igreja teve que lidar
com a modernidade já consolidada pelo industrialismo e pelo individualismo, expressões da
sociedade capitalista. A doutrina liberal, esteio dessa estrutura dominante em expansão, fez
emergir contradições nas relações sociais, na forma de organização do poder político e nas
expressões culturais em um nível de complexidade tal, que colocou em risco o valor da
religião, provocou uma onda de secularização e o surgimento de teorias doutrinárias voltadas
para a compreensão das conseqüências nefastas desse modelo. Estudos voltados para os
problemas sociais decorrentes da industrialização e da urbanização fizeram nascer teorias no
campo da economia política e das ciências sociais, na tentativa de dar explicações e apresentar
alternativas para o mundo que se configurava a partir do século XIX. Nesse viés, observa-se o
positivismo proposto por Augusto Comte, o anarquismo, o socialismo utópico e o socialismo
59
Revista de Santa Cruz, Ano XX, junho de 1955. p. 82.
48
científico de Marx e Engels, além de propostas de organização e de luta para a classe
trabalhadora, no sentido de que ela se emancipasse dos grilhões impostos pela exploração
capitalista.
Os caminhos traçados pela sociedade moderna apontavam para o individualismo
burguês, para o revolucionarismo e para uma tendência à laicização da sociedade, os quais
ameaçavam o poder e o espaço social anteriormente controlados pela Igreja. A hierarquia foi
levada, em função das circunstâncias, a esboçar um projeto de recuperação religiosa, a partir
da definição de sua doutrina social e de um movimento sistemático de recristianização das
instituições sociais.
Uma sucessão de documentos papais assinala a posição conservadora da Santa Sé
frente às transformações do mundo moderno. Pio IX foi incisivo ao apresentar a Encíclica
Quanta Cura e o Syllabus Errorum de 1864, que continham a relação dos 80 principais erros
do modernismo60, além da eclesiologia definida pelo Concílio Vaticano I61, que estabeleceu a
idéia da Igreja como “sociedade perfeita”, sustentada na autoridade papal. Leão XIII fez a
Encíclica Immortale Dei de 1885 e posteriormente o Papa Pio X reforçou a supremacia do
poder espiritual ao instituir o princípio católico de “Restaurar tudo em Cristo”, sustentado no
Decreto “Lamentabile” de 1907 e na Encíclica Pascendi Dominici Gregis de 1908. Como
parte dessa Encíclica destaca-se:
“... Contudo há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o
número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais com artifícios de todo ardilosos, se
esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado
lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não nos é lícito calar para não
“O termo aparece pela primeira vez numa carta pastoral dos bispos italianos de Turim e Vercelli, de dezembro
de 1905. Na sua Encíclica Pascendi (1907), Pio X (1903-14) define globalmente o fenômeno como a síntese de
todas as heresias”. (Matos, 1990: HI 88, p. 1.)
60
Henrique Matos distingue historicamente vários modelos de Igreja. A Igreja pós Trento, entre os séculos XVI
e XVII, se sustentava na posição de “sociedade perfeita” a partir de uma eclesiologia voltada para a
infalibilidade papal, uma imagem fortemente apologética e extrínseca. Após a Revolução Francesa, ela reage
contra o liberalismo por meio do fortalecimento da figura do papa e pela defesa da monarquia, porém se
resguardando do regalismo. Ganham força os movimentos ultramontanos. Depois do Concílio Vaticano I (186970), prolonga-se a tradição tridentina no “triunfo da verdade fé” contra as forças do mal, insiste numa visão
verticalista da Igreja, preservando o dogma da infalibilidade. Em decorrência de uma mudança de mentalidade,
devido à experiência da Primeira Grande Guerra, surge um novo posicionamento voltado para uma imagem
eclesiástica, pela recuperação das dimensões sobrenaturais e místicas da Igreja, por uma vida comunitária,
desenvolvendo-se a eclesiologia do “Corpo Místico”. Não se restringindo mais a tratados teológicos, se
expressando na renovação litúrgica e na pastoral, nesse contexto, o povo cristão ganha relevância, delineiam-se
os primeiros passos da “Ação Católica”, oficializada no Brasil em 1935. (Matos, 1990. p. 145-152)
61
49
parecer faltarmos ao nosso santíssimo dever, e para que se nos assaque a descuido de
nossa obrigação a benignidade de que na esperança de melhores disposições, até
agora usamos.”62
No pontificado de Pio XI nas décadas de 20 e 30, reforçando o enfoque cristocêntrico
na reimplantação do Reino de Cristo, a Igreja assumiu uma mudança de modelo pastoral antes
voltado para uma dimensão espiritual e sacramental da Igreja, para uma perspectiva de
atuação apostólica direta do laicato levado à militância, aplicado pelo Movimento de Ação
Católica. O termo já havia sido usado por Leão XIII, designando a articulação de leigos
católicos; o Papa Pio X percebia a ação católica no sentido da solução da questão social63, tal
como foi apresentado na Carta Encíclica aos bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação
Católica em 1903. Nesse documento, o pontífice ressalta a necessidade da dilatação do Reino
de Deus nos indivíduos, nas famílias e na sociedade através do exercício das virtudes cristãs e
através de obras de caridade e de misericórdia espiritual e corporal. Uma falange de católicos
atuantes deveria lutar contra a civilização anticristã para restabelecer o princípio da autoridade
humana como representante de Deus, seguindo as proposições da Rerum Novarum e buscando
a solução da questão social por meio de um movimento social católico voltado para as obras
católicas que deveriam destinar-se para a promoção do bem estar social.64
A Ação Católica ganhou impulso e foi institucionalizada por Pio XI na década de 20,
momento em que na Bélgica o Padre Joseph Cardijn propunha um apostolado no meio
operário através da Juventude Operária Católica baseado numa formação na ação e pela ação
(Matos, 1990:197). Os leigos participantes da Ação Católica passaram a receber da hierarquia
eclesiástica um mandato, ou mais especificamente, uma missão oficial como colaboradores
diretos no trabalho espiritual e pastoral da Igreja.
Ao ser instituída, a Ação Católica representava a intervenção especializada da Igreja
em várias frentes, numa perspectiva de “restauração católica”, enfrentando a secularização do
mundo moderno. Mais uma vez a inspiração franciscana serviu aos propósitos da Igreja pelo
restabelecimento de sua influência social, num apelo aos valores espirituais, pela prática
62
Matos,1990: HI 89. p.1
63
Matos,1990. p. 196
64
Documentos Pontifícios Sobre os Fundamentos da Ação Católica. III Edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1959.
50
sacramental e compromisso com a caridade, elegendo São Francisco como o símbolo da Ação
Católica.
1.3 A Província de Santa Cruz e a presença dos frades em Divinópolis
“Partindo de Maastricht aos 13 de abril de 1900, tomaram em Bordéus o vapor
“Brésil”, e fazendo ótima viagem, aportaram no Rio de Janeiro nesta data para nós
sagrada: 7 de maio de 1900.”65
A presença dos frades franciscanos no Brasil remonta ao descobrimento e antecede ao
trabalho missionário mais conhecido durante a colonização que foi o da missão jesuítica. Na
armada de Cabral estavam oito franciscanos e, posteriormente, estiveram presentes em
expedições isoladas até se estabelecerem definitivamente a partir de 1585:
“... A Ordem Seráfica entrou no Brasil juntamente com os descobridores
portugueses. Na armada de Pedro Alvares Cabral, que em 1500 deitou âncora em
Porto Seguro, estavam presentes os Frades Menores sob a direção de Frei Henrique
de Coimbra. Um deles celebrou a primeira Santa Missa em solo brasileiro e, como
Cabral ocupou o país em nome do rei de Portugal, plantou ali Frei Henrique um
grande cruzeiro e tomou posse do Brasil em nome de Cristo-Rei.”66
A primeira instalação definitiva da Ordem franciscana aconteceu no ano de 1585 em
Olinda, a pedido do donatário Jorge Albuquerque Pereira, pela intermediação do Rei Felipe II,
cuja permissão obteve do Ministro Geral Frei Francisco Gonzaga, quem instituiu a Custódia
de Santo Antônio do Brasil dependente da Província de mesmo nome sediada em Portugal. Já
em 1600, possuía a Custódia, cinco conventos e várias missões no nordeste.67
Em meados do século XVIII, as duas Províncias Franciscanas existentes no Brasil
contavam com cerca de 500 religiosos. Houve o fechamento dos noviciados decretado pelo
Marquês de Pombal em 1764 e a completa supressão das Ordens por Dom Pedro II em 1855,
65
Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950 p. 75.
O autor usa a expressão Cristo Rei já influenciado pela proposta de sua época, pois no período em questão
ainda não havia essa concepção e esse fundamento eclesiológico (Staphorst, 1924. p. 17.)
66
67
Revista Elo Seráfico Ano IV, nº 1, maio de 1954 p. 19-20.
51
chegando a reduzir a Província da Imaculada Conceição no Rio de Janeiro a um só frade e a
de Santo Antônio a nove frades em 1891(Willeke, 1977:135).
Posteriormente foi importante a chegada de franciscanos holandeses, definida a partir
de um pedido feito em junho de 1899 à Província Neerlândica dos Mártires Gorgomienses
pelo bispo de Manaus Dom José Estevão Lourenço de Aguiar, ao Padre Provincial da
Holanda, Frei Estevão van de Burgt. A missão no Amazonas foi assinalada por grandes
dificuldades: “Os três valentes missionários vieram cheios de entusiasmo e ardor para
ganhar almas a Cristo, mas... o clima, a doença, os travou.”68
O envio de religiosos para o Brasil fazia parte de toda uma reestruturação da Igreja
ocorrida em meados do século XIX, momento que houve uma centralização das decisões em
Roma, coincidindo com a mudança de direção política associada a sua posterior conduta
frente às questões sociais. Frei Bernardino Leers explica esse processo no campo da moral,
demonstrando como esse reordenamento influenciou a vinda dos franciscanos holandeses para
o Brasil:
“Roma sempre foi o centro da Igreja desde Pedro. A partir de então, ela se
desenvolve como um centro, mas nunca havia sido elaborada uma forma de poder
hegemônico de Roma sobre o resto do mundo. [...] Toda a problemática moral passa
posteriormente sobre o poder hegemônico de Roma. [...] A Igreja já cuidava de sua
autoridade sobre a fé e os costumes litúrgicos, mudando naquele tempo, 1850, o
poder da autoridade eclesiástica, deixando de ser somente a fé. Os costumes
litúrgicos como batizar, celebrar missas passam a atingir uma moral total. Significa
que qualquer questão moral, ao final, com a institucionalização do Santo Ofício
naquele tempo, simplesmente passou a ser decidida em Roma.”69 (Frei Bernardino
Leers O .F. M)
De acordo com Frei Bernardino, a visão missionária do século XIX estava relacionada
com os propósitos da Igreja de se fazer presente no mundo:
“Houve necessidade de iniciar missões por parte da Igreja, no final do século XIX e
início do século XX, período em que os franciscanos holandeses entraram no Brasil.
A organização católica, mais fortemente centralizada, assumiu a idéia de que
precisávamos realmente retomar a vocação original de Mateus, de ensinar a todos os
povos. [...] Surge uma nova consciência universalizante nas próprias Igrejas locais.
Os três valentes mencionados na crônica foram os padres Frei Adalberto Woolderink, Frei Gonzaga
Gouverneur e o irmão Frei Oto Vervoot (Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950 p. 74-75).
68
69
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
52
Inicia-se um élan missionário, de converter povos, persuadí-los a participar do
Corpo Místico, que é evidentemente um simbolismo. No próprio contexto da
colonização da África e da Índia, ocorre uma abertura das Igrejas locais com o
intuito de conquistar novos povos, não só para a dominação econômica ou expansão
política dos Estados, mas também difunde-se a idéia de que precisava-se apresentar
a religião católica a esses povos conquistados. Dentro desse sistema global floresce
a questão das missões, dissuadindo a província holandesa, ao final do XIX, de modo
a enviar representantes para a China, Índia, Java, Indonésia e Brasil.”70 (Frei
Bernardino Leers O .F. M.)
Houve uma preocupação em investir em pessoal bem formado; o mundo secularizado
e modernizado, de certa forma, exigia uma ação missionária melhor preparada, garantindo o
espaço da Igreja frente ao Estado e à sociedade, movida pela idéia de progresso. Essa
iniciativa na Holanda foi comentada por Frei Bernardino:
“O interessante é que essa idéia vai funcionar também no âmago da Igreja. A
Província Holandesa, por exemplo, inicia o envio de representantes para estudar nas
universidades, de modo a conquistar dentro do território nacional uma melhor
posição, com o intuito de resgatar os grupos que saíram: os intelectuais. É a partir
daí que a Holanda, por exemplo, fundou a Universidade Católica. Só no fim de 30 e
40 começa a nascer na Holanda a idéia de que deveria se fazer a mesma coisa nas
colônias, mandar gente capacitada em primeiro lugar para a formação de clero. Foi
uma tática da Igreja, das ordens religiosas na Holanda, de formar gente que iria
trabalhar em seminários. Se eu estou aqui, afinal de contas, é resultado dessa prática.
Mas para fundar escolas, eles entenderam que não era suficiente juntar o povo.
Fazia-se necessária a penetração por cima, simplesmente colocando o clero, irmãos,
religiosos, num nível de intelectualidade no país. A nossa vinda aqui, holandeses, é
baseada nisso. Era a expansão holandesa, acrescida de pedidos daqui, uma vez que
havia aqui, carência de sacerdotes e a necessidade de preencher o quadro funcional.
Não era propriamente uma mentalidade de missionários; a mentalidade holandesa
pode ser, mas a partir de uma tendência de criar escolas como foi o caso de São
João, depois Pará de Minas, Teófilo Otoni, Nanuque, Divinópolis etc.”71 (Frei
Bernardino Leers O .F. M.)
Uma leva de frades holandeses partiu em direção ao sudeste atendendo a pedido do
bispo de Petrópolis, missão assumida pelos padres Frei Rogério Burgers e Frei Frederico
Voorvelt. Foram esses os fundadores do Comissariado que originou a Província de Santa
Cruz.72
70
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
71
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
72
Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950, p. 74-75
53
De início, o Comissariado chamou-se “Comissariatus B. M. V. Imaculate Conceptae”,
um conselho provincial reunido em São João Del Rei em 1941, adotando o nome oficial
Comissariado da Santa Cruz dos Frades Menores no Brasil, com festa titular celebrada no dia
3 de maio na época; hoje acontece no dia 14 de setembro a festa de Exaltação da Santa Cruz.73
O prelado brasileiro solicitava sempre o envio de religiosos devido à falta de padres
nas paróquias, fato relacionado em parte à dificuldade enfrentada pela Igreja no Brasil por
causa da carência de vocações. Dom Silvério Gomes Pimenta, Bispo de Mariana, foi atendido
em 1903, quando da entrega de uma paróquia em Ouro Preto para os frades menores que
fundaram a primeira casa de Minas Gerais, estado onde o trabalho franciscano cresceu, como
foi abordado por Frei Sabino Staphorst Staphorst: “... A fundação de uma casa no
montanhoso e saudável Estado de Minas Gerais, salvou o futuro da nossa missão, a qual, por
momentos, esteve na iminência de ser supressa pelas dificuldades e falecimentos”.74
A administração de Dom Antônio dos Santos Cabral à frente da arquidiocese de Belo
Horizonte, instituída em 1924, foi totalmente voltada para os propósitos de recristianização
definidos pela Igreja. Por seu intermédio, várias ações projetaram Minas Gerais como um
pólo da Ação Católica no país: a organização da diocese estabelecendo seu patrimônio e a
criação do Seminário Coração Eucarístico, a instalação de um Conselho de Imprensa em 1923
para a fundação de um jornal católico mais atuante como foi “O Diário”, a construção da
Catedral e do Palácio do Cristo-Rei, sediando o segundo Congresso Eucarístico Nacional em
1936 e o acompanhamento de perto da vida das paróquias através de visitas pastorais.75
O arcebispo tomou a decisão de colocar a paróquia do Divino Espírito Santo em
Divinópolis sob responsabilidade dos frades franciscanos. A predominância de holandeses
delineou um perfil peculiar na relação estabelecida entre os religiosos e o povo do lugar.
O primeiro vigário franciscano de Divinópolis foi Frei Hilário Verhey, que chegou à
cidade em agosto de 1924, já tomando iniciativa no sentido de criar uma infra-estrutura
adequada para abrigar a Ordem Seráfica no município:
73
Revista Elo Seráfico Ano IV, nº 1, maio de 1954, p. 55.
74
Staphorst, 1924. p. 27.
75
Matos, Henrique 1990. p. 395-411.
54
“Em julho de 1924 fr. Hilário Verhey é nomeado 1º Superior, em 22 de novembro
ocorreu a primeira ereção Canônica da nova residência. [...] Em janeiro de 1925,
muda-se para Divinópolis, onde ocupou uma casa provisória. Com a presença do Pe.
Comissário, tornou-se Divinópolis centro do Comissariado. A construção de um
novo colégio começou em agosto e recebeu a bênção solene em 8 de setembro de
1926. No dia 1 de junho de 1928 benzeu-se a última parte do Colégio.”76
A preocupação com a criação de um seminário seráfico no Brasil resultou na criação
da primeira casa de formação em 1922, após visita do M. R. P. Provincial da Holanda Simão
Bennenbroek. O Pe. Fr. José de Haas abriu uma escola apostólica em Araçuaí com a intenção
de iniciar um noviciado. Esta escola transferiu-se em janeiro de 1924 para uma dependência
do ginásio Santo Antônio em São João Del Rei com oito seminaristas. O seminário acabou
sendo transferido para Divinópolis no ano seguinte. E, em 1931, mudou-se para o Rio Grande
do Sul, instalando-se em Taquari com 23 alunos.
O colégio tem uma história marcante apesar de sua curta permanência na cidade. O
terreno foi doado pelo poder público local no período em que o Sr. Pedro X. Gontijo era
prefeito e ele mesmo negociou a construção de um colégio nos moldes de São João Del Rei.
Entretanto, o colégio criado em Divinópolis para formação seráfica não pôde permanecer na
cidade por falta de vocações que o preenchessem, o que motivou a decisão dos superiores de
transferí-lo para o Rio Grande do Sul, região conhecida pela manifestação mais comum das
vocações sacerdotais. Pedro X. Gontijo, em seu livro sobre a História de Divinópolis77,
explicou como se deu a instalação dos franciscanos e a questão do colégio:
“Em outubro de 1924, a Casa Santo Antônio de Ouro Preto, dos nossos atuais
franciscanos, desejando estabelecer-se entre nós, pediu-me terreno para esse fim.
Concordei, mas com a condição dos srs. Franciscanos trazerem o seu ginásio de São
João Del Rei ou instalarem com urgência um ginásio entre nós. Concordaram e
ficaram satisfeitos.[...] Eu mesmo formulei a lei e a entreguei ao Presidente da
Câmara para que a fizesse aprovar. E o presidente traiçoeiramente retirou o artigo da
obrigação dos Srs. Franciscanos, ficando o terreno de mão beijada”.
As dificuldades de manutenção do colégio na cidade devido a problemas em seu
funcionamento e à dificuldade de torná-lo eficiente em sua função de atrair jovens aspirantes
ao sacerdócio foram comentadas por Frei Helano Van Koppen:
76
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, novembro de 1949 p. 173.
77
Gontijo,1995. p. 47.
55
“O seminário então começou, ainda no casarão, a sua rotina de sempre: oração,
aulas, estudo, música, teatro, esportes, piqueniques, entrada e saída de estudantes, e
um novo professor, frei Zaqueu Símons. No dia 16 de junho de 1926, com 16
seminaristas, mudaram-se para o novo prédio com sua frente e ala esquerda já
prontas. A ala direita ficou pronta em junho de 1928. O seminário já podia trabalhar
a todo vapor. A formação espiritual e intelectual era, na concepção geral da época,
muito boa. Os próprios confrades das nossas paróquias reconheciam isso. Eles,
porém, e diversos pais de seminaristas se queixavam do excesso de rigor e
severidade ao lado de falta de carinho e compreensão para com os jovens candidatos
que, as vezes, eram despachados com certa facilidade e ainda sem a devida
consideração para com os pais e vigários responsáveis.”78
Essa rigidez apontada por Frei Helano foi tratada por Riolando Azzi na abordagem
que fez sobre a formação sacerdotal no Brasil, mostrando uma tendência definida no século
XIX na fase de romanização, modelo que prevaleceu até os anos 30. Os seminários em regime
de internado mantinham uma rígida organização, guardando forte semelhança com a
formação militar em prejuízo da individualidade e da criatividade dos internos, mantendo uma
tendência de uniformidade destacando-se a ordem e a disciplina. Desde Dom Macedo Costa
as vocações eram prioritariamente buscadas na zona rural, dada a pureza dos pretendentes
ainda não contaminados pelas idéias avançadas dos centros urbanos. Prevalecia uma rígida
ética puritana voltada para a formação de padres santos, comprometidos com o culto divino e
com a pregação da doutrina católica; Havia uma rejeição explícita a manifestações de
sexualidade e evitava-se nos seminários o uso do vocábulo mulher. A formação eclesiástica
guardava um caráter apologético, com uma formação intelectual voltada para o fortalecimento
da vocação sacerdotal (1992:72-90).
Segundo Frei Helano, foi Frei Simão Bennenbroek o grande estimulador da criação de
seminários da Ordem. Já havia fundado o Seminário Francisco Solano na Holanda em 1921,
quando em seguida embarcou para o Brasil e como estratégia, apoiou a fundação das Ordens
Terceiras com o intuito de ampliar o número de famílias franciscanas sementeiras de
vocações. Foram criados os seminários de Araçuaí e São João Del Rei, onde já existia o
Ginásio Santo Antônio, o qual teve Frei Paulo Stein como reitor fundador. Após acordo com o
arcebispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Frei Paulo Stein e Frei Júlio Berten
que eram respectivamente Comissário e Vice-Comissário autorizados pelo Provincial da
Holanda e apoiados pelo arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral,
78
Van Koppen, 1950. p. 14 -15.
56
transferiram o Seminário para Divinópolis, que acabou sendo depois transferido. Mas passou
a sediar a partir de 1931, o Curso de Teologia, que recebeu a primeira turma de clérigos em
outubro; os frades que já vinham como sacerdotes ficavam por um período assimilando a
língua portuguesa. Em 1939, os superiores criaram um novo noviciado em Taquari e Daltro
Filho; a partir de 1942, constituiu-se em Casa do Noviciado e de Filosofia.79
Ao relembrar esse período, Frei Helano, hoje com 94 anos, procura reconstituir sua
experiência enquanto membro do primeiro grupo de cinco clérigos frades estudantes que
completariam sua formação no Curso de Teologia a partir de 1931, momento em que a
Residência foi transformada em Convento, tendo como primeiro Guardião Frei Pacômio.
Contou sobre a posição de Dom Cabral e sua presença na ordenação dos novos sacerdotes:
“Ele permitiu que nós clérigos já fossemos ordenados padres depois do terceiro ano
de teologia, quando era costume fazer isto depois do quarto ano de teologia. Então
no dia 29 de outubro de 1933, ele chegou com frei Rufino. Foi uma festa muito
bonita, o Santuário de Santo Antônio ainda estava em construção, nós fomos
ordenados na matriz do Espírito Santo, cheia de gente. [...] Lembro de minha
primeira missa, foi na capela do bairro Esplanada. Fui acompanhado por frei Sabino
Staphorst e celebrei minha primeira missa que foi muito bonita.”80 (Frei Helano Van
Koppen)
Ainda como parte de sua experiência registrada em seu livro, conta sobre a chegada
dos estudantes ao Rio de Janeiro em 1931: “Na noite de 18 de outubro, avistamos, ainda de
muito longe, a cidade maravilhosa com o Cristo-Redentor do Corcovado, todo iluminado e
inaugurado naquele mesmo dia”.
A conclusão da viagem, com a chegada e instalação no convento de Divinópolis em 25
de outubro, foi descrita com detalhes, como se os jovens já percebessem as peculiaridades do
lugar:
“O nosso padre mestre, Frei Eurico Peters nos deu as boas vindas, arranjou uns
carregadores para as malas mais pesadas, deixamos Frei Paulo no meio do povo e
fomos andando com Frei Eurico, subindo sempre à esquerda em ruas e praças mal
iluminadas e sem calçamento; primeiro atravessando em diagonal a praça da
estação, depois uma rua, ainda mais uma praça enorme, sem nada de enfeite, de lado
umas casas, uma escola, uma casa com placa na parede e letreiro na calçada “Loja
79
Revista Elo Seráfico, Ano I, julho 1951 p. 64-65.
80
Entrevista realizada pela autora com Frei Helano Van Koppen O. F. M no dia 24.05.01.
57
Maçônica”, mais adiante “Lourival Dentista”. Quase em cima, no fim dessa praça
enorme, um tempo “Primeira Igreja Batista”. Dobramos para a esquerda mais um
vez: a capelinha de Santo Antônio e logo ao seu lado, o nosso convento.”81
Os franciscanos tomaram a frente da administração paroquial e sua presença
institucional foi marcante pelo trabalho pastoral e pela instalação do convento, seminário e
escola de formação superior.
A formação científica dos clérigos foi resultante do próprio processo de
institucionalização da Ordem e de seu comprometimento com a Igreja Católica, suprindo sua
necessidade de ampliar o número de sacerdotes capazes de assumir a pregação da doutrina.
Na verdade, São Francisco de Assis inspirou um movimento de religiosos irmãos sem
pretensões de clericalização. Mas aos poucos, houve a necessidade de investir na formação
dos frades e o clericalismo foi se tornando uma necessidade. Frei Mateus explica, em um de
seus artigos sobre a vida franciscana, a clericalização da Ordem:
“O grande promotor dos estudos teológicos e assim da clericalização da Ordem foi o
leigo Frei Elias, que tinha todo o apoio do Cardeal Protetor Hugolino, depois Papa
Gregório IX, pois a Igreja estava precisando demais de sacerdotes bem formados e
de vida exemplar para pregar a doutrina, combatendo os hereges e para administrar
os sacramentos; quer dizer que foi principalmente por causa do apostolado externo
que a Ordem se tornou clerical.”82
No caso dos frades holandeses, a formação dos candidatos era feita no Brasil e na
Holanda. Cumpriam cinco anos no colégio e iam para a Holanda para completar o 6º ano
ginasial, onde faziam um ano de noviciado, mais dois ou três anos de filosofia e o primeiro
ano de Teologia Fundamental. Lá, faziam sua profissão solene e perpétua de obediência,
pobreza e castidade; voltavam ao Brasil e completavam, em Divinópolis, mais três anos de
teologia, momento em que eram ordenados sacerdotes. Essa situação era complicada e
onerosa e se manteve até 1939, quando toda a formação passou a ser feita apenas no Brasil
(Koppen, 1950:22-33).
Frei Helano fala sobre os primeiros lentes e conta como era rigorosa a vida de clausura
dos clérigos no convento:
81
Van Koppen, 1950. p. 19.
82
Revista de Santa Cruz, Ano XX, agosto e setembro de 1955 p. 128.
58
“... O seminário em Divinópolis transformou-se em verdadeiro convento de estudos
teológicos. Nossos primeiros professores foram frei Pacômio Thieman, o guardião,
dava moral e direito canônico; frei Eurico Peters, doutor em teologia, o nosso
bondoso padre mestre, dava Sagrada Escritura, liturgia e, por algum tempo,
português. Frei Lamberto Beckhoven dava dogmática, história eclesiástica e
português; nosso colega, frei Ildefonso, era o mestre de canto.”
Conforme as normas daquele tempo, os conventos eram de clausura papal, rigorosa,
total, de silêncio perpétuo, de minucioso horário para as horas canônicas do ofício divino, a
missa, as meditações, bênção do Santíssimo ou via sacra, oração de manhã e da noite,
aconteciam as visitas ao Santíssimo depois das refeições, nossas horas de aulas e de estudo, de
refeições e de recreio.83
No primeiro jornal da paróquia, “O Santuário de Santo Antônio”, lançado em 1927,
uma seqüência de artigos foi publicada com o título, “Os frades do Colégio”. O objetivo era
informar a comunidade sobre quem eram os frades do convento e qual a sua importância para
a cidade. No primeiro artigo foi feita uma identificação do Colégio:
“Quem, em Divinópolis, não conhece aquela casa alta, branca ali na encosta do
morro! É o colégio dos franciscanos, o Colégio Seráfico, ou na gíria local,
simplesmente O Colégio. Quando consideramos bem, esse nome, de certo tempo a
esta parte, já não é mais apropriado. Colégio era, quando aqui moravam os colegiais.
Desde 1931, porém, quando eles se mudaram para Taquari e aqui foram substituídos
por religiosos moços, não é mais Colégio, mas simplesmente convento.”84
O mesmo artigo explica que, apesar de conhecido na cidade e região, o convento era
motivo de curiosidade, pois os moradores da cidade tinham pouco acesso ao seu interior em
função de seu funcionamento em regime fechado: “De certo isso, em parte, é devido ao fato
de não ser o convento acessível ao público, porque num convento de homens as mulheres não
podem entrar, e os homens só entram quando ali têm o que fazer”.85
Os esclarecimentos dados pelo jornal apontam a presença de frades holandeses como
uma necessidade, devido à carência de sacerdotes para cumprirem a grande demanda
apresentada pelo país e às dificuldades dos bispos em atenderem a tais exigências:
83
Van Koppen, 1950. p. 32.
84
Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 2, junho de 1934 p. 3.
85
Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 2, junho de 1934 p. 3.
59
“Nem pode durar para sempre esta situação de frades estrangeiros virem trabalhar no
Brasil, que é um país inteiramente católico. Não! O Brasil se recordará de seu
passado glorioso! O mesmo Brasil produzirá, como tempo passado, bastante
vocações religiosas e sacerdotais. O Brasil há de ajudar-se a si mesmo. E eis mais
um fim de nossa fundação aqui em Divinópolis. Estamos esperando vocações
brasileiras, nacionais para a nossa Ordem.”86
As vocações sacerdotais, cada vez mais raras na época, aliadas à nova relação de
dependência das Igrejas Nacionais ao Vaticano, levaram a um processo de desnacionalização
do clero. Dados apontam para 70% de estrangeiros entre seculares e religiosos em 1946
(Lima, 1979:19).
Através dos artigos do jornal, a população foi informada também sobre o
funcionamento do convento, sua hierarquia e as funções cumpridas por cada um de seus
membros:
“Os moradores do convento podem dividir-se em três classes. Há, primeiro os
irmãos leigos, que rezando e trabalhando santificam-se. Fazem trabalhos manuais
seja na porta, na igreja, na cozinha ou no quintal. [...] Depois há os frades coristas ou
estudantes. Eles rezando e estudando se preparam para o sacerdócio, para serem
sacerdotes e depois trabalharem na cura das almas. [...] No terceiro lugar há os
padres: padre Superior ou Guardião, que dirige todo o convento; o seu lugar-tenente
ou seja, o vigário do convento; os padres professores, o padre mestre, que dirige os
frades estudantes. [...] Outros padres trabalham mais especialmente na cura das
almas e são o vigário da freguesia e o seu coadjutor.”87
O fundador e diretor do Convento de Santo Antônio, em Divinópolis, foi Pe. Frei
Paulo Stein, como Comissário dos Franciscanos do Comissariado da Santa Cruz. Ao instalarse em Divinópolis, o Convento de Santo Antônio tornou-se o centro da vida franciscana. Em
16 de novembro de 1949, o Comissariado da Santa Cruz do Brasil foi elevado à categoria de
Província independente. Foi nomeado como Ministro Provincial o Revdo. Pe. Frei Serafim
Lunter que, em 1950, instalou-se em Divinópolis como Provincial.88
86
Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 7, novembro de 1934 p. 2.
87
Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 7, novembro de 1934 p. 2.
Revista de Santa Cruz, Ano XIV Dezembro de 1950 p. XVIII (A) e XVIII (B) – Fascículo com Artigos
Publicados no boletim mensal “Santuário de Santo Antônio – ano XXIII, 1950”.
88
60
A transformação do Comissariado em Província foi discutida num Congresso
realizado em Belo Horizonte no ano de 1949, momento de comemoração do cinqüentenário
de criação do Comissariado. O Pe. Provincial fez ponderações sobre o desmembramento:
“Considero a separação como uma verdadeira perda para a Província holandesa. A
grande Província dos SS. Mártires de Gorcum que se estende sobre quase todos os
povos e línguas perderá com isso uma grande parte de sua extensão. [...] Considero
porém a separação como uma perda também por outros motivos. Até agora o Brasil
era uma ótima saída para aqueles padres na Holanda que queriam ser missionários
sim, mas que no estando, não eram aptos para a Nova Guiné, a China, Java ou
Paquistão, ou não sentiam interesses por esses povos. No Brasil há uma cultura
européia e a população é católica e isso atrai a muitos, mais que a missão entre
pagãos, gente com uma cultura complemente diferente e nula. Também
economicamente é para a Província holandesa muito mais fácil mandar padres para
o Brasil do que para a Nova Guiné ou a China. Portanto, a separação significa para a
Província na Holanda uma verdadeira perda.”89
O ambiente acadêmico criado no convento, por constituir-se na sede do Curso de
Teologia e contar com corpo docente de expressão, estimulou a realização de atividades de
aprimoramento, como foram os Congressos de Padres Lentes e Mestres, os círculos de
estudos, a criação da Academia “Sedes Sapientiae” e de um Museu que caracterizasse
aspectos naturais e históricos do Brasil.
Em outubro de 1931, chegaram da Holanda os primeiros clérigos e, em 1939, os
últimos seis teólogos. Ao todo teriam vindo 51, dos quais seis eram brasileiros, dentre eles
Frei Turíbio e Frei Orlando. Desde 1942, todos os teólogos eram brasileiros. Os primeiros
lentes foram Frei Pacômio Thieman lecionando Moral e Direito, Dogma com Frei Lamberto90;
Frei Odulfo foi lente de Dogma e de História Eclesiástica. Outras disciplinas tiveram vários
professores como foi o caso de Português, Eloqüência Sacra e Pastoral. As aulas de hebraico
começaram em 1943 e as de canto foram assumidas por Ildefonso, Respício, Emílio,
Jerônimo.91
Num artigo, Frei Alberto Froehlich conta a história da criação e do crescimento da
Academia. Segundo ele, em abril de 1932 teria ocorrido uma primeira conferência promovida
89
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949 p. 86-87.
Frei Lamberto van Beckhovem foi preso pelos alemães e acabou morrendo num campo de concentração
(Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949, p. 175).
90
91
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949, p. 175.
61
pelos clérigos, momento em que Frei Helano expôs através do púlpito sobre o livro
“Escavações no Oriente”, do professor Noordzy, e uma segunda conferência, proferida por
Frei Ildefonso, no mês seguinte, sobre o livro “Die Lebenswerte des Alten Testaments” do
professor L. Dürr. O aprofundamento de temas científicos através de conferências gerou a
necessidade de fundação da Academia, o que ocorreu no dia 6 de novembro de 1932:
“Frei Odulfo, sendo padre mestre dos clérigos, ao entrar na sala de recreio destes,
anunciou-lhes que a Academia estava fundada. Tomou ele como secretário ao frei
Ildefonso, ficando ele mesmo como presidente. Tudo isto se deu não por eleição,
mas por nomeação. Foi um certo golpe de estado e o fim de um período.”92
O grupo escolheu São Boaventura como padroeiro da Academia e segundo frei
Alberto, seu florescimento aconteceu entre 1932 e 1936, devido à execução de um conjunto
de atividades. Dentre os conferencistas do primeiro ano acadêmico, Frei Heleno foi o único
que apresentou o tema “A Questão Social no Brasil”, expondo em português sobre o assunto.
Além das conferências, promoviam também sessões festivas com a participação de Frei
Ildefonso no piano e dos freis Erardo e Gilberto tocando violinos. No ano de 1936, as
atividades da Academia voltaram-se para círculos de estudos, momento em que os clérigos
discutiam seus trabalhos científicos e quando também eram convidados conferencistas de
fora, como o foi na apresentação do tema “Ação Católica no Brasil e a Cruzada da Boa
Imprensa”. No mesmo ano, haviam dois círculos em funcionamento, um dirigido por Frei
Sabino Staphorst com estudos sobre Americanismo e outro, analisando a Ação Católica, sob
responsabilidade de Frei Odulfo.93
Frei Vilibrordo van de Kleine, em artigo na revista Elo Seráfico, comenta sobre a
importância dos círculos para os clérigos:
“É nos círculos que aprendemos e somos estimulados ao trabalho pessoal. É aí que
temos uma ocasião ótima pois se realiza em grupos pequenos para por em prática o
que foi, antes de tudo, a finalidade da filosofia, a saber, aprender a julgar.”94
92
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, dezembro de 1949 p. 188.
93
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, dezembro de 1949 p. 188-189.
94
Revista Elo Seráfico, Ano 4, maio de 1954 p. 127.
62
O Círculo de Estudos, “Nós e os Protestantes”, caracteriza bem o sentido prático da
atuação dos círculos. Dirigido por Frei Eurico, lente de Exegese, procuravam conhecer
aspectos do protestantismo, objetivando preservar os católicos de sua influência. Os estudos e
discussões estiveram amparados na produção teórica do Monsenhor Agnelo Rossi, maior
autoridade no assunto no país através de seus artigos publicados na Revista Eclesiástica
Brasileira e no livro Diretório Protestante no Brasil.95
No final de 1948, a Academia passou por um revigoramento e foi reinstalada em
março de 1949, quando recebeu seu nome oficial, tendo como moderador Frei Ildefonso e Pe.
Fr. Aloísio Lorscheider e Pe. Fr. Isidro Botega como membros honorários. A partir desse
momento, uma intensa programação de conferências assinalou os trabalhos da Academia,
abordando temas variados como: boa imprensa, idéias gerais sobre arte, relação entre Igreja e
Estado no Brasil, história da Província de Santa Cruz, dados sobre a Maçonaria, a questão
social e Leão XIII, Santo Tomas de Aquino dentre outros temas que estimularam a disposição
acadêmica dos coristas.96
A Academia gerou a necessidade de uma publicação periódica dos trabalhos e isso se
deu com a criação da revista Elo Seráfico destinada a ensaios literários, historiográficos e
científicos dos clérigos da Província de Santa Cruz. Os clérigos foram estimulados a investir
na revista após correspondência enviada de Roma por Frei Aloísio, alertando sobre a
importância de uma publicação do clericato que seria a expansão natural dos trabalhos da
Academia. Os estudantes de Divinópolis e Daltro Filho assim a justificavam:
“Não nos bastavam as academias, queríamos mais; sentíamos falta de uma revista.
Possuir a “nossa” revista era um ideal há muito acalentado por todo o clericato.
Impelia-nos não o desejo de aparecer em público ou de mostrar o que sabemos. Não!
Mas, era a necessidade de o clérigo estudante se tornar ativo, de produzir e assim,
aos poucos, sair do estágio da pura passividade e se habilitar para os afazeres do seu
futuro ministério.”97
A revista cumpria a finalidade interna de estimular a produção dos coristas,
colocando-os em contato através das publicações, daí o nome de “Elo Seráfico”, após intensa
95
Revista Elo Seráfico, Ano 4, maio de 1954, p. 85-87.
96
Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 24-27.
97
Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 19.
63
discussão entre os nomes: Vicitas Dei, Duc in altum, Ad unitatem, Sursumactio, Miscelanea
Saráfica. Começou a ser editada em 1951 e tinha como redator Frei Eugênio Schmidt e
datilógrafos Frei Ludovico Frohlich e Frei Ladislau de Souza Amado.98
No processo de inserção dos religiosos estrangeiros no novo ambiente cultural, havia
um esforço dos mesmos em assimilarem a língua e os costumes do lugar, numa tentativa de
apreensão de suas característica. A assimilação da cultura acontecia pelo contato dos
religiosos no período de sua formação, que ocorria no Brasil e na Holanda, com a ordenação
concluída no Brasil; pela integração dos coristas à realidade da movimentação paroquial
através do acompanhamento das associações religiosas, das atividades do movimento de Ação
Católica e Círculo Operário e pelos temas desenvolvidos nas conferências dos círculos de
estudos tais como: o círculo de estudos mineiros99, e análises sobre o integralismo, os
fanáticos de canudos e outros assuntos relacionados à realidade do país.
As dificuldades de adaptação à nova cultura eram um desafio para os clérigos,
professores e estudantes, vigários e assistentes eclesiásticos. Todos tinham de criar
mecanismos próprios de assimilação. Essa situação era ainda dificultada pela tendência ainda
incipiente de uma ação da Igreja para fora, relacionando-se mais proximamente com os leigos,
com a comunidade, como comentou Frei Bernardino:
“Os primeiros franciscanos foram “jogados” aqui. Não tinham preparação nem uma
introdução à vida, à cultura, à história brasileira. O aprendizado acontecia a partir de
uma iniciativa particular. Eu também participei desse processo; ao chegar aqui
tinhamos que nos arrumar. A visão do clero, naquele tempo, também na Holanda,
era tipicamente concentrada nas igrejas e nas atividades de culto.”100 (Frei
Bernardino Leers)
A abordagem de Simmel sobre a situação do estrangeiro traz uma contribuição
interessante sobre o olhar daquele que é de outro lugar. No caso em questão eram clérigos que
como professores, estudantes ou párocos, acabavam integrando-se ao novo ambiente físico e
cultural, cumprindo um papel institucional. Simmel mostra a condição de proximidade e
98
Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 19.
Este círculo tinha a finalidade de colocar os estudantes em contato com aspectos da cultura regional. Nele
foram estudadas obras como: Voz de Minas de Alceu Amoroso Lima e Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de
Holanda. (Revista Elo Seráfico Ano 4, maio de 1954 p. 128).
99
100
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
64
distância que constitui a posição do estrangeiro, entrando em contato com todos os elementos
do grupo sem estar organicamente ligado a qualquer um deles por laços de parentesco ou
outros. Por não estar sujeito a tendências peculiares do grupo, tem uma relação mais objetiva
com o mesmo, sem no entanto, representar uma conduta de passividade ou de afastamento,
mas sim, um tipo positivo de participação. (Simmel, 1983:184)
Foi procurando aprofundar conhecimentos sobre as características naturais e culturais
do Brasil que os coristas de Divinópolis envolveram-se com a criação de um Museu. As
dificuldades para sua organização foram muitas:
“Os coristas de Divinópolis já desde muito tempo, vem trabalhando para a formação
de um museu, no qual deve figurar tudo aquilo que se possa ter como
caracteristicamente brasileiro. No entanto, ainda estamos no começo, ou melhor, já
começamos há muito tempo, mas quase nada conseguimos arranjar até hoje: uma
coleção de borboletas, besouros, insetos, algumas cobrinhas, pedras mais ou menos
ordinárias, moedas antigas, flecha e arco de índios, diversas espécies de ninhos de
pássaros, um bico de tucano e por fim, uma imagenzinha de Santo Onofre ... etc, etc,
eis aí o nosso museu atual.”101
Em Divinópolis formaram-se, de 1931 a 1942, cinqüenta sacerdotes, dentre os quais
seis eram brasileiros. Em função da falta de alunos, no final de 1942, os padres lentes foram
para Daltro Filho, município de Garibaldi no Rio Grande do Sul, retornando no início de 1944
para oferecer o segundo ano de teologia e de filosofia.102
Numa exposição do M. R. P. Visitador sobre a situação da Província em 1964, as
observações feitas sobre os clericatos mostraram que havia uma preocupação acerca da
passagem dos estudantes de Daltro Filho, colônia de hábitos mais simples, para Divinópolis,
cidade já bastante movimentada, motivo da desistência que já se manifestava entre estudantes
e professores:
“O clericato que chega à Divinópolis, vem do ambiente pacato e fechado de Daltro
Filho, onde passou os três primeiros anos de sua vida religiosa. O ambiente de
Daltro Filho por sua vida calma, metódica e dirigida, não suscita em geral no clérigo
o dilema da perseverança na vocação. Quando chega em Divinópolis, parece que
entra em outro mundo, cheio de mil novidades e possibilidades. Aí o clérigo
101
Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 7, dezembro de 1936 p. 100.
102
Revista Elo Seráfico Ano I, julho de 1951 p. 65.
65
redescobre e deve enfrentar seu problema de perseverança e resolvê-lo dentro de um
ano, até a profissão solene. Este é o problema de Divinópolis.”103
As atividades do Curso de Teologia de Divinópolis foram encerradas em 1968 e
podem ser considerados um conjunto de fatores que acabaram por contribuir para isso. Frei
Bernardino Leers comenta sobre o esvaziamento das escolas de formação e da necessidade de
agrupamento das instituições de religiosos e de seculares para a continuidade da formação de
pessoal:
“Nós tínhamos aqui uma turma completa de gente formada em teologia, frei Bruno
era formado em sociologia. Aconteceu o seguinte, na década de 60 começou a
grande saída, não só aqui, mas em todos os seminários e entre o clero. Saíram uma
porção de clérigos, formou-se a Província do Sul, vários professores saíram, e nós
ficamos com um grupo pequeno e poucos professores formados. Belo Horizonte
tinha o mesmo problema, outras dioceses onde tinha formação, congregações
também com o mesmo problema, saindo professores, saindo estudantes. Então a
Província se juntou com o clero diocesano de Belo Horizonte e mais outras
congregações e formaram o Instituto de Filosofia e Teologia que depois foi
absorvido pela PUC.”104 (Frei Bernardino Leers)
O M. R. P. Provincial Visitador explicou o encerramento do Curso de Teologia em
relatório feito em 1968, publicado na Revista de Santa Cruz, afirmando que foi:“Em
conseqüência da separação do Sul, ficou a Província de uma vez com o seu corpo de
professores de Filosofia bastante desfalcado. Daí que os nosso clérigos filósofos por ora
estão seguindo o curso da Filosofia no Instituto Central de Filosofia e Teologia em Belo
Horizonte”.105
O Curso de Teologia e toda a movimentação intelectual gerada em torno dele acabou
sendo um estímulo para a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Divinópolis em 1965.
Os primeiros passos dados por Frei Hilário Verhey lançaram as bases da presença
franciscana na região. Por seu intermédio, foi iniciada a construção da nova igreja, o
Santuário de Santo Antônio, sem dúvida um marco arquitetônico da cidade. A edificação do
Santuário mobilizou a comunidade e envolveu uma sucessão de vigários:
103
Revista de Santa Cruz, Ano XXIX, nº 11, 1964, p. 276-277.
104
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
66
“Frei Hilário resolveu construir nova igreja. Começou a construção em 1926,
primeiro da Sacristia que por vários anos foi usada como capela, onde se faziam os
batizados e os casamentos. Em 1930 lançaram-se os fundamentos do futuro
santuário. O segundo vigário, frei Braz Berten (1931-1939), construiu o corpo da
igreja, depois a torre que ficou pronta em 1936. O sino, fundido nas oficinas da
Rede, foi presente do governador Benedito Valadares. Frei Rodrigo terminou a parte
exterior com a construção das capelas laterais. Frei Gilberto, terceiro vigário em
1939, pôs o forro e os ladrilhos. Em 1938 foi colocado o altar-mor de mármore. O 4º
vigário 1940 frei Rodrigo, 1942 o 5º frei Metelo, o 6º frei Carlos (1945) construiu
em 1947 a bela escadaria e mandou pintar a igreja por dentro pelo bem conhecido
pintor frei Humberto Randag.”106
O Santuário se impôs pela posição e estrutura arquitetônica. Ponto de convergência da
vida religiosa, estabeleceu um novo tempo de influência da Igreja Católica no funcionamento
da cidade.
A primeira planta projetada para a construção do Santuário propunha uma edificação
suntuosa, composta de duas torres e naves laterais. As condições da cidade operária, na época
com cerca de 12 mil habitantes, não correspondiam à dimensão da proposta ou às condições
de apoio da própria Província. O arquiteto holandês G. J. Simonis foi informado sobre as
condições climáticas do lugar, sua paisagem e seu ambiente topográfico para que
confeccionasse uma nova planta mais singela e adequada às características da cidade e aos
propósitos dos franciscanos. O resultado foi uma construção em estilo “moderno cubista”,
com um interior abarcando uma mistura de tendências que, no seu conjunto, formam uma
estrutura arquitetônica peculiar como expressão do conteúdo característico da cidade.107 Num
artigo especial da Revista de Santa Cruz, dedicado ao arcebispo metropolitano da capital
mineira, a história e o estilo do Santuário de Santo Antônio foram descritos:
“Uma suntuosidade de afrescos cobre as paredes duma Casa de Deus francamente
rudimentar na sua simplicidade arquitetônica, construção evidentemente livre das
mínimas pretensões artísticas, ornamentada na massa quadrada de sua torre frontal e
nos lados nus de sua única nave, por apenas uma série de janelas ou aberturas
murais, que seja por sua própria forma, seja na ordem de sua seqüência evocam a
forma daquela letra “Tau” do antigo alfabeto grego, a que no latim equivale ao T
105
Revista de Santa Cruz, Ano XXXIII, nº 1, 1968.
106
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, novembro de 1949. p. 173.
107
Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. V.
67
maiúsculo, com a parte horizontal mais maciça do que o pé, antes cumprido, e que
corresponde à forma originária da Santa Cruz.” 108
A diversidade de estilos, unidos, acabaram por agregar uma forma própria à
construção, que assim foi analisada no artigo:
“Poder-se-ia julgar que tais aglomerações estilísticas, num só lugar, como o
simbolismo das janelas laterais, o mourisco das aberturas no teto e o gótico no
interior do templo, apresentam um fator antiartístico. Quanto a nós repetimos que se
trata duma construção sem ambições artísticas...”109
Em outro artigo publicado sobre a benção do Santuário de Santo Antônio em 1934, o
significado da edificação foi comentado:
“Conseguiu perfeitamente o arquiteto o que sem dúvida procurou tornar possível,
aliar nas linhas o aspecto de severidade religiosa e harmonia suave ao preceito que
impunha a construção, de economia razoável. Mais uma vez neste desenho moderno
se verifica ao vivo que a ausência de ornamentos não impede que as linhas mais
simples ainda formem um conjunto verdadeiramente artístico”110
A inauguração do Santuário aconteceu nos dias 18 e 19 de agosto de 1934, embora a
obra se encontrasse inacabada: “Aí se eleva o grandioso templo de enormes dimensões que o
zelo de dois vigários consecutivos e a generosidade do povo construíram dentro de poucos
anos de esforços gigantescos.”111
Os murais em seu interior foram pintados pelo artista Frei Humberto Randag, trazido
da Holanda por intermédio do vigário Frei Carlos Schep. Permaneceu em Divinópolis de
julho a dezembro de 1949 e imprimiu, segundo alguns analistas, numa versão surrealista
moderada, uma leitura da história sagrada.112
108
Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. IV e V.
109
Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. V.
110
Jornal O Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 5, setembro de 1934. p. 3.
111
Jornal O Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 5, setembro de 1934. p. 3.
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 65.
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68
No terreno cedido pelo poder público local, foi nascendo um conjunto de edificações
usadas pelos frades como ambiente de uso privado e foram preparados também espaços de
uso coletivo onde aconteciam o trabalho pastoral e as atividades culturais e políticas.
A Casa de Santo Antônio foi um exemplo de espaço usado para interação com a
comunidade. Começou a ser construída em 1938, sendo usada para apresentações artísticas,
reuniões das associações religiosas e do Círculo Operário; foi reformada para abrigar o CineTeatro, inaugurado em 1946.
Através da influência dos frades, em 1934, foi reaberta a Santa Casa por Frei Brás,
entregue às Irmãs de Nossa Senhora do Sagrado Coração que assumiram também a Escola
Normal:
“... A chegada (26.01.1937) de quatro Irmãs Filhas de Nossa Senhora do Sagrado
Coração de Jesus: a superiora Madre Maria Leone e as Irmãs Bonifácia, Maria Pia e
Gemma e, pouco depois, Irmã Sabina. A Irmã Bonifácia toma conta da Santa Casa,
com grande benefício corporal e espiritual para os doentes. Tudo agora limpinho e
asseado; tem agora um médico e um operador. Também para a Escola Normal a vida
das religiosas foi uma bênção. Foram exonerados os antigos diretores, em grande
parte ateus, comunistas e maçons, que exerciam influência funesta sobre as
educandas. A biblioteca foi expurgada de muitas obras imorais e anti-religiosas. O
ensino melhorou, não só sob o aspecto religioso-moral, mas também científico.”113
A biblioteca começou com uma estante de livros, construída pelo irmão leigo Frei
Matias e depois de 1930, o convento recebeu muitos livros de São João Del Rei, Cascadura,
de Ouro Preto, da Holanda, além de doações de Frei Odulfo e de Frei Serafim.114
Os franciscanos envolveram-se totalmente na vida da cidade. Atuaram nos processos
políticos, em momentos de decisão eleitoral, em condutas administrativas do poder público e
no posicionamento frente a ideologias e programas contrários aos defendidos pelos católicos.
Investiram na organização do movimento operário cristão em Divinópolis através da
criação do Círculo Operário e da institucionalização da Juventude Operária Católica,
direcionando seu trabalho para os ferroviários. Nessa linha de comprometimento com a
questão operária, procuraram trabalhar sustentados no corporativismo católico e, ao mesmo
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 60.
113
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 176.
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69
tempo, numa perspectiva caritativa, desenvolveram junto às famílias dos trabalhadores uma
ação social protagonizada pelas mulheres ligadas às entidades católicas.
No campo cultural, marcaram sua presença incisivamente através de seu apostolado,
atuando também no campo do entretenimento, como foi o caso do investimento no cinema e
do estímulo às vocações artísticas pelo apoio dado ao teatro e à música.
Na Casa de Santo Antônio eram apresentadas peças do Grupo Teatral Mariano e
também recitais de piano e violino. Foi por iniciativa de Frei Metelo Greeve, em meados da
década de 40, que ocorreu a reorganização da velha banda de música Lira de Santo Antônio
em Banda Antônio Olímpio de Morais.115 A União Musical Antônio Olímpio abrangia na sua
concepção a Banda de Música Antônio Olímpio, a Orquestra Sinfônica Carlos Gomes e uma
Escola de Música, tendo como estímulo a idéia: “Para abrilhantar as nossas festas, para
incentivar o estudo da música,
para aperfeiçoar o gosto musical e para elevar sempre mais
a cultura desta terra.”116
A Casa de Santo Antônio foi adaptada em 1954, por iniciativa de Frei Isidro Botega,
para abrigar um grupo escolar com capacidade para atender 800 crianças.117
A imprensa foi um instrumento poderoso para a penetração da ideologia católica na
alma da cidade. A publicação de jornais foi iniciada pouco depois da instalação dos frades,
começando com Frei Hilário Verheij, ao fundar, em 1927, o jornalzinho “O Santuário de
Santo Antônio”, para angariar recursos em prol da construção do Santuário. Essa publicação
transformou-se em jornal em 1929 e em revista em 1937.118 Depois Frei Brás Berten criou “O
Sino de Divinópolis”; o amadurecimento da imprensa católica com a publicação ampliada do
jornal “A Semana” em 1946.
Os franciscanos assumiram a paróquia do Divino Espírito Santo até seu
desmembramento em 1945, quando foi criada a paróquia de Santo Antônio sob
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 63.
115
116
Jornal Interno A Semana – de 10 à 17 de outubro de 1943.
117
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954. p. 57.
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 60.
118
70
responsabilidade dos frades e a do Divino Espírito Santo, entregue ao Pe. Hilton Gonçalves de
Sousa por Dom Cabral em 1947.119
As atividades paroquiais desenvolvidas pelos frades se estendiam para cidades
vizinhas, envolvendo também a zona rural. Frei Brás, vigário entre 1931 e 1939 relata essa
movimentação:
“... Desde julho de 1934 tomamos conta também de Santo Antônio do Monte, desde
fevereiro desta anos de 1936 de São Gonçalo e, por algum tempo de Cajurú e de
Campos. Mas os padres professores do convento têm nos ajudado no trabalho.”120
O relatório de 1937, feito pelo cronista Frei Sabino Staphorst, mostra a movimentação
da paróquia e da cidade:
“... A freguesia de Divinópolis tem 18000 habitantes, houve 83. 361 comunhões,
558 batizados, 117 casamentos, 68 E. Unções e cerca de 100 primeiras comunhões;
a situação religiodo-moral está em visível progresso, mas é prejudicada pelo
espiritismo que neste ano inaugurou um novo “templo”. Há muito movimento das
associações religiosas, o catecismo está animadíssimo nas igrejas e no grupo escolar
(900 crianças). Santo Antônio é o santo mais popular. Os integralistas fundaram um
núcleo, fizeram bastante propaganda, chegaram a ter 60 “camisas verdes”, mas a
constituição de Getúlio Vargas acabou com o movimento.”121
Dentre as atividades paroquiais, a Semana Santa era o evento religioso que mais
envolvia a comunidade, contando com as associações religiosas nos preparativos. Era um
momento propício para pregações. Em 1941, realizou-se uma Semana Santa celebrada com
todo o esplendor:
“Linda realmente tocante foi a grandiosa Páscoa dos homens do Domingo de
Ramos. Foi uma vista consoladora verem-se fundidos em uma só massa, brancos e
preto, ricos e pobres, industriais e operários, doutores e advogados, velhos e moços,
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 63-64.
119
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 60.
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Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 61.
121
71
todos unidos em uma mesma fé com grande devoção na mesa para receberem em
seus corações o Salvador!”122
A pregação de Frei Orlando demonstra a utilização do clima religioso-festivo para o
reforço da doutrina:
“... O incansável orador pregou um tríduo de conferências sobre “Espiritismo,
Protestantismo e a Igreja Católica”, que foram muitíssimo freqüentadas. O santuário
não cabia o povo, embora o tempo fosse chuvoso. O fruto foi maravilhoso, diversos
voltaram do Espiritismo para a Igreja Católica, fazendo uma boa confissão.”123
As procissões atraíram uma multidão de fiéis; a descrição feita na crônica mostra o
sentido de sua plasticidade e seu apelo devocional:
“A procissão foi formada de quatro alas, as duas de fora os homens, as duas de
dentro as senhoras. Domingo da Ressurreição houve procissão do Santíssimo da
Matriz para o Santuário. O Santíssimo foi levado pelo Revmo. Padre Frei Paulo e o
pálio carregado por pessoas de destaque na sociedade divinopolitana.”124
À medida que o trabalho paroquial foi crescendo, surgiram novas paróquias. Da
paróquia do Divino foi desmembrada primeiro a de Santo Antônio dos Campos, que em 1936
recebeu seu primeiro vigário. Depois foi criada a paróquia de Santo Antônio que ficou com os
franciscanos, recebendo a paróquia do Divino em 1947 como vigário, o Pe. Hilton.
Posteriormente foram criadas a de Nossa Senhora da Guia em 1959, a de São Cristóvão em
1972, a de São José em 1972. A instalação do bispado teve como articulador o Pe. Hilton
Gonçalves e se efetivou em 14 de agosto de 1958, tendo Dom Cristiano como primeiro
bispo.125
O trabalho pastoral na Vila Operária foi assumido inicialmente por frei Lamberto e
posteriormente teve atuação mais direta entre os operários da oficina, grupos de JOC
coordenados por Frei Bruno Goetterms. Esse trabalho foi muito prtodutivo, chegando Frei
122
Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30.
123
Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30.
124
Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30.
125
Corgozinho, 1999. p. 159.
72
Bruno a levar os membros da JOC a participar de um congresso mundial em Roma por volta
de 1960, 61.126
E no início da década de 60, já havia um trabalho de preparação de líderes sindicais
que foi interrompido pela Ditadura Militar, como comentou Frei Bernardino: “Nos anos 60 já
fizemos as reuniões com todos os líderes de sindicatos aqui e foi até 1964. Tinha sindicatos
dos tecelões, da construção civil, comerciários, metalúrgicos, nós nos reuníamos todos os
domingos, até acontecer o golpe de 1964.”127 (Frei Bernardino Leers)
Numa crônica de 1954, Frei Aloísio Lorscheider fala sobre o crescimento da cidade e
da necessidade de ampliação do trabalho religioso:
“Este aumento demográfico trouxe naturalmente os seus problemas para a vida
religiosa. Impõe-se a construção de novas igrejas, escolas, desenvolvimento da
instrução catequética, criação de novas paróquias, etc. Atualmente estão em
construção a igreja de Nossa Senhora da Guia na Vila Belo Horizonte, sob direção
de frei Emíliano, a igreja de São José no alto Catalão, sob os cuidados do Revmo.
Pe. Guardião, frei Oto, o Santuário do Senhor Bom Jesus no Niterói, a igreja de São
Sebastião no Córrego do Bairro. Todas essas igrejas têm ou terão dimensões quase
iguais às do Santuário de Santo Antônio, a de Nossa Senhora da Guia e a de São
José até maiores.”128
Dom Aloísio, atualmente arcebispo de Aparecida em São Paulo, em entrevista,
recordou de sua atuação junto a Frei Bernardino na década de 50, num trabalho envolvendo
profissionais liberais e operários da cidade:
“Nós quando entramos, aos poucos começamos eu, Frei Mateus, Frei Bernardino e
Frei Bruno a ter contato com uma certa elite de Divinópolis, realizando encontros
com médicos, advogados. As reuniões eram muito boas, tanto na cidade, como no
próprio convento. O relacionamento era muito bom, os profissionais faziam
palestras de acordo com sua formação medicina, advocacia, etc; e nós fazíamos a
parte mais social e teológica. Foram encontros bastante interessantes, e havia
também todo esse trabalho com os operários, porque naquela época havia muita
influência ainda comunista, mas os frades sempre trabalharam muito com os
operários, sobretudo com os da Rede Mineira, que tinha naquela época uns mil e
quinhentos operários e funcionava a pleno vapor. Eles sempre tinham contato
126
Pereira e Torta, 2000. p. 92.
127
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02.
128
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março, 1954, p. 54-55.
73
conosco também porque eram vicentinos e membros da Liga Católica.”129 (Dom
Aloísio Lorscheider)
No meio rural, foi inovador o trabalho educativo desenvolvido pelo CODAR –
Conselho Divinopolitano de Assistência Rural, envolvendo também prefeitura, ACAR, centro
de saúde, num atendimento amplo voltado para a qualidade de vida dos trabalhadores rurais.130
As atividades desenvolvidas junto aos trabalhadores rurais já apontavam uma nova
visão da Igreja sobre os problemas sociais e as questões relativas ao campo que ganharam
relevância nas décadas de 50 e 60. Frei Bernardino, numa crônica da Santa Cruz, mostra
como o trabalho foi iniciado:
“A história começou em cima de um caminhão que, cercado duma nuvem de poeira,
pulava mansamente pela estrada que vai de Paiol, três casas e umas vacas, para
Divinópolis. Cidade. Sentados em sacos de milho, estavam lá três homens, o médico
do centro de saúde, seu assistente e o padre. Chegaram à mesma conclusão: “vamos
continuar assim, tá bom este serviço”. Este serviço foi, o padre celebrou a santa
missa com o povo, o médico atendeu aos doentes, o enfermeiro distribuiu
vermífugos e bons conselhos e a inspetora municipal de ensino, que tinha arranjado
um lugar na cabina, ajudou a professora rural e seus alunos.”131
As ações políticas aconteceram no decorrer da presença franciscana, por meio de
partidos ou através da Liga Eleitoral Católica. Acabaram influenciando a organização das
forças políticas locais. O convento e os frades também foram afetados pelas mudanças da
década de 50 e pela ditadura instaurada em 1964; nessa mudança de rota, transformaram-se
em ponto de referência de discussões de grupos de resistência ao regime militar e
envolveram-se na organização das Comunidades Eclesiais de Base que represetavam uma
nova versão de pastoral gestada nesse processo.
129
Entrevista realizada pela autora com Dom Aloísio Lorscheider no dia 30.07.02.
130
Corgozinho, 1999. p. 156.
131
Revista de Santa Cruz, Ano XXX, nº 1, 1965, p. 72.
C A P Í T U L O II
O Movimento Operário Cristão no cotidiano da cidade de Divinópolis
A cidade de Divinópolis nasceu como um núcleo operário no centro-oeste mineiro,
principalmente em função da instalação da Oficina da EFOM a partir de 1910. Desde então,
foi ganhando a forma de cidade industrial, exercendo grande influência na região.
Neste texto, o caráter operário da cidade será demonstrado em seu conteúdo
contraditório pelo embate político ideológico colocado pela Igreja Católica em seu ímpeto de
combater a ação comunista, demonstrando sua defesa do corporativismo e sua colaboração
com o Estado, principalmente na década de 40. Na análise sobre o funcionamento do Círculo
Operário em Divinópolis, buscou-se valorizar seu funcionamento e sua influência no
cotidiano da vida operária. O centro da narrativa está focado na iniciativa dos franciscanos de
criarem o Círculo Operário na cidade e sua relação com o Movimento Operário Cristão no
Brasil.
2.1 Estado e Igreja no controle corporativo do trabalho
“O corporativismo é obra popular, resultante do trabalho e interesse das classes, que
se vão organizando em função do bem comum.” 1
“O Estado emergente de 1930 a um só tempo perseguia o aniquilamento de qualquer
tentativa de organização autônoma da classe operária e a queima de etapas rumo à
concretização do capitalismo nacional”(Isaía, 1998:148). Através dessa fórmula, o governo
acreditava colocar o país nos trilhos do capitalismo internacional, equiparando o Brasil aos
países ricos e combatendo, ao mesmo tempo, os problemas sociais internos.
Os anos 30 foram particularmente importantes ao inaugurar o envolvimento direto do
Estado na relação entre os trabalhadores e o segmento empresarial, incluindo-se nesse último,
o próprio Estado empreendedor desse desenvolvimento. A estrutura de controle do
1
Artigo: Corporativismo e suas condições – Jornal Interno A Semana, 23 à 30 de maio de 1943.
75
movimento operário e sindical, implantada a partir da instalação do governo provisório que
foi sendo aprimorada por todo o dilatado período do Governo Vargas, se sustentou no
estabelecimento de um aparato técnico-burocrático representado no Ministério do Trabalho
Indústria e Comércio e fundamentado em ampla legislação trabalhista. A iniciativa
governamental no sentido de enfrentar a questão social, tornando-a caso de políticas, se
explica por mudanças estruturais e conjunturais que vinham se processando e que, no ápice do
confronto entre interesses diversos, culminou na Revolução de 1930. Os direitos sociais
advindos da ruptura de 1930 podem ser associados a uma pressão crescente imposta pelo
movimento operário, iniciado na Primeira República, e que já havia dado sinais de maturação,
o que preocupava o governo, a elite agrária - amedrontada por uma possível ampliação do
movimento para o meio rural - e a classe empresarial urbana ainda em formação.
O aceno para a transformação da questão social em caso de política já havia sido dado
pelo programa exposto na campanha da Aliança Liberal, assumido posteriormente por Vargas,
obviamente adquirindo um contorno personalista em razão da implantação do trabalhismo
herdado do positivismo gaúcho1. Foi a partir de uma ênfase paternalista e personalista que o
Estado conseguiu cunhar uma cultura sindical corporativa controladora do movimento
operário e com intensidade capaz de perdurar como uma marca na história do movimento
operário e sindical brasileiro para além da chancela varguista.
A criação do Ministério do Trabalho foi um passo decisivo no controle da classe
operária e através do Decreto nº 19770 de 1931 e da Lei de Sindicalização, definiu-se a
regulamentação dos direitos e deveres de todas as classes patronais e operárias. As entidades
deveriam ter no mínimo 30 associados de ambos os sexos, maiores de 18 anos, sendo 2/3
desses associados obrigatoriamente brasileiros natos ou naturalizados. Na concepção de
Werneck Viana, esse decreto transformava os sindicatos em pára-choques das tendências
conflitivas nas relações entre capital e trabalho, funcionando como colaboradores do poder
público. O sistema sindical estaria sendo arquitetado para consolidar o modelo corporativo de
modernização. O autor argumenta sobre o significado do Ministério do Trabalho no contexto
geral da nova formatação do Estado:
2
Este tema é trabalhado por Alfredo Bosi no texto A arqueologia do Estado-providência, p. 273 – 307.
76
“A proposta oficialista para os sindicatos não se resumia no acento antiliberal e
desmobilizador da classe operária. Desde a criação do Ministério do Trabalho, pelo
decreto nº 19433, de 26 de novembro de 1930, a estrutura corporativa vinha
associada a um discurso modernizante – era o “Ministério da Revolução”, como o
denomina Lindolfo Collor, seu primeiro titular. Collor, em seu discurso de posse,
fornece uma interpretação bastante sugestiva sobre o que consistiria questão social
no Brasil. Segundo ele, o inquietante nesse tema residiria no descobrimento da
correlação entre “justiça social” e formação de um mercado interno.”2
Uma série de leis sociais e trabalhistas foram criadas, como a regulamentação especial
do trabalho da mulher e da criança pelo decreto 21.417 de 1932. E na década de 40 foram
estabelecidos: o salário mínimo, o imposto sindical, com a conseqüente criação da CLT em
1943.
O corporativismo modelou o tipo de desenvolvimento aplicado no país pós 30, e ao
ser analisado por Werneck Vianna (1978: 123-125), fica evidenciada sua performance no
ambiente brasileiro, ao servir para o atendimento aos interesses contraditórios das classes
dominantes, desejosas de dissimular os conflitos fundamentais de classe. O regime liberal
democrático foi rejeitado pelos grupos dominantes por dificultar a administração do projeto
modernizador industrializante em processo, devido à resistência em relação à sua base
sustentada na garantia de direitos. O regime corporativo era, naquele momento, a melhor
opção para as elites pois, possibilitaria a intervenção do governo no sistema produtivo e, ao
mesmo tempo, garantiria a paz social no setor urbano-industrial. O modelo desqualificava a
luta de classes e propunha a dimensão consensual entre as frações de classe hegemônicas e as
classes populares, enfatizando as vantagens da organicidade e da unidade enquanto pilares da
grandeza nacional.
O caminho desenhado pelo governo teve, no entanto, que enfrentar oposição. Em
contraposição ao sindicalismo disciplinado, atuou uma resistência liderada pelo Partido
Comunista que agiu com eficiência na clandestinidade e assumiu posições diferentes em sua
trajetória política. O Partido Comunista, após sua fundação em março de 1922, propôs uma
condução nova para os cerca de 320 mil operários existentes no país. Apesar de no mesmo
ano ter sido lançado na ilegalidade em função do estado de sítio, colocou-se em favor da
proposta de unidade do movimento operário em oposição ao discurso anarcossindicalista que
defendia a diversidade (Resende,1994:27):
2
Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 p. 146.
77
“Colocava-se com a função de promover o entendimento, a ação internacional dos
trabalhadores e a organização política do proletariado em partido de classe, para a
conquista do poder e conseqüente transformação política e econômica da sociedade
capitalista em sociedade comunista.”3
O Partido Comunista atuou como crítico do movimento de 1930, liderou a Aliança
Nacional Libertadora enquanto composição de forças, lutou contra o fascismo, o imperialismo
e o latifúndio e sofreu as retaliações do golpe de 1937. Foi prejudicado em sua ação junto aos
trabalhadores devido ao forte disciplinamento imposto aos sindicatos com a chegada de
Vargas ao poder. Em 1945, no processo de transição democrática, o Partido saiu da
clandestinidade, acabou por dirigir o Movimento Unitário dos Trabalhadores – MUT defensor
da Constituinte com Getúlio e esteve presente nas eleições de 1946 com a candidatura de
Yedo Fiúza à presidência da república, fazendo 15 deputados e Luís Carlos Prestes como
senador. Nesse período, procurou reativar os sindicatos através de congressos, ampliou suas
células, intensificou a publicação de jornais diários, de livros e de textos de conteúdo
marxista. Essa situação amedrontou as forças políticas conservadoras e a conjuntura
internacional da guerra fria tornou sua sobrevivência ameaçadora ao sistema, o que levou o
governo Dutra a colocá-lo novamente na ilegalidade em 1947 (Resende, 1994).
O controle da classe trabalhadora teve resultados políticos vantajosos para os
detentores do poder devido a seu potencial eleitoral, situação melhor explicitada na transição
democrática de 1945, com a criação do Partido Trabalhista Brasileiro e nas coligações
político-partidárias estabelecidas na década de 50, que culminariam no grande receio dos
grupos conservadores com uma possível “República Sindicalista” praticada por João Goulart.
A habilidade política de Vargas não se restringiu ao aparato administrativo e jurídico.
Foi também hábil no uso da força repressiva e na capacidade de manipulação do imaginário
coletivo ao definir registros de cidadania e de mitos de unidade nacional. Vargas exerceu
controle sobre os meios de comunicação de massa. Para tanto, monitorou a produção cultural
em prol de uma educação cívica do povo, identificado com um sentimento de nacionalidade
construído pelas agências competentes de governo.
3
Koval, Bóris. História do proletariado brasileiro 1857 – 1967, p. 167. In: Resende, Antônio Paulo p.25.
78
“Os ideólogos estadonovistas, alegando que o estado liberal separara o homem, cujo
domínio é o da cultura, do cidadão, cujo domínio é o da política, defendiam a
necessidade de unificar as esferas política e social através do estabelecimento de
uma cultura política. Nessa perspectiva, a política era compreendida como elemento
disciplinador, coordenador e organizador das forças sociais; as manifestações
culturais só poderiam ocorrer sob a tutela da ordem política.”4
Getúlio Vargas também soube utilizar a força moral da Igreja e do simbolismo
católico para controlar e criar um imaginário político voltado para o monitoramento social, o
que Capelato5 analisou a partir do conceito de “sacralização da política”, ao trabalhar a relação
entre Igreja e Estado em seu formato no sentido de uma colaboração voltada para a idéia de
manutenção da ordem. A posição da Igreja como aliada do Estado após 1930, foi
particularmente significativa no tocante ao controle ideológico que exercia a partir da
concepção católica da “questão social” e sua fórmula para solucioná-la. Seu papel
institucional seria contribuir com a manutenção da ordem defendida pelo novo governo,
trabalhando no meio operário como defensora da harmonia fundada nos princípios lançados
pelas encíclicas Rerum Novarum 1891 e Quadragésimo Anno 1931 que também se opunham à
falida ordenação social do liberalismo e defendiam uma estrutura corporativa para a produção
e organização dos trabalhadores. Viana (1978: 157) explica essa aliança pelo esvaziamento do
estado liberal republicano laico, que não cumprindo sua função integradora baseada no
atendimento das reivindicações por igualdade, teria buscado suporte na Igreja capaz de
exercer o controle ideológico sobre as classes populares.
A Igreja, na sua posição de condenação do pensamento moderno, colocou-se contrária
ao liberalismo, denunciando sua ineficiência no tratamento dos problemas sociais decorrentes
da industrialização e urbanização. A Rerum Novarum foi a encíclica papal responsável pela
nova conduta do catolicismo frente ao capitalismo e suas contradições que atingiam a classe
trabalhadora, sujeita à exploração e ao abandono, criando, desta forma, o ambiente propício
para a revolta e para o conflito entre os operários, ameaçando a estabilidade e a ordem.
4
Velloso, Pimenta. 1982, p. 88, apud. Capelato (1998,103).
Maria Helena Capelato, ao analisar os governos totalitários na América Latina, demonstrou a partir da análise
de Alcir Lenharo sobre a sacralização da política, como Getúlio Vargas valeu-se exaustivamente das imagens
religiosas na propaganda promovida pelo Estado. A autora salientou que o governo Vargas buscou apoio da
Igreja e valeu-se das imagens católicas como forma de garantir uma unidade nacional (Capelato, Maria Helena
R. Multidões em Cena – Propaganda Política no Varguismo e Peronismo. São Paulo: Papirus, 1998: p. 29).
5
79
A Igreja se preparou para enfrentar a questão social, incentivando a criação nas
cidades dos Círculos Operários e de um apostolado especializado assumido pela JOC Juventude Operária Católica, formando uma elite capaz de atuar com eficiência junto à classe
trabalhadora. Dessa forma, o Estado e a Igreja Católica se instrumentalizavam para lidar com
as ideologias socialista e comunista que se disseminavam no meio operário como elementos
considerados perniciosos e incitadores de conflitos, greves e agitações, ameaçando os
princípios da harmonia social e da ordem corporativa do trabalho.
A Igreja acreditava ter uma responsabilidade para com os problemas sociais modernos
e defendia ser o caminho apontado por sua doutrina o mais adequado para a conquista da
harmonia:
“... A Igreja, que não se contenta com esclarecer os espírito de seus ensinos, mas
também se esforça em regular em harmonia com eles a vida e os costumes de cada
um; a Igreja que por uma multidão de instituições eminentemente benéficas, tende a
melhorar a sorte dos pobres; a Igreja quer e deseja ardentemente que todas as classes
empreguem em comum suas luzes e suas forças para dar à questão operária a melhor
solução possível; é a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública
devem levar a esta solução, sem dúvida com medida e com prudência a sua parte de
concurso.”6
Em seu modelo de sociedade, a desigualdade era vista como componente natural da
sociedade, cabendo a cada classe a compreensão de sua condição, sufocando qualquer anseio
de alteração profunda da estrutura, a priori estabelecida pelas leis de Deus. “É a necessária
desigualdade das condições dos homens. O princípio primeiro a por em evidência, é que o
homem deve aceitar com paciência a sua condição. É impossível que na sociedade civil todos
sejam elevados ao mesmo nível”7
Nessa perspectiva, o direito à propriedade era também considerado como uma
decorrência natural das diferenças, opondo-se à defesa da propriedade coletiva da terra
defendida pelos socialistas:
“Que a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se
como prejudicial aqueles mesmos que se quer socorrer, contraria aos direitos
naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando as
6
Jornal Interno A Semana – 26 de dezembro de 1943 a 2 de janeiro de 1944.
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Jornal Interno A Semana – 26 de dezembro de 1943 a 2 de janeiro de 1944.
80
funções do Estado e que, pois, bem assentado, que o primeiro fundamento a
estabelecer por todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo, é a
inviolabilidade da propriedade particular.”8
As desigualdades de capacidade e de condição entre os homens seriam necessárias ao
funcionamento social, bem como eram consideradas inverdades as pregações em contrário
feitas por aqueles que pretensiosamente estariam apregoando sua superação, prometendo uma
vida de igualdade para todos e de pleno gozo de puro e completo bem estar.
“... A vida social requer um organismo mui variado e funções mui diversas, e o que
leva precisamente os homens a partilharem estas funções, é principalmente a
diferença de suas respectivas condições. Assim esta desigualdade que os socialistas
debalde querem mudar, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos
indivíduos. Imaginem que todos os homens tivessem os mesmos talentos para
governar, a mesma força corporal, parte igual de riquezas. [...] Sim, a dor e o
sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo
tentar para os banir, mas não o conseguirão nunca ... Se há quem, atribuindo-se o
poder de fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos, vida de repouso
e perpétuos gozos, certamente engana o povoe lhe prepara laços onde se ocultam,
para o futuro, mais terríveis calamidades do que as do presente.”9
A aliança entre o catolicismo brasileiro liderado por Dom Leme e o Estado getulista
beneficiou a ambos, viabilizando projetos prioritários para a hierarquia e possibilitando ao
Estado, aproveitar-se da ascendência desfrutada pela Igreja ante a massa urbana e sua
influência sobre a classe média, procurando viabilizar seu projeto de unidade nacional.
A opção corporativista definida pelo Estado e pela Igreja deveria viabilizar uma
convivência harmônica entre as classes impedindo que as reivindicações sociais
degenerassem em luta de classes (Isaía, 1998:140).
8
Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de dezembro de 1943.
9
Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de janeiro de 1944.
81
2.2 Os operários na cidade: o caso de Divinópolis no centro oeste mineiro
“Sadio é o civismo que anima tua gente, afeita ao trabalho, à conquista do pão.”10
A cidade começou a ganhar um perfil operário a partir da chegada da Estrada de Ferro
Oeste de Minas no final do século XIX, quando o lugar ainda era chamado de Arraial do
Espírito Santo do Itapecerica. O prolongamento da Estrada de Ferro Oeste de Minas, ligando
Oliveira até Barra do Paraopeba, ao passar pelo Arraial seguindo o Rio Itapecerica, colocou a
localidade em evidência no centro oeste mineiro enquanto ponto de passagem e pelas
melhorias que recebeu. A primeira foi a construção da estação nomeada Henrique Galvão, em
homenagem ao engenheiro-chefe encarregado das obras da ferrovia11. O dinamismo ligado à
ferrovia foi consolidado pelo fato de o Arraial ter se tornado ponto de entroncamento férreo
da EFOM, com o ramal ligando Belo Horizonte ao Triângulo Mineiro,
representando
importante integração entre o oeste de Minas Gerais e os estados de Goiás, Rio de Janeiro e
São Paulo (Corgozinho, 1999:62). O dinamismo que começou a configurar uma estrutura
propriamente urbana foi trazido pela instalação das Oficinas da Rede Ferroviária construídas a
partir de 1910, num conjunto que englobava também a vila operária como espaço de
residência dos trabalhadores.
Segundo Corgozinho, ao estudar a passagem do tradicional ao moderno no centro
oeste de Minas Gerais, as oficinas representaram a instalação da primeira grande fábrica no
local com destaque para as atividades ferroviárias como principal sustentáculo de expansão da
cidade. Com a nova estrutura instalada pela Rede, teria ocorrido um dinamismo sócioeconômico e cultural acompanhado de uma nova correlação de forças no âmbito político e um
expressivo crescimento demográfico que alteraria significativamente o perfil agrário até então
predominante no local. Segundo a autora, além de inaugurar a figura do trabalhador operário
moderno na região com suas várias especialidades tais como encarregados, escriturários,
feitores, maquinistas e outros ofícios, instalaram-se em torno da ferrovia uma gama de outros
profissionais
atraídos
pelas
empreendimento.
10
Hino de Divinópolis.
11
Azevedo e Azevedo, 1988. p. 70-71.
oportunidades
estabelecidas
pelas
demandas
desse
82
As atividades de produção, comércio e serviços foram ampliadas e diversificadas, e o
arraial foi tomando a forma de cidade, alcançando sua autonomia político-administrativa em
1911 com o nome de Vila de Henrique Galvão, posteriormente batizada de Divinópolis.
Como “Cidade Oficina”, apelidada devido a sua origem operária, desde cedo foi palco da
ação dos ferroviários que movimentavam a atividade econômica local e deflagravam seus
protestos quando lesados pela conduta da EFOM, que atrasava seus salários. É como o caso
da greve registrada em 1899, comentada por Francisco e Antônio de Azevedo:
“Estando os trabalhadores da Estrada de Ferro Oeste de Minas já há bastante tempo
sem receber seus vencimentos e como a Diretoria da Companhia ia protelando esse
pagamento e não resolvia aquela situação de angústia e de fome, todo o pessoal da
estrada se pôs em pé de greve geral, de um momento para o outro. Começaram a
arrancar os trilhos e a destruir tudo que podiam, em acinte à falta de pagamentos. Os
trabalhadores de turmas e de avançamento que já iam lá pelos fundos do Sertão, e o
pessoal de conserva foram se reunindo aqui no Arraial, constantemente chegando
especiais de trabalhadores que aderiam ao movimento grevista. Com o decorrer de
pouco tempo e com a chegada de operários nesta localidade, o Arraial era uma
verdadeira praça de guerra ...”12
A modernização foi tornando-se uma realidade à medida que a cidade consolidava sua
vida urbana. E, ao mesmo tempo, sua tradição operária também se delineava nesse processo
com a instalação de outros estabelecimentos industriais em 1914: a firma João Daldegan &
Irmão no ramo de exploração de cerâmica; uma Serraria do empreendedor Jovelino Rabelo
em 1915 e assim sucessivamente, a fábrica de fiação e tecelagem, de sabão, cerveja e outras.
A partir da década de 30, foi inovadora a instalação no local da Usina de Álcool Motor de
Mandioca do Estado de Minas Gerais. No ano de 1942, foi instalada a Cia Mineira de
Siderurgia, ampliando seu parque siderúrgico na década de 50, com destaque para a criação
da Cia Laminação e Cimento Portland Pains em 1953. Acompanhando este trajeto, o setor de
comércio e serviços ganhou fôlego e o local foi se transformando num importante polo no
centro oeste mineiro (Corgozinho, 1999:165-195).
O crescimento econômico trazia consigo as contradições inerentes ao progresso, e à
medida que as atividades produtivas se dinamizavam, o conflito entre patrões e empregados
também ganhava novos contornos. As manifestação grevistas e as formas de organização da
12
Azevedo e Azevedo, 1988. p. 84-85.
83
classe trabalhadora se multiplicavam e consequentemente o espaço da vida operária
transformava-se em alvo de atuação política e de intervenções ideológicas diferentes.
2.3 Pensamento e prática do Círculo Operário: aspectos de seu cotidiano
“Operários eis a tua salvação! Vencerá nossa marcha gloriosa. Vem depressa
marchar meu irmão. Surgirá da jornada afanosa um Brasil operário cristão.”13
Num ambiente favorável, o clima sócio-cultural e político da cidade era propício a
condutas diversas dos operários. Havia uma pluralidade de credos e partidarismos políticos
que contaminava o ambiente urbano e também a Vila Operária, tornando-a alvo de pregações
ideológicas divergentes. Aquele espaço em particular transbordava de relações, as mais
variadas, que iam além da rotina do trabalho disciplinado. Os operários faziam funcionar uma
comunicação interna, com rica troca de experiências, de onde fluíam sua prática profissional,
seus valores, crenças e suas verdadeiras necessidades.
As greves sempre foram parte da história dos ferroviários devido principalmente aos
baixos salários e aos atrasos nos acertos, fato que quebrava a rotina urbana, acirrava os
ânimos e preenchia a cidade de um clima tenso, além de afetar o funcionamento dos outros
setores da economia local. Esses movimentos foram mais freqüentes nas décadas de 40 e 50,
devido à precariedade no funcionamento da Rede Mineira de Viação, coincidindo com o
governo de Milton Campos. As paralisações, que duravam em média de um a três dias,
atingiam toda a Rede e os trabalhadores das Oficinas de Divinópolis normalmente tomavam a
frente dos movimentos com a participação de suas famílias. Os ferroviários eram apoiados
pelo grupo político local, que fazia oposição à Igreja, o Partido dos Machos liderado por
Pedro X. Gontijo. Isso se explica pela velha indisposição existente entre os livres pensadores
e maçons contrários ao discurso católico mas também, e principalmente, pelo fato de que a
posição da Igreja era sempre pela conciliação (Corgozinho 1999:183-87).
O ex-ferroviário, Sr. Milton Pena, vivenciou momentos de agitação e de greves na
Rede Mineira de Viação e afirmou em seu depoimento:
13
Jornal A Semana - 11.08.1946.
84
“As greves eram motivadas mais pelos atrasos de pagamento. Os trabalhadores da
Rede ficavam com os salários atrasados por três, quatro até cinco meses, afetando a
cidade que dependia muito do pagamento da Rede. As greves não tinham
normalmente o cunho político que muitas vezes quiseram dar para elas.”14 (Milton
Pena)
O compasso da movimentação operária estava sujeito à receptividade que davam os
trabalhadores aos discursos em defesa de seus direitos e às alternativas que lhes eram dadas
para a superação das carências materiais a que estavam muitas vezes expostos. Foi em face
dessa vulnerabilidade e com um discurso de sanar as faltas materiais, mas também espirituais
e morais, que a Igreja, pela ação dos franciscanos presentes na cidade desde 1924, se lançou
no trabalho de arrebanhar os trabalhadores expostos às necessidades de sobrevivência e ao
perigo de adesão ao discurso liberal e comunista. Movidos por esse propósito, os franciscanos
responsáveis pela paróquia de Santo Antônio criaram o Círculo Operário na cidade em 1942.
O círculo operário foi idealizado pelo jesuíta Pe. Leopoldo Brentano como uma
entidade operária católica de caráter apolítico, expandindo-se em função do contexto
sóciopolítico do país nas décadas de 30 e 40. Tal ocorrência se deve ao fato de que havia
nesse período, uma defesa tanto do Estado como da Igreja ao esquema corporativo de
organização, e as elites enxergavam nesse tipo de organização uma barreira de contenção do
comunismo no meio operário. Foram pensados e criados para funcionarem como associações
inter-profissionais, oferecendo assistência social, formação espiritual e, ao mesmo tempo,
colaborando com o governo no processo de sindicalização disciplinada. O sucesso do
movimento levou Dom Sebastião Leme a colocar o Pe. Brentano como diretor da
Confederação Nacional dos Círculos Operários, sediada no Rio de Janeiro, órgão coordenador
dos movimentos de trabalhadores cristãos no Brasil (Lustosa 1991:129-133).
A iniciativa apoiada por Brentano começou na cidade de Pelotas em 1932, difundindose por outros estados e tomando conta dos espaços urbanos marcados pela movimentação
operária. Essa primeira experiência partiu dos Congregados Marianos a partir do estudo de
organizações sindicais e não sindicais da Europa e do Brasil, processo apoiado por Tristão de
Ataíde. Em sua fundação teriam sido feitas reuniões envolvendo o Bispo, o clero, presidentes
de associações católicas e operários. Sua instalação ocorreu em solenidade no dia primeiro de
maio de 1939, lançando-se de imediato na obra de sindicalização pois, o Ministério do
14
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Milton Pena no dia 24.04.01.
85
Trabalho, por meio de decreto, protegia os sindicatos registrados. Em dezembro do mesmo
ano, foram reconhecidos e oficializados todos os sindicatos do Círculo Operário de Pelotas.15
A sindicalização estimulada pelo governo ficou assim definida:
“A sindicalizarão persistia facultativa, embora logo a lei viesse a estimulá-la com a
criação de privilégios para os sindicalizados, outorgando somente a esses a
capacidade de reclamar nas Comissões de Conciliação e Julgamento – Decreto nº
23.768., de 1934. Na prática revestia-se de caráter compulsório, se bem que não
expressamente estatuída por dispositivo legal.”16
Divinópolis era uma cidade com perfil adequado para um investimento na organização
católica dos operários. Consta a existência de uma primeira organização fundada em 30 de
setembro de 1915, período de Padre Matias Lobato.17 Além de cidade operária, contava com
um corpo clerical e de intelectuais católicos sensibilizados ante ao projeto de organização
corporativa cristã dos trabalhadores, podendo contribuir para a minimização das tensões,
evitando que a ideologia comunista ganhasse terreno, principalmente entre os ferroviários.
Na opinião do Sr. Manoel Valério, ex-ferroviário e membro atuante do Círculo
Operário entre os anos 40 e 50 como secretário e delegado de propaganda, a movimentação
dos operários e sua relação com o Círculo ocorriam da seguinte forma:
“O Círculo Operário não se envolvia em manifestações. Atuava defendendo os
operários, como numa tentativa de agir legalmente em favor dos direitos dos
ferroviários sujeitos a jornadas excessivas de mais de 12 horas prejudicando
maquinistas, e foguistas, mas quando eles tiveram que assinar para que se entrasse
em defesa de seus direitos eles não quiseram assinar. As greves ferroviárias surgiam
espontaneamente , depois que estouravam vinham os aproveitadores tirar vantagens
políticas.”18 (Manoel Valério)
O Sr. Valério expressou também sua visão sobre a função dos Círculos: “atrair os
operários para dentro da Igreja para evangelizá-los”. Sua análise enquanto leigo sobre os
propósitos eclesiásticos confirma-se nas explicações do jesuíta José Naturzzi, mas a
15
Jornal A Semana - 26.01.1947.
16
Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 p. 147.
17
Van Der Vat, 1995. p. 6-10 - “Coisas do Nosso passado”, p. 27.
Entrevista realizada pela autora com Manoel Valério no dia 11.10. 01 (ferroviário e membro da diretoria do
Círculo Operário).
18
86
compreensão do antigo circulista, tanto na época de sua atuação no final dos anos 40 como em
sua avaliação pós fato, evidencia sua não compreensão da dimensão política que
representavam aquelas organizações no contexto de restauração católica no Brasil. Na
concepção de Naturzzi:
“Os Círculos Católicos de Operários constituem uma benéfica escola de vida cristã
e moralizadora, donde surge a verdadeira Restauração em Cristo das famílias
operárias, cujo reflexo invade também a sociedade. [...] As corporações católicas dos
operários moralizam a vida, porque os operários nelas aprendem a lei de Deus, os
princípios da religião, os preceitos da moral, as obrigações nobilitantes do trabalho e
a consoladora perspectiva dos seus deveres. [...] A mesma pátria reconhece nessas
associações de operários um forte baluarte de defesa civil contra os acérrimos
inimigos do Estado e das autoridades superiores do país.”19
Estimulados pelo trabalho do assistente eclesiástico, Frei Hildebrando van Petten, os
operários criaram o Círculo Operário de Divinópolis em setembro de 1942, oficializado em 27
de março de 1944, registrado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos. sob o nº 281
no livro B – 1. No estatuto a entidade era assim definida:
“O círculo Operário é uma associação livre e de direito civil, constituída por
trabalhadores de ambos os sexos e de qualquer profissão, com o fim de formar uma
organização cristã, forte e perfeita, para defender os interesses comuns a todos os
trabalhadores.”20
A primeira geração de dirigentes compunha-se de um grupo de ferroviários e sua
primeira diretoria ficou assim constituída: João Ferreira de Freitas (presidente), Antônio
Bernardirno dos Reis (vice-presidente), Amintas Marques (1º secretário), Francisco Bernardes
de Lima Filho (2º secretário), Benedito Cristino Costa (tesoureiro), Pe. Fr. Hildebrando Van
Petten O. F. M. (assistente eclesiástico).
Na sua estrutura hierárquica, tinha papel de destaque o assistente eclesiástico como
estava estabelecido no Artigo 49, parágrafo 2º do Estatuto que estabelecia sua nomeação pela
autoridade arquidiocesana, dependendo dela a duração de seu mandato. A figura do assistente
Mensageiro do Sagrado Coração de Jesus, 1940, p.p. 395 – 396. In. Azzi, Riolando. A Neocristandade um
projeto restaurador. São Paulo: Paulos, 1994 p.p. 149-15.
19
20
Jornal Interno A Semana – 13 à 20 de agosto de 1944.
87
eclesiástico era de direção, como rezava o Artigo 25. A reunião ocorria em sua órbita, o qual
muitas vezes, dava início às atividades da assembléia ou anunciava os informes mais
significativos, além de garantir o cerimonial religioso com as orações e práticas
institucionalizadas, como a saudação cristã que abria as reuniões: “Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo”. Cabia-lhe a definição das estratégias de formação cívica, religiosa e
moral dos associados através da escolha dos temas das conferências, às vezes assumidas por
eles mesmos, no chamamento à responsabilidade, alertando sobre falhas ou estimulando o
grupo para o enfrentamento de situações adversas. A manipulação de símbolos e formas de
identificação se dava pelo uso de distintivo, entoação do hino circulista, e por reverenciarem
sua padroeira, Nossa Senhora Medianeira. Mas o que parece ter sido mais forte na absorção
do ideário católico foi a imagem que faziam de si mesmos como os portadores da palavra
verdadeira como os legítimos representantes do bem.
A dimensão do público, representada pela organização coletiva dos trabalhadores
nucleados no Círculo, tinha como objetivo último atingir o âmbito privado de suas vidas pela
absorção dos valores cristãos de civismo calcados na harmonia e pela conduta religiosa que
deveriam assumir frente à família. É interessante observar a necessidade de ficarem
estabelecidos os registros da presença religiosa no ambiente de convívio do trabalhador, como
na proposta de Frei Hildebrando na reunião de novembro de 1944, de os sócios fazerem a
entronização do quadro do Sagrado Coração de Jesus em suas casas. Ao oficiar a cerimônia
do ritual de entronização, o sacerdote transferia para a família a segurança da proteção e a
firmeza do compromisso de uma prática cristã:
“A entronização do Coração de Jesus nos lares é uma cerimônia lindíssima. Rei é
aquele que reina sobre a universo e conhece o coração humano em todas as suas
fraquezas e todos os seus segredos. Entronizá-lo, dar-lhe a soberania do lar, suplicarlhe a paz, o amor, a felicidade, a saúde, a graça, esse é o dever de todo bom
católico.”21
Um princípio estabelecido nos Estatutos da Ação Católica, inspirado em documentos
pontifícios de Pio XI, era que os leigos auxiliares da hierarquia pudessem estar atuando num
apostolado que atingisse os campos privado e público da vida social. Passava-se a idéia de
21
Jornal São Francisco – Ano VIII – 15.05.1931.
88
que os Círculos deveriam atuar acima dos partidos, das classes e dos sindicatos, como se
ultrapassasse as coisas terrenas, e na sua condição de transcedentalidade, podia focar o mal e
mostrar o caminho da virtude e da harmonia.
A Igreja Católica em sua história de institucionalização reproduziu seus símbolos e os
atualizou em cada momento, reforçando sua presença e autoridade. Ao estabelecer uma
imagem do real por meio de signos e rituais, a moral católica teria forjado sua própria
reprodução numa crença verdadeira de estar conduzindo os trabalhadores e suas famílias para
o caminho da virtude temporal e da salvação espiritual. A incorporação do aparato simbólico
no cotidiano recluso do lar e nos espaços de uso coletivo criou uma identidade definidora de
um sentimento de pertencimento ao mundo cristão católico responsável pela segurança de
seus membros.
Nas primeiras reuniões percebe-se a preocupação dos organizadores da entidade em
estabelecer as bases dos princípios circulistas definidos em esfera nacional, já que os círculos
faziam parte de um projeto maior da Igreja de organização dos trabalhadores e de um
posicionamento político-social levado a cabo pelo Movimento de Ação Católica. A relação do
círculo com esse projeto maior foi colocado pelo assistente eclesiástico na décima reunião da
entidade. O vínculo com os fundamentos do movimento operário cristão em nível nacional e
com a legislação foram colocados no Artigo 2º do Estatuto registrado em março de 1944,
onde ficou traçado:
“Colaborar com o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio, consoante o
decreto-lei nº 7.164 de 12 de maio de 1941, e em entendimento com as entidades
circulistas hierarquicamente superiores, visando a realização progressiva do
programa de ação com respeito à legislação social contida na Segunda parte do
Manual do Círculo Operário.”22
Os princípios católicos foram colocados no Artigo 3º, adotados como bases firmes e
inabaláveis, citando a orientação sociológica contida nas encíclicas Rerum Novarum e
Quadragesimo Anno, cujos ensinamentos repudiavam a luta de classes, defendiam o direito
natural e sagrado de propriedade legitimamente adquirida, considerando, porém, a
necessidade de um compromisso social por parte do detentores da riqueza. Esse artigo expõe
22
Estatuto do Círculo Operário de Divinópolis – Registro nº 281, março 1944, p. 179 e ss. Do Livro
89
também sobre a necessidade de intervenção do Estado na questão social, controlando e
regulando o justo salário, a justa produção e o justo preço.
A ação nucleada nos Círculos operários deveria dar relevo à educação e estimular
hábitos de economia e previdência, mostrando aos trabalhadores as suas responsabilidades e
deveres, dando-lhes, no cumprimento desses, as condições de reivindicação de direitos,
estimulando-os a entrarem nos seus sindicatos de classe, atuando nos mesmos como
portadores de sua formação social cristã (Dale 1985:78-79).
O Círculo cumpria uma função assistencial e formativa; seus membros em muitas
passagens das reuniões referiam-se à entidade como sendo um movimento social. Nos
primeiros tempos de sua existência, o Círculo Operário de Divinópolis dedicou-se a oferecer
pequenos auxílios aos seus membros mais carentes, recurso poupado em um fundo de
participação constituído de mensalidades pagas pelos associados. A diretoria, eleita em
dezembro de 1944, ainda tinha como elementos de base funcionários da R. M. V., tendo como
componentes: Orlindo Sotero (presidente), Joaquim Martins Lara (vice-presidente), Geraldo
Lara (1º secretário), Miguel Lara (2º secretário), Geraldo Amâncio Correia (tesoureiro),
Antônio Pires B. de Morais (2º tesoureiro), José Pinto B. de Morais (delegado) e Francisco
José da Fonseca (delegado).
No ano de 1946, o Círculo passou por uma renovação; teria ocorrido uma mudança
qualitativa em sua composição e ação. A nova diretoria, diferente da primeira geração, era
composta de personalidades de peso na comunidade, um conjunto de homens letrados
(engenheiro, advogado, professores) que, seguindo as orientações da Igreja, colocavam-se à
serviço da causa social. Seus novos membros eram: Cristiano da Costa Melo, Martin Ciprien,
Salviano Avelar, João Mauro, João Pinto Conceição, Artur Braga Filho.
A iniciativa de promover a transformação parece ter sido tomada pelo recém
empossado como assistente eclesiástico, Frei Rafael Zevenhoven, figura controvertida que
atuava com grande fôlego no combate aos elementos considerados opositores da Igreja.
Parecia estar enfronhado nos projetos da Ação Católica e nas atividades da Igreja dentro e
fora do país, o que pode ser constatado pelo conjunto de seus artigos, sistematicamente
publicados no jornal católico local “A Semana”.
A grande inovação introduzida nessa nova fase foi a aplicação de um trabalho
educativo feito a partir de uma agenda de conferências para enriquecimento das reuniões e a
introdução do espaço recreativo como tática de arregimentação dos operários, muitas vezes
90
desestimulados a participarem sistematicamente de reuniões. Havia uma preocupação da
diretoria em garantir a ampliação do número de filiados e de torná-los membros atuantes e
freqüentes nas assembléias e eventos, ficando claro nas reuniões e nos comentários da seção
circulista da imprensa, as dificuldades de garantir o envolvimento orgânico dos operários no
processo. No artigo “Apelo aos Operários de Divinópolis”23, a diretoria tentou explicar a
importância do Círculo enquanto entidade comprometida com a formação da classe
trabalhadora, comentando sobre a capacidade de organização dos comunistas em outros
países, a ponto de chegarem a tomar o poder. Cita um comentário de apoio do governo à
causa circulista, feito pelo ministro do trabalho, o Sr. Morvan Dias de Figueiredo, elogiando a
obra social dos Círculos no Brasil por meio da assistência material e moral que ofereciam às
famílias dos operários considerando-os o verdadeiro suporte dos sindicatos.
Os Círculos Operários foram concebidos para atuar pelos trabalhadores sem restrições,
distinguindo-se em conteúdo e propósitos dos sindicatos, como foi exposto num texto
publicado em 1943:
“O Círculo Operário considera os sócios como membros da classe operária
em geral. O sindicato considera seus membros como companheiros de
profissão.
O Círculo Operário é uma família de famílias, pois recebe o operário de qualquer
profissão com toda a sua família e os interesses desta. O sindicato é uma família de
indivíduos de certa profissão e se interessa por eles enquanto profissionais
principalmente.
Nos Círculos Operários promovem-se a assistência e o auxílio mútuo do operário. É
a obra das obras, com sessões de assistência espiritual, médica, jurídica, instrução,
biblioteca, círculos de estudos, creches, colônias de férias, hospitais, pecúlio,
socorro mútuo, habitação própria, cooperativismo e o próprio sindicato.”24
Acompanhando esse raciocínio, na concepção de seus idealizadores, os Círculos
teriam compromisso com uma ordem social sustentada na harmonia, justiça e caridade,
agindo para isso, sobre todas as classes sociais. Para alcançar tal objetivo não restringiam a
participação e a colaboração dos vários segmentos, estando abertos à colaboração de
intelectuais e de patrões e procurando fazer um trabalho de conciliação das classes.
23
Jornal A Semana - 19.09.1948.
24
Jornal Interno A Semana – 13 a 20 de junho de 1943.
91
Encaravam os sindicatos como “obra dos homens”, voltados para a defesa das profissões no
que se refere mais especificamente à garantia de salários e trabalho. Na verdade, as duas
formas de organização se completariam, cabendo aos círculos, em função de sua abrangência
e compromisso corporativista, fomentar as formas de organização e articulação de patrões e
empregados a partir de iniciativas particulares manifestas na sociedade que favoreceriam a
ação do Estado; todos atuariam juntos pelo bem público.25 Essa visão da organização operária
refletia o pensamento católico oficial sobre o mundo do trabalho e sobre a dinâmica de
funcionamento da sociedade capitalista desde o início da República, prosseguindo nos anos
30 e 40 e só sofrendo maiores alterações a partir de meados de 50. A Igreja manteve sua
concepção de dois mundos, o espiritual e o temporal, e a manutenção de seu status de
representante do campo sobrenatural, numa condição de guia inquestionável do caminho
seguro para uma sociedade justa e equilibrada.
Os sindicatos de inspiração católica deveriam, segundo avaliação do sociólogo
católico costariquenho Pe. Benjamim Nunes, colocar-se numa situação apartidária, sob pena
de descumprirem sua verdadeira função. De acordo com suas próprias declarações:
“Repelimos por outro lado o sindicalismo misto um retrocesso para o melhoramento
das classes operárias. Inspirados no princípio de justiça social, ou seja, do bem
comum, acima dos interesses partidários, declaramos que o movimento sindicalista
há de ser apolítico, desde o momento em que um sindicato para constituir-se em
agrupamento de operários que procuram o triunfo de um partido em que crêem
encontrar apoio para seus interesses. Tecnicamente falando, esse perde seu caráter
de sindicato. Ou tem de conseguir a adesão de todos os seus membros ao partido
favorecido, ou se verá forçado a trair os interesses dos sindicalizados em aras do
interesse do partido político.”26
Durante toda a história do Círculo, nas suas várias fases havia um desafio da diretoria
e dos intelectuais que apoiavam aquela agremiação, de legitimá-la diante do poder público,
dos patrões e dos trabalhadores. O respaldo governamental era explícito e foi demonstrado em
várias situações. A maior dificuldade era fazer o trabalhador estar presente nas atividades
programadas, levando-o a incorporar a ideologia subjacente ao movimento, protegendo-o do
25
Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de junho de 1943.
26
Jornal Interno A Semana – 10 a 17 de setembro de 1944.
92
assédio de outros discursos e formas de organização. No órgão oficial de imprensa do Círculo,
o jornal “A Semana”, os apelos voltados à participação eram constantes:
“No ano de 1942 foi criado o Círculo Operário Divinopolitano afim de
formar uma organização forte e perfeita para dignificar o trabalho e defender
os interesses dos operários. Nas duas últimas reuniões mensais nem houve
número suficiente de sócios para se realizar a reunião geral dos circulistas.
Como é que poderemos assim dar formação intelectual, moral, social, assistencial e
proteção a classe menos favorecida? Dentro da nossa cidade industrial cabe tão bem
um Círculo Operário! Que força moral teríamos se conseguíssemos congregar os
operariado todo, pois só a união faz a força. [...] Vinde assistir às nossas reuniões,
ajudai-nos. A diretoria precisa de vossa presença, da cooperação de todos os sócios,
como também das classes mais favorecidas afim de alcançar para os operários uma
assistência social, cultural e espiritual.”27
Aconteciam eventos recreativos variados programados para o encerramento de cada
encontro dos circulistas. Essa prática acabava por cumprir um papel complementar que
ultrapassava a vida do Círculo – nos momentos de atividade cultural, a entidade interagia com
a comunidade letrada e erudita, fazendo contato com uma vida social que normalmente não
fazia parte do universo de seu público. Da programação artístico-recreativa, participavam
músicos como Jacinto Guimarães, violinista já consagrado na cidade, em parceria com a
pianista Tereza Martin, filha do presidente da entidade Sr. Martin, executando “La
Cinquentaine”; participavam também o coro misto do Santuário, “Panis Angelicus” de Cesar
Franck, a banda de música dirigida pelo maestro Sr. José Orsini Campos, sempre presente nos
eventos mais solenes; além de números de mágica e de peças teatrais com a exibição de temas
religiosos. A apresentação de filmes, selecionados pelos franciscanos, era parte da cruzada
pela boa conduta, comum no cotidiano da vida social da cidade e usada também como
instrumento de orientação dos operários como lembra o Sr. Galba:
“Vários frades contribuíram com o Círculo Operário, a iniciativa partiu da Igreja. O
Círculo não se envolvia em greves, sua função era orientar os operários para
reclamarem seus direitos através do diálogo com os patrões e os chefes. Quando
ocorriam as assembléias, no Cine Teatro Santo Antônio, eram passados filmes
educativos para os trabalhadores sempre voltados para mostrar os erros do
27
Jornal A Semana - 19.09.1948.
93
comunismo e como eles estavam começando a dominar o mundo.”28
Oliveira)
(Galba
As palestras sempre tinham um caráter formativo, guardando uma moral cristã para o
ouvinte. Mesmo aquelas de cunho mais técnico seguiam essa lógica, como na abordagem das
leis trabalhistas feita pelo assistente jurídico, o advogado Dr. Artur Braga Filho, na reunião de
maio de 1946, quando esclareceu sobre as leis que incidiam sobre a relação entre patrões e
empregados, não deixando de salientar que a Igreja sempre teria exercido influência na
definição das leis trabalhistas importantes para os trabalhadores. Os temas das palestras
giravam em torno das mudanças ocorridas na sociedade moderna, como foi a proferida pelo
Sr. Antônio Pires de Morais em agosto de 1948. Foram abordados aspectos resultantes dessas
mudanças, como a questão social e as interpretações dadas a esses fenômenos, inclusive
aquelas consideradas perniciosas pela Igreja; a ideologia socialista e comunista, por exemplo.
As conquistas operárias eram vistas como fruto de um esforço pacífico, uma
característica da prática do povo brasileiro. Na reunião de 13 de fevereiro de 1949, o
palestrante o Dr. Antônio Gonçalves de Matos falou sobre “O operário e suas conquistas”,
salientando, ao terminar, que os operários brasileiros, sem derramamento de sangue, teriam
conquistado todas as leis que os protegiam.
Havia uma preocupação, a partir das mudanças introduzidas pela nova gestão, em
ampliar a ação social promovida pela entidade através de outros benefícios além dos já
oferecidos aos sócios, tais como consultas e aquisição de remédios à baixo custo.
“De hoje em diante os sócios do Círculo Operário terão assistência médica e
farmácia a preços reduzidos. Os médicos: Zózimo Ramos Couto, Francisco
Malaquias Filho, Sebastião Guimarães e Antônio Vilaça, comprometeram-se a
cobrar dos circulistas, que estão quites com a caixa do Círculo, somente a metade
dos preços correntes, isto é, farão para os sócios do Círculo Operário um abatimento
de 50 porcento. A farmácia do hospital fornecerá remédios ao preço mais baixo
possível. Esta redução será para o sócio, a mulher e seus filhos menores de 14 anos.
Mas que nenhum sócio o esqueça, este abatimento tanto dos médicos como da
farmácia do Hospital só se consegue mediante a apresentação da caderneta
quitada.”29
28
Entrevista realizada pela autora com o Sr. Galba L. Oliveira no dia 01.20.03.
29
Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de agosto de 1944
94
Ambicionavam criar serviços mais abrangentes destinados aos trabalhadores e à
comunidade, tomando como exemplo o modelo de Círculos Operários que atuavam com
sucesso em outras cidades. Acompanhando uma linha de organização dos trabalhadores,
centrada na visão assistencialista, que no caso dos Círculos estava aliada a formação moralreligiosa e aos princípios da reforma social proposta pela Igreja, conseguiram colocar em
funcionamento uma caixa de Socorro Mútuo voltada para o socorro ao enfermo. Seria
beneficiário aquele que estivesse em dia com a contribuição regular paga ao Círculo Operário
e com a Caixa de Socorro a partir de uma carência de 3 meses para obtenção do direito,
mediante atestado dado pelos médicos filiados à entidade. Foi criada também uma Caixa de
Pecúlio com auxílio em dinheiro para as famílias dos sócios falecidos.
Neste rol de projetos sociais, consta a criação da Empresa Funerária Nossa Senhora
Medianeira em 1950, fruto de vitória do Círculo Operário em concorrência pública feita pela
Santa Casa de Divinópolis. Esse fato foi acompanhado de perto pelo Sr. Manoel Valério e
suas observações explicam o fracasso da iniciativa que pretendia inovar os serviços prestados
à comunidade. Ocorreu, na prática, uma resistência da população diante do uso de um carro
funerário que quebrava a tradição de transporte manual, além do aspecto relativo a posição
social do usuário do serviço:
“A funerária quem administrava era o Frei Saulo e o Antônio Diniz. Esse serviço era
assumido anteriormente pelo Fernando e foi passado para o Círculo pela prefeitura
sob protesto do mesmo. Foi comprado o primeiro carro funerário da cidade, todo
bonito e imponente, mas só os pobres usavam, a prática era transportar na mão.
Acabou o carro servindo para carregar doentes da Santa Casa.” (Manoel Valério)
O grande número de ferroviários como membros do Círculo Operário de Divinópolis,
desde sua origem, levou a entidade a se envolver diretamente com os assuntos relativos à
Rede Mineira de Viação e ao funcionamento da Oficina. A presença de Dom Cabral na
Oficina da Rede fazia parte do itinerário de suas visitas pastorais. Foi significativa a
solenidade de 23 de dezembro de 1935 para a bênção solene do sino da Capela de Nossa
Senhora da Conceição da Vila Operária, fundido pelos ferroviários. A cerimônia foi
autorizada pelo Dr. Benedito Valadares, interventor federal em Minas Gerais, e pelo
Arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral. Foi acompanhada pelo Dr. Benjamim M. de
Oliveira, diretor da EFOM., e Sr. Pedro Silva, chefe das Oficinas, com a presença do Rvm.
Pe. Fr. Serafim Lunter, comissário Provincial dos Franciscanos Holandeses no Brasil, além do
95
Pe. Fr. Cândido, guardião do Convento. No discurso, o Sr. Benjamim elogiou os franciscanos,
dizendo aos ferroviários que eles nunca os enganariam com falsas promessas, não os
envolveriam em agitações e nem os lançariam em aventuras perigosas. Afirmou que os
princípios cristãos por eles difundidos eram os únicos que poderiam iluminar a humanidade
naquele momento sério e trágico para o mundo. Concluiu seu discurso defendendo a presença
da Cruz de Cristo nas repartições, lares quartéis e oficinas.30
Em outubro de 1946, o Sr. Antônio Nascimento Teixeira, membro da Rede, falou aos
circulistas sobre a criação da Cooperativa de Consumo que beneficiaria os ferroviários. A
diretoria aproveitou a exposição sobre o tema para valorizar as iniciativas associativistas e
cooperativistas como práticas que deveriam ser adotadas pelos trabalhadores.
Dentre as propostas do círculo constava a criação de uma cooperativa. Para tanto, os
associados foram informados sobre o cooperativismo e as suas vantagens através de palestras
e de publicações informativas. Foi explicado ao leitor, nessas publicações, as modalidades de
cooperativas existentes, como as de crédito, de produção, as escolares e de consumo. O
destaque foi dado para esta última, modelo que suprime a figura do intermediário, vendendo
ao preço de mercado aos cooperados e utilizando o lucro em benefício dos mesmos, de acordo
com o volume de compras de cada um. Resguardava-se sempre, entretanto uma parcela dos
rendimentos para a manutenção de um fundo de movimentação da cooperativa.31 O Círculo
chegou a criar uma cooperativa:
“Ao chegar na cidade, Frei Rafael encontrou o Círculo Operário funcionando aos
cuidados de Frei Hildebrando do Van Petten como assistente elesiástico. O Círculo
possuía uma pequena cooperativa na rua 21 de abril com Goiás que fechou em
outubro de 1945 devido a prejuízo.”32
Era comum a atuação do clero através do Círculo Operário nas relações de trabalho da
Rede Mineira de Viação, como pode ser destacado ainda na época de Frei Hildebrando,
quando este intercedeu junto ao diretor da referida instituição para que fosse pago aos
30
Jornal Santuário de Santo Antônio nº 10 – fevereiro de 1935.
31
Jornal Interno A Semana – 18 de julho a 8 de agosto de 1943.
32
Livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio.
96
operários o abono família33, ato reforçado em carta enviada ao governador do estado. Essa
iniciativa ficou assim registrada no jornal da paróquia:
“No dia 01 de março de 1943 o Pe. Frei Hildebrando, assistente eclesiástico do
Círculo Operário esteve juntamente com o Revmo. Pe. Leopoldo Bentrano nos
escritórios da Oeste de Minas, conversando com o Diretor da Rede Mineira de
Viação sobre o abono familiar dos ferroviários. Soube-se então, estar unicamente
nas mãos do Sr. Governador do Estado a extensão do abono família aos ferroviários.
Razão pela qual decidiu-se enviar um ofício ao Sr. Governador pedindo
providências neste sentido.”34
Na mesma oportunidade, manifestou-se também a Federação dos Círculos Operários
através de carta35 ao Governador:
“Cumpre comunicar a esse Círculo que estamos insistindo junto ao Sr. Governador no
sentido de ser a legislação sobre o abono familiar extensivo aos servidores da Rede Mineira
de Viação, questão pela qual se interessa vivamente esse Círculo. Publicamos o assunto pela
imprensa local.”
Saudações circulistas
Boaventura Sousa
Belo Horizonte 15/02/1943
No jornal “O Diário” do dia 18 de fevereiro de 1943, foi publicada a seguinte
manifestação católica frente ao problema:
“Estando o Círculo Operário de Divinópolis grandemente interessado na extensão da
legislação sobre o abono familiar aos servidores da Rede Mineira de Viação ... É de
se esperar que o governo estadual atenda com a máxima solicitude a justa pretensão,
pois que se trata de medida de alta oportunidade a ser conferida a numerosa classe
de pais de família ...”36
A relação com as autoridades constituídas era uma constante, como no caso da
solicitação à Getúlio Vargas de colaboração para a aquisição de um lote e para a construção
33
Ata do Círculo Operário de 06.04.1946.
34
Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943.
35
Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943.
36
Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943.
97
da sede do Círculo Operário. O próprio Vargas tinha sua posição quanto aos Círculos
Operários no Brasil: “Considero os Círculos, pela forma religiosa e educativa como estão
organizados, um movimento construtivo e um trabalho de colaboração com o governo.”37
Além disso, o governo procurou institucionalizar essa relação, concedendo à Confederação
Nacional dos Operários Católicos, coordenadora dos Círculos Operários, a prerrogativa de
colaborar consultiva e tecnicamente com o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio, pelo
decreto de 12-05-1941.38
Getúlio Vargas, ao criar a figura do Estado protetor da classe operária, garantindo-lhe
direitos sociais e manipulando suas relações e organizações, teria inaugurado uma forma de
cidadania que Wanderley Guilherme dos Santos chamou de “cidadania regulada”:
“Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes encontram-se,
não em códigos de valores políticos, mas em um sistema de estratificação
ocupacional, e que ademais, tal sistema de estratificação ocupacional é definido por
norma legal [...] A cidadania está embutida na profissão e os direitos dos cidadãos
restringem-se aos direitos do lugar que ocupa no processo produtivo, tal como
reconhecido por lei”.39
O Círculo Operário de Divinópolis, além de seguir as diretrizes traçadas pela
hierarquia circulista nas instâncias estadual e federal, recebia seus representantes, trocando
com eles correspondências e participando de seus eventos regionais. Em fevereiro de 1949,
receberam uma solicitação da Confederação dos Círculos Operários do Brasil para
contribuírem com 20 cruzeiros na compra de uma estação radiofônica para o Vaticano.
Os contatos antecederam à própria articulação e criação oficial do Círculo Operário no
município, como ocorreu no momento em que o vigário Frei Gilberto Alders trocou
informações e buscou esclarecimentos com o Pe. Leopoldo Brentano. Em resposta à carta que
lhe teria sido enviada por Frei Gilberto, datada de janeiro de 1940, o Pe. Brentano deu
instruções ao solicitante falando sobre sua preocupação referente à firmeza católica dos
Círculos Operários, que teria sido questionada por padres de Belo Horizonte. Essas entidades
seriam rigorosamente católicas, conforme as encíclicas e outros documentos de Roma,
37
Vozes, 1940, setembro, p.p. 556 – 558. In: In. Azzi, Riolando. A Neocristandade um projeto restaurador. São
Paulo: Paulos, 1994. p. 151.
38
Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de junho de 1943.
39
Santos, 1992. p. 75.
98
aspecto que estaria exposto com clareza no Manual do Círculo Operário. Nas páginas 69 e 70,
é citada a importância da presença do assistente eclesiástico, garantindo sua catolicidade e
com direito de veto sobre questões que fugissem a esse propósito. No entanto, os Círculos não
deveriam ser confundidos com associações religiosas, situação também prevista no referido
manual, na página 90, que define a relação dos Círculos com essas associações compostas
somente de católicos em função de dedicarem-se a práticas exclusivamente religiosas e ao
apostolado. De maneira diferente, os Círculos lidam com questões eminentemente temporais e
com uma imensa diversidade de trabalhadores de origens e ofícios diferentes e com seus
respectivos sindicatos. Deveria estar aberto à participação de elementos que professassem
outras religiões, até porque seria uma forma de evangelizá-los. Nas palavras do próprio
Brentrano:
“Os Círculos Operários estão nas condições dos colégios, hospitais, asilos,
conferências vicentinas, etc, católicos dirigidos mesmo por padres e freiras, admitem
eles alunos, doentes, órfãos pobres também não católicos, porque seu fim imediato é
a instrução, a saúde, o amparo com fins temporais. Aqui vale o dito: fazei o bem,
não olhes a quem. Indiretamente é claro, procuram a cristianização, a salvação das
almas, tais quais os Círculos Operários, são instituições rigorosamente católicas,
porque fundadas e orientadas por católicos, desenvolvem atividades dentro da
doutrina católica e visando sua propaganda.”
No tocante à filiação dos trabalhadores em sindicatos ou associações neutras de cunho
interconfissional, Brentano utiliza afirmações do próprio Papa Pio XI para esclarecer a
posição assumida pela Santa Sé, quando o mesmo autoriza os bispos a adotarem uma posição
de respeito a liberdade de escolha dos trabalhadores, devendo estar atentos, no entanto, para
um trabalho de acompanhamento dos sindicatos. Isso evitaria condutas inadequadas aos
preceitos cristãos, apoiando a execução do Plano de Ação Sindical concebido para este fim.
Ressalta que o caso do Brasil ainda exigiria maior cuidado nesse aspecto, diferentemente de
países europeus, onde o credo religioso e as divisões entre católicos e protestantes é mais
evidente. Na realidade brasileira, existe uma mistura natural, sendo comuns posições
ambivalentes de verdadeiro sincretismo. Finaliza a carta criticando a posição equivocada dos
padres de Belo Horizonte que por desinformação estariam combatendo os Círculos Operários;
não teriam, portanto, ciência dos decretos 143 e 144 do Concílio Plenário e da Encíclica
Divini Redemptoris nº 62 e estariam dessa forma assumindo um atitude anticristã.
Os eventos nacionais afetavam o funcionamento local da entidade devido à rede de
99
intercâmbio criada pela Igreja e ao grande investimento nos sistemas de comunicação, como
jornais e rádio. Cabe ressaltar que esse aparato servia prioritariamente para difundir a Ação
Católica, sustentando outra visão de apostolado numa cruzada militante de restauração do
reinado social de Jesus Cristo, constituindo-se no arcabouço ideológico da ação social e da
atuação no meio operário assumidos pela Igreja. Apesar da Juventude Operária Católica ter
sido a melhor expressão da Ação Católica no meio operário e de diferir essencialmente dos
Círculos, havia um esforço de convivência entre as duas formas de intervenção (Lustosa
1991:119-138).
Scottt Mainwaring mostra que até 1930, a Igreja não havia percebido com clareza o
nascimento e a expansão da classe operária. Acrescenta que nos anos 30 foram criados os
Círculos Operários com a finalidade de conservar os operários nas práticas paroquiais e nas
devoções tradicionais. A JOC teria outro significado: com ela, penetrou na Igreja a
consciência da especificidade da classe operária, de que os operários colocavam problemas
que iam além do sistema assistencialista tradicional.40
Na Segunda Semana Nacional de Ação Católica de 1946 foi definido um plano
nacional de ação social que tratou das formas de atuação no meio operário, defendendo que a
organização dos trabalhadores deveria constituir-se objeto de ação imediata dos párocos e
católicos esclarecidos, considerando os Círculos Operários como organizações apropriadas
aos objetivos da Igreja devido a seu aspecto de instituição de assistência econômico-social aos
trabalhadores. O documento apoiava a criação dessas entidades nas paróquias, arrebanhando
trabalhadores urbanos e rurais a partir de núcleos instalados em suas próprias zonas de
trabalho. Orientava também sobre a criação de organismos federativos amplos que deveriam
incluir os círculos, unificando o movimento operário com a cooperação da Juventude Operária
Católica (Dale,1985).
No campo simbólico, é interessante observar a preocupação em dignificar e divinizar o
trabalho, aproximando-o de Deus que, por vezes, era lembrado como o primeiro operário pela
criação do mundo e de Jesus, por seu nascimento em uma família de artesãos, filho de pai
carpinteiro, o que contribuía ainda mais para a construção da imagem de pertencimento a um
mundo cristão seguro. A importância da estabilidade e segurança foi transmitido também pela
Mainwaring, Scott (1989). A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense, p. 141.
In: Comblin, José. Um novo amanhecer da Igreja?Petrópolis: Vozes, 2002.
40
100
conduta de resgate e de proteção repassada no discurso católico, em oposição ao discurso
revolucionário comunista que, ao contrário de amparar, lançaria o operário na insegurança do
confronto e da luta de classes.
Nas reuniões teciam-se comentários sobre as orientações enviadas pelas entidades
maiores, liam-se documentos enviados por elas, como o manifesto operário resultante do
Congresso de Barbacena realizado em 1949 e o convite feito pela Federação para o congresso
que se realizaria em Sete Lagoas, lido por Frei Saulo, empossado como assistente eclesiástico
em novembro de 1949, substituindo Frei Orêncio Vogels.
Momento de grande importância foi a presença do presidente da Federação Mineira
dos Círculos Operários na reunião de abril de 1950, o Sr. Boaventura de Souza, que em
discurso aos associados, lembrou da necessidade de articulação entre os Círculos existentes no
Brasil e comunicou um pedido de verba que teria sido feito pela Federação ao governo federal
em benefício do Círculo Operário de Divinópolis. O mais significativo em seu
pronunciamento foi a demonstração clara de trânsito do movimento cristão junto ao governo
como entidade com poder consultivo perante as autoridades, como ficou registrado em ata:
“Iniciou sua Excia por tecer comentários sobre a posição em que se encontra atualmente os
Círculos Operários do Brasil perante nossos governantes, sendo considerado órgão
consultivo, e expressou sua confiança na vitória do nosso ideal em futuro próximo”.
Frei Saulo Tavares Cabral procurou dinamizar o Círculo na administração do ourives
Sr. Antônio Diniz. Nessa nova fase, o Círculo Operário de Divinópolis apresentava sinais de
enfraquecimento. O período áureo dos anos 40, que coincidira com a segura aprovação e
apoio do Estado, vinha sofrendo alterações em função de mudanças conjunturais ocorridas no
país.
O novo assistente procurou ativar os núcleos dos bairros, refazer as fichas de cadastros
dos sócios e o mais inovador foi estimular a participação feminina. No seu período, foram
registradas várias filiações de mulheres que passaram a engrossar as fileiras da entidade. Tal
fato não era proibido pelo estatuto mas não era uma prática usual, já que as mulheres eram
mais atuantes em outras associações católicas como nas Filhas de Maria ou na Liga Feminina
Católica. Os rumos dessa entidade seguiram o trajeto dos acontecimentos políticos e dos
novos posicionamentos da Igreja frente aos mesmos. Em Divinópolis, consta oficialmente, a
continuação de uma entidade de trabalhadores católicos. No cartório de registro foi feita uma
averbação de mudança de nome, datada de 20 de maio de 1976, quando a entidade passou a
101
ser chamada de Círculo dos Trabalhadores Cristãos de Divinópolis acompanhada de mudança
estatutária.
Frei Aloísio Lorschider, em crônica publicada na Revista de Santa Cruz em 1954,
comentou sobre os motivos pelos quais o Círculo Operário de Divinópolis apresentou
limitações, tentando, no entanto, cumprir o seu papel na organização cristã dos operários:
“Uma das razões, devido às quais o Círculo Operário não é em Divinópolis aquilo
que poderia ser, deve procurar-se no fato de uma certa displicência dos operários
para se associarem, para se unirem, pois além do Círculo Operário, existem o
Sindicato de Fiação e Tecelagem, a Associação dos Ferroviários e a Associação dos
Aposentados, cuja situação é menos lisonjeira ainda. Praticamente só o Círculo
continua a ser uma voz de certa autoridade para que os operários não estejam de
todo desprotegidos, e constitui um veículo da doutrina social da Igreja, uma vez que
mantém com rara persistência uma coluna circulista no jornal paroquial A Semana.”
42
A atuação católica no meio operário tomou rumos diferentes já em meados dos anos
50. O modelo dos Círculos já não dava conta das mudanças em curso no país e no mundo,
principalmente se considerarmos os projetos desenvolvimentistas implementados no país.
Ocorreram a experiência democrática que antecedeu a ditadura militar e também, a
reformulação interna da Igreja com o Concílio Vaticano II. Lustosa analisa essa transição
mostrando que a década de 50 exigiu nova conduta dos católicos frente à questão social e
operária, expondo a necessidade da reforma social. Clérigos e leigos foram levados a
reconhecer sua importância diante da transformação estrutural dos quadros da sociedade.
Estava em marcha um processo incontido de politização e mobilização dos
movimentos populares, sinalizando para um outro estilo de compreensão da ação social
(Lustosa, 1991:143-144).
42
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954.
102
2.4 A moral católica e a luta revolucionária: os operários entre dois discursos
“Brasileiros! Por amor a cristo, ao Brasil e a honra e dignidade de nossas mães e
filhos, ainda é tempo, lutemos contra o comunismo!”42
Na frase de fechamento do Manifesto Comunista, “Proletários de todos os países, univos!”, os trabalhadores do mundo estavam sendo convocados para engrossassem as fileiras
da luta proletária contra a opressão do capital. O título do artigo do jornal A Semana,43
“Circulistas do Brasil, uni-vos!”, demonstra a disposição do Movimento Círculista Brasileiro
para arregimentação das forças do movimento operário cristão em torno dos princípios
católicos estabelecidos pela Rerum Novarum. A paródia evidencia a profundidade do embate
político ideológico que se expressava no meio sindical, numa disputa de espaço em torno de
modelos opostos de concepção sobre o capitalismo e no tocante a forma de organização da
classe trabalhadora.
Em 1948, no aniversário de cem anos do Manifesto Comunista, já havia sido
publicado um artigo no jornal A Semana intitulado – “Faz um século”44, em que Frei Alberto
O. F. M. criticava a obra de Marx e Engels, expondo sobre seu caráter revolucionário e
estimulador da violência e da luta de classes.
O confronto político-ideológico apontou caminhos opostos para a direção do
movimento operário e para a atuação político-partidária dos dois campos institucionais em
litígio, devendo ser observada a desvantagem da atuação comunista no Brasil assumida
oficialmente pelo Partido Comunista, dada a sua permanente história de clandestinidade. E
por sua vez, a vantagem da Igreja Católica ao contar com o suporte Santa Sé e com o respaldo
e parceria de uma aliança bem estabelecida com o Estado após 1930.
O pensamento comunista exposto a partir do Manifesto à classe trabalhadora do
mundo de forma acessível e aplicável ameaçou as bases do arcabouço cristão, já erigido até
então num momento particularmente difícil para a Igreja Católica, que se via compelida a
encarar o mundo moderno capitalista.
Jornal A Semana 29.12.1946. (Manchetes estampadas em vários números do jornal, em destaque na parte
superior e em negrito).
42
43
Jornal A Semana - 08.05.1949.
44
Jornal A Semana - 19.09.1948.
103
O Manifesto Comunista de 1848 representou a tomada de posição do movimento
comunista internacional frente à classe trabalhadora, deflagrando de forma compreensível
para o leitor operário uma análise do processo de formação dessa classe, à medida que o
capitalismo se consolidava. A obra esclarece sobre a posição revolucionária da classe
burguesa e explica como gradativamente essa classe alcançou uma condição hegemônica,
criando instrumentos de reprodução do capital e de submissão do proletariado. O Manifesto
deflagra a luta proletária pela superação da ordem capitalista burguesa e evidencia a
necessidade da luta revolucionária como instrumento de libertação da classe dominada.
“Os comunistas desdenham ocultar suas opiniões e metas. Abertamente declaram
que seus fins só podem ser atingidos pela derrubada violenta de todas as condições
sociais existentes. Que a classe governante trema frente à revolução comunista. Os
proletários nada têm a perder fora suas correntes. Têm o mundo a ganhar.”45
A função do documento feito para manuseio dos operários europeus e logo se
multiplicando como uma cartilha nos ambientes urbanos de maior circulação operária, era de
dar o toque de chamada para a luta contra as forças capitalistas em prol da implantação de
uma sociedade justa, possível pela superação das instituições burguesas e instalação de um
Estado operário. O mundo capitalista se deparou, a partir daí, com uma situação nova. As
forças do sistema deveriam se colocar em prontidão pela defesa da sociedade liberal, e um
conjunto de formulações teóricas foram feitas pelas ciências sociais. A Igreja Católica
posicionou-se neste contexto e repudiou categoricamente a doutrina e o discurso comunista
marxista.
A visão sustentada pelo marxismo em relação à religião e frente à posição da Igreja
Católica no mundo capitalista foi bem clara:
“A religião é produto do homem. Foi inventada pelo homem para encontrar na
ilusão do mundo imaginário do céu a consolação e a compensação das misérias e
dos sofrimentos da sua existência terrestre suportadas como trabalhador explorado
pelo regime capitalista da produção e da propriedade privada.”46
45
Manifesto Comunista, 1998. p. 63.
46
Guerry, 1960. p. 46.
104
Nessa perspectiva, por sua capacidade de controle ideológico, a Igreja seria uma aliada
eficiente para o reforço da alienação da classe operária cumprindo, o papel de referendar
ideologicamente o sistema:
“Se a Igreja se opõe ao comunismo, é porque está enfeudada ao capitalismo e à
classe possuidora. Na luta de classes, que levanta os explorados contra os
exploradores, a Igreja tomou o partido por estes últimos contra os trabalhadores, e
procura atenuar ou impedir a luta dos explorados. Esforça-se por todos os meios por
desmobilizar a classe operária, e por eliminar os direitos dos trabalhadores.”47
Em 15 de maio de 1891, seria lançado o contraponto da tese comunista através da
encíclica Rerum Novarum, por Leão XIII, cognominado de Papa Sociólogo e Papa dos
Operários, por construir um conjunto de princípios que daria a chancela necessária para uma
ação da Igreja diante da sociedade industrial e urbana. Nasceria dessa iniciativa a Doutrina
Social Católica, reforçada quarenta anos depois pela encíclica Quadragésimo Anno,
prescrevendo a fórmula de inserção da Igreja na sociedade moderna. O novo arcabouço
estabeleceu a importância da harmonia entre as classes, a conservação da propriedade privada
e da família necessárias a manutenção da ordem social natural. Procurou acomodar a ordem
econômica às normas da moral cristã, mostrando que o valor e dignidade do homem
encontram-se em sua virtude, qualidade e patrimônio comuns a todos os mortais. A luta de
classes e a revolução que defendem a transformação da ordem social fogem aos princípios
naturais considerados por Deus.
A Igreja Católica defendia uma organização social sustentada na relação corporativa
do trabalho, com base na integração harmoniosa entre patrões e empregados e calcada numa
troca irmanada de responsabilidades. Tal relação seria capaz de garantir uma maior
produtividade, com equilíbrio do usufruto da riqueza gerada pelas partes envolvidas no
processo produtivo, resultando no equilíbrio cristão da sociedade, ancorada na ordem. Sua
tese seria corroborada pela experiência bem sucedida vivenciada na Idade Média, quando a
Igreja detinha grande força política e exercia o poder espiritual. A reprodução de sua vida
material ocorria na forma de trabalho coletivo exercido nos campos e nas corporações de
ofício.
47
Guerry, 1960. p. 11.
105
No artigo, “O homem, seus direitos, necessidades e finalidades”48, foi apresentada a
posição da Igreja frente à condição de submissão do homem diante das situações de
exploração a que foi historicamente exposto. Ao abordar o período da escravidão, evidencia a
contribuição da Igreja para sua abolição sem revoluções violentas, convencendo
gradativamente os opressores sobre sua desumana conduta, utilizando seu discurso da
igualdade dos homens como filhos de Deus. Demonstra que: “À medida que os imperadores
se convertiam à religião cristã, os escravos iam sendo libertados aos milhares”. Explica
sobre a situação de uma vida melhor usufruída pelos servos no período medieval, período em
que teriam sido estabelecidas as corporações de ofício, organismos que beneficiavam os
trabalhadores. Lembrando que, nesse período, “era uma grande honra ter uma profissão.
Cada profissão usava um escudo com o respectivo emblema e tinha um santo patrono”.
Esse tipo de explicação tinha como ponto fundamental chegar à uma crítica ao
liberalismo burguês capitalista, que ao destruir essa estrutura corporativa, teria lançado o
trabalhador na condição de vítima de um sistema perverso. Na era moderna, mais uma vez, a
Igreja estaria se opondo à nova escravidão imposta ao trabalhador apoiando-se nas Encíclicas
Rerum Novarum, Quadragesimo Ano e Divini Redemptoris. Através de Leão XIII e Pio XI, a
Igreja opôs-se ao aumento da indigência e aos abusos do capitalismo. Os membros da Igreja
então: “...lamentavam essa grande multidão de indigentes, de necessitados, ao lado de uma
pequena minoria de monopolizadores da riqueza e dos meios de produção ...”49
A solução apontada é a distribuição da riqueza, não aquela que propõe retirar tudo dos
que possuem pela força, colocando sob controle do Estado. Esse é o modelo comunista que
acaba por beneficiar a um grupo de administradores, mantendo o operário governado por
interesses. “Se o comunismo vencer, quem vai administrar as finanças? O operário? Não;
porque quem entende de finanças são os grandes capitalistas. De que modo, pois, distribuir a
riqueza?”50
A partir desses questionamentos, a Igreja expõe seu ponto de vista, sua alternativa para
o mundo moderno, em defesa de um capitalismo, na sua concepção, mais humanitário, com
menos desigualdades, fundado no “corporativismo”, fórmula capaz de garantir um nível de
48
Jornal Interno A Semana – 28 de março a 4 de abril de 1943.
49
Jornal Interno A Semana – 28 de março a 4 de abril de 1943.
50
Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de abril de 1943.
106
organização social, em que reine a harmonia entre patrões e empregados. “O corporativismo
equilibra os direitos e os deveres dos patrões e dos operários, os direitos do capital e do
trabalho, põe a concorrência em seus justos limites, impedindo a exploração desleal e a
mercantilização do trabalho e reunindo empregadores num plano de colaboração ...”51
A demonstração cabal da eficiência do modelo de organização do trabalho proposto
pela Igreja foram as Corporações de Ofício, que funcionaram bem na sociedade medieval,
como foi exemplificado no artigo – “Ligeira idéia doutrinária e história das corporações.”52 A
corporação representaria um corpo organizado, numa comparação ao corpo humano, que tem
várias funções desempenhadas pelos órgãos. As corporações também possuem uma dinâmica
de funcionamento parecida, com hierarquia e harmonia das funções. Na corporação, os mais
fortes têm atividades próprias, que não podem ultrapassar seus limites. Os fracos têm meios
de subsistência garantidos pela organização. Ao explicar a posição hierárquica da corporação,
composta de mestre, oficial e aprendiz, procura salientar a interdependência existente entre
eles e as condições para o alcance de posições melhores no contexto da produção e das
relações de trabalho. Como foi exposto no artigo:
“... Na corporação que era uma grande família profissional, o mestre cuidava do
aprendiz, dava-lhe formação profissional, ensinava-lhe o amor ao trabalho, o justo
orgulho em ser um bom artífice. Depois o aprendiz tornava-se “companheiro” e
ainda continuava a residir na casa do mestre. Pagava o tributo à caixa que fazia as
despesas necessárias ao bem de todos os membros da corporação. Finalmente, ao
tornar-se mestre, a corporação ajudava-o a montar sua oficina ...”53
Ainda abordando o corporativismo, o artigo “A arte dos profissionais”54 ressalta a
valorização do trabalho executado pelo artífice da corporação de ofício, situação contrária à
moderna indústria que teria criado a produção em série, desvalorizando as habilidades do
operário: “... O operário vê-se na contingência de mero acessório das máquinas ...” Conclui
afirmando que o trabalho passou a ter um valor meramente utilitário, girando em torno da
máquina e dos interesses individualistas. O autor do artigo ressalta, no entanto, que o
51
Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de abril de 1943.
52
Jornal Interno A Semana – 11 a 18 de abril de 1943.
53
Jornal Interno A Semana – 11 a 18 de abril de 1943.
54
Jornal Interno A Semana – 18 a 25 de abril de 1943.
107
corporativismo não pretende, ao levantar tais questionamentos, desconsiderar os avanços
tecnológicos, até porque tal posição se contrapõe à defesa que fazem da organização e do
desenvolvimento. Propõe a procura de uma fórmula justa, tomando como referência a
organização corporativa; as leis não bastariam para garantir a harmonia de interesses em meio
ao ambiente de concorrência. Daí a exposição da idéia: “...É preciso encontrar uma fórmula
orgânica atualizada e viva, de limitação de lucros, de distribuição da riqueza, de assistência
aos trabalhadores.” O Conceito apresentado de corporativismo adequado ao mundo moderno
foi:
“Corporativismo tende ao corpo econômico, à síntese dos elementos e fatores da
produção, à harmonia econômica, por um processo natural e orgânico. [...] Ele não
constrange, mas orienta, facilita, regula e promove as funções econômicas,
impedindo que os mais fortes oprimam os mais fracos, impedindo a hipertrofia dos
órgãos da economia, tornando a distribuição da riqueza mais racional, mais justa,
mais popularizada, ampliando recursos e campos à iniciativa particular, ao interesse
de todos.”55
Na tentativa de estabelecer um paralelo entre o corporativismo e o liberalismo, e
também com o socialismo, em outro artigo, os temas de suporte para tal reflexão foram a
liberdade, a lei e a produção. A liberdade capitalista é apresentada como restrita aos mais
fortes, sustentada na lei, que na prática se mostra abstrata e passível de interpretações
circunstanciais: “Entre o rico e o pobre, entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a
lei que garante a liberdade”.56 O liberalismo atinge o trabalhador na sua dignidade,
equiparando-o a uma mercadoria exposta à mercê do mercado.
Ao debater sobre o socialismo, a Igreja discorda da posição do mesmo, que coloca a
economia como um fim, interpretando que essa situação submeteria o homem, escravizando-o
a uma visão materialista. O socialismo desconsidera a hierarquia, ao defender um
igualitarismo anti-racional e anti-natural, mantido somente pela tirania: “O socialismo destrói
a família, desloca a função do grupo profissional, aniquila as nações pelo amor à economia
em oposição ao sentimento de pátria, e combate o sentimento religioso, dizendo-o mero efeito
da estrutura econômica”.57
55
Jornal Interno A Semana – 25 de abril a 2 de maio de 1943.
56
Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de maio de 1943.
57
Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de maio de 1943.
108
Os artigos seguintes completam a análise, abordando a relação entre corporativismo e
Estado58. Consideram importantes as ações interventoras do Estado, procurando corrigir erros
no processo produtivo, assumindo sua função de supervisão, coordenação e assistência.
Ressaltam também a importância da legislação para o sucesso do modelo corporativo,
resultando estas das próprias organizações formadas pela sociedade.
Em defesa do corporativismo, a Igreja faz seu apelo pela condução cristã do sistema
capitalista, acreditando ser viável a construção de um corporativismo adequado à essência
católica do povo brasileiro. Alerta para a urgência de uma corporação espiritual, numa
cruzada de cultura e educação voltada para a popularização do ensino da doutrina social
cristã, que poderia constituir-se numa experiência preparatória capaz de proporcionar uma
unidade nacional. Essa idéia foi assim descrita:
“Eis porque, nos compete o esforço de engenhar um corporativismo brasileiro, de
inspiração genuinamente cristã e de forma adaptada às tradições do Brasil, suas
necessidades particulares, seus imperativos e problemas nacionais, regionais e
locais. [...] É assim que os cristãos sociais, os militantes dos Círculos Operários, os
sindicalistas, os jocistas, os acistas, enfim todos os elementos que procuram
trabalhar por uma sociedade, poderão adquirir consciência de sua função real de
órgão, não simplesmente de opinião e de vontade, mas sobretudo, de órgão ativo do
bem geral.”59
A consolidação do modelo corporativo de organização social no Brasil dependeria da
formação de uma mentalidade corporativa, envolvendo os vários segmentos sociais
organizados e aglutinados numa grande força corporativa cristã, condizente culturalmente
com a formação do povo brasileiro. A efetivação desse propósito se daria por um processo de
convergência dos esforços associativos, voltando-se todos para a junção das iniciativas pelo
fortalecimento de um corpo social coeso e uno, organicamente envolvidos com o Estado.
A intervenção do Estado era vista como necessária para garantir uma melhor
distribuição de renda. As iniciativas particulares da sociedade civil, a conversão de
proprietários em cidadãos comprometidos com o bem estar dos trabalhadores seria inócua
sem uma incisiva ação do Estado através de sua função regulamentadora e como aglutinador
dos esforços em prol do bem público. “Nenhuma transformação para melhor na vida das
58
Jornal Interno A Semana – 9 a 23 de maio de 1943.
59
Jornal Interno A Semana – 6 a 13 de junho de 1943 (Livro Iniciação social)
109
massas se operou, até agora, por livre e espontânea vontade dos patrões ou dos
proprietários. O que se tem conseguido nesse terreno em benefício dos pobres e dos fracos, se
deve exclusivamente à ação vigorosa do Estado.”60
Essa visão foi resgatada pela atuação da Igreja e de seu apostolado leigo junto ao
movimento operário cristão, que ganhou visibilidade através da Juventude Operária Católica e
da formação de Círculos Operários nas paróquias. O que pode ser constatado no trecho de um
artigo voltado para os operários:
“Na análise dos discursos percebe-se um reconhecimento no campo religioso da
complexidade que envolve a questão social típica do mundo moderno, ultrapassando
o através dos séculos, a Igreja continuou sua santa missão junto ao operariado.
Sobretudo é célebre sua atuação na Idade Média, em que existiam aquelas belas
corporações capazes de causar inveja ao nosso século das luzes, quando patrões e
operários em bela harmonia auxiliavam-se mutuamente. Como, porém, sempre
acontece, o que é bom dura pouco tempo, e o demônio inimigo de todo o bem,
semeou cizânia, esta cresceu e desenvolveu-se e procurou abafar as belas espigas de
trigo.”61
O aspecto da má distribuição da riqueza, abrangendo também as deficiências de
formação educacional e de condições gerais necessárias a qualidade de vida, estimulou a
produção teórica das ciências sociais. A Igreja demonstrou reconhecimento sobre a
contribuição dada pela sociologia na busca de respostas para os problemas sociais decorrentes
da industrialização e urbanização que atingiam a vida das cidades. Essa questão foi abordada
no artigo de C.C. Melo, ao referir-se à questão social como desafio, citando a função da
sociologia:“Trata-se da prática de uma das ciências mais estudadas e experimentadas no
mundo civilizado, que é a sociologia”.62
Na reunião circulista de junho de 1949, também a sociologia foi abordada pelo
conferencista Lauro Epifânio que procurou demonstrar suas vantagens e desvantagens.
Os operários do Brasil estavam sendo conclamados à união em torno do ideal católico,
estabelecendo laços concretos capazes de unir os sindicatos oficiais com base na idéia de
colaboração, sustentada numa ampla organização cristã, trabalhista, de caráter nacional.
Todos os círculos do Brasil precisariam estar cientes de que pertenciam ao Movimento
60
Texto do jornal O Clamor de 1943. In: Jornal Interno A Semana – 10 a 17 de outubro de 1943.
61
Artigo origem do Círculo Operário de Frei Aloísio O . F. M. Jornal A Semana 26.01.1947.
110
Nacional dos Círculos Operários e a expressão de ordem era: “Circulistas do Brasil, univos!”:
“Efetivando este ideal, de que todos os operários de todo o Brasil se estendam as
mãos debaixo da bandeira da Pátria, e pensando no seu Deus, os Círculos Operários
estão também eles, abrindo para o proletariado nacional os primeiros caminhos da
Idade Nova.”63
A posição anticomunista e a disputa de espaço na atuação junto aos trabalhadores era
incisiva, fato que pode ser constatado pelas discussões travadas nas reuniões e nos temas
escolhidos para as palestras ministradas para os sócios, sempre insistindo na tese de combate
aos falsos profetas que sempre estariam armados e prontos para desvirtuar a boa formação
cristã dos trabalhadores. Partia-se do princípio de que o operário brasileiro é particularmente
virtuoso por estar imbuído de uma bondade cristã que lhe é inerente, com força de caráter,
aptidão para a disciplina, forte espírito associativo. Porém, estas características não o
imunizavam da influência perniciosa do assédio comunista.
As notícias sobre o crescimento das idéias comunistas entre os operários,
principalmente entre os ferroviários, alarmava o clero e dava-lhes mais munição para o
combate. Ilustra essa preocupação com os números as afirmações presentes numa crônica da
Santa Cruz: “A oficina da Oeste já conta uns 600 operários. Dizem que quase a metade é
comunista, espírita ou protestante. E o pior é que os chefes das diversas repartições
favorecem a propaganda”.64
Nas comemorações do dia primeiro de maio de 1945, os membros do círculo operário,
numa atitude explícita de combate ao comunismo local, teriam encabeçado uma passeata nas
ruas, ostentando um estandarte com os seguintes dizeres: “Onde há justiça social, não vinga o
comunismo”. Essa expressão demonstra a posição da Igreja Católica em relação às
alternativas de enfrentamento dos problemas sociais trazidos pelo capitalismo moderno, num
ímpeto de cristianizá-lo.
62
Jornal A Semana 13.10.1946.
63
Jornal A Semana - 08.05.1949 - Artigo Circulistas do Brasil, uni-vos, transcrito de “O Apóstolo”, de Penedo.
64
Revista de Santa Cruz, Ano VI, nº 10, outubro de 1940, p. 152-153.
111
O discurso católico reforça sempre a defesa da colaboração entre as classes e sua
oposição à visão marxista da organização operária: “Karl Marx, o inventor do socialismo,
erra afirmando que a melhoria da vida do operário só pode ser feita pelo operário mesmo”.
E dentre os erros do socialismo, aquele destacado como erro capital foi:
“Crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza
tivesse armado os ricos e os pobres, para que se combatessem mutuamente num
duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade em
uma doutrina contrariamente oposta; oposta porque assim como o corpo humano, os
membros, apesar de sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros,
de modo a formarem um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar
harmônico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela
natureza a unir-se harmonicamente e a conservar-se mutuamente num perfeito
equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver só capital
nem só trabalho. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; deverasmente de um
conflito perpétuo, não podem resultar senão a confusão e lutas selvagens.” 65
Ao apontar tal desvio, caberia portanto, à Igreja como depositária da verdade religiosa,
endireitar o caminho da relação entre as duas classes para uma aproximação, imprimindo a
cada uma das partes envolvidas, os seus deveres. A obrigação de justiça prescrita ao operário
ficou assim estabelecida:
“Deve fornecer integralmente e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por
contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus
bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violência, e
nunca revestir a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus
discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhes fazem grandes
promessas as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.”66
Aos patrões, suas orientações voltam-se para a justiça, colocando-os como
responsáveis pela preservação de valores religiosos e de boa conduta:
“Quanto aos ricos e patrões não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar
nele a dignidade do homem realçada ainda pela do cristão. O trabalho do corpo, pelo
testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de
vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua
vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos
65
Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944.
66
Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944.
112
de lucro, e não os estimar, senão na proporção do vigor dos seus braços. [...] além
disso prescreve, que se tenha em consideração os interesses espirituais do operário e
o bem de sua alma ...”67
O confronto entre o discurso católico e o discurso comunista quanto ao enfrentamento
da questão social e a condução do movimento operário ocorreu em torno da denúncia dos
comunistas sobre a conduta assistencialista e caritativa dos católicos, impedindo desta forma a
emancipação dos trabalhadores. Num artigo intitulado “Os apressados” 68, a Igreja defende-se
das acusações:
“O sr. Vicente Toledo – marxista segundo ele próprio confessa – afirmou numa
conferência pronunciada em sua pátria e reproduzida num semanário do Rio que a
Igreja Católica tenta, confundindo valores, substituir a justiça pela caridade. Ora,
uma das falhas mais sensíveis dos nossos homens de esquerda é o desconhecimento
que eles têm dos documentos pontifícios em torno da doutrina social da Igreja. [...]
Sabemos todavia, que tão grave e extensos foram os males espalhados pelo mundo
que cada um de nós sofreu um pouco de sua influência. [...] O Sr. Toledano errou (e
não foi justo nem honesto porque devia conhecer o que atacou), basta ler as
encíclicas de Pio XI, em que se diz, textualmente, que a moral católica não permite
substituir a justiça pela caridade.”
Os circulistas recebiam as instruções sobre a posição da Igreja quanto à questão social
através de palestras ministradas por uma ala católica mais intelectualizada incumbida de fazer
o chamado “trabalho educativo”, voltado para as classes populares não esclarecidas, e por
isso, alvo fácil do discurso socialista e comunista. Os intelectuais tinham como tarefa
primordial reparar as injustiças sociais e enfrentar a propaganda comunista. Atuavam como
verdadeiros militantes aliados da hierarquia na obra de recristianização. Riolando Azzi
comentou sobre a importância desses elementos chave para a Igreja: “São os intelectuais, são
os homens que dominam o mundo da cultura que estão em condições de vivenciar plenamente
as verdades da fé católica, e lutar por elas com denodo”(Azzi, 1994:94).
Nas reuniões dos dias 23 de fevereiro, com o Dr. Onofre Mendes, e do dia 14 de
dezembro de 1947, que teve como convidado o Dr. José de Carvalho Ferreira, a questão social
foi tratada como principal ponto para reflexão. Em sua palestra69, Dr. Onofre Mendes explicou
67
Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944.
68
Jornal Interno A Semana – 27 de agosto a 3 de setembro de 1944.
69
Súmula da reunião publicada no Jornal A Semana 02.03.1947.
113
aos ouvintes que os problemas sociais seriam antigos, existindo desde a antiguidade grega,
mas que teriam tomado uma nova dimensão na sociedade moderna industrial. Referiu-se ao
pensamento de Marx, Engels e Lenin como doutrinas extremistas que apontavam soluções
extremistas para os problemas sociais, como aqui destacado na íntegra: “... tática esta
condenada e repudiada pelas civilizações hodiernas, que percebendo agora o perigo
vermelho se levantam para deter o avanço das idéias revolucionárias do credo vermelho”.
Ao Estado caberia o papel de mediador, auxiliando os operários contra a exploração dos
patrões e protegendo-os contra as agitações, greves e outros meios ilícitos usados pelos
empregados. Entretanto, afirmou o palestrante, que a população, em tempos de
industrialização acelerada, teria sido salva pelas palavras pontifícias contidas nas encíclicas
Rerum Novarum e Quadragesimo Anno. Concluiu seu discurso proferindo uma verdadeira
pregação aos ouvintes, quando destacou a importância de os homens saberem relacionar a
vida temporal e espiritual, sempre com vistas a enfatizar a salvação da alma.
Além de ser tratada nas conferências organizadas para os circulistas, a questão social
era tema de artigos constantes no jornal “A Semana”, na seção destinada ao Círculo Operário.
Em seu texto, C. C. Melo70 salientou o desafio de se conceituar e analisar a questão social,
tema que estaria desafiando os sociólogos no mundo todo. Concluiu afirmando sobre o papel
da Igreja, como aquela que através de Leão XIII, apontou a solução para a questão sob o
ponto de vista cristão, encontrando o único caminho da paz e do progresso. Reconhece as
adversidades decorrentes da extrema exploração e pauperização a que estaria submetida a
classe trabalhadora, mas adverte que o caminho seria o da pacificação.
O programa de reforma social católico71 era amplo e seus pontos fundamentais eram:
-
Salário familiar e prestações sociais, para que o proletário possa viver comodamente e possa
melhorar sua posição.
Associações que defendam os interesses do operário e elevem seu nível moral, cultural e
profissional.
Instituições cooperativas de créditos, de seguro, de auxílios mútuos que o ajudem nas necessidades
e contingências da vida.
Uma justa proteção em que o trabalhador encontre salvaguarda para seus interesses e onde não
seja vítima de explorações. Essa doutrina só tem sentido se for incorporada pelos operários no
70
C.C. Melo, A Questão Social - Jornal A Semana 18.08.1946.
71
Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de novembro de 1944.
114
âmbito de seu dever de respeitar seus patrões, como expõe o quarto mandamento da lei de Deus,
cumprindo obrigações estabelecidas por contrato.
Na sessão cívica72 de comemoração do primeiro de maio de 1947, com a presença do
prefeito municipal Alvimar Mourão, os trabalhadores ouviram a palestra do Pe. Hilton
Gonçalves de Souza, que lembrou ter sido Jesus o primeiro a proclamar a igualdade entre os
seres humanos e acrescentou ser a desigualdade extrema um resultado dos erros sociais
cometidos pelo liberalismo. Completou dizendo que estariam equivocados também os
comunistas ao pregar a igualdade de classes, um ideal que jamais poderia ser concretizado,
pois a diferença de aptidões, dons, faculdades, inteligências e natureza resultariam
necessariamente na diferenciação entre as classes. Essa realidade forçosamente provocaria
diferenças entre os mais inteligentes e menos inteligentes, os mais aptos e os menos aptos e,
por conseguinte, os mais ricos e os menos ricos. Várias outras comemorações de 1º de maio
ocorreram sob orientação religiosa, organizadas em torno de festividades cívico-religiosas,
ligadas ao Círculo Operário.
Os operários da Fábrica de Tecidos, em 1944, organizaram uma comissão constituída
por representantes de todas as fábricas e oficinas e programaram uma festividade que
ocorreria a partir de uma missa campal no Cruzeiro da futura capela de Nossa Senhora da
Guia. Estavam previstos jogos esportivos e uma passeata, terminando em comício na Praça
Benedito Valadares, com discursos do representante da administração pública, Dr. Antônio
Gonçalves de Matos, pelos empregados, o jornalista Sr. Ataliba Lago e pelos empresários e o
universitário Carlos Altivo.73
O discurso anticomunista reforçava as teses pontifícias e era parte da rotina dos
trabalhos desenvolvidos pelo Círculo Operário nas cerimônias e atividades públicas. Eram
encabeçadas pela entidade e esboçadas pela imprensa católica, nas reuniões e assembléias
realizadas regularmente no Cine Teatro Santo Antônio e nos atos públicos da organização,
realizados, muitas vezes, em parceria com outras entidades católicas.
A reunião do dia 20 de maio de 1947, foi particularmente interessante pois, tratou de
uma notícia de peso para o contexto geral do movimento circulista brasileiro: o fechamento
72
Súmula de Sessão Cívica publicada no Jornal A Semana 11.05.1947.
73
Jornal Interno A Semana – 30 de abri a 07 de maio de 1944.
115
do Partido Comunista, momento em que o assistente eclesiástico Frei Rafael leu uma carta da
Federação. A ata da reunião não explicita, mas deixa nas entrelinhas o clima de discussão
acalorada gerado pela notícia, com exposições de motivos e pronunciamento feito pelo
presidente da entidade, o Sr. Cristiano da Costa Melo.
O processo democrático instaurado em 1945 com o encerramento do Estado Novo,
permitiu uma atuação legal do Partido Comunista, o que acirrou as disputas no interior do
movimento sindical. Esta situação, aliada à conjuntura internacional desfavorável e a posição
do governo Dutra de alinhamento com os Estados Unidos, provocou o fechamento do regime
com o decreto-lei nº 23046 de 07/05/1947 que fechou a CTB e as unidades sindicais
estaduais. As eleições sindicais voltaram a ser tuteladas pelo governo e os candidatos para
tomarem posse deveriam apresentar atestado ideológico. Em função dos acontecimentos, o
Partido Comunista abandonou seu discurso até então conciliador para assumir uma orientação
mais radical (Santana, 2001:65-66).
“Os efeitos da queda do PCB foram de enorme monta em termos de sua organização
e política. Os caminhos institucionais ao movimento sindical estavam cortados,
assim como os de acesso ao parlamento. A tentativa de utilização de outras siglas
feitas pelo partido não foi muito eficaz. No meio sindical os atestados ideológicos e
as práticas policiais dos interventores jogam a militância comunista cada vez mais
para dentro das fábricas. O momento que se abre vai ser caracterizado por uma
radicalização crescente do discurso e da prática comunista.”74
Frei Orêncio, assistente eclesiástico, foi estimulador dos circulistas na luta contra a
atuação dos comunistas no meio operário comentou lamentando:
“O Círculo Operário, agremiação sadia que sob a orientação da Igreja cuida dos
interesses dos trabalhadores tanto na parte espiritual como material, seja tão pouco
compreendida pelos operários, ao contrário dos comunistas que numa reunião
secreta, compareceram 180 adeptos, sendo que o Círculo Operário conta em suas
fileiras com apenas 121 circulistas ativos.” 75
No Jornal A Semana, foi publicado o teor da fala de Frei Orêncio com o intuito de
atingir os circulistas ausentes e informar aos leitores sobre o perigo do comunismo no
74
Santana, 20021. p. 68.
75
Ata da 32ª reunião mensal do Círculo Operário de 08.05.1949.
116
mundo, que estaria também ameaçando a pátria e a cidade. Num trecho do artigo pode-se ler:
“Divinópolis é a cidade dos operários, e onde há operários, é necessário que eles se reunam
afim de ganhar instrução a respeito das questões sociais, afim de construir uma sede própria
onde haja farmácia, gabinete dentário, recreio etc”. 76 O mesmo Frei teria prosseguido seu
discurso em reunião posterior, chamando a atenção dos trabalhadores sobre a presença de
falsos profetas propagadores da ruína e da escravidão da classe operária, atraindo e
estimulando-os a resistirem e a engrossarem as fileiras do Círculo Operário em nome da união
e do ideal cristão.
“Os comunistas após uma reação forte dos nossos operários pareciam ter caído em
silêncio, levantam novamente a cabeça propagando a sua doutrina moscovita entre
os operários da rede Mineira de Viação, estão organizando rifas e tômbolas para
financiar assim, a propaganda comunista em nosso meio. Tática moscovita!
Operários, antes que seja tarde! Não ajudeis, não compreis, mas lutai contra esses
traidores da Terra de Santa Cruz!.” 77
Os trabalhadores estavam sujeitos a uma sistemática pregação de cunho ideológico,
divididos entre as forças do bem e do mal devido à tônica do discurso maniqueísta que
lapidava o ideário do senso comum, com denúncias de práticas nocivas e perversas do
adversário, tomado como o ludibriador de mentes inocentes com propagandas de uma falsa
liberdade.
No artigo “Pensamento dos Círculos Operários”, o Pe. Eurico Cavalcanti ressalta a
trajetória do Círculo Operário, que estaria atuando desde 1932, envolvendo todas as
profissões e alicerçado pela doutrina social da Igreja. Segundo ele, seu sentido cristão está em
sua postura ordeira e pacífica, posicionando-se, no entanto, contra a injustiça social. A
resistência da Igreja deflagra-se contra o capitalismo ganancioso, mas também contra a luta de
classes e as soluções revolucionárias dos comunistas. Reconhece, no entanto, que o
comunismo teria tido ressonância no meio operário por representar um efeito de revolta contra
a miséria imposta pelo sistema.
As referências simbólicas, lapidadas na atuação do clero e dos intelectuais católicos
em seu trabalho pedagógico junto aos operários, apelava para a compatibilidade de interesses
76
Jornal A Semana 15.05.1949.
77
Ata da 36ª reunião mensal do Círculo Operário de 11.09.1949.
117
entre patrões e empregados oriundos, segundo eles, de um mesmo tronco cristão, unidos numa
possível convivência corporativa harmônica. A ameaça comunista era tida como estrangeira e
anticristã, capaz de fazer um apelo persuasivo aos operários por tratar de assuntos
particularmente atrativos como exploração, igualdade e necessidade de luta, sedutores ante à
insatisfação sempre presente no cotidiano de opressão e de dificuldades do proletariado
urbano.
Ao analisar os pronunciamentos proferidos nas reuniões do Círculo Operário por
membros efetivos e colaboradores, percebe-se uma agremiação composta de muitos ouvintes
e poucos falantes. Os trabalhadores poucas vezes tomavam a palavra nas reuniões para
assumirem posicionamentos ou se expressarem sobre a compreensão do que lhes era
apresentado como verdade. Pareciam intérpretes de uma composição pronta e repetida, numa
rotina cerimonial que talvez não os atraísse tanto porque lhes apresentava alguns paliativos e
poucas soluções no sentido de transformar sua condição de vida.
Castoriadis (1982:111-112), ao interpretar as raízes subjetivas do projeto
revolucionário, demonstra que a idéia perseguida pela luta revolucionária de alcançar uma
sociedade justa, um mundo sem conflitos no qual todos estariam reconciliados, na verdade,
representa uma projeção de desejos, suprimindo o lado trágico da existência humana com uma
compensação imaginária. Essa busca de superação da sociedade real perversa por meio da
revolução só tem chances de tornar-se verdadeira pela ação coletiva pois, representa uma
nova sociedade. Depende, portanto, da disposição revolucionária individual de adesão a uma
transformação que coloca-se nas mãos de muitos, da massa proletária oprimida, capaz de se
contrapor ao sistema capitalista opressor. Nesse ideário de luta e de concentração de forças
em torno de um ideal comum também mostra a visão de uma verdade, que se expressa em
nome da massa proletária para destruir o mal encarnado pelo capitalismo.
A Ação Social da Igreja junto aos operários concebia o bem estar da sociedade civil
por meio da concórdia entre as classes, a partir de uma cooperação mútua que preservaria os
operários dos perigos do socialismo e do comunismo (Dale, 1982:35-36).
No meio operário, o discurso em torno da moral católica, ao apelar para um civismo
disciplinado e ao apresentar o inimigo comunista, muitas vezes superdimensionava sua
existência e real atuação, criando a figura de um adversário monstruoso e, ao mesmo tempo,
de difícil delineamento. O tamanho da ameaça comunista em nível local parece estar mais
associado a uma propaganda de prevenção feita pela Igreja do que propriamente a uma
118
terapêutica de cura de um mal com existência real de tamanha magnitude. Essa incerteza que
atingia o próprio clero pode ser demonstrada nas informações desencontradas sobre o número
de adeptos e suas ações. Numa crônica de frei Aloísio sobre a cidade e o funcionamento da
paróquia publicada na Revista de Santa Cruz, esse problema foi abordado:
“Por enquanto as idéias malsãs do comunismo não se infiltraram nesta cidade. Penso
que às vezes haja quem considere Divinópolis um foco do comunismo. Quero citar
dois fatos que me parecem provar bem o contrário. Recebo semanalmente o “Jornal
do Povo”, jornal comunista editado em Belo Horizonte. Desde a morte de Stalin
vem este jornal esforçando-se pela obtenção de assinaturas para uma homenagem a
Stalin. Até agora nunca apareceu ainda o nome de Divinópolis nesta lista da
homenagem. [...] Outra campanha feita pelo mesmo jornal foi a dos vinte milhões
em favor da assim chamada Imprensa Popular. [...] Divinópolis aparece na lista, mas
em último lugar, com uma contribuição mínima de Cr$ 280,00.”78
Os acontecimentos externos tiveram papel importante no tratamento da questão
operária, como a posição de Roma destacada na fala de Pio XI, considerando o maior
escândalo do século, a Igreja perder a classe operária. Tinham influência também as
experiências concretas, como a instalação do modelo socialista na URSS e sua propagação e
os contornos assumidos pela Guerra Fria após 1947.
As notícias reais de células do comunismo na cidade são obscuras ou se perderam na
própria realidade clandestina de sua atuação ou, ainda, estiveram mais associadas
verdadeiramente ao ideário anticomunista. São muito mais constatáveis a presença dos grupos
anticlericais representados pelos livres pensadores e maçons que inicialmente atuaram através
do Partido dos Machos e depois se instalaram nos partidos oficiais criados a partir da
redemocratização de 1945 do que, propriamente, numa atuação consistente do comunismo no
meio operário local.
Ilustra a influência dessas idéias sobre os trabalhadores da ferrovia uma matéria do
jornal Porta Voz de 1934. Nessa matéria, aparece uma crítica à Revolução de 1930,
reconhecendo, no entanto, sua repercussão sobre a organização social, mencionando a criação
de um núcleo pelos operários da EFOM, quando houve uma solenidade com pronunciamento
de Pedro X. Gontijo, membro do partido dos Machos, sobre o significado da palavra
78
Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954, p. 56-57.
119
sindicato. Essa passagem mostra a diversidade de posições a que estavam sujeitos os
operários, mesmo que houvesse uma hegemonia do pensamento católico em seu meio.
Casos e fatos fazem alusão à existência de alguns simpatizantes que liam as obras de
Marx, Engels e Lenin e se empolgavam com suas proposições. Das lembranças do Sr. Milton
Pena, consta a passagem em que ele, muito jovem, teria recebido de um ferroviário mais
maduro uma obra de Marx para ler e quando indagado pelo simpatizante do comunismo se
havia gostado da leitura, respondeu prontamente que sim. Mas, na verdade, ele teria lido e não
entendido nada da exposição teórica feita pelo autor do Manifesto Comunista.
Nas reuniões do Círculo, o comunismo foi tema recorrente e motivo até de
comparações, quando seus membros, por vezes, afirmavam sobre a capacidade de
crescimento do comunismo no meio operário e da dificuldade do Círculo em ganhar adeptos e
fazê-los se envolverem organicamente com a causa circulista.
Dom Aloísio Lorscheider, na época em que atuou na paróquia, chegou a acompanhar o
trabalho desenvolvido no Círculo Operário. Em entrevista, lembrou das dificuldades de
envolver os operários na entidade, da tendência acrítica e anticomunista que sustentava suas
ações e das limitações sobre a compreensão do sentido social de formação e preparação dos
operários:
“No Círculo Operário, a gente trabalhou também, bastante, mas a entidade nunca
teve muita influência. Não crescia, era difícil envolver os trabalhadores, a influência
maior era das associações. [...] Tenho a impressão que a visão sobre a doutrina
social naquele tempo estava muito mais voltada para a idéia de não deixar crescer o
comunismo, o grande perigo; era o comunismo, era o grande fantasma que existia
naquela época. A doutrina social era pelo salário justo, horas de trabalho adequadas,
porque a Rede Mineira, as vezes, demorava a pagar os operários, ficavam meses sem
receber, e a gente então apoiava os operário, mas não falávamos em público sobre
essa conduta do governo. Hoje nós falaramos, mas todo esse trabalho estava muito
mais voltado para evitar o comunismo do que propriamente para uma formação,
digamos, social do operariado. O trabalho era para não estourar na Rede Mineira.
Imagine 1500 operários comunistas; essa era a preocupação. E no Círculo Operário,
não havia muito interesse dos trabalhadores em participar. Parece que não havia uma
consciência crítica.” (Dom Aloísio Lorscheider)
Nos momentos de greve operária, principalmente na Rede, os registros orais apontam
a presença de elementos de fora que traziam idéias mais avançadas e mostravam-se
interessados em aproveitar o clima inflamado para atuarem no incitamento político da luta.
Mas os entrevistados insistem em afirmar que os operários estavam movidos por causas
palpáveis, relativas a atrasos de pagamentos e jornadas excessivas e que estes movimentos
120
eram espontâneos, sem um cunho propriamente ideológico-político. A orientação da Igreja
sobre a conduta do Estado diante das greves foi assim prescrita no artigo endereçado aos
membros do Círculo Operário:
“É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e porque estas greves
freqüentes causam danos não só aos patrões e aos operários, mas também ao
comércio e aos interesses comuns, e em razão da violência e tumultos a que de
ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública. O
remédio, portanto, nesta parte mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a
autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se
prevê que hão de nascer os conflitos entre operários e patrões.”79
Pelo barulho preventivo feito pelos representantes locais da Igreja, pode-se inferir que
havia todo um trabalho de lapidação do imaginário, pelo fato de Divinópolis ser um pólo
operário, vulnerável, portanto, ao assédio do discurso e ação comunista. O trabalho foi
metódico e procurou ser eficiente em todos os campos da vida social. No caso dos operários,
o Círculo exerceu papel importante na tentativa de minimizar a carência material que,
segundo a doutrina social da Igreja, representava as bases da insatisfação que lançava os
trabalhadores nos braços do comunismo. E procurou, ao mesmo tempo, alicerçar sua
evangelização, utilizando de uma prática pedagógico-formativa. Adotou-se pois, uma receita
capaz de inculcar uma visão de mundo condizente com a moral católica e por isso capaz de
garantir a ordem, o que para as forças políticas tradicionais era necessário naquele momento.
Na tentativa de garantir uma adesão firme da sociedade ao seu ideário, a Igreja lançou mão
dos instrumentos de comunicação disponíveis na época, com destaque para a imprensa, além
do rádio e do apostolado. Fora uma ação encabeçada por intelectuais, capazes de funcionar
como agentes multiplicadores dos preceitos cristãos, pela capacidade de persuasão de sua
oratória erudita sobre as chamadas classes subalternas.
79
Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de abril 1944.
C A P Í T U L O III
A mulher na paróquia: as obras e a família
As transformações provocadas pela modernização atuaram sobre o uso de tecnologias,
alteraram padrões de produção e consequentemente, as relações de trabalho. As condições de
vida também foram alteradas, o comportamento social, os usos e costumes incorporaram
novos estilos e as contradições afloraram em função da resistência e do apego aos valores da
tradição.
O texto trata da interpretação que a Igreja fez desse processo e das práticas que adotou
no sentido de adaptar-se ao novo, apegada a necessidade de garantir permanências no campo
cultural.
Os leigos foram mobilizados para o apostolado e para a restauração social de Cristo
através das associações e dos ramos fundamentais da Ação Católica, destacando-se a mulher
como figura de proa na proteção da família e no comprometimento altruísta com as obras
propostas para a reforma social.
No âmbito paroquial, essa experiência em Divinópolis entre os anos 30 e 50,
manifestou-se envolvendo vigários, assistentes eclesiásticos, leigos militantes, operários,
famílias tradicionais, católicos letrados, artistas, liberais todos interagindo e tecendo o
cotidiano das relações na cidade.
3.1 A presença do leigo na Igreja e o trabalho pastoral da mulher
“Na estrutura eclesial, a mulher é leiga. Virgem, mártir, viúva ou nem virgem nem
mártir, a mulher é leiga.”1
A definição teológica de leigo cristão, de acordo com Antoniazzi, se desenvolveu
principalmente entre o fim da Segunda Guerra e o Vaticano II. Foi uma tentativa de valorizar,
dentro da Igreja e da teologia, a figura do leigo que teria carregado em períodos anteriores,
Tepedino, Ana Maria; Pinto Maria da Conceição; Bingemer Maria Clara. O laicato e a mulher, In: Os leigos na
Igreja e no mundo: vinte anos depois do Vaticano II, São Paulo: Paulinas, 1987.
1
122
uma conotação negativa. Sua identificação sempre esteve ligada à separação básica existente
entre Igreja e Mundo, entre o espiritual e o temporal. Segundo o autor, nem o Concílio
Vaticano II conseguiu alcançar uma definição precisa que rompesse com a polêmica em torno
do tema, limitando-se a uma descrição tipológica:
“Pelo nome de leigos aqui são compreendidos todos os cristãos, exceto os membros
da ordem sacra e do estado religioso ... [...] Estes fiéis pelo batismo foram
incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e a seu modo feito partícipes do
múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão
de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. A índole secular caracteriza
especialmente os leigos ...” 2
Historicamente, a participação do leigo na Igreja envolveu posicionamentos da
hierarquia no sentido das relações de poder e de disciplinamento da ação temporal. A herança
do catolicismo medieval português definiu a importância sócio-política das confrarias e
irmandades no Brasil colonial, precursoras da participação leiga na vida pastoral e
comunitária. A experiência das confrarias na metrópole teria sido fator de agrupamento de
fiéis em torno de afinidades e interesses embasados em laços de solidariedade, a ponto de,
segundo abordagem de Marina Bandeira, baseada em Oliveira Marques, servir de esteio às
corporações profissionais de artesãos, cada qual ostentando seu santo de devoção (Bandeira,
2000:124-125).
De acordo com análise de José Matoso, muitas das irmandades portuguesas
representavam entidades de caráter religioso-mutualista, traduzindo a necessidade do homem
medieval em proteger-se, aproximando-se da Igreja e ligando-se à um santo para obter
benevolência dos poderes sagrados. O vínculo se fazia em função do afrouxamento de laços
de parentesco, responsáveis por situações de desenraizamento. No Brasil, e em particular no
estado de Minas Gerais, tal situação se reproduzia em função da presença desenraizada do
português, fenômeno que explicaria a difusão dessas manifestações leigas na sociedade
colonial (Mata, 1996:28).
No artigo, O que é o leigo? Teses para debate, Antoniazzi analisa mais à fundo a definição estabelecida pelo
Concílio Vaticano II. In: Coleção Estudos da CNBB (1987). Os leigos na Igreja e no Mundo: vinte anos depois
do Vaticano II. São Paulo: Paulinas.
2
123
Caio Boschi explica que em Minas Gerais, essas entidades, além da função
eminentemente religiosa, cumpriam importante papel social e político frente à comunidade.
Teriam precedido ao próprio Estado e à Igreja, ao se ocuparem do pagamento de ofícios
religiosos, da construção de templos. Envolveram-se na criação de redes mutualistas de
assistência aos confrades, assumindo inclusive, funções de manutenção da ordem ao controlar
conflitos e tensões sociais (Mata, 1996:27-28).
Riolando Azzi confirma a relevância social da atuação do leigo ao afirmar que os
leigos ofuscavam a figura do clero, que se limitava a celebração da missa e a administração
dos sacramentos, já que o leigo assumia as atividades de vivência comunitária da religião,
organizando as novenas, as procissões, as rezas de terço e várias outras atividades que
garantiam a vitalidade simbólica do catolicismo (Azzi, 1997:112).
A sobreposição da hierarquia clerical sobre o laicato ocorreu no bojo das
transformações provocadas pelo processo de romanização implementado por iniciativa dos
bispos reformadores. Movimento esse, logo reforçado pela ação recristianizadora da Igreja,
capitaneado pela Ação Católica fundada por Pio XI. Por meio dessa, os leigos passaram à
condição de agentes do apostolado, porém controlados pela hierarquia:
“Mas não se pode esquecer que a Ação Católica nascia no quadro de referência de
uma Igreja arraigadamente clerical. O leigo se tornava ativo, mas como extensão do
apostolado da hierarquia, não passava de braço alongado do clero. Assumia sua
posição como detentor de um mandato oficial do corpo hierárquico.”3
Outras modalidades de associações católicas leigas surgiram e apoiaram a proposta de
Restauração Católica: as Congregações Marianas que existiam desde o século XIX junto aos
colégios jesuítas e se multiplicaram nas paróquias a partir dos anos 20, seguidas pelas Filhas
de Maria, ambas voltadas para a prática sacramental.
Figura de proa no processo de reestruturação da Igreja no Brasil a partir dos anos 20
foi o cardeal Dom Leme, que da capital da República, comandava a edificação desse novo
modelo de Cristandade a partir de várias frentes, cabendo às organizações católicas uma
formatação adequada para movimentarem a ação social e política da Igreja naquele momento.
124
Por seu intermédio, foi criada, em 1922, a Confederação das Associações Católicas, reunindo
também nessa Coligação Católica, o Centro Dom Vital e a Confederação dos Operários
Católicos, forças que permitiram que fosse instituída a Liga Eleitoral Católica em 1932
(Bandeira, 2000:88-89).
Minas Gerais seguiu a direção estabelecida por Dom Leme através de Dom Antônio
dos Santos Cabral. O historiador Henrique Matos escreveu sobre esse período, analisando em
seus artigos, a militância católica em Minas Gerais entre 1922 e 1936. Ressaltou que o
espírito associativo foi estimulado pela Igreja nessa época com uma conotação tipicamente
piedosa e moralista. O leigo católico era levado a participar na estrutura clerical da Igreja,
segundo o modelo romano, pelo incremento de novas devoções e pela criação de associações
leigas (Matos,1990:338-339).
O autor trabalha as várias modalidades de organizações e mostra como estas foram
gradativamente se submetendo ao controle da hierarquia, seguindo aos propósitos da Igreja de
construir um cristianismo vigoroso com disposição combativa, militante e de caráter
apologético para demarcar seu espaço na sociedade, que sofria influência de um pensamento
mais racional e laico. Ao citar como exemplo o surgimento do Apostolado da Oração, Matos
demonstra a ligação direta das devoções criadas oficialmente, como a valorização do Coração
de Jesus, ligado diretamente à Hóstia Santa, com as novas práticas associativas nascidas desse
processo:
“Estas associações – entre as quais podemos citar particularmente o Apostolado da
Oração, que conhece grande crescimento – distinguem-se notavelmente das antigas
irmandades e confrarias pela posição nelas ocupada pelos leigos. Embora sejam
grupos de leigos, sua direção está intimamente ligada a elementos do clero que
exercem um efetivo controle sobre sua atuação e dão a orientação ao movimento. A
atenção nessas associações está diretamente voltada para a prática religiosa de seus
membros, com acento na vida sacramental e no testemunho pessoal.”4
A Liga Católica Jesus, Maria, José era uma associação de homens e moços católicos
de todas as classes com o objetivo de facilitar a prática da vida cristã sob a invocação da
Soares, Sebastião Armando G. In: Os leigos na Igreja. E no mundo: vinte anos depois do Vaticano II. São
Paulo: Paulinas, 1987. p. 59.
3
125
Sagrada Família. Sua criação foi influenciada pelos redentoristas. A Liga era dividida em
seções de sócios chefiados por prefeitos e vice-prefeitos, constituição que se adequava à
inconstância própria das associações masculinas. Representou, no Brasil, um primeiro passo
para a organização de homens católicos, surgindo primeiro no Curato da Gloria em Juiz de
Fora em 1902, depois se multiplicando em vários Estados (Matos, 1990:209-211).
“A Liga foi no Brasil o primeiro passo da difícil e abandonada organização
masculina... que congregou os homens, deu-lhes certo gosto e consciência de
organização, infundiu-lhes algum entusiasmo, ensinou-lhes as vozes em preces e
cânticos, inspirou-lhes, as vezes, um entusiasmo varonil pelas coisas de Deus, e os
trouxe garbosos em passeatas pelas ruas com os estandartes religiosos desfraldado
ao lado da bandeira nacional. Aos beneméritos padres redentoristas é que se deve
tudo isso!”5
Outra modalidade de organização masculina foi a Congregação Mariana. Os jovens
eram estimulados a buscar o aperfeiçoamento moral e religioso, voltados para uma ação social
católica baseada na devoção filial à Maria Santíssima, à Virgem Imaculada. Seus membros se
dedicavam à oração e também a leituras voltadas para o combate ao desrespeito humano,
considerado obstáculo ao aperfeiçoamento moral dos jovens (Matos, 1990:211-212).
A atuação das mulheres sempre foi maior tanto quantitativa quanto qualitativamente.
Seu envolvimento com a Igreja desde os primórdios havia sido orgânico. Os evangelhos
registram a presença feminina desde o início do ministério de Jesus na Galiléia. Nos
primórdios da Igreja, tomaram parte da vida das comunidades como ministras, profetizas e
líderes. Seu afastamento de funções mais relevantes se deu no processo de institucionalização
da Igreja, acompanhado pela tendência à patriarcalização, que se sobrepôs à conduta de
igualdade de direitos aplicada pelos cristãos até então. A posição dos pontífices sobre a
situação da mulher na Igreja e na vida social também esteve oscilante entre avanços e recuos.
Na estrutura eclesial, a mulher sempre foi leiga, portanto não participante do ministério
ordenado, o que não lhes retira a importância como membros atuantes nas estruturas criadas
para fins de apostolado (Tepedino; Pinto; Bingemer, 1987:71-72).
P.M.º Escola de Maria. Leituras espirituais para Congregações Marianas. Vozes, Petrópolis, 1924. In: Matos,
1990. p. 339.
4
126
A mobilização estratégica das mulheres, envolvidas em atividades do cotidiano
paroquial, foi uma prática adotada pelo clero romanizado: “à medida que o catolicismo
romano assumiu sua forma marcadamente clerical, a mulher emerge como elemento
significativo dentro da nova perspectiva eclesiástica” (Azzi, 1992:165).
As moças de famílias católicas praticantes normalmente se transformavam em Filhas
de Maria, por se ligarem à Pia União das Filhas de Maria. Essa entidade voltava-se para a
preservação e purificação das jovens enquadradas em um complexo elenco de normas rígidas
de comportamento condizentes com a moral e os bons costumes, inspiradas na Virgem
Imaculada. Deveriam se tornar exemplo de virtude, pureza, humildade obediência e caridade
(Matos, 1990:212).
As transformações do mundo moderno exigiam que ocorresse a atuação do leigo como
braços da Igreja, o que provocou o fortalecimento da Ação Católica. Considerada a menina
dos olhos de Pio XI, foi instituída como organização auxiliar à hierarquia, objetivando a
dinamização do apostolado leigo, prontamente abraçada pelo público católico feminino.
No Brasil, a Ação Católica, desde 1932, foi tema focalizado por revistas católicas e foi
abordada em cursos promovidos por Alceu Amoroso Lima no Rio de Janeiro e, no mesmo
ano, Christine de Hemptinne, presidente mundial da Juventude Feminina Católica, esteve na
capital abordando a questão, à convite de Dom Leme, dando aulas para Filhas de Maria, o que
resultou na criação de um grupo de Ação Católica estudantil. No ano seguinte, Dom Leme e
os bispos presentes no Congresso Eucarístico de Salvador decidiram criar uma estrutura
nacional da Ação Católica, submetendo à Roma um projeto de estatutos, ficando estabelecido
que sua sede seria no Rio de Janeiro. O engajamento feminino na nova organização foi
enriquecido pela criação, em outubro de 1934, por Stella Faro da Liga das Senhoras Católicas,
líder que em 1935 se integraria ao conselho da União Internacional das Ligas Femininas
Católicas (Bandeira, 2000:104-105).
Enquanto organização do laicato, a Ação Católica na sua essência e fins se distinguia
das outras formas de participação apostólica. Desde os anos 30, seu núcleo inicial apontava
para um novo caminho pastoral caracterizado pelo profundo interesse em relação ao
Perilo Gomes. Por ocasião dos 60 anos do Centro Dom Vital – Atualização Ano 14, ns. 155/156. In Matos,
1990. p. 211.
5
127
Evangelho, a dedicação ao estudo dos documentos pontifícios, com destaque para os sociais, a
freqüência aos sacramentos e às práticas litúrgicas, de preferência as renovadas (Bandeira,
2000:307).
Os membros do movimento dedicavam-se freqüentemente a estudos coletivos
programados na forma de semanas e círculos. As Semanas de Estudos tomavam o caráter de
evento, envolvendo palestras e reflexões. Já os círculos faziam parte da rotina dos grupos,
ocorrendo normalmente sob orientação do assistente eclesiástico.
As mulheres, pelo trajeto que cumpriram no processo de institucionalização da Igreja
Católica, por estarem sujeitas às restrições morais no que se refere ao comportamento e
tolhidas da participação política, fizeram do campo religioso seu espaço de expressão e
manifestação de habilidades. Mesmo que tenham sido alvo direto dos ensinamentos mais
conservadores e tenham incorporado esse discurso, contribuindo para a reprodução de um
modelo mais tradicional de Igreja, ocuparam seu espaço na militância e estiveram
particularmente sensíveis às tendências de renovação.
3.2 A Ordem Terceira e as associações católicas na vida da paroquia
“Os católicos devem alistar-se nas associações: Arregimentem-se. A união faz a
força.”6
A Ação Católica Oficial através de seu apostolado e ação social, ao mesmo tempo que,
por sua abrangência e respaldo da Santa Sé, apoiava os trabalhos das diversas associações
católicas, mantinha uma autonomia e peculiaridade em relação às mesmas, em função de
representar a participação oficial dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja. Essa
participação era subordinada ao clero e o espírito de resignação, de ação e militância tinham
sustentação na figura de São Francisco, modelo considerado adequado para os propósitos do
movimento, que procurava resguardar valores de obediência e santidade.
6
“Para os católicos vencerem ...”. In: “O Horizonte”, Ano 10, n. 926 (24.11.1932), p. 1, c. 1. (Matos, 189).
128
A conduta ilibada e o esforço dos fiéis em demonstrarem uma vida santa eram
reforçados pela hierarquia, como nas explicações de Frei Severino: “Fomos santificados pelo
batismo, somos santos pela graça santificante; mais de uma vez São Paulo nos chama de
santos. [...] Todos que pelo batismo se tornaram membros daquele Corpo Místico, do qual
Jesus Cristo é a cabeça, formam a Igreja.” 7
Frei Severino completa sua exposição afirmando que somos parte da Comunhão dos
Santos, composta da Igreja militante que somos nós, da Igreja padecente, aqueles que se
foram e se purificam no purgatório, e da Igreja triunfante composta pelos anjos e santos –
todas as três classes da Igreja estão unidas espiritualmente.
A escolha de São Francisco por Bento XV8 como padroeiro da Ação Católica,
adequava-se bem aos propósitos do movimento, pois São Francisco ensinou a prática da vida
santa e criou referências para o trabalho social dos leigos através da Ordem III.
A Ordem Terceira foi fundada pela disposição despertada por São Francisco nos leigos
interessados em se ligarem às regras da vida franciscana, mas que não podiam desligar-se do
mundo. Essa irmandade de franciscanos “seculares” de ambos os sexos passou a se sujeitar a
uma regra publicada em 1221 em Florença. O programa desses irmãos, estabelecido em sua
regra, tem como base educar e praticar a perfeição cristã no mundo segundo o espírito de São
Francisco.9
Essa entidade abrigou personalidades expressivas, responsáveis pela concepção e
institucionalização da Ação Católica, como o próprio Pio XI, conhecido como papa da Ação
Católica, e seu sucessor Pio XII.
A justificativa para a escolha de São Francisco como referência para a nova proposta
de colaboração organizada dos leigos numa união de forças com a hierarquia, foi tema de
vários textos publicados pela revista dos terceiros franciscanos “Eco Seráfico”, como na
abordagem selecionada sobre a fidelidade à Igreja Romana:
7
Revista Eco Seráfico – XXXII, 1943, p. 193.
8
Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 256.
Frei Odulfo Van Der Vat (2001), História Franciscana – Província Franciscana de Santa Cruz. Belo Horizonte,
Província Franciscana de Santa Cruz. p. 171-172.
9
129
“São Francisco, o varão católico. “Segundo consta dos documentos históricos mais
fidedignos daquela época, venerava o santo pai, os sacerdotes e a toda a hierarquia
eclesiástica. Este varão católico e genuinamente apostólico – vir catholicus et totus
apostolicus – na sua pregação inculcava como ponto capital, que era necessário
guardar fidelidade inviolável à Igreja Romana e que, por causa do sacramento da
Eucaristia, produzido pelos sacerdotes, se devia consagrar o mais profundo respeito
ao estado sacerdotal. Além disto ensinava ser preciso ter máxima reverência aos
mestres da lei divina e a toda a hierarquia da Igreja”. [...] Duvido que exista um
santo no céu que supere a São Francisco na veneração à hierarquia eclesiástica. Esta
veneração toda especial baseia-se na Eucaristia, que é o tema favorito do santo.”10
A relação entre a Ordem III e a Ação Católica foi estreita, apesar das diferenças de
concepção e propósito de ambas e do fato de o movimento de Ação Católica ter sido
idealizado para dilatar o Reinado de Cristo por intermédio de leigos organizados participantes
do apostolado hierárquico, contando para isso com uma estrutura institucional de vanguarda
erigida pela Igreja de Roma. A medida que o movimento ganhava corpo e respaldo
institucional, houve uma certa dificuldade por parte dos organismos de apostolado préexistentes, em compreenderem sua função no novo contexto, pois não estavam claros os
papéis e os limites de atuação de cada um e sobre qual seria sua posição diante da Ação
Católica.
A intenção da Santa Sé era de que cada entidade cumprisse o seu trabalho original,
sendo apoiadas pelo novo movimento, que definiria uma direção principal ao trabalho pastoral
da Igreja. Romeu Dale em sua abordagem sobre a Ação Católica brasileira apresenta seus
estatutos e destaca a particularidade desse movimento em relação às outras associações
católicas:
“... A Ação Católica não deve confundir-se, nem mesmo aparentemente, com
qualquer associação ou obra de fins particularizados, por mais nobres que sejam; as
conferências Vicentinas por exemplo. Apesar de entre nós terem sempre
desenvolvido um apostolado edificantíssimo, são associações de objetivos
apostólicos delimitados. A Ação Católica não, ela visa um apostolado universal, sem
limites outros que não os da própria missão hierárquica, a qual na Ação Católica tem
como quer o Santo Padre Pio XI, “mãos, braços, lábios, corações, vontades” que
auxiliam a instaurar ou restaurar a vida católica em todos os meios sociais. Dentro
da Ação Católica, acima das associações de atividades particularizadas, todos os
católicos e todas as obras têm o seu lugar de honra e de dever.” (Dale, 1985: 34)
Théo Presente. São Francisco de Assis e o tempo presente. In: Revista Eco Seráfico – XXXIII, citando Pio XI,
Encíclica Rite expiatis.
10
130
De acordo com Plínio de Oliveira, o debate em torno da Ação Católica foi sobre sua
dimensão renovadora, suscitando questionamentos sobre o papel desempenhado a partir dela
em relação às antigas associações de leigos, tais como a Congregação Mariana, a Liga Jesus,
Maria e José; Apostolado da Oração; a Pia União das Filhas de Maria; a Conferência e
Conselho Vicentinos; a Ordem Terceira e outras. Haviam posicionamentos diversos quanto à
situação das entidades, desde a defesa de substituí-las devido a seu obsoletismo, até a de que
deveriam coexistir com a Ação Católica numa posição de cooperação.
“... Concebem alguns que poderiam sobreviver as associações de caráter
estritamente piedoso, pois que, dizem, a Ação Católica não cuida de piedade; outros
entendem que a Ação Católica a tudo basta, e que mesmo tais associações são
inteiramente supérfluas e devem morrer: se “non sunt multiplicanda entia sine
necessitate”, cessou para elas a razão de ser. [...] Há quem não chegue a tão longe e
entenda que realmente as associações preexistentes aos atuais quadros jurídicos da
Ação Católica não devem morrer, nem abandonar o apostolado, mas ocupar com
suas obras e trabalhos uma posição inteiramente secundária, pois que, não exercendo
um apostolado “mandado”, devem apenas ceifar as raras espigas que a foice dos
ceifadores credenciados ainda deixou, por excesso de trabalho, no campo do Pai de
família.”11
O autor expõe também sobre as novidades trazidas pela Ação Católica no sentido de
substituir os retiros ascéticos próprios das antigas associações de leigos, pelas semanas de
estudos, inspirados na idéia de “iluminação das inteligências”, numa oposição ao
virtuocentrismo apregoado também pelas missões redentoristas. O método da Ação Católica
representou a libertação da mortificação e das fugas próprias das antigas associações, já que
estas demonstravam dificuldades estruturais, jurídicas e orgânicas para assumir um apostolado
mais amplo. A Ação Católica diferia também das Irmandades, marcadas pelo culto aos
padroeiros. O novo movimento não exigia o uso de trajes específicos, o que facilitava o
trânsito de seus membros entre os leigos comuns e sua influência no meio social pelo
“apostolado de conquista”, em oposição ao apostolado de fervoramento (Oliveira, 1983:9596).
11
Plínio Corrêa de Oliveira. Em defesa da Ação Católica. São Paulo: Artpress, 1983. p. 25.
131
Em Divinópolis, as entidades, Adoração Noturna, Pia União das Filhas de Maria e o
Apostolado da Oração, foram criados pelo Pe. Matias Lobato em 1914.12 Foi também atuante,
como ficou registrado em suas atas, a Liga Católica Jesus, Maria, José, criada em 1927, com
o apoio do Revmo Adriano Wrigant, redentorista e diretor da Liga do Estado de Minas Gerais.
Naquela data havia sido convidado por Frei Hilário Verheij para lançar as bases da entidade
no município conseguindo o alistamento de 160 homens. Sua fundação oficial ocorreu em
outubro de 1928, quando foram entregues os diplomas e estandarte aos membros. Em 1931
Frei Braz anunciou a criação da Liga Infantil para meninos aspirantes que seriam
acompanhados separadamente. Os homens da Liga rezavam o terço, participavam da bênção
do Santíssimo Sacramento e faziam sua adoração noturna.
No jornalzinho “A Semana”, pequena folha de distribuição interna da Paróquia de
Santo Antônio, foram listadas as entidades católicas atuantes na cidade e apresentadas suas
respectivas funções no meio social:
A adoração ao Santíssimo, associação que procura dar ao Prisioneiro do Sacrário a
homenagem de sua preparação em santificação sua e do próximo.
A Liga Católica dos homens quer unir os católicos cumpridores dos seus deveres
numa grande família, ensinar e recordar-lhes as obrigações e consagrá-los à família sagrada.
A Congregação Mariana dirige os rapazes nas dificuldades da vida no mundo
indiferente e pagão, ensinando-lhes como melhor meio a devoção a Nossa Senhora.
A Conferências de São Vicente fazem caridade aos que precisam de auxílio espiritual
ou material, conforme o ideal de Frederico Ozanan.
O Círculo Operário não é associação religiosa mas social. É de origem católica, tem
seu assistente eclesiástico, mas zela pelos interesses do operariado, dando orientação,
assistência jurídica, médica, farmácia, armazém, aprendizagem, divertimentos etc. Une os
operários, defende os interesses dos operários e encabeça o operariado.
A Ação Católica forma católicos de convicções firmes, dando-lhes a formação moral,
religiosa, social, apostólica e técnica para que sejam apóstolos preparados para qualquer
ambiente.13
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 58.
12
13
Jornal Interno A Semana – De 06 a 13 de maio de 1945 (negritos usados pela autora).
132
A posição das associações diante do novo apostolado foi debatida pela Ordem
Terceira, que de forma mais fundamentada, buscou mostrar suas afinidades com a Ação
Católica, fato registrado em vários exemplares da revista “Eco Seráfico”, como bem traduziu
a afirmativa: “Foco de vida fervorosa, a Ordem Terceira Franciscana constitui por si mesma
uma reserva já preparada de Apóstolos prontos para servir na Ação Católica.”14
Foram levantados questionamentos sobre críticas depreciativas feitas à Ordem
Terceira por membros do clero e intelectuais católicos, muitas vezes considerando-a
desatualizada frente ao dinamismo dos novos tempos e dos propósitos da Ação Católica,
criada justamente para colocar a Igreja numa posição de evidência diante do mundo moderno.
No artigo “A ordem Terceira, elemento de reforma social”, Frei João Foguet tentou
situar historicamente a Ordem Franciscana no final da Idade Média, sua função moral,
espiritual e caritativa, mostrando a atualidade da espiritualidade franciscana adequada aos
momentos de transformação das sociedades e como caminho para a solução da questão social.
Numa conjuntura como a moderna, entregue ao culto dos interesses materiais e dividida pelas
paixões sociais e políticas, os franciscanos seriam, na concepção dos terceiros, elementos
indispensáveis na condução do povo para o evangelho. Na argumentação de Foguet, o
verdadeiro espírito de caridade, abnegação e desprendimento eram características inerentes ao
terceiro franciscano, tornando-o, portanto, adequado aos novos tempos. O autor, ao fazer
essas ponderações, comentou sobre as críticas feitas à Ordem Terceira, comumente
apregoadas por aqueles que, segundo ele, desconheciam suas potencialidades:
“A Ordem Terceira já passou da moda e é somente boa para o exercício de devoções
pessoais, não correspondendo aos fins da vida social. É indispensável que todos
pertençam à Ação Católica se quiserem ser filhos da Igreja. Fora da Ação Católica
não há salvação!”15
Essa visão incomodava aos membros da Ordem, aparecendo em outros textos da
revista como foi tratado por Frei Benigno Vodonis, que em seu artigo desenvolveu uma
comparação entre Ordem Terceira e Ação Católica:
14
Revista Eco Seráfico – XXXIII, 1944, p. 15.
15
Revista Eco Seráfico – XX, 1931, p. 200.
133
“A Ordem Terceira é vulgarmente considerada como uma instituição antiga, própria
só para gente pobre e de classe humilde e para os que não gostam de trabalhar
seriamente, cingindo-se somente a formalidades, sem eficácia para a ação social. Ao
passo que a Ação Católica é vista como uma organização genial do Santo Padre, a
qual supre todas as outras, a única que pela sua atividade ilimitada e eficaz é própria
para o nosso tempo, o tempo de ação que não de teorias estéreis e formalidades
infrutíferas.”16
O autor ressalta a tendência de se desvalorizar instituições antigas como se fossem
impróprias para os tempos modernos. Afirmou que o objetivo supremo da Ordem Terceira era
o mesmo da Ação Católica, o de dilatar o Reino de Jesus Cristo, os meios, no entanto, seriam
diferentes, porém não incompatíveis e nem contraditórios. Segundo ele, o fim específico da
Ação Católica era prestar auxílio aos sacerdotes no ministério pastoral; o objetivo da Ordem
Terceira seria o de santificação do indivíduo pela observância das regras de São Francisco
baseadas no Evangelho. Prossegue sua comparação afirmando:
“Já da denominação infere-se o caráter de atividade dessas duas geniais instituições.
A Ação Católica é antes de tudo uma ação na propaganda do Reino de Cristo. Ela
quer fazer conhecida e praticada a doutrina do evangelho. A Ordem Terceira quer,
antes de tudo, formar uma elite, uma Ordem a exemplo das ordens monásticas e
sobretudo a modelo da ordem dos Frades Menores, as quais se aplicam a
observância dos três conselhos na possibilidade do seu estado, as mais das vezes
conjugal, e prometem observar o evangelho para se santificarem em primeiro lugar a
si mesmos.”17
Por várias razões o franciscanismo estava presente na Ação Católica, seja pela
disposição papal em preservar o espírito e os valores dessa ordem religiosa, sua tradição e
vocação leiga para o apostolado, ou ainda pela necessidade de criar um vínculo simbólico de
obediência e respeito hierárquico. Era também uma característica franciscana, a observância
ao evangelho no tocante à formação individual como força propulsora da transformação
coletiva. A Ação Católica buscava sustentação na formação de seus membros, usando o
método – dar o exemplo antes de dar o preceito: “Deve agir o bom soldado da Ação Católica,
16
Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 256.
17
Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 257.
134
fazendo crescer bem alto em si primeiro o fermento evangélico, e depois, só depois, lançar-se
a levedar e transformar toda a massa...”18
São Francisco, como padroeiro, era a imagem e o conteúdo que vinham a calhar aos
propósitos da Igreja em seu investimento de legitimação da Ação Católica, tornando-a ponto
de convergência de todo o trabalho pastoral e centro das atenções da Santa Sé e de toda a
estrutura eclesiástica.
Os franciscanos além de inspiradores, incorporaram a proposta de trabalho pastoral
militante e engrossaram as fileiras do movimento, contribuindo a seu modo com a
consolidação da Ação Católica nas paróquias onde atuaram.
Da Ordem Terceira nasceu a primeira mártir do movimento, Maria da Luz, irmã
terceira nascida em 1907 no México. Numa demonstração de seu espírito aguerrido, a jovem
de 27 anos, secretária da Ação Católica, teria morrido em frente à sua igreja paroquial em
Coyoacam, sob balas comunistas em 30 de dezembro de 1934. “Maria da Luz morre
suavemente, dando o sangue pelo Cristo Rei. No outro dia 30 mil pessoas assistem ao seu
funeral e o arcebispo Dom Dias brada ante ao esquife: viva a primeira mártir da Ação
Católica!”19
A Ordem Terceira em Divinópolis era composta de mulheres que se dedicavam à
serviços paroquiais variados. O relatório de 193820 faz menção ao trabalho dirigido por Frei
Braz, orientando as irmãs para a realização de visitas às pessoas consideradas afastadas da
Igreja que precisavam ser resgatadas. O desempenho das mulheres e sua
dedicação à
atividades variadas foi avaliado pela administração paroquial:
“A Ordem tem só mulheres, 80. Mas estas são muito constantes e zelosas, o diretor é
Frei Braz. As irmãs se encarregam das despesas necessárias para a construção e
mobiliação da capela lateral de São Francisco, e também da construção de um salão
paroquial, Casa de Santo Antônio para reuniões etc.”21
18
Revista Eco Seráfico – XXV, 1936.
19
Revista Eco Seráfico XXVII, 1938.
20
Revista de Santa Cruz, Ano III, nº 5, maio de 1938, p. 72.
21
Revista de Santa Cruz, Ano IV, nº 10, outubro de 1939, p. 173.
135
Os franciscanos consolidaram sua presença na cidade através de um trabalho político,
cultural e social abrangente. No campo social, suas ações sustentaram-se no
comprometimento orgânico das mulheres. Estudos documentais e depoimentos de antigos
membros das entidades católicas comprovam a convivência de antigas práticas caritativas
com ações sociais mais voltadas para a promoção social. A tendência caritativa foi mantida
junto à população carente, sempre acompanhada de um trabalho de catequese. Assumido
muitas vezes em conjunto pelas antigas entidades, inclusive a Ordem Terceira, buscando
adaptar-se ao novo apostolado trazido pela Ação Católica. A presença feminina foi marcante
nos movimentos e entidades e na organização das cerimônias paroquiais.
Um exemplo da presença ainda forte das antigas associações no trabalho social da
paróquia foi o envolvimento da Ordem Terceira na criação da Sopa de Santo Antônio, como
ficou registrado em sua inauguração pelas palavras de Frei Mariano ao fazer em público um
agradecimento: “o gesto compreensivo da Ordem Terceira Franciscana, que tão animada e
confiante aceitou cuidar que haja diariamente uma boa sopa para 150 pobres e também
servi-los à mesa...”22
Dom Aloísio em seu depoimento, ao abordar sobre a Ação Católica e as associações
religiosas em Divinópolis nos anos 40 e 50, explicou que as antigas associações eram muito
fortes, tinham grande influência na vida paroquial, e acredita que a Ação Católica naquele
tempo ainda era apenas uma orientação da Arquidiocese. Segundo ele, as idéias da Ação
Católica não foram assimiladas e vivenciadas pelos leigos como estava estabelecido em sua
concepção:
“Naquela época, quase não se falava de Ação Católica; se falava mais dos Moços
Marianos e das Filhas de Maria, era a grande força naquela época junto com os
vicentinos; eles eram uma força tremenda na cidade. E tinha a irmandade do
Santíssimo que fazia todo mês adoração noturna, e tinha também o apostolado da
Oração, que era bastante forte e as mães cristãs.”23 (Dom Aloísio Lorscheider)
Completou sua exposição sobre o assunto salientando a tendência de uma pregação e
de uma ação pastoral ainda muito voltadas para a espiritualidade e para o indivíduo. Não
22
Jornal Diário do Oeste - 09-12-1956.
23
Entrevista realizada pela autora com Dom Aloísio Lorscheider em 30. 07. 02.
136
havia sido ainda incorporada a idéia de comunidade e de uma ação pastoral voltada para o
coletivo. Suas observações permitem compreender as dificuldades de assimilação do novo,
não só pelo leigo mas pelo clero, preso a traços marcantes de sua formação e à uma imagem
ainda bastante conservadora de Igreja. Podem ser destacados os seguintes aspetos de sua fala:
“A teologia implícita nas pregações era mais naquela linha de “salva tua
alma”, se a gente for resumir. [...] Quando veio a Carta Encíclica de Pìo XII
sobre o Corpo Místico, entrou um pouco a visão coletiva. Esses documentos
mais amplos da Igreja eram sempre levados ao conhecimento do povo, mas
isso não queria dizer que se formasse uma pastoral propriamente dita. Essa
idéia de pastoral veio muito mais tarde com o Plano de Emergência em
1962. Naquela época, prevalecia uma espiritualidade, a qual eu diria
intraeclesial e escatológica. A grande reviravolta veio mesmo com o
Vaticano II. Até então, a teologia era a que a gente aprendia nos seminários,
era mais voltada para a espiritualidade mais individual. Não era uma
espiritualidade comunitária, de comunidade; essa idéia ainda se expressava
muito pouco.” (Dom Aloísio Lorscheider)
Mesmo enfrentando as dificuldades de acompanhar as mudanças e as orientações
traçadas pela hierarquia, cabia ao vigário, ao assistente eclesiástico e aos demais frades
colaboradores, manter o equilíbrio e coordenar a prática dos leigos. Nessa perspectiva, o
pensamento da Igreja sobre questão social e suas propostas de ação para o enfrentamento
desse problema deveriam ser transmitidos aos leigos como foi abordado por Lustosa (1991:
145-146):
“Mais organizados, os esquemas da assistência social católica, escudados na
experiência do serviço social, dão um passo à frente com a técnica da promoção
humana, que lança os germes de trabalho mais sério, contrário à tutela primária do
patronato então dominante sobre os trabalhadores, considerados menores. Nesse
estilo, a hierarquia permanece firme e fiel às diretrizes gerais da doutrina social
católica e procura conciliar a linha rotineira da atividade caritativa com as urgentes
imposições de uma ordem social em busca de novo modelo, respeitador da justiça.
Prova disso temos nas próprias palavras e no encaminhamento da questão social que
os bispos procuram fixar para a comunidade eclesial, certos da necessidade de
mudanças sociais profundas. Ainda se movimentam todavia nos quadros da ação
social tradicional.”
137
Os administradores da vida paroquial, vigário, coadjutor, assistentes, precisavam
acompanhar e cumprir os estatutos da Ação Católica, reunindo em organizações os homens,
as senhoras e a juventude, coordenando todas as associações e obras existentes, seguindo
orientações das instâncias institucionais superiores. Esse disciplinamento não impediu, no
entanto, um processo de polítização dos leigos atuantes e o florescimento de interpretações,
que gradativamente foram ganhando autonomia diante das regras ditadas pela hierarquia. Isso
explica a própria evolução do movimento de Ação Católica no Brasil, seu início ainda preso a
um modelo de Igreja conservador, seu amadurecimento frente aos problemas sociais como foi
o enfrentamento da questão operária e as dificuldades enfrentadas no meio rural.
3.3 A Liga Feminina Católica pela renovação cristã da família
“A Igreja de Cristo permanece inalterada, sempre igual a si mesma, sempre nova e
adaptada à realidade de todos os tempos.”24
As mulheres que participavam das associações e recebiam orientações sobre uma
Ação Católica mais tradicional estavam imbuídas do espírito restaurador, colocando-se a
postos não só no campo da ação social caritativa. Faziam-se ouvir como porta-vozes do
discurso recristianizador nas cerimônias e cultos paroquiais, na defesa da moral e dos bons
costumes, aspectos fundamentais para a garantia do vigor de uma sociedade calcada na
ordem. Procuravam tomar como ponto de partida, a sacralização da família no que se refere
aos registros simbólicos da religião entronizados no espaço da vida privada.
A Ação Católica se sustentava na idéia de que a sociedade moderna encontrava-se
decaída religiosa e moralmente. Daí a necessidade da restauração em Cristo. A denúncia de
uma onda laicizante que representava a dessacralização das instituições, levou à preparação de
uma resistência no plano da moral e dos costumes.
A Igreja aspirava a uma ressacralização da vida social, englobando todo o complexo
institucional, processo que perduraria até o Vaticano II. Ainda a pastoral coletiva de 1951 deu
138
plena chancela a essa concepção, ressaltando a importância da religião como parte da
educação completa do cidadão (Montenegro, 1972:158–159).
Os leigos deveriam cumprir uma missão junto à hierarquia, compondo uma milícia de
combatentes pelo reinado de Cristo contra as forças laicizantes:
“A luta enorme desencadeada pelo mundo ateísta nunca foi tão veemente e perigosa
como agora. Tudo conspira contra o cristianismo e o inimigo da doutrina cristã
aproveita as armas modernas. Cada dia mais jornais, cinema, livros, romances e
revista, rádios entram nas casas. Armas que outros adversários nunca tiveram, agora
são usados contra a religião e contra Deus. Na vida pública e privada empenham-se
numa luta contra Deus, guiados por planos bem elaborados e organizados,
aproveitam-se da situação social e da confusão moral (comunistas e outros), querem
estirpar o sentido religioso de adultos e crianças. A bandeira de satanás está
hasteada, luta contra a religião, corrente de propaganda contra Cristo e a Igreja. Não
devemos retê-las só por meios técnicos, devem juntar forças sacerdotes, religiosos,
leigos afim de vencer esta tendência organizada.”25
O indivíduo na intimidade do lar deveria ser socializado através da educação assumida
pela mãe zelosa, perfil que era reforçado pelo discurso da Igreja. Preocupada em transpor essa
harmonia doméstica para o ambiente público, preservaria dessa forma, a ordem social como
base necessária para uma pátria sadia.
Investia-se no desempenho de uma obra educativa de formação da consciência cívica
criando uma falange de cristãos exemplares, destacando-se a conduta adequada no âmbito do
privado e do público através da aplicação de princípios católicos em toda a vida social (Dale,
1985:36).
Todo o esforço da Igreja no Brasil em se fazer presente na vida social, numa posição
de colaboração com o Estado, principalmente nos anos 40, demonstrava sua disposição em
recuperar seu espaço institucional prejudicado pela onda laicizante da primeira fase da
República. Procurava resguardar hábitos e costumes pela difusão de um estilo de família
cristã e pela garantia de manutenção do ensino religioso nas escolas, portanto fica evidente
sua preocupação com a educação.
O papa Pio XII, falando aos jovens da Ação Católica durante comemorações do 80º aniversário da instituição,
Cidade do Vaticano, 13 (A . P.). Jornal Interno A Semana - 26-09-1948.
24
25
Jornal A Semana – 29-08-1948.
139
Era importante manter a religião católica em todos os campos da vida social. Para
tanto, tornava-se imprescindível sua manutenção no ensino público, além da instalação de
escolas católicas voltadas para a formação da classe média e dos segmentos mais favorecidos,
multiplicadores de um catolicismo oficial. A manutenção do ensino religioso nas escolas foi
uma batalha como parte da estratégia de implantação da ordem cristã na sociedade brasileira.
A idéia apregoada pela Igreja e apresentada nas reivindicações junto ao poder público era:
“Nação que se governa só pelo código civil, sem o apoio da lei básica, de toda moral
religiosa, é uma nação sem garantia de segurança, ordem e paz. Nação que se
divorcia, banindo da escola o catecismo só pode caminhar para a ruína, pois
alimenta em seu seio o anarquismo e os germes de todas as revoluções.”26
Na concepção da Igreja, o que tornaria uma nação próspera, seria a preservação dos
costumes puros no seio das famílias, fundados sobre a idéia de ordem e de moralidade,
alicerçadas na religião e numa concepção cristã de justiça. Tudo isso estaria associado, num
âmbito maior, à garantia de progresso econômico sob responsabilidade do Estado
comprometido com o bem comum, com a proteção do domínio particular, com a contenção
das greves, protegendo ao mesmo tempo, o trabalho e o salário dignos para a grande massa da
população27: “A virtude moral, é que inclina os governantes a repartir encargos e impostos, a
dignidade e a retribuições entre as várias classes de cidadãos, segundo a regra da justiça e
equidade...”28
A orientação resultante da primeira reunião do Concílio Plenário Brasileiro em 1939,
presidido por Dom Sebastião Leme, foi divulgada através de Carta Pastoral enfatizando: “...
queremos a Ação Católica como pupila dos olhos. Não temos mais sincero desejo que vê-la
organizada, florescente e operosa em todo este vasto Brasil, onde tão escassos são os
sacerdotes e tão urgentes as necessidades espirituais do povo.” Nesse documento a
hierarquia ressalta como o principal desafio do movimento católico a defesa da família:
26
Jornal São Francisco – Ano VIII, 01-08-1931.
27
Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de abril de 1944.
28
Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de março de 1944.
140
“Na primeira linha de combate, achar-se-ão sempre os militantes da Ação Católica,
nesta grande cruzada preservadora da família brasileira, ameaçada, na digna
austeridade de suas tradições pela desenvoltura dos costumes e pela ação dissolvente
de tantas diversões modernas.”29
O estímulo à afirmação da família cristã foi abordado por Riolando Azzi (1994:76). O
autor acredita que essa estratégia era parte da Reforma Católica iniciada em meados do século
XIX:
“A preocupação básica da Igreja é manter a família dentro dos moldes tradicionais.
Há uma insistência na manutenção da hierarquia entre os membros da família: o
homem, como chefe e cabeça; os filhos, como dependentes, submissos e obedientes;
e a esposa, ocupando um patamar intermediário, mas sempre sob a autoridade do
marido. Outro elemento ao qual se dá grande importância é a presença da mulher no
lar: o trabalho externo é visto sempre como sintoma de abandono das
responsabilidades domésticas. A Igreja opõem-se tenazmente ao divórcio, lutando
pela indissolubilidade do vínculo matrimonial.”
Os jornais e revistas católicos circulavam formando uma rede de comunicação voltada
para a solidificação desses valores, normatizando condutas e respaldando padrões, numa
associação do mal comportamento com a idéia de pecado.
O Jornal São Francisco de Pirapora, que circulava em Divinópolis nos anos 30, expôs
o desconforto da Igreja diante das influências consideradas nocivas à manutenção dos bons
costumes:
“É preciso reagir contra a invasão dos maus hábitos. O que faz o homem grande não
é a riqueza, não é a ciência, não é a posição social. O que torna o homem grande e
notável é a vida moral. [...] Mães de família, defendei o vosso lar. Donzelas! Há na
sociedade, uma conspiração para perverter a mulher. A obra da corrupção lavra
latente contra vós, com o auxílio das lojas maçônicas e do judaísmo. Donzelas!
Acautelai-vos que a sociedade pervertida quer lançar-vos no vício e no pecado.”30
29
Dale, 1985. p. 47.
30
Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 110, 01-09-1931.
141
Havia uma preocupação em evitar os desvios dos jovens, sempre alvo de ensinamentos
transmitidos pelos sermões, pela educação familiar e escolar, orientados também pelas
publicações católicas.
As roupas recatadas, o namoro fiel e comedido, a seleção das formas de lazer e das
leituras adequadas eram parte do elenco de cuidados que as famílias deveriam ter para com
seus filhos, evitando o assédio das condutas liberais avançadas.
Nos anos vinte, foi lançada uma verdadeira cruzada contra a moda indecente, não só
por ligar-se à vaidade feminina, mas por representar, na concepção desses cruzadistas, um
plano internacional de desagregação da família promovido pelos inimigos da fé e da moral. A
posição das autoridades eclesiásticas foi incisiva:
“Ou as senhoras são católicas e obedecem à Igreja, e lhe cumprem os preceitos, e
seguem a sua moral, ou não são católicas e não têm o direito de ir aos templos,
afrontá-los com a indecência de seus vestidos. Ou estão com Cristo e o ouvem , ou
estão contra Cristo.”31
No jornal Santuário de Santo Antônio, foi publicado um aviso que teria sido afixado
nas igrejas de Roma: “Mulher deve entrar na casa de Deus coberta com vestido afogado. A
imodéstia no vestuário ofende a santidade do templo, escandaliza os fiéis e provoca terríveis
castigos de Deus.”32
Frei Rafael Zevenhoven colocou seus artigos do jornal “A Semana” a serviço da
causa, entre satírico e sarcástico, pronunciou-se sobre o crescimento da influência da moda no
meio feminino:
“Leitor! Não hesito em dizer, que a moda é mais poderosa do que o bom senso, mais
forte do que os milhares de sermões pronunciados contra esta epidemia universal.
[...] É por causa da moda que muita senhora e senhorita andam ridiculamente
vestidas, caminham com muita dificuldade, ostentando as suas pernas de cegonha.
[...] Muitos acompanham a moda para poder brilhar na avenida, no footing. [...] O
C.R.: Defendendo a modéstia. In: “Boletim Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana”, Ano 31, nº 2 (fev.
de1936) In: Matos, p. 164.
31
32
Jornal Santuário de Santo Antônio – Ano 5, nº 11, março de 1931.
142
mundo quer ser enganado, portanto, será enganado, pelas exigências da moda
parisiense ou inglesa ...”33
O comportamento dos moços foi criticado pelo excesso de liberdade no artigo,
“Urubus Humanos”, escrito por Frei Rafael, denunciando a vida desregrada e a
supervalorização do futebol e de seus ídolos pelos rapazes:
“O número deles não é pequeno. É grande, e nos centros das grandes cidades, nos
centros das pequenas cidades sem religião, sem freio, sem diretrizes, o número
deles é enorme. Podeis encontrá-los em todas parte, menos na Igreja. [...] Nos bares,
nas esquinas, nos clubes, passam as horas mais preciosas da sua vida falando
asneiras, contando anedotas, criticando toda e qualquer autoridade, bebendo cerveja,
e depois na avenida, espiando as moças, bancando o engraçado, o formidável, o
espirituoso, o herói, o D. Juan, em resumo, a imundície e sujeira que cai dos seus
lábios faz muita senhora e senhorita corar de vergonha. São como urubus, não
cabem dentro de um ambiente são, honesto sincero. [...] Rapaz! Moça! Cuidado com
estes.”34
A família era alertada para manter-se como sentinela, cabendo à mulher essa função de
mediadora entre os ensinamentos cristãos e o acompanhamento da rotina doméstica. Enquanto
católicas praticantes, recebiam orientações sobre a educação dos filhos:
“Podemos escrever livros, espalhar teorias sobre o dever e o sacrifício – o
verdadeiro professor de moral é a mulher, é a mãe. É ela que aconselha docemente o
bem, que recompensa a dedicação com uma carícia, nos dá, quando é preciso o
exemplo da coragem, e o exemplo mais difícil ainda da resignação; é ela que ensina
aos filhos o encanto dos sentimentos que temos e as elevadas e severas leis da
honra.”35
Na década de quarenta os avanços da modernidade cresciam, as visões de mundo
mudavam depois da experiência de duas grandes guerras mundiais e dos avanços tecnológicos
na indústria e nos meios de comunicação. No entanto, as concepções no universo católico
sobre a posição da mulher dedicada às funções domésticas de esposa e mãe, ainda eram
mantidos. A distinção entre a mulher considerada moderna e a mulher cristã ocorria sempre
33
Jornal Interno A Semana – 07.07.1946.
34
Jornal Interno A Semana – 15.01.1946
35
Jornal São Francisco – Ano IX, nº 115, 15.11.1931.
143
numa perspectiva de crítica às mulheres que se arvoravam seguir o caminho traçado pelas
tendências de transformação dos costumes: “A mulher moderna só quer ser esposa e lhe
aborrece a missão honrosa de mãe, para poder gozar a vida. Pobre dela na hora da morte! A
mulher cristã, porém, ciente da vontade de Deus, julga-se feliz de ser mãe, e, quando na hora
derradeira se vê cercada dos filhos e netos, sua alma voa ao céu ...”.36
O confronto entre o que era tido como moderno, como um sinal dos novos tempos, e a
tradição, modelo para a preservação de valores e formas de conduta, considerados como
esteio de uma sociedade tranqüila e estável, era parte do processo dialético de transformação
experimentada pelo mundo principalmente depois de 1945. Numa demonstração de
resistência ao novo, havia uma tendência ao apego, de certa forma exagerado, à tradição,
numa tentativa de represamento das mudanças, que por sua velocidade e intensidade,
chegavam e eram incorporadas, transbordando e rompendo gradativamente a frágil contenção
imposta pelo conservadorismo. Nessa perspectiva, os ensinamentos e a sinalização
transmitidos aos católicos procuravam apresentar distinções entre os dois mundos, sempre
reforçando os prejuízos da adesão ao moderno, como foi tratado no artigo, “É moderno, sim,
mas feio!”:
“É moderno! Com estas palavras justifica-se hoje em dia muita coisa. [...]
Modernismo é uma tendência a aceitar inovações. Uma facilidade em aceitar idéias e
práticas modernas e novas, ainda não consagradas pelo uso. Pode-se adotar muita
coisa. Um viajante, por exemplo, que antigamente viajava a pé, ou montado num
animal, quando não havia avião ou estrada de ferro, pode adaptar-se perfeitamente
às conduções modernas de trem, avião ou automóvel. Seria bobo se não o fizesse.
Tratando-se, porém, em muitos casos de uma adaptação “ilícita” – que sob pretexto
de ser “moderna”, está sendo julgada “lícita” – introduziu-se em nosso meio, quiçá
na sociedade atual, muitos costumes, muitos hábitos que antigamente mereciam a
reprovação geral de todos, e que agora estão sendo praticados como coisa muito
natural, e muita gente já não repara mais no absurdo, na brutalidade, no atrevimento
e na imoralidade de certos costumes.”37
Após situar a distinção entre o modernismo técnico e o modernismo que afeta o
ambiente sócio-cultural, o autor teceu comentários exemplificando suas afirmativas:
36
Jornal Interno A Semana – 25.11.1945.
37
Jornal Interno A Semana – 17.02.1946.
144
“Antigamente as moças eram muito mais modestas, não gastavam tanto
dinheiro pelo embelezamento, tinham mais pudor, mais respeito e
compostura. Hoje, é moderno, que passeiem até 10, 11 horas na avenida,
bancando beija-flor praticando o “flirt”...
É moderno! Os rapazes irem aonde quiserem, fazer o que entenderem, namorando
sem intuito de casar, ficar horas e horas na avenida, nos bares, nas esquinas, e
depois, na escuridão da noite. Deus é que sabe.
... Antigamente a família era um Santuário, uma coisa íntima, reinava respeito e
moralidade, não existia a promiscuidade, tão prejudicial à nossa mocidade... E com
todas essas falsas modernices, o mundo vai de mal a pior...”
Nas associações religiosas, as mulheres se instrumentalizavam para tomarem a linha
de frente pela defesa da harmonia do lar e da sociedade. Se considerando representantes da
Ação Católica, movimento que na verdade ainda lhes era estranho, as mulheres eram
preparadas para a leitura do evangelho, supervisionadas pelo assistente eclesiástico em
reuniões realizadas pela Liga Feminina Católica atuante na cidade entre 1938 e 1950.
De acordo com registros feitos no livro de atas, a Liga Feminina de Ação Católica foi
criada no dia 19 de novembro de 1938, por ordem do Revmo Dom Antônio dos Santos
Cabral, momento em que lançava a Ação Católica na freguesia de Divinópolis sob liderança
do padre Vicente Borges, presidida por Dª Lourdes Couto e dirigida por Dª Vicença
Fernandes. Nas reuniões de março de 1939, Frei Braz Berten estimulou o trabalho da Liga em
sintonia com a Ação Católica, procurando legitimar esse movimento, explicando o que era e
como representava a posição da Igreja na luta contra o mal, tal como era visto na época o
espiritismo e outras seitas e doutrinas políticas.
As mulheres ocupavam-se de estudos bíblicos, refletiram sobre a infalibilidade da
Igreja, como na abordagem do tema “Fora da Igreja não tem salvação”. As leituras eram
orientadas e havia uma distinção clara entre o que era considerado boa e má imprensa. Nesse
caso, as liguistas eram estimuladas a ler o jornal “O Diário” e outras publicações católicas.
Em janeiro de 1940 a diretoria dessa associação estava composta pelas senhoras: Ruth
Gontijo (presidente), Helena Loureiro Meireles (dirigente), Jorcelina Santos Gontijo
(secretária), Iracema Pereira Mesquita (tesoureira). A nova presidente Dª Ruth Gontijo ao
assumir suas funções, entusiasmou as sócias a trabalharem com mais afinco para ganhar mais
almas para o Cristo Rei. Além da leitura comentada do evangelho, as sócias dedicavam-se ao
estudo de livros como “Doutrina Viva” e sobre a Ação Católica como o de D. Mário de
Miranda Vilas Boas, que tratava do conceito e objetivos do movimento. Os temas e estudos
145
do evangelho tinham um cunho formativo; dogmas eram reforçados como a infalibilidade da
Igreja e do papa, sempre eram feitas considerações sobre o Corpo Místico de Cristo e sobre o
processo de descristianização do mundo promovido por doutrinas laicizantes e anátemas.
Na reunião de janeiro de 1944, foi discutido o evangelho de São Lucas e a veracidade
das Igrejas Cristãs. Nesse momento, a dirigente daquele círculo de estudos comparou a lepra
do corpo físico com a lepra do espírito adoentado pelo pecado. Finalizou sua análise
afirmando que dentre as Igrejas que se intitulavam cristãs, a única verdadeira era a católica,
por ter sido instituída por Cristo que pregou uma só doutrina e lhe deu um só chefe, o papa.
Sua fala foi reforçada pela do vigário que afirmou ser a Igreja Santa, Católica, Apostólica e
Universal.
A Liga era composta de vários círculos, com seus santos protetores tais como Santa
Terezinha, Santa Ana, Santa Mônica e eram usadas bandeiras e insígnias. Haviam critérios
para composição dos círculos, como foi o caso da criação de um círculo voltado para a
Juventude Feminina Católica, liderado por Veneza Guimarães. Outros Círculos eram
formados de acordo com o grau de instrução das mulheres como explicou uma de suas sócias:
“Fizemos dois círculos de senhoras, um composto daquelas mais modestas, pois se
misturasse ficaria difícil uma aula sobre o evangelho. Não é? Este círculo foi
entregue a Dª Mercês Santos e o outro entregue a mim. A dirigente tinha um
programa para preparar os encontros que vinha da Ação Católica de Belo Horizonte,
neste ponto era bom porque direcionava os estudos e todos se dedicavam ao mesmo
tema. A existência de vário círculos de senhoras era em função do nível, pois se
misturasse não teria proveito para ninguém. No começo foi difícil, mas depois elas
foram se habituando. O vigário sempre estava presente nas reuniões de estudo.
Primeiro lia-se o evangelho que era comentado. O vigário apresentava o programa,
dizia a finalidade e o grupo ia discutindo e apreendendo vagarosamente.
Participavam senhoras das autoridades civis que além dos estudos se envolviam com
a vida paroquial. O primeiro trabalho que coube a nós foi a organização da festa de
Santo Antônio. Não sei como é hoje, mas naquele tempo o povo participava das
novenas e outras atividades. Nos reuníamos na Casa de Santo Antônio onde
funcionava o cinema e teatro amador” 38 (Benigna Moreira de Souza)
Os círculos de estudos eram parte do funcionamento da Ação Católica, pois partia-se
do princípio de que o leigo desconhecia o conteúdo bíblico e que para criar um corpo
missionário seria necessária uma preparação assistida pelo clero. A hierarquia acreditava que
38
Entrevista realizada pela autora com Dª Benigna Moreira de Souza no dia 25.05.01.
146
o povo expressava um catolicismo supersticioso, situação que impunha uma pastoral
adequada numa roupagem européia e de cunho mais ortodoxo. A prática católica popular
expressava um universo mental caracterizado pela falta de instrução religiosa adequada. A
Ação Católica foi preparada para agir sobre essa realidade, alterando esse quadro através da
preparação evangélica, do apelo ao sobrenaturalismo, intercalado a exercícios de piedade e de
vida contemplativa, com forte apelo ao simbólico. Destacavam-se as devoções ao Santíssimo
Sacramento e ao Coração de Jesus, com a presença real da Hóstia, reproduzindo um modelo
de espiritualidade européia reforçada a partir de Pio XII (Montenegro, 161-162).
Os estudos da Bíblia serviam para reforçar a formação dos leigos. As reflexões feitas
na Semana Bíblica de 1951, baseadas na tradução aprovada por Roma e no magistério da
Igreja, reforçaram a idéia da infalibilidade da instituição:
“A Bíblia é, sem dúvida, o maior livro da história. É fonte de conhecimentos
riquíssimos de doutrina e moral. [...] É sabido que o Santo Padre mantém no
Vaticano sábios especializados que estudam e meditam continuamente os volumes
santos. Lá se acham pois: hebraístas, babiloniólogos, assiriólogos, etnologistas,
historiadores, linguistas, críticos e pesquisadores indispensáveis à seriedade e
magnitude do assunto. [...] Na sua autoridade legítima e que deve ser acatada
respeitosamente por todos os fiéis, proíbe a leitura de traduções não autorizadas, sem
critério, que prejudicam lamentavelmente a doutrina e a moral religiosa. O ensino
das Sagradas Escrituras é um direito da Igreja Católica, infalível, isto é, que não erra
em matéria de doutrina e moral. Cremos na sua infalibilidade porque ela data dos
tempos apostólicos. Que isto penetre bem o espírito e a inteligência de todos os
católicos, pois devem ler a Bíblia, mas a Bíblia Católica, segundo os ensinamentos
da Igreja, guia seguro para a compreensão dos textos, pois há passagens de sentido
profundo. Sem o magistério da Igreja estaríamos a cada passo com inúmeras
dificuldades. [...] Somente aos iniciados, orientados e competentes a Santa Bíblia é
clara e iluminada.”39
Promoviam-se eventos mais amplos como em janeiro de 1942, quando aconteceu a
Semana da Ação Católica, dirigida pelo Revmo Cônego Sebastião Fernandes, membro da
diocese de Diamantina. Nesse momento, foi formada a primeira falange de soldados da Ação
Católica e vinte e seis senhoras da sociedade receberam insígnias. Outra Semana aconteceu
em julho, contando com a supervisão do Monsenhor Vicente Soares, que representando o
Discurso preferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na
Semana Bíblica em 1951.
39
147
arcebispo participou das reuniões de todas as associações religiosas. As atividades foram
encerradas com uma cerimônia cívico-religiosa presenciada por Dom Cabral.
A festa do Cristo Rei tinha um sentido particular para o movimento, pois representava
a referência simbólica e eclesiológica da Ação Católica. Era um momento ímpar no contexto
geral do movimento, quando todos os católicos se mobilizavam no mês de outubro, numa rede
que interligava comemorações e cerimônias especiais envolvendo os católicos de todo o
mundo.
Em Divinópolis a comemoração do Cristo Rei realizada em 31 de outubro de 1948,
expressou esta ligação à Santa Sé. Nessa cerimônia foram feitas reflexões sobre a Ação
Católica, momento em que as participantes agradeceram o apoio recebido de Frei Carlos
Schep por ter sido dirigente do movimento e se comprometeram com Frei Orêncio Vogels,
novo assistente, no fortalecimento do círculo de estudos e no cumprimento assíduo da missão
apostólica. De acordo com a fala das ligüistas, essa missão envolveria a recristianização da
sociedade começando pelo lar:
“Não há só missões em terras longínquas, há também missões em nossa pátria, as
missões do nosso lar. A hora presente todo cristão deve ser apóstolo e missionário.
[...] O trabalho de recristianização começa em nós mesmas, se estendendo às
famílias e delas á sociedade. E o que fizermos procurando reformá-la para Cristo,
não faremos senão em nosso próprio proveito, pois que teremos contribuído para a
formação de um ambiente moral e religioso para nossos filhos, proporcionando-lhes
assim uma vida pura, num meio puro, condições indispensáveis para a conquista do
céu.”40
Em outubro 1949, sob a orientação de Frei Saulo Tavares Cabral foi novamente
organizada a Festa do Cristo Rei, no dia 30 de outubro, constando da programação do evento:
missa solene, tarde de formação para a juventude e renovação de compromissos dos membros
da Ação Católica. A renovação era um ato anual de ligação dos membros, referendado pelo
arcebispo, para que os trabalhos da Ação Católica tivessem um caráter oficial.
A obediência à hierarquia e às normatizações estabelecidas pela Santa Sé se faziam
numa prática cotidiana externada em momentos de cerimonial jubiloso, frente a aqueles que
Discurso preferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na
Festa do Cristo Rei 31.10.1948.
40
148
representavam a Igreja. O respeito deveria ser demonstrado na relação direta com o vigário ou
com os frades, que na paróquia ministravam os sacramentos e faziam pregações, até atingir
numa instância maior, a figura infalível do papa, resguardado em sua soberania. A expressão
dessa realidade pode ser exemplificada, nas comemorações promovidas pelas mulheres da
Ação Católica, em duas festividades distintas. A homenagem pelos vinte e cinco anos da
presença franciscana na cidade e na comemoração das bodas de ouro de ordenação sacerdotal
de Pio XII. A primeira ocorreu em novembro de 1949 e teve um cunho de resgate histórico,
de agradecimento e de reconhecimento da figura do sacerdote religioso pela renúncia de sua
vida privada e por sua dedicação à vida coletiva. No discurso endereçado aos frades, em sua
maioria estrangeiros holandeses, podem ser destacados aspectos da relação desses com a
comunidade:
“De quanta importância se revestiu este quarto de século, em que aqui
desempenhastes vossa grande missão de condutores de almas. Por mais avançado
que fosse os cálculos dos benefícios que viríeis espalhar, os resultados ultrapassaram
as expectativas. [...] Ser sacerdote é arrebanhar as almas. Segundo um piedoso
escritor: “é ter a coragem da mais completa renúncia de tudo que a terra lhes podia
oferecer, é ter a força de ânimo singular, inspirada na mais exata compreensão da
vaidade do mundo e da realidade das coisas; é seguir a Jesus, unir-se a ele na vida,
no trabalho, no ideal e tornar-se pescador de homens, apóstolo de uma idéia divina
que revelada por Cristo, foi por ele propagada para renovar a terra. [...] Assim
deixastes a vossa pátria no velho mundo, berço das ciências e das artes, e
atravessastes os mares azuis, em demanda do Brasil. Fizestes dele a vossa pátria e da
nossa língua a vossa língua. Cheios de fé, ensinais sem desfalecimentos a palavra de
Deus, perpetuando a obra da redenção e renovando continuamente os povos na luz
da verdade e nos tesouros da graça. [...] Sois destarte, credores da nossa mais
profunda gratidão e da nossa amizade.”41
A comemoração dedicada a Pio XII contou com uma breve biografia contada em
discurso, ressaltando sua vocação natural para a vida religiosa. As passagens mais expressivas
do discurso são aquelas referentes à sagração do pontífice e sua atuação, descritas com
eloquência pela liguista oradora:
“... Finalizadas as cerimônias dentro da Basílica, o santo padre surge no balcão das
bênçãos. Na praça as tropas apresentaram armas. O hino do Vaticano foi executado
Discurso de Dª Benigna Moreira de Souza na comemoração de 25 anos da Presença Franciscana em
Divinópolis – 20.11.1949.
41
149
pela banda pontifícia. A multidão ajoelhou-se profundamente concentrada e o
Cardeal Cacia Dominioni, coroou o papa, ao mesmo tempo que ia pronunciando, em
latim a seguinte fórmula: “imponho-vos a tiara ornada por três coroas. Sabei que
sois pai de príncipes e reis e diretor do mundo e vigário de Nosso Senhor Jesus
Cristo, a quem unicamente se deve honrar a glorificação, pelos séculos dos séculos,
amem. Retumbaram as aclamações de alegria de todos os presentes, entre os quais se
contavam cinqüenta soberanos e príncipes de sangue real.” A bênção apostólica de
Pio XII desceu vagarosamente sobre a multidão que o aclamava.”42
Ao caracterizar o pontificado de Pio XII, foram enumeradas suas ações e prioridades,
destacando-se seu compromisso com a Ação Católica e sua simpatia em relação ao trabalho
evangélico dos franciscanos:
“... A Ação Católica recebe de seus lábios palavras de apreço e segurança. Dá
grande impulso à esta herança preciosa que lhe deixou Pio XI. Já em 1914, quando
núncio apostólico na Baviera foi admitido na Ordem Terceira Franciscana, ele tem
realmente o espírito franciscano e confia largamente na Ordem Franciscana como
dique para os tempos lamentáveis que atravessamos. Cita nos frei Mansueto as
palavras que pronunciou aos franciscanos em 1939: “Por vós franciscanos volta
novamente São Francisco a esta terra como anjo luminoso, que traz o sinal de Deus
vivo, marcado com os estigmas do crucificado, ardendo de amor de Deus e do
próximo, porque o espírito de São Francisco e sua perfeita forma e norma de vida
oferecem os remédios adequados para sanar os feridas sangrentas do nosso século”...
Cabe a nós cristãos fiéis, orar pelas intenções do Sumo Pontífice, que devem ser as
mesmas de Nosso Senhor. Pedro revive nos seus sucessores, regendo os pastores e
os rebanhos. Continua ensinando, corrigindo, ligando, desligando, dirigindo as
inteligências, encaminhando as almas e permanecendo o soberano da verdade.”43
Em situações especiais, as comemorações envolviam todas as entidades, mobilizavam
a coletividade e eram programadas na forma de evento cívico-religioso. Como exemplo, a
comemoração ocorrida em 10 de outubro de 1943, realizou passeata das associações,
repartições públicas, oficinas, fábricas etc., utilizando bandeiras, estandartes e emblemas,
culminando numa solenidade na Praça Benedito Valadares, em homenagem ao Papa Pio XII.
Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio, em
homenagem às Bodas de Ouro de ordenação sacerdotal do Papa Pio XII.
42
Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio, em
homenagem às Bodas de Ouro de ordenação sacerdotal do Papa Pio XII.
43
150
No final do ano de 1949, ficou estabelecido em reunião dirigida por Frei Orêncio, a
mudança do nome da Liga Feminina de Ação Católica para Senhoras da Ação Católica, com
renovação de vínculos na Junta Diocesana.
Após a realização da Semana de Estudos em 1943, foi criada também, em julho, a
Congregação das Mães Cristãs44, uma entidade mais voltada para o trabalho com as famílias.
Sua diretoria em 1944 estava assim constituída: Maria de Loudes Pimentel (presidente), Marta
de Souza (vice Presidente), Lanira Couto Nogueira (secretária), Maria Eugênia Belizário
Epifânio (tesoureira), Benigna Moereira de Souza (conselheira) e Mercês dos Santos
(Bibliotecária). A necessidade de sua criação foi assim justificada pelo jornal interno “A
Semana”:
“Por ser necessário, de necessidade urgente! Por ser o único remédio para defender a
família contra os erros do comodismo e neopaganismo do século XX, para amparar
as mães de família na sua grande responsabilidade que aumenta com a velocidade do
progresso atual, para orientar as educadoras na confusão caótica de teorias falsas,
para preservar os espíritos das propagandas detestáveis do neomaltusianismo e
divórcio, para preservar a felicidade íntima e sagrada do ambiente familiar, para
santificar o lar nestes tempos de indiferentismo e materialismo. É remédio único na
certeza, na convicção que a esposa e mãe que compreende o seu dever
integralmente, que sabe cumpri-lo com dedicação, abnegação e idealismo, que a
esposa exemplar e mãe modelo é norma e garantia de uma família cristã.”45
Na reunião desta associação, em 20 de agosto de 1944, o vigário Frei Metelo Greeve
explicou a finalidade do grupo como sendo o de atrair as mães divinopolitanas à Cristo,
ensinando-as a educar seus filhos, se dedicando ao amparo de famílias pobres e se
fundamentando cristãmente por meio de uma biblioteca especializada, onde poderiam ser
encontrados livros bons e educativos como o Manual das Mães Católicas. Os pontos
principais de seu programa46 foram:
1º Organizar as boas cristãs num movimento conjunto em defesa do lar cristão.
2º Santificação da Eucaristia.
44
Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de julho de 1943.
45
Jornal Interno A Semana – 18 a 25 de julho de 1943.
46
Jornal Interno A Semana – 18 à 25 de julho de 1943.
151
3º Conforto no cumprimento do seu dever de mãe, pela oração das sócias e a bênção
especial.
4º Dar orientação em geral na reunião mensal no terceiro domingo de tarde.
5º Promover conferências públicas sobre higiene, alimentação, feitas por médico ou
pessoas competentes.
6º Fazer caridade: dando assistência médica obstetrícia, ajudando no serviço
doméstico ou por auxílio maternal à mãe e filho indigente, apoiando a terminação e
manutenção da maternidade e na construção de creche.
Na reunião do dia 17 de fevereiro de 1945, o tema em pauta foi a indissolubilidade do
casamento e a importância de se manter o compromisso de noivado, alertando sobre sua
dissolução apenas em casos gravíssimos. Frei Carlos Schep que neste dia acompanhava os
trabalhos do grupo, rechaçou o divórcio, considerando-o a ruína da sociedade. Na mesma
reunião, os bailes de carnaval foram considerados pecaminosos, bem como as piscinas onde
se misturavam os sexos e a avenida foi apontada como local de pecados. Essa mentalidade
tomava conta das mulheres, que por vezes, dedicavam-se a encontros de hora santa coletiva
nos dias de carnaval. O clero encorajava essa prática e condenava o paganismo dos foliões:
“Os bons católicos, os integralmente católicos fogem das bacanais carnavalescas e se
recolhem nos templos aos pés do Santíssimo exposto...”47 No Jornal O Sino de São José, as
práticas carnavalescas foram também condenadas e os católicos foram estimulados a se
votarem para a oração:
“Quando, durante os três dias de misérias e de loucuras os nossos pobres irmãos
entregam-se cá fora às máximas orgias, procurando imitar os irracionais,
procuremos, no remanso do santuário, imitar os anjos, adorando a Deus três vezes
santo, consolando-o pelo abandono em que o deixam seus beneficiados, pedindo-lhe
perdão para as infidelidades e repetindo mais com o coração do que com os lábios,
as palavras admiráveis de Jesus crucificado: “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que
fazem.”48
“Adoração as 40 Horas”, prática que começou em Milão, no ano de 1527, sendo divulgada amplamente pelos
jesuítas desde 1553. Assumirá o aspecto de reparação pelos pecados cometidos sobretudo durante o Carnaval. In:
Matos, 199. p. 165.
47
48
“Desagravo”. In: O Sino de São José, Ano 10, nº 7 (10-2-1929) In: Matos,1990. p. 165.
152
Pequenas chamadas eram colocadas na imprensa, alertando os pais sobre os
procedimentos nos dias de folia, proibindo as filhas de tomarem parte em brinquedos
carnavalescos em que estivesse em perigo o pudor:“Saias demasiadamente curtas, decotes
exagerados, fantasias de meninas se vestirem de homens são coisas que a mãe católica deve,
em consciência proibir às suas filhas.”49
O carnaval era considerado um momento de ausência de normas, um ritual profano
responsável pelo desvio dos costumes cristãos:
“Três dias em que o mundo pode entregar-se inteiramente ao gozo dos prazeres, à
volúpia, saciar a sede de sensualismo, pois nestes três dias, os famintos de sensações
ardentes, de abraços vergonhosos, de liberdades sem limites, de danças selvagens, de
músicas excitantes, tudo alegria, tudo festa, tudo sensação...”50
Na imprensa da época, circulavam artigos em defesa dos bons costumes, como o
intitulado, “Pode-se nadar?”. Seu conteúdo questionava os espaços de banho coletivo
enquanto ambientes de lazer mas que eram locais fecundos para a libertinagem e ausência de
pudor:
“Perfeitamente, pode-se nadar. Mas... há natação e há natação, há piscinas e
piscinas, nadadores e nadadores, nadadoras e nadadoras...esporte e praia ... moços
sérios, moços atrevidos, moças dignas e puras, moças sem modéstia e sem
compostura, sem vergonha. [...] E principalmente – o nado leva muita gente para o
inferno... O nado e a praia como os vemos hoje em muitas cidades não são dignos de
uma moça de uma família que se preza.”51
O sacramento do matrimônio era a garantia da germinação sadia da família cristã,
centrada na moral católica. O casamento era considerado indissolúvel e tomado como um ato
sacramental que se sobrepunha à união civil, como ficou exposto no artigo, “Casamento e
Casamento”:
49
Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 97, 15-02-1931.
50
Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 97, 15-02-1931.
51
Jornal Interno A Semana – 13.01.1946.
153
“O matrimônio, base da sociedade doméstica, foi por Deus instituído no paraíso
terrestre e por N. S. Jesus Cristo elevado à dignidade de sacramento, e por isso
incumbe à Igreja, e só a ela, legislar sobre o mesmo e julgar da sua validade, estando
idênticas entre os católicos as idéias de contrato matrimonial e sacramento do
matrimônio. Logo se vê, que para os católicos, o único casamento válido é o
sacramento do matrimônio. [...] O contrato civil é uma simples formalidade que,
sem nada a acrescentar no valor do Sacramento do matrimônio, nem enfraquecer-lhe
o vínculo ou atingir-lhe a essência, vem apenas garantir os direitos temporais da
família já constituída, ou a constituir-se proximamente de acordo com a legislação
divina e eclesiástica.”52
Sacramentado o casamento e constituído o lar, era severamente condenada também a
prática dos cônjuges de evitarem filhos como estava normatizado num documento papal:
“Mas nenhuma razão, certamente por grave que seja, pode fazer que o que é
intrinsecamente contrário à natureza se torne conforme a natureza honesto. Por ser o
ato do matrimônio destinado pela própria natureza à geração de filhos, os que
fazendo-o, se aplicam deliberadamente a tirar-lhe sua força e eficácia, agem contra a
natureza; fazem uma causa vergonhosa e intrinsecamente desonesta. [...] Mesmo
com a mulher legítima, o ato do matrimônio se torna ilícito e vergonhoso, desde que
se evite a concepção do filho. [...] Consequentemente, como alguns desviando-se
manifestamente da doutrina cristã tal tem sido transmitida desde o princípio e sem
ter sofrido jamais alteração alguma, julgaram bom recentemente pregar de modo
retumbante sobre estas práticas outra doutrina, a Igreja Católica, pelo projeto de
Deus encarregada de ensinar e defender a integridade dos costumes.”53
A oposição do clero ao divórcio era firme, visto como um atentado contra a família
católica e contra a Pátria. Seguindo essa lógica, a Igreja não aceitava as manifestações em
favor de instituí-lo no Brasil. Os pronunciamentos da época seguiam basicamente essa visão:
“A oposição deve ser radical e sem nenhuma concessão porque o divórcio é antihumano, anti-social e amoral. Essa instituição (...) só se aclimata nos meios
degenerados, onde o pudor é sacrificado ás exibições mundanas e onde a decadência
dos costumes chegou ao auge. O divórcio é anti-humano, porque fere a dignidade do
homem, é anti-social porque atinge a estabilidade da família e amoral, porque dá
margem à pratica de todos os desregramentos que aviltam e deslustram as
sociedades. (...) Só os insensíveis, os desalmados, os revoltosos contra a luz apoiam
52
Jornal O Santuário de Santo Antônio – Ano 7, nº 6, outubro 1933, p. 3.
53
Jornal São Francisco Ano VIII, nº 101, 15-04-1931.
154
o divórcio. Ele não é remédio, é veneno, não é recurso, é desastre, não é garantia da
felicidade, é a fonte de todas as misérias.”54
Experiências constitucionais em países vizinhos como foram os casos do México e do
Uruguai, eram rechaçadas pelos grupos católicos, sempre apelando para a tradição cristã do
Brasil. Frei Rafael foi categórico em seu artigo, “Moralmente uma coisa escandalosa!” escrito
em 1946:
“É, meu amigo. Uma coisa escandalosa! Um caso policial. Só isto o que falta neste
Brasil, para completar a miséria no país, no Estado e na Família. Como outro
anúncio qualquer, O Correio da Manhã publica também este: O Divórcio, novo
casamento no México e no Uruguai. Dão-se amplas informações gratuitas. [...] Uma
nova vida, uma vida mais solta, mais à vontade, uma vida num ambiente onde são
desconhecidos. Aí, marido, esposo, estás livre. Podes levar, ou melhor, continuar sua
vida desenfreada. No Uruguai onde o divórcio é lei. [...] Atirar sua primeira mulher
num canto como se fosse um trapo imundo! Divórcio: Uruguai e México, onde os
queridos maridos poderão abrir um harém. Virar sultão, viver pior do que os animais
na mata virgem. [...] O Brasil é ainda cristão, e o povo não quer essa degradação,
não quer essa infâmia que reduz à zero a dignidade da mulher...”55
Os defensores da legalização do divórcio argumentavam ser necessário permitir o
rompimento daqueles matrimônios considerados prejudiciais aos cônjuges e sem eficiência
para a sociedade. Outros mais ousados para a época opinavam sobre o livre arbítrio e o direito
de os contratantes romperem seu compromisso no âmbito legal. Mas para a Igreja, de acordo
com a Encíclica Cast Connubi:
“O que Deus uniu, o homem não separa” (Math XIX). E se o homem
afrontosamente se atreve a fazer isso, e fica imutável o que abertamente cristo
confirmou dizendo: “Quem repudiar sua mulher para casar com outra, é adultero, e
quem desposar a repudiada por seu marido comete adultério (Luc. XVI, 18)” 56
Sucupira, Luís: Duas Atitudes. In: “O Horizonte”, Ano 10, nº 936(29-12-1932), p. 1, c. 2 (transcrito de “A
Imprensa”, Rio, 28-11-1932. In: Matos, 1990. p. 166-167.
54
55
Jornal Interno A Semana – 20.01.1946.
56
Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 110, 01.09.1931.
155
Em Divinópolis, defenderam o divórcio, os adeptos de uma nova constitucionalidade
que garantisse a liberdade de escolha do cidadão como foi o caso do Sr. José Fernandes,
severamente criticado pelo clero local através da imprensa:
“Os divorcistas tratam de reduzir a união matrimonial a um simples contrato
dissolúvel, ao amor livre, que é a destruição da família e dissolução da sociedade.
Discordamos e combatemos, portanto, energicamente o artigo de José Fernandes no
último número do “Divinópolis-Jornal”, que levado por estas correntes corrompidas
e corruptoras do sensualismo e materialismo moderno, defende o divórcio. Negamos
a José Fernandes toda autoridade de escrever sobre esta questão, pois lhe falta a
competência. [...] Pela sua argumentação sentimental, José Fernandes mostra não
estar a par desta questão social e não conhecer, nem de longe, a estrutura da
sociedade, da sua felicidade, bem estar e prosperidade. Não é proceder dum homem
sensato, menos ainda dum jornalista, cuja nobre missão é instruir o povo, escrever
um artigo sobre uma questão importante e de tão grande vulto sem sérios estudos e
preparo.”57
A Paróquia de Santo Antônio aplaudiu a notícia de que o presidente Getúlio Vargas
teria referendado o parecer do ministro da justiça, mandando arquivar a petição dos
advogados do Rio de Janeiro sobre o divórcio. Vários grupos católicos de Divinópolis
aplaudiram a iniciativa enviando telegramas ao governante:
Ao Exmo Sr. Getúlio Vargas
“Enviamos a V. Excia nossas sinceras felicitações pela aprovação do parecer referente
ao divórcio”.
Padres Franciscanos de Divinópolis
“Apresentamos a V. Excia calorosos aplausos de Cristãos e Brasileiros pela
aprovação do parecer contra o divórcio”.
“Felicitamos V. Excia. Pela belíssima defesa da família cristã e brasileira contra o
divórcio”.
Vigário – Divinópolis
Junta Paroquial da Ação Católica
Conselho Vicentino
Liga Católica
Congregação Mariana
57
Jornal Interno A Semana – 12.05.1946.
156
Mães Cristãs
Filhas de Maria
Ordem Terceira
Apostolado da Oração
Cruzada Eucarística
Corpos docente – discente Ginásio São Geraldo
Irmãs e alunas da Escola Normal
Professores Grupo Escolar
“Agradecemos V. excia a defesa moral da Família Brasileira contra o divórcio e
social pelo abono familiar”.
Círculo operário de Divinópolis
O clero local fez um apelo através da imprensa aos católicos comprometidos com a
causa da preservação da família: “Convidamos as pessoas de alta posição social, magistrados,
médicos, engenheiros, advogados, diretorias de fábricas, etc, a fazer o mesmo”.58
A cruzada em defesa da Família Cristã contemplava várias frentes, como a
preocupação com as leituras. Havia uma vigilância pela boa leitura e uma sinalização para a
valorização do teatro e cinema que expressassem a preservação da moral e dos bons costumes.
As produções consideradas levianas e corruptoras da moral eram mal vistas e desestimuladas.
A posição de Dom Silvério, arcebispo de Mariana, sobre o cinema e sua influência no
comportamento social, foram expostos no artigo, “Poderemos freqüentar o cinema?”, em que
o bispo reconheceu a engenhosidade humana em sua criação, fruto do avanço da ciência,
porém lamentou o seu mau uso para a perversão dos costumes, por transformar-se, segundo o
prelado, numa opção de lazer corruptora da segurança e da moral mantenedoras da ordem:
“Assim desviado dos fins providenciais, o cinema tornou-se geralmente o mestre e
incentivo do vício e do crime. Ali os homens corrompidos acham pasto para as
paixões vis e brutais, os inexperientes guias e incentivo para o mal, e os pobres
inocentes encontram o ensinamento do vício, a perda da virtude, o tirocínio para o
crime. Dele procedem os adultérios dos casados, as discórdias dos cônjuges, a
desarmonia das famílias a prostituição das donzelas, a corrupção dos jovens, os
roubos, as rixas, os suicídios, como estão nas folhas diárias de periódicos publicados
sem falhar no que escapa à sua sagaz perscrutação. [...] Então não iremos mais
58
Jornal Interno A Semana – 21 a 28 de novembro de 1943.
157
nunca ao cinema? Si houve algum correto, que respeite sempre nossa fé e a moral
cristã, claro está que não é nossa intenção condená-lo, antes dos perigos contra a
higiene e moral, que nascem das condições locais de boa vontade o
recomendamos.”59
No primeiro Congresso Nacional da Ação Católica de 1946 foi abordada a questão do
cinema, considerado quando não devidamente selecionado, um dos maiores óbices à
mentalidade sadia e à formação apostólica, sugerindo:
“A todos os sacerdotes, portanto, e em particular aos Párocos e Diretores de
Colégios, recomendamos que, articulados com o Departamento de Cinema e Teatro,
Concorram, não apenas para neutralizar o mau cinema, mas outrossim para fomentar
o bom cinema.”60
Imbuídos deste clima de aplicação de limites para a vida social, numa resistência à
onda de inovações provocadas pela modernização dos costumes veiculadas através do cinema,
moda, revistas e rádio, os franciscanos criaram a Casa de Santo Antônio em 1938, espaço
usado para apresentações de teatro e como sala de cinema. Os padres divulgavam a nova casa
de divertimentos solicitando o apoio da comunidade para que prestigiassem suas atividades
artísticas, como as peças apresentadas pelo Conjunto Teatral Mariano:
“Pedimos o apoio e o auxílio dos verdadeiros católicos. Começamos a exibir ótimos
filmes dos nossos contratos das produções 42-43 da universal e R. K. O . O
Conjunto está aperfeiçoando a peça que levará em cena nestes dias: Remorso Vivo.
Estamos estudando melhoramentos na representação do drama de Jerusalém ao
Calvário. Porém, freqüência às sessões diminutas, auxílio que entrou quase nulo,
apoio recebido... só para inglês ver...” 61
A intenção do clero local, ao iniciar projeções de filmes na Casa de Santo Antônio, era
de concorrer com o cinema livre da cidade que exibia material considerado pernicioso, como
foi comentado várias vezes pelo jornal da paróquia na época:
59
Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 107, 15-07-1931.
60
Dale, 1985. p.69.
61
Jornal Interno A Semana – 5 a12 de março de 1944.
158
“Antigamente havia um só cinema na cidade. Pessoalmente nós não somos a favor
de filmes, pois freqüentar sempre excita demais a fantasia, irrita o sistema nervoso, e
não deixa de prejudicar a saúde. Mas o povo do século XX quer “fita”. Há também o
lado instrutivo. Muitas vezes porém, o filme representa cenas e enredos
condenáveis, contra a moral. Neste caso a Igreja, como educadora, guarda da
moralidade deve levantar a sua voz e proibir. Mas nós não queremos só trabalhar
negativamente, só proibindo e negando. A nossa intenção é substituir o mal pelo
bem ou ao menos pelo tolerável. Nós queremos dar ao povo um divertimento ...”62
Havia uma preocupação em oferecer uma diversão condizente com a moral católica,
por isso, o material a ser exibido passava por uma seleção, ocorrendo inclusive, cortes nas
fitas, adequando-as às características do público:
“O cinema de Santo Antônio, como obra paroquial, devia merecer as atenções e as
simpatias do povo. Devia merecer o apoio moral de todos quantos conhecem sua
obra e a sua finalidade, devia defendê-la contra as críticas maldosas e infundadas. Os
vigários Frei Braz, Frei Gilberto, Frei Rodrigo e Frei Metelo abriram e exploraram
este cinema para fornecer ao povo um divertimento honesto, tão necessário aqui na
cidade. Todos os filmes passados em nosso prédio foram censurados pela Ação
Católica do Rio de Janeiro. E ainda escrupulosos e não satisfeitos, desta censura,
tendo em vista sempre um divertimento asseguradamente sadio e moral, vimo-nos
muitas vezes obrigados a cortar filmes menos convenientes para o nosso povo do
interior”63
O Cinema passou por uma reforma e sua reinauguração estava prevista para acontecer
em 1946, junto ao lançamento do Jornal “A Semana”, que deixaria de ser um folheto de
circulação interna. Num artigo do jornal, ainda em seu formato simples, a sociedade
divinopolitana foi informada sobre as condições do novo cinema:
“... As cadeiras, todas novinhas, já estão à espera dos nossos fregueses, que no dia da
estréia verão na tela o grandioso filme “Sinal da Cruz”, superprodução da Paramont.
Fachada majestosa, entrada estética e moderna, um hall chique e convidativo, salão
amplo, com iluminação elétrica que nem o Quitandinha no Rio. O movimento
cinematográfico entrará numa fase completamente nova. Programação que causa
inveja aos maiores e mais luxuosos cinemas da capital, e veremos na tela filmes que
ainda são desconhecidos em Belo Horizonte e nos maiores centros. Além da referida
programação de filmes, os esforçados amadores do C. T. M. estão ensaiando
diversas peças teatrais, entre as quais destacamos “Aventuras de um rapaz feio”,
“Iaiá Boneca” e “Sinhá moça chorou”. Quatro lindos bailados estão sendo ensaiados
62
Jornal Interno A Semana – 5 a 12 de março de 1944.
63
Jornal Interno A Semana – 03.03.1946.
159
caprichosamente pelas alunas da Escola Normal. Resumindo tudo isto, estamos
certos de que a estréia do novo Cine Santo Antônio, com sua bela programação de
filmes coadjuvada pelos amadores de Moacir Cabral, outrossim pelas bailarinas da
professora Irene Silva e da muito esforçada Dª Joaninha, será um grande sucesso
...”.64
A história do cinema em Divinópolis inicia-se com o uso de um equipamento portátil a
partir de 1906, movido à gás de carboreto, com imagens no geral estáticas que passava a Vida
de Cristo e vistas de cidades.65 Posteriormente, transformou-se em opção de lazer quando em
1914, foi criado na Praça do Rosário, o Cinema do Viana. Foi uma grande atração numa
época em que a população contava como evento social apenas com as festas religiosas. A
exibição de determinados filmes, teria inclusive, provocado a reação da Igreja como foi o caso
da projeção do Corcunda de Notre Dame (Corgozinho, 1999:107). O cinema livre, que
estimulou os franciscanos a tomarem a iniciativa de criar uma opção alternativa que atendesse
aos propósitos de propagação do bom cinema, foi o Cine Alhambra, inugurado em 1938, de
propriedade dos libaneses Rachid Souki e Américo Souki.
As restrições ao “mau cinema” ocorriam por serem considerados também modelos
importados, fomentadores de comportamentos estrangeiros, inadequados a nossa realidade
predominantemente católica. Ilustra essa visão, os comentários feitos por Frei Rafael ao filme
“E o vento levou”, sucesso de bilheteria nos anos quarenta em todo o mundo, também
amplamente prestigiado pelos divinopolitanos:
“Apareceu então, domingo passado, inesperadamente, tão inesperado que nem deu
tempo para fazer propaganda, o tal filme que o vento levou dos estados Unidos,
longe, muito longe, e o trouxe para estas zonas tranqüilas e meigas da Terra de Santa
Cruz. [...] Vítimas nas grandes metrópoles, vítimas nas cidades, vítimas até nas
cidadezinhas pacatas e tranqüilas, onde o povo no cumprimento fiel dos seus
deveres, teme a Deus e se viu surpreendido pelo vendaval e forte tempestade. [...]
Despertaram paixões e vícios. O silêncio sepulcral do momento, a efervescência, a
excitação, o ambiente, a realidade na tela – tudo isto completou a sua obra
destruidora nas almas inocentes e desacauteladas [...] E o vento deixou? – Muito
dinheiro e 4 sessões para os proprietários. Parabéns Alhambra, mais uma vez ...”66
64
Jornal Interno A Semana – 14.07.1946.
65
Azevedo e Azevedo, 1988. p. 90.
66
Jornal Interno A Semana – 19.05.1946.
160
Os investimentos no cinema foram infrutíferos. Um conjunto de fatores levaram os
padres a optarem por sua desativação, seguida da venda do equipamento. Contribuíram para
esse resultado o volume de despesas com aluguel de fitas, prejudicando outras obras
paroquiais, a concorrência de outras casas apresentando filmes mais atrativos ao público, e
principalmente, o fato de mesmo passando pela censura prévia, exibiam-se alguns filmes
ainda considerados inconvenientes, o que dava motivos para situações de constrangimento e
aguçava a crítica de grupos opositores.67
A leitura também era motivo de preocupação e deveria ser alvo de cuidado redobrado,
em função da exposição descontrolada nas bancas e livrarias de obras consideradas
perniciosas, aguçando a imaginação e o interesse dos leitores por títulos atrativos estampados
como um verdadeiro convite à fantasia. O livro representava um perigo mais sutil e ao mesmo
tempo eficaz, por ser desfrutado no espaço da individualidade com possibilidades de
interpretação diversas. Trazia consigo a condição de poder emancipar o pensamento e
irromper os ânimos bem comportados numa ação renovada. As obras, muitas vezes,
estimulavam o lado revolucionário adormecido do leitor, subsidiando o questionamento, a
imaginação e a criatividade, fecundando pela apropriação do conhecimento, a construção de
uma nova realidade.
Para a Igreja o combate à má leitura representava o enfrentamento do inimigo,
travestido em seu discurso bem formulado e construído a partir de teorias, tratados e
formulações doutrinárias, num jogo de palavras, conceitos e proposições eficazes no seu
poder de persuasão ao transmitir outras visões de mundo. Para o pensamento católico era a
difícil convivência com a alteridade, com a aceitação de outras interpretações da realidade que
não passassem pela lente do sagrado. Para a Igreja havia uma necessidade de se fazer eficiente
na guerra dos discursos e teorizações e na veiculação de símbolos, capazes de suplantar as
novas ideologias trazidas pelos intelectuais, pastores, militantes, sindicalistas e outros atores
que insistiam em anunciar um mundo fora dos limites do catolicismo oficial.
No artigo, “Matadouro de almas e consciências”, publicado no jornal “A Semana”,
Frei Rafael convocou os católicos a repudiarem as más leituras:
67
Revista de Santa Cruz, Ano XII, outubro de 1947, p.151.
161
“Estudantes e professores do ensino primário e secundário e do curso superior lêem
com a maior naturalidade e desembaraço livros, revistas e romances, estudam sem
base moral e filosófica as obras de kant, Descartes, Comte e outros, e depois
analisando as obras, dizem com ar de entendidos: É uma obra notável é um livro
colossal. Além do mais, considera-se retrógrado, atrasado, inculto e retrógrado
aquele que ainda não leu os últimos romances: Por quem os sinos dobram, e O vento
levou, etc. E as livrarias ostentam nas vitrines os livros pornográficos, as revistas
mais imundas, os romances mais indecentes, sem censura e sem fiscalização. Nessas
livrarias entram milhares de pessoas de ambos os sexos, de qualquer idade, de todas
as camadas da sociedade.
Ai encontram-se a Bíblia Sagrada fraternalmente unida com a Maçonaria. Ai
abraçam o espiritismo de Alan kardec com a Vida de Jesus. Ai associam-se a causa
comum, o comunismo com a Ação Católica. Ai, nesse campo de concentração
literária e pornográfica beijam-se a democracia e o totalitarismo.”68
Os investimentos no reforço dos dogmas da Santa Igreja incluíam a introdução de
novas devoções, a fundamentação de aspectos doutrinários e a negação das manifestações e
veneração de imagens consideradas pagãs, como o estímulo ao culto do natal voltado para o
Menino Jesus e a Família Sagrada em oposição a figura importada do Papai Noel.
De acordo com Servus Moriae, Pio XII investiu numa Igreja Universal, promovendo a
reafirmação de devoções e símbolos, num reforço da identidade católica por meio da
instituição do Ano Santo, do Ano Mariano, da proclamação do dogma da Assunção de Maria,
associados à reforma da liturgia, ao reforço do apostolado leigo e à renovação bíblica
(Moriae, 1994:77-79).
Uma das devoções que recebeu especial atenção da hierarquia foi o culto ao Sagrado
Coração de Jesus, tendo sido apresentada como a primeira dentre todas as devoções para um
católico esclarecido, sempre associada à importância da Eucaristia. Essa prática foi divulgada
pelo Apostolado da Oração e pela Obra de Entronização, podendo ser percebida sua dimensão
na afirmativa: “O clero atribui a ela o verdadeiro ressurgimento religioso, já que o Sagrado
Coração salvou o Brasil do abismo da indiferença religiosa e o salvará também o cataclismo
da revolução social.”69
68
Jornal A Semana – 12.01.1947.
69
“Mês do Sagrado Coração” . In: “O Sino de São José” Ano 4, n. 23 (3-6-1923), 90. In: Matos, 1990. p. 337.
162
Os católicos eram estimulados a realizar a cerimônia de entronização nos lares, como
se encarregou de divulgar a imprensa da época:
“A entronização do Coração de Jesus nos lares é uma cerimônia lindíssima. Rei é
aquele que reina sobre o universo e conhece o coração humano em todas as suas
fraquezas e todos os seus segredos. Entronizá-lo, dar-lhe a soberania do lar, suplicarlhe a paz, o amor, a felicidade, a saúde, a graça, esse é o dever de todo bom
católico.”70
Nessa perspectiva, os sacramentos eram tomados como tema recorrente nas reuniões,
que normalmente ocorriam na sacristia, acompanhadas pelo vigário ou pelo assistente
eclesiástico. A prática sacramental e sua reflexão eram mediadas pelo clero, inquestionável na
sua sabedoria e missão evangélica como representante de Cristo presente na eucaristia. A
autoridade eclesiástica era vista pelas mulheres da Ação Católica como o esteio da vivência
cristã e como referência para a conduta da vida social.
No discurso proferido por Dª Benigna na solenidade de recepção ao Bispo Dom
Antônio dos Santos Cabral no Cine Teatro Santo Antônio em 1943, o respeito à hierarquia foi
abordado:
“O sacerdote quando traz o Evangelho, tem em suas mãos toda a moral, toda a
razão, toda a civilização, toda a política. Nada mais tem ele a fazer do que abrir, ler e
esparzir em redor de si o tesouro de luz e de perfeição, cuja chave a Providência
divina lhe entregou. Vem a velhice, os cabelos brancos, as mãos tremem ao levantar
o cálice, a voz não enche mais o santuário, mas ressoa ainda no coração do povo.”
Ainda no mesmo discurso, a profissão do sacerdote foi enaltecida como figura
intermediária acalentadora do espírito humano, em sua posição de transmitir a palavra
sagrada:
“Há um homem que as crianças costumam amar, venerar e temer e aos pés do qual
os cristãos vem expor seus sentimentos mais íntimos, suas lágrimas mais secretas.
Há um homem que é o consolador por profissão, de todas as misérias da alma e do
corpo, o intermediário indispensável entre a riqueza e a indigência. Há um homem
70
Jornal São Francisco – Ano VII, 15.05.1931.
163
enfim, que sabe tudo, que tem o direito de dizer tudo e cuja palavra cai do alto sobre
as inteligências e sobre os corações, com a autoridade de uma missão divina.”
Mesmo que escrito por uma líder ligüista, envolvida organicamente com o apostolado
leigo e pronunciado no calor de uma cerimônia de grande significado religioso para o público
católico local, em função da presença solene do bispo na localidade, as palavras de Dª
Benigna expressavam o sentimento coletivo daquele público diante da hierarquia.
No entrelaçamento entre a representação de Jesus pelo clero e pela Eucaristia, a
mesma ligüista referiu-se ao bispo como autoridade que estaria comprometida com obras
cristãs na arquidiocese, ressaltando que sua disposição e força para torná-las realidade
provinha da Hóstia Consagrada. Em sua fala enumerou as realizações importantes do prelado,
citando o Congresso Eucarístico Nacional de Belo Horizonte, seu empenho na realização do
Congresso Provincial da Ação Católica e a construção do que chamou de “Catedral
Cristocêntrica”, referindo-se à sede da Cúria Metropolitana erigida na capital mineira: “...a
adoração perpétua que instituístes, entronizando Jesus num templo gótico, de puras linhas
ogivais, para adoração incessante de milhares de almas que desagravam e consolam.”
Numa demonstração de fidelidade aos preceitos hierárquicos e de cumplicidade frente
ao discurso da ordem cívica defendido pela Igreja, a oradora concluiu: “Exmo Sr.Arcebispo, a
vossa presença neste momento contribui poderosamente para que a Ação Católica de
Divinópolis teça um pedaço de sua própria história, que muito influirá na formação do
caráter do civismo e da moral religiosa de seus filhos.”
A eucaristia como santíssimo sacramento tinha um valor simbólico para as mulheres
da Ação Católica. Era motivo de estudos nos encontros, reincidente em pronunciamentos e em
ensinamentos apostólicos, sustentáculo dos outros sacramentos:
“A presença real de Cristo na Eucaristia e a transubstanciação são duas grandes
verdades dogmáticas ensinadas pela Igreja que todos os católicos devem crer, sob
pena de heresia e anátema. [...] A Igreja coluna e fundamento da verdade, nunca
variou no ensino da instituição da eucaristia. [...] Os monumentos dos séculos
cristãos – catacumbas, igrejas, altares, esculturas ou pinturas, tudo se junta para
164
apregoar a mesma crença. O dogma eucarístico, não pode pois deixar dúvida alguma
no espírito dos que de boa fé estudam a religião cristã.”71
Os discursos de Dª Benigna expõem a visão dos membros da Ação Católica em
relação à hierarquia e o comprometimento com a ortodoxia católica, que de acordo com
alguns autores, representava a restauração tradicional e a reprodução de um modelo de
apostolado europeizante no Brasil. Partia-se do princípio de que somente pela restauração
cristã da sociedade seria possível superar os problemas enfrentados pela sociedade moderna:
“Os dias tenebrosos que atravessamos, enquanto a maldade humana atrofia e
esteriliza os espíritos e a guerra devasta as nações, vivamos para Cristo, vivamos
com Cristo, vivamos em Cristo, procurando salvar o preciosíssimo tesouro da fé
que, depois através dos tempos e das eras transmitiremos às novas gerações que
surgirão por certo do cataclismo.” 72
A disposição dos leigos para recristianizar a sociedade a partir do mandato instituído
pela Ação Católica, num trabalho supervisionado pela hierarquia, abriu várias frentes de
inserção desses militantes nos campos social e político. Era a maneira encontrada pela Igreja
para enfrentar as contradições inerentes ao processo de modernização. Nesse contexto de
afirmação do novo, as mulheres marcaram presença na defesa da família, muitas vezes
exagerando ao assumirem posições marcadamente conservadoras, assumindo realizações no
campo das obras sociais, sendo que em ambos os casos seguiam a rota traçada pelo clero.
Sabe-se porém, que a inserção dos leigos na realidade social desencadeou um processo
de politização dos militantes e a Ação Católica enquanto movimento, abriu um precedente de
formação e crítica principalmente através da juventude organizada. Frei Carlos Josaphat atuou
na Ação Católica no município de Mariana no final da década de 40, junto à Juventude
Estudantil Católica. Em seu depoimento afirmou:
Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio em
recepção solene feita `Dom Antônio dos Santos Cabral em 1943.
71
Discurso preferido por Benigna Fernandes, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na
Cerimônia pela visita de Dom Cabral – Cine Teatro Santo Antônio 1943.
72
165
“A minha linha era a Ação Católica mais de luta, uma Ação Católica de
reivindicação, de achar que haviam muitas injustiças no país, sem preocupação
propriamente de defender a Igreja, mas mais de promover uma ação política, social e
educativa.”73 (Frei Carlos Josaphat)
Essa experiência e outras, além do próprio trajeto do movimento no sentido da ação
política propriamente dita e sua autonomia frente à hierarquia, demonstram que havia uma
dupla vocação interna no movimento, no sentido da preservação e manutenção do espaço
institucional da Igreja na sociedade e de renovação frente ao compromisso com a justiça
social. Essa combinação dialética impulsionou a ação, fez amadurecer o compromisso social,
abriu campo para questionamentos e fomentou um espírito cívico, que certamente ganhou
forma a partir da presença feminina em seus quadros.
3.4 Apontar o bem e pô-lo em prática: a obra social das mulheres na paróquia
“Trabalhar para a manutenção de um lactário, É trabalhar para o engrandecimento
do Brasil, Pois ele é uma das armas pelas quais podemos lutar contra a mortalidade
infantil. E um dos índices de progresso de um país é a baixa mortalidade infantil.”74
Nas palavras da médica Drª. Eliza Franca, que foi uma das dirigentes voluntárias das
obras sociais de atendimento à infância e à maternidade em Divinópolis, encontra-se
materializada a ideologia que havia sido sustentada pelo projeto social e político varguista, e
que, por seu caráter inovador e pela adesão que havia conquistado, perduraria até o início dos
anos 60.
O controle dos trabalhadores e as concessões no âmbito dos direitos sociais inspiravase num modelo de Pátria construída por um povo saudável, baseada na idéia da ordem social
alcançável pela colaboração entre as classes. Como num corpo organicamente sadio, a
sociedade através de seus vários segmentos e grupos organizados deveria cumprir o seu papel
patriótico de colocar-se à serviço do bem comum. Esse projeto foi prontamente incorporado
pela Igreja, que num esforço institucional, colocou-se como principal parceira do Estado.
73
Entrevista realizada pela autora com Frei Carlos Josaphat no dia 02-11-2001.
166
Através de sua doutrina social era capaz de arregimentar as forças sociais voluntárias
compostas de elementos das classes mais favorecidas econômica e intelectualmente, em prol
da imensa gama de trabalhadores e de suas famílias, mantendo-os protegidos das privações
materiais e dos sucessivos apelos revolucionários.
Movidos por esta lógica de uma ação coletiva capaz de, pelas obras particularizadas e
amalgamadas numa extensa corrente nacional voltada para a harmonia social, os
trabalhadores foram orientados para se filiarem aos Círculos Operários. Ao mesmo tempo,
suas famílias passaram a receber assistência social. Getúlio Vargas reforçou a necessidade de
aplicação desse modelo a partir da adesão de empresários e voluntários, concepção defendida
em seu discurso pronunciado em 24 de dezembro de 1932:
“Onde termina a possibilidade imediata de meios fornecidos pelo Tesouro Público,
cumpre apelar para a iniciativa de particulares, principalmente dos que têm sob suas
ordens grupos de trabalhadores assalariados. É preciso que as crianças desses
colaboradores anônimos da prosperidade individual sejam devidamente amparadas
e, enquanto as mães ganham o pão nas fábricas e oficinas, os filhos pequeninos
estejam nas creches, recebendo, com os cuidados higiênicos necessários,
alimentação sadia e adequada, e os mais crescidos estudem nos jardins de infância e
escolas próprias da idade. Acredito que este desejo de melhorar a raça, de dar ao país
gente forte e sadia, encontre ampla compreensão em todos os setores das atividades
nacionais. E é por isso que concito os homens de sentimentos nobres, as mulheres –
sempre inclinadas aos gestos de bondade e heroísmo – os médicos, conscientes de
sua missão e, especialmente as pessoas de fortuna, o dever de aplicar em obra de
filantropia e assistência social parte do que lhes sobeja, se não desejam ser
apontados como egoístas, endurecidos e simples amealhadores de pecúnia. Alimento
a esperança, tenho mesmo a certeza de que, dentro em pouco, de todos os recantos
do nosso território se levantarão vozes de apoio e se organizarão esforços, formando
um movimento de edificante solidariedade capaz de assegurar completo êxito á
campanha destinada a amparar a maternidade e a oferecer à Pátria gerações
vigorosas.”75
Ao analisarmos as conquistas dos diretos e o exercício da cidadania no Brasil podemos
tomar como referência o estudo de T. H. Marshall76 sobre a evolução dos direitos que
compõem da cidadania, tomando como referência a democracia inglesa. Nesse país segundo
ele, a conquista de direitos se fez obedecendo a uma seqüência de conquistas. Primeiro foram
74
Elisa Franca - médica e diretora do Lactário Olinto de Oliveira. In: Jornal A Semana 11.02.1951.
A nova política do Brasil : no limiar de uma nova era, vol. 7, p. 158. In: Jornal Interno A Semana – 3 a 10 de
outubro 1943.
75
76
T. H. Marshall. Cidadania, classe social e status.Editora Azhar, 1967.
167
os civis relacionados à liberdade e igualdade legal, em seguida foram conquistados os direitos
políticos e a partir deles, foi possível consolidar os direitos sociais. No Brasil a ordem foi
diferente. Os direitos civis e políticos apareceram nas constituições como uma imitação da
tendência liberal implantada em outros países, garantidos sem a participação direta da
sociedade civil. Já os diretos sociais foram concedidos para minimizar o foço social e, ao
mesmo tempo, controlar e disciplinar o apelo das massas (Carvalho, 1998:279-281).
Historicamente, a Igreja compactuou com esse processo, sempre optando pelas
alternativas conciliadoras capazes de garantir o enfrentamento da questão social sem perder
de vista a estabilidade social.
Na Carta Encíclica de Pio X aos Bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação
Católica, o pontífice reforçou sua tese do corpo organicamente uno, expressão simbólica de
uma Igreja composta por Cristo como a cabeça, tendo como membros os fiéis coesos em
torno da causa restauradora e do enfrentamento da questão social. A Ação Católica daria o
tom da marcha em busca da realização do ideal de instauração de uma ordem social cristã.
No afã de assumir uma Ação Popular77, a Igreja a partir de Leão XIII traçou as
diretrizes da ação social católica frente aos problemas advindos com a industrialização.
Denotavam a perversidade das regras capitalistas, e, no seu bojo, paradoxalmente faziam
emergir de suas contradições os fundamentos teóricos e práticos da solução revolucionária
apontada pelo socialismo e pelo comunismo. Ambos, tanto a superexploração capitalista
liberal, como o revolucionarismo comunista, eram considerados danosos para os princípios de
justiça social apregoados pela Igreja ainda no final do século XIX, e que ganharam substância
pela instalação oficial da Ação Católica em 1925.
A ação social católica apresentou-se em duas vertentes como foi tratado por Lustosa
em sua abordagem sobre o reformismo social católico. Teriam se destacado segundo ele, a
continuidade do tradicional assistencialismo e a preocupação com a reforma social
propriamente dita. A hierarquia procurou conciliar a linha rotineira da atividade caritativa
com uma proposta de promoção humana voltadas para uma ordem social capaz de alcançar a
Na Carta Encíclica de Pio XI aos bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação Católica, o papa usa esta
expressão, explicando o posicionamento da Igreja frente à questão social. Considera que sua solução passa pela
união popular, unindo todos os católicos de classes sociais diferentes, em especial a numerosa multidão do povo,
integrados em torno de um centro comum de doutrina, propaganda e organização social. Documentos
Pontifícios, Petrópolis: Vozes, 1959 p. 12.
77
168
justiça social. As correntes em confronto, de 1945 à 1964, foram a dos católicos
neocapitalistas, representada por um número expressivo de adeptos. Defendia ações paliativas
capazes de minimizar situações de carência e exploração com a adesão dos patrões. Uma
outra proposta acreditava na necessidade de reestruturação social e econômica, ganhando
simpatizantes nos meios mais lúcidos e críticos da Igreja. E finalmente, o grupo dos católicos
revolucionários, mais radicais, propunham uma reforma estrutural da sociedade (Lustosa,
1991:1145-149).
O pensamento católico sobre a questão social no início partiu do pressuposto de que a
desigualdade estava em conformidade com o ethos social, portanto era parte de sua
constituição orgânica. Segundo os preceitos católicos no campo assistencial caritativo, caberia
aos segmentos privilegiados agirem dentro do espírito cristão de doação, praticando a
caridade para com a parcela maioritária da sociedade submetida à condições de carência
material. Mas para o bom cristão, engajado no movimento pastoral da Ação Católica, a boa
obra teria como essência o atendimento das necessidades espirituais do pobre, devendo este
ser munido, portanto, das condições mínimas de sobrevivência nos campos temporal e
espiritual, sempre numa perspectiva caritativa de promover a assistência, conscientes da
permanência da desigualdade característica inata das sociedades através dos tempos.
Por meio da Encíclica Quod Apostolici Mumeris, Pio X justificou as diferenças sociais
com as afirmações:
“A sociedade humana tal qual Deus a estabeleceu, formada de elementos desiguais,
como desiguais são os membros do corpo humano; torná-los todos iguais é
impossível, resultaria disso a própria destruição da sociedade humana. [...] Disto
resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver na sociedade
príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres
e plebeus, os quais todos unidos por um laço comum de amor, se ajudam
mutuamente para alcançarem o seu fim último no céu e o seu bem estar moral e
material na terra.”78
A doutrina social da Igreja, partindo dessas premissas, acreditava numa ordem natural
da desigualdade inquestionável. Entretanto, enxergava a necessidade de uma obra, no sentido
Pio X, Sobre os fundamentos da Ação Católica. Documentos Pontifícios de 18-12-1903. II termo propósito, III
Edição. Petrópolis: Vozes, 1959.
78
169
da intervenção social propriamente dita, em função do contexto sócio-econômico e político do
mundo capitalista a partir dos anos 20.
Ao estimular o trabalho social cristão, a hierarquia eclesiástica acreditava estar
seguindo os paços lançados por Leão XIII, que na Rerum Novarum, defendia a caridade: “os
ricos e os que possuem têm obrigação de caridade de socorrer os pobres e indigentes,
segundo os preceitos do evangelho.” Mas havia também uma crença de que ao minimizar as
carências dos despossuídos, seria possível desenvolver um trabalho pastoral de catequese,
dando aos pobres uma formação cristã dentro dos princípios da ética e da moral. As
diferenças seriam administradas e evitaria, desta forma, a vulnerabilidade dos mais carentes
ao apelo dos socialistas e comunistas em prol da transformação radical da sociedade, ao
proporem a supressão do capitalismo.
A mudança de concepção no sentido de uma ação social, denotando um avanço na
consciência crítica de grupos da Igreja comprometidos com um engajamento mais sistemático
voltado para uma reforma social, foi sendo gestada no próprio processo de intervenção,
acompanhando as transformações conjunturais experimentadas no mundo após 1945 e no país
nas décadas de 50 e 60.
No campo da renovação social cristã, desempenharam posição importante intelectuais
e universitários, e especificamente na área da assistência social, destacaram-se as mulheres,
principalmente aquelas de classe média, com boa formação educacional. Eram normalmente
professoras ou normalistas originárias de famílias católicas praticantes. Na área da assistência
social, houve intensa mobilização, particularmente de mulheres, pelo atendimento da infância
e da maternidade, na minimização da carência e no atendimento de saúde.
Foram lançadas as bases do trabalho social pela oficialização do Plano Nacional de
Ação Católica em consonância com os Estatutos da Ação Católica Brasileira, apoiados numa
organização técnico-administrativa representada pelos Departamentos Diocesanos de Ação
Social, atuantes de acordo com o Departamento Nacional sediado no Rio de Janeiro (Dale,
1985).
A proposta de reforma social cristã assumida pela Ação Católica buscava o alcance de
um equilíbrio social pela reestruturação da sociedade a partir da colaboração: “... que nossa
sociedade seja reestruturada em bases que possibilitem ao homem alcançar, pelos seus
esforços, e os da comunidade solidária, um grau de bem estar material e espiritual que
estabilize e dê tranqüilidade às famílias e aos indivíduos.” A idéia de mobilização, de uma
170
opinião pública sensível à causa, mostra que princípios da ação social propostos não se
prendiam aos procedimentos governamentais: “... é preciso convencer homens e mulheres de
sua capacidade humana para resolver os problemas individuais e sociais que, segundo um
critério falso se julga que só os governos podem resolver”. Nessa perspectiva, acreditava-se
que junto da ação social estava a ação política, no sentido da escolha de candidatos capazes de
garantir em lei, os regulamentos e medidas capazes de consolidar tal reforma. Nesse caso teve
grande importância a Liga Eleitoral Católica atuante nos anos 40.79
O artigo publicado no jornal “A Semana”, “Urgente Reforma Social Cristã”80,
informou que toda a estrutura do trabalho social era apoiada na Comissão Episcopal, da qual
participava ativamente o arcebispo de Belo Horizonte Dom Antônio dos Santos Cabral. No
artigo foram apontadas as alternativas para o enfrentamento dos problemas relacionados à
maternidade e infância:
“Tenha-se em vista, antes de tudo, o cuidado com a infância e a maternidade. É
preciso não esquecer que a mortalidade infantil é espantosa no nosso país, sobretudo
nos meios desamparados, onde, aliás, o índice de natalidade é o mais alto. Como
medida prática, neste setor, se criem, quanto possível, postos de puericultura nas
zonas urbanas e rurais, maternidades, ainda que de tipo modesto, conforme o meio,
sempre de acordo com exigências mínimas técnico científicas. Neste terreno é de
grande conveniência um entendimento com o Departamento Nacional da Criança e
com a Legião Brasileira de Assistência que, na fase atual, cuida precisamente, dos
problemas da infância e maternidade.”81
A idéia de reforma social defendida pela Igreja relacionava-se com a minimização dos
excessos do sistema capitalista liberal, mas principalmente, apresentava-se como necessária
em face aos avanços da infiltração comunista. Era uma reforma voltada para a organização
dos quadros sociais, priorizando a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Segundo
a Igreja, deveria começar pela consciência moral, pois sem uma reforma dos costumes, não
seria possível promover uma reforma social (Lustosa, 1991:120).
As linhas mestras do plano social católico convergiam para a idéia de recuperação
total da família brasileira, no sentido de um sólido equilíbrio de bem estar material e
79
Conclusões e moções do Primeiro Congresso Nacional de Ação Católica de 1946 (Dale, 1985. p. 80-81).
80
Jornal A Semana – 27.10.46.
81
Jornal A Semana – 06.10.1946.
171
espiritual. A assistência social atenderia as necessidades urgentes de saúde, educação,
alimentação moradia e higiene. Dentre as prioridades, constavam a infância, a maternidade e
o amparo ao menor. Como medida prática neste setor, a orientação era a de criação de postos
de puericultura nas zonas urbanas e rurais, sugerindo um trabalho em parceria com o
Departamento Nacional da Criança e com a Legião Brasileira de Assistência. O atendimento
das famílias desamparadas, normalmente auxiliadas por entidades católicas mais antigas como
as Conferências Vicentinas, deveria ser alvo do apoio sistemático de membros da Ação
Católica, numa perspectiva do amparo material associado ao compromisso pastoral (Dale,
1982:75-76).
Em Divinópolis, o trabalho de assistência social na perspectiva renovada da Ação
Católica foi assumido pelas senhoras participantes da Liga Feminina Católica. Esta entidade
tomou a frente do trabalho caritativo de amparo às famílias necessitadas através de campanhas
de ajuda voluntária e também pela criação uma estrutura institucionalizada de assistência.
Teve papel de destaque na administração desse processo, a professora da rede pública
estadual e membro da Liga Feminina Católica, Dª Benigna Moreira de Souza. Segundo
informações dessa ligüista, na cidade havia funcionado um lactário ligado ao Hospital Nossa
Senhora Aparecida. O grupo de mulheres ligüistas mobilizou-se para reativá-lo,
transformando-o num Posto de Puericultura. A iniciativa teria partido de Frei Saulo Tavares
Cabral, na época assistente eclesiástico da Ação Católica.
Num primeiro momento a iniciativa foi de reabertura do lactário com o nome de
Lactário Olinto de Oliveira, para tanto foi criada a Associação de Proteção à Infância em
1948, no que reza o artigo primeiro de seu Estatuto:
“A Associação de Proteção à Infância de Divinópolis, organizada sob os auspícios
do Prefeito Municipal e sob a orientação do Departamento Nacional da Criança, do
Ministério da Educação e Saúde, tem como objetivo desenvolver atividades em
favor da maternidade, da infância e da adolescência no município de Divinópolis,
estado de Minas Gerais.”
No suplemento do jornal “A Semana” de fevereiro de 1951, a médica e diretora do
Lactário Olinto de Oliveira, Drª Elisa Franca, fez um apelo aos divinopolitanos para que
independente do credo e do posicionamento político partidário, colaborassem para a
transformação do Lactário em Posto de Puericultura, o que demandaria um consultório pré-
172
natal de higiene infantil, acompanhado de uma cantina maternal e por um clube de mães. Em
seu apelo, a diretora rechaçou a atitude provinciana de membros da comunidade que estariam
depreciando a atuação da API - Associação de Proteção à Infância, envolvendo-a em
desavenças partidárias. Pessoas que segundo ela, estariam colocando o partidarismo político
acima da caridade.
No Lactário, cerca de 100 crianças eram atendidas por dia, sendo pesadas, alimentadas
com mamadeiras e as mães eram orientadas sobre cuidados com alimentação e higiene. As
crianças que apresentassem problemas de saúde eram encaminhadas para atendimento médico
no hospital.
As inscrições no Lactário estavam sujeitas à sindicância familiar. Ao ser matriculada,
a criança recebia roupas, talco, sabonete, pente e agasalho. A entidade procurava se inteirar
também da situação da família da criança; se os pais eram casados no civil e no religioso, se o
filho era batizado e registrado, a renda da família e aspectos da convivência do casal e filhos.82
A sede da Associação foi reformada e adaptada para o atendimento sob supervisão da
Legião Brasileira de Assistência, possuindo sala de espera, secretaria, gabinetes dentário, de
pré-natal e de higiene infantil; cantina maternal; sala de desinfecção das mamadeiras com
autoclave; sala de distribuição e uma cozinha espaçosa. Essa nova estrutura fez o Lactário
transformar-se num Posto de Puericultura como foi apresentado em discurso proferido por Dª
Benigna em solenidade do dia primeiro de junho de 1957, data comemorativa do aniversário
da cidade:
“As emoções deste momento trazem-nos à mente uma visão infinitamente
consoladora com a inauguração dos dois gabinetes dentário e pré-natal, transformase o Lactário em Posto completo de Puericultura, onde os nossos irmãos em Cristo,
virão beneficiar-se largamente com alimento, roupas, assistência médica, remédios e
assistência dentária. Aqui também receberão conforto espiritual, pois olhamos todas
as almas como Deus as olha, como Cristo olhou do alto da sua cruz. Até o pobre da
rua sente que a ternura de um olhar o sossega, que o nutre de simpatia e o sacia a
compaixão. [...] Nasce a criança e já encontra na API os prontos cuidados. [...] Velase pelo seu batismo e registro civil e sanam-se as deficiências dos casamentos
religiosos e civis, de seus pais. Pátria e religião harmonizam-se numa perfeita
sinfonia”.
82
Jornal A Semana – 10.02.57.
173
A entidade sobrevivia de auxílios federais, normalmente destinados à construção,
subvenção anual da prefeitura municipal, contribuições de sócios e ajuda da Legião Brasileira
de Assistência.83 O espaço foi adaptado para a instalação da Sopa de Santo Antônio,
inaugurada em setembro de 1956, sob responsabilidade dos membros da Ordem Terceira
Franciscana.
“Pudemos notar a presença do Exmo Sr. Prefeito, do Sr Alvimar Mourão, presidente
da Câmara, de diversos vereadores, do coletor, dos médicos Dr. Mágno Correia e
Dr. Sílvio Caldas, do professor Martin, de diversas diretoras de vários grupos etc.,
bem como de 30 a 40 outras pessoas. Além de Frei Mariano, estiveram presentes
também Revmo. Pe. Frei Isidro, vigário da paróquia de Santo Antônio e o Revmo.
Pe. Frei Mateus, comissário Provincial da ordem Terceira Franciscana. O jornal
Semana se fez representar pelo clérigo estudante Frei Fidelis. Nada menos de oitenta
e cinco pobres estavam ali assistindo à inauguração e já sentados à mesa para a
primeira sopa. [...] Havia ali, pobrezinhos de todas as idades, de vários bairros de
cidade, inclusive um nonagenário. [...] Durante a sopa reinou intensa satisfação, e
após tomarem sua sopa, os pobres partiram alegres e profundamente gratos. E
voltarão todos os dias, achando sempre a mesa posta pela caridade dos bons
divinopolitanos!”84
Na Associação de Proteção à Infância, funcionava também o “Salão de Costura Frei
Hilário”, onde eram confeccionadas roupas para as crianças e pessoas carentes do Lactário.
Era também usado para a distribuição de roupas nos períodos de inverno e de natal.
A descrição feita por Dª Benigna sobre o funcionamento de um “Natal dos Pobres”,
ocorrido em 1950 tece detalhes de um dia de maratona das mulheres narrado como num
diário:
“Como presidente das senhoras da Ação católica, recebi um recado do Vigário que
desejava me falar. Subi vagarosamente a rua São Paulo, pensando e já prevendo o
motivo.
_ Dª. Benigna, vamos começar agora, o Natal vem aí, nossos pobres contam
conosco, peço-lhe movimentar senhoras e moças; que elas tomem conta da cidade e
façam chegar a todos os corações o nosso apelo em benefício dos desprotegidos.
_ Sim senhor. Hoje mesmo tomarei as providências. Acho que toda a cidade já
aguarda nosso pedido.
Foi uma correria à casa das senhoras, uma romaria agradável pelas casas das amigas.
O povo cooperava generosamente, via Jesus realmente no pobre. [...] As carroças,
83
Jornal Diário do Oeste 09.12.1956.
84
Jornal A Semana – 23.09.56.
174
depois, chegavam carregadas ao convento. Uma sala franqueada ao povo, tornava-se
um quartel general. Ali escalava-se todo o trabalho às diversas comissões. Havia
comissão que cortava os tecidos e que os empacotava e rotulava; também senhoras e
moças que faziam novas fichas para serem entregues aos diversos indigentes.
Era tão bom, tão reconfortante!
No dia 24 vinha gente de todos os lados. As comissões a postos. O vigário chegou,
falou bondosamente à pequena multidão de indigentes. [...] Ao final despedimo-nos
umas das outras e rumamos para casa, para ainda cuidar do nosso Natal.”85
O “Natal dos Pobres” era um momento de grande mobilização em prol da caridade,
envolvendo toda a comunidade num ato coletivo de piedade administrado pelas sócias da
Ação Católica. Todos os anos, o Jornal “A Semana” expunha o balanço da mobilização e
fazia os agradecimentos aos cidadãos divinopolitanos:
“Só quem teve a felicidade de ver de perto a distribuição das lembranças de Natal
aos pobres, sentiu a grandeza do coração do povo desta cidade, o gesto nobre e
generoso daqueles que colaboraram para este fim, oferecendo auxílio mais que
generoso! O povo apoiou plenamente o movimento da Ação Católica, procurando
proporcionar aos mais desprotegidos, uma alegria bem legítima na Santa Festa do
Natal, data tão cara a todos os corações ...”86
A Ação Católica, através da Liga Feminina e a atuação da Associação de Proteção à
Infância, desempenharam juntas um trabalho social caritativo e pastoral. Movidos pela idéia
de que havia uma carência entre os humildes de uma boa formação moral cristã e de
ensinamentos sobre o evangelho. Na afirmativa de Dª Benigna: “o povo não tinha estudo, a
Igreja preenchia essa lacuna ...87
No próprio espaço da API eram dadas palestras de instrução religiosa e eram feitas
exposições sobre saúde e higiene. Era importante definir com clareza o espaço religioso
ocupado pela entidade, pois tratava-se de uma entidade beneficente católica, que, portanto,
deveria cumprir o seu papel evangelizador junto aos despossuídos, seguindo as orientações
definidas pelas instâncias superiores da Ação Católica Nacional. Ação social e formação
religiosa aconteciam simultâneamente:
85
Natal dos Pobres em Divinópolis – anotações de Dª Benigna Moreira de Souza.
86
Jornal Interno A Semana – 31 de dezembro de 1944 a 7 de janeiro de 1945.
87
Entrevista realizada pela autora com Dª Benigna Moreira de Souza no dia 25-05-01.
175
“Periodicamente, membros da diretoria, médicos e dentistas fazem palestras simples
e bem elucidativas para as mães e crianças maiores. [...] As festas da Igreja são
sempre lembradas e os múltiplos e insubstituíveis deveres de uma mãe ressaltados e
estimulados em pequenas doses de conhecimentos práticos. O catecismo é
ministrado as quintas feiras no mesmo horário.”88
Havia uma preocupação em difundir este trabalho social, através da imprensa e de
cerimonias
envolvendo
autoridades
municipais, principalmente nos momentos de
inauguração, sempre prestigiado por figuras de peso da comunidade preocupadas em
demarcar seu espaço político, em parceria com as autoridades eclesiásticas. Os meios de
comunicação cumpriam portanto, um papel no campo social como divulgadores das obras
sociais, buscando dessa forma, adesões e ao mesmo tempo, transmitindo o discurso reformista
católico.
No caso de Divinópolis, estavam articulados a ação institucional da Igreja, responsável
pela mobilização dos trabalhadores através do Círculo Operário, basicamente assumido pela
parcela masculina dos leigos militantes, com a força da ação social caritativa e promocional,
encabeçada pelas mulheres. Eram ambos alicerçados na missão voltada para a formação
evangélica, para a responsabilidade social e para a obediência à hierarquia. Essa rede, apoiada
ideologicamente no movimento de Ação Católica, sustentava sua unidade na manutenção de
um ideário recristianizador, incorporado coletivamente, a partir de sua disseminação metódica
em todos os campos da vida social.
88
Jornal A Semana – 25.06.61.
C A P Í T U L O IV
O jornal vai ao encontro de todos moldando pensamentos e opiniões
A Igreja levou um tempo para reconhecer os valores positivos dos meios de
comunicação, criando restrições através de documentos pontifícios e fazendo ponderações
sobre o seu uso. As mensagens veiculadas pela imprensa, cinema, rádio e mais tarde, pela
televisão, eram normalmente consideradas prejudiciais à moral e à boa conduta dos cidadãos.
Ao perceber a inevitabilidade da ampliação dos meios de comunicação social, a Igreja
fez uso desse eficiente instrumento de formação de opiniões capaz de transmitir ideologias e
moldar comportamentos.
No ambiente da cidade, o confronto de opiniões entre o discurso dos jornais católicos
e os questionamentos da imprensa não católica e dos boletins independentes expõe a
dimensão das diferenças, numa rede de informações que aguçava o sentimento de civismo e
era capaz de colocar o cidadão em contato com o mundo.
4.1 O lugar central da Imprensa no processo de Restauração Católica
“Um jornal católico pode ser mais eficiente que um púlpito e uma tribuna...”1
O contato com jornais e revistas que circularam entre os anos 30 e 50 do século XX,
nos reporta para um tempo, que apesar de não estar tão distante, nos causa estranhamento.
Afinal, no momento presente, estamos mergulhados numa modernidade chancelada pela
imagem e pelos avanços tecnológicos na área das comunicações.
Por meio de periódicos, boletins e através dos livros, veiculava-se um estilo de vida.
Era possível ser um cidadão em sintonia com uma outra modernidade, com um mundo
tumultuado pela guerra e pela experiência comunista. Era possível estar em dia com a moda e
com os últimos lançamentos do cinema americano.
“O que pode um jornal católico?”. In: “O Horizonte”, Ano 13, nº 924 (17-11-1932) p. 4, c. 1. In: Matos, 1990.
p. 113.
1
177
Mais instigante ainda, é poder confrontar essa realidade impressa, percebendo de um
lado os que se achavam representantes do moderno e da liberdade, e do outro as resistências e
apelos à tradição, defendidos pelos representantes da imprensa católica, considerada pelos
mesmos como a “boa imprensa”. Apoiada num discurso apologético, a defesa dos princípios
da religião católica e o combate explícito aos inimigos da fé, fez nascer uma eficiente rede de
comunicação sustentada pela Igreja e apoiada por segmentos aliados aos princípios de
civismo, ordem e estabilidade social.
A Igreja há muito teria sido obrigada a posicionar-se diante das pressões do novo, fato
registrado quando deparou-se com o crescimento da imprensa, e, através do documento de
Inocêncio VIII, a constituição Inter Multiplices de 1487, procurou proteger seu espaço
institucional. Por meio desse documento, ficava proibida a impressão de livros sem a censura
prévia dos representantes da Igreja e ainda autorizava o recolhimento de livros e folhetos já
impressos e a queima dos que estivessem condenados (Mombach, 1981:18-19). Houve
resistência quanto ao uso e influência exercidos pela imprensa: “O papa estava preocupado
com a vida espiritual dos católicos e via no advento da imprensa uma nova tecnologia que
poderia ameaçar o controle eclesiástico da produção cultural de seu tempo” (Puntel,
1994:30).
Os quatro séculos que separam o papa Inocêncio VIII de seus sucessores, Leão XIII,
Pio XI e Pio XII, não impediram que a Igreja mantivesse uma conduta restritiva quanto à
veiculação de pontos de vista e padrões de conduta julgados contrários aos seus preceitos.
Ciente da amplitude e poder de persuasão dos meios de comunicação, acabou usando a
imprensa como instrumento multiplicador de sua ideologia e por meio dela, posicionou-se
politicamente, alertando o público católico sobre a ameaça da ideologia comunista,
denunciando os exageros do capitalismo liberal, procurando armar uma frente de defesa da
moralidade, questionando comportamentos e invocando a resistência dos católicos ao assédio
da moda e dos novos costumes.
Obviamente, as posições da Igreja não se resumiram a restrições. Ela teria
demonstrado também sua capacidade de adaptação, incorporando as transformações em
processo, fato identificado em documentos pontifícios relacionados aos meios de
comunicação que incluiriam os novos mecanismos como o rádio e a televisão.
Destacando um aspecto dessa evolução, mais especificamente quanto ao papel
desempenhado pelos jornais, é sintomática a sensibilidade de Leão XIII para as exigências
dos novos tempos; aliás, é pertinente à sua posição vanguardista, no que se refere à sociedade
178
capitalista como um todo, e em especialquanto à questão social. Leão XIII haveria de
demonstrar mais uma vez sua capacidade de compreender a necessidade de ajustamento do
catolicismo em sua carta aos bispos do Brasil de 1899 advertindo: “Em nossa época, o nosso
povo não forma opiniões, nem tampouco regra sua vida senão através da leitura cotidiana
dos jornais.”2
Para compreender a evolução da imprensa católica no Brasil, é bastante elucidativa a
periodização feita por Ismar Soares (1998), que divide o processo em quatro etapas. A
primeira correspondendo ao intervalo entre 1808 e 1870, compreendendo, portanto, a fase de
submissão da Igreja ao padroado, seguida pelo movimento de romanização. No início dessa
fase, a Igreja ainda tutelada pelo Estado, tinha suas publicações restritas à folhas sazonais de
pouca abrangência. A Imprensa Régia publicava material eclesiástico, como opúsculos,
sermões e papéis de expediente. A Igreja se manteve mais voltada para questões internas, sua
atitude teria sido mais defensiva, como reforça Fragoso, diante de idéias contrárias defendidas
por liberais, maçons e protestantes. Exceções ocorriam pela publicação de jornais combativos
controlados por padres simpáticos ao pensamento liberal. A partir da segunda metade do
século, começariam os sinais do movimento romanizador, surgindo daí jornais em várias
províncias já mais comprometidos com um conteúdo doutrinário.
A partir de 1870, momento decisivo para a sobrevivência da própria monarquia, os
jornais católicos no Brasil seguiram as novas orientações de Roma sob Leão XIII,
propulsionador de uma fase de dinamismo da imprensa usada para combater o jornalismo sem
Deus. A Igreja defendeu-se dos ataques da imprensa leiga e adotou, no geral, uma postura
ultramontana, até porque, nesse período, teria vindo à tona a questão religiosa envolvendo os
bispos reformadores e a maçonaria. Em Minas Gerais, foi significativa a figura de Dom
Viçoso, o que destacou Mariana no contexto do país pela publicação dos jornais “O Bom
Ladrão” e “Viçoso”. Na época, ainda não existia uma editora católica, sendo os impressos
feitos por encomenda à tipografias particulares.
Nas quatro primeiras décadas do século XX, a Igreja se deparou com uma conjuntura
política absolutamente nova, momento de instalação e consolidação da República, marcado
pela separação entre Igreja e Estado, com forte conotação laicizante em sua primeira fase,
tanto pelo discurso liberal como pelo positivista. A Igreja fundamentou sua reestruturação na
conquista de espaço político, envolvendo-se mais diretamente com a realidade social e, ao
2
Mombach, 1981. p. 23.
179
mesmo tempo, empenhando-se no reforço da identidade católica da sociedade brasileira. Em
função dessa conjuntura, foi levada a sair da posição mais defensiva, fazendo acordos
políticos de colaboração com o Estado após 1930 e usando os veículos de comunicação
disponíveis para propagar sua ideologia; daí a importância do jornal e da criação de um diário
católico.
No primeiro Congresso Católico de 1900, já teria se discutido a urgência de uma
organização eficiente da imprensa brasileira. Em 1904 a realização de um novo congresso
teria lançado as bases para a criação de um diário. Toda essa movimentação resultou na
inauguração do Centro da Boa Imprensa em 1910, sediado em Petrópolis, dele ramificando a
Liga da Boa Imprensa, difundida nas dioceses. As condições reais para a legitimação de um
diário católico ficavam prejudicadas, segundo avaliações feitas pelos próprios bispos, devido
a atração dos católicos para com a imprensa leiga (Soares, 1988:186-187).
Alguns diários foram lançados e cumpriram a função definida pelo episcopado. No
caso de Minas Gerais, o jornal “O Diário” de Belo Horizonte nasceu em 1935, comprometido
com o projeto recristianizador. Importante na época também, foi a criação das revistas
eclesiásticas, administradas de um modo geral por religiosos, desempenhando papel
significativo na consolidação da Ação Católica no Brasil. No caso do jornal “O Diário”,
seguindo a linha apologética da imprensa confessional, esteve comprometido com a
preservação patrimônio religioso mineiro como destacou Henrique Matos:
“Somos o baluarte de defesa de suas tradições mais puras, de seus ideais mais
dignos, contra os inimigos solertes que, na calada dos disfarces tenebrosos, se
avizinham, cheios de rancor e ávidos de destruição. [...] Um dever resta, pois, aos
católico, dever imperioso, indeclinável ao cumprimento do que será covardia fugir:
o de levantar contra o inimigo que avança a muralha viva da nossa imprensa sadia,
independente e intrépida.”3
Após 1945, as dioceses já contavam com suas tipografias, imprimindo suas folhas
noticiosas e buscando obter concessões de serviços radiofônicos. Houve nessa época um
crescimento dos periódicos especializados.
3
“A nossa Semana”. In: “o Diário”, Ano 1, nº 87 (19-01-19335), p. 3, c. 4. In: Matos, 1990. p. 114.
180
A Ação Católica lançou mão da “boa imprensa” para atingir seus objetivos
apostólicos, e, ao mesmo tempo, empenhou-se em difundí-la, como pode ser observado nas
conclusões do Congresso Nacional de 1946:
“Abram-se os lares à boa imprensa que orienta a opinião pública com elevado
espírito de catolicismo e de brasilidade, e auxiliem-na com assinaturas, anúncios e
propaganda. Oponham-se ao contrário, sistemática e energicamente, à entrada de
folhetos, jornais, revistas, ou livros escandalosos e hostis à Igreja, lembrados de que
qualquer colaboração, ainda que apenas financeira, pode envolver grave traição à
causa sagrada.”4
Em Carta Pastoral de 1943, Dom Cabral trata da relação entre Ação Católica e
Imprensa, lembrando das discussões sobre a eficiência da imprensa para a difusão dos
princípios católicos, criticando os desmandos e escândalos da imprensa neutra. Esse
congresso teria criado as condições para o lançamento do jornal “O Diário” em fevereiro de
1935. O prelado completa sua exposição demonstrando a importância da imprensa para a
preparação doutrinária dos membros da Ação Católica, divulgando suas diretrizes e tornandoas acessíveis aos leigos (Soares, 1988:241-242).
O Jornal “O Horizonte”, que circulava desde 1923 e representava o órgão oficial do
Conselho de Imprensa da Diocese de Belo Horizonte, em 1934, afirmaria que o jornal “O
Diário” não havia sido concebido para ser apenas um órgão religioso. Tinha a função de ser
atrativo, como uma folha mais atualizada e completa em seus comentários, falando sobre sua
função enquanto jornal católico:“Será antes um defensor de Deus, da Pátria e da Família.
Um ‘antídoto eficaz contra todos os erros e contra todos os vícios’. Um dique a todas as
correntes do mal. [...] E dentro em breve ele estará visitando os lares católicos – os honrados
lares mineiros”.5
A imprensa foi tomada como instrumento mais eficaz na recristianização da escola, da
família e da sociedade, sendo necessária, portanto, no combate aos inimigos do catolicismo,
representados pelo protestantismo e espiritismo, acrescentando-se, dentre eles, também a
maçonaria, o comunismo e até mesmo o liberalismo. Ao usar os recursos da comunicação
social num trabalho intensivo de propaganda contrária a essas práticas, bem como, no
desestímulo à leitura de suas publicações, a Igreja procurou colocar em circulação seu próprio
4
Dalle,1985. p. 64.
5
Matos,1990. p. 127.
181
material, na tentativa de popularizar a leitura, ressaltando seus aspectos doutrinários,
colocando temas do evangelho para estudo e alertando sobre a importância da preservação da
ética e da moral católicas.
O Espiritismo era considerado uma ameaça real, já que dados demonstravam seu
crescimento no Brasil a partir da difusão da literatura espírita, do uso do rádio, que na
concepção do Pe. Leopoldo Aires, exigiriam uma contra-argumentação bem preparada pela
Igreja: “Para combatê-lo ainda a tempo, só uma campanha integral, omnímoda e sobretudo
sistemática, obedecendo a um plano minucioso e conscienciosamente elaborado”.6
As providências mais urgentes sugeridas ao clero foram a confecção e distribuição de
folhetos explicativos sobre a proibição de evocar os mortos, salientando a impossibilidade de
os católicos assumirem dois credos, ser espírita e católico ao mesmo tempo. O uso de rádio e
de alto-falantes para divulgação de slogans e explicações sobre a doutrina e a publicação de
artigos e reportagens de esclarecimento sobre o tema também seriam convenientes (Soares,
1988:231).
O protestantismo, por sua vez, teria provocado uma reação mais cautelosa da Igreja. A
vigilância e a orientação do clero liderada por Agnelo Rossi, ligado ao Secretariado de Defesa
da Fé, baseava-se no acompanhamento das estratégias de comunicação usadas pelos
protestantes, vistos como religião estrangeira ligada a interesses norte-americanos. Agnelo
Rossi enxergava uma ligação direta entre protestantismo e maçonaria, esta última inimiga
secular da Igreja, responsável pela eclosão das primeiras manifestações ultramontanas no
Brasil, ainda no século XIX, em decorrência da questão religiosa levada avante pelos bispos
Dom Vital e Dom Macedo. No debate, os maçons se defendiam das acusações impostas pela
Igreja, argumentando serem uma entidade aberta ao diálogo e ao cristianismo, sempre alvo
das posições intransigentes e obscurantistas da Igreja. Das inferências feitas pelo clero,
dedicado aos estudos sobre as doutrinas e ideologias contrárias ao catolicismo, é interessante
destacar a de que apesar das peculiaridades de cada inimigo, estavam todos envoltos numa
grande conspiração. Arlindo Vieira confirma esse pensamento ao afirmar que: “O comunismo
ateu que hoje subverte o mundo e põe as nações livres em sobressalto é filho da maçonaria”.7
Pe. Leopoldo Aires,“Esboço narrativo da campanha espírita no Brasil”, in COR, 2 (5): 493-495, 1940. In:
Soares, 1988. p. 231.
6
7
Arlindo Vieria, “A maçonaria no Brasil”, In. REB, 15 (3): 638, 1955. In: Soares, 1988. p. 234.
182
Quanto ao liberalismo, apesar de representar a hegemonia capitalista, também
ameaçava a verdade cristã. Sustentava-se numa racionalidade individualista em defesa da
liberdade e dos direitos legais, capazes subverter a crença católica no espírito coletivista e
associativo, ligados à idéia de doação e de altruísmo como manifestações a serem estimuladas
no ser humano. O liberalismo, adotado no seu extremo, teria sido responsável pela superação
dos limites do sistema, ao justificar ideologicamente a exploração capitalista e agudizar os
problemas relativos à questão social. Somado a isto, foi através da consolidação do
pensamento liberal no Brasil no final do século XIX, que o regime republicano foi gestado e
sua manifestação primeira, fez instalar no Brasil, um modelo laicista e contrário aos interesses
da Igreja Católica.
Passada a fase de indisposição da Igreja com o Estado, experimentada na primeira
República, o uso da comunicação social foi importante no momento de aproximação e
colaboração entre ambos, marcando o período de Getúlio Vargas. Nesse governo, o controle
dos meios de comunicação, principalmente durante a ditadura, voltava-se para a manipulação
do ideário coletivo em torno da construção de algumas imagens e crenças capazes de
estabelecer as identidades necessárias ao modelo de Pátria em gestação.
A nova estrutura de poder instaurada após 1930, principalmente depois do golpe de
1937 que estabeleceu a ditadura estadonovista, necessitava legitimar as bases do que
acreditava ser uma “democracia social”, considerada pelos ideólogos do novo regime, a
garantia de inserção do Brasil no mundo capitalista. O estado procurava se legitimar através
da garantia dos direitos sociais aos trabalhadores, enquadrando-os num modelo de civismo da
ordem e do progresso. O Departamento de Imprensa e Propaganda, enquanto órgão de
governo, garantiria a intervenção do Estado no campo das comunicações e da cultura em
defesa de um projeto de unidade nacional. Esse departamento encarregou-se de produzir
livros, revistas, folhetos, cartazes, programas de rádio com noticiários, fotografias,
documentários cinematográficos, além de um eficiente mecanismo de censura prévia aos
meios de comunicação legalizados pela constituição de 1937 (Capelato, 1998:69-70).
Toda a estrutura criada pelo Estado Varguista conseguia manipular o imaginário
coletivo, criando a impressão da unidade entre povo e governo. Para tanto, não foram
polpados esforços na transposição de imagens religiosas para o discurso do poder, que
protegido nesse invólucro, procurou transmitir impressões de identificação no povo
relacionadas à proteção e à necessidade de combater os inimigos da ordem a partir de uma
183
visão maniqueísta da realidade social. Estava deflagrada a luta entre o bem e o mal, entre a
segurança e o progresso, opondo-se ao revolucionarismo e à dominação estrangeira.
Os investimentos num processo de sacralização da política8 tornaram-se mais
eficientes a partir da aproximação do governo com a Igreja Católica, numa política de
colaboração em que ambos almejavam a ordem social e combatiam os mesmos inimigos da
nação.
Em seu trajeto, desde o período em que esteve mais próxima ao Estado, a Igreja foi
aprimorando o uso que fazia da comunicação social, no sentido da produção e distribuição de
livros, folhetos, revistas, jornais, rádio e cinema. Sempre foram mecanismos bem utilizados
nos momentos de arregimentação de forças por parte de bispos, congregações e movimentos
leigos e do clero em geral, na administração dos trabalhos paroquiais. Foi assim, segundo
Ismar Soares (1988:229) na Campanha contra a Má Imprensa e a Pornografia em 1949, na
campanha Nacional Contra a Heresia Espírita em 1953, anos depois, na Campanha de
Moralização das Revistas em 1957, na Campanha de Moralização dos Programas de Rádio
em 1958 e em outras iniciativas assumidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil a
partir dos anos 50.
4.2 A efervescência cultural da cidade: jornais e boletins
“Com as letras e o papel lutam o céu e a terra, diz Albano Stoltz”9
A história de Divinópolis é permeada de expressões concretas e subjetivas
provenientes da convivência da tradição com a emergência da modernidade. Essa
característica se expressa nas várias manifestações da vida social. Em diversas situações
registradas por memorialistas, em depoimentos orais e em estudos mais aprofundados feitos
por pesquisadores, aparecem as divergências político-ideológicas e religiosas assumidas por
grupos opositores. Normalmente representantes do catolicismo, em debate com livres
pensadores, maçons comunistas e outros, ao se digladiarem, alteravam a rotina da cidade,
8
Conceito trabalhado por Alcir Lenharo. Sacralização da política. Campinas, Papirus/ed. UNICAMP, 1986.
9
Revista de Santa Cruz, Ano XX, junho de 1955. p. 113.
184
através de jornais, panfletos, boletins e até alto-falantes. Ao se tornarem uma constante no
cotidiano dos moradores, esses procedimentos passaram a estimular discussões, inflamaram
ânimos e afetaram a vida dos moradores que foram levados, muitas vezes, a sair da cômoda
situação de imparcialidade. Essa agitação foi, ao mesmo tempo, responsável pela trama
política subjacente ao controle do poder local. Poder este, que representava um
prolongamento das disputas político-partidárias e ideológicas encenadas no cenário nacional.
Esses impressos transformaram-se em documentos de um tempo em que havia um
profundo sentimento de civismo, de comprometimento com a vida social, cultural e política
da cidade e do país, tornando-se na época, uma experiência peculiar de ação e de reflexão da
comunidade. Os cidadãos ao incorporarem os discursos, eram instigados à reflexão e
estimulados à participação na vida cultural e política da cidade.
As publicações eram de conteúdo variado, tinham um cunho informativo e formativo e
quase sempre relacionavam-se a atividades que estavam sendo desenvolvidas na cidade.
Serviam, portanto, como instrumento provocador do dinamismo urbano.
Os pronunciamentos apaixonados dos editores e jornalistas amadores da época eram
uma característica marcante do material divulgado, tanto aqueles oficializados como os de
tiragem independente. Faltava-lhes, de um modo geral, o compromisso com as regras
profissionais de jornalismo e de editoração, o que não lhes suprimia a importância enquanto
veículos eficazes de comunicação.
Os jornais que circularam na cidade após sua emancipação eram de um modo geral
amadores e tinham uma característica panfletária. Numa ordem cronológica trabalhada por
Corgozinho (105-106), o primeiro jornal teria sido fundado por Braulino Gomes de Souza em
1914, com o nome de “A Prova”, seguido por “O Divinópolis”, criado em 1916 e adquirido
por Pedro X. Gontijo. Era personagem importante no relacionamento com a Igreja, utilizando
o jornal como instrumento de denúncia e de debate com grupos católicos. Para fazer-lhe
oposição, foi inaugurada “A Folha de Minas” em 1916 por Antônio Olympio de Morais e José
Assis Rocha. Na mesma época circulava um pequeno jornal anônimo chamado “O Filhote”.
Na sequência vieram “O Reformador” e “A Estrela do Oeste”, este último seria uma
publicação dos poderes municipais sob orientação de Ataliba Lago; o mesmo Ataliba criaria
em 1925 o jornal “Pela Vida” e “A Gazeta Popular”. Encerra-se a década com “O Recreio”
de Octaviano Caldas publicado em 1928. Segundo a autora, essas publicações expressavam
formas de pensamento, servindo também à propósitos políticos em épocas de eleições para
controle do poder local.
185
No Cartório de Registro de Títulos e Documentos, constam registrados nos anos 40 e
50 o “Jornal do Oeste” de 1946 dirigido por Simão Salomé e Jovelino Rabelo e o “Jornal Voz
Democrática” de 1951, tendo como responsável Altamiro Santos.
Dentre os jornais católicos produzidos na cidade, foram importantes “O Clarão”, “O
Santuário de Santo Antônio”, “O Sino” e “A Semana”. O clero e os paroquianos tinham
contato também com publicações de fora que funcionavam como estímulo aos impressos
locais por atualizarem informações, trazendo assuntos e temas valorizados em outros centros e
pertinentes ao contexto da época. Foi o caso do jornal “São Francisco” de Pirapora, “O
Diário” de Belo Horizonte e a revista “Eco Seráfico” da Ordem Terceira Franciscana editada
em Petrópolis.
O jornalzinho “O Santuário de Santo Antônio” começou a ser editado em 1927 como
um modesto folheto iniciado por Frei Zaqueu Simons, passando a circular na forma de revista,
ultrapassando o âmbito local em 1937 e tendo como redator Frei Odulfo van der Vat.10
O jornal “O Sino de Divinópolis” foi criado por Frei Bras Berten em 16 abril de 1933,
como reedição do Sino de São José de Belo Horizonte, quando este foi substituído pelo jornal
“O Domingo”.11 A criação do folheto “A Semana” ocorreu da necessidade de divulgação do
movimento religioso de Divinópolis. No início entre 1943 e 1946, não era um jornal
propriamente dito. Não possuía o caráter de publicação oficial. Era uma folha quinzenal
responsável pela divulgação da programação religiosa da paróquia:
“... É a recordação dos avisos religiosos dados no púlpito, é o porta-voz para onde os
alto-falantes não chegam. Fora do horário dá algumas notícias de importância para
nós, uma instrução para estudar, uma proposta, um pedido para lembrar uns fatos da
nossa vida paroquial para serem guardados na história. A Semana portanto, dá
alguma coisa para todos e para cada um, é o amigo de nós, a lembrança que cada um
leva para sua casa depois da Missa dominical...”12
Ao completar seis meses de existência ainda como uma folha de circulação interna, “A
Semana” carecia de maior apoio dos paroquianos. Dessa forma, foram feitos apelos para
adesão dos chamados padrinhos e madrinhas do jornal que contribuiriam com uma assinatura
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 60.
10
11
Jornal Interno A Semana - 21 a 28 de fevereiro de 1943. p. 2.
12
Jornal Interno A Semana - 21 a 28 de fevereiro de 1943, p. 2.
186
mensal. No dia 4 de agosto de 1946, saiu o primeiro número do jornal “A Semana”,
melhorado e ampliado como Órgão Oficial das Paróquias de Divinópolis, Círculo Operário e
Educandários.13
A estrutura dos jornais católicos, seguia, em síntese, um mesmo padrão, composto de
horários com a programação da paróquia, textos sobre a vida de santos, citações do evangelho
e/ou reflexões sobre a doutrina cristã, pequenos artigos de temas variados, avisos e informes
da comunidade e sobre o funcionamento da paróquia, divulgação de obras paroquiais, balanço
de ofertas e doações recebidas e colaboravam também, na divulgação dos trabalhos
desenvolvidos pelas associações católicas tais como o Círculo Operário e as organizações da
Ação Católica.
No geral eram poucas as variações na estrutura editorial, destacando-se temas mais
relevantes relacionados à vida eclesiástica como um todo ou relativos à realidade política
nacional, normalmente expostas como um sinal de alerta aos leitores como: “Cuidado com o
espiritismo!”, ou ainda, “Cuidado com o Protestantismo!”, e mais enfaticamente nos anos 40,
quando combateu explicitamente o Comunismo, inimigo mais nefasto e alvo das abjurações
dos católicos.
As revistas também seguiam de certa forma o mesmo modelo, apresentando
especificidades de acordo com seu propósito, como foi o caso da Revista de Santa Cruz,
lançada em 1936, como revista mensal do Comissariado Provincial da Santa Cruz dos Frades
Menores do Brasil, compondo-se de espaços dedicados à exposição dos trabalhos e do
cotidiano paroquial das cidades atendidas pelas obras do Comissariado.
Em oposição a uma imprensa católica propriamente dita, assumida pelos franciscanos,
circulavam também as de inspiração católica, os jornais regulares e os impressos
independentes portadores de um discurso mais inflamado de denúncia e até, de confronto
direto com o pensamento católico.
O jornal “Divinópolis”, do farmacêutico Pedro Xavier Gontijo, foi atuante no debate
com o clero, a ponto de sua leitura ter sido proibida aos católicos em 1917 por Dom Silvério,
bispo de Mariana.14 Essa questão foi assim tratada na revista de Santa Cruz:
13
Revista de Santa Cruz Ano XI – outubro de 1946 p. 112.
Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa
Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 58.
14
187
“O Pe. Matias e seus sucessores, o Pe. Vicente Soares (1917-1923) e o Pe. José
Augusto Vicente Bicalho, sofreram muito com os inimigos da nossa religião, entre
os quais se destaca o político Pedro X. Gontijo com seus discursos e seus artigos no
“Divinópolis”, que espalhava o veneno da impiedade e das más doutrinas.”15
Numa linha mais panfletária teve destaque, também de Pedro X. Gontijo, o boletim
“Conversando com os Divinopolitanos”, que circulou por muitos anos na cidade, ajudando a
fazer a história do lugar. Esses boletins eram uma mistura de relato e denúncia, de sentimento
de civismo e de defesa da liberdade. Pedro X. falava a partir de sua posição, de seu
observatório, como alguém que estivera presente nos momentos decisivos da vida da cidade.
Estava sempre atento quanto aos detalhes da vida da urbes, opinando sobre a administração
pública e sobre o envolvimento dos moradores nos acontecimentos da cidade. Por isso, seus
boletins, muitas vezes, apontavam os problemas de infra-estrutura e de funcionamento que
afetavam a vida dos moradores. Esse redator independente, que foi prefeito da cidade, gostava
de contar a história da emancipação do município, sempre destacando os membros da
comissão responsável pelo encaminhamento político do processo. No boletim 128 chegou a
comparar essas lideranças a personagens da história republicana:
“Lá está o braço direito da Comissão, o Dr. Francisco Ribeiro de Carvalho, que foi o
Benjamim Constant divinopolitano, e verbo sempre quente do propagandista que foi
também o nosso Solon. (...) E lá está o pai da nossa cidade, Antônio Olímpio de
Morais, o Floriano Peixoto divinopolitano, o consolidador da independência da
nossa terra.”16
Insistia no confronto com o clero local sobre a legalização do patrimônio do
município, lembrando o pacto político-religioso selado com a Igreja em 1920, sobre o uso
desse patrimônio pela municipalidade. Muitas vezes foi intolerante na relação direta com
representantes da Igreja Católica, como na mudança do nome da praça da catedral de Antônio
Olímpio de Morais, antigo prefeito e figura importante na consolidação política da cidade,
para o nome do bispo Dom Cristiano, questionando em tom de perplexidade:
Revista de Santa Cruz, 1949, p. 172, In: 15 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25
anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo
Antônio, 1950 p. 58.
15
16
Boletim nº 128 de 10-05-1956.
188
“Divinpolitano que pensa, é justo que um bispo, a quem Divinópolis nada deve, que
é um parasita, um goela e ultra vaidoso, sem sombra de nobreza roube o nome de
um gigante divinopolitano, Antônio Olímpio de Morais que imensos serviços
prestou à nossa terra? É justo?”17
No entanto, seu litígio com a ala católica e seu anticlericalismo ficaram mais
contundentes nos debates travados com Frei Rafael Zevenhoven que, a partir de 1945,
assumiu a frente de vários empreendimentos político-sociais da Igreja no município. Frei
Rafael destinou uma coluna do jornal “A Semana”, denominada Bombas da RAF, para
também fazer suas denúncias e para bater de frente com o grupo de Pedro X., composto de
livres pensadores, maçons e outros elementos contrários muitas vezes ao conservadorismo
religioso. O nome dado à coluna foi assim explicado por seu idealizador:
“Ao iniciar esta nova fase do nosso jornal, quero apresentar aos meus leitores uma
nova série de artigos, que sairão intitulados: Bombas da RAF. Bombas! A bomba é
um projétil que contendo substância explosiva rebenta com estampido. Pode ser
reprovação num exame! Bomba pode ser um instrumento para encher as câmaras de
ar dos pneumáticos! Bomba, instrumento para puxar água, etc. Bomba pode ser um
doce! Como vê, leitor, bomba pode ser uma coisa perigosa e pode ser um docinho
delicioso.O meu avião RAF, uma vez por semana fará um vôo por sobre os telhados
da nossa cidade. As vezes irá mais longe. As vezes irá aos Estados Unidos,
Inglaterra, Rússia, Alemanha. Mas, no fim da semana sempre estará em sua base, e
depois o piloto dará suas impressões, dará o relatório completo do que viu e
ouviu.”18
Nesse espaço, tratava-se de tudo, desde discussões sobre a finalidade cívica da
imprensa até críticas ao comunismo e aos vários inimigos da Igreja Católica, incluindo-se
dentre eles aquele que fazia-se mais presente no debate local, a Maçonaria. No artigo,
“Divinópolis, Quartel General!”, o Frei lamentou a cidade ter se transformado num centro
regional dessa organização, tecendo seus comentários e críticas:
“É partido político? Disfarçado! Pode ser! É partido religioso? Ao serviço do diabo,
é certo! Mas nunca ela usou franqueza! Sempre fugindo da luz do dia, escondendose debaixo da terra, fechando suas portas aos estranhos, os excomungados
continuam a planejar, prosseguem em suas conspirações, enganando a todos
homens, embora bons, porém sem princípios, sem convicção religiosa, entregando a
sua própria pessoa, a sua alma, a sua família, aos caprichos dos mandões da
Maçonaria. Homem católico! Cuidado! Não caia nos laços e nas redes maçônicas.
17
Boletim nº 196 de 01-04-1960.
18
Jornal A Semana – 04.08.1946.
189
[...] Esta é a acusação feita nas cidades vizinhas contra nós divinopolitanos. Sede de
irradiação maçônica! Quartel general de conspiradores!”19
Em resposta às provocações de Frei Rafael, os maçons e seus aliados apelavam sempre
para as conquistas da sociedade moderna, traduzidas na garantia de direitos constitucionais,
onde se amparou o discurso de um dos boletins:
“Divinópolis não é uma aldeia onde só mandam os Srs. Frades. Divinópolis é uma
cidade grande e próspera, que não pode tolerar predomínio de quem quer que seja
fora da lei. Ficam sabendo os Srs. Frades e sua turma que os homens livres de
Divinópolis não mais suportarão essas injustiças e se preparam para tudo o que der e
vier. Queremos os divinopolitanos livres e iguais, dentro de uma Divinópolis livre,
próspera e feliz. A luta continuará dentro das leis, quer queiram quer não os Srs.
Frades e a sua turma, ficando eles responsáveis por tudo quanto acontecer, resultante
das suas arbitrariedades.”20
O Sr. Francisco Gontijo, também membro desse grupo, fez seu pronunciamento sobre
a conduta verbal e escrita de Frei Rafael e através de um boletim lançado em maio de 1948,
desafiou o frei com a expressão, “Alto lá Frei Rafael !!! Alto lá”:
“... É de lamentar que eu tenha que vir em público para lavrar o meu protesto diante
de seus assanhados escritos e sermões, que insultam e caluniam miseravelmente os
protestantes, os Espíritas e Maçons de minha terra.”
E referindo-se à origem holandesa do padre completou suas críticas:
“É de se lamentar que eu tenha que lhe dizer em público de seu cabotinismo e de seu
malabarismo, que deixou de pregar em sua terra para vir de intrometido bancar o
truão em nosso meio como parasita social.”
Ao discordar do teor de alguns artigos do frei no jornal, retrucou em tom provocador:
“... Com suas célebres e quixotescas “Bombas da RAF”, descreve um vôo de seu
AVIÃO, visitando diversas cidades do Oeste de Minas e encontrando em cada uma
19
Jornal A Semana – 29.09.1946.
20
Boletim de Pedro X. Gontijo – 29.04.1948.
190
delas, moças, noivas, mães, pelo fato de seus entes queridos terem entrado para o
“Quartel General” da Maçonaria em Divinópolis ...”.
“... Quem sabe você viu o seu Cinema de Santo Antônio exibir fitas inconvenientes
justamente no dia em que morreu o chefe da Igreja Romana no Brasil, D. Sebastião
Leme?”
Completa apontando várias falhas cometidas pela Igreja em sua história e encerra seu
discurso alfinetando o padre e sua profissão: “Aconselho-o a mudar de vida e de profissão.
Jogue essa batina fora. Procure um trabalho honesto, útil e patriótico...”.
No espaço dedicado à vida paroquial, a Revista de Santa Cruz salientou as várias
manifestações de solidariedade dispensadas aos franciscanos em função da repercussão dos
boletins, feitas por padres de outras paróquias, pelo prefeito, e outros elementos da sociedade.
A reação católica ocorreu na forma de uma manifestação de desagravo realizada no dia 1º de
maio em frente ao santuário, com pronunciamentos do advogado Dr. Lauro Epifânio e do
deputado Oscar Corrêa. O cronista completou a narrativa afirmando que estava lá o povo em
peso e todas as cores políticas – “os “próceres” do P. S. D., sendo os oradores membros da U.
D. N...”21
Esse episódio expõe a situação político-partidária subjacente aos acontecimentos,
destacando as posições dos debatedores, colocando-os em correspondência com a situação
política do país definida após 1945. O aspecto partidário teria vindo à tona, quando Frei
Rafael, que era coadjutor, fora nomeado vigário substituto em 1947 de Frei Carlos Schep que
se afastou de férias. Tal fato não teria agradado aos chefes da política local. Havia uma crença
entre as lideranças locais de que Frei Rafael era udenista e Frei Carlos era simpatizante do P.
S. D., situação descrita na revista de Santa Cruz:
“Quão difícil é para um padre ficar fora da política e esconder as suas simpatias para
um ou outro partido. Parece que os chefes sondam os corações e as entranhas, e o
que é pior, qualquer palavra ou ato insignificante do padre é interpretado a torto e
direito. Não há jeito, o povo pensa que Frei Carlos é do P.S. D. e Frei Rafael é da U.
D. N. vieram até pedir ao Vigário e Guardião o favor de converter o udenista.”22
Ao considerar a formação dos partidos no processo de abertura política é importante
salientar que o Partido Social Democrata nasceu sob inspiração de Vargas no processo de
21
Revista de Santa Cruz - Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 22.
22
Revista de Santa Cruz – Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 20.
191
transição democrática, instaurado com o fim do Estado Novo. Na verdade, não se
assemelhava com a proposta social democrática experimentada pelos europeus naquele
período. Era mais uma reedição da política tradicional brasileira. Foi criado a partir da
iniciativa de interventores estaduais que estimularam adesões para apoiar a candidatura oficial
de Eurico Gaspar Dutra. Teve grande força em Minas Gerais apoiado por Benedito Valadares,
angariando apoio de empresários defensores de um Estado interventor. Já a União
Democrática Nacional surgiu com a pretensão de ser uma frente de oposição. Contava em
suas fileiras com grupos de homens de negócios e de alguns proprietários de terras. O partido
recomendava a volta aos princípios do liberalismo (Skidmore, 1982:80-86).
Além das questões partidárias que agitavam as forças políticas, os temas polêmicos
abordados nos boletins recaíam também sobre ações assistenciais implementadas por
entidades desvinculadas da Igreja Católica, como foi o caso do debate em torno da atuação da
Legião da Boa Vontade no município. Sobre essa situação, Pedro X. fez seu desafio:
“Um senhor padre, encontrando um menino vendendo a Revista da Boa Vontade, no
meio da rua, saiu-se com esta: “Se você continuar a vender ISSO no meio da rua eu
lhe mando prender, ouviu?” Alto lá senhor padre, alto lá, Divinópolis não é sacristia
não, ouviu?”23
A imprensa neutra cumpria seu papel informativo destacando fatos locais, mas
conectada nos acontecimentos nacionais e internacionais. Merece destaque o “Divinópolis
Jornal” (redator-chefe - Ataliba Lago) que na tumultuada década de 40, estava em sintonia
com o mundo lá fora. Encontram-se entre suas páginas comentários interessantes sobre o
mundo em guerra e a posição do Brasil, como na abordagem sobre o “Quinta-Colunismo?”,
que tratava da necessidade de uma unidade nacional:
“Precisamos ter reservas e desconfianças para com os indivíduos que andam a
ridicularizar os homens de governo de nosso país. O Brasil, com os seus
compromissos no conflito mundial, precisa contar com a unidade nacional. E para
termos a unidade nacional, as nossas autoridades precisam ser prestigiadas. Hoje em
dia, nas rodas íntimas, nas palestras, o hábito freqüente é o da ironia a certas
autoridades da nossa Pátria. Falar de gente do governo hoje em dia, é moda que vem
sendo generalizada. Não será isso o novo traje ou a nova máscara do Quintacolunismo? Quinta-colunismo não poderá ser só a transmissão de acontecimentos
para o estrangeiro, a sabotagem, o estímulo à conspiração. Ridicularizar autoridades
23
Boletim nº 165 24.11.1957.
192
no exercício de seus cargos, nesta hora grave e de responsabilidades, é pretender o
enfraquecimento do governo. E quem pretende hoje o enfraquecimento do governo,
certamente conspira contra a segurança da Pátria.”24
A cidade estava de fato contaminada pelo clima dos acontecimentos da guerra. Os
jornais se encarregavam de informar a população, mas também lembravam os cidadãos de
seus compromissos para com a pátria. Por meio da imprensa, as pessoas eram estimuladas a
colaborarem na aquisição de bônus como foi divulgado pelo Divinópolis-Jornal: “Os bônus
da Guerra são os bônus da vitória. Subscrever obrigações de guerra é dever de todo bom
brasileiro. É atitude de legítima brasilidade. Faça hoje mesmo o seu pedido à agência local
do Banco da Lavoura!.”25
Nesse mesmo jornal, que havia se pronunciado sobre o Quinta Colunismo, numa
demonstração clara de comprometimento com o governo vigente, os moradores foram
lembrados da institucionalização da “Hora do Brasil”:
“A hora do Brasil deve ser transmitida obrigatoriamente pelos estabelecimentos
comerciais. Chamamos a atenção dos proprietários de estabelecimentos comerciais
de qualquer natureza que possuam aparelhos de rádio para o disposto no artigo 94 do
Decreto Lei federal de 1939: os estabelecimentos comerciais que possuem aparelhos
de radiodifusão ficam obrigados a transmitir o programa oficial do departamento de
Imprensa e Propaganda. Esta exigência se aplica especialmente aos bares, cafés,
botequins, hotéis, restaurantes e confeitarias.”26
Tema freqüente em reportagens e artigos do Divinópolis-Jornal eram informações
sobre a produção agrícola, a realização de encontros regionais e as ações governamentais
voltadas para o setor, tema condizente com a tradição econômica mineira a qual Divinópolis e
região não fugiam à regra, apesar da trajetória industrial da cidade. No nº 41 do jornal, os
agricultores foram informados sobre os Congresso de Associações Rurais ocorrido em Belo
Horizonte e os esforços no sentido de expansão das lavouras foi tratado no contexto de
envolvimento do Brasil na guerra:
24
Divinópolis Jornal – 27.06.1943
25
Divinópolis Jornal – 13.06.1943.
26
Divinópolis Jornal – 13.06.1943.
193
“Os lavradores mineiros e principalmente os lavradores de Divinópolis não podem
cruzar os braços ante o seu campo de ação: a terra. [...] Plantar o maior número de
hectares, no momento é a palavra de ordem. A secretaria de agricultura está
mobilizando todo o seu maquinário de uso e já adquiriu máquinas, ferramentas e
sementes selecionadas para ceder aos lavradores nas condições mais vantajosas. [...]
A expansão das lavouras, aproveitando-se a próxima época de plantios, como
esforço de guerra, será dos mais valiosos e essa patriótica contribuição dos
lavradores mineiros jamais será esquecida pela nação.”27
A cidade crescia e exercia cada vez mais influência na região. Aspectos de seu
funcionamento mostram sua relação com a capital e com os acontecimentos nacionais.
Divinópolis, por suas características e por ser uma cidade operária, atraiu a presença de
políticos e foi sede de movimentos e organizações. Chegou a receber lideranças como Plínio
Salgado, que conquistou no local adesões ao Integralismo; foi palco de comícios inflamados
do P.S.D., do P.T.B. e da U.D.N., e nela também, o Partido Comunista procurou conquistar
adeptos e simpatizantes. Em função de sua história, transformou-se num espaço fecundo para
as manifestações da ideologia política e do pensamento social da Igreja.
4.3 A força da Imprensa Católica em Divinópolis
“Nem uma só família católica sem jornal católico.”28
A história da imprensa católica em Divinópolis iniciou-se pelas mãos dos
franciscanos. No início, a impressão era feita na antiga tipografia Ideal do Sr. José Mourão.
Em 1935, Frei Leão Soffels, transferido, trouxe de Pirapora duas máquinas que imprimiam
nessa cidade desde 1923, a folha paroquial São Francisco. Nessa tipografia foram impressos
também livrinhos de cânticos e alguns números do jornal “Santuário de Santo Antônio”. Em
1935 o comissário Frei Serafim Lunter transferiu a tipografia para Divinópolis sob orientação
de Frei Leão e de Joaquim Inácio. Em 1939, foi transferido também todo o material
tipográfico de Teófilo Otoni para melhorar os trabalhos de Divinópolis que ampliava seus
Texto do agrônomo Lourival Fonseca da 10ª Circunscrição Agro-Pecuária sediada em Divinópolis, In.
Divinópolis Jornal – 11.07.1943.
27
Brandão, Ascânio. “A imprensa e a nossa responsabilidade sacerdotal”. In REB. 5 (3), 561, 1945, Soares,
1988. p. 242.
28
194
serviços através da impressão de folhetos e revistas. Outras publicações feitas em Divinópolis
foram: Portugeesche Spraakkunst I Gramatica e II Sintaxis, a segunda edição de Ave Maria, o
memorial da Obra Pia da Terra Santa, as reedições de Estatutos da Pia União de Santo
Antônio, o jornal “O Montanhês” do Ginásio de Pará de Minas, as reedições do Prospecto da
Terra Santa, Novena das terças feiras em honra de Santo Antônio, A missa Dialogada,
Kalendarium Romano-Seraphicum (1941-1948) e a terceira edição de Ave Maria.29
O investimento se justificava em função da necessidade de ampliar a influência da
imprensa católica, a “boa imprensa”, considerada aquela comprometida com o
desenvolvimento social. A “boa imprensa”, na concepção dos católicos, deveria ter como
compromisso a educação e a orientação do povo: “... orientar a opinião pública para o bem,
dar ao povo uma filosofia prática, apontar-lhes os grandes homens da pátria, combater os
vícios e os erros e elogiar as virtudes!”.30
A Igreja acreditava numa imprensa comprometida com a verdade, a sua verdade, numa
época em que a modernização, o liberalismo, as ideologias e doutrinas de contestação ao
capitalismo tais como o socialismo, o comunismo, o anarquismo e outras, bem como, a
convivência de religiões e cultos, e as conquistas constitucionais de direitos, acenavam para a
liberdade de expressão.
A tipografia funcionou num barracão, com equipamentos doados e ultrapassados por
algum tempo, com dificuldades para manter funcionários e pelo preço alto do papel.31 Foram
feitos investimentos e em junho de 1955 realizou-se a inauguração oficial do novo prédio da
Gráfica Santo Antônio. Na benção solene, Frei Respício van Valkenhoef fez uma palestra
sobre a boa imprensa, ressaltando as dificuldades de sobrevivência de um jornal católico
naqueles tempos. Na solenidade, estavam presentes o promotor de justiça Dr. Antônio
Honório de Oliveira Pires Júnior, o vereador Dr. Carlos Altivo, o industrial Teófilo Perene
Filho e o gerente do jornal “Oeste de Minas”, o Sr. Olavo da Silva. Em seu pronunciamento,
Frei Respício procurou mostrar os avanços provocados pelo trabalho franciscano, passados
mais de vinte anos de sua presença na cidade:
29
Revista Santa Cruz, Ano XIV – fevereiro de 1949 p. 28-31.
30
Jornal A Semana – 04.08.1946.
31
Revista de Santa Cruz, Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 28-31.
195
“... É a firme vontade de nossos superiores que o convento e seminário seja um
baluarte ou centro não somente de formação religiosa mas também um ponto central
do movimento litúrgico do apostolado da “Boa Imprensa”. Vinte anos trabalhados
quase às escondidas num barracão escondido na horta do convento, vida oculta, vida
de catacumbas. Mas agora saímos para a praça pública tendo vencido a primeira fase
de lutas. [...] E com a proteção de Santo Antônio esperamos vencer também a
Segunda dificuldade, de caráter financeiro, a aquisição de máquinas modernas. Só
assim podemos conseguir alguma coisa no apostolado da boa imprensa. Para
Divinópolis com seus 45 a 50 mil habitantes o Apostolado da Boa Imprensa é de
uma necessidade premente e urgente. [...] A imprensa ímpia espalha os erros mais
grosseiros: a corrupção de livros maus, folhetos e jornais envenenam os espíritos e
os corações e destrói todas as noções dos direitos divinos e humanos. Nada adianta o
ensino religioso na escola, nem os esforços dos pais, quando não se controla e
melhora a leitura dos jovens. Nada adianta construir um monumento como o Cristo
Redentor, quando nada fazemos contra a imprensa ímpia, contra o mau livro, que
destroem Cristo nos monumentos vivos, que são os corações de nossa juventude.”32
A modernização dos costumes, os anseios pela conquista de direitos e os apelos à
liberdade apontavam as dificuldades que o mundo católico enfrentaria ao ser levado à
convivência com a diversidade. Mas a Igreja, após superar a ruptura com as estruturas de
poder ocorrida na instalação da República, se reabilitara numa atitude de colaboração com o
Estado nos anos 30 e 40, juntos pela manutenção da tradição católica brasileira e pela ordem
social.
Depois de 1945, o apoio oficial à causa católica ainda ocorreu em situações como na
atitude do Ministro da Justiça, Sr. Adroaldo Mesquita, ao se identificar com a campanha pela
moralidade nos veículos de entretenimento e de informação utilizados pela população. A
conduta do representante do governo em prol dos interesses da Igreja Católica, ao ferir
conquistas já consolidadas em lei pelo livre arbítrio e pela liberdade de expressão, levantou
debate polêmico estampado através da imprensa nacional.
Num tom irônico, o jornalista Sr. J. E. de Macedo, teria usado a expressão - “Ministro
de Sacristia” para criticar a posição do representante do poder público, situação logo rebatida
pela imprensa católica:
“À imoralidade que se derrama pelos jornais, se estampa nas revistas e se exibe nos
cinemas, opôs-se o Sr. Ministro da Justiça através de portarias salutares, ordenando
às autoridades a profilaxia necessária e determinando-lhes os meios para fazê-lo. [...]
Pois bem, esse fato edificante que descrevemos, e que deve servir de exemplo aos
homens públicos do Brasil, foi pretexto de que lançou mão o Sr. J. E. de Macedo
Soares, descontrolado pelas emoções de uma campanha fracassada, para firmar um
artigo indigno de sua brilhante pena de jornalista. [...] do que precisa o Brasil hoje, é
32
Revista Santa Cruz, Ano XX – junho de 1955 p. 112-113.
196
justamente voltar às suas fontes. E estas estão nas sacristias. Sabe muito bem o sr.
Presidente onde encontrar personalidades de que nossa terra precisa e de que o seu
governo orgulha.”33
Os jornais e revistas católicos, além dos temas religiosos que lhes eram peculiares,
abordavam também as questões políticas de cada momento. Mas apresentavam-se sempre
num tom de denúncia e de oposição ferrenha às manifestações sociais e às doutrinas que lhes
pareciam ameaçadoras da ordem e provocadoras de alterações drásticas do status quo.
O sinal dos novos tempos e as transformações gerais decorrentes de sua incorporação
à vida social em suas várias dimensões eram por vezes alvo de repúdio, como se a Igreja
procurasse correr contra o tempo e colocar-se em sentido contrário à força da modernidade. A
preocupação em veicular conteúdos de melhor qualidade pela imprensa, insistência em
modelos de comportamento mais rigorosos resistentes ao assédio da moda e das transgressões
à tradição, o tom apologético de seus pronunciamentos eram a tônica dos assuntos abordados
nas matérias e artigos de seus periódicos. As palavras do Pe. Arlindo Vieria, reproduzidas no
artigo, “Outra voz autorizada fez-se ouvir”, expressam bem essa situação:
“Para as livrarias e vendedores de jornais, a propaganda moderna de livros, revistas
e jornais, programas radiofônicos, de filmes mais ou menos imorais, insuflando a
sensualidade incita os homens a desprezar as normas antigas do lícito e do ilícito.
[...] Um falso conceito de liberdade justifica todos os desregramentos morais. Os
chamados governos democráticos soltando as rédeas ao homem animal afim de não
ferir nem de leve o ídolo da liberdade, preparam a própria ruína.”34
Além das constantes denúncias de atentado à moral e aos bons costumes, enriquecidos
com orientações para preservá-los, os jornais condenavam os chamados opositores da fé.
Entravam no rol de seus inimigos, as religiões, seitas e organizações tidas como prejudiciais
ao corpo social, consideradas como verdadeiros cancros nocivos ao bem estar coletivo.
33
Jornal A Semana – 9.01.1949.
34
Jornal A Semana – 10.07.1949.
197
4.4 Os jornais à serviço do combate ao Espiritismo
Nas publicações locais, e naquelas de tiragem regional e nacional que circulavam no
município, eram freqüentes os alertas contra o Espiritismo, destacados em frases de efeito:
“Cuidado com o Espiritismo! A Igreja Católica proíbe, sob pecado, a todo e qualquer
católico, ainda o mais firme na fé, que assista às sessões do Espiritismo, para não dar apoio
moral à heresia, escandalizar aos outros e causar grande prejuízo à saúde”.
Os responsáveis pelas matérias e artigos procuravam fundamentar sua condenação
detalhando casos, pintados como verdadeiras tragédias, ocorridos com pessoas envolvidas
com o Espiritismo, usando muitas vezes de uma estratégia alarmista para desestimular as
adesões dos católicos. Eram também citadas avaliações de especialistas, em grande parte
médicos, que condenavam a prática do espiritismo por considerá-las um mal à saúde do corpo
e da mente. Além disso, apoiados em outras avaliações, condenavam-no por seu corpo
doutrinário, suas pregações e concepção de mundo, em muitos casos, depreciando até mesmo
suas práticas de assistência social.
Uma das cenas fatídicas divulgadas foi tirada do jornal “O Lutador”. Estampada pela
manchete “Mais uma tragédia do espiritismo”, descrevia em tom dramático a destruição de
um lar pelo espiritismo:
“Na madrugada de Sábado, 14 de maio, em sua residência ... o lavrador Aristides
Veloso, de 46 anos de idade, que vinha freqüentando sessões espíritas na residência
de Valdomiro de tal, estando nessa madrugada (talvez com o próprio espírito no
corpo), armou-se de uma foice e desferiu vários golpes na cabeça e corpo de sua
esposa Ernestina de Almeida Veloso, a qual, devido a gravidade dos ferimentos,
veio a falecer, horas depois na Santa Casa... O espírito mau, encarnado em Aristides,
não estava satisfeito e, sedento de sangue, avança para a cama onde dormiam os dois
filhos menores – Roque de 9 anos, e Verderer de 7 anos – e assassina-os também
...”. 35
Havia também uma preocupação em explicar a doutrina espírita e suas práticas,
alertando para seu nível de organização e sua pretensão de tornar-se uma religião:
“O espiritismo é atualmente a forma mais espalhada e mais perigosa de superstição.
Tem revistas, tem congressos, as conferências espíritas multiplicam-se nas cidades,
35
Jornal A Semana – 10.07.1949.
198
invadem os sertões, sob capa de boa doutrina, embasbacando o povo simples e
insinuando-se como meio de da um remédio para todos os males. Acautelem-se os
incautos! Consiste em uma série de experiências, mais ou menos bizarras mesas
giratórias e falantes, veladores que se movem, falam e escrevem) pelas quais os
adeptos se gabem de entrar em comunicação com os mortos. Esta comunicação se
faz por intermédio de uma pessoa viva, homem ou mulher que se denomina
médium. [...] Mas, o espiritismo não é somente um jogo mais ou menos divertido e
perigoso, tem pretensões de entrar em comunicação com os espíritos. Outra, mais
perigosa ainda, é a de querer substituir a verdadeira religião, fundar uma nova – a
religião do futuro. Os espíritas não admitem nem céu, nem inferno, nem purgatório,
mas a transmigração a reencarnação e uma sucessão de vidas depois desta. Por isto,
vê-se o cuidado da Igreja para nos por em guarda contra o espiritismo.”36
A Igreja chegou a considerar o espiritismo como a crença mais ameaçadora e com
maior perspectiva de expansão naquele momento, demonstrando preocupação não só com o
espiritismo de fundamentação kardecista, mas também, e principalmente, em relação ao
espiritismo supersticioso, voltado para adivinhações e curas. Seu receio ficou assim
demonstrado:
“Confessamos francamente, que nem a maçonaria, nem o protestantismo nem
qualquer outra seita faz tantas vítimas. O Espiritismo é uma invasão ameaçadora
como nunca houve no Brasil. [...] O que nos ameaça como um dilúvio, são as
práticas espíritas ... o povo ignorante presta fé aos pregadores do espiritismo...”.37
A Igreja buscava sustentação para sua discordância em relação ao Espiritismo a partir
das escrituras, afirmando que a força evocada pelos espíritas não viria de Deus, pois: “Ele na
sagrada escritura reprova e castiga a prática de evocar e consultar os mortos (lev. XX, 57;
Deut. XVIII, 10 13). O homem morre uma só vez (Hebr. IX, 27). O rico morreu e foi sepultado
no internom (Luc., XVI, 22)”.38
Segundo afirmações do clero católico, os espíritas a todo momento, através de sua
crença e de seus ensinamentos, estariam negando os dogmas fundamentais da religião:
“O dogma do pecado original, do purgatório, do inferno, do céu, da redenção do
homem, da necessidade da graça sobrenatural para a salvação, da ressurreição e até
36
Jornal São Francisco – Ano IX, nº 114, 01.11.1931.
37
Jornal São Francisco – Ano IX, nº 113, 15.10.1931.
38
Jornal Interno A Semana – 11.11.1945.
199
mesmo da divindade de Nosso senhor Jesus Cristo. Em suma:“O espiritismo nega
toda a religião sobrenatural e é, portanto, uma das piores heresias”.”39
Nos jornais sempre eram expostas as advertências da Santa Sé sobre o espiritismo,
proibindo terminantemente aos católicos freqüentarem suas sessões, sob pena de cometerem
pecado grave, como aponta o trecho selecionado:
“A Santa Sé, pelo órgão da S. Congregação do S. Ofício, em 30 de maio de 1898,
declarou: Não é lícito consultar as almas dos mortos, ainda quando se exclua todo o
pacto com o espírito maligno e pelo contrário se dirija uma oração especial a S.
Miguel, príncipe da milícia celeste, para permitir que se fale com o espírito de uma
pessoa determinada; e ainda quando as respostas dadas por escrito, sejam em tudo
conformes com a fé e o ensino da Igreja sobre a vida futura, dizendo o estado da
alma que pede sufrágios e se queixa da ingratidão dos parentes.”40
A tipografia de Divinópolis também foi útil ao publicar folhas explicativas sobre o
espiritismo, atendendo às necessidades da paróquia e aos vigários de cidades vizinhas na
propaganda anti-espírita. No aviso exposto na revista de Santa Cruz as intenções subjacentes à
nova estratégia foram assim divulgadas:
“Visto que em muitas paróquias o espiritismo é o pior inimigo da religião,
aconselhamos àqueles entre os nossos vigários que têm que lutar muito com esta
praga, que espalhem entre o povo, e em grande escala, folhas soltas com refutação
dos erros do espiritismo e explicação da verdadeira doutrinas. Para tanto poderão
entender-se com Frei Respício combinando com o mesmo sobre o número de
exemplares, etc.”41
Um fato pitoresco ocorrera em 1946, na época, por iniciativa do vigário Frei Carlos
Schep, iniciou-se a construção do Santuário de Bom Jesus no bairro Niterói. A comunidade
participava com contribuições diversas. Os mais ricos faziam donativos em dinheiro ou
através de material de construção, os mais pobres resolveram fazer doações em ovos. Esse
procedimento teve grande repercussão quando o jornal espírita “A Flama”, de Uberaba, teria
denunciado o fato, considerando-o uma exploração do povo pelos padres. A resposta dos
católicos veio pelo caminho esperado, na “coluna da RAF”de Frei Rafael, com o título, “Os
39
Jornal Interno A Semana – 11.11.1945.
40
Jornal Interno A Semana - 14 de outubro de 1945.
41
Revista de Santa Cruz, Ano IX, nº 4, abril de 1939.
200
morcegos de Uberaba”. Depois de explicar o fato e usar de muitos xingamentos, o redator
finalizou referindo-se à força inabalável da Igreja, através dos tempos, ao enfrentar críticas e
perseguições:
“Sim, senhor! Mais um daqueles ignorantes e coitados que nasceu ontem e hauriu a
sua ignorância de alguém de ante-ontem, se atreve a atacar a fortaleza inexpugnável
da Igreja Católica! Você, então, pensa conseguir o que Votaire, Jean Jacques
Rousseau, Lutero, Calvino, Zwinglio, e outros ateus e hereges tentaram e não
conseguiram? Deixe de lero-lero, por favor! Beba mais água do pai Jacó e pai
Simão, para fazer uma limpeza na tétrica escuridão da sua inteligência.”42
O clero acreditava que na Europa, o espiritismo era menos ameaçador em função de
no velho mundo haver maior disponibilidade de sacerdotes, dos católicos receberem uma boa
instrução religiosa e por praticarem sua religião com mais convicção.43
4.5 A difícil convivência com os Protestantes
A relação da Igreja Católica com o protestantismo foi diferente, pois esse representava
a ruptura do Cristianismo deflagrada no século XVI por Lutero, abrindo o precedente para o
surgimento de novas religiões cristãs tais como: os Presbiterianos, os Batistas, os Metodistas,
os Pentecostais e outras, propagando-se pelo mundo.
A Igreja Católica desde o início procurou evitar a proliferação do protestantismo,
criando mecanismos para a expansão da Religião Católica Apostólica Romana, obediente ao
papa e orientada para a interpretação do evangelho, de acordo com as prescrições da Santa Sé
e da hierarquia eclesiástica. O desafio não foi fácil, em função do desenvolvimento do
pensamento liberal, ideologia consolidada pelas revoluções políticas e pela industrialização
capitalista, responsável em grande medida pela instauração da modernidade. Em decorrência
desse processo, ocorreram novas interpretações de mundo impulsionadas pela liberdade de
culto e de expressão, dando força para o crescimento de doutrinas confrontantes com o ideário
católico.
42
Jornal A Semana – 13.10.1946.
43
Artigo “O Espiritismo na Europa”. In: Jornal São Francisco Ano III, nº 3 julho de 1929.
201
A imprensa foi amplamente utilizada na disputa de espaço entre as religiões, buscando
cada uma delas, arrebanhar o maior número possível de fiéis, usando cada uma seu discurso e
sua interpretação da Bíblia. Através de jornais, folhetos, periódicos, revistas procuraram expor
a sua verdade, a sua crença, os seus rituais, as suas normas de conduta e os benefícios sociais
e sobrenaturais advindos da fidelidade uma determinada crença.
A imprensa católica se esforçava para apresentar ao leitor as desvantagens inerentes à
conversão ao protestantismo, apontando os argumentos anticatólicos usados pelos mesmos,
como se os protestantes estivessem sempre procurando crescer discordando de aspectos
doutrinais do catolicismo.
Na Revista de Província de Santa Cruz, alguns artigos trataram do protestantismo em
Minas Gerais, apontando formas de combatê-lo. Havia uma preocupação com os meios
utilizados pelos protestantes na tentativa de conversão dos católicos. Esse tema foi assim
abordado por um dos artigos da Santa Cruz:
“E entretanto, há brasileiros, nascidos de pais católicos, batizados na Igreja católica,
que abandonam sua Religião para virar protestante. Como é que isso se explica,
primeiro, pela profunda ignorância religiosa de muitos católicos. Muitos católicos
não vêm à Missa aos domingos, nunca ou raramente ouvem a pregação dos Padres,
não sabem nada de sua religião e assim não sabem defender-se contra os
propagandistas protestantes. Segundo, porque o protestantismo é uma religião muito
fácil. Não manda confessar seus pecados, não manda ouvir missa nos domingos, não
exige jejum e abstinência de carne, numa palavra, não exige nenhuma daquelas
coisas que muitos católicos tíbios e relaxados acham tão difíceis. É verdade, a
religião protestante é uma religião muito fácil, muito cômoda. É uma religião muito
fácil para a gente viver nela, mas não é boa para a gente morrer nela. Pois depois da
morte o inferno espera os apóstatas.”44
Num dos números, foi divulgado o resultado de um círculo de estudos realizado no
nordeste mineiro durante o Congresso Bíblico Eucarístico de Teófilo Otoni. Este círculo
debateu sobre a atuação dos protestantes e a atitude do clero perante o protestantismo. Dentre
suas conclusões destacam-se a eficácia dos meios de propaganda por eles utilizados:
“A propaganda destas seitas é feita por meio da venda de livros, distribuição de
folhetos, uso de alto-falantes, filmes visitas domiciliares, para as quais recorrem ao
trabalho dos leigos, pregação na rua, ensino, até “giros” na roça. [...] Mandam de vez
em quando vir pastores de fora para reavivar a fé dos crentes. Entre estes meios, dão
maior valor ao ensino. Daí o esforço muito grande para disseminar em toda parte
44
Revista de Santa Cruz, Ano VII, junho 1942.
202
ginásios, escolas de comércio. Aproveitam-se também das profissões de dentista e
farmacêutico para penetrar no interior.”45
Como resultado do evento, concluíram que não estava ocorrendo grande propagação
das seitas, mas seu efeito nocivo estaria em suas pregações e questionamentos que, ao
atingirem o público católico, estariam suscitando dúvidas nesses quanto à veracidade da
doutrina Católica. O clero, ao refletir sobre o tema, paradoxalmente considerou esse efeito
benéfico, se bem conduzido pelo corpo eclesiástico, por provocar nos católicos, maior
disposição para a leitura da Bíblia. A partir desse diagnóstico, apontaram como alternativa a
preparação dos fiéis para a defesa de sua religião:
“Para fazer frente ao protestantismo torna-se necessário nas práticas cuidar da boa
explicação da doutrina católica, expondo também os pontos em que se diferencia do
protestantismo e porque se diferencia. É necessário incentivar o culto externo, de
modo todo especial a Santa Missa dialogada; vender Bíblias, e possivelmente
Bíblias baratas, catecismos e Histórias Sagradas; procurar o mais possível apresentar
ao povo algo de novo no movimento religiosos, porque o povo do interior leva a
vida monótona, necessita de alguma coisa que o distraia e quebre a monotonia da
vida. Para este fim, os vigários têm constatado ser de muita utilidade o costume de
Nossa Senhora Visitadora. Esta visita deve ser acompanhada do terço e de um
pequeno sermão. É preciso aproveitar também, onde isto for possível, o auxílio das
Freiras, fazendo com que cheguem mesmo a dar publicamente instrução nas ruas da
cidade...”46
Os sacerdotes concluíram: “Julgam, outrossim, urgente a fundação de ginásios, escolas
comerciais, colégios católicos nas regiões devastadas pelo protestantismo.”47
Era uma unanimidade entre o clero o fato de encararem como elemento dificultador de
seu trabalho de evangelização e de proteção aos fiéis católicos, a capacidade que os
protestantes demonstravam em relação ao conhecimento da Bíblia. Tal Fato colocava os
católicos em desvantagem num possível debate, por estes normalmente não terem como
prática uma leitura mais criteriosa das escrituras. Reconheceram que: “Os protestantes
conhecem a sua fé . Sabem se justificar. Conhecem bem o que crêem. Sabem de cor vários
textos escriturísticos, com os capítulos e respectivos versículos”.48
45
Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957.
46
Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957.
47
Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957.
48
Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957.
203
A partir dessa constatação, o clero buscaria então um maior investimento na formação
dos católicos, proporcionando-lhes uma maior capacidade de argumentação, selecionando os
temas mais freqüentes nas discussões, e que, por vezes, em função da desinformação,
colocavam o católico em situação de desvantagem numa confrontação de idéias. Como parte
do elenco de questionamentos dos protestantes sobre o catolicismo foram destacados: a missa,
o purgatório, as imagens de santos e o celibato clerical. Outros aspectos da doutrina e prática
católica eram também contestados pelos protestantes, como o dogma da transubstanciação, o
poder dos padres de perdoar os pecados e a infalibilidade do papa. Todos esses pontos
estariam sendo tratados numa pequena publicação de cunho didático-explicativo para que os
católicos pudessem ter como material de consulta:
“Uma equipe de clérigos do nosso corista de Teologia está projetando a edição de
pequenas brochuras contra o protestantismo. O método a ser empregado é o irêncio.
Expor-se bem a doutrina católica e de modo indireto se procurará refutar o erro
protestante. Folhetos e livros protestantes serão muito bem aceitos por esta equipe
para que possa assim, com fruto, continuar o seu trabalho, baseado na realidade
brasileira. Espera a equipe que com estas brochuras poderá auxiliar eficientemente
no combate ao protestantismo.”49
O convento de Divinópolis, na festa de Pentecostes de 1953, recebeu a visita de um
ex-pastor protestante, convertido ao catolicismo, o professor Norberto Evaristo da Costa. Ao
conferenciar aos coristas, o professor respondeu as perguntas dos estudantes e padres,
destacando aspectos do movimento protestante em Minas Gerais. O palestrante chamou a
atenção para vários aspectos, citando por exemplo, a visão dos protestantes sobre a ignorância
dos católicos em relação à Bíblia. Por isto investiam na instrução através da suas escolas
dominicais para crianças, jovens, homens e senhoras. Observou que, além de contarem com
os pastores, os protestantes dispunham também do trabalho assíduo dos leigos evangélicos,
preparados em todas as camadas sociais, priorizando sempre os que pelo seu ofício, teriam
mais condições de exercer o apostolado. Concluiu avaliando que, de um modo geral, a
doutrina seguida em Minas Gerais seria predominantemente calvinista e em menor escala
luterana. O artigo que menciona essa conferência se encerra reforçando a necessidade urgente
49
Revista de Santa Cruz, Ano XXII, junho e julho de 1957.
204
de se fortalecer em cada paróquia a Ação Católica, como instrumento de evangelização e de
combate ao avanço protestante.50
4.6 O debate com Maçonaria pelos jornais e boletins
A “boa imprensa” declarou guerra também à Maçonaria, considerada organização
secreta e anticristã em função de seus princípios e por suas práticas anticlericais. Nesse caso
em particular, a cidade de Divinópolis foi cenário de tumultuadas relações da Igreja com a
Maçonaria. Os livres pensadores e os maçons eram avessos ao que consideravam
tradicionalismo católico e no âmbito local, travaram com seus representantes debates
constantes, muitas vezes sustentando um discurso anticlerical. A Igreja, por sua vez, utilizou
das armas que dispunha: os sermões, a catequese, o trabalho das entidades católicas e
principalmente, fez da imprensa um eficiente instrumento de informação e de debate, sabendo
através dela, lidar com o imaginário coletivo.
A Maçonaria instalou-se bem cedo no município, composta de elementos influentes da
comunidade. Em função de sua abrangência regional, a Loja de Divinópolis acabou atuando
fora dos limites da cidade.
O confronto maior com os maçons se deu através de Frei Rafael, no artigo, “Uma
bofetada no rosto do povo católico de Divinópolis”. Lamentou uma afirmação feita pelos
maçons acerca do clero:
“Recordo-me da incansável figura do Frei Metelo, e de outros vigários, aos quais o
nosso povo deve alguma coisa, vejo-os, agora, qualificados, carimbados, acusados e
desprezados por um punhado de maçons e outros agitadores, dizendo: “Ou o Brasil
acaba com o padre, ou o padre acaba com o Brasil.”51
Os maçons posicionavam-se como defensores dos tempos modernos. Influenciavam a
conduta desses homens, a sua condição social, seu grau de instrução e o compromisso com o
ideário da Maçonaria, entidade historicamente envolvida com a causa libertária no século
XVIII e XIX. Isso explica terem batido de frente com a Igreja em várias situações. Uma delas
50
Revista de Santa Cruz, Ano XVIII, junho 1953.
51
Jornal A Semana – 15.12.1946.
205
teria sido na questão do ensino religioso nas escolas públicas como foi abordado pelo jornal
“A Semana”:
“Os maçons protestaram veementemente contra o decreto do ex-interventor, que
instituiu obrigatoriamente o ensino religioso nas Escolas de Minas, dizendo, que este
decreto veio destruir uma das maiores glorias conquistadas pela civilização e pela
democracia, que é a separação da religião do Estado. Eles dizem o direito de adorar
a Deus pelo modo que lhes convir é um direito sagrado da democracia, e atentar
contra ele é querer destruir a célula mater da sociedade – a família!” 52
No mesmo texto, a justificativa católica para o ensino religioso nas escolas relacionase a idéia de que um povo para buscar suas bases morais e patrióticas precisaria da religião:
“Que a religião na educação de um povo ou nação seja simplesmente necessária para
não recaírmos no culto de super-homens, ou na supersticiosa adoração de um
talismã, como os índios e pagãos dos tempos passados. [...] Que os meus leitores
compreendam esta relaxada, frouxa e tuberculosa religião maçônica! ... sem religião
não pode haver formação religiosa, moral e patriótica.”
O autor faz outras críticas aos maçons, referindo-se à visão dos mesmos sobre a
existência de Deus:
“E é então com essa religião murcha do Arquiteto-Supremo que os maçons se
contentam... [...] Os senhores maçons fiquem sabendo que Deus nunca se revelou
como Arquiteto-Supremo. Jesus Cristo não veio a este mundo para ensinar
matemática ou aritmética. Veio antes pregar, com a palavra e com o exemplo a vida
virtuosa. Não nos ensinou o segredo das forças dos elementos.”53
4.7 Uma imprensa essencialmente anticomunista
As letras garrafais do jornal “A Semana” davam conta do tamanho de outro inimigo do
catolicismo e da ordem social, cujo calibre exigia um ajustamento do poder de fogo. Tratava-
52
Jornal A Semana – 24.11.1946.
53
Jornal A Semana – 01.12.1946.
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se do comunismo, que ganhara novos contornos na conjuntura do pós guerra. A estampa
ampliada do mal, destacada antes mesmo do título do jornal, mostrava ao leitor, com clareza,
a dimensão de sua nova missão enquanto cidadão: “Brasileiros! Por amor à Cristo, ao Brasil,
à honra e à dignidade de nossas Mães e Filhos, ainda é tempo, lutemos contra o
comunismo!”.54
Dentre os inimigos da Igreja que tomaram espaço nas páginas de suas publicações
através de alertas e de críticas, o comunismo, certamente, foi o que mais provocou debate e
exigiu atenção especial do corpo eclesiástico. No ímpeto de combatê-lo, sempre eram
expostas notícias escandalosas sobre os países adeptos desse modelo. Os acontecimentos
nacionais eram tratados como tema de segurança e os princípios ideológicos e materialistas do
comunismo eram veementemente rebatidos pela doutrina social da Igreja.
A Igreja temia a propagação das idéias comunistas entre os operários. Essas idéias
eram favorecidas pela conjuntura de ampliação das contradições do capitalismo que expunha
o proletariado à exploração, tornando-os vulneráveis ao pensamento comunista. Além disso, o
comunismo deixara, desde 1917, de ser um corpo doutrinário usado como armadura para o
movimento operário internacional. Transforma-se numa experiência real, num verdadeiro
modelo sócio-econômico, político e cultural de sociedade capaz de se contrapor ao modelo
capitalista e apresenta-se como uma alternativa, tornando-se uma referência para a luta
revolucionária internacional.
Todos os jornais e revistas católicos que circularam entre os anos 30 e 50 traziam
alguma referência à questão, num tom muitas vezes alarmista, dando sempre a impressão de
que havia necessidade de se prevenir contra o mal. O comunismo mostrava sua dimensão
enquanto força persuasiva. Precisava ser criada uma trincheira com as devidas adesões
políticas para combater o perigo da bolchevização.
A hierarquia católica estava consciente de que os tempos depois da guerra eram outros
e de que os abusos do capitalismo deveriam ser também contidos para que o discurso
comunista não chegasse a ser impactante o bastante para alterar a ordem das coisas. Essa
evidência foi assim tratada num texto de 1945:
54
Jornal Interno A Semana – 29.12.1946.
207
“... Para salvar o Brasil e a civilização cristã não basta, nem de longe repudiar o
comunismo. Ninguém se iluda, assim como eram as coisas antes da guerra, não
poderão continuar. Impõe-se, irresistivelmente, uma reforma mundial, uma reforma
social e econômica que irá acabar com os absurdos e excessos do liberalismo
econômico, ou seja, o capitalismo desenfreado. Tal reforma virá, quer o queiram os
capitalistas, quer não. Daí de duas uma: ou os patrões serão roubados contra sua
vontade pelos comunistas, ou então, os próprios patrões tomarão a iniciativa,
realizando por livre vontade um reajustamento econômico entre o capital e o
trabalho. Pois só assim é que se combate eficazmente o comunismo, isto é, por
obras, não por palavras e vaias.”55
A Igreja demonstrou lucidez ao encarar os fatos. As condições de funcionamento da
sociedade capitalista, a seu ver, exigiam seu posicionamento político e a introdução imediata
de mudanças na estrutura econômica e nas relações entre capital e trabalho. Sua disposição
para o enfrentamento sustentou-se na proposta corporativista envolvendo capital, trabalho e
Estado e lançou-se numa tarefa particularmente decisiva naquele contexto: a de apontar um
caminho anticomunista para a organização dos trabalhadores através do movimento operário
católico, envolvendo sindicatos, a Juventude Operária Católica e formas supra-sindicais,
como foram os Círculos Operários. Fazia parte de suas recomendações para evitar o avanço
vermelho, a proposta de melhoria da distribuição de renda por meio da participação dos
operários nos lucros das empresas, como foi abordado pelo Revmo. Cônego José Távora,
secretário do Arcebispo do Rio de Janeiro e publicado em jornal da capital. Devido à
repercussão dessas idéias, o Episcopado Brasileiro pronunciou-se através de Pastoral
Coletiva:
“... É preciso saber que nisso de participação dos operários nos lucros das empresas
não há nada de novidade, que é pensamento tradicional da Igreja. Qualquer
compêndio completo de sociologia católica trata do assunto, que está expresso,
diretamente na Encíclica Quadragesimo Anno. Infelizmente a doutrina social da
Igreja é pouco conhecida e divulgada. Daí a curiosidade que se fez em torno do tema
da participação dos lucros. Aliás o documento do episcopado nacional tem que ser
analisado em bloco e não em trechos isolados. Tratando dos problemas sociais, por
exemplo, foi ali afirmado que qualquer reforma social em face das empresas
econômicas, deve olhar com equidade as possibilidades de equilíbrio dessas. Uma
medida social que desorganizasse centros de trabalho e produção ou provocasse
injustiças em qualquer dos lados interessados, seria antes de tudo desastrosa.”56
55
Jornal Interno A Semana – 30.09.1945.
56
Jornal Interno A Semana – 30.09.1945.
208
O Cônego José Távora procurou em sua fala explicar o sentido desta eqüidade,
demonstrando as alternativas que poderiam ser adotadas pelos patrões:
“Um dos modos de se distribuírem os lucros, sem o perigo do esbanjamento ou de
má aplicação, será a criação dos Serviços Sociais... [...] Outra parte dos lucros deve
ser aplicada em obras sociais, em assistência técnica sanitária, na construção e
manutenção de instituições para os filhos de operários, em serviços médicos, além
da construção de casa baratas a serem alugadas por preços ao alcance do salário do
trabalhador.”57
A ameaça comunista tinha tomado proporções internacionais, colocava em risco o
modelo capitalista ocidental liderado pelos Estados Unidos e acabou por provocar a união das
Igrejas Cristãs através da condenação feita pelo Conselho Mundial de Igrejas. Após a
proclamação feita pelo Vaticano contra o comunismo, a Igreja recebeu a adesão dos
Protestantes e Ortodoxos, fato comentado em editorial pelo New York Times:
“A atitude das diversas religiões, é conjunta. Mesmo assim, as diferenças
doutrinárias entre as seitas e religiões, continuarão. Há entretanto, uma causa
fundamental que une todos aqueles que depositam a sua fé nas possibilidades da
igualdade e no futuro dos homens, sob as vistas de Deus. Resistir à tirania, em
qualquer parte do mundo, constitui um auxílio àqueles que já estão oferecendo uma
resistência. Nesta crise fundamental de liberdade, há uma unidade básica entre os
amigos da liberdade.”58
Quando os jornais católicos referiam-se à realidade brasileira, não foram poucas vezes
que atacaram o líder do Partido Comunista no Brasil, Luiz Carlos Prestes, como um elemento
nocivo, capaz de ludibriar os incautos, como demonstra o trecho: “Outro dia o “fueher”
vermelho fez em São Paulo um discurso, afirmando, entre outras coisas mais, que é só o alto
clero, que vive nadando em ouro, que é contra o comunismo, e não os padres pobres!!!”.59
Outro personagem nacional ligado ao Partido Comunista foi Jorge Amado, que teria
sido criticado por divulgar falsas idéias sobre o catolicismo e por ser propagandista do
comunismo. Frei Rafael num de seus artigos procura refutar a argumentação usada por Jorge
Amado para convencer os católicos sobre a compatibilidade entre catolicismo e comunismo:
57
Jornal Interno A Semana – 7.10.1945.
58
Jornal A Semana – 14.08.1949.
59
Jornal Interno A Semana – 14.10.1945.
209
“Os padres fazem do púlpito verdadeiros meetings contra o comunismo. Todas as
velhas chapas são repetidas: Os comunistas são filhos do demônio, almoçam
crianças e jantam freiras, recebem dinheiro de Moscou e bebem sangue humano pelo
menos quatro vezes por dia. Religião é uma coisa política é outra. Em nosso partido
estão centenas de bons católicos, centenas de bons espíritas e centenas de bons
protestantes.”60
Frei Rafael, após transcrever a fala do romancista em defesa do comunismo, fez suas
críticas:
“Este Jorge Amado é também daqueles milhares que se dizem bons católicos, e
mais. Ele é católico, apostólico, romano e comunista. É um daqueles que também
vive sob o jugo inflexível do “Magister é, Luiz Carlos Prestes dixit”, e por isso,
lança seus anátemas fuzilantes contra os padres que condenam o comunismo. Ele
troca a sua felicidade eterna por um prato de lentilhas, preparado e oferecido gentil e
gratuitamente a todos os adeptos da Rússia Soviética, pelo cavaleiro da desesperança
tão elogiado pelo jornal “Reação Brasileira”.”61
O perigo comunista tinha que ser apresentado como algo iminente e bastante próximo
para que houvesse reconhecimento público de sua verdadeira ameaça. Para tanto, eram
destacadas suas intervenções no meio social, sua influência no meio político e as ocorrências
que faziam dele o responsável por momentos de perturbação da ordem e da segurança pública.
Interessante foi esta observação feita sobre Intentona Comunista de 1935:
“É só lembrar a traiçoeira intentona comunista de 1935, na qual barbaramente foram
assassinados oficiais do exército nacional enquanto dormiam tranqüilamente!... Luiz
Carlos Prestes é assassino de Elza Fernandes, menina inocente e réu de muitos
outros crimes. A bancada comunista em peso votou contra o nome de Deus na nova
Constituição brasileira, votou contra a indissolubilidade do matrimônio e não
aceitou nenhum postulado da Liga Eleitoral Católica.”62
Completando o sentido da ameaça, representada pela Intentona, foi citada a polêmica
afirmativa feita por Prestes: “Nós, os comunistas do Brasil, no caso de uma guerra do Brasil
contra a Rússia, lutaremos contra o Brasil”.63 A intenção era associar o avanço comunista
60
Jornal Interno A Semana – 07.04.1946.
61
Jornal Interno A Semana – 7.4.1946.
62
Jornal A Semana – 02.02.1947.
63
Jornal A Semana – 02.02.1947.
210
como parte de uma grande estratégia de dominação internacional que colocava em risco as
instituições e a segurança dos cidadãos.
Por vezes, tornava-se necessário mostrar aos católicos o que de concreto estava sendo
feito para barrar o comunismo em várias partes do país, sempre com o intuito de estimular
um grande mutirão nacional em defesa da moral e da ordem. Tal ação era empreendida para
que os grupos organizados e os moradores das cidades se sentissem motivados a agir em torno
daquela causa. Exemplifica essa postura o comício da União de Resistência Nacional
realizado em 16 de agosto de 1945 na cidade de São Paulo. Nesse evento, teve destaque o
discurso do operário Galdino Ramos, que foi reproduzido e divulgado como uma
interpretação a ser incorporada pelos trabalhadores:
“Operários de São Paulo! O comunismo não pode ser a bandeira do operário, pois o
comunismo não somente se dirige contra o capitalismo, mas ao mesmo tempo, voltase contra a propriedade, contra a família e contra a religião. [...] Nós não os
escutamos, porque não acreditamos neles, porque sabemos que eles escondem os
seus verdadeiros fins, que hoje, além de materialista e ateu, é também, imperialista
servindo aos interesses de uma potência estrangeira. Eu pergunto aos operários do
Brasil com toda a sinceridade da minha voz: Por que razão o Partido Comunista não
se chama Partido Comunista Brasileiro, e sim, Partido Comunista do Brasil? Nós
sabemos porque. Nós sabemos que eles são do Brasil e não brasileiros, porque são
uma sucursal, uma filial, uma dependência, um elo de um movimento internacional
que ameaça a nossa Pátria.” 64
Sobre o caráter estrangeiro do comunismo, como representante de interesses
imperialistas internacionais, foi citada como exemplo, uma reunião dos comunistas divulgada
pelo jornal “Tribuna Popular”. Posteriormente, a cena foi usada por jornais católicos para
justificar o vínculo dos comunistas brasileiros com organizações e governos internacionais:
“Por traz da mesa, onde sentavam os dirigentes do P.C.B. , sobre um fundo
vermelho, estava um grande e artístico retrato de Mao-Tse-Tung e ao lado a seguinte
inscrição em azul: O Partido Comunista do Brasil a Mao-Tse-Tung, o heróico
bolchevique, é o dirigente máximo do Partido Comunista na China, é o presidente de
honra do pleno”. Está aí implícita a confissão do internacionalismo. [...] Ao lado da
mesa, numa tribuna pintada de branco, destacava-se o emblema internacional do
Partido dos Trabalhadores: a foice e o martelo. E mais, encerrando a cerimônia,
todos de pé cantaram a Internacional, hino imortal dos trabalhadores.”65
64
Jornal Interno A Semana – 28.10.1945.
65
Jornal Interno A Semana – 07.07.1946.
211
Os jornais se encarregavam de fazer circular manifestações variadas de repúdio ao
comunismo, ocorridas em vários pontos do país:
“Graças a Deus, o povo brasileiro começa a compreender a situação, levantando-se
contra os emissários da Rússia Vermelha. De todos os cantos do imenso Brasil, nos
vem notícias animadoras sobre a reação expontânea e em massa dos bons brasileiros
contra os escravos de Luiz Carlos Prestes. Aí fracassou um comício por falta de
interesse, ali o orador não chegou a pronunciar seu discurso por causa das vaias
estrondosas. Em São Leopoldo, importante centro industrial do Rio Grande do Sul,
só 27 operários, num total de 7000, deram o seu nome ao Partido Comunista. E
assim por diante, graças ao bom Deus.”66
Em Divinópolis, ocorreu uma manifestação de repúdio, orquestrada por católicos
ligados às associações religiosas, principalmente os marianos, como foi elogiado em crônica
da Revista de Santa Cruz:
“Ultimamente inventaram os comunistas de realizar vários comícios aqui em
Divinópolis na Praça da Estação. Assim realizaram um no dia primeiro de dezembro
e outro no dia vinte e três do mesmo. O sucesso foi nulo, pois de cada vez foram
vaiados a valer pela população divinopolitana, cabendo grande parte desta vitória
aos destemidos marianos que não tiveram papas na língua. A irritação do povo de
cada vez chegou a tal ponto que os oradores de fora tiveram de fugir protegidos pela
polícia, e dos comunistas de cá alguns entraram no couro.”67
Presenciou esse comício, realizado em 1946, o Sr. Milton Pena, que ainda jovem, teria
ficado indignado com o exagero da conduta anticomunista da platéia estimulada pelo grupo
católico:
“... Os comunistas eram uns gatos pingados, uns poucos. Todos juntos não
encheriam o coreto da praça. Havia uma pequena multidão, talvez umas trezentas
pessoas. Quando os oradores começaram a falar, começaram as gozações e palpites.
Foram vaiados e insultados com palavrões. [...] Impossibilitados de continuar o seu
comício, os comunistas subiram a rua Rio de Janeiro, continuando a ser acossados e
insultados pela “plebe ignara”. [...] A polícia interveio com tiros de fuzil. Não sei
como não houve morte. Eu vi e me envergonhei.”68
66
Jornal Interno A Semana – 30.09.1945.
67
Revista de Santa Cruz, Ano XII, fevereiro de 1947 p. 24.
68
Artigo do Sr. Milton Pena publicado no jornal “Primeira Página” de Divinópolis – 10.09.2000.
212
A lucidez da Igreja para perceber os problemas decorrentes do sistema capitalista,
apresentando como alternativa sua doutrina social, compreendendo à seu modo a
modernização e a alteração da estrutura político-econômica do mundo após 1945, não foi
suficiente para que fosse contido o exagero de seu discurso anti-comunista. Em vários artigos,
matérias e textos da imprensa católica aparecem afirmações que demonstram sua inquietação
diante da ameaça representada pelo comunismo:
“O Comunismo é isto:
Combater a religião e a pátria
Ocupar a todos e a tudo em proveito de uns poucos
Matar a todos que não quiserem aceitar a doutrina russo-soviética
Usar de todos os meios para alcançar o domínio do país
Negar ao homem os direitos que a própria natureza lhe deu
Intrigar e fomentar as lutas de classe
Saquear igrejas, propriedades e bens alheios
Matar a religião, a família e a liberdade das consciências
Ocupar o Brasil e fazer dele uma colônia russa.”69
A interpretação que a Igreja fazia do comunismo, no campo teórico e no campo de sua
ação político-social, partia do princípio de que o mesmo sustentava-se no materialismo e na
violência para alcançar seus objetivos. Esse tema foi tratado no artigo “O lobo na pele de
cordeiro”, de onde foram retiradas as seguintes considerações:
“Sua principal base filosófica é o materialismo puro, só existe matéria: mundo, terra,
água, homens, bichos e plantas. [...] Dizia Lenine: “Todo homem que se ocupa na
arquitetação de um Deus, cospe sobre si mesmo do modo mais asqueroso”... E Marx
o filósofo por excelência do comunismo acrescenta: “A religião é o ópio para o povo
e um, como que, álcool espiritual”. Para os comunistas não existe nem céu, nem
inferno, nem outra vida depois desta. Com a morte tudo acaba, como para os
irracionais.”70
Na prática, de acordo com a análise católica transmitida aos fiéis, os comunistas
estabeleciam-se nos países onde se instalavam um regime de terror e um estilo desregrado de
sociedade:
69
Jornal Interno A Semana – 05.05.1946.
70
Jornal A Semana – 02.02.1947.
213
“O partido comunista substitui a família. Os filhos são entregues ao Estado e sobre
eles os pais não têm o mínimo direito.[...] O amor livre é sustentado por lei. [...] Em
toda a parte igrejas e conventos são demolidos, ocorre matança de padres e freiras e
de centenas de milhares de católicos cujo único crime é o de crer em Deus.”71
A atuação dos comunistas era mais expressiva nos grandes centros urbanos e sua
atenção especial se voltava para as cidades onde houvesse uma base econômica-industrial
caracterizada pela concentração operária. Nesse caso se enquadrava Divinópolis, sede da
oficina da Rede Mineira de Viação, cidade industrial em expansão, com capacidade de
exercer influência regional, cenário de greves e manifestações de operários. Isso explica a
intensa mobilização da Igreja local, principalmente através dos franciscanos e arquidiocese
para evitar a proliferação de ideologias ameaçadoras em meio à população e principalmente
em relação aos ferroviários. Vários documentos da época evidenciam tais preocupações e os
investimentos para garantir a ordem e a segurança na localidade.
Os jornais católicos que circulavam na cidade eram impregnados de uma propaganda
anticomunista ostensiva e, por vezes, fazia-se referência a existência de uma organização
comunista no município na forma de comitê, que deveria ser vista como um sinal palpável de
que o perigo não encontrava-se tão distante como muitas vezes se pensava, e portanto, havia
necessidade de evitá-lo e combatê-lo.
A legalidade concedida ao Partido Comunista no processo de democratização ocorrido
com a queda de Vargas em 1945 tornava o ambiente político mais vulnerável e perigoso. Essa
era a visão dos partidos convencionais e da Igreja, representada politicamente pela Liga
Eleitoral Católica.
Skidmore explica que a participação dos comunistas nas eleições de 1945 era um dado
absolutamente novo. Já estavam na clandestinidade desde a revolta de 1935. Segundo ele, as
idéias marxistas tinham boa receptividade no meio da nova geração. Entretanto, o Partido
encontrava-se em situação difícil por representar o único Partido Comunista da América
Latina que havia tentado uma revolução, o que dava a seus opositores justificativa para
considerá-lo inadequado ao sistema democrático (Skidmore, 1982:87).
71
Jornal A Semana – 02.02.1947.
214
No que se refere ao insistente combate da Igreja ao comunismo e ao momento
específico de redemocratização política na segunda metade da década de 40, Frei Carlos
Josaphat fez as seguintes considerações:
“Bom, com relação ao comunismo, em 1946, o Partido Comunista levou uma
bancada grande para a assembléia constituinte e depois para o parlamento, elegendo
um senador. Tinha uma bancada muito forte, sobretudo uma bancada de gente que
tinha o dom da palavra, que estava informada sobre a política mundial. Então havia
o problema de muita gente se unir ao partido e ele estava legalizado. Nesse caso a
Igreja, uma grande parte dela, ligando-se a Leão XIII e à encíclica Rerum Novarum
começava a fazer uma grande refutação ao socialismo.”72 (Frei Carlos Josapha)
O arcebispo Dom Cabral e a redação do jornal “O Diário”, órgão da arquidiocese de
Belo Horizonte, tiveram acesso a um Manifesto distribuído em Divinópolis por um chamado
Comitê Democrático Progressista. O referido jornal encarregou-se de divulgar sua posição
frente ao problema por meio de matéria lançada em agosto de 1945, mostrando a situação de
Divinópolis como sede de tal agremiação. Dada a repercussão do fato junto ao arcebispado,
cabe aqui transcrever o conteúdo da publicação:
“Em Divinópolis acaba de ser fundado – assim diz “O Diário” – um Comitê
Democrático Progressista. Está claro que é preciso saber ler nas entrelinhas do seu
Manifesto para entender o que o novo Comitê daquela próspera cidade pretende e
objetiva. Mas, uma vez que se atente bem para seu programa, verifica-se que se
trata de mais uma célula comunizante em Minas Gerais. Na verdade, não podemos
dizer quase nada contra o programado Comitê de Divinópolis. Mas, descoberta a
fonte de onde promana a sua inspiração, cabe-nos alertar contra todos os disfarces de
que usa, atualmente, o comunismo no Brasil. A fundação do referido Comitê em
localidade que é um centro movimentado de ferroviários, e trabalhadores de
indústrias texteis e outras, constitui um aviso claro contra a influência que as idéias
extremistas irão exercer entre o povo bom e generoso do interior. O caso de
Divinópolis dá para uma meditação por parte dos responsáveis pelos nossos
destinos. O comunismo está angariando adeptos, porque a vida é cara, absurdamente
cara, e revolta os desajudados da fortuna. Na ignorância do que sejam os
extremismos na sua verdadeira essência, as camadas populares aderem aos seus
postulados e passarão a constituir, dentro em pouco, um eleitorado respeitável, se os
homens de responsabilidade não corresponderem aos legítimos anseios da justiça, de
honestidade e fraternidade cristã, que são indispensáveis no coração de todos os
homens.”73
72
Entrevista realizada pela autora no dia 02-11-2001 pela autora com Frei Carlos Josaphat.
73
Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945.
215
O jornal “A Semana” que tornou pública a situação, procurou, ao enfocar a existência
do comitê, mostrar a tática dos comunistas, fazendo-se, segundo interpretação dos católicos,
defensores da democracia e da liberdade. O jornal local fundamentou-se na argumentação de
intelectuais que vinham acompanhando a trajetória do comunismo no país e por sua
experiência e esclarecimento, tinham, portanto, respaldo para discutir as estratégias
normalmente usadas por eles:
“Efetivamente, a inspiração comunista do Comitê é absolutamente indiscutível. São
os mesmos slogans, as mesmas idéias, as mesmas frases até do programa de Luís
Carlos Prestes. Esse cavalheiro passou a seus apaniguados a ordem de criarem
confusão em nossos arraiais pelas palavras sonoras de União Nacional, progresso,
Democracia e Ordem. Ora, é só ler o manifesto divinopolitano para verificar que
bate na mesma tecla.74
Foram citadas as palavras do líder católico Tristão de Ataíde sobre essas estratégias do
comunismo:
“A palavra de ordem que neste momento disciplina o Partido Comunista é a
organização de comitês populares democráticos inter-partidários, mas de iniciativa
comunista, para assim chegar á ditadura do proletariado, tática passageira para a
liquidação dos contrários, pela absorção final no Partido Único Comunista.”75
A vigilância sobre possíveis ações de grupos comunistas na cidade continuou e o meio
ferroviário era particularmente alvo de atenção. Havia um certo ar de insegurança, como já
mencionado, sobre sua atuação legal e a possibilidade de crescerem por meio do voto popular.
Um exemplo disso foi o realce dado à presença dos comunistas entre os operários da Rede
Mineira:
“Bater uma chapa dos operários da R.M.V. quando almoçam e mandar esta
fotografia para ser publicada num jornal comunista com os seguintes dizeres: “Os
operários de Divinópolis aderiram ao P.C.B”. [...] Telegrafar para Belo Horizonte
dizendo que a Congregação Mariana estava organizando desordens e boatos, para
74
Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945.
75
Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945.
216
anular o comício dos fascistas do P.C.B. [...] Organizar rifas e tômbolas nas oficinas
da R.M.V. para financiar a traição que está sendo elaborada no Q.G. do P.C.B.”76
Completando a exposição sobre as táticas usadas pelos comunistas, os operários foram
alertados para reagirem: “Operário, não te deixes enganar. O P.C.B. quer apenas escravizar-te,
tu e tua mulher e tua família. Ainda é tempo. Antes que seja tarde, lute contra os traidores
fascistas e comunistas.”77
4.8 A divulgação da Liga Eleitoral Católica
No discurso anticomunista, a Igreja procurava sempre enaltecer a tradição católica do
povo brasileiro, enfatizando que esta característica seria a principal arma de luta da nação. A
profunda religiosidade do povo mineiro seria também um bastião de defesa, capaz de impor
derrotas ao inimigo, como consta do conteúdo de um dos artigos da época:
“Aqui na visceralmente católica Minas Gerais, a propaganda vermelha encontra osso
duro de roer, devido à profunda religiosidade do mineiro. Nem por isso entregam os
punhos os emissários de Moscou. [...] Em vista disso, os adeptos da foice e do
martelo envidam todos os esforços por apresentarem aos mineiros um comunismo
que não seria inimigo da religião e da pátria, mas sim, representante e defensor da
liberdade religiosa, apesar da evidência dos fatos que provam horrorosa e
absolutamente o contrário. [...] Mineiros alerta!”78
No processo eleitoral instaurado com o fim do Estado Novo, a atuação da Igreja se fez
através da Liga Eleitoral Católica, entidade organizada segundo experiência da Unione
Elettorale Católica, fundada por Pio XI em 1905. Teve como ideólogo no Brasil, Alceu
Amoroso Lima orientado por Dom Leme (Isaía, 1998:134).
Em Divinópolis, foi instalada por Frei Braz, obtendo sucesso nas eleições municipais
de 1936 ao vencer o Partido dos Machos de Pedro X. Gontijo. A vitória foi comemorada pelos
católicos articulados por Amâncio Correia e Jovelino Rabelo:
76
Jornal A Semana – 29.12.1946.
77
Jornal A Semana – 29.12.1946.
78
Jornal A Semana – 02.02.1947.
217
“... Foi feita uma manifestação estrondosa pelo fato do feliz resultado na eleição
municipal do dia 7 de junho pp., quando o partido de Pedro X. Gontijo com sua
turma de anticlericais, apesar de suas fraudes e falsificações, perderam de 6 X 2
contra a Liga Eleitoral Católica e o P. P. Agora os padres e o próprio povo católico
podiam respirar mais tranqüilamente. Nessa ocasião, o Prefeito, em nome do
Município declarou que a atmosfera estava completamente mudada e que doravante
haveria em Divinópolis harmonia entre o poder temporal e o espiritual. Graças a
Deus!79
A Liga foi posteriormente dirigida pelos outros vigários e incrementada por Frei
Rafael. Contava com funcionários para orientar o eleitorado da cidade sobre o alistamento,
ou seja, a preparação do título de eleitor associada a sua inserção na Liga. O decálogo da Liga
Eleitoral Católica foi publicado no jornal “A Semana” de dezembro de 1946:
1º - Promulgação da Constituição em nome de Deus e a instituição do novo Estado –
democrático, segundo os princípios evangélicos de igualdade, liberdade e justiça.
2º - Reconhecimento dos direitos e deveres fundamentais da pessoa humana.
3º Defesa da Família fundada no casamento indissolúvel, com o reconhecimento dos
efeitos civis aos casamentos religiosos e assistência às famílias numerosas.
4º Rejeição de todo monopólio educativo e liberdade de ensino religioso facultativo
nas escolas públicas primárias, secundárias e normais da União, dos Estados e dos
Municípios.
5º Legislação do trabalho inspirada nos mais amplos preceitos de justiça social e nos
princípios de ordem social cristã, trabalhadores tanto urbanos como rurais.
6º Preservação da propriedade individual com os razoáveis limites que forem exigidos
pelo bem comum, como base da autonomia pessoal e familiar.
7º Pluralidade sindical, sem monopólio estatal nem restrições de ordem religiosa.
8º Pluralidade partidária, com exclusão de organização anti-democrática.
9º Regulamentação da assistência religiosa facultativa às classes armadas, prisões,
hospitais etc., e reconhecimento do serviço eclesiástico de assistência espiritual às forças
armadas, como equivalente ao serviço militar.
10º Combate a toda e qualquer legislação que contrarie, expressa ou implicitamente,
os princípios fundamentais do direito natural e da doutrina cristã.
A Liga Eleitoral Católica expunha sempre sua opinião sobre os partidos políticos,
dando importância às propostas sintonizadas com os propósitos da Liga e definindo que,
79
Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 5, agosto de 1936, p. 77.
218
independente de seu discurso ou programa, o Partido Comunista estava sempre em desacordo
com os princípios católicos:
“Sem entrarmos no terreno político, sem destacarmos o P.S.D., P.T.B., ou U.D.N., e
outros partidos políticos, queremos apenas dizer que o P.C.B. , o partido comunista,
não corresponde a nenhum dos referidos pontos da liga Eleitoral Católica. Que
tenham pois cuidado! Não vos deixeis enganar pelos comunistas das estepes russas
que vêm a vós em pele de ovelha, mas que são lobos roubadores. Antes de votar, de
dar o voto, indague, medite e reflita. Todos os bons brasileiros contra o perigo
vermelho.”80
Em várias chamadas, os jornais católicos conclamavam o povo para seu compromisso
cívico de alistamento, sempre com sua atenção voltada para arregimentar o eleitorado em
torno dos princípios da Liga e contra o perigo de vitória comunista nas eleições:
“Católicos alistai-vos!
O nosso povo não começou ainda a compreender o valor do alistamento. Deste
município 3000 se alistaram, 2000 encaminharam o seu título. Onde estão os outros
5000? São esses analfabetos? Não acreditamos. Não seria antes falta de
compreensão religiosa e patriótica?
Que os católicos compreendam bem que não alistar-se quer dizer, nem mais nem
menos, dar um apoio negativo aos comunistas...”81
Os católicos eram convidados a se associarem à Liga Eleitoral Católica por meio de
chamadas: “Católicos, fazei-vos sócios da Liga, assinando o compromisso: de cumprir o
dever eleitoral e de votar conforme a orientação da Liga Eleitoral Católica”82 ou ainda, “Já
assinou o compromisso da Liga Eleitoral Católica? Católicos, alistai-vos e assinai o
compromisso da Liga Eleitoral Católica. Trata-se dos interesses da Pátria e da Religião”.
As eleições estiveram na ordem do dia nos jornais. Havia uma preocupação de colocar
a Igreja numa posição suprapartidária, mas com a incumbência de, através da Liga Eleitoral,
explicar à população qual a melhor conduta no pleito, e aos candidatos, o compromisso com
programas condizentes com os preceitos da Liga:
80
Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 5, agosto de 1936, p. 77.
81
Jornal Interno A Semana - 9 a 16 de setembro de 1945.
82
Jornal Interno A Semana - 9 a 16 de setembro de 1945.
219
“Há quem nos pede a nossa opinião acerca de candidatos para o governo federal,
estadual ou local. Nada diremos! A nossa obrigação é somente o respeito ao governo
legal, e instruir o povo qual é, para um cristão, o modo de agir nas eleições, no
máximo podemos indicar as qualidades que deve ter o seu representante, o seu
candidato, para que o eleitor em consciência, possa verificar se estas se encontram
na pessoa determinada.”83
Os jornais ressaltavam sempre a importância do momento político vivido pelo país e a
obrigação dos católicos de participarem do processo, cumprindo seu compromisso cívico.
Subjacente a este apelo, havia uma preocupação em conter o Partido Comunista, numa época
particularmente favorável ao seu crescimento devido aos avanços democráticos vividos pelo
país e também em função das dificuldades de sobrevivência impostas aos trabalhadores. Essa
preocupação foi tratada pelo jornal local, citando as orientações traçadas pelo arcebispo de
Belo Horizonte:
“Os católicos, declara o nosso eminente arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral os católicos têm a obrigação absoluta de intervir no pleito eleitoral, para o que urge
que todos se qualifiquem eleitores. Abster-se de participação na política seria trair a
missão que temos de só eleger elementos realmente dignos. Até aqui o nosso
querido arcebispo, cuja palavra deve ser para todo católico uma ordem. E ordem não
se discute, cumpre-se.”84
O jornal acrescenta, após expor a ordem do arcebispo quanto a importância do
processo eletivo, de que forma a omissão do eleitorado poderia oferecer vantagens aos
comunistas:
“A indiferença foi, por muito tempo o mal político dos católicos brasileiros,
conforme palavra autorizada do grande líder católico que é Tristão de Ataíde. Com
efeito, o católico não pode ser indiferente quanto ao futuro do seu país, do seu
Estado ou município. Nem como cidadão, nem como católico. No sistema
democrático, em que a maioria dos votos pode resolver os casos, cada voto a mais
pode ser decisivo.”85
O jornal “O Diário” chamou a atenção do eleitorado para a vulnerabilidade dos
partidos frente ao crescimento do P.C.B:
83
Jornal Interno A Semana - 11 à 18 de março de 1945.
84
Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945.
85
Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945.
220
“... Enquanto os democráticos se batem em questões partidárias, o comunismo toma
a dianteira formando de todo o Brasil seus chamados núcleos democráticos, que se
tornarão em breve os sovietes locais. O comunismo já está arregimentando sua
gente, formando seu eleitorado, publicando seus programas e jornais. Apresentandose em atitude simpática de defensor da ordem, do progresso e dos melhoramentos
sem fim, convoca todos os brasileiros à união em torno da democracia.”86
O intelectual Tristão de Ataíde foi várias vezes citado nos jornais locais como figura
proeminente do meio católico, capaz de através de seus conhecimentos e análises, contribuir
para que o combate ao comunismo fosse melhor fundamentado teoricamente. No artigo “Eu
preferi a liberdade”, os católicos foram estimulados pelo próprio Tristão a ler o livro com este
título, escrito por um ex-comunista chamado Kravchenco, denunciando os crimes da Rússia.
Este personagem polêmico teria recebido asilo político dos Estados Unidos após expor suas
denúncias sobre o regime comunista. Tristão encerra assim sua explanação: “Leia Eu preferi
a liberdade e depois, garanto: Deixarás de ser comunista!”.
O veredicto da Igreja sobre os partidos e seus respectivos programas resume-se no
conteúdo do discurso destacado:
“Nunca será demais repetir que a Igreja não tem partido, não tem candidato, não tem
programa político. A Igreja aprova todo partido e qualquer programa desde que não
contrariem sua doutrina e sua moral. Daí que o católico poderá escolher livremente
entre a União Democrática Nacional e o Partido Social Democrático; vale dizer que
poderá dar seu voto ao ex-ministro da Guerra Gaspar Dutra, ou então, ao brigadeiro
Eduardo Gomes, como quiser. E se surgissem neste Brasil mais mil partidos com
programas igualmente bons, nada proibiria ao católico afiliar-se a eles, à vontade.
Por outro lado, porém, segue-se também, que o católico não pode, em consciência,
aliar-se ao partido Comunista ou votar em Luís Carlos Prestes. Pois o comunismo
não é somente ateu e materialista, mas também desrespeita a liberdade, a dignidade
humana, a propriedade particular. E se, mais dias, menos dias, se apresentassem
mais partidos do mesmo quilate – partidos por exemplo, cujos programas se batesse
pelo divórcio, a coeducação, a esterilização dos alienados, os casinos e o jogo, os
trustes e o capitalismo exagerado, ou combatessem o ensino religioso nas escolas, o
descanso dominical, a boa harmonia entre a Igreja etc e tais – claro é que igualmente
seria proibido ao católico dar seu sufrágio a tal partido ou votar no candidato.”87
Em seu pronunciamento definitivo sobre os pleito de 1945, a Igreja procurou reforçar
o caráter suprapartidário da Liga Eleitoral Católica, e ao mesmo tempo, deixou o eleitorado
católico livre diante das opções de candidatura à presidência da República. Em relação às
86
Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945.
87
Jornal Interno A Semana - 12 a 19 de agosto de 1945.
221
eleições legislativas, comprometeu-se em apontar os candidatos enquadrados aos princípios
estabelecidos pela Liga:
“Quanto às eleições presidenciais, cumpre repetir que a Igreja aprovou pela voz do
colendo Episcopado Brasileiro, a candidatura tanto do general Eurico Gaspar Dutra
como o brigadeiro Eduardo Gomes, por serem ambos homens honrados e católicos.
Mas escolher a Igreja não escolhe, pois é o povo que deve escolher seu presidente.
Quanto às chapas para senadores e deputados federais, organizadas pelos diversos
partidos políticos, a Liga Eleitoral Católica publicará dentre em breve, os nomes dos
candidatos que podem receber o sufrágio dos católicos.”88
Na verdade, a história da Liga Eleitoral Católica era fruto da liderança de Dom
Sebastião Leme, que através dela obteve êxito nas eleições de 1933 e exerceu grande
influência na redação da Constituição de 1934. Na constituição de 1934, dentre outras
vitórias, os católicos conseguiram introduzir o ofício de capelães militares, numa aliança entre
o exército de Cristo e o exército da Pátria. A proposta era que lutassem juntos contra os
inimigos representados pelo revolucionarismo e pelo ateísmo. Essa aproximação facilitou a
introdução do ritual da benção das novas espadas que eram entregues aos jovens oficiais.
Segundo Azzi, essa junção simbólica reintroduzia a idéia de aproximação entre a cruz e a
espada, representando naquele momento os dois braços de sustentação do Estado (Azzi,
1992:107-109).
Oscar Lustosa (1991:52-53) explica que as conquistas católicas estabelecidas na
Constituição de 1934 foram garantidas também na Constituição do Estado Novo de 1937, fato
que garantiu para a Igreja tranqüilidade para prosseguir com seu projeto político-social e
trânsito nas esferas de poder. O mesmo autor acrescenta que o grupo liderado por Dom Leme
foi eficiente ao definir estratégias para garantir a reconstrução da “ordem social cristã” a partir
de 1934, que só teria sucesso fundada em sólidos alicerces morais:
“A fim de não ser apanhado de surpresa, o cardeal do Rio de Janeiro formou logo
uma Comissão Central para discutir os aspectos jurídico-legais das questões,
constando ela de personalidades de proa, juristas, escritores e políticos. Foi dividida
em subcomissões, sob comando habilidoso e competente do jesuíta Padre Leonel
Franca. O propósito da Comissão Central se fixava em pensar e amadurecer as
diversas matérias (Código Civil e Penal, Lei Eleitoral, Ensino Religioso, Defesa dos
Direitos da Família) para se chegar a projetos sadia e cristãmente elaborados que a
88
Jornal Interno A Semana – 18.11.1945.
222
Assembléia Constituinte pudesse encampar e oficializar sem dificuldades e com
rapidez.” (Lustosa, 1991:52-53)
A função da Liga Eleitoral Católica e sua influência na garantia dos direitos sociais na
constituição de 1934 e sua manutenção nas outras que a sucederam foi comentada por Frei
Carlos Josaphatt:
“... Os postulados da Constituição de 1934, de modo que o Brasil entrou com o
salário mínimo, entrou com a afirmação do salário família mas não foi aplicado,
com todas as leis de assistência social, tudo isso foi tirado da inspiração das
encíclicas, sobretudo a Quadragésimo Anno que entraram no direito brasileiro, na
constituição de 1934, porque o Tristão propôs na Liga Eleitoral Católica um
decálogo social que era a doutrina da Igreja. Esse decálogo social foi proposto a
todos os candidatos, se aceitavam ou não aceitavam. A maioria aceitou e os
católicos votaram nessa maioria que aceitou.”89 (Frei Carlos Josaphat)
Durante o processo eleitoral de 1945, a mobilização partidária e os comícios tomaram
conta da nação. O clima de euforia e de entusiasmo em relação à possibilidade de a nação
experimentar um regime democrático após oito anos de ditadura civil, envolveram a
população, atingindo também as cidades do interior. Os partidos procuravam, naquele
momento de transição, expor seus programas em discursos, panfletos, jornais e na realização
de comícios, onde buscavam convencer o eleitorado sobre suas alternativas para o
desenvolvimento do país. Através dos cabos eleitorais, investiam num intenso trabalho corpo
à corpo, com o intuito de ampliar o número de filiações e de simpatizantes. As cidades
estavam tomadas pelo clima político vivido por toda a nação e pela nova configuração
político-partidária que, diferente da Primeira República, constituía no país, partidos de
abrangência nacional.
Os partidos de inspiração getulista, o PSD e o PTB, debatiam em tom emocional com
a oposição representada basicamente pela UDN. O grande avanço político daquele período foi
a legalização do PCB, participando do pleito em iguais condições com os outros partidos.
Entretanto, como já foi mencionado, ainda gerava uma certa tensão no meio político que viria
a desencadear em seu fechamento no ano de 1947.
89
Entrevista feita pela autora com Frei Carlos Josaphat – 02-11-2001.
223
Em Divinópolis ocorreram comícios e fatos pitorescos envolvendo a realização desses
eventos públicos. No artigo “Uma palavra sobre comícios políticos”90 o clero local lamentou
um tumulto ocorrido no comício de Eduardo Gomes em Divinópolis, marcado por agressões
físicas e xingamentos e no mesmo texto, expôs algumas dificuldades enfrentadas pelos
representantes da Igreja, como o convite feito ao vigário para participar do comício do Partido
Trabalhista Brasileiro. A situação era complicada para o clero devido à posição que a Igreja
deveria preservar de imparcialidade. Também o vigário se viu em apuros, quando consultado
por eleitores católicos, se poderiam participar do comício desse mesmo partido. O padre teria
ficado confuso sobre a melhor orientação que deveria dar pois, o jornal “O Diário”, opunha-se
ao fato desse partido ser foco do “Queremismo”, considerado naquele momento, um
movimento golpista por vários segmentos políticos. Como a Liga Eleitoral Católica ainda não
havia se pronunciado a respeito da questão, o padre não se sentia em condições de proibir aos
paroquianos sua presença no evento.
As mesmas considerações teriam sido feitas sobre o pedido do presidente local do
Partido Trabalhista Brasileiro em relação à participação da Banda de Música Santo Antônio
no referido comício. Foi autorizada pelo vigário sua participação no evento a partir da
seguinte justificativa: “A nossa banda de música aceita o pedido de qualquer partido político
não reprovado pela L.E.C., como é o caso do comunismo, pondo-se assim fora e acima dos
partidos”.91
A polêmica em torno do Queremismo se deu por este ter sido um movimento que
guardou peculiaridades, pois surgira num momento crítico da história política do país. Havia
em 1945 uma disposição nacional para a renovação democrática, devido ao desgaste natural
sofrido pela ditadura varguista. O clima internacional de queda do totalitarismo nazi-fascista e
o apelo pela democracia dentro e fora do país acenavam para a redemocratização. Ao mesmo
tempo, grupos leais ao projeto nacionalista de Getúlio Vargas e elementos da esquerda
simpáticos à idéia da elaboração de uma nova constituição, comprometida com esse projeto,
apoiaram o movimento, inclusive o próprio Luiz Carlos Prestes aderira ao movimento.
Ao analisar o período, José Murilo de Carvalho mostra que Vargas, ao perceber sua
vulnerabilidade investiu mais na figura de “pai dos pobres”, dirigindo-se aos operários mais
90
Jornal Interno A Semana - 21 de outubro de 1945.
91
Jornal Interno A Semana - 21 de outubro de 1945.
224
proximamente através de grandes comícios organizados com o apoio da máquina sindical e
acrescenta que essa propaganda teve repercussão:
“Enquanto as forças liberais se organizavam para depor o ditador, as forças
populares se congregavam em movimento oposto que lutava por sua permanência no
poder. Criou-se o “queremismo”, nome tirado da expressão “queremos Vargas”. O
apoio atingiu o ponto alto quando Luiz Carlos Prestes, libertado da prisão onde se
encontrava por causa da revolta de 1935, aderiu publicamente ao queremismo.”92
Motivo de polêmica também foi a convocação da Assembléia Nacional Constituinte
após a vitória do candidato oficial Eurico Gaspar Dutra. Em Divinópolis, foram espalhados
pela cidade, no final de 1945, cartazes com os dizeres: “O povo quer Assembléia
Constituinte!”, fato contestado pelo jornal católico local. Este teria questionado a intenção
daquele ato e daquele discurso, afirmando serem apelos de grupos de esquerda liderados pelo
comunismo, portanto, sem autoridade para falar em nome do povo brasileiro.93
Diante de uma nova ordem política que se configurava após 1945, a Igreja procurou
manter um sindicalismo cristão e um programa voltado para a proteção da família, contra o
divórcio. A ação da LEC sofreu um esvaziamento, transformando-se em Aliança Eleitoral
pela Família. Houve uma adequação da Igreja ao momento histórico, ocorrendo
gradativamente uma politização do clero e dos leigos militantes, responsáveis pelo projeto
social católico; a relação da Igreja com o Estado passou a refletir o novo contexto (Lustosa,
1991:62).
Durante os quinze anos do regime getulista, a Ação Católica funcionou como uma
retaguarda política para a Igreja através da atuação de seu pessoal. Era representada pelo clero
e por leigos especializados que no trabalho de mobilização, procuravam demonstrar o peso da
ação dos católicos diante das questões políticas e sociais do país (Lustosa, 1991:61).
92
Carvalho, José Murilo. Cidadania no Brasil o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
93
Jornal Interno A Semana - 16 a 23 de setembro de 1945.
225
4.9 A imprensa e o movimento de ação católica
Em função de seu significado estratégico, a Ação Católica recebeu atenção especial
através de publicações que procuravam popularizar seu conteúdo, tornando-o assimilável e
aplicável para o público católico. O objetivo era engajar os católicos no movimento,
sensibilizando-os para que se transformassem em membros militantes em suas fileiras.
A Ação Católica foi oficializada no Brasil por iniciativa de Dom Leme em 1935.
Evoluiu enquanto movimento, de acordo com as definições da hierarquia, pelas influências
que sofria de modelos externos e conforme se alterava a conjuntura do país. Em 1945, possuía
quatro ramos fundamentais: a Liga Masculina, a Liga Feminina e as juventudes masculina e
feminina. Na Semana Nacional de 1946, novos estatutos e regulamentos foram aprovados,
tornando-a instituição responsável por oito departamentos: Ação Social; Ensino Religioso;
Defesa da Fé e da Moral; Cinema e Teatro Orientação Política (LEC); Vocações Sacerdotais;
Imprensa – Rádio e Informações e Educação e Cultura. Na II Semana Nacional realizada em
Belo Horizonte discutiu-se sobre a necessidade de entendimento entre a JOC e os Círculos
Operários. Em 1950, o movimento jovem em seu meio tinha grande vitalidade e era marcante
sua preocupação com os problemas sociais. Em 1952, a Ação Católica esteve ligada
diretamente à criação da CNBB, sendo Dom Hélder Câmara o assistente eclesiástico nacional
da entidade e também secretário geral da CNBB (Bandeira, 2000:279-306).
Em Divinópolis, um relatório de 1938, ao tratar do funcionamento paroquial destacou:
“Há boa vontade para ouvir e seguir os mandamentos e conselhos da autoridade eclesiástica, o
que se mostrou na fundação da Ação Católica”.94 Num comentário de Frei Carlos Schep, ao
assumir como vigário em 1941, pode-se perceber a evolução do movimento na cidade:
“Embora não esteja ereta oficialmente, estão funcionando muito bem, principalmente os
círculos das Moças da JIC e JOC, das senhoras da Liga Feminina de Ação Católica e JEC
dos moços”.95
A movimentação para consolidar a Ação Católica no município teve como estratégia a
organização de círculos de estudos, tendo destaque a realização da Semana de Estudos da
Ação Católica. Foi organizada a partir de orientações dadas pelo arcebispo Dom Antônio dos
94
Revista de Santa Cruz, Ano IV, outubro de 1939, p. 171.
95
Revista de Santa Cruz, Ano VII, janeiro de 1942, p. 11.
226
Santos Cabral em Carta Pastoral lançada na comemoração do jubileu Episcopal. Essas
orientações foram abordadas pelo jornal “A Semana”:
“Conforme as ordens recebidas na Carta Pastoral do Sr. Arcebispo, se realizará nesta
Paróquia uma semana de estudos da Ação Católica de 27 de junho até 4 de julho no
Cine Teatro Santo Antônio. O programa consistirá, além de números de arte
(música, canto declamação etc), de duas conferências cada dia.”96
A Ação Católica tinha como função principal promover o apostolado leigo, auxiliada
pelo trabalho das associações e pelo investimento na boa formação de seus membros a partir
de um estudo mais criterioso do evangelho. Os fundamentos de sua organização e a relação
desse movimento com as ações apostólicas, que já vinham sendo desenvolvidas pelas
associações católicas, foi explicado em um artigo que sintetiza o propósito militante da Ação
Católica:
“... A Ação Católica cujo fim é o reino universal de Cristo, implica necessariamente
a idéia de apostolado, a tal ponto que as obras que não se propõem mais que a
santificação privada e individual de seus membros como certas irmandades ou
congregações não podem participar diretamente dela.”97
Reforçando a idéias da relação da Ação Católica com as antigas associações leigas, foi
enfatizada a importância de uma junção de forças e de investimento na formação dos católicos
para o apostolado:
“A Ação Católica chama as associações auxiliares no seu programa sem exprimir
por isso um grau de inferioridade, ao contrário é um auxílio necessário para o bom
êxito do seu trabalho. O sócio da Ação Católica no seu apostolado não pode infundir
a certeza de fé e a prática das virtudes nos corações alheios, se não for resultado da
sua própria convicção, se não tiver base na firmeza de sua própria vida espiritual
bem formada; ninguém pode fazer um apostolado frutífero a não ser de um coração
verdadeiramente apostólico.”98
96
Jornal Interno A Semana - 20 a 27 de junho de 1943.
97
Catecismo Fontenelle – Jornal Interno A Semana 6 a 13 de junho de 1943.
98
Jornal Interno A Semana - 6 a 13 de junho de 1943.
227
A relação do novo apostolado leigo com as antigas associações foi marcada por
discussões polêmicas no seio da Igreja, num momento em que essa instituição apostava nesse
movimento como a expressão de sua ação renovada no campo da restauração cristã da
sociedade brasileira. O caso de Divinópolis não foi diferente. Havia uma boa base
institucional para se implementar a nova proposta no município, que além de contar com o
trabalho dos franciscanos, era uma cidade com boa posição estratégica para uma expansão
regional das atividades. Divinópolis possuía consolidadas algumas associações que já vinham
desenvolvendo suas atividades no campo caritativo e pastoral. A instalação de entidades
inspiradas na Ação Católica possibilitaria um aprimoramento dessas ações sociais e, ao
mesmo tempo, cumpriria a função de investir na formação evangélica. Nessa perspectiva, os
paroquianos, principalmente as mulheres,
foram envolvidos em estudos sistemáticos da
Bíblia acompanhados pelo assistente eclesiástico.
Teve grande repercussão a realização da Semana de Estudos, e seus resultados foram
comentados pelo jornal católico, numa demonstração de que Divinópolis apresentava
capacidade para assumir esse novo empreendimento religioso que exigiria mais compromisso,
assiduidade e obediência de seus membros:
“Despertou vivo interesse na cidade o ciclo que a Ação Católica organizou,
conforme ordens de S. Excia. Revma o Arcebispo. Começando com um número
regular, aumentou a freqüência até encher a Casa de Santo Antônio. E não só o
número. Já percebemos indícios animadores de que a Semana de Estudos, com a
bênção de Deus, terá o resultado desejado e permanente. O que mais chamou nossa
atenção foi o interesse e o número sempre crescente de homens e de pessoas da alta
sociedade.”99
Outros eventos relacionados à Ação Católica foram divulgados através do jornal,
como foi o caso do IV Congresso Nacional Eucarístico. Segundo informações da época,
participaram desse encontro quatro mil pessoas e o tema central foi a Ação Católica. A idéia
central desses eventos era de que os católicos deveriam incorporar a Ação Católica como uma
missão e aos divinopolitanos cabia enfrentar esse desafio:
99
Jornal Interno A Semana - 4 a 11 de julho de 1943.
228
“Agora, qual é o resultado para nós, para Divinópolis, qual é a nossa conclusão?
Adiante!! Adiante para o ideal com coragem, pois estamos na defesa de uma causa
justa; adiante sem reparar nas dificuldades, sem olhar para os que são contra nós.
Não há lugar para crítica mesquinha: Instaurar tudo em Cristo, disse Leão XIII,
recristianiar o mundo disse Pio XI e a Ação Católica é o meio indicado por Ele. É
ordem, portanto devemos obedecer! Não importa se é conforme a nossa opinião, não
interessa se as nossas idéias estão de acordo ou não: o Papa manda e nós devemos
esforçar-nos para conhecer e realizar a vontade do representante de Cristo.”100
O apelo soava como um grito de guerra, impulsionando os soldados para o combate.
Era hora de colocar esse Exército de Cristo na luta pela recristianização:
“Por isso: adiante de boa vontade!
Adiante o nosso estudo até compreender,
Adiante o nosso movimento até romper,
Adiante a nossa luta até vencer!”101
As conclusões sobre o Congresso reforçavam a idéia de que havia ânimo e capacidade
coletiva para se implementar a Ação Católica com sucesso no município:
“Estamos em condições favoráveis! Tanto o que já está feito como as promessas
para o futuro. Divinópolis possui tudo para desenvolver a Ação Católica nos seus
quatro ramos e subdivisões. O que mais chamou atenção na situação da Ação
Católica da nossa paróquia e causou admiração foi a cooperação da Ação Católica
com o clero e com as associações religiosas. Graças a Deus e à boa vontade de
todos. Também neste ponto vamos adiante em união firme e forte. Divinópolis à
Cristo!”102
A Ação Católica deveria estar presente nas várias manifestações da vida social, seus
membros deveriam se envolver com entidades e organizações de caráter temporal, como em
sindicatos e organizações de classe. Divinópolis, por ser uma cidade operária, merecia uma
boa fundamentação dos ramos da Ação Católica para agir nesse meio. Daí, surgiu a
necessidade de criar e fortalecer a atuação do Círculo Operário na cidade, que apesar de não
ser parte direta da Ação Católica, desempenharia papel importante junto aos ferroviários e
100
Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943.
101
Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943.
102
Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943.
229
outros trabalhadores. Esse tema foi abordado pelo jornal local destacando os seguintes
aspectos:
“Estas associações, referindo-se a fins da sociedade civil e profissional, não entram
evidentemente no quadro exato da Ação Católica. Mas em sua atividade também
estão sujeitas à lei moral, da qual a Ação Católica é por princípio inspiradora e
guardiã. [...] Muitos já nos falaram do Círculo Operário como se fosse parte da Ação
Católica. De fato o nome engana, visto que a Ação Católica se reúne em círculos. O
Círculo Operário porém, não faz parte da Ação Católica. [...] Mas os sócios da Ação
Católica, nos quais se supunha uma formação melhor, devem como particulares
apoiar e participar no Círculo Operário por ser um associação de ordem temporal,
mas orientada pela Igreja, pelo assistente eclesiástico.”103
A imprensa foi instrumento importante na consolidação do movimento de Ação
Católica e encarregava-se de publicizar toda a movimentação da paróquia. Por meio dela, a
população informava-se sobre as festas e encontros religiosos, recebia pregação doutrinária,
tinha acesso às últimas notícias locais, informava-se sobre as obras sociais e sobre as
diversões disponíveis na cidade, tais como, teatro, cinema e outros.
Pela imprensa, as associações religiosas expunham seus estatutos, programações e
apresentavam seu ideário, buscando adesões e legitimação perante a coletividade. As escolas
católicas se promoviam, os acontecimentos políticos da nação eram tratados sob a ótica
católica, passando obviamente pelo crivo do episcopado. O espaço para os pequenos anúncios
e para a publicidade do comércio e serviços locais reforçava, nos jornais católicos, sua função
de prestadores de serviços.
4.10 As notícias do mundo e do Brasil
A imprensa dava conta também dos acontecimentos internacionais, avolumados na
década de 30 e 40, devido a instalação e consolidação de regimes fascistas na Europa,
exercendo influência ideológica em forma de organização política e social em todo o mundo.
O modelo de sociedade resultante dessas estruturas de poder consolidaram Estados totalitários
e subestimaram o valor da democracia, sempre preconizando o uso da disciplina em todos os
103
Jornal Interno A Semana - 7 a 14 de novembro de 1943.
230
segmentos da vida social. Dessa forma provocaram reações diversas em todo o mundo, tanto
de apoio como de repúdio, e pelo seu caráter polêmico, suscitaram debates e ocuparam amplo
espaço nos meios de comunicação.
A Igreja foi particularmente afetada pelos acontecimentos, justamente por sua posição
institucional e por estar sediada no coração do fascismo europeu. Num primeiro momento,
manteve uma relação amistosa com o governo de Mussolini, resultando daí o Tratado de
Latrão e alguns pronunciamentos de elogio ao artífice do totalitarismo na Itália.
Num artigo de jornal de 1931, que tratava do decreto do Governo Provisório de
Getúlio Vargas, facultando o ensino religioso nas escolas, Mussolini foi mencionado como
um defensor da formação religiosa na educação:
“Mussolini, figura impressionante da nossa época contemporânea, em notável
discurso pronunciado em 1925 no Senado italiano, disse: “É necessário que o
catolicismo com suas verdades transcendentais, com sua base divina, forme o
concreto educativo da nossa sociedade querida.””104
A mudança de posição da Igreja se deu em função de atitudes arbitrárias do Estado
Mussolinista, que se pôs contra a atuação de jovens da Ação Católica na Itália, a ponto de o
Papa Pio XII emitir uma Encíclica em 29 de junho de 1931, repudiando as atitudes do
governo. Toda a movimentação e o teor da Encíclica foi divulgado aos católicos pela
imprensa como consta do jornal São Francisco:
“Depois de agradecer os testemunhos e simpatias recebidos do mundo inteiro, pelo
que denomina “a defesa da liberdade de consciência”, o papa estima caluniosas
acusações e os violentos processos de que foram vítimas em Roma e em toda a
Itália, as organizações da Ação Católica, da Juventude Católica e estudantes filiados
à Ação Católica.”105
O Vaticano contestou as acusações feitas pelo governo fascista sobre uma possível
conduta política perniciosa assumida pela Ação Católica, expostas ao povo italiano em tom de
ameaça pelo ditador: “... estas além de revestir-se das aparências de um partido com seus
estandartes, insígnias de cultores do direito, apontava no seu seio alguns antigos membros do
Partido Popular”.106
104
Jornal São Francisco, Ano VIII, nº 106 – 01-07-1931.
105
Jornal São Francisco, nº 109, 15-08-1931.
106
Jornal São Francisco, nº 109, 15-08-1931.
231
A Encíclica tratou da concepção fascista de Estado e sobre a educação, como consta de
alguns comentários feitos na imprensa sobre seu conteúdo:
“A Encíclica assinala que, como se sabe, todos os membros do partido fascista, as
crianças são obrigados a prestar juramento de completa fidelidade a um regime que
acentua, “comporta tão graves abusos” e, em seguida declara que o Papa considera
esse juramento ilícito, em certas circunstâncias, quanto à tranqüilidade das
consciências, não o admitindo senão depois de retificado, se necessário,
publicamente por meio de uma cláusula que salvaguarde os direitos de Deus e da
Igreja.”
A guerra foi resultado direto do totalitarismo nazi-fascista e da expansão imperialista
do capitalismo. Deflagrada em 1939, estendeu-se até 1945, ocupando o cenário das discussões
internacionais, afetando diretamente a Igreja e a rotina das cidades devido à mobilização de
homens para o alistamento militar e por provocar uma certa comoção pública em função de
sua amplitude e perversidade.
O poema de despedida de uma mãe ao filho expedicionário, que circulara em jornal da
época, mostra como a vida das pessoas havia se modificado em função dos acontecimentos.
Parecia servir de alento num tom poético de desabafo:
“Salve, Salve! Esquadra expedicionária!
Que cingindo os mares, deixa o pátrio torrão
Leva a seu bordo os que há de nobre e seleto
A fina flor, da brasileira Nação...
Ouvi senhor as mais ardentes preces!...
Que aos céus elevam, maternais corações
Almas generosas, que a pátria oferecem,
O objeto mais caro de suas afeições!..”107
No artigo “O Papa em perigo”, a notícia da guerra afligia os católicos, ao expor a
vulnerabilidade do Papa frente ao ataque dos alemães em Roma. Mas no seu conteúdo,
procurava demonstrar a capacidade da Igreja, através dos tempos, de sobreviver às
adversidades:
107
São João Del Rei, julho de 1944. Jornal Interno A Semana – 23 a 30 de julho de 1944.
232
“Com verdadeira angústia no coração, nós acompanhamos as notícias: os alemães
cercaram Roma, ocuparam militarmente o território neutro do Vaticano, a praça de
São Pedro, fecharam as portas do palácio Papal, proibindo a entrada, prenderam
alguns cardeais, dignitários da Igreja, ameaçaram o próprio Santo Padre Pio
XII.[...]Eles podem saquear Vaticano, prender os príncipes da Igreja, podem destruir
a nossa Igreja-Mãe, a de São Pedro, podem humilhar até matar o Papa, que será para
eles a condenação, a Igreja porém jamais destruirão, esta vencerá, florescerá mais
ainda e sairá vitoriosa até a consumação dos séculos.”108
Divinópolis esteve presente na guerra, enviando elementos para o corpo
expedicionário e partindo da paróquia, Frei Orlando, como capelão militar para as Forças
Expedicionárias. Teria ele fortes laços com a cidade por ter iniciado seus estudos e se
ordenado em Divinópolis. Assumiu posição na guerra junto às tropas brasileiras e sensibilizou
os divinopolitanos por ter morrido exercendo essa função.
O teor de uma de suas cartas enviada à Frei Respício van Valkenhoef foi divulgada no
jornal, fazendo considerações sobre o ambiente da guerra que encontrara na Itália:
“Quanto ao primeiro contato com o país de guerra onde estamos, pouco poderei
dizer de um modo claro e determinado, dadas, as instruções do sigilo militar. Porém
o que tenho ouvido e visto serviu-me de uma lição tremenda sobre a decantada
civilização moderna.”109
A notícia de sua morte provocou grande comoção na cidade e a lembrança de sua
atuação foi por muito tempo abordada em cerimônias e nas publicações:
“Acabamos de receber o telegrama comunicando que morreu no campo de batalha,
na Itália, o capelão militar Pe. Frei Orlando Alvares da Silva. Foi a notícia irradiada
na noite de Segunda feira p.p. e que repercutiu dolorosamente na paróquia de
Divinópolis, onde frei Orlando sempre teve muitos amigos e admiradores...”110
Os acontecimentos marcantes da nação também ocupavam espaço na imprensa,
principalmente aqueles envolvendo diretamente os interesses da Igreja Católica no Brasil. Foi
o caso da construção da Estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, que mobilizou os
católicos nos anos 20, sendo comum nos jornais, solicitações de contribuição feitas pelo
108
Jornal Interno A Semana - 26 de setembro de 1943.
109
Jornal Interno A Semana - 12 a 19 de novembro de 1944.
110
Jornal Interno A Semana - 4 a 11 de março de 1945.
233
arcebispado de Belo Horizonte. A obra gigantesca foi projetada pelo escultor Paul Landovsky
e pelo arquiteto Silva Costa.111 Um monumento de 700 toneladas, tamanho e peso
proporcionais ao seu significado simbólico, como uma marca permanente da vocação católica
do povo brasileiro. No jornal “O clarão”, órgão oficial da União dos Moços Católicos de
Divinópolis, dirigido pelo Pe. José A . D. Bicalho e F. Farnese de Gouvea, foi divulgada a
criação de uma comissão para coleta de esmolas voltadas para a construção do monumento.112
A inauguração da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro em 1931 no governo
de Getúlio Vargas, foi um acontecimento nacional de peso, numa demonstração concreta da
aliança entre Estado e Igreja no Brasil. Foi um momento de profundo significado religiosopolítico para as partes envolvidas no compromisso de resguardar a disciplina e a ordem, bem
como na disposição de investir na recristianização da sociedade. Sob o título de “Viva Cristo
Rei!”, o jornal São Francisco noticiou a importância do fato: “Cristo do alto do Corcovado
vai presidir os destinos do Brasil. Vai operar verdadeira revolução católica, mas sem o
emprego de armas ou dinamite, com a entronização do Rei nas famílias, nas escolas, na
política, na vida econômica”.
As palavras do cardeal Dom Leme expressaram bem a dimensão do acontecimento:
“Quando o gênio de Marconi iluminar o monumento do Corcovado ao dia 12 de
outubro, um clarão há de iluminar também o coração do povo brasileiro,
focalizando-o aos olhos do mundo. A cidade extasiada verá o seu Cristo de braços
aberto a envolvê-la num gesto perene de fraternal abraço, a querida pátria
brasiliense.”
A força da hierarquia nacional foi sempre reforçada pela imprensa, destacando a
importância da obediência à hierarquia. Os bispos, alinhados com as determinações
transmitidas por Roma, principalmente no momento em que a Igreja procurava consolidar sua
influência sobre a sociedade brasileira, esforçavam-se por alimentar a tradição católica do
povo brasileiro, investimentos da hierarquia que se intensificaram a partir dos anos 20.
A autoridade dos bispos foi aplicada em diversas situações, atingindo em cheio as
manifestações religiosas populares, vistas como contrárias ao modelo de catolicismo oficial.
111
Jornal São Francisco, Ano IX, nº 113, 15.10.1931.
112
Jornal O Clarão – 01-12-1923.
234
Uma delas partiu de Dom Cabral, relativa a proibição do Reinado. Tratada no jornal “O
Clarão” através do título “Adeus Reinado!”, elogia e apoia o prelado por sua atitude:
“Havia por estas bem ditas terras de Minas uma festa tradicional chamada Reinado.
Que era ela? Religiosa ou civil? Cristã ou pagã? Não se sabe bem, ou pelo menos,
não se pode dizer em poucas palavras. O certo é que nada tinha de divino; e por isso,
teve de passar, como todas as outras coisas que estão no mesmo caso. Passou o
Reinado! Pelo menos está passado para a diocese de Belo Horizonte, conforme aviso
do Vigário Geral, em nome do Exmo. Prelado Diocesano.
Não há, de certo, vigário algum que deixe de realizar o desejo de seu querido Bispo.
Parabéns sinceros ao distintíssimo Sr. Dom Cabral e a todo seu clero pela grande
obra de saneamento cívico-religioso-patriótico que vem praticar com a extinção do
Reinado.”113
O movimento de recristianização promovido pela Igreja representava uma tendência
de implantar, no Brasil, um modelo de catolicismo importado da Europa. Portanto, as
manifestações espontâneas do catolicismo popular deveriam ser suplantadas por rituais e
símbolos estabelecidos pela Igreja oficial.
A hierarquia, comprometida com o catolicismo oficial, estava associada ao Estado e à
ortodoxia romana, tentando se fazer universalista através de uma hegemonia simbólica que
procurava ser incontestável, mais normatizada, ilustrada e racional. Esse catolicismo oficial se
instrumentalizou, ajudando a sacralizar o poder civil e obtendo dessa forma respaldo do
Estado para restringir legalmente a atuação social de outras religiões minoritárias. Esse
modelo oficial enfrentou um catolicismo impregnado por velhas práticas supersticiosas, mas
transbordante de espontaneidade. Tal prática rudimentar estava ligada a um sentimento
religioso humano e singelo, responsável por um culto intimista mas, ao mesmo tempo,
comunitário e democrático (Brandão, 1988:51-55).
O enquadramento do catolicismo popular foi analisado por Riolando Azzi como
resultado do processo de restauração católica, criando restrições às manifestações da
religiosidade popular e de suas organizações. O catolicismo do povo restringia-se a
manifestações puramente exteriores, muitas vezes supersticiosas e com manifestações de
sincretismo. Para sanar essa deficiência, porém, ressaltando a tradição católica do povo
brasileiro, a administração do patrimônio da fé nos aspectos doutrinal, ritual e devocional
passaram ao controle exclusivo do clero (Azzi, 1994:93-94).
113
Jornal O Clarão – 01.03.1923.
235
A imprensa cumpriu um papel importante no fortalecimento da mentalidade enfatizada
pela Restauração Católica. O clero europeizado, segundo Azzi, contribuiu para o
fortalecimento do aspecto doutrinal da fé católica. As publicações comprometidas com esse
modelo, em grande parte foram assumidas por religiosos: a revista Vozes de Petrópolis dos
franciscanos; O Mensageiro do Coração de Jesus, publicada pelos jesuítas; a revista Ave
Maria foi uma iniciativa dos claretianos; a revista Lar Católico foi assumida pelos padres do
Verbo Divino; Os Mensageiros do Rosário editada pelos dominicanos; O Lutador dos padres
sacramentinos. Os redentoristas publicaram o Almanaque de Nossa Senhora Aparecida e os
salesianos, as Leituras Católicas (Azzi,1994:27).
Tudo indica que estas publicações de circulação nacional serviram de suporte para a
ideologia católica do período, fazendo parte de uma grande rede de comunicação católica,
inspirando reflexões teóricas e doutrinárias, orientando práticas, reforçando símbolos e
devoções capazes de garantir uma unidade administrada pela hierarquia eclesiástica.
Na tentativa de perceber a evolução do uso dos meios de comunicação pela Igreja,
principalmente da imprensa como veículo de transmissão de sua ideologia, autores como
Ismar Soares concluíram que prevaleceu, dos anos 40 aos 60, um discurso mais conservador.
Somente no final da década de 50 e início de 60, começaram a ser lançados os fundamentos
de uma nova teoria cristã da comunicação. O autor mostra que em decorrência do Vaticano II
surgiram duas tendências quanto ao entendimento sobre o sistema de comunicação. Uma
primeira mais tradicional defendendo a idéia de reforço de uma presença mais institucional e
uma segunda mais articulada em nível de base, acreditando num uso popular dos recursos de
comunicação social (Soares,1988:241 e 300).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo da ação sócio-política e cultural da Igreja entre os anos 30 e 50, a partir de
uma experiência localizada no interior de Minas Gerais, possibilitou um melhor entendimento
da reestruturação da Igreja Oficial de Roma, bem como da aplicação das proposições da
Santa Sé em nível nacional. Em seu campo de atuação, foram consideradas as posições
político-institucionais envolvidas no projeto de restauração católica; as influências teóricas
importadas e sua remodelação dentro da realidade brasileira; a formação de uma elite
responsável pela aplicação desse projeto e pela interlocução com as classes populares e as
conseqüências dessas opções para a relação entre o catolicismo institucional e as
manifestações populares. Nesse processo, teve expressão um modelo de catolicidade
europeizado pela introdução de novas devoções, de propostas litúrgicas e de um novo
apostolado.
Através da pesquisa, foi possível compreender as incorporações dessas transformações
da Igreja universal no cotidiano paroquial. Num espaço social particularmente rico, de uma
cidade de formação e tradição operária, bem localizada no centro oeste mineiro, com
influência regional destacada por sua posição como centro econômico e de influência cultural,
Divinópolis tornou-se um ambiente de convergência da vida franciscana, ao sediar a Província
Franciscana de Santa Cruz. A Província era ponto de recepção e de irradiação das orientações
pastorais eclesiásticas mais expressivas definidas pela hierarquia católica. Apresentava
potencial até para uma reflexão e produção próprias de instrumentos de ação social e
apostólica, por abrigar um centro de formação superior, com circulação permanente de
intelectuais e de clérigos ligados à arquidiocese, à matriz holandesa e ao núcleo de formação
eclesiástica de Roma.
A atenção dispensada pelo arcebispado de Belo Horizonte ao funcionamento religioso
da cidade, bem como à sua organização política e cultural, expressam a singularidade do lugar
e seu grau de importância no contexto geral da administração da arquidiocese no estado de
Minas Gerais.
O processo de romanização implementado no Brasil a partir da segunda metade do
século XIX, que aproximou e adequou o clero nacional às determinações da Santa Sé, e o
movimento de restauração, especialmente aplicado a partir dos anos 20, tiveram como um dos
núcleos de difusão, Minas Gerais. Na arquidiocese de Mariana, destacou-se como figura
importante Dom Viçoso, e posteriormente, através da criação da Arquidiocese de Belo
237
Horizonte, quando desponta a liderança de Dom Cabral, assumindo um compromisso
orgânico com a implantação e consolidação da Ação Católica.
O estudo, ao considerar uma dimensão mais ampla de ação da Igreja e a experiência
vivida localmente, esteve amparado numa análise conjuntural já bem consolidada por
historiadores, sociólogos e especialistas no campo do estudo da religião e das estruturas
políticas. Algumas inferências relativas ao percurso histórico e a aspectos sociológicos, bem
como, considerações feitas sobre a importância da memória na recolocação dos registros
documentais utilizados, resultam da compreensão de como se manifestaram na cidade as
definições institucionais religiosas e políticas mais amplas.
Para uma melhor compreensão do fenômeno religioso representado no fortalecimento
da imagem de Cristo pela Teologia da Realeza e pela Teologia da Ação Católica, pode ser
tomado como referência o significado simbólico da edificação do Cristo Redentor no Rio de
Janeiro, e em dimensões menores, a entronização da imagem de Cristo nos espaços públicos e
nas residências. Este ato representava a encarnação simbólica imediata da proposta de
restauração católica da sociedade, que vinha sofrendo ameaças de laicização desde a Primeira
República.
A cerimônia guarda em si o sentido da força política do poder institucional da religião,
se impondo como barreira aos propósitos secularizadores que por ventura tentassem evitar o
reforço da catolicidade, ganhando o status de nacionalidade pela reaproximação entre Igreja e
Estado no Brasil a partir dos anos 30 . Ao mesmo tempo, a entronização da figura do Coração
de Jesus no espaço doméstico denota o mesmo sentido. Expressa, entretanto, a presença do
sagrado no campo privado, incorporado na individualidade, garantindo a prática de vida
cristã, aplicada nos detalhes das relações sociais rotineiras. Uma imagem presente para
proteger e não deixar esquecer o compromisso com os preceitos católicos. A imagem tem o
sentido da ocupação do espaço do sagrado e, através desses mecanismos e de seu reforço, a
moral católica impregnaria não só a vida individual e familiar, mas também a conduta pública
do cidadão.
O apelo ao simbólico preenchia o espaço do imaginário, no sentido de provocar nos
fiéis a necessidade do vínculo com a proteção divina, reforçando, ao mesmo tempo, a
presença institucional católica, tornando-a capaz de assegurar a estabilidade da vida social e
doméstica. A idéia condutora presente no discurso da entronização da imagem de Jesus nos
lares e nos espaços públicos era a da harmonia das relações sociais garantida pela tradição.
238
É através dos imaginários sociais que uma coletividade define sua identidade e elabora
uma certa representação de si, estabelecendo a distribuição de papéis e das posições sociais.
Exprime e impõe crenças comuns, constrói uma espécie de código de comportamento. O
imaginário social legitimado passa a representar uma das forças reguladoras da vida coletiva.
As referências simbólicas indicam a condição de pertencimento, representando um
mecanismo de controle da vida social, em especial do exercício da autoridade e do poder,
tornando-se, ao mesmo tempo, o lugar e o objeto dos conflitos sociais (Baczko, 1985: 309310).
No caso de Divinópolis, o ato público de entronização efetivado em 1918 pelas
autoridades religiosas e seculares constituídas, provocou a reação das forças contrárias à
ideologia católica propagada naquele período. Entretanto, representou um ato determinante
que delimitou o espaço de atuação da Igreja, procurando intimidar tendências consideradas
laicizantes e opositoras, arregimentando forças para as demarcações posteriores.
Este ato simbólico fazia parte de uma conduta da Igreja iniciada no século XIX e
reforçada por Pio XI na Encíclica Ubi Arcano de 1922, de restaurar as nações no Reino de
Cristo. Embalados por esse movimento, começou a propagar-se em escala mundial a obra de
entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Os valores cristãos presentes nesse culto
foram propostos às famílias como contrapeso às forças deletérias ameaçadoras do lar católico
(Matos, 1990: 23). No caso do Brasil, acreditava-se que a República laica instalada em 1889
havia afastado o país da ordem cristã e a nação estava mergulhada numa crise moral. Era
preciso, portanto, restituir o país à Cristo.
O conceito de rotinização do carisma de Weber contribui para que se possa entender a
estruturação da Igreja em seu processo histórico e a centralização promovida por Roma em
meados do século XIX. Superada a passagem da ruptura operada por Jesus Cristo,
expressando seu carisma, tendo ocorrido a estruturação institucional com a hierarquização da
Igreja
e modificadas as raízes genuínas desse carisma, passou a preponderar o poder
cotidiano da tradição a partir da oficialização do Cristianismo, ainda no século IV da Era
Cristã (Weber, 1999: 331-336). Esse desencadeamento não quer dizer que tenha existido uma
só versão de Igreja ou que a tendência hegemônica de uma Igreja Oficial tenha se sobreposto
às outras manifestações sem que tenham ocorrido conflitos e o afloramento de contradições e
de reformulações decorrentes da relação dialética entre as partes envolvidas nas concepções
de mundo e do significado de ser cristão.
239
Ilustram essa realidade, as diferentes concepções sobre os problemas da sociedade
moderna, da questão social e do envolvimento político da Igreja levantados pelo Pe. Júlio
Maria. Enxergava a ação católica pelo reconhecimento do “conflito iminente, duelo inevitável
entre as classes altas e as classes inferiores”, apontando uma “catolização” de baixo para
cima, não pela filantropia, pelo bem estar material ou pela força, mas por meio da reação
religiosa das classes dirigentes e pela regeneração das classes inferiores.1 No entanto, a opção
oficialmente assumida pela Igreja, no caso do Brasil, foi a de Dom Leme, baseada numa idéia
acrítica e quase mítica de Nação Católica.2
Teve força uma visão tridentina de Igreja como Sociedade Perfeita, defensora da
infalibilidade papal, predominante até o início do século XX. Seu desenvolvimento e o
contato estabelecido com o mundo possibilitaram a reinterpretação feita no Concílio Vaticano
II. A partir dele foi possível discutir o que é a Igreja, considerando sua falibilidade e uma
melhor compreensão do mundo moderno, não apenas marcado por coisas ruins, pois dele
cresceu a idéia de democracia, ampliaram-se o progresso técnico e as noções de justiça,
importantes elementos a serem trabalhados pela Igreja em sua relação com a realidade de cada
nação.3
As interpretações sobre a sociedade capitalista, a questão social dela decorrente, que
estimularam tentativas de aproximação com os trabalhadores e tenderam à organização de um
socialismo cristão, mostram uma outra visão de Igreja e de orientação sobre o sentido da
aplicação do evangelho. “Cherles de Coux, A.. de Villenuve, Gerbert e outros denunciam o
vício do capitalismo bem antes de Marx, denunciam a teoria oficial do valor que gera o
capitalismo.”4
A própria evolução da Ação Católica, lançada inicialmente como um exército
apostólico ligado a uma concepção conservadora e apologética de Igreja, ainda influenciada e
presa a estruturas tradicionais anteriores, se transforma num movimento reorganizado,
especializado, atualizando-se nas concepções políticas e de justiça social. O resultado no caso
Pe. Mário Mattos (org.), O decálogo; 1ª série das conferências da catedral do Rio de Janeiro, em 1907; Pe. Júlio
Maria, S. João Nepomuceno (MG), Ed. Pe. M. Mattos, s/d, p. 57. In: Lustosa, 1991, p. 99-100.
1
Ralph Della Cava. Igreja e Estado no Brasildo Século XX. Sete monografias recentes sobre o Catolicismo
brasileiro, 1916/64, em “Estudos CEBRAP, 12, abril/junho 1975, p. 5-52 (Resumo de Alberto Antoniazzi p. 1).
2
Tema abordado em artigo de Frei Aloísio Lorscheider e de Frei Estanislau (Revista de Santa Cruz, AnoXXX, nº
5, 1964, p. 107-110).
3
4
Comblin, 2002, p. 29-30.
240
do Brasil foi uma reformulação progressiva da conduta do próprio episcopado e da CNBB,
ocorrendo mudanças na sua relação com o Estado e com os problemas sociais. O que não quer
dizer que tenha havido uma mudança estrutural no que se refere ao clero brasileiro e em
relação à Roma em particular. No caso do Brasil as contradições afloraram e levaram a
divisões internas, colocando desafios para os chamados “progressistas”. A demonstração
cabal disso foi a própria concepção de Povo de Deus e a opção preferencial pelos pobres
formulada pela Teologia da Libertação e as mudanças no trabalho pastoral com a experiência
das CEBs.
Luiz Alberto Gomes de Souza, ao chamar atenção para um estudo da Igreja em relação
às estruturas de classe da sociedade, destaca o esforço da Igreja Católica em manter sua
unidade, apesar de abrigar uma diversidade de interpretações e manifestações de Igreja em
seu interior. Busca em sua análise a contribuição de Gramsci que atenta para o fato de que:
“Toda religião (e especialmente a católica, justamente por seus esforços para
permanecer unitária ‘superficialmente’, para não dividir-se em Igrejas nacionais e
em estratificações sociais) é em realidade uma multiplicidade de religiões distintas e
muitas vezes contraditórias: há um catolicismo de camponeses, um catolicismo de
pequenos burgueses e de operários das cidades, um catolicismo das mulheres e um
catolicismo de intelectuais, ele próprio velado e incoerente.”5
Os avanços e recuos fizeram parte da história da Igreja. Comblin ao analisar o ritmo da
Igreja Universal, acredita que os avanços apresentados pelo Vaticano II foram paralisados por
uma opção mais tradicional que teria levado a Igreja a um recuo diante da abertura
proporcionada por João XXIII (Comblin, 2002).
São essas várias Igrejas, várias interpretações do carisma de Jesus que mostram o
quanto é difícil tentar analisar uma só Igreja amparada numa universalidade impossível de ser
aplicada. As reflexões de Frei Bernardino sobre essa questão nos ajudam a compreender a
riqueza dessa diversidade:
“É evidente que toda a maneira de viver de Jesus é judaica. A Igreja foi fundada por
um judeu dentro de uma cultura judaica. Depois esta se espalhou pela Europa toda,
absorvendo e penetrando em diversas culturas, romana, germânica, em outros
Gramsci, Il materialismo storico e la filosofia di Benetto Croce, Quaderni del carcere, XXIII, Turim, Einaudi,
1966, p. 120. In: Souza, Luiz Alberto Gomes de. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes,
1984.
5
241
contextos, sendo obrigada a falar outras línguas, a criar novas linguagens. [...] Acho
que a fundamental inspiração continua, mas as formas como se expressam,
acontecem conforme as condições humanas, sociais, cultuais e locais diferentes.”6
A Igreja que prevaleceu nas primeiras décadas do século XX, foi aquela idealizada por
Pio XI. Cabe analisar nessa perspectiva as estratégias e o significado de sua multiplicação e o
sentido de universalidade que se tentava dar para essa posição oficial. Tudo isso através do
envolvimento dos leigos numa ação educativa a partir de um apostolado universal como
mãos, braços, lábios, corações e vontades, restaurando a vida católica em todos os meios
sociais na perspectiva de manutenção de uma unidade orgânica, como membros de um só
corpo. A estratégia de transformar o leigo em parte fundamental da Ação Católica, apoiando e
obedecendo a hierarquia, sustentou-se na eclesiologia do Corpo Místico de Cristo; Jesus como
a cabeça da Igreja operando a divinização dos membros (Dale, 1985: 34 – 59).
Houve uma revalorização da Igreja como comunidade dos fiéis em Cristo; os leigos
ganharam relevância envolvendo-se na ação apostólica e delinearam-se os primeiros passos da
Ação Católica, oficializada no Brasil em 1935 (Matos, 1990: 152). Essa conduta representava
uma atitude nova da Igreja diante daquilo que se colocava efetivamente como moderno nas
primeiras décadas do século vinte. Essa concepção de modernidade via na religião católica a
marca da tradição e do alongamento dos resquícios do que passava a ser considerado como
velho. A Igreja, portanto, estava diante de um grande desafio: reformular-se para alcançar um
nível de fortalecimento capaz de enfrentar a tendência mais racionalista que se apresentava e,
ao mesmo tempo, garantir permanências necessárias para que as rupturas não colocassem em
risco seu poder e autoridade moral.
Paradoxalmente, e o caso do Brasil é bastante ilustrativo, o Estado moderno
secularizado, apesar de apoiado em fundamentos liberais e / ou positivistas, encontraram na
Igreja e no seu novo formato, a parceria adequada para uma convergência de ações
garantidoras da ordem social.
Weber mostra que a ligação entre os poderes secular e religioso ocorreu em vários
momentos históricos, afirmando: “em regra, o carisma sacerdotal chegou a um acordo, quase
sempre tácito, mas às vezes também fixado em “concordatas”, com o poder secular, o qual
garantia a ambos sua esfera de poder, deixava a cada um uma certa influência dentro da esfera
6
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Lerns no dia 22.07.02.
242
do poder do outro”7. Sobre essa relação dentro da democracia moderna, Weber acrescenta que
a hierocracia foi levada a adaptar-se à burocratização e aos novos mecanismos de poder,
recorrendo à organização partidária, à demagogia, à correlação de forças nos parlamentos para
sobreviver dentro da nova estrutura social (Weber, 1999 395).
A idéia do Corpo Místico manteve-se numa concepção antropomórfica de um
organismo funcionando harmoniosamente com as suas partes, tendo sido reforçada na
Encílica de Pio XII Mystici Córporis de 1943 e ampliada com as inovações da década de 60.
Já nessa linha, mostra que era importante crescer, assumindo sua imperfeição em graça, idade,
e santidade perante Deus e os homens.8 Essa eclesiologia se desenvolveu a partir de um
pensamento de Paulo, querendo explicar aos cristãos a solidariedade mítica que os unia e os
reunia a Cristo. Utilizou o exemplo do organismo vivo e da interdependência que se observa
entre seus membros e órgãos.9 Essa concepção suscita uma interpretação sociológica numa
perspectiva funcionalista por representar uma visão organicista da relação entre partes
integradas e harmônicas. Expressa o modelo de sociedade almejado pela Igreja no seu ímpeto
de impedir a proliferação da crise moral, do desajuste individualista e racionalista e do
revolucionarismo comunista.
É interessante observar que nessa linha de raciocínio, teve destaque no início do século
XX a teoria de Durkheim, também voltada para os problemas da sociedade urbano-industrial,
buscando entender os aspectos da modernidade referentes aos desajustes responsáveis pela
anomia social. No prefácio da segunda edição de sua obra “Da divisão do trabalho social”, o
autor mostra o sentido do equilíbrio possível pelas relações corporativas no trabalho.
Durkheim salientou a importância de uma referência moral para a sociedade, criticando o
falso antagonismo entre a autoridade da regra e a liberdade do indivíduo. A liberdade justa,
segundo ele, seria aquela definida pela sociedade. O caminho para uma referência moral,
capaz de resgatar uma segmentação necessária na sociedade moderna seria a organização
corporativa, não no sentido anacrônico de recolocação do passado medieval mas na
possibilidade que criaria de agrupamento profissional com poder moral em condições de
7
Weber, 1999. p. 365.
Tema abordado em artigo de Frei Aloísio Lorscheider e de Frei Estanislau (Revista de Santa Cruz, AnoXXX, nº
5, 1964, p. 107-110).
8
9
Rocher, Guy. Sociologia Geral. Tradução Ana Ravara. Lisboa: Presença, 1971 (Vol. 3)
243
conter os egoísmos, tornando possível uma forma de solidariedade necessária na sociedade
contemporânea.10
A importância atribuída por Durkheim aos valores e às normas sociais manifesta-se
em seu estudo do fenômeno religioso, ressaltando o papel social da religião como
manifestação capaz de assegurar a integração dos indivíduos na coletividade. Martelli explica
que, para Durkheim, a religião dá forma expressiva a sentimentos que alimentam as normas e
os valores fundamentais da sociedade e através dos ritos consolida-os na consciência dos
indivíduos (Martelli, 1995: 68).
No caso da Igreja, o grande passo para o enfrentamento dos problemas da sociedade
contemporânea e consequentemente da “questão social” foi dado por Leão XIII através da
Rerum Novarum 1891, posteriormente reforçada pela Quadragésimo Anno 1931. A questão
social transformou-se em tema de primeira importância e a Igreja definiu sua doutrina social e
uma versão do que significaria para ela a minimização dos extremos do capitalismo com base
numa noção mais clara de justiça social. A alternativa apontada para o mundo moderno estava
na adoção dos princípios corporativistas na relação entre capital e trabalho e destes para com
o Estado. Era a saída pela cristianização do capitalismo através do reformismo social,
ancorado na idéia de que o primado da livre concorrência precisava ser mitigada pela
solidariedade corporativa capaz de garantir o progresso. Seria a reorganização do capitalismo
“sob o imperativo ético do comunitarismo”11. Acreditava-se que o abandono da organização
profissional que prevalecera na Idade Média teria sido responsável pela desagregação do
trabalho na sociedade moderna. A organização corporativa do trabalho aliada à adoção da
proposta do justo salário e do justo preço conduziria a um modelo de sociedade mais
equilibrada, sem no entanto tocar do direito de propriedade e na polêmica luta de classes
(Isaía, 1998: 127-128).
No período em que era lente do curso de teologia e ajudava nos trabalhos da paróquia
nos anos 50 e 60, Frei Bernardino Leers esteve em reuniões de operários para falar sobre a
“questão social” e faz hoje uma observação interessante:
“Me lembro das palavras de Alceu Amoroso Lima que confirmou que só através de
João XXIII com a Mater Et Magistra, o catolicismo brasileiro foi descobrindo a
existência de uma tal doutrina social. Na Europa foi muito antes. Minas
10
Durkheim, Émmile. Da divisão do trabalho social In: Os Pensadores p. 306-310.
11
Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 159.
244
principalmente foi sempre um atraso, por causa da infiltração do neojansenismo nos
seminários de Mariana e de Diamantina.”12 (Frei Bernardino Leers)
A defesa de um Estado corporativo, defensor dos humildes, foi acolhido no modelo de
sociedade e de organização política praticado no período Vargas e deixado como herança para
a organização trabalhista no Brasil. A colaboração entre Estado e Igreja, selada a partir de
1930, garantiu a canalização de esforços por um nacionalismo católico, pelo combate aos seus
inimigos comuns comunistas, socialistas, liberais e outros que se apresentassem contrários ao
modelo proposto. Fortalecia também a Igreja contra seus inimigos em particular,
representados pelos protestantes, espíritas, umbandistas e maçons (Isaía, 1998: 150).
Os vínculos de colaboração entre hierarquia eclesiástica e poder político se
mantiveram na década de 50, principalmente no governo Kubitschek. Ambos voltaram sua
atenção para os problemas de ordem socioeconômica, com destaque para as questões do
campo. Participava desse processo Dom Helder Câmara como secretário nacional da Ação
Católica e pela CNBB (Azzi, 1994: 143).
A aplicação do projeto social da Igreja em Divinópolis denota bem a abrangência
dessa grande rede de ação colocada em prática em nível nacional. A criação do Círculo
Operário, as intermediações do clero nas negociações trabalhistas dos ferroviários, sempre
procuravam evitar saídas conflitivas. Ocorriam as maratonas da imprensa e do apostolado
católico no combate aos seus opositores, a “paranóia” anticomunista. Fazem parte desse
conjunto também o comprometimento dos intelectuais católicos com a preparação dos
operários do círculo, a inculcação da doutrina social católica através das palestras. O mais
curioso era a divulgação permanente de textos sobre o corporativismo e a questão operária no
jornal católico “A Semana”,
na seção destinada ao Círculo Operário. A densidade do
conteúdo desses textos, a profundidade da reflexão que o tema teria provocado entre os
clérigos e os intelectuais comprometidos com a causa, a forma como essa tradução chegava
aos trabalhadores, são questionamentos que mereceriam um estudo específico, mais
aprofundado. Apenas como ilustração, constam entre fevereiro de 1943 e julho de 1946 cerca
de 60 textos publicados com títulos que variam entre: Ligeira idéia doutrinária e histórica das
corporações ou ainda, Corporativismo e Estado.
12
Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Lerns no dia 22.07.02.
245
A doutrina social da Igreja lançada a partir da Rerum Novarum parece ter sido motivo
de um discurso articulado. Mas o que se percebe a partir do estudo feito é que havia uma
distância entre a importação das idéias e das proposições contidas nesse novo paradigma e sua
aplicação e assimilação pelos católicos. Mesmo entre o clero, parece que não havia clareza
sobre a dimensão desse novo modelo e de ação social da Igreja. Os primeiros franciscanos, e
mesmo depois com as reflexões possibilitadas pela Escola de Teologia, parece que não tinham
clareza dessa dimensão. Além disso, a convivência com o clero local influenciado pela
formação tradicional de Mariana acabava por reforçar uma conduta mais conservadora no
tratamento dos problemas sociais e sobre as questões morais e sobre a vida dos católicos. As
mudanças foram lentas, a digestão das novas idéias foi gradativa, e no caso de Divinópolis, o
fato de ter havido o debate de idéias provocado por grupos questionadores da hegemonia
católica, deu à experiência local um tom de desafio demonstrando a grande dificuldade
enfrentada pela Igreja no sentido de lidar com a diversidade.
Num campo de análise mais amplo, mereceria um estudo mais aguçado o sentido de
justiça social pregado pela Igreja, considerando a evolução desse conceito e as mudanças de
rota após 1964, bem como, as transformações internas gestadas nesse processo, configurando
segmentos que alguns autores chamam de “progressistas” e “não progressistas”. Nessa linha
caberia analisar as rupturas externas, a condução do trabalho pastoral e a perda do controle da
hierarquia sobre a ação do laicato, trilhando outros caminhos em defesa da justiça social sob
prismas diferentes
Ao tentar colocar limites no modernismo e nas idéias de liberdade e igualdade
sublimadas nesse processo, a Igreja debateu com os porta vozes desse pensamento, buscando
se recolocar à frente das decisões políticas e estabelecendo parâmetros de uma inserção social
que passava pela definição de seu lugar na sociedade capitalista. Nesse caminho ela fez
articulações com o poder, agiu sobre a questão social, sofreu influência de teorias e acabou
por contribuir com a politização de um contingente de católicos militantes.
Como exemplo das influências teóricas européias, cabe ressaltar o pensamento
reacionário francês no Brasil, assumido por Jackson de Figueiredo, quando este liderava o
Centro Dom Vital, levando a um elitismo e à concepção de um pensamento moralista
defensor da ordem. Posteriormente, já sob orientação de Alceu Amoroso Lima, ocorreu uma
246
cisão no pensamento católico com a introdução do Humanismo Integral13. Era uma doutrina
neotomista recolocando as relações entre o imanente e o transcendente de Jacques Mairitain,
provocando uma flexibilização
que culminaria nas inovações tentadas pelo Vaticano II
(Montenegro, 1972: 167-180).
Ao estudar a atuação leiga, chama atenção o comprometimento orgânico dos membros
da Ação Católica. No caso da análise de Divinópolis, a observação esteve voltada para um
período inicial do movimento bastante disciplinado pela hierarquia e reacionário diante das
modernizações. O público atuante era uma classe média composta de alguns homens letrados
e mulheres devotas que se esforçavam para praticar uma ação social vinculada aos preceitos
institucionais representados na paróquia pelo vigário e pelos assistentes eclesiásticos. O
esforço se explica pela tendência ainda forte de um catolicismo mais espiritualista, vivenciado
mais na intimidade e na participação no culto litúrgico, sem experiência de uma ação coletiva
voltada para o comprometimento ou mesmo compreensão do que representava a idéia lançada
sobre reforma social.
Fica evidenciada uma postura assistencialista e caritativa no tratamento dispensado às
classes populares, com uma tendência de estar transmitindo o discurso da verdade. Aponta o
melhor caminho para os “humildes”, adjetivo freqüentemente utilizado na época, numa
posição até autoritária, considerando-os inaptos à escolhas e propensos à sedução das idéias
contrárias ao pensamento católico.
O discurso católico e as formas de sua penetração na coletividade foram abordados na
sua capacidade de influenciar comportamentos e de argumentar com os discursos contrários,
representantes de ideologias capazes de veicular um apelo persuasivo em torno da liberdade.
A Igreja ao relativizar o sentido da liberdade e da igualdade precisava colocar no lugar uma
proposta que, mesmo não exercendo tal sedução, alcançasse os desejos sociais, mostrando às
pessoas em particular e ao conjunto da sociedade, as vantagens de adesão à sua ideologia.
A movimentação dos discursos, as práticas de intervenção e de ação política
relacionadas aos mesmos acabou por definir registros de civismo, marcantes tanto nas
iniciativas dos católicos como dos grupos leigos independentes e daqueles ostensivamente
contrários ao pensamento católico. Havia um envolvimento com as questões nacionais, uma
Maritain propôs uma conciliação entre humanismo e cristianismo, um “humanismo teocêntrico”, único
verdadeiramente integral, reconciliando ciência e sabedoria, evitando o humanismo antropocêntrico e o
cristianismo desencarnado. A junção entre humanismo e cristianismo possibilitariam a renovação social e
cultural, podendo atingir um ideal histórico concreto pela efetivação de um novo cirstianismo (Maritain, 1999).
13
247
disposição para o debate verbal e escrito, uma emoção patriótica nos discursos e no
tratamento da coisa pública. O clima nacionalista criado pelo governo Vargas, auxiliado pela
Igreja, explica em parte essas manifestações, mas há uma ebulição nativa na expressão desse
civismo, uma intenção peculiar de viver o espaço público de sentir e experimentar a cidade.
Os questionamentos em torno da ideologia católica partiram de elementos que falavam
de um lugar, de uma organização social, Maçonaria, partido político, religião ou seita,
situação que lhes dava identidade e respaldo no discurso e na prática. Essas organizações
também tinham amparo em ações e projetos mais amplos concebidos e aplicados nacional e
internacionalmente.
É em função dessa rede de relações, pela magnitude das idéias que alteravam a ordem
moral, afetando comportamentos, pela ameaça que representavam à colaboração entre classes
e à estabilidade das estruturas de poder que a restauração católica se explica como uma reação
do mundo católico a um mundo que parecia estar em processo de dessacralização. Daí era
preciso restaurar a imagem e a força moral e espiritual de Cristo e da Igreja na vida social, nos
lares, nas instituições de ensino, nos espaços e nos movimentos dos trabalhadores.
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ARQUIVOS
Arquivo da Paróquia e Biblioteca dos Franciscanos:
Arquivo da Província Franciscana:
Carta Pastoral do Episcopado Brasileiro ao Clero e Fiéis de suas Dioceses 1922
Carta Pastoral do Episcopado da Província Eclesiástica de Belo Horizonte
Cartas dos Vigários Holandeses
Folhetos de Eventos e protocolos
Livro de Atas da Liga Feminina Católica
Livro de Atas do Círculo Operário
Livro de Crônicas dos Estudos do Curso de Teologia de Divinópolis.
Livro de Tombo.
Permissões da Arquidiocese
Publicação – Primeiro Sínodo da Arquidiocese de Belo Horizonte.
ARQUIVOS PARTICULARES
Benigna Moreira de Souza.
Discurso de recepção do Arcebispo Dom Cabral 1943.
Discurso de Comemoração da Semana Bíblica 1951.
Discurso de Comemoração das Bodas de Ouro da ordenação sacerdotal do papa Pio XII.
Discurso de Comemoração dos 25 anos da presença franciscana em Divinópolis.
Discurso para as Liguistas em festividade do Cristo Rei 1948.
Sr. Milton Pena.
Anotações e artigos publicados no Jornal Folha da Cidade
254
MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL
Fotografias.
Folheto com Discursos pronunciados na Entronização do Cristo Redentor no Paço
Municipal e Salões do Grupo Escolar da Cidade de Divinópolis – 1918.
CARTÓRIO DE REGISTRO DE TÍTULOS E DOCUMENTOS
Estatuto do Círculo Operário.
Registro de Jornais.
JORNAIS E BOLETINS
Boletim Conversando com os Divinopolitanos, Divinópolis-MG: [s/n], 1948 – 1960.
Boletim de Francisco de Azevedo, Divinópolis-MG: [s/n], 1948.
Divinópolis – Jornal, Divinópolis-MG: [s/n], 1943.
Jornal Porta Voz, Divinópolis-MG: [s/n], 1934.
Jornal Diário do Oeste, Divinópolis-MG: [s/n], 1956.
Jornal Interno A Semana, Divinópolis-MG, Gráfica Santo Antônio, 1943 – 1946.
Jornal A Semana – Órgão Oficial das Paróquias de Divinópolis-MG, Círculo Operário e
Educandários. Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1946 – 1961.
Jornal O Clarão – Órgão Oficial da União dos Moços Católicos, Divinópolis-MG: [s/n],
1923 –1924.
Jornal São Francisco Mensageiro Paroquial de Pirapora, Pirapora-MG: [s/n], 1929 –
1931.
O Santuário de Santo Antônio – Órgão da Devoção Antoniana / Colégio Seráfico –
Divinópolis – E. F. O. Minas Gerais. Divinópolis-MG, Convento de Santo Antônio,
1929 – 1936.
255
REVISTAS
ACADEMIA Brasileira Maçônica de Letras, Formação Histórica da Maçonaria. Anais
do I Congresso Internacional de História e Geografia. Vol. 1, Rio de Janeiro – 19 a 21
de Março de 1981.
Revista Eco Seráfico – Órgão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis,
Petrópolis, Vozes, 1931 – 1944.
Revista de Santa Cruz – Órgão do Comissariado Franciscano da Província de Santa
Cruz, Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1936 – 1965.
Revista Elo Seráfico – Ensaios literários, científicos, historiográficos dos clericatos da
Província de Santa Cruz, Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1951 – 1954.
Observação:
As transcrições literais de trechos de jornais e revistas escritos em português erudito
foram alterados para uma norma mais atualizada da língua, objetivando uma melhor
compreensão do discurso.
256
ENTREVISTAS
Benigna Moreira de Souza
Foi professora primária, presidente da API e participante ativa da Liga Feminina
Católica entre os anos 40 e 50.
Dom Aloísio Lorscheider
Frade Franciscano, doutor em Teologia, estudou na Escola de Teologia de Divinópolis,
da qual foi posteriormente professor de Dogmática; atualmente é Cardeal e Arcebispo
de Aparecida do Norte em São Paulo.
Evaristo Garcia
Foi membro do Partido Comunista, participou da criação do Comitê Ferroviário de
Divinópolis no final da década de 40.
Frei Bernardino Leers O.F.M.
Frade Franciscano holandês, formado em Filosofia, Teologia, especialista em Moral.
Instalou-se em Divinópolis no ano de 1952, onde atuou principalmete no meio sindical e
através do CODAR.
Frei Carlos Josaphat
É dominicano, porfessor de Ética, possui várias obras publicadas e atualmente leciona
na Escola Dominicana de Teologia de São Paulo.
Frei Helano Van Koppen O.F.M.
Frade Franciscano holandês, fez parte da primeira turma de alunos da Escola de
Teologia de Divinópolis.
Galba L. de Oliveira
Aposentado da R.M.V. , trabalhou nas obras sociais da paróquia de Santo Santônio.
257
José Carlos Pereira
Fundadador do Centro Espírita Estudantes do Evangelho e da Entidade Filantrópica
Lar das Meninas ligada à este Centro. Foi membro da Loja Maçônica Estrela do Oeste.
Atuou politicamente através da Fundação da Comunidade e participou de equipes de
governo em administrações municipais.
José Valério
Aposentado do R.M.V. , faz anotações e possui um arquivo particular sobre a história de
Divinópolis.
Manoel Valério
Aposentado da R.M.V. , foi membro atuante no Círculo Operário exercendo a função de
secretário.
Milton Pena
Ex-funcionario da R.M.V. , atualmente exerce a função de Subdelegado Regional do
Trabalho em Divinópolis.
Orozimbo Vasconcelos
Marceneiro aposentado, foi funcionário da Empresa J. Rabelo S. A; participou da
milícia municipal criada em função da Revolução de 1930.
Salviano Avelar
Foi vice-diretor do Colégio São Geraldo e gerente do Banco de Minas Gerais; estudou
no Seminário em Belo Horizonte e foi membro atuante no Círculo Operário.
Simão Salomé
Advogado aposentado, foi professor de direito; participou de equipes de governo em
administrações municipais e acompanhou a militância partidária de seu irmão Francisco
Salomé no Partido Comunista.
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A Restauração Católica no cotidiano da cidade