Márcia Helena Batista A Restauração Católica no cotidiano da cidade: Círculo Operário, Imprensa e Obras Sociais em Divinópolis entre os anos 30 e 50 Belo Horizonte Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Mestrado em Ciências Sociais – Gestão das Cidades 2002 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG Mestrado em Ciências Sociais – Gestão das Cidades Márcia Helena Batista A Restauração Católica no cotidiano da cidade: Círculo Operário, Imprensa e Obras Sociais em Divinópolis entre os anos 30 e 50 Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Ciências Sociais – Gestão das Cidades da Pontifícia Universidade Católica de Minas como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Área de Concentração: Cultura urbana e modos de vida Orientadora: Lucília de Almeida Neves Belo Horizonte 2002 Dedico esse trabalho aos franciscanos ainda presentes e atuantes em Divinópolis, que disponibilizaram seu acervo para que a pesquisa fosse feita, em especial à Frei Leonardo Lucas Pereira, por acompanhar todo o processo e sem o qual seria impossível realizá-la. AGRADECIMENTOS Agradeço a todos aqueles que possibilitaram a realização desse trabalho. É com imenso carinho e reconhecimento que me refiro às pessoas que viveram no período estudado e que, com seus depoimentos, ajudaram a reconstituir um pouco do cotidiano da cidade, reforçando a idéia de que a memória ajuda a eternizar experiências vividas e sustenta a escrita da história. Aos senhores José Carlos Pereira, Evaristo Garcia, Galba L. Oliveira, Manoel Valério, José Valério, Salviano Avelar, Elizeu Ferreira, Orozimbo Vasconcelos, Simão Salomé pelas entrevistas enriquecedoras que concedera. Ao Sr. Milton Pena e à Dª. Benigna Moreira de Souza que além das entrevistas, colocaram à minha disposição seus documentos particulares. Ao franciscano mais idoso, Frei Helano, que viveu de perto toda essa história e cujo livro foi de grande valia na compreensão de todo o processo da chegada e instalação dos franciscanos no Brasil e em Divinópolis. Aos religiosos Frei Carlos Josapha, Frei Bernardino Leers e Dom Aloísio Lorscheider que contribuíram com sua vivência e com seus conhecimentos, não só como membros da Igreja mas também como estudiosos da mesma. À Lucília Neves, por ter sido competente e atenciosa no exercício de seu trabalho de orientação. E agradeço, de coração, o apoio recebido de meus familiares, em especial de minha filha que me ajudou diretamente na pesquisa e de meu pai que acompanhou curioso o desenrolar da pesquisa, estimulado pelas recordações,acreditando que poderia resultar de todo o esforço despendido, um trabalho de qualidade. “Nós, os livres de Divinópolis, estamos garantidos pela Constituição do nosso País, e mais ainda, pela Carta das Nações Unidas, assinada pelo Brasil.” (Pedro Xavier Gontijo) “Os olhos que não vêem com a Igreja Católica – única, verdadeira e por isso mesmo depositária das promessas da assistência divina, não atingem o âmago das questões.” (Benigna Moreira de Souza) SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS ....................................................................................................................... 5 ABREVIATURAS ........................................................................................................................... 6 RESUMO ...................................................................................................................................... 7 SUMMARY ................................................................................................................................... 8 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 13 CAPÍTULO I................................................................................................................................ 18 Cidade do Divino: espaço da diversidade ................................................................................ 18 1.1 A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos .......................................... 18 1.2 A Ordem de São Francisco: inspiração da Ação Católica.................................................. 43 1.3 A Província de Santa Cruz e a presença dos frades em Divinópolis.................................. 50 CAPÍTULO II .............................................................................................................................. 74 O Movimento Operário Cristão no cotidiano da cidade de Divinópolis .................................. 74 2.1 Estado e Igreja no controle corporativo do trabalho.......................................................... 74 2.2 Os operários na cidade: o caso de Divinópolis no centro oeste mineiro ............................ 81 2.3 Pensamento e prática do Círculo Operário: aspectos de seu cotidiano .............................. 83 2.4 A moral católica e a luta revolucionária: os operários entre dois discursos.................... 102 CAPÍTULO III ........................................................................................................................... 121 A mulher na paróquia: as obras e a família ............................................................................ 121 3.1 A presença do leigo na Igreja e o trabalho pastoral da mulher......................................... 121 3.2 A Ordem Terceira e as associações católicas na vida da paroquia.................................. 127 3.3 A Liga Feminina Católica pela renovação cristã da família............................................ 137 3.4 Apontar o bem e pô-lo em prática: a obra social das mulheres na paróquia ................... 165 CAPÍTULO IV ........................................................................................................................... 176 O jornal vai ao encontro de todos moldando pensamentos e opiniões................................... 176 4.1 O lugar central da Imprensa no processo de Restauração Católica................................. 176 4.2 A efervescência cultural da cidade: jornais e boletins..................................................... 183 4.3 A força da Imprensa Católica em Divinópolis ................................................................ 193 4.4 Os jornais à serviço do combate ao Espiritismo............................................................... 197 4.5 A difícil convivência com os Protestantes........................................................................ 200 4.6 O debate com Maçonaria pelos jornais e boletins ............................................................ 204 4.7 Uma imprensa essencialmente anticomunista .................................................................. 205 4.8 A divulgação da Liga Eleitoral Católica .......................................................................... 216 4.9 A imprensa e o movimento de ação católica .................................................................... 225 4.10 As notícias do mundo e do Brasil.................................................................................. 229 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................... 236 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................... 248 Arquivos ................................................................................................................................. 253 Arquivos Particulares ............................................................................................................. 253 Museu Histórico Municipal .................................................................................................... 254 Cartório de Registro de Títulos e Documentos ...................................................................... 254 Jornais e Boletins.................................................................................................................... 254 Revistas................................................................................................................................... 255 Entrevistas .............................................................................................................................. 256 LISTA DE FIGURAS 1. São Francisco de Assis – Mural do pintor Humberto Randag (Santuário de Santo Antônio 1949). 2. Santuário de Santo Antônio s/d. 3. Igreja do Racionalismo Cristão s/d. 4. Primeira Igreja Batista de Divinópolis 1919. 5. Organização da Igreja Batista de Divinópolis 27.07.1919. 6. Comemoração dos 25 anos do Comissariado 7. Congresso da Ordem Terceira Franciscana s/d. 8. Antigo prédio do Seminário Seráfico s/d. 9. Novo prédio do Seminário Seráfico s/d. 10. Reunião de professores dos seminários e clericatos da Província Franciscana de Santa Cruz s/d. 11. Sala de aula do Seminário Seráfico s/d. 12. API – Grupo de Mães e crianças beneficiadas pela entidade s/d. 13. API - Salão de espera para mães e gestantes s/d. 14. API – Distribuição de mingaus à população carente s/d. 15. API – Sopa de Santo Antônio s/d. 16. API – Salão de Costura Frei Hilário – festa de distribuição de diplomas s/d. 17. API – Salão de Costura – primeira turma de alunas s/d. 18. API – Atendimento feito pelo dentista Dr. José Alves s/d. 19. Membros do Grupo Teatral Mariano s/d. 20. Residências dos Ferroviários da R.M.V. – Vila Operária s/d. Folheto constando o programa das comemorações de 1º de Maio s/d. ABREVIATURAS API – Associação de Proteção à Infância de Divinópolis ACAR – Agência de Crédito e Assistência Rural CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CCGG – Constituições Gerais CODAR – Conselho de Desenvolvimento e Assistência Rural MRP – Mui Reverendo Padre OFM – Ordem dos Frades Menores RMV – Rede Mineira de Viação SS – Província dos Santos Mártires RESUMO O estudo está voltado para os detalhes da reorientação da Igreja a partir dos anos 20 numa fase particularmente rica de consolidação da República no Brasil. A Igreja, nesse momento, lançou as bases de um projeto de “restauração católica”, buscando conquistar um maior espaço político e, ao mesmo tempo, passando a defender os princípios de sua doutrina social. Essa movimentação foi possível através da Ação Católica, que garantiu o envolvimento dos leigos no apostolado controlado pela hierarquia. O recorte temporal compreende o período entre os anos 30 e 50 e toma como referência a presença institucional da Igreja em Divinópolis, cidade do centro oeste mineiro, destacando a presença dos frades franciscanos que receberam de Dom Antônio dos Santos Cabral o controle da Paróquia do Divino Espírito Santo em 1924, passando, a partir de então, a exercer grande influência na vida social, política e cultural da cidade. A pesquisa buscou ressaltar, através de estudo documental e de fontes orais, os investimentos na imprensa católica, a criação e o funcionamento do Círculo Operário, a ação social das mulheres da Ação Católica, demonstrando que havia um confronto de idéias em função de grupos liberais, maçons, livres pensadores e de outras doutrinas religiosas que discordavam da ideologia e de alguns procedimentos assumidos pela Igreja no local. A experiência de Divinópolis permite uma compreensão do que representou esse movimento da Igreja enquanto uma orientação estabelecida a partir de Roma, como foi sua aplicação em Minas Gerais, estado conhecido por sua forte tradição católica. O enfoque local do estudo garantiu uma melhor percepção da dinâmica das relações sociais, através dos discursos, dos debates, do trabalho pastoral, da penetração dessas idéias no imaginário coletivo e dos traços de comportamento experimentados na vida da cidade. Foi possível entender a relação da Igreja Católica com o Estado no Brasil a partir dos anos 30, por meio da aplicação de um modelo de sociedade calcado na ordem, a partir das concepções de corporativismo idealizadas e colocadas em prática, principalmente na relação entre patrões e empregados; e como essa aliança foi fortalecida no combate aos inimigos do Estado e da Igreja, representados pelo crescimento das idéias comunistas entre os operários e pela ampliação do espiritismo e do protestantismo ameaçando a hegemonia Católica. SUMMARY The study is turned to the details of a redirection of Catholicism starting from the 20’s in a phase particularly rich of consolidation of the Republic in Brazil. The Catholic Church, in this moment, threw the basis of a project of “catholic restoration”, trying to achieve more political space and, at the same time, started to defend the principles of its social doctrine. This movement was possible because of the Catholic Action, which guaranteed the secular’s evolvement in the apostleship controlled by the hierarchy. The temporal determination cover the period between the 30’s and the 50’s and get as reference the institutional presence of the Catholic Church in Divinópolis, a middle-west city located in Minas Gerais, emphasizing the Franciscans Gray friars’ presence, who received from Dom Antônio dos Santos Cabral the control of the Divine Holly Spirit Parish in 1924 and started, from then on, to exercise large influence on social, cultural life of the city. The research tried to stand out, through documental study and oral sources, the investments on catholic press, the creation and functioning of the Working Circle, the social action of women from the Catholic Action, showing that was a conflict of ideas because of groups of liberals, masons, free thinkers and others religion doctrines that disagree with the ideology and some procedures used by the Catholic Church on the local. Divinópolis’ experience allows a great understanding of what this Catholic Church movement represented as a orientation established by Rome, such as happened in Minas Gerais, state known because of its strong catholic tradition. The local approach of the study guaranteed a better perception of the dynamic of the social relations, through the speeches, debates, pastoral working, the penetration of these ideas on collective imaginary and the dashes of behavior experimented in city’s life. It was possible to understand the relation between the Catholic Church and the State in Brazil, starting from the 30’s, in the application of a model of society based on order, using the conceptions of corporatism idealized and applied, specially in the relation between employees and employers; And how this alliance was strengthened on the combat of the enemies of the State and the Catholic Church, represented by the growth of communists ideas between the working class and by the enlargement of the Espiritualism and Protestantism, threatening the catholic hegemony. 13 INTRODUÇÃO A proposta desse trabalho é analisar as ações da Igreja Católica, que a partir da década de 20, investiu num grande “projeto de restauração”1 apoiado no Movimento de Ação Católica, voltado para um conjunto de estratégias capazes de organizar leigos militantes como participantes do apostolado hierárquico. Posicionou-se obstinadamente pela conquista de espaço frente ao Estado, ao movimento operário, ao ensino formal, enfrentando seus inimigos encarnados no liberalismo, positivismo, comunismo, protestantismo e espiritismo. Segundo Riolando Azzi -“sucede, a partir da segunda década do século XX, um espírito de otimismo, de coragem e de cruzada: a meta da Igreja é restabelecer seu domínio na sociedade”.2 A origem do novo posicionamento da Igreja frente ao Estado e à sociedade deve ser buscada no final do século XIX, momento de desmoronamento da instituição imperial, que se fez embalado pelos ideais liberais, democráticos e positivistas que representavam a modernidade cientificista e progressista daquele momento. No pontificado de Pio XI nas décadas de 20 e 30, a idéia baseada em São Paulo sobre a Igreja como corpo único, no qual Cristo, sendo a cabeça opera a divinização dos membros, foi reforçada. A eclesiologia do Corpo Místico se expressou muito concretamente numa renovação litúrgica e numa nova pastoral. Os leigos foram chamados a participar da missão da Igreja no mundo, definindo-se os primeiros traços da Ação Católica (Matos, 1990:152). No Brasil, foi definido um Plano Nacional de Ação Católica, seguindo diretrizes da Santa Sé por uma reforma social cristã e pela recuperação econômica, social, política e espiritual do país. A Igreja procurou dar muita atenção à recuperação da família e do equilíbrio entre o bem estar material e espiritual. Preocupava-se em fazer com que cada católico fosse disciplinado e atuasse na vida privada e pública com a mesma consciência iluminada da fé (Dale, 1985:74). 1 Azzi explica que nos anos 30 veio a “Restauração” com a preocupação da hierarquia eclesiástica em criar condições de reafirmação da Igreja na sociedade. A nova proposta foi lançada no pontificado de Pio XI. Estava embasada no lema de restaurar tudo em Cristo, restaurar no mundo o domínio espiritual da fé católica. O autor faz considerações sobre o significado de restauração como simbolizando o resgate de um modelo antigo que coloca a fé de volta enquanto elemento constitutivo da sociedade (Azzi, 1980: 21-22). 2 Azzi, 1994. p. 24. 14 Investiu-se numa obra educativa para a formação de uma consciência cívica que criasse uma falange de cristãos exemplares, destacando-se o modelo de uma conduta adequada no âmbito do privado e do público, a partir da aplicação de princípios católicos em toda a vida social. Essa obra se concretizou através várias frentes como a penetração da imprensa, a atuação das Ligas Católicas, a organização do movimento operário cristão através da Juventude Operária Católica e dos Círculos Operários fundamentados nos preceitos estabelecidos pela Rerum Novarum, o cuidado com a educação e uma maior atuação política através de representações e de legislação pertinente. Todas essas ações estavam comprometidas com o projeto católico de sociedade. A tradição religiosa no interior de Minas Gerais criou o cenário adequado para o florescimento dessas ações da Igreja, através de Dom Antônio dos Santos Cabral na Arquidiocese de Belo Horizonte, administrando a aplicação desse novo modelo de Igreja na capital e ampliando suas definições para as paróquias no interior do estado. Dom Cabral participava de uma estrutura da qual fazia parte o episcopado brasileiro personificado em figuras como Dom João Becker no Rio Grande do Sul e liderados por Dom Sebastião Leme, cardeal do Rio de Janeiro, que da capital apontava os rumos da restauração católica. Apoiado numa aliança bem articulada com o Estado e com as classes dominantes, vistas como instrumentos de realização das “aspirações católicas”, a situação foi chamada por alguns autores de “neocristandade” (Isaía, 1998:47). A experiência da cidade de Divinópolis, situada no centro oeste mineiro, retrata bem os detalhes do movimento empreendido pela Igreja entre os anos 30 e 40, suas transformações nos anos 50 e suas peculiaridades, contribuindo para o aprofundamento de uma reflexão sociológica e histórica sobre o tema no contexto do cenário mineiro. O foco está centrado nos investimentos da hierarquia católica na construção e revigoramento de símbolos e no estabelecimento de um discurso direcionado para o controle do imaginário coletivo, objetivando restaurar a idéia da identidade católica do povo brasileiro. Nessa perspectiva, os questionamentos desse trabalho voltam-se para a forma como a nova inserção da Igreja teria influenciado na configuração de um tipo de vivência cívica e moral em meio à comunidade católica, em contraposição a outras concepções de civismo laicas e até anticlericais. Num aspecto estrutural, é interessante compreender como a Igreja, ao investir no processo de “restauração”, teria se transformado e adotado um estilo europeizado, o que 15 segundo Luiz Alberto Gomes de Souza, afetou seu funcionamento no campo das duas religiosidades: a que se refere a Igreja institucional e clerical ligada a setores dominantes e a da relação direta com a sociedade, das expressões de religiosidade do povo simples, ambas acontecendo articuladas e em confronto (Souza, 1984:26-28). A tradição católica foi parte importante na formação de Divinópolis, que teve como traço distintivo, a presença da religião na sua origem e constituição. A Igreja foi atuante na localidade enquanto esta ainda era um simples Curato, posição que se ampliou após a emancipação do município oficializada em 1911. A cidade esteve sujeita a orientações sistemáticas da arquidiocese de Belo Horizonte que entregou a paróquia à ordem dos frades franciscanos em 1924. A diversidade e as influências do mundo moderno apresentavam-se como parte da realidade sócio-cultural e política da cidade em sua evolução. Tal fato foi evidenciado pela presença de outros credos como os protestantes e espíritas, além de grupos que defendiam posições ideológico-políticas contrárias ao ideário católico, representados pelos livres pensadores, maçons e comunistas. Os jornais e revistas católicos produzidos no âmbito local estavam afinados com o discurso do episcopado e cumpriam o papel de alertar a população sobre os perigos do mundo moderno, definindo os princípios de uma conduta cristã, moral e de um tipo de civismo comprometido com a idéia de manutenção da ordem social. Nesse aspecto, a cidade de Divinópolis representou um espaço particularmente rico pois, através dos franciscanos, a Igreja atuou com firmeza, produzindo material de circulação permanente e renovado com um discurso de combate aos grupos laicizantes, exercendo influência também sobre as cidades vizinhas. O que torna a história do lugar matéria-prima para a análise desse fenômeno religioso é justamente o fato de ter sido palco da resistência ao discurso católico. A capacidade de enfrentamento dos grupos adversários representados pelos liberais, maçons, livres pensadores, espíritas, protestantes e comunistas, que contra-argumentavam, forçava um embate políticoreligioso eclético, dividindo opiniões e transformando o local em centro das atenções das autoridades laicas e eclesiásticas. O recorte temporal considera as bases lançadas na década de 20, rica em acontecimentos no mundo e no Brasil em particular, que também foi fundamental na definição identitária da cidade. Mas a pesquisa toma como referência analítica a oficialização 16 do Movimento de Ação Católica no Brasil em 1935. A conjuntura sócio-política, cultural e econômica, subjacente ao período referente ao governo de Getúlio Vargas e sua relação direta com a Igreja nos anos 30 e 40, sustentam o estudo da experiência de Divinópolis. As mudanças de rota no apostolado católico e na organização da Igreja no Brasil, bem como o processo de abertura política ocorridos na década de 50, são considerados, mesmo que sem aprofundamento, para uma melhor compreensão do esgotamento do modelo analisado. A pesquisa esteve fundamentada em abundante fonte documental e pelo método da História Oral. A diversidade e a qualidade dos documentos escritos materializados em jornais, boletins, atas, discursos, cartas teriam levado a uma interpretação unilateral sem o enriquecimento dos depoimentos de personagens que participaram da rede de relações estabelecidas naquele cotidiano de uma cidade do interior mineiro. O estilo narrativo do texto possibilitou a valorização da rede de relações estabelecidas entre os diversos personagens e, ao mesmo tempo, garantiu as condições para a interpretação e análise. De acordo com Chartier, “a história é sempre relato”, mas mesmo quando foge desse modelo, o seu modo de compreensão permanece tributário dos procedimentos que assegurem a encenação na forma de intriga das ações representadas. Segundo Chartier, “este modo de compreensão histórica não exclui a inteligibilidade, porque seria construído no próprio relato, pelos seus ordenamentos e pelas suas composições”.3 Guardadas as peculiaridades do lugar, de seu povo, de suas lideranças, e, consideradas as proporções dos acontecimentos em suas dimensões mais amplas, Divinópolis expressa um recorte desse fenômeno político-religioso ao acatar as orientações da Igreja Universal, ao expressar posições no âmbito político-partidário, ao manifestar parte de uma história encenada por clérigos, operários, professoras, donas de casa, profissionais liberais e outros. O estudo contempla a experiência do movimento operário cristão através da atuação corporativista do Círculo Operário, a ação dos leigos com destaque para a presença da mulher em associações e como membro da Ação Católica e a importância da imprensa como veículo propagador do modelo católico de sociedade, debatendo com outras visões de mundo.Toda a movimentação da Igreja, representada localmente pelos franciscanos, expõe sua concepção de Chartier, Roger. (1990) A história cultural. Lisboa, Difel, p. 82. In: Narrativa e história. Irene Cardoso. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, volume 12, nº 2, novembro de 2000. 3 17 justiça social e de organização política capazes de garantir um resgate moral e o funcionamento harmônico da sociedade. O objetivo do trabalho é mostrar como aconteceu a experiência de aplicação do projeto de restauração católica no cotidiano da vida da cidade a partir do protagonismo franciscano, considerando relevante o fato de o franciscanismo enquanto movimento ter sido inspirador do modelo de Igreja que se erigia no início do XX, preparando-se para lidar com o mundo moderno em transformação como ocorrera no século XIII, época de São Francisco. Importante é perceber também que a trajetória da Igreja, sua inserção na dinâmica social, aconteceram numa movimentação dialética. Ela fomentou de início uma militância disciplinada pela hierarquia, ciosa frente à modernidade. Com isso, porém, acabou por abrir um novo espaço de atuação política, levando, gradativamente nos anos 50, à autonomia de seus membros que se vincularam mais estreitamente à problemática social, posição acentuada no Brasil diante das mudanças conjunturais dos anos 60 trazidas pela ditadura militar. CAPÍTULO I Cidade do Divino: espaço da diversidade Pretende-se nesse texto mostrar o processo de formação da cidade e destacar a rede de relações que foram sendo construídas, definindo modos de vida perpassados pela presença de registros ligados à religião católica e de expressões contrárias ligadas a outras religiões, seitas e opiniões políticas que, ao voltarem-se para o debate, influenciaram na composição de uma cultura própria do lugar. Ao mesmo tempo que as diferenças ideológico-políticas são mostradas, bem como as dificuldades de convivência entre credos religiosos diferentes, o centro da narrativa se coloca na atuação dos frades franciscanos desde sua instalação na cidade em 1924 e a expressiva presença de religiosos holandeses. A influência desses religiosos na vida da cidade e no seu desenvolvimento oferece elementos que permitem compreender aspectos originais da história e da memória de Divinópolis. 1.1 A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos “O ritmo nas artérias da cidade é crescente. Sente-se o entusiasmo do progresso. Respiram-se esperança e ânimo, a plenos pulmões. O cenário sofre mudanças sucessivas. Calçam-se ruas, levantam-se casas, estabelecem-se empresas. Tudo crepita em ação. A cidade desperta ao apito das fábricas e ao repicar dos sinos.”1 O estabelecimento de um conceito preciso de cidade sempre foi motivo de controvérsias entre os estudiosos do fenômeno urbano. A definição de categorias e de tipologias que levam em consideração determinados elementos próprios do processo de urbanização tem norteado a produção teórica relativa ao tema. Louis Wirth chama a atenção para a importância de, ao buscar uma definição do urbanismo, a sociologia não se restringir a características de enquadramento, devendo considerar como relevantes a descoberta e a Crônica “Em torno da cidade” de Osmar Barbosa publicada periodicamente no Divinópolis-Jornal, Ano VI, nº 37, 13.06.1943. 1 19 análise das variações que assinalam o desenvolvimento diferenciado das cidades (Wirth, 1967:102). Na concepção de Robert Park, a cidade é mais do que um amontoado de indivíduos e de conveniências sociais tais como ruas, edifícios, infra-estrutura, instituições administrativas. Segundo o autor, a cidade é, antes de qualquer coisa, um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições, de sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes que são transmitidos por essa tradição. De acordo com Park (1967: 29-32),“a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam”, a partir de uma relação de reciprocidade entre sua organização física e moral”. O tamanho, a densidade, sua dinâmica econômica e organização político administrativa, são características tomadas como referência para a definição da estrutura urbana. Wirth, ao focar o aspecto do modo de vida urbano, lembra que a cidade é um produto do crescimento e como tal, ao tornar-se um ambiente cada vez mais complexo, guardaria as influências de sua estrutura anterior no que se refere à sua organização e formas de manifestação da cultura urbana. Completa sua reflexão mostrando que as pessoas e as diversas formas de organização na cidade estão sujeitas à manipulação por símbolos e estereótipos comandados por indivíduos ou grupos, operando invisivelmente por trás dos bastidores (Wirth, 1967:99-120). Wirth chamou a atenção para as limitações de se identificar o urbanismo a partir de aspectos físicos delimitados pelo espaço, restringindo as possibilidades de se analisar o urbanismo como um modo de vida. As características consideradas como próprias da cidade enquanto núcleo relativamente grande, denso de indivíduos socialmente heterogêneos, somente são sociologicamente relevantes enquanto condicionantes da vida social. O urbanismo não estaria, segundo o autor, confinado às localidades enquadradas ou padronizadas pelas variáveis de identificação, mas estaria propenso a se manifestar em graus diferentes onde pudessem chegar as influências das cidades. Os questionamentos e inferências feitos pelo autor, relativizando conceitos e buscando caminhos para uma identificação do fenômeno urbano, servem como referência para uma tentativa de análise sobre a formação de Divinópolis, tomada como objeto de estudo a partir de suas relações sociais, da presença do sagrado em sua fundação e desenvolvimento, das contradições ideológicas em sua composição política, da trama tecida no seu cotidiano e do modo de vida de seus moradores. 20 É por meio de referências e símbolos legitimados coletivamente que se definem os elementos constitutivos das mentalidades e as formas de organização diferenciadas, estabelecidas a partir de grupos políticos, de interesses e de afinidades a partir dos quais, expressam-se os conflitos ideológicos sustentados em concepções de mundo distintas. É nessa perspectiva que se pretende analisar a cidade de Divinópolis, como uma entidade social que superou uma forma rural de organização, ganhando a amplitude de um centro urbano na região centro-oeste de Minas Gerais mas que tem uma consistência sócio-cultural tão relevante quanto seu desenvolvimento econômico. No processo de sua formação, ganhou características sui generis, pelo trajeto histórico definidor de sua dimensão marcado pela riqueza de suas instituições e pelas manifestações e representações usadas por seus sujeitos históricos diferentes e até conflitantes envolvidos num mesmo espaço e tempo. O nome da cidade sugere o tema religioso, “Cidade do Divino, Divinópolis!”. A escolha desse nome2 aconteceu após a emancipação em 1912, resgatando as origens de sua fundação pela iniciativa do pioneiro Candidés3, quem erigiu uma capela em devoção ao Divino Espírito Santo. Mais tarde foi edificada a nova igreja no largo da matriz tendo como padroeiro além do Espírito Santo, também São Vicente de Paula. A influência católica no nome expressa a relação identitária dos habitantes com a religião, deixando patente a representação simbólica do padroeiro e o espaço institucional da Igreja demarcado. Essa demarcação prossegue no processo de consolidação e ampliação da influência da cidade na região centro oeste, quando em função da estrada de ferro, transformou-se em cidade operária como sede da oficina da Rede Mineira de Viação e posteriormente como centro siderúrgico. Transformou-se também num importante núcleo religioso após a instalação dos frades franciscanos, sediando o Curso de Teologia. Além da devoção dos fundadores, construindo a primeira igreja e posteriormente doando o patrimônio para a criação do Curato do Espírito Santo do Itapecerica, filiado à Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, a Igreja esteve presente na criação oficial do município através da atuação do padre Matias Lobato: A sugestão do nome foi dada por Antônio Olimpio de Morais, primeiro presidente da Câmara Municipal, o que na época significava ser o primeiro prefeito. Van Der Vat (1995) p. 29. 2 Personagem que segundo a tradição oral do lugar teria sido o iniciador do Arraial do Espírito Santo do Itapecerica, vindo dos lados da cidade de Barbacena, provavelmente instalando-se no local fugindo de processo por envolvimento na Guerra dos Emboabas de 1708. Van Der Vat (1995) p. 6-10. 3 21 “Foi durante o paroquiato do Padre Matias Lobato que pela lei estadual nº 556 de 3 de agosto de 1911, foi criada a Vila e Município de Henrique Galvão, ou seja, Divinópolis. O nome Henrique Galvão, seja dito de passagem, vinha da estação da Estrada de Ferro oeste de Minas, construída pelo engenheiro Henrique Galvão, e inaugurada em 30 de abril de 1890. Em 30 de setembro de 1912, porém, este nome recém criado do município foi mudado para o de Divino Espírito Santo. A bem da verdade devemos acrescentar que a elevação de Divinópolis à categoria de município se deve, em grande parte, ao empenho do Padre Matias. Ficou assim a nossa cidade desmembrada do município de Tamanduá, hoje Itapecerica, a que pertencera desde o ano de 1847.”4 A tradição de se tomar a construção de uma igreja como ponto de convergência e de referência para a organização do ambiente social de germinação da cidade aconteceu também na formação de Divinópolis. Daí para frente, a presença institucional da Igreja Católica atravessou a história do lugar, definindo os registros do sagrado para o povo e perpassando toda a organização social. Essa regra, porém, no caso de Divinópolis, aconteceu seguindo um trajeto peculiar, pela presença de instituições, de personagens e de um ideário diferente da tradição católica. A contradição esteve presente na vida social, política e cultural da cidade e nas várias etapas de seu desenvolvimento econômico. A pesquisadora Batistina Corgozinho analisou esse traço constitutivo na formação e no desenvolvimento de Divinópolis a partir do que ela apontou como sendo “as contradições entre o velho e o novo”. A autora analisa a modernização desencadeada pela instalação da ferrovia no local, fato que provocou transformações econômicas, sociais e político-culturais fundamentais para o delineamento do perfil da cidade. Segundo ela, a heteronomia característica do tempo do Arraial foi sendo substituída pela gradativa autonomia dos sujeitos históricos, e essa individualização dos novos agentes sociais se sobrepôs à autoridade moral até então dominante. Novas forças políticas, religiosas e culturais passaram a se confrontar no espaço público. Nesse meio, o domínio da Igreja Católica nas dimensões privada e pública e os valores que preconizava ligados ao espírito comunitário foram sendo questionados pela mentalidade ligada ao progresso e à laicidade (1999:99). 4 Frei Odulfo Van Der Vat, historiador, especialista em História Eclesiástica, publicava no Jornal A Semana, em sua coluna na forma de crônica histórica denominada “Coisas do Nosso Passado”, sobre a origem e evolução do município. Registrou seu trabalho de pesquisa de forma pioneira e criativa ao usar a imprensa como instrumento de formação, estimulando o interesse dos moradores pela história da cidade. Suas 15 crônicas históricas foram divulgadas de agosto de 1946 à janeiro de 1947, transformando-se numa edição especial publicada em 1995 pela Academia Divinopolitana de Letras, da qual foi membro. 22 Carlos Fortuna contribui para a análise deste quadro em sua interpretação do conceito de “destruição criadora” de J. Shumpeter. O autor faz inferências sobre o caráter libertador da cidade moderna, responsável pela definição das identidades dos sujeitos que passam a agir de acordo com suas competências, resultantes de escolhas e possibilidades individuais. O processo de destruição criadora das identidades guarda a dialética da relação entre o velho e o novo, a capacidade de adequação das identidades às transformações econômicas, sociais, políticas, técnico-científicas e culturais constantes na sociedade contemporânea e que provocam o reajustamento das matrizes identitárias. Internamente, a sociedade capitalista estaria vivendo uma dinâmica permanente de superação e criação (Fortuna, 1997:127-129). A dimensão da vida urbana só pode ser apreendida a partir da percepção da diversidade. A cidade é por excelência o ambiente das diferenças, guarda o dinamismo próprio dessa interação entre elementos contraditórios e contrastantes, dialeticamente divergentes e convergentes ao mesmo tempo. A articulação política para a emancipação do município aconteceu envolvendo personagens expressivos do lugar como Francisco Ribeiro de Carvalho, Pedro Xavier Gontijo, o Major Francisco Machado Gontijo, Antônio Olímpio de Morais, que viria a ser o primeiro presidente da Câmara, todos membros de uma comissão que, segundo registros de memorialistas, tomou a frente do processo de emancipação com a participação direta do vigário, padre Matias Lobato. A atuação de padre Matias Lobato foi decisiva no sentido de salvaguardar a posição da Igreja no contexto de formação do município, além de ter sido o responsável por reforçar o comprometimento dos leigos na prática social de cunho devocional a partir da criação de várias associações religiosas. O referido padre foi empossado em 1911 e em seus relatórios apontou algumas deficiências da vida religiosa do lugar: “O estado espiritual não tem adiantamento algum, pouca prática religiosa, alguma freqüência à Missa e quase nenhuma comunhão, o catecismo muito atrasado, duas associações, uma conferência de São Vicente, com 10 a 12 confrades que não observavam com exatidão os estudos, e as Damas do Sagrado Coração de Jesus, umas 30 mais ou menos, bastante desanimadas, mas que ainda auxiliam na igreja.”5 5 Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 25. 23 Após investir num trabalho pastoral, arregimentando os fiéis e introduzindo a prática do estudo do evangelho, seu relatório de 1915 apresentou os progressos alcançados: “O estado atual da freguesia é mais animador. Existem hoje três conferências de São Vicente de Paulo ... [...] Existe uma associação de São José, fundada em 1912, as Damas do Sagrado Coração, a associação das Filhas de Maria, fundada em 1914. O Apostolado da Oração, fundado em 1914, a União Católica Operária, sendo esta última fundada a 30 de setembro de 1915. Graças ao bom Deus, todas estas associações funcionam regularmente e têm produzido muitos frutos.”6 O padre explicou, em seus relatórios endereçados à diocese, as características da comunidade, que sempre recebia pessoas com hábitos e costumes diferentes, exigindo esforços das autoridades civis e eclesiásticas no sentido de acompanharem esse processo de ressocialização: “Apesar de nossos esforços, ainda existem alguns amancebados e casados só civilmente, e algum ataque religioso devido a ser a população desta freguesia muito inconstante e todos os dias chegarem e saírem famílias de todos os costumes, o que muito embaraça e muito dificulta o ministério paroquial nesta freguesia.”7 Comentou também acerca das características da cidade no período de criação do município: “A freguesia neste período, em 1912, foi elevada, isto é, o distrito foi elevado a município com o nome de Vila Divinópolis. Começamos um prédio para o hospital e para este fim adquirimos um sobrado e casa no Largo da Matriz, como consta da escritura pública. A população calcula-se mais ou menos em 8000 almas, sendo pequena e bem populosa. É ainda muito atrasada a lavoura, indústria, criação e instrução em toda a freguesia.”8 As observações feitas pelo arcebispo Dom Viçoso, após sua visita à paróquia em 1915, mostram que desde o início, mesmo no período de padre Matias, que construíra um bom relacionamento com as figuras expressivas da comunidade, a ponto de ser membro atuante na comissão responsável pela criação do município, haviam manifestações contrárias ao catolicismo no lugar: 6 Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27. 7 Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27. 8 Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 27. 24 “Por todos estes bens dou muitas graças ao Senhor Nosso Deus, de quem todo bem procede; e encomendo a este nosso querido vigário, que continue a usar de todas as cautelas para vencer o inimigo que se acha irritado com as boas obras e atos de religião e piedade que o mesmo vigário continua a promover nesta paróquia.”9 A Igreja Católica buscou reforçar sua posição política na consolidação do município pela sacralização dos espaços de uso coletivo. Empenhou-se em criar momentos vigorosos pelo significado simbólico através de cerimônias públicas envolvendo autoridades, aguçando desta forma, o debate entre grupos liberais e católicos. Em Divinópolis, a Igreja promoveu em abril de 1918 a solenidade de entronização do Cristo, na inauguração do Grupo Escolar e no salão nobre do paço Municipal. Pedro Xavier Gontijo, como inspetor escolar, liderou uma reação contra tal procedimento, tomando como base o artigo 72 da Constituição Federal. Chegou a formar uma comissão para reivindicar, junto ao governo do Estado, o direito à liberdade, opondo-se ao privilégio concedido ao catolicismo de ocupar espaços públicos. Os comentários que teceu sobre o acontecimento demonstram sua indignação diante da atitude arbitrária das autoridades: “... Juntamente com uma comissão dos acatólicos de Belo Horizonte, levei diretamente ao palácio o meu protesto contra a entronização de Cristo no grupo escolar. Como porém, julguei que não me saísse bem no meu protesto cara a cara, resolvi levar comigo um pastor norte americano. [...] Como me achasse em plena agitação interna e externa, foram convidados todos os meus adversários de fora, jornalistas, oradores, panfletários etc. Foi um verdadeiro toque de reunir contra mim, e tudo garantido pela força pública do Estado, que sitiou o quarteirão onde moro, imobilizando-me dentro de casa. Divinópolis viveu como disseram o “seu grande dia”. O meu jornal empastelado, eu preso em casa e “esmagado.”10 No opúsculo publicado sobre a cerimônia de entronização, constam os discursos proferidos pelas autoridades, demonstrando com clareza o conteúdo político sacralizante do evento em tom apologético e de combate explícito à liberdade de culto, destacando a ameaça protestante. Como epígrafe consta a inscrição destacando a obediência dos oradores para com a Santa Sé: 9 Van Der Vat, Odulfo. Coisas do nosso passado. Divinópolis: ADL Edições, 1985 p. 28. 10 Gontijo, Pedro Xavier. História de Divinópolis. 2ª Ed. Divinópolis: Sidil, 1995 p. 36. 25 “Fazendo timbre de inteira obediência à Igreja Católica, os autores dos discursos reunidos neste folheto declaram reprovar tudo quanto não esteja conforme ao seu ensino infalível e se submetem, em absoluto às decisões emanadas da Santa Sé.” No texto dedicado ao leitor, escrito pelo padre Joaquim Martins, em tom de denúncia, tenta-se apresentar o sentido simbólico da cerimônia, destacando sua legitimidade pela presença de quatro mil pessoas e mostra a teia conspiratória criada em torno da Igreja no local: “As páginas que se seguem revelam, com exatidão, o esplendor da deslumbrante apoteose feita a Cristo Redentor no dia 21 de abril deste ano, por ocasião da instalação festiva do Grupo Escolar da cidade de Divinópolis. Foi admirável e emocionante ver-se aquele povo culto e crente celebrar com ruidosas festas a inauguração de um templo de instrução primária, dando lhes um caráter essencialmente religioso. Cristo Redentor foi violentamente atacado em Divinópolis por uma diminuta parcela de livres pensadores, mas, Cristo vive, reina, impera e há de triunfar sempre da versucia de seus adversários, como triunfou na ressurreição gloriosa da iniquidade de seus inimigos. Seu triunfo em Divinópolis teve um brilho excepcional, radiante, significativo. [...] Foi uma resposta completa e categórica a esses espíritos superficiais que fizeram da imprensa um aríete contra a Igreja em nome duma ciência em bancarrota.”11 O discurso do advogado Dr. José de Assis Rocha chama atenção para o laicismo liberal e para a necessidade de uma formação escolar calcada na religião: “Esta instalação revestida de toda a solenidade é um protesto enérgico deste povo contra as intempestivas interpretações que se tem querido dar as leis liberais de um país como o nosso e ao espírito de sabedoria e concórdia que vem guiando altaneiramente o governo do nosso Estado. [...] À Instrução imoral, porém, é preferível o analfabetismo. [...] E educar como eu o entendo, educar consiste exclusivamente em formar o coração – o caráter da crença.” O Sr. Augusto Fonseca, inspetor do grupo escolar, fez menção ao laicismo e à presença descristianizadora do protestantismo na sociedade: “Senhores! Também na jovem República brasileira, não poucos divorciados da maioria católica, grimpados às culminâncias da política e da imprensa, tentam pertinazmente derrotar os princípios da nossa fé que defendeu o berço de nossos 11 Discurso do padre Joaquim Martins, vigário da Vila de Contagem e redator do jornal “O Movimento”. 26 antepassados e que tanto tem concorrido para o engrandecimento de nossa pátria. Huguenotes também existem, senhores, no nosso caro Brasil, que se emprenham na descristianização do povo, por medidas revolucionárias que eles apelidam liberais, procurando nas suas mais avançadas e ousadas investidas desterrar das escolas a Jesus Cristo.” O discurso do padre Joaquim Martins teve um tom patriótico, mostrando a importância da proximidade entre Estado e religião católica: “A sociedade não pode se desenvolver nem progredir sem os princípios do cristianismo e só entre nações cristãs há vida e progresso. Banido o cristianismo do coração do povo e da infância amanhã teremos uma sociedade em delinqüência, uma nação em ruínas. [...] Feliz e bem inspirado andou o patriótico governo do Estado, consentindo neste ato de alta significação. Compreendendo em toda a sua extensão a letra e o espírito da Constituição Mineira, que não adotou o laicismo no ensino primário, o Exmo. Sr. Dr. Delfim Moreira, egrégio Presidente do Estado e o Sr. Dr. Américo Lopes, benemérito Secretário do Interior, conquistaram a simpatia de todos os católicos mineiros.” À medida que a cidade tomava forma, o conflito entre grupos católicos e os adeptos do livre-pensamento foi se ampliando e o embate político-religioso aconteceu em vários momentos da história da cidade, como na formação dos Partidos Macho e Fêmea, em 1918. Na verdade, foram apelidos criados para o Partido Reformador, que representava os liberais e era liderado por Pedro Xavier Gontijo, e para o Partido Conservador composto pelo grupo católico. As expressões foram criadas pelos próprios liberais, no sentido de fazer referência à saia feminina simbolizada pela batina. Esses partidos dominaram a cena política do local por cerca de 30 anos e suas ações mostravam a disputa corpo a corpo para garantir o convencimento do eleitorado: “O Reformador era intitulado “O partido inimigo da religião católica”. Assim o senhor Fidelis Ferreira da Silva ia ao Arraial dos Costas e conseguia diversos eleitores. No dia seguinte o Padre Vicente ia lá, trabalhava, pregava e desfazia o compromisso dos eleitores. Esta luta crescia dia a dia. Recomeçou o Sr. Pedro Gontijo pelo jornal ferindo os seus adversários, insultando, difamando, enquanto o padre Vicente fazia o mesmo através do púlpito. Os reformadores apelidaram o Partido Dominante de “Partido das Fêmeas”, enquanto o seu partido era o “Partido dos Machos”. Esta apelido feria muito os elementos do Partido Dominante e enaltecia os do Partido Reformador. [...] Todos os elementos do Partido Reformador trabalhavam sem medir esforços nem meios. Só é feio perder as eleições: era o lema. O Padre Vicente Soares sofreu muito com a luta política. Afinal no pleito de 1º de novembro de 1918, o Sr. Pedro Gontijo venceu o Partido Dominante por 17 votos e enfeixou em suas mãos o destino de Divinópolis até 1935, data em que foi 27 exonerado do cargo de prefeito, pelo governo do estado.”12 A distinção entre as características rurais persistentes e o traçado do urbano nas ruas, nas edificações, na ampliação das áreas de comércio e na instalação de indústrias, mostra a reciprocidade entre cidade e campo e as marcas distintivas e complementares existentes na relação entre ambos.13 A cidade, até os anos 50, apesar de seu caráter operário, enquanto sede da maior oficina da estrada de ferro, ainda guardava um estilo simples da vida rural na sua organização, como foi comentado numa crônica especial publicada em 1950, dedicada a Dom Cabral: “Entretanto não há nada aqui que lembre o aspecto daqueles centros industriais, cujo moderno urbanismo está coberto pelo preto da patina das próprias chaminés. Ao contrário! Esta cidade de inúmeras máquinas e de milhares de operários deixa a impressão duma tranqüila comunidade rural, banhada, pelo menos em dia de verão, duma luz forte quase pungente, mal explicável à 200 metros abaixo do nível de Belo Horizonte, distante apenas pouco mais de cem quilômetros. E só a quadratura de seu roteiro (em parte arborizado), revela a mão do urbanista do planejador.”14 Essa descrição assinala a metamorfose da cidade, o dinamismo do progresso proporcionado pela indústria, o uso de tecnologia, a ampliação do comércio, o ritmo acelerado das relações mas demonstra também, a sobrevivência das feições rurais e singelas da localidade. Esse envolvimento foi explicado por Louis Wirth: “A cidade e o campo podem ser encarados como dois pólos em relação aos quais todos os aglomerados humanos tendem a se dispor”.15 A instalação das oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1916 mudaram gradativamente as feições do Arraial, que foi tomando a forma de cidade pela instalação das 12 Azevedo e Azevedo, 1988. p. 126. Maria Isaura Pereira de Queiroz, em seu texto Do rural e do urbano no Brasil propõe uma interpretação que considera a reciprocidade entre cidade e campo, criticando a tendência de análise que aborda a existência de duas realidades paralelas. Admite que, numa sociedade global, a estrutura e a organização podem reunir em arranjos variados os tipos sociais diferentes (Queiroz, Maria Isaura. Do rural e do urbano no Brasil. In: Szmrecsánui, Tomás e Queda, Oriowaldo. (org.) Vida rural e mudança social. 3ª Ed. São Paulo: Editora Nacional, 1979, p. 163. 13 14 Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950 p. IV. 15 Wirth, 1967. p. 99. 28 famílias dos operários. Essa gente da estrada foi se misturando à gente do largo da matriz numa convivência inicialmente difícil para os antigos moradores: “Esta gente era mais liberal, mais alegre que os habitantes do lugar, pois contavam com um ordenado certo no fim do mês. [...] A hostilidade e a desavença que existiam entre o povo da Estrada de ferro e o pessoal do Arraial se acentuava cada vez mais, tomando proporções bem desagradáveis.”16 Eram estilos de vida diferentes; o trabalho nas oficinas atraiu para o local um volume grande de pessoas cuja multiplicidade de ofícios, traços culturais e credos diferentes se distanciavam do padrão de vida e de comportamento marcadamente religioso e pacato da população original, comportamento este prescrito e acompanhado de perto pelos párocos que trabalharam na comunidade. As pesquisas e os memoriais confirmam esse desenvolvimento característico da cidade, o qual foi também analisado pelo Sr. Milton Pena: “Nosso povo era lavrador e de pouco conhecimento, quando surgiu a oficina, precisava de mão de obra especializada para trabalhar com as locomotivas. Manipulavam ferro fundido, aço, precisava então, de torneiro, funileiro, ajustador, ferreiro, encanador, e uma série de outros ofícios que a cidade não tinha. Onde formos buscar mão de obra? Nos grandes centros, e muitos estrangeiros vieram também. As pessoas vindas de fora estavam propensas a ouvir novas idéias como o determinismo, o comunismo ... Então aqui havia um caldo, uma possibilidade porque não se tinha compromisso com a cidade e com a tradição. Juntando estes com os que já viviam aqui, Manoel Ferreira Pena, Pedro X.,Virgílio Braga ... [...] Divinópolis ganhou uma característica, a de ser uma cidade onde as pessoas pensam e falam o que querem, mas isto custou muito caro. Custou caro para os que enfrentaram a Igreja, pois ela estava com a palavra. Divinópolis é naturalmente cosmopolita!”17 (Milton Pena) Os católicos logo tiveram de enfrentar o peso das diferenças em relação aos valores e ao comportamento dos moradores, como foi o caso da manifestação de ideologias políticas e de credos contrários aos preceitos católicos. Do ramo protestante, a Igreja Batista foi pioneira a se instalar oficialmente na cidade através lançamento da pedra fundamental de seu templo em julho de 1919. Nessa época, contava com trinta e um membros ativos, tendo como Pastor 16 Azevedo e Azevedo, 1988 p. 87-89. 17 Entrevista realizada pela autora no dia 24.04.01 com Sr. Milton Pena. 29 o Sr. Henrique Edwin Cockel. A aquisição de um terreno da municipalidade pelos protestantes provocou questionamentos do pároco Vicente Soares e reascendeu a polêmica sobre o uso do patrimônio da Igreja pelo poder municipal. O patrimônio reivindicado correspondia a 40 alqueires, já doado por Manoel Fernandes Teixeira em 1770 para criação do Curato18, constituindo-se para a Igreja, portanto,como parte de seu patrimônio. Esse impasse foi levado às instâncias judiciais e acabou provocando a formulação de um pacto políticoreligioso selado em 1920. O teor desse acordo foi, por várias vezes, comentado pelo líder político Pedro Xavier Gontijo, e em um de seus boletins consta: “Padre Vicente tomou para advogados da Igreja os dois ilustres profissionais, Dr. Afonso dos Santos e José Maria Lopes Cançado, e eu tomei para defesa da Câmara o Dr. Noronha Guarany de Belo Horizonte. A coisa não chegou a ferver com espuma porque até um rábula de terceira classe ganharia a questão a favor da Câmara. Já no fim, na liquidação do caso, procurou-me o monsenhor Fernando da Onça, meu velho amigo do tempo do padre Matias, pedindo-me fazer um acordo com a Igreja. Fiz o pacto religioso-político com festas, fogos, discurseiras, etc. Resumo: o patrimônio continuou sendo do município, como de antes, e o meu diretório foi acrescido belíssimos elementos do diretório contrário.”19 A convivência entre católicos e protestantes foi por muito tempo bastante tumultuada. Sr. Eliseu Ferreira, membro da Igreja Batista e estudioso da história da cidade, explica aspectos dessa convivência: “Foi criada uma comissão para a construção do templo, que seria a prédio mais bonito de Divinópolis, e mais bonito de Minas Gerais ... Foram comprados quase 7500 metros de terreno à 200 réis o m²...”20 (Eliseu Ferreira) A convivência entre católicos e protestantes foi marcada pelo uso de estratégias de afirmação e de convencimento junto aos fiéis. Há depoimentos sobre o uso da Cruzada Eucarística ou “Cruzadinha”21 para afrontar os fiéis da Igreja Batista. Eram comuns pregações A escritura foi passada por Manoel Fernandes Teixeira, fazendeiro da localidade (paragens do Itapecerica), em Mariana, à folha 16 e verso, do livro 51, em 24 de março de 1770, transcrita no registro de Imóveis de Divinópolis, em 19 de agosto de 1959, livro 3-R, folha 81 (Van Der Vat (1995) p. 11). 18 19 Boletim nº 195, 15-03-60 de Pedro Xavier Gontijo. 20 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Eliseu Ferreira no dia 31/07/01 21 Explicações publicadas no jornal A Semana sobre o significado das associações católicas caracteriza a visão da época sobra essas entidades. De acordo com o jornal, existiam dois tipos de associações paroquiais: as dedicadas às obras de piedade e de apostolado e as voltadas para a formação espiritual, consideradas associações de elite. A cruzada Eucarística se enquadraria no segundo modelo, exigindo seleção e boa formação para seus membros. Um grupo de meninos de elite dedicados a uma ação cotidiana, rezando o terço, participando de reuniões para 30 criticando espíritas e protestantes, além da mobilização através de alto falantes, numa batalha sonora que tomava conta de amplo espaço da cidade: “... os acordes sonoros transmitidos pelos alto falantes davam aos céus de Divinópolis ares “belentinos”, por sobre cujas casas e campos soavam as vozes angelicais”.22 Na crônica sobre a vida paroquial, publicada na revista de Santa Cruz em 1949, foi comentada a instalação e o uso de alto-falantes pelas igrejas: “Os protestantes outrora tão quietos e pacíficos começaram também a agir. Na festa de São Francisco foi inaugurada a instalação dos alto-falantes na torre do Santuário que daqui em diante com três cornetas fortes podem dominar toda a cidade. A Igreja Batista adquiriu também um aparelho e todos os domingos depois da bênção no Santuário o bom pastor das 90 ovelhas (dizem que não tem mais) começa a desopilar o fígado contra o papado, a confissão auricular etc. O pastor fala muito, mas ao que parece, o povo na cidade não liga nada, mas nada mesmo, a essa propaganda.”23 O Sr. Elizeu apresenta a versão dos protestantes para a instalação do alto falante: “A Igreja colocou alto falantes, nós também colocamos o equipamento. O objetivo era transmitir o culto para fora aos domingos, tocava música, e as dez tinha o culto”.24 (Eliseu Ferreira) Completou seu depoimento mostrando o crescimento do protestantismo, que juntamente com outros grupos, teria levada a Igreja Católica a se preparar para reforçar sua presença no lugar: “O número de batistas locais, eram mais de 50 só em 1919. Nós tínhamos só em 1919, 31 membros da igreja que foram transferidos de Belo Horizonte. Desses, tinham também as famílias que chegavam à uns 70 batistas, entre membros e familiares. Já existia uma boa quantidade de livres pensadores, espíritas e maçons na cidade. Quer dizer que num universo de Divinópolis naquela época, com uns 15 mil habitantes, talvez nem isto, padre Bicalho ficou assustado ...” (Eliseu Ferreira) A doutrina espírita também encontrou receptividade em meio à liberdade políticoreligiosa defendida pelos novos personagens que tomavam assento à frente dos investimentos na cidade. Em dezembro de 1928, tiveram início as atividades do Racionalismo Cristão na instrução religiosa e formação espiritual atuariam trabalhando como arautos do Cristo-Rei e “benjamins da Ação Católica” (Jornal Interno A Semana de 24 à 31 de outubro de 1943). 22 Revista de Santa Cruz, Ano XV, janeiro de 1950, p. 10. 23 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, fevereiro 1949 p. 22-23. 24 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Eliseu Ferreira no dia 31.07.01. 31 localidade por intermédio do Capitão Sinfrônio Gontijo. Dessa articulação nasceu o Centro Espírita Filial Redentor de Divinópolis, ligado ao Centro Espírita Redentor do Rio de Janeiro. Seu templo foi construído em terreno concedido pela Câmara Municipal e foi inaugurado em maio de 1937 (Corgozinho, 1999:140). Em 1947, um grupo kardecista fundou o Centro Espírita Estudantes do Evangelho. Esses elementos contaram com o apoio do farmacêutico Sr. José Maria Campos que se mudara de Carmo do Cajuru para Divinópolis no início da década em função de perseguição promovida pelo vigário daquela paróquia. O Sr. José Carlos Pereira conta como arregimentou-se um conjunto de filiados à doutrina para a criação do Centro: “Naquela ocasião tinha uma turma aqui eu, o José Guimarães e outros, mas o negócio foi crescendo para se manter apenas como uma reunião familiar, foi ficando difícil, mesmo porque, depois quando eles acabaram com as oficinas da Rede em Cruzeiro, o pessoal veio para cá, e veio muita gente com militância no movimento espírita. Então nós fizemos em 1947 o Centro. Existia um grupo aqui do Veloso que eles diziam que era mais de tendência sincretista, era mais umbanda, e existia um grupo espiritualista, uns dois ou três elementos que se reuniam mais para conversar [...] Então nós nos reunimos com os elementos daqui e com os de Cruzeiro, logo depois veio o Rozenwal Udison de Oliveira para cá também, e nós fizemos o primeiro Centro, inaugurado em setembro de 1947.”25 (José Carlos Pereira) A Igreja Católica reagiu ao crescimento dos espíritas no local e administrou uma campanha de combate apoiada principalmente nas famílias tradicionais, no sentido de que se tornassem a linha de frente na defesa do catolicismo. Sr. Pereira fala sobre as retaliações promovidas contra o movimento espírita: “Tínhamos o jornal “Idéia Viva”, nessa ocasião começou uma perseguição, foi uma perseguição tremenda, comandada principalmente pelo Frei Rafael. [...] Minha mãe foi a que sofreu mais, ela ia à missa e o padre, esse Frei Rafael me atacava lá assim de público ...” (José Carlos Pereira) Como figura de proa na ação contra o domínio do pensamento católico mais tradicional, teve destaque a Maçonaria26, numa querela histórica face à Igreja Católica. 25 Entrevista realizada pela autora com o Sr. José Carlos Pereira no dia 25-07-01. “A primeira notícia acerca da Maçonaria propriamente dita no Brasil, nos é fornecida pelo manifesto que José Bonifácio dirigiu em 1832 aos maçons de todo o mundo, comunicando que em 1801 fora instalada a primeira 26 32 Apoiada pelos adeptos do livre pensamento, atuantes na defesa da liberdade e do estado de direito. Teve sua atuação de maior ressonância associada aos ideais libertários lançados no século XVIII e aplicados a partir da Revolução Francesa. No Brasil, foi atuante politicamente, tendo influenciado as conjurações e, durante o Império, conquistou espaço entre as elites, além de ser motivo de status sócio-intelectual27, ocorrendo a ampliação de clubes e de entidades secretas por todo o país. “Por volta de meados do século XIX, as irmandades tinham se tornado centros de atividade maçônica. Já que entre os maçons se encontravam padres e importantes autoridades do governo, não era de se estranhar que houvessem Irmandades maçônicas. Havia se discutido se a forma brasileira de maçonaria era anti-católica ou anticlerical, mas após o Syllabus e o anátema lançado sobre a Maçonaria, ela tomou posição contra todos aqueles que eram contra ela ...”28 A Maçonaria incorporou e difundiu o pensamento liberal, chegando a assumir posturas anticlericais. Seu caráter secreto, a defesa da liberdade do cidadão e seu princípio deísta, teriam feito com que se transformasse numa entidade prescrita pela Igreja Católica. De acordo com Ferrer, a condenação pontifícia a essa entidade se fez por um conjunto sucessivo de documentos: “A primeira condenação pontifícia da Maçonaria deveu-se a Clemente XII na sua carta apostólica de 28 de setembro de 1751. De então – praticamente as condenações se sucederam ininterruptamente: Pio VII com a const. Ecclesiam a Jesu Christo (1309-1821), Leão XII com a const. Quo Graviora (13-03-18250...; e depois Leão XIII com a enc. Humanum Genus (20-04-1884).”29 Na instalação da República, o espírito modernizante foi, em grande parte, estimulado por maçons, figuras presentes no processo de consolidação do novo Estado. Essa situação loja simbólica regular, debaixo do título de ‘Reunião”, filiada ao Grande Oriente da França.”. (Op. Cit. Kloppenburg, 1992, p. 10) Sérgio Buarque fala sobre os falsos católicos, sobre a defesa da liberdade de pensamento e das tendências positivistas ortodoxas, heterodoxas e liberais que envolviam as elites na passagem do século. (Op. Cit., p.p. 322324) 27 28 Bruneau, 1974. p. 61. 29 Ferrer, 1983. p. 23. 33 incomodava a Igreja de Roma, como foi explicitado pelo Cardeal Vives Y. Tuto, ao comentar um plano maçom arquitetado para promover a marginalização da Igreja: “... Saiba que a Maçonaria vai realizar a partir de 14 de julho próximo, no Rio de Janeiro um congresso nacional para estabelecer um programa de descristianização do Brasil e que vai levantar para a eleição de março de 1910 a candidatura de um militar de alta patente do Exército brasileiro a presidência da república, para que, filiado à Maçonaria, execute o programa assim traçado.”30 Essa concepção de que a Maçonaria representava uma entidade anticlerical e que desde suas primeiras manifestações agia no sentido de dessacralizar a sociedade brasileira era encarada com seriedade pela hierarquia eclesiástica e prosseguiu em outros momentos da história da República. Parte do clero brasileiro, que cerrou fileiras no combate aos chamados inimigos da Igreja, acreditava inclusive na ligação entre a Maçonaria e o crescimento do comunismo ateu. Esse segmento estava convencido de que ambos teriam sido gestados no processo de afirmação do mundo moderno, industrialista, racionalista, individualista e secularizado decorrente da vitória do ideário liberal burguês. Todo esse caldeamento de idéias apontava para a propagação de um pensamento de tendência moderna e para a canalização de esforços no sentido de desenvolver ações voltadas para a modernidade. Estar em sintonia com as transformações do mundo moderno implicava na defesa da liberdade e do progresso, o que muitas vezes representava armar uma resistência mais incisiva diante da persistência da tradição, presente no mundo sagrado e, quase sempre, no discurso e na prática institucionais da Igreja Católica. As conseqüências advindas do progresso sempre tiveram a força da inevitabilidade, expressas na industrialização, na complexidade urbana, na paradoxal relação entre a multidão e o indivíduo, nas transgressões da tradição. A Igreja percebia a dimensão das mudanças, ciente de que estaria no caminho desse turbilhão, podendo perder sua posição de condutora da vida social e sua influência nas decisões políticas, além de enxergar com cautela a apologia feita ao significado que tomava a defesa da liberdade. 30 Lustosa, 1983. p. 14. 34 Na linha de frente dessa movimentação em defesa do novo, normalmente destacava-se uma elite instruída, composta em sua maioria de profissionais liberais, personagens que emergiram no processo de urbanização e de ampliação da presença da classe média na vida social e política do país. No Brasil, a transição da velha sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial se deu mais amplamente a partir de 1930, quando houve um crescimento da classe média empenhada numa maior participação política, consolidando-se como formadora de opinião e aliada às propostas comprometidas com o desenvolvimento do país. No entanto, esses grupos apresentavam-se divididos entre aqueles adeptos da sociedade de direito e da liberdade, envolvendo-se em organizações laicas e simpáticos às ações consideradas progressistas, e aqueles cuja tendência de formação católica era mais arraigada, que acreditavam em saídas consensuais e harmoniosas para um desenvolvimento referendado pelo projeto político-social da Igreja. Obviamente essas duas referências básicas não alcançam a diversidade progressiva da sociedade urbano-industrial, em que se manifestavam outras posições e concepções defensoras de formas diferentes de organização social e política para o país. A Igreja Católica acompanhava de perto as transformações que vinham se processando no Brasil, percebendo a necessidade de buscar a adesão dos grupos urbanos em torno da proposta de recristianização da sociedade brasileira. Para alcançar esse objetivo, tomou frente em ações políticas, investiu no campo social e utilizou os recursos da comunicação de massa, preocupando-se também com a formação de uma elite pensante envolvendo-se no campo da educação. Na verdade, a própria Igreja não estava coesa nessa transição, apesar de agir firmemente para esse fim, principalmente a partir da década de 20. Tomando as análises de Luiz Gonzaga de Souza Lima (1979, 19-20), é como se existissem duas Igrejas: uma para a sociedade rural, ainda tradicional e dominada pelas oligarquias dominantes e uma outra urbana, em franco processo de metamorfose, podendo ser observado que: “A organização da Igreja nas zonas urbanas se baseava nas classes médias, dentro das quais se reproduzia um estilo de trabalho pastoral prevalentemente europeu. [...] Basear-se nas classes médias no período de transição da sociedade brasileira era adaptar-se sabiamente às novas condições de urbanização acelerada. Eram as classes médias que mantinham permanente agregação social e um alto nível de participação e mobilização.” 35 Essa preparação de uma elite comprometida aconteceu nas paróquias a partir de um compromisso de ação social apostólica junto às classes populares. Paralelamente, um trabalho similar era desenvolvido por grupos contrários ao projeto católico de sociedade, assumido por elementos que detinham conhecimento e formação teórica capaz de amparar um debate frente ao clero e à elite católica militante. Eram cidadãos conectados com os acontecimentos políticos e culturais do país e bem informados sobre as reformas e avanços em processo no exterior. Destacaram-se, no cenário municipal, as figuras de Pedro Xavier Gontijo, Francisco de Azevedo Gontijo, João Manoel Ferreira Pena e outros que em muitas situações, ao defenderem suas idéias, assumiram posturas anticlericais. No caso específico de Pedro X. Gontijo, personagem mais polêmico no contexto geral dos embates, tinha boa formação intelectual, era farmacêutico, foi estudante no Colégio Caraça e da Universidade de Ouro Preto. Identificava-se como “anarquista cristão” e gostava de usar a máxima “procuro construir agitando - lembro o ontem, discuto o hoje e prego o amanhã”, justificando sua tendência de polemizar sobre fatos da vida do município. Pedro X. Gontijo esteve presente em grande parte dos momentos críticos vividos pela cidade, da sua criação até os anos 60, e encabeçou vários momentos de litígio com os católicos, sendo motivo de polêmica em várias passagens registradas em crônicas e documentos da Igreja local. Era alvo da atenção dos católicos pela liderança exercida junto aos maçons e por confrontar-se com os católicos através de boletins, sempre recebendo respostas por meio do jornal católico “A Semana”: “O redator da Semana provocou descontentamento nas fileiras dos maçons. Com franqueza e intrepidez verberava ele os métodos e as práticas da gente dos três pingos. O grande desaforo para o povo católico de Divinópolis de organizar uma ceia festiva na sexta-feira santa foi energicamente rejeitado na Semana. A Maçonaria reuniu novamente os seus adeptos e começou a publicar uma série de panfletos e boletins contra Frei Rafael e o clero. O de Pedro X., leitura engraçada e divertida, só xingar, o de Benjamim Azevedo cheio de coisas batidas e mil vezes refutadas, o de Francisco Severino de Azevedo, boletim ridículo.”31 Foi polêmico o incidente provocado durante a semana pedagógica, que reuniu professores da cidade, realizada por iniciativa do professor Antônio Ribeiro de Avelar, 31 Revista de Santa Cruz Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 22. 36 inspetor técnico regional, coadjuvado pelo prefeito e pelo vigário. No momento em que se ressaltava a premissa, “sem educação religiosa não há educação”, Pedro X. Gontijo, convidado a explanar sobre educação, defendeu junto aos presentes que educação era uma palavra oca, provocando grande alvoroço na platéia.32 Os grupos que questionavam a Igreja normalmente faziam parte da Maçonaria ou tinham nela um aliado na defesa do pensamento liberal e na articulação das peças envolvidas no jogo político e na influência sobre a opinião pública, através de idéias e reformas, segundo eles, condizentes com o processo de modernização em curso. A primeira reunião de maçons em Divinópolis ocorreu sob a liderança do Dr. Behring, engenheiro da estrada de Ferro Oeste de Minas, em 1923 na casa do Sr. Francisco José de Assunção. Nessa reunião foi constituída a mesa responsável por consolidar a entidade no município pela construção de sua sede, como Loja Maçônica Estrela do Oeste de Minas, inaugurada com grande festividade em 17 de novembro de 1923.33 Na cidade de Divinópolis parece ter ocorrido uma aliança dos grupos combatidos pelos católicos, que se alinhavam, em algumas situações, contra o clero local. Esse fato pode ser comprovado pelo apoio oferecido pelo poder público na instalação das novas religiões e templos no município, como foi o caso do Racionalismo Cristão e o acordo para compra e venda de um terreno destinado à construção da Igreja Batista. Comprova também essa tendência de uma frente de colaboração para o enfrentamento do poder católico, a realização de um evento espírita no espaço da loja maçônica na década de 40, que foi comentado pelo Sr. Pena: “Os espíritas Kardecistas estavam em etapa de desenvolvimento inicial. Havia aquele amor à causa, próprio dos neófitos. Planejaram uma conferência e convidaram a um dos expoentes da doutrina em Minas Gerais que era o Dr. Cesar Brunier Pessoa de Mello, homem ilustrado, escritor, advogado, grande orador. [...] Na aprazada data, a reunião se deu no prédio da Maçonaria na rua São Paulo, com cadeiras emprestadas pela Igreja Batista.”34 32 Revista de Santa Cruz Ano VII, fevereiro de 1942 p. 31. 33 Azevedo e Azevedo, 1988. p. 133-134. 34 Pena, Milton. Memorial Comprometido, Jornal Primeira Página, Divinópolis, 28.05.2000. 37 Segundo consta do fato, a realização do evento foi ameaçada por grupos católicos, o que levou os membros da Maçonaria que davam sustentação aos espíritas, a manterem vigilância armada no local. O desfecho se deu sem a ocorrência de um confronto direto entre os opositores. Um conjunto de acontecimentos ocorridos na década de 20 demonstra sua importância na definição de um perfil identitário35 para o município. A Igreja Católica, que já tinha raízes consolidadas no lugar, deparou-se com a ameaça das novas seitas e da atuação dos grupos laicizantes, exigindo uma tomada de posição no sentido de se preservar e de restaurar sua liderança a partir de uma maior inserção na vida da comunidade. Foi para enfrentar essa situação que a arquidiocese de Belo Horizonte, através de Dom Antônio dos Santos Cabral, concedeu aos frades franciscanos o controle da paróquia de Divinópolis, tal como consta nas explicações de Frei Olavo sobre o desenrolar dos acontecimentos: “Ele nos faz compreender que este centro industrial, ameaçado por propaganda anticlerical e, quem sabe, comunista, fosse entregue aos cuidados de uma congregação religiosa. Foi neste sentido que o vigário da vizinha paróquia de Cajuru, o Pde. José Alexandre Mendonça, insinuou a Dom Cabral de Belo Horizonte entregar a paróquia de Divinópolis aos Padres Franciscanos. Aliás S. Exa. já estava tratando com os franciscanos sobre a paróquia de Santa Efigênia do Barro Preto em Belo Horizonte e mais tarde sobre a de Sabará, quando de repente, em 8 de abril de 1924, lhes ofereceu a paróquia do Divino Espírito Santo de Divinópolis.”36 A iniciativa foi motivada por um conjunto de fatores considerados relevantes tanto para os frades que recebiam a paróquia como para a arquidiocese que estaria se resguardando à frente de uma cidade que se projetava cada vez mais no contexto geral de Minas Gerais. Justificava a medida o fato de os franciscanos receberem uma paróquia importante e complexa, tendo a cidade potencial para se tornar um centro de ação da Ordem Franciscana e da Arquidiocese e, por suas características, os franciscanos poderiam evitar as emboscadas políticas, nas quais quase todos os párocos seculares acabaram se envolvendo. Completando Berger e Luckman afirmam que os processos sociais implicados na formação e conservação da identidade são determinados pela estrutura social, sendo que as identidades individuais sofrem sua influência mas também atuam sobre essa estrutura, mantendo-a, remodelando-a ou modificando-a. Argumentam também que as teorias sobre identidade estão sempre encaixadas em uma interpretação mais geral da realidade. Sua análise só é possível quando localizada num mundo de representações e significados (1978: 230-231). 35 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 58. 36 38 essa ação ampla, os frades representariam uma frente de resistência à propaganda protestante e principalmente espírita.37 É importante salientar que a intolerância do clero local diante do protestantismo e do crescimento do espiritismo demonstrava uma posição oficial da Igreja Católica frente a esse fenômeno em todo o mundo, como aconteceu também na luta contra o comunismo internacional. Dentre os prejuízos ao equilíbrio social, advindos da avalanche modernizadora, destacou-se também ameaça comunista, projetando um modelo de justiça social contrário ao modelo católico e, ao mesmo tempo, afetando a sobrevivência da ordem capitalista já instalada. Particularmente, para a Igreja Católica, o comunismo representava a proliferação do ateísmo, do materialismo e o perigo do revolucionarismo, tudo o que punha em risco seu projeto de “recatolização”, já bastante afetado pelo utilitarismo e individualismo burguês. Com as instituições capitalistas era possível fazer acordos, estabelecer consensos e aplicar alternativas reformistas. Mas quanto à proposta socialista e comunista, as possibilidades de transformação social que defendiam passavam pelo desmonte das instituições burguesas. Percebendo a incompatibilidade de convivência em função do antagonismo doutrinário, os documentos papais passaram a explicitar a dissonância entre sociedade cristã e o caminho materialista apontado pelo movimento comunista. Na Encíclica Divini Redemptoris de 1937, o papa Pio XI expôs os motivos de discordância da Igreja diante do comunismo ateu. Procurou denunciar a campanha anticristã promovida pela doutrina comunista, adepta da revolução social, que estaria seduzindo os humildes com a promessa de um igualitarismo apoiado no materialismo evolucionista de Karl Marx, o que na encíclica foi chamado de falso ideal. “A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 58. 37 39 pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.”38 O Estado e a Igreja aliaram-se no combate ao comunismo no Brasil. Principalmente depois de 1930, estabeleceu-se o binômio fé católica e pátria brasileira, pressuposto para a cidadania. A idéia era reparar as injustiças sociais e enfrentar a propaganda comunista, apoiados num modelo corporativista de ação capaz de garantir a harmonia social. A adesão ao comunismo foi constantemente denunciada em Divinópolis pelos franciscanos que atuavam no Círculo Operário. O jornal católico “A Semana” divulgava sobre a existência de uma célula comunista na cidade e alertava para sua atuação nos movimentos de ferroviários da Rede Mineira. Em períodos de greve, há informações sobre a presença de militantes de Belo Horizonte na cidade, distribuindo boletins e organizando reuniões. Em 1949, adeptos do comunismo sob a orientação de Evaristo Garcia apoiado por Sebastião Vitorino, Nilton D’Ávila, Carlos Schimer, João Alves, Bengala, Adão, Sanches, Armando e outros teriam criado um Comitê Ferroviário e um panfleto chamado “O Apito”.39 Apesar de existirem evidências sobre a atuação dos comunistas na cidade, devido à sua militância predominantemente clandestina, fica difícil circunscrever com precisão sua abrangência. O Sr. Evaristo Garcia contou sobre sua atuação junto aos ferroviários: “Cruzeiro então era o foco maior. Tinha as oficinas em Lavras e Divinópolis. Então o Partido criou um comitê de ferroviários, mas nenhum de nós era ferroviário. Tinha que articular readaptar o pessoal que tinha sido transferido de Cruzeiro. [...] A gente articulava com o Venâncio, o Adão, o Sanches, eles eram lá de Cruzeiro, a gente discutia as questões dos ferroviários. Eu ficava mais em Lavras e Itajubá, a minha função era articular, eu tinha habilidade com as mulheres dos ferroviários.”40 (Evaristo Garcia) Divini Redenptoris – Carta Encíclica de sua santidade o papa Pio XI sobre o comunismo ateu. São Paulo: Edições Paulinas, 1965 p. 8. 38 Barreto, Lázaro. Memorial de Divinópolis – História do Município. Divinópolis. Divinópolis: Serfor, 1992 p. 102. 39 40 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Evaristo Garcia no dia 18.12.01. 40 O advogado Dr. Simão Salomé era irmão de um dos líderes do Partido Comunista, o Sr. Francisco Salomé de Oliveira, mais conhecido como Chico Espingarda. Relembrando sua ação em Divinópolis, acrescenta algumas informações: “O Garcia era muito atuante, aqui ele deu uma sacudida no Partido, e nessa mesma ocasião, meu irmão, Francisco Salomé de Oliveira, que tinha apelido de Francisco Espingarda era da prateleira de cima do partido em Minas e Goiás. Então ele vinha de Belo Horizonte se encontrar com eles aí, com o Garcia, e haviam poucos comunistas não ferroviários. [...] O Chico vinha sempre correndo, para encontrar com os camaradas. [...] O Chico trazia sempre literatura para eles...” 41 (Simão Salomé) Retomando a importância dos anos 20 no contexto internacional e para a sociedade brasileira, deve-se ressaltar que, nessa década, o mundo vivia os resultados da primeira grande guerra. A doutrina fascista se consolidava na Itália, a vitória do socialismo na Rússia fazia surgir um modelo de Estado e de sociedade capaz de se contrapor ao modelo capitalista. No Brasil, o clima era de rupturas; o modernismo trazia a expressão de uma arte que se libertava das regras e das concepções culturais arcaicas, o movimento operário ganhava nova orientação comunista, o tenentismo questionava o domínio oligárquico, levantando a bandeira da moralização política e o predomínio político de São Paulo e de Minas Gerais começava a ser questionado pelas oligarquias dissidentes, desejosas de assumirem seu papel à frente das decisões políticas do país. Os acontecimentos desse período lançaram as bases para as transformações e definições político-institucionais das três décadas seguintes. No caso da organização do Estado, a desagregação da República Oligárquica desencadeou a aglutinação de forças dos grupos dissidentes com a formação da Aliança Liberal, centrada em torno de uma plataforma política que contemplava reformas sociais, apoio ao desenvolvimento industrial e a definição de uma legislação eleitoral. Os conflitos que levaram à Revolução de 1930 possibilitaram a ascensão de Getúlio Vargas ao poder e sua permanência na cena política até a década de 50. Durante a Era Vargas, o programa da Aliança Liberal foi resgatado e enriquecido com a influência positivista que Vargas trazia do Rio Grande do Sul e, posteriormente, pela 41 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Simão Salomé no dia 20.11.01. 41 incorporação de aspectos do fascismo italiano ligados ao corporativismo na relação do Estado com patrões e trabalhadores. A ruptura provocada pela Revolução de 1930 colocou um fim na hegemonia política de São Paulo e fez ascender a oligarquia gaúcha ao poder, dominando através de Vargas os estados e municípios. Esse movimento teve na cidade de Divinópolis a adesão de um grupo organizado através do Batalhão João Pessoa42, além de uma legião de mulheres que atuou pela Cruz Vermelha. Após a vitória do movimento, Pedro X. Gontijo, que foi membro do batalhão, tomou posse como prefeito, nomeado por Olegário Maciel, presidente do estado de Minas Gerais.43 O Sr. Orozimbo Vasconcelos, atualmente com cem anos de idade, lembra da arregimentação de forças no município em apoio à Revolução de 1930 e atuou como participante no grupo de “bate pau” criado para policiar a cidade: “A polícia daqui foi para a Serra da Mantiqueira, então fizeram um quartel geral ali onde está o fórum, o presidente era o Pedro Gontijo, os participantes eram Sr. Juvelino, o José Pinto, o capitão Silva. Veio até farda para eles. Nós fazíamos a ronda, policiávamos a cidade, na ausência da polícia formamos uma força.”44 (Orozimbo Vasconcelos) Após ininterruptos 15 anos no poder, assinalado pelo centralismo político que foi acentuado durante o Estado Novo, esgotaram-se as condições de permanência de Getúlio Vargas no poder em 1945. O processo de abertura política fez nascer uma estrutura partidária diferente da experiência regionalizada da Primeira República. Os partidos estruturaram-se em âmbito nacional e tomaram conta da vida política do país até o golpe de 1964. Os partidos criados na fase de abertura, promovida a partir de 1945, foram atuantes no município, com destaque para o tradicional confronto entre o PSD e a UDN. Convergiram as antigas forças políticas para esses dois pólos. Esse batalhão de voluntários foi organizado pelo capitão do exército Carlo Pirfo, chegando a contar com 122 membros, apesar de não possuírem material adequado como farda e munição. Era um grupo movido pelo espírito patriótico, levantado pelo movimento de 1930 em todo o país e pelas notícias que chegavam da capital. Nessa época foi também organizado um destacamento de paisanos para proteger a cidade, já que o destacamento oficial havia sido deslocado para a frente de combate (Azevedo e Azevedo, p. 145). 42 43 Gontijo, 1995. p. 50. 44 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Orozimbo Vasconcelos no dia 04.03.02. 42 A Igreja Católica também sofreu uma profunda metamorfose na década de 20, processo que vinha sendo preparado desde o Movimento de Romanização iniciado no final do século XIX e que, no Brasil, ganhou impulso com a instalação de uma República laica em 1889. Progressos foram alcançados a partir da liderança de Dom Sebastião Leme como arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro. Através de sua liderança nessa arquidiocese, foi lançado o programa de Ação Católica no estado em 1922, criada a Confederação Católica e, no mesmo ano, realizado o Primeiro Congresso Eucarístico Nacional. A aproximação da Igreja com o Governo Vargas aconteceu no sentido da colaboração mútua, já que ambos buscavam moldar a sociedade em torno de algumas referências, tomadas como fundamentais para a garantia da ordem e do desenvolvimento. Entre 1945 e 1964, a Igreja canalizou seus esforços em torno da consolidação de sua autonomia, pelo amadurecimento progressivo da Ação Católica e principalmente pela centralização das ações institucionais através da criação da CNBB em 1952. A ação política da Igreja, durante a República, aconteceu primeiramente pela tentativa de formação de um partido católico45 e depois, entre 1932 e 1946, por meio da Liga Eleitoral Católica, optou-se por uma organização suprapartidária. O objetivo da Liga era: “Instruir, congregar, alistar e assegurar a candidatos dos diferentes partidos a aprovação da Igreja e, portanto, o voto dos fiéis, mediante a aceitação por parte dos candidatos dos princípios católicos e o compromisso de defendê-los na Assembléia Constituinte.”46 Em Divinópolis foi criado um núcleo da LEC, cujo decálogo e atividades foram divulgados pelo jornal católico “A Semana”. Essa entidade investiu mais na propagação de um discurso anticomunista na década de 40, combatendo a atuação legal do Partido Comunista, conquistada na abertura política de 1945. Essa tendência refletia uma Oscar Lustosa explica que entre 1909 e 1911, após o impacto da ruptura imposta pela instalação de uma República liberal laica, a Igreja investiu na formação do Partido Católico para que fossem eleitos deputados e senadores católicos capazes de lutarem pelas prerrogativas da comunidade eclesial no legislativo. Formou-se um diretório central no rio de Janeiro, organizando bases em todos os estados onde funcionavam diretórios regionais e locais. Foram lançados manifestos, programas, circulares, além da formação de chapas. Seus resultados não foram imediatos, servindo porém, como força mobilizadora dos leigos em torno do projeto político da Igreja. (Lustosa, Oscar de Figueiredo. Igreja e política no Brasil – do partido católico à LEC 1874-1945. Loyola, São Paulo, 1983 p. 12-13). 45 46 Bandeira, 2000. p. 43. 43 característica geral da LEC nesse período, talvez acentuada em Divinópolis em função do caráter operário da cidade. Os franciscanos foram responsáveis por dinamizar a ação da Igreja em Divinópolis e região, desenvolvendo atividades que afetavam as várias manifestações da vida social no âmbito público e privado, seguindo as orientações traçadas pelas instâncias superiores. Como agentes multiplicadores da presença religiosa na rotina da cidade, assumiram vários empreendimentos nos campos político, social e cultural necessários para a garantia de preservação e ampliação do espaço institucional da Igreja Católica no município e região. 1.2 A Ordem de São Francisco: inspiração da Ação Católica “... Parece lícito afirmar que jamais houve em quem brilhasse mais viva e mais semelhante a imagem de Jesus Cristo e a forma evangélica do que em Francisco.”47 Na virada do século XII para o XIII, período em que a Europa Medieval passava por um processo de transformação profunda, marcado pelo aumento populacional e por um certo dinamismo urbano, São Francisco lançou os fundamentos de um apostolado voltado para a nova sociedade cristã em processo de formação, inovando no modelo da prática de vida religiosa centrado na pobreza, na humildade e no uso da palavra. O franciscanismo transformou-se num grande movimento religioso que, diferente das ordens mendicantes tradicionais, rompeu com o isolamento próprio do monaquismo, colocando seus membros em contato direto com o mundo (Le Goff, 2001:101-125). No princípio, até 1217, não se pode falar de uma organização propriamente dita. Na Primeira Regra, São Francisco propõe que os frades não tivessem autoridade e nem dominação alguma; deveriam obedecer-se mutuamente. Até a introdução do noviciado, em 1220, o ingresso na Ordem acontecia mediante a vestição do hábito e do cordão. A prova de vocação era a renúncia aos bens e a dedicação à caridade (Iriate, 1985:45). Pio XI na sua encíclica “Rite Expiatis”, sobre São Francisco patrono da Ação Católica (Revista de Santa Cruz Ano XIII, 1948 p. 21.) 47 44 Os frades menores eram encaminhados para a atividade apostólica sempre de dois a dois, reforçando a idéia de obediência para que juntos rezassem o divino ofício. Mantinham assim um costume dos religiosos de não saírem sozinhos, para evitar os perigos morais e corporais próprios ao contato com a realidade social.48 A obra franciscana, espalhando-se pelo mundo, levou aos lugares mais distantes um estilo apostólico idealizado por São Francisco de Assis que, ao criar a Ordem em 1210, procurou torná-la reconhecida pela Igreja de Roma: “No ano de 1210, São Francisco escreveu “paucis et simplicibus verbis” a vida “secundum envangelii” que o Altíssimo lhe revelara, e foi com os seus primeiros 11 discípulos à Roma para pedir a aprovação da Santa Sé. Inocêncio III aprovou oralmente seu modo de viver, Francisco lhe prometeu obediência, e os demais irmãos a prometeram a Francisco. O Papa deu-lhes ainda licença “praedicandi paenitentiam” e o Cardeal João de São Paulo fez-lhes dar a tonsura, para que pudessem exercer com mais liberdade o seu apostolado.”49 Quando o texto de sua regra foi apresentado ao Papa Inocêncio III, este mostrou-se impressionado com a disposição de Francisco em acatar o evangelho integralmente. Aprovou a organização dos frades, mandou tonsurar todos eles que eram leigos, conferindo a Francisco o diaconato. A primeira Regra de 1221 foi retocada a pedido do papa e do cardeal Ugolino, cujas alterações originaram a Regra de 1223, passando ainda por retoques feitos pelo cardeal e aprovada pelo Papa Honório III pela bula Solet annuere50, conhecida em função disso pelo nome de Regula bullata (Le Goff, 2001:73-86). 48 Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955 p. 33. Van Der Vat, Odulfo. História Franciscana – Província Franciscana de Santa Cruz. Belo Horizonte: Província Franciscana de Santa Cruz, 2001 p. 65. 49 Le Goff expõe sobre a insatisfação de Francisco quanto às deformações impostas à sua proposta, tendo sido suprimidas as passagens líricas e prevalecendo em seu lugar fórmulas jurídicas. Foram alteradas também proposições relativas a pobreza rigorosa, ao trabalho manual e sobre a posse de livros pelos frades. O autor destaca sobre as versões biográficas do santo, prevalecendo a escrita oficial autorizada pela Igreja feita por São Boaventura, que apresenta um Francisco mais resignado. Entretanto, registros exlicitam que o mesmo demonstrava insatisfação quanto ao caráter institucional imposto à Ordem. Uma demonstração dessa discordância aparece no Testamento de São Francisco, escrito entre 1225 e 1226, tentando através dele, ferir um conjunto de prescrições que haviam sido suavizadas na Regra de 1223. Essa tentativa foi infrutífera diante da medida do papa Gregório IX, que através da bula Quo elongati, anulou essas prescrições em 1230 (Le Goff, 2001). 50 45 Partindo da Itália, espalharam-se pelo mundo através das províncias51 com a missão de cumprir o evangelho e de multiplicá-lo em obras: “Ainda não tinham passado sete anos depois da aprovação papal, e já os franciscanos se espalharam para fora da Itália.Vemo-los em grupos, atravessar os Alpes, dirigindo-se para a Espanha e Portugal, França e Alemanha, Holanda e Inglaterra, e até atravessar os mares para converter os infiéis nas terras do paganismo.”52 A Ordem instituiu-se no sentido canônico da palavra pela adoção das Regras definidoras do noviciado, da profissão dos três votos, do uso do hábito e da definição de um governo próprio. A obediência às Regras foi um traço original da Ordem, que em geral estabeleceram a vida evangélica e católica e em particular o cultivo das virtudes: pobreza, humildade, caridade abnegação, vida voltada à oração e ao apostolado.53 A Regra de 1223 estabeleceu um sistema misto clerical e laical com ofício divino para ambos e definiu as linhas gerais do modo de viver e do sistema de governar da Ordem, através do ministro geral, dos ministros provinciais e dos custódios, além de estabelecer detalhes relativos ao funcionamento da Ordem (Van Der Vat, 2001:72-74). A Ordem foi fundada para ser laical e no começo, muitos superiores eram leigos. Ocorreu uma mudança em 1239, quando os governos adaptaram-se à evolução clerical e os leigos foram excluídos do ofício de superior e do governo em geral.54 A pobreza ocupa o primeiro lugar na Regra como imitação da vida de Cristo: “... vivendo sem propriedade” (cap. 1); os candidatos à ordem vendam tudo o que possuem, e tratem de o distribuir entre os pobres; mas, se não o puderem, basta-lhes De acordo com Iriate, a organização de províncias vem da idéia de comunidade itinerante que se move e atua numa região sob a direção do ministro provincial. A conseqüência dessa divisão foi a expansão da Ordem para fora da Itália e no Oriente. Representou uma estrutura que manteve o caráter unitário e centralizado da Ordem, permitindo um mínimo de organização regional (Iriate, 1985:51 e 115). 51 52 Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, junho de 1934 p. 3. 53 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, setembro de 1954 p. 120-121. 54 Revista de Santa Cruz, Ano XX, outubro de 1955 p. 46 a boa vontade” (cap. 2); “os irmãos não tenham propriedade sobre coisa alguma, nem sobre casa, nem lugar, nem outra coisa qualquer” (cap. 6)”.55 Através do “capítulo provincial” são tomadas as decisões sobre o funcionamento das províncias, por meio de deliberações e estudos, examinando todas as questões referentes ao progresso material e espiritual da organização. Cabe ao capítulo também a eleição do governo provincial, do ministro, do custódio e dos definidores: “O capítulo provincial é um congresso de frades da Província para deliberar e estudar todas as questões atuais, visando um ambiente favorável ao bem comum: disciplina regular, apostolado, formação por meio de uma boa administração. O principal portanto, do capítulo não são as eleições e nomeações, e sim as deliberações, resultando em decretos e ordenações, projetos etc. [...] Compete, portanto, ao capítulo estudar a situação da Província, indicar o rumo a seguir, tomar as medidas e baixar os decretos necessários, e afinal, eleger as pessoas mais indicadas para executar “suaviter et fortiter” o que ficou resolvido.”56 À medida que o número de irmãos crescia, a definição sobre o tamanho das casas foi alterando as concepções iniciais propostas por São Francisco. Apesar da Regra não dispor sobre o tamanho das casas, São Francisco propôs comunidades pequenas, mais suscetíveis ao cumprimento do voto de pobreza. Entretanto, a formação científica dos noviços e clérigos jovens impôs a ampliação dos espaços voltados também para a formação dos irmãos. As casas possibilitaram a vida comum e passaram a distinguir-se pela função, os Guardianatus ou “conventus formatus”, caracterizados pela vida comum e pela existência de religiosos professores. Existia também a Residentia ou “conventus non-formatus” e o Hospitium, onde os frades não moram habitualmente.57 A partir das C.C.G.G. de 1953, as casas da Ordem passaram a organizar-se em duas categorias: os conventos e as casas filiais. Os conventos representam uma “casa formada” ou “guardianato”. Neles o ofício coral e os demais exercícios da vida religiosa se realizam com regularidade. As casas filiais não são canonicamente eretas e passaram a ser mais comuns em função das exigências do apostolado moderno.58 55 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, setembro de 1954 p. 121. 56 Revista de Santa Cruz, Ano XX, novembro de 1955 p. 180. 57 Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955. p. 33-35. 58 Revista de Santa Cruz, Ano XX, março de 1955. p. 35-37. 47 O sentido apostólico da vida franciscana levou a Ordem a espalhar-se, aprimorando-se internamente, e a assumir uma missão pública, criando províncias responsáveis pela formação dos irmãos, investindo, portanto, no apostolado interno, fundamental para a preparação do apostolado externo: “E convém lembrar que todo apostolado externo da nossa Ordem ou Província depende do apostolado interno e de seu resultado, ou seja, o bem estar geral da Ordem ou Província”. 59 São Francisco iniciou um movimento que nasceu moderno, uma vez que seu tempo lhe impôs uma conduta de enfrentamento das inovações, num período marcado por lutas sociais e políticas constantes. A sociedade feudal mostrava sinais de declínio no alvorecer do século XIII. Na Itália, e em outras regiões da Europa mais expostas ao comércio, surgiam as comunas. Ocupadas por artesãos e comerciantes, apresentavam uma nova dinâmica urbana movimentada por economia monetarizada, ensaiando novas formas de organização políticoadminstrativa e exigindo novas condutas éticas e religiosas (Iriate, 1985:33). A Igreja soube capitanear a força apostólica e de inspiração evangélica do franciscanismo no momento da emergência do novo na sociedade medieval, percebendo sua capacidade de reforçar a doutrina cristã. Promoveu sua dispersão entre pagãos e desgarrados, num momento em que caberia à Igreja de Roma reforçar sua presença para enfrentar o advento de uma sociedade que se tornaria urbana, mercantil e aberta à mentalidade utilitarista e individualista diante do mundo. A figura São Francisco foi ressignificada no momento em que a Igreja teve que lidar com a modernidade já consolidada pelo industrialismo e pelo individualismo, expressões da sociedade capitalista. A doutrina liberal, esteio dessa estrutura dominante em expansão, fez emergir contradições nas relações sociais, na forma de organização do poder político e nas expressões culturais em um nível de complexidade tal, que colocou em risco o valor da religião, provocou uma onda de secularização e o surgimento de teorias doutrinárias voltadas para a compreensão das conseqüências nefastas desse modelo. Estudos voltados para os problemas sociais decorrentes da industrialização e da urbanização fizeram nascer teorias no campo da economia política e das ciências sociais, na tentativa de dar explicações e apresentar alternativas para o mundo que se configurava a partir do século XIX. Nesse viés, observa-se o positivismo proposto por Augusto Comte, o anarquismo, o socialismo utópico e o socialismo 59 Revista de Santa Cruz, Ano XX, junho de 1955. p. 82. 48 científico de Marx e Engels, além de propostas de organização e de luta para a classe trabalhadora, no sentido de que ela se emancipasse dos grilhões impostos pela exploração capitalista. Os caminhos traçados pela sociedade moderna apontavam para o individualismo burguês, para o revolucionarismo e para uma tendência à laicização da sociedade, os quais ameaçavam o poder e o espaço social anteriormente controlados pela Igreja. A hierarquia foi levada, em função das circunstâncias, a esboçar um projeto de recuperação religiosa, a partir da definição de sua doutrina social e de um movimento sistemático de recristianização das instituições sociais. Uma sucessão de documentos papais assinala a posição conservadora da Santa Sé frente às transformações do mundo moderno. Pio IX foi incisivo ao apresentar a Encíclica Quanta Cura e o Syllabus Errorum de 1864, que continham a relação dos 80 principais erros do modernismo60, além da eclesiologia definida pelo Concílio Vaticano I61, que estabeleceu a idéia da Igreja como “sociedade perfeita”, sustentada na autoridade papal. Leão XIII fez a Encíclica Immortale Dei de 1885 e posteriormente o Papa Pio X reforçou a supremacia do poder espiritual ao instituir o princípio católico de “Restaurar tudo em Cristo”, sustentado no Decreto “Lamentabile” de 1907 e na Encíclica Pascendi Dominici Gregis de 1908. Como parte dessa Encíclica destaca-se: “... Contudo há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não nos é lícito calar para não “O termo aparece pela primeira vez numa carta pastoral dos bispos italianos de Turim e Vercelli, de dezembro de 1905. Na sua Encíclica Pascendi (1907), Pio X (1903-14) define globalmente o fenômeno como a síntese de todas as heresias”. (Matos, 1990: HI 88, p. 1.) 60 Henrique Matos distingue historicamente vários modelos de Igreja. A Igreja pós Trento, entre os séculos XVI e XVII, se sustentava na posição de “sociedade perfeita” a partir de uma eclesiologia voltada para a infalibilidade papal, uma imagem fortemente apologética e extrínseca. Após a Revolução Francesa, ela reage contra o liberalismo por meio do fortalecimento da figura do papa e pela defesa da monarquia, porém se resguardando do regalismo. Ganham força os movimentos ultramontanos. Depois do Concílio Vaticano I (186970), prolonga-se a tradição tridentina no “triunfo da verdade fé” contra as forças do mal, insiste numa visão verticalista da Igreja, preservando o dogma da infalibilidade. Em decorrência de uma mudança de mentalidade, devido à experiência da Primeira Grande Guerra, surge um novo posicionamento voltado para uma imagem eclesiástica, pela recuperação das dimensões sobrenaturais e místicas da Igreja, por uma vida comunitária, desenvolvendo-se a eclesiologia do “Corpo Místico”. Não se restringindo mais a tratados teológicos, se expressando na renovação litúrgica e na pastoral, nesse contexto, o povo cristão ganha relevância, delineiam-se os primeiros passos da “Ação Católica”, oficializada no Brasil em 1935. (Matos, 1990. p. 145-152) 61 49 parecer faltarmos ao nosso santíssimo dever, e para que se nos assaque a descuido de nossa obrigação a benignidade de que na esperança de melhores disposições, até agora usamos.”62 No pontificado de Pio XI nas décadas de 20 e 30, reforçando o enfoque cristocêntrico na reimplantação do Reino de Cristo, a Igreja assumiu uma mudança de modelo pastoral antes voltado para uma dimensão espiritual e sacramental da Igreja, para uma perspectiva de atuação apostólica direta do laicato levado à militância, aplicado pelo Movimento de Ação Católica. O termo já havia sido usado por Leão XIII, designando a articulação de leigos católicos; o Papa Pio X percebia a ação católica no sentido da solução da questão social63, tal como foi apresentado na Carta Encíclica aos bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação Católica em 1903. Nesse documento, o pontífice ressalta a necessidade da dilatação do Reino de Deus nos indivíduos, nas famílias e na sociedade através do exercício das virtudes cristãs e através de obras de caridade e de misericórdia espiritual e corporal. Uma falange de católicos atuantes deveria lutar contra a civilização anticristã para restabelecer o princípio da autoridade humana como representante de Deus, seguindo as proposições da Rerum Novarum e buscando a solução da questão social por meio de um movimento social católico voltado para as obras católicas que deveriam destinar-se para a promoção do bem estar social.64 A Ação Católica ganhou impulso e foi institucionalizada por Pio XI na década de 20, momento em que na Bélgica o Padre Joseph Cardijn propunha um apostolado no meio operário através da Juventude Operária Católica baseado numa formação na ação e pela ação (Matos, 1990:197). Os leigos participantes da Ação Católica passaram a receber da hierarquia eclesiástica um mandato, ou mais especificamente, uma missão oficial como colaboradores diretos no trabalho espiritual e pastoral da Igreja. Ao ser instituída, a Ação Católica representava a intervenção especializada da Igreja em várias frentes, numa perspectiva de “restauração católica”, enfrentando a secularização do mundo moderno. Mais uma vez a inspiração franciscana serviu aos propósitos da Igreja pelo restabelecimento de sua influência social, num apelo aos valores espirituais, pela prática 62 Matos,1990: HI 89. p.1 63 Matos,1990. p. 196 64 Documentos Pontifícios Sobre os Fundamentos da Ação Católica. III Edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1959. 50 sacramental e compromisso com a caridade, elegendo São Francisco como o símbolo da Ação Católica. 1.3 A Província de Santa Cruz e a presença dos frades em Divinópolis “Partindo de Maastricht aos 13 de abril de 1900, tomaram em Bordéus o vapor “Brésil”, e fazendo ótima viagem, aportaram no Rio de Janeiro nesta data para nós sagrada: 7 de maio de 1900.”65 A presença dos frades franciscanos no Brasil remonta ao descobrimento e antecede ao trabalho missionário mais conhecido durante a colonização que foi o da missão jesuítica. Na armada de Cabral estavam oito franciscanos e, posteriormente, estiveram presentes em expedições isoladas até se estabelecerem definitivamente a partir de 1585: “... A Ordem Seráfica entrou no Brasil juntamente com os descobridores portugueses. Na armada de Pedro Alvares Cabral, que em 1500 deitou âncora em Porto Seguro, estavam presentes os Frades Menores sob a direção de Frei Henrique de Coimbra. Um deles celebrou a primeira Santa Missa em solo brasileiro e, como Cabral ocupou o país em nome do rei de Portugal, plantou ali Frei Henrique um grande cruzeiro e tomou posse do Brasil em nome de Cristo-Rei.”66 A primeira instalação definitiva da Ordem franciscana aconteceu no ano de 1585 em Olinda, a pedido do donatário Jorge Albuquerque Pereira, pela intermediação do Rei Felipe II, cuja permissão obteve do Ministro Geral Frei Francisco Gonzaga, quem instituiu a Custódia de Santo Antônio do Brasil dependente da Província de mesmo nome sediada em Portugal. Já em 1600, possuía a Custódia, cinco conventos e várias missões no nordeste.67 Em meados do século XVIII, as duas Províncias Franciscanas existentes no Brasil contavam com cerca de 500 religiosos. Houve o fechamento dos noviciados decretado pelo Marquês de Pombal em 1764 e a completa supressão das Ordens por Dom Pedro II em 1855, 65 Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950 p. 75. O autor usa a expressão Cristo Rei já influenciado pela proposta de sua época, pois no período em questão ainda não havia essa concepção e esse fundamento eclesiológico (Staphorst, 1924. p. 17.) 66 67 Revista Elo Seráfico Ano IV, nº 1, maio de 1954 p. 19-20. 51 chegando a reduzir a Província da Imaculada Conceição no Rio de Janeiro a um só frade e a de Santo Antônio a nove frades em 1891(Willeke, 1977:135). Posteriormente foi importante a chegada de franciscanos holandeses, definida a partir de um pedido feito em junho de 1899 à Província Neerlândica dos Mártires Gorgomienses pelo bispo de Manaus Dom José Estevão Lourenço de Aguiar, ao Padre Provincial da Holanda, Frei Estevão van de Burgt. A missão no Amazonas foi assinalada por grandes dificuldades: “Os três valentes missionários vieram cheios de entusiasmo e ardor para ganhar almas a Cristo, mas... o clima, a doença, os travou.”68 O envio de religiosos para o Brasil fazia parte de toda uma reestruturação da Igreja ocorrida em meados do século XIX, momento que houve uma centralização das decisões em Roma, coincidindo com a mudança de direção política associada a sua posterior conduta frente às questões sociais. Frei Bernardino Leers explica esse processo no campo da moral, demonstrando como esse reordenamento influenciou a vinda dos franciscanos holandeses para o Brasil: “Roma sempre foi o centro da Igreja desde Pedro. A partir de então, ela se desenvolve como um centro, mas nunca havia sido elaborada uma forma de poder hegemônico de Roma sobre o resto do mundo. [...] Toda a problemática moral passa posteriormente sobre o poder hegemônico de Roma. [...] A Igreja já cuidava de sua autoridade sobre a fé e os costumes litúrgicos, mudando naquele tempo, 1850, o poder da autoridade eclesiástica, deixando de ser somente a fé. Os costumes litúrgicos como batizar, celebrar missas passam a atingir uma moral total. Significa que qualquer questão moral, ao final, com a institucionalização do Santo Ofício naquele tempo, simplesmente passou a ser decidida em Roma.”69 (Frei Bernardino Leers O .F. M) De acordo com Frei Bernardino, a visão missionária do século XIX estava relacionada com os propósitos da Igreja de se fazer presente no mundo: “Houve necessidade de iniciar missões por parte da Igreja, no final do século XIX e início do século XX, período em que os franciscanos holandeses entraram no Brasil. A organização católica, mais fortemente centralizada, assumiu a idéia de que precisávamos realmente retomar a vocação original de Mateus, de ensinar a todos os povos. [...] Surge uma nova consciência universalizante nas próprias Igrejas locais. Os três valentes mencionados na crônica foram os padres Frei Adalberto Woolderink, Frei Gonzaga Gouverneur e o irmão Frei Oto Vervoot (Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950 p. 74-75). 68 69 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 52 Inicia-se um élan missionário, de converter povos, persuadí-los a participar do Corpo Místico, que é evidentemente um simbolismo. No próprio contexto da colonização da África e da Índia, ocorre uma abertura das Igrejas locais com o intuito de conquistar novos povos, não só para a dominação econômica ou expansão política dos Estados, mas também difunde-se a idéia de que precisava-se apresentar a religião católica a esses povos conquistados. Dentro desse sistema global floresce a questão das missões, dissuadindo a província holandesa, ao final do XIX, de modo a enviar representantes para a China, Índia, Java, Indonésia e Brasil.”70 (Frei Bernardino Leers O .F. M.) Houve uma preocupação em investir em pessoal bem formado; o mundo secularizado e modernizado, de certa forma, exigia uma ação missionária melhor preparada, garantindo o espaço da Igreja frente ao Estado e à sociedade, movida pela idéia de progresso. Essa iniciativa na Holanda foi comentada por Frei Bernardino: “O interessante é que essa idéia vai funcionar também no âmago da Igreja. A Província Holandesa, por exemplo, inicia o envio de representantes para estudar nas universidades, de modo a conquistar dentro do território nacional uma melhor posição, com o intuito de resgatar os grupos que saíram: os intelectuais. É a partir daí que a Holanda, por exemplo, fundou a Universidade Católica. Só no fim de 30 e 40 começa a nascer na Holanda a idéia de que deveria se fazer a mesma coisa nas colônias, mandar gente capacitada em primeiro lugar para a formação de clero. Foi uma tática da Igreja, das ordens religiosas na Holanda, de formar gente que iria trabalhar em seminários. Se eu estou aqui, afinal de contas, é resultado dessa prática. Mas para fundar escolas, eles entenderam que não era suficiente juntar o povo. Fazia-se necessária a penetração por cima, simplesmente colocando o clero, irmãos, religiosos, num nível de intelectualidade no país. A nossa vinda aqui, holandeses, é baseada nisso. Era a expansão holandesa, acrescida de pedidos daqui, uma vez que havia aqui, carência de sacerdotes e a necessidade de preencher o quadro funcional. Não era propriamente uma mentalidade de missionários; a mentalidade holandesa pode ser, mas a partir de uma tendência de criar escolas como foi o caso de São João, depois Pará de Minas, Teófilo Otoni, Nanuque, Divinópolis etc.”71 (Frei Bernardino Leers O .F. M.) Uma leva de frades holandeses partiu em direção ao sudeste atendendo a pedido do bispo de Petrópolis, missão assumida pelos padres Frei Rogério Burgers e Frei Frederico Voorvelt. Foram esses os fundadores do Comissariado que originou a Província de Santa Cruz.72 70 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 71 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 72 Revista de Santa Cruz, Ano XV, abril de 1950, p. 74-75 53 De início, o Comissariado chamou-se “Comissariatus B. M. V. Imaculate Conceptae”, um conselho provincial reunido em São João Del Rei em 1941, adotando o nome oficial Comissariado da Santa Cruz dos Frades Menores no Brasil, com festa titular celebrada no dia 3 de maio na época; hoje acontece no dia 14 de setembro a festa de Exaltação da Santa Cruz.73 O prelado brasileiro solicitava sempre o envio de religiosos devido à falta de padres nas paróquias, fato relacionado em parte à dificuldade enfrentada pela Igreja no Brasil por causa da carência de vocações. Dom Silvério Gomes Pimenta, Bispo de Mariana, foi atendido em 1903, quando da entrega de uma paróquia em Ouro Preto para os frades menores que fundaram a primeira casa de Minas Gerais, estado onde o trabalho franciscano cresceu, como foi abordado por Frei Sabino Staphorst Staphorst: “... A fundação de uma casa no montanhoso e saudável Estado de Minas Gerais, salvou o futuro da nossa missão, a qual, por momentos, esteve na iminência de ser supressa pelas dificuldades e falecimentos”.74 A administração de Dom Antônio dos Santos Cabral à frente da arquidiocese de Belo Horizonte, instituída em 1924, foi totalmente voltada para os propósitos de recristianização definidos pela Igreja. Por seu intermédio, várias ações projetaram Minas Gerais como um pólo da Ação Católica no país: a organização da diocese estabelecendo seu patrimônio e a criação do Seminário Coração Eucarístico, a instalação de um Conselho de Imprensa em 1923 para a fundação de um jornal católico mais atuante como foi “O Diário”, a construção da Catedral e do Palácio do Cristo-Rei, sediando o segundo Congresso Eucarístico Nacional em 1936 e o acompanhamento de perto da vida das paróquias através de visitas pastorais.75 O arcebispo tomou a decisão de colocar a paróquia do Divino Espírito Santo em Divinópolis sob responsabilidade dos frades franciscanos. A predominância de holandeses delineou um perfil peculiar na relação estabelecida entre os religiosos e o povo do lugar. O primeiro vigário franciscano de Divinópolis foi Frei Hilário Verhey, que chegou à cidade em agosto de 1924, já tomando iniciativa no sentido de criar uma infra-estrutura adequada para abrigar a Ordem Seráfica no município: 73 Revista Elo Seráfico Ano IV, nº 1, maio de 1954, p. 55. 74 Staphorst, 1924. p. 27. 75 Matos, Henrique 1990. p. 395-411. 54 “Em julho de 1924 fr. Hilário Verhey é nomeado 1º Superior, em 22 de novembro ocorreu a primeira ereção Canônica da nova residência. [...] Em janeiro de 1925, muda-se para Divinópolis, onde ocupou uma casa provisória. Com a presença do Pe. Comissário, tornou-se Divinópolis centro do Comissariado. A construção de um novo colégio começou em agosto e recebeu a bênção solene em 8 de setembro de 1926. No dia 1 de junho de 1928 benzeu-se a última parte do Colégio.”76 A preocupação com a criação de um seminário seráfico no Brasil resultou na criação da primeira casa de formação em 1922, após visita do M. R. P. Provincial da Holanda Simão Bennenbroek. O Pe. Fr. José de Haas abriu uma escola apostólica em Araçuaí com a intenção de iniciar um noviciado. Esta escola transferiu-se em janeiro de 1924 para uma dependência do ginásio Santo Antônio em São João Del Rei com oito seminaristas. O seminário acabou sendo transferido para Divinópolis no ano seguinte. E, em 1931, mudou-se para o Rio Grande do Sul, instalando-se em Taquari com 23 alunos. O colégio tem uma história marcante apesar de sua curta permanência na cidade. O terreno foi doado pelo poder público local no período em que o Sr. Pedro X. Gontijo era prefeito e ele mesmo negociou a construção de um colégio nos moldes de São João Del Rei. Entretanto, o colégio criado em Divinópolis para formação seráfica não pôde permanecer na cidade por falta de vocações que o preenchessem, o que motivou a decisão dos superiores de transferí-lo para o Rio Grande do Sul, região conhecida pela manifestação mais comum das vocações sacerdotais. Pedro X. Gontijo, em seu livro sobre a História de Divinópolis77, explicou como se deu a instalação dos franciscanos e a questão do colégio: “Em outubro de 1924, a Casa Santo Antônio de Ouro Preto, dos nossos atuais franciscanos, desejando estabelecer-se entre nós, pediu-me terreno para esse fim. Concordei, mas com a condição dos srs. Franciscanos trazerem o seu ginásio de São João Del Rei ou instalarem com urgência um ginásio entre nós. Concordaram e ficaram satisfeitos.[...] Eu mesmo formulei a lei e a entreguei ao Presidente da Câmara para que a fizesse aprovar. E o presidente traiçoeiramente retirou o artigo da obrigação dos Srs. Franciscanos, ficando o terreno de mão beijada”. As dificuldades de manutenção do colégio na cidade devido a problemas em seu funcionamento e à dificuldade de torná-lo eficiente em sua função de atrair jovens aspirantes ao sacerdócio foram comentadas por Frei Helano Van Koppen: 76 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, novembro de 1949 p. 173. 77 Gontijo,1995. p. 47. 55 “O seminário então começou, ainda no casarão, a sua rotina de sempre: oração, aulas, estudo, música, teatro, esportes, piqueniques, entrada e saída de estudantes, e um novo professor, frei Zaqueu Símons. No dia 16 de junho de 1926, com 16 seminaristas, mudaram-se para o novo prédio com sua frente e ala esquerda já prontas. A ala direita ficou pronta em junho de 1928. O seminário já podia trabalhar a todo vapor. A formação espiritual e intelectual era, na concepção geral da época, muito boa. Os próprios confrades das nossas paróquias reconheciam isso. Eles, porém, e diversos pais de seminaristas se queixavam do excesso de rigor e severidade ao lado de falta de carinho e compreensão para com os jovens candidatos que, as vezes, eram despachados com certa facilidade e ainda sem a devida consideração para com os pais e vigários responsáveis.”78 Essa rigidez apontada por Frei Helano foi tratada por Riolando Azzi na abordagem que fez sobre a formação sacerdotal no Brasil, mostrando uma tendência definida no século XIX na fase de romanização, modelo que prevaleceu até os anos 30. Os seminários em regime de internado mantinham uma rígida organização, guardando forte semelhança com a formação militar em prejuízo da individualidade e da criatividade dos internos, mantendo uma tendência de uniformidade destacando-se a ordem e a disciplina. Desde Dom Macedo Costa as vocações eram prioritariamente buscadas na zona rural, dada a pureza dos pretendentes ainda não contaminados pelas idéias avançadas dos centros urbanos. Prevalecia uma rígida ética puritana voltada para a formação de padres santos, comprometidos com o culto divino e com a pregação da doutrina católica; Havia uma rejeição explícita a manifestações de sexualidade e evitava-se nos seminários o uso do vocábulo mulher. A formação eclesiástica guardava um caráter apologético, com uma formação intelectual voltada para o fortalecimento da vocação sacerdotal (1992:72-90). Segundo Frei Helano, foi Frei Simão Bennenbroek o grande estimulador da criação de seminários da Ordem. Já havia fundado o Seminário Francisco Solano na Holanda em 1921, quando em seguida embarcou para o Brasil e como estratégia, apoiou a fundação das Ordens Terceiras com o intuito de ampliar o número de famílias franciscanas sementeiras de vocações. Foram criados os seminários de Araçuaí e São João Del Rei, onde já existia o Ginásio Santo Antônio, o qual teve Frei Paulo Stein como reitor fundador. Após acordo com o arcebispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Frei Paulo Stein e Frei Júlio Berten que eram respectivamente Comissário e Vice-Comissário autorizados pelo Provincial da Holanda e apoiados pelo arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, 78 Van Koppen, 1950. p. 14 -15. 56 transferiram o Seminário para Divinópolis, que acabou sendo depois transferido. Mas passou a sediar a partir de 1931, o Curso de Teologia, que recebeu a primeira turma de clérigos em outubro; os frades que já vinham como sacerdotes ficavam por um período assimilando a língua portuguesa. Em 1939, os superiores criaram um novo noviciado em Taquari e Daltro Filho; a partir de 1942, constituiu-se em Casa do Noviciado e de Filosofia.79 Ao relembrar esse período, Frei Helano, hoje com 94 anos, procura reconstituir sua experiência enquanto membro do primeiro grupo de cinco clérigos frades estudantes que completariam sua formação no Curso de Teologia a partir de 1931, momento em que a Residência foi transformada em Convento, tendo como primeiro Guardião Frei Pacômio. Contou sobre a posição de Dom Cabral e sua presença na ordenação dos novos sacerdotes: “Ele permitiu que nós clérigos já fossemos ordenados padres depois do terceiro ano de teologia, quando era costume fazer isto depois do quarto ano de teologia. Então no dia 29 de outubro de 1933, ele chegou com frei Rufino. Foi uma festa muito bonita, o Santuário de Santo Antônio ainda estava em construção, nós fomos ordenados na matriz do Espírito Santo, cheia de gente. [...] Lembro de minha primeira missa, foi na capela do bairro Esplanada. Fui acompanhado por frei Sabino Staphorst e celebrei minha primeira missa que foi muito bonita.”80 (Frei Helano Van Koppen) Ainda como parte de sua experiência registrada em seu livro, conta sobre a chegada dos estudantes ao Rio de Janeiro em 1931: “Na noite de 18 de outubro, avistamos, ainda de muito longe, a cidade maravilhosa com o Cristo-Redentor do Corcovado, todo iluminado e inaugurado naquele mesmo dia”. A conclusão da viagem, com a chegada e instalação no convento de Divinópolis em 25 de outubro, foi descrita com detalhes, como se os jovens já percebessem as peculiaridades do lugar: “O nosso padre mestre, Frei Eurico Peters nos deu as boas vindas, arranjou uns carregadores para as malas mais pesadas, deixamos Frei Paulo no meio do povo e fomos andando com Frei Eurico, subindo sempre à esquerda em ruas e praças mal iluminadas e sem calçamento; primeiro atravessando em diagonal a praça da estação, depois uma rua, ainda mais uma praça enorme, sem nada de enfeite, de lado umas casas, uma escola, uma casa com placa na parede e letreiro na calçada “Loja 79 Revista Elo Seráfico, Ano I, julho 1951 p. 64-65. 80 Entrevista realizada pela autora com Frei Helano Van Koppen O. F. M no dia 24.05.01. 57 Maçônica”, mais adiante “Lourival Dentista”. Quase em cima, no fim dessa praça enorme, um tempo “Primeira Igreja Batista”. Dobramos para a esquerda mais um vez: a capelinha de Santo Antônio e logo ao seu lado, o nosso convento.”81 Os franciscanos tomaram a frente da administração paroquial e sua presença institucional foi marcante pelo trabalho pastoral e pela instalação do convento, seminário e escola de formação superior. A formação científica dos clérigos foi resultante do próprio processo de institucionalização da Ordem e de seu comprometimento com a Igreja Católica, suprindo sua necessidade de ampliar o número de sacerdotes capazes de assumir a pregação da doutrina. Na verdade, São Francisco de Assis inspirou um movimento de religiosos irmãos sem pretensões de clericalização. Mas aos poucos, houve a necessidade de investir na formação dos frades e o clericalismo foi se tornando uma necessidade. Frei Mateus explica, em um de seus artigos sobre a vida franciscana, a clericalização da Ordem: “O grande promotor dos estudos teológicos e assim da clericalização da Ordem foi o leigo Frei Elias, que tinha todo o apoio do Cardeal Protetor Hugolino, depois Papa Gregório IX, pois a Igreja estava precisando demais de sacerdotes bem formados e de vida exemplar para pregar a doutrina, combatendo os hereges e para administrar os sacramentos; quer dizer que foi principalmente por causa do apostolado externo que a Ordem se tornou clerical.”82 No caso dos frades holandeses, a formação dos candidatos era feita no Brasil e na Holanda. Cumpriam cinco anos no colégio e iam para a Holanda para completar o 6º ano ginasial, onde faziam um ano de noviciado, mais dois ou três anos de filosofia e o primeiro ano de Teologia Fundamental. Lá, faziam sua profissão solene e perpétua de obediência, pobreza e castidade; voltavam ao Brasil e completavam, em Divinópolis, mais três anos de teologia, momento em que eram ordenados sacerdotes. Essa situação era complicada e onerosa e se manteve até 1939, quando toda a formação passou a ser feita apenas no Brasil (Koppen, 1950:22-33). Frei Helano fala sobre os primeiros lentes e conta como era rigorosa a vida de clausura dos clérigos no convento: 81 Van Koppen, 1950. p. 19. 82 Revista de Santa Cruz, Ano XX, agosto e setembro de 1955 p. 128. 58 “... O seminário em Divinópolis transformou-se em verdadeiro convento de estudos teológicos. Nossos primeiros professores foram frei Pacômio Thieman, o guardião, dava moral e direito canônico; frei Eurico Peters, doutor em teologia, o nosso bondoso padre mestre, dava Sagrada Escritura, liturgia e, por algum tempo, português. Frei Lamberto Beckhoven dava dogmática, história eclesiástica e português; nosso colega, frei Ildefonso, era o mestre de canto.” Conforme as normas daquele tempo, os conventos eram de clausura papal, rigorosa, total, de silêncio perpétuo, de minucioso horário para as horas canônicas do ofício divino, a missa, as meditações, bênção do Santíssimo ou via sacra, oração de manhã e da noite, aconteciam as visitas ao Santíssimo depois das refeições, nossas horas de aulas e de estudo, de refeições e de recreio.83 No primeiro jornal da paróquia, “O Santuário de Santo Antônio”, lançado em 1927, uma seqüência de artigos foi publicada com o título, “Os frades do Colégio”. O objetivo era informar a comunidade sobre quem eram os frades do convento e qual a sua importância para a cidade. No primeiro artigo foi feita uma identificação do Colégio: “Quem, em Divinópolis, não conhece aquela casa alta, branca ali na encosta do morro! É o colégio dos franciscanos, o Colégio Seráfico, ou na gíria local, simplesmente O Colégio. Quando consideramos bem, esse nome, de certo tempo a esta parte, já não é mais apropriado. Colégio era, quando aqui moravam os colegiais. Desde 1931, porém, quando eles se mudaram para Taquari e aqui foram substituídos por religiosos moços, não é mais Colégio, mas simplesmente convento.”84 O mesmo artigo explica que, apesar de conhecido na cidade e região, o convento era motivo de curiosidade, pois os moradores da cidade tinham pouco acesso ao seu interior em função de seu funcionamento em regime fechado: “De certo isso, em parte, é devido ao fato de não ser o convento acessível ao público, porque num convento de homens as mulheres não podem entrar, e os homens só entram quando ali têm o que fazer”.85 Os esclarecimentos dados pelo jornal apontam a presença de frades holandeses como uma necessidade, devido à carência de sacerdotes para cumprirem a grande demanda apresentada pelo país e às dificuldades dos bispos em atenderem a tais exigências: 83 Van Koppen, 1950. p. 32. 84 Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 2, junho de 1934 p. 3. 85 Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 2, junho de 1934 p. 3. 59 “Nem pode durar para sempre esta situação de frades estrangeiros virem trabalhar no Brasil, que é um país inteiramente católico. Não! O Brasil se recordará de seu passado glorioso! O mesmo Brasil produzirá, como tempo passado, bastante vocações religiosas e sacerdotais. O Brasil há de ajudar-se a si mesmo. E eis mais um fim de nossa fundação aqui em Divinópolis. Estamos esperando vocações brasileiras, nacionais para a nossa Ordem.”86 As vocações sacerdotais, cada vez mais raras na época, aliadas à nova relação de dependência das Igrejas Nacionais ao Vaticano, levaram a um processo de desnacionalização do clero. Dados apontam para 70% de estrangeiros entre seculares e religiosos em 1946 (Lima, 1979:19). Através dos artigos do jornal, a população foi informada também sobre o funcionamento do convento, sua hierarquia e as funções cumpridas por cada um de seus membros: “Os moradores do convento podem dividir-se em três classes. Há, primeiro os irmãos leigos, que rezando e trabalhando santificam-se. Fazem trabalhos manuais seja na porta, na igreja, na cozinha ou no quintal. [...] Depois há os frades coristas ou estudantes. Eles rezando e estudando se preparam para o sacerdócio, para serem sacerdotes e depois trabalharem na cura das almas. [...] No terceiro lugar há os padres: padre Superior ou Guardião, que dirige todo o convento; o seu lugar-tenente ou seja, o vigário do convento; os padres professores, o padre mestre, que dirige os frades estudantes. [...] Outros padres trabalham mais especialmente na cura das almas e são o vigário da freguesia e o seu coadjutor.”87 O fundador e diretor do Convento de Santo Antônio, em Divinópolis, foi Pe. Frei Paulo Stein, como Comissário dos Franciscanos do Comissariado da Santa Cruz. Ao instalarse em Divinópolis, o Convento de Santo Antônio tornou-se o centro da vida franciscana. Em 16 de novembro de 1949, o Comissariado da Santa Cruz do Brasil foi elevado à categoria de Província independente. Foi nomeado como Ministro Provincial o Revdo. Pe. Frei Serafim Lunter que, em 1950, instalou-se em Divinópolis como Provincial.88 86 Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 7, novembro de 1934 p. 2. 87 Jornal Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 7, novembro de 1934 p. 2. Revista de Santa Cruz, Ano XIV Dezembro de 1950 p. XVIII (A) e XVIII (B) – Fascículo com Artigos Publicados no boletim mensal “Santuário de Santo Antônio – ano XXIII, 1950”. 88 60 A transformação do Comissariado em Província foi discutida num Congresso realizado em Belo Horizonte no ano de 1949, momento de comemoração do cinqüentenário de criação do Comissariado. O Pe. Provincial fez ponderações sobre o desmembramento: “Considero a separação como uma verdadeira perda para a Província holandesa. A grande Província dos SS. Mártires de Gorcum que se estende sobre quase todos os povos e línguas perderá com isso uma grande parte de sua extensão. [...] Considero porém a separação como uma perda também por outros motivos. Até agora o Brasil era uma ótima saída para aqueles padres na Holanda que queriam ser missionários sim, mas que no estando, não eram aptos para a Nova Guiné, a China, Java ou Paquistão, ou não sentiam interesses por esses povos. No Brasil há uma cultura européia e a população é católica e isso atrai a muitos, mais que a missão entre pagãos, gente com uma cultura complemente diferente e nula. Também economicamente é para a Província holandesa muito mais fácil mandar padres para o Brasil do que para a Nova Guiné ou a China. Portanto, a separação significa para a Província na Holanda uma verdadeira perda.”89 O ambiente acadêmico criado no convento, por constituir-se na sede do Curso de Teologia e contar com corpo docente de expressão, estimulou a realização de atividades de aprimoramento, como foram os Congressos de Padres Lentes e Mestres, os círculos de estudos, a criação da Academia “Sedes Sapientiae” e de um Museu que caracterizasse aspectos naturais e históricos do Brasil. Em outubro de 1931, chegaram da Holanda os primeiros clérigos e, em 1939, os últimos seis teólogos. Ao todo teriam vindo 51, dos quais seis eram brasileiros, dentre eles Frei Turíbio e Frei Orlando. Desde 1942, todos os teólogos eram brasileiros. Os primeiros lentes foram Frei Pacômio Thieman lecionando Moral e Direito, Dogma com Frei Lamberto90; Frei Odulfo foi lente de Dogma e de História Eclesiástica. Outras disciplinas tiveram vários professores como foi o caso de Português, Eloqüência Sacra e Pastoral. As aulas de hebraico começaram em 1943 e as de canto foram assumidas por Ildefonso, Respício, Emílio, Jerônimo.91 Num artigo, Frei Alberto Froehlich conta a história da criação e do crescimento da Academia. Segundo ele, em abril de 1932 teria ocorrido uma primeira conferência promovida 89 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949 p. 86-87. Frei Lamberto van Beckhovem foi preso pelos alemães e acabou morrendo num campo de concentração (Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949, p. 175). 90 91 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, 1949, p. 175. 61 pelos clérigos, momento em que Frei Helano expôs através do púlpito sobre o livro “Escavações no Oriente”, do professor Noordzy, e uma segunda conferência, proferida por Frei Ildefonso, no mês seguinte, sobre o livro “Die Lebenswerte des Alten Testaments” do professor L. Dürr. O aprofundamento de temas científicos através de conferências gerou a necessidade de fundação da Academia, o que ocorreu no dia 6 de novembro de 1932: “Frei Odulfo, sendo padre mestre dos clérigos, ao entrar na sala de recreio destes, anunciou-lhes que a Academia estava fundada. Tomou ele como secretário ao frei Ildefonso, ficando ele mesmo como presidente. Tudo isto se deu não por eleição, mas por nomeação. Foi um certo golpe de estado e o fim de um período.”92 O grupo escolheu São Boaventura como padroeiro da Academia e segundo frei Alberto, seu florescimento aconteceu entre 1932 e 1936, devido à execução de um conjunto de atividades. Dentre os conferencistas do primeiro ano acadêmico, Frei Heleno foi o único que apresentou o tema “A Questão Social no Brasil”, expondo em português sobre o assunto. Além das conferências, promoviam também sessões festivas com a participação de Frei Ildefonso no piano e dos freis Erardo e Gilberto tocando violinos. No ano de 1936, as atividades da Academia voltaram-se para círculos de estudos, momento em que os clérigos discutiam seus trabalhos científicos e quando também eram convidados conferencistas de fora, como o foi na apresentação do tema “Ação Católica no Brasil e a Cruzada da Boa Imprensa”. No mesmo ano, haviam dois círculos em funcionamento, um dirigido por Frei Sabino Staphorst com estudos sobre Americanismo e outro, analisando a Ação Católica, sob responsabilidade de Frei Odulfo.93 Frei Vilibrordo van de Kleine, em artigo na revista Elo Seráfico, comenta sobre a importância dos círculos para os clérigos: “É nos círculos que aprendemos e somos estimulados ao trabalho pessoal. É aí que temos uma ocasião ótima pois se realiza em grupos pequenos para por em prática o que foi, antes de tudo, a finalidade da filosofia, a saber, aprender a julgar.”94 92 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, dezembro de 1949 p. 188. 93 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, dezembro de 1949 p. 188-189. 94 Revista Elo Seráfico, Ano 4, maio de 1954 p. 127. 62 O Círculo de Estudos, “Nós e os Protestantes”, caracteriza bem o sentido prático da atuação dos círculos. Dirigido por Frei Eurico, lente de Exegese, procuravam conhecer aspectos do protestantismo, objetivando preservar os católicos de sua influência. Os estudos e discussões estiveram amparados na produção teórica do Monsenhor Agnelo Rossi, maior autoridade no assunto no país através de seus artigos publicados na Revista Eclesiástica Brasileira e no livro Diretório Protestante no Brasil.95 No final de 1948, a Academia passou por um revigoramento e foi reinstalada em março de 1949, quando recebeu seu nome oficial, tendo como moderador Frei Ildefonso e Pe. Fr. Aloísio Lorscheider e Pe. Fr. Isidro Botega como membros honorários. A partir desse momento, uma intensa programação de conferências assinalou os trabalhos da Academia, abordando temas variados como: boa imprensa, idéias gerais sobre arte, relação entre Igreja e Estado no Brasil, história da Província de Santa Cruz, dados sobre a Maçonaria, a questão social e Leão XIII, Santo Tomas de Aquino dentre outros temas que estimularam a disposição acadêmica dos coristas.96 A Academia gerou a necessidade de uma publicação periódica dos trabalhos e isso se deu com a criação da revista Elo Seráfico destinada a ensaios literários, historiográficos e científicos dos clérigos da Província de Santa Cruz. Os clérigos foram estimulados a investir na revista após correspondência enviada de Roma por Frei Aloísio, alertando sobre a importância de uma publicação do clericato que seria a expansão natural dos trabalhos da Academia. Os estudantes de Divinópolis e Daltro Filho assim a justificavam: “Não nos bastavam as academias, queríamos mais; sentíamos falta de uma revista. Possuir a “nossa” revista era um ideal há muito acalentado por todo o clericato. Impelia-nos não o desejo de aparecer em público ou de mostrar o que sabemos. Não! Mas, era a necessidade de o clérigo estudante se tornar ativo, de produzir e assim, aos poucos, sair do estágio da pura passividade e se habilitar para os afazeres do seu futuro ministério.”97 A revista cumpria a finalidade interna de estimular a produção dos coristas, colocando-os em contato através das publicações, daí o nome de “Elo Seráfico”, após intensa 95 Revista Elo Seráfico, Ano 4, maio de 1954, p. 85-87. 96 Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 24-27. 97 Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 19. 63 discussão entre os nomes: Vicitas Dei, Duc in altum, Ad unitatem, Sursumactio, Miscelanea Saráfica. Começou a ser editada em 1951 e tinha como redator Frei Eugênio Schmidt e datilógrafos Frei Ludovico Frohlich e Frei Ladislau de Souza Amado.98 No processo de inserção dos religiosos estrangeiros no novo ambiente cultural, havia um esforço dos mesmos em assimilarem a língua e os costumes do lugar, numa tentativa de apreensão de suas característica. A assimilação da cultura acontecia pelo contato dos religiosos no período de sua formação, que ocorria no Brasil e na Holanda, com a ordenação concluída no Brasil; pela integração dos coristas à realidade da movimentação paroquial através do acompanhamento das associações religiosas, das atividades do movimento de Ação Católica e Círculo Operário e pelos temas desenvolvidos nas conferências dos círculos de estudos tais como: o círculo de estudos mineiros99, e análises sobre o integralismo, os fanáticos de canudos e outros assuntos relacionados à realidade do país. As dificuldades de adaptação à nova cultura eram um desafio para os clérigos, professores e estudantes, vigários e assistentes eclesiásticos. Todos tinham de criar mecanismos próprios de assimilação. Essa situação era ainda dificultada pela tendência ainda incipiente de uma ação da Igreja para fora, relacionando-se mais proximamente com os leigos, com a comunidade, como comentou Frei Bernardino: “Os primeiros franciscanos foram “jogados” aqui. Não tinham preparação nem uma introdução à vida, à cultura, à história brasileira. O aprendizado acontecia a partir de uma iniciativa particular. Eu também participei desse processo; ao chegar aqui tinhamos que nos arrumar. A visão do clero, naquele tempo, também na Holanda, era tipicamente concentrada nas igrejas e nas atividades de culto.”100 (Frei Bernardino Leers) A abordagem de Simmel sobre a situação do estrangeiro traz uma contribuição interessante sobre o olhar daquele que é de outro lugar. No caso em questão eram clérigos que como professores, estudantes ou párocos, acabavam integrando-se ao novo ambiente físico e cultural, cumprindo um papel institucional. Simmel mostra a condição de proximidade e 98 Revista Elo Seráfico, Ano I, nº 1 p. 19. Este círculo tinha a finalidade de colocar os estudantes em contato com aspectos da cultura regional. Nele foram estudadas obras como: Voz de Minas de Alceu Amoroso Lima e Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. (Revista Elo Seráfico Ano 4, maio de 1954 p. 128). 99 100 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 64 distância que constitui a posição do estrangeiro, entrando em contato com todos os elementos do grupo sem estar organicamente ligado a qualquer um deles por laços de parentesco ou outros. Por não estar sujeito a tendências peculiares do grupo, tem uma relação mais objetiva com o mesmo, sem no entanto, representar uma conduta de passividade ou de afastamento, mas sim, um tipo positivo de participação. (Simmel, 1983:184) Foi procurando aprofundar conhecimentos sobre as características naturais e culturais do Brasil que os coristas de Divinópolis envolveram-se com a criação de um Museu. As dificuldades para sua organização foram muitas: “Os coristas de Divinópolis já desde muito tempo, vem trabalhando para a formação de um museu, no qual deve figurar tudo aquilo que se possa ter como caracteristicamente brasileiro. No entanto, ainda estamos no começo, ou melhor, já começamos há muito tempo, mas quase nada conseguimos arranjar até hoje: uma coleção de borboletas, besouros, insetos, algumas cobrinhas, pedras mais ou menos ordinárias, moedas antigas, flecha e arco de índios, diversas espécies de ninhos de pássaros, um bico de tucano e por fim, uma imagenzinha de Santo Onofre ... etc, etc, eis aí o nosso museu atual.”101 Em Divinópolis formaram-se, de 1931 a 1942, cinqüenta sacerdotes, dentre os quais seis eram brasileiros. Em função da falta de alunos, no final de 1942, os padres lentes foram para Daltro Filho, município de Garibaldi no Rio Grande do Sul, retornando no início de 1944 para oferecer o segundo ano de teologia e de filosofia.102 Numa exposição do M. R. P. Visitador sobre a situação da Província em 1964, as observações feitas sobre os clericatos mostraram que havia uma preocupação acerca da passagem dos estudantes de Daltro Filho, colônia de hábitos mais simples, para Divinópolis, cidade já bastante movimentada, motivo da desistência que já se manifestava entre estudantes e professores: “O clericato que chega à Divinópolis, vem do ambiente pacato e fechado de Daltro Filho, onde passou os três primeiros anos de sua vida religiosa. O ambiente de Daltro Filho por sua vida calma, metódica e dirigida, não suscita em geral no clérigo o dilema da perseverança na vocação. Quando chega em Divinópolis, parece que entra em outro mundo, cheio de mil novidades e possibilidades. Aí o clérigo 101 Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 7, dezembro de 1936 p. 100. 102 Revista Elo Seráfico Ano I, julho de 1951 p. 65. 65 redescobre e deve enfrentar seu problema de perseverança e resolvê-lo dentro de um ano, até a profissão solene. Este é o problema de Divinópolis.”103 As atividades do Curso de Teologia de Divinópolis foram encerradas em 1968 e podem ser considerados um conjunto de fatores que acabaram por contribuir para isso. Frei Bernardino Leers comenta sobre o esvaziamento das escolas de formação e da necessidade de agrupamento das instituições de religiosos e de seculares para a continuidade da formação de pessoal: “Nós tínhamos aqui uma turma completa de gente formada em teologia, frei Bruno era formado em sociologia. Aconteceu o seguinte, na década de 60 começou a grande saída, não só aqui, mas em todos os seminários e entre o clero. Saíram uma porção de clérigos, formou-se a Província do Sul, vários professores saíram, e nós ficamos com um grupo pequeno e poucos professores formados. Belo Horizonte tinha o mesmo problema, outras dioceses onde tinha formação, congregações também com o mesmo problema, saindo professores, saindo estudantes. Então a Província se juntou com o clero diocesano de Belo Horizonte e mais outras congregações e formaram o Instituto de Filosofia e Teologia que depois foi absorvido pela PUC.”104 (Frei Bernardino Leers) O M. R. P. Provincial Visitador explicou o encerramento do Curso de Teologia em relatório feito em 1968, publicado na Revista de Santa Cruz, afirmando que foi:“Em conseqüência da separação do Sul, ficou a Província de uma vez com o seu corpo de professores de Filosofia bastante desfalcado. Daí que os nosso clérigos filósofos por ora estão seguindo o curso da Filosofia no Instituto Central de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte”.105 O Curso de Teologia e toda a movimentação intelectual gerada em torno dele acabou sendo um estímulo para a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1965. Os primeiros passos dados por Frei Hilário Verhey lançaram as bases da presença franciscana na região. Por seu intermédio, foi iniciada a construção da nova igreja, o Santuário de Santo Antônio, sem dúvida um marco arquitetônico da cidade. A edificação do Santuário mobilizou a comunidade e envolveu uma sucessão de vigários: 103 Revista de Santa Cruz, Ano XXIX, nº 11, 1964, p. 276-277. 104 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 66 “Frei Hilário resolveu construir nova igreja. Começou a construção em 1926, primeiro da Sacristia que por vários anos foi usada como capela, onde se faziam os batizados e os casamentos. Em 1930 lançaram-se os fundamentos do futuro santuário. O segundo vigário, frei Braz Berten (1931-1939), construiu o corpo da igreja, depois a torre que ficou pronta em 1936. O sino, fundido nas oficinas da Rede, foi presente do governador Benedito Valadares. Frei Rodrigo terminou a parte exterior com a construção das capelas laterais. Frei Gilberto, terceiro vigário em 1939, pôs o forro e os ladrilhos. Em 1938 foi colocado o altar-mor de mármore. O 4º vigário 1940 frei Rodrigo, 1942 o 5º frei Metelo, o 6º frei Carlos (1945) construiu em 1947 a bela escadaria e mandou pintar a igreja por dentro pelo bem conhecido pintor frei Humberto Randag.”106 O Santuário se impôs pela posição e estrutura arquitetônica. Ponto de convergência da vida religiosa, estabeleceu um novo tempo de influência da Igreja Católica no funcionamento da cidade. A primeira planta projetada para a construção do Santuário propunha uma edificação suntuosa, composta de duas torres e naves laterais. As condições da cidade operária, na época com cerca de 12 mil habitantes, não correspondiam à dimensão da proposta ou às condições de apoio da própria Província. O arquiteto holandês G. J. Simonis foi informado sobre as condições climáticas do lugar, sua paisagem e seu ambiente topográfico para que confeccionasse uma nova planta mais singela e adequada às características da cidade e aos propósitos dos franciscanos. O resultado foi uma construção em estilo “moderno cubista”, com um interior abarcando uma mistura de tendências que, no seu conjunto, formam uma estrutura arquitetônica peculiar como expressão do conteúdo característico da cidade.107 Num artigo especial da Revista de Santa Cruz, dedicado ao arcebispo metropolitano da capital mineira, a história e o estilo do Santuário de Santo Antônio foram descritos: “Uma suntuosidade de afrescos cobre as paredes duma Casa de Deus francamente rudimentar na sua simplicidade arquitetônica, construção evidentemente livre das mínimas pretensões artísticas, ornamentada na massa quadrada de sua torre frontal e nos lados nus de sua única nave, por apenas uma série de janelas ou aberturas murais, que seja por sua própria forma, seja na ordem de sua seqüência evocam a forma daquela letra “Tau” do antigo alfabeto grego, a que no latim equivale ao T 105 Revista de Santa Cruz, Ano XXXIII, nº 1, 1968. 106 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, novembro de 1949. p. 173. 107 Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. V. 67 maiúsculo, com a parte horizontal mais maciça do que o pé, antes cumprido, e que corresponde à forma originária da Santa Cruz.” 108 A diversidade de estilos, unidos, acabaram por agregar uma forma própria à construção, que assim foi analisada no artigo: “Poder-se-ia julgar que tais aglomerações estilísticas, num só lugar, como o simbolismo das janelas laterais, o mourisco das aberturas no teto e o gótico no interior do templo, apresentam um fator antiartístico. Quanto a nós repetimos que se trata duma construção sem ambições artísticas...”109 Em outro artigo publicado sobre a benção do Santuário de Santo Antônio em 1934, o significado da edificação foi comentado: “Conseguiu perfeitamente o arquiteto o que sem dúvida procurou tornar possível, aliar nas linhas o aspecto de severidade religiosa e harmonia suave ao preceito que impunha a construção, de economia razoável. Mais uma vez neste desenho moderno se verifica ao vivo que a ausência de ornamentos não impede que as linhas mais simples ainda formem um conjunto verdadeiramente artístico”110 A inauguração do Santuário aconteceu nos dias 18 e 19 de agosto de 1934, embora a obra se encontrasse inacabada: “Aí se eleva o grandioso templo de enormes dimensões que o zelo de dois vigários consecutivos e a generosidade do povo construíram dentro de poucos anos de esforços gigantescos.”111 Os murais em seu interior foram pintados pelo artista Frei Humberto Randag, trazido da Holanda por intermédio do vigário Frei Carlos Schep. Permaneceu em Divinópolis de julho a dezembro de 1949 e imprimiu, segundo alguns analistas, numa versão surrealista moderada, uma leitura da história sagrada.112 108 Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. IV e V. 109 Revista de Santa Cruz, Ano XV, dezembro de 1950. p. V. 110 Jornal O Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 5, setembro de 1934. p. 3. 111 Jornal O Santuário de Santo Antônio, Ano 8, nº 5, setembro de 1934. p. 3. Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 65. 112 68 No terreno cedido pelo poder público local, foi nascendo um conjunto de edificações usadas pelos frades como ambiente de uso privado e foram preparados também espaços de uso coletivo onde aconteciam o trabalho pastoral e as atividades culturais e políticas. A Casa de Santo Antônio foi um exemplo de espaço usado para interação com a comunidade. Começou a ser construída em 1938, sendo usada para apresentações artísticas, reuniões das associações religiosas e do Círculo Operário; foi reformada para abrigar o CineTeatro, inaugurado em 1946. Através da influência dos frades, em 1934, foi reaberta a Santa Casa por Frei Brás, entregue às Irmãs de Nossa Senhora do Sagrado Coração que assumiram também a Escola Normal: “... A chegada (26.01.1937) de quatro Irmãs Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus: a superiora Madre Maria Leone e as Irmãs Bonifácia, Maria Pia e Gemma e, pouco depois, Irmã Sabina. A Irmã Bonifácia toma conta da Santa Casa, com grande benefício corporal e espiritual para os doentes. Tudo agora limpinho e asseado; tem agora um médico e um operador. Também para a Escola Normal a vida das religiosas foi uma bênção. Foram exonerados os antigos diretores, em grande parte ateus, comunistas e maçons, que exerciam influência funesta sobre as educandas. A biblioteca foi expurgada de muitas obras imorais e anti-religiosas. O ensino melhorou, não só sob o aspecto religioso-moral, mas também científico.”113 A biblioteca começou com uma estante de livros, construída pelo irmão leigo Frei Matias e depois de 1930, o convento recebeu muitos livros de São João Del Rei, Cascadura, de Ouro Preto, da Holanda, além de doações de Frei Odulfo e de Frei Serafim.114 Os franciscanos envolveram-se totalmente na vida da cidade. Atuaram nos processos políticos, em momentos de decisão eleitoral, em condutas administrativas do poder público e no posicionamento frente a ideologias e programas contrários aos defendidos pelos católicos. Investiram na organização do movimento operário cristão em Divinópolis através da criação do Círculo Operário e da institucionalização da Juventude Operária Católica, direcionando seu trabalho para os ferroviários. Nessa linha de comprometimento com a questão operária, procuraram trabalhar sustentados no corporativismo católico e, ao mesmo Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 60. 113 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 176. 114 69 tempo, numa perspectiva caritativa, desenvolveram junto às famílias dos trabalhadores uma ação social protagonizada pelas mulheres ligadas às entidades católicas. No campo cultural, marcaram sua presença incisivamente através de seu apostolado, atuando também no campo do entretenimento, como foi o caso do investimento no cinema e do estímulo às vocações artísticas pelo apoio dado ao teatro e à música. Na Casa de Santo Antônio eram apresentadas peças do Grupo Teatral Mariano e também recitais de piano e violino. Foi por iniciativa de Frei Metelo Greeve, em meados da década de 40, que ocorreu a reorganização da velha banda de música Lira de Santo Antônio em Banda Antônio Olímpio de Morais.115 A União Musical Antônio Olímpio abrangia na sua concepção a Banda de Música Antônio Olímpio, a Orquestra Sinfônica Carlos Gomes e uma Escola de Música, tendo como estímulo a idéia: “Para abrilhantar as nossas festas, para incentivar o estudo da música, para aperfeiçoar o gosto musical e para elevar sempre mais a cultura desta terra.”116 A Casa de Santo Antônio foi adaptada em 1954, por iniciativa de Frei Isidro Botega, para abrigar um grupo escolar com capacidade para atender 800 crianças.117 A imprensa foi um instrumento poderoso para a penetração da ideologia católica na alma da cidade. A publicação de jornais foi iniciada pouco depois da instalação dos frades, começando com Frei Hilário Verheij, ao fundar, em 1927, o jornalzinho “O Santuário de Santo Antônio”, para angariar recursos em prol da construção do Santuário. Essa publicação transformou-se em jornal em 1929 e em revista em 1937.118 Depois Frei Brás Berten criou “O Sino de Divinópolis”; o amadurecimento da imprensa católica com a publicação ampliada do jornal “A Semana” em 1946. Os franciscanos assumiram a paróquia do Divino Espírito Santo até seu desmembramento em 1945, quando foi criada a paróquia de Santo Antônio sob Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 63. 115 116 Jornal Interno A Semana – de 10 à 17 de outubro de 1943. 117 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954. p. 57. Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 60. 118 70 responsabilidade dos frades e a do Divino Espírito Santo, entregue ao Pe. Hilton Gonçalves de Sousa por Dom Cabral em 1947.119 As atividades paroquiais desenvolvidas pelos frades se estendiam para cidades vizinhas, envolvendo também a zona rural. Frei Brás, vigário entre 1931 e 1939 relata essa movimentação: “... Desde julho de 1934 tomamos conta também de Santo Antônio do Monte, desde fevereiro desta anos de 1936 de São Gonçalo e, por algum tempo de Cajurú e de Campos. Mas os padres professores do convento têm nos ajudado no trabalho.”120 O relatório de 1937, feito pelo cronista Frei Sabino Staphorst, mostra a movimentação da paróquia e da cidade: “... A freguesia de Divinópolis tem 18000 habitantes, houve 83. 361 comunhões, 558 batizados, 117 casamentos, 68 E. Unções e cerca de 100 primeiras comunhões; a situação religiodo-moral está em visível progresso, mas é prejudicada pelo espiritismo que neste ano inaugurou um novo “templo”. Há muito movimento das associações religiosas, o catecismo está animadíssimo nas igrejas e no grupo escolar (900 crianças). Santo Antônio é o santo mais popular. Os integralistas fundaram um núcleo, fizeram bastante propaganda, chegaram a ter 60 “camisas verdes”, mas a constituição de Getúlio Vargas acabou com o movimento.”121 Dentre as atividades paroquiais, a Semana Santa era o evento religioso que mais envolvia a comunidade, contando com as associações religiosas nos preparativos. Era um momento propício para pregações. Em 1941, realizou-se uma Semana Santa celebrada com todo o esplendor: “Linda realmente tocante foi a grandiosa Páscoa dos homens do Domingo de Ramos. Foi uma vista consoladora verem-se fundidos em uma só massa, brancos e preto, ricos e pobres, industriais e operários, doutores e advogados, velhos e moços, Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 63-64. 119 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 60. 120 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 61. 121 71 todos unidos em uma mesma fé com grande devoção na mesa para receberem em seus corações o Salvador!”122 A pregação de Frei Orlando demonstra a utilização do clima religioso-festivo para o reforço da doutrina: “... O incansável orador pregou um tríduo de conferências sobre “Espiritismo, Protestantismo e a Igreja Católica”, que foram muitíssimo freqüentadas. O santuário não cabia o povo, embora o tempo fosse chuvoso. O fruto foi maravilhoso, diversos voltaram do Espiritismo para a Igreja Católica, fazendo uma boa confissão.”123 As procissões atraíram uma multidão de fiéis; a descrição feita na crônica mostra o sentido de sua plasticidade e seu apelo devocional: “A procissão foi formada de quatro alas, as duas de fora os homens, as duas de dentro as senhoras. Domingo da Ressurreição houve procissão do Santíssimo da Matriz para o Santuário. O Santíssimo foi levado pelo Revmo. Padre Frei Paulo e o pálio carregado por pessoas de destaque na sociedade divinopolitana.”124 À medida que o trabalho paroquial foi crescendo, surgiram novas paróquias. Da paróquia do Divino foi desmembrada primeiro a de Santo Antônio dos Campos, que em 1936 recebeu seu primeiro vigário. Depois foi criada a paróquia de Santo Antônio que ficou com os franciscanos, recebendo a paróquia do Divino em 1947 como vigário, o Pe. Hilton. Posteriormente foram criadas a de Nossa Senhora da Guia em 1959, a de São Cristóvão em 1972, a de São José em 1972. A instalação do bispado teve como articulador o Pe. Hilton Gonçalves e se efetivou em 14 de agosto de 1958, tendo Dom Cristiano como primeiro bispo.125 O trabalho pastoral na Vila Operária foi assumido inicialmente por frei Lamberto e posteriormente teve atuação mais direta entre os operários da oficina, grupos de JOC coordenados por Frei Bruno Goetterms. Esse trabalho foi muito prtodutivo, chegando Frei 122 Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30. 123 Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30. 124 Revista de Santa Cruz, Ano VII, fevereiro de 1942. p. 30. 125 Corgozinho, 1999. p. 159. 72 Bruno a levar os membros da JOC a participar de um congresso mundial em Roma por volta de 1960, 61.126 E no início da década de 60, já havia um trabalho de preparação de líderes sindicais que foi interrompido pela Ditadura Militar, como comentou Frei Bernardino: “Nos anos 60 já fizemos as reuniões com todos os líderes de sindicatos aqui e foi até 1964. Tinha sindicatos dos tecelões, da construção civil, comerciários, metalúrgicos, nós nos reuníamos todos os domingos, até acontecer o golpe de 1964.”127 (Frei Bernardino Leers) Numa crônica de 1954, Frei Aloísio Lorscheider fala sobre o crescimento da cidade e da necessidade de ampliação do trabalho religioso: “Este aumento demográfico trouxe naturalmente os seus problemas para a vida religiosa. Impõe-se a construção de novas igrejas, escolas, desenvolvimento da instrução catequética, criação de novas paróquias, etc. Atualmente estão em construção a igreja de Nossa Senhora da Guia na Vila Belo Horizonte, sob direção de frei Emíliano, a igreja de São José no alto Catalão, sob os cuidados do Revmo. Pe. Guardião, frei Oto, o Santuário do Senhor Bom Jesus no Niterói, a igreja de São Sebastião no Córrego do Bairro. Todas essas igrejas têm ou terão dimensões quase iguais às do Santuário de Santo Antônio, a de Nossa Senhora da Guia e a de São José até maiores.”128 Dom Aloísio, atualmente arcebispo de Aparecida em São Paulo, em entrevista, recordou de sua atuação junto a Frei Bernardino na década de 50, num trabalho envolvendo profissionais liberais e operários da cidade: “Nós quando entramos, aos poucos começamos eu, Frei Mateus, Frei Bernardino e Frei Bruno a ter contato com uma certa elite de Divinópolis, realizando encontros com médicos, advogados. As reuniões eram muito boas, tanto na cidade, como no próprio convento. O relacionamento era muito bom, os profissionais faziam palestras de acordo com sua formação medicina, advocacia, etc; e nós fazíamos a parte mais social e teológica. Foram encontros bastante interessantes, e havia também todo esse trabalho com os operários, porque naquela época havia muita influência ainda comunista, mas os frades sempre trabalharam muito com os operários, sobretudo com os da Rede Mineira, que tinha naquela época uns mil e quinhentos operários e funcionava a pleno vapor. Eles sempre tinham contato 126 Pereira e Torta, 2000. p. 92. 127 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Leers no dia 22.07.02. 128 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março, 1954, p. 54-55. 73 conosco também porque eram vicentinos e membros da Liga Católica.”129 (Dom Aloísio Lorscheider) No meio rural, foi inovador o trabalho educativo desenvolvido pelo CODAR – Conselho Divinopolitano de Assistência Rural, envolvendo também prefeitura, ACAR, centro de saúde, num atendimento amplo voltado para a qualidade de vida dos trabalhadores rurais.130 As atividades desenvolvidas junto aos trabalhadores rurais já apontavam uma nova visão da Igreja sobre os problemas sociais e as questões relativas ao campo que ganharam relevância nas décadas de 50 e 60. Frei Bernardino, numa crônica da Santa Cruz, mostra como o trabalho foi iniciado: “A história começou em cima de um caminhão que, cercado duma nuvem de poeira, pulava mansamente pela estrada que vai de Paiol, três casas e umas vacas, para Divinópolis. Cidade. Sentados em sacos de milho, estavam lá três homens, o médico do centro de saúde, seu assistente e o padre. Chegaram à mesma conclusão: “vamos continuar assim, tá bom este serviço”. Este serviço foi, o padre celebrou a santa missa com o povo, o médico atendeu aos doentes, o enfermeiro distribuiu vermífugos e bons conselhos e a inspetora municipal de ensino, que tinha arranjado um lugar na cabina, ajudou a professora rural e seus alunos.”131 As ações políticas aconteceram no decorrer da presença franciscana, por meio de partidos ou através da Liga Eleitoral Católica. Acabaram influenciando a organização das forças políticas locais. O convento e os frades também foram afetados pelas mudanças da década de 50 e pela ditadura instaurada em 1964; nessa mudança de rota, transformaram-se em ponto de referência de discussões de grupos de resistência ao regime militar e envolveram-se na organização das Comunidades Eclesiais de Base que represetavam uma nova versão de pastoral gestada nesse processo. 129 Entrevista realizada pela autora com Dom Aloísio Lorscheider no dia 30.07.02. 130 Corgozinho, 1999. p. 156. 131 Revista de Santa Cruz, Ano XXX, nº 1, 1965, p. 72. C A P Í T U L O II O Movimento Operário Cristão no cotidiano da cidade de Divinópolis A cidade de Divinópolis nasceu como um núcleo operário no centro-oeste mineiro, principalmente em função da instalação da Oficina da EFOM a partir de 1910. Desde então, foi ganhando a forma de cidade industrial, exercendo grande influência na região. Neste texto, o caráter operário da cidade será demonstrado em seu conteúdo contraditório pelo embate político ideológico colocado pela Igreja Católica em seu ímpeto de combater a ação comunista, demonstrando sua defesa do corporativismo e sua colaboração com o Estado, principalmente na década de 40. Na análise sobre o funcionamento do Círculo Operário em Divinópolis, buscou-se valorizar seu funcionamento e sua influência no cotidiano da vida operária. O centro da narrativa está focado na iniciativa dos franciscanos de criarem o Círculo Operário na cidade e sua relação com o Movimento Operário Cristão no Brasil. 2.1 Estado e Igreja no controle corporativo do trabalho “O corporativismo é obra popular, resultante do trabalho e interesse das classes, que se vão organizando em função do bem comum.” 1 “O Estado emergente de 1930 a um só tempo perseguia o aniquilamento de qualquer tentativa de organização autônoma da classe operária e a queima de etapas rumo à concretização do capitalismo nacional”(Isaía, 1998:148). Através dessa fórmula, o governo acreditava colocar o país nos trilhos do capitalismo internacional, equiparando o Brasil aos países ricos e combatendo, ao mesmo tempo, os problemas sociais internos. Os anos 30 foram particularmente importantes ao inaugurar o envolvimento direto do Estado na relação entre os trabalhadores e o segmento empresarial, incluindo-se nesse último, o próprio Estado empreendedor desse desenvolvimento. A estrutura de controle do 1 Artigo: Corporativismo e suas condições – Jornal Interno A Semana, 23 à 30 de maio de 1943. 75 movimento operário e sindical, implantada a partir da instalação do governo provisório que foi sendo aprimorada por todo o dilatado período do Governo Vargas, se sustentou no estabelecimento de um aparato técnico-burocrático representado no Ministério do Trabalho Indústria e Comércio e fundamentado em ampla legislação trabalhista. A iniciativa governamental no sentido de enfrentar a questão social, tornando-a caso de políticas, se explica por mudanças estruturais e conjunturais que vinham se processando e que, no ápice do confronto entre interesses diversos, culminou na Revolução de 1930. Os direitos sociais advindos da ruptura de 1930 podem ser associados a uma pressão crescente imposta pelo movimento operário, iniciado na Primeira República, e que já havia dado sinais de maturação, o que preocupava o governo, a elite agrária - amedrontada por uma possível ampliação do movimento para o meio rural - e a classe empresarial urbana ainda em formação. O aceno para a transformação da questão social em caso de política já havia sido dado pelo programa exposto na campanha da Aliança Liberal, assumido posteriormente por Vargas, obviamente adquirindo um contorno personalista em razão da implantação do trabalhismo herdado do positivismo gaúcho1. Foi a partir de uma ênfase paternalista e personalista que o Estado conseguiu cunhar uma cultura sindical corporativa controladora do movimento operário e com intensidade capaz de perdurar como uma marca na história do movimento operário e sindical brasileiro para além da chancela varguista. A criação do Ministério do Trabalho foi um passo decisivo no controle da classe operária e através do Decreto nº 19770 de 1931 e da Lei de Sindicalização, definiu-se a regulamentação dos direitos e deveres de todas as classes patronais e operárias. As entidades deveriam ter no mínimo 30 associados de ambos os sexos, maiores de 18 anos, sendo 2/3 desses associados obrigatoriamente brasileiros natos ou naturalizados. Na concepção de Werneck Viana, esse decreto transformava os sindicatos em pára-choques das tendências conflitivas nas relações entre capital e trabalho, funcionando como colaboradores do poder público. O sistema sindical estaria sendo arquitetado para consolidar o modelo corporativo de modernização. O autor argumenta sobre o significado do Ministério do Trabalho no contexto geral da nova formatação do Estado: 2 Este tema é trabalhado por Alfredo Bosi no texto A arqueologia do Estado-providência, p. 273 – 307. 76 “A proposta oficialista para os sindicatos não se resumia no acento antiliberal e desmobilizador da classe operária. Desde a criação do Ministério do Trabalho, pelo decreto nº 19433, de 26 de novembro de 1930, a estrutura corporativa vinha associada a um discurso modernizante – era o “Ministério da Revolução”, como o denomina Lindolfo Collor, seu primeiro titular. Collor, em seu discurso de posse, fornece uma interpretação bastante sugestiva sobre o que consistiria questão social no Brasil. Segundo ele, o inquietante nesse tema residiria no descobrimento da correlação entre “justiça social” e formação de um mercado interno.”2 Uma série de leis sociais e trabalhistas foram criadas, como a regulamentação especial do trabalho da mulher e da criança pelo decreto 21.417 de 1932. E na década de 40 foram estabelecidos: o salário mínimo, o imposto sindical, com a conseqüente criação da CLT em 1943. O corporativismo modelou o tipo de desenvolvimento aplicado no país pós 30, e ao ser analisado por Werneck Vianna (1978: 123-125), fica evidenciada sua performance no ambiente brasileiro, ao servir para o atendimento aos interesses contraditórios das classes dominantes, desejosas de dissimular os conflitos fundamentais de classe. O regime liberal democrático foi rejeitado pelos grupos dominantes por dificultar a administração do projeto modernizador industrializante em processo, devido à resistência em relação à sua base sustentada na garantia de direitos. O regime corporativo era, naquele momento, a melhor opção para as elites pois, possibilitaria a intervenção do governo no sistema produtivo e, ao mesmo tempo, garantiria a paz social no setor urbano-industrial. O modelo desqualificava a luta de classes e propunha a dimensão consensual entre as frações de classe hegemônicas e as classes populares, enfatizando as vantagens da organicidade e da unidade enquanto pilares da grandeza nacional. O caminho desenhado pelo governo teve, no entanto, que enfrentar oposição. Em contraposição ao sindicalismo disciplinado, atuou uma resistência liderada pelo Partido Comunista que agiu com eficiência na clandestinidade e assumiu posições diferentes em sua trajetória política. O Partido Comunista, após sua fundação em março de 1922, propôs uma condução nova para os cerca de 320 mil operários existentes no país. Apesar de no mesmo ano ter sido lançado na ilegalidade em função do estado de sítio, colocou-se em favor da proposta de unidade do movimento operário em oposição ao discurso anarcossindicalista que defendia a diversidade (Resende,1994:27): 2 Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 p. 146. 77 “Colocava-se com a função de promover o entendimento, a ação internacional dos trabalhadores e a organização política do proletariado em partido de classe, para a conquista do poder e conseqüente transformação política e econômica da sociedade capitalista em sociedade comunista.”3 O Partido Comunista atuou como crítico do movimento de 1930, liderou a Aliança Nacional Libertadora enquanto composição de forças, lutou contra o fascismo, o imperialismo e o latifúndio e sofreu as retaliações do golpe de 1937. Foi prejudicado em sua ação junto aos trabalhadores devido ao forte disciplinamento imposto aos sindicatos com a chegada de Vargas ao poder. Em 1945, no processo de transição democrática, o Partido saiu da clandestinidade, acabou por dirigir o Movimento Unitário dos Trabalhadores – MUT defensor da Constituinte com Getúlio e esteve presente nas eleições de 1946 com a candidatura de Yedo Fiúza à presidência da república, fazendo 15 deputados e Luís Carlos Prestes como senador. Nesse período, procurou reativar os sindicatos através de congressos, ampliou suas células, intensificou a publicação de jornais diários, de livros e de textos de conteúdo marxista. Essa situação amedrontou as forças políticas conservadoras e a conjuntura internacional da guerra fria tornou sua sobrevivência ameaçadora ao sistema, o que levou o governo Dutra a colocá-lo novamente na ilegalidade em 1947 (Resende, 1994). O controle da classe trabalhadora teve resultados políticos vantajosos para os detentores do poder devido a seu potencial eleitoral, situação melhor explicitada na transição democrática de 1945, com a criação do Partido Trabalhista Brasileiro e nas coligações político-partidárias estabelecidas na década de 50, que culminariam no grande receio dos grupos conservadores com uma possível “República Sindicalista” praticada por João Goulart. A habilidade política de Vargas não se restringiu ao aparato administrativo e jurídico. Foi também hábil no uso da força repressiva e na capacidade de manipulação do imaginário coletivo ao definir registros de cidadania e de mitos de unidade nacional. Vargas exerceu controle sobre os meios de comunicação de massa. Para tanto, monitorou a produção cultural em prol de uma educação cívica do povo, identificado com um sentimento de nacionalidade construído pelas agências competentes de governo. 3 Koval, Bóris. História do proletariado brasileiro 1857 – 1967, p. 167. In: Resende, Antônio Paulo p.25. 78 “Os ideólogos estadonovistas, alegando que o estado liberal separara o homem, cujo domínio é o da cultura, do cidadão, cujo domínio é o da política, defendiam a necessidade de unificar as esferas política e social através do estabelecimento de uma cultura política. Nessa perspectiva, a política era compreendida como elemento disciplinador, coordenador e organizador das forças sociais; as manifestações culturais só poderiam ocorrer sob a tutela da ordem política.”4 Getúlio Vargas também soube utilizar a força moral da Igreja e do simbolismo católico para controlar e criar um imaginário político voltado para o monitoramento social, o que Capelato5 analisou a partir do conceito de “sacralização da política”, ao trabalhar a relação entre Igreja e Estado em seu formato no sentido de uma colaboração voltada para a idéia de manutenção da ordem. A posição da Igreja como aliada do Estado após 1930, foi particularmente significativa no tocante ao controle ideológico que exercia a partir da concepção católica da “questão social” e sua fórmula para solucioná-la. Seu papel institucional seria contribuir com a manutenção da ordem defendida pelo novo governo, trabalhando no meio operário como defensora da harmonia fundada nos princípios lançados pelas encíclicas Rerum Novarum 1891 e Quadragésimo Anno 1931 que também se opunham à falida ordenação social do liberalismo e defendiam uma estrutura corporativa para a produção e organização dos trabalhadores. Viana (1978: 157) explica essa aliança pelo esvaziamento do estado liberal republicano laico, que não cumprindo sua função integradora baseada no atendimento das reivindicações por igualdade, teria buscado suporte na Igreja capaz de exercer o controle ideológico sobre as classes populares. A Igreja, na sua posição de condenação do pensamento moderno, colocou-se contrária ao liberalismo, denunciando sua ineficiência no tratamento dos problemas sociais decorrentes da industrialização e urbanização. A Rerum Novarum foi a encíclica papal responsável pela nova conduta do catolicismo frente ao capitalismo e suas contradições que atingiam a classe trabalhadora, sujeita à exploração e ao abandono, criando, desta forma, o ambiente propício para a revolta e para o conflito entre os operários, ameaçando a estabilidade e a ordem. 4 Velloso, Pimenta. 1982, p. 88, apud. Capelato (1998,103). Maria Helena Capelato, ao analisar os governos totalitários na América Latina, demonstrou a partir da análise de Alcir Lenharo sobre a sacralização da política, como Getúlio Vargas valeu-se exaustivamente das imagens religiosas na propaganda promovida pelo Estado. A autora salientou que o governo Vargas buscou apoio da Igreja e valeu-se das imagens católicas como forma de garantir uma unidade nacional (Capelato, Maria Helena R. Multidões em Cena – Propaganda Política no Varguismo e Peronismo. São Paulo: Papirus, 1998: p. 29). 5 79 A Igreja se preparou para enfrentar a questão social, incentivando a criação nas cidades dos Círculos Operários e de um apostolado especializado assumido pela JOC Juventude Operária Católica, formando uma elite capaz de atuar com eficiência junto à classe trabalhadora. Dessa forma, o Estado e a Igreja Católica se instrumentalizavam para lidar com as ideologias socialista e comunista que se disseminavam no meio operário como elementos considerados perniciosos e incitadores de conflitos, greves e agitações, ameaçando os princípios da harmonia social e da ordem corporativa do trabalho. A Igreja acreditava ter uma responsabilidade para com os problemas sociais modernos e defendia ser o caminho apontado por sua doutrina o mais adequado para a conquista da harmonia: “... A Igreja, que não se contenta com esclarecer os espírito de seus ensinos, mas também se esforça em regular em harmonia com eles a vida e os costumes de cada um; a Igreja que por uma multidão de instituições eminentemente benéficas, tende a melhorar a sorte dos pobres; a Igreja quer e deseja ardentemente que todas as classes empreguem em comum suas luzes e suas forças para dar à questão operária a melhor solução possível; é a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública devem levar a esta solução, sem dúvida com medida e com prudência a sua parte de concurso.”6 Em seu modelo de sociedade, a desigualdade era vista como componente natural da sociedade, cabendo a cada classe a compreensão de sua condição, sufocando qualquer anseio de alteração profunda da estrutura, a priori estabelecida pelas leis de Deus. “É a necessária desigualdade das condições dos homens. O princípio primeiro a por em evidência, é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição. É impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível”7 Nessa perspectiva, o direito à propriedade era também considerado como uma decorrência natural das diferenças, opondo-se à defesa da propriedade coletiva da terra defendida pelos socialistas: “Que a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial aqueles mesmos que se quer socorrer, contraria aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando as 6 Jornal Interno A Semana – 26 de dezembro de 1943 a 2 de janeiro de 1944. 7 Jornal Interno A Semana – 26 de dezembro de 1943 a 2 de janeiro de 1944. 80 funções do Estado e que, pois, bem assentado, que o primeiro fundamento a estabelecer por todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo, é a inviolabilidade da propriedade particular.”8 As desigualdades de capacidade e de condição entre os homens seriam necessárias ao funcionamento social, bem como eram consideradas inverdades as pregações em contrário feitas por aqueles que pretensiosamente estariam apregoando sua superação, prometendo uma vida de igualdade para todos e de pleno gozo de puro e completo bem estar. “... A vida social requer um organismo mui variado e funções mui diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções, é principalmente a diferença de suas respectivas condições. Assim esta desigualdade que os socialistas debalde querem mudar, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos. Imaginem que todos os homens tivessem os mesmos talentos para governar, a mesma força corporal, parte igual de riquezas. [...] Sim, a dor e o sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir, mas não o conseguirão nunca ... Se há quem, atribuindo-se o poder de fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos, vida de repouso e perpétuos gozos, certamente engana o povoe lhe prepara laços onde se ocultam, para o futuro, mais terríveis calamidades do que as do presente.”9 A aliança entre o catolicismo brasileiro liderado por Dom Leme e o Estado getulista beneficiou a ambos, viabilizando projetos prioritários para a hierarquia e possibilitando ao Estado, aproveitar-se da ascendência desfrutada pela Igreja ante a massa urbana e sua influência sobre a classe média, procurando viabilizar seu projeto de unidade nacional. A opção corporativista definida pelo Estado e pela Igreja deveria viabilizar uma convivência harmônica entre as classes impedindo que as reivindicações sociais degenerassem em luta de classes (Isaía, 1998:140). 8 Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de dezembro de 1943. 9 Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de janeiro de 1944. 81 2.2 Os operários na cidade: o caso de Divinópolis no centro oeste mineiro “Sadio é o civismo que anima tua gente, afeita ao trabalho, à conquista do pão.”10 A cidade começou a ganhar um perfil operário a partir da chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas no final do século XIX, quando o lugar ainda era chamado de Arraial do Espírito Santo do Itapecerica. O prolongamento da Estrada de Ferro Oeste de Minas, ligando Oliveira até Barra do Paraopeba, ao passar pelo Arraial seguindo o Rio Itapecerica, colocou a localidade em evidência no centro oeste mineiro enquanto ponto de passagem e pelas melhorias que recebeu. A primeira foi a construção da estação nomeada Henrique Galvão, em homenagem ao engenheiro-chefe encarregado das obras da ferrovia11. O dinamismo ligado à ferrovia foi consolidado pelo fato de o Arraial ter se tornado ponto de entroncamento férreo da EFOM, com o ramal ligando Belo Horizonte ao Triângulo Mineiro, representando importante integração entre o oeste de Minas Gerais e os estados de Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo (Corgozinho, 1999:62). O dinamismo que começou a configurar uma estrutura propriamente urbana foi trazido pela instalação das Oficinas da Rede Ferroviária construídas a partir de 1910, num conjunto que englobava também a vila operária como espaço de residência dos trabalhadores. Segundo Corgozinho, ao estudar a passagem do tradicional ao moderno no centro oeste de Minas Gerais, as oficinas representaram a instalação da primeira grande fábrica no local com destaque para as atividades ferroviárias como principal sustentáculo de expansão da cidade. Com a nova estrutura instalada pela Rede, teria ocorrido um dinamismo sócioeconômico e cultural acompanhado de uma nova correlação de forças no âmbito político e um expressivo crescimento demográfico que alteraria significativamente o perfil agrário até então predominante no local. Segundo a autora, além de inaugurar a figura do trabalhador operário moderno na região com suas várias especialidades tais como encarregados, escriturários, feitores, maquinistas e outros ofícios, instalaram-se em torno da ferrovia uma gama de outros profissionais atraídos pelas empreendimento. 10 Hino de Divinópolis. 11 Azevedo e Azevedo, 1988. p. 70-71. oportunidades estabelecidas pelas demandas desse 82 As atividades de produção, comércio e serviços foram ampliadas e diversificadas, e o arraial foi tomando a forma de cidade, alcançando sua autonomia político-administrativa em 1911 com o nome de Vila de Henrique Galvão, posteriormente batizada de Divinópolis. Como “Cidade Oficina”, apelidada devido a sua origem operária, desde cedo foi palco da ação dos ferroviários que movimentavam a atividade econômica local e deflagravam seus protestos quando lesados pela conduta da EFOM, que atrasava seus salários. É como o caso da greve registrada em 1899, comentada por Francisco e Antônio de Azevedo: “Estando os trabalhadores da Estrada de Ferro Oeste de Minas já há bastante tempo sem receber seus vencimentos e como a Diretoria da Companhia ia protelando esse pagamento e não resolvia aquela situação de angústia e de fome, todo o pessoal da estrada se pôs em pé de greve geral, de um momento para o outro. Começaram a arrancar os trilhos e a destruir tudo que podiam, em acinte à falta de pagamentos. Os trabalhadores de turmas e de avançamento que já iam lá pelos fundos do Sertão, e o pessoal de conserva foram se reunindo aqui no Arraial, constantemente chegando especiais de trabalhadores que aderiam ao movimento grevista. Com o decorrer de pouco tempo e com a chegada de operários nesta localidade, o Arraial era uma verdadeira praça de guerra ...”12 A modernização foi tornando-se uma realidade à medida que a cidade consolidava sua vida urbana. E, ao mesmo tempo, sua tradição operária também se delineava nesse processo com a instalação de outros estabelecimentos industriais em 1914: a firma João Daldegan & Irmão no ramo de exploração de cerâmica; uma Serraria do empreendedor Jovelino Rabelo em 1915 e assim sucessivamente, a fábrica de fiação e tecelagem, de sabão, cerveja e outras. A partir da década de 30, foi inovadora a instalação no local da Usina de Álcool Motor de Mandioca do Estado de Minas Gerais. No ano de 1942, foi instalada a Cia Mineira de Siderurgia, ampliando seu parque siderúrgico na década de 50, com destaque para a criação da Cia Laminação e Cimento Portland Pains em 1953. Acompanhando este trajeto, o setor de comércio e serviços ganhou fôlego e o local foi se transformando num importante polo no centro oeste mineiro (Corgozinho, 1999:165-195). O crescimento econômico trazia consigo as contradições inerentes ao progresso, e à medida que as atividades produtivas se dinamizavam, o conflito entre patrões e empregados também ganhava novos contornos. As manifestação grevistas e as formas de organização da 12 Azevedo e Azevedo, 1988. p. 84-85. 83 classe trabalhadora se multiplicavam e consequentemente o espaço da vida operária transformava-se em alvo de atuação política e de intervenções ideológicas diferentes. 2.3 Pensamento e prática do Círculo Operário: aspectos de seu cotidiano “Operários eis a tua salvação! Vencerá nossa marcha gloriosa. Vem depressa marchar meu irmão. Surgirá da jornada afanosa um Brasil operário cristão.”13 Num ambiente favorável, o clima sócio-cultural e político da cidade era propício a condutas diversas dos operários. Havia uma pluralidade de credos e partidarismos políticos que contaminava o ambiente urbano e também a Vila Operária, tornando-a alvo de pregações ideológicas divergentes. Aquele espaço em particular transbordava de relações, as mais variadas, que iam além da rotina do trabalho disciplinado. Os operários faziam funcionar uma comunicação interna, com rica troca de experiências, de onde fluíam sua prática profissional, seus valores, crenças e suas verdadeiras necessidades. As greves sempre foram parte da história dos ferroviários devido principalmente aos baixos salários e aos atrasos nos acertos, fato que quebrava a rotina urbana, acirrava os ânimos e preenchia a cidade de um clima tenso, além de afetar o funcionamento dos outros setores da economia local. Esses movimentos foram mais freqüentes nas décadas de 40 e 50, devido à precariedade no funcionamento da Rede Mineira de Viação, coincidindo com o governo de Milton Campos. As paralisações, que duravam em média de um a três dias, atingiam toda a Rede e os trabalhadores das Oficinas de Divinópolis normalmente tomavam a frente dos movimentos com a participação de suas famílias. Os ferroviários eram apoiados pelo grupo político local, que fazia oposição à Igreja, o Partido dos Machos liderado por Pedro X. Gontijo. Isso se explica pela velha indisposição existente entre os livres pensadores e maçons contrários ao discurso católico mas também, e principalmente, pelo fato de que a posição da Igreja era sempre pela conciliação (Corgozinho 1999:183-87). O ex-ferroviário, Sr. Milton Pena, vivenciou momentos de agitação e de greves na Rede Mineira de Viação e afirmou em seu depoimento: 13 Jornal A Semana - 11.08.1946. 84 “As greves eram motivadas mais pelos atrasos de pagamento. Os trabalhadores da Rede ficavam com os salários atrasados por três, quatro até cinco meses, afetando a cidade que dependia muito do pagamento da Rede. As greves não tinham normalmente o cunho político que muitas vezes quiseram dar para elas.”14 (Milton Pena) O compasso da movimentação operária estava sujeito à receptividade que davam os trabalhadores aos discursos em defesa de seus direitos e às alternativas que lhes eram dadas para a superação das carências materiais a que estavam muitas vezes expostos. Foi em face dessa vulnerabilidade e com um discurso de sanar as faltas materiais, mas também espirituais e morais, que a Igreja, pela ação dos franciscanos presentes na cidade desde 1924, se lançou no trabalho de arrebanhar os trabalhadores expostos às necessidades de sobrevivência e ao perigo de adesão ao discurso liberal e comunista. Movidos por esse propósito, os franciscanos responsáveis pela paróquia de Santo Antônio criaram o Círculo Operário na cidade em 1942. O círculo operário foi idealizado pelo jesuíta Pe. Leopoldo Brentano como uma entidade operária católica de caráter apolítico, expandindo-se em função do contexto sóciopolítico do país nas décadas de 30 e 40. Tal ocorrência se deve ao fato de que havia nesse período, uma defesa tanto do Estado como da Igreja ao esquema corporativo de organização, e as elites enxergavam nesse tipo de organização uma barreira de contenção do comunismo no meio operário. Foram pensados e criados para funcionarem como associações inter-profissionais, oferecendo assistência social, formação espiritual e, ao mesmo tempo, colaborando com o governo no processo de sindicalização disciplinada. O sucesso do movimento levou Dom Sebastião Leme a colocar o Pe. Brentano como diretor da Confederação Nacional dos Círculos Operários, sediada no Rio de Janeiro, órgão coordenador dos movimentos de trabalhadores cristãos no Brasil (Lustosa 1991:129-133). A iniciativa apoiada por Brentano começou na cidade de Pelotas em 1932, difundindose por outros estados e tomando conta dos espaços urbanos marcados pela movimentação operária. Essa primeira experiência partiu dos Congregados Marianos a partir do estudo de organizações sindicais e não sindicais da Europa e do Brasil, processo apoiado por Tristão de Ataíde. Em sua fundação teriam sido feitas reuniões envolvendo o Bispo, o clero, presidentes de associações católicas e operários. Sua instalação ocorreu em solenidade no dia primeiro de maio de 1939, lançando-se de imediato na obra de sindicalização pois, o Ministério do 14 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Milton Pena no dia 24.04.01. 85 Trabalho, por meio de decreto, protegia os sindicatos registrados. Em dezembro do mesmo ano, foram reconhecidos e oficializados todos os sindicatos do Círculo Operário de Pelotas.15 A sindicalização estimulada pelo governo ficou assim definida: “A sindicalizarão persistia facultativa, embora logo a lei viesse a estimulá-la com a criação de privilégios para os sindicalizados, outorgando somente a esses a capacidade de reclamar nas Comissões de Conciliação e Julgamento – Decreto nº 23.768., de 1934. Na prática revestia-se de caráter compulsório, se bem que não expressamente estatuída por dispositivo legal.”16 Divinópolis era uma cidade com perfil adequado para um investimento na organização católica dos operários. Consta a existência de uma primeira organização fundada em 30 de setembro de 1915, período de Padre Matias Lobato.17 Além de cidade operária, contava com um corpo clerical e de intelectuais católicos sensibilizados ante ao projeto de organização corporativa cristã dos trabalhadores, podendo contribuir para a minimização das tensões, evitando que a ideologia comunista ganhasse terreno, principalmente entre os ferroviários. Na opinião do Sr. Manoel Valério, ex-ferroviário e membro atuante do Círculo Operário entre os anos 40 e 50 como secretário e delegado de propaganda, a movimentação dos operários e sua relação com o Círculo ocorriam da seguinte forma: “O Círculo Operário não se envolvia em manifestações. Atuava defendendo os operários, como numa tentativa de agir legalmente em favor dos direitos dos ferroviários sujeitos a jornadas excessivas de mais de 12 horas prejudicando maquinistas, e foguistas, mas quando eles tiveram que assinar para que se entrasse em defesa de seus direitos eles não quiseram assinar. As greves ferroviárias surgiam espontaneamente , depois que estouravam vinham os aproveitadores tirar vantagens políticas.”18 (Manoel Valério) O Sr. Valério expressou também sua visão sobre a função dos Círculos: “atrair os operários para dentro da Igreja para evangelizá-los”. Sua análise enquanto leigo sobre os propósitos eclesiásticos confirma-se nas explicações do jesuíta José Naturzzi, mas a 15 Jornal A Semana - 26.01.1947. 16 Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 p. 147. 17 Van Der Vat, 1995. p. 6-10 - “Coisas do Nosso passado”, p. 27. Entrevista realizada pela autora com Manoel Valério no dia 11.10. 01 (ferroviário e membro da diretoria do Círculo Operário). 18 86 compreensão do antigo circulista, tanto na época de sua atuação no final dos anos 40 como em sua avaliação pós fato, evidencia sua não compreensão da dimensão política que representavam aquelas organizações no contexto de restauração católica no Brasil. Na concepção de Naturzzi: “Os Círculos Católicos de Operários constituem uma benéfica escola de vida cristã e moralizadora, donde surge a verdadeira Restauração em Cristo das famílias operárias, cujo reflexo invade também a sociedade. [...] As corporações católicas dos operários moralizam a vida, porque os operários nelas aprendem a lei de Deus, os princípios da religião, os preceitos da moral, as obrigações nobilitantes do trabalho e a consoladora perspectiva dos seus deveres. [...] A mesma pátria reconhece nessas associações de operários um forte baluarte de defesa civil contra os acérrimos inimigos do Estado e das autoridades superiores do país.”19 Estimulados pelo trabalho do assistente eclesiástico, Frei Hildebrando van Petten, os operários criaram o Círculo Operário de Divinópolis em setembro de 1942, oficializado em 27 de março de 1944, registrado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos. sob o nº 281 no livro B – 1. No estatuto a entidade era assim definida: “O círculo Operário é uma associação livre e de direito civil, constituída por trabalhadores de ambos os sexos e de qualquer profissão, com o fim de formar uma organização cristã, forte e perfeita, para defender os interesses comuns a todos os trabalhadores.”20 A primeira geração de dirigentes compunha-se de um grupo de ferroviários e sua primeira diretoria ficou assim constituída: João Ferreira de Freitas (presidente), Antônio Bernardirno dos Reis (vice-presidente), Amintas Marques (1º secretário), Francisco Bernardes de Lima Filho (2º secretário), Benedito Cristino Costa (tesoureiro), Pe. Fr. Hildebrando Van Petten O. F. M. (assistente eclesiástico). Na sua estrutura hierárquica, tinha papel de destaque o assistente eclesiástico como estava estabelecido no Artigo 49, parágrafo 2º do Estatuto que estabelecia sua nomeação pela autoridade arquidiocesana, dependendo dela a duração de seu mandato. A figura do assistente Mensageiro do Sagrado Coração de Jesus, 1940, p.p. 395 – 396. In. Azzi, Riolando. A Neocristandade um projeto restaurador. São Paulo: Paulos, 1994 p.p. 149-15. 19 20 Jornal Interno A Semana – 13 à 20 de agosto de 1944. 87 eclesiástico era de direção, como rezava o Artigo 25. A reunião ocorria em sua órbita, o qual muitas vezes, dava início às atividades da assembléia ou anunciava os informes mais significativos, além de garantir o cerimonial religioso com as orações e práticas institucionalizadas, como a saudação cristã que abria as reuniões: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. Cabia-lhe a definição das estratégias de formação cívica, religiosa e moral dos associados através da escolha dos temas das conferências, às vezes assumidas por eles mesmos, no chamamento à responsabilidade, alertando sobre falhas ou estimulando o grupo para o enfrentamento de situações adversas. A manipulação de símbolos e formas de identificação se dava pelo uso de distintivo, entoação do hino circulista, e por reverenciarem sua padroeira, Nossa Senhora Medianeira. Mas o que parece ter sido mais forte na absorção do ideário católico foi a imagem que faziam de si mesmos como os portadores da palavra verdadeira como os legítimos representantes do bem. A dimensão do público, representada pela organização coletiva dos trabalhadores nucleados no Círculo, tinha como objetivo último atingir o âmbito privado de suas vidas pela absorção dos valores cristãos de civismo calcados na harmonia e pela conduta religiosa que deveriam assumir frente à família. É interessante observar a necessidade de ficarem estabelecidos os registros da presença religiosa no ambiente de convívio do trabalhador, como na proposta de Frei Hildebrando na reunião de novembro de 1944, de os sócios fazerem a entronização do quadro do Sagrado Coração de Jesus em suas casas. Ao oficiar a cerimônia do ritual de entronização, o sacerdote transferia para a família a segurança da proteção e a firmeza do compromisso de uma prática cristã: “A entronização do Coração de Jesus nos lares é uma cerimônia lindíssima. Rei é aquele que reina sobre a universo e conhece o coração humano em todas as suas fraquezas e todos os seus segredos. Entronizá-lo, dar-lhe a soberania do lar, suplicarlhe a paz, o amor, a felicidade, a saúde, a graça, esse é o dever de todo bom católico.”21 Um princípio estabelecido nos Estatutos da Ação Católica, inspirado em documentos pontifícios de Pio XI, era que os leigos auxiliares da hierarquia pudessem estar atuando num apostolado que atingisse os campos privado e público da vida social. Passava-se a idéia de 21 Jornal São Francisco – Ano VIII – 15.05.1931. 88 que os Círculos deveriam atuar acima dos partidos, das classes e dos sindicatos, como se ultrapassasse as coisas terrenas, e na sua condição de transcedentalidade, podia focar o mal e mostrar o caminho da virtude e da harmonia. A Igreja Católica em sua história de institucionalização reproduziu seus símbolos e os atualizou em cada momento, reforçando sua presença e autoridade. Ao estabelecer uma imagem do real por meio de signos e rituais, a moral católica teria forjado sua própria reprodução numa crença verdadeira de estar conduzindo os trabalhadores e suas famílias para o caminho da virtude temporal e da salvação espiritual. A incorporação do aparato simbólico no cotidiano recluso do lar e nos espaços de uso coletivo criou uma identidade definidora de um sentimento de pertencimento ao mundo cristão católico responsável pela segurança de seus membros. Nas primeiras reuniões percebe-se a preocupação dos organizadores da entidade em estabelecer as bases dos princípios circulistas definidos em esfera nacional, já que os círculos faziam parte de um projeto maior da Igreja de organização dos trabalhadores e de um posicionamento político-social levado a cabo pelo Movimento de Ação Católica. A relação do círculo com esse projeto maior foi colocado pelo assistente eclesiástico na décima reunião da entidade. O vínculo com os fundamentos do movimento operário cristão em nível nacional e com a legislação foram colocados no Artigo 2º do Estatuto registrado em março de 1944, onde ficou traçado: “Colaborar com o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio, consoante o decreto-lei nº 7.164 de 12 de maio de 1941, e em entendimento com as entidades circulistas hierarquicamente superiores, visando a realização progressiva do programa de ação com respeito à legislação social contida na Segunda parte do Manual do Círculo Operário.”22 Os princípios católicos foram colocados no Artigo 3º, adotados como bases firmes e inabaláveis, citando a orientação sociológica contida nas encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, cujos ensinamentos repudiavam a luta de classes, defendiam o direito natural e sagrado de propriedade legitimamente adquirida, considerando, porém, a necessidade de um compromisso social por parte do detentores da riqueza. Esse artigo expõe 22 Estatuto do Círculo Operário de Divinópolis – Registro nº 281, março 1944, p. 179 e ss. Do Livro 89 também sobre a necessidade de intervenção do Estado na questão social, controlando e regulando o justo salário, a justa produção e o justo preço. A ação nucleada nos Círculos operários deveria dar relevo à educação e estimular hábitos de economia e previdência, mostrando aos trabalhadores as suas responsabilidades e deveres, dando-lhes, no cumprimento desses, as condições de reivindicação de direitos, estimulando-os a entrarem nos seus sindicatos de classe, atuando nos mesmos como portadores de sua formação social cristã (Dale 1985:78-79). O Círculo cumpria uma função assistencial e formativa; seus membros em muitas passagens das reuniões referiam-se à entidade como sendo um movimento social. Nos primeiros tempos de sua existência, o Círculo Operário de Divinópolis dedicou-se a oferecer pequenos auxílios aos seus membros mais carentes, recurso poupado em um fundo de participação constituído de mensalidades pagas pelos associados. A diretoria, eleita em dezembro de 1944, ainda tinha como elementos de base funcionários da R. M. V., tendo como componentes: Orlindo Sotero (presidente), Joaquim Martins Lara (vice-presidente), Geraldo Lara (1º secretário), Miguel Lara (2º secretário), Geraldo Amâncio Correia (tesoureiro), Antônio Pires B. de Morais (2º tesoureiro), José Pinto B. de Morais (delegado) e Francisco José da Fonseca (delegado). No ano de 1946, o Círculo passou por uma renovação; teria ocorrido uma mudança qualitativa em sua composição e ação. A nova diretoria, diferente da primeira geração, era composta de personalidades de peso na comunidade, um conjunto de homens letrados (engenheiro, advogado, professores) que, seguindo as orientações da Igreja, colocavam-se à serviço da causa social. Seus novos membros eram: Cristiano da Costa Melo, Martin Ciprien, Salviano Avelar, João Mauro, João Pinto Conceição, Artur Braga Filho. A iniciativa de promover a transformação parece ter sido tomada pelo recém empossado como assistente eclesiástico, Frei Rafael Zevenhoven, figura controvertida que atuava com grande fôlego no combate aos elementos considerados opositores da Igreja. Parecia estar enfronhado nos projetos da Ação Católica e nas atividades da Igreja dentro e fora do país, o que pode ser constatado pelo conjunto de seus artigos, sistematicamente publicados no jornal católico local “A Semana”. A grande inovação introduzida nessa nova fase foi a aplicação de um trabalho educativo feito a partir de uma agenda de conferências para enriquecimento das reuniões e a introdução do espaço recreativo como tática de arregimentação dos operários, muitas vezes 90 desestimulados a participarem sistematicamente de reuniões. Havia uma preocupação da diretoria em garantir a ampliação do número de filiados e de torná-los membros atuantes e freqüentes nas assembléias e eventos, ficando claro nas reuniões e nos comentários da seção circulista da imprensa, as dificuldades de garantir o envolvimento orgânico dos operários no processo. No artigo “Apelo aos Operários de Divinópolis”23, a diretoria tentou explicar a importância do Círculo enquanto entidade comprometida com a formação da classe trabalhadora, comentando sobre a capacidade de organização dos comunistas em outros países, a ponto de chegarem a tomar o poder. Cita um comentário de apoio do governo à causa circulista, feito pelo ministro do trabalho, o Sr. Morvan Dias de Figueiredo, elogiando a obra social dos Círculos no Brasil por meio da assistência material e moral que ofereciam às famílias dos operários considerando-os o verdadeiro suporte dos sindicatos. Os Círculos Operários foram concebidos para atuar pelos trabalhadores sem restrições, distinguindo-se em conteúdo e propósitos dos sindicatos, como foi exposto num texto publicado em 1943: “O Círculo Operário considera os sócios como membros da classe operária em geral. O sindicato considera seus membros como companheiros de profissão. O Círculo Operário é uma família de famílias, pois recebe o operário de qualquer profissão com toda a sua família e os interesses desta. O sindicato é uma família de indivíduos de certa profissão e se interessa por eles enquanto profissionais principalmente. Nos Círculos Operários promovem-se a assistência e o auxílio mútuo do operário. É a obra das obras, com sessões de assistência espiritual, médica, jurídica, instrução, biblioteca, círculos de estudos, creches, colônias de férias, hospitais, pecúlio, socorro mútuo, habitação própria, cooperativismo e o próprio sindicato.”24 Acompanhando esse raciocínio, na concepção de seus idealizadores, os Círculos teriam compromisso com uma ordem social sustentada na harmonia, justiça e caridade, agindo para isso, sobre todas as classes sociais. Para alcançar tal objetivo não restringiam a participação e a colaboração dos vários segmentos, estando abertos à colaboração de intelectuais e de patrões e procurando fazer um trabalho de conciliação das classes. 23 Jornal A Semana - 19.09.1948. 24 Jornal Interno A Semana – 13 a 20 de junho de 1943. 91 Encaravam os sindicatos como “obra dos homens”, voltados para a defesa das profissões no que se refere mais especificamente à garantia de salários e trabalho. Na verdade, as duas formas de organização se completariam, cabendo aos círculos, em função de sua abrangência e compromisso corporativista, fomentar as formas de organização e articulação de patrões e empregados a partir de iniciativas particulares manifestas na sociedade que favoreceriam a ação do Estado; todos atuariam juntos pelo bem público.25 Essa visão da organização operária refletia o pensamento católico oficial sobre o mundo do trabalho e sobre a dinâmica de funcionamento da sociedade capitalista desde o início da República, prosseguindo nos anos 30 e 40 e só sofrendo maiores alterações a partir de meados de 50. A Igreja manteve sua concepção de dois mundos, o espiritual e o temporal, e a manutenção de seu status de representante do campo sobrenatural, numa condição de guia inquestionável do caminho seguro para uma sociedade justa e equilibrada. Os sindicatos de inspiração católica deveriam, segundo avaliação do sociólogo católico costariquenho Pe. Benjamim Nunes, colocar-se numa situação apartidária, sob pena de descumprirem sua verdadeira função. De acordo com suas próprias declarações: “Repelimos por outro lado o sindicalismo misto um retrocesso para o melhoramento das classes operárias. Inspirados no princípio de justiça social, ou seja, do bem comum, acima dos interesses partidários, declaramos que o movimento sindicalista há de ser apolítico, desde o momento em que um sindicato para constituir-se em agrupamento de operários que procuram o triunfo de um partido em que crêem encontrar apoio para seus interesses. Tecnicamente falando, esse perde seu caráter de sindicato. Ou tem de conseguir a adesão de todos os seus membros ao partido favorecido, ou se verá forçado a trair os interesses dos sindicalizados em aras do interesse do partido político.”26 Durante toda a história do Círculo, nas suas várias fases havia um desafio da diretoria e dos intelectuais que apoiavam aquela agremiação, de legitimá-la diante do poder público, dos patrões e dos trabalhadores. O respaldo governamental era explícito e foi demonstrado em várias situações. A maior dificuldade era fazer o trabalhador estar presente nas atividades programadas, levando-o a incorporar a ideologia subjacente ao movimento, protegendo-o do 25 Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de junho de 1943. 26 Jornal Interno A Semana – 10 a 17 de setembro de 1944. 92 assédio de outros discursos e formas de organização. No órgão oficial de imprensa do Círculo, o jornal “A Semana”, os apelos voltados à participação eram constantes: “No ano de 1942 foi criado o Círculo Operário Divinopolitano afim de formar uma organização forte e perfeita para dignificar o trabalho e defender os interesses dos operários. Nas duas últimas reuniões mensais nem houve número suficiente de sócios para se realizar a reunião geral dos circulistas. Como é que poderemos assim dar formação intelectual, moral, social, assistencial e proteção a classe menos favorecida? Dentro da nossa cidade industrial cabe tão bem um Círculo Operário! Que força moral teríamos se conseguíssemos congregar os operariado todo, pois só a união faz a força. [...] Vinde assistir às nossas reuniões, ajudai-nos. A diretoria precisa de vossa presença, da cooperação de todos os sócios, como também das classes mais favorecidas afim de alcançar para os operários uma assistência social, cultural e espiritual.”27 Aconteciam eventos recreativos variados programados para o encerramento de cada encontro dos circulistas. Essa prática acabava por cumprir um papel complementar que ultrapassava a vida do Círculo – nos momentos de atividade cultural, a entidade interagia com a comunidade letrada e erudita, fazendo contato com uma vida social que normalmente não fazia parte do universo de seu público. Da programação artístico-recreativa, participavam músicos como Jacinto Guimarães, violinista já consagrado na cidade, em parceria com a pianista Tereza Martin, filha do presidente da entidade Sr. Martin, executando “La Cinquentaine”; participavam também o coro misto do Santuário, “Panis Angelicus” de Cesar Franck, a banda de música dirigida pelo maestro Sr. José Orsini Campos, sempre presente nos eventos mais solenes; além de números de mágica e de peças teatrais com a exibição de temas religiosos. A apresentação de filmes, selecionados pelos franciscanos, era parte da cruzada pela boa conduta, comum no cotidiano da vida social da cidade e usada também como instrumento de orientação dos operários como lembra o Sr. Galba: “Vários frades contribuíram com o Círculo Operário, a iniciativa partiu da Igreja. O Círculo não se envolvia em greves, sua função era orientar os operários para reclamarem seus direitos através do diálogo com os patrões e os chefes. Quando ocorriam as assembléias, no Cine Teatro Santo Antônio, eram passados filmes educativos para os trabalhadores sempre voltados para mostrar os erros do 27 Jornal A Semana - 19.09.1948. 93 comunismo e como eles estavam começando a dominar o mundo.”28 Oliveira) (Galba As palestras sempre tinham um caráter formativo, guardando uma moral cristã para o ouvinte. Mesmo aquelas de cunho mais técnico seguiam essa lógica, como na abordagem das leis trabalhistas feita pelo assistente jurídico, o advogado Dr. Artur Braga Filho, na reunião de maio de 1946, quando esclareceu sobre as leis que incidiam sobre a relação entre patrões e empregados, não deixando de salientar que a Igreja sempre teria exercido influência na definição das leis trabalhistas importantes para os trabalhadores. Os temas das palestras giravam em torno das mudanças ocorridas na sociedade moderna, como foi a proferida pelo Sr. Antônio Pires de Morais em agosto de 1948. Foram abordados aspectos resultantes dessas mudanças, como a questão social e as interpretações dadas a esses fenômenos, inclusive aquelas consideradas perniciosas pela Igreja; a ideologia socialista e comunista, por exemplo. As conquistas operárias eram vistas como fruto de um esforço pacífico, uma característica da prática do povo brasileiro. Na reunião de 13 de fevereiro de 1949, o palestrante o Dr. Antônio Gonçalves de Matos falou sobre “O operário e suas conquistas”, salientando, ao terminar, que os operários brasileiros, sem derramamento de sangue, teriam conquistado todas as leis que os protegiam. Havia uma preocupação, a partir das mudanças introduzidas pela nova gestão, em ampliar a ação social promovida pela entidade através de outros benefícios além dos já oferecidos aos sócios, tais como consultas e aquisição de remédios à baixo custo. “De hoje em diante os sócios do Círculo Operário terão assistência médica e farmácia a preços reduzidos. Os médicos: Zózimo Ramos Couto, Francisco Malaquias Filho, Sebastião Guimarães e Antônio Vilaça, comprometeram-se a cobrar dos circulistas, que estão quites com a caixa do Círculo, somente a metade dos preços correntes, isto é, farão para os sócios do Círculo Operário um abatimento de 50 porcento. A farmácia do hospital fornecerá remédios ao preço mais baixo possível. Esta redução será para o sócio, a mulher e seus filhos menores de 14 anos. Mas que nenhum sócio o esqueça, este abatimento tanto dos médicos como da farmácia do Hospital só se consegue mediante a apresentação da caderneta quitada.”29 28 Entrevista realizada pela autora com o Sr. Galba L. Oliveira no dia 01.20.03. 29 Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de agosto de 1944 94 Ambicionavam criar serviços mais abrangentes destinados aos trabalhadores e à comunidade, tomando como exemplo o modelo de Círculos Operários que atuavam com sucesso em outras cidades. Acompanhando uma linha de organização dos trabalhadores, centrada na visão assistencialista, que no caso dos Círculos estava aliada a formação moralreligiosa e aos princípios da reforma social proposta pela Igreja, conseguiram colocar em funcionamento uma caixa de Socorro Mútuo voltada para o socorro ao enfermo. Seria beneficiário aquele que estivesse em dia com a contribuição regular paga ao Círculo Operário e com a Caixa de Socorro a partir de uma carência de 3 meses para obtenção do direito, mediante atestado dado pelos médicos filiados à entidade. Foi criada também uma Caixa de Pecúlio com auxílio em dinheiro para as famílias dos sócios falecidos. Neste rol de projetos sociais, consta a criação da Empresa Funerária Nossa Senhora Medianeira em 1950, fruto de vitória do Círculo Operário em concorrência pública feita pela Santa Casa de Divinópolis. Esse fato foi acompanhado de perto pelo Sr. Manoel Valério e suas observações explicam o fracasso da iniciativa que pretendia inovar os serviços prestados à comunidade. Ocorreu, na prática, uma resistência da população diante do uso de um carro funerário que quebrava a tradição de transporte manual, além do aspecto relativo a posição social do usuário do serviço: “A funerária quem administrava era o Frei Saulo e o Antônio Diniz. Esse serviço era assumido anteriormente pelo Fernando e foi passado para o Círculo pela prefeitura sob protesto do mesmo. Foi comprado o primeiro carro funerário da cidade, todo bonito e imponente, mas só os pobres usavam, a prática era transportar na mão. Acabou o carro servindo para carregar doentes da Santa Casa.” (Manoel Valério) O grande número de ferroviários como membros do Círculo Operário de Divinópolis, desde sua origem, levou a entidade a se envolver diretamente com os assuntos relativos à Rede Mineira de Viação e ao funcionamento da Oficina. A presença de Dom Cabral na Oficina da Rede fazia parte do itinerário de suas visitas pastorais. Foi significativa a solenidade de 23 de dezembro de 1935 para a bênção solene do sino da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Vila Operária, fundido pelos ferroviários. A cerimônia foi autorizada pelo Dr. Benedito Valadares, interventor federal em Minas Gerais, e pelo Arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral. Foi acompanhada pelo Dr. Benjamim M. de Oliveira, diretor da EFOM., e Sr. Pedro Silva, chefe das Oficinas, com a presença do Rvm. Pe. Fr. Serafim Lunter, comissário Provincial dos Franciscanos Holandeses no Brasil, além do 95 Pe. Fr. Cândido, guardião do Convento. No discurso, o Sr. Benjamim elogiou os franciscanos, dizendo aos ferroviários que eles nunca os enganariam com falsas promessas, não os envolveriam em agitações e nem os lançariam em aventuras perigosas. Afirmou que os princípios cristãos por eles difundidos eram os únicos que poderiam iluminar a humanidade naquele momento sério e trágico para o mundo. Concluiu seu discurso defendendo a presença da Cruz de Cristo nas repartições, lares quartéis e oficinas.30 Em outubro de 1946, o Sr. Antônio Nascimento Teixeira, membro da Rede, falou aos circulistas sobre a criação da Cooperativa de Consumo que beneficiaria os ferroviários. A diretoria aproveitou a exposição sobre o tema para valorizar as iniciativas associativistas e cooperativistas como práticas que deveriam ser adotadas pelos trabalhadores. Dentre as propostas do círculo constava a criação de uma cooperativa. Para tanto, os associados foram informados sobre o cooperativismo e as suas vantagens através de palestras e de publicações informativas. Foi explicado ao leitor, nessas publicações, as modalidades de cooperativas existentes, como as de crédito, de produção, as escolares e de consumo. O destaque foi dado para esta última, modelo que suprime a figura do intermediário, vendendo ao preço de mercado aos cooperados e utilizando o lucro em benefício dos mesmos, de acordo com o volume de compras de cada um. Resguardava-se sempre, entretanto uma parcela dos rendimentos para a manutenção de um fundo de movimentação da cooperativa.31 O Círculo chegou a criar uma cooperativa: “Ao chegar na cidade, Frei Rafael encontrou o Círculo Operário funcionando aos cuidados de Frei Hildebrando do Van Petten como assistente elesiástico. O Círculo possuía uma pequena cooperativa na rua 21 de abril com Goiás que fechou em outubro de 1945 devido a prejuízo.”32 Era comum a atuação do clero através do Círculo Operário nas relações de trabalho da Rede Mineira de Viação, como pode ser destacado ainda na época de Frei Hildebrando, quando este intercedeu junto ao diretor da referida instituição para que fosse pago aos 30 Jornal Santuário de Santo Antônio nº 10 – fevereiro de 1935. 31 Jornal Interno A Semana – 18 de julho a 8 de agosto de 1943. 32 Livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio. 96 operários o abono família33, ato reforçado em carta enviada ao governador do estado. Essa iniciativa ficou assim registrada no jornal da paróquia: “No dia 01 de março de 1943 o Pe. Frei Hildebrando, assistente eclesiástico do Círculo Operário esteve juntamente com o Revmo. Pe. Leopoldo Bentrano nos escritórios da Oeste de Minas, conversando com o Diretor da Rede Mineira de Viação sobre o abono familiar dos ferroviários. Soube-se então, estar unicamente nas mãos do Sr. Governador do Estado a extensão do abono família aos ferroviários. Razão pela qual decidiu-se enviar um ofício ao Sr. Governador pedindo providências neste sentido.”34 Na mesma oportunidade, manifestou-se também a Federação dos Círculos Operários através de carta35 ao Governador: “Cumpre comunicar a esse Círculo que estamos insistindo junto ao Sr. Governador no sentido de ser a legislação sobre o abono familiar extensivo aos servidores da Rede Mineira de Viação, questão pela qual se interessa vivamente esse Círculo. Publicamos o assunto pela imprensa local.” Saudações circulistas Boaventura Sousa Belo Horizonte 15/02/1943 No jornal “O Diário” do dia 18 de fevereiro de 1943, foi publicada a seguinte manifestação católica frente ao problema: “Estando o Círculo Operário de Divinópolis grandemente interessado na extensão da legislação sobre o abono familiar aos servidores da Rede Mineira de Viação ... É de se esperar que o governo estadual atenda com a máxima solicitude a justa pretensão, pois que se trata de medida de alta oportunidade a ser conferida a numerosa classe de pais de família ...”36 A relação com as autoridades constituídas era uma constante, como no caso da solicitação à Getúlio Vargas de colaboração para a aquisição de um lote e para a construção 33 Ata do Círculo Operário de 06.04.1946. 34 Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943. 35 Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943. 36 Jornal Interno A Semana – 28 de fevereiro a 7 de março de 1943. 97 da sede do Círculo Operário. O próprio Vargas tinha sua posição quanto aos Círculos Operários no Brasil: “Considero os Círculos, pela forma religiosa e educativa como estão organizados, um movimento construtivo e um trabalho de colaboração com o governo.”37 Além disso, o governo procurou institucionalizar essa relação, concedendo à Confederação Nacional dos Operários Católicos, coordenadora dos Círculos Operários, a prerrogativa de colaborar consultiva e tecnicamente com o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio, pelo decreto de 12-05-1941.38 Getúlio Vargas, ao criar a figura do Estado protetor da classe operária, garantindo-lhe direitos sociais e manipulando suas relações e organizações, teria inaugurado uma forma de cidadania que Wanderley Guilherme dos Santos chamou de “cidadania regulada”: “Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes encontram-se, não em códigos de valores políticos, mas em um sistema de estratificação ocupacional, e que ademais, tal sistema de estratificação ocupacional é definido por norma legal [...] A cidadania está embutida na profissão e os direitos dos cidadãos restringem-se aos direitos do lugar que ocupa no processo produtivo, tal como reconhecido por lei”.39 O Círculo Operário de Divinópolis, além de seguir as diretrizes traçadas pela hierarquia circulista nas instâncias estadual e federal, recebia seus representantes, trocando com eles correspondências e participando de seus eventos regionais. Em fevereiro de 1949, receberam uma solicitação da Confederação dos Círculos Operários do Brasil para contribuírem com 20 cruzeiros na compra de uma estação radiofônica para o Vaticano. Os contatos antecederam à própria articulação e criação oficial do Círculo Operário no município, como ocorreu no momento em que o vigário Frei Gilberto Alders trocou informações e buscou esclarecimentos com o Pe. Leopoldo Brentano. Em resposta à carta que lhe teria sido enviada por Frei Gilberto, datada de janeiro de 1940, o Pe. Brentano deu instruções ao solicitante falando sobre sua preocupação referente à firmeza católica dos Círculos Operários, que teria sido questionada por padres de Belo Horizonte. Essas entidades seriam rigorosamente católicas, conforme as encíclicas e outros documentos de Roma, 37 Vozes, 1940, setembro, p.p. 556 – 558. In: In. Azzi, Riolando. A Neocristandade um projeto restaurador. São Paulo: Paulos, 1994. p. 151. 38 Jornal Interno A Semana – 20 a 27 de junho de 1943. 39 Santos, 1992. p. 75. 98 aspecto que estaria exposto com clareza no Manual do Círculo Operário. Nas páginas 69 e 70, é citada a importância da presença do assistente eclesiástico, garantindo sua catolicidade e com direito de veto sobre questões que fugissem a esse propósito. No entanto, os Círculos não deveriam ser confundidos com associações religiosas, situação também prevista no referido manual, na página 90, que define a relação dos Círculos com essas associações compostas somente de católicos em função de dedicarem-se a práticas exclusivamente religiosas e ao apostolado. De maneira diferente, os Círculos lidam com questões eminentemente temporais e com uma imensa diversidade de trabalhadores de origens e ofícios diferentes e com seus respectivos sindicatos. Deveria estar aberto à participação de elementos que professassem outras religiões, até porque seria uma forma de evangelizá-los. Nas palavras do próprio Brentrano: “Os Círculos Operários estão nas condições dos colégios, hospitais, asilos, conferências vicentinas, etc, católicos dirigidos mesmo por padres e freiras, admitem eles alunos, doentes, órfãos pobres também não católicos, porque seu fim imediato é a instrução, a saúde, o amparo com fins temporais. Aqui vale o dito: fazei o bem, não olhes a quem. Indiretamente é claro, procuram a cristianização, a salvação das almas, tais quais os Círculos Operários, são instituições rigorosamente católicas, porque fundadas e orientadas por católicos, desenvolvem atividades dentro da doutrina católica e visando sua propaganda.” No tocante à filiação dos trabalhadores em sindicatos ou associações neutras de cunho interconfissional, Brentano utiliza afirmações do próprio Papa Pio XI para esclarecer a posição assumida pela Santa Sé, quando o mesmo autoriza os bispos a adotarem uma posição de respeito a liberdade de escolha dos trabalhadores, devendo estar atentos, no entanto, para um trabalho de acompanhamento dos sindicatos. Isso evitaria condutas inadequadas aos preceitos cristãos, apoiando a execução do Plano de Ação Sindical concebido para este fim. Ressalta que o caso do Brasil ainda exigiria maior cuidado nesse aspecto, diferentemente de países europeus, onde o credo religioso e as divisões entre católicos e protestantes é mais evidente. Na realidade brasileira, existe uma mistura natural, sendo comuns posições ambivalentes de verdadeiro sincretismo. Finaliza a carta criticando a posição equivocada dos padres de Belo Horizonte que por desinformação estariam combatendo os Círculos Operários; não teriam, portanto, ciência dos decretos 143 e 144 do Concílio Plenário e da Encíclica Divini Redemptoris nº 62 e estariam dessa forma assumindo um atitude anticristã. Os eventos nacionais afetavam o funcionamento local da entidade devido à rede de 99 intercâmbio criada pela Igreja e ao grande investimento nos sistemas de comunicação, como jornais e rádio. Cabe ressaltar que esse aparato servia prioritariamente para difundir a Ação Católica, sustentando outra visão de apostolado numa cruzada militante de restauração do reinado social de Jesus Cristo, constituindo-se no arcabouço ideológico da ação social e da atuação no meio operário assumidos pela Igreja. Apesar da Juventude Operária Católica ter sido a melhor expressão da Ação Católica no meio operário e de diferir essencialmente dos Círculos, havia um esforço de convivência entre as duas formas de intervenção (Lustosa 1991:119-138). Scottt Mainwaring mostra que até 1930, a Igreja não havia percebido com clareza o nascimento e a expansão da classe operária. Acrescenta que nos anos 30 foram criados os Círculos Operários com a finalidade de conservar os operários nas práticas paroquiais e nas devoções tradicionais. A JOC teria outro significado: com ela, penetrou na Igreja a consciência da especificidade da classe operária, de que os operários colocavam problemas que iam além do sistema assistencialista tradicional.40 Na Segunda Semana Nacional de Ação Católica de 1946 foi definido um plano nacional de ação social que tratou das formas de atuação no meio operário, defendendo que a organização dos trabalhadores deveria constituir-se objeto de ação imediata dos párocos e católicos esclarecidos, considerando os Círculos Operários como organizações apropriadas aos objetivos da Igreja devido a seu aspecto de instituição de assistência econômico-social aos trabalhadores. O documento apoiava a criação dessas entidades nas paróquias, arrebanhando trabalhadores urbanos e rurais a partir de núcleos instalados em suas próprias zonas de trabalho. Orientava também sobre a criação de organismos federativos amplos que deveriam incluir os círculos, unificando o movimento operário com a cooperação da Juventude Operária Católica (Dale,1985). No campo simbólico, é interessante observar a preocupação em dignificar e divinizar o trabalho, aproximando-o de Deus que, por vezes, era lembrado como o primeiro operário pela criação do mundo e de Jesus, por seu nascimento em uma família de artesãos, filho de pai carpinteiro, o que contribuía ainda mais para a construção da imagem de pertencimento a um mundo cristão seguro. A importância da estabilidade e segurança foi transmitido também pela Mainwaring, Scott (1989). A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense, p. 141. In: Comblin, José. Um novo amanhecer da Igreja?Petrópolis: Vozes, 2002. 40 100 conduta de resgate e de proteção repassada no discurso católico, em oposição ao discurso revolucionário comunista que, ao contrário de amparar, lançaria o operário na insegurança do confronto e da luta de classes. Nas reuniões teciam-se comentários sobre as orientações enviadas pelas entidades maiores, liam-se documentos enviados por elas, como o manifesto operário resultante do Congresso de Barbacena realizado em 1949 e o convite feito pela Federação para o congresso que se realizaria em Sete Lagoas, lido por Frei Saulo, empossado como assistente eclesiástico em novembro de 1949, substituindo Frei Orêncio Vogels. Momento de grande importância foi a presença do presidente da Federação Mineira dos Círculos Operários na reunião de abril de 1950, o Sr. Boaventura de Souza, que em discurso aos associados, lembrou da necessidade de articulação entre os Círculos existentes no Brasil e comunicou um pedido de verba que teria sido feito pela Federação ao governo federal em benefício do Círculo Operário de Divinópolis. O mais significativo em seu pronunciamento foi a demonstração clara de trânsito do movimento cristão junto ao governo como entidade com poder consultivo perante as autoridades, como ficou registrado em ata: “Iniciou sua Excia por tecer comentários sobre a posição em que se encontra atualmente os Círculos Operários do Brasil perante nossos governantes, sendo considerado órgão consultivo, e expressou sua confiança na vitória do nosso ideal em futuro próximo”. Frei Saulo Tavares Cabral procurou dinamizar o Círculo na administração do ourives Sr. Antônio Diniz. Nessa nova fase, o Círculo Operário de Divinópolis apresentava sinais de enfraquecimento. O período áureo dos anos 40, que coincidira com a segura aprovação e apoio do Estado, vinha sofrendo alterações em função de mudanças conjunturais ocorridas no país. O novo assistente procurou ativar os núcleos dos bairros, refazer as fichas de cadastros dos sócios e o mais inovador foi estimular a participação feminina. No seu período, foram registradas várias filiações de mulheres que passaram a engrossar as fileiras da entidade. Tal fato não era proibido pelo estatuto mas não era uma prática usual, já que as mulheres eram mais atuantes em outras associações católicas como nas Filhas de Maria ou na Liga Feminina Católica. Os rumos dessa entidade seguiram o trajeto dos acontecimentos políticos e dos novos posicionamentos da Igreja frente aos mesmos. Em Divinópolis, consta oficialmente, a continuação de uma entidade de trabalhadores católicos. No cartório de registro foi feita uma averbação de mudança de nome, datada de 20 de maio de 1976, quando a entidade passou a 101 ser chamada de Círculo dos Trabalhadores Cristãos de Divinópolis acompanhada de mudança estatutária. Frei Aloísio Lorschider, em crônica publicada na Revista de Santa Cruz em 1954, comentou sobre os motivos pelos quais o Círculo Operário de Divinópolis apresentou limitações, tentando, no entanto, cumprir o seu papel na organização cristã dos operários: “Uma das razões, devido às quais o Círculo Operário não é em Divinópolis aquilo que poderia ser, deve procurar-se no fato de uma certa displicência dos operários para se associarem, para se unirem, pois além do Círculo Operário, existem o Sindicato de Fiação e Tecelagem, a Associação dos Ferroviários e a Associação dos Aposentados, cuja situação é menos lisonjeira ainda. Praticamente só o Círculo continua a ser uma voz de certa autoridade para que os operários não estejam de todo desprotegidos, e constitui um veículo da doutrina social da Igreja, uma vez que mantém com rara persistência uma coluna circulista no jornal paroquial A Semana.” 42 A atuação católica no meio operário tomou rumos diferentes já em meados dos anos 50. O modelo dos Círculos já não dava conta das mudanças em curso no país e no mundo, principalmente se considerarmos os projetos desenvolvimentistas implementados no país. Ocorreram a experiência democrática que antecedeu a ditadura militar e também, a reformulação interna da Igreja com o Concílio Vaticano II. Lustosa analisa essa transição mostrando que a década de 50 exigiu nova conduta dos católicos frente à questão social e operária, expondo a necessidade da reforma social. Clérigos e leigos foram levados a reconhecer sua importância diante da transformação estrutural dos quadros da sociedade. Estava em marcha um processo incontido de politização e mobilização dos movimentos populares, sinalizando para um outro estilo de compreensão da ação social (Lustosa, 1991:143-144). 42 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954. 102 2.4 A moral católica e a luta revolucionária: os operários entre dois discursos “Brasileiros! Por amor a cristo, ao Brasil e a honra e dignidade de nossas mães e filhos, ainda é tempo, lutemos contra o comunismo!”42 Na frase de fechamento do Manifesto Comunista, “Proletários de todos os países, univos!”, os trabalhadores do mundo estavam sendo convocados para engrossassem as fileiras da luta proletária contra a opressão do capital. O título do artigo do jornal A Semana,43 “Circulistas do Brasil, uni-vos!”, demonstra a disposição do Movimento Círculista Brasileiro para arregimentação das forças do movimento operário cristão em torno dos princípios católicos estabelecidos pela Rerum Novarum. A paródia evidencia a profundidade do embate político ideológico que se expressava no meio sindical, numa disputa de espaço em torno de modelos opostos de concepção sobre o capitalismo e no tocante a forma de organização da classe trabalhadora. Em 1948, no aniversário de cem anos do Manifesto Comunista, já havia sido publicado um artigo no jornal A Semana intitulado – “Faz um século”44, em que Frei Alberto O. F. M. criticava a obra de Marx e Engels, expondo sobre seu caráter revolucionário e estimulador da violência e da luta de classes. O confronto político-ideológico apontou caminhos opostos para a direção do movimento operário e para a atuação político-partidária dos dois campos institucionais em litígio, devendo ser observada a desvantagem da atuação comunista no Brasil assumida oficialmente pelo Partido Comunista, dada a sua permanente história de clandestinidade. E por sua vez, a vantagem da Igreja Católica ao contar com o suporte Santa Sé e com o respaldo e parceria de uma aliança bem estabelecida com o Estado após 1930. O pensamento comunista exposto a partir do Manifesto à classe trabalhadora do mundo de forma acessível e aplicável ameaçou as bases do arcabouço cristão, já erigido até então num momento particularmente difícil para a Igreja Católica, que se via compelida a encarar o mundo moderno capitalista. Jornal A Semana 29.12.1946. (Manchetes estampadas em vários números do jornal, em destaque na parte superior e em negrito). 42 43 Jornal A Semana - 08.05.1949. 44 Jornal A Semana - 19.09.1948. 103 O Manifesto Comunista de 1848 representou a tomada de posição do movimento comunista internacional frente à classe trabalhadora, deflagrando de forma compreensível para o leitor operário uma análise do processo de formação dessa classe, à medida que o capitalismo se consolidava. A obra esclarece sobre a posição revolucionária da classe burguesa e explica como gradativamente essa classe alcançou uma condição hegemônica, criando instrumentos de reprodução do capital e de submissão do proletariado. O Manifesto deflagra a luta proletária pela superação da ordem capitalista burguesa e evidencia a necessidade da luta revolucionária como instrumento de libertação da classe dominada. “Os comunistas desdenham ocultar suas opiniões e metas. Abertamente declaram que seus fins só podem ser atingidos pela derrubada violenta de todas as condições sociais existentes. Que a classe governante trema frente à revolução comunista. Os proletários nada têm a perder fora suas correntes. Têm o mundo a ganhar.”45 A função do documento feito para manuseio dos operários europeus e logo se multiplicando como uma cartilha nos ambientes urbanos de maior circulação operária, era de dar o toque de chamada para a luta contra as forças capitalistas em prol da implantação de uma sociedade justa, possível pela superação das instituições burguesas e instalação de um Estado operário. O mundo capitalista se deparou, a partir daí, com uma situação nova. As forças do sistema deveriam se colocar em prontidão pela defesa da sociedade liberal, e um conjunto de formulações teóricas foram feitas pelas ciências sociais. A Igreja Católica posicionou-se neste contexto e repudiou categoricamente a doutrina e o discurso comunista marxista. A visão sustentada pelo marxismo em relação à religião e frente à posição da Igreja Católica no mundo capitalista foi bem clara: “A religião é produto do homem. Foi inventada pelo homem para encontrar na ilusão do mundo imaginário do céu a consolação e a compensação das misérias e dos sofrimentos da sua existência terrestre suportadas como trabalhador explorado pelo regime capitalista da produção e da propriedade privada.”46 45 Manifesto Comunista, 1998. p. 63. 46 Guerry, 1960. p. 46. 104 Nessa perspectiva, por sua capacidade de controle ideológico, a Igreja seria uma aliada eficiente para o reforço da alienação da classe operária cumprindo, o papel de referendar ideologicamente o sistema: “Se a Igreja se opõe ao comunismo, é porque está enfeudada ao capitalismo e à classe possuidora. Na luta de classes, que levanta os explorados contra os exploradores, a Igreja tomou o partido por estes últimos contra os trabalhadores, e procura atenuar ou impedir a luta dos explorados. Esforça-se por todos os meios por desmobilizar a classe operária, e por eliminar os direitos dos trabalhadores.”47 Em 15 de maio de 1891, seria lançado o contraponto da tese comunista através da encíclica Rerum Novarum, por Leão XIII, cognominado de Papa Sociólogo e Papa dos Operários, por construir um conjunto de princípios que daria a chancela necessária para uma ação da Igreja diante da sociedade industrial e urbana. Nasceria dessa iniciativa a Doutrina Social Católica, reforçada quarenta anos depois pela encíclica Quadragésimo Anno, prescrevendo a fórmula de inserção da Igreja na sociedade moderna. O novo arcabouço estabeleceu a importância da harmonia entre as classes, a conservação da propriedade privada e da família necessárias a manutenção da ordem social natural. Procurou acomodar a ordem econômica às normas da moral cristã, mostrando que o valor e dignidade do homem encontram-se em sua virtude, qualidade e patrimônio comuns a todos os mortais. A luta de classes e a revolução que defendem a transformação da ordem social fogem aos princípios naturais considerados por Deus. A Igreja Católica defendia uma organização social sustentada na relação corporativa do trabalho, com base na integração harmoniosa entre patrões e empregados e calcada numa troca irmanada de responsabilidades. Tal relação seria capaz de garantir uma maior produtividade, com equilíbrio do usufruto da riqueza gerada pelas partes envolvidas no processo produtivo, resultando no equilíbrio cristão da sociedade, ancorada na ordem. Sua tese seria corroborada pela experiência bem sucedida vivenciada na Idade Média, quando a Igreja detinha grande força política e exercia o poder espiritual. A reprodução de sua vida material ocorria na forma de trabalho coletivo exercido nos campos e nas corporações de ofício. 47 Guerry, 1960. p. 11. 105 No artigo, “O homem, seus direitos, necessidades e finalidades”48, foi apresentada a posição da Igreja frente à condição de submissão do homem diante das situações de exploração a que foi historicamente exposto. Ao abordar o período da escravidão, evidencia a contribuição da Igreja para sua abolição sem revoluções violentas, convencendo gradativamente os opressores sobre sua desumana conduta, utilizando seu discurso da igualdade dos homens como filhos de Deus. Demonstra que: “À medida que os imperadores se convertiam à religião cristã, os escravos iam sendo libertados aos milhares”. Explica sobre a situação de uma vida melhor usufruída pelos servos no período medieval, período em que teriam sido estabelecidas as corporações de ofício, organismos que beneficiavam os trabalhadores. Lembrando que, nesse período, “era uma grande honra ter uma profissão. Cada profissão usava um escudo com o respectivo emblema e tinha um santo patrono”. Esse tipo de explicação tinha como ponto fundamental chegar à uma crítica ao liberalismo burguês capitalista, que ao destruir essa estrutura corporativa, teria lançado o trabalhador na condição de vítima de um sistema perverso. Na era moderna, mais uma vez, a Igreja estaria se opondo à nova escravidão imposta ao trabalhador apoiando-se nas Encíclicas Rerum Novarum, Quadragesimo Ano e Divini Redemptoris. Através de Leão XIII e Pio XI, a Igreja opôs-se ao aumento da indigência e aos abusos do capitalismo. Os membros da Igreja então: “...lamentavam essa grande multidão de indigentes, de necessitados, ao lado de uma pequena minoria de monopolizadores da riqueza e dos meios de produção ...”49 A solução apontada é a distribuição da riqueza, não aquela que propõe retirar tudo dos que possuem pela força, colocando sob controle do Estado. Esse é o modelo comunista que acaba por beneficiar a um grupo de administradores, mantendo o operário governado por interesses. “Se o comunismo vencer, quem vai administrar as finanças? O operário? Não; porque quem entende de finanças são os grandes capitalistas. De que modo, pois, distribuir a riqueza?”50 A partir desses questionamentos, a Igreja expõe seu ponto de vista, sua alternativa para o mundo moderno, em defesa de um capitalismo, na sua concepção, mais humanitário, com menos desigualdades, fundado no “corporativismo”, fórmula capaz de garantir um nível de 48 Jornal Interno A Semana – 28 de março a 4 de abril de 1943. 49 Jornal Interno A Semana – 28 de março a 4 de abril de 1943. 50 Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de abril de 1943. 106 organização social, em que reine a harmonia entre patrões e empregados. “O corporativismo equilibra os direitos e os deveres dos patrões e dos operários, os direitos do capital e do trabalho, põe a concorrência em seus justos limites, impedindo a exploração desleal e a mercantilização do trabalho e reunindo empregadores num plano de colaboração ...”51 A demonstração cabal da eficiência do modelo de organização do trabalho proposto pela Igreja foram as Corporações de Ofício, que funcionaram bem na sociedade medieval, como foi exemplificado no artigo – “Ligeira idéia doutrinária e história das corporações.”52 A corporação representaria um corpo organizado, numa comparação ao corpo humano, que tem várias funções desempenhadas pelos órgãos. As corporações também possuem uma dinâmica de funcionamento parecida, com hierarquia e harmonia das funções. Na corporação, os mais fortes têm atividades próprias, que não podem ultrapassar seus limites. Os fracos têm meios de subsistência garantidos pela organização. Ao explicar a posição hierárquica da corporação, composta de mestre, oficial e aprendiz, procura salientar a interdependência existente entre eles e as condições para o alcance de posições melhores no contexto da produção e das relações de trabalho. Como foi exposto no artigo: “... Na corporação que era uma grande família profissional, o mestre cuidava do aprendiz, dava-lhe formação profissional, ensinava-lhe o amor ao trabalho, o justo orgulho em ser um bom artífice. Depois o aprendiz tornava-se “companheiro” e ainda continuava a residir na casa do mestre. Pagava o tributo à caixa que fazia as despesas necessárias ao bem de todos os membros da corporação. Finalmente, ao tornar-se mestre, a corporação ajudava-o a montar sua oficina ...”53 Ainda abordando o corporativismo, o artigo “A arte dos profissionais”54 ressalta a valorização do trabalho executado pelo artífice da corporação de ofício, situação contrária à moderna indústria que teria criado a produção em série, desvalorizando as habilidades do operário: “... O operário vê-se na contingência de mero acessório das máquinas ...” Conclui afirmando que o trabalho passou a ter um valor meramente utilitário, girando em torno da máquina e dos interesses individualistas. O autor do artigo ressalta, no entanto, que o 51 Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de abril de 1943. 52 Jornal Interno A Semana – 11 a 18 de abril de 1943. 53 Jornal Interno A Semana – 11 a 18 de abril de 1943. 54 Jornal Interno A Semana – 18 a 25 de abril de 1943. 107 corporativismo não pretende, ao levantar tais questionamentos, desconsiderar os avanços tecnológicos, até porque tal posição se contrapõe à defesa que fazem da organização e do desenvolvimento. Propõe a procura de uma fórmula justa, tomando como referência a organização corporativa; as leis não bastariam para garantir a harmonia de interesses em meio ao ambiente de concorrência. Daí a exposição da idéia: “...É preciso encontrar uma fórmula orgânica atualizada e viva, de limitação de lucros, de distribuição da riqueza, de assistência aos trabalhadores.” O Conceito apresentado de corporativismo adequado ao mundo moderno foi: “Corporativismo tende ao corpo econômico, à síntese dos elementos e fatores da produção, à harmonia econômica, por um processo natural e orgânico. [...] Ele não constrange, mas orienta, facilita, regula e promove as funções econômicas, impedindo que os mais fortes oprimam os mais fracos, impedindo a hipertrofia dos órgãos da economia, tornando a distribuição da riqueza mais racional, mais justa, mais popularizada, ampliando recursos e campos à iniciativa particular, ao interesse de todos.”55 Na tentativa de estabelecer um paralelo entre o corporativismo e o liberalismo, e também com o socialismo, em outro artigo, os temas de suporte para tal reflexão foram a liberdade, a lei e a produção. A liberdade capitalista é apresentada como restrita aos mais fortes, sustentada na lei, que na prática se mostra abstrata e passível de interpretações circunstanciais: “Entre o rico e o pobre, entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que garante a liberdade”.56 O liberalismo atinge o trabalhador na sua dignidade, equiparando-o a uma mercadoria exposta à mercê do mercado. Ao debater sobre o socialismo, a Igreja discorda da posição do mesmo, que coloca a economia como um fim, interpretando que essa situação submeteria o homem, escravizando-o a uma visão materialista. O socialismo desconsidera a hierarquia, ao defender um igualitarismo anti-racional e anti-natural, mantido somente pela tirania: “O socialismo destrói a família, desloca a função do grupo profissional, aniquila as nações pelo amor à economia em oposição ao sentimento de pátria, e combate o sentimento religioso, dizendo-o mero efeito da estrutura econômica”.57 55 Jornal Interno A Semana – 25 de abril a 2 de maio de 1943. 56 Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de maio de 1943. 57 Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de maio de 1943. 108 Os artigos seguintes completam a análise, abordando a relação entre corporativismo e Estado58. Consideram importantes as ações interventoras do Estado, procurando corrigir erros no processo produtivo, assumindo sua função de supervisão, coordenação e assistência. Ressaltam também a importância da legislação para o sucesso do modelo corporativo, resultando estas das próprias organizações formadas pela sociedade. Em defesa do corporativismo, a Igreja faz seu apelo pela condução cristã do sistema capitalista, acreditando ser viável a construção de um corporativismo adequado à essência católica do povo brasileiro. Alerta para a urgência de uma corporação espiritual, numa cruzada de cultura e educação voltada para a popularização do ensino da doutrina social cristã, que poderia constituir-se numa experiência preparatória capaz de proporcionar uma unidade nacional. Essa idéia foi assim descrita: “Eis porque, nos compete o esforço de engenhar um corporativismo brasileiro, de inspiração genuinamente cristã e de forma adaptada às tradições do Brasil, suas necessidades particulares, seus imperativos e problemas nacionais, regionais e locais. [...] É assim que os cristãos sociais, os militantes dos Círculos Operários, os sindicalistas, os jocistas, os acistas, enfim todos os elementos que procuram trabalhar por uma sociedade, poderão adquirir consciência de sua função real de órgão, não simplesmente de opinião e de vontade, mas sobretudo, de órgão ativo do bem geral.”59 A consolidação do modelo corporativo de organização social no Brasil dependeria da formação de uma mentalidade corporativa, envolvendo os vários segmentos sociais organizados e aglutinados numa grande força corporativa cristã, condizente culturalmente com a formação do povo brasileiro. A efetivação desse propósito se daria por um processo de convergência dos esforços associativos, voltando-se todos para a junção das iniciativas pelo fortalecimento de um corpo social coeso e uno, organicamente envolvidos com o Estado. A intervenção do Estado era vista como necessária para garantir uma melhor distribuição de renda. As iniciativas particulares da sociedade civil, a conversão de proprietários em cidadãos comprometidos com o bem estar dos trabalhadores seria inócua sem uma incisiva ação do Estado através de sua função regulamentadora e como aglutinador dos esforços em prol do bem público. “Nenhuma transformação para melhor na vida das 58 Jornal Interno A Semana – 9 a 23 de maio de 1943. 59 Jornal Interno A Semana – 6 a 13 de junho de 1943 (Livro Iniciação social) 109 massas se operou, até agora, por livre e espontânea vontade dos patrões ou dos proprietários. O que se tem conseguido nesse terreno em benefício dos pobres e dos fracos, se deve exclusivamente à ação vigorosa do Estado.”60 Essa visão foi resgatada pela atuação da Igreja e de seu apostolado leigo junto ao movimento operário cristão, que ganhou visibilidade através da Juventude Operária Católica e da formação de Círculos Operários nas paróquias. O que pode ser constatado no trecho de um artigo voltado para os operários: “Na análise dos discursos percebe-se um reconhecimento no campo religioso da complexidade que envolve a questão social típica do mundo moderno, ultrapassando o através dos séculos, a Igreja continuou sua santa missão junto ao operariado. Sobretudo é célebre sua atuação na Idade Média, em que existiam aquelas belas corporações capazes de causar inveja ao nosso século das luzes, quando patrões e operários em bela harmonia auxiliavam-se mutuamente. Como, porém, sempre acontece, o que é bom dura pouco tempo, e o demônio inimigo de todo o bem, semeou cizânia, esta cresceu e desenvolveu-se e procurou abafar as belas espigas de trigo.”61 O aspecto da má distribuição da riqueza, abrangendo também as deficiências de formação educacional e de condições gerais necessárias a qualidade de vida, estimulou a produção teórica das ciências sociais. A Igreja demonstrou reconhecimento sobre a contribuição dada pela sociologia na busca de respostas para os problemas sociais decorrentes da industrialização e urbanização que atingiam a vida das cidades. Essa questão foi abordada no artigo de C.C. Melo, ao referir-se à questão social como desafio, citando a função da sociologia:“Trata-se da prática de uma das ciências mais estudadas e experimentadas no mundo civilizado, que é a sociologia”.62 Na reunião circulista de junho de 1949, também a sociologia foi abordada pelo conferencista Lauro Epifânio que procurou demonstrar suas vantagens e desvantagens. Os operários do Brasil estavam sendo conclamados à união em torno do ideal católico, estabelecendo laços concretos capazes de unir os sindicatos oficiais com base na idéia de colaboração, sustentada numa ampla organização cristã, trabalhista, de caráter nacional. Todos os círculos do Brasil precisariam estar cientes de que pertenciam ao Movimento 60 Texto do jornal O Clamor de 1943. In: Jornal Interno A Semana – 10 a 17 de outubro de 1943. 61 Artigo origem do Círculo Operário de Frei Aloísio O . F. M. Jornal A Semana 26.01.1947. 110 Nacional dos Círculos Operários e a expressão de ordem era: “Circulistas do Brasil, univos!”: “Efetivando este ideal, de que todos os operários de todo o Brasil se estendam as mãos debaixo da bandeira da Pátria, e pensando no seu Deus, os Círculos Operários estão também eles, abrindo para o proletariado nacional os primeiros caminhos da Idade Nova.”63 A posição anticomunista e a disputa de espaço na atuação junto aos trabalhadores era incisiva, fato que pode ser constatado pelas discussões travadas nas reuniões e nos temas escolhidos para as palestras ministradas para os sócios, sempre insistindo na tese de combate aos falsos profetas que sempre estariam armados e prontos para desvirtuar a boa formação cristã dos trabalhadores. Partia-se do princípio de que o operário brasileiro é particularmente virtuoso por estar imbuído de uma bondade cristã que lhe é inerente, com força de caráter, aptidão para a disciplina, forte espírito associativo. Porém, estas características não o imunizavam da influência perniciosa do assédio comunista. As notícias sobre o crescimento das idéias comunistas entre os operários, principalmente entre os ferroviários, alarmava o clero e dava-lhes mais munição para o combate. Ilustra essa preocupação com os números as afirmações presentes numa crônica da Santa Cruz: “A oficina da Oeste já conta uns 600 operários. Dizem que quase a metade é comunista, espírita ou protestante. E o pior é que os chefes das diversas repartições favorecem a propaganda”.64 Nas comemorações do dia primeiro de maio de 1945, os membros do círculo operário, numa atitude explícita de combate ao comunismo local, teriam encabeçado uma passeata nas ruas, ostentando um estandarte com os seguintes dizeres: “Onde há justiça social, não vinga o comunismo”. Essa expressão demonstra a posição da Igreja Católica em relação às alternativas de enfrentamento dos problemas sociais trazidos pelo capitalismo moderno, num ímpeto de cristianizá-lo. 62 Jornal A Semana 13.10.1946. 63 Jornal A Semana - 08.05.1949 - Artigo Circulistas do Brasil, uni-vos, transcrito de “O Apóstolo”, de Penedo. 64 Revista de Santa Cruz, Ano VI, nº 10, outubro de 1940, p. 152-153. 111 O discurso católico reforça sempre a defesa da colaboração entre as classes e sua oposição à visão marxista da organização operária: “Karl Marx, o inventor do socialismo, erra afirmando que a melhoria da vida do operário só pode ser feita pelo operário mesmo”. E dentre os erros do socialismo, aquele destacado como erro capital foi: “Crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres, para que se combatessem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade em uma doutrina contrariamente oposta; oposta porque assim como o corpo humano, os membros, apesar de sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo a formarem um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar harmônico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unir-se harmonicamente e a conservar-se mutuamente num perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver só capital nem só trabalho. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; deverasmente de um conflito perpétuo, não podem resultar senão a confusão e lutas selvagens.” 65 Ao apontar tal desvio, caberia portanto, à Igreja como depositária da verdade religiosa, endireitar o caminho da relação entre as duas classes para uma aproximação, imprimindo a cada uma das partes envolvidas, os seus deveres. A obrigação de justiça prescrita ao operário ficou assim estabelecida: “Deve fornecer integralmente e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violência, e nunca revestir a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhes fazem grandes promessas as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.”66 Aos patrões, suas orientações voltam-se para a justiça, colocando-os como responsáveis pela preservação de valores religiosos e de boa conduta: “Quanto aos ricos e patrões não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem realçada ainda pela do cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos 65 Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944. 66 Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944. 112 de lucro, e não os estimar, senão na proporção do vigor dos seus braços. [...] além disso prescreve, que se tenha em consideração os interesses espirituais do operário e o bem de sua alma ...”67 O confronto entre o discurso católico e o discurso comunista quanto ao enfrentamento da questão social e a condução do movimento operário ocorreu em torno da denúncia dos comunistas sobre a conduta assistencialista e caritativa dos católicos, impedindo desta forma a emancipação dos trabalhadores. Num artigo intitulado “Os apressados” 68, a Igreja defende-se das acusações: “O sr. Vicente Toledo – marxista segundo ele próprio confessa – afirmou numa conferência pronunciada em sua pátria e reproduzida num semanário do Rio que a Igreja Católica tenta, confundindo valores, substituir a justiça pela caridade. Ora, uma das falhas mais sensíveis dos nossos homens de esquerda é o desconhecimento que eles têm dos documentos pontifícios em torno da doutrina social da Igreja. [...] Sabemos todavia, que tão grave e extensos foram os males espalhados pelo mundo que cada um de nós sofreu um pouco de sua influência. [...] O Sr. Toledano errou (e não foi justo nem honesto porque devia conhecer o que atacou), basta ler as encíclicas de Pio XI, em que se diz, textualmente, que a moral católica não permite substituir a justiça pela caridade.” Os circulistas recebiam as instruções sobre a posição da Igreja quanto à questão social através de palestras ministradas por uma ala católica mais intelectualizada incumbida de fazer o chamado “trabalho educativo”, voltado para as classes populares não esclarecidas, e por isso, alvo fácil do discurso socialista e comunista. Os intelectuais tinham como tarefa primordial reparar as injustiças sociais e enfrentar a propaganda comunista. Atuavam como verdadeiros militantes aliados da hierarquia na obra de recristianização. Riolando Azzi comentou sobre a importância desses elementos chave para a Igreja: “São os intelectuais, são os homens que dominam o mundo da cultura que estão em condições de vivenciar plenamente as verdades da fé católica, e lutar por elas com denodo”(Azzi, 1994:94). Nas reuniões dos dias 23 de fevereiro, com o Dr. Onofre Mendes, e do dia 14 de dezembro de 1947, que teve como convidado o Dr. José de Carvalho Ferreira, a questão social foi tratada como principal ponto para reflexão. Em sua palestra69, Dr. Onofre Mendes explicou 67 Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de janeiro de 1944. 68 Jornal Interno A Semana – 27 de agosto a 3 de setembro de 1944. 69 Súmula da reunião publicada no Jornal A Semana 02.03.1947. 113 aos ouvintes que os problemas sociais seriam antigos, existindo desde a antiguidade grega, mas que teriam tomado uma nova dimensão na sociedade moderna industrial. Referiu-se ao pensamento de Marx, Engels e Lenin como doutrinas extremistas que apontavam soluções extremistas para os problemas sociais, como aqui destacado na íntegra: “... tática esta condenada e repudiada pelas civilizações hodiernas, que percebendo agora o perigo vermelho se levantam para deter o avanço das idéias revolucionárias do credo vermelho”. Ao Estado caberia o papel de mediador, auxiliando os operários contra a exploração dos patrões e protegendo-os contra as agitações, greves e outros meios ilícitos usados pelos empregados. Entretanto, afirmou o palestrante, que a população, em tempos de industrialização acelerada, teria sido salva pelas palavras pontifícias contidas nas encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno. Concluiu seu discurso proferindo uma verdadeira pregação aos ouvintes, quando destacou a importância de os homens saberem relacionar a vida temporal e espiritual, sempre com vistas a enfatizar a salvação da alma. Além de ser tratada nas conferências organizadas para os circulistas, a questão social era tema de artigos constantes no jornal “A Semana”, na seção destinada ao Círculo Operário. Em seu texto, C. C. Melo70 salientou o desafio de se conceituar e analisar a questão social, tema que estaria desafiando os sociólogos no mundo todo. Concluiu afirmando sobre o papel da Igreja, como aquela que através de Leão XIII, apontou a solução para a questão sob o ponto de vista cristão, encontrando o único caminho da paz e do progresso. Reconhece as adversidades decorrentes da extrema exploração e pauperização a que estaria submetida a classe trabalhadora, mas adverte que o caminho seria o da pacificação. O programa de reforma social católico71 era amplo e seus pontos fundamentais eram: - Salário familiar e prestações sociais, para que o proletário possa viver comodamente e possa melhorar sua posição. Associações que defendam os interesses do operário e elevem seu nível moral, cultural e profissional. Instituições cooperativas de créditos, de seguro, de auxílios mútuos que o ajudem nas necessidades e contingências da vida. Uma justa proteção em que o trabalhador encontre salvaguarda para seus interesses e onde não seja vítima de explorações. Essa doutrina só tem sentido se for incorporada pelos operários no 70 C.C. Melo, A Questão Social - Jornal A Semana 18.08.1946. 71 Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de novembro de 1944. 114 âmbito de seu dever de respeitar seus patrões, como expõe o quarto mandamento da lei de Deus, cumprindo obrigações estabelecidas por contrato. Na sessão cívica72 de comemoração do primeiro de maio de 1947, com a presença do prefeito municipal Alvimar Mourão, os trabalhadores ouviram a palestra do Pe. Hilton Gonçalves de Souza, que lembrou ter sido Jesus o primeiro a proclamar a igualdade entre os seres humanos e acrescentou ser a desigualdade extrema um resultado dos erros sociais cometidos pelo liberalismo. Completou dizendo que estariam equivocados também os comunistas ao pregar a igualdade de classes, um ideal que jamais poderia ser concretizado, pois a diferença de aptidões, dons, faculdades, inteligências e natureza resultariam necessariamente na diferenciação entre as classes. Essa realidade forçosamente provocaria diferenças entre os mais inteligentes e menos inteligentes, os mais aptos e os menos aptos e, por conseguinte, os mais ricos e os menos ricos. Várias outras comemorações de 1º de maio ocorreram sob orientação religiosa, organizadas em torno de festividades cívico-religiosas, ligadas ao Círculo Operário. Os operários da Fábrica de Tecidos, em 1944, organizaram uma comissão constituída por representantes de todas as fábricas e oficinas e programaram uma festividade que ocorreria a partir de uma missa campal no Cruzeiro da futura capela de Nossa Senhora da Guia. Estavam previstos jogos esportivos e uma passeata, terminando em comício na Praça Benedito Valadares, com discursos do representante da administração pública, Dr. Antônio Gonçalves de Matos, pelos empregados, o jornalista Sr. Ataliba Lago e pelos empresários e o universitário Carlos Altivo.73 O discurso anticomunista reforçava as teses pontifícias e era parte da rotina dos trabalhos desenvolvidos pelo Círculo Operário nas cerimônias e atividades públicas. Eram encabeçadas pela entidade e esboçadas pela imprensa católica, nas reuniões e assembléias realizadas regularmente no Cine Teatro Santo Antônio e nos atos públicos da organização, realizados, muitas vezes, em parceria com outras entidades católicas. A reunião do dia 20 de maio de 1947, foi particularmente interessante pois, tratou de uma notícia de peso para o contexto geral do movimento circulista brasileiro: o fechamento 72 Súmula de Sessão Cívica publicada no Jornal A Semana 11.05.1947. 73 Jornal Interno A Semana – 30 de abri a 07 de maio de 1944. 115 do Partido Comunista, momento em que o assistente eclesiástico Frei Rafael leu uma carta da Federação. A ata da reunião não explicita, mas deixa nas entrelinhas o clima de discussão acalorada gerado pela notícia, com exposições de motivos e pronunciamento feito pelo presidente da entidade, o Sr. Cristiano da Costa Melo. O processo democrático instaurado em 1945 com o encerramento do Estado Novo, permitiu uma atuação legal do Partido Comunista, o que acirrou as disputas no interior do movimento sindical. Esta situação, aliada à conjuntura internacional desfavorável e a posição do governo Dutra de alinhamento com os Estados Unidos, provocou o fechamento do regime com o decreto-lei nº 23046 de 07/05/1947 que fechou a CTB e as unidades sindicais estaduais. As eleições sindicais voltaram a ser tuteladas pelo governo e os candidatos para tomarem posse deveriam apresentar atestado ideológico. Em função dos acontecimentos, o Partido Comunista abandonou seu discurso até então conciliador para assumir uma orientação mais radical (Santana, 2001:65-66). “Os efeitos da queda do PCB foram de enorme monta em termos de sua organização e política. Os caminhos institucionais ao movimento sindical estavam cortados, assim como os de acesso ao parlamento. A tentativa de utilização de outras siglas feitas pelo partido não foi muito eficaz. No meio sindical os atestados ideológicos e as práticas policiais dos interventores jogam a militância comunista cada vez mais para dentro das fábricas. O momento que se abre vai ser caracterizado por uma radicalização crescente do discurso e da prática comunista.”74 Frei Orêncio, assistente eclesiástico, foi estimulador dos circulistas na luta contra a atuação dos comunistas no meio operário comentou lamentando: “O Círculo Operário, agremiação sadia que sob a orientação da Igreja cuida dos interesses dos trabalhadores tanto na parte espiritual como material, seja tão pouco compreendida pelos operários, ao contrário dos comunistas que numa reunião secreta, compareceram 180 adeptos, sendo que o Círculo Operário conta em suas fileiras com apenas 121 circulistas ativos.” 75 No Jornal A Semana, foi publicado o teor da fala de Frei Orêncio com o intuito de atingir os circulistas ausentes e informar aos leitores sobre o perigo do comunismo no 74 Santana, 20021. p. 68. 75 Ata da 32ª reunião mensal do Círculo Operário de 08.05.1949. 116 mundo, que estaria também ameaçando a pátria e a cidade. Num trecho do artigo pode-se ler: “Divinópolis é a cidade dos operários, e onde há operários, é necessário que eles se reunam afim de ganhar instrução a respeito das questões sociais, afim de construir uma sede própria onde haja farmácia, gabinete dentário, recreio etc”. 76 O mesmo Frei teria prosseguido seu discurso em reunião posterior, chamando a atenção dos trabalhadores sobre a presença de falsos profetas propagadores da ruína e da escravidão da classe operária, atraindo e estimulando-os a resistirem e a engrossarem as fileiras do Círculo Operário em nome da união e do ideal cristão. “Os comunistas após uma reação forte dos nossos operários pareciam ter caído em silêncio, levantam novamente a cabeça propagando a sua doutrina moscovita entre os operários da rede Mineira de Viação, estão organizando rifas e tômbolas para financiar assim, a propaganda comunista em nosso meio. Tática moscovita! Operários, antes que seja tarde! Não ajudeis, não compreis, mas lutai contra esses traidores da Terra de Santa Cruz!.” 77 Os trabalhadores estavam sujeitos a uma sistemática pregação de cunho ideológico, divididos entre as forças do bem e do mal devido à tônica do discurso maniqueísta que lapidava o ideário do senso comum, com denúncias de práticas nocivas e perversas do adversário, tomado como o ludibriador de mentes inocentes com propagandas de uma falsa liberdade. No artigo “Pensamento dos Círculos Operários”, o Pe. Eurico Cavalcanti ressalta a trajetória do Círculo Operário, que estaria atuando desde 1932, envolvendo todas as profissões e alicerçado pela doutrina social da Igreja. Segundo ele, seu sentido cristão está em sua postura ordeira e pacífica, posicionando-se, no entanto, contra a injustiça social. A resistência da Igreja deflagra-se contra o capitalismo ganancioso, mas também contra a luta de classes e as soluções revolucionárias dos comunistas. Reconhece, no entanto, que o comunismo teria tido ressonância no meio operário por representar um efeito de revolta contra a miséria imposta pelo sistema. As referências simbólicas, lapidadas na atuação do clero e dos intelectuais católicos em seu trabalho pedagógico junto aos operários, apelava para a compatibilidade de interesses 76 Jornal A Semana 15.05.1949. 77 Ata da 36ª reunião mensal do Círculo Operário de 11.09.1949. 117 entre patrões e empregados oriundos, segundo eles, de um mesmo tronco cristão, unidos numa possível convivência corporativa harmônica. A ameaça comunista era tida como estrangeira e anticristã, capaz de fazer um apelo persuasivo aos operários por tratar de assuntos particularmente atrativos como exploração, igualdade e necessidade de luta, sedutores ante à insatisfação sempre presente no cotidiano de opressão e de dificuldades do proletariado urbano. Ao analisar os pronunciamentos proferidos nas reuniões do Círculo Operário por membros efetivos e colaboradores, percebe-se uma agremiação composta de muitos ouvintes e poucos falantes. Os trabalhadores poucas vezes tomavam a palavra nas reuniões para assumirem posicionamentos ou se expressarem sobre a compreensão do que lhes era apresentado como verdade. Pareciam intérpretes de uma composição pronta e repetida, numa rotina cerimonial que talvez não os atraísse tanto porque lhes apresentava alguns paliativos e poucas soluções no sentido de transformar sua condição de vida. Castoriadis (1982:111-112), ao interpretar as raízes subjetivas do projeto revolucionário, demonstra que a idéia perseguida pela luta revolucionária de alcançar uma sociedade justa, um mundo sem conflitos no qual todos estariam reconciliados, na verdade, representa uma projeção de desejos, suprimindo o lado trágico da existência humana com uma compensação imaginária. Essa busca de superação da sociedade real perversa por meio da revolução só tem chances de tornar-se verdadeira pela ação coletiva pois, representa uma nova sociedade. Depende, portanto, da disposição revolucionária individual de adesão a uma transformação que coloca-se nas mãos de muitos, da massa proletária oprimida, capaz de se contrapor ao sistema capitalista opressor. Nesse ideário de luta e de concentração de forças em torno de um ideal comum também mostra a visão de uma verdade, que se expressa em nome da massa proletária para destruir o mal encarnado pelo capitalismo. A Ação Social da Igreja junto aos operários concebia o bem estar da sociedade civil por meio da concórdia entre as classes, a partir de uma cooperação mútua que preservaria os operários dos perigos do socialismo e do comunismo (Dale, 1982:35-36). No meio operário, o discurso em torno da moral católica, ao apelar para um civismo disciplinado e ao apresentar o inimigo comunista, muitas vezes superdimensionava sua existência e real atuação, criando a figura de um adversário monstruoso e, ao mesmo tempo, de difícil delineamento. O tamanho da ameaça comunista em nível local parece estar mais associado a uma propaganda de prevenção feita pela Igreja do que propriamente a uma 118 terapêutica de cura de um mal com existência real de tamanha magnitude. Essa incerteza que atingia o próprio clero pode ser demonstrada nas informações desencontradas sobre o número de adeptos e suas ações. Numa crônica de frei Aloísio sobre a cidade e o funcionamento da paróquia publicada na Revista de Santa Cruz, esse problema foi abordado: “Por enquanto as idéias malsãs do comunismo não se infiltraram nesta cidade. Penso que às vezes haja quem considere Divinópolis um foco do comunismo. Quero citar dois fatos que me parecem provar bem o contrário. Recebo semanalmente o “Jornal do Povo”, jornal comunista editado em Belo Horizonte. Desde a morte de Stalin vem este jornal esforçando-se pela obtenção de assinaturas para uma homenagem a Stalin. Até agora nunca apareceu ainda o nome de Divinópolis nesta lista da homenagem. [...] Outra campanha feita pelo mesmo jornal foi a dos vinte milhões em favor da assim chamada Imprensa Popular. [...] Divinópolis aparece na lista, mas em último lugar, com uma contribuição mínima de Cr$ 280,00.”78 Os acontecimentos externos tiveram papel importante no tratamento da questão operária, como a posição de Roma destacada na fala de Pio XI, considerando o maior escândalo do século, a Igreja perder a classe operária. Tinham influência também as experiências concretas, como a instalação do modelo socialista na URSS e sua propagação e os contornos assumidos pela Guerra Fria após 1947. As notícias reais de células do comunismo na cidade são obscuras ou se perderam na própria realidade clandestina de sua atuação ou, ainda, estiveram mais associadas verdadeiramente ao ideário anticomunista. São muito mais constatáveis a presença dos grupos anticlericais representados pelos livres pensadores e maçons que inicialmente atuaram através do Partido dos Machos e depois se instalaram nos partidos oficiais criados a partir da redemocratização de 1945 do que, propriamente, numa atuação consistente do comunismo no meio operário local. Ilustra a influência dessas idéias sobre os trabalhadores da ferrovia uma matéria do jornal Porta Voz de 1934. Nessa matéria, aparece uma crítica à Revolução de 1930, reconhecendo, no entanto, sua repercussão sobre a organização social, mencionando a criação de um núcleo pelos operários da EFOM, quando houve uma solenidade com pronunciamento de Pedro X. Gontijo, membro do partido dos Machos, sobre o significado da palavra 78 Revista de Santa Cruz, Ano XIX, março de 1954, p. 56-57. 119 sindicato. Essa passagem mostra a diversidade de posições a que estavam sujeitos os operários, mesmo que houvesse uma hegemonia do pensamento católico em seu meio. Casos e fatos fazem alusão à existência de alguns simpatizantes que liam as obras de Marx, Engels e Lenin e se empolgavam com suas proposições. Das lembranças do Sr. Milton Pena, consta a passagem em que ele, muito jovem, teria recebido de um ferroviário mais maduro uma obra de Marx para ler e quando indagado pelo simpatizante do comunismo se havia gostado da leitura, respondeu prontamente que sim. Mas, na verdade, ele teria lido e não entendido nada da exposição teórica feita pelo autor do Manifesto Comunista. Nas reuniões do Círculo, o comunismo foi tema recorrente e motivo até de comparações, quando seus membros, por vezes, afirmavam sobre a capacidade de crescimento do comunismo no meio operário e da dificuldade do Círculo em ganhar adeptos e fazê-los se envolverem organicamente com a causa circulista. Dom Aloísio Lorscheider, na época em que atuou na paróquia, chegou a acompanhar o trabalho desenvolvido no Círculo Operário. Em entrevista, lembrou das dificuldades de envolver os operários na entidade, da tendência acrítica e anticomunista que sustentava suas ações e das limitações sobre a compreensão do sentido social de formação e preparação dos operários: “No Círculo Operário, a gente trabalhou também, bastante, mas a entidade nunca teve muita influência. Não crescia, era difícil envolver os trabalhadores, a influência maior era das associações. [...] Tenho a impressão que a visão sobre a doutrina social naquele tempo estava muito mais voltada para a idéia de não deixar crescer o comunismo, o grande perigo; era o comunismo, era o grande fantasma que existia naquela época. A doutrina social era pelo salário justo, horas de trabalho adequadas, porque a Rede Mineira, as vezes, demorava a pagar os operários, ficavam meses sem receber, e a gente então apoiava os operário, mas não falávamos em público sobre essa conduta do governo. Hoje nós falaramos, mas todo esse trabalho estava muito mais voltado para evitar o comunismo do que propriamente para uma formação, digamos, social do operariado. O trabalho era para não estourar na Rede Mineira. Imagine 1500 operários comunistas; essa era a preocupação. E no Círculo Operário, não havia muito interesse dos trabalhadores em participar. Parece que não havia uma consciência crítica.” (Dom Aloísio Lorscheider) Nos momentos de greve operária, principalmente na Rede, os registros orais apontam a presença de elementos de fora que traziam idéias mais avançadas e mostravam-se interessados em aproveitar o clima inflamado para atuarem no incitamento político da luta. Mas os entrevistados insistem em afirmar que os operários estavam movidos por causas palpáveis, relativas a atrasos de pagamentos e jornadas excessivas e que estes movimentos 120 eram espontâneos, sem um cunho propriamente ideológico-político. A orientação da Igreja sobre a conduta do Estado diante das greves foi assim prescrita no artigo endereçado aos membros do Círculo Operário: “É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e porque estas greves freqüentes causam danos não só aos patrões e aos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns, e em razão da violência e tumultos a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão de nascer os conflitos entre operários e patrões.”79 Pelo barulho preventivo feito pelos representantes locais da Igreja, pode-se inferir que havia todo um trabalho de lapidação do imaginário, pelo fato de Divinópolis ser um pólo operário, vulnerável, portanto, ao assédio do discurso e ação comunista. O trabalho foi metódico e procurou ser eficiente em todos os campos da vida social. No caso dos operários, o Círculo exerceu papel importante na tentativa de minimizar a carência material que, segundo a doutrina social da Igreja, representava as bases da insatisfação que lançava os trabalhadores nos braços do comunismo. E procurou, ao mesmo tempo, alicerçar sua evangelização, utilizando de uma prática pedagógico-formativa. Adotou-se pois, uma receita capaz de inculcar uma visão de mundo condizente com a moral católica e por isso capaz de garantir a ordem, o que para as forças políticas tradicionais era necessário naquele momento. Na tentativa de garantir uma adesão firme da sociedade ao seu ideário, a Igreja lançou mão dos instrumentos de comunicação disponíveis na época, com destaque para a imprensa, além do rádio e do apostolado. Fora uma ação encabeçada por intelectuais, capazes de funcionar como agentes multiplicadores dos preceitos cristãos, pela capacidade de persuasão de sua oratória erudita sobre as chamadas classes subalternas. 79 Jornal Interno A Semana – 9 a 16 de abril 1944. C A P Í T U L O III A mulher na paróquia: as obras e a família As transformações provocadas pela modernização atuaram sobre o uso de tecnologias, alteraram padrões de produção e consequentemente, as relações de trabalho. As condições de vida também foram alteradas, o comportamento social, os usos e costumes incorporaram novos estilos e as contradições afloraram em função da resistência e do apego aos valores da tradição. O texto trata da interpretação que a Igreja fez desse processo e das práticas que adotou no sentido de adaptar-se ao novo, apegada a necessidade de garantir permanências no campo cultural. Os leigos foram mobilizados para o apostolado e para a restauração social de Cristo através das associações e dos ramos fundamentais da Ação Católica, destacando-se a mulher como figura de proa na proteção da família e no comprometimento altruísta com as obras propostas para a reforma social. No âmbito paroquial, essa experiência em Divinópolis entre os anos 30 e 50, manifestou-se envolvendo vigários, assistentes eclesiásticos, leigos militantes, operários, famílias tradicionais, católicos letrados, artistas, liberais todos interagindo e tecendo o cotidiano das relações na cidade. 3.1 A presença do leigo na Igreja e o trabalho pastoral da mulher “Na estrutura eclesial, a mulher é leiga. Virgem, mártir, viúva ou nem virgem nem mártir, a mulher é leiga.”1 A definição teológica de leigo cristão, de acordo com Antoniazzi, se desenvolveu principalmente entre o fim da Segunda Guerra e o Vaticano II. Foi uma tentativa de valorizar, dentro da Igreja e da teologia, a figura do leigo que teria carregado em períodos anteriores, Tepedino, Ana Maria; Pinto Maria da Conceição; Bingemer Maria Clara. O laicato e a mulher, In: Os leigos na Igreja e no mundo: vinte anos depois do Vaticano II, São Paulo: Paulinas, 1987. 1 122 uma conotação negativa. Sua identificação sempre esteve ligada à separação básica existente entre Igreja e Mundo, entre o espiritual e o temporal. Segundo o autor, nem o Concílio Vaticano II conseguiu alcançar uma definição precisa que rompesse com a polêmica em torno do tema, limitando-se a uma descrição tipológica: “Pelo nome de leigos aqui são compreendidos todos os cristãos, exceto os membros da ordem sacra e do estado religioso ... [...] Estes fiéis pelo batismo foram incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e a seu modo feito partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. A índole secular caracteriza especialmente os leigos ...” 2 Historicamente, a participação do leigo na Igreja envolveu posicionamentos da hierarquia no sentido das relações de poder e de disciplinamento da ação temporal. A herança do catolicismo medieval português definiu a importância sócio-política das confrarias e irmandades no Brasil colonial, precursoras da participação leiga na vida pastoral e comunitária. A experiência das confrarias na metrópole teria sido fator de agrupamento de fiéis em torno de afinidades e interesses embasados em laços de solidariedade, a ponto de, segundo abordagem de Marina Bandeira, baseada em Oliveira Marques, servir de esteio às corporações profissionais de artesãos, cada qual ostentando seu santo de devoção (Bandeira, 2000:124-125). De acordo com análise de José Matoso, muitas das irmandades portuguesas representavam entidades de caráter religioso-mutualista, traduzindo a necessidade do homem medieval em proteger-se, aproximando-se da Igreja e ligando-se à um santo para obter benevolência dos poderes sagrados. O vínculo se fazia em função do afrouxamento de laços de parentesco, responsáveis por situações de desenraizamento. No Brasil, e em particular no estado de Minas Gerais, tal situação se reproduzia em função da presença desenraizada do português, fenômeno que explicaria a difusão dessas manifestações leigas na sociedade colonial (Mata, 1996:28). No artigo, O que é o leigo? Teses para debate, Antoniazzi analisa mais à fundo a definição estabelecida pelo Concílio Vaticano II. In: Coleção Estudos da CNBB (1987). Os leigos na Igreja e no Mundo: vinte anos depois do Vaticano II. São Paulo: Paulinas. 2 123 Caio Boschi explica que em Minas Gerais, essas entidades, além da função eminentemente religiosa, cumpriam importante papel social e político frente à comunidade. Teriam precedido ao próprio Estado e à Igreja, ao se ocuparem do pagamento de ofícios religiosos, da construção de templos. Envolveram-se na criação de redes mutualistas de assistência aos confrades, assumindo inclusive, funções de manutenção da ordem ao controlar conflitos e tensões sociais (Mata, 1996:27-28). Riolando Azzi confirma a relevância social da atuação do leigo ao afirmar que os leigos ofuscavam a figura do clero, que se limitava a celebração da missa e a administração dos sacramentos, já que o leigo assumia as atividades de vivência comunitária da religião, organizando as novenas, as procissões, as rezas de terço e várias outras atividades que garantiam a vitalidade simbólica do catolicismo (Azzi, 1997:112). A sobreposição da hierarquia clerical sobre o laicato ocorreu no bojo das transformações provocadas pelo processo de romanização implementado por iniciativa dos bispos reformadores. Movimento esse, logo reforçado pela ação recristianizadora da Igreja, capitaneado pela Ação Católica fundada por Pio XI. Por meio dessa, os leigos passaram à condição de agentes do apostolado, porém controlados pela hierarquia: “Mas não se pode esquecer que a Ação Católica nascia no quadro de referência de uma Igreja arraigadamente clerical. O leigo se tornava ativo, mas como extensão do apostolado da hierarquia, não passava de braço alongado do clero. Assumia sua posição como detentor de um mandato oficial do corpo hierárquico.”3 Outras modalidades de associações católicas leigas surgiram e apoiaram a proposta de Restauração Católica: as Congregações Marianas que existiam desde o século XIX junto aos colégios jesuítas e se multiplicaram nas paróquias a partir dos anos 20, seguidas pelas Filhas de Maria, ambas voltadas para a prática sacramental. Figura de proa no processo de reestruturação da Igreja no Brasil a partir dos anos 20 foi o cardeal Dom Leme, que da capital da República, comandava a edificação desse novo modelo de Cristandade a partir de várias frentes, cabendo às organizações católicas uma formatação adequada para movimentarem a ação social e política da Igreja naquele momento. 124 Por seu intermédio, foi criada, em 1922, a Confederação das Associações Católicas, reunindo também nessa Coligação Católica, o Centro Dom Vital e a Confederação dos Operários Católicos, forças que permitiram que fosse instituída a Liga Eleitoral Católica em 1932 (Bandeira, 2000:88-89). Minas Gerais seguiu a direção estabelecida por Dom Leme através de Dom Antônio dos Santos Cabral. O historiador Henrique Matos escreveu sobre esse período, analisando em seus artigos, a militância católica em Minas Gerais entre 1922 e 1936. Ressaltou que o espírito associativo foi estimulado pela Igreja nessa época com uma conotação tipicamente piedosa e moralista. O leigo católico era levado a participar na estrutura clerical da Igreja, segundo o modelo romano, pelo incremento de novas devoções e pela criação de associações leigas (Matos,1990:338-339). O autor trabalha as várias modalidades de organizações e mostra como estas foram gradativamente se submetendo ao controle da hierarquia, seguindo aos propósitos da Igreja de construir um cristianismo vigoroso com disposição combativa, militante e de caráter apologético para demarcar seu espaço na sociedade, que sofria influência de um pensamento mais racional e laico. Ao citar como exemplo o surgimento do Apostolado da Oração, Matos demonstra a ligação direta das devoções criadas oficialmente, como a valorização do Coração de Jesus, ligado diretamente à Hóstia Santa, com as novas práticas associativas nascidas desse processo: “Estas associações – entre as quais podemos citar particularmente o Apostolado da Oração, que conhece grande crescimento – distinguem-se notavelmente das antigas irmandades e confrarias pela posição nelas ocupada pelos leigos. Embora sejam grupos de leigos, sua direção está intimamente ligada a elementos do clero que exercem um efetivo controle sobre sua atuação e dão a orientação ao movimento. A atenção nessas associações está diretamente voltada para a prática religiosa de seus membros, com acento na vida sacramental e no testemunho pessoal.”4 A Liga Católica Jesus, Maria, José era uma associação de homens e moços católicos de todas as classes com o objetivo de facilitar a prática da vida cristã sob a invocação da Soares, Sebastião Armando G. In: Os leigos na Igreja. E no mundo: vinte anos depois do Vaticano II. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 59. 3 125 Sagrada Família. Sua criação foi influenciada pelos redentoristas. A Liga era dividida em seções de sócios chefiados por prefeitos e vice-prefeitos, constituição que se adequava à inconstância própria das associações masculinas. Representou, no Brasil, um primeiro passo para a organização de homens católicos, surgindo primeiro no Curato da Gloria em Juiz de Fora em 1902, depois se multiplicando em vários Estados (Matos, 1990:209-211). “A Liga foi no Brasil o primeiro passo da difícil e abandonada organização masculina... que congregou os homens, deu-lhes certo gosto e consciência de organização, infundiu-lhes algum entusiasmo, ensinou-lhes as vozes em preces e cânticos, inspirou-lhes, as vezes, um entusiasmo varonil pelas coisas de Deus, e os trouxe garbosos em passeatas pelas ruas com os estandartes religiosos desfraldado ao lado da bandeira nacional. Aos beneméritos padres redentoristas é que se deve tudo isso!”5 Outra modalidade de organização masculina foi a Congregação Mariana. Os jovens eram estimulados a buscar o aperfeiçoamento moral e religioso, voltados para uma ação social católica baseada na devoção filial à Maria Santíssima, à Virgem Imaculada. Seus membros se dedicavam à oração e também a leituras voltadas para o combate ao desrespeito humano, considerado obstáculo ao aperfeiçoamento moral dos jovens (Matos, 1990:211-212). A atuação das mulheres sempre foi maior tanto quantitativa quanto qualitativamente. Seu envolvimento com a Igreja desde os primórdios havia sido orgânico. Os evangelhos registram a presença feminina desde o início do ministério de Jesus na Galiléia. Nos primórdios da Igreja, tomaram parte da vida das comunidades como ministras, profetizas e líderes. Seu afastamento de funções mais relevantes se deu no processo de institucionalização da Igreja, acompanhado pela tendência à patriarcalização, que se sobrepôs à conduta de igualdade de direitos aplicada pelos cristãos até então. A posição dos pontífices sobre a situação da mulher na Igreja e na vida social também esteve oscilante entre avanços e recuos. Na estrutura eclesial, a mulher sempre foi leiga, portanto não participante do ministério ordenado, o que não lhes retira a importância como membros atuantes nas estruturas criadas para fins de apostolado (Tepedino; Pinto; Bingemer, 1987:71-72). P.M.º Escola de Maria. Leituras espirituais para Congregações Marianas. Vozes, Petrópolis, 1924. In: Matos, 1990. p. 339. 4 126 A mobilização estratégica das mulheres, envolvidas em atividades do cotidiano paroquial, foi uma prática adotada pelo clero romanizado: “à medida que o catolicismo romano assumiu sua forma marcadamente clerical, a mulher emerge como elemento significativo dentro da nova perspectiva eclesiástica” (Azzi, 1992:165). As moças de famílias católicas praticantes normalmente se transformavam em Filhas de Maria, por se ligarem à Pia União das Filhas de Maria. Essa entidade voltava-se para a preservação e purificação das jovens enquadradas em um complexo elenco de normas rígidas de comportamento condizentes com a moral e os bons costumes, inspiradas na Virgem Imaculada. Deveriam se tornar exemplo de virtude, pureza, humildade obediência e caridade (Matos, 1990:212). As transformações do mundo moderno exigiam que ocorresse a atuação do leigo como braços da Igreja, o que provocou o fortalecimento da Ação Católica. Considerada a menina dos olhos de Pio XI, foi instituída como organização auxiliar à hierarquia, objetivando a dinamização do apostolado leigo, prontamente abraçada pelo público católico feminino. No Brasil, a Ação Católica, desde 1932, foi tema focalizado por revistas católicas e foi abordada em cursos promovidos por Alceu Amoroso Lima no Rio de Janeiro e, no mesmo ano, Christine de Hemptinne, presidente mundial da Juventude Feminina Católica, esteve na capital abordando a questão, à convite de Dom Leme, dando aulas para Filhas de Maria, o que resultou na criação de um grupo de Ação Católica estudantil. No ano seguinte, Dom Leme e os bispos presentes no Congresso Eucarístico de Salvador decidiram criar uma estrutura nacional da Ação Católica, submetendo à Roma um projeto de estatutos, ficando estabelecido que sua sede seria no Rio de Janeiro. O engajamento feminino na nova organização foi enriquecido pela criação, em outubro de 1934, por Stella Faro da Liga das Senhoras Católicas, líder que em 1935 se integraria ao conselho da União Internacional das Ligas Femininas Católicas (Bandeira, 2000:104-105). Enquanto organização do laicato, a Ação Católica na sua essência e fins se distinguia das outras formas de participação apostólica. Desde os anos 30, seu núcleo inicial apontava para um novo caminho pastoral caracterizado pelo profundo interesse em relação ao Perilo Gomes. Por ocasião dos 60 anos do Centro Dom Vital – Atualização Ano 14, ns. 155/156. In Matos, 1990. p. 211. 5 127 Evangelho, a dedicação ao estudo dos documentos pontifícios, com destaque para os sociais, a freqüência aos sacramentos e às práticas litúrgicas, de preferência as renovadas (Bandeira, 2000:307). Os membros do movimento dedicavam-se freqüentemente a estudos coletivos programados na forma de semanas e círculos. As Semanas de Estudos tomavam o caráter de evento, envolvendo palestras e reflexões. Já os círculos faziam parte da rotina dos grupos, ocorrendo normalmente sob orientação do assistente eclesiástico. As mulheres, pelo trajeto que cumpriram no processo de institucionalização da Igreja Católica, por estarem sujeitas às restrições morais no que se refere ao comportamento e tolhidas da participação política, fizeram do campo religioso seu espaço de expressão e manifestação de habilidades. Mesmo que tenham sido alvo direto dos ensinamentos mais conservadores e tenham incorporado esse discurso, contribuindo para a reprodução de um modelo mais tradicional de Igreja, ocuparam seu espaço na militância e estiveram particularmente sensíveis às tendências de renovação. 3.2 A Ordem Terceira e as associações católicas na vida da paroquia “Os católicos devem alistar-se nas associações: Arregimentem-se. A união faz a força.”6 A Ação Católica Oficial através de seu apostolado e ação social, ao mesmo tempo que, por sua abrangência e respaldo da Santa Sé, apoiava os trabalhos das diversas associações católicas, mantinha uma autonomia e peculiaridade em relação às mesmas, em função de representar a participação oficial dos leigos no apostolado hierárquico da Igreja. Essa participação era subordinada ao clero e o espírito de resignação, de ação e militância tinham sustentação na figura de São Francisco, modelo considerado adequado para os propósitos do movimento, que procurava resguardar valores de obediência e santidade. 6 “Para os católicos vencerem ...”. In: “O Horizonte”, Ano 10, n. 926 (24.11.1932), p. 1, c. 1. (Matos, 189). 128 A conduta ilibada e o esforço dos fiéis em demonstrarem uma vida santa eram reforçados pela hierarquia, como nas explicações de Frei Severino: “Fomos santificados pelo batismo, somos santos pela graça santificante; mais de uma vez São Paulo nos chama de santos. [...] Todos que pelo batismo se tornaram membros daquele Corpo Místico, do qual Jesus Cristo é a cabeça, formam a Igreja.” 7 Frei Severino completa sua exposição afirmando que somos parte da Comunhão dos Santos, composta da Igreja militante que somos nós, da Igreja padecente, aqueles que se foram e se purificam no purgatório, e da Igreja triunfante composta pelos anjos e santos – todas as três classes da Igreja estão unidas espiritualmente. A escolha de São Francisco por Bento XV8 como padroeiro da Ação Católica, adequava-se bem aos propósitos do movimento, pois São Francisco ensinou a prática da vida santa e criou referências para o trabalho social dos leigos através da Ordem III. A Ordem Terceira foi fundada pela disposição despertada por São Francisco nos leigos interessados em se ligarem às regras da vida franciscana, mas que não podiam desligar-se do mundo. Essa irmandade de franciscanos “seculares” de ambos os sexos passou a se sujeitar a uma regra publicada em 1221 em Florença. O programa desses irmãos, estabelecido em sua regra, tem como base educar e praticar a perfeição cristã no mundo segundo o espírito de São Francisco.9 Essa entidade abrigou personalidades expressivas, responsáveis pela concepção e institucionalização da Ação Católica, como o próprio Pio XI, conhecido como papa da Ação Católica, e seu sucessor Pio XII. A justificativa para a escolha de São Francisco como referência para a nova proposta de colaboração organizada dos leigos numa união de forças com a hierarquia, foi tema de vários textos publicados pela revista dos terceiros franciscanos “Eco Seráfico”, como na abordagem selecionada sobre a fidelidade à Igreja Romana: 7 Revista Eco Seráfico – XXXII, 1943, p. 193. 8 Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 256. Frei Odulfo Van Der Vat (2001), História Franciscana – Província Franciscana de Santa Cruz. Belo Horizonte, Província Franciscana de Santa Cruz. p. 171-172. 9 129 “São Francisco, o varão católico. “Segundo consta dos documentos históricos mais fidedignos daquela época, venerava o santo pai, os sacerdotes e a toda a hierarquia eclesiástica. Este varão católico e genuinamente apostólico – vir catholicus et totus apostolicus – na sua pregação inculcava como ponto capital, que era necessário guardar fidelidade inviolável à Igreja Romana e que, por causa do sacramento da Eucaristia, produzido pelos sacerdotes, se devia consagrar o mais profundo respeito ao estado sacerdotal. Além disto ensinava ser preciso ter máxima reverência aos mestres da lei divina e a toda a hierarquia da Igreja”. [...] Duvido que exista um santo no céu que supere a São Francisco na veneração à hierarquia eclesiástica. Esta veneração toda especial baseia-se na Eucaristia, que é o tema favorito do santo.”10 A relação entre a Ordem III e a Ação Católica foi estreita, apesar das diferenças de concepção e propósito de ambas e do fato de o movimento de Ação Católica ter sido idealizado para dilatar o Reinado de Cristo por intermédio de leigos organizados participantes do apostolado hierárquico, contando para isso com uma estrutura institucional de vanguarda erigida pela Igreja de Roma. A medida que o movimento ganhava corpo e respaldo institucional, houve uma certa dificuldade por parte dos organismos de apostolado préexistentes, em compreenderem sua função no novo contexto, pois não estavam claros os papéis e os limites de atuação de cada um e sobre qual seria sua posição diante da Ação Católica. A intenção da Santa Sé era de que cada entidade cumprisse o seu trabalho original, sendo apoiadas pelo novo movimento, que definiria uma direção principal ao trabalho pastoral da Igreja. Romeu Dale em sua abordagem sobre a Ação Católica brasileira apresenta seus estatutos e destaca a particularidade desse movimento em relação às outras associações católicas: “... A Ação Católica não deve confundir-se, nem mesmo aparentemente, com qualquer associação ou obra de fins particularizados, por mais nobres que sejam; as conferências Vicentinas por exemplo. Apesar de entre nós terem sempre desenvolvido um apostolado edificantíssimo, são associações de objetivos apostólicos delimitados. A Ação Católica não, ela visa um apostolado universal, sem limites outros que não os da própria missão hierárquica, a qual na Ação Católica tem como quer o Santo Padre Pio XI, “mãos, braços, lábios, corações, vontades” que auxiliam a instaurar ou restaurar a vida católica em todos os meios sociais. Dentro da Ação Católica, acima das associações de atividades particularizadas, todos os católicos e todas as obras têm o seu lugar de honra e de dever.” (Dale, 1985: 34) Théo Presente. São Francisco de Assis e o tempo presente. In: Revista Eco Seráfico – XXXIII, citando Pio XI, Encíclica Rite expiatis. 10 130 De acordo com Plínio de Oliveira, o debate em torno da Ação Católica foi sobre sua dimensão renovadora, suscitando questionamentos sobre o papel desempenhado a partir dela em relação às antigas associações de leigos, tais como a Congregação Mariana, a Liga Jesus, Maria e José; Apostolado da Oração; a Pia União das Filhas de Maria; a Conferência e Conselho Vicentinos; a Ordem Terceira e outras. Haviam posicionamentos diversos quanto à situação das entidades, desde a defesa de substituí-las devido a seu obsoletismo, até a de que deveriam coexistir com a Ação Católica numa posição de cooperação. “... Concebem alguns que poderiam sobreviver as associações de caráter estritamente piedoso, pois que, dizem, a Ação Católica não cuida de piedade; outros entendem que a Ação Católica a tudo basta, e que mesmo tais associações são inteiramente supérfluas e devem morrer: se “non sunt multiplicanda entia sine necessitate”, cessou para elas a razão de ser. [...] Há quem não chegue a tão longe e entenda que realmente as associações preexistentes aos atuais quadros jurídicos da Ação Católica não devem morrer, nem abandonar o apostolado, mas ocupar com suas obras e trabalhos uma posição inteiramente secundária, pois que, não exercendo um apostolado “mandado”, devem apenas ceifar as raras espigas que a foice dos ceifadores credenciados ainda deixou, por excesso de trabalho, no campo do Pai de família.”11 O autor expõe também sobre as novidades trazidas pela Ação Católica no sentido de substituir os retiros ascéticos próprios das antigas associações de leigos, pelas semanas de estudos, inspirados na idéia de “iluminação das inteligências”, numa oposição ao virtuocentrismo apregoado também pelas missões redentoristas. O método da Ação Católica representou a libertação da mortificação e das fugas próprias das antigas associações, já que estas demonstravam dificuldades estruturais, jurídicas e orgânicas para assumir um apostolado mais amplo. A Ação Católica diferia também das Irmandades, marcadas pelo culto aos padroeiros. O novo movimento não exigia o uso de trajes específicos, o que facilitava o trânsito de seus membros entre os leigos comuns e sua influência no meio social pelo “apostolado de conquista”, em oposição ao apostolado de fervoramento (Oliveira, 1983:9596). 11 Plínio Corrêa de Oliveira. Em defesa da Ação Católica. São Paulo: Artpress, 1983. p. 25. 131 Em Divinópolis, as entidades, Adoração Noturna, Pia União das Filhas de Maria e o Apostolado da Oração, foram criados pelo Pe. Matias Lobato em 1914.12 Foi também atuante, como ficou registrado em suas atas, a Liga Católica Jesus, Maria, José, criada em 1927, com o apoio do Revmo Adriano Wrigant, redentorista e diretor da Liga do Estado de Minas Gerais. Naquela data havia sido convidado por Frei Hilário Verheij para lançar as bases da entidade no município conseguindo o alistamento de 160 homens. Sua fundação oficial ocorreu em outubro de 1928, quando foram entregues os diplomas e estandarte aos membros. Em 1931 Frei Braz anunciou a criação da Liga Infantil para meninos aspirantes que seriam acompanhados separadamente. Os homens da Liga rezavam o terço, participavam da bênção do Santíssimo Sacramento e faziam sua adoração noturna. No jornalzinho “A Semana”, pequena folha de distribuição interna da Paróquia de Santo Antônio, foram listadas as entidades católicas atuantes na cidade e apresentadas suas respectivas funções no meio social: A adoração ao Santíssimo, associação que procura dar ao Prisioneiro do Sacrário a homenagem de sua preparação em santificação sua e do próximo. A Liga Católica dos homens quer unir os católicos cumpridores dos seus deveres numa grande família, ensinar e recordar-lhes as obrigações e consagrá-los à família sagrada. A Congregação Mariana dirige os rapazes nas dificuldades da vida no mundo indiferente e pagão, ensinando-lhes como melhor meio a devoção a Nossa Senhora. A Conferências de São Vicente fazem caridade aos que precisam de auxílio espiritual ou material, conforme o ideal de Frederico Ozanan. O Círculo Operário não é associação religiosa mas social. É de origem católica, tem seu assistente eclesiástico, mas zela pelos interesses do operariado, dando orientação, assistência jurídica, médica, farmácia, armazém, aprendizagem, divertimentos etc. Une os operários, defende os interesses dos operários e encabeça o operariado. A Ação Católica forma católicos de convicções firmes, dando-lhes a formação moral, religiosa, social, apostólica e técnica para que sejam apóstolos preparados para qualquer ambiente.13 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 58. 12 13 Jornal Interno A Semana – De 06 a 13 de maio de 1945 (negritos usados pela autora). 132 A posição das associações diante do novo apostolado foi debatida pela Ordem Terceira, que de forma mais fundamentada, buscou mostrar suas afinidades com a Ação Católica, fato registrado em vários exemplares da revista “Eco Seráfico”, como bem traduziu a afirmativa: “Foco de vida fervorosa, a Ordem Terceira Franciscana constitui por si mesma uma reserva já preparada de Apóstolos prontos para servir na Ação Católica.”14 Foram levantados questionamentos sobre críticas depreciativas feitas à Ordem Terceira por membros do clero e intelectuais católicos, muitas vezes considerando-a desatualizada frente ao dinamismo dos novos tempos e dos propósitos da Ação Católica, criada justamente para colocar a Igreja numa posição de evidência diante do mundo moderno. No artigo “A ordem Terceira, elemento de reforma social”, Frei João Foguet tentou situar historicamente a Ordem Franciscana no final da Idade Média, sua função moral, espiritual e caritativa, mostrando a atualidade da espiritualidade franciscana adequada aos momentos de transformação das sociedades e como caminho para a solução da questão social. Numa conjuntura como a moderna, entregue ao culto dos interesses materiais e dividida pelas paixões sociais e políticas, os franciscanos seriam, na concepção dos terceiros, elementos indispensáveis na condução do povo para o evangelho. Na argumentação de Foguet, o verdadeiro espírito de caridade, abnegação e desprendimento eram características inerentes ao terceiro franciscano, tornando-o, portanto, adequado aos novos tempos. O autor, ao fazer essas ponderações, comentou sobre as críticas feitas à Ordem Terceira, comumente apregoadas por aqueles que, segundo ele, desconheciam suas potencialidades: “A Ordem Terceira já passou da moda e é somente boa para o exercício de devoções pessoais, não correspondendo aos fins da vida social. É indispensável que todos pertençam à Ação Católica se quiserem ser filhos da Igreja. Fora da Ação Católica não há salvação!”15 Essa visão incomodava aos membros da Ordem, aparecendo em outros textos da revista como foi tratado por Frei Benigno Vodonis, que em seu artigo desenvolveu uma comparação entre Ordem Terceira e Ação Católica: 14 Revista Eco Seráfico – XXXIII, 1944, p. 15. 15 Revista Eco Seráfico – XX, 1931, p. 200. 133 “A Ordem Terceira é vulgarmente considerada como uma instituição antiga, própria só para gente pobre e de classe humilde e para os que não gostam de trabalhar seriamente, cingindo-se somente a formalidades, sem eficácia para a ação social. Ao passo que a Ação Católica é vista como uma organização genial do Santo Padre, a qual supre todas as outras, a única que pela sua atividade ilimitada e eficaz é própria para o nosso tempo, o tempo de ação que não de teorias estéreis e formalidades infrutíferas.”16 O autor ressalta a tendência de se desvalorizar instituições antigas como se fossem impróprias para os tempos modernos. Afirmou que o objetivo supremo da Ordem Terceira era o mesmo da Ação Católica, o de dilatar o Reino de Jesus Cristo, os meios, no entanto, seriam diferentes, porém não incompatíveis e nem contraditórios. Segundo ele, o fim específico da Ação Católica era prestar auxílio aos sacerdotes no ministério pastoral; o objetivo da Ordem Terceira seria o de santificação do indivíduo pela observância das regras de São Francisco baseadas no Evangelho. Prossegue sua comparação afirmando: “Já da denominação infere-se o caráter de atividade dessas duas geniais instituições. A Ação Católica é antes de tudo uma ação na propaganda do Reino de Cristo. Ela quer fazer conhecida e praticada a doutrina do evangelho. A Ordem Terceira quer, antes de tudo, formar uma elite, uma Ordem a exemplo das ordens monásticas e sobretudo a modelo da ordem dos Frades Menores, as quais se aplicam a observância dos três conselhos na possibilidade do seu estado, as mais das vezes conjugal, e prometem observar o evangelho para se santificarem em primeiro lugar a si mesmos.”17 Por várias razões o franciscanismo estava presente na Ação Católica, seja pela disposição papal em preservar o espírito e os valores dessa ordem religiosa, sua tradição e vocação leiga para o apostolado, ou ainda pela necessidade de criar um vínculo simbólico de obediência e respeito hierárquico. Era também uma característica franciscana, a observância ao evangelho no tocante à formação individual como força propulsora da transformação coletiva. A Ação Católica buscava sustentação na formação de seus membros, usando o método – dar o exemplo antes de dar o preceito: “Deve agir o bom soldado da Ação Católica, 16 Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 256. 17 Revista Eco Seráfico – XXVI, 1937, p. 257. 134 fazendo crescer bem alto em si primeiro o fermento evangélico, e depois, só depois, lançar-se a levedar e transformar toda a massa...”18 São Francisco, como padroeiro, era a imagem e o conteúdo que vinham a calhar aos propósitos da Igreja em seu investimento de legitimação da Ação Católica, tornando-a ponto de convergência de todo o trabalho pastoral e centro das atenções da Santa Sé e de toda a estrutura eclesiástica. Os franciscanos além de inspiradores, incorporaram a proposta de trabalho pastoral militante e engrossaram as fileiras do movimento, contribuindo a seu modo com a consolidação da Ação Católica nas paróquias onde atuaram. Da Ordem Terceira nasceu a primeira mártir do movimento, Maria da Luz, irmã terceira nascida em 1907 no México. Numa demonstração de seu espírito aguerrido, a jovem de 27 anos, secretária da Ação Católica, teria morrido em frente à sua igreja paroquial em Coyoacam, sob balas comunistas em 30 de dezembro de 1934. “Maria da Luz morre suavemente, dando o sangue pelo Cristo Rei. No outro dia 30 mil pessoas assistem ao seu funeral e o arcebispo Dom Dias brada ante ao esquife: viva a primeira mártir da Ação Católica!”19 A Ordem Terceira em Divinópolis era composta de mulheres que se dedicavam à serviços paroquiais variados. O relatório de 193820 faz menção ao trabalho dirigido por Frei Braz, orientando as irmãs para a realização de visitas às pessoas consideradas afastadas da Igreja que precisavam ser resgatadas. O desempenho das mulheres e sua dedicação à atividades variadas foi avaliado pela administração paroquial: “A Ordem tem só mulheres, 80. Mas estas são muito constantes e zelosas, o diretor é Frei Braz. As irmãs se encarregam das despesas necessárias para a construção e mobiliação da capela lateral de São Francisco, e também da construção de um salão paroquial, Casa de Santo Antônio para reuniões etc.”21 18 Revista Eco Seráfico – XXV, 1936. 19 Revista Eco Seráfico XXVII, 1938. 20 Revista de Santa Cruz, Ano III, nº 5, maio de 1938, p. 72. 21 Revista de Santa Cruz, Ano IV, nº 10, outubro de 1939, p. 173. 135 Os franciscanos consolidaram sua presença na cidade através de um trabalho político, cultural e social abrangente. No campo social, suas ações sustentaram-se no comprometimento orgânico das mulheres. Estudos documentais e depoimentos de antigos membros das entidades católicas comprovam a convivência de antigas práticas caritativas com ações sociais mais voltadas para a promoção social. A tendência caritativa foi mantida junto à população carente, sempre acompanhada de um trabalho de catequese. Assumido muitas vezes em conjunto pelas antigas entidades, inclusive a Ordem Terceira, buscando adaptar-se ao novo apostolado trazido pela Ação Católica. A presença feminina foi marcante nos movimentos e entidades e na organização das cerimônias paroquiais. Um exemplo da presença ainda forte das antigas associações no trabalho social da paróquia foi o envolvimento da Ordem Terceira na criação da Sopa de Santo Antônio, como ficou registrado em sua inauguração pelas palavras de Frei Mariano ao fazer em público um agradecimento: “o gesto compreensivo da Ordem Terceira Franciscana, que tão animada e confiante aceitou cuidar que haja diariamente uma boa sopa para 150 pobres e também servi-los à mesa...”22 Dom Aloísio em seu depoimento, ao abordar sobre a Ação Católica e as associações religiosas em Divinópolis nos anos 40 e 50, explicou que as antigas associações eram muito fortes, tinham grande influência na vida paroquial, e acredita que a Ação Católica naquele tempo ainda era apenas uma orientação da Arquidiocese. Segundo ele, as idéias da Ação Católica não foram assimiladas e vivenciadas pelos leigos como estava estabelecido em sua concepção: “Naquela época, quase não se falava de Ação Católica; se falava mais dos Moços Marianos e das Filhas de Maria, era a grande força naquela época junto com os vicentinos; eles eram uma força tremenda na cidade. E tinha a irmandade do Santíssimo que fazia todo mês adoração noturna, e tinha também o apostolado da Oração, que era bastante forte e as mães cristãs.”23 (Dom Aloísio Lorscheider) Completou sua exposição sobre o assunto salientando a tendência de uma pregação e de uma ação pastoral ainda muito voltadas para a espiritualidade e para o indivíduo. Não 22 Jornal Diário do Oeste - 09-12-1956. 23 Entrevista realizada pela autora com Dom Aloísio Lorscheider em 30. 07. 02. 136 havia sido ainda incorporada a idéia de comunidade e de uma ação pastoral voltada para o coletivo. Suas observações permitem compreender as dificuldades de assimilação do novo, não só pelo leigo mas pelo clero, preso a traços marcantes de sua formação e à uma imagem ainda bastante conservadora de Igreja. Podem ser destacados os seguintes aspetos de sua fala: “A teologia implícita nas pregações era mais naquela linha de “salva tua alma”, se a gente for resumir. [...] Quando veio a Carta Encíclica de Pìo XII sobre o Corpo Místico, entrou um pouco a visão coletiva. Esses documentos mais amplos da Igreja eram sempre levados ao conhecimento do povo, mas isso não queria dizer que se formasse uma pastoral propriamente dita. Essa idéia de pastoral veio muito mais tarde com o Plano de Emergência em 1962. Naquela época, prevalecia uma espiritualidade, a qual eu diria intraeclesial e escatológica. A grande reviravolta veio mesmo com o Vaticano II. Até então, a teologia era a que a gente aprendia nos seminários, era mais voltada para a espiritualidade mais individual. Não era uma espiritualidade comunitária, de comunidade; essa idéia ainda se expressava muito pouco.” (Dom Aloísio Lorscheider) Mesmo enfrentando as dificuldades de acompanhar as mudanças e as orientações traçadas pela hierarquia, cabia ao vigário, ao assistente eclesiástico e aos demais frades colaboradores, manter o equilíbrio e coordenar a prática dos leigos. Nessa perspectiva, o pensamento da Igreja sobre questão social e suas propostas de ação para o enfrentamento desse problema deveriam ser transmitidos aos leigos como foi abordado por Lustosa (1991: 145-146): “Mais organizados, os esquemas da assistência social católica, escudados na experiência do serviço social, dão um passo à frente com a técnica da promoção humana, que lança os germes de trabalho mais sério, contrário à tutela primária do patronato então dominante sobre os trabalhadores, considerados menores. Nesse estilo, a hierarquia permanece firme e fiel às diretrizes gerais da doutrina social católica e procura conciliar a linha rotineira da atividade caritativa com as urgentes imposições de uma ordem social em busca de novo modelo, respeitador da justiça. Prova disso temos nas próprias palavras e no encaminhamento da questão social que os bispos procuram fixar para a comunidade eclesial, certos da necessidade de mudanças sociais profundas. Ainda se movimentam todavia nos quadros da ação social tradicional.” 137 Os administradores da vida paroquial, vigário, coadjutor, assistentes, precisavam acompanhar e cumprir os estatutos da Ação Católica, reunindo em organizações os homens, as senhoras e a juventude, coordenando todas as associações e obras existentes, seguindo orientações das instâncias institucionais superiores. Esse disciplinamento não impediu, no entanto, um processo de polítização dos leigos atuantes e o florescimento de interpretações, que gradativamente foram ganhando autonomia diante das regras ditadas pela hierarquia. Isso explica a própria evolução do movimento de Ação Católica no Brasil, seu início ainda preso a um modelo de Igreja conservador, seu amadurecimento frente aos problemas sociais como foi o enfrentamento da questão operária e as dificuldades enfrentadas no meio rural. 3.3 A Liga Feminina Católica pela renovação cristã da família “A Igreja de Cristo permanece inalterada, sempre igual a si mesma, sempre nova e adaptada à realidade de todos os tempos.”24 As mulheres que participavam das associações e recebiam orientações sobre uma Ação Católica mais tradicional estavam imbuídas do espírito restaurador, colocando-se a postos não só no campo da ação social caritativa. Faziam-se ouvir como porta-vozes do discurso recristianizador nas cerimônias e cultos paroquiais, na defesa da moral e dos bons costumes, aspectos fundamentais para a garantia do vigor de uma sociedade calcada na ordem. Procuravam tomar como ponto de partida, a sacralização da família no que se refere aos registros simbólicos da religião entronizados no espaço da vida privada. A Ação Católica se sustentava na idéia de que a sociedade moderna encontrava-se decaída religiosa e moralmente. Daí a necessidade da restauração em Cristo. A denúncia de uma onda laicizante que representava a dessacralização das instituições, levou à preparação de uma resistência no plano da moral e dos costumes. A Igreja aspirava a uma ressacralização da vida social, englobando todo o complexo institucional, processo que perduraria até o Vaticano II. Ainda a pastoral coletiva de 1951 deu 138 plena chancela a essa concepção, ressaltando a importância da religião como parte da educação completa do cidadão (Montenegro, 1972:158–159). Os leigos deveriam cumprir uma missão junto à hierarquia, compondo uma milícia de combatentes pelo reinado de Cristo contra as forças laicizantes: “A luta enorme desencadeada pelo mundo ateísta nunca foi tão veemente e perigosa como agora. Tudo conspira contra o cristianismo e o inimigo da doutrina cristã aproveita as armas modernas. Cada dia mais jornais, cinema, livros, romances e revista, rádios entram nas casas. Armas que outros adversários nunca tiveram, agora são usados contra a religião e contra Deus. Na vida pública e privada empenham-se numa luta contra Deus, guiados por planos bem elaborados e organizados, aproveitam-se da situação social e da confusão moral (comunistas e outros), querem estirpar o sentido religioso de adultos e crianças. A bandeira de satanás está hasteada, luta contra a religião, corrente de propaganda contra Cristo e a Igreja. Não devemos retê-las só por meios técnicos, devem juntar forças sacerdotes, religiosos, leigos afim de vencer esta tendência organizada.”25 O indivíduo na intimidade do lar deveria ser socializado através da educação assumida pela mãe zelosa, perfil que era reforçado pelo discurso da Igreja. Preocupada em transpor essa harmonia doméstica para o ambiente público, preservaria dessa forma, a ordem social como base necessária para uma pátria sadia. Investia-se no desempenho de uma obra educativa de formação da consciência cívica criando uma falange de cristãos exemplares, destacando-se a conduta adequada no âmbito do privado e do público através da aplicação de princípios católicos em toda a vida social (Dale, 1985:36). Todo o esforço da Igreja no Brasil em se fazer presente na vida social, numa posição de colaboração com o Estado, principalmente nos anos 40, demonstrava sua disposição em recuperar seu espaço institucional prejudicado pela onda laicizante da primeira fase da República. Procurava resguardar hábitos e costumes pela difusão de um estilo de família cristã e pela garantia de manutenção do ensino religioso nas escolas, portanto fica evidente sua preocupação com a educação. O papa Pio XII, falando aos jovens da Ação Católica durante comemorações do 80º aniversário da instituição, Cidade do Vaticano, 13 (A . P.). Jornal Interno A Semana - 26-09-1948. 24 25 Jornal A Semana – 29-08-1948. 139 Era importante manter a religião católica em todos os campos da vida social. Para tanto, tornava-se imprescindível sua manutenção no ensino público, além da instalação de escolas católicas voltadas para a formação da classe média e dos segmentos mais favorecidos, multiplicadores de um catolicismo oficial. A manutenção do ensino religioso nas escolas foi uma batalha como parte da estratégia de implantação da ordem cristã na sociedade brasileira. A idéia apregoada pela Igreja e apresentada nas reivindicações junto ao poder público era: “Nação que se governa só pelo código civil, sem o apoio da lei básica, de toda moral religiosa, é uma nação sem garantia de segurança, ordem e paz. Nação que se divorcia, banindo da escola o catecismo só pode caminhar para a ruína, pois alimenta em seu seio o anarquismo e os germes de todas as revoluções.”26 Na concepção da Igreja, o que tornaria uma nação próspera, seria a preservação dos costumes puros no seio das famílias, fundados sobre a idéia de ordem e de moralidade, alicerçadas na religião e numa concepção cristã de justiça. Tudo isso estaria associado, num âmbito maior, à garantia de progresso econômico sob responsabilidade do Estado comprometido com o bem comum, com a proteção do domínio particular, com a contenção das greves, protegendo ao mesmo tempo, o trabalho e o salário dignos para a grande massa da população27: “A virtude moral, é que inclina os governantes a repartir encargos e impostos, a dignidade e a retribuições entre as várias classes de cidadãos, segundo a regra da justiça e equidade...”28 A orientação resultante da primeira reunião do Concílio Plenário Brasileiro em 1939, presidido por Dom Sebastião Leme, foi divulgada através de Carta Pastoral enfatizando: “... queremos a Ação Católica como pupila dos olhos. Não temos mais sincero desejo que vê-la organizada, florescente e operosa em todo este vasto Brasil, onde tão escassos são os sacerdotes e tão urgentes as necessidades espirituais do povo.” Nesse documento a hierarquia ressalta como o principal desafio do movimento católico a defesa da família: 26 Jornal São Francisco – Ano VIII, 01-08-1931. 27 Jornal Interno A Semana – 2 a 9 de abril de 1944. 28 Jornal Interno A Semana – 19 a 26 de março de 1944. 140 “Na primeira linha de combate, achar-se-ão sempre os militantes da Ação Católica, nesta grande cruzada preservadora da família brasileira, ameaçada, na digna austeridade de suas tradições pela desenvoltura dos costumes e pela ação dissolvente de tantas diversões modernas.”29 O estímulo à afirmação da família cristã foi abordado por Riolando Azzi (1994:76). O autor acredita que essa estratégia era parte da Reforma Católica iniciada em meados do século XIX: “A preocupação básica da Igreja é manter a família dentro dos moldes tradicionais. Há uma insistência na manutenção da hierarquia entre os membros da família: o homem, como chefe e cabeça; os filhos, como dependentes, submissos e obedientes; e a esposa, ocupando um patamar intermediário, mas sempre sob a autoridade do marido. Outro elemento ao qual se dá grande importância é a presença da mulher no lar: o trabalho externo é visto sempre como sintoma de abandono das responsabilidades domésticas. A Igreja opõem-se tenazmente ao divórcio, lutando pela indissolubilidade do vínculo matrimonial.” Os jornais e revistas católicos circulavam formando uma rede de comunicação voltada para a solidificação desses valores, normatizando condutas e respaldando padrões, numa associação do mal comportamento com a idéia de pecado. O Jornal São Francisco de Pirapora, que circulava em Divinópolis nos anos 30, expôs o desconforto da Igreja diante das influências consideradas nocivas à manutenção dos bons costumes: “É preciso reagir contra a invasão dos maus hábitos. O que faz o homem grande não é a riqueza, não é a ciência, não é a posição social. O que torna o homem grande e notável é a vida moral. [...] Mães de família, defendei o vosso lar. Donzelas! Há na sociedade, uma conspiração para perverter a mulher. A obra da corrupção lavra latente contra vós, com o auxílio das lojas maçônicas e do judaísmo. Donzelas! Acautelai-vos que a sociedade pervertida quer lançar-vos no vício e no pecado.”30 29 Dale, 1985. p. 47. 30 Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 110, 01-09-1931. 141 Havia uma preocupação em evitar os desvios dos jovens, sempre alvo de ensinamentos transmitidos pelos sermões, pela educação familiar e escolar, orientados também pelas publicações católicas. As roupas recatadas, o namoro fiel e comedido, a seleção das formas de lazer e das leituras adequadas eram parte do elenco de cuidados que as famílias deveriam ter para com seus filhos, evitando o assédio das condutas liberais avançadas. Nos anos vinte, foi lançada uma verdadeira cruzada contra a moda indecente, não só por ligar-se à vaidade feminina, mas por representar, na concepção desses cruzadistas, um plano internacional de desagregação da família promovido pelos inimigos da fé e da moral. A posição das autoridades eclesiásticas foi incisiva: “Ou as senhoras são católicas e obedecem à Igreja, e lhe cumprem os preceitos, e seguem a sua moral, ou não são católicas e não têm o direito de ir aos templos, afrontá-los com a indecência de seus vestidos. Ou estão com Cristo e o ouvem , ou estão contra Cristo.”31 No jornal Santuário de Santo Antônio, foi publicado um aviso que teria sido afixado nas igrejas de Roma: “Mulher deve entrar na casa de Deus coberta com vestido afogado. A imodéstia no vestuário ofende a santidade do templo, escandaliza os fiéis e provoca terríveis castigos de Deus.”32 Frei Rafael Zevenhoven colocou seus artigos do jornal “A Semana” a serviço da causa, entre satírico e sarcástico, pronunciou-se sobre o crescimento da influência da moda no meio feminino: “Leitor! Não hesito em dizer, que a moda é mais poderosa do que o bom senso, mais forte do que os milhares de sermões pronunciados contra esta epidemia universal. [...] É por causa da moda que muita senhora e senhorita andam ridiculamente vestidas, caminham com muita dificuldade, ostentando as suas pernas de cegonha. [...] Muitos acompanham a moda para poder brilhar na avenida, no footing. [...] O C.R.: Defendendo a modéstia. In: “Boletim Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana”, Ano 31, nº 2 (fev. de1936) In: Matos, p. 164. 31 32 Jornal Santuário de Santo Antônio – Ano 5, nº 11, março de 1931. 142 mundo quer ser enganado, portanto, será enganado, pelas exigências da moda parisiense ou inglesa ...”33 O comportamento dos moços foi criticado pelo excesso de liberdade no artigo, “Urubus Humanos”, escrito por Frei Rafael, denunciando a vida desregrada e a supervalorização do futebol e de seus ídolos pelos rapazes: “O número deles não é pequeno. É grande, e nos centros das grandes cidades, nos centros das pequenas cidades sem religião, sem freio, sem diretrizes, o número deles é enorme. Podeis encontrá-los em todas parte, menos na Igreja. [...] Nos bares, nas esquinas, nos clubes, passam as horas mais preciosas da sua vida falando asneiras, contando anedotas, criticando toda e qualquer autoridade, bebendo cerveja, e depois na avenida, espiando as moças, bancando o engraçado, o formidável, o espirituoso, o herói, o D. Juan, em resumo, a imundície e sujeira que cai dos seus lábios faz muita senhora e senhorita corar de vergonha. São como urubus, não cabem dentro de um ambiente são, honesto sincero. [...] Rapaz! Moça! Cuidado com estes.”34 A família era alertada para manter-se como sentinela, cabendo à mulher essa função de mediadora entre os ensinamentos cristãos e o acompanhamento da rotina doméstica. Enquanto católicas praticantes, recebiam orientações sobre a educação dos filhos: “Podemos escrever livros, espalhar teorias sobre o dever e o sacrifício – o verdadeiro professor de moral é a mulher, é a mãe. É ela que aconselha docemente o bem, que recompensa a dedicação com uma carícia, nos dá, quando é preciso o exemplo da coragem, e o exemplo mais difícil ainda da resignação; é ela que ensina aos filhos o encanto dos sentimentos que temos e as elevadas e severas leis da honra.”35 Na década de quarenta os avanços da modernidade cresciam, as visões de mundo mudavam depois da experiência de duas grandes guerras mundiais e dos avanços tecnológicos na indústria e nos meios de comunicação. No entanto, as concepções no universo católico sobre a posição da mulher dedicada às funções domésticas de esposa e mãe, ainda eram mantidos. A distinção entre a mulher considerada moderna e a mulher cristã ocorria sempre 33 Jornal Interno A Semana – 07.07.1946. 34 Jornal Interno A Semana – 15.01.1946 35 Jornal São Francisco – Ano IX, nº 115, 15.11.1931. 143 numa perspectiva de crítica às mulheres que se arvoravam seguir o caminho traçado pelas tendências de transformação dos costumes: “A mulher moderna só quer ser esposa e lhe aborrece a missão honrosa de mãe, para poder gozar a vida. Pobre dela na hora da morte! A mulher cristã, porém, ciente da vontade de Deus, julga-se feliz de ser mãe, e, quando na hora derradeira se vê cercada dos filhos e netos, sua alma voa ao céu ...”.36 O confronto entre o que era tido como moderno, como um sinal dos novos tempos, e a tradição, modelo para a preservação de valores e formas de conduta, considerados como esteio de uma sociedade tranqüila e estável, era parte do processo dialético de transformação experimentada pelo mundo principalmente depois de 1945. Numa demonstração de resistência ao novo, havia uma tendência ao apego, de certa forma exagerado, à tradição, numa tentativa de represamento das mudanças, que por sua velocidade e intensidade, chegavam e eram incorporadas, transbordando e rompendo gradativamente a frágil contenção imposta pelo conservadorismo. Nessa perspectiva, os ensinamentos e a sinalização transmitidos aos católicos procuravam apresentar distinções entre os dois mundos, sempre reforçando os prejuízos da adesão ao moderno, como foi tratado no artigo, “É moderno, sim, mas feio!”: “É moderno! Com estas palavras justifica-se hoje em dia muita coisa. [...] Modernismo é uma tendência a aceitar inovações. Uma facilidade em aceitar idéias e práticas modernas e novas, ainda não consagradas pelo uso. Pode-se adotar muita coisa. Um viajante, por exemplo, que antigamente viajava a pé, ou montado num animal, quando não havia avião ou estrada de ferro, pode adaptar-se perfeitamente às conduções modernas de trem, avião ou automóvel. Seria bobo se não o fizesse. Tratando-se, porém, em muitos casos de uma adaptação “ilícita” – que sob pretexto de ser “moderna”, está sendo julgada “lícita” – introduziu-se em nosso meio, quiçá na sociedade atual, muitos costumes, muitos hábitos que antigamente mereciam a reprovação geral de todos, e que agora estão sendo praticados como coisa muito natural, e muita gente já não repara mais no absurdo, na brutalidade, no atrevimento e na imoralidade de certos costumes.”37 Após situar a distinção entre o modernismo técnico e o modernismo que afeta o ambiente sócio-cultural, o autor teceu comentários exemplificando suas afirmativas: 36 Jornal Interno A Semana – 25.11.1945. 37 Jornal Interno A Semana – 17.02.1946. 144 “Antigamente as moças eram muito mais modestas, não gastavam tanto dinheiro pelo embelezamento, tinham mais pudor, mais respeito e compostura. Hoje, é moderno, que passeiem até 10, 11 horas na avenida, bancando beija-flor praticando o “flirt”... É moderno! Os rapazes irem aonde quiserem, fazer o que entenderem, namorando sem intuito de casar, ficar horas e horas na avenida, nos bares, nas esquinas, e depois, na escuridão da noite. Deus é que sabe. ... Antigamente a família era um Santuário, uma coisa íntima, reinava respeito e moralidade, não existia a promiscuidade, tão prejudicial à nossa mocidade... E com todas essas falsas modernices, o mundo vai de mal a pior...” Nas associações religiosas, as mulheres se instrumentalizavam para tomarem a linha de frente pela defesa da harmonia do lar e da sociedade. Se considerando representantes da Ação Católica, movimento que na verdade ainda lhes era estranho, as mulheres eram preparadas para a leitura do evangelho, supervisionadas pelo assistente eclesiástico em reuniões realizadas pela Liga Feminina Católica atuante na cidade entre 1938 e 1950. De acordo com registros feitos no livro de atas, a Liga Feminina de Ação Católica foi criada no dia 19 de novembro de 1938, por ordem do Revmo Dom Antônio dos Santos Cabral, momento em que lançava a Ação Católica na freguesia de Divinópolis sob liderança do padre Vicente Borges, presidida por Dª Lourdes Couto e dirigida por Dª Vicença Fernandes. Nas reuniões de março de 1939, Frei Braz Berten estimulou o trabalho da Liga em sintonia com a Ação Católica, procurando legitimar esse movimento, explicando o que era e como representava a posição da Igreja na luta contra o mal, tal como era visto na época o espiritismo e outras seitas e doutrinas políticas. As mulheres ocupavam-se de estudos bíblicos, refletiram sobre a infalibilidade da Igreja, como na abordagem do tema “Fora da Igreja não tem salvação”. As leituras eram orientadas e havia uma distinção clara entre o que era considerado boa e má imprensa. Nesse caso, as liguistas eram estimuladas a ler o jornal “O Diário” e outras publicações católicas. Em janeiro de 1940 a diretoria dessa associação estava composta pelas senhoras: Ruth Gontijo (presidente), Helena Loureiro Meireles (dirigente), Jorcelina Santos Gontijo (secretária), Iracema Pereira Mesquita (tesoureira). A nova presidente Dª Ruth Gontijo ao assumir suas funções, entusiasmou as sócias a trabalharem com mais afinco para ganhar mais almas para o Cristo Rei. Além da leitura comentada do evangelho, as sócias dedicavam-se ao estudo de livros como “Doutrina Viva” e sobre a Ação Católica como o de D. Mário de Miranda Vilas Boas, que tratava do conceito e objetivos do movimento. Os temas e estudos 145 do evangelho tinham um cunho formativo; dogmas eram reforçados como a infalibilidade da Igreja e do papa, sempre eram feitas considerações sobre o Corpo Místico de Cristo e sobre o processo de descristianização do mundo promovido por doutrinas laicizantes e anátemas. Na reunião de janeiro de 1944, foi discutido o evangelho de São Lucas e a veracidade das Igrejas Cristãs. Nesse momento, a dirigente daquele círculo de estudos comparou a lepra do corpo físico com a lepra do espírito adoentado pelo pecado. Finalizou sua análise afirmando que dentre as Igrejas que se intitulavam cristãs, a única verdadeira era a católica, por ter sido instituída por Cristo que pregou uma só doutrina e lhe deu um só chefe, o papa. Sua fala foi reforçada pela do vigário que afirmou ser a Igreja Santa, Católica, Apostólica e Universal. A Liga era composta de vários círculos, com seus santos protetores tais como Santa Terezinha, Santa Ana, Santa Mônica e eram usadas bandeiras e insígnias. Haviam critérios para composição dos círculos, como foi o caso da criação de um círculo voltado para a Juventude Feminina Católica, liderado por Veneza Guimarães. Outros Círculos eram formados de acordo com o grau de instrução das mulheres como explicou uma de suas sócias: “Fizemos dois círculos de senhoras, um composto daquelas mais modestas, pois se misturasse ficaria difícil uma aula sobre o evangelho. Não é? Este círculo foi entregue a Dª Mercês Santos e o outro entregue a mim. A dirigente tinha um programa para preparar os encontros que vinha da Ação Católica de Belo Horizonte, neste ponto era bom porque direcionava os estudos e todos se dedicavam ao mesmo tema. A existência de vário círculos de senhoras era em função do nível, pois se misturasse não teria proveito para ninguém. No começo foi difícil, mas depois elas foram se habituando. O vigário sempre estava presente nas reuniões de estudo. Primeiro lia-se o evangelho que era comentado. O vigário apresentava o programa, dizia a finalidade e o grupo ia discutindo e apreendendo vagarosamente. Participavam senhoras das autoridades civis que além dos estudos se envolviam com a vida paroquial. O primeiro trabalho que coube a nós foi a organização da festa de Santo Antônio. Não sei como é hoje, mas naquele tempo o povo participava das novenas e outras atividades. Nos reuníamos na Casa de Santo Antônio onde funcionava o cinema e teatro amador” 38 (Benigna Moreira de Souza) Os círculos de estudos eram parte do funcionamento da Ação Católica, pois partia-se do princípio de que o leigo desconhecia o conteúdo bíblico e que para criar um corpo missionário seria necessária uma preparação assistida pelo clero. A hierarquia acreditava que 38 Entrevista realizada pela autora com Dª Benigna Moreira de Souza no dia 25.05.01. 146 o povo expressava um catolicismo supersticioso, situação que impunha uma pastoral adequada numa roupagem européia e de cunho mais ortodoxo. A prática católica popular expressava um universo mental caracterizado pela falta de instrução religiosa adequada. A Ação Católica foi preparada para agir sobre essa realidade, alterando esse quadro através da preparação evangélica, do apelo ao sobrenaturalismo, intercalado a exercícios de piedade e de vida contemplativa, com forte apelo ao simbólico. Destacavam-se as devoções ao Santíssimo Sacramento e ao Coração de Jesus, com a presença real da Hóstia, reproduzindo um modelo de espiritualidade européia reforçada a partir de Pio XII (Montenegro, 161-162). Os estudos da Bíblia serviam para reforçar a formação dos leigos. As reflexões feitas na Semana Bíblica de 1951, baseadas na tradução aprovada por Roma e no magistério da Igreja, reforçaram a idéia da infalibilidade da instituição: “A Bíblia é, sem dúvida, o maior livro da história. É fonte de conhecimentos riquíssimos de doutrina e moral. [...] É sabido que o Santo Padre mantém no Vaticano sábios especializados que estudam e meditam continuamente os volumes santos. Lá se acham pois: hebraístas, babiloniólogos, assiriólogos, etnologistas, historiadores, linguistas, críticos e pesquisadores indispensáveis à seriedade e magnitude do assunto. [...] Na sua autoridade legítima e que deve ser acatada respeitosamente por todos os fiéis, proíbe a leitura de traduções não autorizadas, sem critério, que prejudicam lamentavelmente a doutrina e a moral religiosa. O ensino das Sagradas Escrituras é um direito da Igreja Católica, infalível, isto é, que não erra em matéria de doutrina e moral. Cremos na sua infalibilidade porque ela data dos tempos apostólicos. Que isto penetre bem o espírito e a inteligência de todos os católicos, pois devem ler a Bíblia, mas a Bíblia Católica, segundo os ensinamentos da Igreja, guia seguro para a compreensão dos textos, pois há passagens de sentido profundo. Sem o magistério da Igreja estaríamos a cada passo com inúmeras dificuldades. [...] Somente aos iniciados, orientados e competentes a Santa Bíblia é clara e iluminada.”39 Promoviam-se eventos mais amplos como em janeiro de 1942, quando aconteceu a Semana da Ação Católica, dirigida pelo Revmo Cônego Sebastião Fernandes, membro da diocese de Diamantina. Nesse momento, foi formada a primeira falange de soldados da Ação Católica e vinte e seis senhoras da sociedade receberam insígnias. Outra Semana aconteceu em julho, contando com a supervisão do Monsenhor Vicente Soares, que representando o Discurso preferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na Semana Bíblica em 1951. 39 147 arcebispo participou das reuniões de todas as associações religiosas. As atividades foram encerradas com uma cerimônia cívico-religiosa presenciada por Dom Cabral. A festa do Cristo Rei tinha um sentido particular para o movimento, pois representava a referência simbólica e eclesiológica da Ação Católica. Era um momento ímpar no contexto geral do movimento, quando todos os católicos se mobilizavam no mês de outubro, numa rede que interligava comemorações e cerimônias especiais envolvendo os católicos de todo o mundo. Em Divinópolis a comemoração do Cristo Rei realizada em 31 de outubro de 1948, expressou esta ligação à Santa Sé. Nessa cerimônia foram feitas reflexões sobre a Ação Católica, momento em que as participantes agradeceram o apoio recebido de Frei Carlos Schep por ter sido dirigente do movimento e se comprometeram com Frei Orêncio Vogels, novo assistente, no fortalecimento do círculo de estudos e no cumprimento assíduo da missão apostólica. De acordo com a fala das ligüistas, essa missão envolveria a recristianização da sociedade começando pelo lar: “Não há só missões em terras longínquas, há também missões em nossa pátria, as missões do nosso lar. A hora presente todo cristão deve ser apóstolo e missionário. [...] O trabalho de recristianização começa em nós mesmas, se estendendo às famílias e delas á sociedade. E o que fizermos procurando reformá-la para Cristo, não faremos senão em nosso próprio proveito, pois que teremos contribuído para a formação de um ambiente moral e religioso para nossos filhos, proporcionando-lhes assim uma vida pura, num meio puro, condições indispensáveis para a conquista do céu.”40 Em outubro 1949, sob a orientação de Frei Saulo Tavares Cabral foi novamente organizada a Festa do Cristo Rei, no dia 30 de outubro, constando da programação do evento: missa solene, tarde de formação para a juventude e renovação de compromissos dos membros da Ação Católica. A renovação era um ato anual de ligação dos membros, referendado pelo arcebispo, para que os trabalhos da Ação Católica tivessem um caráter oficial. A obediência à hierarquia e às normatizações estabelecidas pela Santa Sé se faziam numa prática cotidiana externada em momentos de cerimonial jubiloso, frente a aqueles que Discurso preferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na Festa do Cristo Rei 31.10.1948. 40 148 representavam a Igreja. O respeito deveria ser demonstrado na relação direta com o vigário ou com os frades, que na paróquia ministravam os sacramentos e faziam pregações, até atingir numa instância maior, a figura infalível do papa, resguardado em sua soberania. A expressão dessa realidade pode ser exemplificada, nas comemorações promovidas pelas mulheres da Ação Católica, em duas festividades distintas. A homenagem pelos vinte e cinco anos da presença franciscana na cidade e na comemoração das bodas de ouro de ordenação sacerdotal de Pio XII. A primeira ocorreu em novembro de 1949 e teve um cunho de resgate histórico, de agradecimento e de reconhecimento da figura do sacerdote religioso pela renúncia de sua vida privada e por sua dedicação à vida coletiva. No discurso endereçado aos frades, em sua maioria estrangeiros holandeses, podem ser destacados aspectos da relação desses com a comunidade: “De quanta importância se revestiu este quarto de século, em que aqui desempenhastes vossa grande missão de condutores de almas. Por mais avançado que fosse os cálculos dos benefícios que viríeis espalhar, os resultados ultrapassaram as expectativas. [...] Ser sacerdote é arrebanhar as almas. Segundo um piedoso escritor: “é ter a coragem da mais completa renúncia de tudo que a terra lhes podia oferecer, é ter a força de ânimo singular, inspirada na mais exata compreensão da vaidade do mundo e da realidade das coisas; é seguir a Jesus, unir-se a ele na vida, no trabalho, no ideal e tornar-se pescador de homens, apóstolo de uma idéia divina que revelada por Cristo, foi por ele propagada para renovar a terra. [...] Assim deixastes a vossa pátria no velho mundo, berço das ciências e das artes, e atravessastes os mares azuis, em demanda do Brasil. Fizestes dele a vossa pátria e da nossa língua a vossa língua. Cheios de fé, ensinais sem desfalecimentos a palavra de Deus, perpetuando a obra da redenção e renovando continuamente os povos na luz da verdade e nos tesouros da graça. [...] Sois destarte, credores da nossa mais profunda gratidão e da nossa amizade.”41 A comemoração dedicada a Pio XII contou com uma breve biografia contada em discurso, ressaltando sua vocação natural para a vida religiosa. As passagens mais expressivas do discurso são aquelas referentes à sagração do pontífice e sua atuação, descritas com eloquência pela liguista oradora: “... Finalizadas as cerimônias dentro da Basílica, o santo padre surge no balcão das bênçãos. Na praça as tropas apresentaram armas. O hino do Vaticano foi executado Discurso de Dª Benigna Moreira de Souza na comemoração de 25 anos da Presença Franciscana em Divinópolis – 20.11.1949. 41 149 pela banda pontifícia. A multidão ajoelhou-se profundamente concentrada e o Cardeal Cacia Dominioni, coroou o papa, ao mesmo tempo que ia pronunciando, em latim a seguinte fórmula: “imponho-vos a tiara ornada por três coroas. Sabei que sois pai de príncipes e reis e diretor do mundo e vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem unicamente se deve honrar a glorificação, pelos séculos dos séculos, amem. Retumbaram as aclamações de alegria de todos os presentes, entre os quais se contavam cinqüenta soberanos e príncipes de sangue real.” A bênção apostólica de Pio XII desceu vagarosamente sobre a multidão que o aclamava.”42 Ao caracterizar o pontificado de Pio XII, foram enumeradas suas ações e prioridades, destacando-se seu compromisso com a Ação Católica e sua simpatia em relação ao trabalho evangélico dos franciscanos: “... A Ação Católica recebe de seus lábios palavras de apreço e segurança. Dá grande impulso à esta herança preciosa que lhe deixou Pio XI. Já em 1914, quando núncio apostólico na Baviera foi admitido na Ordem Terceira Franciscana, ele tem realmente o espírito franciscano e confia largamente na Ordem Franciscana como dique para os tempos lamentáveis que atravessamos. Cita nos frei Mansueto as palavras que pronunciou aos franciscanos em 1939: “Por vós franciscanos volta novamente São Francisco a esta terra como anjo luminoso, que traz o sinal de Deus vivo, marcado com os estigmas do crucificado, ardendo de amor de Deus e do próximo, porque o espírito de São Francisco e sua perfeita forma e norma de vida oferecem os remédios adequados para sanar os feridas sangrentas do nosso século”... Cabe a nós cristãos fiéis, orar pelas intenções do Sumo Pontífice, que devem ser as mesmas de Nosso Senhor. Pedro revive nos seus sucessores, regendo os pastores e os rebanhos. Continua ensinando, corrigindo, ligando, desligando, dirigindo as inteligências, encaminhando as almas e permanecendo o soberano da verdade.”43 Em situações especiais, as comemorações envolviam todas as entidades, mobilizavam a coletividade e eram programadas na forma de evento cívico-religioso. Como exemplo, a comemoração ocorrida em 10 de outubro de 1943, realizou passeata das associações, repartições públicas, oficinas, fábricas etc., utilizando bandeiras, estandartes e emblemas, culminando numa solenidade na Praça Benedito Valadares, em homenagem ao Papa Pio XII. Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio, em homenagem às Bodas de Ouro de ordenação sacerdotal do Papa Pio XII. 42 Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio, em homenagem às Bodas de Ouro de ordenação sacerdotal do Papa Pio XII. 43 150 No final do ano de 1949, ficou estabelecido em reunião dirigida por Frei Orêncio, a mudança do nome da Liga Feminina de Ação Católica para Senhoras da Ação Católica, com renovação de vínculos na Junta Diocesana. Após a realização da Semana de Estudos em 1943, foi criada também, em julho, a Congregação das Mães Cristãs44, uma entidade mais voltada para o trabalho com as famílias. Sua diretoria em 1944 estava assim constituída: Maria de Loudes Pimentel (presidente), Marta de Souza (vice Presidente), Lanira Couto Nogueira (secretária), Maria Eugênia Belizário Epifânio (tesoureira), Benigna Moereira de Souza (conselheira) e Mercês dos Santos (Bibliotecária). A necessidade de sua criação foi assim justificada pelo jornal interno “A Semana”: “Por ser necessário, de necessidade urgente! Por ser o único remédio para defender a família contra os erros do comodismo e neopaganismo do século XX, para amparar as mães de família na sua grande responsabilidade que aumenta com a velocidade do progresso atual, para orientar as educadoras na confusão caótica de teorias falsas, para preservar os espíritos das propagandas detestáveis do neomaltusianismo e divórcio, para preservar a felicidade íntima e sagrada do ambiente familiar, para santificar o lar nestes tempos de indiferentismo e materialismo. É remédio único na certeza, na convicção que a esposa e mãe que compreende o seu dever integralmente, que sabe cumpri-lo com dedicação, abnegação e idealismo, que a esposa exemplar e mãe modelo é norma e garantia de uma família cristã.”45 Na reunião desta associação, em 20 de agosto de 1944, o vigário Frei Metelo Greeve explicou a finalidade do grupo como sendo o de atrair as mães divinopolitanas à Cristo, ensinando-as a educar seus filhos, se dedicando ao amparo de famílias pobres e se fundamentando cristãmente por meio de uma biblioteca especializada, onde poderiam ser encontrados livros bons e educativos como o Manual das Mães Católicas. Os pontos principais de seu programa46 foram: 1º Organizar as boas cristãs num movimento conjunto em defesa do lar cristão. 2º Santificação da Eucaristia. 44 Jornal Interno A Semana – 4 a 11 de julho de 1943. 45 Jornal Interno A Semana – 18 a 25 de julho de 1943. 46 Jornal Interno A Semana – 18 à 25 de julho de 1943. 151 3º Conforto no cumprimento do seu dever de mãe, pela oração das sócias e a bênção especial. 4º Dar orientação em geral na reunião mensal no terceiro domingo de tarde. 5º Promover conferências públicas sobre higiene, alimentação, feitas por médico ou pessoas competentes. 6º Fazer caridade: dando assistência médica obstetrícia, ajudando no serviço doméstico ou por auxílio maternal à mãe e filho indigente, apoiando a terminação e manutenção da maternidade e na construção de creche. Na reunião do dia 17 de fevereiro de 1945, o tema em pauta foi a indissolubilidade do casamento e a importância de se manter o compromisso de noivado, alertando sobre sua dissolução apenas em casos gravíssimos. Frei Carlos Schep que neste dia acompanhava os trabalhos do grupo, rechaçou o divórcio, considerando-o a ruína da sociedade. Na mesma reunião, os bailes de carnaval foram considerados pecaminosos, bem como as piscinas onde se misturavam os sexos e a avenida foi apontada como local de pecados. Essa mentalidade tomava conta das mulheres, que por vezes, dedicavam-se a encontros de hora santa coletiva nos dias de carnaval. O clero encorajava essa prática e condenava o paganismo dos foliões: “Os bons católicos, os integralmente católicos fogem das bacanais carnavalescas e se recolhem nos templos aos pés do Santíssimo exposto...”47 No Jornal O Sino de São José, as práticas carnavalescas foram também condenadas e os católicos foram estimulados a se votarem para a oração: “Quando, durante os três dias de misérias e de loucuras os nossos pobres irmãos entregam-se cá fora às máximas orgias, procurando imitar os irracionais, procuremos, no remanso do santuário, imitar os anjos, adorando a Deus três vezes santo, consolando-o pelo abandono em que o deixam seus beneficiados, pedindo-lhe perdão para as infidelidades e repetindo mais com o coração do que com os lábios, as palavras admiráveis de Jesus crucificado: “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que fazem.”48 “Adoração as 40 Horas”, prática que começou em Milão, no ano de 1527, sendo divulgada amplamente pelos jesuítas desde 1553. Assumirá o aspecto de reparação pelos pecados cometidos sobretudo durante o Carnaval. In: Matos, 199. p. 165. 47 48 “Desagravo”. In: O Sino de São José, Ano 10, nº 7 (10-2-1929) In: Matos,1990. p. 165. 152 Pequenas chamadas eram colocadas na imprensa, alertando os pais sobre os procedimentos nos dias de folia, proibindo as filhas de tomarem parte em brinquedos carnavalescos em que estivesse em perigo o pudor:“Saias demasiadamente curtas, decotes exagerados, fantasias de meninas se vestirem de homens são coisas que a mãe católica deve, em consciência proibir às suas filhas.”49 O carnaval era considerado um momento de ausência de normas, um ritual profano responsável pelo desvio dos costumes cristãos: “Três dias em que o mundo pode entregar-se inteiramente ao gozo dos prazeres, à volúpia, saciar a sede de sensualismo, pois nestes três dias, os famintos de sensações ardentes, de abraços vergonhosos, de liberdades sem limites, de danças selvagens, de músicas excitantes, tudo alegria, tudo festa, tudo sensação...”50 Na imprensa da época, circulavam artigos em defesa dos bons costumes, como o intitulado, “Pode-se nadar?”. Seu conteúdo questionava os espaços de banho coletivo enquanto ambientes de lazer mas que eram locais fecundos para a libertinagem e ausência de pudor: “Perfeitamente, pode-se nadar. Mas... há natação e há natação, há piscinas e piscinas, nadadores e nadadores, nadadoras e nadadoras...esporte e praia ... moços sérios, moços atrevidos, moças dignas e puras, moças sem modéstia e sem compostura, sem vergonha. [...] E principalmente – o nado leva muita gente para o inferno... O nado e a praia como os vemos hoje em muitas cidades não são dignos de uma moça de uma família que se preza.”51 O sacramento do matrimônio era a garantia da germinação sadia da família cristã, centrada na moral católica. O casamento era considerado indissolúvel e tomado como um ato sacramental que se sobrepunha à união civil, como ficou exposto no artigo, “Casamento e Casamento”: 49 Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 97, 15-02-1931. 50 Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 97, 15-02-1931. 51 Jornal Interno A Semana – 13.01.1946. 153 “O matrimônio, base da sociedade doméstica, foi por Deus instituído no paraíso terrestre e por N. S. Jesus Cristo elevado à dignidade de sacramento, e por isso incumbe à Igreja, e só a ela, legislar sobre o mesmo e julgar da sua validade, estando idênticas entre os católicos as idéias de contrato matrimonial e sacramento do matrimônio. Logo se vê, que para os católicos, o único casamento válido é o sacramento do matrimônio. [...] O contrato civil é uma simples formalidade que, sem nada a acrescentar no valor do Sacramento do matrimônio, nem enfraquecer-lhe o vínculo ou atingir-lhe a essência, vem apenas garantir os direitos temporais da família já constituída, ou a constituir-se proximamente de acordo com a legislação divina e eclesiástica.”52 Sacramentado o casamento e constituído o lar, era severamente condenada também a prática dos cônjuges de evitarem filhos como estava normatizado num documento papal: “Mas nenhuma razão, certamente por grave que seja, pode fazer que o que é intrinsecamente contrário à natureza se torne conforme a natureza honesto. Por ser o ato do matrimônio destinado pela própria natureza à geração de filhos, os que fazendo-o, se aplicam deliberadamente a tirar-lhe sua força e eficácia, agem contra a natureza; fazem uma causa vergonhosa e intrinsecamente desonesta. [...] Mesmo com a mulher legítima, o ato do matrimônio se torna ilícito e vergonhoso, desde que se evite a concepção do filho. [...] Consequentemente, como alguns desviando-se manifestamente da doutrina cristã tal tem sido transmitida desde o princípio e sem ter sofrido jamais alteração alguma, julgaram bom recentemente pregar de modo retumbante sobre estas práticas outra doutrina, a Igreja Católica, pelo projeto de Deus encarregada de ensinar e defender a integridade dos costumes.”53 A oposição do clero ao divórcio era firme, visto como um atentado contra a família católica e contra a Pátria. Seguindo essa lógica, a Igreja não aceitava as manifestações em favor de instituí-lo no Brasil. Os pronunciamentos da época seguiam basicamente essa visão: “A oposição deve ser radical e sem nenhuma concessão porque o divórcio é antihumano, anti-social e amoral. Essa instituição (...) só se aclimata nos meios degenerados, onde o pudor é sacrificado ás exibições mundanas e onde a decadência dos costumes chegou ao auge. O divórcio é anti-humano, porque fere a dignidade do homem, é anti-social porque atinge a estabilidade da família e amoral, porque dá margem à pratica de todos os desregramentos que aviltam e deslustram as sociedades. (...) Só os insensíveis, os desalmados, os revoltosos contra a luz apoiam 52 Jornal O Santuário de Santo Antônio – Ano 7, nº 6, outubro 1933, p. 3. 53 Jornal São Francisco Ano VIII, nº 101, 15-04-1931. 154 o divórcio. Ele não é remédio, é veneno, não é recurso, é desastre, não é garantia da felicidade, é a fonte de todas as misérias.”54 Experiências constitucionais em países vizinhos como foram os casos do México e do Uruguai, eram rechaçadas pelos grupos católicos, sempre apelando para a tradição cristã do Brasil. Frei Rafael foi categórico em seu artigo, “Moralmente uma coisa escandalosa!” escrito em 1946: “É, meu amigo. Uma coisa escandalosa! Um caso policial. Só isto o que falta neste Brasil, para completar a miséria no país, no Estado e na Família. Como outro anúncio qualquer, O Correio da Manhã publica também este: O Divórcio, novo casamento no México e no Uruguai. Dão-se amplas informações gratuitas. [...] Uma nova vida, uma vida mais solta, mais à vontade, uma vida num ambiente onde são desconhecidos. Aí, marido, esposo, estás livre. Podes levar, ou melhor, continuar sua vida desenfreada. No Uruguai onde o divórcio é lei. [...] Atirar sua primeira mulher num canto como se fosse um trapo imundo! Divórcio: Uruguai e México, onde os queridos maridos poderão abrir um harém. Virar sultão, viver pior do que os animais na mata virgem. [...] O Brasil é ainda cristão, e o povo não quer essa degradação, não quer essa infâmia que reduz à zero a dignidade da mulher...”55 Os defensores da legalização do divórcio argumentavam ser necessário permitir o rompimento daqueles matrimônios considerados prejudiciais aos cônjuges e sem eficiência para a sociedade. Outros mais ousados para a época opinavam sobre o livre arbítrio e o direito de os contratantes romperem seu compromisso no âmbito legal. Mas para a Igreja, de acordo com a Encíclica Cast Connubi: “O que Deus uniu, o homem não separa” (Math XIX). E se o homem afrontosamente se atreve a fazer isso, e fica imutável o que abertamente cristo confirmou dizendo: “Quem repudiar sua mulher para casar com outra, é adultero, e quem desposar a repudiada por seu marido comete adultério (Luc. XVI, 18)” 56 Sucupira, Luís: Duas Atitudes. In: “O Horizonte”, Ano 10, nº 936(29-12-1932), p. 1, c. 2 (transcrito de “A Imprensa”, Rio, 28-11-1932. In: Matos, 1990. p. 166-167. 54 55 Jornal Interno A Semana – 20.01.1946. 56 Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 110, 01.09.1931. 155 Em Divinópolis, defenderam o divórcio, os adeptos de uma nova constitucionalidade que garantisse a liberdade de escolha do cidadão como foi o caso do Sr. José Fernandes, severamente criticado pelo clero local através da imprensa: “Os divorcistas tratam de reduzir a união matrimonial a um simples contrato dissolúvel, ao amor livre, que é a destruição da família e dissolução da sociedade. Discordamos e combatemos, portanto, energicamente o artigo de José Fernandes no último número do “Divinópolis-Jornal”, que levado por estas correntes corrompidas e corruptoras do sensualismo e materialismo moderno, defende o divórcio. Negamos a José Fernandes toda autoridade de escrever sobre esta questão, pois lhe falta a competência. [...] Pela sua argumentação sentimental, José Fernandes mostra não estar a par desta questão social e não conhecer, nem de longe, a estrutura da sociedade, da sua felicidade, bem estar e prosperidade. Não é proceder dum homem sensato, menos ainda dum jornalista, cuja nobre missão é instruir o povo, escrever um artigo sobre uma questão importante e de tão grande vulto sem sérios estudos e preparo.”57 A Paróquia de Santo Antônio aplaudiu a notícia de que o presidente Getúlio Vargas teria referendado o parecer do ministro da justiça, mandando arquivar a petição dos advogados do Rio de Janeiro sobre o divórcio. Vários grupos católicos de Divinópolis aplaudiram a iniciativa enviando telegramas ao governante: Ao Exmo Sr. Getúlio Vargas “Enviamos a V. Excia nossas sinceras felicitações pela aprovação do parecer referente ao divórcio”. Padres Franciscanos de Divinópolis “Apresentamos a V. Excia calorosos aplausos de Cristãos e Brasileiros pela aprovação do parecer contra o divórcio”. “Felicitamos V. Excia. Pela belíssima defesa da família cristã e brasileira contra o divórcio”. Vigário – Divinópolis Junta Paroquial da Ação Católica Conselho Vicentino Liga Católica Congregação Mariana 57 Jornal Interno A Semana – 12.05.1946. 156 Mães Cristãs Filhas de Maria Ordem Terceira Apostolado da Oração Cruzada Eucarística Corpos docente – discente Ginásio São Geraldo Irmãs e alunas da Escola Normal Professores Grupo Escolar “Agradecemos V. excia a defesa moral da Família Brasileira contra o divórcio e social pelo abono familiar”. Círculo operário de Divinópolis O clero local fez um apelo através da imprensa aos católicos comprometidos com a causa da preservação da família: “Convidamos as pessoas de alta posição social, magistrados, médicos, engenheiros, advogados, diretorias de fábricas, etc, a fazer o mesmo”.58 A cruzada em defesa da Família Cristã contemplava várias frentes, como a preocupação com as leituras. Havia uma vigilância pela boa leitura e uma sinalização para a valorização do teatro e cinema que expressassem a preservação da moral e dos bons costumes. As produções consideradas levianas e corruptoras da moral eram mal vistas e desestimuladas. A posição de Dom Silvério, arcebispo de Mariana, sobre o cinema e sua influência no comportamento social, foram expostos no artigo, “Poderemos freqüentar o cinema?”, em que o bispo reconheceu a engenhosidade humana em sua criação, fruto do avanço da ciência, porém lamentou o seu mau uso para a perversão dos costumes, por transformar-se, segundo o prelado, numa opção de lazer corruptora da segurança e da moral mantenedoras da ordem: “Assim desviado dos fins providenciais, o cinema tornou-se geralmente o mestre e incentivo do vício e do crime. Ali os homens corrompidos acham pasto para as paixões vis e brutais, os inexperientes guias e incentivo para o mal, e os pobres inocentes encontram o ensinamento do vício, a perda da virtude, o tirocínio para o crime. Dele procedem os adultérios dos casados, as discórdias dos cônjuges, a desarmonia das famílias a prostituição das donzelas, a corrupção dos jovens, os roubos, as rixas, os suicídios, como estão nas folhas diárias de periódicos publicados sem falhar no que escapa à sua sagaz perscrutação. [...] Então não iremos mais 58 Jornal Interno A Semana – 21 a 28 de novembro de 1943. 157 nunca ao cinema? Si houve algum correto, que respeite sempre nossa fé e a moral cristã, claro está que não é nossa intenção condená-lo, antes dos perigos contra a higiene e moral, que nascem das condições locais de boa vontade o recomendamos.”59 No primeiro Congresso Nacional da Ação Católica de 1946 foi abordada a questão do cinema, considerado quando não devidamente selecionado, um dos maiores óbices à mentalidade sadia e à formação apostólica, sugerindo: “A todos os sacerdotes, portanto, e em particular aos Párocos e Diretores de Colégios, recomendamos que, articulados com o Departamento de Cinema e Teatro, Concorram, não apenas para neutralizar o mau cinema, mas outrossim para fomentar o bom cinema.”60 Imbuídos deste clima de aplicação de limites para a vida social, numa resistência à onda de inovações provocadas pela modernização dos costumes veiculadas através do cinema, moda, revistas e rádio, os franciscanos criaram a Casa de Santo Antônio em 1938, espaço usado para apresentações de teatro e como sala de cinema. Os padres divulgavam a nova casa de divertimentos solicitando o apoio da comunidade para que prestigiassem suas atividades artísticas, como as peças apresentadas pelo Conjunto Teatral Mariano: “Pedimos o apoio e o auxílio dos verdadeiros católicos. Começamos a exibir ótimos filmes dos nossos contratos das produções 42-43 da universal e R. K. O . O Conjunto está aperfeiçoando a peça que levará em cena nestes dias: Remorso Vivo. Estamos estudando melhoramentos na representação do drama de Jerusalém ao Calvário. Porém, freqüência às sessões diminutas, auxílio que entrou quase nulo, apoio recebido... só para inglês ver...” 61 A intenção do clero local, ao iniciar projeções de filmes na Casa de Santo Antônio, era de concorrer com o cinema livre da cidade que exibia material considerado pernicioso, como foi comentado várias vezes pelo jornal da paróquia na época: 59 Jornal São Francisco – Ano VIII, nº 107, 15-07-1931. 60 Dale, 1985. p.69. 61 Jornal Interno A Semana – 5 a12 de março de 1944. 158 “Antigamente havia um só cinema na cidade. Pessoalmente nós não somos a favor de filmes, pois freqüentar sempre excita demais a fantasia, irrita o sistema nervoso, e não deixa de prejudicar a saúde. Mas o povo do século XX quer “fita”. Há também o lado instrutivo. Muitas vezes porém, o filme representa cenas e enredos condenáveis, contra a moral. Neste caso a Igreja, como educadora, guarda da moralidade deve levantar a sua voz e proibir. Mas nós não queremos só trabalhar negativamente, só proibindo e negando. A nossa intenção é substituir o mal pelo bem ou ao menos pelo tolerável. Nós queremos dar ao povo um divertimento ...”62 Havia uma preocupação em oferecer uma diversão condizente com a moral católica, por isso, o material a ser exibido passava por uma seleção, ocorrendo inclusive, cortes nas fitas, adequando-as às características do público: “O cinema de Santo Antônio, como obra paroquial, devia merecer as atenções e as simpatias do povo. Devia merecer o apoio moral de todos quantos conhecem sua obra e a sua finalidade, devia defendê-la contra as críticas maldosas e infundadas. Os vigários Frei Braz, Frei Gilberto, Frei Rodrigo e Frei Metelo abriram e exploraram este cinema para fornecer ao povo um divertimento honesto, tão necessário aqui na cidade. Todos os filmes passados em nosso prédio foram censurados pela Ação Católica do Rio de Janeiro. E ainda escrupulosos e não satisfeitos, desta censura, tendo em vista sempre um divertimento asseguradamente sadio e moral, vimo-nos muitas vezes obrigados a cortar filmes menos convenientes para o nosso povo do interior”63 O Cinema passou por uma reforma e sua reinauguração estava prevista para acontecer em 1946, junto ao lançamento do Jornal “A Semana”, que deixaria de ser um folheto de circulação interna. Num artigo do jornal, ainda em seu formato simples, a sociedade divinopolitana foi informada sobre as condições do novo cinema: “... As cadeiras, todas novinhas, já estão à espera dos nossos fregueses, que no dia da estréia verão na tela o grandioso filme “Sinal da Cruz”, superprodução da Paramont. Fachada majestosa, entrada estética e moderna, um hall chique e convidativo, salão amplo, com iluminação elétrica que nem o Quitandinha no Rio. O movimento cinematográfico entrará numa fase completamente nova. Programação que causa inveja aos maiores e mais luxuosos cinemas da capital, e veremos na tela filmes que ainda são desconhecidos em Belo Horizonte e nos maiores centros. Além da referida programação de filmes, os esforçados amadores do C. T. M. estão ensaiando diversas peças teatrais, entre as quais destacamos “Aventuras de um rapaz feio”, “Iaiá Boneca” e “Sinhá moça chorou”. Quatro lindos bailados estão sendo ensaiados 62 Jornal Interno A Semana – 5 a 12 de março de 1944. 63 Jornal Interno A Semana – 03.03.1946. 159 caprichosamente pelas alunas da Escola Normal. Resumindo tudo isto, estamos certos de que a estréia do novo Cine Santo Antônio, com sua bela programação de filmes coadjuvada pelos amadores de Moacir Cabral, outrossim pelas bailarinas da professora Irene Silva e da muito esforçada Dª Joaninha, será um grande sucesso ...”.64 A história do cinema em Divinópolis inicia-se com o uso de um equipamento portátil a partir de 1906, movido à gás de carboreto, com imagens no geral estáticas que passava a Vida de Cristo e vistas de cidades.65 Posteriormente, transformou-se em opção de lazer quando em 1914, foi criado na Praça do Rosário, o Cinema do Viana. Foi uma grande atração numa época em que a população contava como evento social apenas com as festas religiosas. A exibição de determinados filmes, teria inclusive, provocado a reação da Igreja como foi o caso da projeção do Corcunda de Notre Dame (Corgozinho, 1999:107). O cinema livre, que estimulou os franciscanos a tomarem a iniciativa de criar uma opção alternativa que atendesse aos propósitos de propagação do bom cinema, foi o Cine Alhambra, inugurado em 1938, de propriedade dos libaneses Rachid Souki e Américo Souki. As restrições ao “mau cinema” ocorriam por serem considerados também modelos importados, fomentadores de comportamentos estrangeiros, inadequados a nossa realidade predominantemente católica. Ilustra essa visão, os comentários feitos por Frei Rafael ao filme “E o vento levou”, sucesso de bilheteria nos anos quarenta em todo o mundo, também amplamente prestigiado pelos divinopolitanos: “Apareceu então, domingo passado, inesperadamente, tão inesperado que nem deu tempo para fazer propaganda, o tal filme que o vento levou dos estados Unidos, longe, muito longe, e o trouxe para estas zonas tranqüilas e meigas da Terra de Santa Cruz. [...] Vítimas nas grandes metrópoles, vítimas nas cidades, vítimas até nas cidadezinhas pacatas e tranqüilas, onde o povo no cumprimento fiel dos seus deveres, teme a Deus e se viu surpreendido pelo vendaval e forte tempestade. [...] Despertaram paixões e vícios. O silêncio sepulcral do momento, a efervescência, a excitação, o ambiente, a realidade na tela – tudo isto completou a sua obra destruidora nas almas inocentes e desacauteladas [...] E o vento deixou? – Muito dinheiro e 4 sessões para os proprietários. Parabéns Alhambra, mais uma vez ...”66 64 Jornal Interno A Semana – 14.07.1946. 65 Azevedo e Azevedo, 1988. p. 90. 66 Jornal Interno A Semana – 19.05.1946. 160 Os investimentos no cinema foram infrutíferos. Um conjunto de fatores levaram os padres a optarem por sua desativação, seguida da venda do equipamento. Contribuíram para esse resultado o volume de despesas com aluguel de fitas, prejudicando outras obras paroquiais, a concorrência de outras casas apresentando filmes mais atrativos ao público, e principalmente, o fato de mesmo passando pela censura prévia, exibiam-se alguns filmes ainda considerados inconvenientes, o que dava motivos para situações de constrangimento e aguçava a crítica de grupos opositores.67 A leitura também era motivo de preocupação e deveria ser alvo de cuidado redobrado, em função da exposição descontrolada nas bancas e livrarias de obras consideradas perniciosas, aguçando a imaginação e o interesse dos leitores por títulos atrativos estampados como um verdadeiro convite à fantasia. O livro representava um perigo mais sutil e ao mesmo tempo eficaz, por ser desfrutado no espaço da individualidade com possibilidades de interpretação diversas. Trazia consigo a condição de poder emancipar o pensamento e irromper os ânimos bem comportados numa ação renovada. As obras, muitas vezes, estimulavam o lado revolucionário adormecido do leitor, subsidiando o questionamento, a imaginação e a criatividade, fecundando pela apropriação do conhecimento, a construção de uma nova realidade. Para a Igreja o combate à má leitura representava o enfrentamento do inimigo, travestido em seu discurso bem formulado e construído a partir de teorias, tratados e formulações doutrinárias, num jogo de palavras, conceitos e proposições eficazes no seu poder de persuasão ao transmitir outras visões de mundo. Para o pensamento católico era a difícil convivência com a alteridade, com a aceitação de outras interpretações da realidade que não passassem pela lente do sagrado. Para a Igreja havia uma necessidade de se fazer eficiente na guerra dos discursos e teorizações e na veiculação de símbolos, capazes de suplantar as novas ideologias trazidas pelos intelectuais, pastores, militantes, sindicalistas e outros atores que insistiam em anunciar um mundo fora dos limites do catolicismo oficial. No artigo, “Matadouro de almas e consciências”, publicado no jornal “A Semana”, Frei Rafael convocou os católicos a repudiarem as más leituras: 67 Revista de Santa Cruz, Ano XII, outubro de 1947, p.151. 161 “Estudantes e professores do ensino primário e secundário e do curso superior lêem com a maior naturalidade e desembaraço livros, revistas e romances, estudam sem base moral e filosófica as obras de kant, Descartes, Comte e outros, e depois analisando as obras, dizem com ar de entendidos: É uma obra notável é um livro colossal. Além do mais, considera-se retrógrado, atrasado, inculto e retrógrado aquele que ainda não leu os últimos romances: Por quem os sinos dobram, e O vento levou, etc. E as livrarias ostentam nas vitrines os livros pornográficos, as revistas mais imundas, os romances mais indecentes, sem censura e sem fiscalização. Nessas livrarias entram milhares de pessoas de ambos os sexos, de qualquer idade, de todas as camadas da sociedade. Ai encontram-se a Bíblia Sagrada fraternalmente unida com a Maçonaria. Ai abraçam o espiritismo de Alan kardec com a Vida de Jesus. Ai associam-se a causa comum, o comunismo com a Ação Católica. Ai, nesse campo de concentração literária e pornográfica beijam-se a democracia e o totalitarismo.”68 Os investimentos no reforço dos dogmas da Santa Igreja incluíam a introdução de novas devoções, a fundamentação de aspectos doutrinários e a negação das manifestações e veneração de imagens consideradas pagãs, como o estímulo ao culto do natal voltado para o Menino Jesus e a Família Sagrada em oposição a figura importada do Papai Noel. De acordo com Servus Moriae, Pio XII investiu numa Igreja Universal, promovendo a reafirmação de devoções e símbolos, num reforço da identidade católica por meio da instituição do Ano Santo, do Ano Mariano, da proclamação do dogma da Assunção de Maria, associados à reforma da liturgia, ao reforço do apostolado leigo e à renovação bíblica (Moriae, 1994:77-79). Uma das devoções que recebeu especial atenção da hierarquia foi o culto ao Sagrado Coração de Jesus, tendo sido apresentada como a primeira dentre todas as devoções para um católico esclarecido, sempre associada à importância da Eucaristia. Essa prática foi divulgada pelo Apostolado da Oração e pela Obra de Entronização, podendo ser percebida sua dimensão na afirmativa: “O clero atribui a ela o verdadeiro ressurgimento religioso, já que o Sagrado Coração salvou o Brasil do abismo da indiferença religiosa e o salvará também o cataclismo da revolução social.”69 68 Jornal A Semana – 12.01.1947. 69 “Mês do Sagrado Coração” . In: “O Sino de São José” Ano 4, n. 23 (3-6-1923), 90. In: Matos, 1990. p. 337. 162 Os católicos eram estimulados a realizar a cerimônia de entronização nos lares, como se encarregou de divulgar a imprensa da época: “A entronização do Coração de Jesus nos lares é uma cerimônia lindíssima. Rei é aquele que reina sobre o universo e conhece o coração humano em todas as suas fraquezas e todos os seus segredos. Entronizá-lo, dar-lhe a soberania do lar, suplicarlhe a paz, o amor, a felicidade, a saúde, a graça, esse é o dever de todo bom católico.”70 Nessa perspectiva, os sacramentos eram tomados como tema recorrente nas reuniões, que normalmente ocorriam na sacristia, acompanhadas pelo vigário ou pelo assistente eclesiástico. A prática sacramental e sua reflexão eram mediadas pelo clero, inquestionável na sua sabedoria e missão evangélica como representante de Cristo presente na eucaristia. A autoridade eclesiástica era vista pelas mulheres da Ação Católica como o esteio da vivência cristã e como referência para a conduta da vida social. No discurso proferido por Dª Benigna na solenidade de recepção ao Bispo Dom Antônio dos Santos Cabral no Cine Teatro Santo Antônio em 1943, o respeito à hierarquia foi abordado: “O sacerdote quando traz o Evangelho, tem em suas mãos toda a moral, toda a razão, toda a civilização, toda a política. Nada mais tem ele a fazer do que abrir, ler e esparzir em redor de si o tesouro de luz e de perfeição, cuja chave a Providência divina lhe entregou. Vem a velhice, os cabelos brancos, as mãos tremem ao levantar o cálice, a voz não enche mais o santuário, mas ressoa ainda no coração do povo.” Ainda no mesmo discurso, a profissão do sacerdote foi enaltecida como figura intermediária acalentadora do espírito humano, em sua posição de transmitir a palavra sagrada: “Há um homem que as crianças costumam amar, venerar e temer e aos pés do qual os cristãos vem expor seus sentimentos mais íntimos, suas lágrimas mais secretas. Há um homem que é o consolador por profissão, de todas as misérias da alma e do corpo, o intermediário indispensável entre a riqueza e a indigência. Há um homem 70 Jornal São Francisco – Ano VII, 15.05.1931. 163 enfim, que sabe tudo, que tem o direito de dizer tudo e cuja palavra cai do alto sobre as inteligências e sobre os corações, com a autoridade de uma missão divina.” Mesmo que escrito por uma líder ligüista, envolvida organicamente com o apostolado leigo e pronunciado no calor de uma cerimônia de grande significado religioso para o público católico local, em função da presença solene do bispo na localidade, as palavras de Dª Benigna expressavam o sentimento coletivo daquele público diante da hierarquia. No entrelaçamento entre a representação de Jesus pelo clero e pela Eucaristia, a mesma ligüista referiu-se ao bispo como autoridade que estaria comprometida com obras cristãs na arquidiocese, ressaltando que sua disposição e força para torná-las realidade provinha da Hóstia Consagrada. Em sua fala enumerou as realizações importantes do prelado, citando o Congresso Eucarístico Nacional de Belo Horizonte, seu empenho na realização do Congresso Provincial da Ação Católica e a construção do que chamou de “Catedral Cristocêntrica”, referindo-se à sede da Cúria Metropolitana erigida na capital mineira: “...a adoração perpétua que instituístes, entronizando Jesus num templo gótico, de puras linhas ogivais, para adoração incessante de milhares de almas que desagravam e consolam.” Numa demonstração de fidelidade aos preceitos hierárquicos e de cumplicidade frente ao discurso da ordem cívica defendido pela Igreja, a oradora concluiu: “Exmo Sr.Arcebispo, a vossa presença neste momento contribui poderosamente para que a Ação Católica de Divinópolis teça um pedaço de sua própria história, que muito influirá na formação do caráter do civismo e da moral religiosa de seus filhos.” A eucaristia como santíssimo sacramento tinha um valor simbólico para as mulheres da Ação Católica. Era motivo de estudos nos encontros, reincidente em pronunciamentos e em ensinamentos apostólicos, sustentáculo dos outros sacramentos: “A presença real de Cristo na Eucaristia e a transubstanciação são duas grandes verdades dogmáticas ensinadas pela Igreja que todos os católicos devem crer, sob pena de heresia e anátema. [...] A Igreja coluna e fundamento da verdade, nunca variou no ensino da instituição da eucaristia. [...] Os monumentos dos séculos cristãos – catacumbas, igrejas, altares, esculturas ou pinturas, tudo se junta para 164 apregoar a mesma crença. O dogma eucarístico, não pode pois deixar dúvida alguma no espírito dos que de boa fé estudam a religião cristã.”71 Os discursos de Dª Benigna expõem a visão dos membros da Ação Católica em relação à hierarquia e o comprometimento com a ortodoxia católica, que de acordo com alguns autores, representava a restauração tradicional e a reprodução de um modelo de apostolado europeizante no Brasil. Partia-se do princípio de que somente pela restauração cristã da sociedade seria possível superar os problemas enfrentados pela sociedade moderna: “Os dias tenebrosos que atravessamos, enquanto a maldade humana atrofia e esteriliza os espíritos e a guerra devasta as nações, vivamos para Cristo, vivamos com Cristo, vivamos em Cristo, procurando salvar o preciosíssimo tesouro da fé que, depois através dos tempos e das eras transmitiremos às novas gerações que surgirão por certo do cataclismo.” 72 A disposição dos leigos para recristianizar a sociedade a partir do mandato instituído pela Ação Católica, num trabalho supervisionado pela hierarquia, abriu várias frentes de inserção desses militantes nos campos social e político. Era a maneira encontrada pela Igreja para enfrentar as contradições inerentes ao processo de modernização. Nesse contexto de afirmação do novo, as mulheres marcaram presença na defesa da família, muitas vezes exagerando ao assumirem posições marcadamente conservadoras, assumindo realizações no campo das obras sociais, sendo que em ambos os casos seguiam a rota traçada pelo clero. Sabe-se porém, que a inserção dos leigos na realidade social desencadeou um processo de politização dos militantes e a Ação Católica enquanto movimento, abriu um precedente de formação e crítica principalmente através da juventude organizada. Frei Carlos Josaphat atuou na Ação Católica no município de Mariana no final da década de 40, junto à Juventude Estudantil Católica. Em seu depoimento afirmou: Discurso proferido por Benigna Moreira de Souza, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio em recepção solene feita `Dom Antônio dos Santos Cabral em 1943. 71 Discurso preferido por Benigna Fernandes, na solenidade realizada no Cine Teatro Santo Antônio na Cerimônia pela visita de Dom Cabral – Cine Teatro Santo Antônio 1943. 72 165 “A minha linha era a Ação Católica mais de luta, uma Ação Católica de reivindicação, de achar que haviam muitas injustiças no país, sem preocupação propriamente de defender a Igreja, mas mais de promover uma ação política, social e educativa.”73 (Frei Carlos Josaphat) Essa experiência e outras, além do próprio trajeto do movimento no sentido da ação política propriamente dita e sua autonomia frente à hierarquia, demonstram que havia uma dupla vocação interna no movimento, no sentido da preservação e manutenção do espaço institucional da Igreja na sociedade e de renovação frente ao compromisso com a justiça social. Essa combinação dialética impulsionou a ação, fez amadurecer o compromisso social, abriu campo para questionamentos e fomentou um espírito cívico, que certamente ganhou forma a partir da presença feminina em seus quadros. 3.4 Apontar o bem e pô-lo em prática: a obra social das mulheres na paróquia “Trabalhar para a manutenção de um lactário, É trabalhar para o engrandecimento do Brasil, Pois ele é uma das armas pelas quais podemos lutar contra a mortalidade infantil. E um dos índices de progresso de um país é a baixa mortalidade infantil.”74 Nas palavras da médica Drª. Eliza Franca, que foi uma das dirigentes voluntárias das obras sociais de atendimento à infância e à maternidade em Divinópolis, encontra-se materializada a ideologia que havia sido sustentada pelo projeto social e político varguista, e que, por seu caráter inovador e pela adesão que havia conquistado, perduraria até o início dos anos 60. O controle dos trabalhadores e as concessões no âmbito dos direitos sociais inspiravase num modelo de Pátria construída por um povo saudável, baseada na idéia da ordem social alcançável pela colaboração entre as classes. Como num corpo organicamente sadio, a sociedade através de seus vários segmentos e grupos organizados deveria cumprir o seu papel patriótico de colocar-se à serviço do bem comum. Esse projeto foi prontamente incorporado pela Igreja, que num esforço institucional, colocou-se como principal parceira do Estado. 73 Entrevista realizada pela autora com Frei Carlos Josaphat no dia 02-11-2001. 166 Através de sua doutrina social era capaz de arregimentar as forças sociais voluntárias compostas de elementos das classes mais favorecidas econômica e intelectualmente, em prol da imensa gama de trabalhadores e de suas famílias, mantendo-os protegidos das privações materiais e dos sucessivos apelos revolucionários. Movidos por esta lógica de uma ação coletiva capaz de, pelas obras particularizadas e amalgamadas numa extensa corrente nacional voltada para a harmonia social, os trabalhadores foram orientados para se filiarem aos Círculos Operários. Ao mesmo tempo, suas famílias passaram a receber assistência social. Getúlio Vargas reforçou a necessidade de aplicação desse modelo a partir da adesão de empresários e voluntários, concepção defendida em seu discurso pronunciado em 24 de dezembro de 1932: “Onde termina a possibilidade imediata de meios fornecidos pelo Tesouro Público, cumpre apelar para a iniciativa de particulares, principalmente dos que têm sob suas ordens grupos de trabalhadores assalariados. É preciso que as crianças desses colaboradores anônimos da prosperidade individual sejam devidamente amparadas e, enquanto as mães ganham o pão nas fábricas e oficinas, os filhos pequeninos estejam nas creches, recebendo, com os cuidados higiênicos necessários, alimentação sadia e adequada, e os mais crescidos estudem nos jardins de infância e escolas próprias da idade. Acredito que este desejo de melhorar a raça, de dar ao país gente forte e sadia, encontre ampla compreensão em todos os setores das atividades nacionais. E é por isso que concito os homens de sentimentos nobres, as mulheres – sempre inclinadas aos gestos de bondade e heroísmo – os médicos, conscientes de sua missão e, especialmente as pessoas de fortuna, o dever de aplicar em obra de filantropia e assistência social parte do que lhes sobeja, se não desejam ser apontados como egoístas, endurecidos e simples amealhadores de pecúnia. Alimento a esperança, tenho mesmo a certeza de que, dentro em pouco, de todos os recantos do nosso território se levantarão vozes de apoio e se organizarão esforços, formando um movimento de edificante solidariedade capaz de assegurar completo êxito á campanha destinada a amparar a maternidade e a oferecer à Pátria gerações vigorosas.”75 Ao analisarmos as conquistas dos diretos e o exercício da cidadania no Brasil podemos tomar como referência o estudo de T. H. Marshall76 sobre a evolução dos direitos que compõem da cidadania, tomando como referência a democracia inglesa. Nesse país segundo ele, a conquista de direitos se fez obedecendo a uma seqüência de conquistas. Primeiro foram 74 Elisa Franca - médica e diretora do Lactário Olinto de Oliveira. In: Jornal A Semana 11.02.1951. A nova política do Brasil : no limiar de uma nova era, vol. 7, p. 158. In: Jornal Interno A Semana – 3 a 10 de outubro 1943. 75 76 T. H. Marshall. Cidadania, classe social e status.Editora Azhar, 1967. 167 os civis relacionados à liberdade e igualdade legal, em seguida foram conquistados os direitos políticos e a partir deles, foi possível consolidar os direitos sociais. No Brasil a ordem foi diferente. Os direitos civis e políticos apareceram nas constituições como uma imitação da tendência liberal implantada em outros países, garantidos sem a participação direta da sociedade civil. Já os diretos sociais foram concedidos para minimizar o foço social e, ao mesmo tempo, controlar e disciplinar o apelo das massas (Carvalho, 1998:279-281). Historicamente, a Igreja compactuou com esse processo, sempre optando pelas alternativas conciliadoras capazes de garantir o enfrentamento da questão social sem perder de vista a estabilidade social. Na Carta Encíclica de Pio X aos Bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação Católica, o pontífice reforçou sua tese do corpo organicamente uno, expressão simbólica de uma Igreja composta por Cristo como a cabeça, tendo como membros os fiéis coesos em torno da causa restauradora e do enfrentamento da questão social. A Ação Católica daria o tom da marcha em busca da realização do ideal de instauração de uma ordem social cristã. No afã de assumir uma Ação Popular77, a Igreja a partir de Leão XIII traçou as diretrizes da ação social católica frente aos problemas advindos com a industrialização. Denotavam a perversidade das regras capitalistas, e, no seu bojo, paradoxalmente faziam emergir de suas contradições os fundamentos teóricos e práticos da solução revolucionária apontada pelo socialismo e pelo comunismo. Ambos, tanto a superexploração capitalista liberal, como o revolucionarismo comunista, eram considerados danosos para os princípios de justiça social apregoados pela Igreja ainda no final do século XIX, e que ganharam substância pela instalação oficial da Ação Católica em 1925. A ação social católica apresentou-se em duas vertentes como foi tratado por Lustosa em sua abordagem sobre o reformismo social católico. Teriam se destacado segundo ele, a continuidade do tradicional assistencialismo e a preocupação com a reforma social propriamente dita. A hierarquia procurou conciliar a linha rotineira da atividade caritativa com uma proposta de promoção humana voltadas para uma ordem social capaz de alcançar a Na Carta Encíclica de Pio XI aos bispos da Itália sobre os fundamentos da Ação Católica, o papa usa esta expressão, explicando o posicionamento da Igreja frente à questão social. Considera que sua solução passa pela união popular, unindo todos os católicos de classes sociais diferentes, em especial a numerosa multidão do povo, integrados em torno de um centro comum de doutrina, propaganda e organização social. Documentos Pontifícios, Petrópolis: Vozes, 1959 p. 12. 77 168 justiça social. As correntes em confronto, de 1945 à 1964, foram a dos católicos neocapitalistas, representada por um número expressivo de adeptos. Defendia ações paliativas capazes de minimizar situações de carência e exploração com a adesão dos patrões. Uma outra proposta acreditava na necessidade de reestruturação social e econômica, ganhando simpatizantes nos meios mais lúcidos e críticos da Igreja. E finalmente, o grupo dos católicos revolucionários, mais radicais, propunham uma reforma estrutural da sociedade (Lustosa, 1991:1145-149). O pensamento católico sobre a questão social no início partiu do pressuposto de que a desigualdade estava em conformidade com o ethos social, portanto era parte de sua constituição orgânica. Segundo os preceitos católicos no campo assistencial caritativo, caberia aos segmentos privilegiados agirem dentro do espírito cristão de doação, praticando a caridade para com a parcela maioritária da sociedade submetida à condições de carência material. Mas para o bom cristão, engajado no movimento pastoral da Ação Católica, a boa obra teria como essência o atendimento das necessidades espirituais do pobre, devendo este ser munido, portanto, das condições mínimas de sobrevivência nos campos temporal e espiritual, sempre numa perspectiva caritativa de promover a assistência, conscientes da permanência da desigualdade característica inata das sociedades através dos tempos. Por meio da Encíclica Quod Apostolici Mumeris, Pio X justificou as diferenças sociais com as afirmações: “A sociedade humana tal qual Deus a estabeleceu, formada de elementos desiguais, como desiguais são os membros do corpo humano; torná-los todos iguais é impossível, resultaria disso a própria destruição da sociedade humana. [...] Disto resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver na sociedade príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos unidos por um laço comum de amor, se ajudam mutuamente para alcançarem o seu fim último no céu e o seu bem estar moral e material na terra.”78 A doutrina social da Igreja, partindo dessas premissas, acreditava numa ordem natural da desigualdade inquestionável. Entretanto, enxergava a necessidade de uma obra, no sentido Pio X, Sobre os fundamentos da Ação Católica. Documentos Pontifícios de 18-12-1903. II termo propósito, III Edição. Petrópolis: Vozes, 1959. 78 169 da intervenção social propriamente dita, em função do contexto sócio-econômico e político do mundo capitalista a partir dos anos 20. Ao estimular o trabalho social cristão, a hierarquia eclesiástica acreditava estar seguindo os paços lançados por Leão XIII, que na Rerum Novarum, defendia a caridade: “os ricos e os que possuem têm obrigação de caridade de socorrer os pobres e indigentes, segundo os preceitos do evangelho.” Mas havia também uma crença de que ao minimizar as carências dos despossuídos, seria possível desenvolver um trabalho pastoral de catequese, dando aos pobres uma formação cristã dentro dos princípios da ética e da moral. As diferenças seriam administradas e evitaria, desta forma, a vulnerabilidade dos mais carentes ao apelo dos socialistas e comunistas em prol da transformação radical da sociedade, ao proporem a supressão do capitalismo. A mudança de concepção no sentido de uma ação social, denotando um avanço na consciência crítica de grupos da Igreja comprometidos com um engajamento mais sistemático voltado para uma reforma social, foi sendo gestada no próprio processo de intervenção, acompanhando as transformações conjunturais experimentadas no mundo após 1945 e no país nas décadas de 50 e 60. No campo da renovação social cristã, desempenharam posição importante intelectuais e universitários, e especificamente na área da assistência social, destacaram-se as mulheres, principalmente aquelas de classe média, com boa formação educacional. Eram normalmente professoras ou normalistas originárias de famílias católicas praticantes. Na área da assistência social, houve intensa mobilização, particularmente de mulheres, pelo atendimento da infância e da maternidade, na minimização da carência e no atendimento de saúde. Foram lançadas as bases do trabalho social pela oficialização do Plano Nacional de Ação Católica em consonância com os Estatutos da Ação Católica Brasileira, apoiados numa organização técnico-administrativa representada pelos Departamentos Diocesanos de Ação Social, atuantes de acordo com o Departamento Nacional sediado no Rio de Janeiro (Dale, 1985). A proposta de reforma social cristã assumida pela Ação Católica buscava o alcance de um equilíbrio social pela reestruturação da sociedade a partir da colaboração: “... que nossa sociedade seja reestruturada em bases que possibilitem ao homem alcançar, pelos seus esforços, e os da comunidade solidária, um grau de bem estar material e espiritual que estabilize e dê tranqüilidade às famílias e aos indivíduos.” A idéia de mobilização, de uma 170 opinião pública sensível à causa, mostra que princípios da ação social propostos não se prendiam aos procedimentos governamentais: “... é preciso convencer homens e mulheres de sua capacidade humana para resolver os problemas individuais e sociais que, segundo um critério falso se julga que só os governos podem resolver”. Nessa perspectiva, acreditava-se que junto da ação social estava a ação política, no sentido da escolha de candidatos capazes de garantir em lei, os regulamentos e medidas capazes de consolidar tal reforma. Nesse caso teve grande importância a Liga Eleitoral Católica atuante nos anos 40.79 O artigo publicado no jornal “A Semana”, “Urgente Reforma Social Cristã”80, informou que toda a estrutura do trabalho social era apoiada na Comissão Episcopal, da qual participava ativamente o arcebispo de Belo Horizonte Dom Antônio dos Santos Cabral. No artigo foram apontadas as alternativas para o enfrentamento dos problemas relacionados à maternidade e infância: “Tenha-se em vista, antes de tudo, o cuidado com a infância e a maternidade. É preciso não esquecer que a mortalidade infantil é espantosa no nosso país, sobretudo nos meios desamparados, onde, aliás, o índice de natalidade é o mais alto. Como medida prática, neste setor, se criem, quanto possível, postos de puericultura nas zonas urbanas e rurais, maternidades, ainda que de tipo modesto, conforme o meio, sempre de acordo com exigências mínimas técnico científicas. Neste terreno é de grande conveniência um entendimento com o Departamento Nacional da Criança e com a Legião Brasileira de Assistência que, na fase atual, cuida precisamente, dos problemas da infância e maternidade.”81 A idéia de reforma social defendida pela Igreja relacionava-se com a minimização dos excessos do sistema capitalista liberal, mas principalmente, apresentava-se como necessária em face aos avanços da infiltração comunista. Era uma reforma voltada para a organização dos quadros sociais, priorizando a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Segundo a Igreja, deveria começar pela consciência moral, pois sem uma reforma dos costumes, não seria possível promover uma reforma social (Lustosa, 1991:120). As linhas mestras do plano social católico convergiam para a idéia de recuperação total da família brasileira, no sentido de um sólido equilíbrio de bem estar material e 79 Conclusões e moções do Primeiro Congresso Nacional de Ação Católica de 1946 (Dale, 1985. p. 80-81). 80 Jornal A Semana – 27.10.46. 81 Jornal A Semana – 06.10.1946. 171 espiritual. A assistência social atenderia as necessidades urgentes de saúde, educação, alimentação moradia e higiene. Dentre as prioridades, constavam a infância, a maternidade e o amparo ao menor. Como medida prática neste setor, a orientação era a de criação de postos de puericultura nas zonas urbanas e rurais, sugerindo um trabalho em parceria com o Departamento Nacional da Criança e com a Legião Brasileira de Assistência. O atendimento das famílias desamparadas, normalmente auxiliadas por entidades católicas mais antigas como as Conferências Vicentinas, deveria ser alvo do apoio sistemático de membros da Ação Católica, numa perspectiva do amparo material associado ao compromisso pastoral (Dale, 1982:75-76). Em Divinópolis, o trabalho de assistência social na perspectiva renovada da Ação Católica foi assumido pelas senhoras participantes da Liga Feminina Católica. Esta entidade tomou a frente do trabalho caritativo de amparo às famílias necessitadas através de campanhas de ajuda voluntária e também pela criação uma estrutura institucionalizada de assistência. Teve papel de destaque na administração desse processo, a professora da rede pública estadual e membro da Liga Feminina Católica, Dª Benigna Moreira de Souza. Segundo informações dessa ligüista, na cidade havia funcionado um lactário ligado ao Hospital Nossa Senhora Aparecida. O grupo de mulheres ligüistas mobilizou-se para reativá-lo, transformando-o num Posto de Puericultura. A iniciativa teria partido de Frei Saulo Tavares Cabral, na época assistente eclesiástico da Ação Católica. Num primeiro momento a iniciativa foi de reabertura do lactário com o nome de Lactário Olinto de Oliveira, para tanto foi criada a Associação de Proteção à Infância em 1948, no que reza o artigo primeiro de seu Estatuto: “A Associação de Proteção à Infância de Divinópolis, organizada sob os auspícios do Prefeito Municipal e sob a orientação do Departamento Nacional da Criança, do Ministério da Educação e Saúde, tem como objetivo desenvolver atividades em favor da maternidade, da infância e da adolescência no município de Divinópolis, estado de Minas Gerais.” No suplemento do jornal “A Semana” de fevereiro de 1951, a médica e diretora do Lactário Olinto de Oliveira, Drª Elisa Franca, fez um apelo aos divinopolitanos para que independente do credo e do posicionamento político partidário, colaborassem para a transformação do Lactário em Posto de Puericultura, o que demandaria um consultório pré- 172 natal de higiene infantil, acompanhado de uma cantina maternal e por um clube de mães. Em seu apelo, a diretora rechaçou a atitude provinciana de membros da comunidade que estariam depreciando a atuação da API - Associação de Proteção à Infância, envolvendo-a em desavenças partidárias. Pessoas que segundo ela, estariam colocando o partidarismo político acima da caridade. No Lactário, cerca de 100 crianças eram atendidas por dia, sendo pesadas, alimentadas com mamadeiras e as mães eram orientadas sobre cuidados com alimentação e higiene. As crianças que apresentassem problemas de saúde eram encaminhadas para atendimento médico no hospital. As inscrições no Lactário estavam sujeitas à sindicância familiar. Ao ser matriculada, a criança recebia roupas, talco, sabonete, pente e agasalho. A entidade procurava se inteirar também da situação da família da criança; se os pais eram casados no civil e no religioso, se o filho era batizado e registrado, a renda da família e aspectos da convivência do casal e filhos.82 A sede da Associação foi reformada e adaptada para o atendimento sob supervisão da Legião Brasileira de Assistência, possuindo sala de espera, secretaria, gabinetes dentário, de pré-natal e de higiene infantil; cantina maternal; sala de desinfecção das mamadeiras com autoclave; sala de distribuição e uma cozinha espaçosa. Essa nova estrutura fez o Lactário transformar-se num Posto de Puericultura como foi apresentado em discurso proferido por Dª Benigna em solenidade do dia primeiro de junho de 1957, data comemorativa do aniversário da cidade: “As emoções deste momento trazem-nos à mente uma visão infinitamente consoladora com a inauguração dos dois gabinetes dentário e pré-natal, transformase o Lactário em Posto completo de Puericultura, onde os nossos irmãos em Cristo, virão beneficiar-se largamente com alimento, roupas, assistência médica, remédios e assistência dentária. Aqui também receberão conforto espiritual, pois olhamos todas as almas como Deus as olha, como Cristo olhou do alto da sua cruz. Até o pobre da rua sente que a ternura de um olhar o sossega, que o nutre de simpatia e o sacia a compaixão. [...] Nasce a criança e já encontra na API os prontos cuidados. [...] Velase pelo seu batismo e registro civil e sanam-se as deficiências dos casamentos religiosos e civis, de seus pais. Pátria e religião harmonizam-se numa perfeita sinfonia”. 82 Jornal A Semana – 10.02.57. 173 A entidade sobrevivia de auxílios federais, normalmente destinados à construção, subvenção anual da prefeitura municipal, contribuições de sócios e ajuda da Legião Brasileira de Assistência.83 O espaço foi adaptado para a instalação da Sopa de Santo Antônio, inaugurada em setembro de 1956, sob responsabilidade dos membros da Ordem Terceira Franciscana. “Pudemos notar a presença do Exmo Sr. Prefeito, do Sr Alvimar Mourão, presidente da Câmara, de diversos vereadores, do coletor, dos médicos Dr. Mágno Correia e Dr. Sílvio Caldas, do professor Martin, de diversas diretoras de vários grupos etc., bem como de 30 a 40 outras pessoas. Além de Frei Mariano, estiveram presentes também Revmo. Pe. Frei Isidro, vigário da paróquia de Santo Antônio e o Revmo. Pe. Frei Mateus, comissário Provincial da ordem Terceira Franciscana. O jornal Semana se fez representar pelo clérigo estudante Frei Fidelis. Nada menos de oitenta e cinco pobres estavam ali assistindo à inauguração e já sentados à mesa para a primeira sopa. [...] Havia ali, pobrezinhos de todas as idades, de vários bairros de cidade, inclusive um nonagenário. [...] Durante a sopa reinou intensa satisfação, e após tomarem sua sopa, os pobres partiram alegres e profundamente gratos. E voltarão todos os dias, achando sempre a mesa posta pela caridade dos bons divinopolitanos!”84 Na Associação de Proteção à Infância, funcionava também o “Salão de Costura Frei Hilário”, onde eram confeccionadas roupas para as crianças e pessoas carentes do Lactário. Era também usado para a distribuição de roupas nos períodos de inverno e de natal. A descrição feita por Dª Benigna sobre o funcionamento de um “Natal dos Pobres”, ocorrido em 1950 tece detalhes de um dia de maratona das mulheres narrado como num diário: “Como presidente das senhoras da Ação católica, recebi um recado do Vigário que desejava me falar. Subi vagarosamente a rua São Paulo, pensando e já prevendo o motivo. _ Dª. Benigna, vamos começar agora, o Natal vem aí, nossos pobres contam conosco, peço-lhe movimentar senhoras e moças; que elas tomem conta da cidade e façam chegar a todos os corações o nosso apelo em benefício dos desprotegidos. _ Sim senhor. Hoje mesmo tomarei as providências. Acho que toda a cidade já aguarda nosso pedido. Foi uma correria à casa das senhoras, uma romaria agradável pelas casas das amigas. O povo cooperava generosamente, via Jesus realmente no pobre. [...] As carroças, 83 Jornal Diário do Oeste 09.12.1956. 84 Jornal A Semana – 23.09.56. 174 depois, chegavam carregadas ao convento. Uma sala franqueada ao povo, tornava-se um quartel general. Ali escalava-se todo o trabalho às diversas comissões. Havia comissão que cortava os tecidos e que os empacotava e rotulava; também senhoras e moças que faziam novas fichas para serem entregues aos diversos indigentes. Era tão bom, tão reconfortante! No dia 24 vinha gente de todos os lados. As comissões a postos. O vigário chegou, falou bondosamente à pequena multidão de indigentes. [...] Ao final despedimo-nos umas das outras e rumamos para casa, para ainda cuidar do nosso Natal.”85 O “Natal dos Pobres” era um momento de grande mobilização em prol da caridade, envolvendo toda a comunidade num ato coletivo de piedade administrado pelas sócias da Ação Católica. Todos os anos, o Jornal “A Semana” expunha o balanço da mobilização e fazia os agradecimentos aos cidadãos divinopolitanos: “Só quem teve a felicidade de ver de perto a distribuição das lembranças de Natal aos pobres, sentiu a grandeza do coração do povo desta cidade, o gesto nobre e generoso daqueles que colaboraram para este fim, oferecendo auxílio mais que generoso! O povo apoiou plenamente o movimento da Ação Católica, procurando proporcionar aos mais desprotegidos, uma alegria bem legítima na Santa Festa do Natal, data tão cara a todos os corações ...”86 A Ação Católica, através da Liga Feminina e a atuação da Associação de Proteção à Infância, desempenharam juntas um trabalho social caritativo e pastoral. Movidos pela idéia de que havia uma carência entre os humildes de uma boa formação moral cristã e de ensinamentos sobre o evangelho. Na afirmativa de Dª Benigna: “o povo não tinha estudo, a Igreja preenchia essa lacuna ...87 No próprio espaço da API eram dadas palestras de instrução religiosa e eram feitas exposições sobre saúde e higiene. Era importante definir com clareza o espaço religioso ocupado pela entidade, pois tratava-se de uma entidade beneficente católica, que, portanto, deveria cumprir o seu papel evangelizador junto aos despossuídos, seguindo as orientações definidas pelas instâncias superiores da Ação Católica Nacional. Ação social e formação religiosa aconteciam simultâneamente: 85 Natal dos Pobres em Divinópolis – anotações de Dª Benigna Moreira de Souza. 86 Jornal Interno A Semana – 31 de dezembro de 1944 a 7 de janeiro de 1945. 87 Entrevista realizada pela autora com Dª Benigna Moreira de Souza no dia 25-05-01. 175 “Periodicamente, membros da diretoria, médicos e dentistas fazem palestras simples e bem elucidativas para as mães e crianças maiores. [...] As festas da Igreja são sempre lembradas e os múltiplos e insubstituíveis deveres de uma mãe ressaltados e estimulados em pequenas doses de conhecimentos práticos. O catecismo é ministrado as quintas feiras no mesmo horário.”88 Havia uma preocupação em difundir este trabalho social, através da imprensa e de cerimonias envolvendo autoridades municipais, principalmente nos momentos de inauguração, sempre prestigiado por figuras de peso da comunidade preocupadas em demarcar seu espaço político, em parceria com as autoridades eclesiásticas. Os meios de comunicação cumpriam portanto, um papel no campo social como divulgadores das obras sociais, buscando dessa forma, adesões e ao mesmo tempo, transmitindo o discurso reformista católico. No caso de Divinópolis, estavam articulados a ação institucional da Igreja, responsável pela mobilização dos trabalhadores através do Círculo Operário, basicamente assumido pela parcela masculina dos leigos militantes, com a força da ação social caritativa e promocional, encabeçada pelas mulheres. Eram ambos alicerçados na missão voltada para a formação evangélica, para a responsabilidade social e para a obediência à hierarquia. Essa rede, apoiada ideologicamente no movimento de Ação Católica, sustentava sua unidade na manutenção de um ideário recristianizador, incorporado coletivamente, a partir de sua disseminação metódica em todos os campos da vida social. 88 Jornal A Semana – 25.06.61. C A P Í T U L O IV O jornal vai ao encontro de todos moldando pensamentos e opiniões A Igreja levou um tempo para reconhecer os valores positivos dos meios de comunicação, criando restrições através de documentos pontifícios e fazendo ponderações sobre o seu uso. As mensagens veiculadas pela imprensa, cinema, rádio e mais tarde, pela televisão, eram normalmente consideradas prejudiciais à moral e à boa conduta dos cidadãos. Ao perceber a inevitabilidade da ampliação dos meios de comunicação social, a Igreja fez uso desse eficiente instrumento de formação de opiniões capaz de transmitir ideologias e moldar comportamentos. No ambiente da cidade, o confronto de opiniões entre o discurso dos jornais católicos e os questionamentos da imprensa não católica e dos boletins independentes expõe a dimensão das diferenças, numa rede de informações que aguçava o sentimento de civismo e era capaz de colocar o cidadão em contato com o mundo. 4.1 O lugar central da Imprensa no processo de Restauração Católica “Um jornal católico pode ser mais eficiente que um púlpito e uma tribuna...”1 O contato com jornais e revistas que circularam entre os anos 30 e 50 do século XX, nos reporta para um tempo, que apesar de não estar tão distante, nos causa estranhamento. Afinal, no momento presente, estamos mergulhados numa modernidade chancelada pela imagem e pelos avanços tecnológicos na área das comunicações. Por meio de periódicos, boletins e através dos livros, veiculava-se um estilo de vida. Era possível ser um cidadão em sintonia com uma outra modernidade, com um mundo tumultuado pela guerra e pela experiência comunista. Era possível estar em dia com a moda e com os últimos lançamentos do cinema americano. “O que pode um jornal católico?”. In: “O Horizonte”, Ano 13, nº 924 (17-11-1932) p. 4, c. 1. In: Matos, 1990. p. 113. 1 177 Mais instigante ainda, é poder confrontar essa realidade impressa, percebendo de um lado os que se achavam representantes do moderno e da liberdade, e do outro as resistências e apelos à tradição, defendidos pelos representantes da imprensa católica, considerada pelos mesmos como a “boa imprensa”. Apoiada num discurso apologético, a defesa dos princípios da religião católica e o combate explícito aos inimigos da fé, fez nascer uma eficiente rede de comunicação sustentada pela Igreja e apoiada por segmentos aliados aos princípios de civismo, ordem e estabilidade social. A Igreja há muito teria sido obrigada a posicionar-se diante das pressões do novo, fato registrado quando deparou-se com o crescimento da imprensa, e, através do documento de Inocêncio VIII, a constituição Inter Multiplices de 1487, procurou proteger seu espaço institucional. Por meio desse documento, ficava proibida a impressão de livros sem a censura prévia dos representantes da Igreja e ainda autorizava o recolhimento de livros e folhetos já impressos e a queima dos que estivessem condenados (Mombach, 1981:18-19). Houve resistência quanto ao uso e influência exercidos pela imprensa: “O papa estava preocupado com a vida espiritual dos católicos e via no advento da imprensa uma nova tecnologia que poderia ameaçar o controle eclesiástico da produção cultural de seu tempo” (Puntel, 1994:30). Os quatro séculos que separam o papa Inocêncio VIII de seus sucessores, Leão XIII, Pio XI e Pio XII, não impediram que a Igreja mantivesse uma conduta restritiva quanto à veiculação de pontos de vista e padrões de conduta julgados contrários aos seus preceitos. Ciente da amplitude e poder de persuasão dos meios de comunicação, acabou usando a imprensa como instrumento multiplicador de sua ideologia e por meio dela, posicionou-se politicamente, alertando o público católico sobre a ameaça da ideologia comunista, denunciando os exageros do capitalismo liberal, procurando armar uma frente de defesa da moralidade, questionando comportamentos e invocando a resistência dos católicos ao assédio da moda e dos novos costumes. Obviamente, as posições da Igreja não se resumiram a restrições. Ela teria demonstrado também sua capacidade de adaptação, incorporando as transformações em processo, fato identificado em documentos pontifícios relacionados aos meios de comunicação que incluiriam os novos mecanismos como o rádio e a televisão. Destacando um aspecto dessa evolução, mais especificamente quanto ao papel desempenhado pelos jornais, é sintomática a sensibilidade de Leão XIII para as exigências dos novos tempos; aliás, é pertinente à sua posição vanguardista, no que se refere à sociedade 178 capitalista como um todo, e em especialquanto à questão social. Leão XIII haveria de demonstrar mais uma vez sua capacidade de compreender a necessidade de ajustamento do catolicismo em sua carta aos bispos do Brasil de 1899 advertindo: “Em nossa época, o nosso povo não forma opiniões, nem tampouco regra sua vida senão através da leitura cotidiana dos jornais.”2 Para compreender a evolução da imprensa católica no Brasil, é bastante elucidativa a periodização feita por Ismar Soares (1998), que divide o processo em quatro etapas. A primeira correspondendo ao intervalo entre 1808 e 1870, compreendendo, portanto, a fase de submissão da Igreja ao padroado, seguida pelo movimento de romanização. No início dessa fase, a Igreja ainda tutelada pelo Estado, tinha suas publicações restritas à folhas sazonais de pouca abrangência. A Imprensa Régia publicava material eclesiástico, como opúsculos, sermões e papéis de expediente. A Igreja se manteve mais voltada para questões internas, sua atitude teria sido mais defensiva, como reforça Fragoso, diante de idéias contrárias defendidas por liberais, maçons e protestantes. Exceções ocorriam pela publicação de jornais combativos controlados por padres simpáticos ao pensamento liberal. A partir da segunda metade do século, começariam os sinais do movimento romanizador, surgindo daí jornais em várias províncias já mais comprometidos com um conteúdo doutrinário. A partir de 1870, momento decisivo para a sobrevivência da própria monarquia, os jornais católicos no Brasil seguiram as novas orientações de Roma sob Leão XIII, propulsionador de uma fase de dinamismo da imprensa usada para combater o jornalismo sem Deus. A Igreja defendeu-se dos ataques da imprensa leiga e adotou, no geral, uma postura ultramontana, até porque, nesse período, teria vindo à tona a questão religiosa envolvendo os bispos reformadores e a maçonaria. Em Minas Gerais, foi significativa a figura de Dom Viçoso, o que destacou Mariana no contexto do país pela publicação dos jornais “O Bom Ladrão” e “Viçoso”. Na época, ainda não existia uma editora católica, sendo os impressos feitos por encomenda à tipografias particulares. Nas quatro primeiras décadas do século XX, a Igreja se deparou com uma conjuntura política absolutamente nova, momento de instalação e consolidação da República, marcado pela separação entre Igreja e Estado, com forte conotação laicizante em sua primeira fase, tanto pelo discurso liberal como pelo positivista. A Igreja fundamentou sua reestruturação na conquista de espaço político, envolvendo-se mais diretamente com a realidade social e, ao 2 Mombach, 1981. p. 23. 179 mesmo tempo, empenhando-se no reforço da identidade católica da sociedade brasileira. Em função dessa conjuntura, foi levada a sair da posição mais defensiva, fazendo acordos políticos de colaboração com o Estado após 1930 e usando os veículos de comunicação disponíveis para propagar sua ideologia; daí a importância do jornal e da criação de um diário católico. No primeiro Congresso Católico de 1900, já teria se discutido a urgência de uma organização eficiente da imprensa brasileira. Em 1904 a realização de um novo congresso teria lançado as bases para a criação de um diário. Toda essa movimentação resultou na inauguração do Centro da Boa Imprensa em 1910, sediado em Petrópolis, dele ramificando a Liga da Boa Imprensa, difundida nas dioceses. As condições reais para a legitimação de um diário católico ficavam prejudicadas, segundo avaliações feitas pelos próprios bispos, devido a atração dos católicos para com a imprensa leiga (Soares, 1988:186-187). Alguns diários foram lançados e cumpriram a função definida pelo episcopado. No caso de Minas Gerais, o jornal “O Diário” de Belo Horizonte nasceu em 1935, comprometido com o projeto recristianizador. Importante na época também, foi a criação das revistas eclesiásticas, administradas de um modo geral por religiosos, desempenhando papel significativo na consolidação da Ação Católica no Brasil. No caso do jornal “O Diário”, seguindo a linha apologética da imprensa confessional, esteve comprometido com a preservação patrimônio religioso mineiro como destacou Henrique Matos: “Somos o baluarte de defesa de suas tradições mais puras, de seus ideais mais dignos, contra os inimigos solertes que, na calada dos disfarces tenebrosos, se avizinham, cheios de rancor e ávidos de destruição. [...] Um dever resta, pois, aos católico, dever imperioso, indeclinável ao cumprimento do que será covardia fugir: o de levantar contra o inimigo que avança a muralha viva da nossa imprensa sadia, independente e intrépida.”3 Após 1945, as dioceses já contavam com suas tipografias, imprimindo suas folhas noticiosas e buscando obter concessões de serviços radiofônicos. Houve nessa época um crescimento dos periódicos especializados. 3 “A nossa Semana”. In: “o Diário”, Ano 1, nº 87 (19-01-19335), p. 3, c. 4. In: Matos, 1990. p. 114. 180 A Ação Católica lançou mão da “boa imprensa” para atingir seus objetivos apostólicos, e, ao mesmo tempo, empenhou-se em difundí-la, como pode ser observado nas conclusões do Congresso Nacional de 1946: “Abram-se os lares à boa imprensa que orienta a opinião pública com elevado espírito de catolicismo e de brasilidade, e auxiliem-na com assinaturas, anúncios e propaganda. Oponham-se ao contrário, sistemática e energicamente, à entrada de folhetos, jornais, revistas, ou livros escandalosos e hostis à Igreja, lembrados de que qualquer colaboração, ainda que apenas financeira, pode envolver grave traição à causa sagrada.”4 Em Carta Pastoral de 1943, Dom Cabral trata da relação entre Ação Católica e Imprensa, lembrando das discussões sobre a eficiência da imprensa para a difusão dos princípios católicos, criticando os desmandos e escândalos da imprensa neutra. Esse congresso teria criado as condições para o lançamento do jornal “O Diário” em fevereiro de 1935. O prelado completa sua exposição demonstrando a importância da imprensa para a preparação doutrinária dos membros da Ação Católica, divulgando suas diretrizes e tornandoas acessíveis aos leigos (Soares, 1988:241-242). O Jornal “O Horizonte”, que circulava desde 1923 e representava o órgão oficial do Conselho de Imprensa da Diocese de Belo Horizonte, em 1934, afirmaria que o jornal “O Diário” não havia sido concebido para ser apenas um órgão religioso. Tinha a função de ser atrativo, como uma folha mais atualizada e completa em seus comentários, falando sobre sua função enquanto jornal católico:“Será antes um defensor de Deus, da Pátria e da Família. Um ‘antídoto eficaz contra todos os erros e contra todos os vícios’. Um dique a todas as correntes do mal. [...] E dentro em breve ele estará visitando os lares católicos – os honrados lares mineiros”.5 A imprensa foi tomada como instrumento mais eficaz na recristianização da escola, da família e da sociedade, sendo necessária, portanto, no combate aos inimigos do catolicismo, representados pelo protestantismo e espiritismo, acrescentando-se, dentre eles, também a maçonaria, o comunismo e até mesmo o liberalismo. Ao usar os recursos da comunicação social num trabalho intensivo de propaganda contrária a essas práticas, bem como, no desestímulo à leitura de suas publicações, a Igreja procurou colocar em circulação seu próprio 4 Dalle,1985. p. 64. 5 Matos,1990. p. 127. 181 material, na tentativa de popularizar a leitura, ressaltando seus aspectos doutrinários, colocando temas do evangelho para estudo e alertando sobre a importância da preservação da ética e da moral católicas. O Espiritismo era considerado uma ameaça real, já que dados demonstravam seu crescimento no Brasil a partir da difusão da literatura espírita, do uso do rádio, que na concepção do Pe. Leopoldo Aires, exigiriam uma contra-argumentação bem preparada pela Igreja: “Para combatê-lo ainda a tempo, só uma campanha integral, omnímoda e sobretudo sistemática, obedecendo a um plano minucioso e conscienciosamente elaborado”.6 As providências mais urgentes sugeridas ao clero foram a confecção e distribuição de folhetos explicativos sobre a proibição de evocar os mortos, salientando a impossibilidade de os católicos assumirem dois credos, ser espírita e católico ao mesmo tempo. O uso de rádio e de alto-falantes para divulgação de slogans e explicações sobre a doutrina e a publicação de artigos e reportagens de esclarecimento sobre o tema também seriam convenientes (Soares, 1988:231). O protestantismo, por sua vez, teria provocado uma reação mais cautelosa da Igreja. A vigilância e a orientação do clero liderada por Agnelo Rossi, ligado ao Secretariado de Defesa da Fé, baseava-se no acompanhamento das estratégias de comunicação usadas pelos protestantes, vistos como religião estrangeira ligada a interesses norte-americanos. Agnelo Rossi enxergava uma ligação direta entre protestantismo e maçonaria, esta última inimiga secular da Igreja, responsável pela eclosão das primeiras manifestações ultramontanas no Brasil, ainda no século XIX, em decorrência da questão religiosa levada avante pelos bispos Dom Vital e Dom Macedo. No debate, os maçons se defendiam das acusações impostas pela Igreja, argumentando serem uma entidade aberta ao diálogo e ao cristianismo, sempre alvo das posições intransigentes e obscurantistas da Igreja. Das inferências feitas pelo clero, dedicado aos estudos sobre as doutrinas e ideologias contrárias ao catolicismo, é interessante destacar a de que apesar das peculiaridades de cada inimigo, estavam todos envoltos numa grande conspiração. Arlindo Vieira confirma esse pensamento ao afirmar que: “O comunismo ateu que hoje subverte o mundo e põe as nações livres em sobressalto é filho da maçonaria”.7 Pe. Leopoldo Aires,“Esboço narrativo da campanha espírita no Brasil”, in COR, 2 (5): 493-495, 1940. In: Soares, 1988. p. 231. 6 7 Arlindo Vieria, “A maçonaria no Brasil”, In. REB, 15 (3): 638, 1955. In: Soares, 1988. p. 234. 182 Quanto ao liberalismo, apesar de representar a hegemonia capitalista, também ameaçava a verdade cristã. Sustentava-se numa racionalidade individualista em defesa da liberdade e dos direitos legais, capazes subverter a crença católica no espírito coletivista e associativo, ligados à idéia de doação e de altruísmo como manifestações a serem estimuladas no ser humano. O liberalismo, adotado no seu extremo, teria sido responsável pela superação dos limites do sistema, ao justificar ideologicamente a exploração capitalista e agudizar os problemas relativos à questão social. Somado a isto, foi através da consolidação do pensamento liberal no Brasil no final do século XIX, que o regime republicano foi gestado e sua manifestação primeira, fez instalar no Brasil, um modelo laicista e contrário aos interesses da Igreja Católica. Passada a fase de indisposição da Igreja com o Estado, experimentada na primeira República, o uso da comunicação social foi importante no momento de aproximação e colaboração entre ambos, marcando o período de Getúlio Vargas. Nesse governo, o controle dos meios de comunicação, principalmente durante a ditadura, voltava-se para a manipulação do ideário coletivo em torno da construção de algumas imagens e crenças capazes de estabelecer as identidades necessárias ao modelo de Pátria em gestação. A nova estrutura de poder instaurada após 1930, principalmente depois do golpe de 1937 que estabeleceu a ditadura estadonovista, necessitava legitimar as bases do que acreditava ser uma “democracia social”, considerada pelos ideólogos do novo regime, a garantia de inserção do Brasil no mundo capitalista. O estado procurava se legitimar através da garantia dos direitos sociais aos trabalhadores, enquadrando-os num modelo de civismo da ordem e do progresso. O Departamento de Imprensa e Propaganda, enquanto órgão de governo, garantiria a intervenção do Estado no campo das comunicações e da cultura em defesa de um projeto de unidade nacional. Esse departamento encarregou-se de produzir livros, revistas, folhetos, cartazes, programas de rádio com noticiários, fotografias, documentários cinematográficos, além de um eficiente mecanismo de censura prévia aos meios de comunicação legalizados pela constituição de 1937 (Capelato, 1998:69-70). Toda a estrutura criada pelo Estado Varguista conseguia manipular o imaginário coletivo, criando a impressão da unidade entre povo e governo. Para tanto, não foram polpados esforços na transposição de imagens religiosas para o discurso do poder, que protegido nesse invólucro, procurou transmitir impressões de identificação no povo relacionadas à proteção e à necessidade de combater os inimigos da ordem a partir de uma 183 visão maniqueísta da realidade social. Estava deflagrada a luta entre o bem e o mal, entre a segurança e o progresso, opondo-se ao revolucionarismo e à dominação estrangeira. Os investimentos num processo de sacralização da política8 tornaram-se mais eficientes a partir da aproximação do governo com a Igreja Católica, numa política de colaboração em que ambos almejavam a ordem social e combatiam os mesmos inimigos da nação. Em seu trajeto, desde o período em que esteve mais próxima ao Estado, a Igreja foi aprimorando o uso que fazia da comunicação social, no sentido da produção e distribuição de livros, folhetos, revistas, jornais, rádio e cinema. Sempre foram mecanismos bem utilizados nos momentos de arregimentação de forças por parte de bispos, congregações e movimentos leigos e do clero em geral, na administração dos trabalhos paroquiais. Foi assim, segundo Ismar Soares (1988:229) na Campanha contra a Má Imprensa e a Pornografia em 1949, na campanha Nacional Contra a Heresia Espírita em 1953, anos depois, na Campanha de Moralização das Revistas em 1957, na Campanha de Moralização dos Programas de Rádio em 1958 e em outras iniciativas assumidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil a partir dos anos 50. 4.2 A efervescência cultural da cidade: jornais e boletins “Com as letras e o papel lutam o céu e a terra, diz Albano Stoltz”9 A história de Divinópolis é permeada de expressões concretas e subjetivas provenientes da convivência da tradição com a emergência da modernidade. Essa característica se expressa nas várias manifestações da vida social. Em diversas situações registradas por memorialistas, em depoimentos orais e em estudos mais aprofundados feitos por pesquisadores, aparecem as divergências político-ideológicas e religiosas assumidas por grupos opositores. Normalmente representantes do catolicismo, em debate com livres pensadores, maçons comunistas e outros, ao se digladiarem, alteravam a rotina da cidade, 8 Conceito trabalhado por Alcir Lenharo. Sacralização da política. Campinas, Papirus/ed. UNICAMP, 1986. 9 Revista de Santa Cruz, Ano XX, junho de 1955. p. 113. 184 através de jornais, panfletos, boletins e até alto-falantes. Ao se tornarem uma constante no cotidiano dos moradores, esses procedimentos passaram a estimular discussões, inflamaram ânimos e afetaram a vida dos moradores que foram levados, muitas vezes, a sair da cômoda situação de imparcialidade. Essa agitação foi, ao mesmo tempo, responsável pela trama política subjacente ao controle do poder local. Poder este, que representava um prolongamento das disputas político-partidárias e ideológicas encenadas no cenário nacional. Esses impressos transformaram-se em documentos de um tempo em que havia um profundo sentimento de civismo, de comprometimento com a vida social, cultural e política da cidade e do país, tornando-se na época, uma experiência peculiar de ação e de reflexão da comunidade. Os cidadãos ao incorporarem os discursos, eram instigados à reflexão e estimulados à participação na vida cultural e política da cidade. As publicações eram de conteúdo variado, tinham um cunho informativo e formativo e quase sempre relacionavam-se a atividades que estavam sendo desenvolvidas na cidade. Serviam, portanto, como instrumento provocador do dinamismo urbano. Os pronunciamentos apaixonados dos editores e jornalistas amadores da época eram uma característica marcante do material divulgado, tanto aqueles oficializados como os de tiragem independente. Faltava-lhes, de um modo geral, o compromisso com as regras profissionais de jornalismo e de editoração, o que não lhes suprimia a importância enquanto veículos eficazes de comunicação. Os jornais que circularam na cidade após sua emancipação eram de um modo geral amadores e tinham uma característica panfletária. Numa ordem cronológica trabalhada por Corgozinho (105-106), o primeiro jornal teria sido fundado por Braulino Gomes de Souza em 1914, com o nome de “A Prova”, seguido por “O Divinópolis”, criado em 1916 e adquirido por Pedro X. Gontijo. Era personagem importante no relacionamento com a Igreja, utilizando o jornal como instrumento de denúncia e de debate com grupos católicos. Para fazer-lhe oposição, foi inaugurada “A Folha de Minas” em 1916 por Antônio Olympio de Morais e José Assis Rocha. Na mesma época circulava um pequeno jornal anônimo chamado “O Filhote”. Na sequência vieram “O Reformador” e “A Estrela do Oeste”, este último seria uma publicação dos poderes municipais sob orientação de Ataliba Lago; o mesmo Ataliba criaria em 1925 o jornal “Pela Vida” e “A Gazeta Popular”. Encerra-se a década com “O Recreio” de Octaviano Caldas publicado em 1928. Segundo a autora, essas publicações expressavam formas de pensamento, servindo também à propósitos políticos em épocas de eleições para controle do poder local. 185 No Cartório de Registro de Títulos e Documentos, constam registrados nos anos 40 e 50 o “Jornal do Oeste” de 1946 dirigido por Simão Salomé e Jovelino Rabelo e o “Jornal Voz Democrática” de 1951, tendo como responsável Altamiro Santos. Dentre os jornais católicos produzidos na cidade, foram importantes “O Clarão”, “O Santuário de Santo Antônio”, “O Sino” e “A Semana”. O clero e os paroquianos tinham contato também com publicações de fora que funcionavam como estímulo aos impressos locais por atualizarem informações, trazendo assuntos e temas valorizados em outros centros e pertinentes ao contexto da época. Foi o caso do jornal “São Francisco” de Pirapora, “O Diário” de Belo Horizonte e a revista “Eco Seráfico” da Ordem Terceira Franciscana editada em Petrópolis. O jornalzinho “O Santuário de Santo Antônio” começou a ser editado em 1927 como um modesto folheto iniciado por Frei Zaqueu Simons, passando a circular na forma de revista, ultrapassando o âmbito local em 1937 e tendo como redator Frei Odulfo van der Vat.10 O jornal “O Sino de Divinópolis” foi criado por Frei Bras Berten em 16 abril de 1933, como reedição do Sino de São José de Belo Horizonte, quando este foi substituído pelo jornal “O Domingo”.11 A criação do folheto “A Semana” ocorreu da necessidade de divulgação do movimento religioso de Divinópolis. No início entre 1943 e 1946, não era um jornal propriamente dito. Não possuía o caráter de publicação oficial. Era uma folha quinzenal responsável pela divulgação da programação religiosa da paróquia: “... É a recordação dos avisos religiosos dados no púlpito, é o porta-voz para onde os alto-falantes não chegam. Fora do horário dá algumas notícias de importância para nós, uma instrução para estudar, uma proposta, um pedido para lembrar uns fatos da nossa vida paroquial para serem guardados na história. A Semana portanto, dá alguma coisa para todos e para cada um, é o amigo de nós, a lembrança que cada um leva para sua casa depois da Missa dominical...”12 Ao completar seis meses de existência ainda como uma folha de circulação interna, “A Semana” carecia de maior apoio dos paroquianos. Dessa forma, foram feitos apelos para adesão dos chamados padrinhos e madrinhas do jornal que contribuiriam com uma assinatura Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 60. 10 11 Jornal Interno A Semana - 21 a 28 de fevereiro de 1943. p. 2. 12 Jornal Interno A Semana - 21 a 28 de fevereiro de 1943, p. 2. 186 mensal. No dia 4 de agosto de 1946, saiu o primeiro número do jornal “A Semana”, melhorado e ampliado como Órgão Oficial das Paróquias de Divinópolis, Círculo Operário e Educandários.13 A estrutura dos jornais católicos, seguia, em síntese, um mesmo padrão, composto de horários com a programação da paróquia, textos sobre a vida de santos, citações do evangelho e/ou reflexões sobre a doutrina cristã, pequenos artigos de temas variados, avisos e informes da comunidade e sobre o funcionamento da paróquia, divulgação de obras paroquiais, balanço de ofertas e doações recebidas e colaboravam também, na divulgação dos trabalhos desenvolvidos pelas associações católicas tais como o Círculo Operário e as organizações da Ação Católica. No geral eram poucas as variações na estrutura editorial, destacando-se temas mais relevantes relacionados à vida eclesiástica como um todo ou relativos à realidade política nacional, normalmente expostas como um sinal de alerta aos leitores como: “Cuidado com o espiritismo!”, ou ainda, “Cuidado com o Protestantismo!”, e mais enfaticamente nos anos 40, quando combateu explicitamente o Comunismo, inimigo mais nefasto e alvo das abjurações dos católicos. As revistas também seguiam de certa forma o mesmo modelo, apresentando especificidades de acordo com seu propósito, como foi o caso da Revista de Santa Cruz, lançada em 1936, como revista mensal do Comissariado Provincial da Santa Cruz dos Frades Menores do Brasil, compondo-se de espaços dedicados à exposição dos trabalhos e do cotidiano paroquial das cidades atendidas pelas obras do Comissariado. Em oposição a uma imprensa católica propriamente dita, assumida pelos franciscanos, circulavam também as de inspiração católica, os jornais regulares e os impressos independentes portadores de um discurso mais inflamado de denúncia e até, de confronto direto com o pensamento católico. O jornal “Divinópolis”, do farmacêutico Pedro Xavier Gontijo, foi atuante no debate com o clero, a ponto de sua leitura ter sido proibida aos católicos em 1917 por Dom Silvério, bispo de Mariana.14 Essa questão foi assim tratada na revista de Santa Cruz: 13 Revista de Santa Cruz Ano XI – outubro de 1946 p. 112. Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950. p. 58. 14 187 “O Pe. Matias e seus sucessores, o Pe. Vicente Soares (1917-1923) e o Pe. José Augusto Vicente Bicalho, sofreram muito com os inimigos da nossa religião, entre os quais se destaca o político Pedro X. Gontijo com seus discursos e seus artigos no “Divinópolis”, que espalhava o veneno da impiedade e das más doutrinas.”15 Numa linha mais panfletária teve destaque, também de Pedro X. Gontijo, o boletim “Conversando com os Divinopolitanos”, que circulou por muitos anos na cidade, ajudando a fazer a história do lugar. Esses boletins eram uma mistura de relato e denúncia, de sentimento de civismo e de defesa da liberdade. Pedro X. falava a partir de sua posição, de seu observatório, como alguém que estivera presente nos momentos decisivos da vida da cidade. Estava sempre atento quanto aos detalhes da vida da urbes, opinando sobre a administração pública e sobre o envolvimento dos moradores nos acontecimentos da cidade. Por isso, seus boletins, muitas vezes, apontavam os problemas de infra-estrutura e de funcionamento que afetavam a vida dos moradores. Esse redator independente, que foi prefeito da cidade, gostava de contar a história da emancipação do município, sempre destacando os membros da comissão responsável pelo encaminhamento político do processo. No boletim 128 chegou a comparar essas lideranças a personagens da história republicana: “Lá está o braço direito da Comissão, o Dr. Francisco Ribeiro de Carvalho, que foi o Benjamim Constant divinopolitano, e verbo sempre quente do propagandista que foi também o nosso Solon. (...) E lá está o pai da nossa cidade, Antônio Olímpio de Morais, o Floriano Peixoto divinopolitano, o consolidador da independência da nossa terra.”16 Insistia no confronto com o clero local sobre a legalização do patrimônio do município, lembrando o pacto político-religioso selado com a Igreja em 1920, sobre o uso desse patrimônio pela municipalidade. Muitas vezes foi intolerante na relação direta com representantes da Igreja Católica, como na mudança do nome da praça da catedral de Antônio Olímpio de Morais, antigo prefeito e figura importante na consolidação política da cidade, para o nome do bispo Dom Cristiano, questionando em tom de perplexidade: Revista de Santa Cruz, 1949, p. 172, In: 15 Publicação Especial – Nossas Paróquias Mineiras nos últimos 25 anos do Comissariado Franciscano de Santa Cruz de 1925 à 1950. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1950 p. 58. 15 16 Boletim nº 128 de 10-05-1956. 188 “Divinpolitano que pensa, é justo que um bispo, a quem Divinópolis nada deve, que é um parasita, um goela e ultra vaidoso, sem sombra de nobreza roube o nome de um gigante divinopolitano, Antônio Olímpio de Morais que imensos serviços prestou à nossa terra? É justo?”17 No entanto, seu litígio com a ala católica e seu anticlericalismo ficaram mais contundentes nos debates travados com Frei Rafael Zevenhoven que, a partir de 1945, assumiu a frente de vários empreendimentos político-sociais da Igreja no município. Frei Rafael destinou uma coluna do jornal “A Semana”, denominada Bombas da RAF, para também fazer suas denúncias e para bater de frente com o grupo de Pedro X., composto de livres pensadores, maçons e outros elementos contrários muitas vezes ao conservadorismo religioso. O nome dado à coluna foi assim explicado por seu idealizador: “Ao iniciar esta nova fase do nosso jornal, quero apresentar aos meus leitores uma nova série de artigos, que sairão intitulados: Bombas da RAF. Bombas! A bomba é um projétil que contendo substância explosiva rebenta com estampido. Pode ser reprovação num exame! Bomba pode ser um instrumento para encher as câmaras de ar dos pneumáticos! Bomba, instrumento para puxar água, etc. Bomba pode ser um doce! Como vê, leitor, bomba pode ser uma coisa perigosa e pode ser um docinho delicioso.O meu avião RAF, uma vez por semana fará um vôo por sobre os telhados da nossa cidade. As vezes irá mais longe. As vezes irá aos Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, Alemanha. Mas, no fim da semana sempre estará em sua base, e depois o piloto dará suas impressões, dará o relatório completo do que viu e ouviu.”18 Nesse espaço, tratava-se de tudo, desde discussões sobre a finalidade cívica da imprensa até críticas ao comunismo e aos vários inimigos da Igreja Católica, incluindo-se dentre eles aquele que fazia-se mais presente no debate local, a Maçonaria. No artigo, “Divinópolis, Quartel General!”, o Frei lamentou a cidade ter se transformado num centro regional dessa organização, tecendo seus comentários e críticas: “É partido político? Disfarçado! Pode ser! É partido religioso? Ao serviço do diabo, é certo! Mas nunca ela usou franqueza! Sempre fugindo da luz do dia, escondendose debaixo da terra, fechando suas portas aos estranhos, os excomungados continuam a planejar, prosseguem em suas conspirações, enganando a todos homens, embora bons, porém sem princípios, sem convicção religiosa, entregando a sua própria pessoa, a sua alma, a sua família, aos caprichos dos mandões da Maçonaria. Homem católico! Cuidado! Não caia nos laços e nas redes maçônicas. 17 Boletim nº 196 de 01-04-1960. 18 Jornal A Semana – 04.08.1946. 189 [...] Esta é a acusação feita nas cidades vizinhas contra nós divinopolitanos. Sede de irradiação maçônica! Quartel general de conspiradores!”19 Em resposta às provocações de Frei Rafael, os maçons e seus aliados apelavam sempre para as conquistas da sociedade moderna, traduzidas na garantia de direitos constitucionais, onde se amparou o discurso de um dos boletins: “Divinópolis não é uma aldeia onde só mandam os Srs. Frades. Divinópolis é uma cidade grande e próspera, que não pode tolerar predomínio de quem quer que seja fora da lei. Ficam sabendo os Srs. Frades e sua turma que os homens livres de Divinópolis não mais suportarão essas injustiças e se preparam para tudo o que der e vier. Queremos os divinopolitanos livres e iguais, dentro de uma Divinópolis livre, próspera e feliz. A luta continuará dentro das leis, quer queiram quer não os Srs. Frades e a sua turma, ficando eles responsáveis por tudo quanto acontecer, resultante das suas arbitrariedades.”20 O Sr. Francisco Gontijo, também membro desse grupo, fez seu pronunciamento sobre a conduta verbal e escrita de Frei Rafael e através de um boletim lançado em maio de 1948, desafiou o frei com a expressão, “Alto lá Frei Rafael !!! Alto lá”: “... É de lamentar que eu tenha que vir em público para lavrar o meu protesto diante de seus assanhados escritos e sermões, que insultam e caluniam miseravelmente os protestantes, os Espíritas e Maçons de minha terra.” E referindo-se à origem holandesa do padre completou suas críticas: “É de se lamentar que eu tenha que lhe dizer em público de seu cabotinismo e de seu malabarismo, que deixou de pregar em sua terra para vir de intrometido bancar o truão em nosso meio como parasita social.” Ao discordar do teor de alguns artigos do frei no jornal, retrucou em tom provocador: “... Com suas célebres e quixotescas “Bombas da RAF”, descreve um vôo de seu AVIÃO, visitando diversas cidades do Oeste de Minas e encontrando em cada uma 19 Jornal A Semana – 29.09.1946. 20 Boletim de Pedro X. Gontijo – 29.04.1948. 190 delas, moças, noivas, mães, pelo fato de seus entes queridos terem entrado para o “Quartel General” da Maçonaria em Divinópolis ...”. “... Quem sabe você viu o seu Cinema de Santo Antônio exibir fitas inconvenientes justamente no dia em que morreu o chefe da Igreja Romana no Brasil, D. Sebastião Leme?” Completa apontando várias falhas cometidas pela Igreja em sua história e encerra seu discurso alfinetando o padre e sua profissão: “Aconselho-o a mudar de vida e de profissão. Jogue essa batina fora. Procure um trabalho honesto, útil e patriótico...”. No espaço dedicado à vida paroquial, a Revista de Santa Cruz salientou as várias manifestações de solidariedade dispensadas aos franciscanos em função da repercussão dos boletins, feitas por padres de outras paróquias, pelo prefeito, e outros elementos da sociedade. A reação católica ocorreu na forma de uma manifestação de desagravo realizada no dia 1º de maio em frente ao santuário, com pronunciamentos do advogado Dr. Lauro Epifânio e do deputado Oscar Corrêa. O cronista completou a narrativa afirmando que estava lá o povo em peso e todas as cores políticas – “os “próceres” do P. S. D., sendo os oradores membros da U. D. N...”21 Esse episódio expõe a situação político-partidária subjacente aos acontecimentos, destacando as posições dos debatedores, colocando-os em correspondência com a situação política do país definida após 1945. O aspecto partidário teria vindo à tona, quando Frei Rafael, que era coadjutor, fora nomeado vigário substituto em 1947 de Frei Carlos Schep que se afastou de férias. Tal fato não teria agradado aos chefes da política local. Havia uma crença entre as lideranças locais de que Frei Rafael era udenista e Frei Carlos era simpatizante do P. S. D., situação descrita na revista de Santa Cruz: “Quão difícil é para um padre ficar fora da política e esconder as suas simpatias para um ou outro partido. Parece que os chefes sondam os corações e as entranhas, e o que é pior, qualquer palavra ou ato insignificante do padre é interpretado a torto e direito. Não há jeito, o povo pensa que Frei Carlos é do P.S. D. e Frei Rafael é da U. D. N. vieram até pedir ao Vigário e Guardião o favor de converter o udenista.”22 Ao considerar a formação dos partidos no processo de abertura política é importante salientar que o Partido Social Democrata nasceu sob inspiração de Vargas no processo de 21 Revista de Santa Cruz - Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 22. 22 Revista de Santa Cruz – Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 20. 191 transição democrática, instaurado com o fim do Estado Novo. Na verdade, não se assemelhava com a proposta social democrática experimentada pelos europeus naquele período. Era mais uma reedição da política tradicional brasileira. Foi criado a partir da iniciativa de interventores estaduais que estimularam adesões para apoiar a candidatura oficial de Eurico Gaspar Dutra. Teve grande força em Minas Gerais apoiado por Benedito Valadares, angariando apoio de empresários defensores de um Estado interventor. Já a União Democrática Nacional surgiu com a pretensão de ser uma frente de oposição. Contava em suas fileiras com grupos de homens de negócios e de alguns proprietários de terras. O partido recomendava a volta aos princípios do liberalismo (Skidmore, 1982:80-86). Além das questões partidárias que agitavam as forças políticas, os temas polêmicos abordados nos boletins recaíam também sobre ações assistenciais implementadas por entidades desvinculadas da Igreja Católica, como foi o caso do debate em torno da atuação da Legião da Boa Vontade no município. Sobre essa situação, Pedro X. fez seu desafio: “Um senhor padre, encontrando um menino vendendo a Revista da Boa Vontade, no meio da rua, saiu-se com esta: “Se você continuar a vender ISSO no meio da rua eu lhe mando prender, ouviu?” Alto lá senhor padre, alto lá, Divinópolis não é sacristia não, ouviu?”23 A imprensa neutra cumpria seu papel informativo destacando fatos locais, mas conectada nos acontecimentos nacionais e internacionais. Merece destaque o “Divinópolis Jornal” (redator-chefe - Ataliba Lago) que na tumultuada década de 40, estava em sintonia com o mundo lá fora. Encontram-se entre suas páginas comentários interessantes sobre o mundo em guerra e a posição do Brasil, como na abordagem sobre o “Quinta-Colunismo?”, que tratava da necessidade de uma unidade nacional: “Precisamos ter reservas e desconfianças para com os indivíduos que andam a ridicularizar os homens de governo de nosso país. O Brasil, com os seus compromissos no conflito mundial, precisa contar com a unidade nacional. E para termos a unidade nacional, as nossas autoridades precisam ser prestigiadas. Hoje em dia, nas rodas íntimas, nas palestras, o hábito freqüente é o da ironia a certas autoridades da nossa Pátria. Falar de gente do governo hoje em dia, é moda que vem sendo generalizada. Não será isso o novo traje ou a nova máscara do Quintacolunismo? Quinta-colunismo não poderá ser só a transmissão de acontecimentos para o estrangeiro, a sabotagem, o estímulo à conspiração. Ridicularizar autoridades 23 Boletim nº 165 24.11.1957. 192 no exercício de seus cargos, nesta hora grave e de responsabilidades, é pretender o enfraquecimento do governo. E quem pretende hoje o enfraquecimento do governo, certamente conspira contra a segurança da Pátria.”24 A cidade estava de fato contaminada pelo clima dos acontecimentos da guerra. Os jornais se encarregavam de informar a população, mas também lembravam os cidadãos de seus compromissos para com a pátria. Por meio da imprensa, as pessoas eram estimuladas a colaborarem na aquisição de bônus como foi divulgado pelo Divinópolis-Jornal: “Os bônus da Guerra são os bônus da vitória. Subscrever obrigações de guerra é dever de todo bom brasileiro. É atitude de legítima brasilidade. Faça hoje mesmo o seu pedido à agência local do Banco da Lavoura!.”25 Nesse mesmo jornal, que havia se pronunciado sobre o Quinta Colunismo, numa demonstração clara de comprometimento com o governo vigente, os moradores foram lembrados da institucionalização da “Hora do Brasil”: “A hora do Brasil deve ser transmitida obrigatoriamente pelos estabelecimentos comerciais. Chamamos a atenção dos proprietários de estabelecimentos comerciais de qualquer natureza que possuam aparelhos de rádio para o disposto no artigo 94 do Decreto Lei federal de 1939: os estabelecimentos comerciais que possuem aparelhos de radiodifusão ficam obrigados a transmitir o programa oficial do departamento de Imprensa e Propaganda. Esta exigência se aplica especialmente aos bares, cafés, botequins, hotéis, restaurantes e confeitarias.”26 Tema freqüente em reportagens e artigos do Divinópolis-Jornal eram informações sobre a produção agrícola, a realização de encontros regionais e as ações governamentais voltadas para o setor, tema condizente com a tradição econômica mineira a qual Divinópolis e região não fugiam à regra, apesar da trajetória industrial da cidade. No nº 41 do jornal, os agricultores foram informados sobre os Congresso de Associações Rurais ocorrido em Belo Horizonte e os esforços no sentido de expansão das lavouras foi tratado no contexto de envolvimento do Brasil na guerra: 24 Divinópolis Jornal – 27.06.1943 25 Divinópolis Jornal – 13.06.1943. 26 Divinópolis Jornal – 13.06.1943. 193 “Os lavradores mineiros e principalmente os lavradores de Divinópolis não podem cruzar os braços ante o seu campo de ação: a terra. [...] Plantar o maior número de hectares, no momento é a palavra de ordem. A secretaria de agricultura está mobilizando todo o seu maquinário de uso e já adquiriu máquinas, ferramentas e sementes selecionadas para ceder aos lavradores nas condições mais vantajosas. [...] A expansão das lavouras, aproveitando-se a próxima época de plantios, como esforço de guerra, será dos mais valiosos e essa patriótica contribuição dos lavradores mineiros jamais será esquecida pela nação.”27 A cidade crescia e exercia cada vez mais influência na região. Aspectos de seu funcionamento mostram sua relação com a capital e com os acontecimentos nacionais. Divinópolis, por suas características e por ser uma cidade operária, atraiu a presença de políticos e foi sede de movimentos e organizações. Chegou a receber lideranças como Plínio Salgado, que conquistou no local adesões ao Integralismo; foi palco de comícios inflamados do P.S.D., do P.T.B. e da U.D.N., e nela também, o Partido Comunista procurou conquistar adeptos e simpatizantes. Em função de sua história, transformou-se num espaço fecundo para as manifestações da ideologia política e do pensamento social da Igreja. 4.3 A força da Imprensa Católica em Divinópolis “Nem uma só família católica sem jornal católico.”28 A história da imprensa católica em Divinópolis iniciou-se pelas mãos dos franciscanos. No início, a impressão era feita na antiga tipografia Ideal do Sr. José Mourão. Em 1935, Frei Leão Soffels, transferido, trouxe de Pirapora duas máquinas que imprimiam nessa cidade desde 1923, a folha paroquial São Francisco. Nessa tipografia foram impressos também livrinhos de cânticos e alguns números do jornal “Santuário de Santo Antônio”. Em 1935 o comissário Frei Serafim Lunter transferiu a tipografia para Divinópolis sob orientação de Frei Leão e de Joaquim Inácio. Em 1939, foi transferido também todo o material tipográfico de Teófilo Otoni para melhorar os trabalhos de Divinópolis que ampliava seus Texto do agrônomo Lourival Fonseca da 10ª Circunscrição Agro-Pecuária sediada em Divinópolis, In. Divinópolis Jornal – 11.07.1943. 27 Brandão, Ascânio. “A imprensa e a nossa responsabilidade sacerdotal”. In REB. 5 (3), 561, 1945, Soares, 1988. p. 242. 28 194 serviços através da impressão de folhetos e revistas. Outras publicações feitas em Divinópolis foram: Portugeesche Spraakkunst I Gramatica e II Sintaxis, a segunda edição de Ave Maria, o memorial da Obra Pia da Terra Santa, as reedições de Estatutos da Pia União de Santo Antônio, o jornal “O Montanhês” do Ginásio de Pará de Minas, as reedições do Prospecto da Terra Santa, Novena das terças feiras em honra de Santo Antônio, A missa Dialogada, Kalendarium Romano-Seraphicum (1941-1948) e a terceira edição de Ave Maria.29 O investimento se justificava em função da necessidade de ampliar a influência da imprensa católica, a “boa imprensa”, considerada aquela comprometida com o desenvolvimento social. A “boa imprensa”, na concepção dos católicos, deveria ter como compromisso a educação e a orientação do povo: “... orientar a opinião pública para o bem, dar ao povo uma filosofia prática, apontar-lhes os grandes homens da pátria, combater os vícios e os erros e elogiar as virtudes!”.30 A Igreja acreditava numa imprensa comprometida com a verdade, a sua verdade, numa época em que a modernização, o liberalismo, as ideologias e doutrinas de contestação ao capitalismo tais como o socialismo, o comunismo, o anarquismo e outras, bem como, a convivência de religiões e cultos, e as conquistas constitucionais de direitos, acenavam para a liberdade de expressão. A tipografia funcionou num barracão, com equipamentos doados e ultrapassados por algum tempo, com dificuldades para manter funcionários e pelo preço alto do papel.31 Foram feitos investimentos e em junho de 1955 realizou-se a inauguração oficial do novo prédio da Gráfica Santo Antônio. Na benção solene, Frei Respício van Valkenhoef fez uma palestra sobre a boa imprensa, ressaltando as dificuldades de sobrevivência de um jornal católico naqueles tempos. Na solenidade, estavam presentes o promotor de justiça Dr. Antônio Honório de Oliveira Pires Júnior, o vereador Dr. Carlos Altivo, o industrial Teófilo Perene Filho e o gerente do jornal “Oeste de Minas”, o Sr. Olavo da Silva. Em seu pronunciamento, Frei Respício procurou mostrar os avanços provocados pelo trabalho franciscano, passados mais de vinte anos de sua presença na cidade: 29 Revista Santa Cruz, Ano XIV – fevereiro de 1949 p. 28-31. 30 Jornal A Semana – 04.08.1946. 31 Revista de Santa Cruz, Ano XIV, fevereiro de 1949 p. 28-31. 195 “... É a firme vontade de nossos superiores que o convento e seminário seja um baluarte ou centro não somente de formação religiosa mas também um ponto central do movimento litúrgico do apostolado da “Boa Imprensa”. Vinte anos trabalhados quase às escondidas num barracão escondido na horta do convento, vida oculta, vida de catacumbas. Mas agora saímos para a praça pública tendo vencido a primeira fase de lutas. [...] E com a proteção de Santo Antônio esperamos vencer também a Segunda dificuldade, de caráter financeiro, a aquisição de máquinas modernas. Só assim podemos conseguir alguma coisa no apostolado da boa imprensa. Para Divinópolis com seus 45 a 50 mil habitantes o Apostolado da Boa Imprensa é de uma necessidade premente e urgente. [...] A imprensa ímpia espalha os erros mais grosseiros: a corrupção de livros maus, folhetos e jornais envenenam os espíritos e os corações e destrói todas as noções dos direitos divinos e humanos. Nada adianta o ensino religioso na escola, nem os esforços dos pais, quando não se controla e melhora a leitura dos jovens. Nada adianta construir um monumento como o Cristo Redentor, quando nada fazemos contra a imprensa ímpia, contra o mau livro, que destroem Cristo nos monumentos vivos, que são os corações de nossa juventude.”32 A modernização dos costumes, os anseios pela conquista de direitos e os apelos à liberdade apontavam as dificuldades que o mundo católico enfrentaria ao ser levado à convivência com a diversidade. Mas a Igreja, após superar a ruptura com as estruturas de poder ocorrida na instalação da República, se reabilitara numa atitude de colaboração com o Estado nos anos 30 e 40, juntos pela manutenção da tradição católica brasileira e pela ordem social. Depois de 1945, o apoio oficial à causa católica ainda ocorreu em situações como na atitude do Ministro da Justiça, Sr. Adroaldo Mesquita, ao se identificar com a campanha pela moralidade nos veículos de entretenimento e de informação utilizados pela população. A conduta do representante do governo em prol dos interesses da Igreja Católica, ao ferir conquistas já consolidadas em lei pelo livre arbítrio e pela liberdade de expressão, levantou debate polêmico estampado através da imprensa nacional. Num tom irônico, o jornalista Sr. J. E. de Macedo, teria usado a expressão - “Ministro de Sacristia” para criticar a posição do representante do poder público, situação logo rebatida pela imprensa católica: “À imoralidade que se derrama pelos jornais, se estampa nas revistas e se exibe nos cinemas, opôs-se o Sr. Ministro da Justiça através de portarias salutares, ordenando às autoridades a profilaxia necessária e determinando-lhes os meios para fazê-lo. [...] Pois bem, esse fato edificante que descrevemos, e que deve servir de exemplo aos homens públicos do Brasil, foi pretexto de que lançou mão o Sr. J. E. de Macedo Soares, descontrolado pelas emoções de uma campanha fracassada, para firmar um artigo indigno de sua brilhante pena de jornalista. [...] do que precisa o Brasil hoje, é 32 Revista Santa Cruz, Ano XX – junho de 1955 p. 112-113. 196 justamente voltar às suas fontes. E estas estão nas sacristias. Sabe muito bem o sr. Presidente onde encontrar personalidades de que nossa terra precisa e de que o seu governo orgulha.”33 Os jornais e revistas católicos, além dos temas religiosos que lhes eram peculiares, abordavam também as questões políticas de cada momento. Mas apresentavam-se sempre num tom de denúncia e de oposição ferrenha às manifestações sociais e às doutrinas que lhes pareciam ameaçadoras da ordem e provocadoras de alterações drásticas do status quo. O sinal dos novos tempos e as transformações gerais decorrentes de sua incorporação à vida social em suas várias dimensões eram por vezes alvo de repúdio, como se a Igreja procurasse correr contra o tempo e colocar-se em sentido contrário à força da modernidade. A preocupação em veicular conteúdos de melhor qualidade pela imprensa, insistência em modelos de comportamento mais rigorosos resistentes ao assédio da moda e das transgressões à tradição, o tom apologético de seus pronunciamentos eram a tônica dos assuntos abordados nas matérias e artigos de seus periódicos. As palavras do Pe. Arlindo Vieria, reproduzidas no artigo, “Outra voz autorizada fez-se ouvir”, expressam bem essa situação: “Para as livrarias e vendedores de jornais, a propaganda moderna de livros, revistas e jornais, programas radiofônicos, de filmes mais ou menos imorais, insuflando a sensualidade incita os homens a desprezar as normas antigas do lícito e do ilícito. [...] Um falso conceito de liberdade justifica todos os desregramentos morais. Os chamados governos democráticos soltando as rédeas ao homem animal afim de não ferir nem de leve o ídolo da liberdade, preparam a própria ruína.”34 Além das constantes denúncias de atentado à moral e aos bons costumes, enriquecidos com orientações para preservá-los, os jornais condenavam os chamados opositores da fé. Entravam no rol de seus inimigos, as religiões, seitas e organizações tidas como prejudiciais ao corpo social, consideradas como verdadeiros cancros nocivos ao bem estar coletivo. 33 Jornal A Semana – 9.01.1949. 34 Jornal A Semana – 10.07.1949. 197 4.4 Os jornais à serviço do combate ao Espiritismo Nas publicações locais, e naquelas de tiragem regional e nacional que circulavam no município, eram freqüentes os alertas contra o Espiritismo, destacados em frases de efeito: “Cuidado com o Espiritismo! A Igreja Católica proíbe, sob pecado, a todo e qualquer católico, ainda o mais firme na fé, que assista às sessões do Espiritismo, para não dar apoio moral à heresia, escandalizar aos outros e causar grande prejuízo à saúde”. Os responsáveis pelas matérias e artigos procuravam fundamentar sua condenação detalhando casos, pintados como verdadeiras tragédias, ocorridos com pessoas envolvidas com o Espiritismo, usando muitas vezes de uma estratégia alarmista para desestimular as adesões dos católicos. Eram também citadas avaliações de especialistas, em grande parte médicos, que condenavam a prática do espiritismo por considerá-las um mal à saúde do corpo e da mente. Além disso, apoiados em outras avaliações, condenavam-no por seu corpo doutrinário, suas pregações e concepção de mundo, em muitos casos, depreciando até mesmo suas práticas de assistência social. Uma das cenas fatídicas divulgadas foi tirada do jornal “O Lutador”. Estampada pela manchete “Mais uma tragédia do espiritismo”, descrevia em tom dramático a destruição de um lar pelo espiritismo: “Na madrugada de Sábado, 14 de maio, em sua residência ... o lavrador Aristides Veloso, de 46 anos de idade, que vinha freqüentando sessões espíritas na residência de Valdomiro de tal, estando nessa madrugada (talvez com o próprio espírito no corpo), armou-se de uma foice e desferiu vários golpes na cabeça e corpo de sua esposa Ernestina de Almeida Veloso, a qual, devido a gravidade dos ferimentos, veio a falecer, horas depois na Santa Casa... O espírito mau, encarnado em Aristides, não estava satisfeito e, sedento de sangue, avança para a cama onde dormiam os dois filhos menores – Roque de 9 anos, e Verderer de 7 anos – e assassina-os também ...”. 35 Havia também uma preocupação em explicar a doutrina espírita e suas práticas, alertando para seu nível de organização e sua pretensão de tornar-se uma religião: “O espiritismo é atualmente a forma mais espalhada e mais perigosa de superstição. Tem revistas, tem congressos, as conferências espíritas multiplicam-se nas cidades, 35 Jornal A Semana – 10.07.1949. 198 invadem os sertões, sob capa de boa doutrina, embasbacando o povo simples e insinuando-se como meio de da um remédio para todos os males. Acautelem-se os incautos! Consiste em uma série de experiências, mais ou menos bizarras mesas giratórias e falantes, veladores que se movem, falam e escrevem) pelas quais os adeptos se gabem de entrar em comunicação com os mortos. Esta comunicação se faz por intermédio de uma pessoa viva, homem ou mulher que se denomina médium. [...] Mas, o espiritismo não é somente um jogo mais ou menos divertido e perigoso, tem pretensões de entrar em comunicação com os espíritos. Outra, mais perigosa ainda, é a de querer substituir a verdadeira religião, fundar uma nova – a religião do futuro. Os espíritas não admitem nem céu, nem inferno, nem purgatório, mas a transmigração a reencarnação e uma sucessão de vidas depois desta. Por isto, vê-se o cuidado da Igreja para nos por em guarda contra o espiritismo.”36 A Igreja chegou a considerar o espiritismo como a crença mais ameaçadora e com maior perspectiva de expansão naquele momento, demonstrando preocupação não só com o espiritismo de fundamentação kardecista, mas também, e principalmente, em relação ao espiritismo supersticioso, voltado para adivinhações e curas. Seu receio ficou assim demonstrado: “Confessamos francamente, que nem a maçonaria, nem o protestantismo nem qualquer outra seita faz tantas vítimas. O Espiritismo é uma invasão ameaçadora como nunca houve no Brasil. [...] O que nos ameaça como um dilúvio, são as práticas espíritas ... o povo ignorante presta fé aos pregadores do espiritismo...”.37 A Igreja buscava sustentação para sua discordância em relação ao Espiritismo a partir das escrituras, afirmando que a força evocada pelos espíritas não viria de Deus, pois: “Ele na sagrada escritura reprova e castiga a prática de evocar e consultar os mortos (lev. XX, 57; Deut. XVIII, 10 13). O homem morre uma só vez (Hebr. IX, 27). O rico morreu e foi sepultado no internom (Luc., XVI, 22)”.38 Segundo afirmações do clero católico, os espíritas a todo momento, através de sua crença e de seus ensinamentos, estariam negando os dogmas fundamentais da religião: “O dogma do pecado original, do purgatório, do inferno, do céu, da redenção do homem, da necessidade da graça sobrenatural para a salvação, da ressurreição e até 36 Jornal São Francisco – Ano IX, nº 114, 01.11.1931. 37 Jornal São Francisco – Ano IX, nº 113, 15.10.1931. 38 Jornal Interno A Semana – 11.11.1945. 199 mesmo da divindade de Nosso senhor Jesus Cristo. Em suma:“O espiritismo nega toda a religião sobrenatural e é, portanto, uma das piores heresias”.”39 Nos jornais sempre eram expostas as advertências da Santa Sé sobre o espiritismo, proibindo terminantemente aos católicos freqüentarem suas sessões, sob pena de cometerem pecado grave, como aponta o trecho selecionado: “A Santa Sé, pelo órgão da S. Congregação do S. Ofício, em 30 de maio de 1898, declarou: Não é lícito consultar as almas dos mortos, ainda quando se exclua todo o pacto com o espírito maligno e pelo contrário se dirija uma oração especial a S. Miguel, príncipe da milícia celeste, para permitir que se fale com o espírito de uma pessoa determinada; e ainda quando as respostas dadas por escrito, sejam em tudo conformes com a fé e o ensino da Igreja sobre a vida futura, dizendo o estado da alma que pede sufrágios e se queixa da ingratidão dos parentes.”40 A tipografia de Divinópolis também foi útil ao publicar folhas explicativas sobre o espiritismo, atendendo às necessidades da paróquia e aos vigários de cidades vizinhas na propaganda anti-espírita. No aviso exposto na revista de Santa Cruz as intenções subjacentes à nova estratégia foram assim divulgadas: “Visto que em muitas paróquias o espiritismo é o pior inimigo da religião, aconselhamos àqueles entre os nossos vigários que têm que lutar muito com esta praga, que espalhem entre o povo, e em grande escala, folhas soltas com refutação dos erros do espiritismo e explicação da verdadeira doutrinas. Para tanto poderão entender-se com Frei Respício combinando com o mesmo sobre o número de exemplares, etc.”41 Um fato pitoresco ocorrera em 1946, na época, por iniciativa do vigário Frei Carlos Schep, iniciou-se a construção do Santuário de Bom Jesus no bairro Niterói. A comunidade participava com contribuições diversas. Os mais ricos faziam donativos em dinheiro ou através de material de construção, os mais pobres resolveram fazer doações em ovos. Esse procedimento teve grande repercussão quando o jornal espírita “A Flama”, de Uberaba, teria denunciado o fato, considerando-o uma exploração do povo pelos padres. A resposta dos católicos veio pelo caminho esperado, na “coluna da RAF”de Frei Rafael, com o título, “Os 39 Jornal Interno A Semana – 11.11.1945. 40 Jornal Interno A Semana - 14 de outubro de 1945. 41 Revista de Santa Cruz, Ano IX, nº 4, abril de 1939. 200 morcegos de Uberaba”. Depois de explicar o fato e usar de muitos xingamentos, o redator finalizou referindo-se à força inabalável da Igreja, através dos tempos, ao enfrentar críticas e perseguições: “Sim, senhor! Mais um daqueles ignorantes e coitados que nasceu ontem e hauriu a sua ignorância de alguém de ante-ontem, se atreve a atacar a fortaleza inexpugnável da Igreja Católica! Você, então, pensa conseguir o que Votaire, Jean Jacques Rousseau, Lutero, Calvino, Zwinglio, e outros ateus e hereges tentaram e não conseguiram? Deixe de lero-lero, por favor! Beba mais água do pai Jacó e pai Simão, para fazer uma limpeza na tétrica escuridão da sua inteligência.”42 O clero acreditava que na Europa, o espiritismo era menos ameaçador em função de no velho mundo haver maior disponibilidade de sacerdotes, dos católicos receberem uma boa instrução religiosa e por praticarem sua religião com mais convicção.43 4.5 A difícil convivência com os Protestantes A relação da Igreja Católica com o protestantismo foi diferente, pois esse representava a ruptura do Cristianismo deflagrada no século XVI por Lutero, abrindo o precedente para o surgimento de novas religiões cristãs tais como: os Presbiterianos, os Batistas, os Metodistas, os Pentecostais e outras, propagando-se pelo mundo. A Igreja Católica desde o início procurou evitar a proliferação do protestantismo, criando mecanismos para a expansão da Religião Católica Apostólica Romana, obediente ao papa e orientada para a interpretação do evangelho, de acordo com as prescrições da Santa Sé e da hierarquia eclesiástica. O desafio não foi fácil, em função do desenvolvimento do pensamento liberal, ideologia consolidada pelas revoluções políticas e pela industrialização capitalista, responsável em grande medida pela instauração da modernidade. Em decorrência desse processo, ocorreram novas interpretações de mundo impulsionadas pela liberdade de culto e de expressão, dando força para o crescimento de doutrinas confrontantes com o ideário católico. 42 Jornal A Semana – 13.10.1946. 43 Artigo “O Espiritismo na Europa”. In: Jornal São Francisco Ano III, nº 3 julho de 1929. 201 A imprensa foi amplamente utilizada na disputa de espaço entre as religiões, buscando cada uma delas, arrebanhar o maior número possível de fiéis, usando cada uma seu discurso e sua interpretação da Bíblia. Através de jornais, folhetos, periódicos, revistas procuraram expor a sua verdade, a sua crença, os seus rituais, as suas normas de conduta e os benefícios sociais e sobrenaturais advindos da fidelidade uma determinada crença. A imprensa católica se esforçava para apresentar ao leitor as desvantagens inerentes à conversão ao protestantismo, apontando os argumentos anticatólicos usados pelos mesmos, como se os protestantes estivessem sempre procurando crescer discordando de aspectos doutrinais do catolicismo. Na Revista de Província de Santa Cruz, alguns artigos trataram do protestantismo em Minas Gerais, apontando formas de combatê-lo. Havia uma preocupação com os meios utilizados pelos protestantes na tentativa de conversão dos católicos. Esse tema foi assim abordado por um dos artigos da Santa Cruz: “E entretanto, há brasileiros, nascidos de pais católicos, batizados na Igreja católica, que abandonam sua Religião para virar protestante. Como é que isso se explica, primeiro, pela profunda ignorância religiosa de muitos católicos. Muitos católicos não vêm à Missa aos domingos, nunca ou raramente ouvem a pregação dos Padres, não sabem nada de sua religião e assim não sabem defender-se contra os propagandistas protestantes. Segundo, porque o protestantismo é uma religião muito fácil. Não manda confessar seus pecados, não manda ouvir missa nos domingos, não exige jejum e abstinência de carne, numa palavra, não exige nenhuma daquelas coisas que muitos católicos tíbios e relaxados acham tão difíceis. É verdade, a religião protestante é uma religião muito fácil, muito cômoda. É uma religião muito fácil para a gente viver nela, mas não é boa para a gente morrer nela. Pois depois da morte o inferno espera os apóstatas.”44 Num dos números, foi divulgado o resultado de um círculo de estudos realizado no nordeste mineiro durante o Congresso Bíblico Eucarístico de Teófilo Otoni. Este círculo debateu sobre a atuação dos protestantes e a atitude do clero perante o protestantismo. Dentre suas conclusões destacam-se a eficácia dos meios de propaganda por eles utilizados: “A propaganda destas seitas é feita por meio da venda de livros, distribuição de folhetos, uso de alto-falantes, filmes visitas domiciliares, para as quais recorrem ao trabalho dos leigos, pregação na rua, ensino, até “giros” na roça. [...] Mandam de vez em quando vir pastores de fora para reavivar a fé dos crentes. Entre estes meios, dão maior valor ao ensino. Daí o esforço muito grande para disseminar em toda parte 44 Revista de Santa Cruz, Ano VII, junho 1942. 202 ginásios, escolas de comércio. Aproveitam-se também das profissões de dentista e farmacêutico para penetrar no interior.”45 Como resultado do evento, concluíram que não estava ocorrendo grande propagação das seitas, mas seu efeito nocivo estaria em suas pregações e questionamentos que, ao atingirem o público católico, estariam suscitando dúvidas nesses quanto à veracidade da doutrina Católica. O clero, ao refletir sobre o tema, paradoxalmente considerou esse efeito benéfico, se bem conduzido pelo corpo eclesiástico, por provocar nos católicos, maior disposição para a leitura da Bíblia. A partir desse diagnóstico, apontaram como alternativa a preparação dos fiéis para a defesa de sua religião: “Para fazer frente ao protestantismo torna-se necessário nas práticas cuidar da boa explicação da doutrina católica, expondo também os pontos em que se diferencia do protestantismo e porque se diferencia. É necessário incentivar o culto externo, de modo todo especial a Santa Missa dialogada; vender Bíblias, e possivelmente Bíblias baratas, catecismos e Histórias Sagradas; procurar o mais possível apresentar ao povo algo de novo no movimento religiosos, porque o povo do interior leva a vida monótona, necessita de alguma coisa que o distraia e quebre a monotonia da vida. Para este fim, os vigários têm constatado ser de muita utilidade o costume de Nossa Senhora Visitadora. Esta visita deve ser acompanhada do terço e de um pequeno sermão. É preciso aproveitar também, onde isto for possível, o auxílio das Freiras, fazendo com que cheguem mesmo a dar publicamente instrução nas ruas da cidade...”46 Os sacerdotes concluíram: “Julgam, outrossim, urgente a fundação de ginásios, escolas comerciais, colégios católicos nas regiões devastadas pelo protestantismo.”47 Era uma unanimidade entre o clero o fato de encararem como elemento dificultador de seu trabalho de evangelização e de proteção aos fiéis católicos, a capacidade que os protestantes demonstravam em relação ao conhecimento da Bíblia. Tal Fato colocava os católicos em desvantagem num possível debate, por estes normalmente não terem como prática uma leitura mais criteriosa das escrituras. Reconheceram que: “Os protestantes conhecem a sua fé . Sabem se justificar. Conhecem bem o que crêem. Sabem de cor vários textos escriturísticos, com os capítulos e respectivos versículos”.48 45 Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957. 46 Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957. 47 Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957. 48 Revista de Santa Cruz, Ano XXII, agosto 1957. 203 A partir dessa constatação, o clero buscaria então um maior investimento na formação dos católicos, proporcionando-lhes uma maior capacidade de argumentação, selecionando os temas mais freqüentes nas discussões, e que, por vezes, em função da desinformação, colocavam o católico em situação de desvantagem numa confrontação de idéias. Como parte do elenco de questionamentos dos protestantes sobre o catolicismo foram destacados: a missa, o purgatório, as imagens de santos e o celibato clerical. Outros aspectos da doutrina e prática católica eram também contestados pelos protestantes, como o dogma da transubstanciação, o poder dos padres de perdoar os pecados e a infalibilidade do papa. Todos esses pontos estariam sendo tratados numa pequena publicação de cunho didático-explicativo para que os católicos pudessem ter como material de consulta: “Uma equipe de clérigos do nosso corista de Teologia está projetando a edição de pequenas brochuras contra o protestantismo. O método a ser empregado é o irêncio. Expor-se bem a doutrina católica e de modo indireto se procurará refutar o erro protestante. Folhetos e livros protestantes serão muito bem aceitos por esta equipe para que possa assim, com fruto, continuar o seu trabalho, baseado na realidade brasileira. Espera a equipe que com estas brochuras poderá auxiliar eficientemente no combate ao protestantismo.”49 O convento de Divinópolis, na festa de Pentecostes de 1953, recebeu a visita de um ex-pastor protestante, convertido ao catolicismo, o professor Norberto Evaristo da Costa. Ao conferenciar aos coristas, o professor respondeu as perguntas dos estudantes e padres, destacando aspectos do movimento protestante em Minas Gerais. O palestrante chamou a atenção para vários aspectos, citando por exemplo, a visão dos protestantes sobre a ignorância dos católicos em relação à Bíblia. Por isto investiam na instrução através da suas escolas dominicais para crianças, jovens, homens e senhoras. Observou que, além de contarem com os pastores, os protestantes dispunham também do trabalho assíduo dos leigos evangélicos, preparados em todas as camadas sociais, priorizando sempre os que pelo seu ofício, teriam mais condições de exercer o apostolado. Concluiu avaliando que, de um modo geral, a doutrina seguida em Minas Gerais seria predominantemente calvinista e em menor escala luterana. O artigo que menciona essa conferência se encerra reforçando a necessidade urgente 49 Revista de Santa Cruz, Ano XXII, junho e julho de 1957. 204 de se fortalecer em cada paróquia a Ação Católica, como instrumento de evangelização e de combate ao avanço protestante.50 4.6 O debate com Maçonaria pelos jornais e boletins A “boa imprensa” declarou guerra também à Maçonaria, considerada organização secreta e anticristã em função de seus princípios e por suas práticas anticlericais. Nesse caso em particular, a cidade de Divinópolis foi cenário de tumultuadas relações da Igreja com a Maçonaria. Os livres pensadores e os maçons eram avessos ao que consideravam tradicionalismo católico e no âmbito local, travaram com seus representantes debates constantes, muitas vezes sustentando um discurso anticlerical. A Igreja, por sua vez, utilizou das armas que dispunha: os sermões, a catequese, o trabalho das entidades católicas e principalmente, fez da imprensa um eficiente instrumento de informação e de debate, sabendo através dela, lidar com o imaginário coletivo. A Maçonaria instalou-se bem cedo no município, composta de elementos influentes da comunidade. Em função de sua abrangência regional, a Loja de Divinópolis acabou atuando fora dos limites da cidade. O confronto maior com os maçons se deu através de Frei Rafael, no artigo, “Uma bofetada no rosto do povo católico de Divinópolis”. Lamentou uma afirmação feita pelos maçons acerca do clero: “Recordo-me da incansável figura do Frei Metelo, e de outros vigários, aos quais o nosso povo deve alguma coisa, vejo-os, agora, qualificados, carimbados, acusados e desprezados por um punhado de maçons e outros agitadores, dizendo: “Ou o Brasil acaba com o padre, ou o padre acaba com o Brasil.”51 Os maçons posicionavam-se como defensores dos tempos modernos. Influenciavam a conduta desses homens, a sua condição social, seu grau de instrução e o compromisso com o ideário da Maçonaria, entidade historicamente envolvida com a causa libertária no século XVIII e XIX. Isso explica terem batido de frente com a Igreja em várias situações. Uma delas 50 Revista de Santa Cruz, Ano XVIII, junho 1953. 51 Jornal A Semana – 15.12.1946. 205 teria sido na questão do ensino religioso nas escolas públicas como foi abordado pelo jornal “A Semana”: “Os maçons protestaram veementemente contra o decreto do ex-interventor, que instituiu obrigatoriamente o ensino religioso nas Escolas de Minas, dizendo, que este decreto veio destruir uma das maiores glorias conquistadas pela civilização e pela democracia, que é a separação da religião do Estado. Eles dizem o direito de adorar a Deus pelo modo que lhes convir é um direito sagrado da democracia, e atentar contra ele é querer destruir a célula mater da sociedade – a família!” 52 No mesmo texto, a justificativa católica para o ensino religioso nas escolas relacionase a idéia de que um povo para buscar suas bases morais e patrióticas precisaria da religião: “Que a religião na educação de um povo ou nação seja simplesmente necessária para não recaírmos no culto de super-homens, ou na supersticiosa adoração de um talismã, como os índios e pagãos dos tempos passados. [...] Que os meus leitores compreendam esta relaxada, frouxa e tuberculosa religião maçônica! ... sem religião não pode haver formação religiosa, moral e patriótica.” O autor faz outras críticas aos maçons, referindo-se à visão dos mesmos sobre a existência de Deus: “E é então com essa religião murcha do Arquiteto-Supremo que os maçons se contentam... [...] Os senhores maçons fiquem sabendo que Deus nunca se revelou como Arquiteto-Supremo. Jesus Cristo não veio a este mundo para ensinar matemática ou aritmética. Veio antes pregar, com a palavra e com o exemplo a vida virtuosa. Não nos ensinou o segredo das forças dos elementos.”53 4.7 Uma imprensa essencialmente anticomunista As letras garrafais do jornal “A Semana” davam conta do tamanho de outro inimigo do catolicismo e da ordem social, cujo calibre exigia um ajustamento do poder de fogo. Tratava- 52 Jornal A Semana – 24.11.1946. 53 Jornal A Semana – 01.12.1946. 206 se do comunismo, que ganhara novos contornos na conjuntura do pós guerra. A estampa ampliada do mal, destacada antes mesmo do título do jornal, mostrava ao leitor, com clareza, a dimensão de sua nova missão enquanto cidadão: “Brasileiros! Por amor à Cristo, ao Brasil, à honra e à dignidade de nossas Mães e Filhos, ainda é tempo, lutemos contra o comunismo!”.54 Dentre os inimigos da Igreja que tomaram espaço nas páginas de suas publicações através de alertas e de críticas, o comunismo, certamente, foi o que mais provocou debate e exigiu atenção especial do corpo eclesiástico. No ímpeto de combatê-lo, sempre eram expostas notícias escandalosas sobre os países adeptos desse modelo. Os acontecimentos nacionais eram tratados como tema de segurança e os princípios ideológicos e materialistas do comunismo eram veementemente rebatidos pela doutrina social da Igreja. A Igreja temia a propagação das idéias comunistas entre os operários. Essas idéias eram favorecidas pela conjuntura de ampliação das contradições do capitalismo que expunha o proletariado à exploração, tornando-os vulneráveis ao pensamento comunista. Além disso, o comunismo deixara, desde 1917, de ser um corpo doutrinário usado como armadura para o movimento operário internacional. Transforma-se numa experiência real, num verdadeiro modelo sócio-econômico, político e cultural de sociedade capaz de se contrapor ao modelo capitalista e apresenta-se como uma alternativa, tornando-se uma referência para a luta revolucionária internacional. Todos os jornais e revistas católicos que circularam entre os anos 30 e 50 traziam alguma referência à questão, num tom muitas vezes alarmista, dando sempre a impressão de que havia necessidade de se prevenir contra o mal. O comunismo mostrava sua dimensão enquanto força persuasiva. Precisava ser criada uma trincheira com as devidas adesões políticas para combater o perigo da bolchevização. A hierarquia católica estava consciente de que os tempos depois da guerra eram outros e de que os abusos do capitalismo deveriam ser também contidos para que o discurso comunista não chegasse a ser impactante o bastante para alterar a ordem das coisas. Essa evidência foi assim tratada num texto de 1945: 54 Jornal Interno A Semana – 29.12.1946. 207 “... Para salvar o Brasil e a civilização cristã não basta, nem de longe repudiar o comunismo. Ninguém se iluda, assim como eram as coisas antes da guerra, não poderão continuar. Impõe-se, irresistivelmente, uma reforma mundial, uma reforma social e econômica que irá acabar com os absurdos e excessos do liberalismo econômico, ou seja, o capitalismo desenfreado. Tal reforma virá, quer o queiram os capitalistas, quer não. Daí de duas uma: ou os patrões serão roubados contra sua vontade pelos comunistas, ou então, os próprios patrões tomarão a iniciativa, realizando por livre vontade um reajustamento econômico entre o capital e o trabalho. Pois só assim é que se combate eficazmente o comunismo, isto é, por obras, não por palavras e vaias.”55 A Igreja demonstrou lucidez ao encarar os fatos. As condições de funcionamento da sociedade capitalista, a seu ver, exigiam seu posicionamento político e a introdução imediata de mudanças na estrutura econômica e nas relações entre capital e trabalho. Sua disposição para o enfrentamento sustentou-se na proposta corporativista envolvendo capital, trabalho e Estado e lançou-se numa tarefa particularmente decisiva naquele contexto: a de apontar um caminho anticomunista para a organização dos trabalhadores através do movimento operário católico, envolvendo sindicatos, a Juventude Operária Católica e formas supra-sindicais, como foram os Círculos Operários. Fazia parte de suas recomendações para evitar o avanço vermelho, a proposta de melhoria da distribuição de renda por meio da participação dos operários nos lucros das empresas, como foi abordado pelo Revmo. Cônego José Távora, secretário do Arcebispo do Rio de Janeiro e publicado em jornal da capital. Devido à repercussão dessas idéias, o Episcopado Brasileiro pronunciou-se através de Pastoral Coletiva: “... É preciso saber que nisso de participação dos operários nos lucros das empresas não há nada de novidade, que é pensamento tradicional da Igreja. Qualquer compêndio completo de sociologia católica trata do assunto, que está expresso, diretamente na Encíclica Quadragesimo Anno. Infelizmente a doutrina social da Igreja é pouco conhecida e divulgada. Daí a curiosidade que se fez em torno do tema da participação dos lucros. Aliás o documento do episcopado nacional tem que ser analisado em bloco e não em trechos isolados. Tratando dos problemas sociais, por exemplo, foi ali afirmado que qualquer reforma social em face das empresas econômicas, deve olhar com equidade as possibilidades de equilíbrio dessas. Uma medida social que desorganizasse centros de trabalho e produção ou provocasse injustiças em qualquer dos lados interessados, seria antes de tudo desastrosa.”56 55 Jornal Interno A Semana – 30.09.1945. 56 Jornal Interno A Semana – 30.09.1945. 208 O Cônego José Távora procurou em sua fala explicar o sentido desta eqüidade, demonstrando as alternativas que poderiam ser adotadas pelos patrões: “Um dos modos de se distribuírem os lucros, sem o perigo do esbanjamento ou de má aplicação, será a criação dos Serviços Sociais... [...] Outra parte dos lucros deve ser aplicada em obras sociais, em assistência técnica sanitária, na construção e manutenção de instituições para os filhos de operários, em serviços médicos, além da construção de casa baratas a serem alugadas por preços ao alcance do salário do trabalhador.”57 A ameaça comunista tinha tomado proporções internacionais, colocava em risco o modelo capitalista ocidental liderado pelos Estados Unidos e acabou por provocar a união das Igrejas Cristãs através da condenação feita pelo Conselho Mundial de Igrejas. Após a proclamação feita pelo Vaticano contra o comunismo, a Igreja recebeu a adesão dos Protestantes e Ortodoxos, fato comentado em editorial pelo New York Times: “A atitude das diversas religiões, é conjunta. Mesmo assim, as diferenças doutrinárias entre as seitas e religiões, continuarão. Há entretanto, uma causa fundamental que une todos aqueles que depositam a sua fé nas possibilidades da igualdade e no futuro dos homens, sob as vistas de Deus. Resistir à tirania, em qualquer parte do mundo, constitui um auxílio àqueles que já estão oferecendo uma resistência. Nesta crise fundamental de liberdade, há uma unidade básica entre os amigos da liberdade.”58 Quando os jornais católicos referiam-se à realidade brasileira, não foram poucas vezes que atacaram o líder do Partido Comunista no Brasil, Luiz Carlos Prestes, como um elemento nocivo, capaz de ludibriar os incautos, como demonstra o trecho: “Outro dia o “fueher” vermelho fez em São Paulo um discurso, afirmando, entre outras coisas mais, que é só o alto clero, que vive nadando em ouro, que é contra o comunismo, e não os padres pobres!!!”.59 Outro personagem nacional ligado ao Partido Comunista foi Jorge Amado, que teria sido criticado por divulgar falsas idéias sobre o catolicismo e por ser propagandista do comunismo. Frei Rafael num de seus artigos procura refutar a argumentação usada por Jorge Amado para convencer os católicos sobre a compatibilidade entre catolicismo e comunismo: 57 Jornal Interno A Semana – 7.10.1945. 58 Jornal A Semana – 14.08.1949. 59 Jornal Interno A Semana – 14.10.1945. 209 “Os padres fazem do púlpito verdadeiros meetings contra o comunismo. Todas as velhas chapas são repetidas: Os comunistas são filhos do demônio, almoçam crianças e jantam freiras, recebem dinheiro de Moscou e bebem sangue humano pelo menos quatro vezes por dia. Religião é uma coisa política é outra. Em nosso partido estão centenas de bons católicos, centenas de bons espíritas e centenas de bons protestantes.”60 Frei Rafael, após transcrever a fala do romancista em defesa do comunismo, fez suas críticas: “Este Jorge Amado é também daqueles milhares que se dizem bons católicos, e mais. Ele é católico, apostólico, romano e comunista. É um daqueles que também vive sob o jugo inflexível do “Magister é, Luiz Carlos Prestes dixit”, e por isso, lança seus anátemas fuzilantes contra os padres que condenam o comunismo. Ele troca a sua felicidade eterna por um prato de lentilhas, preparado e oferecido gentil e gratuitamente a todos os adeptos da Rússia Soviética, pelo cavaleiro da desesperança tão elogiado pelo jornal “Reação Brasileira”.”61 O perigo comunista tinha que ser apresentado como algo iminente e bastante próximo para que houvesse reconhecimento público de sua verdadeira ameaça. Para tanto, eram destacadas suas intervenções no meio social, sua influência no meio político e as ocorrências que faziam dele o responsável por momentos de perturbação da ordem e da segurança pública. Interessante foi esta observação feita sobre Intentona Comunista de 1935: “É só lembrar a traiçoeira intentona comunista de 1935, na qual barbaramente foram assassinados oficiais do exército nacional enquanto dormiam tranqüilamente!... Luiz Carlos Prestes é assassino de Elza Fernandes, menina inocente e réu de muitos outros crimes. A bancada comunista em peso votou contra o nome de Deus na nova Constituição brasileira, votou contra a indissolubilidade do matrimônio e não aceitou nenhum postulado da Liga Eleitoral Católica.”62 Completando o sentido da ameaça, representada pela Intentona, foi citada a polêmica afirmativa feita por Prestes: “Nós, os comunistas do Brasil, no caso de uma guerra do Brasil contra a Rússia, lutaremos contra o Brasil”.63 A intenção era associar o avanço comunista 60 Jornal Interno A Semana – 07.04.1946. 61 Jornal Interno A Semana – 7.4.1946. 62 Jornal A Semana – 02.02.1947. 63 Jornal A Semana – 02.02.1947. 210 como parte de uma grande estratégia de dominação internacional que colocava em risco as instituições e a segurança dos cidadãos. Por vezes, tornava-se necessário mostrar aos católicos o que de concreto estava sendo feito para barrar o comunismo em várias partes do país, sempre com o intuito de estimular um grande mutirão nacional em defesa da moral e da ordem. Tal ação era empreendida para que os grupos organizados e os moradores das cidades se sentissem motivados a agir em torno daquela causa. Exemplifica essa postura o comício da União de Resistência Nacional realizado em 16 de agosto de 1945 na cidade de São Paulo. Nesse evento, teve destaque o discurso do operário Galdino Ramos, que foi reproduzido e divulgado como uma interpretação a ser incorporada pelos trabalhadores: “Operários de São Paulo! O comunismo não pode ser a bandeira do operário, pois o comunismo não somente se dirige contra o capitalismo, mas ao mesmo tempo, voltase contra a propriedade, contra a família e contra a religião. [...] Nós não os escutamos, porque não acreditamos neles, porque sabemos que eles escondem os seus verdadeiros fins, que hoje, além de materialista e ateu, é também, imperialista servindo aos interesses de uma potência estrangeira. Eu pergunto aos operários do Brasil com toda a sinceridade da minha voz: Por que razão o Partido Comunista não se chama Partido Comunista Brasileiro, e sim, Partido Comunista do Brasil? Nós sabemos porque. Nós sabemos que eles são do Brasil e não brasileiros, porque são uma sucursal, uma filial, uma dependência, um elo de um movimento internacional que ameaça a nossa Pátria.” 64 Sobre o caráter estrangeiro do comunismo, como representante de interesses imperialistas internacionais, foi citada como exemplo, uma reunião dos comunistas divulgada pelo jornal “Tribuna Popular”. Posteriormente, a cena foi usada por jornais católicos para justificar o vínculo dos comunistas brasileiros com organizações e governos internacionais: “Por traz da mesa, onde sentavam os dirigentes do P.C.B. , sobre um fundo vermelho, estava um grande e artístico retrato de Mao-Tse-Tung e ao lado a seguinte inscrição em azul: O Partido Comunista do Brasil a Mao-Tse-Tung, o heróico bolchevique, é o dirigente máximo do Partido Comunista na China, é o presidente de honra do pleno”. Está aí implícita a confissão do internacionalismo. [...] Ao lado da mesa, numa tribuna pintada de branco, destacava-se o emblema internacional do Partido dos Trabalhadores: a foice e o martelo. E mais, encerrando a cerimônia, todos de pé cantaram a Internacional, hino imortal dos trabalhadores.”65 64 Jornal Interno A Semana – 28.10.1945. 65 Jornal Interno A Semana – 07.07.1946. 211 Os jornais se encarregavam de fazer circular manifestações variadas de repúdio ao comunismo, ocorridas em vários pontos do país: “Graças a Deus, o povo brasileiro começa a compreender a situação, levantando-se contra os emissários da Rússia Vermelha. De todos os cantos do imenso Brasil, nos vem notícias animadoras sobre a reação expontânea e em massa dos bons brasileiros contra os escravos de Luiz Carlos Prestes. Aí fracassou um comício por falta de interesse, ali o orador não chegou a pronunciar seu discurso por causa das vaias estrondosas. Em São Leopoldo, importante centro industrial do Rio Grande do Sul, só 27 operários, num total de 7000, deram o seu nome ao Partido Comunista. E assim por diante, graças ao bom Deus.”66 Em Divinópolis, ocorreu uma manifestação de repúdio, orquestrada por católicos ligados às associações religiosas, principalmente os marianos, como foi elogiado em crônica da Revista de Santa Cruz: “Ultimamente inventaram os comunistas de realizar vários comícios aqui em Divinópolis na Praça da Estação. Assim realizaram um no dia primeiro de dezembro e outro no dia vinte e três do mesmo. O sucesso foi nulo, pois de cada vez foram vaiados a valer pela população divinopolitana, cabendo grande parte desta vitória aos destemidos marianos que não tiveram papas na língua. A irritação do povo de cada vez chegou a tal ponto que os oradores de fora tiveram de fugir protegidos pela polícia, e dos comunistas de cá alguns entraram no couro.”67 Presenciou esse comício, realizado em 1946, o Sr. Milton Pena, que ainda jovem, teria ficado indignado com o exagero da conduta anticomunista da platéia estimulada pelo grupo católico: “... Os comunistas eram uns gatos pingados, uns poucos. Todos juntos não encheriam o coreto da praça. Havia uma pequena multidão, talvez umas trezentas pessoas. Quando os oradores começaram a falar, começaram as gozações e palpites. Foram vaiados e insultados com palavrões. [...] Impossibilitados de continuar o seu comício, os comunistas subiram a rua Rio de Janeiro, continuando a ser acossados e insultados pela “plebe ignara”. [...] A polícia interveio com tiros de fuzil. Não sei como não houve morte. Eu vi e me envergonhei.”68 66 Jornal Interno A Semana – 30.09.1945. 67 Revista de Santa Cruz, Ano XII, fevereiro de 1947 p. 24. 68 Artigo do Sr. Milton Pena publicado no jornal “Primeira Página” de Divinópolis – 10.09.2000. 212 A lucidez da Igreja para perceber os problemas decorrentes do sistema capitalista, apresentando como alternativa sua doutrina social, compreendendo à seu modo a modernização e a alteração da estrutura político-econômica do mundo após 1945, não foi suficiente para que fosse contido o exagero de seu discurso anti-comunista. Em vários artigos, matérias e textos da imprensa católica aparecem afirmações que demonstram sua inquietação diante da ameaça representada pelo comunismo: “O Comunismo é isto: Combater a religião e a pátria Ocupar a todos e a tudo em proveito de uns poucos Matar a todos que não quiserem aceitar a doutrina russo-soviética Usar de todos os meios para alcançar o domínio do país Negar ao homem os direitos que a própria natureza lhe deu Intrigar e fomentar as lutas de classe Saquear igrejas, propriedades e bens alheios Matar a religião, a família e a liberdade das consciências Ocupar o Brasil e fazer dele uma colônia russa.”69 A interpretação que a Igreja fazia do comunismo, no campo teórico e no campo de sua ação político-social, partia do princípio de que o mesmo sustentava-se no materialismo e na violência para alcançar seus objetivos. Esse tema foi tratado no artigo “O lobo na pele de cordeiro”, de onde foram retiradas as seguintes considerações: “Sua principal base filosófica é o materialismo puro, só existe matéria: mundo, terra, água, homens, bichos e plantas. [...] Dizia Lenine: “Todo homem que se ocupa na arquitetação de um Deus, cospe sobre si mesmo do modo mais asqueroso”... E Marx o filósofo por excelência do comunismo acrescenta: “A religião é o ópio para o povo e um, como que, álcool espiritual”. Para os comunistas não existe nem céu, nem inferno, nem outra vida depois desta. Com a morte tudo acaba, como para os irracionais.”70 Na prática, de acordo com a análise católica transmitida aos fiéis, os comunistas estabeleciam-se nos países onde se instalavam um regime de terror e um estilo desregrado de sociedade: 69 Jornal Interno A Semana – 05.05.1946. 70 Jornal A Semana – 02.02.1947. 213 “O partido comunista substitui a família. Os filhos são entregues ao Estado e sobre eles os pais não têm o mínimo direito.[...] O amor livre é sustentado por lei. [...] Em toda a parte igrejas e conventos são demolidos, ocorre matança de padres e freiras e de centenas de milhares de católicos cujo único crime é o de crer em Deus.”71 A atuação dos comunistas era mais expressiva nos grandes centros urbanos e sua atenção especial se voltava para as cidades onde houvesse uma base econômica-industrial caracterizada pela concentração operária. Nesse caso se enquadrava Divinópolis, sede da oficina da Rede Mineira de Viação, cidade industrial em expansão, com capacidade de exercer influência regional, cenário de greves e manifestações de operários. Isso explica a intensa mobilização da Igreja local, principalmente através dos franciscanos e arquidiocese para evitar a proliferação de ideologias ameaçadoras em meio à população e principalmente em relação aos ferroviários. Vários documentos da época evidenciam tais preocupações e os investimentos para garantir a ordem e a segurança na localidade. Os jornais católicos que circulavam na cidade eram impregnados de uma propaganda anticomunista ostensiva e, por vezes, fazia-se referência a existência de uma organização comunista no município na forma de comitê, que deveria ser vista como um sinal palpável de que o perigo não encontrava-se tão distante como muitas vezes se pensava, e portanto, havia necessidade de evitá-lo e combatê-lo. A legalidade concedida ao Partido Comunista no processo de democratização ocorrido com a queda de Vargas em 1945 tornava o ambiente político mais vulnerável e perigoso. Essa era a visão dos partidos convencionais e da Igreja, representada politicamente pela Liga Eleitoral Católica. Skidmore explica que a participação dos comunistas nas eleições de 1945 era um dado absolutamente novo. Já estavam na clandestinidade desde a revolta de 1935. Segundo ele, as idéias marxistas tinham boa receptividade no meio da nova geração. Entretanto, o Partido encontrava-se em situação difícil por representar o único Partido Comunista da América Latina que havia tentado uma revolução, o que dava a seus opositores justificativa para considerá-lo inadequado ao sistema democrático (Skidmore, 1982:87). 71 Jornal A Semana – 02.02.1947. 214 No que se refere ao insistente combate da Igreja ao comunismo e ao momento específico de redemocratização política na segunda metade da década de 40, Frei Carlos Josaphat fez as seguintes considerações: “Bom, com relação ao comunismo, em 1946, o Partido Comunista levou uma bancada grande para a assembléia constituinte e depois para o parlamento, elegendo um senador. Tinha uma bancada muito forte, sobretudo uma bancada de gente que tinha o dom da palavra, que estava informada sobre a política mundial. Então havia o problema de muita gente se unir ao partido e ele estava legalizado. Nesse caso a Igreja, uma grande parte dela, ligando-se a Leão XIII e à encíclica Rerum Novarum começava a fazer uma grande refutação ao socialismo.”72 (Frei Carlos Josapha) O arcebispo Dom Cabral e a redação do jornal “O Diário”, órgão da arquidiocese de Belo Horizonte, tiveram acesso a um Manifesto distribuído em Divinópolis por um chamado Comitê Democrático Progressista. O referido jornal encarregou-se de divulgar sua posição frente ao problema por meio de matéria lançada em agosto de 1945, mostrando a situação de Divinópolis como sede de tal agremiação. Dada a repercussão do fato junto ao arcebispado, cabe aqui transcrever o conteúdo da publicação: “Em Divinópolis acaba de ser fundado – assim diz “O Diário” – um Comitê Democrático Progressista. Está claro que é preciso saber ler nas entrelinhas do seu Manifesto para entender o que o novo Comitê daquela próspera cidade pretende e objetiva. Mas, uma vez que se atente bem para seu programa, verifica-se que se trata de mais uma célula comunizante em Minas Gerais. Na verdade, não podemos dizer quase nada contra o programado Comitê de Divinópolis. Mas, descoberta a fonte de onde promana a sua inspiração, cabe-nos alertar contra todos os disfarces de que usa, atualmente, o comunismo no Brasil. A fundação do referido Comitê em localidade que é um centro movimentado de ferroviários, e trabalhadores de indústrias texteis e outras, constitui um aviso claro contra a influência que as idéias extremistas irão exercer entre o povo bom e generoso do interior. O caso de Divinópolis dá para uma meditação por parte dos responsáveis pelos nossos destinos. O comunismo está angariando adeptos, porque a vida é cara, absurdamente cara, e revolta os desajudados da fortuna. Na ignorância do que sejam os extremismos na sua verdadeira essência, as camadas populares aderem aos seus postulados e passarão a constituir, dentro em pouco, um eleitorado respeitável, se os homens de responsabilidade não corresponderem aos legítimos anseios da justiça, de honestidade e fraternidade cristã, que são indispensáveis no coração de todos os homens.”73 72 Entrevista realizada pela autora no dia 02-11-2001 pela autora com Frei Carlos Josaphat. 73 Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945. 215 O jornal “A Semana” que tornou pública a situação, procurou, ao enfocar a existência do comitê, mostrar a tática dos comunistas, fazendo-se, segundo interpretação dos católicos, defensores da democracia e da liberdade. O jornal local fundamentou-se na argumentação de intelectuais que vinham acompanhando a trajetória do comunismo no país e por sua experiência e esclarecimento, tinham, portanto, respaldo para discutir as estratégias normalmente usadas por eles: “Efetivamente, a inspiração comunista do Comitê é absolutamente indiscutível. São os mesmos slogans, as mesmas idéias, as mesmas frases até do programa de Luís Carlos Prestes. Esse cavalheiro passou a seus apaniguados a ordem de criarem confusão em nossos arraiais pelas palavras sonoras de União Nacional, progresso, Democracia e Ordem. Ora, é só ler o manifesto divinopolitano para verificar que bate na mesma tecla.74 Foram citadas as palavras do líder católico Tristão de Ataíde sobre essas estratégias do comunismo: “A palavra de ordem que neste momento disciplina o Partido Comunista é a organização de comitês populares democráticos inter-partidários, mas de iniciativa comunista, para assim chegar á ditadura do proletariado, tática passageira para a liquidação dos contrários, pela absorção final no Partido Único Comunista.”75 A vigilância sobre possíveis ações de grupos comunistas na cidade continuou e o meio ferroviário era particularmente alvo de atenção. Havia um certo ar de insegurança, como já mencionado, sobre sua atuação legal e a possibilidade de crescerem por meio do voto popular. Um exemplo disso foi o realce dado à presença dos comunistas entre os operários da Rede Mineira: “Bater uma chapa dos operários da R.M.V. quando almoçam e mandar esta fotografia para ser publicada num jornal comunista com os seguintes dizeres: “Os operários de Divinópolis aderiram ao P.C.B”. [...] Telegrafar para Belo Horizonte dizendo que a Congregação Mariana estava organizando desordens e boatos, para 74 Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945. 75 Jornal Interno A Semana - 26 de agosto a 2 de setembro de 1945. 216 anular o comício dos fascistas do P.C.B. [...] Organizar rifas e tômbolas nas oficinas da R.M.V. para financiar a traição que está sendo elaborada no Q.G. do P.C.B.”76 Completando a exposição sobre as táticas usadas pelos comunistas, os operários foram alertados para reagirem: “Operário, não te deixes enganar. O P.C.B. quer apenas escravizar-te, tu e tua mulher e tua família. Ainda é tempo. Antes que seja tarde, lute contra os traidores fascistas e comunistas.”77 4.8 A divulgação da Liga Eleitoral Católica No discurso anticomunista, a Igreja procurava sempre enaltecer a tradição católica do povo brasileiro, enfatizando que esta característica seria a principal arma de luta da nação. A profunda religiosidade do povo mineiro seria também um bastião de defesa, capaz de impor derrotas ao inimigo, como consta do conteúdo de um dos artigos da época: “Aqui na visceralmente católica Minas Gerais, a propaganda vermelha encontra osso duro de roer, devido à profunda religiosidade do mineiro. Nem por isso entregam os punhos os emissários de Moscou. [...] Em vista disso, os adeptos da foice e do martelo envidam todos os esforços por apresentarem aos mineiros um comunismo que não seria inimigo da religião e da pátria, mas sim, representante e defensor da liberdade religiosa, apesar da evidência dos fatos que provam horrorosa e absolutamente o contrário. [...] Mineiros alerta!”78 No processo eleitoral instaurado com o fim do Estado Novo, a atuação da Igreja se fez através da Liga Eleitoral Católica, entidade organizada segundo experiência da Unione Elettorale Católica, fundada por Pio XI em 1905. Teve como ideólogo no Brasil, Alceu Amoroso Lima orientado por Dom Leme (Isaía, 1998:134). Em Divinópolis, foi instalada por Frei Braz, obtendo sucesso nas eleições municipais de 1936 ao vencer o Partido dos Machos de Pedro X. Gontijo. A vitória foi comemorada pelos católicos articulados por Amâncio Correia e Jovelino Rabelo: 76 Jornal A Semana – 29.12.1946. 77 Jornal A Semana – 29.12.1946. 78 Jornal A Semana – 02.02.1947. 217 “... Foi feita uma manifestação estrondosa pelo fato do feliz resultado na eleição municipal do dia 7 de junho pp., quando o partido de Pedro X. Gontijo com sua turma de anticlericais, apesar de suas fraudes e falsificações, perderam de 6 X 2 contra a Liga Eleitoral Católica e o P. P. Agora os padres e o próprio povo católico podiam respirar mais tranqüilamente. Nessa ocasião, o Prefeito, em nome do Município declarou que a atmosfera estava completamente mudada e que doravante haveria em Divinópolis harmonia entre o poder temporal e o espiritual. Graças a Deus!79 A Liga foi posteriormente dirigida pelos outros vigários e incrementada por Frei Rafael. Contava com funcionários para orientar o eleitorado da cidade sobre o alistamento, ou seja, a preparação do título de eleitor associada a sua inserção na Liga. O decálogo da Liga Eleitoral Católica foi publicado no jornal “A Semana” de dezembro de 1946: 1º - Promulgação da Constituição em nome de Deus e a instituição do novo Estado – democrático, segundo os princípios evangélicos de igualdade, liberdade e justiça. 2º - Reconhecimento dos direitos e deveres fundamentais da pessoa humana. 3º Defesa da Família fundada no casamento indissolúvel, com o reconhecimento dos efeitos civis aos casamentos religiosos e assistência às famílias numerosas. 4º Rejeição de todo monopólio educativo e liberdade de ensino religioso facultativo nas escolas públicas primárias, secundárias e normais da União, dos Estados e dos Municípios. 5º Legislação do trabalho inspirada nos mais amplos preceitos de justiça social e nos princípios de ordem social cristã, trabalhadores tanto urbanos como rurais. 6º Preservação da propriedade individual com os razoáveis limites que forem exigidos pelo bem comum, como base da autonomia pessoal e familiar. 7º Pluralidade sindical, sem monopólio estatal nem restrições de ordem religiosa. 8º Pluralidade partidária, com exclusão de organização anti-democrática. 9º Regulamentação da assistência religiosa facultativa às classes armadas, prisões, hospitais etc., e reconhecimento do serviço eclesiástico de assistência espiritual às forças armadas, como equivalente ao serviço militar. 10º Combate a toda e qualquer legislação que contrarie, expressa ou implicitamente, os princípios fundamentais do direito natural e da doutrina cristã. A Liga Eleitoral Católica expunha sempre sua opinião sobre os partidos políticos, dando importância às propostas sintonizadas com os propósitos da Liga e definindo que, 79 Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 5, agosto de 1936, p. 77. 218 independente de seu discurso ou programa, o Partido Comunista estava sempre em desacordo com os princípios católicos: “Sem entrarmos no terreno político, sem destacarmos o P.S.D., P.T.B., ou U.D.N., e outros partidos políticos, queremos apenas dizer que o P.C.B. , o partido comunista, não corresponde a nenhum dos referidos pontos da liga Eleitoral Católica. Que tenham pois cuidado! Não vos deixeis enganar pelos comunistas das estepes russas que vêm a vós em pele de ovelha, mas que são lobos roubadores. Antes de votar, de dar o voto, indague, medite e reflita. Todos os bons brasileiros contra o perigo vermelho.”80 Em várias chamadas, os jornais católicos conclamavam o povo para seu compromisso cívico de alistamento, sempre com sua atenção voltada para arregimentar o eleitorado em torno dos princípios da Liga e contra o perigo de vitória comunista nas eleições: “Católicos alistai-vos! O nosso povo não começou ainda a compreender o valor do alistamento. Deste município 3000 se alistaram, 2000 encaminharam o seu título. Onde estão os outros 5000? São esses analfabetos? Não acreditamos. Não seria antes falta de compreensão religiosa e patriótica? Que os católicos compreendam bem que não alistar-se quer dizer, nem mais nem menos, dar um apoio negativo aos comunistas...”81 Os católicos eram convidados a se associarem à Liga Eleitoral Católica por meio de chamadas: “Católicos, fazei-vos sócios da Liga, assinando o compromisso: de cumprir o dever eleitoral e de votar conforme a orientação da Liga Eleitoral Católica”82 ou ainda, “Já assinou o compromisso da Liga Eleitoral Católica? Católicos, alistai-vos e assinai o compromisso da Liga Eleitoral Católica. Trata-se dos interesses da Pátria e da Religião”. As eleições estiveram na ordem do dia nos jornais. Havia uma preocupação de colocar a Igreja numa posição suprapartidária, mas com a incumbência de, através da Liga Eleitoral, explicar à população qual a melhor conduta no pleito, e aos candidatos, o compromisso com programas condizentes com os preceitos da Liga: 80 Revista de Santa Cruz, Ano I, nº 5, agosto de 1936, p. 77. 81 Jornal Interno A Semana - 9 a 16 de setembro de 1945. 82 Jornal Interno A Semana - 9 a 16 de setembro de 1945. 219 “Há quem nos pede a nossa opinião acerca de candidatos para o governo federal, estadual ou local. Nada diremos! A nossa obrigação é somente o respeito ao governo legal, e instruir o povo qual é, para um cristão, o modo de agir nas eleições, no máximo podemos indicar as qualidades que deve ter o seu representante, o seu candidato, para que o eleitor em consciência, possa verificar se estas se encontram na pessoa determinada.”83 Os jornais ressaltavam sempre a importância do momento político vivido pelo país e a obrigação dos católicos de participarem do processo, cumprindo seu compromisso cívico. Subjacente a este apelo, havia uma preocupação em conter o Partido Comunista, numa época particularmente favorável ao seu crescimento devido aos avanços democráticos vividos pelo país e também em função das dificuldades de sobrevivência impostas aos trabalhadores. Essa preocupação foi tratada pelo jornal local, citando as orientações traçadas pelo arcebispo de Belo Horizonte: “Os católicos, declara o nosso eminente arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral os católicos têm a obrigação absoluta de intervir no pleito eleitoral, para o que urge que todos se qualifiquem eleitores. Abster-se de participação na política seria trair a missão que temos de só eleger elementos realmente dignos. Até aqui o nosso querido arcebispo, cuja palavra deve ser para todo católico uma ordem. E ordem não se discute, cumpre-se.”84 O jornal acrescenta, após expor a ordem do arcebispo quanto a importância do processo eletivo, de que forma a omissão do eleitorado poderia oferecer vantagens aos comunistas: “A indiferença foi, por muito tempo o mal político dos católicos brasileiros, conforme palavra autorizada do grande líder católico que é Tristão de Ataíde. Com efeito, o católico não pode ser indiferente quanto ao futuro do seu país, do seu Estado ou município. Nem como cidadão, nem como católico. No sistema democrático, em que a maioria dos votos pode resolver os casos, cada voto a mais pode ser decisivo.”85 O jornal “O Diário” chamou a atenção do eleitorado para a vulnerabilidade dos partidos frente ao crescimento do P.C.B: 83 Jornal Interno A Semana - 11 à 18 de março de 1945. 84 Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945. 85 Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945. 220 “... Enquanto os democráticos se batem em questões partidárias, o comunismo toma a dianteira formando de todo o Brasil seus chamados núcleos democráticos, que se tornarão em breve os sovietes locais. O comunismo já está arregimentando sua gente, formando seu eleitorado, publicando seus programas e jornais. Apresentandose em atitude simpática de defensor da ordem, do progresso e dos melhoramentos sem fim, convoca todos os brasileiros à união em torno da democracia.”86 O intelectual Tristão de Ataíde foi várias vezes citado nos jornais locais como figura proeminente do meio católico, capaz de através de seus conhecimentos e análises, contribuir para que o combate ao comunismo fosse melhor fundamentado teoricamente. No artigo “Eu preferi a liberdade”, os católicos foram estimulados pelo próprio Tristão a ler o livro com este título, escrito por um ex-comunista chamado Kravchenco, denunciando os crimes da Rússia. Este personagem polêmico teria recebido asilo político dos Estados Unidos após expor suas denúncias sobre o regime comunista. Tristão encerra assim sua explanação: “Leia Eu preferi a liberdade e depois, garanto: Deixarás de ser comunista!”. O veredicto da Igreja sobre os partidos e seus respectivos programas resume-se no conteúdo do discurso destacado: “Nunca será demais repetir que a Igreja não tem partido, não tem candidato, não tem programa político. A Igreja aprova todo partido e qualquer programa desde que não contrariem sua doutrina e sua moral. Daí que o católico poderá escolher livremente entre a União Democrática Nacional e o Partido Social Democrático; vale dizer que poderá dar seu voto ao ex-ministro da Guerra Gaspar Dutra, ou então, ao brigadeiro Eduardo Gomes, como quiser. E se surgissem neste Brasil mais mil partidos com programas igualmente bons, nada proibiria ao católico afiliar-se a eles, à vontade. Por outro lado, porém, segue-se também, que o católico não pode, em consciência, aliar-se ao partido Comunista ou votar em Luís Carlos Prestes. Pois o comunismo não é somente ateu e materialista, mas também desrespeita a liberdade, a dignidade humana, a propriedade particular. E se, mais dias, menos dias, se apresentassem mais partidos do mesmo quilate – partidos por exemplo, cujos programas se batesse pelo divórcio, a coeducação, a esterilização dos alienados, os casinos e o jogo, os trustes e o capitalismo exagerado, ou combatessem o ensino religioso nas escolas, o descanso dominical, a boa harmonia entre a Igreja etc e tais – claro é que igualmente seria proibido ao católico dar seu sufrágio a tal partido ou votar no candidato.”87 Em seu pronunciamento definitivo sobre os pleito de 1945, a Igreja procurou reforçar o caráter suprapartidário da Liga Eleitoral Católica, e ao mesmo tempo, deixou o eleitorado católico livre diante das opções de candidatura à presidência da República. Em relação às 86 Jornal Interno A Semana - 29 de julho a 5 de agosto de 1945. 87 Jornal Interno A Semana - 12 a 19 de agosto de 1945. 221 eleições legislativas, comprometeu-se em apontar os candidatos enquadrados aos princípios estabelecidos pela Liga: “Quanto às eleições presidenciais, cumpre repetir que a Igreja aprovou pela voz do colendo Episcopado Brasileiro, a candidatura tanto do general Eurico Gaspar Dutra como o brigadeiro Eduardo Gomes, por serem ambos homens honrados e católicos. Mas escolher a Igreja não escolhe, pois é o povo que deve escolher seu presidente. Quanto às chapas para senadores e deputados federais, organizadas pelos diversos partidos políticos, a Liga Eleitoral Católica publicará dentre em breve, os nomes dos candidatos que podem receber o sufrágio dos católicos.”88 Na verdade, a história da Liga Eleitoral Católica era fruto da liderança de Dom Sebastião Leme, que através dela obteve êxito nas eleições de 1933 e exerceu grande influência na redação da Constituição de 1934. Na constituição de 1934, dentre outras vitórias, os católicos conseguiram introduzir o ofício de capelães militares, numa aliança entre o exército de Cristo e o exército da Pátria. A proposta era que lutassem juntos contra os inimigos representados pelo revolucionarismo e pelo ateísmo. Essa aproximação facilitou a introdução do ritual da benção das novas espadas que eram entregues aos jovens oficiais. Segundo Azzi, essa junção simbólica reintroduzia a idéia de aproximação entre a cruz e a espada, representando naquele momento os dois braços de sustentação do Estado (Azzi, 1992:107-109). Oscar Lustosa (1991:52-53) explica que as conquistas católicas estabelecidas na Constituição de 1934 foram garantidas também na Constituição do Estado Novo de 1937, fato que garantiu para a Igreja tranqüilidade para prosseguir com seu projeto político-social e trânsito nas esferas de poder. O mesmo autor acrescenta que o grupo liderado por Dom Leme foi eficiente ao definir estratégias para garantir a reconstrução da “ordem social cristã” a partir de 1934, que só teria sucesso fundada em sólidos alicerces morais: “A fim de não ser apanhado de surpresa, o cardeal do Rio de Janeiro formou logo uma Comissão Central para discutir os aspectos jurídico-legais das questões, constando ela de personalidades de proa, juristas, escritores e políticos. Foi dividida em subcomissões, sob comando habilidoso e competente do jesuíta Padre Leonel Franca. O propósito da Comissão Central se fixava em pensar e amadurecer as diversas matérias (Código Civil e Penal, Lei Eleitoral, Ensino Religioso, Defesa dos Direitos da Família) para se chegar a projetos sadia e cristãmente elaborados que a 88 Jornal Interno A Semana – 18.11.1945. 222 Assembléia Constituinte pudesse encampar e oficializar sem dificuldades e com rapidez.” (Lustosa, 1991:52-53) A função da Liga Eleitoral Católica e sua influência na garantia dos direitos sociais na constituição de 1934 e sua manutenção nas outras que a sucederam foi comentada por Frei Carlos Josaphatt: “... Os postulados da Constituição de 1934, de modo que o Brasil entrou com o salário mínimo, entrou com a afirmação do salário família mas não foi aplicado, com todas as leis de assistência social, tudo isso foi tirado da inspiração das encíclicas, sobretudo a Quadragésimo Anno que entraram no direito brasileiro, na constituição de 1934, porque o Tristão propôs na Liga Eleitoral Católica um decálogo social que era a doutrina da Igreja. Esse decálogo social foi proposto a todos os candidatos, se aceitavam ou não aceitavam. A maioria aceitou e os católicos votaram nessa maioria que aceitou.”89 (Frei Carlos Josaphat) Durante o processo eleitoral de 1945, a mobilização partidária e os comícios tomaram conta da nação. O clima de euforia e de entusiasmo em relação à possibilidade de a nação experimentar um regime democrático após oito anos de ditadura civil, envolveram a população, atingindo também as cidades do interior. Os partidos procuravam, naquele momento de transição, expor seus programas em discursos, panfletos, jornais e na realização de comícios, onde buscavam convencer o eleitorado sobre suas alternativas para o desenvolvimento do país. Através dos cabos eleitorais, investiam num intenso trabalho corpo à corpo, com o intuito de ampliar o número de filiações e de simpatizantes. As cidades estavam tomadas pelo clima político vivido por toda a nação e pela nova configuração político-partidária que, diferente da Primeira República, constituía no país, partidos de abrangência nacional. Os partidos de inspiração getulista, o PSD e o PTB, debatiam em tom emocional com a oposição representada basicamente pela UDN. O grande avanço político daquele período foi a legalização do PCB, participando do pleito em iguais condições com os outros partidos. Entretanto, como já foi mencionado, ainda gerava uma certa tensão no meio político que viria a desencadear em seu fechamento no ano de 1947. 89 Entrevista feita pela autora com Frei Carlos Josaphat – 02-11-2001. 223 Em Divinópolis ocorreram comícios e fatos pitorescos envolvendo a realização desses eventos públicos. No artigo “Uma palavra sobre comícios políticos”90 o clero local lamentou um tumulto ocorrido no comício de Eduardo Gomes em Divinópolis, marcado por agressões físicas e xingamentos e no mesmo texto, expôs algumas dificuldades enfrentadas pelos representantes da Igreja, como o convite feito ao vigário para participar do comício do Partido Trabalhista Brasileiro. A situação era complicada para o clero devido à posição que a Igreja deveria preservar de imparcialidade. Também o vigário se viu em apuros, quando consultado por eleitores católicos, se poderiam participar do comício desse mesmo partido. O padre teria ficado confuso sobre a melhor orientação que deveria dar pois, o jornal “O Diário”, opunha-se ao fato desse partido ser foco do “Queremismo”, considerado naquele momento, um movimento golpista por vários segmentos políticos. Como a Liga Eleitoral Católica ainda não havia se pronunciado a respeito da questão, o padre não se sentia em condições de proibir aos paroquianos sua presença no evento. As mesmas considerações teriam sido feitas sobre o pedido do presidente local do Partido Trabalhista Brasileiro em relação à participação da Banda de Música Santo Antônio no referido comício. Foi autorizada pelo vigário sua participação no evento a partir da seguinte justificativa: “A nossa banda de música aceita o pedido de qualquer partido político não reprovado pela L.E.C., como é o caso do comunismo, pondo-se assim fora e acima dos partidos”.91 A polêmica em torno do Queremismo se deu por este ter sido um movimento que guardou peculiaridades, pois surgira num momento crítico da história política do país. Havia em 1945 uma disposição nacional para a renovação democrática, devido ao desgaste natural sofrido pela ditadura varguista. O clima internacional de queda do totalitarismo nazi-fascista e o apelo pela democracia dentro e fora do país acenavam para a redemocratização. Ao mesmo tempo, grupos leais ao projeto nacionalista de Getúlio Vargas e elementos da esquerda simpáticos à idéia da elaboração de uma nova constituição, comprometida com esse projeto, apoiaram o movimento, inclusive o próprio Luiz Carlos Prestes aderira ao movimento. Ao analisar o período, José Murilo de Carvalho mostra que Vargas, ao perceber sua vulnerabilidade investiu mais na figura de “pai dos pobres”, dirigindo-se aos operários mais 90 Jornal Interno A Semana - 21 de outubro de 1945. 91 Jornal Interno A Semana - 21 de outubro de 1945. 224 proximamente através de grandes comícios organizados com o apoio da máquina sindical e acrescenta que essa propaganda teve repercussão: “Enquanto as forças liberais se organizavam para depor o ditador, as forças populares se congregavam em movimento oposto que lutava por sua permanência no poder. Criou-se o “queremismo”, nome tirado da expressão “queremos Vargas”. O apoio atingiu o ponto alto quando Luiz Carlos Prestes, libertado da prisão onde se encontrava por causa da revolta de 1935, aderiu publicamente ao queremismo.”92 Motivo de polêmica também foi a convocação da Assembléia Nacional Constituinte após a vitória do candidato oficial Eurico Gaspar Dutra. Em Divinópolis, foram espalhados pela cidade, no final de 1945, cartazes com os dizeres: “O povo quer Assembléia Constituinte!”, fato contestado pelo jornal católico local. Este teria questionado a intenção daquele ato e daquele discurso, afirmando serem apelos de grupos de esquerda liderados pelo comunismo, portanto, sem autoridade para falar em nome do povo brasileiro.93 Diante de uma nova ordem política que se configurava após 1945, a Igreja procurou manter um sindicalismo cristão e um programa voltado para a proteção da família, contra o divórcio. A ação da LEC sofreu um esvaziamento, transformando-se em Aliança Eleitoral pela Família. Houve uma adequação da Igreja ao momento histórico, ocorrendo gradativamente uma politização do clero e dos leigos militantes, responsáveis pelo projeto social católico; a relação da Igreja com o Estado passou a refletir o novo contexto (Lustosa, 1991:62). Durante os quinze anos do regime getulista, a Ação Católica funcionou como uma retaguarda política para a Igreja através da atuação de seu pessoal. Era representada pelo clero e por leigos especializados que no trabalho de mobilização, procuravam demonstrar o peso da ação dos católicos diante das questões políticas e sociais do país (Lustosa, 1991:61). 92 Carvalho, José Murilo. Cidadania no Brasil o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. 93 Jornal Interno A Semana - 16 a 23 de setembro de 1945. 225 4.9 A imprensa e o movimento de ação católica Em função de seu significado estratégico, a Ação Católica recebeu atenção especial através de publicações que procuravam popularizar seu conteúdo, tornando-o assimilável e aplicável para o público católico. O objetivo era engajar os católicos no movimento, sensibilizando-os para que se transformassem em membros militantes em suas fileiras. A Ação Católica foi oficializada no Brasil por iniciativa de Dom Leme em 1935. Evoluiu enquanto movimento, de acordo com as definições da hierarquia, pelas influências que sofria de modelos externos e conforme se alterava a conjuntura do país. Em 1945, possuía quatro ramos fundamentais: a Liga Masculina, a Liga Feminina e as juventudes masculina e feminina. Na Semana Nacional de 1946, novos estatutos e regulamentos foram aprovados, tornando-a instituição responsável por oito departamentos: Ação Social; Ensino Religioso; Defesa da Fé e da Moral; Cinema e Teatro Orientação Política (LEC); Vocações Sacerdotais; Imprensa – Rádio e Informações e Educação e Cultura. Na II Semana Nacional realizada em Belo Horizonte discutiu-se sobre a necessidade de entendimento entre a JOC e os Círculos Operários. Em 1950, o movimento jovem em seu meio tinha grande vitalidade e era marcante sua preocupação com os problemas sociais. Em 1952, a Ação Católica esteve ligada diretamente à criação da CNBB, sendo Dom Hélder Câmara o assistente eclesiástico nacional da entidade e também secretário geral da CNBB (Bandeira, 2000:279-306). Em Divinópolis, um relatório de 1938, ao tratar do funcionamento paroquial destacou: “Há boa vontade para ouvir e seguir os mandamentos e conselhos da autoridade eclesiástica, o que se mostrou na fundação da Ação Católica”.94 Num comentário de Frei Carlos Schep, ao assumir como vigário em 1941, pode-se perceber a evolução do movimento na cidade: “Embora não esteja ereta oficialmente, estão funcionando muito bem, principalmente os círculos das Moças da JIC e JOC, das senhoras da Liga Feminina de Ação Católica e JEC dos moços”.95 A movimentação para consolidar a Ação Católica no município teve como estratégia a organização de círculos de estudos, tendo destaque a realização da Semana de Estudos da Ação Católica. Foi organizada a partir de orientações dadas pelo arcebispo Dom Antônio dos 94 Revista de Santa Cruz, Ano IV, outubro de 1939, p. 171. 95 Revista de Santa Cruz, Ano VII, janeiro de 1942, p. 11. 226 Santos Cabral em Carta Pastoral lançada na comemoração do jubileu Episcopal. Essas orientações foram abordadas pelo jornal “A Semana”: “Conforme as ordens recebidas na Carta Pastoral do Sr. Arcebispo, se realizará nesta Paróquia uma semana de estudos da Ação Católica de 27 de junho até 4 de julho no Cine Teatro Santo Antônio. O programa consistirá, além de números de arte (música, canto declamação etc), de duas conferências cada dia.”96 A Ação Católica tinha como função principal promover o apostolado leigo, auxiliada pelo trabalho das associações e pelo investimento na boa formação de seus membros a partir de um estudo mais criterioso do evangelho. Os fundamentos de sua organização e a relação desse movimento com as ações apostólicas, que já vinham sendo desenvolvidas pelas associações católicas, foi explicado em um artigo que sintetiza o propósito militante da Ação Católica: “... A Ação Católica cujo fim é o reino universal de Cristo, implica necessariamente a idéia de apostolado, a tal ponto que as obras que não se propõem mais que a santificação privada e individual de seus membros como certas irmandades ou congregações não podem participar diretamente dela.”97 Reforçando a idéias da relação da Ação Católica com as antigas associações leigas, foi enfatizada a importância de uma junção de forças e de investimento na formação dos católicos para o apostolado: “A Ação Católica chama as associações auxiliares no seu programa sem exprimir por isso um grau de inferioridade, ao contrário é um auxílio necessário para o bom êxito do seu trabalho. O sócio da Ação Católica no seu apostolado não pode infundir a certeza de fé e a prática das virtudes nos corações alheios, se não for resultado da sua própria convicção, se não tiver base na firmeza de sua própria vida espiritual bem formada; ninguém pode fazer um apostolado frutífero a não ser de um coração verdadeiramente apostólico.”98 96 Jornal Interno A Semana - 20 a 27 de junho de 1943. 97 Catecismo Fontenelle – Jornal Interno A Semana 6 a 13 de junho de 1943. 98 Jornal Interno A Semana - 6 a 13 de junho de 1943. 227 A relação do novo apostolado leigo com as antigas associações foi marcada por discussões polêmicas no seio da Igreja, num momento em que essa instituição apostava nesse movimento como a expressão de sua ação renovada no campo da restauração cristã da sociedade brasileira. O caso de Divinópolis não foi diferente. Havia uma boa base institucional para se implementar a nova proposta no município, que além de contar com o trabalho dos franciscanos, era uma cidade com boa posição estratégica para uma expansão regional das atividades. Divinópolis possuía consolidadas algumas associações que já vinham desenvolvendo suas atividades no campo caritativo e pastoral. A instalação de entidades inspiradas na Ação Católica possibilitaria um aprimoramento dessas ações sociais e, ao mesmo tempo, cumpriria a função de investir na formação evangélica. Nessa perspectiva, os paroquianos, principalmente as mulheres, foram envolvidos em estudos sistemáticos da Bíblia acompanhados pelo assistente eclesiástico. Teve grande repercussão a realização da Semana de Estudos, e seus resultados foram comentados pelo jornal católico, numa demonstração de que Divinópolis apresentava capacidade para assumir esse novo empreendimento religioso que exigiria mais compromisso, assiduidade e obediência de seus membros: “Despertou vivo interesse na cidade o ciclo que a Ação Católica organizou, conforme ordens de S. Excia. Revma o Arcebispo. Começando com um número regular, aumentou a freqüência até encher a Casa de Santo Antônio. E não só o número. Já percebemos indícios animadores de que a Semana de Estudos, com a bênção de Deus, terá o resultado desejado e permanente. O que mais chamou nossa atenção foi o interesse e o número sempre crescente de homens e de pessoas da alta sociedade.”99 Outros eventos relacionados à Ação Católica foram divulgados através do jornal, como foi o caso do IV Congresso Nacional Eucarístico. Segundo informações da época, participaram desse encontro quatro mil pessoas e o tema central foi a Ação Católica. A idéia central desses eventos era de que os católicos deveriam incorporar a Ação Católica como uma missão e aos divinopolitanos cabia enfrentar esse desafio: 99 Jornal Interno A Semana - 4 a 11 de julho de 1943. 228 “Agora, qual é o resultado para nós, para Divinópolis, qual é a nossa conclusão? Adiante!! Adiante para o ideal com coragem, pois estamos na defesa de uma causa justa; adiante sem reparar nas dificuldades, sem olhar para os que são contra nós. Não há lugar para crítica mesquinha: Instaurar tudo em Cristo, disse Leão XIII, recristianiar o mundo disse Pio XI e a Ação Católica é o meio indicado por Ele. É ordem, portanto devemos obedecer! Não importa se é conforme a nossa opinião, não interessa se as nossas idéias estão de acordo ou não: o Papa manda e nós devemos esforçar-nos para conhecer e realizar a vontade do representante de Cristo.”100 O apelo soava como um grito de guerra, impulsionando os soldados para o combate. Era hora de colocar esse Exército de Cristo na luta pela recristianização: “Por isso: adiante de boa vontade! Adiante o nosso estudo até compreender, Adiante o nosso movimento até romper, Adiante a nossa luta até vencer!”101 As conclusões sobre o Congresso reforçavam a idéia de que havia ânimo e capacidade coletiva para se implementar a Ação Católica com sucesso no município: “Estamos em condições favoráveis! Tanto o que já está feito como as promessas para o futuro. Divinópolis possui tudo para desenvolver a Ação Católica nos seus quatro ramos e subdivisões. O que mais chamou atenção na situação da Ação Católica da nossa paróquia e causou admiração foi a cooperação da Ação Católica com o clero e com as associações religiosas. Graças a Deus e à boa vontade de todos. Também neste ponto vamos adiante em união firme e forte. Divinópolis à Cristo!”102 A Ação Católica deveria estar presente nas várias manifestações da vida social, seus membros deveriam se envolver com entidades e organizações de caráter temporal, como em sindicatos e organizações de classe. Divinópolis, por ser uma cidade operária, merecia uma boa fundamentação dos ramos da Ação Católica para agir nesse meio. Daí, surgiu a necessidade de criar e fortalecer a atuação do Círculo Operário na cidade, que apesar de não ser parte direta da Ação Católica, desempenharia papel importante junto aos ferroviários e 100 Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943. 101 Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943. 102 Jornal Interno A Semana - 22 a 29 de agosto de 1943. 229 outros trabalhadores. Esse tema foi abordado pelo jornal local destacando os seguintes aspectos: “Estas associações, referindo-se a fins da sociedade civil e profissional, não entram evidentemente no quadro exato da Ação Católica. Mas em sua atividade também estão sujeitas à lei moral, da qual a Ação Católica é por princípio inspiradora e guardiã. [...] Muitos já nos falaram do Círculo Operário como se fosse parte da Ação Católica. De fato o nome engana, visto que a Ação Católica se reúne em círculos. O Círculo Operário porém, não faz parte da Ação Católica. [...] Mas os sócios da Ação Católica, nos quais se supunha uma formação melhor, devem como particulares apoiar e participar no Círculo Operário por ser um associação de ordem temporal, mas orientada pela Igreja, pelo assistente eclesiástico.”103 A imprensa foi instrumento importante na consolidação do movimento de Ação Católica e encarregava-se de publicizar toda a movimentação da paróquia. Por meio dela, a população informava-se sobre as festas e encontros religiosos, recebia pregação doutrinária, tinha acesso às últimas notícias locais, informava-se sobre as obras sociais e sobre as diversões disponíveis na cidade, tais como, teatro, cinema e outros. Pela imprensa, as associações religiosas expunham seus estatutos, programações e apresentavam seu ideário, buscando adesões e legitimação perante a coletividade. As escolas católicas se promoviam, os acontecimentos políticos da nação eram tratados sob a ótica católica, passando obviamente pelo crivo do episcopado. O espaço para os pequenos anúncios e para a publicidade do comércio e serviços locais reforçava, nos jornais católicos, sua função de prestadores de serviços. 4.10 As notícias do mundo e do Brasil A imprensa dava conta também dos acontecimentos internacionais, avolumados na década de 30 e 40, devido a instalação e consolidação de regimes fascistas na Europa, exercendo influência ideológica em forma de organização política e social em todo o mundo. O modelo de sociedade resultante dessas estruturas de poder consolidaram Estados totalitários e subestimaram o valor da democracia, sempre preconizando o uso da disciplina em todos os 103 Jornal Interno A Semana - 7 a 14 de novembro de 1943. 230 segmentos da vida social. Dessa forma provocaram reações diversas em todo o mundo, tanto de apoio como de repúdio, e pelo seu caráter polêmico, suscitaram debates e ocuparam amplo espaço nos meios de comunicação. A Igreja foi particularmente afetada pelos acontecimentos, justamente por sua posição institucional e por estar sediada no coração do fascismo europeu. Num primeiro momento, manteve uma relação amistosa com o governo de Mussolini, resultando daí o Tratado de Latrão e alguns pronunciamentos de elogio ao artífice do totalitarismo na Itália. Num artigo de jornal de 1931, que tratava do decreto do Governo Provisório de Getúlio Vargas, facultando o ensino religioso nas escolas, Mussolini foi mencionado como um defensor da formação religiosa na educação: “Mussolini, figura impressionante da nossa época contemporânea, em notável discurso pronunciado em 1925 no Senado italiano, disse: “É necessário que o catolicismo com suas verdades transcendentais, com sua base divina, forme o concreto educativo da nossa sociedade querida.””104 A mudança de posição da Igreja se deu em função de atitudes arbitrárias do Estado Mussolinista, que se pôs contra a atuação de jovens da Ação Católica na Itália, a ponto de o Papa Pio XII emitir uma Encíclica em 29 de junho de 1931, repudiando as atitudes do governo. Toda a movimentação e o teor da Encíclica foi divulgado aos católicos pela imprensa como consta do jornal São Francisco: “Depois de agradecer os testemunhos e simpatias recebidos do mundo inteiro, pelo que denomina “a defesa da liberdade de consciência”, o papa estima caluniosas acusações e os violentos processos de que foram vítimas em Roma e em toda a Itália, as organizações da Ação Católica, da Juventude Católica e estudantes filiados à Ação Católica.”105 O Vaticano contestou as acusações feitas pelo governo fascista sobre uma possível conduta política perniciosa assumida pela Ação Católica, expostas ao povo italiano em tom de ameaça pelo ditador: “... estas além de revestir-se das aparências de um partido com seus estandartes, insígnias de cultores do direito, apontava no seu seio alguns antigos membros do Partido Popular”.106 104 Jornal São Francisco, Ano VIII, nº 106 – 01-07-1931. 105 Jornal São Francisco, nº 109, 15-08-1931. 106 Jornal São Francisco, nº 109, 15-08-1931. 231 A Encíclica tratou da concepção fascista de Estado e sobre a educação, como consta de alguns comentários feitos na imprensa sobre seu conteúdo: “A Encíclica assinala que, como se sabe, todos os membros do partido fascista, as crianças são obrigados a prestar juramento de completa fidelidade a um regime que acentua, “comporta tão graves abusos” e, em seguida declara que o Papa considera esse juramento ilícito, em certas circunstâncias, quanto à tranqüilidade das consciências, não o admitindo senão depois de retificado, se necessário, publicamente por meio de uma cláusula que salvaguarde os direitos de Deus e da Igreja.” A guerra foi resultado direto do totalitarismo nazi-fascista e da expansão imperialista do capitalismo. Deflagrada em 1939, estendeu-se até 1945, ocupando o cenário das discussões internacionais, afetando diretamente a Igreja e a rotina das cidades devido à mobilização de homens para o alistamento militar e por provocar uma certa comoção pública em função de sua amplitude e perversidade. O poema de despedida de uma mãe ao filho expedicionário, que circulara em jornal da época, mostra como a vida das pessoas havia se modificado em função dos acontecimentos. Parecia servir de alento num tom poético de desabafo: “Salve, Salve! Esquadra expedicionária! Que cingindo os mares, deixa o pátrio torrão Leva a seu bordo os que há de nobre e seleto A fina flor, da brasileira Nação... Ouvi senhor as mais ardentes preces!... Que aos céus elevam, maternais corações Almas generosas, que a pátria oferecem, O objeto mais caro de suas afeições!..”107 No artigo “O Papa em perigo”, a notícia da guerra afligia os católicos, ao expor a vulnerabilidade do Papa frente ao ataque dos alemães em Roma. Mas no seu conteúdo, procurava demonstrar a capacidade da Igreja, através dos tempos, de sobreviver às adversidades: 107 São João Del Rei, julho de 1944. Jornal Interno A Semana – 23 a 30 de julho de 1944. 232 “Com verdadeira angústia no coração, nós acompanhamos as notícias: os alemães cercaram Roma, ocuparam militarmente o território neutro do Vaticano, a praça de São Pedro, fecharam as portas do palácio Papal, proibindo a entrada, prenderam alguns cardeais, dignitários da Igreja, ameaçaram o próprio Santo Padre Pio XII.[...]Eles podem saquear Vaticano, prender os príncipes da Igreja, podem destruir a nossa Igreja-Mãe, a de São Pedro, podem humilhar até matar o Papa, que será para eles a condenação, a Igreja porém jamais destruirão, esta vencerá, florescerá mais ainda e sairá vitoriosa até a consumação dos séculos.”108 Divinópolis esteve presente na guerra, enviando elementos para o corpo expedicionário e partindo da paróquia, Frei Orlando, como capelão militar para as Forças Expedicionárias. Teria ele fortes laços com a cidade por ter iniciado seus estudos e se ordenado em Divinópolis. Assumiu posição na guerra junto às tropas brasileiras e sensibilizou os divinopolitanos por ter morrido exercendo essa função. O teor de uma de suas cartas enviada à Frei Respício van Valkenhoef foi divulgada no jornal, fazendo considerações sobre o ambiente da guerra que encontrara na Itália: “Quanto ao primeiro contato com o país de guerra onde estamos, pouco poderei dizer de um modo claro e determinado, dadas, as instruções do sigilo militar. Porém o que tenho ouvido e visto serviu-me de uma lição tremenda sobre a decantada civilização moderna.”109 A notícia de sua morte provocou grande comoção na cidade e a lembrança de sua atuação foi por muito tempo abordada em cerimônias e nas publicações: “Acabamos de receber o telegrama comunicando que morreu no campo de batalha, na Itália, o capelão militar Pe. Frei Orlando Alvares da Silva. Foi a notícia irradiada na noite de Segunda feira p.p. e que repercutiu dolorosamente na paróquia de Divinópolis, onde frei Orlando sempre teve muitos amigos e admiradores...”110 Os acontecimentos marcantes da nação também ocupavam espaço na imprensa, principalmente aqueles envolvendo diretamente os interesses da Igreja Católica no Brasil. Foi o caso da construção da Estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, que mobilizou os católicos nos anos 20, sendo comum nos jornais, solicitações de contribuição feitas pelo 108 Jornal Interno A Semana - 26 de setembro de 1943. 109 Jornal Interno A Semana - 12 a 19 de novembro de 1944. 110 Jornal Interno A Semana - 4 a 11 de março de 1945. 233 arcebispado de Belo Horizonte. A obra gigantesca foi projetada pelo escultor Paul Landovsky e pelo arquiteto Silva Costa.111 Um monumento de 700 toneladas, tamanho e peso proporcionais ao seu significado simbólico, como uma marca permanente da vocação católica do povo brasileiro. No jornal “O clarão”, órgão oficial da União dos Moços Católicos de Divinópolis, dirigido pelo Pe. José A . D. Bicalho e F. Farnese de Gouvea, foi divulgada a criação de uma comissão para coleta de esmolas voltadas para a construção do monumento.112 A inauguração da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro em 1931 no governo de Getúlio Vargas, foi um acontecimento nacional de peso, numa demonstração concreta da aliança entre Estado e Igreja no Brasil. Foi um momento de profundo significado religiosopolítico para as partes envolvidas no compromisso de resguardar a disciplina e a ordem, bem como na disposição de investir na recristianização da sociedade. Sob o título de “Viva Cristo Rei!”, o jornal São Francisco noticiou a importância do fato: “Cristo do alto do Corcovado vai presidir os destinos do Brasil. Vai operar verdadeira revolução católica, mas sem o emprego de armas ou dinamite, com a entronização do Rei nas famílias, nas escolas, na política, na vida econômica”. As palavras do cardeal Dom Leme expressaram bem a dimensão do acontecimento: “Quando o gênio de Marconi iluminar o monumento do Corcovado ao dia 12 de outubro, um clarão há de iluminar também o coração do povo brasileiro, focalizando-o aos olhos do mundo. A cidade extasiada verá o seu Cristo de braços aberto a envolvê-la num gesto perene de fraternal abraço, a querida pátria brasiliense.” A força da hierarquia nacional foi sempre reforçada pela imprensa, destacando a importância da obediência à hierarquia. Os bispos, alinhados com as determinações transmitidas por Roma, principalmente no momento em que a Igreja procurava consolidar sua influência sobre a sociedade brasileira, esforçavam-se por alimentar a tradição católica do povo brasileiro, investimentos da hierarquia que se intensificaram a partir dos anos 20. A autoridade dos bispos foi aplicada em diversas situações, atingindo em cheio as manifestações religiosas populares, vistas como contrárias ao modelo de catolicismo oficial. 111 Jornal São Francisco, Ano IX, nº 113, 15.10.1931. 112 Jornal O Clarão – 01-12-1923. 234 Uma delas partiu de Dom Cabral, relativa a proibição do Reinado. Tratada no jornal “O Clarão” através do título “Adeus Reinado!”, elogia e apoia o prelado por sua atitude: “Havia por estas bem ditas terras de Minas uma festa tradicional chamada Reinado. Que era ela? Religiosa ou civil? Cristã ou pagã? Não se sabe bem, ou pelo menos, não se pode dizer em poucas palavras. O certo é que nada tinha de divino; e por isso, teve de passar, como todas as outras coisas que estão no mesmo caso. Passou o Reinado! Pelo menos está passado para a diocese de Belo Horizonte, conforme aviso do Vigário Geral, em nome do Exmo. Prelado Diocesano. Não há, de certo, vigário algum que deixe de realizar o desejo de seu querido Bispo. Parabéns sinceros ao distintíssimo Sr. Dom Cabral e a todo seu clero pela grande obra de saneamento cívico-religioso-patriótico que vem praticar com a extinção do Reinado.”113 O movimento de recristianização promovido pela Igreja representava uma tendência de implantar, no Brasil, um modelo de catolicismo importado da Europa. Portanto, as manifestações espontâneas do catolicismo popular deveriam ser suplantadas por rituais e símbolos estabelecidos pela Igreja oficial. A hierarquia, comprometida com o catolicismo oficial, estava associada ao Estado e à ortodoxia romana, tentando se fazer universalista através de uma hegemonia simbólica que procurava ser incontestável, mais normatizada, ilustrada e racional. Esse catolicismo oficial se instrumentalizou, ajudando a sacralizar o poder civil e obtendo dessa forma respaldo do Estado para restringir legalmente a atuação social de outras religiões minoritárias. Esse modelo oficial enfrentou um catolicismo impregnado por velhas práticas supersticiosas, mas transbordante de espontaneidade. Tal prática rudimentar estava ligada a um sentimento religioso humano e singelo, responsável por um culto intimista mas, ao mesmo tempo, comunitário e democrático (Brandão, 1988:51-55). O enquadramento do catolicismo popular foi analisado por Riolando Azzi como resultado do processo de restauração católica, criando restrições às manifestações da religiosidade popular e de suas organizações. O catolicismo do povo restringia-se a manifestações puramente exteriores, muitas vezes supersticiosas e com manifestações de sincretismo. Para sanar essa deficiência, porém, ressaltando a tradição católica do povo brasileiro, a administração do patrimônio da fé nos aspectos doutrinal, ritual e devocional passaram ao controle exclusivo do clero (Azzi, 1994:93-94). 113 Jornal O Clarão – 01.03.1923. 235 A imprensa cumpriu um papel importante no fortalecimento da mentalidade enfatizada pela Restauração Católica. O clero europeizado, segundo Azzi, contribuiu para o fortalecimento do aspecto doutrinal da fé católica. As publicações comprometidas com esse modelo, em grande parte foram assumidas por religiosos: a revista Vozes de Petrópolis dos franciscanos; O Mensageiro do Coração de Jesus, publicada pelos jesuítas; a revista Ave Maria foi uma iniciativa dos claretianos; a revista Lar Católico foi assumida pelos padres do Verbo Divino; Os Mensageiros do Rosário editada pelos dominicanos; O Lutador dos padres sacramentinos. Os redentoristas publicaram o Almanaque de Nossa Senhora Aparecida e os salesianos, as Leituras Católicas (Azzi,1994:27). Tudo indica que estas publicações de circulação nacional serviram de suporte para a ideologia católica do período, fazendo parte de uma grande rede de comunicação católica, inspirando reflexões teóricas e doutrinárias, orientando práticas, reforçando símbolos e devoções capazes de garantir uma unidade administrada pela hierarquia eclesiástica. Na tentativa de perceber a evolução do uso dos meios de comunicação pela Igreja, principalmente da imprensa como veículo de transmissão de sua ideologia, autores como Ismar Soares concluíram que prevaleceu, dos anos 40 aos 60, um discurso mais conservador. Somente no final da década de 50 e início de 60, começaram a ser lançados os fundamentos de uma nova teoria cristã da comunicação. O autor mostra que em decorrência do Vaticano II surgiram duas tendências quanto ao entendimento sobre o sistema de comunicação. Uma primeira mais tradicional defendendo a idéia de reforço de uma presença mais institucional e uma segunda mais articulada em nível de base, acreditando num uso popular dos recursos de comunicação social (Soares,1988:241 e 300). CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo da ação sócio-política e cultural da Igreja entre os anos 30 e 50, a partir de uma experiência localizada no interior de Minas Gerais, possibilitou um melhor entendimento da reestruturação da Igreja Oficial de Roma, bem como da aplicação das proposições da Santa Sé em nível nacional. Em seu campo de atuação, foram consideradas as posições político-institucionais envolvidas no projeto de restauração católica; as influências teóricas importadas e sua remodelação dentro da realidade brasileira; a formação de uma elite responsável pela aplicação desse projeto e pela interlocução com as classes populares e as conseqüências dessas opções para a relação entre o catolicismo institucional e as manifestações populares. Nesse processo, teve expressão um modelo de catolicidade europeizado pela introdução de novas devoções, de propostas litúrgicas e de um novo apostolado. Através da pesquisa, foi possível compreender as incorporações dessas transformações da Igreja universal no cotidiano paroquial. Num espaço social particularmente rico, de uma cidade de formação e tradição operária, bem localizada no centro oeste mineiro, com influência regional destacada por sua posição como centro econômico e de influência cultural, Divinópolis tornou-se um ambiente de convergência da vida franciscana, ao sediar a Província Franciscana de Santa Cruz. A Província era ponto de recepção e de irradiação das orientações pastorais eclesiásticas mais expressivas definidas pela hierarquia católica. Apresentava potencial até para uma reflexão e produção próprias de instrumentos de ação social e apostólica, por abrigar um centro de formação superior, com circulação permanente de intelectuais e de clérigos ligados à arquidiocese, à matriz holandesa e ao núcleo de formação eclesiástica de Roma. A atenção dispensada pelo arcebispado de Belo Horizonte ao funcionamento religioso da cidade, bem como à sua organização política e cultural, expressam a singularidade do lugar e seu grau de importância no contexto geral da administração da arquidiocese no estado de Minas Gerais. O processo de romanização implementado no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, que aproximou e adequou o clero nacional às determinações da Santa Sé, e o movimento de restauração, especialmente aplicado a partir dos anos 20, tiveram como um dos núcleos de difusão, Minas Gerais. Na arquidiocese de Mariana, destacou-se como figura importante Dom Viçoso, e posteriormente, através da criação da Arquidiocese de Belo 237 Horizonte, quando desponta a liderança de Dom Cabral, assumindo um compromisso orgânico com a implantação e consolidação da Ação Católica. O estudo, ao considerar uma dimensão mais ampla de ação da Igreja e a experiência vivida localmente, esteve amparado numa análise conjuntural já bem consolidada por historiadores, sociólogos e especialistas no campo do estudo da religião e das estruturas políticas. Algumas inferências relativas ao percurso histórico e a aspectos sociológicos, bem como, considerações feitas sobre a importância da memória na recolocação dos registros documentais utilizados, resultam da compreensão de como se manifestaram na cidade as definições institucionais religiosas e políticas mais amplas. Para uma melhor compreensão do fenômeno religioso representado no fortalecimento da imagem de Cristo pela Teologia da Realeza e pela Teologia da Ação Católica, pode ser tomado como referência o significado simbólico da edificação do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, e em dimensões menores, a entronização da imagem de Cristo nos espaços públicos e nas residências. Este ato representava a encarnação simbólica imediata da proposta de restauração católica da sociedade, que vinha sofrendo ameaças de laicização desde a Primeira República. A cerimônia guarda em si o sentido da força política do poder institucional da religião, se impondo como barreira aos propósitos secularizadores que por ventura tentassem evitar o reforço da catolicidade, ganhando o status de nacionalidade pela reaproximação entre Igreja e Estado no Brasil a partir dos anos 30 . Ao mesmo tempo, a entronização da figura do Coração de Jesus no espaço doméstico denota o mesmo sentido. Expressa, entretanto, a presença do sagrado no campo privado, incorporado na individualidade, garantindo a prática de vida cristã, aplicada nos detalhes das relações sociais rotineiras. Uma imagem presente para proteger e não deixar esquecer o compromisso com os preceitos católicos. A imagem tem o sentido da ocupação do espaço do sagrado e, através desses mecanismos e de seu reforço, a moral católica impregnaria não só a vida individual e familiar, mas também a conduta pública do cidadão. O apelo ao simbólico preenchia o espaço do imaginário, no sentido de provocar nos fiéis a necessidade do vínculo com a proteção divina, reforçando, ao mesmo tempo, a presença institucional católica, tornando-a capaz de assegurar a estabilidade da vida social e doméstica. A idéia condutora presente no discurso da entronização da imagem de Jesus nos lares e nos espaços públicos era a da harmonia das relações sociais garantida pela tradição. 238 É através dos imaginários sociais que uma coletividade define sua identidade e elabora uma certa representação de si, estabelecendo a distribuição de papéis e das posições sociais. Exprime e impõe crenças comuns, constrói uma espécie de código de comportamento. O imaginário social legitimado passa a representar uma das forças reguladoras da vida coletiva. As referências simbólicas indicam a condição de pertencimento, representando um mecanismo de controle da vida social, em especial do exercício da autoridade e do poder, tornando-se, ao mesmo tempo, o lugar e o objeto dos conflitos sociais (Baczko, 1985: 309310). No caso de Divinópolis, o ato público de entronização efetivado em 1918 pelas autoridades religiosas e seculares constituídas, provocou a reação das forças contrárias à ideologia católica propagada naquele período. Entretanto, representou um ato determinante que delimitou o espaço de atuação da Igreja, procurando intimidar tendências consideradas laicizantes e opositoras, arregimentando forças para as demarcações posteriores. Este ato simbólico fazia parte de uma conduta da Igreja iniciada no século XIX e reforçada por Pio XI na Encíclica Ubi Arcano de 1922, de restaurar as nações no Reino de Cristo. Embalados por esse movimento, começou a propagar-se em escala mundial a obra de entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Os valores cristãos presentes nesse culto foram propostos às famílias como contrapeso às forças deletérias ameaçadoras do lar católico (Matos, 1990: 23). No caso do Brasil, acreditava-se que a República laica instalada em 1889 havia afastado o país da ordem cristã e a nação estava mergulhada numa crise moral. Era preciso, portanto, restituir o país à Cristo. O conceito de rotinização do carisma de Weber contribui para que se possa entender a estruturação da Igreja em seu processo histórico e a centralização promovida por Roma em meados do século XIX. Superada a passagem da ruptura operada por Jesus Cristo, expressando seu carisma, tendo ocorrido a estruturação institucional com a hierarquização da Igreja e modificadas as raízes genuínas desse carisma, passou a preponderar o poder cotidiano da tradição a partir da oficialização do Cristianismo, ainda no século IV da Era Cristã (Weber, 1999: 331-336). Esse desencadeamento não quer dizer que tenha existido uma só versão de Igreja ou que a tendência hegemônica de uma Igreja Oficial tenha se sobreposto às outras manifestações sem que tenham ocorrido conflitos e o afloramento de contradições e de reformulações decorrentes da relação dialética entre as partes envolvidas nas concepções de mundo e do significado de ser cristão. 239 Ilustram essa realidade, as diferentes concepções sobre os problemas da sociedade moderna, da questão social e do envolvimento político da Igreja levantados pelo Pe. Júlio Maria. Enxergava a ação católica pelo reconhecimento do “conflito iminente, duelo inevitável entre as classes altas e as classes inferiores”, apontando uma “catolização” de baixo para cima, não pela filantropia, pelo bem estar material ou pela força, mas por meio da reação religiosa das classes dirigentes e pela regeneração das classes inferiores.1 No entanto, a opção oficialmente assumida pela Igreja, no caso do Brasil, foi a de Dom Leme, baseada numa idéia acrítica e quase mítica de Nação Católica.2 Teve força uma visão tridentina de Igreja como Sociedade Perfeita, defensora da infalibilidade papal, predominante até o início do século XX. Seu desenvolvimento e o contato estabelecido com o mundo possibilitaram a reinterpretação feita no Concílio Vaticano II. A partir dele foi possível discutir o que é a Igreja, considerando sua falibilidade e uma melhor compreensão do mundo moderno, não apenas marcado por coisas ruins, pois dele cresceu a idéia de democracia, ampliaram-se o progresso técnico e as noções de justiça, importantes elementos a serem trabalhados pela Igreja em sua relação com a realidade de cada nação.3 As interpretações sobre a sociedade capitalista, a questão social dela decorrente, que estimularam tentativas de aproximação com os trabalhadores e tenderam à organização de um socialismo cristão, mostram uma outra visão de Igreja e de orientação sobre o sentido da aplicação do evangelho. “Cherles de Coux, A.. de Villenuve, Gerbert e outros denunciam o vício do capitalismo bem antes de Marx, denunciam a teoria oficial do valor que gera o capitalismo.”4 A própria evolução da Ação Católica, lançada inicialmente como um exército apostólico ligado a uma concepção conservadora e apologética de Igreja, ainda influenciada e presa a estruturas tradicionais anteriores, se transforma num movimento reorganizado, especializado, atualizando-se nas concepções políticas e de justiça social. O resultado no caso Pe. Mário Mattos (org.), O decálogo; 1ª série das conferências da catedral do Rio de Janeiro, em 1907; Pe. Júlio Maria, S. João Nepomuceno (MG), Ed. Pe. M. Mattos, s/d, p. 57. In: Lustosa, 1991, p. 99-100. 1 Ralph Della Cava. Igreja e Estado no Brasildo Século XX. Sete monografias recentes sobre o Catolicismo brasileiro, 1916/64, em “Estudos CEBRAP, 12, abril/junho 1975, p. 5-52 (Resumo de Alberto Antoniazzi p. 1). 2 Tema abordado em artigo de Frei Aloísio Lorscheider e de Frei Estanislau (Revista de Santa Cruz, AnoXXX, nº 5, 1964, p. 107-110). 3 4 Comblin, 2002, p. 29-30. 240 do Brasil foi uma reformulação progressiva da conduta do próprio episcopado e da CNBB, ocorrendo mudanças na sua relação com o Estado e com os problemas sociais. O que não quer dizer que tenha havido uma mudança estrutural no que se refere ao clero brasileiro e em relação à Roma em particular. No caso do Brasil as contradições afloraram e levaram a divisões internas, colocando desafios para os chamados “progressistas”. A demonstração cabal disso foi a própria concepção de Povo de Deus e a opção preferencial pelos pobres formulada pela Teologia da Libertação e as mudanças no trabalho pastoral com a experiência das CEBs. Luiz Alberto Gomes de Souza, ao chamar atenção para um estudo da Igreja em relação às estruturas de classe da sociedade, destaca o esforço da Igreja Católica em manter sua unidade, apesar de abrigar uma diversidade de interpretações e manifestações de Igreja em seu interior. Busca em sua análise a contribuição de Gramsci que atenta para o fato de que: “Toda religião (e especialmente a católica, justamente por seus esforços para permanecer unitária ‘superficialmente’, para não dividir-se em Igrejas nacionais e em estratificações sociais) é em realidade uma multiplicidade de religiões distintas e muitas vezes contraditórias: há um catolicismo de camponeses, um catolicismo de pequenos burgueses e de operários das cidades, um catolicismo das mulheres e um catolicismo de intelectuais, ele próprio velado e incoerente.”5 Os avanços e recuos fizeram parte da história da Igreja. Comblin ao analisar o ritmo da Igreja Universal, acredita que os avanços apresentados pelo Vaticano II foram paralisados por uma opção mais tradicional que teria levado a Igreja a um recuo diante da abertura proporcionada por João XXIII (Comblin, 2002). São essas várias Igrejas, várias interpretações do carisma de Jesus que mostram o quanto é difícil tentar analisar uma só Igreja amparada numa universalidade impossível de ser aplicada. As reflexões de Frei Bernardino sobre essa questão nos ajudam a compreender a riqueza dessa diversidade: “É evidente que toda a maneira de viver de Jesus é judaica. A Igreja foi fundada por um judeu dentro de uma cultura judaica. Depois esta se espalhou pela Europa toda, absorvendo e penetrando em diversas culturas, romana, germânica, em outros Gramsci, Il materialismo storico e la filosofia di Benetto Croce, Quaderni del carcere, XXIII, Turim, Einaudi, 1966, p. 120. In: Souza, Luiz Alberto Gomes de. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984. 5 241 contextos, sendo obrigada a falar outras línguas, a criar novas linguagens. [...] Acho que a fundamental inspiração continua, mas as formas como se expressam, acontecem conforme as condições humanas, sociais, cultuais e locais diferentes.”6 A Igreja que prevaleceu nas primeiras décadas do século XX, foi aquela idealizada por Pio XI. Cabe analisar nessa perspectiva as estratégias e o significado de sua multiplicação e o sentido de universalidade que se tentava dar para essa posição oficial. Tudo isso através do envolvimento dos leigos numa ação educativa a partir de um apostolado universal como mãos, braços, lábios, corações e vontades, restaurando a vida católica em todos os meios sociais na perspectiva de manutenção de uma unidade orgânica, como membros de um só corpo. A estratégia de transformar o leigo em parte fundamental da Ação Católica, apoiando e obedecendo a hierarquia, sustentou-se na eclesiologia do Corpo Místico de Cristo; Jesus como a cabeça da Igreja operando a divinização dos membros (Dale, 1985: 34 – 59). Houve uma revalorização da Igreja como comunidade dos fiéis em Cristo; os leigos ganharam relevância envolvendo-se na ação apostólica e delinearam-se os primeiros passos da Ação Católica, oficializada no Brasil em 1935 (Matos, 1990: 152). Essa conduta representava uma atitude nova da Igreja diante daquilo que se colocava efetivamente como moderno nas primeiras décadas do século vinte. Essa concepção de modernidade via na religião católica a marca da tradição e do alongamento dos resquícios do que passava a ser considerado como velho. A Igreja, portanto, estava diante de um grande desafio: reformular-se para alcançar um nível de fortalecimento capaz de enfrentar a tendência mais racionalista que se apresentava e, ao mesmo tempo, garantir permanências necessárias para que as rupturas não colocassem em risco seu poder e autoridade moral. Paradoxalmente, e o caso do Brasil é bastante ilustrativo, o Estado moderno secularizado, apesar de apoiado em fundamentos liberais e / ou positivistas, encontraram na Igreja e no seu novo formato, a parceria adequada para uma convergência de ações garantidoras da ordem social. Weber mostra que a ligação entre os poderes secular e religioso ocorreu em vários momentos históricos, afirmando: “em regra, o carisma sacerdotal chegou a um acordo, quase sempre tácito, mas às vezes também fixado em “concordatas”, com o poder secular, o qual garantia a ambos sua esfera de poder, deixava a cada um uma certa influência dentro da esfera 6 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Lerns no dia 22.07.02. 242 do poder do outro”7. Sobre essa relação dentro da democracia moderna, Weber acrescenta que a hierocracia foi levada a adaptar-se à burocratização e aos novos mecanismos de poder, recorrendo à organização partidária, à demagogia, à correlação de forças nos parlamentos para sobreviver dentro da nova estrutura social (Weber, 1999 395). A idéia do Corpo Místico manteve-se numa concepção antropomórfica de um organismo funcionando harmoniosamente com as suas partes, tendo sido reforçada na Encílica de Pio XII Mystici Córporis de 1943 e ampliada com as inovações da década de 60. Já nessa linha, mostra que era importante crescer, assumindo sua imperfeição em graça, idade, e santidade perante Deus e os homens.8 Essa eclesiologia se desenvolveu a partir de um pensamento de Paulo, querendo explicar aos cristãos a solidariedade mítica que os unia e os reunia a Cristo. Utilizou o exemplo do organismo vivo e da interdependência que se observa entre seus membros e órgãos.9 Essa concepção suscita uma interpretação sociológica numa perspectiva funcionalista por representar uma visão organicista da relação entre partes integradas e harmônicas. Expressa o modelo de sociedade almejado pela Igreja no seu ímpeto de impedir a proliferação da crise moral, do desajuste individualista e racionalista e do revolucionarismo comunista. É interessante observar que nessa linha de raciocínio, teve destaque no início do século XX a teoria de Durkheim, também voltada para os problemas da sociedade urbano-industrial, buscando entender os aspectos da modernidade referentes aos desajustes responsáveis pela anomia social. No prefácio da segunda edição de sua obra “Da divisão do trabalho social”, o autor mostra o sentido do equilíbrio possível pelas relações corporativas no trabalho. Durkheim salientou a importância de uma referência moral para a sociedade, criticando o falso antagonismo entre a autoridade da regra e a liberdade do indivíduo. A liberdade justa, segundo ele, seria aquela definida pela sociedade. O caminho para uma referência moral, capaz de resgatar uma segmentação necessária na sociedade moderna seria a organização corporativa, não no sentido anacrônico de recolocação do passado medieval mas na possibilidade que criaria de agrupamento profissional com poder moral em condições de 7 Weber, 1999. p. 365. Tema abordado em artigo de Frei Aloísio Lorscheider e de Frei Estanislau (Revista de Santa Cruz, AnoXXX, nº 5, 1964, p. 107-110). 8 9 Rocher, Guy. Sociologia Geral. Tradução Ana Ravara. Lisboa: Presença, 1971 (Vol. 3) 243 conter os egoísmos, tornando possível uma forma de solidariedade necessária na sociedade contemporânea.10 A importância atribuída por Durkheim aos valores e às normas sociais manifesta-se em seu estudo do fenômeno religioso, ressaltando o papel social da religião como manifestação capaz de assegurar a integração dos indivíduos na coletividade. Martelli explica que, para Durkheim, a religião dá forma expressiva a sentimentos que alimentam as normas e os valores fundamentais da sociedade e através dos ritos consolida-os na consciência dos indivíduos (Martelli, 1995: 68). No caso da Igreja, o grande passo para o enfrentamento dos problemas da sociedade contemporânea e consequentemente da “questão social” foi dado por Leão XIII através da Rerum Novarum 1891, posteriormente reforçada pela Quadragésimo Anno 1931. A questão social transformou-se em tema de primeira importância e a Igreja definiu sua doutrina social e uma versão do que significaria para ela a minimização dos extremos do capitalismo com base numa noção mais clara de justiça social. A alternativa apontada para o mundo moderno estava na adoção dos princípios corporativistas na relação entre capital e trabalho e destes para com o Estado. Era a saída pela cristianização do capitalismo através do reformismo social, ancorado na idéia de que o primado da livre concorrência precisava ser mitigada pela solidariedade corporativa capaz de garantir o progresso. Seria a reorganização do capitalismo “sob o imperativo ético do comunitarismo”11. Acreditava-se que o abandono da organização profissional que prevalecera na Idade Média teria sido responsável pela desagregação do trabalho na sociedade moderna. A organização corporativa do trabalho aliada à adoção da proposta do justo salário e do justo preço conduziria a um modelo de sociedade mais equilibrada, sem no entanto tocar do direito de propriedade e na polêmica luta de classes (Isaía, 1998: 127-128). No período em que era lente do curso de teologia e ajudava nos trabalhos da paróquia nos anos 50 e 60, Frei Bernardino Leers esteve em reuniões de operários para falar sobre a “questão social” e faz hoje uma observação interessante: “Me lembro das palavras de Alceu Amoroso Lima que confirmou que só através de João XXIII com a Mater Et Magistra, o catolicismo brasileiro foi descobrindo a existência de uma tal doutrina social. Na Europa foi muito antes. Minas 10 Durkheim, Émmile. Da divisão do trabalho social In: Os Pensadores p. 306-310. 11 Vianna, Luiz Werneck. Liberalismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 159. 244 principalmente foi sempre um atraso, por causa da infiltração do neojansenismo nos seminários de Mariana e de Diamantina.”12 (Frei Bernardino Leers) A defesa de um Estado corporativo, defensor dos humildes, foi acolhido no modelo de sociedade e de organização política praticado no período Vargas e deixado como herança para a organização trabalhista no Brasil. A colaboração entre Estado e Igreja, selada a partir de 1930, garantiu a canalização de esforços por um nacionalismo católico, pelo combate aos seus inimigos comuns comunistas, socialistas, liberais e outros que se apresentassem contrários ao modelo proposto. Fortalecia também a Igreja contra seus inimigos em particular, representados pelos protestantes, espíritas, umbandistas e maçons (Isaía, 1998: 150). Os vínculos de colaboração entre hierarquia eclesiástica e poder político se mantiveram na década de 50, principalmente no governo Kubitschek. Ambos voltaram sua atenção para os problemas de ordem socioeconômica, com destaque para as questões do campo. Participava desse processo Dom Helder Câmara como secretário nacional da Ação Católica e pela CNBB (Azzi, 1994: 143). A aplicação do projeto social da Igreja em Divinópolis denota bem a abrangência dessa grande rede de ação colocada em prática em nível nacional. A criação do Círculo Operário, as intermediações do clero nas negociações trabalhistas dos ferroviários, sempre procuravam evitar saídas conflitivas. Ocorriam as maratonas da imprensa e do apostolado católico no combate aos seus opositores, a “paranóia” anticomunista. Fazem parte desse conjunto também o comprometimento dos intelectuais católicos com a preparação dos operários do círculo, a inculcação da doutrina social católica através das palestras. O mais curioso era a divulgação permanente de textos sobre o corporativismo e a questão operária no jornal católico “A Semana”, na seção destinada ao Círculo Operário. A densidade do conteúdo desses textos, a profundidade da reflexão que o tema teria provocado entre os clérigos e os intelectuais comprometidos com a causa, a forma como essa tradução chegava aos trabalhadores, são questionamentos que mereceriam um estudo específico, mais aprofundado. Apenas como ilustração, constam entre fevereiro de 1943 e julho de 1946 cerca de 60 textos publicados com títulos que variam entre: Ligeira idéia doutrinária e histórica das corporações ou ainda, Corporativismo e Estado. 12 Entrevista realizada pela autora com Frei Bernardino Lerns no dia 22.07.02. 245 A doutrina social da Igreja lançada a partir da Rerum Novarum parece ter sido motivo de um discurso articulado. Mas o que se percebe a partir do estudo feito é que havia uma distância entre a importação das idéias e das proposições contidas nesse novo paradigma e sua aplicação e assimilação pelos católicos. Mesmo entre o clero, parece que não havia clareza sobre a dimensão desse novo modelo e de ação social da Igreja. Os primeiros franciscanos, e mesmo depois com as reflexões possibilitadas pela Escola de Teologia, parece que não tinham clareza dessa dimensão. Além disso, a convivência com o clero local influenciado pela formação tradicional de Mariana acabava por reforçar uma conduta mais conservadora no tratamento dos problemas sociais e sobre as questões morais e sobre a vida dos católicos. As mudanças foram lentas, a digestão das novas idéias foi gradativa, e no caso de Divinópolis, o fato de ter havido o debate de idéias provocado por grupos questionadores da hegemonia católica, deu à experiência local um tom de desafio demonstrando a grande dificuldade enfrentada pela Igreja no sentido de lidar com a diversidade. Num campo de análise mais amplo, mereceria um estudo mais aguçado o sentido de justiça social pregado pela Igreja, considerando a evolução desse conceito e as mudanças de rota após 1964, bem como, as transformações internas gestadas nesse processo, configurando segmentos que alguns autores chamam de “progressistas” e “não progressistas”. Nessa linha caberia analisar as rupturas externas, a condução do trabalho pastoral e a perda do controle da hierarquia sobre a ação do laicato, trilhando outros caminhos em defesa da justiça social sob prismas diferentes Ao tentar colocar limites no modernismo e nas idéias de liberdade e igualdade sublimadas nesse processo, a Igreja debateu com os porta vozes desse pensamento, buscando se recolocar à frente das decisões políticas e estabelecendo parâmetros de uma inserção social que passava pela definição de seu lugar na sociedade capitalista. Nesse caminho ela fez articulações com o poder, agiu sobre a questão social, sofreu influência de teorias e acabou por contribuir com a politização de um contingente de católicos militantes. Como exemplo das influências teóricas européias, cabe ressaltar o pensamento reacionário francês no Brasil, assumido por Jackson de Figueiredo, quando este liderava o Centro Dom Vital, levando a um elitismo e à concepção de um pensamento moralista defensor da ordem. Posteriormente, já sob orientação de Alceu Amoroso Lima, ocorreu uma 246 cisão no pensamento católico com a introdução do Humanismo Integral13. Era uma doutrina neotomista recolocando as relações entre o imanente e o transcendente de Jacques Mairitain, provocando uma flexibilização que culminaria nas inovações tentadas pelo Vaticano II (Montenegro, 1972: 167-180). Ao estudar a atuação leiga, chama atenção o comprometimento orgânico dos membros da Ação Católica. No caso da análise de Divinópolis, a observação esteve voltada para um período inicial do movimento bastante disciplinado pela hierarquia e reacionário diante das modernizações. O público atuante era uma classe média composta de alguns homens letrados e mulheres devotas que se esforçavam para praticar uma ação social vinculada aos preceitos institucionais representados na paróquia pelo vigário e pelos assistentes eclesiásticos. O esforço se explica pela tendência ainda forte de um catolicismo mais espiritualista, vivenciado mais na intimidade e na participação no culto litúrgico, sem experiência de uma ação coletiva voltada para o comprometimento ou mesmo compreensão do que representava a idéia lançada sobre reforma social. Fica evidenciada uma postura assistencialista e caritativa no tratamento dispensado às classes populares, com uma tendência de estar transmitindo o discurso da verdade. Aponta o melhor caminho para os “humildes”, adjetivo freqüentemente utilizado na época, numa posição até autoritária, considerando-os inaptos à escolhas e propensos à sedução das idéias contrárias ao pensamento católico. O discurso católico e as formas de sua penetração na coletividade foram abordados na sua capacidade de influenciar comportamentos e de argumentar com os discursos contrários, representantes de ideologias capazes de veicular um apelo persuasivo em torno da liberdade. A Igreja ao relativizar o sentido da liberdade e da igualdade precisava colocar no lugar uma proposta que, mesmo não exercendo tal sedução, alcançasse os desejos sociais, mostrando às pessoas em particular e ao conjunto da sociedade, as vantagens de adesão à sua ideologia. A movimentação dos discursos, as práticas de intervenção e de ação política relacionadas aos mesmos acabou por definir registros de civismo, marcantes tanto nas iniciativas dos católicos como dos grupos leigos independentes e daqueles ostensivamente contrários ao pensamento católico. Havia um envolvimento com as questões nacionais, uma Maritain propôs uma conciliação entre humanismo e cristianismo, um “humanismo teocêntrico”, único verdadeiramente integral, reconciliando ciência e sabedoria, evitando o humanismo antropocêntrico e o cristianismo desencarnado. A junção entre humanismo e cristianismo possibilitariam a renovação social e cultural, podendo atingir um ideal histórico concreto pela efetivação de um novo cirstianismo (Maritain, 1999). 13 247 disposição para o debate verbal e escrito, uma emoção patriótica nos discursos e no tratamento da coisa pública. O clima nacionalista criado pelo governo Vargas, auxiliado pela Igreja, explica em parte essas manifestações, mas há uma ebulição nativa na expressão desse civismo, uma intenção peculiar de viver o espaço público de sentir e experimentar a cidade. Os questionamentos em torno da ideologia católica partiram de elementos que falavam de um lugar, de uma organização social, Maçonaria, partido político, religião ou seita, situação que lhes dava identidade e respaldo no discurso e na prática. Essas organizações também tinham amparo em ações e projetos mais amplos concebidos e aplicados nacional e internacionalmente. É em função dessa rede de relações, pela magnitude das idéias que alteravam a ordem moral, afetando comportamentos, pela ameaça que representavam à colaboração entre classes e à estabilidade das estruturas de poder que a restauração católica se explica como uma reação do mundo católico a um mundo que parecia estar em processo de dessacralização. Daí era preciso restaurar a imagem e a força moral e espiritual de Cristo e da Igreja na vida social, nos lares, nas instituições de ensino, nos espaços e nos movimentos dos trabalhadores. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTONIAZZI, Alberto. (1987), O que é o leigo?. In: Os leigos na Igreja e no mundo: vinte anos depois do Vaticano II. São Paulo: Paulinas. AZEVEDO, F. G.; AZEVEDO, A. G. (1988), Da História de Divinópolis. Belo Horizonte: Grephilivros. AZZI, Riolando. (1980), A concepção da ordem social segundo o positivismo ortodoxo brasileiro. São Paulo: Loyola. AZZI, Riolando. (1994), A Neocristandade: um projeto restaurador. São Paulo: Paulus. ________ . (1991), A crise da Cristandade e o projeto liberal. São Paulo, Paulinas. ________. (1992), O clero no Brasil : uma trajetória de crise e reformas. Brasília: Rumos. BACZKO, Bronislaw. (1985), Imaginação Social. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional, (Casa da Moeda). BARRETO, Lazaro. 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ARQUIVOS Arquivo da Paróquia e Biblioteca dos Franciscanos: Arquivo da Província Franciscana: Carta Pastoral do Episcopado Brasileiro ao Clero e Fiéis de suas Dioceses 1922 Carta Pastoral do Episcopado da Província Eclesiástica de Belo Horizonte Cartas dos Vigários Holandeses Folhetos de Eventos e protocolos Livro de Atas da Liga Feminina Católica Livro de Atas do Círculo Operário Livro de Crônicas dos Estudos do Curso de Teologia de Divinópolis. Livro de Tombo. Permissões da Arquidiocese Publicação – Primeiro Sínodo da Arquidiocese de Belo Horizonte. ARQUIVOS PARTICULARES Benigna Moreira de Souza. Discurso de recepção do Arcebispo Dom Cabral 1943. Discurso de Comemoração da Semana Bíblica 1951. Discurso de Comemoração das Bodas de Ouro da ordenação sacerdotal do papa Pio XII. Discurso de Comemoração dos 25 anos da presença franciscana em Divinópolis. Discurso para as Liguistas em festividade do Cristo Rei 1948. Sr. Milton Pena. Anotações e artigos publicados no Jornal Folha da Cidade 254 MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL Fotografias. Folheto com Discursos pronunciados na Entronização do Cristo Redentor no Paço Municipal e Salões do Grupo Escolar da Cidade de Divinópolis – 1918. CARTÓRIO DE REGISTRO DE TÍTULOS E DOCUMENTOS Estatuto do Círculo Operário. Registro de Jornais. JORNAIS E BOLETINS Boletim Conversando com os Divinopolitanos, Divinópolis-MG: [s/n], 1948 – 1960. Boletim de Francisco de Azevedo, Divinópolis-MG: [s/n], 1948. Divinópolis – Jornal, Divinópolis-MG: [s/n], 1943. Jornal Porta Voz, Divinópolis-MG: [s/n], 1934. Jornal Diário do Oeste, Divinópolis-MG: [s/n], 1956. Jornal Interno A Semana, Divinópolis-MG, Gráfica Santo Antônio, 1943 – 1946. Jornal A Semana – Órgão Oficial das Paróquias de Divinópolis-MG, Círculo Operário e Educandários. Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1946 – 1961. Jornal O Clarão – Órgão Oficial da União dos Moços Católicos, Divinópolis-MG: [s/n], 1923 –1924. Jornal São Francisco Mensageiro Paroquial de Pirapora, Pirapora-MG: [s/n], 1929 – 1931. O Santuário de Santo Antônio – Órgão da Devoção Antoniana / Colégio Seráfico – Divinópolis – E. F. O. Minas Gerais. Divinópolis-MG, Convento de Santo Antônio, 1929 – 1936. 255 REVISTAS ACADEMIA Brasileira Maçônica de Letras, Formação Histórica da Maçonaria. Anais do I Congresso Internacional de História e Geografia. Vol. 1, Rio de Janeiro – 19 a 21 de Março de 1981. Revista Eco Seráfico – Órgão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, Petrópolis, Vozes, 1931 – 1944. Revista de Santa Cruz – Órgão do Comissariado Franciscano da Província de Santa Cruz, Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1936 – 1965. Revista Elo Seráfico – Ensaios literários, científicos, historiográficos dos clericatos da Província de Santa Cruz, Divinópolis, Gráfica Santo Antônio, 1951 – 1954. Observação: As transcrições literais de trechos de jornais e revistas escritos em português erudito foram alterados para uma norma mais atualizada da língua, objetivando uma melhor compreensão do discurso. 256 ENTREVISTAS Benigna Moreira de Souza Foi professora primária, presidente da API e participante ativa da Liga Feminina Católica entre os anos 40 e 50. Dom Aloísio Lorscheider Frade Franciscano, doutor em Teologia, estudou na Escola de Teologia de Divinópolis, da qual foi posteriormente professor de Dogmática; atualmente é Cardeal e Arcebispo de Aparecida do Norte em São Paulo. Evaristo Garcia Foi membro do Partido Comunista, participou da criação do Comitê Ferroviário de Divinópolis no final da década de 40. Frei Bernardino Leers O.F.M. Frade Franciscano holandês, formado em Filosofia, Teologia, especialista em Moral. Instalou-se em Divinópolis no ano de 1952, onde atuou principalmete no meio sindical e através do CODAR. Frei Carlos Josaphat É dominicano, porfessor de Ética, possui várias obras publicadas e atualmente leciona na Escola Dominicana de Teologia de São Paulo. Frei Helano Van Koppen O.F.M. Frade Franciscano holandês, fez parte da primeira turma de alunos da Escola de Teologia de Divinópolis. Galba L. de Oliveira Aposentado da R.M.V. , trabalhou nas obras sociais da paróquia de Santo Santônio. 257 José Carlos Pereira Fundadador do Centro Espírita Estudantes do Evangelho e da Entidade Filantrópica Lar das Meninas ligada à este Centro. Foi membro da Loja Maçônica Estrela do Oeste. Atuou politicamente através da Fundação da Comunidade e participou de equipes de governo em administrações municipais. José Valério Aposentado do R.M.V. , faz anotações e possui um arquivo particular sobre a história de Divinópolis. Manoel Valério Aposentado da R.M.V. , foi membro atuante no Círculo Operário exercendo a função de secretário. Milton Pena Ex-funcionario da R.M.V. , atualmente exerce a função de Subdelegado Regional do Trabalho em Divinópolis. Orozimbo Vasconcelos Marceneiro aposentado, foi funcionário da Empresa J. Rabelo S. A; participou da milícia municipal criada em função da Revolução de 1930. Salviano Avelar Foi vice-diretor do Colégio São Geraldo e gerente do Banco de Minas Gerais; estudou no Seminário em Belo Horizonte e foi membro atuante no Círculo Operário. Simão Salomé Advogado aposentado, foi professor de direito; participou de equipes de governo em administrações municipais e acompanhou a militância partidária de seu irmão Francisco Salomé no Partido Comunista.