DIVERGÊNCIA QUANTO O TEOR ALCOÓLICO ROTULADO EM CACHAÇAS COMERCIAIS WLADYMYR JEFFERSON BACALHAU DE SOUZA1; NORMANDO MENDES RIBEIRO FILHO2; RAISSA CRISTINA SANTOS4; KATILAYNE VIEIRA DE ALMEIDA1; ANDRÉA MARIA BRANDÃO MENDES SIMÕES3 1 Universidade Estadual da Paraíba. UEPB. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. PPGEQ/UFRN. 3 Universidade Federal de Campina Grande. UFCG 4 Universidade Federal da Paraíba. UFPB. 21 RESUMO Atualmente a aguardente é a segunda bebida alcoólica mais consumida no Brasil, sendo o primeiro lugar ocupado pela cerveja. A aguardente, denominada cachaça é uma bebida tipicamente brasileira. A tecnologia de produção de cachaça está sendo cada vez mais estudada, buscando melhor qualidade e maior produtividade. Tal empenho abriu o comércio internacional e a nossa cachaça ganhou o mundo, destacando-se em alguns países como Alemanha, Itália, França, Estados Unidos e Japão. Em nível de mercado interno, é fonte geradora de empregos e constitui-se em importante agroindústria, cuja produção nas grandes destilarias é de aproximadamente 20.000 litros por hora operando 24 horas por dia durante 180 dias ou mais, em função da safra anual da cana-de-açúcar. Como resultado estima-se uma produção de 1,3 bilhões de litros por ano. Palavras-chave: Cachaça, Bebida Típica, Teor Alcoólico. INTRODUÇÃO As bebidas, de modo geral, movimentam cerca de US$15 bilhões no mercado mundial, no entanto, com a exportação da cachaça o Brasil alcança apenas 8,5 milhões de dólares em exportação, valor baixo comparado aos US$100 milhões da tequila mexicana. Mesmo assim, a cachaça artesanal vem rompendo o preconceito de bebida marginalizada e vem conquistando espaço como destilado nobre, perdendo o estigma de bebida voltada para as classes mais pobres, e conquistando um público mais refinado que exige maior qualidade do produto e beleza da embalagem. No Brasil, a variedade da cachaça artesanal envelhecida dez anos é a mais cara, podendo seu preço chegar a R$500 por litro; a cachaça envelhecida dois anos, que é a variedade mais comum, o preço varia de R$20 a R$60 de acordo com a região. Hoje, no país, a cachaça é a bebida destilada mais consumida, consumo que garante a bebida o terceiro lugar entre os destilados mais consumidos no mundo inteiro (GONÇALVES & VIDAL, 2007). A produção anual da cachaça no Brasil fica em torno de 1,3 bilhões de litros dos quais 32% deste total, ou seja, 416 milhões são produzidos em alambiques nos seguintes dos estados de Minas Gerais, Bahia, Paraíba, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Os 68% restantes, 884 milhões de litros são produzidos industrialmente nos Estados de São Paulo, Pernambuco e Ceará. No mercado nacional a indústria de cachaça gera 400 mil empregos diretos e um milhão de empregos indiretos (AMPAQ, 2007). O álcool é o principal constituinte da cachaça, mas ao contrário do uso industrial, o álcool destinado ao uso em bebidas não pode ser desnaturado, sendo empregado o mais puro possível (RASOVSKY, 1973). A Alemanha e, principalmente a França, deram grande contribuição ao desenvolvimento das técnicas de fermentação alcoólica, de destilação e de construção de aparelhos de destilação (LIMA, 2001; CRUEGER & CRUEGER, 1993). Segundo a Instrução Normativa Nº 13, de 29 de Junho de 2005, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Brasília – DF, item 2.1.2., regulamenta, “cachaça” é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38% a 48% em volume, a 20°C, obtida pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar, com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até 6 gramas por litro, expressos em sacarose. O baixo grau alcoólico em algumas cachaças pode ser ocasionado pela deterioração fisiológica e bacteriológica da cana-de-açúcar por estocagem desta por mais de 24 horas, ocorrendo a perda de sacarose e conseqüentemente redução do rendimento na fermentação. A correção do teor alcoólico, geralmente é realizada com água destilada ou com cachaça anteriormente destilada e que possua teor alcoólico mais baixo (ou mais alto se for o caso). METODOLOGIA Análises físico-químicas Foram utilizadas dez amostras, sendo 8 oriundas do comércio de Areia – PB e 1 obtida no comércio de Campina Grande – PB. Sendo todas devidamente enumeradas. As amostras de 1 a 5 são cachaças brancas comercializadas em garrafas de 300ml, a amostra 6 é comercializada em garrafa PET (reaproveitada de envase de refrigerante) de 2 litros, a amostra 7 é uma cachaça descansada em período de seis meses comercializada em garrafas de 250ml, a mostra 8 é uma cachaça envelhecida em período de 1 ano e 8 meses comercializada em garrafa de 700ml e a amostra 9 é uma cachaça bidestilada comercializada em garrafas de 200ml. As análises foram realizadas no laboratório de Engenharia Bioquímica da Universidade Federal de Campina Grande, UFCG/Campina Grande – PB, e constaram de exames organolépticos e a determinação do teor alcoólico real. Exames organolépticos Foi determinado observando-se as amostras de cachaça contra um transluminador de luz branca (lâmpada fluorescente), cujos parâmetros analisados foram: aspecto, coloração, limpidez, presença de corpos estranhos, engarrafamentos e vazamentos. Teor alcoólico Leitura realizada através de alcoômetro (Gay Lussac, °GL – Cartier, C) e realizada correção através da tabela de leitura aparente. Os resultados destas análises foram expressos em °GL (%v/v). RESULTADOS E DISCUSSÃO Exames Organolépticos As amostras 1, 2, 3, 4 e 5 são destilados simples e que apresentaram aspecto agradável, coloração transparente, boa limpidez, ausência de corpos estranhos, engarrafamento em vidro e ausência de vazamento. Já as amostras 7 e 8, oriundas de descanso e envelhecimento, respectivamente, apresentaram aspecto agradável, boa limpidez, ausência de corpos estranhos, engarrafamento em vidro e ausência de vazamento. Ambas apresentaram coloração marrom, sendo a amostras 7 uma coloração mais suave, por ser uma cachaça apenas descansada em período de seis meses e a amostras 8 uma coloração marrom mais intensa, por ser uma cachaça envelhecida em período de 1 ano e 8 meses. A amostra 9, bidestilada, apresentou aspecto agradável, coloração transparente, boa limpidez, ausência de corpos estranhos, engarrafamento em vidro e ausência de vazamento. Apesar de apresentar boas características e beleza em seu recipiente, este esconde as características visuais da cachaça por se tratar do um recipiente opaco. Problema mais preocupante quanto ao engarrafamento foi observado na amostra 6, por reutilização de recipiente oriundo de outros processos, apresentando também vazamento, pelo mau fechamento dos recipientes, má utilização de tampas e a ausência de lacre. Outra problemática sobre a amostra 6 é o fato dela ser comercializada em garrafas de plástico (PET), que além do reaproveitamento deste recipiente ser proveniente de processo de envasamento de refrigerantes, o álcool é um solvente orgânico e o PET é fonte de hidrocarbonetos. Teor Alcoólico A Tabela 1 apresenta os teores alcoólicos rotulado pela empresa responsável pela cachaça e o teor real determinado através de análises em laboratorial. TABELA 1: Divergência quanto o teor alcoólico rotulado e real, expressos em °GL. Amostras Teor Alcoólico Erro (°GL) Rótulo Real 1* 40 38,6 -1,4 2 42 42,7 +0,7 3 45 42,7 -2,3 4 40 41,6 +1,6 5 40 37,6 -2,4 6 --41,6 --7* 39 40,6 +1,6 8 39 41,6 +2,6 9* 40,3 39,6 -0,7 *amostras destilada, descansada e bidestilada, respectivamente, oriundas de mesma produção Todas as amostras apresentaram variações quanto ao teor alcoólico expresso em seus rótulos, mas apresentaram-se dentro dos padrões da legislação vigente (38 – 48%), com exceção da amostra 5, que apresentou teor alcoólico de 37,6 °GL ficando fora da faixa determinada pela legislação brasileira. As amostras 1, 3, 5 e 9 apresentaram teores alcoólicos 38,6; 42,7; 37,6 e 39,6°GL, respectivamente. Estas amostras apresentaram valores abaixo dos descritos em seus rótulos em uma faixa de 0,7 a 2,4°GL, significando em comercialização ilusória. Já as amostras 2, 4, 7 e 8 apresentaram teores alcoólicos 42,7; 41,6; 40,6 e 41,6, respectivamente. Estas amostras apresentaram valores acima dos descritos em seus rótulos, em uma faixa de 0,7 a 2,6°GL, significando prejuízo para o produtor. O erro quanto as amostras que apresentaram teor alcoólico acima do especificado em seus rótulos, pode ter sido ocasionado pela não utilização do alcoômetro (aerômetro). Podemos dizer que após a destilação o produtor não utilizou o equipamento ocasionando o desperdício alcoólico. Já as amostras que apresentaram teores abaixo dos descritos em seus rótulos pode ter sido ocasionado pela não utilização do alcoômetro (aerômetro) ou utilização deste sem a devida correção da tabela. CONCLUSÕES Quanto aos Exames Organolépticos As amostras 1, 2, 3, 4, 5, 7 e 8 não possuem problemas quanto a inspeção organoléptica; A amostra 6 apresenta problema quanto a comercialização em recipientes reaproveitados e mau uso das técnicas de engarrafamento, por não utilizarem lacres propiciando vazamento do produto; A amostra 9 apresenta-se dentro de todos os padrões da análise organoléptica, apresentando apenas uma garrafa opaca que impossibilita o consumidor a visualizar o produto, mas que não prejudica o comercialização; Quanto ao Teor Alcoólico Todas as amostras apresentaram variações quanto ao teor alcoólico expresso em seus rótulos, mas apresentaram-se dentro dos padrões da legislação vigente (38 – 48°GL), com exceção da amostra 5, que apresentou teor alcoólico de 37,6 °GL ficando fora da faixa determinada pela legislação brasileira; As amostras 1, 3, 5 e 9 apresentaram teores alcoólicos 38,6; 42,7; 37,6 e 39,6°GL, respectivamente. Estas amostras apresentaram valores abaixo dos descritos em seus rótulos em uma faixa de 0,7 a 2,4°GL, significando em comercialização ilusória destes lotes; As amostras 2, 4, 7 e 8 apresentaram teores alcoólicos 42,7; 41,6; 40,6 e 41,6°GL, respectivamente. Estas amostras apresentaram valores acima dos descritos em seus rótulos, em uma faixa de 0,7 a 2,6°GL, significando prejuízo para o produtor, na comercialização destes lotes. REFERÊCIAS AMPAQ. Mercado exportador. Disponível em: mercado_exportador.htm >Acesso em: 22 de fevereiro de 2007 <http://www.ampaq.com.br/ CRUEGER, W; CRUEGER, A.; Biotecnología: Manual de Microbiologia Industrial. Zaragoza (España). Editora Acribia. 1993. 3ª edição. GONÇALVES, M. F., VIDAL, M. de F.. O Mercado de Derivados de Cana-de-Açúcar (2) Cachaça. Informe Rural Etene, v. 1, n. 05 - maio 2007. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regulamento técnico para fixação dos padrões de identidade e qualidade para aguardente de cana e para cachaça. Instrução Normativa nº 13, de 29 de junho de 2005. Brasília – DF. LIMA, Urgel de Almeida, et. al. Biotecnologia Industrial: Processos Fermentativos e Enzimáticos (vol.3). São Paulo – SP. Editora Edgard Blucher. 2001. 1º edição. RASOVSKY, E.M; Álcool:destilaria . Rio de Janeiro. Coleção Canavieira.1973. n°12.