44 DOM Ilustrações Veloso, Bruno cenários Contradições de um século em quatro atos por P a u l o V i c e n t e d o s S a n t o s A lv e s A crise continua ampliando seus efeitos e, em todo o mundo, países reagem e tentam sair dela. Todos se perguntam qual será o futuro e como esse cenário poderá se desdobrar. Vamos analisar a situação de uma perspectiva mais ampla – a de projetar o futuro utilizando os ciclos de hegemonia e de Kondratieff. Na busca por uma visão de futuro encontramos algumas contradições que devem se aprofundar nos próximos anos, e outras, que provavelmente se revelarão ao longo do século. Para facilitar o entendimento, desenhamos quatro grandes cenários – que chamaremos de “atos” –, para maior dramatização e levar ao leitor uma forte impressão do futuro. Mas, antes de iniciarmos essa jornada, é necessário analisar a evidência histórica que nos leva a construir uma estrutura de análise do futuro. Ciclos hegemônicos e de Kondratieff Utilizaremos aqui duas perspectivas complementares, que visionam a história contemporânea como parte de ciclos que se repetem. Os ciclos hegemônicos existem desde as grandes navegações, quando, a partir de diversos sistemas regionais, formou-se a estrutura de causa/efeito do sistema global de trocas. A Tabela 1 mostra como o sistema se comportou nos últimos cinco séculos. Cada ciclo dura de 100 a 140 anos e se esgota num período de guerras de transição que duram 30 anos. Nesse sentido, o sistema se comporta de forma complexa ou caótica. Há um equilíbrio gerado por uma potência, que paga o alto custo de estabilização do sistema, mas ela se torna fragilizada ou incapaz de manter esta estabilidade. O sistema entra, então, numa fase instável, antes de encontrar uma nova forma de estabilidade. DOM 45 tabela 1 | Ciclos de hegemonia e guerras de transição tabela 2 | Ciclos de Kondrateiff Tipo Periodo Descrição Ciclo Período Descrição Hegemonia 1492 - 1618 Gênova e Habsburgos 1o Ciclo 1770 - 1820 Mecanização inicial Transição 1618 - 1648 Guerra dos Trinta Anos 2o Ciclo 1820 - 1870 Vapor, ferrovias e telégrafo Hegemonia 1648 - 1785 Holanda Transição 1785 - 1815 Guerras napoleônicas 3o Ciclo 1870 - 1930 Eletricidade, combustão interna e engenharia pesada Hegemonia 1815 - 1914 Reino Unido 4o Ciclo 1930 - 1980 Produção em massa, fordismo, energia nuclear, televisão e geladeira 5o Ciclo 1980 - 2030? Telecomunicações e informática Transição 1914 - 1945 Guerras Mundiais Hegemonia 1945 - 2065? EUA Transição 2065? - 2095? ?? tabela 3 | Subfases de crises dos ciclos de Kondratieff Ciclo Período Descrição Pré-ciclos 1755 - 1770 Guerra dos Sete Anos (1756-63) 1o Ciclo 1805 - 1820 Guerras napoleônicas 2o Ciclo 1860 - 1870 Guerras da Crimeia, Tríplice aliança, Guerra civil americana, Unificação da Alemanha e Itália 3o Ciclo 1914 - 1930 Primeira guerra mundial e período entre guerras 4o Ciclo 1965 - 1980 Guerra do Vietnã, Corrida espacial, Guerras árabe-israelenses (1967, 1973) 5o Ciclo 2015 - 2030? ? Os ciclos de Kondratieff foram descritos em 1925 e ganharam o nome do seu autor. Segundo eles, as inovações tecnológicas não ocorrem homogeneamente no tempo, mas em ondas de inovação logo após uma crise. Esses ciclos têm de 54 a 60 anos (Tabela 2). Cada ciclo tem quatro subfases: recuperação, crescimento, esgotamento e crise. Cada uma delas dura de 10 a 15 anos. Tudo começa com uma subfase de grande inovação tecnológica e recuperação econômica, induzida pela crise que fechou o ciclo anterior. Depois, essas novas tecnologias se desdobram num crescimento bastante rápido – a subfase de crescimento. Entretanto, o crescimento nunca é homogêneo e isso gera tensões, levando a uma ruptura que cria gargalos e termina na subfase de esgotamento, em que várias nações reagem com protecionismo e expansionismo em crédito. Finalmente, essas políticas só pioram a situação 46 DOM e provocam uma crise generalizada, com guerras locais ou globais (dependendo se ocorrem, ou não, em paralelo com uma transição hegemônica). As subfases de crise são mostradas na Tabela 3. Durante essa fase, empresas e nações tomam medidas desesperadas e aceitam fazer o inaceitável, pois ”tempos desesperados requerem medidas desesperadas”. As pessoas não “pensam fora da caixa” – é “a caixa que evapora” e precisa ser reinventada. Essas crises se assemelham ao que Marx previu para o capitalismo, quando todos os capitalistas iriam preferir o capital em sua forma mais líquida e pura, gerando crise de liquidez e falta de investimentos. Kondratieff mostrou que essas crises eram inerentes e necessárias ao sistema, que se reinventava e retomava o crescimento. Isso desmontava a hipótese da decadência capitalista e da vitória inevitável do comunismo. E, por isso, Stalin o mandou para a Sibéria. tabela 4 | Projeção para o século 21 Ciclo Período Subfase Hegemonia 5o Ciclo 2012 - 2018 Esgotamento EUA 5o Ciclo 2018 - 2030 Crise EUA 6o Ciclo 2030 - 2042 Recuperação EUA 6o Ciclo 2042 - 2055 Expansão EUA 6o Ciclo 2055 - 2067 Esgotamento EUA 6o Ciclo 2067 - 2080 Crise Transição 7o Ciclo 2080 - 2092 Recuperação Transição 7o Ciclo 2092 - 2104 Expansão Nova hegemonia Um século em quatro atos Nosso interesse maior não é pelo passado, mas sim pelo futuro e como esses ciclos podem nos ajudar a prevê-lo. A Tabela 4 mostra nossa previsão até 2104, partindo do pressuposto fundamental da estatística, ou seja, se a estrutura de causa e efeito do universo não se alterou, o passado é um bom profeta do futuro. Essa tabela indica apenas datas hipotéticas, que não podem ser testadas neste momento, por isso forma um sistema de cenários. Para facilitar o entendimento, preferimos descrever a tabela em quatro cenários, chamados de “atos”, para dramatizar e criar uma forte impressão no leitor. Isso é importante porque as técnicas de previsão do futuro são uma forma de “contar histórias”, soltando a imaginação dos leitores e criando neles um “faz de conta“, que permite fazerem as perguntas certas, que não seriam levantadas de outra forma, e aceitarem situações que ainda não existem. Cada um desses atos tem um drama e suas contradições, mas todos perpassam a contínua mudança do poder relativo das nações, a contradição entre erradicar a pobreza e preservar o ambiente natural, a aversão humana ao risco, e as tecnologias que alteram o ambiente competitivo, criando novas indústrias e destruindo outras. Ato 1 – a crise dos anos 2020 A subfase de crise do quinto ciclo deverá ocorrer entre 2018 e 2030 – esse é o drama central do primeiro ato. Há cinco crises se formando, na nossa década, que apontam para uma crise generalizada no período: crise dos sistemas de aposentadoria; aumento dos preços de energia, água e comida; ineficácia e ineficiência dos Estados; aumento do terrorismo; conflito cultural e militar. Os dois primeiros itens dessa lista apontam para a inflação, enquanto os três últimos revelam maiores gastos dos Estados, que vão ter de aumentar impostos ou sofrer reformas estruturais. Isso revela duas grandes contradições: a de erradicar a pobreza e continuar crescendo, ao mesmo tempo em que preserva o ambiente natural; a de preservar os benefícios sociais do Estado do bem-estar social e, ao mesmo tempo, manter os estados viáveis economicamente sem aumentar impostos. Dessas duas contradições, a necessidade de crescer economicamente, preservando os benefícios sociais, deve prevalecer por algum tempo, levando a guerras locais. O mais provável é que as disputas por recursos naturais provoquem uma série de guerras menores, pelo acesso à água, energia e terras raras, elevando o preço do petróleo. Uma corrida pelo acesso a esses recursos já está em andamento na África e sudeste da Ásia, podendo também se estender para o Oriente Médio e América do Sul. Nesse sentido, a década de 2020 poderá ser semelhante à de 70 e as crises devem provocar mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), criando novas possibilidades que marcarão a década de 2030 com uma recuperação econômica e inovação tecnológica, parecidas com as da década de 80. DOM 47 Haverá uma grande mudança geopolítica que já começou a se desenhar Ato 2 – A revolução tecnológica dos anos 2040 Nos anos 2040 essa revolução estará atingindo o seu ápice. É impossível prever qual será sua natureza, mas analisando os investimentos atuais em P&D, e projetando para o futuro, podemos simplificar em três grandes prováveis linhas: 1. Robótica e inteligência artificial (IA) 2. Genética, biotecnologia e medicina avançada 3. Energia verde e tecnologia espacial Pode acontecer qualquer uma dessas grandes linhas ou uma combinação delas. A técnica básica é “seguir o dinheiro” e analisar os orçamentos de investimento em todo o mundo, sobretudo o do Departamento de Defesa (DoD) dos EUA. Nossa previsão hoje é de que será uma revolução centrada na robótica e na inteligência artificial, devido à demanda de mão de obra não especializada por parte dos países desenvolvidos (podem reduzir sua necessidade de imigração), mas também uma oferta cada vez maior, pois as 48 DOM Forças Armadas mundiais estão desenvolvendo robôs e IA’s para eliminar o risco humano no campo de batalha. Nesse período, teremos três grandes contradições: a continuação do drama de preservar o ambiente natural e erradicar a pobreza; a reindustrialização dos EUA com a robótica e a IA esvaziando as indústrias dos países emergentes; a ascensão de IA’s, tão capazes quanto os seres humanos, e que não se distinguirão deles. Haverá uma grande mudança geopolítica que já começou a se desenhar. O aumento gradativo do preço do petróleo e a redução dos custos de energias alternativas, por ganho de escala e curvas de aprendizado, vão substituir o petróleo nas décadas de 2040 e 2050, fazendo com que o Oriente Médio tenha sua importância reduzida. Ao mesmo tempo, a necessidade de importação de mão de obra por parte dos EUA deverá ser reduzida, com as fronteiras com o México tornando-se cada vez mais turvas e a demografia e economia se fundindo. Todas essas mudanças farão dos EUA um país mais isolacionista e menos disposto a investir muito dinheiro para estabilizar militarmente regiões distantes. Isso reduzirá a estabilidade do sistema global, abrindo espaço para uma nova transição hegemônica. No geral, deverá ser uma década semelhante aos anos 90. Seu rápido crescimento deverá se esgotar na metade da década de 2050, dando início a uma subfase de esgotamento que levará a uma crise, desta vez coincidindo com uma transição hegemônica. Ato 3 – As guerras dos anos 2070 e 2080 O modelo matemático aponta para uma transição hegemônica entre 2065 e 2095, mas não são datas precisas devido à variação não explicada do modelo. O que podemos afirmar é que, neste período, teremos provavelmente similaridades com os anos 1618-1648, 1785-1815 e 1914-1945. Cada um deles teve uma série de conflitos entre ideologias opostas, sempre uma mais liberal e descentralizada e outra conservadora e centralizadora. No longo prazo, prevaleceu a mais liberal e descentralizada. A Guerra dos Trinta Anos foi um conflito entre o colonialismo e o mercantilismo. Já as guerras revolucionárias foram conflitos entre o absolutismo e o republicanismo. E as guerras mundiais aconteceram dentro do industrialismo, entre um controle centralizado e outro descentralizado – de um lado o fascismo, comunismo e nazismo, e do outro, as democracias ocidentais. O controle descentralizado sempre permitiu maior adaptabilidade sob pressão e, no longo prazo, prevaleceu. É impossível prever as ideologias que estarão em conflito neste período e quais nações vão representar cada ideologia, mas olhando para as contradições dos períodos anteriores podemos prever que serão anos exacerbados e levados ao extremo de conflitos. O conflito principal poderá resultar da contradição entre a erradicação da pobreza e o aumento do consumo de recursos, e a preservação do ambiente natural. Essa contradição não terá solução, implicando, em última análise, uma decisão difícil – controlar a natalidade e limitar o desenvol- vimento, ou encontrar mais recursos, o que levaria à colonização do espaço. Além disso, o mundo ocidental já deverá ter se livrado em grande parte dos combustíveis fósseis e seu maior problema ambiental será a acumulação de lixo e o acesso à água e metais. Todos esses problemas poderão ser resolvidos com o acesso ao espaço, fazendo da revolução espacial uma revolução verde. Esse acesso poderá acontecer de diversas formas, mas a mais provável é baratear o seu custo, permitindo chegar lá por um elevador espacial sobre o equador terrestre. Uma vez criada, essa estrutura seria equivalente ao Canal do Panamá, transformando-se num grande vínculo logístico. Existem seis locais candidatos para essa estrutura, que pode ser disputada nesse conflito: Gabão, Quênia, Sumatra, Bornéo, Equador e Amapá. Outra variável é que, a essa altura, as IA’s já devem ser tão sofisticadas que podem ter uma capacidade cognitiva igual ou superior à dos humanos, e podem existir seres híbridos, na medida em que a longevidade humana se ampliar e modificações genéticas e biomecânicas ficarem cada vez mais comuns, graças aos avanços da biotecnologia e da nanotecnologia. A fronteira entre humanos e seres artificiais ficará cada vez mais turva. É possível imaginar movimentos sufragistas de IA’s e de humanos modificados. É difícil prever como essa guerra poderá se desdobrar e terminar, mas certamente ela resultará numa nova potência hegemônica, que vai liderar outra revolução tecnológica. DOM 49 devemos visionar os países potenciais não com suas fronteiras atuais, mas como entidades em formação Ato 4 – A nova hegemonia e a recuperação dos anos 2090 Uma nova potência hegemônica deverá se firmar no final do século e a pergunta inevitável é: que nação seria esta? A resposta é impossível de precisar, mas podemos analisar padrões de repetição e traçar algumas hipóteses. O primeiro padrão de repetição é que todas as potências hegemônicas foram potências navais para controlar o fluxo de trocas no meio central – os oceanos. Hoje, no entanto, os meios de troca eletromagnético e aéreo são críticos e, no futuro, o meio espacial também será. Muito provavelmente a futura potência hegemônica terá grande poderio no espaço e acesso a um elevador espacial sob seu controle. O segundo padrão observado é que toda nova potência hegemônica sempre atraiu empreendedores e investidores da anterior, com um ambiente de negócios mais favorável ao investimento de longo prazo. A Holanda, que fazia parte do Império Habsburgo, garantiu melhores condições de investimento do que a Espanha. No final do século 18, o Reino Unido tornou-se um lugar mais atraente do que a Holanda, não apenas pelas condições legais e de impostos, mas também por ser uma nação menos vulnerável às invasões militares. Os EUA atraíram os negócios ingleses na virada do século 19 para o século 20, pelos mesmos motivos – um ambiente mais propício aos investimentos e também mais seguro. Qualquer nação que aspire se tornar uma potência hegemônica precisa dessas duas condições, ou seja, capacidade de atrair investimentos e segurança jurídica e militar. O terceiro padrão é que a nação hegemônica ainda não estava pronta durante a hegemonia anterior. A Holanda ainda era uma província espanhola durante o domínio dos Habsburgos, o Reino 50 DOM Unido só se unificou com a revolução gloriosa durante a hegemonia holandesa, e os EUA ainda estavam em plena guerra civil e na sua marcha para o Oeste durante a hegemonia britânica. Dessa forma devemos visionar os países potenciais não com suas fronteiras atuais, mas como entidades em formação. Cruzando esses três padrões, é possível imaginar alguns candidatos: uma Europa unificada; os EUA unificados politicamente ao México; uma união sul-americana decorrente da expansão demográfica brasileira; uma China com colônias por toda a Oceania e África; uma Índia expandida por toda a bacia do Oceano Índico; uma Rússia estendida ao longo da ferrovia transiberiana em direção ao Pacífico. Todas essas possibilidades não passam de mera especulação e, provavelmente, a realidade será ainda mais surpreendente. Haverá também uma revolução tecnológica, muito provavelmente associada a uma revolução espacial e verde, na medida em que aumentarem as contradições entre a terra desenvolvida e as novas colônias orbitais do sistema solar. Esse período poderá ser semelhante ao colonialismo dos séculos 16 e 17. Paulo Vicente dos Santos Alves é professor da Fundação Dom Cabral, doutor em administração pela FGV, membro internacional da American Society for Public Administration (ASPA) e Fellow da Strategic Planning Society (SPS-UK). Conclusões Neste artigo, exploramos o futuro ao longo do século 21, utilizando o arcabouço teórico dos ciclos hegemônicos e de Kondratieff, com o objetivo não de prever o futuro com grande precisão, mas de levantar um sistema de hipóteses e gerar mais perguntas. Afinal, a ciência está mais embasada em perguntas do que em respostas. Encontramos um século dividido em quatro atos. O primeiro será uma crise gerada pelo agravamento dos problemas atuais e as respostas equivocadas dos Estados nacionais, que vemos diariamente na mídia. Isso levará a uma crise na década de 2020 que pressionará a P&D a buscar novas tecnologias. O segundo ato será uma revolução tecnológica, decorrente das inovações geradas durante a crise, que se expandirá na década de 2040, provocando mudanças na matriz energética, introdução em larga escala de robótica e mudanças geopolíticas. O terceiro ato será quase uma consequência dessas mudanças geopolíticas – uma série de conflitos provocará uma transição hegemônica, na medida em que o sistema ficar instável e exigir um novo equilíbrio. O quarto ato será uma revolução tecnológica, associada a uma nova potência hegemônica, que ainda não existe em sua forma definitiva nos dias de hoje. Essa nação está em formação. Como conclusão final podemos afirmar que o futuro não é pré-determinado, mas o estudo dos ciclos nos permite uma análise das prováveis estruturas de causa e efeito que provocam as grandes mudanças. Assim, podemos pensar em como as organizações podem tirar proveito dessas mutações para ampliar suas oportunidades e se prevenirem contra as ameaças. Para se aprofundar no tema ARRIGHI, Giovanni O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Rio de janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora UNESP, 1996. KONDRATIEFF, Nikolai D. The long waves in economic life. Whitefish: Kessinger publishing, 2010. DOM 51