INTELECTUAIS E A EDUCAÇÃO: UMA REFLEXÃO PRELIMINAR
SOBRE O DEBATE EDUCATIVO NACIONAL NOS DISCURSOS DO
DIÁRIO DOS CAMPOS1 (1907 – 1934)
SOUZA, Eliezer Felix de - UEPG
[email protected]
Área temática: Educação: História e Políticas
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Este texto é resultado de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida2 no programa de
Mestrado em Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa, linha de pesquisa História
e Políticas Educacionais. O objetivo principal do trabalho é analisar a reverberação dos
debates nacionais sobre educação nos discursos dos jornais “O Progresso” e “Diário dos
Campos” de Ponta Grossa. A questão central da pesquisa será entender a participação dos
intelectuais pontagrossenses na divulgação, por meio de seus discursos, do debate educativo
nacional e paranaense. Em que medida é possível perceber em Ponta Grossa a reflexão dos
debates intelectuais a respeito da educação ocorridos na capital brasileira e na capital
paranaense? Como os grupos envolvidos nos jornais O Progresso e Diário dos Campos
dialogavam com as idéias postuladas pelos intelectuais do Distrito Federal e da capital do
Paraná? Nesse sentido, a iniciativa desta pesquisa é desenvolver ou produzir análise histórica
à luz das ações dos intelectuais presentes no cenário político e cultural de Ponta Grossa. Nesta
investigação dialogamos com o conceito de intelectual discutido por Antonio Gramsci que,
considera como intelectuais todos aqueles que participam ativamente da direção e da
organização dos projetos culturais, visando intervir sobre os modos de vida e processos de
formação humana. Este percurso analítico está circunscrito ao período de 1907 a 1934, cuja
análise será feita à luz dos jornais O Progresso e Diário dos Campos. O primeiro período se
justifica pelo ato de fundação do Jornal O progresso, ou seja, é o ano de sua criação que
estabelece o recorte do início desta pesquisa. O recorte final está circunscrito ao contexto de
reverberação das idéias do Manifesto dos Pioneiros da Educação, momento este, que o jornal
passa também a enfrentar sérias dificuldades.
Palavras-chave: História; Intelectuais; Educação no Paraná.
1
Jornal centenário que tem circulação diária em Ponta Grossa. Foi fundado em 1907, com o nome de “O
Progresso”. Em 1913 passou a se chamar “Diário dos Campos”, nome que preserva até hoje.
2
Este trabalho esta sendo orientado pelo professor Névio de Campos. Doutor em História da Educação
pela Universidade Federal do Paraná, atualmente é professor do Departamento de Educação da UEPG e também
do Programa de Mestrado em Educação da mesma instituição.
3999
Introdução
As pesquisas no campo da história intelectual são recentes. No Brasil e,
particularmente no Paraná vem sendo constituídos grupos de investigação nos últimos dez
anos. Na história intelectual da educação o processo de constituição de grupos de pesquisas é
mais recente ainda e, vem ocorrendo nos programas de pós-graduação em educação das
instituições de ensino. No Estado do Paraná merece menção o Grupo de Pesquisa em História
Intelectual da Educação, coordenado por Carlos Eduardo Vieira, professor da Universidade
Federal do Paraná. A preocupação destes pesquisadores é “[...] pensar as idéias, as
representações e/ou discursos veiculados no debate intelectual, a partir dos seus contextos de
produção, de circulação e de recepção”. (VIEIRA, 2007, p. 9).
No horizonte teórico da história intelectual um dos debates se refere ao conceito de
intelectual discutido por Antonio Gramsci. Em suas análises, esse pensador distingue a
intelectualidade tradicional que se considera uma classe ou comunidade à parte e os grupos
que as classes produzem organicamente, a partir das suas relações. Essas novas classes
exercem funções predominantemente intelectuais e fazem parte de instituições ligadas à
atividade cultural. O elemento fundamental oriundo das reflexões de Gramsci consiste em
reconhecer que os intelectuais não constituem camadas externas às lutas políticas, sociais e
culturais. Ao contrário o intelectual se caracteriza pelo imiscuir-se nas diferentes esferas da
vida societária. E uma dessas esferas é o jornalismo que, no mundo moderno, passou a
exercer um espaço profícuo no processo de constituição de novos modos de pensar, de agir,
de sentir e de ser. É nesse ambiente interpretativo que se a nossa pesquisa, pois a mídia
impressa materializa o objeto desse projeto investigativo.
No entendimento de Carlos Eduardo VIEIRA (2001, p. 55), “Investigamos os
intelectuais porque consideramos que as suas idéias e a as suas trajetórias são testemunhos
privilegiados dos diversos projetos formativos que demarcam as disputas em torno da direção
dos processos de formação de novas gerações”. Na esteira dessa afirmação reiteramos que são
os intelectuais os principais responsáveis por traduzir em termos teóricos e sobretudo, nos
marcos de uma plano de ação política os objetivos almejados pelos diferentes grupos e classes
sociais que disputam a hegemonia na sociedade, isto é, as funções de domínio e de direção
cultural.
Pelo exposto consideramos necessário entender as reflexões sobre a função social dos
intelectuais à luz das idéias de Gramsci. A preocupação historicista desse pensador é
4000
traduzida com o postulado de que não existe nenhum a priori de formação e/ou posição
institucional para definir o intelectual. Para ele:
Não há atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não
se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo o homem é
intelectual, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou
seja, é um “filosofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção
de mundo, possuí uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para
manter ou para modificar uma concepção de mundo, isto é, para promover novas
maneiras de pensar. (GRAMSCI, 2001, p. 52-53)
A rigor, “cabe sempre ao investigador interessado na sua exploração analisar a
natureza dos projetos formativos em curso, a ação dos seus protagonistas e, sobretudo, avaliar
em contexto as conseqüências sociais desses projetos.” (VIEIRA, 2001, p 57). Desse modo, a
análise dos intelectuais pontagrossenses será feita a partir dos contextos da educação nacional
e paranaense, enfatizando a repercussão desses debates entre os protagonistas dos jornais de
Ponta Grossa.
Na concepção de Gramsci, os intelectuais se distinguem em dois níveis. De um lado a
intelectualidade tradicional, e do outro os grupos pensantes que as classes produzem. Gramsci
entende que os intelectuais orgânicos não são apenas grandes intelectuais, mas são também
aqueles que difundem a concepção de mundo revolucionária se envolvendo na vida prática
das massas. Nessa pesquisa o adjetivo orgânico não é objeto de discussão, pois não temos a
pretensão de localizar entre os integrantes dos referidos jornais suas relações com as classes
sociais. O que é relevante da discussão de Gramsci é a atribuição dada aos intelectuais, qual
seja: de organizadores de visões de mundo e mobilizadores dos indivíduos em prol de projetos
políticos, sociais e culturais. Nesse aspecto retemos a noção de que os grupos sociais exigem
a presença dessas lideranças3.
Essas questões norteiam nossa análise: Que intelectuais desfilaram nas páginas dos
jornais O Progresso e Diário dos Campos? Que papel educativo exerceram nesses? Sobre que
grupos sociais suas intervenções impactaram? Por meio das idéias de Gramsci sustentamos
que os intelectuais dos jornais pesquisados representam a forma de pensar de importantes
segmentos da comunidade local que caracterizava a cidade no início do século.
Os jornais apresentam a princípio uma tendência neutra em relação a dois fatores
essenciais da vida social: a política e a religião. No campo discursivo, a neutralidade como a
3
Sobre o conceito de intelectuais consultar o volume dois dos Cadernos do Cárcere de Gramsci.
4001
explicitada é praticamente impossível. Nesse sentido cabe ao historiador “descobrir os poucos
fatos importantes e transformá-los em fatos da história e de descartar os muitos fatos
significativos como não históricos”. (CAAR, 1982, p. 51). E Carr na sua reflexão vai ainda
mais longe: “os fatos não falam por si, mas apenas quando o historiador os aborda: é ele quem
decide quais os fatos que vêm à cena e em que ordem ou contexto” (p. 47).
Os jornais para o historiador são documentos. E sem documento não se faz história. A
respeito do problema do documento Jacques Le Goff afirma que “não é qualquer coisa que
fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de
forças que aí detinham o poder”. (LE GOFF, 1994, p. 545). Portanto, a analise dos periódicos
como documentos será feita avisada do debate teórico da História, pois assim garantimos o
sentido da objetividade na pesquisa histórica.
João Dutra foi o primeiro redator do jornal O Progresso. Em 1908, o cargo foi
transferido para Hugo de Borja Reis4. Como redator, Reis levantou a tese de mudança
editorial do Jornal. Ao mesmo tempo, parece que a anunciada neutralidade identificada no
projeto editorial do jornal é descaracterizada. “Reis continuou vivenciando e interagindo com
as causas nacionais, acompanhando os acontecimentos passo a passo. A Candidatura5 de Rui
Barbosa significava para ele uma real possibilidade de por fim à política do café com leite.”
(BUCHOLDZ, 2007, p. 32)
No dia 01 de janeiro de 1913, O Progresso passou a se chamar Diário dos Campos.
Nessa nova fase, ainda sob a editoração de Hugo Reis, o Jornal passou a ampliar sua
visibilidade sobre a cidade. O jornal procurou trazer para a cidade as mais diversas
inquietações dos pontagrossenses, em forma de crônica, verso ou prosa. Na edição de 02 de
setembro de 1921, Hugo dos Reis já não aparecia como diretor do Diário dos Campos. A
partir de então o jornal prosseguiu enfrentando muitas dificuldades. Em 1924, a Casa da
Memória passou a não mais receber os exemplares para arquivo. De 1932 em diante, o Museu
Campos Gerais passou também a preservar a memória desse Jornal.
No artigo intitulado História dos, nos e por meio de periódicos Tania Regina de Luca
faz alguns apontamentos a respeito de pesquisas com periódicos. De modo geral, fica
4
Chegou em Ponta Grossa em 1908. Apesar de ter vindo de São Paulo, Hugo Reis era natural do Rio de
Janeiro. Era um leitor contumaz da literatura do seu tempo, descrevia e dialogava com o universo social. Ele
transitava entre as correntes literárias do romantismo, do realismo e do simbolismo. Por isso, na redação de O
Progresso ele mostrava ser capaz de debater qualquer assunto (BUCHOLDZ, 2007, p. 31).
5
A convenção realizada em 3 de outubro de 1909, no teatro Lírico, na Bahia lançava a candidatura de
Rui Barbosa a Presidência da República.
4002
perceptível que, até a década de 1970 ainda eram raros os trabalhos que se valiam de jornais e
revistas como fonte para o conhecimento da História. Porém, a Escola dos Annales, já havia
lançado, em 1930, as bases de novas perspectivas de pesquisa. Hoje, merece destaque a
história imediata voltada para o tempo presente. Porém os meios de comunicação impressos
devem ser analisados sob suspeição:
Quando analisamos um jornal impresso temos que tomar vários cuidados, um deles
diz respeito a fonte de informação: “sua tiragem, área de difusão, relações com
instituições, grupos econômicos e financeiros, aspectos que continuavam
negligenciados seja pelos historiadores que recorriam a imprensa, seja pelos que se
dedicavam a escrever sua história. (LUCA, 2005, p. 116)
Pesquisas em jornais têm se tornado cada vez mais freqüentes. Devemos considerar o
texto jornalístico como uma construção, uma versão que envolve múltiplas implicações: visão
de mundo do proprietário, do jornalista, a situação de sua produção, entre outras. Nesta
pesquisa procuro empregar o jornal como fonte, buscando a partir da análise de seus discursos
perceber os reflexos dos debates educativos que estavam presentes no cenário nacional.
Foucault, ao discorrer sobre os discursos diz: “Quanto as análises discursivas é preciso
estar atentos a todos os detalhes analíticos. Suas dependências e reciprocidades.”
(FOUCAULT, 2004, p 26) Num livro por exemplo, contínua Foucault: “ além do título, das
primeiras linhas e do ponto final, além da sua configuração interna e da forma que lhe dá
autonomia, ele está preso a um sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras
frases.” (p. 26). Ou seja, não é possível analisar os discursos em contextos isolados. Devemos
sempre estar atentos as suas fundamentações teóricas e em todos os aspectos que envolvem a
produção do conteúdo.
Ponta Grossa na Voz dos Intelectuais: “O Jornal Diário dos Campos no Contexto da
Educação Nacional”
No final do século XIX, o Brasil viveu uma conjuntura de grandes transformações,
tanto no aspecto político, como social e cultural, entre os quais destacamos a abolição da
escravidão e a criação da República. Em princípio a proclamação da República não alterou o
quadro político no Brasil e no Estado do Paraná.
Ponta Grossa começou a sentir sensíveis reflexos na estrutura social e econômica
apenas no início do século XX. Essa mudança é resultante de dois fatores principais: o
primeiro “a crise econômica das fazendas de gado” (LEANDRO, 1995, apud ZULIAN 1998,
4003
p. 40) que obrigou muitos fazendeiros a irem para a cidade. O Segundo, foi a chegada à
cidade de uma nova burguesia industrial. Desse modo, no início do século Ponta Grossa
“respirava um 'clima urbano', havia bandas musicais que disputam o espaço para
apresentações, cinema, luz elétrica, associações beneficentes e hospital.” (DITZEL, 2007, p.
49).
Segundo Rosângela Wosiach Zulian,
Essas mudanças foram sentidas de maneira geral por diversos intelectuais e/ou
jornalistas paranaenses. Dedicaram-se especialmente a Curitiba, mostrando nos seus
escritos o perfil de uma sociedade, em franco processo de urbanização, abrindo-se à
cultura moderna, “uma camponesa que se torna cidadã.” Quando escrevem sobre
Ponta Grossa a perspectiva que refletem é semelhante.” (ZULIAN, 1998, p. 42)
De acordo com Zulian, em crônica escrita para o Jornal Diário dos Campos, Raul
Gomes sustentava que: “o movimento urbano ultrapassa o tamanho da cidade. Vê-se gente
por toda a parte. À noite flana nas ruas, penetra as lojas, enche três cinemas, freqüenta os
clubes” (ZULIAN, 1998, p. 43). Essas novas visões sobre a cidade visavam construir uma
ideologia do progresso que, nos momentos de consolidação do regime republicano, passou a
ser veiculada em caráter nacional.
Nesse clima de modernização, o que nos interessa particularmente é o debate em torno
da renovação cultural. A fundação do Jornal O Progresso é um marco importante para a
história da cidade, tendo em sua circulação um importante aliado na formação da “opinião
pública”. Fundado por Jacob Hozlmann6,
em 1907, o referido jornal, no seu primeiro
número, anunciava sua tendência editorial:
Ao iniciarmos hoje na afanada lide jornalística com esse nosso modesto e
despretensioso jornal hedomanário, nesta cidade inquestionavelmente predestinada a
um grandioso futuro, se todos quanto a habitam bem compreendem o que a uma
pátria legítima ou simplesmente adotiva devem seus dignos filhos, outro escopo não
temos que não o cooperar resoluta e crentemente para o elevamento moral e material
de Ponta Grossa e para que o Paraná frutifiquem todas as idéias e cometimentos
aplausíveis, sem nos envolvermos direta ou indiretamente em questões políticas ou
religiosas, as quais irrefutavelmente hão sido em nosso país o mais poderoso fator de
palavras e fatos por completo antagônicos ao foros de de nossa civilização. O
Progresso, 27 de abril de 1907, órgão dedicado aos interesses do município e do
Estado.” (BUCHOLDZ, 2007, p. 21)
6
Jacob Holzmann era Russo de nascimento, natural de Saratov. Viera para o Brasil numa leva de
imigrantes, em 1877, quando tinha apenas três anos de idade. Comerciante, dono de alfaiataria, Holzmann é o
fundador do jornal “O Progresso”, em 1907.
4004
O que fizemos até aqui foi uma tentativa de contextualizar Ponta Grossa no início do
século XX, bem como fazer alguns apontamentos em relação a natureza da produção do
conhecimento histórico. Buscamos também, definir os principais aspectos relacionados à
pesquisa nos periódicos. Agora trataremos da questão central da pesquisa: o debate do projeto
educativo nacional, discutindo primeiramente do contexto paranaense.
No Paraná, a formação de tendências intelectuais em confrontos na cena pública
remonta aos últimos anos do século XIX. O intenso debate entre clericais e anticlericais sobre
os rumos da República e, por extensão, da educação pública marcaram a imprensa paranaense
e a ambiência cultural de Curitiba nas primeiras décadas do século XX. Nos anos vinte, o
marco mais representativo desse processo estava na realização da Primeira Conferência
Nacional de Educação, promovida pelo governo do Estado do Paraná em parceria com a
ABE, em dezembro de 1927.
Dario Vellozo, antes mesmo da realização da Conferência Nacional de Educação, já
representava um dos principais articuladores do projeto de educação moderna no Estado.
Vellozo queria criar um clima propício à transformação dos padrões de comportamento, das
formas de pensar e ver o mundo. “[...] estimulou a implantação da escola moderna no Estado
parananense, pautada em um programa que buscava a laicização, a publicização, a
moralização do ensino.” (ANDRADE, 2007, p. 199)
Assim, nas primeiras décadas do século XX, Curitiba foi sendo reconstruída a partir de
uma idéia de cidade marcada pela noção de progresso, reconhecendo-se nela a presença do
ideário positivista que circulava no meio intelectual curitibano. A idéia era modernizar a
cidade, não apenas física e materialmente, mas também culturalmente.
Em O discurso da Modernidade nas conferências educacionais na década de 1920 no
Paraná, Aurélio Bona Junior e Carlos Eduardo Vieira (2007, p. 13-40), demonstram o
discurso que associa educação e modernidade em dois eventos educacionais da década de 20:
O Congresso de Ensino Primário e Normal (CEPN – 1926) e a Primeira Conferência Nacional
de Educação (PCNE – 1927). Participaram dessas conferências, representantes nacionais,
Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira. No Paraná, as figuras de destaque foram César Prieto
Martinez e Lysímaco Ferreira da Costa. Um dos objetivos centrais dessas conferências era
discutir e propor alternativas aos problemas nacionais que, segundo a crença da época,
poderiam ser sanados pela ação educativa. Apesar das discordâncias educacionais, não se
percebe nos debates divergências tão acirradas entre católicos e educadores laicos.
4005
Jean Carlos Moreno analisa a participação exclusiva de César Prieto Martinez e
Lysimaco Ferreira da Costa à frente da instrução pública no Paraná. Esses educadores
procuraram empreender e ampliar a estrutura do ensino público no Estado. A idéia era “a
partir da modernização da escola, modernizar toda a sociedade.” (MORENO, 2007, p. 58). Se
falava então em racionalidade e produtividade na organização escolar. A modernidade
pretendida por esses homens partia do princípio da existência de um povo moldável ao seus
desejos, ou seja, semearam um modelo de escolarização, mesmo com resistência e
apropriações no Estado do Paraná.
Um outro artigo, Intelectuais e a Educação no Paraná nas décadas de 20 e 30, de
Névio de Campos (2007, p. 175-190), aborda o embate entre católicos e anticlericais. A
discussão central do texto diz respeito ao papel dos intelectuais católicos leigos paranaenses
no processo de organização do projeto formativo da Igreja Católica. Para cumprir com essa
tarefa, a igreja contou com apoio do laicato católico, que eram membros da igreja mas que
não faziam parte da hierarquia oficial católica. O grupo laico agiu em duas frentes: através da
imprensa e do Círculo de Estudos Bandeirantes. O objetivo dessa iniciativa era ganhar
novamente o espaço perdido com a laicização preconizada pelo governo republicano.
Por último, o artigo O movimento pela escola nova no Paraná: Trajetória de Erasmo
Pilotto, de Carlos Eduardo Vieira, que sustenta que Pilotto teve um papel decisivo “na
introdução e na disseminação pela escola Nova, enfatizando as bases teóricas da concepção
de formação humana que ele produziu a partir
de sua interlocução com o movimento
renovador” (VIEIRA, 2001, p. 54).
Na primeira Conferência Nacional de Educação, como já exposto acima, a principal
temática foi a causa educacional. A Igreja Católica foi o grupo mais representativo, uma vez
que tinha o apoio da esfera estatal, nada menos do que o Governador Caetano Munhoz da
Rocha e Lysimaco Ferreira da Costa, Inspetor Geral da Instrução pública no Paraná.
Essas discussões presentes no Paraná fazem parte de um contexto mais amplo. As
discussões que envolviam a educação nacional se prolongavam desde o século XVIII, quando
Portugal foi influenciado pelo Iluminismo. Este período vai até início do século XX quando
torna-se forte a influência da Escola Nova. A Pedagogia Nova é, pois uma concepção já
inspirada no modelo humanista moderno de educação. É nesse contexto, que em 1924 é
fundada a ABE. Em seu interior dois grupos lutavam por projetos diferentes de educação:
“Um deles, católico, muito próximo ao da formulação de Jackson Figueiredo, enfatizava o
4006
papel das “elites na construção de um nacionalismo a partir do “sentimento patriótico”
existente na multidão.” (CARVALHO, 1998, p. 43). O outro grupo, “recusava o catolicismo
mas, igualmente, atribuía as ‘elites’ um papel fundamental na formação da nacionalidade,
coincidindo com o nacionalismo católico ao propor a relação ‘povos-elites’ (p. 43).
As discussões da Associação Brasileira de Educação foram desenvolvidas através de
Conferências realizadas em vários cantos do Brasil: “O grupo católico, participou dos debates
até 1932, quando Anísio Teixeira e Carneiro de Leão tinham sido eleitos presidentes”
(CARVALHO, 1998, p. 71). Desse modo se efetivavam os signatários da Escola Nova na
Associação Brasileira de Educação.
De acordo com PAGNI (2000, p. 49), “a intelectualidade brasileira nascente, durante
os anos 1920, viu na educação um modo de formar as ‘novas elites’ para servir o Estado, e ao
mesmo tempo, promover a nacionalidade por meio de uma cultura nacional”. Defendia-se a
idéia de superação da educação tradicional a partir da consolidação de um saber científico e
positivo.
Sendo assim se percebe uma diferença dos projetos políticos pedagógicos do início da
Republica que tinham como base o Positivismo de Comte e os ideais escolanovistas,
modelados acima de tudo por concepções européias e norte-americanas. Diante desse amplo
debate, “em março de 1932 veio a público o texto original do Manifesto” (PAGNI, 2000, p.
87) .O Manifesto confere à educação um status de promotora de reformas sociais mais amplas
necessárias à formação social e cultural brasileira. No entanto os discursos desses intelectuais
“preservam seus traços de “elitismo” e a mesma concepção em relação ao povo” (p. 97).
Por fim, a partir do Estado Novo, principalmente após 1934, parece que o entusiasmo
dos pioneiros sofreu uma forte queda. Apesar de muitos pioneiros, ainda continuarem na base
do governo, a supremacia alcançada junto à Associação Brasileira de Educação não consegue
em plano nacional concretizar os seus objetivos. De qualquer forma o início do século XX foi
palco de debates em torno de questões educacionais. A tarefa dessa pesquisa será discutir em
que medida estes debates reverberaram as ações dos intelectuais envolvidos nos periódicos de
Ponta Grossa. Estes debates estão presentes nos conteúdos do Jornal Diário dos Campos.
Nossa tarefa será explorar nos discursos desse jornal os impactos que tiveram estes debates
nos campos gerais. Dito de outra forma, como esses intelectuais pontagrossenses perceberam
esse debate?
4007
CONCLUSÃO
Até a década de 1970, ainda eram raros os trabalhos que usavam periódicos como
fonte para o conhecimento da História do Brasil: “A preocupação era escrever a ‘História da
Imprensa’, mas era preciso ‘mobilizá-los’ para a escrita da história por meio da Imprensa.”
(LUCA, 2005, p. 111). Todos esses aspectos vêm sendo observados. Porém, no Brasil os
historiadores têm enfrentado enormes dificuldades em relação aos arquivos e fontes. Não é
diferente a nossa experiência, pois a Casa da Memória, onde realizamos a pesquisa de campo
está com boa parte do seu acervo fechado para pesquisas. Nesse sentido, resta ao historiador
seguir pistas que o levem até a problemática pesquisada.
Uma das alternativas é usar a perspectiva de trabalho apontada pelo historiador
Antonio Prost: “alterou-se o modo de inquirir os textos, que interessemos menos pelo que eles
dizem do que pela maneira como dizem, pelos termos que utilizam, pelos campos semânticos
que traçam” (PROST Apud LUCA, 2005, p. 114). E poderíamos completar, também pelo
interdito, pelas zonas de silêncio que estabelecem. Neste sentido, é preciso adotar nas análises
de periódicos uma postura de suspeição, ou seja, suspeitar de tudo, sempre tendo como
ferramenta as próprias metodologias históricas de interpretação.
Com isso procuraremos desenvolver essa pesquisa, centralizando as atenções no
período circunscrito à fundação do Jornal O Progresso, em 1907 e ao processo de constituição
do Manifesto dos Pioneiros da Educação, bem como a aprovação da Constituição de 1934. A
intenção será confrontar os projetos de reformas propostos na época pelos intelectuais de
destaque no cenário nacional e paranaense com os discursos dos jornais O Progresso e Diário
dos Campos. A hipótese é de que, dentro do conjunto de alterações em âmbito paranaense e
nacional os intelectuais de Ponta Grossa não ficaram alheios e sentiram as repercussões
principais que movimentaram o pensamento intelectual no início do século XX.
Ainda que se manifeste de modo ufanista, fazendo alusão à idéia de progresso, os
discursos dos jornais nos dão uma noção da forma que o debate nacional reverberava nesta
região do Estado do Paraná. Nesses termos, ao analisar os discursos desses periódicos
objetivamos responder a problemática central desta pesquisa: a interpretação feita pelos
intelectuais paranaenses a respeito dos debates educativos travados nas principais capitais
brasileiras.
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