O Rádio na Integração dos Países do Mercosul: Realidade das Cidades de
Porto Alegre e Montevidéu1
Nome do autor
Cristiane Pinto Pereira2
Instituição
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Resumo
A pesquisa aborda como o rádio está sendo usado para a integração dos países do Mercado
Comum do Sul (Mercosul). Como recorte desta realidade, serão analisados programas de duas
importantes cidades da região: Porto Alegre e Montevidéu. Como embasamento teórico serão
aplicadas teorias sobre integração de culturas no processo de globalização, além de obras sobre
indústria cultural e regularização da radiodifusão no Mercosul. Ao final, conclui-se que isolados
esforços estão sendo realizados no sentido de utilizar o rádio para unificar sócio-culturalmente os
povos dos países membros deste bloco.
Palavras-chave
Rádio; Mercosul; jornalismo; integração.
Corpo do Trabalho
O Mercado Comum do Sul (Mercosul), criado em 1991 com a assinatura do Tratado de
Assunção, é um processo de integração ainda não consolidado. O Bloco composto por Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai é, atualmente, uma União Aduaneira, ou seja, ainda temos que seguir
um caminho repleto de dificuldades a fim de concretizar um Mercado Comum.
O pouco que se avançou no tratado refere-se aos aspectos econômicos e comerciais. A área
sociocultural parece ter sido deixada em segundo plano, tanto pelas políticas do Mercosul, como pelos
meios de comunicação dos países membros do bloco. No caso específico deste trabalho, enfocamos o
fato de que o meio radiofônico, com toda a sua força e potencial, não está sendo usado para a
construção de um Mercosul mais amplo, com uma integração sociocultural e não apenas econômica.
Em vista da importância dessa ampliação para a consolidação do Mercosul, é oportuna e
relevante a realização de um estudo que analise o papel do meio radiofônico nesse contexto. O
1
Trabalho apresentado ao I Colóquio Transfronteiras Sul de Ciências da Comunicação: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Graduada em Comunicação Social — Habilitação em Jornalismo — pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS). Especialista em Jornalismo de Conflitos pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha). Atualmente é mestranda de
comunicação da PUCRS.
2
trabalho enfatiza o rádio por esse ser considerado o mais eficaz meio de comunicação a serviço da
transmissão de fatos, devido à capacidade de ser entendido por um público muito diversificado. Além
disso, o poder de comunicação do rádio é muito grande, tendo uma forte amplitude de cobertura.
Neste artigo, mais especificamente, serão analisados programas de rádios de Porto Alegre,
capital do Rio Grande do Sul (estado brasileiro que faz fronteira com o Uruguai), e de Montevidéu,
capital uruguaia. O objetivo é verificar se o rádio nestas duas cidades está sendo utilizado para integrar
os povos dos países do Mercosul.
Integração sociocultural e meios de comunicação
O processo de integração latino-americano é longo e vem de muitos anos. Desde 1947,
quando foi criada a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), já se percebia um esforço
de atuação conjunta regional. Com o passar do tempo, percebeu-se a grande dificuldade de realizar
essa unificação, principalmente no aspecto sociocultural.
Um dos grandes motivos que justifica esse problema é o fato da América Latina possuir uma
grande diversidade de culturas. Essa diversidade, além de ser uma barreira para a integração
sociocultural no continente, é, para muitos, uma das grandes obstáculos do Mercosul. Ninguém quer
deixar sua cultura de lado para adquirir a de outro país.
Para Castells ( 1997:359), a construção de uma identidade supranacional é um processo muito
difícil. Segundo ele, na União Européia, assim como o processo de aceleração da integração coincidiu
com o estancamento do nível de vida, com o aumento de desemprego e uma maior desigualdade social,
nos anos 90, setores significativos da população tendem a firmar sua nações contra seus estados, os
quais consideram cativados pela supranacionalidade européia. Para esse teórico, uma nação só
permitirá a integração quando estiver segura de que sua identidade nacional não será ameaçada, e,
inclusive, sairá fortalecida pelo contato com identidades diferentes.
Neste contexto, outro ponto que necessitamos refletir a fim de buscar uma explicação para a
dificuldade de uma integração sócio-cultural no Mercosul é a regulamentação da radiodifusão dos
membros do bloco. Apesar da diversidade cultural existente nesses países, as estruturas regulatórias da
radiodifusão são muito semelhantes.
Segundo Jambeiro, as regulamentações do Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, mesmo que
praticadas por autoridades diferentes, prevêem cinco grandes funções: “concessão de freqüências,
administração e controle do espectro eletromagnético, fiscalização dos serviços de radiodifusão,
aplicação de multas e sanções e imposição de taxas e tarifas” (2000:140). Desta forma, percebe-se que
as regulamentações do setor nos países membros do Mercosul referem-se apenas a dados técnicos,
mantendo em segundo plano a questão da diversidade cultural e da integração sócio-cultural.
Além disso, Jambeiro afirma que apesar da consolidação universal dos princípios do modelo
liberal e da economia de mercado, nos países do Mercosul, o Estado, direta ou indiretamente continua
sendo a principal autoridade no meio regulador da radiodifusão:
Na Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai as legislações estudadas mostram
que a regulamentação da radiodifusão continua centralizada em organizações do
Estado, particularmente os poderes executivo e legislativo. É a elas que caberá
encontrar a forma de regulamentar a radiodifusão em dimensão internacional,
possibilitando a integração dos países membros do Mercosul entre si e com a indústria
cultural mundial (2000:141).
Rádios Brasil X Uruguai
Emissoras de rádio de Montevidéu
Analisamos aqui alguns programas e rádios da capital uruguaia. Primeiramente, vamos
observar o caso do programa considerado o número um lá: En Perspectiva da Rádio El Espectador. O
tema Mercosul não é obrigatório no programa, mas quando se revisa o conteúdo semanal ele está
muito presente.
Segundo o consultor de conteúdos da rádio, Ernesto Kreimerman3 , o programa, que vai ao ar
diariamente das 7h às 13h, dedica mais que duas horas semanais ao Mercosul. Conforme ele, esse
tempo pode variar. Por exemplo, na época do depoimento à autora, julho de 2001, as rádios estavam
falando muito da crise que a Argentina estava passando. Assim, de acordo com Kreimerman, o tema
Mercosul acabava, mesmo que indiretamente, entrando todos os dias no programa.
Além disso, Kreimerman acredita que fazer um programa destinado somente ao Mercosul
não daria certo. Ele explica isso pelo fato de que já existiu no Uruguai uma agência de notícias do
Mercosul, que durou cerca de cinco anos e não teve sucesso. Para ele, um programa de rádio sobre o
Bloco talvez não tivesse audiência. Mas afirma: “Seria interessante fazer um programa destinado ao
Mercosul se o enfoque fosse para a microeconomia e não para a macroeconomia, como vêm se dando
mais destaque nos meios de comunicação em geral”. 4
Na mesma rádio, outro programa demonstra um esforço de integração entre os países do
Mercosul. É o Dinámica Rural, programa destinado a temas do campo. Indo ao ar em dois diferentes
horários, o programa possui correspondentes em todos os países do bloco, que periodicamente
transmitem, notícias ligadas às suas nações.
3
Conforme depoimento de KREIMERMAN, E. à autora. Montevidéu, 17 de julho de 2001
A jornalista brasileira que trabalha para a rádio, Adriana Kuhn, realiza seus boletins em
espanhol semanalmente. Isso mostra que o idioma é um desafio que pode ser superado neste caminho
da integração.
Outro exemplo é a Rádio Rural do Uruguai. A autora deste artigo é a correspondente
brasileira da rádio, realizando, quinzenalmente e em espanhol, um boletim sobre as últimas notícias do
setor rural brasileiro.
Emissoras de rádio de Porto Alegre
Para verificar como o rádio da capital do Rio Grande do Sul está sendo utilizado para integrar
os povos do Mercosul, foi tomado como base o estudo de Haussen (1999), que analisou 30 horas dos
programas mais ouvidos em Porto Alegre, no gênero jornalístico-cultural, conforme o IBOPE de
março de 1998. São eles: Gaúcha Hoje, da rádio Gaúcha Sat, Flávio Alcaraz Gomes Repórter, da rádio
Guaíba, e o Jornal Gente, da rádio Bandeirantes AM.
O resultado da pesquisa mostrou que apenas 10 minutos e cinco segundos trataram de temas
sobre o Mercosul, o que eqüivale a 0,5 % do total das horas de programação analisadas. Além disso, o
estudo concluiu que:
A organização dos blocos, em geral conduzida por técnicos, privilegia a
vertente econômica, deixando de lado as demais questões sociopolíticas e culturais, o
que se torna claro na abordagem dos temas relativos ao Mercosul nas emissoras
radiofônicas de Porto Alegre. ( Haussen, 1999: 89)
Entretanto, esse panorama observado através da pesquisa da autora, a respeito das rádios da
capital gaúcha sofreu alguma modificação. Desde 2000, a rádio Guaíba AM tem em sua grade de
programação um espaço que se propõe a ser completamente destinado aos temas do Mercado Comum
do Sul: o programa Projeto Mercosul.
No ar desde 5 de agosto de 2000, a produção independente foi criada pelos jornalistas Renato
Sagrera e Cléber Moreira. A idéia surgiu a partir de um trabalho que os dois tiveram como assessores
de imprensa no Instituto dos Advogados do Mercosul. Lá, começaram a gostar do assunto e
resolveram fazer um estudo de mercado a fim de realizar um programa sobre o Mercosul. 5
4
5
Tradução da autora
Conforme depoimento de MOREIRA, Cléber e SAGRERA, Renato à autora. Porto Alegre, 4 de maio de 2001.
O próximo passo era fazer o projeto e mostrar para a Rádio Guaíba, onde comprariam o
espaço. O gerente da rádio, Flávio Portela 6 , aprovou a idéia, garantindo 40 minutos para o programa. A
partir daí restava aos criadores do projeto buscar patrocínios. Sagrera e Moreira conseguiram o apoio
da OAB/RS, Farsul, Assembléia Legislativa e do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros.
Assim nasceu o programa Projeto Mercosul, com o objetivo de abrir um espaço para a
informação e a discussão das relações comerciais e políticas do Mercosul. Dirigido para a classe A, o
programa tem como público-ouvinte, em sua maioria, economistas, historiadores, empresários e
advogados. Isso é comprovado pelos telefonemas, e-mails, cartas e fax recebidos pela produção.
Mesmo indo ao ar todos os sábados das 6h20 às 7h, o programa conseguiu alavancar a
audiência nesse horário. Conforme Portela (dep.cit), antes do programa ir ao ar, a audiência era muito
fraca, o que fazia com que a Rádio Guaíba não desse muita atenção para esse horário.
Em uma pesquisa realizada pela autora do artigo em 2001, foram selecionadas para a análise
do Programa Projeto Mercosul quatro edições consecutivas, que foram ao ar nos meses de junho deste
ano.
A análise fez com que verificássemos que o programa Projeto Mercosul tem uma grande
diversidade de conteúdo, abordando temas variados. Os assuntos mais tratados foram: Área de Livre
Comércio das Américas, turismo no Mercosul, preservação da água, negociações do bloco e pedido de
ingresso de outro país ao bloco.
Em relação aos enfoques dados aos temas, observa-se um forte
equilíbrio. Tanto os aspectos socioculturais quanto os político-econômicos foram enfocados 24 vezes.
Três anos se passaram e a situação era outra. A fim de verificar se o programa teria sofrido
alguma modificação, foi realizada a análise de uma edição de junho de 2004. Uma das principais
constatações é que diminui consideravelmente o número de assuntos, a pesar da duração do programa
ter permanecido a mesma. Esta edição analisada apresentou uma entrevista que ocupou os três blocos
do programa, com um tema não referente ao Mercosul. O assunto tratado foi o Parque Tecnológico da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Somente no final do programa, quando é
apresentada uma agenda de eventos, é que o tema Mercosul aparece, na divulgação do I Seminário
Internacional do Fórum Universitário Mercosul.
Rede Cone Sul de Comunicações
Neste contexto, é relevante mostrar uma iniciativa privada diferenciada das acima, mas que
também busca a integração de rádios do Mercosul. É a Rede Cone Sul de Comunicações, criada em
junho de 1993 e composta pelas rádios Gaúcha Sat de Porto Alegre, Ñandutí de Assunción, Carve de
Montevidéu, Mitre de Buenos Aires, e Cooperativa de Santiago do Chile. O objetivo, conforme
Haussen,
6
Conforme depoimento de PORTELA, Flávio à autora. Porto Alegre, 4 de maio de 2001.
...era o de que cada rádio fosse “uma fonte de informações para as
demais” e que, além do intercâmbio técnico e de informações, a rede
contemplasse aspectos comerciais, onde cada emissora representasse as demais
em seu país (RBS- Documentos). (1999:86)
O artigo ainda enfatiza as propostas da iniciativa:
A proposta inicial da rede era a de um intercâmbio diário de boletins sobre os
assuntos de interesse dos países integrantes, mas, devido à barreira do idioma
(português/espanhol), a proposta foi alterada. Atualmente, as informações
procedentes do Mercosul são apresentadas pelos locutores das respectivas
emissoras, nos idiomas próprios, sem tratamento diferenciado das demais
notícias. (Ibid.:.87)
Segundo Jorge Vignola7 , chefe do departamento de imprensa da rádio uruguaia Carve — uma
das integrantes da Rede Cone Sul de Comunicações — a iniciativa é muito importante, já que ela
permite o compartilhamento de informações de todas as emissoras que fazem parte da Rede.
Acrescenta: “Além disso, nos complementamos no que se refere aos aspectos técnicos ou de apoio
quando um de nós vai aos outros países”. 8
Conclusão
Com a realização deste trabalho, pretendia-se comprovar — ou não — a possibilidade do
rádio ser utilizado como uma ferramenta para a construção de um Mercosul mais amplo, ou seja, que
não se restringisse apenas a uma integração econômica, abrangendo também os aspectos
socioculturais.
Essa não utilização do rádio e de outros meios de comunicação para este fim tem origem em
vários motivos. Um deles é a grande diversidade cultural dos países latino-americanos e a dificuldade
de se construir uma identidade supranacional. O grande obstáculo é a resistência e receio das nações
em aceitar outras culturas. Observamos, no mundo atual, vários casos de xenofobismo, racismo, ou
aversão ao que se refere a outros povos e etnias.
7
8
Conforme depoimento de VIGNOLA, Jorge à autora. Montevidéu, 23 de julho de 2001
Tradução da autora.
O mais viável seria o respeito da pluralidade de culturas, construindo uma “identidade
heterogênea”, como afirmam Achúgar e Bustamante (1996:136). O fato das regulamentações da
radiodifusão dos países membros do Mercosul serem deficientes, pois enfatizam aspectos técnicos da
área, também é um obstáculo para essa integração.
Para verificar a possibilidade da existência de programas radiofônicos que proporcionassem
uma integração mais ampla no Mercosul (além da econômica), nos propusemos a fazer uma análise de
alguns programas de rádio de Porto Alegre e Montevidéu. Concluímos, depois de todas as análises,
que as rádios dessas importantes cidades tem se preocupado muito pouco em fortalecer o Mercosul
através da integração sócio-cultural dos seus povos.
Porém, podemos constatar que programas como o uruguaio Dinámica Rural, apesar de ser
direcionado para temas rurais, é um primeiro passo para que o meio radiofônico comece a dar mais
atenção para uma maior integração entre os povos do bloco. E neste caminho, é fundamental que as
emissoras de rádios privadas assumam o seu papel, quem sabe ampliando o número dos seus
correspondentes nos países vizinhos ou tomando iniciativas de apoio como a Rede Cone Sul de
Comunicações.
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www.mercosur-comisec.gub.uy
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