000054_imp39.book Page 15 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM Lazer, Cultura e Sociedade: a festa, um caminho que pode nos levar à vida do outro LEISURE, CULTURE AND SOCIETY: PARTY, A WAY TO REACH THE LIFE OF THE OTHER Resumo Os caminhos que podem nos levar à vida do outro são muitos. Neste trabalho optei pela festa. Este é um estudo sobre as pessoas que fazem a festa de Nossa Senhora Achiropita. Festa do povo. Não do povo sujeito indeterminado. Mas de imigrantes italianos, negros e nordestinos. Gente que vive a opressão da metrópole, mas tem um modo singular de compreender e experimentar a vida. Eles constroem e ocupam espaços de modo a preservar as instituições família e igreja, valorizar suas origens, exercitar relações solidárias e fraternas, e dividir o que têm, ainda que a qualidade de vida esteja comprometida diante do crescente aumento da pobreza, da fome e do desemprego. A festa, em 2004, completou 80 anos. E essa comemoração − comemorar no sentido de “trazer à memória” − simboliza o poder da força que move cada uma dessas pessoas em busca de realizar sonhos e fazer a vida melhor. Palavras-chave LAZER – CULTURA – FESTA – SOCIEDADE. Abstract There are many possible ways to reach other people’s lives. In this work, I have chosen the party for that. This is a study about the persons who make Nossa Senhora Achiropita’s party. A people’s party. Not people as indeterminate subjects. But from Italian immigrants, black people and people from the northeast of Brazil. People that are subject to life’s oppression in the metropolis but have a particular way of understanding and experiencing life. They build and occupy positions where they can preserve family and church institutions, value their origins, perform solidary and brotherly relationships and share everything they own, even though the quality of living is jeopardized because of increasing poverty, hunger and unemployment. The party has completed eighty years of existence in 2004. This commemoration − commemorate in the sense of “bringing back to memory” − is a symbol of the power that moves each one of these persons to make dreams come true and to make life better. Keywords LEISURE – CULTURE – PARTY – SOCIETY. Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 15 YARA M. CARVALHO Universidade de São Paulo (USP) [email protected] 000054_imp39.book Page 16 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM LAZER, TEMPO E ESPAÇO DE APROPRIAÇÃO E PRODUÇÃO DE CULTURA ´ ÉE no modo de viver que está o segredo! Os modos de viver são os valores e sentidos que atribuímos à vida – na dimensão dos conteúdos e das formas (que também são conteúdos) – e as maneiras como nos organizamos socialmente nos espaços e tempos. Os modos de viver são perceptíveis no processo de urbanização e globalização do planeta, na diversidade regional, na produção artística e científica, intelectual e filosófica da humanidade e também nos limites, nos extremos da realidade social, no “protagonismo oculto e mutilado dos simples”.1 Este texto foi inspirado na minha tese de doutorado, “A arte de fazer a vida melhor: narrativas dos que fazem a festa de Achiropita”,2 cujo objetivo era investigar a respeito dos caminhos que as pessoas encontram e perpetuam na busca de uma vida melhor, a qual, em última instância, determina uma saúde melhor. Aqui, o intuito é apresentar como as dimensões lazer, cultura e sociedade se constituem e se estabelecem, no caso dessa comunidade, com base em valores diferentes dos predominantes, por exemplo, o individualismo e a competitividade. Antecipando possíveis e primeiras observações dos leitores, há ressalvas que não poderíamos deixar de mencionar logo na introdução. Elas dizem respeito à particularidade, ao singular dessa comunidade: o lazer e a cultura, por meio da festa, e a festa inserida e pertença a uma cidade polifônica3 implicam e determinam modos de viver que não podemos generalizar e muito menos nos apropriar como modelos, porque eles são definidos pelo espaço, pelo tempo e, sobretudo, pelas pessoas. Por esse motivo, são relativos. Entretanto, são referências que podem nos ajudar a pensar, recuperar e propor soluções mais saudáveis para a vida, para esse trabalho no tempo e espaço do lazer. Nesse sentido, analisar como eles se constituem e em que medida reafirmam os significados atribuídos pelas pessoas à vida é uma forma de compreender “aquilo que liberta o homem das múltiplas misérias que o fazem pobre de tudo: de condições adequadas de vida, de tempo para si e para os seus, de liberdade, de imaginação, de prazer no trabalho, de criatividade, de alegria e de festa, de compreensão ativa de seu lugar na construção social da realidade”.4 O lazer, assim, lugar de vivências de natureza lúdica e de apropriação e produção crítica da cultura, possibilita a reapropriação de valores 1 MARTINS, 2000, p. 13. 2 Tese de doutorado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em 1999, momento em que construí a primeira relação entre lazer e saúde, especialmente saúde coletiva, como campos de investigação, aparentemente incompatíveis. 3 Expressão utilizada por CANEVACCI, 2004. 4 MARTINS, 2000, p. 11. 16 Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 000054_imp39.book Page 17 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM aparentemente perdidos e comprovadamente desvalorizados em sociedades como a nossa. A FESTA NAS NARRATIVAS E OBSERVAÇÕES Sou neta de italiano calabrês, pela linha materna. Meu avô veio para o Brasil, junto com dois irmãos, ainda jovem. Durante os primeiros anos, viveu em Jaú. Depois de algum tempo, conheceu minha avó. Antes da Revolução de 1924 eles tentaram a vida na cidade grande, casaram-se em São Paulo e instalaram uma tinturaria no centro, na Rua Conselheiro Nébias. Com a revolução, resolveram retornar a Jaú. Ficaram por lá mais uns três anos, voltaram e se instalaram definitivamente na capital paulista. Tiveram dez filhos. Domingo? Almoço na casa da avó. Reunião de família. Era sagrado. Era o momento de encontrar os primos e tios, e brincar, cantar e relembrar histórias. O menu? Maccheroni, frango, maionese, salada, pernil ou cabrito, pão e sobremesa − tudo preparado artesanalmente e acompanhado pelo vinho tinto. Comia-se muito, cada um contribuía com alguma coisa. Era uma festa! Mas havia outras: as da igreja do Sagrado Liceu Coração de Jesus e, uma vez por ano, a de Nossa Senhora Achiropita, à que minha tia, Lúcia, levava os sobrinhos. Não participei de muitas, mas elas estão presentes nas minhas lembranças: a música, a alegria das pessoas, as barracas, a missa, a multidão nas ruas e a minha tia elogiando o pimentão recheado e a calabresa no pão francês. Qual o sentido da minha história aqui? Para chamar a atenção do leitor a um elemento importante e pouco explorado nos estudos no campo do lazer, em particular, o de mostrar em que medida a escolha de um objeto de estudo pode estar diretamente vinculada à nossa história de vida, às formas que encontramos para fazer andar a vida. Mills nos ensina, a esse respeito, o quanto é fundamental não separar o trabalho da vida, com intuito de “usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra”.5 E essa é uma discussão de natureza metodológica que agrega duas outras desenvolvidas nesta investigação: 5 MILLS, 1975, p. 212. Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 uma delas relativa às narrativas e a outra, às observações.6 As narrativas instigam nosso imaginário, provocam nossa imaginação, nossa capacidade criativa. Para Benjamin, narrar é a faculdade de “intercambiar experiências”, entretanto, “Metade da arte narrativa está em evitar explicações (...). O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação”.7 A relação entre ouvinte e narrador “é dominada pelo interesse em conservar o que foi narrado”.8 A narrativa com a qual trabalhei é aquela que ressurge na década de 90, não se confina à produção da memória no sentido de exaltar um fato incomum, ou um herói, mas é elemento constitutivo do princípio de coerência, e não relato fidedigno ao acontecido, ou ainda com discurso no sentido de um operante ideológico. Remetendo novamente a Benjamin, tentei seguir seus passos, quando ele escreve que a fonte a que recorrem os narradores é a experiência passada de pessoa a pessoa. Encaro as narrativas, então, como ensaios de vida, não desconsiderando que Nas sociedades baseadas na tradição oral, a memória da comunidade tende involuntariamente a mascarar e a reabsorver as mudanças. À relativa plasticidade da vida material corresponde assim uma acentuada imobilidade da imagem do passado. As coisas sempre foram assim; o mundo é o que é. Apenas nos períodos de aguda transformação social emerge a imagem, em geral mítica, de um passado diverso e melhor – um modelo de perfeição, diante 6 A maioria dos modelos de investigação, por um lado, prioriza valores e princípios associados a procedimentos, métodos, técnicas e instrumentos de investigação que induzem o pesquisador a conceber os sujeitos como se estivessem mortos e, por outro, não considera os seres inanimados como detentores de histórias. Lugares, cenários, móveis, utensílios, tudo é alegoria, alusão, hieróglifos, enigmas, se eles forem observados como acessórios que se oferecem “não com um caráter literal e preciso, mas com um caráter poético, vago e confuso, e amiúde é o tradutor que inventa as intenções” (BAUDELAIRE, 1998, p. 48). Para caracterizar tais elementos, utilizei esses dois recursos metodológicos. 7 BENJAMIN, 1994, p. 203. 8 Ibid., p. 210. 17 000054_imp39.book Page 18 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM do qual o presente aparece como declínio, degeneração.9 O presente foi preterido ao passado e, assim, também virou história. A observação foi outro elemento significativo e escrever a respeito dela é escrever sobre o olhar, tema difícil, porque é “falar daquilo que quase não pode ser falado”, como lembra Wisnik, aludindo ao olhar visionário, uma visão deslocada do tempo. A “tentativa de apresentar pela linguagem aquilo que se experimenta como radicalmente ausente dela convoca o símbolo a exercerse na sua mais alta potência, ali onde ele está no limite de desintegrar-se”.10 O olhar a que me refiro significa sair de si e, ao mesmo tempo, trazer o mundo de dentro de si. Esse olhar “apalpa as coisas, repousa sobre elas, viaja no meio delas, mas delas não se apropria”.11 É também o “olhar do estrangeiro”, aquele “que não é do lugar, que acabou de chegar, é capaz de ver aquilo que os que lá estão não podem mais perceber (...). Ele é capaz de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez e de viver histórias originais (...). Para ele estes personagens e histórias ainda são capazes de mobilizar”.12 Segundo Calvino, a dificuldade em compor sobre o olhar resulta também, de um lado, das “visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma” e, de outro, da tentativa de “traduzi-las” em linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas e parênteses, e aumenta ainda mais pelo fato de que a escrita “científica” é a “linguagem mais afastada de qualquer imagem visual”.13 Não se trata de um estudo de caso, porque vali-me de narrativas de pessoas acerca de suas emoções − alegrias, tristezas, frustrações, sofrimentos, realizações –, sentimentos eternos e imutáveis que transcendem tempo e espaço, presentes em qualquer história. A narrativa é uma forma de expressão, uma linguagem, assim como a literatura, a música, o cinema e a fotografia, e capaz de ser conteúdo para conhecer e pensar a vida, mas, acima de tudo, para nos levar à vida do outro. Uma alternativa para fazer a vida dessas pessoas chegar até mim. Ouvir foi atentar às histórias, guardar as experiências. Registrei “a voz e, através dela, a vida e o pensamento de seres”.14 Nesse sentido, fui ao mesmo tempo sujeito e objeto: sujeito, nos momentos em que perguntava e procurava compreender; objeto, enquanto ouvia, tomava nota, transcrevia, “como que um instrumento de receber e transmitir a memória de alguém, um meio de que esse alguém se valia para transmitir suas lembranças”.15 Não me propus também a contar a história da imigração italiana − outros já o fizeram16 −, ainda que tenha me valido dessa literatura para ficar mais próxima dos tempos e espaços reportados pelas narrativas e para “criar uma magia sugestiva contendo ao mesmo tempo o objeto e o sujeito”,17 tentando romper com a linguagem rebuscada, prolixa, distante, repetida e vulgar. Superar dicotomias como teoria e prática, trabalho e lazer, uma vez que o real não é dicotômico, redutor, arrogante. Não entrevistei as 850 pessoas (aproximadamente) que fizeram a festa de 1999, nem grande parte delas, muito menos um número representativo, que servisse como garantia do caráter de cientificidade do presente estudo. Conheci e entrevistei algumas, convivi com elas. Gente que, durante meu processo de aproximação da comunidade, me foi apresentada. Minha idéia inicial era respeitar a hierarquia: primeiro, o padre e, em seguida, as pessoas por ele indicadas. Não demorei muito tempo para perceber que ele seria − se eu tivesse sorte − o último a ser ouvido. Extremamente ocupado, representava a comunidade em várias instâncias, participava de movimentos sociais, ministrava aulas, cuidava da paróquia e provavelmente era um dos recordistas em milhas per14 BOSI, 1987, p. 1. 9 GINZBURG, 1987, p. 157. 15 Ibid., p. 2. 10 WISNIK, 1989, p. 283. 16 CARELLI, 1985; CENNI, 1975; DEBENEDETTI & SALMONI, 1953; DORE, 1956; GRÜNSPUN, 1979; IANNI, 1979; e MARTINS, 1976. 17 BAUDELAIRE, 1998, contracapa. 11 CHAUI, 1989, p. 40. 12 PEIXOTO, 1989, p. 363. 13 CALVINO, 1990, p. 105. 18 Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 000054_imp39.book Page 19 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM corridas – viajava muito. Assim, o primeiro encontro aconteceu com a secretária dele, que me sugeriu falar com as principais equipes responsáveis pela organização do evento, lideradas por cinco casais. Ao longo da festa, período em que os organizadores estavam muito atarefados, conheci outras pessoas e conversei com elas nos bastidores: na cozinha, as senhoras que preparavam as delícias italianas; nas barracas, os voluntários que, antes do início dos festejos, arrumavam os enfeites, carregavam os equipamentos (mesas, chapas, fogão e panelas) e cuidavam dos alimentos; e na igreja, as senhoras que distribuíam os santinhos e as letras das rezas, cuidavam da santa e auxiliavam na missa. A festa é trabalho e alegria, é possibilidade de melhores condições de vida para alguns e dedicação para outros. Uma comemoração que simboliza liberdade, opressão, igualdade, exclusão, diversidade, preconceito e participação, ainda que essas não sejam condições claras e necessariamente presentes. A cultura da festa é, sobretudo, campo de criação de vínculos, solidariedades, mercadorias, costumes e regras que orientam a vida social. A VIDA DO OUTRO Este é um estudo sobre o universo cultural do dia-a-dia de pessoas que vivem dispersas no Tatuapé, em São Bernardo do Campo (SP), e no Brooklin e Bexiga, entre outros bairros da cidade de São Paulo, e que têm em comum a fé, a dedicação, o trabalho e a diversão em razão da comunidade18 de Nossa Senhora Achiropita. Não se trata, portanto, de uma relação comunitária definida pelo lugar. Os vínculos que se constituíram entre as pessoas transcendem o espaço de encontro e convivência. Algumas personagens nasceram no Bexiga, mas, por motivo de casamento, por exemplo, mudaram-se para outros bairros, em alguns casos muito distantes da Bela Vista, onde acontece a festa. 18 A comunidade de Nossa Senhora Achiropita tem sede no bairro da Bela Vista. O Bexiga se situa entre os limites das ruas Santo Antônio, Rui Barbosa e Treze de Maio, esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, região central da Bela Vista. O nome Bixiga [com “i”] foi adotado em 1962 pelo fundador do Museu do Bixiga, o Armandinho do Bixiga, mas “o Bixiga não existe oficialmente” (MORENO, 1996, p. 117). Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 A expressão comunidade, que fundamenta este trabalho, “evoca relações face a face, sentimento de solidariedade, obediência à tradição, rígido controle social etc.”.19 Cabe ressaltar que as relações comunitárias, segundo Magnani, não são uma forma de organização social de caráter exclusivo. Elas coexistem e interagem com a sociedade. O conceito de sociedade, por sua vez, “implica relações secundárias, vínculos impessoais, visão racional, atitudes utilitaristas”.20 Modos de viver, em uma comunidade, constituem um tema social contemporâneo, porque representam uma forma de a sociedade se ater a problemas peculiares e próprios dela. No que se refere à comunidade, ela não é necessariamente o espelho de uma sociedade. Como escreveu Martins, “A história local não é nem pode ser uma história-reflexo, porque se fosse negaria a mediação em que se constitui a particularidade dos processos locais e imediatos e que não se repetem, nem podem se repetir, nos processos mais amplos, que com mais facilidade poderíamos definir como propriamente históricos”; no entanto, isso “não quer dizer que não haja alguma relação [entre eles]”. A cidades abrigam minorias étnicas. Algumas, como a comunidade de Nossa Senhora Achiropita, vivem juntas e partilham de uma cultura que inclui os de fora, os que não lhe são próprios ou próximos. Essa comunidade resgata, a cada dia, uma qualidade de vínculo que lhes permite evitar o êxodo circular urbano em condições de escassez, privação e falta de perspectiva. O nível de miséria do bairro e das famílias que nele vivem é cruel. Caminhando pelas ruas do Bexiga, deparamos os restaurantes e21 as padarias italianos, os sobrados onde, hoje em dia, moram artistas (gente do teatro e das artes plásticas), mas também os cortiços, lugares de gente amontoada, famílias inteiras em cômodos precários caindo aos pedaços, entre restos de cadeiras, colchões e outros utensílios doados ou catados no lixo. 19 MAGNANI, 1996, p. 47. 20 Ibid., p. 47. 21 MARTINS, 1992, p. 12. 19 000054_imp39.book Page 20 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM Mas o corpo, território último do despossuído, nas dependências da igreja e sob os cuidados dos devotos da santa, é atendido nas suas mais elementares necessidades: carinho, higiene e alimentação, por meio das obras sociais financiadas pela festa. Ali, portanto, há pessoas que foram perdendo poder aquisitivo, ao longo do tempo, mas que ganharam autonomia, confiança e vida. Algumas sempre foram pobres, economicamente, mas tornaram-se ricas de amigos, de experiências, de ajuda e de alegrias. Tiveram de lutar o tempo todo e revelam a dificuldade de manter um padrão de vida digno aos mais próximos (família, entes queridos), mas não deixam de dividir o que possuem com os seus e os outros. Dos que, como eu, não são atingidos diretamente pela miséria, emerge um tipo peculiar de desumanização – a ausência de solidariedade e a dessensibilização para com os problemas sociais, de modo geral. Aprendi ali que a solidariedade é uma outra dimensão da noção de vínculo. A experiência em comunidade também consiste no conhecimento dos recursos existentes e de retaguarda. Assim, as resistências destruidoras das hierarquias vigentes na forma coletiva-ativa pontuam a história e podem mobilizar pessoas e coletivos. O cotidiano dessas pessoas revela-se, então, muito mais rico do que a vida em rotina, da dura rotina dos que vem a opressão. Mostra a lida de gente envolvida num trabalho que pode ser de criação ou de recriação de práticas e representações. É um terreno multifacetado, em que é possível descobrir a cultura assumindo os mais inusitados contornos, ora conformando-se ora resistindo às manifestações predominantes. Num e noutro caso, nem sempre são construções elaboradas conscientemente pelos sujeitos. Nem por isso, contudo, fica suprimida a dimensão simbólica de suas ações, nas quais seres inferiorizados socialmente, partindo das coisas miúdas, transformam suas práticas e modos de pensar em expressões capazes de criar um contraponto à devastação provocada pela barbárie, nesta sociedade. São forças desiguais, o que se serve para deixar todos nós, estudiosos da vida social, bem mais inquietos. Quem sabe nos reste esta trilha difícil e sinuosa, a de olhar vagarosamente as coisas pequenas 20 que estão em nosso redor e reingressar neste passeio a partir das lições deixadas.22 Recorro a essa citação de Oliveira, porque, ainda que diga respeito ao seu estudo com crianças cuidadas pelos avós, nas classes populares, tem correspondência direta e profunda com o que pretendo enfatizar neste artigo: o espaço da festa pode ser contraponto, resistência, lugar de construção, de encontro com o outro, as tradições, os costumes, as famílias, os amigos e, nesse caso, a minha história. Mas é também local de brigas, discórdias, reconciliações, tapas, abraços, empurrões, riso, choro, alegrias, tristezas e bebedeiras. Lugar do pecado e da virtude, do profano e do sagrado. E, portanto, uma caricatura de nós mesmos, dos nossos modos de viver. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante de inúmeros estudos relativos ao lazer, à cultura e à sociedade,23 que denunciam e demarcam os valores desagregadores das relações entre pessoas e coletivos, foi possível, nesta experiência, identificar princípios contrapostos aos hegemônicos, reforçando a idéia de que a dimensão do lazer na vida pode significar autonomia – individual e coletiva – e recuperação de maneiras de andar a vida menos velozes e vorazes. Os modos de viver tendem a se confundir com o banal, o corriqueiro, o que não tem qualidade própria, o sem história. Para o que se propôs aqui, cabe o inverso: é no pequeno mundo de todos os dias que também estão o tempo e o lugar das vontades, daquilo que faz a força da sociedade civil e dos movimentos sociais. Na vida cotidiana, o homem descobre a eficácia política (e histórica) de sua aparente solidão e, ao mesmo tempo, que o senso comum não é apenas instrumento das re22 OLIVEIRA, 1999, p. 309. 23 Das análises críticas quanto aos valores no campo do lazer, cabe des- tacar o artigo de Nelson Carvalho Marcellino, “Considerações sobre valores expressos por autores brasileiros na relação lazer-educação”. Ele analisa a produção de autores brasileiros contemporâneos, retratando “A visão parcial e limitada das atividades de lazer quanto aos seus conteúdos e valores, que se verifica no senso comum, aliada à grande quantidade de abordagens indiretas no plano teórico que, freqüentemente sem conceituar o lazer, emitem juízos de valor nesse campo, e à pouca produção específica, que, na maioria das vezes, não se reporta aos enfoques indiretos, contribui para que se estabeleçam mal-entendidos nas discussões que o tomam isoladamente e, mais ainda, quando ele é relacionado a outros objetos de análise” (MARCELLINO, 1986, p. 17). Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 000054_imp39.book Page 21 Tuesday, July 26, 2005 5:03 PM petições e dos processos imobilizadores da vida de cada um e de todos. Lembrando, mais uma vez, Martins, O senso comum é comum não porque seja banal ou mero e exterior conhecimento. Mas porque é conhecimento compartilhado entre os sujeitos da relação social. Nela o significado a precede, pois é condição de seu estabelecimento e ocorrência. Sem significado compartilhado não há interação. Além disso, não há possibilidade de que os participantes da interação se imponham significados, já que o significado é reciprocamente experimentado pelos sujeitos. A significação da ação é, de certo modo, negociada por eles. Em princípio, não há um significado prévio ou, melhor dizendo, não é necessário que haja significações preestabelecidas para que a interação se dê. Um aspecto essencial dessa formulação é o de que esse complicado jogo se desenrola, de fato, em minúsculas frações de tempo. Se nos fosse possível observar o processo interativo em “câmara lenta”, poderíamos perceber o complexo movimento, o complicado vaivém de imaginação, interpretação, reformulação, reinterpretação, e assim sucessivamente, que articula cada fragmentário momento da relação entre uma pessoa e outra e, mesmo, entre cada pessoa e o conjunto dos anônimos que constituem a base de referência da sociabilidade moderna.24 Interpretar os modos de viver pode ser um exercício interessante para pensar a respeito da diversidade de condições que envolvem o universo do lúdico e do lazer. Valores, tradições e acontecimentos iluminam o cotidiano das pessoas. Algumas das coisas boas da vida acontecem na festa, mas não acabam nela. E as contradições, por sua vez, evidenciam a ambigüidade dos modos de viver, das narrativas, das observações e da própria interpretação que fiz, como pesquisadora. 24 MARTINS, 2000, p. 59. Referências Bibliográficas BAUDELAIRE, C. Escritos sobre Arte. São Paulo: Imaginário, 1998. 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Dados da autora Pós-doutorado em ciências humanas e saúde, no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), doutorado em saúde coletiva, na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e mestrado em educação física na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Atua na USP na Escola de Educação Física e Esporte. Recebimento artigo: 17/nov./04 Consultoria: 20/dez./04 a 24/fev./05 Aprovado: 24/fev./05 Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005 22