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Lazer, Cultura e Sociedade:
a festa, um caminho que pode
nos levar à vida do outro
LEISURE, CULTURE AND SOCIETY:
PARTY, A WAY TO REACH THE LIFE
OF THE OTHER
Resumo Os caminhos que podem nos levar à vida do outro são muitos. Neste trabalho optei pela festa. Este é um estudo sobre as pessoas que fazem a festa de Nossa
Senhora Achiropita. Festa do povo. Não do povo sujeito indeterminado. Mas de imigrantes italianos, negros e nordestinos. Gente que vive a opressão da metrópole, mas
tem um modo singular de compreender e experimentar a vida. Eles constroem e ocupam espaços de modo a preservar as instituições família e igreja, valorizar suas origens,
exercitar relações solidárias e fraternas, e dividir o que têm, ainda que a qualidade de
vida esteja comprometida diante do crescente aumento da pobreza, da fome e do desemprego. A festa, em 2004, completou 80 anos. E essa comemoração − comemorar
no sentido de “trazer à memória” − simboliza o poder da força que move cada uma
dessas pessoas em busca de realizar sonhos e fazer a vida melhor.
Palavras-chave LAZER – CULTURA – FESTA – SOCIEDADE.
Abstract There are many possible ways to reach other people’s lives. In this work,
I have chosen the party for that. This is a study about the persons who make Nossa
Senhora Achiropita’s party. A people’s party. Not people as indeterminate subjects.
But from Italian immigrants, black people and people from the northeast of Brazil.
People that are subject to life’s oppression in the metropolis but have a particular
way of understanding and experiencing life. They build and occupy positions
where they can preserve family and church institutions, value their origins, perform
solidary and brotherly relationships and share everything they own, even though
the quality of living is jeopardized because of increasing poverty, hunger and
unemployment. The party has completed eighty years of existence in 2004. This
commemoration − commemorate in the sense of “bringing back to memory” − is
a symbol of the power that moves each one of these persons to make dreams come
true and to make life better.
Keywords LEISURE – CULTURE – PARTY – SOCIETY.
Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005
15
YARA M. CARVALHO
Universidade de São Paulo (USP)
[email protected]
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LAZER, TEMPO E ESPAÇO DE APROPRIAÇÃO
E PRODUÇÃO DE CULTURA
´
ÉE
no modo de viver que está o segredo!
Os modos de viver são os valores e sentidos que atribuímos à vida – na dimensão dos conteúdos e das formas
(que também são conteúdos) – e as maneiras como nos
organizamos socialmente nos espaços e tempos. Os modos de viver são perceptíveis no processo de urbanização
e globalização do planeta, na diversidade regional, na produção artística e científica, intelectual e filosófica da humanidade e também nos limites, nos extremos da realidade social, no “protagonismo oculto e mutilado dos simples”.1
Este texto foi inspirado na minha tese de doutorado, “A arte de fazer a vida melhor: narrativas dos que fazem a festa de Achiropita”,2 cujo
objetivo era investigar a respeito dos caminhos que as pessoas encontram
e perpetuam na busca de uma vida melhor, a qual, em última instância, determina uma saúde melhor. Aqui, o intuito é apresentar como as dimensões lazer, cultura e sociedade se constituem e se estabelecem, no caso dessa comunidade, com base em valores diferentes dos predominantes, por
exemplo, o individualismo e a competitividade.
Antecipando possíveis e primeiras observações dos leitores, há ressalvas que não poderíamos deixar de mencionar logo na introdução. Elas
dizem respeito à particularidade, ao singular dessa comunidade: o lazer e
a cultura, por meio da festa, e a festa inserida e pertença a uma cidade polifônica3 implicam e determinam modos de viver que não podemos generalizar e muito menos nos apropriar como modelos, porque eles são definidos pelo espaço, pelo tempo e, sobretudo, pelas pessoas. Por esse motivo, são relativos. Entretanto, são referências que podem nos ajudar a
pensar, recuperar e propor soluções mais saudáveis para a vida, para esse
trabalho no tempo e espaço do lazer.
Nesse sentido, analisar como eles se constituem e em que medida
reafirmam os significados atribuídos pelas pessoas à vida é uma forma de
compreender “aquilo que liberta o homem das múltiplas misérias que o
fazem pobre de tudo: de condições adequadas de vida, de tempo para si
e para os seus, de liberdade, de imaginação, de prazer no trabalho, de criatividade, de alegria e de festa, de compreensão ativa de seu lugar na construção social da realidade”.4
O lazer, assim, lugar de vivências de natureza lúdica e de apropriação e produção crítica da cultura, possibilita a reapropriação de valores
1 MARTINS, 2000, p. 13.
2 Tese de doutorado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em 1999, momento em
que construí a primeira relação entre lazer e saúde, especialmente saúde coletiva, como campos de investigação, aparentemente incompatíveis.
3 Expressão utilizada por CANEVACCI, 2004.
4 MARTINS, 2000, p. 11.
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aparentemente perdidos e comprovadamente
desvalorizados em sociedades como a nossa.
A FESTA NAS NARRATIVAS E OBSERVAÇÕES
Sou neta de italiano calabrês, pela linha materna. Meu avô veio para o Brasil, junto com dois
irmãos, ainda jovem. Durante os primeiros anos,
viveu em Jaú. Depois de algum tempo, conheceu
minha avó. Antes da Revolução de 1924 eles tentaram a vida na cidade grande, casaram-se em São
Paulo e instalaram uma tinturaria no centro, na
Rua Conselheiro Nébias. Com a revolução, resolveram retornar a Jaú. Ficaram por lá mais uns
três anos, voltaram e se instalaram definitivamente na capital paulista. Tiveram dez filhos.
Domingo? Almoço na casa da avó. Reunião de família. Era sagrado. Era o momento de
encontrar os primos e tios, e brincar, cantar e relembrar histórias. O menu? Maccheroni, frango,
maionese, salada, pernil ou cabrito, pão e sobremesa − tudo preparado artesanalmente e acompanhado pelo vinho tinto. Comia-se muito, cada
um contribuía com alguma coisa. Era uma festa!
Mas havia outras: as da igreja do Sagrado Liceu
Coração de Jesus e, uma vez por ano, a de Nossa
Senhora Achiropita, à que minha tia, Lúcia, levava os sobrinhos. Não participei de muitas, mas
elas estão presentes nas minhas lembranças: a
música, a alegria das pessoas, as barracas, a missa,
a multidão nas ruas e a minha tia elogiando o pimentão recheado e a calabresa no pão francês.
Qual o sentido da minha história aqui?
Para chamar a atenção do leitor a um elemento
importante e pouco explorado nos estudos no
campo do lazer, em particular, o de mostrar em
que medida a escolha de um objeto de estudo
pode estar diretamente vinculada à nossa história
de vida, às formas que encontramos para fazer
andar a vida. Mills nos ensina, a esse respeito, o
quanto é fundamental não separar o trabalho da
vida, com intuito de “usar cada uma dessas coisas
para o enriquecimento da outra”.5 E essa é uma
discussão de natureza metodológica que agrega
duas outras desenvolvidas nesta investigação:
5 MILLS, 1975, p. 212.
Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005
uma delas relativa às narrativas e a outra, às observações.6
As narrativas instigam nosso imaginário,
provocam nossa imaginação, nossa capacidade
criativa. Para Benjamin, narrar é a faculdade de
“intercambiar experiências”, entretanto, “Metade
da arte narrativa está em evitar explicações (...). O
extraordinário e o miraculoso são narrados com a
maior exatidão, mas o contexto psicológico da
ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não
existe na informação”.7
A relação entre ouvinte e narrador “é
dominada pelo interesse em conservar o que foi
narrado”.8
A narrativa com a qual trabalhei é aquela
que ressurge na década de 90, não se confina à
produção da memória no sentido de exaltar um
fato incomum, ou um herói, mas é elemento
constitutivo do princípio de coerência, e não relato fidedigno ao acontecido, ou ainda com discurso no sentido de um operante ideológico. Remetendo novamente a Benjamin, tentei seguir
seus passos, quando ele escreve que a fonte a que
recorrem os narradores é a experiência passada de
pessoa a pessoa. Encaro as narrativas, então,
como ensaios de vida, não desconsiderando que
Nas sociedades baseadas na tradição oral, a memória da comunidade tende involuntariamente a mascarar e a reabsorver as mudanças. À relativa plasticidade da vida material corresponde assim uma
acentuada imobilidade da imagem do passado. As
coisas sempre foram assim; o mundo é o que é.
Apenas nos períodos de aguda transformação social
emerge a imagem, em geral mítica, de um passado
diverso e melhor – um modelo de perfeição, diante
6 A maioria dos modelos de investigação, por um lado, prioriza valores
e princípios associados a procedimentos, métodos, técnicas e instrumentos de investigação que induzem o pesquisador a conceber os sujeitos como se estivessem mortos e, por outro, não considera os seres
inanimados como detentores de histórias. Lugares, cenários, móveis,
utensílios, tudo é alegoria, alusão, hieróglifos, enigmas, se eles forem
observados como acessórios que se oferecem “não com um caráter literal e preciso, mas com um caráter poético, vago e confuso, e amiúde é o
tradutor que inventa as intenções” (BAUDELAIRE, 1998, p. 48). Para
caracterizar tais elementos, utilizei esses dois recursos metodológicos.
7 BENJAMIN, 1994, p. 203.
8 Ibid., p. 210.
17
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do qual o presente aparece como declínio, degeneração.9
O presente foi preterido ao passado e, assim, também virou história.
A observação foi outro elemento significativo e escrever a respeito dela é escrever sobre o
olhar, tema difícil, porque é “falar daquilo que
quase não pode ser falado”, como lembra Wisnik,
aludindo ao olhar visionário, uma visão deslocada
do tempo. A “tentativa de apresentar pela linguagem aquilo que se experimenta como radicalmente ausente dela convoca o símbolo a exercerse na sua mais alta potência, ali onde ele está no
limite de desintegrar-se”.10
O olhar a que me refiro significa sair de si e,
ao mesmo tempo, trazer o mundo de dentro de si.
Esse olhar “apalpa as coisas, repousa sobre elas,
viaja no meio delas, mas delas não se apropria”.11
É também o “olhar do estrangeiro”, aquele “que
não é do lugar, que acabou de chegar, é capaz de
ver aquilo que os que lá estão não podem mais
perceber (...). Ele é capaz de olhar as coisas como
se fosse pela primeira vez e de viver histórias originais (...). Para ele estes personagens e histórias
ainda são capazes de mobilizar”.12
Segundo Calvino, a dificuldade em compor
sobre o olhar resulta também, de um lado, das
“visões polimorfas obtidas através dos olhos e da
alma” e, de outro, da tentativa de “traduzi-las”
em linhas uniformes de caracteres minúsculos ou
maiúsculos, de pontos, vírgulas e parênteses, e
aumenta ainda mais pelo fato de que a escrita
“científica” é a “linguagem mais afastada de qualquer imagem visual”.13
Não se trata de um estudo de caso, porque
vali-me de narrativas de pessoas acerca de suas
emoções − alegrias, tristezas, frustrações, sofrimentos, realizações –, sentimentos eternos e
imutáveis que transcendem tempo e espaço, presentes em qualquer história. A narrativa é uma
forma de expressão, uma linguagem, assim como
a literatura, a música, o cinema e a fotografia, e
capaz de ser conteúdo para conhecer e pensar a
vida, mas, acima de tudo, para nos levar à vida do
outro. Uma alternativa para fazer a vida dessas
pessoas chegar até mim. Ouvir foi atentar às histórias, guardar as experiências. Registrei “a voz e,
através dela, a vida e o pensamento de seres”.14
Nesse sentido, fui ao mesmo tempo sujeito e objeto: sujeito, nos momentos em que perguntava e
procurava compreender; objeto, enquanto ouvia,
tomava nota, transcrevia, “como que um instrumento de receber e transmitir a memória de alguém, um meio de que esse alguém se valia para
transmitir suas lembranças”.15
Não me propus também a contar a história
da imigração italiana − outros já o fizeram16 −,
ainda que tenha me valido dessa literatura para ficar mais próxima dos tempos e espaços reportados pelas narrativas e para “criar uma magia sugestiva contendo ao mesmo tempo o objeto e o
sujeito”,17 tentando romper com a linguagem rebuscada, prolixa, distante, repetida e vulgar. Superar dicotomias como teoria e prática, trabalho
e lazer, uma vez que o real não é dicotômico, redutor, arrogante.
Não entrevistei as 850 pessoas (aproximadamente) que fizeram a festa de 1999, nem grande parte delas, muito menos um número representativo, que servisse como garantia do caráter
de cientificidade do presente estudo. Conheci e
entrevistei algumas, convivi com elas. Gente que,
durante meu processo de aproximação da comunidade, me foi apresentada. Minha idéia inicial era
respeitar a hierarquia: primeiro, o padre e, em seguida, as pessoas por ele indicadas. Não demorei
muito tempo para perceber que ele seria − se eu
tivesse sorte − o último a ser ouvido. Extremamente ocupado, representava a comunidade em
várias instâncias, participava de movimentos sociais, ministrava aulas, cuidava da paróquia e provavelmente era um dos recordistas em milhas per14 BOSI, 1987, p. 1.
9 GINZBURG, 1987, p. 157.
15 Ibid., p. 2.
10 WISNIK, 1989, p. 283.
16 CARELLI, 1985; CENNI, 1975; DEBENEDETTI & SALMONI,
1953; DORE, 1956; GRÜNSPUN, 1979; IANNI, 1979; e MARTINS, 1976.
17 BAUDELAIRE, 1998, contracapa.
11 CHAUI, 1989, p. 40.
12 PEIXOTO, 1989, p. 363.
13 CALVINO, 1990, p. 105.
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corridas – viajava muito. Assim, o primeiro encontro aconteceu com a secretária dele, que me
sugeriu falar com as principais equipes responsáveis pela organização do evento, lideradas por
cinco casais. Ao longo da festa, período em que
os organizadores estavam muito atarefados, conheci outras pessoas e conversei com elas nos
bastidores: na cozinha, as senhoras que preparavam as delícias italianas; nas barracas, os voluntários que, antes do início dos festejos, arrumavam
os enfeites, carregavam os equipamentos (mesas,
chapas, fogão e panelas) e cuidavam dos alimentos; e na igreja, as senhoras que distribuíam os
santinhos e as letras das rezas, cuidavam da santa
e auxiliavam na missa.
A festa é trabalho e alegria, é possibilidade
de melhores condições de vida para alguns e dedicação para outros. Uma comemoração que
simboliza liberdade, opressão, igualdade, exclusão, diversidade, preconceito e participação, ainda
que essas não sejam condições claras e necessariamente presentes. A cultura da festa é, sobretudo, campo de criação de vínculos, solidariedades,
mercadorias, costumes e regras que orientam a
vida social.
A VIDA DO OUTRO
Este é um estudo sobre o universo cultural
do dia-a-dia de pessoas que vivem dispersas no
Tatuapé, em São Bernardo do Campo (SP), e no
Brooklin e Bexiga, entre outros bairros da cidade
de São Paulo, e que têm em comum a fé, a dedicação, o trabalho e a diversão em razão da comunidade18 de Nossa Senhora Achiropita. Não se
trata, portanto, de uma relação comunitária definida pelo lugar. Os vínculos que se constituíram
entre as pessoas transcendem o espaço de encontro e convivência. Algumas personagens nasceram no Bexiga, mas, por motivo de casamento,
por exemplo, mudaram-se para outros bairros,
em alguns casos muito distantes da Bela Vista,
onde acontece a festa.
18
A comunidade de Nossa Senhora Achiropita tem sede no bairro da
Bela Vista. O Bexiga se situa entre os limites das ruas Santo Antônio, Rui
Barbosa e Treze de Maio, esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, região central da Bela Vista. O nome Bixiga [com “i”] foi adotado
em 1962 pelo fundador do Museu do Bixiga, o Armandinho do Bixiga,
mas “o Bixiga não existe oficialmente” (MORENO, 1996, p. 117).
Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005
A expressão comunidade, que fundamenta
este trabalho, “evoca relações face a face, sentimento de solidariedade, obediência à tradição, rígido controle social etc.”.19 Cabe ressaltar que as
relações comunitárias, segundo Magnani, não são
uma forma de organização social de caráter exclusivo. Elas coexistem e interagem com a sociedade. O conceito de sociedade, por sua vez, “implica relações secundárias, vínculos impessoais,
visão racional, atitudes utilitaristas”.20 Modos de
viver, em uma comunidade, constituem um tema
social contemporâneo, porque representam uma
forma de a sociedade se ater a problemas peculiares e próprios dela.
No que se refere à comunidade, ela não é
necessariamente o espelho de uma sociedade.
Como escreveu Martins, “A história local não é
nem pode ser uma história-reflexo, porque se
fosse negaria a mediação em que se constitui a
particularidade dos processos locais e imediatos e
que não se repetem, nem podem se repetir, nos
processos mais amplos, que com mais facilidade
poderíamos definir como propriamente históricos”; no entanto, isso “não quer dizer que não
haja alguma relação [entre eles]”.
A cidades abrigam minorias étnicas. Algumas, como a comunidade de Nossa Senhora
Achiropita, vivem juntas e partilham de uma cultura que inclui os de fora, os que não lhe são próprios ou próximos. Essa comunidade resgata, a
cada dia, uma qualidade de vínculo que lhes permite evitar o êxodo circular urbano em condições
de escassez, privação e falta de perspectiva. O nível de miséria do bairro e das famílias que nele vivem é cruel. Caminhando pelas ruas do Bexiga,
deparamos os restaurantes e21 as padarias italianos, os sobrados onde, hoje em dia, moram artistas (gente do teatro e das artes plásticas), mas
também os cortiços, lugares de gente amontoada,
famílias inteiras em cômodos precários caindo
aos pedaços, entre restos de cadeiras, colchões e
outros utensílios doados ou catados no lixo.
19 MAGNANI, 1996, p. 47.
20 Ibid., p. 47.
21 MARTINS, 1992, p. 12.
19
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Mas o corpo, território último do despossuído, nas dependências da igreja e sob os cuidados dos devotos da santa, é atendido nas suas
mais elementares necessidades: carinho, higiene e
alimentação, por meio das obras sociais financiadas pela festa. Ali, portanto, há pessoas que foram perdendo poder aquisitivo, ao longo do tempo, mas que ganharam autonomia, confiança e vida. Algumas sempre foram pobres, economicamente, mas tornaram-se ricas de amigos, de
experiências, de ajuda e de alegrias. Tiveram de
lutar o tempo todo e revelam a dificuldade de
manter um padrão de vida digno aos mais próximos (família, entes queridos), mas não deixam de
dividir o que possuem com os seus e os outros.
Dos que, como eu, não são atingidos diretamente pela miséria, emerge um tipo peculiar de desumanização – a ausência de solidariedade e a dessensibilização para com os problemas sociais, de
modo geral. Aprendi ali que a solidariedade é uma
outra dimensão da noção de vínculo. A experiência
em comunidade também consiste no conhecimento dos recursos existentes e de retaguarda. Assim,
as resistências destruidoras das hierarquias vigentes na forma coletiva-ativa pontuam a história e
podem mobilizar pessoas e coletivos.
O cotidiano dessas pessoas revela-se, então, muito
mais rico do que a vida em rotina, da dura rotina
dos que vem a opressão. Mostra a lida de gente envolvida num trabalho que pode ser de criação ou de
recriação de práticas e representações. É um terreno
multifacetado, em que é possível descobrir a cultura
assumindo os mais inusitados contornos, ora conformando-se ora resistindo às manifestações predominantes. Num e noutro caso, nem sempre são
construções elaboradas conscientemente pelos sujeitos. Nem por isso, contudo, fica suprimida a dimensão simbólica de suas ações, nas quais seres inferiorizados socialmente, partindo das coisas miúdas, transformam suas práticas e modos de pensar
em expressões capazes de criar um contraponto à
devastação provocada pela barbárie, nesta sociedade. São forças desiguais, o que se serve para deixar
todos nós, estudiosos da vida social, bem mais inquietos. Quem sabe nos reste esta trilha difícil e sinuosa, a de olhar vagarosamente as coisas pequenas
20
que estão em nosso redor e reingressar neste passeio a partir das lições deixadas.22
Recorro a essa citação de Oliveira, porque,
ainda que diga respeito ao seu estudo com crianças cuidadas pelos avós, nas classes populares,
tem correspondência direta e profunda com o
que pretendo enfatizar neste artigo: o espaço da
festa pode ser contraponto, resistência, lugar de
construção, de encontro com o outro, as tradições, os costumes, as famílias, os amigos e, nesse caso, a minha história. Mas é também local de
brigas, discórdias, reconciliações, tapas, abraços,
empurrões, riso, choro, alegrias, tristezas e bebedeiras. Lugar do pecado e da virtude, do profano
e do sagrado. E, portanto, uma caricatura de nós
mesmos, dos nossos modos de viver.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante de inúmeros estudos relativos ao lazer, à cultura e à sociedade,23 que denunciam e
demarcam os valores desagregadores das relações
entre pessoas e coletivos, foi possível, nesta experiência, identificar princípios contrapostos aos
hegemônicos, reforçando a idéia de que a dimensão do lazer na vida pode significar autonomia –
individual e coletiva – e recuperação de maneiras
de andar a vida menos velozes e vorazes.
Os modos de viver tendem a se confundir
com o banal, o corriqueiro, o que não tem qualidade própria, o sem história. Para o que se propôs
aqui, cabe o inverso: é no pequeno mundo de todos os dias que também estão o tempo e o lugar
das vontades, daquilo que faz a força da sociedade
civil e dos movimentos sociais. Na vida cotidiana,
o homem descobre a eficácia política (e histórica)
de sua aparente solidão e, ao mesmo tempo, que
o senso comum não é apenas instrumento das re22 OLIVEIRA, 1999, p. 309.
23 Das análises críticas quanto aos valores no campo do lazer, cabe des-
tacar o artigo de Nelson Carvalho Marcellino, “Considerações sobre
valores expressos por autores brasileiros na relação lazer-educação”.
Ele analisa a produção de autores brasileiros contemporâneos, retratando “A visão parcial e limitada das atividades de lazer quanto aos seus
conteúdos e valores, que se verifica no senso comum, aliada à grande
quantidade de abordagens indiretas no plano teórico que, freqüentemente sem conceituar o lazer, emitem juízos de valor nesse campo, e à
pouca produção específica, que, na maioria das vezes, não se reporta aos
enfoques indiretos, contribui para que se estabeleçam mal-entendidos
nas discussões que o tomam isoladamente e, mais ainda, quando ele é
relacionado a outros objetos de análise” (MARCELLINO, 1986, p. 17).
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petições e dos processos imobilizadores da vida
de cada um e de todos. Lembrando, mais uma
vez, Martins,
O senso comum é comum não porque seja banal
ou mero e exterior conhecimento. Mas porque é
conhecimento compartilhado entre os sujeitos da
relação social. Nela o significado a precede, pois é
condição de seu estabelecimento e ocorrência. Sem
significado compartilhado não há interação. Além
disso, não há possibilidade de que os participantes
da interação se imponham significados, já que o significado é reciprocamente experimentado pelos sujeitos. A significação da ação é, de certo modo, negociada por eles. Em princípio, não há um significado prévio ou, melhor dizendo, não é necessário
que haja significações preestabelecidas para que a
interação se dê. Um aspecto essencial dessa formulação é o de que esse complicado jogo se desenrola,
de fato, em minúsculas frações de tempo. Se nos
fosse possível observar o processo interativo em
“câmara lenta”, poderíamos perceber o complexo
movimento, o complicado vaivém de imaginação,
interpretação, reformulação, reinterpretação, e assim sucessivamente, que articula cada fragmentário
momento da relação entre uma pessoa e outra e,
mesmo, entre cada pessoa e o conjunto dos anônimos que constituem a base de referência da sociabilidade moderna.24
Interpretar os modos de viver pode ser um
exercício interessante para pensar a respeito da
diversidade de condições que envolvem o universo do lúdico e do lazer. Valores, tradições e acontecimentos iluminam o cotidiano das pessoas.
Algumas das coisas boas da vida acontecem na
festa, mas não acabam nela. E as contradições,
por sua vez, evidenciam a ambigüidade dos modos de viver, das narrativas, das observações e da
própria interpretação que fiz, como pesquisadora.
24 MARTINS, 2000, p. 59.
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Dados da autora
Pós-doutorado em ciências humanas e saúde, no
Instituto de Medicina Social da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), doutorado em
saúde coletiva, na Faculdade de Ciências Médicas
da Unicamp, e mestrado em educação física na
Faculdade de Educação Física da Unicamp. Atua na
USP na Escola de Educação Física e Esporte.
Recebimento artigo: 17/nov./04
Consultoria: 20/dez./04 a 24/fev./05
Aprovado: 24/fev./05
Impulso, Piracicaba, 16(39): 15-22, 2005
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Lazer, Cultura e Sociedade: a festa, um caminho que