Denise Maria Neumann Jornalismo econômico na imprensa feminina A imprensa feminina, nos últimos anos, tem incorporado novos temas e ampliado áreas de cobertura. Seguindo uma tendência da imprensa, o jornalismo que tem como público-alvo as mulheres também passou a dedicar páginas especiais e fixas aos temas econômicos. A intenção deste artigo é analisar como este segmento da imprensa trata a economia e sob qual perspectiva a mulher é vista nas páginas econômicas das revistas femininas ou suplementos femininos dos grandes jornais. 1. Jornalismo econômico A evolução do jornalismo econômico está diretamente associada ao próprio desenvolvimento da economia brasileira e por isso é possível perceber algumas fases. Estas “fases” não são períodos específicos com começo e fim determinados, mas sim momentos em que um dado conjunto de características se sobrepõe a outro. Da quase ausência de notícias econômicas na década de 50, o jornalismo econômico passa por uma fase de “explosão” na década de 70, quando a visão triunfalista da economia baseada na mitificação do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) - o chamado “milagre brasileiro” - monopoliza o noticiário em detrimento da política.1 A imprensa alternativa, por sua vez, faz a crítica deste modelo, apontando as fragilidades do sistema no capital externo, o que exige que a grande imprensa - complacente - reforce a cobertura econômica também para defendê-lo das críticas. Na década de 80, os altos índices de inflação fazem surgir o jornalismo econômico de serviços, preocupado em orientar a população, mostrando como se proteger e como “minimizar” os efeitos das taxas elevadas sobre o orçamento e a poupança domésticos. Enquanto a inflação vai fazendo parte da vida das pessoas, exigindo controle de gastos e aplicações financeiras, este tipo de jornalismo vai ganhando espaço nas redações. Como reflexo, todos os grandes jornais adotaram, na década de 80, cadernos especiais do tipo Suas Contas, Seu Dinheiro, Seu Bolso, Caixa Alta, etc. “Temas como FGTS, aposentadoria, investimentos pessoais, taxas de condomínios, aluguel, dicas de compras, tarifas públicas, gastos com veículos, taxas embutidas nas compras à prazo, despesas pessoais, etc, aproximam os jornais da classe média e suas agruras”, aponta Faria.2 Consolida-se, assim, um novo público para o jornalismo econômico e é esse público que vai nortear, cada vez mais, as mudanças nesta modalidade de jornalismo. O jornalismo econômico perde um pouco o caráter elitista, de discussão de grandes temas macroeconômicos, para se envolver com os problemas mais reais da economia, como o dia-a-dia do consumidor. “O jornalismo de serviços é ao mesmo tempo didático e voltado a uma cidadania econômica. Com os repetidos pacotes econômicos, tornou-se vital no cotidiano das pessoas. Pesquisas por amostragem demonstraram que, entre 1968 e 1988, o espaço dedicado à economia pelos três principais jornais de São Paulo cresceu continuamente de 1,5 página diária, em média, para 6,5 páginas, às custas das demais áreas de cobertura. Um quinto das manchetes foi dedicado à economia e os nomes dos ministros da economia tornaram-se mais populares e citados do que os dos presidentes. Noticiários de TV passam a incluir tomadas extensas sobre questões econômicas, acompanhadas de análises regulares e de entrevistas com agentes econômicos. Os jornais de influência nacional _ o Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil _ ampliam seus cadernos diários, realizados por editorias próprias, empregando grande número de jornalistas”, relata Bernando Kucinski.3 Com a abertura econômica e a estabilização da moeda, um novo momento se delineia na década de 90. Características fortes deste momento são a redução dos serviços de proteção à inflação, aumento do noticiário sobre negócios entre empresas, maior presença da cobertura sobre economia internacional - um sinal prático da globalização - e também a difusão cada vez mais intensa de valores consumistas. De certa forma, o jornalismo econômico vem sendo transformado em um importante instrumento de propaganda da ideologia neoliberal. 1 Kucinski, Bernardo, Jornalistas e revolucionários nos tempos da imprensa alternativa, São Paulo, Scritta, 1991, 2 Faria, Armando Medeiros de, O jornalismo econômico e a cobertura sobre privatização (1990/1991), tese de mestrado, ECA/USP 3 Kucinski, Bernardo, Jornalismo Econômico, São Paulo, Edusp, 1996 O debate que antes se fazia no campo da política vem, disfarçadamente, sendo transferido para o campo da economia. Bernardo Kucinski faz a seguinte observação a este respeito: “Com o colapso da economia soviética, planificada e estatal, deu-se a vitória ideológica da tese neoliberal, que sacrifica o princípio da solidariedade social no altar de uma suposta eficiência econômica. Foi decisivo o jornalismo como linha auxiliar na campanha neoliberal dos anos 90 pelo desmonte do Estado social-democrata, na sedução dos jovens ao ideal do sucesso pessoal , na disseminação da nova utopia das classes médias: a de possuir o próprio negócio. O jornalismo econômico, veículo por excelência dessa nova ideologia, tornou-se o principal agendador do debate político. Assim, a disfunção de sua linguagem talvez tenha uma função ideológica. Um jornalismo que não se propõe a explicar e sim a seduzir”.4 Embora Kucinski não tivesse em mente as escassas páginas econômicas nas revistas e encartes femininos dos jornais, a avaliação feita por ele se encaixa com perfeição. As raras páginas que tratam de economia em três publicações analisadas - revistas Nova e Marie Claire e Suplemente Feminino do jornal O Estado de S. Paulo - mostram um jornalismo econômico que não se constrói a partir de temas do dia-a-dia e que reforça o papel da mulher-consumidora ou mulher-indivíduo e não da mulher-cidadã, que discute, com profundidade, a agenda econômica do seu país. Esta é, principalmente, a realidade de Nova e, em menor medida, de Marie Claire. O Suplemento Feminino do Estadão está (quem diria?) inovando nesse segmento. Vamos, então, tratar as publicações de maneira diferenciada, em um primeiro momento, procurando, depois, o que lhes é comum. 2. Nova Nesta publicação, a página de “economia” é apenas mais uma seção dedicada a incentivar e promover o consumo. Consumo não apenas de produtos, mas de “modelos”, também. O jornalismo econômico neste espaço da imprensa feminina passa muito ao longe de qualquer propósito realmente informativo ou mesmo de prestação de serviço econômico para as leitoras. As informações são raras e quando aparecem são guiadas pela intenção do consumo. Como fazer um bom negócio. Como comprar um apartamento. Como fazer a melhor aplicação. Como fazer um recurso extra render mais. Como escolher uma casa na 4 idem nota 3 praia. Qualquer semelhança com “como emagrecer três quilos sem sofrer”; “como manter o homem firme, forte e feliz na cama”; “como deixar sua pele perfeita”; “como acabar com a celulite”, não é mera coincidência. As raras páginas econômicas estão, contudo, em sintonia com a publicação. A página de Nova é a mais “consumista” e vendedora de todas. A função predominante é a conativa como é comum na imprensa feminina -, com o texto ficando muito semelhante ao discurso publicitário, chamando a leitora para consumir, para provocar inveja nas amigas, para ficar “elegante”. No afã de seduzir, passa ao largo, inclusive, do bom senso. A seção da revista que trata de assuntos econômicos chama Seu Dinheiro e costuma se travestir de didática, editando as informações oferecidas sempre com Desvantagens e Vantagens. Em algumas edições há informações equivocadas. Na edição de março, a revista editou um “Dicionário de Sonhos” onde procurava mostrar que, apesar de caros, alguns objetos valiam a pena e talvez não estivessem tão longe assim da capacidade de consumo da leitora. O primeiro objeto apresentado foi o Jeep Gran Cherokee e foi desta forma: REALIDADE: o preço do modelo Limited em concessionárias de São Paulo é 67.2090 dólares. À vista, com desconto de 5%, o valor cai para 63.000 dólares. Em matéria de financiamento a melhor opção é o leasing. Pelo Banco Mercantil Finasa, é possível dar uma entrada de 20% (13.440 dólares); e o restante (53.760 dólares), dividir em 24 parcelas, corrigidas pela variação cambial (dólar comercial) mais juros de 1,6% ao mês. DESVANTAGEM: Você corre o risco de o governo vir a mexer no câmbio e a prestação subir acima de suas possibilidades. BENEFÍCIO: É um carrão: tem luxo e qualidade e enfrenta como poucos uma estrada de terra5. A matéria não diz o valor da prestação que poderia subir acima das suas possibilidades, mas induz a leitora a pensar que ela seria equivalente a R$ 53.760 divididos em 24 parcelas, o que representaria um valor mensal de R$ 2.281 dólares. Mas está errado. Como os juros precisam ser acrescidos ao valor a ser financiado, essa prestação (ainda sujeita a variação cambial) seria de R$ 3.078 (aproximadamente). Em sã consciência, quem 5 Revista Nova , edição de março de 1998 pode pagar uma prestação deste valor consideraria como vantagem a possibilidade de colocar este carro em uma estrada de terra? Puro jogo de sedução. Exemplo ainda mais “conativo” é o da edição de junho de 1998. O título da matéria da colun seu dinheiro é 3 passos para você ficar rica. Não são três passos para ganhar um bom salário, para ter um bom padrão de vida. O objetivo é ficar rica. O tom da edição é que ser rico é uma questão de pensamento positivo. Os passos estão assim organizados e apresentados para a leitora, tendo recebido, inclusive, destaque na capa (claro, quem não quer enriquecer no atual momento em que grande parte da população pensa em arrumar um emprego) : 1.entenda sua relação com o dinheiro: dinheiro é o último dos tabus. Lemos e conversamos sobre a vida sexual de qualquer pessoa (...) mas não contamos para as outras qual é o nosso salário (...) Portanto, jamais podemos ocntar quanto ganhamos nem mesmo para nossa melhor amiga. 2.cheque suas crenças: Talvez você não tenha se dado conta, mas pode estr alimentando pensamentos negativos (...). Veja como: Jamais vou ficar rica - não pede aumento continua pobre 3.mude suas atitudes: comece a organizar sua lista de pensamentos negativos com relação ao dinheiro. Ao lado de cada frase pessimista, escreva o equivalente positivo. Por exemplo: Nunca ganha nada em sorteios X sou uma mulher de sorte (...) Não fuja do dinheiro. Persiga-o! O ponto de vista a partir do qual a mulher é encarada nesta seção é o de consumidora e não cidadã. Por isso, questões mais complexas (porém importantes para entender o mundo e suas transformações) ficam de fora. É um jornalismo que não se preocupa em desvendar, ampliar, explicar. Apenas em vender, seduzir, iludir. As informações são colocadas de maneira maniqueísta: rica e pobre. Além disso, a seção importa das outras páginas da publicação o estilo “organizar”: 3 maneiras para... 3. Suplemento Feminino O Suplemento Feminino do jornal O Estado de S. Paulo possui uma coluna fixa que trata de economia, assinada pela jornalista Denise Campos de Toledo, com lugar definido à página 3. Às vezes a coluna é acompanhada por uma sessão de perguntas e respostas, onde as questões encaminhados por leitoras e leitores são respondidas. A coluna trata de temas variados e sempre com um tom de serviços, com uma preocupação de orientação. As funções que se destacam são a referencial, emotiva e conativa, mas esta última em proporção realmente inferior às demais, em que pese ser um produto da imprensa feminina. A lista de temas discutidos durante os meses de março a maio de 1998 denotam uma intenção de atuar como jornalismo de serviços: Os prós e contras da globalização; Aposentadoria para quem não trabalha, Compras e desperdícios, Problemas de quem procura imóvel para alugar, Ativos reais perdem espaço, Jóias mais perto do bolso, O mercado tem boas ofertas para o segundo imóvel, etc. O jornalismo de serviços apresentado nestas páginas se apresenta com características de função emotiva, seguindo a definição organizada por Jakobson: “A chamada função emotiva ou ‘expressiva’ centrada no remetente (emissor) visa a uma expressão direta da atitude de quem fala em relação àquilo de que está falando.”6 Embora, de acordo com Jakobson, a função emotiva seja “evidenciada” pelas interjeições e estas estejam ausentes dos textos econômicos do Suplemento Feminino do jornal O Estado de São Paulo, é possível sustentar essa avaliação porque há muitas afirmações colocadas como verdade (transparecendo a intenção de convencer o leitor e as leitoras) que não estão sustentadas por informações. São, de fato, opiniões e avaliações de quem escreve. É um texto que com frequência afirma sem informar. O texto também vai buscar, na publicidade, elementos do texto conativo, procurando chamar as leitoras (e leitores). Alguns exemplos: 3.1- Exemplo 1: - Quem pretende um apartamento na praia, por exemplo, deve fazer uma boa pesquisa, não só para conferir as alternativas de financiamento, mas os preços de várias 6 Jakobson, Roman, Linguística e Comunicação, São Paulo, Editora Cultrix, regiões. Locais da moda costumam ter preços bem mais altos. É sempre melhor fugir da especulação imobiliária e encontrar locais com bom potencial de valorização. Assim, além do prazer, a compra pode ser, também, boa alternativa de investimento. (O mercado tem boas ofertas para o segundo imóvel, 25/26 de abril de 1998) Pode-se perguntar: como fazer uma boa pesquisa; quanto mais altos costumam ser os preços dos locais da moda? Como identificar um local como bom (?) potencial de valorização? 3.2 - Exemplo 2: - São inúmeros os exemplos de prédios que não tem nada, muitas vezes só a garagem e custam caro demais, ou outros que até possuem alguma área de lazer, mas também com taxas de condômínio exageradas. Nessa situação, os condôminos é que devem checar o que está acontecendo.(Condomínio mais barato, 18/19 de abril) Afinal, como saber quando é caro demais e as taxas estão exageradas? Existe um parâmetro? Afinal, esse é o problema: quando e como você sabe se a sua situação exige uma checagem? 3.3 - Exemplo 3: - Hoje é possível comprar uma pulseira, um anel ou mesmo um colar pagando menos do que o preço de um blazer ou de um eletrodoméstico. (Jóias mais perto do bolso, 2/3 de maio de 1998) Qual eletrodoméstico ou blazer estão sendo utilizados em comparação? Uma TV de 29 polegadas (preço médio entre R$ 850 e R$ 1.000.00) ou um liquidificador (preço entre R$ 30,00 e R$ 50,00)? Uma blazer de grife (mais de R$ 500,00 se for um Giorgio Armani ou até menos de R$ 100,00 se for sem grife) No período analisado (março-maio de 1998), dois artigos podem ser destacados como textos em que há uma postura informativo-crítica. O intuito, nestes dois casos, não é o de prestar serviços, mas de, aparentemente, “discutir” situações. O primeiro trata da mulher (foi publicado em 7/8 de março, Dia Internacional da Mulher) e o segundo fala da globalização. O artigo sobre a globalização usa o termo “inevitável” para definir esse fenômeno e defende que “nós temos que aprender a conviver tanto com o lado positivo como o negativo de todas essas mudanças (...) em relação às mudanças no mercado de trabalho temos de tomar muito cuidado para não perder espaço (...) não adianta lutar contra”. Ou seja “aprender a conviver” , “não lutar”, “tomar cuidado para não perder espaço”. Indiretamente há o reforço de uma postura de submissão. Sob o título “Eficiência a toda prova”, o artigo afirma que “com competência, nós, mulheres, estamos consolidando espaços num mercado ainda cheio de preconceito”. É um texto claramente posicionado no sentido de afirmar que as mulheres estão conseguindo provar que são competentes, que existe preconceito tanto dos homens como das próprias mulheres: “O preconceito contra nós ainda é forte (...) Preconceito que muitas vezes vem disfarçado através de brincadeiras, de piadinhas, que, na verdade, só tentam amenizar um pouco a desconfiança que muitos homens e, pior, que muitas mulheres têm contra o trabalho feminino e quando reconhecem nossa competência profissional com uma certa freqüência questionam a capacidade de sermos eficientes também como mães e donas-decasa. mas os avanços que tivemos nos últimos anos não deixam dúvidas: se quisermos, se gostarmos, podemos dominar um computador, o fogão e trocar fraldas com a mesma tranqüilidade e segurança.” Este é um texto que pode ser colocado entre àqueles que indiretamente fazem a correta separação entre gênero feminino e realidade biológica. “Se quisermos, se gostarmos”, diz o artigo, para introduzir tanto a opção pelo trabalhar fora, como o gosto e a conseqüente opção ou não pelos cuidados com a casa e a maternidade. No livro O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir introduz uma questão bastante oportuna e que pode ser evidenciada no artigo do Suplemento. Pondera e escritora quem na nossa sociedade, o homem é pensável sem a mulher. O contrário não é verdadeiro. A mulher não é pensável sem o homem. "O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”7, pondera Beauvoir. Essa idéia de dualidade, vai observando ela, aparece nas mais antigas mitologias. 7 Beauvoir, Simone de, O Segundo Sexo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980 E junto com a dualidade, a idéia de relatividade foi construída pela humanidade. Assim, os habitantes de uma aldeia chamam os estrangeiros que os visitam de "outros"; quando estes nativos saem de sua aldeia, eles se transformam no "outro"; "Por bem ou por mal, os indivíduos e os grupos são obrigados a reconhecer a reciprocidade de suas relações", pondera a autora. E então ela questiona: Como se entende, então, que entre os sexos essa reciprocidade não tenha sido colocada, que um dos termos tenha se imposto como o único essencial, negando toda a relatividade em relação a seu correlativo, definindo este como a alteralidade pura? Por que as mulheres não contestam a soberania do macho? Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que definindo-se como Outro define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um; Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio. De onde vem essa submissão na mulher?8 O artigo do Suplemento representa claramente essa visão de usar o homem como referência para definir a competência da mulher: salário, desemprego atual, posição na ocupação: todas as informações sobre o emprego e o desemprego feminino usam a realidade masculina como contraponto. Essa realidade não tira os méritos do artigo, realmente um texto que pode ser considerado como portador de uma visão de “gênero feminino”, tomando uma das definições de Maria Luiza Heilborn, onde ela define gênero como a “distinção entre atributos culturais alocados a cada um dos sexos e a dimensão biológica dos seres humanos”.9 4. Marie Claire A página econômica da revista Marie Claire é publicada, quase sempre, na página 10, possuindo, então, um caráter de seção fixa. O nome da seção é Ambição e ela divide-se, basicamente, em três: carreira, mercado e dinheiro. Entre as três, “carreira” é a mais 8 idem nota 6 Heilborn, Maria Luiza, in Gênero e condição feminina: uma abordagem antropológica, publicado em Uma questão de gênero, organizado por Costa, Albertina de Oliveira, e Bruschini, Cristina, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Tempos, 9 definida. Tomando como exemplo uma profissional, a seção apresenta a realidade de uma profissão. Entre março e maio de 1998, as carreiras escolhidas foram: relações públicas, barwoman e webdesigner. A coluna apresenta a profissional escolhida, indicando nome, local de trabalho, como chegou na função atual, idade, formação acadêmica ou profissional, no caso de ser uma função que não exige curso superior. Depois da apresentação da profissional, a seção detalha a função escolhida. Há pontos fixos analisados: formação, funções, tempo de trabalho (no dia-a-dia), salário, mercado, atualização, pior da profissão e melhor da profissão. Além destes itens fixos, dependendo da carreira analisada, outros pontos são apresentados, como equipamentos necessários. Dependendo da profissão, Marie Claire oferece endereços onde podem ser buscadas informações adicionais. Isso ocorreu, por exemplo, com a carreira de webdesigner (profissional que cria páginas na Internet), que por ser muito nova é bastante desconhecida. As informações contidas revelam a preocupação de não apresentar apenas uma visão cheia de “glamour” das profissões escolhidas, embora as profissionais escolhidas para servir de exemplo o sejam. Em todos os três meses, as mulheres que serviram de exemplo são pessoas muito bem sucedidas (bem pagas e em posições de destaque). No relato sobre relações públicas, por exemplo, a parte de salário foi apresentada assim: O piso salarial é de R$ 850,00. Aos cinco anos de carreira, um profissional que também atue como consultor, conhecendo muito bem o mercado e propondo soluções pode ganhar até R$ 6 mil. As outras duas seções fixas dentro da página Ambição são mais versáteis. Tratam desde de como alugar uma casa na praia, até empresas que são “amigas da criança”, passando por dicas sobre como conseguir um aumento de salário e as armadilhas das televendas. Os textos são surpreendentemente didáticos. Mais até do que se poderia esperar de uma revista como Marie Claire. O texto que procura oferecer um “modelo” para alcançar um aumento de salário é um bom exemplo. Ele divide o “caminho” em partes, começando assim: “Quando se deseja um aumento, a primeira coisa a fazer é uma avaliação do próprio desempenho profissional. O processo começa com o levantamento pessoal de cinco questões...” Apresentadas as cinco questões, seguem-se sugestões bem práticas: o alvo da negociação é sempre o chefe imediato, durante a conversa nunca se deve comparar seu desempenho com o dos colegas, a melhor hora para falar com o chefe é o fim do expediente, a conversa deve ocorrer em tom amistoso, para o sucesso da empreitada é bom saber antes se o chefe, a empresa ou o setor não passam por dificuldades, as datas devem começar da na data de aniversário da contratação, etc... Esse tom didático, uma das principais características do jornalismo econômico de serviços, marca a tanto a seção dinheiro como a mercado da revista Marie Claire. 5. Observações finais O jornalismo econômico de serviços (em cuja categoria os artigos e seções que tratam de economia na imprensa feminina poderiam, teoricamente, ser inseridos) fala da economia real. Nas publicações femininas a regra não é essa. Aliás, não há uma regra. Em Nova, há um real “glamourizado”. Na maior parte dos artigos fala-se de um mundo distante. Fala-se de objetos impossíveis e situações distantes. O jornalismo econômico presente nesta publicação feminina reduz a economia ao consumo e às melhores formas de poupança e rendimento (no fundo, um simples como ganhar mais). O jornalismo econômico de serviços, surgido com força na década de 80, sempre esteve diretamente vinculado ao real. O dia-a-dia sempre foi sua matéria-prima de trabalho. É o cotidiano que dá as pistas, sustenta e alimenta esse segmento da imprensa. Em Nova a regra não é essa. Ele reforça o consumo e não a compreensão dos fatos, das situações. É algo de tipo “como gastar melhor” ou “como investir melhor para depois consumir mais”. Os assuntos são tratados pela ótica do “segredo”: a mulher é chamada para participar de uma “trama”: sair ganhando dependerá dela aprender e seguir os passos fornecidos “especialmente para ela”. O Suplemento Feminino do Estadão é mais ousado no tratamento dos temas econômicos, mas os assuntos são tratados de forma superficial. No fundo, não há a compreensão clara de que a mulher precisa ser “detalhadamente” informada. Você dá pistas, como que pressupondo que outra pessoas (o homem da casa, talvez) irá completar as informações. Parece predominar a visão de que, como a ação e a última palavra não são, de fato, da mulher, não é preciso insistir na abordagem dos assuntos. Alguns elementos são fornecidos para que a mulher possa participar de uma decisão ou discussão, mas não é preciso aprofundar os assuntos tratados porque há retaguarda masculina. Em que pese o conteúdo dos assuntos escolhidos, Marie Claire é a mais detalhista no fornecimento de informações econômicas. Os temas são tratados de forma didática, sem ser excessivamente “complacente”, sem ser excessivamente “redundante” ou mesmo “professoral”. A mesma abordagem poderia ser direcionada para profissionais do sexo masculino, no que diz respeito à descrição de uma função ou a cuidados que precisam ser observados para fazer um negócio. Há um elemento muito forte da imprensa feminina presente com frequência no texto econômico de Marie Claire: o teste. Este instrumento é utilizado, principalmente, para que a mulher se coloque no mercado de trabalho ou face a novos desafios. De um modo geral as seções econômicas da imprensa feminina reforçam a mulher-consumo ou a mulher-indivíduo. Prevalecem as funções conativa (a sedução) e emotiva (opinião emitida com objetivo de convencimento). A função referencial (baseada na informação) aparece em flashes, permeando textos. O jornalismo econômico na imprensa feminina não pode, genericamente, ser classificado como uma seção de serviços. Falta didatismo e detalhamento no tratamento dos temas (com exceção das características já discutidas da seção de Marie Claire). E os temas escolhidos reforçam muito, o consumo, vendendo, assim, valores típicos da economia globalizada, centrada e comandada pelo mercado.