Joana do Prado Puglia EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE NA ESCOLA Dissertação de Mestrado apresentado ao Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde- Curso de Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul. Orientadora: Dra. Edna Linhares Garcia Santa Cruz do Sul, fevereiro de 2015. 2 COMISSÃO EXAMINADORA Professora Dra. Miriam Pillar Grossi Professora Dra. Suzane Beatriz Frantz Krug Professora Dra. Edna Linhares Garcia 3 AGRADECIMENTOS Agradeço às minhas colegas e aos meus colegas de mestrado que fizeram de cada encontro rica oportunidade de trocas de conhecimentos e afetos. Agradeço também às professoras Miria, Silvia, Hildegard, Edna, Suzane, Dulciane, Anelise, Andreia e Lia, assim como aos professores, Daniel, Valeriano e Luciano, que souberam me conduzir pelos caminhos deste estudo, guiando e instigando meu percurso, não me aceitando os limites, me fazendo chegar onde ora estou. Em especial, preciso agradecer a pessoa leal e carinhosa e à profissional sempre presente, ética, tanto como professora, quanto como psicóloga, que sempre me inspirou confiança, exigiu comprometimento e resultados por acreditar no meu potencial. Acolhendome sempre as angústias de pesquisadora diante do sofrimento humano, entre palavras respeitosas de colega de profissão e as exigências de quem acreditava nas minhas possibilidades. A minha orientadora Edna Linhares Garcia me fez assumir o protagonismo no exercício da escuta também diante de cada sujeito da pesquisa, acolhendo minha vulnerabilidade, quando, muitas vezes, meus próprios conflitos pessoais me fragilizaram neste enfrentamento. Não poderia deixar de agradecer às minhas filhas Débora, Marcela e Jaqueline, e aos meus filhos Fábio e Rafael que, de uma forma ou de outra, também me apoiaram, tolerando minhas ausências, ouvindo minhas angústias diante deste desafio e, por que não confessar, me socorrendo sempre que surgiam problemas técnicos com o computador, com impressões, com revisões, com traduções. Mas uma pessoa, em especial, merece toda minha gratidão e reconhecimento. Meu maior amigo, André Luiz Rocha Puglia, incentivador, companheiro, amante e esposo, que soube compreender minhas ausências, amparar meus temores, silenciar diante da minha falta de paciência com meus próprios limites. Gratidão total à minha secretária, Juliara Petersen, meu braço direito, competente, bem humorada e querida, tornando possível para mim o trânsito entre trabalho e pesquisa. Meu agradecimento carinhoso à agora já colega de profissão, Camila Deufel, na ocasião acadêmica bolsista que, sem medir esforços, participou das sessões de grupos de discussão, gravações, providenciando materiais, possibilitando, facilitando e enriquecendo meu trabalho. 4 Meus agradecimentos também às professoras e professores, assim como aos adolescentes, às adolescentes e ex-aluna, que aderiram aos grupos de discussão, pois, sem estas participações, jamais teria sido possível realizar este trabalho e conhecer a verdade sobre o tema estudado. Existe ainda uma pessoa que não pode ficar de fora de minha gratidão. A presidenta da República, Dilma Rousseff, referência para todas nós mulheres, em sua trajetória de superação, desde os porões da ditadura até a administração de nosso país. Esta mulher que agora, ao exigir ser reconhecida com tratamento de presidenta rompe, mais uma vez, com o instituído pelo patriarcado, que não soube prever, nem na gramática, a presença feminina no poder. 5 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho às meninas que não sobreviveram à violência deste mundo. E às que sobreviveram também. Às que guardam os segredos dolorosos, que ninguém jamais irá imaginar olhando-lhes os olhos serenos. Dedico este trabalho a todas as meninas, nascidas meninas ou nascidas meninos, meninas de vaginas, ou meninas de pênis, meninas de pênis e vaginas ou meninas de vagina e pênis, meninas com peitos, meninas sem peitos, transmeninas, quaisquer meninas, mas meninas! Para que possam ser meninas, e o que mais quiserem ser. Dedico este trabalho às meninas que amam meninas, às meninas que amam meninos, às que amam meninos e meninas, às que amam a si mesmas e às que não amam ninguém. Para todas nós, meninas de todas as idades, para que não precisemos mais viver com medo. 6 RESUMO Resumo: Levando em consideração a relação entre evasão escolar, bullying, sofrimento psíquico e a heteronormatividade, foi-se até às escolas para ouvir alunas, alunos e profissionais da educação a respeito da diversidade sexual. O estudo gerou dois artigos. No primeiro artigo, “Sexismo na escola: presente!” encontra-se o resultado da análise da produção de sentido de discursos de professoras e professores produzidos em grupos de discussão, organizados com objetivo de investigação dos efeitos da heteronormatividade dentro da escola. É um estudo qualitativo onde foram ouvidas 58 professoras e 10 professores em escolas estaduais. Os níveis de rejeição às homossexualidades, lesbianidades e transexualidades, ainda que disfarçados por um discurso politicamente correto, revelaram o entrecruzamento de crenças solidamente fundamentadas no sexismo e no desconhecimento a respeito da sexualidade humana e suas possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento mantém preconceitos e tabus que podem estar tornando educadores e educadoras guardiãs/ões da norma heterossexista, o que gera intenso sofrimento psíquico dentro da escola. Estes resultados apontam para a necessidade de criação de políticas públicas voltadas não somente para facilitar a capacitação destes professores e professoras nos campos de estudos da sexualidade humana, mas, sobretudo para viabilizar a interdisciplinaridade dentro das escolas. No segundo artigo, “Lesbo-trans-homofobia presente na escola,” concentrou a análise de produção de sentido de discursos produzidos em grupos de discussão de alunas e alunos adolescentes, organizados com o objetivo de investigar os efeitos da heteronormatividade dentro da escola. Neste estudo qualitativo foram ouvida/os 32 alunas, 8 alunos adolescentes em grupos de discussão e 1 aluna em entrevista individual, toda/os de ensino médio em escolas públicas estaduais. Os resultados apontam para uma forte presença de lesbo-transhomofobia no ambiente escolar, inclusive com a rejeição à conquista aos direitos igualitários, como casamento e adoção de crianças em relações homoafetivas. Este fenômeno pode ser responsável por intenso sofrimento psíquico, já que, a lesbo-trans-homofobia presente na conformação de subjetividades da/os sujeita/os, obstaculiza as relações interpessoais saudáveis. Considerações finais: Percebe-se a necessidade de criação de políticas públicas voltadas à capacitação de profissionais dentro da escola, levando a informação e o debate sobre o tema, de forma que as pessoas, tanto adolescentes quanto profissionais da educação, possam identificar suas potencialidades e estratégias de enfrentamento e resistências às violências lesbo-trans-homofóbicas dentro e fora da escola. Palavras-Chave: Heterossexismo; Sexismo; Profissionais da educação; Escola; Lesbo-transhomofobia; Adolescentes. 7 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CAPS - Centro de Atenção Psicossocial; CAPS AD - Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas; CEP/UNISC - Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul ; CFP - Conselho Federal de Psicologia; 6ª CRE - Sexta Coordenadoria Regional da Educação; BSI - Escala Beck para avaliação de ideação suicida (Beck Scale for Suicide Ideation); E1 - Escola um; E2 – Escola dois; E3 – Escola três; E4 – Escola quatro; HIV - Vírus da imunodeficiência humana (Human Immunodeficiency Virus); HSH - homens que fazem sexo com homens; HSSM - Hospital São Sebastião Mártir (Venâncio Aires, RS); IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; IFSul - Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia; GGB - Grupo Gay da Bahia; LGBT - lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; LAPS - Laboratório de Práticas Sociais da UNISC; WHO - Organização Mundial da Saúde; PMVA – Prefeitura Municipal de Venâncio Aires; SDH - Secretaria dos Direitos Humanos; SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial; SIS - Serviço Integrado de Saúde, da UNISC; SUS - Sistema Único de Saúde; ULBRA – Universidade Luterana do Brasil; UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura; UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul. 8 SUMÁRIO Apresentação...........................................................................................................................11 Capítulo I ............................................................................................................................... 14 Projeto de pesquisa ................................................................................................................. 14 Capítulo II .............................................................................................................................. 53 Relatório de trabalho de campo .............................................................................................. 53 Capítulo III .............................................................................................................................63 Artigo: Sexismo na escola: Presente! ...................................................................................... 63 Introdução................................................................................................................................ 64 Sexismo, gênero e diversidade sexual ..................................................................................... 65 Método .....................................................................................................................................67 Resultados ............................................................................................................................... 69 Restrição de direitos... ............................................................................................................. 69 O discurso sexista ................................................................................................................... 70 Jogo de saber .......................................................................................................................... 72 E se fosse comigo ................................................................................................................... 77 Considerações finais ............................................................................................................... 78 Capítulo IV ............................................................................................................................ 82 Lesbo-trans-homofobia na escola............................................................................................ 82 Introdução ............................................................................................................................... 83 Falando em identidade .............................................................................................................83 Dentro da escola ...................................................................................................................... 85 Método .................................................................................................................................... 86 Os resultados ............................................................................................................................87 Considerações finais ............................................................................................................... 96 Capítulo V............................................................................................................................... 99 Nota à imprensa .....................................................................................................................99 Anexos....................................................................................................................................101 9 Anexo 1 - carta ao Comitê de Ética- CEP UNISC .................................................................101 Anexo 2 - Carta de conhecimento do projeto - 6ª CRE..........................................................102 Anexo 3 - Termo de concordância para a inst. – Escola .........................................................103 Anexo 4 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido– Participantes ...................................105 Anexo 5- Termo de Assentimento –Menores .........................................................................107 Anexo 6 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido- Ex-alunos.......................................109 Anexo 7 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido– Responsáveis.................................110 Anexo 8 - Guia de entrevista com grupos focais .....................................................................112 Anexo 9 - Orçamento do projeto.............................................................................................113 Anexo 10- Carta de conhecimento/concord. SIS....................................................................114 Anexo 11 Transcrição entrevista aluna trans E1 .................................................................115 Anexo 12 Transcrição E2 Grupo de professora/es..................................................................124 Anexo 13 Transcrição E2 Grupo de adolescentes .................................................................132 Anexo 14 Transcrição E3 Grupo de adolescentes ................................................................ 138 Anexo 15 Transcrição E4 Grupo de professora/es ................................................................146 Anexo 16 Transcrição E4 Grupo de adolescentes .................................................................155 Anexo 17 Transcrição entrevista ex-aluna trans E1 e E2 ......................................................168 Anexo 18- Carta de Declaração de direitos autorais ............................................................ 183 Anexo 19- Diretrizes para autores da Revista Estudos Feministas ...................................... 184 Anexo 20- Carta de encaminhamento à editora Unifor...................................................... 190 Anexo 21- Diretrizes para aut. Revista Mal estar e subjetividade........................................ 191 Anexo 22- Parecer consubstanciado do CEP........................................................................ 197 10 11 APRESENTAÇÃO Entre os primeiros aprendizados na escola estão as piadinhas, os deboches, os maus tratos e a exclusão daqueles e daquelas que não se adaptem às normas informalmente instituídas. E, se não foi em casa, na família, por ter sido protegida e amada incondicionalmente, que a criança descobriu que não podia ser feliz expressando-se e vivenciando sua identidade sexual e de gênero, mesmo sem ter a menor ideia do que seja isto, sem muita sorte, será na escola que ela o descobrirá. E, de repente, estando em um mestrado de Promoção da Saúde, pensando em promover vida e saúde, pode-se pensar que não haveria melhor oportunidade para esta convergência: O entrecruzamento de Educação e Saúde, na medida em que seria impossível se processar a educação sem a saúde mental e se processar a saúde mental sem que aconteçam as mudanças nos micro poderes e nas subjetividades de mulheres e homens no campo das sexualidades. Este trabalho tem o objetivo de dar voz aos sujeitos e sujeitas dos processos de lesbotrans-homofobia, de forma que se possa mergulhar nos campos da sexualidade, em uma abordagem que busca deslocar o foco da causalidade e do sujeito sexual, em um entrecruzamento com as relações de gênero, para as produções de sentido na análise do discurso. Em breve entendimento com Foucault, procurar-se-á delinear a sexualidade, enquanto dispositivo de poder. E, apoiada em Judith Butler, Guacira Louro, Berenice Bento, entre outras, discutiremos os mecanismos deste fenômeno de sujeição de corpos e almas: o heterossexismo. A análise do discurso nas falas selecionadas de professoras e professores, assim como de adolescentes, alunas e alunos das escolas visitadas, entre o rico material colhido, rendeu o estudo ora presente, mas que ainda poderá ser ampliado, devido o potencial que encerra. Esta análise fundamenta-se nos preceitos de Foucault e também de Mary Jane Spink, que orienta para a produção de sentido a partir do discurso. 12 Demonstrar a relevância deste estudo sobre o sofrimento das pessoas não heterossexuais, das travestis e transexuais diante da perseguição, maus tratos, restrições aos direitos civis, e até morte perpetrados por pessoas lesbo-trans-homofóbicas, respaldadas pela instituição heterossexismo, foi o primeiro passo. E não foi difícil, infelizmente, para as tantas vítimas registradas como dados estatísticos nas pesquisas já realizadas em escolas nos Estados Unidos da América e no Brasil mesmo. Bullying, queda de rendimento, abstenções e evasão escolar são as consequências deste fenômeno injusto e cruel. Mais dolorosa realidade são os assassinatos brutais, em geral de travestis e gays, estampados em mal disfarçadas manchetes como crimes comuns, quase todos os dias, nas páginas policiais de todo país. Segundo informações da organização não governamental Grupo Gay da Bahia, GGB (2014), órgão que tem se empenhado em mapear o holocausto lesbo-trans-homofóbico, foram 187 mortes de pessoas homossexuais no ano de 2008, 198 em 2009, 260 em 2010 e 266 em 2011 em todo o Brasil. Estes assassinatos são, em geral, marcados pela violência extrema. Além da arma de fogo, muitas vítimas foram mortas por armas brancas – faca, foice, machado, espancamento e enforcamento. Há ainda casos de degolamento, tortura e carbonização, o que pode estar indicando que se tratam não de ocorrências banais, mas de crimes de ódio contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais LGBT. Não seria possível adentrar um estudo sobre temáticas da homossexualidade e questões de gênero, e os possíveis sofrimentos em razão das expressões das violências de gênero e da discriminação da identidade de gênero, da orientação sexual, sem pensar na forma como se fala, não só agora, aqui, mas o tempo todo sobre pessoas. Pois, esta é mais uma questão que provoca muitas reflexões nesta pesquisadora. As formas sexistas de tratamento, no uso da linguagem na expressão oral e escrita, transmitem e reforça as relações assimétricas, hierárquicas e não equitativas que se dão entre os sexos e gêneros. Porque, segundo Louro (2008), a internalização da regra gramatical que diz que se houver um homem em uma sala repleta de mulheres, o discurso será dirigido no gênero masculino, pode e deve ser questionada, assim como a imutabilidade das regras. Como esquecer que estas regras gramaticais foram instituídas por homens e em um tempo em que as mulheres não tinham a menor possibilidade de impor, sequer manifestar, sua presença em um lugar de poder? Nem mesmo em um discurso. No entanto, é em nome destas regras gramaticais, estabelecidas por uma sociedade machista, quando não se cogitou nem em sonho a possibilidade de uma mulher ocupando um cargo de presidência da República do país, que ainda se fazem todos os 13 discursos dirigidos para os presentes, para os alunos, para os professores, os pesquisadores, os sujeitos, os trabalhadores, embora a presença, muitas vezes maciça, de mulheres e meninas. Um deles presente na sala, bastará para que todas se convertam em todos. Eis o poder que o patriarcado imprime e valida ao homem e destitui à mulher. Não aqui. Pois que este estudo foi realizado para que todas e todos pudessem se sentir contemplado/as, ainda que em um movimento ínfimo e isolado nesta universidade, mas marcando diferença e posição. É desta forma então, que se iniciam os estudos que nos dirão: Quais os efeitos da heteronormatividade na escola? 14 CAPÍTULO I PROJETO DE PESQUISA Joana do Prado Puglia EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE DENTRO DA ESCOLA Santa Cruz do Sul, agosto de 2013 15 Joana do Prado Puglia EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE NAS ESCOLAS Projeto de Pesquisa apresentado ao Programa de Pós Graduação em Promoção da SaúdeCurso de Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul. Orientadora: Dra. Edna Linhares Garcia Santa Cruz do Sul, agosto de 2013 16 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................... 3 2 MARCO TEÓRICO ................................................................................................... 5 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 Adolescência: Potencialidades e fragilidades de um tempo ......................................... 5 Heteronormatividade: Vitimização e desejo de morte.................................................. 8 Mais do que o medo de ser feliz ................................................................................10 Falando em violência...................................................................................................11 Para além dos rótulos ..................................................................................................13 Promoção de cidadania................................................................................................15 3 OBJETIVOS..............................................................................................................16 3.1 3.2 Objetivo Geral.............................................................................................................16 Objetivos Específicos ..................................................................................................16 4 MÉTODO ..................................................................................................................17 4.1 4.2 4.3 4.4 4.5 4.6 4.7 Amostra/população/sujeitos ........................................................................................17 Delineamento metodológico .....................................................................................18 Hipóteses e Variáveis .................................................................................................20 Procedimentos Metodológicos ....................................................................................22 Técnicas e Instrumentos de Coleta .............................................................................24 Processamento e Análise de Dados ............................................................................25 Considerações éticas ...................................................................................................26 5 CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO ........................................................................28 6 RECURSOS HUMANOS E INFRA-ESTRUTURA ..............................................29 7 ORÇAMENTO/RECURSOS MATERIAIS ..........................................................30 8 RESULTADOS E IMPACTOS ESPERADOS ......................................................31 9 RISCOS / DIFICULDADES/LIMITAÇÕES .........................................................32 REFERÊNCIAS .................................................................................................................33 17 1 INTRODUÇÃO Pesquisas recentes têm demonstrado que o abuso e vitimização de pares, por vezes, incluem a discriminação “brincadeiras” homofóbicas por são transgêneros, como também a orientação dirigidas sexual, não em ações só contra heterossexistas, gays, lésbicas, quando bissexuais, heterossexuais que não se conformem aos estereótipos de gênero (Faulkner e Cranston,1998; Espelage e Napolitano, 2008; Remafedi et al., 1998). Foi constatada a associação entre intimidações pelo uso de expressões pejorativas em relação à orientação sexual dos estudantes e a percepção do clima escolar como negativo, fazendo com que a agressão e vitimização entre pares adolescentes, provoquem significativas preocupações de saúde pública, ao relacionar a evidência de maior presença de relatos de ideação suicida e uso de drogas e álcool entre adolescentes não heterossexuais nas escolas onde realizaram estes estudos. Os autores consideraram também que as escolas não são geralmente tolerantes a qualquer orientação sexual que varie a partir de uma orientação heterossexual. Homofobia tem sido a palavra utilizada para nominar o preconceito ou discriminação, e toda forma de violências decorrentes, contra pessoas em razão de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero presumidas. Este termo, porém, não visibiliza as formas de discriminação que não podem deixar de ser lembradas, já que a vitimização de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros é realidade dolorosa em nossa sociedade. Lesbofobia, transfobia e bifobia, são as nomenclaturas também adotadas então, diz Brasil (2012). Rios (2009) considera termo heterossexismo como o mais adequado para designar a discriminação, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, contra homossexuais e todos aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de normalidade, já que fobia remete ao campo da patologia, enquanto que as atitudes preconceituosas, discriminatórias e violentas estão fundadas em uma cultura heteronormativa. Heteronormatividade é a produção e a reiteração compulsória da norma heterossexual, possível pelo alinhamento entre sexo, gênero e sexualidade, quando supõe-se que todas as pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, privando e punindo quem ouse escapar à regra imposta, conforme Louro (2009). Segundo Brasil (2012), entre as violações discriminatórias, a mais reportada é a discriminação por orientação sexual, com 76,37% das denúncias. A discriminação por identidade de gênero aparece como o segundo subtipo mais denunciado, com 15,21% das respostas. As discriminações se sobrepõem, fazendo‐se presente o racismo, a discriminação social, contra pessoas com deficiência, religiosa, geracional, entre outras. Violências 18 homofóbicas acontecem tanto em espaços públicos, quanto em espaços privados e a agressão psicológica é uma das mais reportadas. Os jovens estão entre os suspeitos em maior frequência nas notificações destes casos de violências heterossexistas, assim como grande maioria das vítimas concentra‐se na população jovem, com 61,16% entre 15 e 29 anos. Eventos trágicos, como os ocorridos nas escolas dos Estados Unidos, quando adolescentes alvejam e matam seus colegas e professores, cometendo suicídio, na maioria das vezes, na sequência, despertaram a atenção de autoridades e estudiosos para o problema da violência entre estudantes. O bullying, como é chamado o fenômeno pelo qual uma criança ou um adolescente é sistematicamente exposto a um conjunto de atos agressivos, diretos ou indiretos, que ocorrem sem motivação aparente, mas de forma intencional, protagonizados por um ou mais agressores, pode se tornar grande obstaculizador do desenvolvimento e permanência dos sujeitos dentro da escola. Não deve ser confundido com brincadeiras de crianças e pode ser claramente identificado quando existe a vitimização repetida e sistemática, além a intenção por parte do agressor, ou agressores, de causar dano e prejudicar a vítima, podendo causar também o desgosto desta em relação ao ambiente escolar, de acordo com Lisboa (2005). Segundo Rigotti (2012), a educação na infância é fundamental para o aprendizado nas idades subsequentes e contribui eficazmente para a redução das desigualdades sociais, sendo poderoso instrumento para a diminuição da pobreza. O autor ainda enfatiza que vivemos o momento em que seja essencial uma escola que estimule e retenha os jovens, caso contrário a mão de obra brasileira não atingirá a qualificação suficiente para a inserção em um mercado competitivo e dirigido pela inovação tecnológica. A promoção da saúde passa, obrigatoriamente, pela escola. E não é possível se pensar em escola e futuro sem que haja saúde e desejo de vida. Pensando esta relação entre violência e abuso nas escolas e a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero surge então a pergunta: Quais os efeitos da heteronormatividade dentro da escola? 19 2 MARCO TEÓRICO 2.1 Adolescência: Potencialidades e fragilidades de um tempo Erickson (1976) caracteriza a adolescência como uma fase especial no processo de desenvolvimento humano, presentes a confusão de papéis, as dificuldades para estabelecimento de uma própria identidade como marca deste modo de ser entre a vida da infância e a vida adulta. Knobel (1989) apresenta a sintomatologia do que considera normal da adolescência, na busca de si mesmo e da identidade, tendência grupal, necessidade de intelectualizar e fantasiar, crises religiosas, deslocalização temporal, em que o pensamento adquire características de pensamento primário, evolução sexual manifesta, atitude social reivindicatória com tendências anti social ou associal de diversas intensidades. Além disto, ainda ocorreriam contradições sucessivas em todas manifestações da conduta, separação progressiva dos pais e constantes flutuações de humor e do estado de ânimo. Para Outeiral (1994) a adolescência é uma fase do crescimento humano caracterizada pela definição da identidade, com início na puberdade, se estendendo até que a maturidade e a responsabilidade social sejam adquiridas pelo indivíduo. Inicialmente, o jovem vivencia uma passividade em relação as suas transformações corporais, criando-se a partir daí um sentimento de impotência frente ao mundo e à realidade. Em uma segunda fase, um choque entre gerações ocorre, pois a estrutura familiar que ele deseja vivenciar é muito diferente da que foi vivida por seus pais. Sua independência seria o foco central, incluindo a definição sexual. Na última fase, a busca da identidade profissional e independência financeira. Calligaris (2009) contrapõe esta visão essencialista, falando da adolescência como uma construção histórica e cultural, nascida da necessidade de se questionar sonhos e realizações, no pós guerra, quando adultos passaram a depositar nos jovens seu desejo de mudança. Esta passagem, em que os jovens situam-se entre a infância e a fase adulta, sem serem mais reconhecidos como crianças e ainda não recebendo o devido reconhecimento como adultos, situaria os jovens neste período de espera, sem um ritual que marque o seu início ou fim. Por já possuírem certo discernimento, os adolescentes não são mais considerados crianças e podem assimilar valores, como o destaque pelo sucesso financeiro, social, sexual e amoroso, além de seus corpos e mentes já terem atingido maturação suficiente para que possam atuar nas atividades que garantam tais sucessos. Porém, ainda é imposta pela sociedade esta moratória, que lhes faz uma série de restrições, resultando em comportamentos de rebeldia neste período injusto, na medida em que isto seja o esperado deles. 20 Louro (2000) lembra que o corpo é o locus da construção das identidades, onde se inscreve e se pretende ler a identidade dos sujeitos. Como o corpo da mulher, é marcado pela história, moldado e alterado por distintos discursos e práticas disciplinadoras, e permanece, ainda hoje, como o alvo mais visível e o mais claro representante da sexualidade, pode-se pensar que esta construção de identidades seja bem mais fluída do que se pretende com os rótulos impostos aos adolescentes. Além da mãe e a prostituta, a garota boazinha e a má, por exemplo, podem ter muitas outras designações, mas continuam acenando para uma divisão e um sistema classificatório que toma a sexualidade como referência. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2012), os jovens estão cada vez mais vulneráveis a comportamentos suicidas e este é um problema considerado de saúde pública, que declara ser preciso eleger quais as subpopulações de maior risco que, consequentemente, deverão ser alvo de estratégias direcionadas para a prevenção do suicídio. Em todo o mundo, o suicídio é um das três principais causas de morte entre as pessoas na faixa etária economicamente mais produtiva, 15 a 44 anos, e a segunda principal causa de morte na faixa entre os 15 a 19 anos. Segundo Botega (2010), o Brasil figura entre os dez países que registram os maiores números absolutos de suicídios. Foram 8639 suicídios oficialmente registrados em 2006, o que representa, em média, 24 mortes por dia. Além disso, é a terceira causa de mortes entre jovens de 15 e 35 anos, conforme Brasil (2008). No Rio Grande do Sul os coeficientes, aproximam-se aos dos países do leste europeu e da Escandinávia, ainda segundo Botega (2010). Para Raynaut (2002), cada indivíduo, cada família, cada grupo local, enfrenta, na sua existência cotidiana, não apenas restrições e potencialidades referentes a seu quadro de vida material, mas também aquelas que têm origem em seu universo social e cultural: representações e valores transmitidos pela educação e pelos processos de socialização, e a configuração de relações interpessoais decorrentes da organização social e dos embates de poder. E seu estado de saúde está necessariamente na dependência desse contexto, refletindo a posição que ele ocupa dentro da estrutura social e econômica da sociedade ou, condições de vida. O desafio fundamental é tentar restituir o caráter de totalidade do mundo real dentro do qual e sobre o qual todos nós pretendemos atuar. Totalidade – a palavra surge cada vez que se fala de interdisciplinaridade. Claro que o mundo real, na sua essência, é total. Ele é feito de inter-relações, interações entre os muitos elementos que o compõem. A limitação das possibilidades dos sujeitos, em uma lógica binária, de homem ou mulher, aprisiona-os num campo de atuação performático, diz Butler (2002). O conceito de performatividade de gênero refere-se às práticas regulatórias, na manutenção da ordem 21 compulsória ditada pela heteronormatividade, na repetição de comportamentos, falas, modos, gestos, culturalmente construídos, reforçando a construção de corpos masculinos e femininos, em atos intencionais, gestos performativos. Ainda conforme Butler (2003), o gênero são os significados culturais assumidos pelos corpos e, sendo assim, não se pode dizer que ele decorra do sexo desta ou daquela maneira, como se tenta impor socialmente, quando se diz que isto ou aquilo seja modos de menina ou de menino. Pensando-se então em corpo sexuado e gênero culturalmente construído, a autora nos apresenta uma descontinuidade desta lógica associativa dos únicos dois gêneros, colados ao sexo, para fazer pensar na possibilidade de uma multiplicidade de gêneros. Desta forma, o gênero é uma identidade mantida pela reiteração e repetição das normas socialmente construídas, que se cristalizam, como se fosse uma verdade carnal, incontestável, explica Butler (2003). Em investigações com adolescentes auto definidos como lésbicas, gays, transexuais e bissexuais, Espelage e Napolitano (2008), encontraram associações fortes entre o bullying, orientação sexual e homofobia. Os resultados dependem do apoio que os jovens têm em seu ambiente, porém as escolas, ainda segundo as autoras, não são geralmente tolerante com qualquer orientação sexual variante da heterossexualidade. Comentários homofóbicos ocorriam, algumas vezes, na presença dos professores e funcionários, que não intervinham nestes incidentes. As autoras sugerem que as atitudes homofóbicas, muitas vezes, coexistem com outras formas de agressão e vitimização, resultando em angústia psicológica elevada. Faulkner e Cranston (1998), realizaram estudo também com adolescentes, em Massachusetts, EUA, examinando o risco de uso de drogas, violência física, comportamentos suicidas, relacionados à orientação sexual dos estudantes. Estudantes homossexuais relataram significativamente maior exposição à violência do que heterossexuais, e deixam de ir à escola três vezes mais do que estes, por não sentirem-se bem lá, terem sido ameaçados, além de terem sido roubados muito mais vezes também. Dizem os autores que, em comparação com estudantes heterossexuais, adolescentes LGBTT apresentaram cinquenta por cento mais propensão de considerar seriamente o suicídio nos últimos doze meses. E os relatos de tentativas no ano anterior de suicídios entre os alunos era de o dobro para os homossexuais em relação aos heterossexuais. Isto estaria indicando o aumento do risco de comportamentos suicidas entre os alunos homossexuais. Para Foucault (1987), a escola, assim como outras tantas estruturas de poder, está a serviço do controle, vigiando corpos e desejos, legitimando a norma e fazendo cumprir o instituído, fazendo também da sexualidade um instrumento biopolítico. E este processo plural e permanente de produção dos sujeitos, não se dá sem a participação destes mesmos, como se 22 poderia pensar. Louro (2000) diz que os sujeitos estão implicados e são participantes ativos na construção de suas identidades, na medida em que, mesmo inconscientemente, haja um investimento continuado e produtivo deles mesmos em suas formas de ser homem ou mulher, de acordo com a norma instituída. Os processos de construção de sujeitos compulsoriamente heterossexuais implicam na rejeição da homossexualidade, passando por atitudes, enunciações e comportamentos, na maioria das vezes, explicitamente homofóbico. Desta forma, segundo ainda a autora, não basta que o menino não seja gay, mas precisa ainda provar, dentro desta lógica heteronormativa em que “homem que é homem bate em veado”. E, embora para a instituição da heteronormatividade concorram diversos espaços sociais e institucionais, parece ser na escola e na família onde se verificam seus momentos cruciais, podendo-se supor que, na escola, a homofobia produza efeitos sobre todos os sujeitos. 2.2 Heteronormatividade: Vitimização e desejo de morte Em um estudo da Universidade de Minnesota, EUA, com o objetivo de examinar a associação entre orientação sexual e risco de suicídio em uma amostra de base populacional de adolescentes de escolas públicas de Minnesota, conclui-se que a bissexualidade e homossexualidade são fatores de risco para tentativa de suicídio entre adolescentes do sexo masculino, segundo Remafedi et al. (1998). Foucault (1987) nos apresenta a ideia que é sobre os grandes corpos populacionais que age o biopoder, assim como o fez individualmente, em cada aluno atrás de sua pequena mesa na escola, por exemplo, conformando-os à norma, disciplinando. E quem exerce esta vigilância para que não se desvie desta norma, são os mesmos sujeitos, conformados e disciplinados, quando não permitem que alguém ouse romper com os padrões prédeterminados de ser e estar nesta sociedade disciplinar. Isto talvez possa justificar os achados da pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, em quatro cidades dos EUA (Chicago, Los Angeles, New York, e San Francisco), com o objetivo de conhecer a prevalência de tentativas de suicídio e correlatos psicossociais em uma grande amostra de base populacional de homens que fazem sexo com homens (HSH), conforme, Paul et al. (2002). Apesar da evidência de que "sair do armário" e associação com redes sociais afirmativas LGBTs tenham efeitos positivos em termos de ajustamento psicológico, particularmente em relação à autoestima, este processo também pode ser associado com algumas experiências negativas, pois a divulgação de uma identidade gay ou bissexual pode potencialmente levar ao ostracismo, assédio, violência e consequente sofrimento. Os autores dizem que os dados 23 sugerem que a violência antigay tem aumentado dramaticamente desde os anos 80, com consequências que podem ser bem graves, incluindo depressão, um senso de vulnerabilidade, impotência, raiva, ansiedade e estresse pós-traumático. A conclusão deste trabalho nos diz que homens que fazem sexo com homens estão em risco elevado de tentativas de suicídio. E ser gay ou bissexual foram alguns fatores de riscos específicos, em um ambiente hostil. Porém, a pesquisa pode ser inconclusiva, pois não chega a especificar, em seus questionamentos, se houve relação entre as tentativas de suicídio e o fato dos sujeitos serem gays ou bissexuais, mas somente faz uma ligação temporal entre os fatores relacionados ao “sair do armário” e as tentativas do suicídio, reconhecem os autores. Em novembro de 2007, a Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio, em parceria com o Centro de Recursos de Prevenção do Suicídio e da Gay and Lesbian Medical Association, convocou uma conferência para abordar a necessidade de uma melhor compreensão do comportamento suicida e risco de suicídio na população LGBT. Os participantes desta conferência continuaram os estudos e elaboraram um artigo que investiga o suicídio e risco de suicídio em lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, onde constata-se que os registros de morte não costumam incluir a orientação sexual da pessoa falecida, de forma que não há nenhuma maneira oficial para determinar as taxas de suicídio consumado em pessoas LGBT, diz Haas et al. (2010). Foi tentado fazer uma pesquisa de informações junto aos familiares dos suicidas, a fim de identificar a orientação sexual destes, porém, esta autopsia psicológica teria falhado, já que as pessoas não conseguem dar informações suficiente, por desconhecimento ou por desejo mesmo de omitir fatos. Ainda para Haas et al. (2010), houve várias dificuldades em poder encontrar respostas, e entre elas, os poucos sujeitos pesquisados. Também foi apontado que as pesquisas que têm uma única pergunta sobre a história da tentativa de suicídio, como por exemplo, "Você já fez uma tentativa de suicídio?", sejam pouco esclarecedoras, pois, há casos de alguns entrevistados que não consideram os planos, comportamentos suicidas ou de automutilação, como uma tentativa de suicídio, havendo a necessidade de múltiplas questões que distingam estes comportamentos de tentativas reais de suicídio. Assim como também deveria haver mais questões a respeito da orientação sexual, que apresentassem opções mais variadas, nas pesquisas para público em geral, em vista da relevância da identificação das populações fragilizadas. Três fatores foram considerados significativamente protetores, diz Haas et al (2010), em relação ao suicídio de jovens com experiência sexual com pessoas do mesmo sexo: Conexidade familiar, percepção de carinho de outros adultos, e a segurança da escola. Entre 24 as recomendações relativas às políticas públicas que o grupo de conferencistas faz para reduzir os resultados negativos na saúde mental e discriminação contra as pessoas LGBT e seu estigma, consta, em primeiros lugares, ações anti bullying e legislação para que se tenha escolas seguras, incluindo especificamente respeito à orientação sexual e identidade de gênero relacionada à segurança na escola. Para Raynaut (2002), deve-se considerar que as pessoas às quais estão dirigidas as políticas públicas, em todas as categorias, não são passivas, que elas mesmas atuam no dia a dia para procurar soluções. Só assim, se viabilizaria a possibilidade de uma outra linha de desempenho da ação pública no domínio da saúde - uma linha construída não exclusivamente na verticalidade dos saberes, mas negociada a partir da própria experiência das pessoas e das comunidades. Sem desconsiderar, ainda segundo o autor, os muitos obstáculos sociais e políticos para operar essa reconversão. Mas então, os primeiros obstáculos que superaríamos são aqueles que encontramos no quadro da nossa própria atuação de cientistas, diante da ideia de que as “populações”, em geral consideradas como objetos de estudo, são também sujeitos, atores que têm sua própria experiência dos problemas que pretendemos resolver. Se eles são sujeitos, temos que considerá-los como parceiros, tanto na produção do saber como na elaboração de programas de ação. 2.3 Mais do que o medo de ser feliz Denomina-se heterossexismo o sistema a partir do qual uma sociedade organiza um tratamento segregacionista segundo a orientação sexual das pessoas. Este sistema e a homofobia que, segundo Borrillo (2009), pode ser compreendida como a consequência psicológica de uma representação social que outorga à heterossexualidade o monopólio da normalidade, promovendo o desdém em relação a quem se distancie do modelo de referência, constituem as duas faces da mesma intolerância e merecem, por conseguinte, ser denunciados com o mesmo vigor que o racismo ou o antissemitismo. Este temor, aversão, medo às pessoas homossexuais, manifestos de forma mais emocional, de violência resulta de uma atitude irracional que encontra suas origens em conflitos pessoais, em uma homofobia afetiva que se caracteriza pela condenação da homossexualidade. Na outra face da homofobia, de caráter social, com suas raízes na atitude de desprezo constitutiva da forma ordinária de temer e categorizar o outro, a homofobia cognitiva, pretende simplesmente perpetuar a diferença. Rios (2009) aponta para a ideologia e sistema heterossexistas, frente ao binômio heterossexualidade/homossexualidade, como critério distintivo para o reconhecimento da 25 dignidade dos sujeitos e distribuição dos benefícios sociais, políticos e econômicos, uma vez que o pertencimento a grupos inferiorizados implica a restrição, quando não a supressão completa e arbitrária de direitos e de oportunidades, por razões jurídico-formais, pelo simples exercício da força física bruta ou em virtude dos efeitos simbólicos das representações sociais. O termo heterossexismo seria o mais adequado para designar a discriminação contra homossexuais e por todos aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de normalidade, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, conforme Rios (2009). Enquanto a palavra homofobia estaria mais diretamente relacionada à dinâmica subjetiva desencadeadora do desprezo às pessoas homossexuais, como os medos e ódios. O autor ainda aponta para a proliferação de outros termos objetivando designar formas correlatas e específicas de discriminação, tais como transfobia, relacionada a travestis e transexuais, a lesbofobia ligada a lésbicas e bissexualfobia voltada contra bissexuais. 2.4 Falando em violência Segundo o Relatório sobre violência homofóbica no Brasil, em Brasil (2012), informações relacionadas à faixa etária das vítimas indicam que a grande maioria concentra‐ se na população jovem, com 61,16% de vítimas entre 15 e 29 anos. Nessa faixa etária, as vítimas entre 15 e 18 anos representam apenas 1,23%, enquanto de 18 a 29 anos 59,93%. Ao analisar o perfil dos suspeitos de perpetrar de violência homofóbica, no que tange aos dados referentes às denúncias encaminhadas para o governo federal durante o ano de 2012, 58,9% das vítimas conheciam os suspeitos, enquanto 34,1% eram desconhecidos. Referente à faixa etária dos suspeitos, há elevada taxa de não informação, com 34,68% do total. Entre as idades informadas, a faixa de jovens (de 15 a 29 anos) soma 27,07% do total de suspeitos, seguida pela faixa entre 30 e 39 anos, com 16,85%. Observando os tipos de violações denunciadas durante o ano de 2012, pode‐se verificar que violências psicológicas foram as mais reportadas, com 83,2% do total, seguidas de discriminação, com 74,01%; e violências físicas, com 32,68%. Também há significativo percentual de negligências (5,7%), violências sexuais (4,18%) e violências institucionais (2,39%). Ressalta‐se que algumas denúncias classificam‐se em mais de um tipo de violação. Entre os tipos mais reportados de violência psicológica encontram‐se as humilhações (35,32%), as hostilizações (32,27%) e as ameaças (15,78%). As violências físicas contra homossexuais, ainda segundo Brasil (2012), são o tipo mais evidente das violações de direitos humanos, e aparecem em terceiro lugar nos dados do poder público durante o ano de 2012. As lesões corporais são as mais reportadas, com 59,35% do 26 total de violências físicas, seguidas por maus tratos, com 33,54%. As tentativas de homicídios reportadas totalizaram 3,1%, com 41 ocorrências, enquanto homicídios reportados ao poder público federal contabilizaram 1,44% do total de violências físicas denunciadas, com 19 ocorrências. Ao tentar categorizar as vítimas quanto à orientação sexual, contata-se que categorias como “orientação sexual” e “identidade de gênero”, bem como suas diferenciações, são ainda desconhecidas entre a população, desinformação que torna‐se um obstáculo para a denúncia, diz o Relatório. Quando se fala em violências é preciso que se entenda que o uso da palavra no plural é ainda uma tentativa de expressar a variedade de possibilidades de manifestações deste fenômeno que, segundo Minayo e Souza (1998), consiste em ações de indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade física, moral, mental ou espiritual. A violência, por ser reconhecida como um processo social, não é objeto específico da área da saúde, que já não está mais atrelada a sua função tradicionalmente conhecida, de medidas preventivas e curativas nos cuidados dos agravos físicos e emocionais. Mas, reforçam as autoras, na Promoção da Saúde, a responsabilidade é com o bem estar individual e coletivo. Para Narvaz e Koller (2006), a violência física é decorrente da posição de poder que uma pessoa está em relação à outra pessoa, causando ou tentando causar dano não acidental, por meio do uso da força física ou de algum tipo de arma que possa provocar ou não lesões externas, internas ou ambas. A violência psicológica, diz Habigzang e Koller (2012), abrange o ambiente familiar, profissional e escolar, e pode ser definida como a interferência negativa de algumas pessoas sobre a competência social de outras, com o abuso de poder disciplinador e coercitivo, o tratamento abusivo das relações interpessoais, a depreciação de algumas pessoas perante seus pares. Também na violação de direitos humanos, como à vida, liberdade e segurança. Os mais variados tipos de violências contra a população LGBT acontecem nos círculos de convívio social, quando se manifesta a homofobia. A violência homofóbica vitimiza as pessoas cuja orientação sexual, ou identidade de gênero, presumidamente, não se enquadre nos padrões heteronormativos. Isto significa que mesmo pessoas que se reconheçam como heterossexuais podem vir a ser vitimizadas simplesmente por serem confundidos como LGBT, diz Schilling (2009). 27 2.5 Para além dos rótulos Reduzindo muito a amplidão das possibilidades da sexualidade humana ao aprisiona-la em conceitos, para que se entenda do que se está falando quando se classifica a expressão da sexualidade, pode-se dizer que, conforme Jesus (2012), bissexual é a pessoa que se atrai afetivo-sexualmente por pessoas de qualquer gênero. Heterossexual é quem que se atrai afetivo-sexualmente por pessoas de gênero diferente daquele com o qual se identifica. Homossexual pode ser definido como pessoa que se atrai afetivo-sexualmente por pessoas de gênero igual ao com o qual se identifica. Pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer pode ser reconhecida como mulher transexual, ou homem transexual. Homem transexual é pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como homem enquanto que a mulher transexual, quem reivindica o reconhecimento social e legal como mulher. Já travesti, se diferencia de transexual por ser a pessoa que vivencia papéis de gênero, mas não se reconhece como homem ou mulher, entendendo-se como integrante de um terceiro gênero ou de um não-gênero. Em Brasil (2007), encontra-se que gay é a pessoa do gênero masculino que tem desejos, práticas sexuais e relacionamento afetivo-sexual com outras pessoas do gênero masculino. Pessoa do gênero feminino que tem desejos e práticas sexuais, e relacionamentos afetivo-sexual com outras pessoas do gênero feminino são convencionalmente definidas como lésbicas. Em um estudo para examinar as associações entre três dimensões da orientação sexual e os principais indicadores de saúde comumente estudados entre as populações minoritárias sexuais, Lindley, Walsemann e Carter Jr. (2012), dizem que a orientação sexual de uma pessoa é composta por pelo menos três dimensões: A identidade sexual, o comportamento sexual e a atração sexual. Consideram que a identidade sexual seja a dimensão mais comumente avaliada de orientação sexual em pesquisa de saúde. Porém os itens utilizados para medir a identidade sexual têm sido os mais difíceis para as pessoas responderem em pesquisas de saúde. Não só pelo desconforto que possa representar admitir uma identidade não heterossexual em uma sociedade heterossexista, mas também porque cada vez mais novos rótulos são utilizados para designar as variáveis desta população, como gays, lésbicas, queer, por exemplo. Além de serem muitas as identidades, ainda pode ocorrer que a pessoa simplesmente não se identifique com nenhuma delas. Estas definições podem ainda ser muito estáticas diante das possibilidades, como ser homossexual, heterossexual, ultimamente homossexual, ultimamente heterossexual, comumente lésbica ou gay, pansexual, bissexual, gay curioso, entre outros. A pessoa se vê forçada a fazer uma escolha que nem sempre vê 28 representada nas opções do questionário. Medir a orientação sexual de uma pessoa através do sexo do parceiro ou parceira, também não fornece um dado preciso, já que conceitos de sexo e comportamento sexual também podem ser relativos à interpretação de cada um, dizem os autores. Preciado (2004), em uma discussão a respeito da teoria queer e identidades feministas, faz uma correlação com as ideias de dois teóricos, Foucault e Deleuze, dizendo que uma das formas dominantes da biopolítica no capitalismo contemporâneo é a sexopolítica. Quando o sexo, e os órgãos chamados sexuais, práticas sexuais, códigos de masculinidade e feminilidade, as identidades sexuais normais e desviantes, fazem parte dos cálculos do poder, em um discurso sobre sexo, padronização, tecnologias de controle e identidade. A heterossexualidade, mais do que uma prática sexual, pode ser vista como um regime de biopolítica, na medida em que a administração dos corpos e a gestão calculada da vida, para a produção de corpos “heteros”, calculando a vida em termos de população, e a saúde pelo interesse nacional. Os corpos e identidades que escapam do considerado normal podem ser então entendidos muito mais como efeitos dos poderes políticos do que efeitos do discurso sobre sexo. Cada corpo, dentro da sexopolítica, é definido por sua função e o pensamento heterocentrado garante a ligação estrutural entre a produção da identidade de gênero e a produção de órgãos sexuais e reprodutivos, neste capitalismo sexual. Exemplo disto são a medicalização e tratamento cirúrgico de crianças intersexuais, na gestão cirúrgica da masculinidade e feminilidade, regulação da sexualidade por parte do Estado e crescimento da indústria pornográfica. Ainda para Preciado (2004), em oposição ao sexo, como dispositivo deste conjunto da sexopolítica, que é a medicina, a família e incluindo a representação pornográfica, o conceito de gênero tem crescido, na reapropriação das minorias sexuais. O corpo da multidão gay surge no que Deleuze chamaria de “desterritorialização” da heterossexualidade. Afetando tanto o espaço urbano, quanto o espaço do corpo. Em um processo de resistência de tornar-se “normal”, diz a autora. A desidentificação , identificações estratégicas, tecnologias de conversão e desontologização corpo do sujeito e da política sexual são algumas das estratégias do movimento queer. Sapatão, bicha, dike, gay, lésbica, travas são lugares de produção de identidades resistentes à padronização, ao lugar comum, à regulação dos corpos e das identidades. 29 2.6 Promoção de cidadania A homossexualidade foi, durante muito tempo, combatida ao mesmo tempo como doença, vício, crime e pecado. Não foi senão muito recentemente que a homossexualidade deixou de ser considerada como um problema mental, com a decisão, em 1997, da Associação dos Psiquiatras Americanos de retirá-la da lista das doenças mentais. E foi apenas em 1999 que a Organização Mundial da Saúde a retirou da lista das doenças, conforme Souza Filho (2009). Grande passo para a causa, a resolução do Conselho Federal de Psicologia, em CFP (2013) n° 001/99, de 22 de março de 1999, vem estabelecer normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual. Considerando que o psicólogo é um profissional da saúde, que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, é frequentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade, que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade e que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão. Levando em conta ainda que há na sociedade uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente e que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações, estabelece que: Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade. Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas. Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos 30 homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica. Art. 5° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. Art. 6° - Revogam-se todas as disposições em contrário. No ano de 2004, o governo federal, em conjunto com a sociedade civil, lançou o “Programa Brasil sem Homofobia”, organizado pela UNESCO, voltado a formular e a implementar políticas integradas e de caráter nacional de enfrentamento à homofobia, visando modificar o histórico de cumplicidade e indiferença em relação à discriminação de pessoas homossexuais e promover o reconhecimento da diversidade sexual e da pluralidade de identidade de gênero, garantindo e promovendo a cidadania da população, de acordo com Brasil (2009). Neste mesmo documento da UNESCO, o texto de abertura declara que homofobia compromete a inclusão educacional e a qualidade do ensino, pois incide na relação docente/estudante, produz desinteresse pela escola, dificulta a aprendizagem, conduz à evasão e ao abandono escolar. Por tudo isso, ainda afeta a definição das carreiras profissionais e dificulta a inserção no mercado de trabalho. E este é só o começo desta caminhada na luta pela igualdade de direitos e liberdade da livre expressão da sexualidade humana neste nosso país. 31 3 OBJETIVOS 3.1 Objetivo Geral O objetivo geral deste estudo é verificar os possíveis efeitos da ação heteronormativa dentro da escola; 3.2 Objetivos Específicos Verificar e caracterizar as estratégias de enfrentamento dos e das sujeitos/as aos efeitos da ação heteronormativa, no ambiente escolar; Verificar e caracterizar quais as percepções dos e das profissionais da educação em relação às questões de identidade de gênero e orientação sexual dos alunos; 32 4 MÉTODO 4.1 Amostra/população/sujeitos Os sujeitos deste estudo serão todos os alunos, de ambos os sexos, regularmente matriculados no terceiro ano do Ensino Médio de quatro das onze escolas da rede pública estadual do Município de Venâncio Aires no ano de 2013, que atenderem ao convite para os grupos focais. Foram escolhidas duas escolas localizadas no centro do município e outras duas na zona rural, a fim de que se tenha um público heterogêneo. Também participarão professores das escolas selecionadas e ex-aluna/os auto identificado/as como não heterossexuais, que desejarem integrar grupos focais específicos. Os critérios de exclusão serão os sujeitos que não correspondam ao perfil descrito acima, que não desejem participar da pesquisa, ou ainda os que, sendo menores de dezoito anos de idade, não apresentem a autorização dos pais, ou responsáveis, para participar do processo. O município de Venâncio Aires localiza-se na região do Vale do Rio Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. Com uma população aproximada de 65.946 habitantes, segundo dados do IBGE (2010), bem distribuída entre o meio rural e a região urbana, originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade para trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada no cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra. O município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco, assim como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate. Venâncio Aires, de acordo com informações colhidas na própria Secretaria de Educação do Município (PMVA, 2013), possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas Municipais de Ensino Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de Ensino Médio. A rede privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil até ao Ensino Médio e 7 Escolas de Educação Infantil. O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia – IFSul- disponibiliza vagas para Ensino Médio e Técnico. Além disto, os venâncio-airenses ainda contam com vários cursos técnicos profissionalizantes, como a Escola do Sistema SENAI, um campus da Universidade de Santa Cruz do Sul, a UNISC, e da Faculdade Dom Alberto. Na atenção à saúde, de acordo com informações da Secretaria de Saúde, Venâncio Aires possui uma rede composta de 14 postos de saúde, um Centro de Atendimento às Doenças Infectocontagiosas. O Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), dispõe de 118 leitos, dos quais 71 são destinados a pacientes do Sistema Único de Saúde 33 (SUS) e 47 a particulares e convênios. No ano de 2013 foi inaugurada a Unidade de Tratamento Intensivo, oferecendo 10 leitos à comunidade, sendo 8 para os pacientes do SUS. O município conta também com um Centro de Atenção Psicossocial e um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, CAPS e CAPS AD, respectivamente, conforme dados de PMVA (2013) e HSSM (2013). 4.2 Delineamento metodológico O presente trabalho trata-se de um estudo descritivo exploratório com abordagem qualitativa. Para a realização da investigação, serão organizados grupos focados no tema, homossexualidades e heteronormatividade, e é importante insistir no plural, homossexualidades, pois, segundo Ciccarelli (2012), seria um grande equívoco acreditar que a chamada orientação sexual traduz em todos os casos a mesma dinâmica pulsional. Os grupos de discussões das homossexualidades e preconceito terão o diálogo como a ferramenta principal e vídeo de curta metragem como disparador do debate. Nos grupos focais encontra-se uma técnica que ajuda na investigação de crenças, valores, atitudes, opiniões e processos de influência grupal, além de dar suporte para a geração de hipóteses, a construção teórica e a elaboração de instrumentos, diz Gondim (2002), por trata-se de uma técnica que pode ser usada quando o foco de análise do pesquisador é o grupo. Serão afixados cartazes com a divulgação do grupo de debates sobre homossexualidades e preconceito, com local, data e horário de realização, bem como o endereço eletrônico da pesquisadora, para que as pessoas que desejem participar dos grupos focais, conversar individualmente, ou ainda manifestar anonimamente suas percepções a respeito do tema, fazer depoimentos, possam fazê-lo. Iervolino e Pelicioni (2001) destacam como possibilidades de aplicações do grupo focal: gerar hipóteses sobre um assunto a partir da perspectiva dos informantes; avaliar um serviço ou intervenção de material instrucional; fornecer um quadro inicial para estudo de um campo até então não explorado cientificamente; funcionar como pesquisa exploratória ou como diagnóstico preliminar; obter a interpretação de um grupo sobre resultados quantitativos obtidos em estudo prévio; contribuir para a montagem e teste de questionários e escalas para projetos de pesquisas quantitativas. O grupo focal é numa técnica muito importante para se tratar das questões da saúde sob a perspectiva do social, porque possibilita o estudo de representações e relações dos diferentes profissionais da área, dos vários processos de trabalho e também da população. A 34 interdisciplinaridade na área da saúde apresenta-se como uma condição, pois, saúde e doença envolvem simultaneamente relações sociais, emocionais, afetivas e biológicas, em raízes sócio- históricas e culturais dos indivíduos e grupos, conforme Minayo (1991; 1992). Ainda para Minayo (1992), focalizar a pesquisa e formular questões mais precisas, complementar informações sobre conhecimentos peculiares a um grupo em relação a crenças, atitudes e percepções e desenvolver hipóteses de pesquisa para estudos complementares são estratégias utilizadas quando se trabalha em grupo focal. O processo de entrevista em grupo permite aos pesquisadores observar os participantes em interação e esta dinâmica geralmente faz minimizar a influência do pesquisador na entrevista, já que o poder fica diluído para o grupo e não centralizado no facilitador, diz Madriz (2000). Como estratégia de chamamento dos sujeitos para o grupo de debates, será usado uma técnica presente em estudo realizado na Universidade de Brasília, conforme Mendes (2012), quando foram espalhados em murais do campus cartazes divulgando o objetivo principal da pesquisa e apresentando um endereço eletrônico para que os alunos interessados em participar pudessem entrar em contato, assim como também relatar anonimamente, se preferissem, as experiências relacionadas à discriminação por motivo de orientação sexual, ou suas percepções a respeito do tema. Os cartazes passaram então a ser veículo de expressão dos sentimentos e percepções dos estudantes que ali se expressavam através de escritas, desenhos, ou mesmo atitudes mais agressivas, como arrancar e destruir o material de divulgação. Porém, todas estas formas de expressão são de uma eloquência preciosa para que se possa perceber o que muitas vezes não pode ser dito com palavras. Desta forma, será então também necessário que se observe com regularidade o que acontecerá com os cartazes afixados, fotografando-os, se necessário, a fim de não se perder qualquer movimento significativo. Assim como averiguar diariamente a caixa de entrada de e-mails, disponibilizada aos alunos. Spink (2010) ressalta que o sentido é uma construção social e, como tal, um empreendimento coletivo. Sendo a produção de sentidos um processo interativo, não se produz sentido individualmente. O sentido pode ser entendido como uma construção social contextualizada, histórica e culturalmente e que é essa construção que permite lidar com situações e fenômenos do mundo social. É importante que, ao trabalhar com repertórios linguísticos, se verifique primeiro quais são os repertórios espontâneos do grupo com o qual se estará lidando, ou corre-se o risco de que as pessoas tenham ainda que incorporar o novo termo aos termos usuais. Para Raynaut (2002), os seres humanos e as sociedades que eles constituem são produtores de sentido e a busca de sentido é um dos fatores mais determinantes nos 35 comportamentos, tanto no plano individual como no coletivo. Qualquer política que despreze isto corre grande risco de fracasso. Inicialmente, chegou-se a pensar na possibilidade da aplicação da Escala Beck para avaliação de ideação suicida, BSI (Beck Scale for Suicide Ideation) nos participantes desta investigação, a fim de que se pudesse ter uma ideia a respeito deste aspecto da personalidade dos sujeitos desta pesquisa. Tal instrumento é uma escala constituída por 21 itens, com três alternativas de respostas cada, que refletem gradações da gravidade de desejos, atitudes e planos suicidas, conforme Cunha (2011). A autora alerta para o fato do teste não proteger o paciente caso este decida atuar com base em suas cognições, podendo distorcer ou esconder seu estado real e correr assim riscos, não sendo recomendável dispensar uma avaliação clínica e se basear somente nos resultados do BSI. Esclarece também que o instrumento foi desenvolvido em pacientes psiquiátricos adultos, internados e ambulatoriais, tendo sido pouco testado em adolescentes. Por considerar que, desta forma, a ferramenta não apresentava nem sensibilidade, nem especificidade que lhe concedessem um valor preditivo confiável, ficou resolvido descartar a aplicação da Escala Beck para Ideação Suicida nos adolescentes, que sofreriam um desgaste desnecessário nesta prática. Segundo recomendação de Spink (2010), estar no campo significa prestar atenção aos inúmeros pequenos incidentes do cotidiano que estão associados ao tema de pesquisa, sendo necessário que se ande com uma caderneta disponível para possíveis notas, pois, ser pesquisador é estar em campo o tempo todo; estar atento ao que está acontecendo e que pode trazer pistas valiosas sobre o problema de pesquisa, aceitando o desafio que representa registrar e utilizar estes dados. Por isto mesmo, circular entre os adolescentes, nos intervalos das aulas, nas atividades recreativas, esportivas, estudantis, se tornará excelente oportunidade para vivenciar a experiência de interlocuções entre os estudantes e seus colegas, professores, funcionários da escola, assim como conhecer as estratégias de inserção de todos e poder editar o diário de campo desta investigação. 4.3 Hipóteses e Variáveis Hipótese 1: A escola, quando assume o papel de reforçadora da instituição da heteronormatividade, alicia os jovens estudantes como guardiães desta norma; Hipótese 2: A vigilância heterossexista dentro da escola transforma jovens em perseguidores daqueles que não se conformam, ou mesmo aos que simplesmente escapam às rígidas estereotipias de gênero; 36 Hipótese 3: O heterossexismo perpetua e define as formas de intimidação e agressão dentro da escola; Hipótese 4: Para jovens estudantes, ocupar o lugar de perseguidor heterossexista também pode estar falando de seu medo diante da ameaça que o “transgressor” da norma representa enquanto possibilidade; Hipótese 5: Existem diferenças na forma de manifestação do controle e das resistências à heteronormatividade entre os grupos da zona rural e a urbana; Hipótese 6: Os profissionais da educação manifestam sofrimento psíquico em relação às questões de orientação sexual e identidade de gênero dos estudantes. Heteronormatividade entendida como a instituição da heterossexualidade como a única forma aceitável de expressão da sexualidade. Dentro desta lógica heteronormativa, temos como consequência o fenômeno do heterossexismo, que é a expressão de repúdio, desprezo, inaceitação, preconceito contra as pessoas que escapem a esta norma, sendo homo ou heterossexuais. O que pode derivar em reações de exclusão, perseguição, privação de direitos, violência e até morte das vítimas. O município de Venâncio Aires tem sua população relativamente bem distribuída entre o meio urbano, compreendido pelo centro da cidade e bairros, e ainda o meio rural, composto de distritos conhecidos como linhas, onde atividades agropecuárias são desenvolvidas por pequenos agricultores. Há ainda o distrito industrial, ocupado por empresas fumageiras, de refrigeração, metalurgia e alimentos. Todos os distritos são servidos por escolas da rede pública de ensinos Fundamental e Médio. Estereotipias de gênero são práticas reguladoras materializadas na repetição de comportamentos, falas, modos, gestos, culturalmente construídos, reforçando e validando a construção de corpos masculinos e femininos. Dentro desta lógica binária, que cola sexo ao gênero, existiriam gostos, brincadeiras e modos de meninos ou de meninas. Estes fazeres compulsórios passam a ser os construtores e aprisionadores do masculino e do feminino. Orientação sexual é a direção para qual se orienta o desejo, o afeto e as fantasias de uma pessoa. Se for em direção a alguém de seu mesmo gênero, dizemos que esta pessoa seja homossexual. Se esta orientação for em direção a pessoas de gênero oposto, heterossexual. No caso da pessoa sentir atração, desejo por pessoas de ambos os gêneros, então consideramos que ela seja bissexual. Mas é interessante destacar que quem definirá a orientação sexual é a própria pessoa em um processo de auto identificação. Assim também ocorre com a identidade de gênero. Pois, o que determina a identidade de gênero de alguém é a própria percepção que esta tenha de si. Se masculina ou feminina. 37 A categorização das pessoas dentro de conceitos como lésbica, gay, travesti, transexual, bissexual, transgênero, queer, por exemplo, é apenas uma estratégia cultural para se lidar com as muitas expressões da sexualidade humana, já que esta transcende esta fixidez e limitação de conceitos. Sofrimento psíquico, ou os conflitos com que os sujeitos são confrontados na experiência de viver, frente ao outro, na fragilidade dos vínculos, nos medos, das próprias exigências, agressões do meio, surgem o desconforto emocional, a angústia, ansiedade, que vão se manifestando na falta de expressão afetiva, no isolamento, na tristeza, na depressão, na falta de desejo. É no corpo que surgem os registros deste sofrimento através do sintoma, denunciando o que a palavra não disse. Recurso simbólico mediando o subjetivo e o real. 4.4 Procedimentos Metodológicos O estudo se desenvolverá nas seguintes etapas: 1ª etapa: Elaboração do Projeto de Pesquisa, envio e aprovação do Comitê de Ética. 2ª etapa: Visita à Coordenadoria Regional de Educação em Santa Cruz do Sul e apresentação do projeto a fim de se obter autorização para realização do estudo junto ao público alvo; 3ª etapa: Capacitação da voluntária, acadêmica do curso de psicologia, com quem a pesquisadora dividirá a tarefa dos registros dos dados colhidos durante as etapas do estudo; 4ª etapa: Visita às quatro escolas estaduais do município de Venâncio Aires a fim de apresentar-lhes o projeto e solicitar a colaboração para desenvolver o estudo junto às turmas de terceiros anos do ensino médio; 5ª etapa: Esclarecer as pessoas envolvidas na pesquisa como ela acontecerá, através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e entregar para que solicitem a assinatura pelos responsáveis (no caso dos estudantes menores de 18 anos), pelos maiores, e as devolvam em data marcada, quando o pesquisador também assinará; 6ª etapa: Distribuição de cartazes (uma semana antes da realização de cada grupo) pelos murais das escolas envolvidas no processo, fazendo a divulgação do tema abordado, objetivos e chamamento para participação do grupo focal. O cartaz divulgará também um email para manifestação dos sentimentos em relação ao tema proposto. 7ª etapa: Visitas diárias às escolas a fim de se constatar as condições dos cartazes ( se ainda estão afixados, se existem recados, fotografá-los e, se for necessário, substituí-los). 38 Reforçar o convite para o grupo focal. Nesta ocasião, circulando pelos espaços das escolas, escutar o que tenham a falar professores, funcionários e outros estudantes. 8ª etapa: Primeiro encontro do grupo focal, quando firmado um compromisso de confidencialidade, em que todos terão a garantia de que as pesquisadoras não divulgarão nenhum dado que os identifique pessoalmente. Assim como também se solicitará que os participantes procurem guardar os depoimentos que ouvirem dos colegas, em um pacto de solidariedade. Tudo será sempre registrado no diário de campo. 9ª etapa: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema em discussão. 10ª etapa: Discussão do tema homossexualidades, heterossexismo, preconceitos e discriminações. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado em compromisso de confidencialidade previamente assumido pelo grupo. A pesquisadora auxiliar estará fazendo as anotações pertinentes, dos gestos, expressões e falas paralelas, conforme combinação prévia entre as pesquisadoras. 11ªetapa: Após o primeiro encontro de cada grupo (um por escola), as pesquisadoras se reunirão para fazer o cruzamento do registro detalhado das impressões do trabalho no diário de campo; 12ª etapa: Segundo encontro do grupo focal (o segundo de cada escola): Os sujeitos terão oportunidade de assistir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento dos grupos, quando poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. 13ª etapa: Grupo focal com professores, quando será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema em discussão. 14ª etapa: Discussão do tema homossexualidades, homofobia e preconceitos com as professoras. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado em compromisso de sigilo da pesquisadora e de confidencialidade previamente assumido pelo grupo. A pesquisadora auxiliar estará fazendo as anotações pertinentes dos gestos, expressões e falas paralelas, conforme combinação prévia entre as pesquisadoras. 15ª etapa: Segundo encontro do grupo focal com professoras: Os sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento dos grupos, quando 39 poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. 16ª etapa: Entrevista com pessoas travestis e transexuais, ex-alunas de escolas do município de Venâncio Aires, a fim de saber quais suas impressões e sentimentos a respeito do tema em discussão, reportando suas experiências como estudantes da rede pública de ensino. 17ª etapa: Análise dos dados contidos nos debates dos grupos, nos registros nos cartazes, nos conteúdos das mensagens virtuais, assim como também das impressões colhidas pelas pesquisadoras, nos gestos, nas conversas paralelas, nos olhares e em todos os indicadores dos sentimentos e percepções dos sujeitos envolvidos naquele projeto, ou seja: alunos participantes, alunos da escola que souberam da existência dos debates e o tema, professores, pais, funcionários e quem mais se envolva ou expresse sua impressão. Tudo será percebido como indicador da produção de sentidos. 18ª etapa: Discussão do material de diário de campo, composto por todas as fontes acima citadas, confecção do mapa de associação de ideias a fim de sintetizar o processo de análise das práticas discursivas a fim de se compreender o fenômeno. • 19ª etapa: De acordo com a demanda da escola, receptividade dos sujeitos, resultados da pesquisa, se pensará uma forma de retorno dos resultados desta, que necessariamente acontecerá junto às escolas, estendendo-se o convite de participação a/aos ex-aluna/os. É importante que a pesquisadora esteja disponível para possível necessidade de escuta individual, devido aos sentimentos mobilizados pela abordagem do tema, assim como de encaminhamento a atendimento especializado por profissional de acordo com a demanda. 4.5 Técnicas e Instrumentos de Coleta Em observação descritiva, quando as pesquisadoras circularão pelos espaços comuns das escolas, ouvindo e registrando tudo que comunicar, verbal ou gestualmente, a respeito do tema, se construirá o diário de campo, de forma a se conhecer o ambiente em que estão inseridos os sujeitos deste estudo. A pesquisadora se apresentará ao corpo docente, entregando-lhes uma cópia do projeto de pesquisa, assim como os termos de consentimento livre e esclarecido, e fará uma exposição sobre seus objetivos e o tema do estudo. Na ocasião, será importante que a pesquisadora auxiliar, mais uma vez, esteja a registrar todas as manifestações dos participantes desta conversa. Entre os estudantes dos terceiros anos das escolas também será feita a apresentação 40 do projeto, sem que lhes seja entregue cópia dos documentos, mas só oralmente, a fim de que conheçam e tenham oportunidade de expressar suas impressões sobre o tema. A pesquisadora auxiliar também estará fazendo o importante registro de suas percepções neste momento. Nesta ocasião serão distribuídos os termos de consentimento para que quem desejar participar do estudo assine ou leve para seus responsáveis assinarem. Cópias deste documento serão deixadas na secretaria da escola a fim de que os alunos que não pegarem no primeiro contato possam fazê-lo em outra ocasião, se desejarem. A fixação de cartazes com o chamamento para o grupo de discussão do tema será outra técnica de provocação da manifestação dos sujeitos, já que estarão livres para escrever e enviar e-mails, considerando-se o fato de que estes estarão em locais de livre circulação em território dos alunos. Uma conta de e-mail no nome da pesquisa será aberta exclusivamente para receber os comunicados dos sujeitos, tornando-se espaço livre de censura e exposição, já que não será necessário identificar-se. Será nos encontros dos grupos focais que poderão os sujeitos expor suas opiniões e debater, assim como fazer questionamentos a respeito da homossexualidade, homofobia, heteronormatividade e quais querem outras dúvidas que forem pertinentes ao estudo. O uso de um filme em curta metragem, “Não quero voltar sozinho”, de Ribeiro (2010), será o disparador da discussão, quando todos os sujeitos que atenderam ao chamado para o grupo focal poderão assistir e fazer comentários livremente. O grupo de discussão terá duração de sessenta minutos e número de participantes limitado em vinte e cinco pessoas no máximo e três, no mínimo. Se for necessário, devido ao número de sujeitos interessados em participar, se disponibilizará a formação de outros grupos. Professores também serão convidados a formar um outro grupo focal para os mesmos debates. Ocorrerão dois encontros de cada grupo focal. No primeiro acontecerá a discussão a partir do vídeo. Esta sessão de debates será, com a devida autorização dos participantes, gravada. No segundo, os integrantes terão a oportunidade de assistirem a gravação de suas próprias falas, enquanto participantes do primeiro encontro, e retomar a reflexão. Para finalizar, papel e canetas serão disponibilizados a fim de que as pessoas possam expressar também graficamente, se assim desejarem, seus sentimentos. Pessoas auto identificadas como não heterossexuais, ou travestis, transexuais, gays, lésbicas, bissexuais, também serão ouvidas a respeito de sua experiência enquanto ex-aluna/os de escolas públicas de ensino médio do município de Venâncio Aires. A escuta se dará através de entrevista aberta, usando-se perguntas norteadoras que estimulem a narrativa sem 41 constrangimentos, em local conveniente tanto para as pessoas entrevistadas, quanto para as entrevistadoras. 4.6 Processamento e Análise de Dados Os dados deste estudo serão levantados nos seguintes momentos: Quando se analisar cuidadosamente os registros detalhados do ambiente em que estão inseridos os sujeitos, considerando-se desde as disposições nos espaços comuns, como intervalos, esportes, alimentação e sala de aulas, como também os comportamentos de alunos, funcionários e professores nestes espaços; Quando se analisar as falas e gestos, destes atores pelos espaços da escola; Quando se analisar as reações dos sujeitos diante dos cartazes, em qualquer manifestação, pois que toda será expressiva de sentido; Quando se analisar as falas e os silêncios dos sujeitos nos grupos de debate do tema do estudo, assim como os olhares, os gestos, os sorrisos, as escritas, os desenhos e as ausências: Quando se analisar o conteúdo da caixa de entrada do e-mail do estudo; Será do conjunto de toda esta análise de dados objetivos e subjetivos, descritos e transcritos, após cada confronto, que emergirão da presença das pesquisadoras, da provocação dos cartazes, da discussão das opiniões, da liberdade de se expressar que surgirá o mapeamento da produção dos sentidos dos sujeitos. Fundamentada no referencial teórico que norteia este estudo será analisada a compreensão dos sentidos das experiências vivenciadas, identificando informações de maior relevância, relatos serão agrupados por semelhança e coerência interna da produção discursiva, de acordo com Minayo (1993). Para a transcrição das falas, tanto as individuais, quanto nos grupos focais, será adotado um quadro constituído de colunas: uma para as questões orientadoras, outra para o registro da fala de entrevistados e a última para o registro das categorias evidenciadas nas falas; O quadro categorial, onde representações sociais e seus elementos decorrentes possibilitarão o mapeamento das respostas, tantos dos alunos, quanto de professoras, identificará percepções dos sujeitos em relação ao fenômeno enquanto inseridos na família, na escola e no grupo; No quadro, as respostas poderão ser classificas entre: crenças, opiniões, normas, conflitos, valores, atitudes, estratégias, resistências, negação e outras que surgirem. 42 4.7 Considerações éticas Primeiramente, o projeto será encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Os sujeitos participantes dos grupos focais estarão à vontade para exporem suas concepções, na certeza de estarem protegidos pela regra da confidencialidade, inerente à profissão da pesquisadora e compactuada pelos integrantes do grupo, pois seus nomes e identidade serão preservados, assim como todas as narrativas que ali forem expostas. Todos que forem maiores de dezoito anos assinarão um termo de consentimento livre e esclarecido, a fim de que possam saber do que se trata o estudo e estejam conscientes do processo de investigação a que estarão se engajando. Os estudantes que tiverem menos de dezoito anos de idade precisarão que seus pais, ou responsáveis, assinem o consentimento livre e esclarecido para que possam participar da pesquisa. Também será necessário que autorizem a gravação dos depoimentos, já que tudo que for dito nas rodas de debates será gravado, para que em outro momento, todo o grupo possa ouvir o que foi dito por eles mesmos e assim analisar suas falas e posicionamentos frente ao tema. 43 5 CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO Atividades/Etapas metodológicas 2013 Elaboração do Projeto de Pesquisa; 2014 J J A S O N D F x x x x x Envio e aprovação do Comitê de Ética; M A M J x X x Capacitação da pesquisadora voluntária; x Apresentação do projeto às professoras das escolas escolhidas de Venâncio Aires; Apresentação aos sujeitos e entrega do Termo de Consentimento; x Distribuição de cartazes nas escolas; x Visitas às escolas para examinar cartazes; x Primeiro encontro de cada grupo focal; x x Reuniões das pesquisadoras; x x Segundo encontro de cada grupo focal; x x não Discussão do material de diário de campo; x x X x x X x x x X x x X x Análise dos dados; Revisão bibliográfica; A S O N D X Apresentação do projeto às escolas para que autorizem a realização do estudo; Entrevistas com ex-aluna/os heterossexuais de escolas E.E.M.V.A. J X x x x x Devolução aos sujeitos; Redação/revisão final da dissertação; Defesa da Dissertação. x x X x X x x x X 44 6 RECURSOS HUMANOS E INFRA-ESTRUTURA Será necessária a presença de uma pessoa capacitada para auxiliar a pesquisadora na coleta de dados durante as entrevistas no grupo focal, quando será preciso que sejam registrados não só as falas paralelas dos sujeitos, como a linguagem gestual, expressões faciais, chistes e quaisquer outras manifestações dos sujeitos. Esta pessoa será uma graduanda do curso de Psicologia, bolsista do Laboratório de Práticas Sociais, LAPS, do Departamento de Psicologia da UNISC, que já se apresentou como voluntária também para esta pesquisa. Assinará o termo de compromisso de trabalho voluntário, dispensando qualquer vínculo empregatício com a Universidade. O local para a realização dos grupos focais deverá ser uma sala, dentro da própria escola, podendo ser sala de aula com distribuição de cadeiras em forma circular, mesas agrupadas junto às paredes, já que não serão utilizadas na ocasião, arejada e iluminada, devendo ter chave na porta, de modo que se possa gozar de privacidade, sem ser interrompidos durante as sessões. Também deverá haver a possibilidade de que se procedam aos debates sem que as falas possam ser ouvidas do lado de fora da sala, a fim de que se possa garantir o sigilo dos conteúdos ali dentro abordados. Serão necessários também recursos de multimídia, que as escolas já têm disponíveis, a fim de que se tenha possibilidade de exibir filme de curta metragem para fomentar o debate entre os participantes. Folhas de papel e canetas serão disponibilizadas aos participantes, a fim de que possam se expressar da forma que preferirem. Cartazes serão gerados em computador e impressos, sendo necessários serviços de impressão colorida. Serão seis cartazes para cada uma das quatro escolas, totalizando assim, vinte e quatro cartazes. Um rolo de fita adesiva também será necessário para afixação dos mesmos. 45 7 ORÇAMENTO/RECURSOS MATERIAIS GESTOR FINANCEIRO: A pesquisadora Itens a serem financiados Valor Valor Unitário Especificações Quantidade Canetas Folhas A4 Impressão de cartazes Bloco de notas Fita adesiva 50 500 24 4 1 Total R$ 1,00 0,01 1,00 5,10 3,50 Total R$ 50,00 15,00 24,00 20,40 3,50 112,90 TOTAL GERAL R$ 112,90 46 8 RESULTADOS E IMPACTOS ESPERADOS Espera-se como resultados deste estudo, que se possa abrir espaço para o diálogo a respeito do tema que, embora tão polêmico e em exposição na mídia, se mantém tabu dentro das escolas e famílias. E ainda, analisando-se os discursos e estratégias dos sujeitos, que se possa dar visibilidade a relação entre o fenômeno heteronormatividade e sofrimento psíquico que justifique uma atenção, tanto às vítimas quanto aos agressores, por parte dos gestores e comunidade. Espera-se ainda que os jovens sujeitos encontrem referências positivas nos tantos homens e mulheres que protagonizam ações afirmativas nas conquistas das Políticas Públicas que buscam garantir os direitos de todos e todas na livre expressão da sexualidade. 47 9 RISCOS / DIFICULDADES / LIMITAÇÕES A pesquisa qualitativa, por caracterizar-se, na grande maioria, pela investigação de fenômenos sociais únicos, em ambiente social em que ocorrem, apresentando certa dificuldade de controle dos fatores que influenciam os sujeitos no momento dos estudos. Assim como situações sociais únicas não podem ser reconstituídas com precisão, nem duplicada com exatidão em um método e conjunto de procedimentos. Porém, cuidados como a anotação descritiva minuciosa do contexto, transcrições literais das entrevistas, dos fatos, registros de áudio, fotografias, filmagens, podem capturar todo o cenário de forma que outros pesquisadores possam entender o que foi vivido pelo estudioso naquela pesquisa. A colaboração de mais de um pesquisador é outro fator importante para testemunhar os registros do evento e dar maior confiabilidade interna. A possibilidade que os sujeitos faltem aos encontros, às entrevistas, desistam da participação, ou ainda que seus responsáveis, já que se trata de um público formado, na sua maioria, por adolescentes menores de dezoito anos de idade, não autorizem sua participação, existe e pode ser um forte obstaculizador. Porém, pode também ser um mais analisador social dos fenômenos que motivam estas interferências, em se tratando de um tema cujo silêncio e a negação têm sido as mais eloquentes manifestações que se pode colher. Riscos e danos materiais para os sujeitos que se apresentarem como voluntários não há. Porém, a pesquisadora estará atenta e disponível à escuta e atenção individualizada em caso de mobilização de emoções e conflitos internos por parte dos jovens, assim como para encaminhá-los aos profissionais do SIS- Serviço Integrado de Saúde, da UNISC, caso seja necessário. 48 REFERÊNCIAS ALTMANN, Helena. Orientação Sexual nos parâmetros curriculares nacionais. Estudos Feministas, Florianópolis, v.9, n. 2, jun/dez. 2001. BORRILLO, Daniel, A homofobia. In Lionço, Tatiana; Diniz, D. Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: Letras Livres : EdUnB, 2009. BOTEGA, Neury. Comportamento Suicida em Números in Debate: Psiquiatria Hoje. Revista da Associação Brasileira de Psiquiatria. Ano 2, n.1, p. 10, Jan./Fev. 2010. BRASIL. 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Acesso em 07 mai. 2013. 53 CAPÍTULO II RELATÓRIO DO TRABALHO DE CAMPO Conforme estratégia descrita no projeto de pesquisa no capítulo anterior, as quatro escolas que foram selecionadas, duas da região urbana e duas da região rural, foram visitadas já no final do ano de 2013, a fim de se saber da disponibilidade e interesse destas em participar da pesquisa. Na ocasião também foram assinados os termos de adesão das instituições ao processo de pesquisa. No dia 11 março do ano de 2014, aconteceu a visita à direção da escola de meio urbano, que a partir de agora será chamada de E1, para agendar as reuniões de apresentação da pesquisa aos e às profissionais da educação. A vice-diretora, que demonstrou excelente receptividade, aproveitou para solicitar orientação a respeito do caso de um aluno que, segundo ela, vestia-se com roupas consideradas femininas e desejava ser chamado por nome de mesma característica. Disse não saberem mais como lidar com o problema, do qual já haviam feito referências no ano passado, na ocasião do convite à escola a participar da pesquisa, quando consultaram sobre o dilema de qual banheiro o aluno deveria usar, já que este se negava a usar o destinado ao público masculino e a escola se negava permitir o uso do banheiro reservado ao público feminino. Soube-se que atualmente o aluno, como a diretora insistia em chama-lo, tem usado um banheiro alternativo. Mas surgia a questão do nome. A vice-diretora foi questionada sobre o conhecimento da Lei do Nome Social, ao que esta respondeu total desconhecimento, embora a percebesse como justa e necessária. Combinou-se então um encontro com o aluno, para, em contato com este, ser possível entender melhor o caso. Agendaram-se também as reuniões de área, quando poderia ser apresentada a educadoras e educadores a pesquisa, assim como a pesquisadora e a bolsista assistente. Foi solicitado pela vice-diretora que lhe enviassem uma cópia do decreto estadual que regulamenta o uso do nome social de pessoas travestis e transexuais em escolas públicas estaduais e serviços públicos de saúde no estado do Rio Grande do Sul. No dia 13 de março, aconteceu a entrevista do aluno, que na verdade tratava-se de uma jovem transexual feminina. Embora ela não cursasse o terceiro ano do ensino médio e, por isto, não se enquadrasse no perfil dos sujeitos desta pesquisa, foi ouvida e fez importantes revelações, em um discurso atravessado por medo, auto desvalia, transfobia introjetada. 54 Gabriela1 tinha dezoito anos, cursava o primeiro ano do ensino médio e, soube-se mais tarde que, antes do fim deste estudo, ela já não estava mais frequentando a escola noturna. Destacou-se entre suas falas a sua percepção de que sempre houve uma discrepância entre o que os outros enxergavam nela e a sua auto percepção desde criança. Em seu discurso, ela era normal porque não tentava ser o que os outros queriam que ela fosse, mas estava sendo o que ela sabia que era: uma menina. E eles é que não viam isto. As transformações do corpo validavam sua identidade de gênero, mas o nome de registro civil lhe denuncia o sexo e causava sofrimento. Mas não era só o nome que a traia. A hora de usar o banheiro, masculino ou feminino, era outro momento de grande sofrimento na escola. Era o lugar de ninguém, quando tentavam invisibilizar sua transexualidade, já que lhe destinaram um banheiro abandonado, em reformas, sem luz. Falava da vigilância que sofria nas redes sociais, pelas professoras e professores na escola, sempre prontos a denunciar o que ela mesma chamou de falsa identidade. A palavra morte apareceu com frequência no discurso de Gabriela, quando ela reproduziu o que ouvia de rapazes, que não sabiam que ela fosse uma transexual, dizendo que pessoas gays, travestis, têm que morrer, matar a pedradas e também no momento em fala que, quando, na hora da chamada, dizem seu nome de registro é como se a pessoa estivesse lhe dando um tiro. E ela sente muito medo. As palavras medo, ninguém e nada, respectivamente, aparecem inúmeras vezes em seu discurso, em combinações que podem estar revelando a percepção de muita desvalia. Terminada a entrevista, durante o deslocamento pelo pátio da escola até o portão de saída, podia-se ouvir o coro formado pelos poucos adolescentes que permaneciam ali, pois era horário de aula, gritando palavras muito agressivas e desqualificadoras, embora Gabriela estivesse acompanhada pela pesquisadora. Ao ser indagada sobre a frequência com que aquela cena acontecia, a adolescente revelou que aquele já era um ritual diário que lhe despertava muito medo. No dia 26 março, às 08h50min, a diretora da escola, tendo recebido a cópia que lhe foi enviada do decreto que regulamenta o uso do nome social por pessoas travestis e transexuais nas escolas públicas estaduais, disse que aquele material fora apresentado ao conselho escolar e solicitaram uma lei federal que validasse o decreto. Disse que havia muita resistência em aceitar a mudança, já que o aluno não tinha seu nome de registro alterado. No mesmo dia, foi feito contato com uma profissional do direito militante desta questão, que respondeu gentilmente à solicitação de esclarecimento quanto às dúvidas 1 Os nomes do/as sujeito/as desta pesquisa foram substituídos a fim de preservar-lhes as identidades, conforme compromisso de sigilo estabelecido previamente. 55 surgidas no aspecto legal da causa do nome social, pode-se retornar à escola, e informar que o decreto do governador tem força de lei e que funcionárias e funcionários públicos estaduais estão subordinados a esta lei. Então, a diretora declarou negar-se a aceitar o uso de nome social naquele caso, enquanto não ocorrer cirurgia de troca de sexo e troca do nome no registro civil. Em resposta a esta declaração, ela foi informada de que o decreto só tinha motivo de existir justamente para minimizar o sofrimento de pessoas naquela situação, quando o nome social é utilizado para substituir o uso do nome de registro de pessoas que se sentem desconfortáveis pela desidentificação do corpo e o gênero. Lembrando ainda que cirurgia de redesignação sexual é um processo que é independente da troca de nome e reconhecimento da identidade de gênero da pessoa. No dia 14 de maio, em contato telefônico para confirmação dos horários das reuniões onde se daria início às discussões pertinentes ao tema da pesquisa em grupos focais, conforme já combinado, a vice-diretora informou que não haveria reunião naquela escola naquele dia. E também no dia seguinte. Disse que todas as reuniões necessárias já tinham ocorrido e que não havia mais previsão de novas reuniões. Acrescentou que, desta forma, não via como pudessem acontecer as reuniões dos grupos focais com professoras e professores. Sendo assim, ficou bem claro que realmente não era desejada a presença das pesquisadoras e discussões sobre o tema naquela escola, e encerraram-se ali as negociações, mesmo porque, tais atitudes, por si só, eram tão eloquentes, ou mais, quanto quaisquer outras declarações que pudessem ser feitas em um grupo focal. Foi solicitada à 6ª CRE a circulação da informação sobre a referida lei que regula o uso do nome social nas escolas públicas estaduais e soube-se que isto aconteceu. No dia 25 de março do ano de 2014 aconteceu o primeiro contato com professoras e professores, em breve e tranquila apresentação durante reunião da área das ciências humanas na segunda escola do meio urbano, escolhida para participar desta pesquisa, que ora passará a ser identificada como E2. Em 26 de março, em reunião de área da Linguagem, também foi bem receptiva à exposição do projeto de pesquisa e a proposta para debate em grupo focal em outra ocasião. O mesmo aconteceu na tarde daquele dia, na reunião da área da Matemática. Porém, na ocasião fizeram perguntas sobre nome social e uso de banheiro por pessoas transexuais, chegando a ser sugerido que “seria mais fácil trocar o nome nos documentos, ao invés do uso do nome social”. Em 14 de abril, aconteceu uma reunião de professores e professoras e nesta ocasião foi aberto espaço de uma hora para a realização do grupo focal em E2. Esta proposta pareceu 56 estranha, pois tinha sido dito várias vezes à supervisão e direção da escola que o grupo focal deveria ser de participação voluntária e não por convocação. Mas, diante da dificuldade que a outra escola vinha apresentando em abrir espaço para discutir o tema, considerou-se conveniente aceitar a oferta. Sendo assim, este primeiro grupo focal converteu-se em grupo de discussão, realizando-se de maneira não muito adequada, com muitas pessoas, o que dificulta a comunicação de todas e todos. Eram 32 professoras e 7 professores participantes. Foi um discurso marcado por declarações sexistas, com a culpabilização da mulher, que teria negligenciado nos cuidados e educação dos filhos, remetendo a representações de gêneros estereotipados e rígidos. Revelaram uma percepção da homossexualidade e transexualidade como anormais, em flagrante rejeição a estas, embora o esforço de algumas participantes em tentar compreender estes processos. Neste discurso marcado pelo não dito, em excessos de gaguejos e palavras inacabadas, em uma tentativa de expressar o inominável, ficou clara a resistência diante do outro e da outra tão diferentes de si, se autorizando viver esta diferença. Assim como o intenso sofrimento daquelas profissionais, acreditando que fosse preciso e possível evitar a homossexualidade e a transexualidade, na medida em que, embora não soubessem o que fazer, diziam que precisavam revelar às crianças quem era menina e passava por menino e também vigiar banheiros, separar as crianças em filas por sexo. Em 15 de março, realizou-se a reunião geral de professores na escola E3, de meio rural. Logo ao chegar, encontrou-se professoras e professores entre abraços em retorno das férias. No horário marcado, o grupo encaminhou-se para o salão de reuniões e foram explicados os objetivos da pesquisa e as estratégias que se seguiriam. Fizeram poucas perguntas relacionadas aos sujeitos da pesquisa e datas a ser realizados os encontros. Sem mais nada a tratar no momento, o grupo foi deixado, com a combinação de que entrariam em contato assim que definidas as datas para a realização do grupo focal de professores e professoras. Sem qualquer retorno da escola E3, mesmo depois de ligações telefônicas à direção atrás de uma resposta quanto à data de realização do grupo de professoras e professores, no dia 16 de abril foi feito novo contato para se saber quando poderia acontecer a reunião do grupo focal. Para surpresa desta pesquisadora, depois da diretora desculpar-se muito por ter esquecido de fazer o contato antes, disse que nenhuma professora se interessou em falar sobre o assunto e que então o grupo não aconteceria. Acrescentou que, quanto aos alunos, seria possível ir a qualquer manhã naquela escola lançar o convite para eles, pois apenas uma turma de terceiro ano existia e ela mesma acompanharia o convite e então seria escolhida a 57 data para o grupo de adolescestes acontecer. Ficou combinado que na quarta feira seguinte isto seria feito. Antes de desligar ela ainda se desculpou novamente pelos professores não quererem fazer o grupo, dizendo que, se fosse necessário, ela mesma poderia conversar sobre o tema com a pesquisadora. Foi dito então que esta resposta negativa dos professores e professoras já era de grande relevância para trabalho. Em 23 de abril, compareceu-se à escola, conforme combinado com a direção, a fim de fazer o convite à única turma de terceiro ano de ensino médio da escola E3. A recepção foi agradável e a diretora acompanhou mesmo a visita à sala de aula, onde foi possível se fazer o convite. Alunos e alunas foram bem receptivos, receberam os termos de consentimento para que seus responsáveis pudessem assiná-los e foi fixado o cartaz com o e mail da pesquisadora para que pudessem enviar suas mensagens. No dia 03 de abril, chegou-se na escola em meio rural E4, durante reunião geral de professoras e professores, já iniciada, como havia sido combinado previamente em contato telefônico. Na apresentação foi possível falar sobre a pesquisa e as pessoas ficaram muito interessadas, fazendo perguntas quanto aos sujeito/as da pesquisa e da possibilidade de participação de toda/os a/os professora/es e não só os do ensino médio. Uma professora disse que iria disponibilizar seu período de aula para que o grupo focal pudesse acontecer. Ficaram de entrar em contato para dizer o dia em que a reunião poderia acontecer, adiantando que no dia 09 de maio seria a próxima reunião geral e seria uma boa data para todos e todas. Na saída, alguém corre na frente para abrir a porta, dizendo assim garantir que o retorno, em um gesto de muita simpatia. Em 16 de abril, retornando à E4, foi realizado o convite aos alunos e alunas de terceiro ano de ensino médio para o grupo focal. Eram duas turmas apenas naquela escola rural e, em companhia de uma professora para fazer a apresentação, dirigiu-se às salas. Na primeira turma, uma professora que dava aula naquele momento foi chamada à porta para tomar ciência da visita, foi muito receptiva. Feito o convite para a turma, e fixado um cartaz com o e-mail para onde poderiam enviar as mensagens sobre o tema e também avisarem qual a data escolhida para o grupo acontecer. Depois das explicações de como aconteceria o estudo, uma aluna perguntou se não aconteceria também um grupo de pais. Muitas pessoas disseram que seria muito importante se isto acontecesse e ficou combinado que, se esta fosse uma demanda do grupo, um grupo de mães e pais poderia acontecer. Na saída, no percurso até o portão, a professora comentou que 58 seria muito importante que os pais tivessem oportunidade de debater o tema, já que os alunos pensam no que seus pais iriam pensar sobre este trabalho. Em 06 de maio realizou-se o grupo de discussão de professoras e professores na escola de meio rural E4, com a participação de 29 pessoas, entre 3 homens e 26 mulheres. Entre as discussões acaloradas, surge uma fala atravessada por argumentações fundamentadas na história, lembrando que gregos tinham sua iniciação sexual entre alunos e professores, que, de certa forma, acaba associando as homossexualidades à pedofilia, em um discurso confuso, pretensamente em defesa, mas que justifica e reforça os temores das demais pessoas. Esta confusão repete-se quando surge um lapso e a oradora troca a palavra feminina por feminista, ao falar das supostas características que admira em gays. E, nesta associação de feminilidade à meiguice, relega os homens à brutalidade, em uma visão bem essencialista. Ainda neste grupo surge a presença do deboche nas falas de homens, quando se expressam a respeito da homossexualidade e travestilidade, assim como justificam a violência contra estas pessoas. A visão biologicista, a explicação patologizante e o sofrimento, consequente da auto-percepção como responsáveis em corrigir alunos e alunas com que se deparem nesta situação, se expressa em uma grande angústia ao não saberem o que fazer com tudo isto dentro da escola. Além disto, há o medo de ser esta pessoa que os e as colegas apontam como tão abjeta e perversa. No dia 09 de julho, em uma pequena sala usada como biblioteca e sala de estudos, realizou-se o grupo focal de adolescentes da escola E3, composto por seis meninas. Todas muito tímidas, que conseguiram apenas expressar-se mais eloquentemente através da escrita, em bilhetinhos, que lhes foram disponibilizados no final do debate a partir do filme assistido. Suas falas eram cuidadosamente marcadas pelo discurso politicamente correto, sempre a favor da liberdade e felicidade de todas as pessoas, mas cheio de ressalvas e resguardando os direitos civis ao casamento e adoção de crianças às pessoas heterossexuais. Estas restrições são unânimes e sempre são seguidas de explicações quanto ao sofrimento que geraria às crianças, em decorrência do preconceito da sociedade. Entrecortando a estas falas surgem elogios fantasiosos, atribuindo características idealizadas de forma generalizada aos gays, como queridos, sinceros, amigos e divertidos. Uma adolescente verbaliza sua percepção da homossexualidade como anormal. Também aqui surgem as posições do pai e da mãe, nas famílias das adolescentes participantes, em relações marcadas pela assimetria nas relações de gêneros. Impressionantemente conservadoras. 59 Em 29 de maio, na escola E4 aconteceu o grupo de discussão de adolescentes, com a participação de 21 pessoas, sendo 17 alunas e 4 alunos. Algumas delas gostariam de participar, porém, haviam esquecido de trazer consigo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pela mãe e então não o puderam. Após assistirem ao filme curta metragem, discutiram e logo surgiram falas indicativas de desqualificação da homossexualidade, como quando uma adolescente enaltece a coragem do personagem que, além de cego, ainda se assume gay. Bem presente é o sentimento de rejeição à homossexualidade, expressa nas falas que remetem ao direito das pessoas em não aceitar ou não gostar de ver as manifestações homoafetivas. Consequentemente, surge o medo que pode representar este estigma em uma sociedade tão rígida, onde o controle e vigilância dos pais também são lembrados, nos papéis rígidos de gêneros desde quando eram criancinhas. Muito marcante no discurso destas e destes adolescentes foi a presença de sexismo, quando, apesar das críticas ao sistema machista que penaliza suas mães, é validado e atualizado nas suas próprias falas. Mas nesta discussão surgem também colocações que igualam homossexuais e heterossexuais, como quando o assunto é a participação de pais e mães na educação das crianças, em antagonismo aos discursos do grupo focal E3 de adolescentes, quando ficou claro que, em suas concepções, famílias homoparentais não seriam boas para formação de crianças. Foi realizada no dia 21 de agosto, às 21hs, a entrevista com a transexual Valentina, exaluna de duas das quatro escolas que participaram da pesquisa, com 28 anos de idade, profissional do sexo, concordou em conceder uma entrevista em um bar no centro da cidade. Poucas horas antes do encontro, conforme acordado no dia anterior, quando foram feitas as combinações de local e horário da entrevista, ela fez contato telefônico, querendo refazer o acordo. Desejava propor um valor financeiro, em que lhe fosse pago pela pesquisadora o mesmo que seus clientes pagam pela hora de seus serviços. Então foi dito para Valentina que, embora muito justa a proposta, pois que cada profissional sabe quanto custa suas horas de trabalho, esta opção, neste caso, não seria viável, pois, estava explícito no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que ela em breve, antes de iniciar a entrevista, teria em mãos e assinaria, que este estudo não teria qualquer remuneração ou outra forma de gratificação material. Valentina titubeou, mas concordou em continuar com o planejado e, em alguns minutos, estavam no local combinado para a leitura e assinatura do termo e gravação das declarações dela a respeito do tema. 60 Valentina falou muito em essência, em se perceber desde criança como menina, como mulher, embora perdida em “um mundo que não é o dela”, em “um corpo que não era da mulher como ela se sentia”, como se comportava. Falou do desejo de adaptar aquele corpo “àquela sua essência”. Por várias vezes fez apartes em suas colocações, que sugeriam uma depreciação da transexualidade, como quando disse que assumiu sua sexualidade, porém, “com o nome limpo, sem passagem na polícia”. Ou quando disse que “sempre soube que era diferente, os pais sempre sabem quem estão criando, só que, a sua mãe lhe deu uma boa educação, e ainda, quando ela falou que era transexual, mas, fazia exames de HIV periodicamente”. Embora seu discurso tenha sido de quem não tenha que provar nada para ninguém, existe um atravessamento de transfobia introjetada, revelando sentimento de desvantagem, desvalia por ser quem é, tendo que materializar constantemente nas provas de que seja uma pessoa ”limpa e de bem”. Inclusive quando citou, por duas vezes, estar se comportando como pessoa e não como um animal. A palavra respeito repetiu-se muitas vezes, quando dizia que “respeitava quem a respeitava também”, insinuando que revidava violências. Falou com resignação sobre um preconceito que vai carregar pelo resto da vida, de estar presa a deboches e perseguições, “como uma prisioneira que cometeu um crime que não escolheu”, como escolheu modificar o corpo e a prostituição. Em 27 de agosto, realizou-se o último grupo de discussão deste estudo. Aquele foi um grupo de adolescentes. Estavam presentes 4 alunos e 12 alunas. Depois de assistido o filme curta metragem, iniciou-se a discussão. No discurso daquelas/es adolescentes destacaram-se concepções muito lúcidas, como que a educação no combate ao preconceito esteja favorecendo a permanência de homossexuais nas escolas, enquanto no passado isto não acontecia, pois, alguém disse, sua mãe “nunca ouvira falar que não era para ter preconceito”. Com clareza definiram a aceitação, ao considerar muita hipocrisia alguém dizer que aceita a homossexualidade, mas não na sua família. Este foi o único grupo onde apareceu a aceitação plena dos direitos iguais, ao casamento e adoção de crianças para casais homoafetivos. Disseram que as pessoas ainda estranham ver nas ruas, mas que vendo na televisão vão se acostumando. Não seria uma escolha de alguém o que os outros vão viver. Pontuaram que assistir gays na televisão é muito antigo, desde a infância assistiam, e então a aluna comete um ato falho ao dizer que os antigos abortavam o homossexualismo até nos Trapalhões. Ela queria dizer abordavam. Riu e refez a frase. Mas seu lapso tem sentido, pois realmente aquela abordagem da homossexualidade era um abortamento de estereotipia caricata, que mais ridicularizava e estigmatizava aos e às homossexuais, que sofriam ao ser associado/as aqueles 61 personagens, recebendo apelidos na escola. Ainda lembraram que muitas pessoas que são preconceituosas já não o revelam por medo das consequências. E isto pode ser notado ao longo deste estudo, quando discursos politicamente corretos mal conseguiram disfarçar o preconceito e aversão às diferenças. Com o encerramento da coleta de dados junto às alunas e aos alunos adolescentes, aos professores e professoras, e também à transexual ex-aluna das escolas públicas de ensino médio selecionadas para este estudo, passou-se à análise dos discursos dos mesmos a fim de entender-se a produção de sentido sobre as homossexualidades, heteronormatividade e heterossexismo. Abaixo, o quadro demonstrativo dos/as sujeitos/as desta pesquisa: ESCOLA PROFESSORAS PROFESSORES ALUNOS ALUNAS EX ALUN MEIO E1 00 00 00 01 E2 32 07 04 08 E3 00 00 00 06 Rural/periferia E4 26 03 04 17 Rural/dif. Acesso TOTAL 58 10 08 32 Urbano/periferia 01 TM 01 Urbano/centro 109 Após a realização dos grupos de discussão, ocorreu as transcrições das gravações em áudio dos discursos para que melhor pudesse ser feita a análise da produção de sentidos. De acordo com as necessidades da pesquisadora, mapas foram desenhados até se conseguir entender como se articulavam estas ideias a partir do que foi sendo dito e, também, o não dito. Durante o período de pesquisa, várias vezes a presença da pesquisadora foi solicitada em uma das escolas, a fim de prestar assessoria em relação às dificuldades de manejo em um caso de criança transexual. Ainda foram solicitadas palestras para professoras e professores nestas mesmas escolas, assim como participações especiais em aulas dentro da universidade sobre o tema diversidade sexual e homofobia, nos cursos de Administração, História e Psicologia. Em projetos de cinema e psicologia, quando ocorreram debates a partir de filmes exibidos para públicos inscritos, tanto promovidos pela UNISC, como pela ULBRA, a pesquisadora participou como debatedora, sendo, na última vez, na sede da 6ª CRE, com 62 coordenadoras/es de ensino. Também a participação em roda de conversa promovida por coletivo feminista e para compor a mesa de debate sobre o tema na Semana Acadêmica do Curso de Psicologia da UNISC. No dia 21 de novembro deste mesmo ano, no município de Venâncio Aires, enquanto esta pesquisadora concluía estes estudos, aconteceu, às 09 horas e 30 minutos, no Cartório de Registro Civil de Venâncio Aires o primeiro casamento homoafetivo do município. Um acontecimento de grande relevância, marco histórico para esta comunidade, quando duas pessoas que já viviam em união estável há 22 anos, assumiam assim seus direitos ao casamento e veio, desta forma, reforçar as referências positivas para as tantas e os tantos adolescentes não heterossexuais que ainda desconhecem enquanto cidadãos e cidadãs. suas possibilidades e direitos 63 CAPÍTULO III Sexismo na escola: Presente!2 Resumo: Este estudo é resultado da análise da produção de sentido de discursos de professoras e professores produzidos em grupos de discussão, organizados com objetivo de investigação dos efeitos da heteronormatividade dentro da escola. É um estudo qualitativo onde foram ouvidas 58 professoras e 10 professores em escolas estaduais. Os níveis de rejeição às homossexualidades, lesbianidades e transexualidades, ainda que disfarçados por um discurso politicamente correto, revelaram o entrecruzamento de crenças solidamente fundamentadas no sexismo e no desconhecimento a respeito da sexualidade humana e suas possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento mantém preconceitos e tabus que podem estar tornando educadores e educadoras guardiãs/ões da norma heterossexista, o que gera intenso sofrimento psíquico dentro da escola. Estes resultados apontam para a necessidade de criação de políticas públicas voltadas não somente para facilitar a capacitação destes professores e professoras nos campos de estudos da sexualidade humana, mas, sobretudo para viabilizar a interdisciplinaridade dentro das escolas. Palavras-chave: Heterossexismo; Sexismo; Profissionais da educação; Escola. Sexism in school Abstract: This study is the result of analysis of the production of meaning teachers speeches and teachers produced in discussion groups, organized with the objective of investigating the effects of heteronormativity within the school. It is a qualitative study which were heard 58 teachers and 10 teachers in state schools. Rejection levels to homosexualities, lesbianidades and transexualidades, though disguised by a politically correct discourse, revealed the beliefs of intersection solidly based on sexism and ignorance about human sexuality and its possibilities. It is noticed that this ignorance keeps prejudices and taboos that may be making 2 Sendo coerente aos estudos de gênero, entendendo a linguagem como espaço de produção de inclusões e de exclusões, evitarei, ao longo deste texto, o uso da forma masculina como signo genérico referente a ambos os gêneros: feminino e masculino, nomeando, sempre que possível, as duas formas . 64 educators guardian / s of heterosexist norm, which creates intense psychological distress within the school. These results point to the need to create public policies not only to facilitate the training of these teachers and teachers in the fields of studies of human sexuality, but above all to enable interdisciplinarity within schools. Keywords: heterosexism; sexism; Education professionals; School. Introdução Este estudo em escolas públicas de ensino médio teve como objetivo a escuta de professoras e professores para fins de obtenção de dados para a pesquisa que investiga os efeitos da heteronormatividade dentro da escola. A queixa recorrente, desde os primeiros contatos com gestores e gestoras, sempre foi de maus tratos entre alunos e alunas e perseguições, brincadeiras que perturbavam as aulas, o bullying. Neste caso, de natureza lesbo-trans-homofóbica. Duas escolas referiram a existência de aluno e aluna transexuais, o que parecia causar bastante incômodo para professores e professoras, principalmente nas situações de uso de banheiro e uso de nome de registro na lista de chamada. Desta forma, este pareceu mesmo ser um momento bem interessante para se realizar este estudo, quando se poderia levantar discussão de temas tão relevantes, como sexualidade, homossexualidades, heteronormatividade, heterossexismo, lesbo-trans-homofobia, violências e preconceito. As relações de poder dentro destas escolas parecem estar muito bem estabelecidas nas figuras da direção, profissionais de educação e estudantes em última escala hierárquica. Porém, por trás deste aparente esquema pressuposto, paira toda uma estratégia de sobrevivência, tecida em engendramentos nada simplificados, regida por regras também nada explícitas: o dispositivo da sexualidade. Discutir os efeitos deste dispositivo, a sexualidade, atravessado ainda pelas questões de gênero e diversidade sexual, fundamentada pela lógica de Michel Foucault, Judith Butler, Guacira Louro, Simone Beauvoir, entre muitas outras teóricas, permitirá entender o fenômeno que ora se revela neste estudo, na análise da produção de sentido dos discursos de professoras e professores. Sexualidade, gênero e diversidade sexual A sexualidade, essa presença insidiosa, insistente, incontrolável, é então percebida como um dispositivo de poder. Este dispositivo surge quando o sexo se tornou um foco 65 privilegiado para o controle disciplinar do corpo e para a regulação dos fenômenos da população. Com o dispositivo da sexualidade os mecanismos do poder se dirigem ao corpo, à vida, ao que faz proliferar, ao que reforça a espécie, vigor, capacidade de dominar, ou sua aptidão para ser utilizada, diz Foucault (1985). Saúde, progenitura, raça, futuro da espécie, vitalidade do corpo social, quando o poder fala da sexualidade e para a sexualidade. Nas sociedades cristãs, o sexo tornou-se algo que era preciso examinar, vigiar, confessar e transformar em discurso. Podia-se falar de sexualidade, porém, somente para proibi-la. O esclarecimento, e a iluminação da sexualidade se deram nos discursos e na realidade das instituições e das práticas, de acordo com Foucault (1985). Proibições faziam parte de uma economia mais complexa. Pois, vivemos em uma sociedade que produz discursos e que logo os transforma em discursos verdadeiros e resulta na formação de poderes específicos. Assim, estas verdades produzidas em relação à sexualidade tornaram-se um problema no Ocidente, resultando na repressão sexual. Talvez esta multiplicidade de vozes se elevando, na destituição dos poderes sagrados, até então, não questionáveis, provoquem esta estranheza que se ouve agora com frequência, na crítica aos neologismos, nas tentativas de apropriação dos fenômenos e reapropriação de identidades outrora confiscadas pelo saber médico. Sexualidade, define ainda Foucault (1985), é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico e não a uma realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiram-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. A sexualidade, segundo Marco Aurélio Prado (2008), é um construto complexo que relaciona fatores biológicos, psicológicos, socioeconômicos, culturais, entre outros, difundida e aprendida por meio da inserção na cultura, que orienta o imaginário e comportamentos. E, conforme Guacira Louro nos lembra (2007), a sexualidade está na escola porque faz parte dos sujeitos, independentemente de haver aula de educação sexual, se há discursos ou intenção manifesta de se falar em sexualidade. Ela está lá porque não pode ser ligada ou desligada. Gênero, segundo Butler (2003), são os significados culturais assumidos pelos corpos e, sendo assim, não se pode dizer que ele decorra do sexo desta ou daquela maneira, como se tenta impor socialmente, quando se diz que isto ou aquilo é modo de menina ou de menino. Pensando-se então em corpo sexuado e gênero culturalmente construído, a autora nos 66 apresenta uma descontinuidade desta lógica associativa dos únicos dois gêneros, colados ao sexo, para fazer pensar na possibilidade de uma multiplicidade de gêneros. Desta forma, o gênero é uma identidade mantida pela reiteração e repetição destas normas que se cristalizam, como se fosse uma verdade carnal, incontestável. Heteronormatividade, segundo Louro (2009), é a produção e a reiteração compulsória da norma heterossexual, só possível pelo alinhamento entre sexo, gênero e sexualidade, quando se supõe que todas as pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, discriminando, privando e punindo quem ouse escapar à regra imposta. É a capacidade, diz Bento (2008), da heterossexualidade se apresentar como a lei que regula e determina a impossibilidade de vida fora das suas normas. Uma regulação que dá inteligibilidade cultural de modelo hegemônico de gênero, naturaliza corpos, gêneros, dando coerência e sentido somente se houver um sexo estável expresso mediante o gênero estável, masculino expressa homem e feminino expressa mulher. Roger Raupp Rios (2009) aponta para a ideologia e sistema heterossexista, frente ao binômio heterossexualidade/homossexualidade, como critério distintivo para o reconhecimento da dignidade dos sujeitos e distribuição dos benefícios sociais, políticos e econômicos, uma vez que o pertencimento a grupos inferiorizados implica a restrição, quando não a supressão completa e arbitrária de direitos e de oportunidades, por razões jurídicoformais, pelo simples exercício da força física bruta ou em virtude dos efeitos simbólicos das representações sociais. O termo heterossexismo seria então o mais adequado para designar a discriminação contra homossexuais e por todos aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de normalidade, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, diz Rios (2009). Enquanto a palavra homofobia estaria mais diretamente relacionada à dinâmica subjetiva desencadeadora do desprezo às pessoas homossexuais, como os medos e ódios. O autor ainda aponta para a proliferação de outros termos objetivando designar formas correlatas e específicas de discriminação, tais como transfobia, relacionada a travestis e transexuais, a lesbofobia ligada a lésbicas e bissexualfobia voltada contra bissexuais. Desta forma, optou-se em adotar neste estudo o termo lesbo-trans-homofobia a fim de dar maior visibilidade a estas expressões do mesmo fenômeno, negando-se a invisibilizá- los. 67 Neste estudo, ouvindo profissionais da educação, procurou-se descobrir quais os efeitos da heteronormatividade dentro da escola, circulando nos discursos, nos saberes, nas relações, no cotidiano de professoras e professores, alunas e alunos. Método Esta é uma pesquisa qualitativa, observacional, descritiva, interpretativa que acontece a partir da análise das práticas discursivas de professoras e professores ouvidos em grupos, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul e registrada sob o número 22102313.1.0000.5343. O sentido, segundo Spink e Benedito Medrado (2013), é uma construção social, um empreendimento coletivo e interativo, através do qual as pessoas, na dinâmica das relações sociais histórica e culturalmente localizadas, constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta. Dar sentido, dizem a autora e o autor, é sempre uma atividade cognitiva, que implica no uso de conexões neurais habituais desenvolvidas pela experiência no enquadre das contingências do contexto cultural e social. A articulação com o contexto cultural e social pressupõe a interface entre o tempo histórico, em que se inscrevem os conteúdos imaginários derivados das formações discursivas de diferentes épocas, e o tempo vivido, em que se inscrevem os conteúdos derivados dos processos de socialização primária e secundária. Práticas discursivas, ainda segundo Spink e Medrado (2013), correspondem aos momentos ativos do uso da linguagem, onde convivem tanto a ordem como a diversidade, envolvendo a linguagem em ação, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. Estas práticas discursivas têm como elementos constitutivos a dinâmica, as formas e os conteúdos, que são os repertórios interpretativos. O município escolhido para realização deste estudo localiza-se na região do Vale do Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. Com uma população aproximada de 69.521 habitantes, segundo dados do IBGE (2014), bem distribuída entre o meio rural e a região urbana, originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade para trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada no cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra. O município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco, assim como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate. 68 De acordo com informações colhidas na própria Secretaria de Educação (PMVA, 2013), o município possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas Municipais de Ensino Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de Ensino Médio. A rede privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil até ao Ensino Médio e 7 Escolas de Educação Infantil. O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia – IFSUL- disponibiliza vagas para Ensino Médio e Técnico. Além disto, a população ainda conta com vários cursos técnicos profissionalizantes, como a Escola do Sistema SENAI e um campus universitário, com cursos como Pedagogia, Direito e Administração. O método escolhido para coleta de dados para este trabalho foi, incialmente, o de formação de grupos focais, mas, devido ao número de participantes, converteu-se em grupos de discussão. Para o estudo dos resultados, procedeu-se a análise da produção de sentido a partir dos discursos obtidos. Os sujeitos e sujeitas de pesquisa foram professoras e professores de escolas de ensino médio. Todos e todas assinaram Termos de Consentimentos Livre e Esclarecido. Apenas dois, dos quatro grupos planejados, aconteceram porque as escolas E1 e E3 não desejaram formar grupos de docentes para discussão do tema. A estratégia do grupo consistiu na exibição do filme curta metragem, intitulado “Não quero voltar sozinho”, de Ribeiro (2010), como disparador das discussões. Professores e professoras pertenciam às áreas da matemática, da linguagem, das ciências da natureza e das ciências humanas, além de orientadoras educacionais, supervisoras de ensino, psicopedagogas, diretoras e diretores. Os discursos foram gravados, conforme constava no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e depois transcrito para que pudesse ser feita a análise da produção de sentido. Quanto ao perfil das/os participantes, observe-se o quadro demonstrativo: Escolas Professoras Professores Total MEIO E2 32 07 39 Urbano/centro E4 26 03 29 Rural/dif. Aces. Total 58 10 68 Resultados 69 As categorias emergem dos sentidos produzidos e materializados, neste caso, nas palavras, nos silêncios, nas metáforas, nos lapsos. A palavra carrega sentido e, quando este sentido remete a relações assimétricas de dominação e poder entre os gêneros, serão classificadas como SEXISTAS. Entre as falas consideradas carregadas de ideologia sexista, podemos ainda detectar outros efeitos secundários, que passam a ser sub-categorizados como da RESPONSABILIZAÇÃO e da CULPA, quando o discurso fala da auto-percepção do/a sujeito/a como responsável pelo evento ou culpada pelas consequências deste. O discurso de ACEITAÇÃO da homossexualidade emerge em diversas falas, quase sempre entrecortado de ressalvas, configurando uma categoria. A seguir, a análise de alguns destes discursos. A aceitação No discurso de uma professora, o relato de caso de sua própria família, onde duas mulheres vivem uma relação homoafetiva, e a espera da aceitação do pai de uma delas. O silêncio deste é a resposta. Fica implícito o poder deste pai na necessidade da aprovação para que se deem as mãos diante da família, e, desta forma, simbolicamente, se legitimar a relação que já é conhecida de todos. Mas que ele mantém na invisibilidade e, principalmente, silenciada. M3- Elas, elas moram juntas, na mesma casa, os filhos da mulher aceitam, só que elas evitam quando estão assim no grupo familiar de ficar ah... Se agarrando, se beijando, mas toda a família... Aceita, ou não sei se é bem aceitar... Principalmente o pai dela, assim... Ele procura não... Não questionar. E... eee um dia ela colocou prá minha mãe... Essa minha prima, que elaaa... Ela queria que o pai aceitasse assim, ãaah... Na boa, de aceitar que elas andassem de mão... Né... Que elas fossem assim andar como um casal, né. Mas ele... Ele não diz que ele é contra, mas ele também não dá abertura prá que elas... Se manifestem assim né... Então elas aparentemente assim são duas mulheres que moram junto, mas, não... Na família... Ainda quando a professora fala na aceitação, diz que toda a família aceita a relação das duas mulheres. Depois vacila, pensa e demonstra desconfiar desta aceitação. Naquele momento, quando faz a narrativa, parece perceber que a situação vivida pela prima e sua companheira não seja de aceitação pela família. Buscando o verbete aceitar no dicionário 3 As falas serão codificadas com M para de mulheres e H para de homens. 70 formal, Ferreira (1989), encontra-se as seguintes definições: 1.Consentir em receber (coisa oferecida ou dada); 2. Concordar com; 3. Ter como bom ou certo; 4. Assentir em algo. Não se pode saber se realmente esta família aceita a relação homoafetiva, pois ela está invisibilizada, disfarçada como amizade de duas mulheres. Mais aproximada ao conceito de aceitação está a posição delas em relação à família, pois que as duas mulheres concordaram com as regras do pai, consentem com a imposição dele, receberam o que lhes foi oferecido, apesar de não parecer que tenha sido de bom grado, já que ainda tentam obter a permissão deste pai para poderem assumir a relação. Então, pode-se dizer que sejam elas quem aceitam ao pai lesbofóbico, e não o pai, à filha lésbica e sua companheira. Na obra de Sara Salih (2012), Butler lembra que o poder é também uma condição do sujeito, sem a qual ele não poderia existir como um agente. Este sujeito, mesmo imerso nas estruturas de poder, é um agente. O sujeito necessita do poder para ser um sujeito e sem o poder não haveria possibilidade nem para o status de sujeito e nem para agência de poder. O sujeito emerge como o efeito de um poder prévio que ele também excede, mas o poder também age sobre o um sujeito que parece anteceder, mas não o faz. Nessa relação ambivalente do sujeito com o poder, ele depende do poder para sua existência, mas também exerce poder sob formas subversivas inesperadas. Assim podemos pensar esta relação pai e filha, de assujeitamento, a assimetria e subordinação, denunciada na própria palavra aceitar, em que já fica implícita uma superioridade, uma hierarquia do grupo familiar predominantemente heterossexual, sendo condescendente em receber entre eles e elas aquelas duas pessoas que ousam romper com a norma instituída, mas não sem restringir-lhes os direitos. Tão claro este fenômeno, que a professora, prima da vítima da discriminação familiar, gagueja, vacila em pronunciar a palavra aceitar, percebendo ao falar, os processos atravessados naquele discurso. O discurso sexista O sexismo compreende avaliações negativas e atos discriminatórios dirigidos às mulheres em função de sua condição de gênero, conforme Lips (1993), e pode manifestar-se sob a forma institucional ou interpessoal, sendo que contextos institucionais sexistas favorecem comportamentos e relações interpessoais sexistas, segundo com Lott e Maluso (1995). O segundo relato de professora apresenta uma fala sobre uma situação vivida por um aluno e na sequência suas colegas partem logo para a crítica sobre a mãe desta criança. Um 71 professor também expressa sua opinião sobre a mãe, ao compará-la com uma chocadeira. Em seguida, outra colega faz ainda um comentário que insinua que dar-se ao direito de vivenciar sua sexualidade, seus desejos e afetos seja um comportamento esperado somente de um homem. M- A profe falou ali a questão antes de ser... O pai ser de outra geração, mas eu tenho um aluno que a mãe sofreu muito com o pai dele, diversas situações. E agora ela está com uma companheira. E ele não aceita. Ele deve tá com uns quinze anos. E ele não aceita de jeito nenhum, ele já saiu de casa prá morar com outros parentes prá não tá... E ele quer por que quer, do jeito dele, forçar a mãe a largar a companheira e voltar, deixar... Ele volta prá casa se ela abandonar essa situação. E aí a gente tenta conversar na aula, a gente tenta fazer este papel de... Não, para aí, vamos rever... M- A cabeça da mãe! M- Por quê? M- Da mãe! Mas pensa um pouco! Primeiro... A minha concepção assim: Depois que eu sou mãe, primeiro eu tenho que olhar pelos meus filhos. Se a minha relação não é boa com os meus filhos... Com quem vai ser? Então eu vou jogar meu filho... H- Mas existe um conceito de mãe chocadeira nessa vida. Choca e... Dá o que dá. M- É primeiro o filho, depois... M- Se fosse homem... Claro! M- (...) Ninguém é obrigada a ficar junto, mas assim, ó: Ah, eu tenho um, sei lá, no caso do meu pai, eu tenho um irmão lá que minha mãe nunca imaginou... Então a criança fica assim muito dividida, muito... Muito perdida. Eu acho que é nesse sentido... Eu pensaria assim, é nesse sentido. Pensar mais no filho e não se desesperar em cuidar do lado afetivo dela. Interessante notar que em nenhum momento surge questionamento em relação ao sofrimento vivido pela mãe mencionado no início do relato, ou sobre o abandono do filho por parte do pai. Apenas a mãe é responsabilizada, como se fosse dever somente dela os cuidados e criação do filho. Para Eni Orlandi (1999), o efeito metafórico e o deslize, ambos da ordem do simbólico, e o lugar de interpretação, da ideologia, da historicidade, são próprios da relação do discurso e da língua, uma vez que estes efeitos metafóricos e deslizes nas interpretações que apontam 72 para a duplicidade do discurso que a psicanálise revela o inconsciente e, na análise do discurso envolve a ideologia. Sendo assim, o efeito metafórico está apontando para a base de constituição dos sentidos dos sujeitos, diz a autora. A escolha da metáfora pelo professor não deixa de ser reveladora quanto ao sentido que o grupo dá à paternidade. Falando-se de uma situação em que duas pessoas têm um filho e uma delas é comparada à chocadeira, quem é a outra pessoa ausente de quem ninguém pensa ser necessária a presença para a sobrevivência desta criança? O galo? Isto seria uma interpretação ou uma dedução? Eis um ato psicanalítico. A maneira como homens e mulheres estão colocados dentro desta construção social das masculinidades e feminilidades produzidas em diversos contextos histórico-socioculturais produzem formas diferenciadas da vivência do sofrimento psíquico. Os papéis desempenhados pelas mulheres na sociedade, como esposas, mães, educadoras, cuidadoras, além da participação cada vez mais essencial no mercado de trabalho, resulta em uma sobrecarga que pode levar a intenso sofrimento psíquico destas. Este sofrimento é intensificado por fatores decorrentes da discriminação sexual, como desfavorecimento econômico, trabalho em excesso, as violências doméstica e sexual, segundo Anna Maria Santos (2009). Para Simone de Beauvoir (2009) não há mãe desnaturada, visto que o amor materno nada tem de natural. A autora ressalta que, em vista das tantas neuroses de que sofrem os adultos, com raízes no passado familiar, de seus pais, de seus próprios conflitos e seus dramas pessoais, são por isto mesmo para seus filhos, muitas vezes, más companhias, mães más mesmo. E a isto a autora justifica evocando as tantas discriminações, frustrações, proibições, limitações de direitos a que as mulheres têm sido historicamente submetidas, quando lhe são recusadas carreiras tidas como masculinas, proclamadas incapacidades em determinados campos ao mesmo tempo em que lhe é confiado um empreendimento tão delicado quanto a formação de um ser humano. Os discursos vão validando os ditos machistas, como se fossem verdades imutáveis, e que vêm sobrevivendo, justamente por ser reeditadas e reproduzidas, atualizadas nas falas informais como nestas, entre jovens professores e professoras, que há pouco reclamavam das violências de alunas e alunos, apesar dos tantos cartazes espalhados pelas paredes, corredores da escola, falando de uma campanha contra o bullying. Na sequência, a fala de outra professora refere a autoridade do pai em deixar a esposa colocar a roupa na cor que ele não julgue adequada para garantir a masculinidade de seu filho. 73 Reparem que ela não fala em pai e mãe, o que igualaria o casal, em uma simetria. Mas fala em pai, porque está falando na relação deste homem com o filho, protegendo-o. Porém, quando fala do pai da criança em relação à mulher, ela fala em esposa. Porque ela é esposa dele. Ou seja, é dele, propriedade dele. E isto fica implícito neste discurso perpassado pelo sexismo. Ela duvida que qualquer pai deixe a esposa colocar tal roupa no filho. Como se a mulher dependesse total e completamente desta permissão, da autorização, e mais, que o filho precisasse desta proteção, da defesa do pai à sua macheza, contra os erros que a mãe possa a vir cometer na criação. M- Eu duvido que algum pai, qualquer pai, que deixe a esposa colocar no bebê, filho homem, um sapatinho que tenha um pouquinho de rosa ou amarelo... Embora a escola deva ser o local de todos e todas, para além das condições sociais e etnias, preconceitos ali se fazem presente, reforçando as desigualdades. Na escola, enquanto espaço cultural por excelência, onde as crianças convivem grande parte de suas vidas, modelos de identidade de gênero, tanto nas interações cotidianas quanto no material didático, são reforçados nos papéis estereotipados da identidade de meninos e meninas, quando mulheres são representadas comumente em situações de docilidade doméstica e inferioridade diante da capacidade dos homens na resolução de problemas, de acordo com Sissi Pereira (2010). Valores relacionados a preconceitos, estigmatizadores de determinados grupos étnicos ou de gênero, circulam pela sociedade e são internalizados, influenciando na construção do autoconceito. Jogo de saber Nas falas destas professoras evidencia-se a angústia de quem se depara ainda com o desconhecido, expresso claramente em suas indagações. Pois este é conteúdo não disponibilizado nas capacitações e formações destas e destes profissionais. M- É uma moça... Não. É um rapaz... Um gay, né! Como é que a gente chama? A professora não sabe como nomear aquela pessoa na sua frente. Ela enxerga uma moça. Ela enxerga uma pessoa do gênero feminino, mas não se autoriza a nominá-la como mulher. Então vacila, gagueja. Pergunta. Há estranheza na sua fala. Ninguém a socorre. Se os movimentos das comunidades LGBT têm resultado em uma maior visibilidade, também têm trazido novos questionamentos às escolas, quando o tema provoca certa 74 perturbação, já que exige a revisão de posicionamentos, dos paradigmas e a construção de novas referências a partir da consciência de que códigos culturais estão presentes em todas nossas manifestações sociais, diz Louro (2003). M- Acho que ela é muito criança. Ela mora lá perto de casa... Ela mora lá perto de casa e meu filho um dia, ele entrou no pátio... Ela entrou no pátio, e ele disse: mãe, aquele gurizinho tá batendo lá! Daí eu tive que explicar: L, não é, não é... Ele é uma menina... Daí eu tive que explicar todo o processo e ele ficou me olhando... ãaa... Ah, mas parece um menino, né mãe? Daí, sabe... Daí tu tem que explicar por causa da criança é difícil de... Imagina um adulto... Uma criança assim, né... A heterossexualidade, segundo Daniel Borrillo (2010), aparece como o padrão, a referência que balizará todas as outras sexualidades, de forma que esta forma normativa, ao encarnar um ideal, passa a ser constitutiva de uma forma específica de dominação: o heterossexismo. Este é a crença em uma hierarquia das sexualidades, outorgando superioridade à heterossexualidade. Sendo assim, todas as demais formas de sexualidade são consideradas incompletas, acidentais, perversas, ou ainda, patológicas, criminosas, imorais e destruidoras da civilização. A percepção de que haja uma grande confusão, já que elas e eles próprios, professores e professoras, estão muito atrapalhados com estas questões de gênero e sexualidades, pode estar fazendo com que sintam a necessidade de ajudar as crianças, meninos e meninas, tentando explicar-lhes o que nem eles e elas estão conseguindo entender. Como no discurso acima, da professora, em que ela fala da conversa com seu filho pequeno. Esta atitude, em relação às crianças e adolescentes transexuais, além de desnecessária, pois a criança não havia perguntado se o visitante era um menino ou uma menina, ainda gera um mal estar, um desconforto que vulnerabiliza a criança que é denunciada. Assim como acontece quando o nome de registro é usado na chamada, o uso do banheiro, a fila separando por sexos, as divisões na educação física e outras tantas situações em que o sexo da pessoa é posto em evidência, a antecede, como se nada mais importasse naquele momento. E se fosse comigo? Responsabilidade e culpa Mas este discurso vai mais além. Ele fala desta dificuldade em explicar ao filho algo difícil para ela mesma. Algo que para o filho pareceu tão fácil entender. Ele viu um menino e para ele era um menino. Para aquela professora aquele não podia ser um menino e ela precisava desfazer o engano. Ela precisa corrigir aquilo. Porque ela é uma educadora e uma 75 mãe. Como ouvimos nos discursos desde o início deste estudo. Em tantas falas e em tantas outras que não couberam aqui. E as mulheres, segundo o que foi dito naquele grupo de discussões, são responsáveis pelos/as filhos/as, e culpadas também. Não podem pensar em seus amores, não podem pensar em seus desejos enquanto não os/as tiverem criado. Porque, sentem-se responsáveis e culpadas pelos desejos e escolhas destas/es. Por isto, lhes escapa nas palavras o medo da culpa, cuja pena já está sentenciada em toda esta rejeição machista lesbotrans-homofóbica que se voltaria contra elas e suas crianças. E ela “choca”... M- A situação. A gente vendo de longe é... A gente tem um olhar diferente... Agora, se acontece na família da gente... Eu acho que... Aí a gente... Sofre muito. Não sabe? M- E se fosse na minha família? M- Prá mim assim foi, assim a gente... Mas a maioria fala que é normal. Mas no momento que te depara com uma situação e uma cena dessas não é tão normal. Eu já me choco. Eu fico imaginando o dia em que pode acontecer na família, sabe? Como tu vai conduzir. Porque enquanto tu vê no outro, é fácil, mas quando tiver próximo de ti, da tua família, ou assim, perto... Martha Narvaz (2005) diz que a condição feminina na contemporaneidade, decorrente do modelo patriarcal, confere às mulheres uma posição de desvalorização em relação aos homens, em relações hierarquizadas que devem ser problematizadas pela psicologia. Beauvoir (2009) diz que muitas vezes a mulher tem dificuldades em conciliar o trabalho fora de casa e os interesses e cuidados de seus filhos. Isto porque o trabalho feminino ainda ocorre, frequentemente, em regime de escravidão, já que os cuidados, a guarda e educação das crianças ainda são de responsabilidade da mulher. Trata-se, diz a autora, de uma carência social, justificada em uma lei inscrita no céu ou nas entranhas da terra que determina que a mãe e o filho se pertençam exclusivamente, em mútua pertinência, que na verdade constitui uma dupla e nefasta opressão. Seria melhor, completa Beauvoir ( 2009), desejável mesmo para o bem da criança, que a mãe fosse uma pessoa completa e não mutilada. Uma mulher que encontrasse em seu trabalho, em sua relação social, a realização pessoal e que não a buscasse através desta criança, tiranicamente. Considerações finais 76 A análise da produção de sentido a partir de discussões de professoras e professores em grupos resultou na manifestação da rejeição da homossexualidade e transexualidade, embora o esforço de algumas profissionais de tentar entender estes processos, em discursos marcados pela reprodução de expressões de discriminação de gênero, representativas de definições estáticas de papéis de mulher e de homem, que soavam como ameaças a quem ousasse escapar ao determinismo social machista. Percebe-se também, na angústia dos questionamentos, o intenso sofrimento daquelas profissionais, acreditando que fosse preciso e possível evitar a homossexualidade e a transexualidade, na medida em que, embora não soubessem o que fazer, percebiam-se ainda como responsáveis por manter a ordem ditada pelas rígidas regras sexistas e heterossexistas. Pode-se pensar que o desconhecimento a respeito das questões de gênero e sexualidade, assim como orientação sexual e identidade de gênero, estejam dificultando a aceitação da liberdade de expressão da sexualidade a que todos e todas têm direito na sociedade. Pois, a ausência de acesso ao amplo debate e estudos dos campos das ciências sociais e humanas a respeito deste tão importante aspecto da constituição da/os sujeita/os, ocasiona que profissionais deparem-se com a realidade provida/os apenas de conceitos morais e religiosos cristalizados, o que impossibilita reflexões aprofundadas sobre a complexidade da condição humana. Procede a conclusão de que este fenômeno aponta para a necessidade de criação de políticas públicas voltadas não somente para facilitar a capacitação destes professores e professoras nos campos de estudos da sexualidade humana, mas, sobretudo para viabilizar uma interdisciplinaridade dentro das escolas, tornando possível a discussão de questões que até bem pouco tempo eram tratadas somente no âmbito pessoal e individual. Referências BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução Sérgio Milliet- 2ª ed. RJ. Nova Fronteira. 2v. 2009. BENTO, Berenice A. M. O que é transexualidade. São Paulo. Ed. Brasiliense. 2008. BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um pensamento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010. BUTLER, Judith. Problemas de Gênero - Feminismo e Subversão da Identidade, Ed: Civilização brasileira, Rio de Janeiro, 2003. 77 FERREIRA, Aurélio B. H.- Mini dicionário da língua portuguesa- 2ª ed. RJ. Ed. Nova Fronteira. 1989. FOUCAULT, Michel. 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E-mail: [email protected] – Fone: 51-37177603 80 Lesbo-trans-homofobia presente na escola. 81 Lesbo-trans-homofobia presente na escola Resumo: Este estudo é o resultado da análise de produção de sentido de discursos produzidos em grupos de discussão de alunas e alunos adolescentes, organizados com o objetivo de investigar os efeitos da heteronormatividade dentro da escola. Neste estudo qualitativo foram ouvida/os 32 alunas, 8 alunos adolescentes em grupos de discussão e 1 aluna em entrevista individual, toda/os de ensino médio em escolas públicas estaduais. Os resultados apontam para uma forte presença de lesbo-trans-homofobia no ambiente escolar, inclusive com a rejeição à conquista aos direitos igualitários, como casamento e adoção de crianças em relações homoafetivas. Este fenômeno pode ser responsável por intenso sofrimento psíquico, já que, a lesbo-trans-homofobia presente na conformação de subjetividades da/os sujeita/os, obstaculiza as relações interpessoais saudáveis. Percebe-se a necessidade de criação de políticas públicas voltadas à capacitação de profissionais dentro da escola, levando a informação e o debate sobre o tema, de forma que as pessoas possam identificar suas potencialidades e estratégias6 de enfrentamento e resistências às violências lesbo-transhomofóbicas dentro e fora da escola. Palavras-Chave: Heterossexismo; Escola; Lesbo-trans-homofobia; Adolescentes. Lesbo-trans-homophobia present in the school Abstract: This study is the result of the production of meaning analysis of discourses produced in discussion groups of students and young students, organized in order to investigate the effects of heteronormativity within the school. In this qualitative study were heard / 32 students, 8 adolescent students in discussion groups and one student in a private interview, all / the high school in public schools. The results point to a strong presence of lesbo-trans-homophobia in the school environment, including the rejection of achievement to equal rights as marriage and adoption of children in homoafetivas relations. This phenomenon may be responsible for severe psychological distress, since the lesbo-trans-homophobia present in subjectivities conformation of / the subject / the, hinders healthy interpersonal 6 Sendo coerente aos estudos de gênero, entendendo a linguagem como espaço de produção de inclusões e de exclusões, evitarei, ao longo deste texto, o uso da forma masculina como signo genérico referente a ambos os gêneros: feminino e masculino, nomeando, sempre que possível, as duas formas. 82 relationships. We can see the need to create public policies aimed at training professionals within the school, taking the information and the debate on the subject, so that people can identify their strengths and coping strategies and resistance to lesbo-trans violence homophobic in and out of school. Keywords: heterosexism; school; Lesbo-trans-homophobia; Teens. Lesbo-trans-homofobia presente en la escuela Este estudio es el resultado de la producción de lo que significa el análisis de los discursos producidos en los grupos de discusión de los estudiantes y los jóvenes estudiantes, organizados con el fin de investigar los efectos de la heteronormatividad dentro de la escuela. En este estudio cualitativo se escucharon / 32 estudiantes, 8 estudiantes adolescentes en grupos de discusión y un estudiante en una entrevista privada, todos / la escuela secundaria en escuelas públicas. Los resultados apuntan a una fuerte presencia de lesbo-trans-homofobia en el ámbito escolar, incluyendo el rechazo del logro de la igualdad de derechos como el matrimonio y la adopción de niños en las relaciones homoafetivas. Este fenómeno puede ser responsable de la angustia psicológica grave, ya que el lesbo-trans-homofobia presente en conformación de subjetividades / sujeto / la, dificulta las relaciones interpersonales saludables. Podemos ver la necesidad de crear políticas públicas orientadas a la formación de profesionales dentro de la escuela, tomando la información y el debate sobre el tema, de modo que la gente pueda identificar sus fortalezas y estrategias de afrontamiento y resistencia a lesbo-trans violencia homófoba dentro y fuera de la escuela. Palabras clave: heterosexismo; Escuela; Lesbo-trans-homofobia; Adolescentes. Lesbo-trans-homophobie présente dans l'école Cette étude est le résultat de la production de sens analyse des discours produits dans des groupes de discussion d'étudiants et de jeunes étudiants, organisés pour étudier les effets de l'hétéronormativité sein de l'école. Dans cette étude qualitative ont été entendus / 32 élèves, huit élèves adolescents dans les groupes de discussion et d'un étudiant dans un entretien privé, tous / l'école secondaire dans les écoles publiques. Les résultats indiquent une forte présence de lesbo-trans-homophobie en milieu scolaire, y compris le rejet de la réalisation de l'égalité des droits que le mariage et l'adoption des enfants dans les relations de homoafetivas. Ce 83 phénomène peut être responsable de la détresse psychologique sévère, puisque la lesbo-transhomophobie présente dans subjectivités conformation de / l'objet / la, entrave les relations interpersonnelles saines. Nous pouvons voir la nécessité de créer des politiques publiques visant à former des professionnels au sein de l'école, en prenant l'information et le débat sur le sujet, afin que les gens peuvent identifier leurs points forts et les stratégies d'adaptation et de résistance à la violence lesbo-trans homophobe dans et hors de l'école. Mots-clés: l'hétérosexisme; École; Lesbo-trans-homophobie; Les Adolescents. 84 Lesbo-trans-homofobia presente na escola Introdução No presente estudo aborda-se a temática das homossexualidades e transexualidades a partir da perspectiva da análise do discurso de alunas e alunos para a produção de sentido e a construção da subjetividade deste/as sujeito/as na escola. No campo da sexualidade, esta abordagem adquire relevância a partir deste deslocamento causal para a dimensão das subjetividades, quando sujeita/os, mergulhados no efeito expressam suas percepções neste recorte do panorama lesbo-trans-homofóbico no universo escolar. Entender estas formas de manifestações destes preconceitos e as resistências aos mesmos, amparadas na fundamentação das teorias de Guacira Louro, Judith Butler, Simone de Beauvoir, Michel Foucault, entre outras, permitirá uma discussão na análise da produção de sentido dos discursos de alunas e alunos adolescentes dentro de escolas de ensino médio. Falando em identidade A adolescência, para José Outeiral (1994), é uma fase do crescimento humano caracterizada pela definição da identidade, com início na puberdade, se estendendo até que a maturidade e a responsabilidade social sejam adquiridas pelo/a indivíduo/a. Inicialmente, a/o jovem vivencia uma passividade em relação as suas transformações corporais, criando-se a partir daí um sentimento de impotência frente ao mundo e à realidade. Posteriormente, um choque entre gerações ocorre, pois a estrutura familiar que ela/e deseja vivenciar é muito diferente da que foi vivida por sua mãe e seu pai. Sua independência seria o foco central, incluindo a definição sexual. Na última fase, acontece a busca da identidade profissional e independência financeira. Luiz Carlos Osório (1992) lembra que é na adolescência que acontecem as grandes transformações psicológicas e sociais que acompanham o processo biológico da puberdade e que estes fenômenos não podem ser estudados isoladamente. Contardo Calligaris (2009) contrapõe a visão essencialista, falando da adolescência como uma construção histórica e cultural, nascida da necessidade de se questionar sonhos e realizações, no pós guerra, quando adultos passaram a depositar nos e nas jovens seu desejo de mudança. Esta passagem, em que a/os jovens situam-se entre a infância e a fase adulta, sem serem mais reconhecida/os como crianças e ainda não recebendo o devido reconhecimento como adulto/as, situaria a/os jovens neste período de espera, sem um ritual 85 que marque o seu início ou fim. Por já possuírem certo discernimento, a/os adolescentes não são mais considerado/as crianças e podem assimilar valores, como o destaque pelo sucesso financeiro, social, sexual e amoroso, além de seus corpos e mentes já terem atingido maturação suficiente para que possam atuar nas atividades que garantam tais sucessos. Porém, ainda é imposta pela sociedade esta moratória, que lhes faz uma série de restrições, resultando em comportamentos de rebeldia neste período injusto, na medida em que isto seja o esperado dela/es. Reconhecer-se como homossexual, lésbica, gay ou transexual, pode ser um processo difícil para a/o adolescente, já que será necessário desvincular suas percepções a este respeito dos significados a que aprendeu a associá-los, deixando de percebê-los como desvios, patologias, formas anormais e ilegais de sexualidade. E, estando mergulhados em um discurso normalizador na escola e na família, fica muito mais difícil articular sua sexualidade com prazer, com erotismo e sem culpa, considera Louro (2008). Ao longo da história, particularmente nos últimos duzentos anos, predominaram formas pejorativas de atribuição social às práticas não heterossexuais, segundo Marco Aurélio Prado (2009). A construção histórica e cultural destas atribuições, sedimentadas em instituições e no imaginário social, engendrou a noção de doença e perversão, como a naturalização e ocultamento da homofobia. Por este motivo, segundo o autor, não nos questionamos a cerca das razões pelas quais nossas instituições e nossa cultura restringem os direitos às pessoas não heterossexuais, ou até mesmo incentivam formas de violências contra estas. Isto ocorre principalmente porque os códigos que regulam as relações entre as identidades sexuadas não permitem que as hierarquias sexuais e seu sintoma, a lesbo-transhomofobia, adquiram visibilidade pública na condição de injustiça social, uma vez que foram naturalizadas e assimiladas pela simplificação. Dentro da escola As identidades do masculino e do feminino, segundo Sissi Pereira e Ludimila Mourão (2005), são idealizações socialmente construídas por uma sociedade que cria estes padrões de feminilidades e masculinidades e que passam a ser considerados normais ou desviantes. Desta forma, o que for atribuído à oposição, masculino ou feminino, não é decorrente do biológico dos sujeitos, mas de acordo com o instituído por cada cultura. Sendo assim, barreiras, fundamentadas na biologia e na cultura sexista, fazem com que meninos e meninas experimentem uma educação com foco nas diferenças, sem possibilidades de explorar 86 convivências de seus corpos nas práticas de ginásticas, esportes, danças, lutas, jogos e brincadeiras. Marco Antônio de Moraes (2010) diz que a escola não é só modelo de reprodução da realidade em que está inserida, pois nela há espaços de liberdade para transgressões, quando segmentos se desdobram de outros segmentos do conhecimento. A partir desta realidade, a educação escolar que permite novas significações ajuda nas reconstruções sucessivas e ilimitadas do conhecimento da/o aluna/o. Segundo Gabriela Rizo (2010), a tarefa do/a educador/a é conduzir pessoas ao caminho da construção cotidiana de normas que melhor reconheçam suas necessidades, refletindo como os direitos humanos são construídos, e não uma normatividade dada. A normatividade dos direitos humanos, tal como qualquer código moral, deve ser uma construção histórica de alguma sociedade em um dado contexto. Porém, conforme Pereira (2010), embora as crianças apresentem muita curiosidade e interrogações a respeito dos assuntos relacionados à sua sexualidade, estes temas importantes são, comumente, deixados de lado por serem considerados tabus, desnecessários ou mesmo pela falta de interesse ou despreparo de professores e professoras para as intervenções necessárias. Método Este é um estudo qualitativo, observacional, descritivo, interpretativo que acontece a partir da análise das práticas discursivas de adolescentes ouvida/os em grupos, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul e está registrado sob o número 22102313.1.0000.5343. Segundo Mary Jane Spink (1994) é nas práticas discursivas que se torna possível acessar a produção de sentido estabelecida na escala das relações interpessoais. Entretanto, será necessário familiarizar-se com a diversidade própria ao imaginário social e sobre os objetos que são foco dos processos de significação. Práticas discursivas, dizem ainda Spink e Medrado (2013), correspondem aos momentos ativos do uso da linguagem, onde convivem tanto a ordem como a diversidade, envolvendo a linguagem em ação, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. De acordo com Spink e Benedito Medrado (2013), o sentido é uma construção social, um empreendimento coletivo e interativo, através do qual as pessoas, na dinâmica das 87 relações sociais histórica e culturalmente localizadas, constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta. O método escolhido para coleta de dados para este trabalho foi, incialmente, o de formação de grupos focais, mas, devido ao número de participantes, converteu-se em grupos de discussão. Também obteve-se uma entrevista individual com uma aluna transexual. Para o estudo dos resultados, procedeu-se a análise da produção de sentido. Os sujeitos e sujeitas de pesquisa foram adolescentes de terceiros anos de ensino médio de escolas públicas e uma adolescente do primeiro ano do ensino médio de uma das escolas. Todos e todas assinaram Termos de Consentimentos Livre e Esclarecido, quando maiores de idade. Quando menores de idade, responsáveis o fizeram por eles e elas, mas Termos de Assentimentos também foram assinados pelo/as adolescentes. A estratégia do grupo de discussão consistia na exibição do filme curta metragem, intitulado “Não quero voltar sozinho”, de Ribeiro (2010), como disparador da discussão. A entrevista da adolescente transexual foi possível pela disponibilidade da mesma em participar da pesquisa e por sua maioridade, embora cursasse o primeiro ano do ensino médio. Os discursos foram gravados, conforme constava no termo de consentimento livre e esclarecido e depois transcrito para que pudesse ser feita a análise da produção de sentido. Quanto ao perfil das/os participantes, observe-se o quadro demonstrativo: Escolas Alunas Alunos Total MEIO E1 01 00 01 Urbano/periferia E2 08 04 12 Urbano/centro E3 00 06 06 Rural/periferia E4 17 04 21 Rural/dif. Acesso Total 26 14 40 O município escolhido para realização deste estudo localiza-se na região do Vale do Rio Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. Com uma população aproximada de 69.521 habitantes, segundo dados do IBGE (2014), bem distribuída entre o meio rural e a região urbana, originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade para trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada 88 no cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra. O município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco, assim como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate. De acordo com informações colhidas na própria Secretaria de Educação (PMVA, 2013), o município possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas Municipais de Ensino Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de Ensino Médio. A rede privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil até ao Ensino Médio e 7 Escolas de Educação Infantil. Além disto, existem vagas em cursos técnicos e universitários em campus avançados. Os resultados As categorias emergem dos sentidos produzidos e materializados, neste caso, nas palavras, nos silêncios, nas metáforas, nos lapsos. As palavras carregam sentido e, quando este sentido se materializa nas vaias ofensivas, serão classificadas como ÓDIO. Entre as falas que traduziam sentimentos de medo diante das agressões surge a categoria MEDO. SENTIMENTO DE INADEQUAÇÃO é a categoria que emerge diante da incongruência entre a auto percepção e o reconhecimento social. RESTRIÇÃO AOS DIREITOS CIVIS, ao desconsiderar a alteridade. RECONHECE COMO NORMAL, quando o sentido revela a percepção do fenômeno como normal dentro de suas concepções e ainda ANORMALIDADE é a categoria que emerge das falas que manifestam esta percepção por parte das/os sujeitas/os a respeito do tema. A primeira entrevistada foi uma adolescente, indicada por uma escola que não se dispôs a abrir grupos de discussão, mas, incomodada demais com a presença da adolescente transexual no primeiro ano do ensino médio, a encaminhou para conversa com a pesquisadora. Muito interessada no estudo e em poder participar, esta se dispôs a conversar sobre o tema individualmente, cumprindo todas as formalidades que a ética da pesquisa exigia, assinando Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em primeiro contato com a adolescente, foi difícil identificar sua condição como transexual, pois as características anatômicas aparentes e o vestuário levavam a reconhecê-la como sendo uma mulher. A transformação de uma trans mulher, segundo Larissa Pelúcio (2005), é um processo de feminilização que se inicia com a extração de pelos da barba, das pernas e braços, assim como o afinamento das sobrancelhas. Os cabelos são deixados crescer e o uso de maquiagens e roupas consideradas femininas nas atividades fora do mundo da casa 89 são os passos iniciais. Em um estágio seguinte, inicia-se o uso de hormônios femininos, que pode ser na forma de pílulas ou injeções anticoncepcionais e/ou de reposição hormonal. O processo também inclui a aplicação de silicone líquido, o que pode ser um processo de difícil acesso ao qual nem todas têm condições financeiras de se submeter. Ainda há as intervenções cirúrgicas, como as plásticas de nariz, eliminação do pomo-de-adão, redução da testa, preenchimento das maçãs do rosto e colocação de próteses de silicone, diz a autora. Ódio e medo Gabriela7, a jovem transexual de 18 anos, fala dos insultos partidos dos colegas de aula. Palavras que, infelizmente, esta pesquisadora teve a oportunidade de ouvir, ao final da entrevista, no deslocamento da porta da escola, pelo pátio escuro, após as 20 horas, até o portão externo. Foram, aproximadamente, 150 metros de caminhada ouvindo o discurso repetitivo em um repertório que, se falava de discriminação, intolerância e ódio, podia estar também falando de interesse e desejo. Pois, pode-se pensar que, aqueles rapazes, ao verem Gabriela passar indiferente por eles, tratavam de falar, cada um em tom mais elevado que o outro, palavras que, se a agrediam, assinalavam suas presenças, chamando-lhe a atenção para si. - Bichona! - Viadooo! - Putãooo! - Isto é sempre assim... Eu tenho muito medo... O medo de Gabriela não deixa de ter fundamento, pois, segundo o Relatório da Violência Homofóbica no Brasil, da Secretaria dos Direitos Humanos - SDH (2012), a grande maioria das vítimas concentra‐se na população jovem, com 61,16% delas entre 15 e 29 anos. Nessa faixa etária, as vítimas entre 15 e 18 anos representam apenas 1,23%, enquanto de 18 a 29 anos, 59,93%. No que se refere ao perfil das pessoas causadoras destas violências, segundo as denúncias feitas, os dados indicam que 58,9% das vítimas conheciam os suspeitos, enquanto 34,1% não os conheciam. As violências homofóbicas acontecem tanto em espaços públicos, quanto em espaços privados. Soube-se que 38,63% das violações ocorreram dentro de casa. Nas casas das vítimas foram 25,54%, e nas dos suspeitos da agressão foram 7,76% casos registrados. No local de trabalho foram 5,37% e na escola 3,18% registros de casos de 7 Todos os nomes foram substituídos por pseudônimos a fim de preservar as identidades das/os participantes. 90 violações homofóbicas. Sendo estes números correspondentes apenas às violações reportadas e não à totalidade ocorridas contra a população LGBT. Reconhece como normal Em entrevista, falando de seu relacionamento em sala de aula com colegas, Gabriela revela: -Ah, ãaa... Tipo eu me sentia triste, né. Eu queria que eles me enxergassem como uma menina, né. Não como o que eles tavam me dizendo. Porque eu sempre achava que eu era diferente dos outros. Tipo, como eu era guria e os outros era guri, entendeu? Os que tentavam ser guri, era guri. Eles era diferente. Eu era normal. Só que isso era no meu ponto de vista. Nesta fala da adolescente pode-se entender que sua percepção de normalidade seja a de estar agindo de acordo com sua identidade de gênero. Ela revela não ter tentado corresponder ao que esperavam dela, mas ter sido coerente a sua identidade: era uma menina. Interessante notar que ela usa o verbo tentar, como se para os meninos fosse necessário haver tentativas, experimentos de performances de masculinidades (e por que não de feminilidades?). Isto remete ao conceito de performatividade de gênero de Judith Butler (2010), que nos fala dos comportamentos associados a determinado gênero, que vão validando e atualizando a lógica binária em que meninos usam azul e jogam futebol e meninas usam rosa e brincam de boneca, compulsoriamente, por exemplo. Gabriela expressa o sentimento de tristeza diante do fato dos meninos não a enxergarem como ela mesma se percebia, como menina, mas como viado e gay, sempre desqualificando-a. Inadequação -(...) Por que por enquanto eu não sou feliz. Sabe? Porque eu não sou completa. E aqui na escola eu não posso frequentar o banheiro dos gu...das gurias. Eu tenho que frequentar ou lá atrás... - E o que tem lá atrás? -É o banheiro que ninguém... Que ninguém vai. É um banheiro tipo... Interditado, sabe? Daí eu vou lá. Prá ninguém vê onde é que eu vou, nos banheiro. Daí eu vou lá atrás. Sem que ninguém perceba. Mas na sala os guris falam coisa porque eles me conhecem. É desta definição que Gabriela procura se subtrair, de ter que responder ao nome masculino na hora da chamada, de ter que dizer se é menino ou menina, de ter que escolher o 91 banheiro na hora do intervalo. Ela diz não se sentir completa, talvez como o banheiro, interditado, lá atrás, onde ninguém vê quem entra, desapercebido. Gabriela é invisibilizada e interditada, como o banheiro considerado impróprio e inadequado. Mas é justamente na porta de um banheiro público que se exige a definição: Mulher ou homem? A situação pode ser bem difícil para aqueles e aquelas que se percebem não heterossexuais, já que lhes restam poucas alternativas, como o silêncio, a dissimulação ou a segregação. A rejeição da homossexualidade acompanha a produção da heterossexualidade, expressando-se, muitas vezes, por declarada homofobia, diz Louro (2007). Para Bento (2008), a transexualidade e outras experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos fadados a cumprir os destinos de nossas estruturas corpóreas. O sistema não consegue a unidade desejada, já que há corpos que escapam ao processo de produção dos gêneros inteligíveis, e ao fazê-lo se põem em risco porque desobedeceram às normas de gênero. Esta desobediência revela as possibilidades de transformação dessas mesmas normas e este processo de fuga do aprisionamento dos corpos sexuados é marcado por dores, conflitos e medos que podem levar os sujeitos que vivem em conflito com as normas de gênero a localizar em si a explicação para suas dores, a sentir-se uma aberração, uma coisa impossível de existir. O discurso transfóbico -O professor disse, vou fazer a chamada e ela olhou bem séria prá mim. E eu né, já arregalei os olhos pensando: meu deus. É agora! -Sabe, porque quando a professora vai fazer a chamada o meu coração dispara. Porque eu, todo mundo me conhece por uma coisa e vem o professor e fala outra, sabe? -Parece que quando uma pessoa me chama de Marco parece que a pessoa vai lá e tá me dando um tiro. Eu me sinto com muito medo, sabe? -Daí, no outro dia, eu vim pra aula, aí era uma outra professora nova. Aí eu pensei: Tudo novo? -Ai ela disse assim: Qual é o teu nome? Aí eu disse: Gabriela. E ela procurando na lista de chamada. Ela disse: Mas teu nome não tá na lista de chamada. Eu disse: É Marco. Aí ela disse assim: é Marco? Eu disse: Não, me chama de Gabriela. Não. A gente não vai te chamar de Gabriela porque tá escrito no teu registro Marco Gabriel Nascimento, então, até então, é este teu nome, é esse que a gente vai te chamar. O dia que tu mudar teus documentos, e que tu for Gabriela, a gente te chama Gabriela. 92 -Eu chorei. Sabe, eu choro. Através do decreto número 48.118, de 27 de junho de 2011, o Governador do Estado do Rio Grande do Sul dispõe sobre o tratamento nominal, inclusão e uso do nome social de travestis e transexuais nos registros estaduais relativos a serviços públicos prestados no âmbito do Poder Executivo Estadual. Desde então, fica assegurado a pessoas travestis e transexuais o direito de escolha de seu nome social, independentemente de seu nome civil, sempre que atendidos por órgãos da administração pública estadual, considerando que a dignidade da pessoa humana seja princípio fundamental de estado democrático de direito e da república federativa do Brasil, assim como a liberdade, a igualdade e autonomia individual sejam princípios constitucionais que orientam a atuação do Estado e impõem a realização de políticas públicas destinadas à promoção da cidadania e respeito às diferenças humanas, incluídas as diferenças sexuais. Considerando ainda que os direitos da diversidade sexual constituem direitos humanos, e que a sua proteção requer ações efetivas do estado no sentido de assegurar o pleno exercício da cidadania e a integral inclusão social das pessoas lésbicas, gays, travestis, transexuais, e bissexuais. Nome social fica definido como aquele com o qual travestis e transexuais se identificam e são identificados pela sociedade e o nome civil deve ser exigido apenas para uso interno da instituição, acompanhado do nome social do usuário, o qual será exteriorizado nos atos e expedientes administrativos. O desconhecimento da lei do nome social, que dispensa a troca do nome de registro para que se substitua o nome na lista de chamada pelo de escolha da pessoa e a indiferença de professores e professoras daquela escola diante do sofrimento desta adolescente intensificam o conflito. Ela expressa no corpo as emoções que a maltratam. Olhos arregalados, coração disparado e a sensação de morte. O desejo de morte na negação de sua pessoa reiteradamente. Anormalidade Em outro momento, ouvindo adolescentes em grupo de discussão, foi possível perceber seus sentimentos a respeito da diversidade sexual. - Não é normal, né? - Eu tinha um amigo na outra escola, e em casa ele era normal assim... É um guri, sabe? E na escola, não. Na escola ele mostrava que era... Que gostava de guri também, sabe? Só que em casa, não. - E como era na escola? 93 - Ah, era bem... Parecia uma menina. Nesta fala, seis adolescentes reunidas em um grupo de discussão demonstram perceber a homossexualidade como anormal ao referirem-se à manifestação de identidade de gênero e homoafetiva do colega como anormais. A produção da heterossexualidade é acompanhada pela rejeição da homossexualidade, uma rejeição que se expressa, muitas vezes, por declarada homofobia, diz Louro (2007). Consentida e ensinada na escola, a homofobia expressa-se pelo desprezo, afastamento, pela imposição do ridículo, como se a homossexualidade fosse contagiosa, cria-se uma grande resistência em demonstrar simpatia para com as pessoas homossexuais. A aproximação pode ser interpretada como uma adesão a tal prática ou identidade. O resultado desta segregação é que, de um modo geral, homossexuais ocultam sua identidade sexual ou a vivem de maneira discreta, temendo as consequências de assumir publicamente e atrair para si a rejeição. A autora admite que a escola seja um dos espaços mais difíceis para que alguém assuma sua condição de homossexual ou bissexual, pois esta nega e ignora a homossexualidade e oferece poucas oportunidades para que adolescentes ou adultos assumam sem culpa ou vergonha seus desejos, já que parte da suposição de que haja somente um tipo de sexualidade possível, a heterossexualidade, e que o sexo oposto deva ser o alvo dos afetos de todas as pessoas. Restrição de direitos civis: a inversão da lógica - Eu só não acho certo se casar, tanto no religioso quanto no civil e nem adotar criança... - Por quê? - Porque também, na escola, também tem preconceito com isso... E as crianças também sofre talvez preconceito... Eu não acho certo. - Não tipo, relação assim eu não acho que tem nada a ver. Só que eu não acho certo adotar uma criança. Entre esses casais... - E casar? - Ah, isso aí... Se ajuntar, talvez... - Não. Eu não acho certo. - Tu achas que prejudicaria as crianças? - Isso acho que pode prejudicar a criança, depois, mais tarde, na escola assim, saber que... Que teus pais são... São assim... 94 - O que os outros vão fazer... - A criança já nasce assim? Ou é depois, o convívio que ela fica assim? Este último discurso, extraído de grupo de alunas, afirma aceitar o relacionamento entre pessoas de mesmo sexo, porém, em seguida, apresenta as restrições aos direitos ao casamento e adoção de filhos e filhas para casais não heterossexuais. E estas restrições incluem a religião. A pergunta “A criança já nasce assim? Ou é depois, o convívio que ela fica assim?” na sequência em que está inserida, neste contexto, traz outra pergunta que não foi dita, mas fica implícita, que seria sobre a possibilidade de pessoas homossexuais produzirem filhos homossexuais. Desta forma, fica sugerido que o perigo de se permitir a adoção de crianças por casais homoafetivos seria a de produção de pessoas homossexuais, crença esta fortemente arraigada às referências tradicionais e estáticas de família heterossexual. Um pai ou uma mãe lésbica, conforme André Diniz (2007), muitas vezes, ainda são vistos na sociedade como pessoas doentes, capazes de transmitir a sua homossexualidade para suas crianças. Isto pode estar associado a um mito, remanescente de antigas concepções equivocadas, já retificadas, da medicina e da psicologia, de que estas pessoas sejam obcecadas por sexo, tendendo abusar de seus descendentes. Estas concepções, para Teixeira Filho (2007), heterocentristas podem estar justificando ideologias em que as restrições de direitos civis de pessoas não heterossexuais sejam aceitas com naturalidade, como do casamento e da paternidade. É interessante ainda notar a inversão da lógica causa-efeito contida neste discurso. Segundo o raciocínio destas adolescentes, se o preconceito contra pessoas lésbicas, gays e transexuais, a lesbo-trans-homofobia, causa o sofrimento das crianças nas escolas, então seria melhor não adotar crianças, mesmo que elas fossem felizes em suas casas com seus pais e mães adotivo/as, para evitar que elas sofram perseguição e bullying na escola por pessoas que não gostam de seus pais e mães homossexuais e/ou transexuais. A lógica, então, seria apagar, inviabilizar a homossexualidade e transexualidade, as vítimas do escândalo, e não a lesbotrans-homofobia, o bullying, os e as perseguidore/as lesbo-trans-homofóbico/as, que são o próprio escândalo. Nesta última fala de uma adolescente, a simplicidade da lógica que resume o que pode-se acreditar já ser fruto dos esforços pelo fim da violência lesbo-trans-homofóbica dentro e fora das escolas: 95 - Eu acho que é muita hipocrisia falar, por exemplo: Ah, eu aceito homossexuais, mas não na minha família. Então, tu não aceita. Se tu não quer na tua família, é porque tu não aceita. Considerações finais Escutar de um lado as palavras tão amedrontadas e sem esperança de uma adolescente transexual em relação a sua própria vida, como a percepção da falta de perspectiva de possibilidades de vivência plena na esfera afetivo sexual, embora sua estratégias de enfrentamento, foi experiência bem dolorosa. Mas de fácil compreensão se realizado o entrecruzamento daquele discurso com os discursos de outro/as adolescentes, de mesma idade, onde as falas eram carregadas de sentidos atrelados à estrutura normativa prescrita heterossexista. De um lado, o eco do patriarcado, zelando fiel pelas relações familiares de papeis estereotipados, desiguais e injustos. De outro, a jovem transexual, desviante da norma transfóbica, mas tão impregnada também pelo horror à ameaça que representa à ordem. Todos tão frágeis e desinformados e desinformadas, privado/as que são, tanto quanto têm sido seus e suas professora/es, já que dentro da escola não se fala de sexo, prazer, corpo e direitos. Mas desejo de morte e medo não combinam com escola e muito menos com adolescência. Por isto, recomenda-se pensar urgentemente a possibilidade de inserção de equipes multidisciplinares naquelas escolas, a fim de que se possam abrir debates sobre o tema, desmistificando-se tabus e velhas normas, e que o/as sujeito/as possam identificar suas capacidades e competências para enfrentamento e resistência a lesbo-trans-homofobia para além também dos muros da escola. 96 Referências BENTO, Berenice A. M. O que é transexualidade. São Paulo. Ed. Brasiliense. 2008. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad.: Renato Aguiar. 3ª ed.- Rio de Janeiro; ed. Civilização Brasileira, 2010. 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A homofobia na representação de mães heterossexuais sobre a homoparentalidade. in Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis/ Organizadores Miriam Pillar Grossi, Anna Paula Uziel e Luiz Mello- Rio de Janeiro: Garamond, 2007. 99 CAPÍTULO V NOTA À IMPRENSA Pesquisas recentes têm demonstrado que o abuso e vitimização de pares, o bullying, por vezes, incluem a discriminação por orientação sexual, em ações heterossexistas, quando “brincadeiras” homofóbicas, pode estar relacionadas a fenômenos como queda de rendimento escolar, evasão, depressão infantil/adolescente e até ideação suicida. Estas ações atingem não só gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, como também a heterossexuais que não se conformem aos estereótipos de gênero, ou seja, todas as pessoas que não sigam aqueles comportamentos estereotipados, como uso de cores, roupas e brinquedos específicos para meninas ou meninos, por exemplo. Homofobia tem sido a palavra utilizada para nominar o preconceito ou discriminação, e toda forma de violências decorrentes, contra pessoas em razão de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero presumidas. Este termo, porém, não visibiliza as formas de discriminação que não podem deixar de ser lembradas, já que a vitimização de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros é realidade dolorosa em nossa sociedade. Lesbofobia, transfobia, bifobia ou lesbo-trans-homofobia são as nomenclaturas também adotadas. Mas é o termo heterossexismo o considerado mais adequado para designar a discriminação ligada às raízes culturais, sociais e políticas, contra homossexuais e todos aquele/as que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de normalidade, já que fobia remete ao campo da patologia, enquanto que as atitudes preconceituosas, discriminatórias e violentas estão fundadas em uma cultura heteronormativa. Heteronormatividade é a produção e a reiteração compulsória da norma heterossexual, quando supõe que todas as pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, privando e punindo quem ouse escapar à regra imposta. Segundo Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, no ano de 2012, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, entre as violações discriminatórias, a mais reportada é a discriminação por orientação sexual, com 76,37% das denúncias. A discriminação por identidade de gênero aparece como o segundo subtipo mais denunciado, com 15,21% das respostas. Violências homofóbicas acontecem tanto em espaços públicos, quanto em espaços privados e a agressão psicológica é uma das mais reportadas. Os 100 jovens estão entre os suspeitos em maior frequência nas notificações destes casos de violências heterossexistas, assim como grande maioria das vítimas concentra‐se na população jovem, com 61,16% entre 15 e 29 anos. Pensando esta relação entre violência e abuso nas escolas e a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, foi realizado, na Universidade de Santa Cruz do Sul, a UNISC, no ano de 2014, um estudo que objetivou conhecer quais os efeitos da heteronormatividade dentro da escola. Esta pesquisa foi tema da dissertação de Mestrado em Promoção da Saúde da mestranda Joana do Prado Puglia. O estudo envolveu 68 professoras e professores e 40 alunas e alunos e 1 ex-aluna. Foram quatro escolas estaduais de ensino médio pesquisadas no município de Venâncio Aires, RS. Todas com autorização da 6ª Coordenadoria Estadual de Ensino e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UNISC. Os resultados apontaram para certa rejeição às homossexualidades e transexualidades, ainda que disfarçados por um discurso politicamente correto, fundamentadas na forte presença de sexismo machista e no desconhecimento a respeito da sexualidade humana e suas possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento mantém preconceitos e tabus que podem fazer com que profissionais da educação sintam-se responsáveis pela orientação sexual e/ou identidade de gênero de alunas/alunos, o que gera intenso sofrimento psíquico dentro da escola. Sendo assim, faz-se necessária a criação de políticas públicas voltadas à capacitação de profissionais dentro da escola, levando a informação e o debate sobre o tema, de forma que as pessoas possam identificar suas potencialidades e estratégias de enfrentamento e resistências às violências lesbo-trans-homofóbicas dentro e fora da escola. 101 ANEXO 1 CARTA AO COMITÊ DE ÉTICA- CEP UNISC Santa Cruz do Sul,___de _________de 2013. Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC) Prezados Senhores, Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado: “Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes dos terceiros anos de ensino médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pela mestranda do curso de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC, sob a orientação da professora Dra. Edna Garcia Linhares, bem como os objetivos e a metodologia de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento na rede pública estadual de ensino do citado município. Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC, conhecer e cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras. Esta instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária. Atenciosamente, __________________________________ Assinatura e carimbo do responsável institucional 102 ANEXO 2 CARTA DE CONHECIMENTO DO PROJETO - 6ª CRE Santa Cruz do Sul, _____ de _________ de 201__. Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC) Prezados Senhores, Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado: “Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes do ensino médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pelo(a) mestranda Joana do Prado Puglia do Curso de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC, sob a orientação da professora Dra. Edna Garcia Linhares, bem como os objetivos e a metodologia de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento nas Escolas Estaduais do Município de Venâncio Aires, RS. Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC, conhecer e cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras. Esta instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária. Atenciosamente, _________________________ 6ª Coordenadoria Regional de Educação 103 ANEXO 3 TERMO DE CONCORNDÂNCIA PARA A INSTITUIÇÃO – ESCOLA Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes de ensino médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires- RS. Tal estudo prevê a participação de professores e estudantes do terceiro ano do Ensino Médio. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo com aqueles alunos desta instituição. A coleta de dados deverá envolver a realização de dois encontros de grupo focal, de participação voluntária, durante o horário escolar previamente acordado. Os participantes do estudo serão claramente informados de que sua contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa, sem nenhum prejuízo. A qualquer momento, tanto os participantes quanto os pais e responsáveis (Instituição) poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo. As falas serão gravadas, se assim o permitirem os participantes. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações, preservando a identidade dos participantes bem como das instituições envolvidas. Todo o material desta pesquisa ficará sob responsabilidade dos pesquisadores no Programa de Pós Graduação em Promoção da SaúdeMestrado. Dados individuais dos participantes coletados no processo de pesquisa não serão informados às instituições envolvidas ou aos familiares, mas deverá ser realizada uma devolução dos resultados, de forma coletiva, para as instituições. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer a saúde dos participantes, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Através deste trabalho, esperamos contribuir para o desenvolvimento de melhores políticas de educação e reduzir o preconceito. No final do estudo será dado um retorno dos resultados à escola e seus participantes. Agradecemos a colaboração dos participantes e das instituições envolvidas para a realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar os coordenadores do estudo do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde-Mestrado, da Universidade de Santa Cruz (UNISC), pelo número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta 104 pesquisa, ou qualquer denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680. __________________________ Pesquisadora ___________________________ Responsável pela Instituição 105 ANEXO 4 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – PARTICIPANTES Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes e professores do ensino médio nas escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS. Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Mestrado de Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz (UNISC). A sua participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60 minutos, com informações gerais e sobre homossexualidade e preconceito. Sua participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações que possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder apenas as perguntas que desejar, abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que isso acarrete qualquer consequência para você. As falas serão gravadas, se assim o permitirem os participantes, mas não as imagens. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Acontecerão dois encontros em grupos focais. Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado em compromisso de confidencialidade previamente assumido pelo grupo. Segundo encontro do grupo focal: Os sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. Este material também será mantido em sigilo e sem identificação de autoria. Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu ponto de vista e conhecimentos são importantes para podermos desenvolver melhores políticas de educação para reduzir o preconceito na escola. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer 106 denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680 . _________________________ _____________________________ Participante Pesquisadora Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014. 107 ANEXO 5 TERMO DE ASSENTIMENTO – PARTICIPANTES MENORES Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar como os adolescentes, estudantes de ensino médio de escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS, reagem diante da imposição da heterossexualidade como única forma de se viver a sexualidade. Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, que é psicóloga e está vinculada ao Mestrado de Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz (UNISC). A sua participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60 minutos, quando se buscará saber como as pessoas que não se reconhecem como heterossexuais se sentem na escola e como são tratadas, assim como as pessoas que se reconhecem como heterossexuais se sentem em relação a isto. Sua participação no estudo é voluntária e anônima, pois não serão solicitadas informações que possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder apenas as perguntas que desejar, abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que isso acarrete qualquer consequência para você. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Acontecerão dois encontros em grupos focados no tema. Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado, se os participantes autorizarem, mas não serão gravadas imagens, nem por fotografias, nem por filmagens. Este material será guardado em compromisso de sigilo pela pesquisadora. Somente aluno/as poderão participar deste grupo. Segundo encontro do grupo focal: Em um outro dia, os mesmos sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. Este material também será mantido em sigilo, pois não será exposto nem será identificado a autoria. 108 Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu ponto de vista e relatos de experiências serão importantes para podermos desenvolver melhores políticas de educação para reduzir o preconceito na escola. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680 . _________________________ _____________________________ Participante Pesquisadora Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014. 109 ANEXO 6 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – EX-ALUNOS Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes, professores do ensino médio e ex-alunos de escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS. Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Mestrado de Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz (UNISC). A sua participação será através de entrevista individual, aproximadamente 15 minutos, com informações gerais e sobre homossexualidade e preconceito dentro da escola. Sua participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações que possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder às perguntas que desejar, abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que isso acarrete qualquer consequência para você. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu ponto de vista e conhecimentos são importantes para podermos desenvolver melhores políticas de educação para reduzir o preconceito. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde-Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680 . _________________________ Participante _____________________________ Pesquisadora Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014. 110 ANEXO 7 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – RESPONSÁVEIS Gostaríamos de convidar o/a jovem sob sua responsabilidade a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes na escola. Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Curso de Mestrado em Promoção da Saúde do Programa de Pós Graduação da Universidade de Santa Cruz (UNISC). A participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60 minutos, com informações gerais e sobre homossexualidade e preconceito. As falas serão gravadas se assim o permitirem, mas não serão feitas imagens. Os participantes se reunirão em horário previamente combinado, o que não acarretará em prejuízos nas atividades da escola, que está ciente dos objetivos e procedimentos do estudo. O debate se dará em dois encontros de grupos focais. Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying. Nesta ocasião, as falas do debate será gravado e este material será guardado em compromisso de confidencialidade previamente assumido pelo grupo. Segundo encontro do grupo focal: Os sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. Este material também será guardado em sigilo e sem a identificação dos autores. A participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações que possam identificar os participantes pessoalmente. Os participantes poderão responder apenas as perguntas que desejarem, abandonar o estudo a qualquer momento ou negarem-se a responder qualquer pergunta, sem que isso lhes acarrete qualquer consequência. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer à saúde dos participantes, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Seremos muito gratos com esta participação, pois com esses resultados esperamos poder desenvolver melhores políticas de educação para reduzir o preconceito. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da 111 Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680. ________________________ _________________________ Responsável Pesquisador Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014. 112 ANEXO 8 GUIA DE ENTREVISTA COM GRUPOS FOCAIS Questões norteadoras, com objetivo de aprofundar, ou não deixar esvaziar o debate, serão apresentadas à medida que haja necessidade. 1- O que você pensa a respeito da homossexualidade? 2- Como você se sente quando assistem aos debates em defesa dos direitos iguais para pessoas homossexuais e heterossexuais? 3- Como você se sente diante de manifestações de afetos entre pessoas homossexuais? 4- Como você se sente diante de manifestações de discriminação ou violência contra pessoas homossexuais? 113 ANEXO 9 ORÇAMENTO DO PROJETO Título da pesquisa: Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes do ensino médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS GESTOR FINANCEIRO: A pesquisadora Itens a serem financiados Especificações Quantidade Valor Valor Unitário Total R$ R$ Canetas 50 1,00 50,00 Folhas A4 500 0,01 15,00 Impressão de cartazes 24 1,00 24,00 Bloco de notas 4 5,10 20,40 Fita adesiva 1 3,50 3,50 Total 112,90 TOTAL GERAL R$ ______________________________________ Pesquisadora 112,90 114 ANEXO 10 CARTA DE CONHECIMENTO DO PROJETO – SIS UNISC Santa Cruz do Sul, _____ de _________ de 2014. Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC) Prezados Senhores, Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado: “Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes de ensino médio de escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pela mestranda Joana do Prado Puglia, do Curso de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC, sob a orientação da professora Dra. Edna Linhares Garcia, bem como os objetivos e a metodologia de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento nas Escolas Estaduais do Município de Venâncio Aires, RS. Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC, conhecer e cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras. Esta instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária para prestar atenção integrada em saúde aos participantes da pesquisa que vierem a ser encaminhados a este serviço. Atenciosamente, _________________________ Edna Linhares Garcia Coordenadora do Serviço Integrado de Saúde-SIS Universidade de Santa Cruz do Sul- UNISC 115 ANEXO 11 TRANSCRIÇÕES ESCOLA 1 – ENTREVISTA COM ALUNA TRANSEXUAL Em 13 de março de 2014. Codinome: Gabriela 18 anos Gostaria que tu contasse mais ou menos como é a tua situação aqui na escola. Como é que tu te sentes nesta situação. Para mim é difícil um pouco porque no meu facebook está escrivo G N. No meu caso, meu nome é M G N. No caso, desde criança eu sempre fui assim. Assim como? Aaah... Diferente. Daí tipo eu sempre tive gosto por coisas que as meninas fazem do que pros meninos. E olha que diz ah é o convívio... Não sei o quê... É uma coisa assim. E todo diz, a maioria fala convive mais é com as meninas e por isso que é assim. Não. Porque onde é que eu moro tem um guri e tem guria. E desde criança sempre foi assim. Acho que pelo meu desenvolvimento é assim, sabe. Eu não nasci com gogó, que nem os guris nasceram. Tem gente que diz: Ah, tu força tua voz. Não. Ela é assim, sabe. E no caso eu fui crescendo e achei q isto ia mudar. Que seria diferente. Que eu teria um gosto diferente, depois ao longo do tempo, né, do desenvolvimento. Porque tem gente que diz pra mim que isto poderia mudar. Eu já fui em outros psicólogos, né. A minha mãe me levou. Aqui na cidade? É. Aqui na cidade. E quando eu estudava lá na escola eu tinha uns doze anos, me encaminharam para a psicóloga. Por causa disso? Por causa disso. Por causa que eu sofria bullying na escola. Ah, que tipo de bullying? Ah, fica chamando: Olha lá o gay. Ó o viado. Entendeu? Eles ficavam gritando isto pra mim. Os teus colegas de aula ou outros? Meus colegas de aula e os outros. Principalmente dentro da sala. E aí como é que tu te sentias? Ah, ãaa... Dif... Tipo eu me sentia menina, né. Não como o que eles diferente dos outros. Tipo como eu ser guri, era guri. Eles era diferente. Sim. Essa era a tua percepção. triste, né. Eu queria que eles me enxergassem como uma tavam me dizendo. Porque eu sempre achava que eu era era guria e os outros era guri, entendeu? Os que tentavam Eu era normal. Só que isso era no meu ponto de vista. 116 Daí eu fui crescendo. Só que quando eu era mais pequeno, nesse tempo que eles falavam isso pra mim eu não tinha o desenvolvimento que eu tenho agora. Que no caso eu era muito, muito parecido com um guri. Muito. Daí eu fui crescendo, fui crescendo e daí as pessoas diziam, não me comparavam com um guri. Quando eu fazia entrevista nas firmas as pessoas diziam: Pois não, moça? Tu trabalhas? Não. Eu não trabalho. Eu não trabalho porque eu deixei do SENAI este ano. Ah, tu estudou no SENAI... Aqui em Venâncio? Em Venâncio. Eu fazia marcenaria. Ah, sim. Até na marcenaria, quando eu entrei, eu tava com medo de fazer o curso. Porque eu pensei que eles iam que eles iam rir de mim, que eles iam falar alguma coisa pra mim. Mas não. Quando eu cheguei lá, tanto que ninguém falava nada. Todo mundo pensava que eu era uma menina. Daí eu fui... Eu conversei com uma amiga minha que eu fiz amizade com ela, fazendo amizade... Só que quando o professor me chamava M, eu me apresentei pra eles como G, que era G. Sim. Daí o professor chegou na sala e me chamou de M. Aí eles procuraram, cadê o M? Onde tá? Daí eu disse: É eu. Pra eles foi um choque, sabe? Todo mundo ficava cochichando e coisa e tal. Aí, depois quando a gente saiu pro intervalo, as minhas colegas perguntaram pra mim: Escuta, mas tu é, tu é ele? Eu disse sou. Mas meu deus, eu jurei que era uma guria! Elas diziam pra mim... Isso quanto tempo faz? Foi o ano passado. Foi o ano passado... Em março do ano passado, no início das aulas? Não. Foi no finalzinho. Lá pelo mês de agosto. Tá. No segundo semestre. É. Daí eu peguei e disse: Não. Eu sou um guri. Aí ela disse: mas eu jurei que era uma menina. Eu disse: Não. Não sou. Daí, nem por causa disso os guris pegaram... Eles pensaram que era um engano, um erro que o professor tinha chamado errado. Daí eles continuaram conversando comigo. Só que daí, ao longo do curso eles começaram a se afastar de mim. Daí quando eles me viam na rua eles me falavam piadinha, eles me chamavam de M ão. Eles tiravam piadinha pra gozar de mim. Mas eu assim ó. Tem muita gente que nem eu que fica brabo, sabe? Que pega e procura agredir, fazer alguma coisa assim. Eu não. Não é porque sou super normal. Eu não dou bola. Se falarem pra mim alguma coisa eu não dou bola. De nada, sabe? Claro. Eu me sinto triste, mas eu fico pra mim, porque quanto menos tu mexer nas coisas, melhor, né? Tá. Tu acha? 117 Por que meu sonho sempre foi que eu tivesse cirurgia de troca de sexo. É o meu sonho! O meu sonho. Porque eu me considero, eu me olhando no espelho, eu não me vejo como um guri. Eu e vejo como uma menina. Por que o meu físico ele não é totalmente de um guri. Eu tenho, ó no caso as minhas pernas são de gurias. Porque tem muito guri que tem as panturrilhas bem destacada. As minhas perna são de menina. Tanto quando eu saio pras festas eu saindo como menina. Ninguém fala nada pra mim, sabe? E eu... Conversam comigo numa boa. Só se eu dizê que eu sou guri. Senão ninguém me pergunta nada. Ninguém pergunta: ah tu é isso, tu é aquilo? E tu diz que é guri? Não. Eu não digo, né? Eu não digo por que eu não quero ser. E eu acredito no meu sonho. Eu acredito que um dia isso pode se realizado. É o que eu peço todos dias a deus. Que eu possa conseguir esta etapa. A partir do momento que eu tiver isso realizado, que eu quero, eu acho que eu vou ser feliz. Por que por enquanto eu não sou feliz. Sabe? Porque eu não sou completa. E aqui na escola eu não posso frequentar o banheiro dos gu... das gurias. Eu tenho que frequentar ou lá atrás... E o que tem lá atrás? É o banheiro que ninguém... Que ninguém vai. É um banheiro tipo... Interditado, sabe? Daí eu vou lá. Pra ninguém vê onde é que eu vou, nos banheiro. Daí eu vou lá atrás. Sem que ninguém perceba. Mas na sala os guris falam coisa porque eles me conhecem. Que tipo de coisas? Ah, eles ficam dizendo M ão... Como... Porque a maioria era meu colega no SENAI também, sabe? Aí eles ficam gritando: ah, o M ão! Sei o quê, tá se apegando... Se um guri vem e fala comigo. Se um guri vem e pede prá mim: Ó, tu tem um apontador? E eu dize que eu tenho, Ih, já tá pedindo emprestado. Daí o guri que veio me pedi isso nunca mais fala comigo. É triste, sabe? Assim as coisas que acontece. Mas é só quem me conhece que sabe que eu sou. Agora, se eu sai na rua, ir pro centro, ninguém fala nada pra mim. Eu não sofro bullying na rua. Eu sofro bullying com quem me conhece. Que sabe. Porque eu disfarço. Porque muita gente, no caso os travestis, eles ai, olha, a gente olhando assim não diz, né. Mas as pessoas sabem que é pela voz. E eu disfarço muito por causa da minha voz. Sabe... No meu facebook é assim ó de guri me trovando; ai vamos ficar, vamos se conhecer. Não sei o que... Tá. Eu vou lá e conheço ele. A gente fica e tudo... Só que eles descobrem. Como? Por que eles vão lá e comentam a minha foto. No caso eu postei uma foto. Eles vão lá e comentam. Ah, gata! Aí, quem me conhece, e tem essa pessoa que comentou no face, que conhece no caso, que é amigo dessa pessoa que comentou, vai lá e fala: tu comentou a foto de um viado? Daí a pessoa vai lá e me exclui do face. Na hora. Daí, sem eu saber, daí eu encontro essa pessoa no centro. Encontro às vezes e pergunto: porque tu me excluiu no face? Ah, porque me 118 falaram que tu é isso, tu é aquilo. Às vezes eu choro. Porque às vezes eu gosto da pessoa, sabe? Porque é que nem eu tá conversando contigo e tu não sabe. Aí, por exemplo, tu é um guri. Eu vou lá e converso contigo, eu me apego a ti, sem tu saber que eu sou. Aí depois tu vai lá e conta pra alguém. Eu fiquei com ela. Bah, tu ficou ela, mas ela é isso, ela é aquilo, ela nem é ela. Ela é ele! Sabe? Daí o que tu vai fazer? Pra ti é um choque. Tu tava pensando que tava conversando com alguém que tu podia futuramente namorar, sendo que tu não vai poder porque é alguém do mesmo sexo que tu, porque a maioria da sociedade não aceita. Muito menos os guris. Então aí pra mim fica fácil... Porque eu namorei uma vez na minha vida só. Que foi com uma pessoa que sabia que eu era. Sim. Sabia e aceitou... Isso. Aceitava. Daí eu e essa pessoa terminamo... Por causa da minha mãe, que a minha mãe agrediu ele. Porque a minha mãe não aceitava o fato de eu ser isso. Ela sabia só que é aquela pessoa que sabe só que não quer aceitar a verdade, sabe? Não quer aceitar que aquilo é aquilo ali mesmo. Aí ela enxergou com os próprios olhos dela que ela me pegou junto com ele... E ela deu nele. Ela agrediu ele. Aí, isso... Eu não queria ter terminado com ele... Mas ele terminou pra segurança dele porque ele pensou que coisas piores poderiam acontecer, sabe? Ficou com medo. Isso. Ficou com medo! Daí, eu peguei desde lá não namorei mais ninguém. Faz tempo isso? Faz... Faz muito tempo. Faz uns quatro anos... Risos... Tá. Faz tempo. Daí desde ali eu não namorei com mais ninguém. Fiquei com os guris, tudo. Tem uns que eu gosto... No caso agora, que eu vou ficar com um guri que conheço no face, eu digo pra ele: Ó, tu não fala pra ninguém que tu vai ficar comigo, porque eu tô com outro guri, daí eu vou ficar contigo escondida, sabe? Pra não da briga entre vocês e entre eu e ele... Então a gente fica escondido. Aí eles não falam. Aí, assim é um modo de eu conseguir tanto de 100%, 10% de eu ser feliz como eu quero. Entendeu? Por que... Claro que feliz eu não sou... Óbvio né? E daí, assim que eu levo a minha vida, sabe? Eu sei que é errado o que eu faço, que eu me passo por outra pessoa. Só que é como eu te falei, né? Se eu não fazer isso assim eu nunca vou ser feliz, entendeu? Daí eu vejo nas reportagem as coisas que acontece, sabe... Tanto que quando eu tava ficando com um guri, e eu fiquei com ele uma semana, o nome dele é J, aí a gente ficava e coisa e aí a gente passou e passou uma reportagem na TV. A gente tava olhando um filme. E ele não sabia que eu era. Não sabia. Aí passou uma reportagem na Tv que tinham matado um travesti. E ele disse: meu deus. Eu tenho uma raiva destes diabo! Tem que morrer tudo. Daí eu pensei pra mim: meu deus! Se ele descobrisse... Se ele soubesse que quem taqui com ele também é um... Eu chorei na hora. Na hora, sabe. Ele disse: porque tu tá chorando. Eu disse: não. Por causa que eu tô com um pouco de dor. Me deu dor de cabeça... Acho que eu vou ter que até ir pra casa. Aí eu peguei e fui pra casa e ele não entendeu o por que. Ele ficou com uma pulga atrás da orelha. E até hoje ele não sabe por que eu tenho medo que ele descubra, né. 119 Foi aquele mesmo caso que eu te contei, que eu digo pra eles que eu tenho outra pessoa, coisa né... Daí eu comecei a tomar esse ano... eu fui... Conheci uma amiga minha que ela disse: olha, se tu quiser criar mais corpo, tu pega e toma hormônio. E eu comecei a misturar anticoncepcional. E fui parar no hospital. Porque eu tomava microvlar e ciclomitil, sabe? Pra mim criar corpo. Eu tenho corpo, mas eu queria criar mais. Pra eu parecer mais ainda com uma mulher. Daí eu comecei a tomar esse microvlar. Daí eu fui parar no hospital porque me deu infecção no intestino. Porque eu misturei. Como tu mistura, né... Por causa dos hormônio... Um cria mais... Um cria pouco... Eu misturando. Eu tomava dois por dia. Sabe? Na ansiedade de eu conseguir realizar mais um pouco do meu sonho. Porque cada vez eu queria mais. Mais, mais... É isso que... eu vejo uma mulher bonita na TV eu penso: meu deus, se eu fosse bonita que nem ela... Sabe? Eu me sinto triste um pouco com as coisas que acontece comigo toda vez. Agora to conhecendo um guri de Lajeado. O nome dele é R. Ele tem 17 ano. E ele não sabe. E a gente marcou um encontro lá no shopping sábado, pra gente se vê. Eu tô com medo, sabe? Disse pra ele a mesma questão, que não era pra falar pra ninguém... Porque a gente tava recém se conhecendo... E coisa né? Ele disse: não. Tranquilo. Eu não vou falar pra ninguém e coisa... Daí eu falei também... Aí a gente entra meio por dentro, sabe? Mais ou menos o que a pessoa pensa a respeito da opção, da mesma opção que ele, né... No caso. Eu falei pra ele: ah, passou um gay aqui na minha frente aqui agora. Aí ele disse: meu deus. Porque tu atira uma pedrada e mata? Ele falou pra mim. Eu disse: não. Porque eu não tenho nada contra, nem tenho nada a favor. Pra mim não me expor, né. Pra não deixar ele pensar porque eu fui e trouxe um assunto nada a ver com que a gente tava conversando. Daí eu disse, ah, não tem nada a favor mas não tem nada contra. Eu disse pra ele. Aí ele disse assim: ah, eu tenho. Que se fosse comigo eu matava. Sabe? Então isso não foi uma experiência só que eu tive. Tive várias experiências com os guris com quem eu convivo, no caso, que não sabem que eu sou, eles têm preconceito contra isso. Eles não tem, eles não querem se afastar. Eles querem é matar, entendeu? E isso me dá medo. E aí eu choro. Toda vez eu choro, sabe? Porque o que eu mais queria na minha vida era eu ter nascido completamente como eu sempre sonhei, sabe? Ter nascido uma mulher. No caso eu fico triste porque eu tenho a voz, mas eu não sou, sabe. Isso que me deixa mais triste. Sabe? Eu creio que um dia eu vou conseguir. Eu sempre pensei pra mim. Eu vou trabalhar eu vou guardar dinheiro. Eu vou conseguir. Sabe? Daí eu pensei: ah, eu vou estudar, pra mim conseguir né. Aí... Que nem a professora Drica sempre diz pra mim: Ah, estuda que um dia tu consegue. Tu vai trabalhar e tu vai conseguir dinheiro. Só que a gente vê que não é fácil. Sabe, porque eu no caso trabalhar e eu estudar não é fácil. As coisas se tornam muito difícil. Que nem meu pai tem problema no coração e ele vê as minhas roupa. Que eu tenho tudo roupa de menina. Eu não tenho uma roupa de menino. Só roupa de menina no meu guarda roupa. Sabe? Maquiagem... 120 Quem compra estas roupas? Eu. Tudo eu. Sabe. Tua mãe te dá o dinheiro? Não. Eu tenho que trabalhar pra conseguir. E no caso, se eu quero comprar uma roupa nova... Desde que idade tu usas roupas de menina? Olha... Eu comecei a me vestir como menina com meus 15 anos. Foi. 15 anos. Foi quando tu começou a comprar tuas roupas? Que antes eu andava normal sabe? Que nem guri, e coisa... Mas sempre eu tinha aquela atração, sabe. Mas que eu consegui mesmo, que eu vi que eu ficava mais, melhor do que era, no caso que vestido de guri, foi quando eu tinha 15 anos. Que daí eu fui na casa de uma amiga minha e a gente ia sair pra uma festa, e ela disse: ah, bota uma saia! Eu disse: não! Deus o livre! Não vou botar saia por causa das minhas pernas. Porque até então eu não sabia das minhas pernas e coisa, que eu podia enganar alguém com minhas pernas, né? Daí eu pensei: não. Eu não vou botar. Ela disse: bota, experimenta! Daí eu peguei e experimentei. Ela disse: meu deus! Ficou muito bonito pra ti. Vai assim! Agora vamos botar um salto. Eu quase me quebrei tudo quando fui andar pela primeira vez de salto. Mas desde ali eu fui gostando, gostando, e daí eu fui descobrindo mais coisas, até chegar aos dias de hoje. Vendi todas minhas roupas... Que eu tinha de guri eu vendi tudo. Tudo pra mim poder comprar roupa de menina. E no caso, se eu preciso de roupa de menina a minha mãe não vai lá e tira pra mim. Eu tenho que vender alguma que não me serve mais, das minhas de menina pra comprar uma nova, né. Em casa tua mãe não... É. A mãe não compra. Tu já tens 18 anos? Já. Me fala mais da questão do nome. Aqui na escola, como é que funciona? Olha só... No caso, esse ano quando eu cheguei aqui na escola, eu pensei que ia ser as mesmas professoras, mas mudou. Era diferente, ne. Aí nós chegamos todo mundo na sala. Até então minha irmã estuda comigo, minha colega lá em cima. Aí ela olhou bem séria pra mim. O professor disse vou fazer a chamada e ela olhou bem séria pra mim. E eu né, já arregalei os olhos pensando: meu deus. É agora! Sabe, porque quando a professora vai fazer a chamada o meu coração dispara. Porque eu, todo mundo me conhece por uma coisa e vem o professor e fala outra, sabe? Daí, chegou na minha vez e ele disse assim: o M. Eu disse: é eu. 121 Ele disse assim: sério? Eu disse: sim. É eu. Ele disse assim: ah, desculpa... Tá, aí depois passou a aula ele veio conversar comigo. Aí ele disse assim: como tu prefere ser chamada? Ótimo... Aí eu disse assim: G. Eu me sinto bem melhor. Ele disse: então é assim que eu vou te chamar. Aí até então essa semana eu vim pra aula e ele pegou e me chamou de G. Sabe eu me sinto bem melhor assim. Parece que quando uma pessoa me chama de M parece que a pessoa vai lá e tá me dando um tiro. Eu me sinto com muito medo, sabe? E daí ele me chamou de G e todos começaram a rir. Porque eles me conhecem. O professor: ah, porque vocês estão rindo? Não. Nada, não sei o que... Daí depois e até então não tinha vindo todo mundo da aula, né. Daí, no outro dia, eu vim pra aula, aí era uma outra professora nova. Aí eu pensei: Tudo novo? Ai ela disse assim: qual é o teu nome? Vamos se apresentar porque eu não sei o nome de vocês. Aí ela perguntou: qual é o teu nome? Aí eu disse: G. E ela procurando na lista de chamada. Ela disse: mas teu nome não tá na lista de chamada. Eu disse: É M. Aí ela disse assim: é M? Aí minha colega do lado disse: como é que ela te chamou? Eu disse assim: Ela me chamou de M. Aí, ela disse: mas é sério? Eu disse: Sim. Meu nome é M. Aí ela disse assim: Ah, perdão. Ela me pergunta, só que a profe, tem mais professores que não aceitam. Eles me chamam de M. Eu disse: não, me chama de G. Não. A gente não vai te chamar de G porque tá escrito no teu registro M G N, então até então é este teu nome é esse que a gente vai te chamar. O dia que tu mudar teus documentos e que tu for G, a gente te chama G. Eu chorei. Sabe, eu choro. No meu face eu não vou trocar o nome porque eu me sinto melhor assim. E se eu não tiver o meu face com o nome que eu escolher, porque o dia que eu tiver o meu sonho realizado, vai 122 ser esse o meu nome: G N. Então aí eu prefiro que me chame assim, daí no caso que eu te falei. Eu não vou trocar o nome do face. Eu sei que é errado. Que é falsificação de identidade... O que é errado? Dizem que é falsificação de identidade. Tem certeza? Não sei né... Quem sabe mais que eu... Eu não sei também, né... Tu nunca ouviu falar em nome social? Não. Então eu tenho uma notícia ótima para te dar. (13h00min’) Aqui eu dou a notícia para ela da regulamentação do nome social. Não resisti! (18h20min) Olha, se isso acontecesse, acho que parte de mim, pelo menos, ia ser um pouco feliz. Porque é estranho. Eu morri de vergonha. Morri de vergonha quando eu fui fazer a primeira entrevista de emprego eu cheguei lá, eu me deparei com um guri que eu tinha ficado. E eu cheguei lá assim, e eu olhei pra ele. E ele oi, e eu oi! Ca pouco chamaram M... E ele bem assim, ó. Tirou o boné. Assim, sabe? E eu morri de vergonha. Eu cheguei lá tremendo com a mulher do cargo que ia me entrevistar. Daí ela: tu tá bem? Eu disse: é, mais ou menos... Né. Ela falou pra mim. Eu não contei pra ela o que aconteceu, nem nada, né. Mas eu só disse pra ela mais ou menos, né. Ela pegou e me deu uma água e aí quando eu saí de lá ele não tava mais lá. Ele nem fez a entrevista. Ele foi embora. Falo sobre a relação perigosa com uma pessoa que já está avisando que vai matar, que odeia e é ex Mas tu sabe que nunca passou de um mês que eu namorei. Eu sempre dou desculpa pra ele, eu digo: ah, eu tô com outro, eu sempre fico com uma pessoa até eu arrumar outra. Quando eu arrumei outra daí eu largo aquela e vou pra outra. Sabe, é sempre assim que eu faço. Pra nunca eu poder manter a relação sexual. Isso é no namoro, né, a gente sabe que isso é fundamental. E no caso, pra que isso não aconteça eu já me previno antes. Até hoje eu tô com vergonha de conversar contigo, porque eu não pude fazer nada, né... Tirar a barba tudo, né... Porque eu tiro tudo com pinça. Tudo com pinça pra não ficar aquelas marquinha. Sabe, aquelas marquinha que fica... Eu tiro tudo! E quando eu... Tem até foto. Eu vou te mostrar como quando eu me visto ninguém fala nada pra mim. No face ninguém comenta nada, nada. Nas minhas fotos diz: ah, isso aqui é travesti... Isso daí não presta. Ninguém fala nada pra mim porque ninguém sabe. Daí só se a pessoa, que nem eu te falei, só se a pessoa sabe realmente, já me conhece, ou que alguém contou que eu sou. Caso contrário, ninguém fala nada pra mim, ta. 123 Deixa eu te mostra aqui. Aqui ó! Olha pra ti ver. Estas são as fotos que eu posto no meu facebook. Aqui ó. Olha que linda! É... E ninguém fala nada pra mim. Ó. Sim, né. Mas não tem nada prá falar mesmo... Sabe, eu me maqueio... Ninguém diz nada pra mim. Tanto que essa foto aqui botaram numa página de modelo, coisa sabe... Daí, ninguém diz nada pra mim, sabe. Só assim que nem eu te falei. A pessoa que conhece e sabe. Senão não me diz nada. É isso... Só se tu me perguntar mais alguma coisa... Pois eu não sei o que dizer. Eu sou muito mau pra poder me descrever. É isso. Mas como tu descreveria: Ah... Uma pessoa infeliz... Uma pessoa infeliz... Com certeza. 124 ANEXO 12 ESCOLA 2 – GRUPO DE PROFESSORA/ES Em 14 DE ABRIL às 17h00min: Entramos na sala de aula e encontramos professoras e professores sentados em círculo. Eram 38 pessoas. Começamos com a projeção do filme curta metragem “Não quero voltar sozinho”. Terminado o filme logo algumas pessoas começaram a fazer algumas colocações. N- Parece que no filme é bem mais fácil né... Eu tenho o exemplo assim da minha filha. Ela... Morava... Num apartamento... Com outra menina e um menino que era gay. E eles brincavam e às vezes ela dizia: Cala boca D! Cala a boca, gay! Brincando... Eles brincavam entre eles, né... E aí, às vezes, quando eles tinham alguma festa, se eles iam e ele encontrava um namorado, né... Aí, ela dizia assim: Mãe, mesmo que eu esteja acostumada com os dois, né... Que eu sei que a gente é amigo, tudo... Mas parece assim que quando tem uma... Uma... Quando tem uma manifestação de carinho entre eles, fica estranho. Né? Não que incomodasse... Mas era uma coisa assim que já era um sentimento estranho, né. Eu disse assim ela que tá mais acostumada com este tipo de convivência, né... E prá gente também é assim... Dificilmente a gente vê assim... Eu, pelo menos, a não ser na televisão... A gente sabe que acontece... Eu não sei como eu reagiria... Agora eu acho que hoje tá mais fácil que há tempos atrás... A.. Sempre existiu, como tu disse... Sempre existiu. Só que as pessoas se escondiam, né. (EU- E porque se escondiam?). N- Porque não era aceito, né... Tanto que até a gente comenta que tem uma, uma moça que... Que... Fica, não sei qual esquina agora... Acho q já mudou... Acho que ela até estudava aqui no colégio... É uma moça... Não. É um rapaz... Um gay, né! Como é que a gente chama? Transexual? Ele tá aqui? E aí... Mas é bonito assim... Bem arrumado assim né. Aí... Bom, se ela tá por ali, é porque tem alguém que, queeee... Que namora, né? Que tá... Ela tem clientela, digamos assim, né? (EU- E aí, alguém mais?). P- Sobre... Sobre mostrar a afetividade para... Para todo mundo. Se assumir gay tudo bem, tem muita gente que se assume gay, mas fica... Se beijar... Se abraçar, mostrar sua afetividade com, com as outras pessoas é muito difícil, eu acho que talvez difícil até prá homossexual e muito mais difícil prá nós héteros de aceitar aquilo. Que ela comentou disse ah... Eu digo ah, o... Tem que ser homossexual. Pode ser homossexual, mas eu. Eu acho muito estranho... Eu, ela não acha estranha... Ela não acha estranho. Eu acho. (...) Ah, não acha! P- Choca ver duas meninas se beijando! Me dá uma... Me choca. C- Eu tinha uma aluna no ano passado, no ensino médio, queeeee... Ela tem uma namorada... (EU: Ensino médio?). C- É, ensino médio. Segundo ano do ensino médio. Eeee ela contou pra mim: Professora, eu tentei. Tentei. Fiquei com vários meninos... E não foram poucos... Ela disse. Mas não adianta, professora, eu gosto é de mulher. Né. Então ela relatou isto, que ela ficou com vários homens, 125 né, da idade dela, meninos, né. Mas ela disse que não, que sente aí... Ela gosta tanto que ela está noiva... De uma menina... Só que a outra menina é... Quem realmente só conhece mesmo que é menina. Porque se você ou outra pessoa olhar vai dizer que é um menino porque ela se veste como um menino a outra. A outra é bem guri. E ela diz que não troca aquela menina, que ela ama aquela menina, tanto que no ano passado elas colocaram anel de compromisso. EU- E isso ela manifestou em sala de aula? C- Ela comentou, porque a gente tinha... Né? Eeee... Eu não sei o que que veio... Eu não lembro o que foi que... Ah, estavam comentando que ela estava grávida. Aí ela perguntou: Como eu vou estar grávida, se eu namoro uma menina, professora? Daí ela relatou, mas não pro grande grupo. Sozinha. Eu e ela na sala de aula. Ela saiu pro recreio, os outros saíram pro recreio, ela ficou por último e ela falou... Daí ela mostrou as fotos também... Da namorada, né. E a mãe, dizendo ela, que... Aceitou. E aceita. (Perguntei: E pra ti, como é que foi?). C- Prá mim assim foi, assim a gente..., mas a maioria fala que é normal. Mas no momento que te depara com uma situação e uma cena dessas não é tão normal. Eu já me choco. Eu fico imaginando o dia em que pode acontecer na família, sabe? Como tu vai conduzir. Porque enquanto tu vê no outro, é fácil, mas quando tiver próximo de ti, da tua família, ou assim, perto, já teve alunos que veio e disseram: olha professora, eu gosto de menina, né... E como, uma maneira como esta aluna relatou assim, sei lá, ela ama como se fosse assim um outro menino... Um casal. Ela... Prá ela... Pra ela assim é normal, é óbvio, né. Mas a maneira como ela fala, o carinho e o amor é o mesmo, digamos assim, né. Eu fiquei surpresa que a naturalidade de como ela falou e de não ter vergonha. Só que daí, aconteceu outra ocasião que eu estava... Sempre venho por esta rua, e vim por essa, ela estava numa rua, do outro lado da casa lá. Beijos e abraços com a namorAdAa. E eu passei por ela e cumprimentei, mas, sinceramente eu vou dizer, eu fiquei sem jeito, porque a gente não tá acostumada com esta cena. Meeesmo que se tenha mais hoje, tu te sente meio assim. E ela cumprimentou. As duas agem normal. Elas duas não se sentem diferentes dos dos outros demais. Tanto que elas ficam ali como se fossem um casal de namorados, antes da aula, né. Só que um pouco longe da escola, lá na frente. EU- Elas não estudam mais na escola agora? C- Ela não... Ela... Não... Ah... A namorada, no caso, não é aluna nossa. Só uma. Este ano está no terceiro ano do ensino médio. Ultimo ano aqui na escola. C- Mas quando a gente olha eles, que nem a menina que é um menino hoje, quem não conhece, não sabe não diz que é uma menina. C- Se tu olhar os dois na rua é um menino e uma menina. É um casal, né. Mesmo as vez sabendo que é duas meninas, a gente não percebe... Agora, assim... O fato de ver duas menInAs, bem feminInAs, eu acho assim, (Choca mais-diz outra professora) sabe, não sei se é porque a gente, ah... Já acabou convivendo e... Não sei se isso é aceitar... Acho que não. Eu acho que acostumei a ver os dois assim... Todo o processo de transformação... Da menina que hoje é um menino, né... Mas que foi meu aluno, mas... Ah, eu não sei... K- Eu vejo com preocupação... Tem 14 pra 15 anos... 126 C- Mas se tu olhar pra ela hoje... Por fora é um menino. Ela tá de cabelo curto... Se veste como um menino... K- Eu estive visitando eles tarde, eles estavam desesperados. Conclusão. Então fomos procurar ajuda, porque o machismo, aquela parte retrógrada que o vô não aceita, etc... Etc... Então assim, não é, eu disse, não é desvio de conduta, não é desvio de caráter. A índole continua aquela família de caráter bom, mas é problema de aceitar. Parece que agora assim que agora estão no psicólogo, o pai tá se tratando, o avô e a avó tão se tratando, tentando aceitar, e eu fico com preocupação, mas eu disse gente... Dois homens se abraçando... Orientá-lo, né... N- Eu tenho uma mulher lá que é casada. E essa mulher é casada, tem dois filhos, e aí se separou do marido e aí... Casou com a minha prima. E a minha prima tem um jeito mais masculinizado, mas ela é assim... Mulher, né. Mas assim... Ó... Elas, elas moram juntas, na mesma casa, os filhos da mulher aceitam, só que elas evitam quando estão assim no grupo familiar de ficar ah... Se agarrando, se beijando, mas toda a família... Aceita, ou não sei se é bem aceita... Principalmente o pai dela, assim... Ele procura não... Não questionar. E... Eee um dia ela colocou prá minha mãe... Essa minha prima, que elaaa... Ela queria que o pai aceitasse assim, ãaah... Na boa, de aceitar que elas andassem de mão... Né... Que elas fossem assim andar como um casal, né. Mas ele... Ele não diz que ele é contra, mas ele também não dá abertura prá que elas... Se manifestem assim né... Então elas aparentemente assim são duas mulheres que moram junto, mas, não... Na família... C- Eu acho que as famílias vê como normal algumas, né... Quando acho que o amor fala mais alto que o preconceito. Amor de mãe, amor de pai... - Também acho. C-Amor de mãe. Só isso. Quando o amor fala mais alto que o preconceito. Agora, quando o preconceito fala mais alto que o amor, mãe nem pai... N- Mas eu também penso que acho que tem... Essa coisa assim... C- A nossa Sociedade... N-O respeito em relação... No sentido assim, ó... Eu quero ser aceita, mas eu também tenho que aceitar que o outro tenha a sua opinião. Eu não tenho que querer, eu acho, eu penso assim, ãahh... Eu sou... Eu assim... Eu quero... Eu tenho essa liberdade de ter uma companheira, né? Eu quero... Mas eu também... Eu quero ser respeitada por causa disso. Mas eu também quero, eu também tenho que aceitar que o outro aceite ou não. A questão do preconceito, não assim... Que menos preze... Não a função de menos prezar, mas assim, como esta minha prima, de querer que o pai aceite de qualquer jeito. Ele é de uma outra geração. É difícil prá ele. Não só o fato... Eu... Eu... Meu conceito assim... Só o fato dele conviver, e não, tipo assim, e não virar as costas, não... Aceitar. Já é... Já é uma forma que ele tem de aceitar de aceitar. Eu acho que também tem que ser respeitado a pessoa, né. (EU FALEI) R- A profe falou ali a questão antes de ser... O pai ser de outra geração, mas eu tenho um aluno que a mãe sofreu muito com o pai dele, diversas situações. E agora ela está com uma companheira. E ele não aceita. Ele deve tá com uns quinze anos. E ele não aceita de jeito 127 nenhum, ele já saiu de casa prá morar com outros parentes prá não tá... E ele quer por que quer, do jeito dele forçar a mãe a largar a companheira e voltar, deixar... Ele volta prá casa se ela abandonar essa situação. E aí a gente tenta conversar na aula, a gente tenta fazer este papel de... Não, para aí, vamos rever... Em outros momentos eu já vi que ele tem um posicionamento machista, mas assim, eu acho que é muito uma questão cultural, né... Não é uma geração ou não, porque ele é novinho, mas é muito a questão cultural, não foi trabalhado com ele... E agora a gente tenta, e é complicado, o meio onde ele tá também, provavelmente, traz isto, porque ele teve respaldo, ele conseguiu um lugar prá... Pra ficar, indo contra a mãe, que é a responsável legal por ele... Entao, acho que é muito a questão cultural mesmo... - A sociedade machista, né... - Mas... Isso não acontece... S- A cabeça da mãe! EU- A cabeça de quem? - Por quê? S- Da mãe! Mas pensa um pouco! Primeiro... A minha concepção assim: Depois que eu sou mãe, primeiro eu tenho que olhar pelos meus filhos. Se a minha relação não é boa com os meus filhos... Com quem vai ser? Então eu vou jogar meu filho... H- Mas existe um conceito de mãe chocadeira nessa vida. Choca e... Dá o que dá. -Se fosse homem... Claro! - Tanto homem, quanto mulher! S- É primeiro o filho, depois... -Não é a questão dela... Tanto mulher, tanto faz... Com qualquer pessoa... A gente tem, não sei... A gente tem essa concepção, enquanto o filho ainda precisa muito da gente, de repente tentar resolver os problemas, tentar se reaproximar do filho, prá depois tentar cuidar da vida pessoal dela. Acho que é isso que ela pensou. Eu também, querendo ou não eu penso assim, que eu acho que a gente tem... Não criticando, que hoje as famílias são organizadas de uma forma diferente, mas a gente sente em muitas crianças às vezes o problema... Tá, separou, deu. Ninguém é obrigada a ficar junto, mas assim, ó: ah, eu tenho um, sei lá, no caso do meu pai, eu tenho um irmão lá que minha mãe nunca imaginou... Então a criança fica assim muito dividida, muito... Muito perdida. Eu acho que é nesse sentido... Eu pensaria assim, é nesse sentido. Pensar mais no filho e não se desesperar em cuidar do lado afetivo dela. C- é que nem muitos... A minha cunhada também Não aceito a inciativa de convivência da mulher estar com mulher, homem com homem... Né. Pensando, eu digo em relação à família, que a família, a nossa sociedade se preocupa muito no que os outros vão achar. - O que os outros vão pensar! C- No que os outros vão pensar. Sabe? Então a sociedade também é machista. Eu duvido que algum pai, qualquer pai, que deixe a esposa colocar no bebê, filho homem, um sapatinho que tenha um pouquinho de rosa ou amarelo... - Uma fitinha rosa! 128 C-Eu tenho um filho só. E eu tinha... Não fiz o enxoval dele azul, como se manda, azul, menina rosa. Eu sempre fujo disso. Que menino tem que usar azul e menina tem que usar rosa. Não posso. Odeio quando vou olhar as lojas e só tem coisa rosa mais é prá menina. Sandalinha, só rosa. A outra, rosa. A outra, rosa e branca. Ou branca e rosa. É assim. A sociedade vai dizer: o menino azul, tá tudo bem. Não fiz. Azul é o que eu menos tinha de cor. E ele tinha uma peça amarela. É um calçãozinho amarelo. O dia que eu coloquei o meu esposo disse assim: Não, mas esse calçãozinho dele é amarelo! Amarelo é de menina! Eu disse: Mas onde tá escrito que amarelo é de menina? Não. Ele vai ficar com este calção. Vai ficar de calçãozinho amarelo e vai prá escolinha de calçãozinho amarelo. Não por ele vestir o calçãozinho amarelo que ele vai deixar de ser menino. Então eu acho que isto é muito assim, ai não pode. Tem meninos que hoje usam camisetas rosa, mas os pais acham assim que menino não pode colocar o que é cor de menina. Cores, não tem cor de menina e cor de menino. A sociedade que criou isso... I-Eu vejo assim. A minha experiência é com os pequenos então eu não vejo esta relação... A gente vê como os pais têm medo... De ter um filho assim... Muito bem. Eu já tive casos que... Uma menina que era meia... Meia... Guri que uma mãe até se ofereceu prá fazer alguma coisa que deixasse a menina mais feminina, queria botar umas fitinhas no cabelo e coisa e tal, de medo de se aproximar da filha... E assim queria que a outra se vestisse de menina pra parar de... De procurar a filha dela... Pra brincar. - É, eu conheci uma família e um menino da família era meu aluno e... Também a mãe teve um monte de problemas com o pai... Se separou do pai desde que o guri era bebê... E a mãe começou a sair muito com uma amiga, muito com uma amiga... Daí geralmente eles chegavam na escola e contava: profe, a mãe tem uma amiga nova. E daí, quando eu questionei a mãe, sobre essa amiga nova, ela disse: não profe, tu não te preocupa que eu tô levando ele num psicólogo. Eu disse: Tu tá levando ele num psicólogo? Ele tá indo uma vez por semana, então quando ele não vir na aula, tu sabe que ele tá no psicólogo. Ah, então tá. E... Desde pequeno ele estava fazendo tratamento no psicólogo prá ir aceitar a amiga da mãe. A mãe se separou... Separou da amiga. Não dizia amiga pai... É amiga ou tia. Quando a mãe se separou, não quis mais a amiga dela, ele chegou um dia na escola muito triste, que a mãe tinha brigado com a amiga... Que ele queria ela de volta em casa, que já tava habituado os três dentro de casa. Passou um mês, a amiga voltou prá mãe e hoje eu encontrei ele na rua e pergunto como é que tá a mãe, como é que tá a amiga. E ele diz: não profe, tá tudo bem, tudo bem. Sabe. Eu acho que foi a questão de trabalhar com o filho pra ele de alguma maneira, o manejo prá ele aceitar essa situação de uma família de estrutura diferenciada. - Eu acho que a gente pensa no geral também, porque, pensando nessa criança agora, ela ainda vai ter que aguentar o que a sociedade vai falar: olha lá tua mãe, olha lá teu pai... É muita coisa prá gente pensar... - Eu acho que não tem que chamar a outra de pai... Se ele tivesse um padrasto ele não ia chamar ele de pai... - Eu achei interessante... Eu achei interessante que ele nunca disse prá mim pai. É a amiga da mãe. Era amiga ou tia, sabe? 45h50min: Confuso vozes de fundo! 129 H- Tudo que foi colocado... É roupa, é presente... Nós que somos mais antigos, nós trazemos junto também o preconceito... A maioria da religião católica... É pecado e assim por diante, né... É conservador, tudo! Eeee, a tendência que tá tudo mais às claras, cada vez mais e etc, uma preocupação que eu sempre tive é o pessoal pode achar meio interessante que, por exemplo, na escola nós não temos banheiro prá deficiente. Tá. Como é que vai ficar a situação de banheiro prá essas pessoas? - Exatamente! H- Sim! Vai chegar e vai me dizer que quer usar um banheiro diferente e eu vou fazer o quê? - Eu até tenho um caso. A minha aluna que, de repente, ela usa no currículo o banheiro, como ela entrou nova no turno da manhã, os do turno da tarde conhecem os problemas. Como ela entrou nova no turno da manhã é como se fosse aluna nova. E então, eles conversando com ela, eles conversavam, ela, além disso, ela tem, ela é bastante hãaa... Agressiva. O que eu converso muito com eles é sobre essa... Hã... Ah... Agressividade dela. Quando ela sai pra ir no banheiro, que ela precisa várias vezes sair, sair, sair, daí eu, eu co... Converso com eles. E um dia eles pe perguntaram: Mas eu acho que ela quer ser um guri. Eu disse: ela quer ser! E prá nós tanto faz. Desde que ela nos nos respeite, desde que vocês também respeitem ela, como ela se veste, como vocês se vestem, se vocês vieram com um chinelo velho ou um chinelo novo, tanto faz. Então se ela vem com um calção ou uma saia, também tanto faz. E eles aceitaram numa boa. Só que eles falam que ela princi... Qu ela agride principalmente dentro do ba banheiro. É o lugar onde ela agride mais. No banheiro das meninas, né. Daí eu consegui falar, gente, mas vocês pensem bem nela. Ela não se sente bem nem nesse banheiro porque ela não acha que é a hã... Assim como os outros falam, ó um guri! Ainda mais quando ela começou de manhã, né. Um guri aqui neste banheiro! Ela parece um guri. No outro banheiro ela não pode ir também, por que afinal ela não é um guri. Esse é um lugar que ela se sente perdida na escola. E é realmente, pode ver, as brigas dela são dentro do banheiro. Onde ela agride, onde ela qualquer coisa ela ofende, ela se irrita. Lá ela fica buzina. Então eu cuido quando ela vai no banheiro eu não deixo outros ir. Até porque ela pode agredir outro aluno. Onde ela fica agressiva... - Agora. Quantos outros usam o mesmo banheiro? E na hora do recreio? Ela precisa ir no banheiro também. E muitas vezes ela vai ali prá - Uma vez uma pequeninha disse assim prá mim: Ô profe, tem um guri lá no nosso banheiro. Eu disse: Um guri? Quem é? Aquele lá, ó... Láaa. Ah, não. Ela é uma menina. E ela me olhou assim com uma cara que diz: Eu acho que tu olho errado. Ahahahahhaha. I- Essa professora não sabe nada... 49h30min: Confusão de falas B-Eu passei um dia lá no banheiro, não se se eu tava vindo do campo, eles tavam num tumulto e aí eu fiquei... Talvez até tenha essa circunstância dela... Uma confusão com alguém, porque tinha barulho no banheiro, que quando eu entrei e vi aquela gritaria eu perguntei: O que tu tá fazendo neste banheiro? Porque na verdade eu não conhecia a menina. (eu também achei que era um menino! Interrompeu outra) E ela não disse nada. Ela saiu correndo calada e aí eu fui lá atrás e perguntei a alguém sobre ela, daí alguém me disse: Professora, ela é uma menina! 130 50h00min: (eu falei) -Pois é, mas desde... Eu não sabia. E aí, por causa do tumulto eu entrei. N- Imagina a confusão que ela tá intimamente! -A primeira vez eu também achei que era um guri... N- Ela me disse assim: Euuu... Não! Aquele lá eu já peguei e já dei uma bordoada, eu bati nele porque ele ficou me enchendo o saco. Sabe por que eu bati nele? Porque ele me chamou de gay! Não! Porque ele me chamou de lésbica! Ele me chamou de lésbica. E eu fiquei pensando... E agora? Agora eu digo: Mas tu não é? 50h50min: falam juntas R- E o terceiro ano que eu tenho o guri e eu não sei se parece ele é bem afeminado, né? E aí ela olha prá ele: Gay! Gay! N- Ela não conseguiu se determinar... Acho que na na na atual nomenclatura ela é criança ainda. R- Acho que ela é muito criança. - Acho que ela é muito criança. Ela mora lá perto de casa... Ela mora lá perto de casa e meu filho um dia, ele entrou no pátio... Ela entrou no pátio, e ele disse: mãe, aquele gurizinho tá batendo lá! Daí eu tive que explicar: L, não é não é... Ele é uma menina... Daí eu tive que explicar todo o processo e ele ficou me olhando... Ãaa... Ah, mas parece um menino, né mãe? Daí, sabe... Daí tu tem que explicar por causa da criança é difícil de... Imagina um adulto... Uma criança assim, né... -Mas a mãe sempre vestiu ela desse jeito assim, guria? A mãe? -Ela sempre quis... I-Ela não aceita. -Ela é meio abandonada, né. 52h00min Todas falando juntas! -Ela fez a vacina... Só que ela ficou longe das meninas. Ela parou aqui na porta e resmungando... -Eu vejo um pouco assim, ó... De abandono da família porque eu vejo ela correr o dia todo a rua... Ela entra nas casas... Ela roba... Ela faz assim a rua... Abandonada assim... A família não tá muito... -Não... Esses dias de manhã ela veio... 52h40min todas falando juntas 50h50min (eu falei em nome social) -Pois é, Joana, até assim, ó... Ela não que ficar mais naquela fila que eu separo meninos, meninas... De organizar... Ela passa pra fila dos meninos, e eu deixo passar. Ela joga bola com os meninos... As atividades ela faz com os meninos... 131 -E eles aceitam... -Eu tenho um meninão na outra escola que ele também... Nunca discuto com ele... Nunca chamei ele... Ficar a critério dele se quiser falar alguma coisa prá mim... Mas ele sofre com as meninas. Eu já pedi prá ele... Quando eu di... Né... Quando tá gostando do grupo, é impressionante quando diz meninos prum lado e meninas pro outro... Mais é prá que nem contato físico na na atividade que a gente trabalha, que nem futsal, a gente tenta evita porque daí tem idade, em determinada fase eles ainda têm dificuldade por causa da vantagem física sobre... Os meninos às vezes não cooperam com as meninas dependendo da série, ele também participa com os meninos. Ele participa falta um fulano dum lado, já organiza em grupos com ele. Daí ele vai. Lógico que se for pela livre escolha, ele vai trabalhar com as meninas. (Eu falei sobre nome social) 55h20min CONFUSÃO DE FALAS SIMULTÂNEAS! -Tem que continuar usando a documentação até... Até ele... -Eu tive experiência numa imobiliária, porque eu tralhava numa imobiliária... Chegou uma mulher linda, corpão, aí olhou prá mim e disse assim: Eu vim assinar os meus documento... Aí eu... Sabia, não tinha documentos pra uma mulher assinar. Aí eu pedi a identidade. Aí, na identidade tava o nome masculino aí então eu tive que procurar... Mas assim socialmente ela tinha outro nome. A gente chamava ela por outro nome. (Eu falei) 56h00min N- Mas cabe a pessoa no ensino médio, né... Porque ali o professora não conhece ela ainda... - Mas tem uma idade prá isso? 132 ANEXO 13 ESCOLA 2 – GRUPO DE ADOLESCENTES Em 27 de agosto de 2014 Então? O que vocês acharam? O que vocês pensaram sobre isto? Já tinham visto o filme? - Na vida real, não. Mas eu vejo nas novelas. - Eu acho que cada um tem que cuidar da sua vida - Eu acho que tá aparecendo mais em novela... (03h20min... Não dá para ouvir!). - Todo mundo sabe q acontece aquilo, mas o espanto, o escândalo é porque aconteceu em público. - (...) que as pessoas não se acostumem com isso... Com a ideia de normalidade... Que nem se tu olhar os jovens, já estão mais acostumados. Já os adultos, eles discriminam muito, e aí... Por que os jovens estão mais acostumados e os adultos discriminam? - É que pra gente isso é mais presente. - Porque os gays vão vim na escola hoje porque não pode ter preconceito. Minha mãe nunca ouviu na escola que não pode ter preconceito. Minha mãe ouvia meu vô dizendo que ela tinha que casar, que ela tinha que ter uma família. E se falava isso em casa, que não podia ser lésbica? - Pra minha mãe, não. Mas ela ouvia dizer para outras meninas. - Se eu quiser ser lésbica, tu sabe... Várias coisas ela já disse pra mim. Ela disse que se eu fosse lésbica várias coisas iriam acontecer para mim. (risos) Q tipo de coisas? - Coisas ruins. (risos) Com meu corpo. Me colocaria para fora de casa... Eu fiquei muito indignada com ela. (risos) Então ela tem a mesma postura do que o vô? - Não... Ela é bem mais... Mais... - Radical? - Puxando pro lado do não. - Meu vô era mais radical... - Serena? 133 - Meu vô era muito mais radical que ela. Garanto que ele me batia com um pedaço de pau assim até morrer ou decidir não ser mais gay. É uma decisão? - Não. - Não. - Se tu virar gay eu te deserdo! - Minha mãe não se importa. Ela diz que se tu é feliz do jeito que tu é não interessa qual a tua opção sexual. - A minha mãe, no início, ela até tinha um pouco de preconceito, mas hoje em dia... Hoje em dia... Dois anos pra cá ela já tá se conscientizando mais que... É normal. Isso de assistir aos debates na televisão? - Eu acho que é coisa da convivência com os jovens, já que ela tem bastante convivência com adolescentes... (07h50min) Tá. Ela convive mais com o trabalho dela? É professora? - Não. Ela trabalha numa fábrica... Eu acho que viria daí... De conhecer pessoas... - Eu acho que isso de mostrar na novela é um ponto positivo... Porque tá... De certa forma... Condicionando as pessoas a se adaptar melhor a isso. Porque, querendo ou não, tá acontecendo e uma hora a gente vai ter que se acostumar com isso. Porque não é dizer: Eu não quero ver isso e então não faz! Não é assim. Não é uma escolha minha. Ri. No caso, então acho que isso é uma coisa bem positiva assim. Meu pai já pensa o contrário. É conservador e tal... E a minha mãe já é liberal. Tipo, dentro da minha família também tem opiniões divergentes. (08h36min) Não ouvi! Parece ser importante. - Amor à vida! (Duas pessoas dizem juntas) Essa novela apareceu um beijo gay, e agora essa última novela que terminou agora... Em família, né? Que tinhaaaa... A Clara e a Marina. - A minha mãe já achou um absurdo! Ela não gostou porque tiveram mais cenas. Naquela outra novela foi só uma no final. Daí eu acho que tá... - Só que eu acho interessante isso, que quando começou a novela Em família, eles não fizeram questão de esconder, assim... Eles logo nos primeiros episó... Capítulos disseram, tipo, a Marina é gay. Cara, se acostuma, ela tem uma namoradinha. E aí, muita coisa na internet, tipo jovens por que... Gente... Assim... De mais idade não usa o Twitter, né? Jovens no Twitter fazendo: Ah, mas o que essas sapatas? Gente que um mês atrás, tinha acabado Amor à vida, tipo: Ah, que lindo o exemplo da Globo, mostrando como a homossexualidade é importante! Aí, só porque eram duas mulheres, tavam achando um absurdo. Eu, que absurdo, né? - Elas faziam brincadeirinhas também: Ah, vocês não namoram homem... Assim! 134 Então vocês acham que é diferente a percepção das pessoas em relação a dois homens namorarem e duas mulheres? - Sim. - Sim. - É diferente. E porque será? Provoco meninos que estavam calados até então e começam a cochichar lá no fundo da sala. H- Decerto porque entre homens é mais radical. Sei lá eu... Entre mulheres eles aceitam mais... - Eu acho o contrário. H2- É... Eu vejo o contrário. - Eu acho que é o contrário. - Eu acho que ninguém bate com uma lâmpada fluorescente numa mulher. Ri. - Acho que é mais normal tu ver duas mulheres do que dois homens. Sinceramente... Por mais... Por mais... Por exemplo, né... A mulher tem como se vestir de homem, né? Já o homem se vestir de mulher... Ri. É estranho, né? Então é mais... - Pela nossa cultura... A minha mãe que estudou na escola isso... Cultura machista. Porque eu não acredito nisso de feminismo e machismo... Quer dizer... Mas pela nossa cultura, duas mulheres andando juntas como amiga, isso tu aprende desde pequena, tipo andar de braços dados... As crianças andam de braços dados. Aí, quando tu vê dois homens andando de braços dados, é muito impactante. Então quanto tem dois gays andando na rua tu logo percebe que eles são gays. E quando tem duas lésbicas, tu fica meio na dúvida que são lésbicas ou são só amigas, né? - É... Essa percepção muda bastante quando tu falou, quando são crianças, andam de mãos dadas, enfim, né... Os coleguinhas não ficam zoando, né? Mas se são dois meninos, sim. Aí depois, quando são adultos, no caso, aí a gente vê, que nem na novela mostrou também, um preconceito maior... Contra as mulheres... E que isso... Tu... Ãaa, como elas têm... Também esse preconceito em cima disto, a gente vê mais mulheres andando de mãos dadas em público, sendo que elas sofrem mais preconceito. - Eu acho que... Desde antigamente, até como brincadeira... Tipo os antigos, eles falavam como brincadeira, mas falavam, eles abortavam... Abortavam! Risadas. Abordavam o homossexualismo até nos Trapalhões. Eu lembro dos Trapalhões, gente! Eu sou uma pessoa muito culta. Aí... Tipo... Trapalhões é cultura... - Aí, agora, mostraram duas lésbicas e meu pai: Ai, meu deus! Duas lésbicas na novela! Não pode. Só pode mostrar gay. Não pode lésbica. Vocês concordam com isso? 135 Porque será que duas meninas na escola, andando abraçada, indo pousar uma na casa da outra, até dormindo juntas é aceito e dois meninos, se andarem abraçados, de mãozinhas, não é aceito? - Isso vem da criação. Eu e ela (colega) trabalhamos com crianças pequenas. Segundo e terceiro ano. E dá pra perceber nitidamente que é de criação. Porque tu percebe que um aluno que não tem uma boa criação em casa, os pais são preconceituosos, eles com certeza são aqueles que chamam os colegas de viadinho ou que... Chamam o coleguinha de gordo. Ou tem algum preconceito racial. Falando das novelas. Sobre o que pensaram os familiares e comentaram. H- Acho que... Pra menino... Sempre há pressão dos pais. Mais do pai. A mãe é sempre mais liberal. Mas o pai (14h52min) Não entendi o que ele falou!() Os meus pais são separados. De repente, minha mãe, assim, eu acho que ela aceitaria. Aceitaria melhor. Mas o meu pai não aceitaria. - Minha mãe não aceitaria. E aqui na escola? Como é que a escola lida com isso? Alunos podem namorar na escola? - Pode, mas sem agarramento. - Pode andar de mãos dadas. Mas beijos e essas coisas não pode. - Não. Beijo pode. Só não pode chegar assim: Aí, gatinha, dá um beijo aqui! E daí, se deitam no chão e... Risos. - Embora aconteça... Risos. Então tem casos de menino e menina namorando no pátio? Existe isso? - Sim. E colegas homossexuais? Existem também namorando na escola? H- Só gurias. No colégio eu só vejo gurias. Nunca vejo guris. A escola não interfere? - Não. Ela fica na dela. É um dado interessante. Então é justo? Meninos têm? - Tem. Namoram? Mãos dadas no pátio? - Não. - Não. 136 Por quê? - Porque o outro não estuda aqui. Ah, bom... Aí é outro caso. O que vocês se sentem vendo a cena do beijo no filme? - Normal. - Normal como se fosse uma mulher e um homem. - Isso eu também acho que é bem pouco falado... Por exemplo: As pessoas que têm preconceito, muitas vezes não dizem que têm preconceito por medo de sofrer preconceito por quem não tem preconceito. Risos. - Isso é um círculo vicioso. - Eu acho que é muita hipocrisia falar, por exemplo, ah, eu aceito homossexuais, mas não na minha família. Então tu não é aceita. Se tu não quer na tua família, é porque tu não aceita. Perguntas provocativas... Concordam ou discordam com direitos civis iguais. - Eu acho que tem muito heterossexual tendo filho, jogando o filho na rua, enquanto tem muito homossexual que não pode ter filho e podia adotar! RECADOS DEIXADOS EM BILHETES NA FINALIZAÇÃO DO DEBATE Eu acho que hoje é uma coisa normal, mas muitos ainda não se acostumaram. O casamento é um direito seja lá com quem for. Devemos ter direitos iguais. Todos temos os mesmo direitos, mesmo dependendo da sua opção sexual. Cada um pode ser feliz independente da sua sexualidade! Eu acho que TODAS as pessoas, independente da orientação sexual, tem direito a serem felizes como “querem”- não que ser gay ou lésbica seja por vontade-, cada pessoa deve ser/fazer o que quer da sua vida, o importante é ser feliz! Somos todos iguais, perante a lei e a vida. Todos temos direitos, para escolhermos aquilo que nos faz sentir bem e completo. Aceitar completamente o homossexual é complicado, pois eu particularmente não vejo problema, mas um certo encomodo quando vejo atos como beijo nas ruas. 137 Todos somos iguais, temos direitos iguais. Eu penso que todos são livres para escolher é sua opção sexual. E que todas possam se casar na igreja e adotar filhos. 138 ANEXO 14 ESCOLA 3 – GRUPO DE ADOLESCENTES Em 09 de julho de 2014, às 10h00min. Risadas após a sessão de cinema. O q vcs acharam do filme? - Eu gostei. - Eu achei muito lindo. - Eu também. Pq? Já tinham pensado sobre este assunto, esta possibilidade? Já viram alguma coisa parecida? - Eu sim. Quer falar p nós? Risos. Este assunto não surge na escola? - Não. Pq? - Não sei. E em casa? - Tb não. Nem quando veem novela? - lá em casa é difícil a gente ver novela. - Mas tem bastante preconceito. 139 - É... - Os pais têm... - Dos pais. - Geralmente eles falam ah, os outros tudo bem, mas o meu filho não. - Não é normal, né? Eles dizem? _ Ah, não sei... Cada um tem que... Sei lá, fazer o que gosta. Porque tu achas que não se fala sobre isto aqui na escola? - Pq aqui na escola não tem ainda. -Por vergonha talvez. Nunca teve um aluno ou aluna? - Teve. Só que já saiu. Se formou? - Não. Mudou de escola. O meu amigo. - Daí tinha a prima dele também. Que também saiu da escola. Eles eram homossexuais? - Bi. Bissexuais? Pq saíram da escola? - Acho que porque eles iam trabalhar eles estudaram de noite. Não havia preconceito? - Que eu vi não. Entre a gente, não. E se acontecesse aqui, entre colegas de vocês, o que vcs acham que ia acontecer? - Bastante preconceito. Principalmente entre os guris, os colegas. 140 - É. Vcs acham que os guris são mais preconceituosos? - Aham. Eles demonstram isto? -Às vezes... - Eu tinha um amigo na outra escola, e em casa ele era normal assim... É um guri, sabe? E na escola não. Na escola ele mostrava que era... Que gostava de guri também, sabe... Só que em casa, não. E como era na escola? - Ah, era bem... Parecia uma menina. E a aceitação dos colegas? - Eles estavam aceitando já... As pessoas... Os professores e colegas também. - Tem um guri aqui na escola também né? - Do integrado. Ele é muito legal. Todo mundo gosta dele. Bem querido. - Do ensino médio. É do primeiro. - Não. No segundo ele tá. - É né? - Eu gosto. A maioria gosta. Ele é muito querido. - Ele é muito querido! E vcs já ouviram professoras falando sobre o tema, surgiu algum questionamento sobre o tema... Na televisão, cenas de violência, lutas pelos direitos, casamento, adoção... - Não. Nunca perguntaram? - Não. - Eu só não acho certo se casar, tanto no religioso quanto no civil e nem adotar criança... 141 Pq? - Pq também na escola também tem preconceito com isso... E as crianças também sofre talvez preconceito... Eu não acho certo. - Eu apoio. Porque acho q cada um tem que ser feliz do jeito que acha que pode ser feliz. - Não tipo, relação assim eu não acho que tem nada a ver. Só que eu não acho certo adotar uma criança. Entre esses casais... E casar? - Ah, isso aí... Se ajuntar, talvez... Mas casar legalmente... - Não. Eu não acho certo. Tu achas q prejudicaria as crianças? - Eu acho que de algum modo sim. - Eu também acho que se eles tão de acordo... - Eu não tenho nada contra sabe... Mas cada um vive do jeito que acha que é melhor. A oficialização civil ou religiosa traria algum prejuízo à sociedade? - Não. - Eu também acho que não. E em relação às crianças e adoção? - Isso acho que pode prejudicar a criança, depois, mais tarde, na escola assim saber que... Que teus pais são... São assim... Aí o que prejudica a criança é o fato dos pais serem homossexuais ou é o que os outros vão fazer em relação a isso? - O que os outros! - O que os outros vão fazer. - A criança já nasce assim? Ou é depois o convívio que ela fica assim? Assim como? 142 - Gostar do mesmo sexo assim... O que vocês acham? - Eu acho que já nasce. - Eu também acho. - Eu também acho. (todas juntas) Tu lembra quando foi que tu escolheu ser como tu és? - Na escola... Acho que na primeira ou segunda série... Eu tava gostando de um menininho. Risos Aí tu disse: eu vou gostar de guri! Foi assim? - É... Eu não pensei assim. Eu só gostava dele. Então tu descobriu que gostava? - Não! Eu não escolhi. - Às vezes acha que é uma coisa... Daí quando vê é outra também... - Que esse meu amigo, sabe? Ele sempre mostrava que gostava de menina. Aí depois ele mudou, sabe? Agora ele tá namorando até... - Um menino? - Aha. - Ele foi criado pela avó dele. É que o pai dele e a mãe dele são separados e eles nunca estiveram presente. E a avó dele é homossexual? - Sim. Não! Risos Falo do tabu de que pais gays transformariam filhos gays. - Eu acho os gays mais queridos assim... Prá conversar, prá contar segredos... Eu já tive, que nem aquele amigo... Eles são mais verdadeiros, parece assim... 143 - É verdade... Pq será? - Não sei... - São muito divertidos também... Não seria um problema ter um amigo gay então? - Não (todas) E uma amiga lésbica? - Também não. E se vissem se beijando como no filme? - É diferente... Por quê? - Não to acostumada a ver... Vocês não acham estranho na escola não se falar como se não existisse? - Sim. Se fala de sexualidade? - Corpo humano, prevenção de doenças, gravidez... Homossexualidade não? - Não. Falo nas novelas. - Com meu pai... - Assisti com minha mãe. A gente riu olhando. - Meu irmão não gostou muito. Meu irmão pelo que eu vejo ele acha errado Ele é contra. - Minha irmã pequena falou que é bonitinho. E ela tem cinco anos. E ela falou que é muito bonitinho. 144 - Meu irmão já não gostou. Porque ele vai muito pro lado do meu pai. Eles são muito preconceituoso. Ele tem sete anos. - Meu pai falou: isso é uma vergonha mostrar na TV. E a mãe? - A mãe não falou nada. - Meus pais também não falaram nada. Muita dificuldade de expressar as opiniões sobre o tema. Muitas lacunas de silêncio e foi necessário, pela primeira vez fazer perguntas, induzir as falas. Então optei por bilhetes no final. RECADOS DEIXADOS EM BILHETES NA FINALIZAÇÃO DO DEBATE Acho que cada um tem a sua escolha. Se não houver preconceito, a homossexualidade não afetaria em nada. Cada um pode ser feliz da sua maneira. Cada um tem a liberdade de escolher o que quer. Acho que se um casal homossexual adotasse uma criança não afetaria em nada em casa, mas com certeza a criança sofreria preconceito por causa de seus pais. Não vou contra, acho que todos devem fazer e assumir o que gostam. Maior parte das pessoas são contra, talvez pelo fato de não ser algo comum. Pessoas de mais idade costumam achar que adolescentes devem seguir a tradição, homem com mulher. Por isso a questão do preconceito de maior parte das pessoas. Eu sou a favor porque deve fazer o que sentir e que deve ter direito. O que as pessoas pensam não e nada de se meter. Todos tem direito de escolher seu caminho, as decisões devem ser tomadas de acordo com nossas necessidades. A opção sexual é uma escolha que deve ser feito de acordo com nossa 145 felicidade. Sou a favor o relacionamento entre o mesmo sexo, porém acho errado o casamento no civil e no religioso como também a adoção de crianças. Muitos acham errado pessoas do mesmo sexo terem relações, mas eu não sou totalmente a favor. Pois todos devem fazer o que acham certo para eles independente do que os outros vão pensar ou falar. Todos temos direitos de escolha própria em sua vida, cada um sabe o que gosta e o que sente. Não importa o que somos, todos precisamos ser olhados e tratados como todos. 146 ANEXO 15 ESCOLA 4 – GRUPO DE PROFESSORA/ES Em 06 de maio 08h00min: Reunião de professoras: depois de assistir ao curta metragem “Eu não quero voltar sozinho”: - Se vai ser correspondido... Isso nem sempre acontece. Então aí também é complicado... - Eu acho que também a gente... Prá gente é difícil de aceitar... - Mas o gostar independe... Independe do... Porque ele não via, né? Ele não via... Ele via uma pessoa. Ele não via um menino... - mas ele sabe... A diferença da menina e do menino ali, né? Só que assim... A audição dele, né... O que atraiu ele foi o menino. - mas eu penso assim, ó! Tu vê isso ali, ou vê quando é longe da gente, de outra família, a gente tem um olhar... Mas eu acho que é muito difícil prá família, pai, mãe aceitar, sabe? A situação. A gente vendo de longe é... A gente tem um olhar diferente... Agora, se acontece na família da gente... Eu acho que... Aí a gente... Sofre muito. Não sabe? H- e a questão é regional também, né. A questão do gaúcho também muda... Até nos filmes... Agora tem um filme novo... O concurso, né... Com o Fábio Porchat... E daí ele no final ele... É... Um... Travesti que se torna... é... Um travesti no Rio. Aí o pai mostra a pressão, né... Mostra o gaúchão do lado dele e vem a imagem do pai... Guri, te afirma, né! RISOS. Aquela questão daí... Ele tá lá do lado dos travestis e diz: Pai,... Nasci em Santa Catarina! Ele não vai voltar prá casa, né! Então... O gaúcho tem essa questão aí... - Machismo... - Machismo puro... - e outra questão, por exemplo, nos homossexuais, normalmente quando os dois não são, um deles tem assim uma sensibilidade muito grande... E a... Ele... Tipo assim, ã... Esse desejo né... Essa atração, ela surge em cima daquilo que nós podemos dizer da questão da felicidade. Que eu só sou feliz, no momento que eu faço outro feliz. Porque a felicidade ela existe a partir de uma relação, né. Então ali também se vai olhar... Eu fiquei pensando durante o filme... As pessoas que eu conheço. Todas elas são pessoas muito sensíveis. Elas têm uma felicidade muito grande. Agora tu vê... Ã... A gente diz: elas são feministas... A gente diz isto em 147 função da afetividade... Muitas vezes eles não têm nada de feminino no estilo. Só a questão meiga mais... - isso que ele sentiu... Houve um cuidado, um afeto, uma demonstração de carinho que fez com que ele sentisse valorizado e bem quisto por um outro. - mas a menina ficou decepcionada. RISOS. - isso representa a família, né. O choque, né. Por mais que goste... - o que eu vejo em história, sociologia e filosofia... As pessoas acham que o homossexualismo é uma coisa tão nova. Na verdade na Grécia antiga era tão comum... Os primeiros seres humanos era tão comum. Se você for estudar um pouco da história da Grécia e Roma antiga, os escravos, os homens eram usados para transar com seu dôminus, com o seu dono. E as escravas mulheres eram usadas para transar com a sua domina. Tá? Então é uma coisa super comum prá eles. Eles não tinham vergonha. Não tinham esse pudor todo, né, em relação a isso. Era uma coisa mais aceita. Inclusive os professores daquela época, eles tinha que ensinar também a iniciação sexual. E isso eles ensinavam. Como os meninos tinham professores meninos, as meninas, professoras meninas. Eles ensinavam. Era uma coisa normal. O que aconteceu? Com a vinda, né. Dessa ideia do cristianismo, que se podo isso. E aí começou a ser escondido essa homossexualidade. Porque ela sempre teve. Ela faz parte do instinto do ser humano. É algo que é natural. Ele não se sente atraído pelo outro, do sexo oposto, mas ele se sente pelo mesmo. E é o instinto que eu herdei. Que todos nós... Temos, de reprodução. E... Foi se virando isso... E as pessoas começaram a ver isso como errado... Ai, ai começou a criar essa questão de preconceito. Ah, porque deus fez o homem e fez a mulher e tem que ser os dois. E aí começou a se criar essa mentalidade... E agora, quando eles tão conseguindo uma abertura, né, como a gente fala na sociologia, são as minorias, que estão conseguindo, né, se colocar, se impor na sociedade, serem vistas, as pessoas acham isso muito estranho. - Acham que é novo, né? - Acham que é novo. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que acho que não tenho preconceito nenhum. Quando... Em Venâncio era muito difícil ter... Quando eu fui morar em Santa Maria e Porto Alegre, nossa, é muito comum! Eu nunca vi isso errado. Pra mim na televisão isso nada é errado. Prá mim ter aluno homossexual e se eles tiverem né... Se beijando, enfim, afetividade... Prá mim não é, eu não me sinto afetada por isso. Tem pessoas que se sentem, porque elas têm preconceito. E do ponto de vista social e filosófico que nem eu falo, tá, o 148 preconceito é uma coisa de educação. Ninguém nasce preconceituoso. Nós que formamos pessoas preconceituosas. É uma questão cultural, educacional. Nenhuma criança quando nasce ela nasce já com essa ideia inata de preconceito. Não. Pela cultura, pela sociedade onde ela tá inserida é incutido que tem que ser preconceituoso com o outro. Aí vem a intolerância. E não é só a questão sexual. Vamos ver agora a questão dos negros, né, no futebol. Jogando... Jogando banana para os jogadores brasileiros negros. Questão educação, cultural, né... Não aceitar a diferença, não aceitar o outro. E eu, por exemplo, coloco nas minhas aulas, que graças a deus, que todo mundo é diferente. Imagina que tédio seria o mundo se todos fossem iguais. O que nos torna, a diversidade só é possível porque somos diferentes. Tem que existir a diferença porque todos iguais nada aconteceria, não aconteceria a transformação do mundo. E as pessoas, elas não... Elas não são educada prá aceitar a diferença. Prá aceitar o diferente. 06h33min -Se não tivesse o preconceito, muito mais, muitas pessoas a mais estariam vivendo com outras do mesmo sexo. Quantas pessoas assim, ó... Pessoas de idade que se conhece que nunca tiveram um companheiro ou uma companheira... Se tu vai olhar a história de vida desta... Destas pessoas, quem nos diz que não... Né... De repente eles queriam um companheiro... Se é um homem... Uma companheira se for mulher... Mas, devido ao preconceito... Essa questão toda cultural, o medo... - e às vezes, até, essas pessoas que se relacionam várias e várias vezes em busca de alguma coisa, um companheiro, então a pessoa que não encontrou, né? ... E em função até do próprio preconceito dessa nossa cultura não, não chega a viver com outra do mesmo sexo, daí acaba... Não vou dizendo infeliz, mas nunca achando a felicidade por completo, né? - Sabe que quantos depois de casamento, de teres filhos, tudo... Depois então... É que vem com... - Depois de uma vida... A gente... Meu deus! Né? A gente... Depois desta idade... De velho... Mas foi quando... - Pela idade, pra viver com outro homem... Tudo bem... Mas se largar prá viver com outra mulher? Os homens gostam de dizer isso... Risadas - Eu acho que... 149 -O problema maior que aconteceu é a vulgarização. Que a mídia faz. Eu acho que... Eu sempre coloco você tem que ter uma certa educação, uma certa medida, né? A vulgarização que agora as novelas, os programas estão fazendo, acho que isto está prejudicando muito mais a visão do homem e dá mulher. Não digo só do homossexual, né? Dos casais. Mas do homem e da mulher. Muito vulgar e muito apelo. Então ontem, conversando com a professora de biologia em outra escola, a banalização da questão sexual. A mídia fez isso e a gente que acaba 08h47min sendo preconceituoso porque a mídia faz isso com essa vulgarização, se não tivesse talvez nós poderíamos ter aceitado... Aceitado mais fácil esses fatos. H- Que nem às vezes é comentado... Até em casa eu falo com o pai, o pai só mostra só... Ã... Que nem na linguagem diz o pai só mostram só lésbica, mostram só viado. O pai fala em casa assim. ... De Barros Cassal (risos) Daí diz ele assim: Tá, mas... ã... Tão mostrando o que acontece. Ã. ã... Por exemplo, a rede globo, faz assim é o contemporâneo. Daí ele diz, é, mas será que eles não abusam? Nessa parte até posso concordar com ele. Eu acho as vez... É... Toda novela é sempre batendo na mesma tecla, né? Até teve folders também de... Ã... Menin... Ã... Acho que foi... Foi o governo que foi feito de dois meninos de mãos dadas... Não sei... Era um programa do governo federal. Daí no final até que não... Não... Eles iam... Transmitir pras escolas e no final parece que foi vetado. Mas eram tudo coisas que incentivam, né, uma coisa que tal... Pode ser que é normal, mas não sei... Acho que esse tipo de incentivo não deveria ter. E realmente é que nem a Camila falou, né? Ã... Prá reprodução homem, mulher. Mas acho que se foi feito homem e mulher é pra ter homem e mulher. (risos) Senão ia ter reprodução por bi partição, assexuada... - Mas eles se reproduzem também! H- É, pois é... - Gregos antigos, né? Eles tinham e tinham sua mulher também... H- Alexandre o grande também, né? Na última instância, né? - Quantas barrigas de aluguel? Quantos homens que tem produção independente... Adoção! H- E outra coisa... A questão da empresa onde eu trabalho também. No refeitório tem bastante travesti trabalhando. E... Na hora do meio dia às vezes tem... Nesse dia tinha banana de sobremesa... Ele tava fazendo cenas obcenas com a banana. Então eu acho que ali ele tava faltando com gran... Muito só falta de respeito com os colegas dele. Né? Esse cara tinha que pegar pelos cabelo e levar lá fora e tá demitido. Porque além dele ser uma pessoa que tá ali... 150 Tá... Tá... Inserido num lugar diferente que ele era um dos únicos, ele em vez de mostrar então, né, a opção dele sexual... Não! Ele tá banalizando. - Mas hetero também faz. H- ã? - O hetero também faz! H- Mas ele já é o centro das atenções no refeitório. - Ele não tem culpa disso! - É isso que ele quer fazer. Chamar a atenção para a. (11h43min) ali no local de trabalho dele e tentar uma postura, né? É a mesma coisa nós aqui na escola, se tem alguém, mas a gente tem que ter postura. Né? Não pode mostrar a tua... (11:57) - é uma questão educacional, né? Um ambiente social, né? - Se, se ninguém olhasse pra ele... Ficasse (todas falam ao mesmo tempo!)... 12:05 - Só que ele tem que ter postura de profissional. É a mesma coisa que... Ã... Eu trabalhei já com também um que depois se modificou, né... Eee... Gente, ele é um professor assim de... Alto gabarito... Tinha uma postura de professor... Assim ó... - Mas gente! Eles são pessoas normais! - siiiim, só que ele tem... Assim ó... - Ele tem postura de professor... É claro que ele estudou. Qualquer um pode... O colega ali... O Eduardo disse que o colega da firma lá... Ele também. Ele é um operário na firma, na fábrica, onde ele tá trabalhando. Eu acho que assim, ó... Tem que dá o respeito. É a mesma coisa que a mulher. Agora tu vai lá fica se exibindo e... Né? Não tem porque. Tem que ter acho que a postura, tu tá trabalhando, tu vai num bar tu leva a postura, tu vai ãa... Tu tá no centro da cidade tem que ter uma postura... - Eu não justificaria ninguém aqui... Eu diria o seguinte: que nós temos 2014 anos de educação ãa, né... E é isso que dificulta tudo na cabeça da gente... São tantos anos prá mudar tão rapidamente que não é assim... Então não justifico nem um lado, nem o outro. Eu acho q cada um tem q ter sua opinião e é isso que vale, como a xxxxx mesma disse, que bom que todos são diferentes, se o Eduardo tem esse pensamento, se a M tem também esse mesmo pensamento, se nós temos pensamentos diferentes, cada um tem o direito de ter o seu 151 pensamento e saber respeitar... O meu direito vai até o momento onde eu estou respeitando o direito do próximo. Então eu acho que cabe a cada um saber até q ponto a gente está sendo correta ou não. - E eu acho que mais importante é a pessoa ser feliz. Se ela é feliz, penso q se relacionando com um igual, tudo bem. Mas se ela é, se ela vai se relacionar... Com uma outra mulher em função de toda uma frustração que ela tem da figura do pai, da figura masculina, ela pode, ela pode ter uma revolta com a figura masculina, mas ela também não vai encontrar a felicidade. E eu penso, eu penso que o principal é o ser feliz. E nem todos os homossexuais são homossexuais, eu imagino, em função dessa vontade, mas por frustrações. Então são situações diferentes. Também já tive... Contato com maior homossexuais... Tenho também na família, mas não tenho convivência porque é muito distante. Como alunos, desde que eu comecei a trabalhar, aqui nem tanto, mas, ã, já teve outras escolas que muito mais e tanto que passou a ser muito mais normal do que a nossa realidade aqui, porque era maior quantidade, e era tranquilo. Nós tínhamos as duas situações. Tinha aquele que parecia assim que nasceu, né, dessa forma. E quem tinha as suas frustrações e em cima disso não se achava e também não era feliz. E quem tinha as suas frustrações e em cima disso não se achava e também não era feliz. - só fazendo o gancho aqui, ó. É o que o palitinho diz: os corações morrem quando a gente está bem, sente-se bem. O negócio é ser feliz. 15h20min (Fazendo referência a um adorno que estava sobre cada mesa ao entrarmos na sala.). - as pessoas não encontram a felicidade. Ontem mesmo eu tava trabalhando na outra turma, os próprios gregos, eu adoro os gregos porque apesar de né... Há tanto tempo acham que é uma filosofia, uma sociologia que não é superada, e o que eles falaram antes de cristo até hoje se aplica, não é... E se aplica muito mais do que os filósofos contemporâneos. A felicidade. Qual é o problema maior que as pessoas não são felizes e ficam frustradas? Porque elas não conhecem a si mesmas. Elas se preocupam em conhecer o outro, e elas transferem no outro a sua felicidade. O outro vai me fazer feliz! Na verdade é ela que tem que se fazer feliz. Ela não se conhece. Aí aquela frase do ari... Do Sócrates: conhece-te a ti mesmo. Ontem fazendo uma reflexão com meus alunos eu disse: me citem cinco qualidades que vocês têm. Que dificuldade! Me citem cinco defeitos. Que dificuldade! Citem do colega do lado. Ah, nossa, isso saltou tanto defeito, tanta dificuldade, tanta qualidade. Porque nós nos preocupamos com o outro. Não nos preocupamos com nós mesmos. Aí tá o problema. Nós somos frustrados. A 152 pessoa não se conhece e aí vai fazendo né, vai tentando essas violações, aí casa com homem, e na verdade, né a mulher queria... Depois se conhecendo mais ela vê que gostaria de sexo... Do mesmo sexo... Era casar com outra mulher... As pessoas não se conhecem. E esse que é o problema. E não se permitem conhecer também. Quando você vai fazer um trabalho desses, ai, prá quê? Não precisa. Eu sei quem eu sou. E quando você pede para redigir um texto: então me redige um texto: quem tu é. Aí vem aquelas características físicas. Não, eu não quero saber disso. Isso eu já sei. Eu to vendo. Eu quero saber quem tu é. É muito difícil. As pessoas não param. E é uma questão educacional. Ninguém nos diz que a gente tem que se conhecer. É trancado isso. Não. Preocupem-se, né, com conteúdo, preocupem-se nas suas atitudes com tudo assim, ou com ou colega, mas não contigo mesmo. E as pessoas ficam frustradas e não encontram a felicidade. E ficam testando as coisas. - e eu acho também que é uma questão de geração. Eu acho que a nossa geração é muito difícil. A gente tá com o pensamento formado. Nosso senso formado. Mas eu acredito que essa nova geração que vem até em sala de aula a gente vê que poucos têm preconceito com o colega... Sabe que é assim... Normalmente, no final da turma um ou dois têm mais preconceito. O resto tudo prá eles já tá normal aquilo ali, a gente vê, então eu acredito assim que as próximas gerações vai ser diferente, a nossa é di... Fícil... - a nossa é difícil! (risos) (falam juntas) - mas eu acho assim, eu acredito que as próximas, por mais que a gente tente, por mais que a gente se esforce, por mais q eu diga q eu não tenho, mas a gente tem... E a gente não quer, mas aquilo é mais forte que a gente. A gente não quer, sabe? Mas assim, parece, sei lá, que a gente pensa tudo... Que a gente deu... (muitas falam juntas) a família, sabe? E a gente, e eu vejo, como eu tenho só um filho, e que ele é preconceituoso também nessa parte, apesar de ele ser bem novo, porque eu acho assim também ele se criou muito sozinho com a gente tendo esse parâmetro assim que homem é homem, mulher é mulher. E é isto, né! Mas eu vejo na sala de aula, aqui no Adelina mesmo, que como eles tão mudando! Como a gente vê assim que eles não têm preconceito. Que eles já tão normal ali. E daí esses dia até um aluno me contou, diz ele: professora, eu nunca beijei, ele disse pra mim. Terceiro ano. Aí eu disse assim prá ele: Credo! Tu nunca beijou? Mas eu vi tu sentado do lado da tua vizinha. Eu via conversando com a tua vizinha lá na área da tua casa. Aí diz ele assim: não, mas eu nunca beijei. Porque a gente sabe, os colegas todos sabem que a opção dele é outra, né? Ã... Então assim, ã... Então eles riram assim mas brincaram também com ele né... Ã... E a gente viu 153 assim ó, sabe que eles aceitam. Sabe? Que a turma aceita, sabe? Que vê ele assim como ele é, sabe? Acho que com o tempo acho que isso vai mudar... 19h37min - mas isso é uma coisa que não é assim... (não entendi) os mais novos já não são bem assim, pq eu tb, eu trabalho a questão... (não entendi) os mais novos e eu vejo que o que o filme, o pouco que o filme nos apresentou ele não chegou a colocar a realidade de uma sala de aula, né... Das risadinhas, das piadinhas... Eu dou educação física. Isso acontece muito, ã... É um momento também assim que... Ã... Tu está fora, tu brinca, tu corre, então tu pode fazer outros movimentos, restritos na sala, então a pessoa que tem a tendência homossexual, num jogo ele já vai soltar mais, liberar mais. Aí sempre tem aquele grupinho que dá o apoio, né? Normalmente as meninas, né? “Ai, vai, corre! Busca a bola! Ai!” faz aquele gesto. E tem o pessoal... (não entendi 20:27) que já fica, né, ridicularizando... Isso aí o filme não mostrou muito. Mas acontece, e é beeem difícil assim da gente na escola trabalhar porque tem essa parte de casa, que é, como o professor falou, que acontece que tu vem de casa, os pais dizem: isso é feio. Isso não pode. Né. Eu vi na TV. E tem uma escola que a gente tenta né, ajeitar nã... Não... Vamos continuar a aula... Vamos dar força... Tentar organizar as coisas, e a gente como professor fica no meio desse fogo cruzado. O que a gente faz? A gente apoia o aluno? Senta e conversa? A gente, ã, xinga a turma, né? Ou deixa a turma? É uma coisa bem difícil da gente como professor lidar com isso, com esse trabalho. Até porque é uma fase que eles tão entre criança e adolescência... Eles tão se descobrindo, se conhecendo. Eles são também não sabem como agir. É muito complicado prá eles e prá gente. Como ajudar, né? Como é que a gente vai ajudar? - no filme, ali até comentei baixinho com a... Ali teve um final feliz. Foi recíproco, né? - Teve um final feliz. É isso! - Na escola... Às vezes né... O que se interessa tem essa outra visão... Não, eu gosto de mulher... Não aceita até... Fica né, mais arredio... E eu tenho uma sobrinha que tá no primeiro ano do ensino médio, trabalho dela no seminário integrado ela desenvolve então é sobre esse assunto e veio como assim (não entendi) como a juventude está mais aberta, tá buscando conhecer e eles tem um espaço na escola, espaço livre, e muitos alunos se declararam assim (não entendi 22h09min) Eles nunca imaginaram que eles “Ah, não, eu gosto de menino mesmo, sabe.” Adolescentes de 12, 13 anos, sabe. Que chamou a atenção à quantidade. Vai ser o projeto deles, o seminário. Esta questão da homossexualidade. 154 - puxando um gancho no que a Camila falou, que nós não nos conhecemos, e aí tá o medo. A. (cita a colega), digamos né... Que é homossexual... Risadas (a colega reclama que teve o nome citado e a gravação a identificará) Risadas. Todas falam juntas. - Digamos assim, ó. Tá. Que a (colega de novo) ou eu seja. E tenho medo de me aproximar da pessoa. Se eu não me conheço, eu vou ter medo. Se eu me conheço, não tenho medo. Ela é a minha amiga. Não importa a opção dela. Né? Ela é minha amiga. Nós nos gostamos como pessoas. Não como namoradas. Então assim, ó. A pessoa ela não se conhece, então ela tem aquele medo. Realmente como a colega diz: se a pessoa se conhece, não importa com quem ela vai se relacionar. Ela sabe q aquilo não vai influenciar. Eu tô com problema, com meu marido lá, agora eu não sei, não me conheço vou me apaixonar por ela. Não. Se eu sei que eu sou, é? Que eu sou, a (nome da colega de novo) só vai me ajudar, ela só vai me apoiar. Assim, quando eu me separei eu tive... Né? Várias amigas, que graças a deus... Uma era homossexual, e até assim ó, muito feliz que eu fui na companhia dela tudo com as outras amigas, sem ter medo, porque o respeito, ela sabia da minha opção... Né? Eu sabia dela. Ela me respeitava. Assim como com homens, né, que também são homossexuais, com o coração bem grandes, somos amigos até hoje. O importante, como diz, é o respeito. A pessoa se conhecer, e se respeitar. Porque, eu mesmo, quando dizia assim, aaai, quando eu era criançamas eu não nunca levei pelo preconceito. Levava na brincadeira, né- Ai, que coisa (não entendi 02h40min), não vamos comer feijão que vamo ficar preto... As pessoas não conhecem? Não sabem que o feijão não vai influenciar em nada? Que não vai mudar a cor? A não ser a cenoura, né? Mas a cenoura é cor de cenoura, é laranja (não entendi) vai comer a pele vai ter mais pigmentação e vai melhorar o bronzeado... Agora, feijão? Ai, vai comer feijão vai ficar preto! Ai, vai tomar leite vai ficar branquinha! Né? A pessoa não se conhece! Esse é o problema. Quando a pessoa realmente se conhecer, esse preconceito vai cair... Prá baixo. Vai cair por terra. Essa é a minha opinião. (Mulher negra) 155 ANEXO 16 ESCOLA 4 – GRUPO DE ADOLESCENTES Em 29/05/2014 H- Eu achei interessante. - Eu achei que choca, né... Porque não é uma coisa assim que a gente tá acostumado a ver... Só escutar... E... Ver assim é diferente. Principalmente na hora que os dois se beijam, né... Ele fica achando que é a guria... Mas... É interessante porque o guri se expressava bem, né... Ã... Tem guris que se tu vê assim e não tem a... Aquela coraaaagem de se expressar. E ele já era... (não entendi 02h02min) se expressava pros outros... tanto pra guria, mas é difícil ter uma relação de amizade que nem os dois tinham... Que nem da guria. - e a coragem também dele... Ele já é cego, né. Já tem preconceito por isso. Ele é gay também... Daí imagina a coragem que ele tem pra assumir isso. H- É... Esse vídeo assim... Mostra o que a gente fala quando alguém pergunta... Ah, você tem preconceito... Tal. A gente fala Não, não tenho preconceito. Mas tu vendo isso... A, acho que todo mundo tem um pouco de preconceito. Sei lá. Dá aquele choque na hora... Tu... tu não tem preconceito, mas se tu via aquilo ali na tua frente, parece uma coisa muito estranha. 03h05min - É diferente! Não é como é o que a gente vê todo dia... Assim. (Vocês não vêem pessoas assim?). - Aqui no nosso meio não. - A gente até sabe de casos que... Que mulher com mulher são casadas e tudo, mas não vê a cena, sabe? Assim. Podemos ver andando de mãos dadas... Alguma coisa assim. Mas não beijo. Não outras coisas assim. - Costuma ver bastante em festa, estas coisas assim mais, como é... Assim de sociedade... Na sociedade é difícil a gente ver. (Então em festa não choca?). - Éee... Tu não vê... - É que eles não ficam naquele agarra. Eles se respeitam. - É que eu acho que essas pessoas são mais conscientes que a gente... Que é mais fácil tu vê no meio da um homem e uma mulher se beijando do que... Dois homens ou duas mulheres... 156 Eles ãaa... Eles têm respeito, eles sabem o momento deles, que é só deles, o momento que é pra tá no público assim... Atos... - O V que tem que falar... V- Porque eu?? - Porque tu é um que convive bastante! Faz bastante amizade... Que sai bastante... V- Ah... Mas eu não conheço muitos... - Ah! Não conhece muitos! V- A gente vê. Mas é como elas dizem. Eles se respeitam. Eu nunca vi beijo de homem com homem. Eu nunca vi até hoje. Nem de mulher com mulher. (E isso seria...). V- Pessoalmente assim não! (E isso que tu achas falta de respeito... Quer dizer o quê respeito?). V- Que eles sabem que pode ser as outras pessoas. Cada um tem a sua opinião... Elas podem não gostar de ver aquilo... Não é qualquer lugar que pode assim ficar se beijando. - Normal que a gente vê mais é só mão dada. (Aí mão dada não é falta de respeito?). - Não... É que foi isso a escolha sexual deles. V- Nem se eles se pei... Se beeeijassem seria falta de respeito também. Cada um escolhe o que quer ser. - Eu acho que beijar não é falta de respeito. - Falta de respeito é tu agredir o outro. Tu ser preconceituoso... - É, talvez ãa... No público, na sociedade talvez não tenha esse costume do beijo... Do abraço porque já sabe, como já sofre preconceito, tem medo da agressão, né. Porque tem muita gente que não aceita e vai e parte pra agressão. Acha que com agressão vai resolver as coisas... Acha que vai mudar a opinião sexual da pessoa. - Não é bem assim né. Eles ficam com medo... Receio, talvez... (como é que vocês se sentiram vendo o beijo do Gabriel e do Leo?). V- É uma coisa bem diferente. - Teria que pensar que a escolha é deles. V- Eu acho que... Que... Eu vi... A primeira coisa assim ia dar um friozinho na barriga. É porque a hora que apareceu ali me deu um friozinho na barriga... (risos)... E ia começar a rir. Não sei, mas eu ia achar engraçado. - Por se expor, né. - Porque a gente nunca viu, né. 157 V- É, porque a gente nunca, assim... Eu nunca vi assim na minha frente assim, sabe? Bem pertinho de mim. Maaas, tipo... Dá um friozinho na barriga. - Eu acho que tudo que é novo choca né... (Vocês acham que é nova a homossexualidade?). - Não. Sempre existiu. - Só que agora tá... Perdendo o medo assim de... Da sociedade. - É que isso foi tampado pela sociedade porque ãaa... Estudos compravam que desde os antigo lá... Que era feito professores com alunos... Eles tinham relações sexuais... Só que teve uma certa época em que a sociedade tampou, porque se mostrasse isso não podia participar da sociedade. Era excluído. Daí a pessoa passou a se esconder pra ser, digamos, normal. E daí agora, novamente, tão se mostrando. Por isso que tá parecendo enfoque. Mas isso é coisa que sempre existiu. (Sobre as reivindicações das populações LGBT e seus direitos) V- Que eles deviam ter respeito e... E aceitar, porque não... Não é assim uma coisa que... Claro, nem todo mundo aceita, mas eu acho que... Assim como eles... Se escondem né... Tipo assim, eles não... Tem muitos que não... Como é que eu vou dizer... Não... Não se assumem! Por medo. E tem outros, que já são pouco mais corajosos, que já se assumem, né... Normais! Mas eu acho que a sociedade devia aceitar... Porque não é um bicho pra não gosta! H- Ou tu quer ser, ou tu não quer ser outra pessoa. Não precisa gostar. Mas tem que respeitar. V- Não é um bicho de sete cabeças. - Eu não preciso aceitar, mas eu também não preciso expor a pessoa... Não preciso prejudica ela... - Respeitar dentro do limite. Não agredi... Tratar normalmente... Essas coisas assim. Não digo que eu preciso aceitar... Ah, eu sou tua amiga... Tu pode fazer o que tu quiser... Mas respeitar. Tem limite! (Como assim, eu sou tua amiga, tu pode fazer o que tu quiser?). - Tipo assim, se tu tá na minha casa, pode fazer o que tu quiser, tu tem a minha família, tu pode se beijar, pode se abraçar, pode ficar junto, mas respeitar dentro do limite. Não, tu tá aqui, tu pode sentar junto, tu pode tá conversando, mas não passando desse... Com respeito. Acho que tudo na vida é na base do respeito. Tu tendo respeito eu acho que tu tem tudo. (E na família o q vocês ouvem a este respeito?). V- Lá em casa dá... Dá... Dá confusão. Minha mãe é muito preconceituosa. - Acho que os mais antigos eles... Têm mais dificuldade... V- Não. Mas tem dificuldades sim... 158 - Porque eles tavam acostumado é o homem com a mulher, né? Não homem com homem e mulher com mulher. Aí fica difícil... - Acho que é sempre aquela história: Ah, eu não tenho preconceito. Porque o fulano não deixa o filho dele namorar com outro? Mas que nem teve na novela... Quando é com o filho da gente, por exemplo, tudo muda. É o que a gente mais escuta assim que... Ah, nada a ver, não sou preconceituoso... Filho de fulano gosta do filho do ciclano... Mas daí, se a tua filha que gosta de outra mulher? Tudo muda. O jeito de ver as coisas. - Talvez não muda pra ti, mas se tu vai pensar o que que os outros vão pensar? Porque a gente não costuma pensar: Ah, o que eu vou pensar? A gente sempre vai pensar o que que os outros vão pensar. - Sendo com nós... Tá, tudo bem. Pra mim tudo bem. Mas o que que eles, o pessoal de fora vai pensar? Será que eu não eduquei minha filha direito? Será que minha filha não teve participação da (Não entendi! 11h55min). - O que que eu fiz de errado? - É! O que que eu fiz de errado? Sempre tem essa pergunta... (E vocês concordam que tem a ver com a educação?). V- Não! Porque eles que vão escolher o que vão querer ser. Não adianta... H- Pode educar. Pode ser lá o exemplo do pai mais macho e depois o filho nascer homossexual... Vai escolher o que quer ser. - A opção dele. - Mas a gente vê na televisão, no noticiário, tem homem e mulher que são menos pais do que dois homens que adotam uma criança, ou duas mães, dão mais ãaa... Ensinam melhor, dão mais proteção, tudo a mais do que um casal normal. Eu acho que não parte do que eu fiz de errado. Tem gente que foi educado... A melhor educação, é uma pessoa ótima, só que é... Lésbico. Oooo... Não importa isso. Não tem nada a ver. Vai que a pessoa gostar. Mas na educação ãaa... Que nem ãaa... Ou como homossexuais que adotam uma criança, que dando de tudo, às vezes tiram da boca pra dar pra criança e tem pai e mãe que abandonam a criança no meio da rua. Só acho que não interessa. H- Não é bem assim a gente não gostar. Tem homossexual assim que nem o cara quando vê, pode ser amigo, mas tem que saber que a gente é uma coisa e eles são outra e respeitar. Os dois tem que ser respeitado. Dos dois lados. - Eu penso pra mim que eu queria... Não tenho o exemplo, mas ãaa que... Vamos supor uma criança que foi criada no meio assim entre dois homens ou duas mulheres... O que que a criança pensa. Seria interessante saber, porque a gente não sabe... A gente fala, olha por fora, 159 mas e uma criança dentro de uma relação assim entre duas mulheres ou dois homens? O que que será que é... Tantos os pais sofrem preconceito, quanto a criança também... Preconceito. - É que nem se é no dia das mãe... Quem vai na reunião? - É. Mas se forem dois homens? - Isso é uma coisa bem... Que... Que a gente vê em reportagem que as escolas estão tentando lidar com isso... Porque vão chamar assim a reunião pras mães... E num casal de dois homens, quem vai ir? (E isso só acontece em casos de homossexuais?). - Não! Em mulheres também, que nem no dia dos pais... H- Falecimento... (E entre filhos de casais heterossexuais não acontece?). - Tudo acontece! É que depende... Quem se considera mais né... - Eu acho que acontece... Que... Meu pai e minha mãe, se fosse o caso... Daí meu pai não gosta da escola não vai participar, não sei o quê... Aí chega no dia dos pais... A minha mãe vem aqui. Então eu acho que... Isso não quer dizer por quê... Se é filho de duas... No caso se mora com duas mães... Ou dois pais... Ou a mãe e o pai... Podendo morar com a mãe e o pai, e um não ser tão presente e vai no lugar do outro! - Eu acho que assim... (Alguém falou sobre escolha da opção sexual) - Eu acho que é questão de sentimentos. - Opção e sentimentos. - Eu acho que vai aos poucos assim... Tu começa assim: Ah... Olha as diferentes... Tu começa a ver que na escola desde pequena tu não gosta de brincar... Se for menino tu não gosta de brincar com as coisas de menino... - Ou pode gostar, mas as outras coisas... (Não entendi direito 17:02) Conversar mais com elas... Com as meninas do que com os meninos... Daí... Tu vai entendendo que é difícil... - Quando tu brinca, quando tu é criança, tu não tem a noção de que isso significa. - E com o passar do tempo tu vai vendo... Que isso tem nome... Que isso pode... Pode te prejudicar... (baixa a voz para falar isso). H- (não ouvi! 17h25min) Pode sofrer... - Eu tenho um amigo assim... De... Ele é gay... Ele já gritou, tem uma namorada... É minha amiga também... Só que ele não tem coragem de contar pro pai dele. A mãe sabe. Os amigos todos sabem. Mas ele não tem coragem de contar pro pai dele. - E o pai não percebeu?? 160 - Talvez o pai saiba, mas ele... H- Tá ocultando a verdade. - Então ele não quer acreditar, né... - Mas nem sempre parte de quando é criança. Quantos casos que a gente vê de homem... Vou citar um exemplo de homem... Que casa... Tem filho... Mas daí vê que não é aquilo que ele quer, que não tá bom aquele casamento... Procura, que nem esses namorar com homem e dá certo... Tudo depende da pessoa. A pessoa em si, ela acha que ela tenta... - É... Ela tenta não ser... Eu acho que no certo se ela não ser aquilo que ela tá sentido... Ela vai em casa e depois ela vê... Mas não adianta continuar com isso, me atormentando... Toda essa angústia dentro de mim e eu vou ter que fazer o que eu acho que é certo. Doa a quem doer. Eu preciso pensar. Mas vai passar a vida inteira se martirizando... - Mas a pessoa tenta por causa da sociedade... Que ela não quer ser discriminada. H- Ela tem medo de não ser aceita. - Às vezes ela passa a vida toda com uma pessoa que não gosta por causa da sociedade, por causa da família, - Vivi infeliz só para agradar os outros... - Pensar no que os outros pensam... - Não pensa no que é melhor pra ela... Pensa no que os outros tão achando... O que vão falar de mim se eu... ... Ficar com uma do mesmo sexo... - Tem... Tem mulheres casadas... Daqui... Que... Puxam pro outro lado... Gostam de mulher só que... São casada... Têm filho... Só que deixaram bem claro que elas só gostam de mulher. Só que elas... Não... Não vivem público né... Só que são casada... Têm a família dela... (E aí, funciona bem?). - O que que eu vou falar, né? ... ... Ela vive oculta da sociedade... Ela é... Ela gosta daquilo só que ela tem que se esconder por que... Senão ela vai sofrer preconceito. 19h42min - A xxx falou do tratamento quando era pequena... E daí também, tipo quando a gente era era pequena eu gostava de jogar futebol! Até hoje. Brincar de carrinho... A gente gostava... Acontece. (risos) A gente joga futebol até hoje. Se tu vai brincar com o primo teu tu vai brincar de carrinho... Tu procura... Tem importante que (não entendi 20h05min). Eu sou uma que quando eu era pequena, todo mundo dizia: Ah, o gurizinho do meu pai. - Eu também... -Porque eu gosto... Eu visto saia... Eu gostava de futebol, eu gostava de torcer, eu gostava de jogá bola... Mas eu nunca... Eu levava isso por mim, porque eu sabia... Eu me confio bem... 161 Eu tenho namorado... Daí eu não tinha problema com isso. Mas tem gente que acha, né... Tem pais que ficam com medo. Eu acho... H- Cortava o cabelinho curtinho, né... - Eu acho que os pais não ficam tanto com medo quando a guria brinca de carrinho... Ou (Não entendi 20h35min) do que um guri que brinca de boneca. Porque eu... Quando eu era pequena, eu tenho um primo mais ou menos da mesma idade que eu, e quando ele ia lá em casa a gente brincava de casinha, de boneca, só que escondido do pai dele. O pai dele não gostava. Eu acho que tem mais medo. Porque parece pra todo mundo que é mais fácil o homem virar gay do que uma mulher virar lésbica. (Por quê?) - Por que... Eu acho que sim... É o medo que tem porque parece que existe mais homens gays... Quer dizer... Eles se mostram mais do que as mulheres que são lésbicas... Porque ge... - Uma coisa que eu não entendo. A mulher lésbica. Vai lá e fica com uma mulher lésbica que se veste de homem. - Tá, mas... - Isso eu não entendo... Se veste de homem... Vai lá e fica com uma mulher que se veste de homem... E não gosta de sexo masculino? - E se não gostar disso daí aquela corta os cabelos, (não entendi 21h35min). (Mas então ela é homem ou mulher?). - É uma mulher! (Então ela gosta de homem ou de mulher?). - Gosta de mulher! (21h50min não entendi) - Imagem do homem... Porque gosta de (21h57min) H- Ela gosta de mulher (E todas são assim?). H- Algumas pessoas... 162 - Depende. Pode ter casais gays que os dois se vestem igual... Homem... E tem aqueles que se veste de mulher. Tem duas mulher que se vestem (não ouvi) com jeitinho de mulher... Ou não. Tem vários tipos. (E porque vocês acham que têm vários tipos assim?). - Porque a gente vê. - Não são tipos... São personalidades... Cada um tem uma personalidade... Um jeito de... Pode também ter casos de... Ãaa... Mulheres que gostam de se vestir de homem, mas gostam de homem. Elas gostam daquele jeito que o homem se veste, que o homem anda, caminha, sei lá... Elas querem parecer igual... H- E o contrário também! Tem uns guri que gostam de (não entendi 02h52min) - Acho que cada um tem uma personalidade diferente... - Na verdade o homem é, eu, na minha opinião, ele é mais aceito, conforme ele é na sociedade... Na minha opinião. Como... Ninguém... Se tu for reparar... Tu não repara como o homem tá vestido. Se ele tá vestido bem. Se ele tá vestido mal. Quem costuma olhar, sempre olha pra mulher. No meu ponto de vista. O homem não (não entendi 23h25min). (Risadas) - Tu sempre olha pra mulher... Se a mulher tá bem vestida... Como é que ela tá... Se tá bem penteada, se cabelo tá amarrado... Homem já não... Por que... H- O homem tá sempre igual. - Éeee... Na verdade é... H- Homem (23h38min) tá sempre da mesma maneira quando vai pra escola e pra festa... H- O homem, por exemplo, na escola e na festa... - É... E a mulher tem mudança... Se é pra academia... Escola... Que nem homem, é sempre tênis. - Olha! Que nem... Vai na academia, vai de tênis. Vem na escola, às vezes põe uma rasteirinha... Vai pra festa, bota salto. Ou então bota sandália com bermuda... H- A mulher tem mais opções que o homem. 163 - Então, se tu vê uma mulher... Tipo tu vai caminhando na rua e tu vê uma mulher de tênis... Mais calça mais largada... Um camisetão grande... Tu já pensa uma coisa diferente. - Agora, tu vê um guri com uma calça coladinha... Um tênis que... É, que nem o xxx... (risos) Tu vê um guri com uma calça coladinha hoje em dia... Tu não dá mais muita boa... Tem guri que não. É por opção... Se tá - Camisa rosa... (24h27min não entendi até 24h34min) - Meu pai disse, ele tem, ah se eu tivesse meus dezessete anos e usasse uma camiseta dessas eu não saía na rua. H- Apanhava em casa. - Agora as pessoas usam... H- É que antigamente não era muito aceito essas coisas assim... - É que na época não tinha informação também... - É nenhum estilo delas... Assim... Não determina o sexo. - É que antes parecia que o azul tinha que ser pro guri. E o rosa... - Ah, então seu sou guri, porque eu não gosto de rosa! - Ou, por exemplo, se eu gosto de brincar... De roda, ou brincar de carrinho... Gosto de fazer coisas de homem não significa que ãaaa... Coisa de homem significa que eu vou ser... Lésbica! - Significa que eu gosto! É o meu estilo! Não gosto de brincar de boneca e gosto de jogar futebol. Igual a um homem. - (25h47min não entendi) - Por exemplo, a sociedade falou que futebol é coisa de homem... Ãaa... Salão de beleza é coisa de mulher. Antes era assim. Que nem um homem... Tu encontrar um homem num salão de beleza... Sai cagando a pau! (Não entendi 26h07min) - Tem homem que se depila... Isso hoje em dia. 164 - E mulher jogar futebol agora... Hoje em dia é coisa normal... Lutar Box que era uma coisa super masculina, tá se tornando feminina. Então... Isso não distingue quem tu é... São gostos... Cada um gosta de fazer o que quiser. - No começo foi a sociedade que disse: Ó, uma família... O homem dirige o carro e a mulher fica (26h40min não entendi) H- E olhando pra trás. - E também pesquisas... Que nem carteira... É comprovado que antes a maioria era homens que fazia carteira... No entanto... Por exemplo a minha mãe... A minha mãe foi uma que foi fazer carteira com trinta e poucos, quase quarenta anos. Porque antes... ãaa... Era homem só que dirigia, a mulher só... Hoje em dia... É uma independência, sabe? A mulher faz tudo que ela quiser, tanto se for de homem ou for de mulher, não distingue se isso é de homem ou é de mulher. E o homem também. Se ele quer ir no salão de beleza, se ele quer fazer compras no shopping... Cada um faz o... Que quiser. - Ah, mas isso em relação a dirigir, carteira, eu acho que não é assim, porque até hoje... Na minha família eu tenho... O pai não deixa a mãe tirar carteira. H- Machismo! - O pai não deixa... Não quer que mulher tire carteira. A mulher sabe dirigir... A mulher anda pra cá e pra lá... Não quer que ela tire carteira. - Por quê? (não ouvi 27h45min) - Não sei... - É machismo, por causa que, por exemplo, assim, pro homem, chegar num lugar público, numa festa, com a mulher dirigindo o carro e ele na garupa, é o fim do mundo. É o fim. - O meu pai dá graças a deus. Daí ele pode beber. (não entendi nada! 28h07min). - Ou tem uma mulher andando de carro mais devagar andando na frente e daí tem um homem no carro de trás, aí ele vai dizer: Ah, tinha que ser mulher! - Sempre tem alguém que diz isso... - Ou tem que ser velho... 165 - Meu pai sempre diz isso... Ou é mulher ou é velho! (28h30min) - Meu pai é um desses. Quando tem mulher dirigindo ele: Ah, é mulher dirigindo... É mulher dirigindo... - Só podia... - Não precisa nem olhar quem ta dirigindo. Se tem um carro lerdo lá na frente: Aposto que é mulher. Aposto que é mulher que tá dirigindo. Eu: Vocês concordam com isto, que mulher dirija diferente do homem? - Não! - Não! - Não... A mulher é mais... - Tem mulher que dirige melhor que homem! H- Eu acho que ela... Eu acho que... Tem que mulher que... A xxx ali falou que mulher que cuida mais, é mais cuidadosa... Do que homem. Porque tem homens que... Homem é mais louco. É mais fora do comum. Ele vai e não quer nem saber. Vai. A mulher já não. A mulher... - O homem não tem tanto medo do (não entendi 29h09min) - A mulher se dá mais com a família do que o homem... - É. Ele se bater no poste, bateu. - É o que xxx falou, que alguns homens: já sei... Vou dirigir... Eu vou sair... Já a mulher não. Cuida mais. É mais cuidadosa... - Quem perde mais a carteira durante o ano é o homem... Em estudos, né... Às vezes tu vê nos jornais... É os homens, por causas assim... Tu tá num boteco, o homem bebe e diz ah, não dá nada assim. Eu sei dirigir e vai. A mulher não. Eu posso tá bem, mas se a polícia me pegar eu vou presa. Sabe, ela pensa nas consequências... Então ela diz que não vai beber. Eu vejo assim em boates, por exemplo... As mulheres elas fazem rodinhas pra quem vai dirigir, sabe... Rodar. O homem, os homens começaram agora, depois da maioria perder a carteira. H- Pera aí um pouquinho... 166 - Por causa... Eu tenho por amigos, porque tinha entre cinco ou seis amigos enquanto três quatro perderam a carteira eles foram botar na cabeça deles que tinham que fazer rodada de um não beber. A mulher não. A mulher já evitou. Sabe, ela já se cuidou. - É que a mulher pensa. - É verdade... - Homem não pensa nisso. H- Ah, homem pensa, mas não nessas coisas... - Aí tu sai e toma refri. Aí o homem pensa que se ele tomar refri não vai pegar! H- Isso é coisa de mulher, ele vai pensar! - Qual... Vai pegar as outras porque todo mundo vai ta tomando cerveja e ele vai tá tomando refri... - É que para a maioria da gente ir pra balada e beber... Beber bebida alcóolica. Tem gente: Ah, se eu beber refri não vai ter a mesma graça. - Pois é... E aí... H- Homem que é homem tem que tomar bebida alcóolica... - É macho. - Tem que tomar cerveja. - Entortar o caneco... Eu: Então se ele não for homem... Não provar... H- É... H- Não. Não é bem assim também! Mas não é assim que funciona as coisas não. - A gente sabe que tem muito... H- Aí ele vai lá, bebe e é o machão. Não. Não é assim que funcionam as coisas. H- Claro que não. H- As pessoas pensam assim, mas não é assim que funciona. - Não. Não é assim... Mas... Não é assim, mas... 167 - Agora é assim. - Não é assim pra atualidade agora, mas antes era. - Tem aqueles caras que vão, bebem e vão falar: Eu vou beber hoje eu vou ser machão... Não sei o quê... Bebem um golinho e já tão podre de bêbados! Risadas. - Vou beber todas! Todas no copo... - Vou beber todos os goles do copo! Risos 168 ANEXO 17 ENTREVISTA COM EX-ALUNA DAS ESCOLAS 1 E 2 Em 21 DE AGOSTO DE 2014, às 21h00min. Transsexual feminina, 28 anos. Depois tu vai botar tudo isso prá fora, tudo assim? Como é que eu vou ter certeza disso? Tu não disse que ia trazer um termozinho? Ah... Em Santa Cruz? Na UNISC? Eu preciso que tu faça um favor prá mim em Santa Cruz. Porque eu morava em Santa Cruz e saí de lá... Vinculada ao mestrado de promoção da saúde... Tu tá no teu mestrado? É voluntária e anônima... Eu tenho segredos pra falar aqui. Por isso que eu não posso falar assim... Posso assinar como? Como não me identifiquem? (EU) Explico os objetivos e o que eu quero com esta entrevista. (Risadas) Engraçado. Eu não posso comer e falar ao mesmo tempo. (Rindo da coxinha que o garçom trouxe). (EU) Explicando ainda a pesquisa. Na escola tu conseguiu saber, identificar... Aãaa... Falo do filme q mostro nas escolas. Como e o nome do romance? É lindo... É lindo Olhei agora. Agora não. Faz muito tempo. Olhei A pele que habito. Mas esse daí é de um transexual. Só que foi uma vingança. Um médico, entendeu? Ele viu estuprando... Achou, entendeu que ele ia estuprar a filha do médico, entendeu? Um cirurgião plástico. E... Entendeu errado, sabe... Ele tava drogado e deu droga pra ela, mas ele acabou não estuprando ela. Só que o médico pegou e raptou ele... E levou ele pra umaaa... Prum... Ele tipo ele tinha um compartimento secreto no consultório dele, né Joana... E ele foi transformando o rapaz aos poucos... Entendeu? Primeiro ele tirou toda a barba. É um rapaz já, crescido. Um homem. Tirou toda a barba... Ãaaa... Foi mo... Mo... Montando toda a pele, sabe, com aquelas peles de plástica... Transformou nu-ma mulher! Perfeita! É A pele que habito. 169 Só que daí, detalhe: Ele se apaixonou pela, pelo transexual. Acaba se apaixonando, então, o que que aconteceu? O transexual... Ele prendeu o transexual dentro de casa. O transexual pegou o revolver dele, matou ele e fugiu. Não se matou. Fugiu... Porqueee... Ele era preso lá, né... O transexual. E aí ele... Ele... Eu me lembro que... Que é muito bonito o filme. Ele chegou, depois de muitos anos, tava a mãe dele, a irmã dele, né... Eles tinham uma loja... E ele chegou assim vestido com uma jaqueta vermelha... Ela, né. Com a boca vermelha de batom vermelho, entendeu? Cabelo meio comprido, né... De peitos e tudo. Uma mulher. E disse assim: Mãe, sou eu. Daí ele falou o nome de homem. E aí elas olharam assim... Daí termina o filme. Muito bonito. Até quem me apresentou foi uma pessoa que tá aí dentro. Mas, né... Tu não tá gravando, tá? Até tá. Mas ninguém sabe quem é tu, quem é a pessoa e onde nós estamos. (07h29min) Mas é isso. O que eu queria saber é sobre a tua experiência escolar... Tá. Foi assim, Joana, ó... Eu, desde, desde, desde que comecei a frequentar a creche, que é o inicio da... Do ser humano, eu já via que eu era diferente. Lá dentro da minha mente, eu me considerava menina. Mas eu sabia que eu era menino. Só que o que... Eu agia involuntariamente da minha, do que o meu ser físico manda. Entendeu? Aí, então, elas percebiam que eu já era diferente. As tias da creche, eu chamo de tia. Daí eu era, sempre tinha uma que me agradava, assim, sabe... Eu brincava com as meninas... Sabe, era tudo assim. Na minha mente... Daí eu fui pro colégio. No colégio, eu comecei a estudar, eu sempre fui muito inteligente. Eu sempre fui muito dedicada, eu sempre fazia as coisas muito perfeita, sabe. Eu era muito perfeccionista. Principalmente no... Tanto é que eu fazia trabalhos, né... Estes trabalhos que sempre tem alguém na frente, né... Participei de grêmios estudantis... Eu estudei em vários... Em vários, não. Em três colégios. Primeiro eu estudei lá onde eu moro, de onde eu vim. Lá no bairro Macedo... Depois eu estudei na escola Crescer, que era o antigo CAIC... E depois, por último, eu estudei no Monte das Tabocas. Começou na Macedo. Claro q é chato né. Porque eu já vinha ex pondo prá fora o que eu era desde pequeninho... Então, sempre tinha né... Os risos, as piadinhas... Entendeu. Só que eu sempre fui uma criança muito revoltada. Por quê? Porque eu sabia q aquele instinto ali não era de mim... Que me olhava, né... Mas como? Se eu não sou mulher? Como é que eu vou? E eu olhava pras meninas como minhas amigas, entendeu? Eu queria brincar com elas. Eu queria estar com elas. E pros meninos eu olhava como uma menina olha prum menino. Que é a característica do homossexual. Né? 170 Só que a grande diferença de hoje, já comparando com aquela época, qual é? Eu botei prá fora o que eu sou. Entendeu? Eu expus a minha imagem. Eu dei, eu dô a minha cara à tapa todos dias, tu me entende, né? 24 horas pra sociedade. Porém com o nome limpo, porque eu não tenho passagem nenhuma na polícia, sou uma pessoa que já trabalhei de carteira assinada... Eu tenho profissão... Sou costureira, sou cabeleireira. Não trabalho nestas áreas porque não quero. Se eu quiser trabalhar noutra área eu sei. Se eu quiser procurar um emprego eu consigo. Em algum lugar, né, porque aqui eu fui embora daqui. Porque aqui é uma cidade que não com-se-guiu acompanhar a modernidade nem desenhando. O preconceito aqui ainda é bem grande. No trabalho tam-bém. Muitas... Eu perdi muitas oportunidades como cabeleireiro inclusive pelo preconceito. Entendeu? Eu trabalhei uma vez no salão ali naaa... Naaa... Júlio. E a mulher... Mas não pelo preconceito ali... Foi por motivo de eu não tá gostando. Nem me pagou. Sendo que eu paguei todo meu curso, né. Mas, enfim... Voltando, eu sempre soube q eu era diferente, sabe? A minha mãe também. O pai ou a mãe sabem quem tão criando. Né? Só que a minha mãe, eu acho que ela me deu uma boa educação, entendeu? Ela me ensinou a não roubar nada de ninguém. Eu piso onde for e eu não levo uma agulha. Isso eu trouxe de casa, é de praxe. Entendeu? E outra coisa. Eu respeito. Respeito é bom e conserva os dentes. Só que eu só respeito quem vai me respeitar e é digno do meu respeito. Quem não for digno do meu respeito, querida, se eu tiver que descer do meu salto e ir lá ensinar a respeitar, eu vou. Porque é um direito meu. Eu sou uma cidadã. Entendeu? Eu pago impostos como todo mundo. Porque o imposto tá na comida, tá na bebida. Tá em tudo, né? Então é assim. E no colégio, na minha época do colégio, eu sempre agradava. Eu era o desagrado de uns e o agrado de outros. Porque os professores viam que eu era dedicada. Daí na educação física eu comecei já a fazer a educação física até com as meninas, meu nome foi até pra chamada das meninas... E a professora deixava? Deixava. Isso foi lá no Crescer. A professora Delmair. Deixava. Ela era professora de vôlei das meninas. E eu joguei vôlei com as meninas. E aí assim... Mas lá... lá na... Na... Na, onde eu comecei, né, Joana... Que eu tava com a mente perturbada ainda q eu não conseguia me achar ainda, interiormente, por isso que eu digo que homossexualismo não é uma doença. As pessoas tem que entender que o homossexualismo não é uma doença. É sim uma condição social em que a pessoa vem. Entendeu? Se encontra 171 na vida. Até porque acho que isso é até uma coisa espiritual. Porque é tão... É só quem passa que sabe. É como assim, ó. É como se eu tivesse perdida num mundo que não é meu. Quando eu nasci homem. Entendeu? Por quê? Porque eu penso como mulher... Tu age como mulher... Tu se porta, tu quer se comportar como mulher. Mas tu olha prá ti e tu sabe que tu não é. Então o que tu vai fazer? Prá tu te sentir bem, essa é a tentativa do transexual, tu vai correr atrás de tudo pra fazer teu íntimo, a tua alma, o que grita dentro de ti entrar em harmonia com teu corpo que é só assim que tu te faz feliz. Entendeu? Porque muitas vezes a felicidade das pessoas não tá no dinheiro, entendeu? Tá na paz interior, tá na paz espiritual. Se teu interior não estiver bem, não reflete no teu exterior, entendeu? Se tu for uma pessoa pobre de espírito, né... Não adianta tu ser rica financeiramente. Hoje eu posso te dizer assim ó: eu, Victória, que tu conheceu anos atrás, junto com meus amigos, sou uma pessoa, justamente mudei meu nome por quê? Porque eu quis ser vitoriosa. Porque eu quis vencer. Eu quis escolher meu caminho e eu pus na minha cabeça que eu vim prá vencer e não pra perder e... (EU) Esse nome que tu escolheu... Esse nome ele é aceito onde tu vais? Ele é aceito. (EU) Não tem necessidade de ter um documento? Eu tenho carteira de nome social. Aliás, vou te contar. Eu tenho registro, só que eu morei em Santa Cruz... Num apartamento numa época e uma pessoa, uma transex como eu ela armou uma armadilha pra mim e eu tive que sair de santa cruz porque fui ameaçada de morte. E nesse fato roubaram minha bolsa Luis vuiton, tu deve conhecer esta marca, né? Finíssima. Qualquer transex que se preze, qualquer mulher que se preze ama Luis vuiton. Ama! Pois é. Armaram uma armadilha prá mim. Entendeu? Aquele monte de marginal que eu nem sabia de onde apareceu, entendeu? Com paus, com facão, e nessa hora eu perdi minha bolsa do braço. E eles levaram. Tinha todo o meu dinheiro. Meu celular e minha carteira social. É por isso que eu tô passando uns dias aqui, entendeu, Joana? Porque eu to pra visitar minha mãe, pra ver como eu faço pra refazer minha carteira social que eu já o meu registro aqui, né. Eu vou fazer meu registro em porto alegre agora. Mas eu já tinha o meu registro aqui. Aqui no sine. Eu sou reconhecida na delegacia de policia como Victoria. Se tu for lá... (EU) Tu tens nome social... Tenho nome social. Victoria Camargo reconhecido. 172 E este nome social, qdo tu chegas no posto de saúde eles te chamam pelo nome social ou o nome da identidade? No posto lá da vila Macedo eu tive que mostrar, desenhar pra ela que era assim. Hoje elas entenderam. Mas eu ainda não usei muito ela. Pq assim, Joana... Vou te dizer também sinceramente, eu não sou de mentir. Eu sou transex né? Mas eu faço exames periodicamente, eu cuido muito bem da, eu prezo a minha saúde como a minha vida. Entendeu? Eu não tenho HIV. Posso provar. Não tenho nenhuma DST. E olha que né. Eu sou transex e eu faço programa. Eu saio por dinheiro. Porque é isso né. Que no momento me faz sobreviver. E comecei fazer meus exames já pra cirurgia. Pois é. Então daí eu comecei pegando gosto por fazer, né. Porque uma coisa é tu mostrar pras pessoas uma coisa: ai, um peito. Um peito é lindo. Daí é uma coisa. Só que né... Só interiormente saber que não adianta porque já to né... Por tanta promiscuidade já to bem... Pra não... Pra não falar literalmente, né... Eu não. Eu cuido de todos os detalhes. Eu tenho um peito. Consegui por um peito né... Eu pude mudar meu corpo como eu queria. Como eu estou. (EU) Em porto alegre ou aqui? Não. O peito eu pus em lajeado. Com Dr. Wilson dewes. E... Só que diferente, Joana, presta bem atenção. Eu sei que se eu procurar la na minha pastinha dos meus arquivinhos eu sei que eu posso deitar com minha cabeça tranquila no meu travesseiro sem nenhum ponto de interrogação. Será q eu estou sadia ou não? Entendeu? Porque eu não preciso provar nada pra ninguém. Provando pra mim tá ótimo. Entendeu? Então eu sei quem sou eu. Por isso então que eu amo meu nome V. Porque eu me sinto vitoriosa em todos os sentidos. (EU) Tá. Eu entendi. Mas na escola o teu nome não era V? Não. Na escola o meu nome era o nome de batismo. (EU) E isso pra ti era tranquilo? Tranquilo. Eu me vestia como menino. Só que eu tinha sempre jeito de menina. O meu apelido... Pra ti ver que o meu apelido lá no primeiro colégio que eu estudei foi maçã do amor. (EU) Quem te deu este apelido? Foi os guris. (EU) E os guris te tratavam bem ou tinha alguma atitude agressiva? Nãaaao. Eu sempre tive assim ó... Eu respeitava todos. Os que não gostavam de mim, que não queriam contato, ficavam quietos na deles e eu ficava na minha e respeitava, entendeu? (EU) Violência nunca houve? 173 Houve. Houve. Foi por esse fato que eu fui expulsa do colégio Macedo. Mas foi injustamente. Entendeu? Eu entrei... Por que assim. Eu tinha amizade com um menino também. E eles começaram a brigar e eu entrei no meio, entendeu? Prá apartar. E eu fui expulso junto. (EU) Eles foram expulsos? Eles foram e eu também fui. Entendeu? E aí, naquela época eu procurei vaga em todos os colégios. Fui até no Aparecida, onde nós estamos. No Gaspar, colégio particular... Nenhum quis me dar vaga. Isso na sétima série. Sabe que colégio que me restou? O Crescer. O antigo CAIC. Quando eu entrei, daí passou um tempo e as coisas mudaram. (EU) Eles diziam por que não queriam te dar vaga? Não. Só que não tinha vaga. Só tinha no crescer. Daí eu fiquei assim meio com medo. Porque olha onde era, né? Todo mundo né... Tá no meio de um... Eu acho que é um dos lugares mais... Onde é o ponto da marginalidade é mais acessível. Né? Não é que é mais acessível. Onde a marginalidade flui melhor. Entendeu? Mas aí eu estudei lá. Eu consegui perfeitamente, tranquila fazer o que eu tinha pra fazer. (EU) Nunca sofreu bullying? Sofri. Joana, é assim ó. A todo momento tu sofre preconceito de um lado ou de outro. Nós aqui conversando agora, mas tu pode ter certeza de que ali dentro deve ter alguém falando ou rindo de mim. Tá? (EU) E de mim também. Exatamente. Nós estamos aqui conversando agora, mas vai passar alguém. Isso indiferente ou não. Mas o que que vai provar para eles o contrário? Eu vou provar prá ti o contrário e tu vai provar prá mim o contrário. Olha como eu estou me portando contigo como uma pessoa, não como um animal, entendeu? (EU) Até porque nós somos pessoas. Exatamente. Claro que eu sofria bullying, já sofri bullying vários... Já sofri preconceito... Só que hoje em dia eu penso assim, Joana, ó. Foi o que eu escolhi pra mim, entendeu. Foi a maneira que eu achei pra mim ser feliz então entra aqui, meu amor e sai aqui. (EU) Tá. E professores? Professores também agiam de maneira preconceituosa? Professores não. Pelo contrário. Eu era respeitada pelos professores porque eu era dedicada, entendeu? Trabalhos... Pelo contrário. Eu era aplaudida, porque eu fazia trabalhos, né... Que eu ganhei até promoções por trabalhos escolhidos como os melhores. (EU) Aí tu saiu de lá por quê? De onde? (EU) Do crescer. 174 Do crescer... Deixa eu me lembrar. Do crescer foi assim ó. Nessa época da minha vida eu já... Eu era gay ainda né... Gay é quando tu te veste de homem, mas tu tem o instinto contigo. Eu trabalhava. Foi onde eu adquri a minha primeira profissão como costureira. Comecei a trabalhar quando tinha 15 anos, assim autônomo, vende picolé... (20h12min) Me virava. Fazia tudo. Depois eu consegui a minha primeira carteira assinada e comecei a gostar, a ter gosto pelo trabalho. E aí comecei a trabalhar... E quis aprender a profissão de costura e aí eu estudava de... À noite no Crescer. Eu comecei de dia, depois eu passei à noite, aí eu já era presidente do grêmio estudantil, né... Então, e eu tinha minha sala só prá mim, e então eu ia, me dedicava ao grêmio estudantil e ao colégio e eu ia prá casa dormir e no outro dia eu ia, trabalhava... Assim era a minha rotina. Depois, eu vim... Saí de lá e não completei o segundo ano... Vim pro Monte. Só que daí, eu não queria mais estudar. Só que eu vim pro Monte por um motivo. Porque eu vinha trabalhar no centro, né... Aí, nessas aí eu já tava começando a me vestir de mulher. Entendeu? Já comecei a tomar hormônio assim... Aquela medicação pra ficar um pouco mais feminina... Hoje não tomo muito, mais. Porque eu tenho silicone, né. E... Eu vou começar a tomar porque agora eu vou começar a fazer tratamento pra fazer a vaginoplastia, né. Mas, o que eu posso te dizer assim... Eu tava me descobrindo, entendeu? Que era esse o meu caminho. E eu gostei, entendeu? Foi uma tentativa que eu tive, que eu fiz e deu certo. Prá mim, entendeu? Não certo que eu posso dizer, entendeu? Não sou uma pessoa bem sucedida financeiramente. Não sou mesmo. Não sou uma pessoa que eu tenho tudo que eu quero. Não sou mesmo. Mas eu tenho uma coisa que muitas pessoas não têm... E que eu muitas vezes perdi, e recuperei. Sabe qual foi? O meu amor à vida... E o meu amor próprio. Eu sou a minha melhor amiga. Eu sou o meu melhor, o meu único amor. Entendeu? E eu sou a minha melhor amiga e eu sou o meu único amor. Eu me amo. Eu não me troco por nin-guém. Entendeu, Joana? Esse é o meu lema. Essa é a minha ideologia. (EU) Então, assim, tu diria que o colégio nunca te atrapalhou? Não. Houve barreiras naquele sentido assim ó... De... Rirem... Risinhos. Eu sempre fui uma pessoa muito sem paciência, né Joana. Muito assim, se tiver que ser grossa, eu sou. Entendeu? Mas com elegância. É. Eu não admito que entre num lugar e seja desrespeitada, entendeu? Até porque se... Se... Puxar B.O. Polícia: não tem nenhum registro. Te devo alguma coisa? Não te devo nada. Então. Porque, né? E respeito é bom. Se traz de casa. Conserva os dentes, né. E, enfim... Então, quando era o contrário, eu sabia lá na classe e dizia: Fulana, né? Você está agindo... Mas, tem aquelas pessoas que não adianta, entendeu? Tu, tu ensina... Tu ensina, 175 não. Tu expõe ali como é que as pessoas devem agir, né. Para serem considerados seres humanos, né... Mas eles não querem. Depois, no fim, o animal muitas vezes é a gente. Quando é bem o contrário, né. Então, assim, muitos problemas eu posso dizer que eu não tive. Eu saí dali, eu vim estudar no Monte por quê? Porque eu já aí, já comecei a me vestir de mulher, né. Já larguei trabalho, entendeu. Daí já comecei a querer trabalhar me prostituindo. Porque eu tinha sonhos de fazer plástica... Né? Que isso a gente só consegue, eu acho, né. Ou tu tem uma boa profissão, ou, que nem no meu caso que eu quis muito mudar meu corpo e tudo e não mudei tudo ainda... Então tu vai te prostituir. Só que daí, um dia eu passei na frente do Monte e eu achei um abuso, um absurdo, sabe... Porque eles ficavam rindo sempre... De mim e das minhas amigas, que naquela época trabalhavam aqui, te lembra? Eu disse assim: pois eu vou estudar nesse colégio. Eu vou ensinar vocês como é estudar realmente. Fui. Estudei. Endendeu? Fui bem recebida. (EU) E lá não teve problemas? Depois que eu fui estudar, não. Aí, eles fizeram um favor pra mim, que foi eu voltar a estudar. Mas foi bom. Eu estudei. Foi uma experiência boa. Entendeu? Eu saí dali... Dava uma volta no centro e depois ia prá casa. (EU) Professores te respeitavam? É. Na época eu tinha um relacionamento com uma pessoa, né... Só que daí, tava meio mal assim... E daí eu comecei a me prostituir, entendeu? (EU) E o nome, eles usavam o nome de registro? Usavam o nome de registro. É... E mesmo eu... Eu de cabelo... Eu na época tinha cabelo comprido... Quando tu me conheceu, não sei se tu te lembra que eu tinha cabelo comprido? (EU) Sim. É. Quem te apresentou prá mim foi a... A Mayara. Que hoje tá presa, né? Por assassinato. Pois é... Essa mesma. Essa mesma. A famosa. Famosérrima! Essa é a famosa do mau! Não. Só que não. É assim ó. Ela era minha amiga. Nós tinha... Sabe, nós tinha um... Tudo que ela ia fazer, ela me convidava... Eu ia, entendeu? Só que se ela... Se ela... Foi uma escolha dela, né Joana? Eu acho, entendeu? Porque eu acho assim: A gente não. Eu sou contra tu tirar a vida de uma pessoa. Porque eu acho que só quem tira a vida de uma pessoa é deus. Tanto é que a pessoa só morre quando é a hora dela. Entendeu? Então eu acho assim, ó. Como eu não admito que tu vá ali e assassine uma pessoa. Isso não pode 176 acontecer. São os crimes que eu não admito são dois. Assassinato e estupro. Não admito. O resto, entendeu, cada um sabe o que faz. E aí é assim, tá? (nos interromperam com mais refrigerante e perguntando se queríamos que aquecessem o salgado, fazendo ofertas por algum tempo que cortou o raciocínio dela.). (EU) Então teu nome nunca te atrapalhou te chamarem? Claro que sim. O que me atrapalhava naquele sentido... Me chamava pelo meu nome de batismo... Sabe? Mas eu não gostava daquele nome. Entendeu? É como se eu tivesse perdida dentro de um mundo que não era meu. Entendeu? Pois é. Me chamavam pelo nome de batismo, mas eu não gostava daquele nome. Porque era como eu estivesse perdida num mundo que não era meu. Eu imaginava que eu era... Eu me sentia... Eu queria brincar com bonecas... Roupas eu usava cor de rosa... Tudo roupa de menina. Entendeu? Eu saía com minha mãe na rua... Eu ia no banco com minha mãe, na caixa, né... Sempre eu ia com ela. Eu ganhei um livro dooo... Do moço que trabalhava... Que trabalhava na... Porque a minha mãe é analfabeta né... A minha avó quem me criou. Porque a minha mãe biológica não... Desde os três meses não tive mais contato com ela. Então eu tive... Eu tive uma grande mãe. Entendeu? Por quê? Porque de repente a minha mãe biológica não teria sido a mãe que eu tenho e tive. (EU) Que é a tua mãe? Que é a minha vó. (EU) Mãe da tua mãe? Não. A mãe do meu pai que já partiu. (EU) Então agora tu não tem mãe? Não. Eu não tenho pai. Mãe eu tenho duas. A mãe biológica e a mãe que me criou. (EU) Quem escolheu teu nome? O meu nome de batismo quem escolheu foram os meus padrinhos. Que não moram aqui. Moram em Porto Alegre. (26h50min) (EU) E lá em Porto Alegre, esta questão do nome... Se eu trabalhar num emprego? Claro, né... Mas lá é outro mundo, né Joana? É por isso que eu te disse: Venâncio Ainda não conseguiu alcançar a evolução. Eu to com um documento provisório. A carteira social ela é esse significado. Ela é provisória. Tu vai usar pra te sentir menos incômoda, né... Já que tu traz dentro de ti um espírito feminino... De ser chamada pelo teu no... Né? Vestida de mulher... Ou de dia ou de noite... De peito... Alguma coisa assim, né... Por isso que eu acho que essa carteira social só é digna dela 177 quem é assim. Entendeu? Quem já mudou o corpo. Porque né? Carteira social no nome feminino, mas mudança de corpo, transex, transexualismo é o que? Troca. Né? Por quê? Porque tu vem com uma outra ideologia, uma outra maneira de ver a vida... Um outro instinto dentro de ti. E tu tem que cumprir ele. Entendeu? Se não a felicidade não bate a tua porta. (EU) Se tu chega com essa carteira tu consegue a vaga? (no emprego) Com essa não. Não tentei ainda Joana. Não tentei. Eu só tentei usar a minha carteira, te digo pra que. Eu tentei usar ela poucas vezes, ate ser roubada, né, da minha bolsa... Em Santa Cruz... Eu tentei usar ela... Ãaa... Tentei usar, usei e usei. No... No posto de saúde, no hospital, aqui... E em mais alguns lugares. Ela é válida só para esses lugares. Esses órgãos públicos, entendeu, Joana? Ela não é válida num cartório... Num fórum e num emprego. Então, prá mim, ela é uma carteira provisória. Então dali tu vai decidir se tu quer ficar ali ou se tu quer ir adiante, com direito de tudo. (EU) Mas nos empregos que tu chegas tu não pode usar o nome social. Tem que apresentar a carteira de trabalho. Como é isso para ti? Imagina eu, trabalhei três anos na DAAS (fábrica de calçados). Antiga umbro. Pois é... Eu persisti três anos. Mas, destes três anos eu não trabalhei três anos, porque eu sofri um acidente, entendeu? Eu trouxe a minha mãe pra fazer uns exames aqui no Gassen (laboratório de análises clínicas), né. E na volta nós sofremos um acidente. A gente não escolhe, a gente não prevê o futuro. E aí... Como eu tava de carteira assinada, né... Eu fiquei muito tempo encostada né. Porque eu tinha que tratar muito o meu braço né. Que que aconteceu? A... Ãaa. Eles... De praxe né? Quando eu voltei, aí, né, sabe... Foi muito estresse, sabe. Acho que eu não tava mais acostumada... Eles me... Demitiram. Mas, antes disso eu já tinha trabalhado em outros... Eu já trabalhei em vários lugares em Venâncio... (EU) E eles te respeitavam... Não! Depois que eu comecei a me vestir de mulher, teve um lugar que eu fui respeitada. Na Cris spot. Que é uma facção de roupa. Nos outros eu passei preconceito. Preconceito, entendeu? Falando, né? Rindo... Não só eu. As outras aqui também. Entendeu? Não difere. É igual, é igual. É pra todas. Hoje eu não trabalho mais. Elas trabalham. Então eu não sei como é, mas eu creio que.... Só que assim, ó... Tu vai provar prás pessoas o que tu é... Nos teus atos, na tua postura... Entendeu? Mostrando, entendeu? O que que tu traz além daquela roupa de mulher que tu tá usando ali... Porque é o teu comportamento... É a tua maneira de tratar as pessoas... Só que mesmo assim tem pessoas que não merecem, entendeu? Que te tratem com cordialidade... Com postura... Sabe, Joana? Só que hoje eu evolui muito. Hoje eu penso assim 178 ó, mesmo que não mereçam que eu trate com qualidade... Com dedicação, com postura, entendeu? Eu trato igual, por quê? Porque eu tenho que manter, entendeu? Se eu quero me tornar uma pessoa, né, respeitada, admirada, fazer jus ao meu nome que é Victória, que eu sonhei tanto, né que é o meu nome: Eu vou por o meu nome V, porque né, como o outro nome que eu tinha eu era uma fracassada, sabe... Eu não conseguia nada... Troquei de nome. E tu sabe que nome de batismo influencia muito, né? Então, eu, na minha condição que sou, eu, eu me batiz, eu escolhi como V. Todas, sabe, que toda tem um nome fictício. Não é fictício. É o nome de... No caso da minha... Da minha sexualidade, né. Então eu escolhi V. E fiquei com meu sobrenome. (EU) E a família respeita isso? Minha família... Minha mãe, amo. Entendeu? Sempre me apoiou, desde muito nova... Hoje eu posso repetir. Ela é um amor. Ela é a mãe realmente que eu pedi a deus. (EU) Resumindo: tu achas q é mais difícil a vida p uma pessoa transexual do que para uma pessoa que não seja transexual? (31h46min) É diferente. Nem se compara. Claro. Por quê? É que é assim, Joana. São evoluções. Tu tá me entendendo? Como eu te disse. Eu te afirmo a tese que: O homossexualismo não é uma questão de escolha, Joana. Tá? Não é uma questão de escolha. Por quê? Porque aquilo te acompanha, e vai te acompanhar o resto da vida. Entendeu? Porque isso dali é um instinto. Tá? Só que além dessa questão... Tu tem dois mundos para enfrentar. O teu mesmo, que é prá ti te descobrir. Né? Pra te achar... Que nem assim, ó. O homossexualismo se divide em várias classes. Quais são? O homossexual em si todo ele forma o gay, né. O travesti, que é aquele que vai lá e põe uma roupa feminina de mulher e vi... Né? O transex, que é aquele que vai mais além, que quer mudanças no corpo... (32h41min) E o transexual. Que é aquele que... Entendeu? Entendeu, né... Que ele era mais além... Entendeu? Já era de transex pra transexual. Entendeu? Que o instinto dele tem uma, né? Então assim, né... Que independente disso, todos... Todos no homossexualismo, eu acho que é uma condição sexual... (33h02min) Não é uma opção... Ah eu respeito tua opção! Não! É uma condição. Porque tu acha que eu gostaria, Joana, de viver a minha vida inteira, Joana, eu vou levar o preconceito comigo pelo resto da vida. Entendeu? Eu vou levar comigo a falta de respeito de muitas pessoas pelo resto da vida. Risos de pessoas pelo resto da vida. Por causa de quê? Por causa do que eu sou. Só que eu, sendo o que eu sou, eu não tô presa por assassinato. Eu não to ali 179 mendigando. Eu não tô ali roubando. Essas coisas assim, ser preso, ser morto, ser assassinado, entendeu? Isso influencia muito da pessoa e influencia muito, entendeu? Dos teus atos. Primeiro lugar... (EU) Sim, mas do olhar do outro, eles podem julgar... Aí que tá! Porque eu te falei que mesmo as pessoas não merecendo, porque que eu não vou descer do meu salto. Por quê? Porque a minha amiga essa que tá presa, foi um estresse que ela teve dentro de um bar. Né? Que ocasionou o que ocasionou. Ela perdeu o que? O que ela tinha de mais precioso. Que era a liberdade. O que eu tenho, que eu não... Entendeu? Aprecio todos os dias a minha liberdade. Eu posso ir e vir. Entendeu? A onde eu quiser. Nos lugares que eu sei que não sou bem vinda, entendeu, eu não vou já que é pra não, entendeu? Então, mas eu vou aonde, eu tenho o meu livre arbítrio, entendeu? Eu acho que liberdade não se compra. (EU) Que idades tu tens? Eu? Hoje, atualmente, eu tô com 28 anos. (EU) Bem novinha ainda... É, nem tanto, né Joana? Então, a maioria dos transexual, eles, eles fazem a vaginoplastia. O transexualismo todo é por volta dessa casa, dos 28 aos 30. Por isso que eu estou morando em Porto Alegre, entendeu? (EU) Tu conseguiu te inserir no projeto de novo? Pois é. Eu vou primeiro agora aqui ver, né? Por isso que eu to aqui. Eu to visitando a minha mãe, levando o resto das minhas coisas, né Joana. Eu me instalei. O que que eu tô fazendo. Revendo a questão da carteira social, né. Foi o que aconteceu que eu te contei, o fato de Santa Cruz... Ãaa... Tô resolvendo umas questões pessoais... (EU) Quanto tempo faz que tu te afastou do projeto? Faz um ano. Eu perdi. Não. Eu perdi. Só que eu voltei lá pra reiniciar. Só que aí deu um probleminha que eu parei de ir nas consultas. Então agora eu vim buscar meu cartão também que eu tenho o prontuário... Um programa de prontuário que ficou aqui em Venâncio. Então eu vim aqui buscar. Agora eu estou reiniciando, né. O preconceito, então prá finalizar, eu vou te dizer assim Joana: Infelizmente o preconceito a gente vai levar pro resto da vida. Sempre vai ter alguém q não aceite, que vai rir. Sempre vai ter alguém que vai te criticar. Entendeu? Então isso que, né? Só que se eu soubesse que era assim, entendeu? Hoje, de repente, eu não teria, né... Por isso que eu digo que não é questão de escolha, se eu... É de instinto. Se hoje eu sou assim, entendeu? É por que eu sou Victória. Prá enfrentar o preconceito. Prá enfrentar as pessoas que não me querem bem... Entendeu? 180 Prá mim, indiferente, entendeu? Eu, se eu hoje estou como eu gostaria, entendeu? Estou conseguindo as minhas coisas... Entendeu? Estou correndo atrás, é porque, né, realmente... Eu sou e me considero uma Vitória... Porque eu sou realmente uma pessoa abençoada por deus. Olha. É isso que eu te digo. Olha eu, Joana, o que que eu te falei? Eu tenho curso, eu tenho profissão de costureira. Prá ti ver. Te cito umas empresas de Venâncio onde eu já trabalhei. Crisport... Ãaa. Daas... Umbro. Antes de ser Daas, Umbro. Ãaaa... Atelieres daqui... Meu primeiro emprego foi num atelier. Entendeu? Depois, né... A última empresa que eu trabalhei, foi... É, eu acho que foi a Daas. Como costureira, né. Então é por isso que eu te digo... (EU) Tens ensino médio... Sim. É. E fiz... Mas aí... O que eu tentei trabalhar na área de cabelo. Fiz curso... Só que não tenho paciência, sabe? É que não é que eu não tenho paciência. Eu gosto de mexer com cabelo... Apenas, né. Com unha e essas coisas eu não... Entendeu? Eu não gostei. Não quis. Mas, o que que acontece? Eu não tinha aquisição prá abrir um salão prá mim. E fui trabalhar num salão e a mulher não quis ficar comigo e daí eu não insisti mais. De repente agora, lá morando em Porto Alegre, eu vou partir prá esse ramo. Mas assim, ó. O preconceito, o preconceito... Nessas áreas é mais fácil. Entendeu, Joana? Na área de costura. Na área de cabeleireira. Na área até de moda, entendeu? Por quê? Porque tu vai trabalhar com uma coisa que chama as mulheres, entendeu? E muitas vezes os homens também. Em alguns casos, né? Por quê? Só que daí, né... Entra a opção das pessoas... Entendeu? De... Só que mesmo assim, o preconceito sempre vai existir. Porque vamos supor assim. Eu sou uma cabeleireira né? Tu diz pro teu marido assim: Ah, o salão da Victória... Ah, é um salão muito bom... Né? Um trabalho bem feito... Tá? E teu marido: Vamos lá conhecer! E aí o teu marido vai contigo, só que aí, de repente alguém olha e vê que a Victória é transex, entendeu? Transexual. Ele, por mais que o salão seja bom... Que seja um trabalho qualificado... Pode ser o teu marido e pode não ser... Não vai querer, por quê? Porque é uma pessoa homossexual. Entendeu? Mas prova que melhores cabeleireiros... Melhores costureiros... Né? Melhores pessoas que trabalham com moda são quem? Homossexuais! (EU) Eu ouvi as meninas reclamando que nas fábricas era difícil... Que não as respeitavam... Ah, é sim. Realmente. Agora imagina uma situação constrangedora. Eu trabalhei na Daas, né Joana? De peito, depois... Tudo... Eu saí por quê? Né... Daí eu dei graças a deus que me botaram pra rua, por quê? Me demitiu. Porque imagina o constrangimento quando tinha que usar o banheiro masculino. Eu acho errado isso. Porque eu acho que as empresas deveriam ter um banheiro... Não querem deixar usar com mulher? Não precisa. Façam um banheiro dedicado para esse tipo de público. Né? Porque é de fato que se toda empresa tem... Que não 181 pode ter preconceito prá contratar um deficiente físico, é de fato que também não pode ter preconceito prá contratar um homossexual. Porque um homossexual pode exercer (lapso: exigir) perfeitamente sua função, como os deficientes podem exercer sua função perfeitamente bem. Aí tu fica nesta triste... Entendeu? Nesta triste... Âaa... Né? Situação de ter que entrar... Eu me sentia constrangi... Mas... (EU) E no colégio, como é que era? Também. Também. Só que tem um detalhe. Eu sempre soube respeitar e sempre me dei o respeito. Entendeu? Nunca fiz coi... Nunca... Sempre todos me respeitavam... Tinha um... Tive... Tive... Rapaz que conversavam comigo! Entendeu? Tinha outros que me viravam a cara... Só que pra mim é indiferente, né? Entendeu? Mas eu sou uma pessoa assim, ó. Eu sou tolerante. Não tanto. Entendeu? Duas ou três, onde eu vi que tu me estressou um pouquinho, entendeu? Ai, simplesmente eu vou ali e... Mas eu faço tu ver de um jeito bom. Entendeu? Né? Sabe? Só que eu exijo o respeito. Mas uma coisa que eu posso te falar que é fato: O preconceito, Joana, sempre vai existir. Nós somos pessoas que sempre vamos levar o preconceito junto na mala, entendeu? (EU) Tu achas que vai mudar isso? A minha opinião? Olha... Gostaria que mudasse... Gostaríamos que fôssemos todos iguais. Independentes, né, de raça, cor, sexo, né? Porque somos todos filhos de deus. Mas, o mundo de hoje que nós vivemos, olha como é subdividido, né? É por aí... Eu penso assim. Sabe? É uma coisa... O homossexualismo (41h15min) Ele não é uma escolha. Isso é uma condição. Entendeu? Mas eu te digo também... (EU) Tu és homossexual? Eu sou. O meu interior é homossexual. Por quê? (EU) Por que... Olha só... Tu é uma mulher ou tu é um homem? No teu interior? Uma mulher. (EU) Então. Tu namora mulher ou tu namora homem? Eu namoro homens... (EU) Então. Se tu é uma mulher namorando um homem... Tu não é heterossexual? Eu já sou uma transexual. Por isso que eu te digo... A minha felicidade por completa... Só vai... Aí tá a prova... Tu entendeu? Do que eu te falei antes. Entende? É isso aí. Tu como nã... Né... O estudo que tá fazendo... Já conseguiu me entender. É bem por aí. Então, muitas pessoas não são felizes, Joana, porque não conseguem realizar seus objetivos, entendeu? Mas, os objetivos de cada um, todo mundo sabe qual é. Então, eu tenho um objetivo, é comigo 182 mesma, entendeu? É me reencontrar e ser feliz de tal maneira. Entendeu? Porque eu sou uma pessoa, né, que tenho um interior diferente. Que eu me consider... Que eu acho diferente, que eu vejo meu interior que é diferente. E prá isso eu vou atrás, entendeu, prá conseguir fazer o meu corpo entrar em harmonia com o meu espiritual. Porque eu te reafirmo a tese de que o espiritual e interior e o físico eles andam juntos. Se tu não tá bem interiormente, tu não vai refletir no exterior. Como se tu não estiver bem no exterior, tu não vai refletir no teu interior. E aí é assim, Joana, entendeu? 183 ANEXO 18 CARTA DECLARAÇÃO DE DIREITO AUTORAIS Nós, Joana do Prado Puglia, Psicóloga, RG 8017410849, CPF 44553463091, residente na Rua Primeiro de Março, 916, centro, em Venâncio Aires, CEP 95.800-000, RS, [email protected] - 51-92164456, Mestranda no Programa de Pós Graduação Mestrado em Promoção da Saúde pela Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC; e Edna Linhares Garcia, RG 139808, CPF 258804113220, residente na Rua Gaspar Silveira Martins, 2510/702-Santa Cruz do Sul-RS. [email protected] - 51-37177603, Doutora em Psicologia- PUC-SP. Profa.do Programa de Pós Graduação- Mestrado em Promoção da Saúde e do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC. Tutora do PET/Saúde-Redes de atenção psicossocial aos usuários de crack e outras drogas; somos autoras do artigo “Sexismo na escola: presente!”, e o encaminhamos à Revista Estudos Feministas para apreciação e possível publicação. Declaramos que este trabalho é inédito e original, seguiu rigorosamente todos os procedimentos éticos, e autorizamos a reformulação de linguagem, caso necessária para atender aos padrões da Revista. Atenciosamente. Joana do Prado Puglia Edna Linhares Garcia Santa Cruz do Sul dezembro de 2014. 184 ANEXO 19 Diretrizes para Autores Revista Estudos Feministas Classificação CAPES/ANPEPP (Qualis 2012): Interdisciplinar A1 ISSN 0104-026X, Florianópolis, Brasil. NORMAS DE PUBLICAÇÃO Diretrizes para elaboração dos textos 1. Os textos enviados deverão acompanhar de documento suplementar em forma de carta de apresentação, contendo as seguintes informações: Título do artigo, Nome completo da/o autora/or, Filiação institucional, Endereço postal, Telefone/Fax, e-mail e uma breve descrição biográfica (em torno de 7 linhas). 2. O nome da/o autora/or não deverá aparecer no corpo do artigo, para garantir o anonimato no processo de avaliação. 3. Recomenda-se a utilização de processadores de texto compatíveis com Windows (.rtf, .doc ou .docx). Pede-se que os textos sejam marginados à esquerda e digitados em espaço duplo, em fonte do tipo Times New Roman 12, e que não contenham marcações. 4. Os artigos deverão ter até 9 mil palavras ou 45 mil caracteres (aproximadamente 25 laudas, papel A4), incluindo as referências bibliográficas, notas e tabelas. Devem vir acompanhados de resumo e abstract (no máximo 10 linhas) e palavras-chave (máximo 5) em português e em inglês, sendo que o título também deve estar traduzido para o inglês. Estes e outros Metadados devem necessariamente ser preenchidos também no sistema de submissão sob pena do artigo não ser considerado. 5. Os ensaios deverão ter até 6 mil palavras ou 30 mil caracteres, e as resenhas de 5 a 10 mil caracteres incluindo os espaços. Notícias e registros deverão ter até 300 palavras ou 1.500 caracteres. Os metadados destes textos também devem ser preenchidos no sistema. 6. Os seguintes itens devem ser observados na elaboração dos textos: • aspas duplas para citações com até três linhas; 185 • as citações com mais de três linhas devem ser destacadas com recuo de quatro centímetros da margem esquerda, com fonte do tipo Times New Roman 11 e sem aspas. • aspas simples para palavras com emprego não convencional e para indicar citação no interior de citação de até três linhas; • itálico para palavras estrangeiras, neologismos e títulos de obras e publicações; • as notas explicativas devem ser de pé de página, numeradas, e pede-se que sejam usadas com parcimônia. Em vista do projeto gráfico da revista, que dispõe as notas ao lado do texto, as notas devem ser curtas. Não incluir nota no título do artigo. O título do artigo não deve incluir mais que 20 palavras. • as fontes das quais foram extraídas as citações também devem ser indicadas em notas de pé de página, obedecendo à mesma numeração das notas explicativas e contendo apenas os seguintes dados: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR, ano de publicação da obra, número de página(s) da citação; • na primeira menção de cada autor/a citado/a no texto, deve constar também o prenome; • a lista de referências bibliográficas completas deve ser apresentada ao final do texto; • na lista final de referências bibliográficas, o prenome das autoras e dos autores deve constar em todas as referências e não apenas ser indicada a inicial. 7. As referências bibliográficas obedecerão aos seguintes critérios: • Livro: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DA OBRA, Prenomes. Título da obra: subtítulo. Local de Publicação: Editora, ano de publicação. Exemplo: FONSECA, Claudia. Família, fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000. • Capítulo de livro: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO CAPÍTULO, Prenomes. “Título do capítulo: subtítulo”. In: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DA OBRA, Prenomes. Título da obra: subtítulo. Local de Publicação: Editora, ano de publicação. Páginas inicial e final do capítulo. Exemplo: HEILBORN, Maria Luiza. “Gênero: um olhar estruturalista”. In: PEDRO, Joana; GROSSI, Miriam (Orgs.). Masculino, feminino, plural: gênero na interdisciplinaridade. Florianópolis: Editora Mulheres, 1998. p. 43.55. 186 •Artigo de periódico: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO ARTIGO, Prenomes. “Título do artigo: subtítulo”. Título do Periódico, número do volume, número do fascículo, páginas inicial e final do artigo, mês e ano. Exemplo: ROSEMBERG, Fúlvia. “Instrução, rendimento, discriminação racial e de gênero”. Revista de Estudos Pedagógicos, v. 68, n. 159, p. 324-355, maio/ago. 1987. • Dissertações e Teses: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR, Prenomes. Título da obra: subtítulo. Ano de apresentação. Categoria (Grau e Área de Concentração) – Instituição, Local. Exemplo: DINIZ, Carmen Simone G. Entre a técnica e os direitos humanos: possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto. 2001. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva) – Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da USP, São Paulo. • Trabalhos apresentados em eventos científicos: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO TRABALHO, Prenomes. “Título do trabalho”. In: NOME DO EVENTO, Número da edição do evento, Cidade onde se realizou o evento. Anais... (ou Proceedings... ou Resumos...) Local de publicação: Editora, Ano de publicação. Páginas inicial e final do trabalho. Exemplo: PRADO, Danda. “Maternidade: opção ou fatalidade?” In: SEMINÁRIO SOBRE DIREITOS DA REPRODUÇÃO HUMANA, 1., 1985, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: ALERJ/Comissão Especial dos Direitos da Reprodução, 1985. p. 26-29. • Referências de obras em outras línguas obedecerão a critérios próprios. Diretrizes para inserção de imagens, tabelas e gráficos 1. No caso de inserção de imagens (fotos, gravuras, quadros etc.), a responsabilidade pelo encaminhamento dos trâmites relativos aos direitos de reprodução será das/os autoras/es dos artigos e dos ensaios. A aprovação final do texto dependerá da resolução desses trâmites. 2. As imagens devem ser enviadas no formato tiff, resolução de 300 dpi, tamanho de 23 x 16 cm, em grayscale e em arquivo separado do texto. Imagens fora dessas especificações não poderão ser utilizadas. 3. O número de tabelas e/ou imagens (gráficos, mapas, fotos, etc.) deverá ser mantido até o limite de 5 (cinco) no total por artigo. As tabelas deverão ser feitas utilizando-se o mesmo programa do artigo. Sempre que possível, deixar imagens, gráficos e tabelas não vinculados a um parágrafo específico. Ao inserir esses elementos, procurar fazê-lo de forma a possibilitar 187 certa flexibilidade e permitir um fluxo na disposição do texto e das imagens na página. Evitar tabelas grandes, com muitas células e/ou muito texto por célula. Tabelas grandes não cabem nas páginas e aquelas com longos textos podem ficar ilegíveis. O texto dentro das tabelas deve ser o mais sucinto possível. 3. Respostas muito longas ou que incluam temas muito diferentes podem ser cortadas por uma pergunta na edição. 4. Respostas a temas próximos, mas que tenham aparecido em momentos distantes da entrevista podem ser editados de modo a apresentar um encadeamento melhor. 5. Depois de finalizada a entrevista, deve-se checar com o/a entrevistado/a a grafia dos nomes citados, bem como completar as referências bibliográficas mencionadas. 6. Sempre que possível, enviar a transcrição da entrevista para obter o aval do entrevistado antes de sua apresentação à editoria de entrevistas. Diretrizes para Agenda A Revista Estudos Feministas está aberta para receber informações (até 20 linhas) sobre eventos tais como seminários, cursos, exposições, concursos, bolsas de pesquisa, encontros, manifestações etc, através do e-mail [email protected]. Condições para submissão Como parte do processo de submissão, os autores são obrigados a verificar a conformidade da submissão em relação a todos os itens listados a seguir. As submissões que não estiverem de acordo com as normas serão devolvidas aos autores. 1. Todos os endereços de páginas na Internet (URLs), incluídas no texto (Ex.: http://www.ibict.br) estão ativos e prontos para clicar. 2. Carta de encaminhamento Na carta de encaminhamento, o/a autor/a (ou autores/as) deve(m) indicar que o manuscrito é original, que não foi publicado em nenhum outro lugar, e que também não está sendo examinado por nenhum outro órgão. A carta de encaminhamento também deverá conter informações completas de contato do autor (ou autores), incluindo telefone e endereço de e-mail, sempre que possível. Esse documento deverá ser incluso no item “Transferência de documentos suplementares” no momento de fazer a submissão do texto. 3. O nome da/o autora/or não deverá aparecer no corpo do artigo, para garantir o anonimato no processo de avaliação. 4. O texto segue os padrões de estilo e requisitos bibliográficos descritos em Diretrizes para Autores, na seção Sobre a Revista. 5. A identificação de autoria deste trabalho foi removida do arquivo e da opção Propriedades no Word, garantindo desta forma o critério de sigilo da revista, caso 188 submetido para avaliação por pares (ex.: artigos), conforme instruções disponíveis em Asegurando a Avaliação por Pares Cega. 6. Concessão dos direitos autorais a Revista Estudos Feministas. Esses direitos abrangem a publicação da contribuição em português, em qualquer parte do mundo, incluindo os direitos às renovações, expansões e disseminações da contribuição, bem como outros direitos subsidiários. 7. Diretrizes para inserção de imagens, tabelas e gráficos 1. No caso de inserção de imagens (fotos, gravuras, quadros etc.), a responsabilidade pelo encaminhamento dos trâmites relativos aos direitos de reprodução será das/os autoras/es dos artigos e dos ensaios. A aprovação final do texto dependerá da resolução desses trâmites. 2. As imagens devem ser enviadas no formato tiff, resolução de 300 dpi, tamanho de 23 x 16 cm, em grayscale e em arquivo separado do texto. Imagens fora dessas especificações não poderão ser utilizadas. 3. O número de tabelas e/ou imagens (gráficos, mapas, fotos, etc.) deverá ser mantido até o limite de 5 (cinco) no total por artigo. As tabelas deverão ser feitas utilizando-se o mesmo programa do artigo. Sempre que possível, deixar imagens, gráficos e tabelas não vinculados a um parágrafo específico. Ao inserir esses elementos, procurar fazê-lo de forma a possibilitar certa flexibilidade e permitir um fluxo na disposição do texto e das imagens na página. Evitar tabelas grandes, com muitas células e/ou muito texto por célula. Tabelas grandes não cabem nas páginas e aquelas com longos textos podem ficar ilegíveis. O texto dentro das tabelas deve ser o mais sucinto possível. 8. Diretrizes para elaboração de resenhas 1. As resenhas deverão ter em torno de 2 mil palavras. 2. Os livros resenhados devem ter relação com a questão dos feminismos e/ou do gênero e devem ser, de preferência, recentes últimos quatro anos para publicações no exterior. Uma resenha de uma publicação nacional ou a tradução no Brasil deve ser dos dois anos anteriores ou do ano em curso. 3. As resenhas podem conter: o o o o o Título (diferente do título do livro resenhado); Síntese do assunto tratado; Informações sobre a/o/s autor/es do livro; Inserção e posição do trabalho nas discussões contemporâneas sobre o tema; Perspectivas críticas sobre o trabalho (pontos positivos e negativos, aspectos que poderiam ser mais explorados, aspectos inovadores e importantes do trabalho). 4. O/a autor/a da resenha deve enviar, também, sua minibiografia (de 5 a 7 linhas de texto) e preencher os Metadados da submissão no sistema. Declaração de Direito Autoral 189 É original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista Política de Privacidade Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros. 190 ANEXO 20 CARTA DE ENCAMINHAMENTO À EDITORA À Revista Mal-estar e Subjetividade Universidade de Fortaleza Av. Washington Soares, 1321 Edson Queiroz CEP: 0811905 Bloco N – Sala 13 Telefone: (85) 3477.3219 E-mail: [email protected] 05 de Março de 2015. Ilma. Professora Regina Heloisa Mattei de Oliveira Maciel, Editora Encaminho o texto Lesbo-trans-homofobia presente na escola para apreciação da Editoria da Revista Mal-estar e Subjetividade para publicação como ARTIGO. Responsabilizo-me pelos aspectos éticos do trabalho, assim como por sua autoria, assegurando que o texto não está tramitando ou foi encaminhado a outro periódico ou qualquer outro tipo de publicação, cedendo seus direitos a esta Editoria em caso de publicação. Estou ciente de que, caso o texto seja resultado de trabalho sob orientação de qualquer professor, o nome desse deverá figurar entre os autores, salvo na condição de apresentação, mediante carta formal à Editoria, de declaração do orientador, excluindo-se voluntariamente da autoria do texto. Atenciosamente, __________________________ Joana do Prado Puglia 44553463091 ________________________ Edna Linhares Garcia 25880411320 191 ANEXO 21 Diretrizes para Autores Revista Mal-estar e Subjetividades - Unifor Classificação CAPES/ANPEPP (Qualis 2009): Psicologia (B1) Educação (B1) Interdisciplinar (B1) CRITÉRIOS PARA PUBLICAÇÃO: Como apresentar e enviar o manuscrito 1. A revista adota, com algumas adaptações, as normas de publicação da APA: Publication Manual of the American Psychological Association (6a edição, 2010). A omissão de informação no detalhamento que se segue implica que prevalece a orientação da APA. Como alternativa à consulta ao original desse manual, sugerimos o Tutorial de referências bibliográficas estilo APA 6a.edição: http://issuu.com/bibliotecasua/docs/ manualestiloapa6ed. 2. Os documentos para submissão deverão estar em formato eletrônico (WORD ou LIBREOFFICE) e não exceder o núme- ro máximo de páginas indicado para cada categoria, conforme descrito a seguir (incluindo Resumo, Abstract, Figuras, Tabelas, Anexos e Referências, além do corpo do texto): Relatos de pesquisa, estudos teóricos, revisões críticas de literatura (15-25 páginas): relatos de alta qualidade de pesquisas originais, baseadas em investigações sistemáticas e completas, devem propor a análise de conceitos, levando ao questionamento de modelos existentes à elaboração de hipóteses para futuras pesquisas. Também serão aceitos artigos teóricos ou de revisão com análise crítica e oportuna de um corpo abrangente de investigação, relativa a assuntos de interesse para o desenvolvimento da Psicologia. Resenhas de livros (3-10 páginas): revisão crítica de obras nacionais (publicadas há até dois anos) ou estrangeiras (publicadas há até cinco anos), orientando o leitor quanto a suas características, usos potenciais e contribuições para o campo da Psicologia. Entrevistas (15-25 páginas): entrevistas realizadas com autores, autoridades reconhecidas no campo acadêmico e outras personalidades que contribuam para o debate da psicologia. As entrevistas devem conter o(s) nome(s) do(s) entrevistado(s) e entrevistador(es) e uma apresentação de no máximo uma página. Pede-se também que seja enviada a autorização digitalizada do(s) entrevistado(s), concordando com a publicação do material. Traduções (15-25 páginas): traduções de artigos, ensaios e entrevistas relevantes e indisponíveis em língua portuguesa. As colaborações enviadas devem apresentar título, nome(s) do(s) autor(es) e do(s) tradutor(es). Devem ainda ser acompanhadas de cópia digitalizada do original utilizado na tradução, bem como da autorização digitalizada (do editor e/ou do autor) para publicação. Relatos de experiência profissional (10-15 páginas): descrição de procedimentos e estratégias, ou estudos de caso que apresentem real contribuição acadêmica. Notas técnicas (até 10 páginas): descrição de novos métodos, instrumentos, softwares ou técnicas. 3. É fundamental que o material não contenha qualquer forma de identificação da autoria, o que inclui referência a trabalhos anteriores do(s) autor(es), menção a instituições a que estejam vinculados, detalhes de método que possibilitem a identificação/localização da origem, bem como informações contidas nos campos das propriedades do documento. 192 Os autores que tiverem suas submissões aceitas para publicação terão oportunidade, durante a revisão final, de incluir dados necessários. 4. O arquivo contendo o trabalho deverá ser enviado por correio eletrônico para [email protected], anexo, acompanhado da “Carta para Submissão de Trabalhos” (disponível em www.unifor.br/malestaresubjetividade) devidamente preenchida (não aceitamos a exposição do trabalho no corpo da mensagem). Preparação do manuscrito 1. Diretrizes de formatação A. O manuscrito, sendo um artigo, ao todo não deve passar de 25 páginas, desde o Resumo até as Referências, incluindo as Tabelas, Figuras e Anexos, em formato A4, devendo ser paginado desde o Resumo, que receberá número de página 1. B. Fonte: Times New Roman, tamanho 12, ao longo de todo o texto, incluindo referências, notas, tabelas, etc. C. Margens: 2,5 cm em todos os lados (superior, inferior, esquerda e direita). D. Espaçamento: espaço duplo ao longo de todo o manuscrito, incluindo Folha de Rosto, Resumo, Corpo do Texto, Referências, Anexos, etc. E. Alinhamento: esquerda F. Recuo da primeira linha do parágrafo: tab = 1,25cm G. Numeração das páginas: no canto superior direito. H. Endereços da Internet: Todos os endereços “URL” (links para a internet) no texto (ex.: http://pkp.sfu.ca ) deverão estar ativos e levar diretamente ao documento citado. 2. Elementos do manuscrito Os elementos do manuscrito devem ser apresentados na seguinte ordem (inicie cada um deles em uma nova página): (1) Folha de rosto com título e identificação dos autores, (2) Folha de rosto com título e sem identificação, (3) Títulos e Resumos em português, inglês, espanhol e francês, (4) Corpo do Texto, (5) Referências, (6) Anexos, (7) Tabelas e Figuras, conforme instruções a seguir. A. Folha de rosto com título e identificação dos autores e suas instituições de origem, bem como endereço completo, incluindo e-mail. B. Folha de rosto com título e sem identificação. Título original (máximo 12 palavras) e título compatível nas outras línguas. Sem identificação de autoria. C. Títulos e Resumos em português, inglês, espanhol e francês. Parágrafos com no máximo 300 palavras com o título Resumo escrito na primeira linha abaixo do cabeçalho. Ao fim do resumo, listar cinco palavras-chave em português (em letras minúsculas e separadas por ponto e vírgula). Os resumos nas outras línguas devem ser fieis ao resumo em português, porém, não uma tradução “literal” do mesmo. Ou seja, a tradução deve preservar o conteúdo do resumo, mas também adaptar-se ao estilo gramatical da língua. A revista tem, como procedimento padrão, fazer a revisão final dos resumos, reservando-se o direito de corrigi-los, se necessário. Esse é um item muito importante de seu trabalho, pois em caso de publicação estará disponível em todos os indexadores da revista. Os resumos nas outras línguas devem ser seguidos das respectivas palavras-chave traduzidas. Sugere-se utilizar palavras- chave derivadas da terminologia em Psicologia da BVSPsi ou Thesaurus do Psycinfo. No caso de submissão de resenhas de livros, entrevistas e notas técnicas, o resumo não é necessário. D. Corpo do Texto Não é necessário colocar título do manuscrito nessa página. As subseções do corpo do texto não começam cada uma em uma nova página e seus títulos devem estar centralizados, e ter somente a primeira letra maiúscula (por exemplo, Método e discussão, em artigos empíricos). Os subtítulos das subseções devem estar em itálico e ter a primeira letra maiúscula (por exemplo, os subtítulos da subseção Método: Participantes, ou Análise dos dados). Títulos e 193 subtítulos não devem ser acompanhados de ponto final. Caso haja subdivisões no texto, recomenda-se no máximo três níveis de intertítulos. As palavras Figura, Tabela, Anexo que aparecerem no texto devem ser escritas com a primeira letra em maiúscula e acom- panhadas do número (Figuras e Tabelas) ou letra (Anexos) ao qual se referem. Os locais sugeridos para inserção de figuras e tabelas deverão ser indicados no texto. Expressões como “a Tabela acima” ou “a Figura abaixo” não devem ser utilizadas, pois no processo de diagramação a localização das mesmas pode ser alterada. As normas não incluem as denominações Quadros ou Gráficos. Sublinhados, Itálicos e Negritos: Use itálico para palavras ou ex- pressões que constituam “estrangeirismos”, como self, locus, etc. e sublinhado para outras palavras que deseje grifar. Reserve negritos para os títulos. Dê sempre crédito aos autores. Todos os nomes de autores/ins- tituições cujos trabalhos forem citados devem ser seguidos da data de publicação. Todos os estudos citados no texto devem ser listados na seção de Referências. Exemplos de citações no corpo do manuscrito Os exemplos abaixo auxiliam na organização de seu manuscrito, mas certamente não esgotam as possibilidades de citação em seu trabalho. Utilize o Publication Manual of the American Psychological Association (2010, 6ª edição) para verificar as normas para outras referências. 1. Citação de trabalho de um autor: sobrenome do autor, seguido do ano da publicação. Exemplo: Dor (1991), ..... ou (Dor, 1991). No caso de citação literal esta deve ser acrescida da(s) página(s) citada(s). Exemplo: (Dor, 1991, p. 35) ou (Dor, 1991, p. 35-37) 2. Citação de artigo de autoria múltipla a) Artigo com dois autores: cite os dois nomes sempre que o artigo for referido. Exemplo: Guattari and Rolnik (1996) ou (Guattari & Rolnik, 1996) b) Artigo com três a cinco autores: cite todos os autores na primeira referência; da segunda referência em diante utilize so- brenome do primeiro autor seguido de “et al.” e da data, caso seja a primeira citação no parágrafo. c) Artigo com seis ou mais autores: cite apenas o sobreno- me do primeiro autor, seguido de “et al.” e da data. Porém, na seção de Referências, todos os nomes dos autores deverão ser relacionados. Exemplo: Costa et al. (2000) 3. Citações de obras antigas e reeditadas: Utilize o seguinte for- mato: Autor (data de publicação original / data de publicação consultada). Exemplo: (Freud, 1905/1996). No caso de citação literal, esta deve ser acrescida da(s) página(s) citada(s). Exemplo: (Freud, 1905/1996, p. 25) ou (Freud, 1905/1996, p. 25-29). 4. Citação de um mesmo autor com a mesma data de publi- cação: acrescentar uma letra minúscula após a data da obra consultada. Exemplo: (Freud, 1905/1996a), (Freud, 1908/1996b) ou Rogers (1973a), Rogers (1973b) 5. Citação secundária: Trata-se da citação de um artigo discu- tido em outra publicação consultada, sem que o original tenha sido utilizado. Evite este tipo de citação, mas ao fazê-lo, colo- que o sobrenome do autor original seguido do ano da publicação original entre parênteses, da expressão “citado por” seguida da obra realmente consultada e do ano de publicação. Na seção de referências, citar apenas a obra consultada. NOTA: Citações com menos de 40 palavras devem ser incorpo- radas no parágrafo do texto, entre aspas. Citações com mais de 40 palavras devem aparecer sem aspas em um parágrafo no for- mato de bloco, recuado 1,25cm da margem esquerda. Citações com mais de 500 palavras, reprodução de uma ou mais figuras, tabelas ou outras ilustrações devem ter permissão escrita do detentor dos direitos autorais do trabalho original para a repro- dução. A permissão deve ser endereçada ao autor do trabalho submetido. Os direitos obtidos secundariamente não serão re- passados em nenhuma circunstância. A citação direta deve ser exata, mesmo se houver 194 erros no original. Se isso acontecer e correr o risco de confundir o leitor, acrescente a palavra [sic], sublinhada e entre colchetes, logo após o erro. Omissão de tre- chos de uma fonte original deve ser indicada por três pontos (...). A inserção de material, tal como comentários ou observações, deve ser feita entre colchetes. A ênfase numa ou mais palavras deve ser feita com fonte sublinhada, seguida de [grifo nosso]. Atenção: Não use os termos apud, op. cit, id. ibidem, e outros. Eles não fazem parte das normas da APA. Abreviações em Latim: Use as seguintes abreviações de Latim apenas em texto entre parênteses; em texto sem parênteses, use a tradução em português destes termos: cf. = compare; i.e. = isto é; e.g. = por exemplo; viz. = ou seja; etc. = e assim por diante; vs. = versus, contra. Notas: Devem ser evitadas sempre que possível. No entanto, se não houver outra possibilidade, devem ser indicadas no texto por algarismos arábicos sobrescritos e apresentadas imediata- mente após o Corpo do texto. Recue a primeira linha de cada nota de rodapé em 1,25cm. E. Referências Inicie uma nova página para a seção de Referências, com este título centralizado na primeira linha abaixo do cabeçalho. Apenas as obras mencionadas no texto devem aparecer nesta seção. Não deixe um espaço extra entre as citações. As referências devem ser citadas em ordem alfabética pelo sobrenome dos autores, de acordo com as normas da APA e formatação indicada nos exemplos abaixo. Utilize o Publication Manual of the American Psychological Association (2010, 6ª edição) para veri- ficar as normas não mencionadas aqui. Em casos de referência a múltiplos estudos do mesmo autor, uti- lize ordem cronológica, ou seja, do estudo mais antigo ao mais recente desse autor. Nomes de autores não devem ser substi- tuídos por travessões ou traços. Trabalhos apresentados em congresso, mas não publicados não devem constar nas Referências, apenas como Notas. Exemplos de referências 1. Artigo de revista científica paginada por fascículo: Kitzinger, J. (1995). Qualitative research: Introducing focus group. British Medical Journal, 311 (7000), 299-302. Hüning, S. M. & Guareschi, N. M. F. (2005). O que estamos construindo: Especialidades ou especialismos? Psicologia & Sociedade, 17(1), 89-92. 2. Artigo de revista científica no prelo: Indicar, no lugar da data, que o artigo está no prelo. Incluir o nome do periódico sublinha- do após o título do artigo. Não referir data e números do volume, fascículo ou páginas até que o artigo seja publicado. No texto, citar o artigo indicando que está no prelo. 3. Livros: Silva, R. N. (2005). A invenção da psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes. Foucault, M. (1994). O nascimento da clínica (4a ed.) Rio de Janeiro: Forense Universitária. Klein, M. & Riviere, J. (1975). Amor, ódio e reparação: As emo- ções básicas do homem do ponto de vista psicanalítico (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago. 4. Capítulo de livro: Cruz Neto, O. (1998). O trabalho de campo como descoberta e criação. In M. C. S. Minayo (Org.), Pesquisa social: Teoria, método e criatividade (10a ed., pp. 51-66). Petrópolis-RJ: Vozes. Maraschin, C. (2005). Redes de conversação como operadores de mudanças estruturais na convivência. In N. M. C. Pellanda, E. T. M. Schlünzen, & K. Schlüzen Jr. (Orgs.), Inclusão digital: Tecendo redes afetivas/cognitivas (pp. 135-143). Rio de Janeiro: DP & A. 195 5. Trabalho apresentado em congresso com resumo publicado em anais: Todorov, J. C., Souza, D. G., & Bori, C. M. (1992). Escolha e decisão: A teoria da maximização momentânea [Resumo]. In Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos de comu- nicações científicas, XXII Reunião Anual de Psicologia (p. 66). Ribeirão Preto: SBP. A citação das páginas é desejável, mas pode ser omitida em casos especiais. 6. Teses ou dissertações Abbud, N. (2010). Pensando o pensar: Uma análise sobre as nar- rativas do cotidiano. (Doctoral Thesis, Instituto de Psicologia, University of São Paulo, São Paulo). Retrieved 2013-12-13, from http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/ tde-08092010104710/ou 7. Obra antiga e reeditada em data muito posterior: Castel, R. (2001). As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário (I. D. Poleti, Trad.). Petrópolis, RJ: Vozes. (Originalmente publicado em 1995) Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In J. Strachey (Ed.) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905) Em caso de mais de uma obra com a mesma data diferenciar por letras: Freud, S. (1996a). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In J. Strachey (Ed.) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905). Freud, S. (1996b). Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. In J. Strachey (Ed.) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1908). NOTA: As letras devem ser distribuídas seguindo o Volume da publicação e, se mesmo Volume, a data da publicação original. 8. Autoria institucional: American Psychological Association. (1994). Publication manual (4a ed.). Washington, DC: Author. 9. Comunicação pessoal: Pode ser carta, mensagem eletrônica, conversa telefônica ou pessoal. Cite apenas no texto, dando as iniciais e o sobrenome do emissor e a data. Não inclua nas referências. F. Anexos Evite. Somente devem ser incluídos se contiverem informações consideradas indispensáveis. Os Anexos devem ser apresentados cada um em uma nova página. Os Anexos devem ser indicados no texto e apresentados no final do manuscrito, identificados pelas letras do alfabeto em maiúsculas (A, B, C, e assim por diante), se forem mais de um. G. Tabelas e Figuras Devem ser elaboradas em formato de tabelas do WORD. Cada tabela começa em uma página separada. A palavra Tabela é alinhada à esquerda na primeira linha abaixo do cabeçalho e seguida do número correspondente à tabela. Digite o título da tabela à esquerda, em itálico e sem ponto final. Apenas a primeira letra do título e nomes próprios devem estar em maiúsculas. Devem ser do tipo de arquivo JPG e apresentadas em uma nova página. Não devem exceder 15 cm de largura por 20cm de comprimento. A palavra Figura é alinhada à esquerda na primeira linha abaixo do cabeçalho e seguida do número correspondente à figura. Digite o título da figura à esquerda, em itálico e sem ponto final. Apenas a primeira letra do título e nomes próprios devem estar em maiúsculas. Verificação de diretrizes para submissão 196 A submissão de textos em qualquer categoria só será possível mediante a confirmação do autor, através de carta de submissão assinada e escaneada, de que as condições abaixo estão satisfeitas. 1. A contribuição é original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista. 2. Os arquivos para submissão estão em formato WORD ou LIBREOFFICE. 3. O conteúdo está de acordo com as normas técnicas da American Psychological Association: Publication Manual of the American Psychological Association (2010, 6ª edição) e adaptações adotadas por este periódico. 4. O texto está em espaço duplo, em fonte Times New Roman, tamanho 12, com parágrafos alinhados à esquerda e com sinalização no corpo do texto indicando onde devem ser inseridas tabelas e figuras. 5. O documento submetido não excede 25 páginas (Relatos de pesquisa, estudos teóricos, revisões críticas de literatura, entrevistas, traduções), 10 páginas (resenhas de livros e notas técnicas), 15 páginas (relatos de experiência profissional) com todas as margens iguais a 2,5 cm. 6. Todos os endereços “URL” no texto (ex.: http://pkp.sfu. ca) estão ativos e levam diretamente ao documento citado. 7. O nome do autor e instituição foram removidos das “Propriedades do documento” e não constam no texto quaisquer formas de identificação do(s) autor(es). O descumprimento de qualquer um desses itens é suficiente para a recusa inicial do material, motivo pelo qual recomendamos aos autores que façam minuciosa revisão de seus manuscritos, antes da submissão. Enfatizamos que manuscritos recusados duas vezes por inadequação a esses itens não serão novamente recebidos. Direitos autorais A aprovação dos textos implica a cessão imediata e sem ônus dos direitos de publicação na revista Mal-estar e Subjetividade, que terá a exclusividade de publicá-los em primeira mão. É permitida a reprodução dos artigos, desde que seja citado que foram originalmente publicados na Revista Mal-estar e Subjetividade. Periodicidade A Revista Mal-estar e Subjetividade mantém uma periodicidade quadrimestral. 197 ANEXO 22 PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP DADOS DO PROJETO DE PESQUISA Título da Pesquisa: EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE ENTRE ADOLESCENTES ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO EM ESCOLAS PÚBLICAS DO MUNICÍPIO DE VENÂNCIO Pesquisadora: Joana do Prado Puglia Área Temática: Versão: 2 CAAE: 22102313.1.0000.5343 Instituição Proponente: Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC Patrocinador Principal: Financiamento Próprio DADOS DO PARECER Número do Parecer: 544.316 Data da Relatoria: 12/02/2014 Apresentação do Projeto: O presente estudo tem por objetivo, considerando esta relação entre violência e abuso nas escolas e a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero surge então a pergunta: Quais os efeitos da heteronormatividade entre estudantes de ensino médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS? Objetivo da Pesquisa: Objetivo Geral O objetivo geral deste estudo é verificar os possíveis efeitos da ação heteronormativa sobre os adolescentes estudantes de terceiros anos do ensino médio de escolas públicas, do meio rural e urbano, do município de Venâncio Aires-RS; 3.2 Objetivos Específicos Verificar e caracterizar as estratégias de enfrentamento dos sujeitos aos efeitos da ação heteronormativa, no ambiente escolar; Verificar e caracterizar quais as percepções dos profissionais da educação em relação às questões de identidade de gênero e orientação sexual dos alunos; Analisar e comparar os resultados alcançados entre os grupos de estudantes do meio rural e do meio urbano, frente à heteronormatividade. 198 Avaliação dos Riscos e Benefícios: A pesquisa não apresenta risco aos participantes. Critérios de inclusão e exclusão estão presentes na pesquisa. Avaliação dos Riscos e Benefícios: Todas as solicitações feitas pelo Cep foram atendidas. Comentários e Considerações sobre a Pesquisa: Os termos foram adequados conforme solicitações do Cep. Considerações sobre os Termos de apresentação obrigatória: Nada a recomendar. Recomendações: Aprovado Conclusões ou Pendências e Lista de Inadequações: Aprovado Situação do Parecer: Não Necessita Apreciação da CONEP: O CEO UNISC emite parecer consubstanciado de aprovação. Considerações Finais a critério do CEP: SANTA CRUZ DO SUL, 27 de Fevereiro de 2014 _________________________________________ Assinador por: Tania Cristina Malezan Fleig (Coordenador)