Joana do Prado Puglia
EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE NA ESCOLA
Dissertação de Mestrado apresentado ao
Programa de Pós Graduação em Promoção da
Saúde- Curso de Mestrado, da Universidade de
Santa Cruz do Sul.
Orientadora: Dra. Edna Linhares Garcia
Santa Cruz do Sul, fevereiro de 2015.
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COMISSÃO EXAMINADORA
Professora Dra. Miriam Pillar Grossi
Professora Dra. Suzane Beatriz Frantz Krug
Professora Dra. Edna Linhares Garcia
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AGRADECIMENTOS
Agradeço às minhas colegas e aos meus colegas de mestrado que fizeram de cada
encontro rica oportunidade de trocas de conhecimentos e afetos.
Agradeço também às professoras Miria, Silvia, Hildegard, Edna, Suzane, Dulciane,
Anelise, Andreia e Lia, assim como aos professores, Daniel, Valeriano e Luciano, que
souberam me conduzir pelos caminhos deste estudo, guiando e instigando meu percurso, não
me aceitando os limites, me fazendo chegar onde ora estou.
Em especial, preciso agradecer a pessoa leal e carinhosa e à profissional sempre
presente, ética, tanto como professora, quanto como psicóloga, que sempre me inspirou
confiança, exigiu comprometimento e resultados por acreditar no meu potencial. Acolhendome sempre as angústias de pesquisadora diante do sofrimento humano, entre palavras
respeitosas de colega de profissão e as exigências de quem acreditava nas minhas
possibilidades. A minha orientadora Edna Linhares Garcia me fez assumir o protagonismo no
exercício da escuta também diante de cada sujeito da pesquisa, acolhendo minha
vulnerabilidade, quando, muitas vezes, meus próprios conflitos pessoais me fragilizaram neste
enfrentamento.
Não poderia deixar de agradecer às minhas filhas Débora, Marcela e Jaqueline, e aos
meus filhos Fábio e Rafael que, de uma forma ou de outra, também me apoiaram, tolerando
minhas ausências, ouvindo minhas angústias diante deste desafio e, por que não confessar, me
socorrendo sempre que surgiam problemas técnicos com o computador, com impressões, com
revisões, com traduções. Mas uma pessoa, em especial, merece toda minha gratidão e
reconhecimento. Meu maior amigo, André Luiz Rocha Puglia, incentivador, companheiro,
amante e esposo, que soube compreender minhas ausências, amparar meus temores, silenciar
diante da minha falta de paciência com meus próprios limites.
Gratidão total à minha secretária, Juliara Petersen, meu braço direito, competente, bem
humorada e querida, tornando possível para mim o trânsito entre trabalho e pesquisa.
Meu agradecimento carinhoso à agora já colega de profissão, Camila Deufel, na
ocasião acadêmica bolsista que, sem medir esforços, participou das sessões de grupos de
discussão, gravações, providenciando materiais, possibilitando, facilitando e enriquecendo
meu trabalho.
4
Meus agradecimentos também às professoras e professores, assim como aos
adolescentes, às adolescentes e ex-aluna, que aderiram aos grupos de discussão, pois, sem
estas participações, jamais teria sido possível realizar este trabalho e conhecer a verdade sobre
o tema estudado.
Existe ainda uma pessoa que não pode ficar de fora de minha gratidão. A presidenta da
República, Dilma Rousseff, referência para todas nós mulheres, em sua trajetória de
superação, desde os porões da ditadura até a administração de nosso país. Esta mulher que
agora, ao exigir ser reconhecida com tratamento de presidenta rompe, mais uma vez, com o
instituído pelo patriarcado, que não soube prever, nem na gramática, a presença feminina no
poder.
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DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho às meninas que não sobreviveram à violência deste mundo.
E às que sobreviveram também.
Às que guardam os segredos dolorosos, que ninguém jamais irá imaginar olhando-lhes
os olhos serenos.
Dedico este trabalho a todas as meninas, nascidas meninas ou nascidas meninos,
meninas de vaginas, ou meninas de pênis, meninas de pênis e vaginas ou meninas de vagina e
pênis, meninas com peitos, meninas sem peitos, transmeninas, quaisquer meninas, mas
meninas! Para que possam ser meninas, e o que mais quiserem ser.
Dedico este trabalho às meninas que amam meninas, às meninas que amam meninos,
às que amam meninos e meninas, às que amam a si mesmas e às que não amam ninguém.
Para todas nós, meninas de todas as idades, para que não precisemos mais viver com
medo.
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RESUMO
Resumo: Levando em consideração a relação entre evasão escolar, bullying, sofrimento
psíquico e a heteronormatividade, foi-se até às escolas para ouvir alunas, alunos e
profissionais da educação a respeito da diversidade sexual. O estudo gerou dois artigos. No
primeiro artigo, “Sexismo na escola: presente!” encontra-se o resultado da análise da
produção de sentido de discursos de professoras e professores produzidos em grupos de
discussão, organizados com objetivo de investigação dos efeitos da heteronormatividade
dentro da escola. É um estudo qualitativo onde foram ouvidas 58 professoras e 10 professores
em escolas estaduais. Os níveis de rejeição às homossexualidades, lesbianidades e
transexualidades, ainda que disfarçados por um discurso politicamente correto, revelaram o
entrecruzamento de crenças solidamente fundamentadas no sexismo e no desconhecimento a
respeito da sexualidade humana e suas possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento
mantém preconceitos e tabus que podem estar tornando educadores e educadoras guardiãs/ões
da norma heterossexista, o que gera intenso sofrimento psíquico dentro da escola. Estes
resultados apontam para a necessidade de criação de políticas públicas voltadas não somente
para facilitar a capacitação destes professores e professoras nos campos de estudos da
sexualidade humana, mas, sobretudo para viabilizar a interdisciplinaridade dentro das escolas.
No segundo artigo, “Lesbo-trans-homofobia presente na escola,” concentrou a análise de
produção de sentido de discursos produzidos em grupos de discussão de alunas e alunos
adolescentes, organizados com o objetivo de investigar os efeitos da heteronormatividade
dentro da escola. Neste estudo qualitativo foram ouvida/os 32 alunas, 8 alunos adolescentes
em grupos de discussão e 1 aluna em entrevista individual, toda/os de ensino médio em
escolas públicas estaduais. Os resultados apontam para uma forte presença de lesbo-transhomofobia no ambiente escolar, inclusive com a rejeição à conquista aos direitos igualitários,
como casamento e adoção de crianças em relações homoafetivas. Este fenômeno pode ser
responsável por intenso sofrimento psíquico, já que, a lesbo-trans-homofobia presente na
conformação de subjetividades da/os sujeita/os, obstaculiza as relações interpessoais
saudáveis. Considerações finais: Percebe-se a necessidade de criação de políticas públicas
voltadas à capacitação de profissionais dentro da escola, levando a informação e o debate
sobre o tema, de forma que as pessoas, tanto adolescentes quanto profissionais da educação,
possam identificar suas potencialidades e estratégias de enfrentamento e resistências às
violências lesbo-trans-homofóbicas dentro e fora da escola.
Palavras-Chave: Heterossexismo; Sexismo; Profissionais da educação; Escola; Lesbo-transhomofobia; Adolescentes.
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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CAPS - Centro de Atenção Psicossocial;
CAPS AD - Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas;
CEP/UNISC - Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul ;
CFP - Conselho Federal de Psicologia;
6ª CRE - Sexta Coordenadoria Regional da Educação;
BSI - Escala Beck para avaliação de ideação suicida (Beck Scale for Suicide Ideation);
E1 - Escola um;
E2 – Escola dois;
E3 – Escola três;
E4 – Escola quatro;
HIV - Vírus da imunodeficiência humana (Human Immunodeficiency Virus);
HSH - homens que fazem sexo com homens;
HSSM - Hospital São Sebastião Mártir (Venâncio Aires, RS);
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística;
IFSul - Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia;
GGB - Grupo Gay da Bahia;
LGBT - lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais;
LAPS - Laboratório de Práticas Sociais da UNISC;
WHO - Organização Mundial da Saúde;
PMVA – Prefeitura Municipal de Venâncio Aires;
SDH - Secretaria dos Direitos Humanos;
SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial;
SIS - Serviço Integrado de Saúde, da UNISC;
SUS - Sistema Único de Saúde;
ULBRA – Universidade Luterana do Brasil;
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura;
UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul.
8
SUMÁRIO
Apresentação...........................................................................................................................11
Capítulo I ............................................................................................................................... 14
Projeto de pesquisa ................................................................................................................. 14
Capítulo II .............................................................................................................................. 53
Relatório de trabalho de campo .............................................................................................. 53
Capítulo III .............................................................................................................................63
Artigo: Sexismo na escola: Presente! ...................................................................................... 63
Introdução................................................................................................................................ 64
Sexismo, gênero e diversidade sexual ..................................................................................... 65
Método .....................................................................................................................................67
Resultados ............................................................................................................................... 69
Restrição de direitos... ............................................................................................................. 69
O discurso sexista ................................................................................................................... 70
Jogo de saber .......................................................................................................................... 72
E se fosse comigo ................................................................................................................... 77
Considerações finais ............................................................................................................... 78
Capítulo IV ............................................................................................................................ 82
Lesbo-trans-homofobia na escola............................................................................................ 82
Introdução ............................................................................................................................... 83
Falando em identidade .............................................................................................................83
Dentro da escola ...................................................................................................................... 85
Método .................................................................................................................................... 86
Os resultados ............................................................................................................................87
Considerações finais ............................................................................................................... 96
Capítulo V............................................................................................................................... 99
Nota à imprensa .....................................................................................................................99
Anexos....................................................................................................................................101
9
Anexo 1 - carta ao Comitê de Ética- CEP UNISC .................................................................101
Anexo 2 - Carta de conhecimento do projeto - 6ª CRE..........................................................102
Anexo 3 - Termo de concordância para a inst. – Escola .........................................................103
Anexo 4 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido– Participantes ...................................105
Anexo 5- Termo de Assentimento –Menores .........................................................................107
Anexo 6 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido- Ex-alunos.......................................109
Anexo 7 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido– Responsáveis.................................110
Anexo 8 - Guia de entrevista com grupos focais .....................................................................112
Anexo 9 - Orçamento do projeto.............................................................................................113
Anexo 10- Carta de conhecimento/concord. SIS....................................................................114
Anexo 11 Transcrição entrevista aluna trans E1 .................................................................115
Anexo 12 Transcrição E2 Grupo de professora/es..................................................................124
Anexo 13 Transcrição E2 Grupo de adolescentes .................................................................132
Anexo 14 Transcrição E3 Grupo de adolescentes ................................................................ 138
Anexo 15 Transcrição E4 Grupo de professora/es ................................................................146
Anexo 16 Transcrição E4 Grupo de adolescentes .................................................................155
Anexo 17 Transcrição entrevista ex-aluna trans E1 e E2 ......................................................168
Anexo 18- Carta de Declaração de direitos autorais ............................................................ 183
Anexo 19- Diretrizes para autores da Revista Estudos Feministas ...................................... 184
Anexo 20- Carta de encaminhamento à editora Unifor...................................................... 190
Anexo 21- Diretrizes para aut. Revista Mal estar e subjetividade........................................ 191
Anexo 22- Parecer consubstanciado do CEP........................................................................ 197
10
11
APRESENTAÇÃO
Entre os primeiros aprendizados na escola estão as piadinhas, os deboches, os maus
tratos e a exclusão daqueles e daquelas que não se adaptem às normas informalmente
instituídas. E, se não foi em casa, na família, por ter sido protegida e amada
incondicionalmente, que a criança descobriu que não podia ser feliz expressando-se e
vivenciando sua identidade sexual e de gênero, mesmo sem ter a menor ideia do que seja isto,
sem muita sorte, será na escola que ela o descobrirá.
E, de repente, estando em um mestrado de Promoção da Saúde, pensando em
promover vida e saúde, pode-se pensar que não haveria melhor oportunidade para esta
convergência: O entrecruzamento de Educação e Saúde, na medida em que seria impossível
se processar a educação sem a saúde mental e se processar a saúde mental sem que aconteçam
as mudanças nos micro poderes e nas subjetividades de mulheres e homens no campo das
sexualidades.
Este trabalho tem o objetivo de dar voz aos sujeitos e sujeitas dos processos de lesbotrans-homofobia, de forma que se possa mergulhar nos campos da sexualidade, em uma
abordagem que busca deslocar o foco da causalidade e do sujeito sexual, em um
entrecruzamento com as relações de gênero, para as produções de sentido na análise do
discurso.
Em breve entendimento com Foucault, procurar-se-á delinear a sexualidade, enquanto
dispositivo de poder. E, apoiada em Judith Butler, Guacira Louro, Berenice Bento, entre
outras, discutiremos os mecanismos deste fenômeno de sujeição de corpos e almas: o
heterossexismo.
A análise do discurso nas falas selecionadas de professoras e professores, assim como
de adolescentes, alunas e alunos das escolas visitadas, entre o rico material colhido, rendeu o
estudo ora presente, mas que ainda poderá ser ampliado, devido o potencial que encerra. Esta
análise fundamenta-se nos preceitos de Foucault e também de Mary Jane Spink, que orienta
para a produção de sentido a partir do discurso.
12
Demonstrar a relevância deste estudo sobre o sofrimento das pessoas não
heterossexuais, das travestis e transexuais diante da perseguição, maus tratos, restrições aos
direitos civis, e até morte perpetrados por pessoas lesbo-trans-homofóbicas, respaldadas pela
instituição heterossexismo, foi o primeiro passo. E não foi difícil, infelizmente, para as tantas
vítimas registradas como dados estatísticos nas pesquisas já realizadas em escolas nos Estados
Unidos da América e no Brasil mesmo. Bullying, queda de rendimento, abstenções e evasão
escolar são as consequências deste fenômeno injusto e cruel. Mais dolorosa realidade são os
assassinatos brutais, em geral de travestis e gays, estampados em mal disfarçadas manchetes
como crimes comuns, quase todos os dias, nas páginas policiais de todo país.
Segundo informações da organização não governamental Grupo Gay da Bahia, GGB
(2014), órgão que tem se empenhado em mapear o holocausto lesbo-trans-homofóbico, foram
187 mortes de pessoas homossexuais no ano de 2008, 198 em 2009, 260 em 2010 e 266 em
2011 em todo o Brasil. Estes assassinatos são, em geral, marcados pela violência extrema.
Além da arma de fogo, muitas vítimas foram mortas por armas brancas – faca, foice,
machado, espancamento e enforcamento. Há ainda casos de degolamento, tortura e
carbonização, o que pode estar indicando que se tratam não de ocorrências banais, mas de
crimes de ódio contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais LGBT.
Não seria possível adentrar um estudo sobre temáticas da homossexualidade e
questões de gênero, e os possíveis sofrimentos em razão das expressões das violências de
gênero e da discriminação da identidade de gênero, da orientação sexual, sem pensar na forma
como se fala, não só agora, aqui, mas o tempo todo sobre pessoas. Pois, esta é mais uma
questão que provoca muitas reflexões nesta pesquisadora. As formas sexistas de tratamento,
no uso da linguagem na expressão oral e escrita, transmitem e reforça as relações
assimétricas, hierárquicas e não equitativas que se dão entre os sexos e gêneros. Porque,
segundo Louro (2008), a internalização da regra gramatical que diz que se houver um homem
em uma sala repleta de mulheres, o discurso será dirigido no gênero masculino, pode e deve
ser questionada, assim como a imutabilidade das regras. Como esquecer que estas regras
gramaticais foram instituídas por homens e em um tempo em que as mulheres não tinham a
menor possibilidade de impor, sequer manifestar, sua presença em um lugar de poder? Nem
mesmo em um discurso. No entanto, é em nome destas regras gramaticais, estabelecidas por
uma sociedade machista, quando não se cogitou nem em sonho a possibilidade de uma mulher
ocupando um cargo de presidência da República do país, que ainda se fazem todos os
13
discursos dirigidos para os presentes, para os alunos, para os professores, os pesquisadores, os
sujeitos, os trabalhadores, embora a presença, muitas vezes maciça, de mulheres e meninas.
Um deles presente na sala, bastará para que todas se convertam em todos. Eis o poder que o
patriarcado imprime e valida ao homem e destitui à mulher. Não aqui. Pois que este estudo foi
realizado para que todas e todos pudessem se sentir contemplado/as, ainda que em um
movimento ínfimo e isolado nesta universidade, mas marcando diferença e posição.
É desta forma então, que se iniciam os estudos que nos dirão: Quais os efeitos da
heteronormatividade na escola?
14
CAPÍTULO I
PROJETO DE PESQUISA
Joana do Prado Puglia
EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE DENTRO DA ESCOLA
Santa Cruz do Sul, agosto de 2013
15
Joana do Prado Puglia
EFEITOS DA HETERONORMATIVIDADE NAS ESCOLAS
Projeto de Pesquisa apresentado ao Programa
de Pós Graduação em Promoção da SaúdeCurso de Mestrado, da Universidade de Santa
Cruz do Sul.
Orientadora: Dra. Edna Linhares Garcia
Santa Cruz do Sul, agosto de 2013
16
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO........................................................................................................... 3
2
MARCO TEÓRICO ................................................................................................... 5
2.1
2.2
2.3
2.4
2.5
2.6
Adolescência: Potencialidades e fragilidades de um tempo ......................................... 5
Heteronormatividade: Vitimização e desejo de morte.................................................. 8
Mais do que o medo de ser feliz ................................................................................10
Falando em violência...................................................................................................11
Para além dos rótulos ..................................................................................................13
Promoção de cidadania................................................................................................15
3
OBJETIVOS..............................................................................................................16
3.1
3.2
Objetivo Geral.............................................................................................................16
Objetivos Específicos ..................................................................................................16
4
MÉTODO ..................................................................................................................17
4.1
4.2
4.3
4.4
4.5
4.6
4.7
Amostra/população/sujeitos ........................................................................................17
Delineamento metodológico .....................................................................................18
Hipóteses e Variáveis .................................................................................................20
Procedimentos Metodológicos ....................................................................................22
Técnicas e Instrumentos de Coleta .............................................................................24
Processamento e Análise de Dados ............................................................................25
Considerações éticas ...................................................................................................26
5
CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO ........................................................................28
6
RECURSOS HUMANOS E INFRA-ESTRUTURA ..............................................29
7
ORÇAMENTO/RECURSOS MATERIAIS ..........................................................30
8
RESULTADOS E IMPACTOS ESPERADOS ......................................................31
9
RISCOS / DIFICULDADES/LIMITAÇÕES .........................................................32
REFERÊNCIAS .................................................................................................................33
17
1 INTRODUÇÃO
Pesquisas recentes têm demonstrado que o abuso e vitimização de pares, por vezes,
incluem
a
discriminação
“brincadeiras” homofóbicas
por
são
transgêneros, como também a
orientação
dirigidas
sexual,
não
em ações
só
contra
heterossexistas,
gays,
lésbicas,
quando
bissexuais,
heterossexuais que não se conformem aos estereótipos de
gênero (Faulkner e Cranston,1998; Espelage e Napolitano, 2008; Remafedi et al., 1998). Foi
constatada a associação entre intimidações pelo uso de expressões pejorativas em relação à
orientação sexual dos estudantes e a percepção do clima escolar como negativo, fazendo com
que a agressão e vitimização entre pares adolescentes, provoquem significativas preocupações
de saúde pública, ao relacionar a evidência de maior presença de relatos de ideação suicida e
uso de drogas e álcool entre adolescentes não heterossexuais nas escolas onde realizaram estes
estudos. Os autores consideraram também que as escolas não são geralmente tolerantes a
qualquer orientação sexual que varie a partir de uma orientação heterossexual.
Homofobia tem sido a palavra utilizada para nominar o preconceito ou discriminação, e
toda forma de violências decorrentes, contra pessoas em razão de sua orientação sexual e/ou
identidade de gênero presumidas. Este termo, porém, não visibiliza as formas de
discriminação que não podem deixar de ser lembradas, já que a vitimização de lésbicas, gays,
bissexuais e transgêneros é realidade dolorosa em nossa sociedade. Lesbofobia, transfobia e
bifobia, são as nomenclaturas também adotadas então, diz Brasil (2012).
Rios (2009) considera termo heterossexismo como o mais adequado para designar a
discriminação, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, contra homossexuais e todos
aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de normalidade, já que fobia
remete ao campo da patologia, enquanto que as atitudes preconceituosas, discriminatórias e
violentas estão fundadas em uma cultura heteronormativa.
Heteronormatividade é a produção e a reiteração compulsória da norma heterossexual,
possível pelo alinhamento entre sexo, gênero e sexualidade, quando supõe-se que todas as
pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, privando e punindo quem ouse escapar à regra
imposta, conforme Louro (2009).
Segundo Brasil (2012), entre as violações discriminatórias, a mais reportada é a
discriminação por orientação sexual, com 76,37% das denúncias. A discriminação por
identidade de gênero aparece como o segundo subtipo mais denunciado, com 15,21% das
respostas. As discriminações se sobrepõem, fazendo‐se presente o racismo, a discriminação
social,
contra pessoas com deficiência, religiosa, geracional, entre outras. Violências
18
homofóbicas acontecem tanto em espaços públicos, quanto em espaços privados e a agressão
psicológica é uma das mais reportadas. Os jovens estão entre os suspeitos em maior
frequência nas notificações destes casos de violências heterossexistas, assim como grande
maioria das vítimas concentra‐se na população jovem, com 61,16% entre 15 e 29 anos.
Eventos trágicos, como os ocorridos nas escolas dos Estados Unidos, quando
adolescentes alvejam e matam seus colegas e professores, cometendo suicídio, na maioria das
vezes, na sequência, despertaram a atenção de autoridades e estudiosos para o problema da
violência entre estudantes. O bullying, como é chamado o fenômeno pelo qual uma criança ou
um adolescente é sistematicamente exposto a um conjunto de atos agressivos, diretos ou
indiretos, que ocorrem sem motivação aparente, mas de forma intencional, protagonizados por
um ou mais agressores, pode se tornar grande obstaculizador do desenvolvimento e
permanência dos sujeitos dentro da escola. Não deve ser confundido com brincadeiras de
crianças e pode ser claramente identificado quando existe a vitimização repetida e sistemática,
além a intenção por parte do agressor, ou agressores, de causar dano e prejudicar a vítima,
podendo causar também o desgosto desta em relação ao ambiente escolar, de acordo com
Lisboa (2005).
Segundo Rigotti (2012), a educação na infância é fundamental para o aprendizado nas
idades subsequentes e contribui eficazmente para a redução das desigualdades sociais, sendo
poderoso instrumento para a diminuição da pobreza. O autor ainda enfatiza que vivemos o
momento em que seja essencial uma escola que estimule e retenha os jovens, caso contrário a
mão de obra brasileira não atingirá a qualificação suficiente para a inserção em um mercado
competitivo
e
dirigido
pela
inovação
tecnológica.
A
promoção
da
saúde
passa,
obrigatoriamente, pela escola. E não é possível se pensar em escola e futuro sem que haja
saúde e desejo de vida.
Pensando esta relação entre violência e abuso nas escolas e a discriminação por
orientação sexual e identidade de gênero surge então a pergunta: Quais os efeitos da
heteronormatividade dentro da escola?
19
2 MARCO TEÓRICO
2.1 Adolescência: Potencialidades e fragilidades de um tempo
Erickson (1976) caracteriza a adolescência como uma fase especial no processo de
desenvolvimento
humano,
presentes
a
confusão
de
papéis,
as
dificuldades
para
estabelecimento de uma própria identidade como marca deste modo de ser entre a vida da
infância e a vida adulta. Knobel (1989) apresenta a sintomatologia do que considera normal
da adolescência, na busca de si mesmo e da identidade, tendência grupal, necessidade de
intelectualizar e fantasiar, crises religiosas, deslocalização temporal, em que o pensamento
adquire características de pensamento primário, evolução sexual manifesta, atitude social
reivindicatória com tendências anti social ou associal de diversas intensidades. Além disto,
ainda ocorreriam
contradições sucessivas em todas manifestações da conduta, separação
progressiva dos pais e constantes flutuações de humor e do estado de ânimo.
Para Outeiral (1994) a adolescência é uma fase do crescimento humano caracterizada
pela definição da identidade, com início na puberdade, se estendendo até que a maturidade e a
responsabilidade social sejam adquiridas pelo indivíduo. Inicialmente, o jovem vivencia uma
passividade em relação as suas transformações corporais, criando-se a partir daí um
sentimento de impotência frente ao mundo e à realidade. Em uma segunda fase, um choque
entre gerações ocorre, pois a estrutura familiar que ele deseja vivenciar é muito diferente da
que foi vivida por seus pais. Sua independência seria o foco central, incluindo a definição
sexual. Na última fase, a busca da identidade profissional e independência financeira.
Calligaris (2009) contrapõe esta visão essencialista, falando da adolescência como uma
construção histórica e cultural, nascida da necessidade de se questionar sonhos e realizações,
no pós guerra, quando adultos passaram a depositar nos jovens seu desejo de mudança. Esta
passagem, em que os jovens situam-se entre a infância e a fase adulta, sem serem mais
reconhecidos como crianças e ainda não recebendo o devido reconhecimento como adultos,
situaria os jovens neste período de espera, sem um ritual que marque o seu início ou fim. Por
já possuírem certo discernimento, os adolescentes não são mais considerados crianças e
podem assimilar valores, como o destaque pelo sucesso financeiro, social, sexual e amoroso,
além de seus corpos e mentes já terem atingido maturação suficiente para que possam atuar
nas atividades que garantam tais sucessos. Porém, ainda é imposta pela sociedade esta
moratória, que lhes faz uma série de restrições, resultando em comportamentos de rebeldia
neste período injusto, na medida em que isto seja o esperado deles.
20
Louro (2000) lembra que o corpo é o locus da construção das identidades, onde se
inscreve e se pretende ler a identidade dos sujeitos. Como o corpo da mulher, é marcado pela
história, moldado e alterado por distintos discursos e práticas disciplinadoras, e permanece,
ainda hoje, como o alvo mais visível e o mais claro representante da sexualidade, pode-se
pensar que esta construção de identidades seja bem mais fluída do que se pretende com os
rótulos impostos aos adolescentes. Além da mãe e a prostituta, a garota boazinha e a má, por
exemplo, podem ter muitas outras designações, mas continuam acenando para uma divisão e
um sistema classificatório que toma a sexualidade como referência.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2012), os jovens estão cada
vez mais vulneráveis a comportamentos suicidas e este é um problema considerado de saúde
pública, que declara ser preciso eleger quais as subpopulações de maior risco que,
consequentemente, deverão ser alvo de estratégias direcionadas para a prevenção do suicídio.
Em todo o mundo, o suicídio é um das três principais causas de morte entre as pessoas na
faixa etária economicamente mais produtiva, 15 a 44 anos, e a segunda principal causa de
morte na faixa entre os 15 a 19 anos. Segundo Botega (2010), o Brasil figura entre os dez
países que registram os maiores números absolutos de suicídios. Foram 8639 suicídios
oficialmente registrados em 2006, o que representa, em média, 24 mortes por dia. Além disso,
é a terceira causa de mortes entre jovens de 15 e 35 anos, conforme Brasil (2008). No Rio
Grande do Sul os coeficientes, aproximam-se aos dos países do leste europeu e da
Escandinávia, ainda segundo Botega (2010).
Para Raynaut (2002), cada indivíduo, cada família, cada grupo local, enfrenta, na sua
existência cotidiana, não apenas restrições e potencialidades referentes a seu quadro de vida
material, mas também aquelas que têm origem em seu universo social e cultural:
representações e valores transmitidos pela educação e pelos processos de socialização, e a
configuração de relações interpessoais decorrentes da organização social e dos embates de
poder. E seu estado de saúde está necessariamente na dependência desse contexto, refletindo a
posição que ele ocupa dentro da estrutura social e econômica da sociedade ou, condições de
vida. O desafio fundamental é tentar restituir o caráter de totalidade do mundo real dentro do
qual e sobre o qual todos nós pretendemos atuar. Totalidade – a palavra surge cada vez que se
fala de interdisciplinaridade. Claro que o mundo real, na sua essência, é total. Ele é feito de
inter-relações, interações entre os muitos elementos que o compõem.
A limitação das possibilidades dos sujeitos, em uma lógica binária, de homem ou
mulher, aprisiona-os num campo de atuação performático, diz Butler (2002). O conceito de
performatividade de gênero refere-se às práticas regulatórias, na manutenção da ordem
21
compulsória ditada pela heteronormatividade, na repetição de comportamentos, falas, modos,
gestos, culturalmente construídos, reforçando a construção de corpos masculinos e femininos,
em atos intencionais, gestos performativos. Ainda conforme Butler (2003), o gênero são os
significados culturais assumidos pelos corpos e, sendo assim, não se pode dizer que ele
decorra do sexo desta ou daquela maneira, como se tenta impor socialmente, quando se diz
que isto ou aquilo seja modos de menina ou de menino. Pensando-se então em corpo sexuado
e gênero culturalmente construído, a autora nos apresenta uma descontinuidade desta lógica
associativa dos únicos dois gêneros, colados ao sexo, para fazer pensar na possibilidade de
uma multiplicidade de gêneros. Desta forma, o gênero é uma identidade mantida pela
reiteração e repetição das normas socialmente construídas, que se cristalizam, como se fosse
uma verdade carnal, incontestável, explica Butler (2003).
Em investigações com adolescentes auto definidos como lésbicas, gays, transexuais e
bissexuais, Espelage e Napolitano (2008), encontraram associações fortes entre o bullying,
orientação sexual e homofobia. Os resultados dependem do apoio que os jovens têm em seu
ambiente, porém as escolas, ainda segundo as autoras, não são geralmente tolerante com
qualquer orientação sexual
variante da heterossexualidade. Comentários homofóbicos
ocorriam, algumas vezes, na presença dos professores e funcionários, que não intervinham
nestes incidentes. As autoras sugerem que as atitudes homofóbicas, muitas vezes, coexistem
com outras formas de agressão e vitimização, resultando em angústia psicológica elevada.
Faulkner e Cranston (1998), realizaram estudo também com adolescentes, em
Massachusetts, EUA, examinando o risco de uso de drogas, violência física, comportamentos
suicidas, relacionados à orientação sexual dos estudantes. Estudantes homossexuais relataram
significativamente maior exposição à violência do que heterossexuais, e deixam de ir à escola
três vezes mais do que estes, por não sentirem-se bem lá, terem sido ameaçados, além de
terem sido roubados muito mais vezes também. Dizem os autores que, em comparação com
estudantes heterossexuais, adolescentes LGBTT apresentaram cinquenta por cento mais
propensão de considerar seriamente o suicídio nos últimos doze meses. E os relatos de
tentativas no ano anterior de suicídios entre os alunos era de o dobro para os homossexuais
em relação aos heterossexuais. Isto estaria indicando o aumento do risco de comportamentos
suicidas entre os alunos homossexuais.
Para Foucault (1987), a escola, assim como outras tantas estruturas de poder, está a
serviço do controle, vigiando corpos e desejos, legitimando a norma e fazendo cumprir o
instituído, fazendo também da sexualidade um instrumento biopolítico. E este processo plural
e permanente de produção dos sujeitos, não se dá sem a participação destes mesmos, como se
22
poderia pensar. Louro (2000) diz que os sujeitos estão implicados e são participantes ativos na
construção de suas identidades, na medida em que, mesmo inconscientemente, haja um
investimento continuado e produtivo deles mesmos em suas formas de ser homem ou mulher,
de acordo com a norma instituída. Os processos de construção de sujeitos compulsoriamente
heterossexuais implicam na rejeição da homossexualidade, passando por atitudes, enunciações
e comportamentos, na maioria das vezes, explicitamente homofóbico. Desta forma, segundo
ainda a autora, não basta que o menino não seja gay, mas precisa ainda provar, dentro desta
lógica heteronormativa em que “homem que é homem bate em veado”. E, embora para a
instituição da heteronormatividade concorram diversos espaços sociais e institucionais, parece
ser na escola e na família onde se verificam seus momentos cruciais, podendo-se supor que,
na escola, a homofobia produza efeitos sobre todos os sujeitos.
2.2 Heteronormatividade: Vitimização e desejo de morte
Em um estudo da Universidade de Minnesota, EUA, com o objetivo de examinar a
associação entre orientação sexual e risco de suicídio em uma amostra de base populacional
de adolescentes de escolas públicas de Minnesota, conclui-se que a bissexualidade e
homossexualidade são fatores de risco para tentativa de suicídio entre adolescentes do sexo
masculino, segundo Remafedi et al. (1998).
Foucault (1987) nos apresenta a ideia que é sobre os grandes corpos populacionais que
age o biopoder, assim como o fez individualmente, em cada aluno atrás de sua pequena mesa
na escola, por exemplo, conformando-os à norma, disciplinando. E quem exerce esta
vigilância para que não se desvie desta norma, são os mesmos sujeitos, conformados e
disciplinados, quando não permitem que alguém ouse romper com os padrões prédeterminados de ser e estar nesta sociedade disciplinar. Isto talvez possa justificar os achados
da pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, em quatro cidades dos EUA (Chicago,
Los Angeles, New York, e San Francisco), com o objetivo de conhecer a prevalência de
tentativas de suicídio e correlatos psicossociais em uma grande amostra de base populacional
de homens que fazem sexo com homens (HSH), conforme, Paul et al. (2002). Apesar da
evidência de que "sair do armário" e associação com redes sociais afirmativas LGBTs tenham
efeitos positivos em termos de ajustamento psicológico, particularmente em relação à
autoestima, este processo também pode ser associado com algumas experiências negativas,
pois a divulgação de uma identidade gay ou bissexual pode potencialmente levar ao
ostracismo, assédio, violência e consequente sofrimento. Os autores dizem que os dados
23
sugerem que a violência antigay tem aumentado dramaticamente desde os anos 80, com
consequências que podem ser bem graves, incluindo depressão, um senso de vulnerabilidade,
impotência, raiva, ansiedade e estresse pós-traumático. A conclusão deste trabalho nos diz que
homens que fazem sexo com homens estão em risco elevado de tentativas de suicídio. E ser
gay ou bissexual foram alguns fatores de riscos específicos, em um ambiente hostil. Porém, a
pesquisa pode ser inconclusiva, pois não chega a especificar, em seus questionamentos, se
houve relação entre as tentativas de suicídio e o fato dos sujeitos serem gays ou bissexuais,
mas somente faz uma ligação temporal entre os fatores relacionados ao “sair do armário” e as
tentativas do suicídio, reconhecem os autores.
Em novembro de 2007, a Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio, em parceria
com o Centro de Recursos de Prevenção do Suicídio e da Gay and Lesbian Medical
Association, convocou uma conferência para abordar a necessidade de uma melhor
compreensão do comportamento suicida e risco de suicídio na população LGBT. Os
participantes desta conferência continuaram os estudos e elaboraram um artigo que investiga
o suicídio e risco de suicídio em lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, onde
constata-se que os registros de morte não costumam incluir a orientação sexual da pessoa
falecida, de forma que não há nenhuma maneira oficial para determinar as taxas de suicídio
consumado em pessoas LGBT, diz Haas et al. (2010).
Foi tentado fazer uma pesquisa de informações junto aos familiares dos suicidas, a fim
de identificar a orientação sexual destes, porém, esta autopsia psicológica teria falhado, já que
as pessoas não conseguem dar informações suficiente, por desconhecimento ou por desejo
mesmo de omitir fatos. Ainda para Haas et al. (2010), houve várias dificuldades em poder
encontrar respostas, e entre elas, os poucos sujeitos pesquisados. Também foi apontado que as
pesquisas que têm uma única pergunta sobre a história da tentativa de suicídio, como por
exemplo, "Você já fez uma tentativa de suicídio?", sejam pouco esclarecedoras, pois, há casos
de alguns entrevistados que não consideram os planos, comportamentos suicidas ou de
automutilação, como uma tentativa de suicídio, havendo a necessidade de múltiplas questões
que distingam estes comportamentos de tentativas reais de suicídio. Assim como também
deveria haver mais questões a respeito da orientação sexual, que apresentassem opções mais
variadas, nas pesquisas para público em geral, em vista da relevância da identificação das
populações fragilizadas.
Três fatores foram considerados significativamente protetores, diz Haas et al (2010), em
relação ao suicídio de jovens com experiência sexual com pessoas do mesmo sexo:
Conexidade familiar, percepção de carinho de outros adultos, e a segurança da escola. Entre
24
as recomendações relativas às políticas públicas que o grupo de conferencistas faz para
reduzir os resultados negativos na saúde mental e discriminação contra as pessoas LGBT e
seu estigma, consta, em primeiros lugares, ações anti bullying e legislação para que se tenha
escolas seguras, incluindo especificamente respeito à orientação sexual e identidade de gênero
relacionada à segurança na escola.
Para Raynaut (2002), deve-se considerar que as pessoas às quais estão dirigidas as
políticas públicas, em todas as categorias, não são passivas, que elas mesmas atuam no dia a
dia para procurar soluções. Só assim, se viabilizaria a possibilidade de uma outra linha de
desempenho da ação pública no domínio da saúde - uma linha construída não exclusivamente
na verticalidade dos saberes, mas negociada a partir da própria experiência das pessoas e das
comunidades. Sem desconsiderar, ainda segundo o autor, os muitos obstáculos sociais e
políticos para operar essa reconversão. Mas então, os primeiros obstáculos que superaríamos
são aqueles que encontramos no quadro da nossa própria atuação de cientistas, diante da ideia
de que as “populações”, em geral consideradas como objetos de estudo, são também sujeitos,
atores que têm sua própria experiência dos problemas que pretendemos resolver. Se eles são
sujeitos, temos que considerá-los como parceiros, tanto na produção do saber como na
elaboração de programas de ação.
2.3 Mais do que o medo de ser feliz
Denomina-se heterossexismo o sistema a partir do qual uma sociedade organiza um
tratamento segregacionista segundo a orientação sexual das pessoas. Este sistema e a
homofobia que, segundo Borrillo (2009), pode ser compreendida como a consequência
psicológica de uma representação social que outorga à heterossexualidade o monopólio da
normalidade, promovendo o desdém em relação a quem se distancie do modelo de referência,
constituem as duas faces da mesma intolerância e merecem, por conseguinte, ser denunciados
com o mesmo vigor que o racismo ou o antissemitismo. Este temor, aversão, medo às pessoas
homossexuais, manifestos de forma mais emocional, de violência resulta de uma atitude
irracional que encontra suas origens em conflitos pessoais, em uma homofobia afetiva que se
caracteriza pela condenação da homossexualidade. Na outra face da homofobia, de caráter
social, com suas raízes na atitude de desprezo constitutiva da forma ordinária de temer e
categorizar o outro, a homofobia cognitiva, pretende simplesmente perpetuar a diferença.
Rios (2009) aponta para a ideologia e sistema heterossexistas, frente ao binômio
heterossexualidade/homossexualidade, como critério distintivo para o reconhecimento da
25
dignidade dos sujeitos e distribuição dos benefícios sociais, políticos e econômicos, uma vez
que o pertencimento a grupos inferiorizados implica a restrição, quando não a supressão
completa e arbitrária de direitos e de oportunidades, por razões jurídico-formais, pelo simples
exercício da força física bruta ou em virtude dos efeitos simbólicos das representações sociais.
O termo heterossexismo seria o mais adequado para designar a discriminação contra
homossexuais e por todos aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro de
normalidade, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, conforme Rios (2009). Enquanto a
palavra homofobia estaria mais diretamente relacionada à dinâmica subjetiva desencadeadora
do desprezo às pessoas homossexuais, como os medos e ódios. O autor ainda aponta para a
proliferação de outros termos objetivando designar formas correlatas e específicas de
discriminação, tais como transfobia, relacionada a travestis e transexuais, a lesbofobia ligada
a lésbicas e bissexualfobia voltada contra bissexuais.
2.4 Falando em violência
Segundo o Relatório sobre violência homofóbica no Brasil, em Brasil (2012),
informações relacionadas à faixa etária das vítimas indicam que a grande maioria concentra‐
se na população jovem, com 61,16% de vítimas entre 15 e 29 anos. Nessa faixa etária, as
vítimas entre 15 e 18 anos representam apenas 1,23%, enquanto de 18 a 29 anos 59,93%. Ao
analisar o perfil dos suspeitos de perpetrar de violência homofóbica, no que tange aos dados
referentes às denúncias encaminhadas para o governo federal durante o ano de 2012, 58,9%
das vítimas conheciam os suspeitos, enquanto 34,1% eram desconhecidos. Referente à faixa
etária dos suspeitos, há elevada taxa de não informação, com 34,68% do total. Entre as idades
informadas, a faixa de jovens (de 15 a 29 anos) soma 27,07% do total de suspeitos, seguida
pela faixa entre 30 e 39 anos, com 16,85%. Observando os tipos de violações denunciadas
durante o ano de 2012, pode‐se verificar que violências psicológicas foram as mais reportadas,
com 83,2% do total, seguidas de discriminação, com 74,01%; e violências físicas, com
32,68%. Também há significativo percentual de negligências (5,7%), violências sexuais
(4,18%) e violências institucionais (2,39%). Ressalta‐se que algumas denúncias classificam‐se
em mais de um tipo de violação. Entre os tipos mais reportados de violência psicológica
encontram‐se as humilhações (35,32%), as hostilizações (32,27%) e as ameaças (15,78%).
As violências físicas contra homossexuais, ainda segundo Brasil (2012), são o tipo mais
evidente das violações de direitos humanos, e aparecem em terceiro lugar nos dados do poder
público durante o ano de 2012. As lesões corporais são as mais reportadas, com 59,35% do
26
total de violências físicas, seguidas por maus tratos, com 33,54%. As tentativas de homicídios
reportadas totalizaram 3,1%, com 41 ocorrências, enquanto homicídios reportados ao poder
público federal contabilizaram 1,44% do total de violências físicas denunciadas, com 19
ocorrências. Ao tentar categorizar as vítimas quanto à orientação sexual,
contata-se que
categorias como “orientação sexual” e “identidade de gênero”, bem como suas diferenciações,
são ainda desconhecidas entre a população, desinformação que torna‐se um obstáculo para a
denúncia, diz o Relatório.
Quando se fala em violências é preciso que se entenda que o uso da palavra no plural é
ainda uma tentativa de expressar a variedade de possibilidades de manifestações deste
fenômeno que, segundo Minayo e Souza (1998), consiste em ações de indivíduos, grupos,
classes, nações que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade
física, moral, mental ou espiritual. A violência, por ser reconhecida como um processo social,
não é objeto específico da área da saúde, que já não está mais atrelada a sua função
tradicionalmente conhecida, de
medidas preventivas e curativas nos cuidados dos agravos
físicos e emocionais. Mas, reforçam as autoras, na Promoção da Saúde, a responsabilidade é
com o bem estar individual e coletivo.
Para Narvaz e Koller (2006), a violência física é decorrente da posição de poder que
uma pessoa está em relação à outra pessoa, causando ou tentando causar dano não acidental,
por meio do uso da força física ou de algum tipo de arma que possa provocar ou não lesões
externas, internas ou ambas.
A violência psicológica, diz Habigzang e Koller (2012),
abrange o ambiente familiar,
profissional e escolar, e pode ser definida como a interferência negativa de algumas pessoas
sobre a competência social de outras, com o abuso de poder disciplinador e coercitivo, o
tratamento abusivo das relações interpessoais, a depreciação de algumas pessoas perante seus
pares. Também na violação de direitos humanos, como à vida, liberdade e segurança.
Os mais variados tipos de violências contra a população LGBT acontecem nos círculos
de convívio social, quando se manifesta a homofobia. A violência homofóbica vitimiza as
pessoas cuja orientação sexual, ou identidade de gênero, presumidamente, não se enquadre
nos padrões heteronormativos. Isto significa que mesmo pessoas que se reconheçam como
heterossexuais podem vir a ser vitimizadas simplesmente por serem confundidos como
LGBT, diz Schilling (2009).
27
2.5 Para além dos rótulos
Reduzindo muito a amplidão das possibilidades da sexualidade humana ao aprisiona-la
em conceitos, para que se entenda do que se está falando quando se classifica a expressão da
sexualidade, pode-se dizer que, conforme Jesus (2012), bissexual é a pessoa que se atrai
afetivo-sexualmente por pessoas de qualquer gênero. Heterossexual é quem que se atrai
afetivo-sexualmente por pessoas de gênero diferente daquele com o qual se identifica.
Homossexual pode ser definido como pessoa que se atrai afetivo-sexualmente por pessoas de
gênero igual ao com o qual se identifica. Pessoa que não se identifica com o gênero que lhe
foi atribuído ao nascer pode ser reconhecida como mulher transexual, ou homem transexual.
Homem transexual é pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como homem
enquanto que a mulher transexual, quem reivindica o reconhecimento social e legal como
mulher. Já travesti, se diferencia de transexual por ser a
pessoa que vivencia papéis de
gênero, mas não se reconhece como homem ou mulher, entendendo-se como integrante de um
terceiro gênero ou de um não-gênero. Em Brasil (2007), encontra-se que gay é a pessoa do
gênero masculino que tem desejos, práticas sexuais e relacionamento afetivo-sexual com
outras pessoas do gênero masculino. Pessoa do gênero feminino que tem desejos e práticas
sexuais, e relacionamentos afetivo-sexual com outras pessoas do gênero feminino são
convencionalmente definidas como lésbicas.
Em um estudo para examinar as associações entre três dimensões da orientação sexual e
os principais indicadores de saúde comumente estudados entre as populações minoritárias
sexuais, Lindley, Walsemann e Carter Jr. (2012), dizem que a orientação sexual de uma
pessoa é composta por pelo menos três dimensões: A identidade sexual, o comportamento
sexual e a atração sexual. Consideram que a identidade sexual seja a dimensão mais
comumente avaliada de orientação sexual em pesquisa de saúde. Porém os itens utilizados
para medir a identidade sexual têm sido os mais difíceis para as pessoas responderem em
pesquisas de saúde. Não só pelo desconforto que possa representar admitir uma identidade
não heterossexual em uma sociedade heterossexista, mas também porque cada vez mais novos
rótulos são utilizados para designar as variáveis desta população, como gays, lésbicas, queer,
por exemplo. Além de serem muitas as identidades, ainda pode ocorrer que a pessoa
simplesmente não se identifique com nenhuma delas. Estas definições podem ainda ser muito
estáticas diante das possibilidades, como ser homossexual, heterossexual, ultimamente
homossexual, ultimamente heterossexual, comumente lésbica ou gay, pansexual, bissexual,
gay curioso, entre outros. A pessoa se vê forçada a fazer uma escolha que nem sempre vê
28
representada nas opções do questionário. Medir a orientação sexual de uma pessoa através do
sexo do parceiro ou parceira, também não fornece um dado preciso, já que conceitos de sexo e
comportamento sexual também podem ser relativos à interpretação de cada um, dizem os
autores.
Preciado (2004), em uma discussão a respeito da teoria queer e identidades feministas,
faz uma correlação com as ideias de dois teóricos, Foucault e Deleuze, dizendo que uma das
formas dominantes da biopolítica no capitalismo contemporâneo é a sexopolítica. Quando o
sexo, e os órgãos chamados sexuais, práticas sexuais, códigos de masculinidade e
feminilidade, as identidades sexuais normais e desviantes, fazem parte dos cálculos do poder,
em um discurso sobre sexo, padronização, tecnologias de controle e identidade. A
heterossexualidade, mais do que uma prática sexual, pode ser vista como um regime de
biopolítica, na medida em que a administração dos corpos e a gestão calculada da vida, para a
produção de corpos “heteros”, calculando a vida em termos de população, e a saúde pelo
interesse nacional. Os corpos e identidades que escapam do considerado normal podem ser
então entendidos muito mais como efeitos dos poderes políticos do que efeitos do discurso
sobre sexo. Cada corpo, dentro da sexopolítica, é definido por sua função e o pensamento
heterocentrado garante a ligação estrutural entre a produção da identidade de gênero e a
produção de órgãos sexuais e reprodutivos, neste capitalismo sexual. Exemplo disto são a
medicalização e tratamento cirúrgico de crianças intersexuais, na gestão cirúrgica da
masculinidade e feminilidade, regulação da sexualidade por parte do Estado e crescimento da
indústria pornográfica.
Ainda para Preciado (2004), em oposição ao sexo, como dispositivo deste conjunto da
sexopolítica, que é a medicina, a família e incluindo a representação pornográfica, o conceito
de gênero tem crescido, na reapropriação das minorias sexuais. O corpo da multidão gay
surge no que Deleuze chamaria de “desterritorialização” da heterossexualidade. Afetando
tanto o espaço urbano, quanto o espaço do corpo. Em um processo de resistência de tornar-se
“normal”, diz a autora. A desidentificação , identificações estratégicas, tecnologias de
conversão e desontologização corpo do sujeito e da política sexual são algumas das estratégias
do movimento queer. Sapatão, bicha, dike, gay, lésbica, travas são lugares de produção de
identidades resistentes à padronização, ao lugar comum, à regulação dos corpos e das
identidades.
29
2.6 Promoção de cidadania
A homossexualidade foi, durante muito tempo, combatida ao mesmo tempo como
doença, vício, crime e pecado. Não foi senão muito recentemente que a homossexualidade
deixou de ser considerada como um problema mental, com a decisão, em 1997, da Associação
dos Psiquiatras Americanos de retirá-la da lista das doenças mentais. E foi apenas em 1999
que a Organização Mundial da Saúde a retirou da lista das doenças, conforme Souza Filho
(2009).
Grande passo para a causa, a resolução do Conselho Federal de Psicologia, em CFP
(2013) n° 001/99, de 22 de março de 1999, vem estabelecer normas de atuação para os
psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual. Considerando que o psicólogo é um
profissional da saúde, que na prática profissional, independentemente da área em que esteja
atuando, é frequentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade, que a forma como
cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida
na sua totalidade e que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem
perversão. Levando em conta ainda que há na sociedade uma inquietação em torno de práticas
sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente e que a Psicologia pode e deve
contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade,
permitindo a superação de preconceitos e discriminações, estabelece que:
Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios
éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam
a não discriminação e a promoção e bem-estar das
pessoas e da humanidade.
Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu
conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e
o desaparecimento de discriminações e estigmatizações
contra aqueles que apresentam comportamentos ou
práticas homoeróticas.
Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que
favoreça a patologização de comportamentos ou práticas
homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a
orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com
eventos e serviços que proponham tratamento e cura
das homossexualidades.
Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem
participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de
comunicação de massa, de modo a reforçar os
preconceitos sociais existentes em relação aos
30
homossexuais como portadores de qualquer desordem
psíquica.
Art. 5° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua
publicação.
Art. 6° - Revogam-se todas as disposições em contrário.
No ano de 2004, o governo federal, em conjunto com a sociedade civil, lançou o
“Programa Brasil sem Homofobia”,
organizado pela UNESCO, voltado a formular e a
implementar políticas integradas e de caráter nacional de enfrentamento à homofobia, visando
modificar o histórico de cumplicidade e indiferença em relação à discriminação de pessoas
homossexuais e promover o reconhecimento da diversidade sexual e da pluralidade de
identidade de gênero, garantindo e promovendo a cidadania da população, de acordo com
Brasil (2009). Neste mesmo documento da UNESCO,
o texto de abertura declara que
homofobia compromete a inclusão educacional e a qualidade do ensino, pois incide na relação
docente/estudante, produz desinteresse pela escola, dificulta a aprendizagem, conduz à evasão
e ao abandono escolar. Por tudo isso, ainda afeta a definição das carreiras profissionais e
dificulta a inserção no mercado de trabalho. E este é só o começo desta caminhada na luta
pela igualdade de direitos e liberdade da livre expressão da sexualidade humana neste nosso
país.
31
3 OBJETIVOS
3.1 Objetivo Geral
O objetivo geral deste estudo é verificar os possíveis efeitos da ação heteronormativa
dentro da escola;
3.2 Objetivos Específicos
Verificar e caracterizar as estratégias de enfrentamento dos e das sujeitos/as aos efeitos
da ação heteronormativa, no ambiente escolar;
Verificar e caracterizar quais as percepções dos e das profissionais da educação em
relação às questões de identidade de gênero e orientação sexual dos alunos;
32
4 MÉTODO
4.1 Amostra/população/sujeitos
Os sujeitos deste estudo serão todos os alunos, de ambos os sexos, regularmente
matriculados no terceiro ano do Ensino Médio de quatro das onze escolas da rede pública
estadual do Município de Venâncio Aires no ano de 2013, que atenderem ao convite para os
grupos focais. Foram escolhidas duas escolas localizadas no centro do município e outras
duas na zona rural, a fim de que se tenha um público heterogêneo. Também participarão
professores
das
escolas
selecionadas
e
ex-aluna/os
auto
identificado/as como
não
heterossexuais, que desejarem integrar grupos focais específicos. Os critérios de exclusão
serão os sujeitos que não correspondam ao perfil descrito acima, que não desejem participar
da pesquisa, ou ainda os que, sendo menores de dezoito anos de idade, não apresentem a
autorização dos pais, ou responsáveis, para participar do processo.
O município de Venâncio Aires localiza-se na região do Vale do Rio Taquari, no
interior do Rio Grande do Sul.
Com uma população aproximada de 65.946 habitantes,
segundo dados do IBGE (2010), bem distribuída entre
o meio rural e a região urbana,
originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade para
trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada no
cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra. O
município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco, assim
como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate.
Venâncio Aires, de acordo com informações colhidas na própria Secretaria de Educação
do Município (PMVA, 2013), possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas
Municipais de Ensino Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de
Ensino Médio. A rede privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil
até ao Ensino Médio e 7 Escolas
de Educação Infantil. O Instituto Federal de Educação
Ciência e Tecnologia – IFSul- disponibiliza vagas para Ensino Médio e Técnico. Além disto,
os venâncio-airenses ainda contam com vários cursos técnicos profissionalizantes, como a
Escola do Sistema SENAI, um campus da Universidade de Santa Cruz do Sul, a UNISC, e da
Faculdade Dom Alberto. Na atenção à saúde, de acordo com informações da Secretaria de
Saúde, Venâncio Aires possui uma rede composta de 14 postos de saúde, um Centro de
Atendimento às Doenças Infectocontagiosas.
O Hospital São Sebastião Mártir (HSSM),
dispõe de 118 leitos, dos quais 71 são destinados a pacientes do Sistema Único de Saúde
33
(SUS) e 47 a particulares e convênios. No ano de 2013 foi inaugurada a Unidade de
Tratamento Intensivo, oferecendo 10 leitos à comunidade, sendo 8 para os pacientes do SUS.
O município conta também com um Centro de Atenção Psicossocial e um Centro de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas, CAPS e CAPS AD, respectivamente, conforme dados de
PMVA (2013) e HSSM (2013).
4.2 Delineamento metodológico
O presente trabalho trata-se de um estudo descritivo exploratório com abordagem
qualitativa. Para a realização da investigação, serão organizados grupos focados no tema,
homossexualidades
e
heteronormatividade,
e
é
importante
insistir
no
plural,
homossexualidades, pois, segundo Ciccarelli (2012), seria um grande equívoco acreditar que a
chamada orientação sexual traduz em todos os casos a mesma dinâmica pulsional.
Os grupos de discussões das homossexualidades e preconceito terão o diálogo como a
ferramenta principal e vídeo de curta metragem como disparador do debate. Nos grupos focais
encontra-se uma técnica que ajuda na investigação de crenças, valores, atitudes, opiniões e
processos de influência grupal, além de dar suporte para a geração de hipóteses, a construção
teórica e a elaboração de instrumentos, diz Gondim (2002), por trata-se de uma técnica que
pode ser usada quando o foco de análise do pesquisador é o grupo. Serão afixados cartazes
com a divulgação do grupo de debates sobre homossexualidades e preconceito, com local,
data e horário de realização, bem como o endereço eletrônico da pesquisadora, para que as
pessoas que desejem participar dos grupos focais, conversar individualmente, ou ainda
manifestar anonimamente suas percepções a respeito do tema, fazer depoimentos, possam
fazê-lo.
Iervolino e Pelicioni (2001) destacam como possibilidades de aplicações do grupo focal:
gerar hipóteses sobre um assunto a partir da perspectiva dos informantes; avaliar um serviço
ou intervenção de material instrucional; fornecer um quadro inicial para estudo de um campo
até então não explorado cientificamente; funcionar como pesquisa exploratória ou como
diagnóstico preliminar; obter a interpretação de um grupo sobre resultados quantitativos
obtidos em estudo prévio; contribuir para a montagem e teste de questionários e escalas para
projetos de pesquisas quantitativas.
O grupo focal é numa técnica muito importante para se tratar das questões da saúde sob
a perspectiva do social, porque possibilita o estudo de representações e relações dos diferentes
profissionais da área, dos vários processos de trabalho e também da população.
A
34
interdisciplinaridade na área da saúde apresenta-se como uma condição, pois, saúde e doença
envolvem simultaneamente relações sociais, emocionais, afetivas e biológicas, em raízes
sócio- históricas e culturais dos indivíduos e grupos, conforme Minayo (1991; 1992).
Ainda para Minayo (1992), focalizar a pesquisa e formular questões mais precisas,
complementar informações sobre conhecimentos peculiares a um grupo em relação a crenças,
atitudes e percepções e desenvolver hipóteses de pesquisa para estudos complementares são
estratégias utilizadas quando se trabalha em grupo focal. O processo de entrevista em grupo
permite aos pesquisadores observar os participantes em interação e esta dinâmica geralmente
faz minimizar a influência do pesquisador na entrevista, já que o poder fica diluído para o
grupo e não centralizado no facilitador, diz Madriz (2000).
Como estratégia de chamamento dos sujeitos para o grupo de debates, será usado uma
técnica presente em estudo realizado na Universidade de Brasília, conforme Mendes (2012),
quando foram espalhados em murais do campus cartazes divulgando o objetivo principal da
pesquisa e apresentando um endereço eletrônico para que os alunos interessados em participar
pudessem entrar em contato, assim como também relatar anonimamente, se preferissem, as
experiências relacionadas à discriminação por motivo de orientação sexual, ou suas
percepções a respeito do tema. Os cartazes passaram então a ser veículo de expressão dos
sentimentos e percepções dos estudantes que ali se expressavam através de escritas, desenhos,
ou mesmo atitudes mais agressivas, como arrancar e destruir o material de divulgação. Porém,
todas estas formas de expressão são de uma eloquência preciosa para que se possa perceber o
que muitas vezes não pode ser dito com palavras. Desta forma, será então também necessário
que se observe com regularidade o que acontecerá com os cartazes afixados, fotografando-os,
se necessário, a fim de não se perder qualquer movimento significativo. Assim como
averiguar diariamente a caixa de entrada de e-mails, disponibilizada aos alunos.
Spink (2010) ressalta que o sentido é uma construção social e, como tal, um
empreendimento coletivo. Sendo a produção de sentidos um processo interativo, não se
produz sentido individualmente. O sentido pode ser entendido como uma construção social
contextualizada, histórica e culturalmente e que é essa construção que permite lidar com
situações e fenômenos do mundo social. É importante que, ao trabalhar com repertórios
linguísticos, se verifique primeiro quais são os repertórios espontâneos do grupo com o qual
se estará lidando, ou corre-se o risco de que as pessoas tenham ainda que incorporar o novo
termo aos termos usuais.
Para Raynaut (2002), os seres humanos e as sociedades que eles constituem são
produtores de sentido e a busca de sentido é um dos fatores mais determinantes nos
35
comportamentos, tanto no plano individual como no coletivo. Qualquer política que despreze
isto corre grande risco de fracasso.
Inicialmente, chegou-se a pensar na possibilidade da aplicação da Escala Beck para
avaliação de ideação suicida, BSI (Beck Scale for Suicide Ideation) nos participantes desta
investigação, a fim de que se pudesse ter uma ideia a respeito deste aspecto da personalidade
dos sujeitos desta pesquisa. Tal instrumento é uma escala constituída por 21 itens, com três
alternativas de respostas cada, que refletem gradações da gravidade de desejos, atitudes e
planos suicidas, conforme Cunha (2011). A autora alerta para o fato do teste não proteger o
paciente caso este decida atuar com base em suas cognições, podendo distorcer ou esconder
seu estado real e correr assim riscos, não sendo recomendável dispensar uma avaliação clínica
e se basear somente nos resultados do BSI. Esclarece também
que o instrumento foi
desenvolvido em pacientes psiquiátricos adultos, internados e ambulatoriais, tendo sido pouco
testado em adolescentes. Por considerar que, desta forma, a ferramenta não apresentava nem
sensibilidade, nem especificidade que lhe concedessem um valor preditivo confiável, ficou
resolvido descartar a aplicação da Escala Beck para Ideação Suicida nos adolescentes, que
sofreriam um desgaste desnecessário nesta prática.
Segundo recomendação de Spink (2010), estar no campo significa prestar atenção aos
inúmeros pequenos incidentes do cotidiano que estão associados ao tema de pesquisa, sendo
necessário que se ande com uma caderneta disponível para possíveis notas, pois, ser
pesquisador é estar em campo o tempo todo; estar atento ao que está acontecendo e que pode
trazer pistas valiosas sobre o problema de pesquisa, aceitando o desafio que representa
registrar e utilizar estes dados. Por isto mesmo, circular entre os adolescentes, nos intervalos
das aulas, nas atividades recreativas, esportivas, estudantis, se tornará excelente oportunidade
para vivenciar a experiência de interlocuções entre os estudantes e seus colegas, professores,
funcionários da escola, assim como conhecer as estratégias de inserção de todos e poder editar
o diário de campo desta investigação.
4.3 Hipóteses e Variáveis
Hipótese 1: A escola, quando assume o papel de reforçadora da instituição da
heteronormatividade, alicia os jovens estudantes como guardiães desta norma;
Hipótese 2: A vigilância heterossexista dentro da escola transforma jovens em
perseguidores daqueles que não se conformam, ou mesmo aos que simplesmente escapam às
rígidas estereotipias de gênero;
36
Hipótese 3: O heterossexismo perpetua e define as formas de intimidação e agressão
dentro da escola;
Hipótese 4: Para jovens estudantes, ocupar o lugar de perseguidor heterossexista
também pode estar falando de seu medo diante da ameaça que o “transgressor” da norma
representa enquanto possibilidade;
Hipótese 5: Existem diferenças na forma de manifestação do controle e das resistências
à heteronormatividade entre os grupos da zona rural e a urbana;
Hipótese 6: Os profissionais da educação manifestam sofrimento psíquico em relação
às questões de orientação sexual e identidade de gênero dos estudantes.
Heteronormatividade entendida como a instituição da heterossexualidade como a única
forma aceitável de expressão da sexualidade.
Dentro desta lógica heteronormativa, temos como consequência o fenômeno do
heterossexismo, que é a expressão de repúdio, desprezo, inaceitação, preconceito contra as
pessoas que escapem a esta norma, sendo homo ou heterossexuais. O que pode derivar em
reações de exclusão, perseguição, privação de direitos, violência e até morte das vítimas.
O município de Venâncio Aires tem sua população relativamente bem distribuída entre
o meio urbano, compreendido pelo centro da cidade e bairros, e ainda o meio rural, composto
de distritos conhecidos como linhas, onde atividades agropecuárias são desenvolvidas por
pequenos agricultores. Há ainda o distrito industrial, ocupado por empresas fumageiras, de
refrigeração, metalurgia e alimentos. Todos os distritos são servidos por escolas da rede
pública de ensinos Fundamental e Médio.
Estereotipias de gênero são práticas reguladoras materializadas na repetição de
comportamentos, falas, modos, gestos, culturalmente construídos, reforçando e validando a
construção de corpos masculinos e femininos. Dentro desta lógica binária, que cola sexo ao
gênero, existiriam gostos, brincadeiras e modos de meninos ou de meninas. Estes fazeres
compulsórios passam a ser os construtores e aprisionadores do masculino e do feminino.
Orientação sexual é a direção para qual se orienta o desejo, o afeto e as fantasias de uma
pessoa. Se for em direção a alguém de seu mesmo gênero, dizemos que esta pessoa seja
homossexual. Se esta orientação for em direção a pessoas de gênero oposto, heterossexual. No
caso da pessoa sentir atração, desejo por pessoas de ambos os gêneros, então consideramos
que ela seja bissexual. Mas é interessante destacar que quem definirá a orientação sexual é a
própria pessoa em um processo de auto identificação.
Assim também ocorre com a identidade de gênero. Pois, o que determina a identidade
de gênero de alguém é a própria percepção que esta tenha de si. Se masculina ou feminina.
37
A categorização das pessoas dentro de conceitos como lésbica, gay, travesti, transexual,
bissexual, transgênero, queer, por exemplo, é apenas uma estratégia cultural para se lidar com
as muitas expressões da sexualidade humana, já que esta transcende esta fixidez e limitação
de conceitos.
Sofrimento psíquico, ou os conflitos com que os sujeitos são confrontados na
experiência de viver, frente ao outro, na fragilidade dos vínculos, nos medos, das próprias
exigências, agressões do meio, surgem o desconforto emocional, a angústia, ansiedade, que
vão se manifestando na falta de expressão afetiva, no isolamento, na tristeza, na depressão, na
falta de desejo. É no corpo que surgem os registros deste sofrimento através do sintoma,
denunciando o que a palavra não disse. Recurso simbólico mediando o subjetivo e o real.
4.4 Procedimentos Metodológicos
O estudo se desenvolverá nas seguintes etapas:
 1ª etapa: Elaboração do Projeto de Pesquisa, envio e aprovação do Comitê de Ética.
 2ª etapa: Visita à Coordenadoria Regional de Educação em Santa Cruz do Sul e
apresentação
do projeto a fim de se obter autorização para realização do estudo junto ao
público alvo;
 3ª etapa: Capacitação da voluntária, acadêmica do curso de psicologia, com quem a
pesquisadora dividirá a tarefa dos registros dos dados colhidos durante as etapas do estudo;
 4ª etapa: Visita às quatro escolas estaduais do município de Venâncio Aires a fim de
apresentar-lhes o projeto e solicitar a colaboração para desenvolver o estudo junto às turmas
de terceiros anos do ensino médio;
 5ª etapa: Esclarecer as pessoas envolvidas na pesquisa como ela acontecerá, através do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e entregar para que solicitem a assinatura pelos
responsáveis (no caso dos estudantes menores de 18 anos), pelos maiores, e as devolvam em
data marcada, quando o pesquisador também assinará;
 6ª etapa: Distribuição de cartazes (uma semana antes da realização de cada grupo)
pelos murais das escolas envolvidas no processo, fazendo a divulgação do tema abordado,
objetivos e chamamento para participação do grupo focal. O cartaz divulgará também um email para manifestação dos sentimentos em relação ao tema proposto.
 7ª etapa: Visitas diárias às escolas a fim de se constatar as condições dos cartazes ( se
ainda estão afixados, se existem recados, fotografá-los e, se for necessário, substituí-los).
38
Reforçar o convite para o grupo focal. Nesta ocasião, circulando pelos espaços das escolas,
escutar o que tenham a falar professores, funcionários e outros estudantes.
 8ª etapa: Primeiro encontro do grupo focal, quando firmado um compromisso de
confidencialidade, em que todos terão a garantia de que as pesquisadoras não divulgarão
nenhum dado que os identifique pessoalmente. Assim como também se solicitará que os
participantes procurem guardar os depoimentos que ouvirem dos colegas, em um pacto de
solidariedade. Tudo será sempre registrado no diário de campo.
 9ª etapa: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero voltar sozinho”, que
servirá de disparador do tema em discussão.
 10ª etapa: Discussão do tema homossexualidades, heterossexismo, preconceitos e
discriminações. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado
em compromisso de confidencialidade previamente assumido pelo grupo. A pesquisadora
auxiliar estará fazendo as anotações pertinentes, dos gestos, expressões e falas paralelas,
conforme combinação prévia entre as pesquisadoras.
 11ªetapa: Após o primeiro encontro de cada grupo (um por escola), as pesquisadoras
se reunirão para fazer o cruzamento do registro detalhado das impressões do trabalho no
diário de campo;
 12ª etapa: Segundo encontro do grupo focal (o segundo de cada escola): Os sujeitos
terão oportunidade de assistir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este
será o disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento dos grupos,
quando poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos
a respeito do tema.
 13ª etapa: Grupo focal com professores, quando será projetado um filme de curta
metragem: “Não quero voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema em discussão.
 14ª etapa: Discussão do tema homossexualidades, homofobia e preconceitos com as
professoras. Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado em
compromisso de sigilo da pesquisadora e de confidencialidade
previamente assumido pelo
grupo. A pesquisadora auxiliar estará fazendo as anotações pertinentes dos gestos, expressões
e falas paralelas, conforme combinação prévia entre as pesquisadoras.
 15ª etapa: Segundo encontro do grupo focal com professoras: Os sujeitos terão
oportunidade de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o
disparador para novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento dos grupos, quando
39
poderão ser expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a
respeito do tema.
 16ª etapa: Entrevista com pessoas travestis e transexuais, ex-alunas de escolas do
município de Venâncio Aires, a fim de saber quais suas impressões e sentimentos a respeito
do tema em discussão, reportando suas experiências como estudantes da rede pública de
ensino.
 17ª etapa: Análise dos dados contidos nos debates dos grupos, nos registros nos
cartazes, nos conteúdos das mensagens virtuais, assim como também das impressões colhidas
pelas pesquisadoras, nos gestos, nas conversas paralelas, nos olhares e em todos os
indicadores dos sentimentos e percepções dos sujeitos envolvidos naquele projeto, ou seja:
alunos participantes, alunos da escola que souberam da existência dos debates e o tema,
professores, pais, funcionários e quem mais se envolva ou expresse sua impressão. Tudo será
percebido como indicador da produção de sentidos.
 18ª etapa: Discussão do material de diário de campo, composto por todas as fontes
acima citadas, confecção do mapa de associação de ideias a fim de sintetizar o processo de
análise das práticas discursivas a fim de se compreender o fenômeno.
• 19ª etapa: De acordo com a demanda da escola, receptividade dos sujeitos, resultados
da pesquisa, se pensará uma forma de retorno dos resultados desta, que necessariamente
acontecerá junto às escolas, estendendo-se o convite de participação a/aos ex-aluna/os.
É importante que a pesquisadora esteja disponível para possível necessidade de escuta
individual, devido aos sentimentos mobilizados pela abordagem do tema, assim como de
encaminhamento a atendimento especializado por profissional de acordo com a demanda.
4.5 Técnicas e Instrumentos de Coleta
Em observação descritiva, quando as pesquisadoras circularão pelos espaços comuns
das escolas, ouvindo e registrando tudo que comunicar, verbal ou gestualmente, a respeito do
tema, se construirá o diário de campo, de forma a se conhecer o ambiente em que estão
inseridos os sujeitos deste estudo.
A pesquisadora se apresentará ao corpo docente, entregando-lhes uma cópia do projeto
de pesquisa, assim como os termos de consentimento livre e esclarecido, e fará uma exposição
sobre seus objetivos e o tema do estudo. Na ocasião, será importante que a pesquisadora
auxiliar, mais uma vez, esteja a registrar todas as manifestações dos participantes desta
conversa. Entre os estudantes dos terceiros anos das escolas também será feita a apresentação
40
do projeto, sem que lhes seja entregue cópia dos documentos, mas só oralmente, a fim de que
conheçam e tenham oportunidade de expressar suas impressões sobre o tema.
A pesquisadora auxiliar também estará fazendo o importante registro de suas
percepções neste momento. Nesta ocasião serão distribuídos os termos de consentimento para
que quem desejar participar do estudo assine ou leve para seus responsáveis assinarem.
Cópias deste documento serão deixadas na secretaria da escola a fim de que os alunos que não
pegarem no primeiro contato possam fazê-lo em outra ocasião, se desejarem.
A fixação de cartazes com o chamamento para o grupo de discussão do tema será outra
técnica de provocação da manifestação dos sujeitos, já que estarão livres para escrever e
enviar e-mails, considerando-se o fato de que estes estarão em locais de livre circulação em
território dos alunos. Uma conta de e-mail no nome da pesquisa será aberta exclusivamente
para receber os comunicados dos sujeitos, tornando-se espaço livre de censura e exposição, já
que não será necessário identificar-se. Será nos encontros dos grupos focais que poderão os
sujeitos expor suas opiniões e debater, assim como fazer questionamentos a respeito da
homossexualidade, homofobia, heteronormatividade e quais querem outras dúvidas que forem
pertinentes ao estudo.
O uso de um filme em curta metragem, “Não quero voltar sozinho”, de Ribeiro (2010),
será o disparador da discussão, quando todos os sujeitos que atenderam ao chamado para o
grupo focal poderão assistir e fazer comentários livremente. O grupo de discussão terá
duração de sessenta minutos e número de participantes limitado em vinte e cinco pessoas no
máximo e três, no mínimo. Se for necessário, devido ao número de sujeitos interessados em
participar, se disponibilizará a formação de outros grupos. Professores também serão
convidados a formar um outro grupo focal para os mesmos debates.
Ocorrerão dois encontros de cada grupo focal. No primeiro acontecerá a discussão a
partir do vídeo. Esta sessão de debates será, com a devida autorização dos participantes,
gravada. No segundo, os integrantes terão a oportunidade de assistirem a gravação de suas
próprias falas, enquanto participantes do primeiro encontro, e retomar a reflexão. Para
finalizar, papel e canetas serão disponibilizados a fim de que as pessoas possam expressar
também graficamente, se assim desejarem, seus sentimentos.
Pessoas auto identificadas como não heterossexuais, ou travestis, transexuais, gays,
lésbicas, bissexuais, também serão ouvidas a respeito de sua experiência enquanto ex-aluna/os
de escolas públicas de ensino médio do município de Venâncio Aires. A escuta se dará
através de entrevista aberta, usando-se perguntas norteadoras que estimulem a narrativa sem
41
constrangimentos, em local conveniente tanto para as pessoas entrevistadas, quanto para as
entrevistadoras.
4.6 Processamento e Análise de Dados
Os dados deste estudo serão levantados nos seguintes momentos:
Quando se analisar cuidadosamente os registros detalhados do ambiente em que estão
inseridos os sujeitos, considerando-se desde as disposições nos espaços comuns, como
intervalos, esportes, alimentação e sala de aulas, como também os comportamentos de alunos,
funcionários e professores nestes espaços;
Quando se analisar as falas e gestos, destes atores pelos espaços da escola;
Quando se analisar as reações dos sujeitos diante dos cartazes, em qualquer
manifestação, pois que toda será expressiva de sentido;
Quando se analisar as falas e os silêncios dos sujeitos nos grupos de debate do tema do
estudo, assim como os olhares, os gestos, os sorrisos, as escritas, os desenhos e as ausências:
Quando se analisar o conteúdo da caixa de entrada do e-mail do estudo;
Será do conjunto de toda esta análise de dados objetivos e subjetivos, descritos e
transcritos, após cada confronto, que emergirão da presença das pesquisadoras, da provocação
dos cartazes, da discussão das opiniões, da liberdade de se expressar que surgirá o
mapeamento da produção dos sentidos dos sujeitos. Fundamentada no referencial teórico que
norteia este estudo será analisada a compreensão dos sentidos das experiências vivenciadas,
identificando informações de maior relevância, relatos serão agrupados por semelhança e
coerência interna da produção discursiva, de acordo com Minayo (1993).
Para a transcrição das falas, tanto as individuais, quanto nos grupos focais, será adotado
um quadro constituído de colunas: uma para as questões orientadoras, outra para o registro da
fala de entrevistados e a última para o registro das categorias evidenciadas nas falas;
O quadro categorial, onde representações sociais e seus elementos decorrentes
possibilitarão o mapeamento das respostas, tantos dos alunos, quanto de professoras,
identificará percepções dos sujeitos em relação ao fenômeno enquanto inseridos na família, na
escola e no grupo;
No quadro, as respostas poderão ser classificas entre: crenças, opiniões, normas,
conflitos, valores, atitudes, estratégias, resistências, negação e outras que surgirem.
42
4.7 Considerações éticas
Primeiramente, o projeto será encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.
Os sujeitos participantes dos grupos focais estarão à vontade para exporem suas
concepções, na certeza de estarem protegidos pela regra da confidencialidade, inerente à
profissão da pesquisadora e compactuada pelos integrantes do grupo, pois seus nomes e
identidade serão preservados, assim como todas as narrativas que ali forem expostas.
Todos que forem maiores de dezoito anos assinarão um termo de consentimento livre e
esclarecido, a fim de que possam saber do que se trata o estudo e estejam conscientes do
processo de investigação a que estarão se engajando. Os estudantes que tiverem menos de
dezoito anos de idade precisarão que seus pais, ou responsáveis, assinem o consentimento
livre e esclarecido para que possam participar da pesquisa.
Também será necessário que autorizem a gravação dos depoimentos, já que tudo que for
dito nas rodas de debates será gravado, para que em outro momento, todo o grupo possa ouvir
o que foi dito por eles mesmos e assim analisar suas falas e posicionamentos frente ao tema.
43
5 CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO
Atividades/Etapas metodológicas
2013
Elaboração do Projeto de Pesquisa;
2014
J
J
A S
O N D F
x
x
x
x
x
Envio e aprovação do Comitê de Ética;
M A M J
x
X x
Capacitação da pesquisadora voluntária;
x
Apresentação do projeto às professoras das
escolas escolhidas de Venâncio Aires;
Apresentação aos sujeitos e entrega do Termo
de Consentimento;
x
Distribuição de cartazes nas escolas;
x
Visitas às escolas para examinar cartazes;
x
Primeiro encontro de cada grupo focal;
x
x
Reuniões das pesquisadoras;
x
x
Segundo encontro de cada grupo focal;
x
x
não
Discussão do material de diário de campo;
x
x
X
x
x
X x
x
x
X x
x
X
x
Análise dos dados;
Revisão bibliográfica;
A S O N D
X
Apresentação do projeto às escolas para que
autorizem a realização do estudo;
Entrevistas
com
ex-aluna/os
heterossexuais de escolas E.E.M.V.A.
J
X x
x
x
x
Devolução aos sujeitos;
Redação/revisão final da dissertação;
Defesa da Dissertação.
x
x
X
x
X
x
x
x
X
44
6 RECURSOS HUMANOS E INFRA-ESTRUTURA
Será necessária a presença de uma pessoa capacitada para auxiliar a pesquisadora na
coleta de dados durante as entrevistas no grupo focal, quando será preciso que sejam
registrados não só as falas paralelas dos sujeitos, como a linguagem gestual, expressões
faciais, chistes e quaisquer outras manifestações dos sujeitos. Esta pessoa será uma graduanda
do curso de Psicologia, bolsista do Laboratório de Práticas Sociais, LAPS, do Departamento
de Psicologia da UNISC, que já se apresentou como voluntária também para esta pesquisa.
Assinará o termo de compromisso de trabalho voluntário, dispensando qualquer vínculo
empregatício com a Universidade.
O local para a realização dos grupos focais deverá ser uma sala, dentro da própria
escola, podendo ser sala de aula com distribuição de cadeiras em forma circular, mesas
agrupadas junto às paredes, já que não serão utilizadas na ocasião, arejada e iluminada,
devendo ter chave na porta, de modo que se possa gozar de privacidade, sem ser
interrompidos durante as sessões. Também deverá haver a possibilidade de que se procedam
aos debates sem que as falas possam ser ouvidas do lado de fora da sala, a fim de que se possa
garantir o sigilo dos conteúdos ali dentro abordados.
Serão necessários também recursos de multimídia, que as escolas já têm disponíveis, a
fim de que se tenha possibilidade de exibir filme de curta metragem para fomentar o debate
entre os participantes. Folhas de papel e canetas serão disponibilizadas aos participantes, a fim
de que possam se expressar da forma que preferirem.
Cartazes serão gerados em computador e impressos, sendo necessários serviços de
impressão colorida. Serão seis cartazes para cada uma das quatro escolas, totalizando assim,
vinte e quatro cartazes. Um rolo de fita adesiva também será necessário para afixação dos
mesmos.
45
7 ORÇAMENTO/RECURSOS MATERIAIS
GESTOR FINANCEIRO: A pesquisadora
Itens a serem financiados
Valor
Valor
Unitário
Especificações
Quantidade
Canetas
Folhas A4
Impressão de cartazes
Bloco de notas
Fita adesiva
50
500
24
4
1
Total
R$
1,00
0,01
1,00
5,10
3,50
Total
R$
50,00
15,00
24,00
20,40
3,50
112,90
TOTAL GERAL R$
112,90
46
8 RESULTADOS E IMPACTOS ESPERADOS
Espera-se como resultados deste estudo, que se possa abrir espaço para o diálogo a
respeito do tema que, embora tão polêmico e em exposição na mídia, se mantém tabu dentro
das escolas e famílias. E ainda, analisando-se os discursos e estratégias dos sujeitos, que se
possa dar visibilidade a relação entre o fenômeno heteronormatividade e sofrimento psíquico
que justifique uma atenção, tanto às vítimas quanto aos agressores, por parte dos gestores e
comunidade. Espera-se ainda que os jovens sujeitos encontrem referências positivas nos
tantos homens e mulheres que protagonizam ações afirmativas nas conquistas das Políticas
Públicas que buscam garantir os direitos de todos e todas na livre expressão da sexualidade.
47
9 RISCOS / DIFICULDADES / LIMITAÇÕES
A pesquisa qualitativa, por caracterizar-se, na grande maioria, pela investigação de
fenômenos sociais únicos, em ambiente social em que ocorrem, apresentando certa
dificuldade de controle dos fatores que influenciam os sujeitos no momento dos estudos.
Assim como situações sociais únicas não podem ser reconstituídas com precisão, nem
duplicada com exatidão em um método e conjunto de procedimentos. Porém, cuidados como
a anotação descritiva minuciosa do contexto, transcrições literais das entrevistas, dos fatos,
registros de áudio, fotografias, filmagens, podem capturar todo o cenário de forma que outros
pesquisadores possam entender o que foi vivido pelo estudioso naquela pesquisa.
A colaboração de mais de um pesquisador é outro fator importante para testemunhar os
registros do evento e dar maior confiabilidade interna. A possibilidade que os sujeitos faltem
aos encontros, às entrevistas, desistam da participação, ou ainda que seus responsáveis, já que
se trata de um público formado, na sua maioria, por adolescentes menores de dezoito anos de
idade, não autorizem sua participação, existe e pode ser um forte obstaculizador. Porém, pode
também ser um mais analisador social dos fenômenos que motivam estas interferências, em se
tratando de um tema cujo silêncio e a negação têm sido as mais eloquentes manifestações que
se pode colher.
Riscos e danos materiais para os sujeitos que se apresentarem como voluntários não há.
Porém, a pesquisadora estará atenta e disponível à escuta e atenção individualizada em caso
de mobilização de emoções e conflitos internos por parte dos jovens, assim como para
encaminhá-los aos profissionais do SIS- Serviço Integrado de Saúde, da UNISC, caso seja
necessário.
48
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53
CAPÍTULO II
RELATÓRIO DO TRABALHO DE CAMPO
Conforme estratégia descrita no projeto de pesquisa no capítulo anterior, as quatro
escolas que foram selecionadas, duas da região urbana e duas da região rural, foram visitadas
já no final do ano de 2013, a fim de se saber da disponibilidade e interesse destas em
participar da pesquisa. Na ocasião também foram assinados os termos de adesão das
instituições ao processo de pesquisa.
No dia 11 março do ano de 2014, aconteceu a visita à direção da escola de meio
urbano, que a partir de agora será chamada de E1, para agendar as reuniões de apresentação
da pesquisa aos e às profissionais da educação. A vice-diretora, que demonstrou excelente
receptividade, aproveitou para solicitar orientação a respeito do caso de um aluno que,
segundo ela, vestia-se com roupas consideradas femininas e desejava ser chamado por nome
de mesma característica. Disse não saberem mais como lidar com o problema, do qual já
haviam feito referências no ano passado, na ocasião do convite à escola a participar da
pesquisa, quando consultaram sobre o dilema de qual banheiro o aluno deveria usar, já que
este se negava a usar o destinado ao público masculino e a escola se negava permitir o uso do
banheiro reservado ao público feminino. Soube-se que atualmente o aluno, como a diretora
insistia em chama-lo, tem usado um banheiro alternativo. Mas surgia a questão do nome. A
vice-diretora foi questionada sobre o conhecimento da Lei do Nome Social, ao que esta
respondeu total desconhecimento, embora a percebesse como justa e necessária. Combinou-se
então um encontro com o aluno, para, em contato com este, ser possível entender melhor o
caso. Agendaram-se também as reuniões de área, quando poderia ser apresentada a
educadoras e educadores a pesquisa, assim como a pesquisadora e a bolsista assistente. Foi
solicitado pela vice-diretora que lhe enviassem uma cópia do decreto estadual que
regulamenta o uso do nome social de pessoas travestis e transexuais em escolas públicas
estaduais e serviços públicos de saúde no estado do Rio Grande do Sul.
No dia 13 de março, aconteceu a entrevista do aluno, que na verdade tratava-se de uma
jovem transexual feminina. Embora ela não cursasse o terceiro ano do ensino médio e, por
isto, não se enquadrasse no perfil dos sujeitos desta pesquisa, foi ouvida e fez importantes
revelações, em um discurso atravessado por medo, auto desvalia, transfobia introjetada.
54
Gabriela1 tinha dezoito anos, cursava o primeiro ano do ensino médio e, soube-se mais tarde
que, antes do fim deste estudo, ela já não estava mais frequentando a escola noturna.
Destacou-se entre suas falas a sua percepção de que sempre houve uma discrepância entre o
que os outros enxergavam nela e a sua auto percepção desde criança. Em seu discurso, ela era
normal porque não tentava ser o que os outros queriam que ela fosse, mas estava sendo o que
ela sabia que era: uma menina. E eles é que não viam isto. As transformações do corpo
validavam sua identidade de gênero, mas o nome de registro civil lhe denuncia o sexo e
causava sofrimento. Mas não era só o nome que a traia. A hora de usar o banheiro, masculino
ou feminino, era outro momento de grande sofrimento na escola. Era o lugar de ninguém,
quando tentavam invisibilizar sua transexualidade, já que lhe destinaram um banheiro
abandonado, em reformas, sem luz. Falava da vigilância que sofria nas redes sociais, pelas
professoras e professores na escola, sempre prontos a denunciar o que ela mesma chamou de
falsa identidade. A palavra morte apareceu com frequência no discurso de Gabriela, quando
ela reproduziu o que ouvia de rapazes, que não sabiam que ela fosse uma transexual, dizendo
que pessoas gays, travestis, têm que morrer, matar a pedradas e também no momento em fala
que, quando, na hora da chamada, dizem seu nome de registro é como se a pessoa estivesse
lhe dando um tiro. E ela sente muito medo. As palavras medo, ninguém e nada,
respectivamente, aparecem inúmeras vezes em seu discurso, em combinações que podem
estar revelando a percepção de muita desvalia. Terminada a entrevista, durante o
deslocamento pelo pátio da escola até o portão de saída, podia-se ouvir o coro formado pelos
poucos adolescentes que permaneciam ali, pois era horário de aula, gritando palavras muito
agressivas e desqualificadoras, embora Gabriela estivesse acompanhada pela pesquisadora.
Ao ser indagada sobre a frequência com que aquela cena acontecia, a adolescente revelou que
aquele já era um ritual diário que lhe despertava muito medo.
No dia 26 março, às 08h50min, a diretora da escola, tendo recebido a cópia que lhe foi
enviada do decreto que regulamenta o uso do nome social por pessoas travestis e transexuais
nas escolas públicas estaduais, disse que aquele material fora apresentado ao conselho escolar
e solicitaram uma lei federal que validasse o decreto. Disse que havia muita resistência em
aceitar a mudança, já que o aluno não tinha seu nome de registro alterado.
No mesmo dia, foi feito contato com uma profissional do direito militante desta
questão, que respondeu gentilmente à solicitação de esclarecimento quanto às dúvidas
1
Os nomes do/as sujeito/as desta pesquisa foram substituídos a fim de preservar-lhes as identidades, conforme
compromisso de sigilo estabelecido previamente.
55
surgidas no aspecto legal da causa do nome social, pode-se retornar à escola, e informar que o
decreto do governador tem força de lei e que funcionárias e funcionários públicos estaduais
estão subordinados a esta lei. Então, a diretora declarou negar-se a aceitar o uso de nome
social naquele caso, enquanto não ocorrer cirurgia de troca de sexo e troca do nome no
registro civil. Em resposta a esta declaração, ela foi informada de que o decreto só tinha
motivo de existir justamente para minimizar o sofrimento de pessoas naquela situação,
quando o nome social é utilizado para substituir o uso do nome de registro de pessoas que se
sentem desconfortáveis pela desidentificação do corpo e o gênero. Lembrando ainda que
cirurgia de redesignação sexual é um processo que é independente da troca de nome e
reconhecimento da identidade de gênero da pessoa.
No dia 14 de maio, em contato telefônico para confirmação dos horários das reuniões
onde se daria início às discussões pertinentes ao tema da pesquisa em grupos focais, conforme
já combinado, a vice-diretora informou que não haveria reunião naquela escola naquele dia. E
também no dia seguinte. Disse que todas as reuniões necessárias já tinham ocorrido e que não
havia mais previsão de novas reuniões. Acrescentou que, desta forma, não via como
pudessem acontecer as reuniões dos grupos focais com professoras e professores. Sendo
assim, ficou bem claro que realmente não era desejada a presença das pesquisadoras e
discussões sobre o tema naquela escola, e encerraram-se ali as negociações, mesmo porque,
tais atitudes, por si só, eram tão eloquentes, ou mais, quanto quaisquer outras declarações que
pudessem ser feitas em um grupo focal. Foi solicitada à 6ª CRE a circulação da informação
sobre a referida lei que regula o uso do nome social nas escolas públicas estaduais e soube-se
que isto aconteceu.
No dia 25 de março do ano de 2014 aconteceu o primeiro contato com professoras e
professores, em breve e tranquila apresentação durante reunião da área das ciências humanas
na segunda escola do meio urbano, escolhida para participar desta pesquisa, que ora passará a
ser identificada como E2. Em 26 de março, em reunião de área da Linguagem, também foi
bem receptiva à exposição do projeto de pesquisa e a proposta para debate em grupo focal em
outra ocasião. O mesmo aconteceu na tarde daquele dia, na reunião da área da Matemática.
Porém, na ocasião fizeram perguntas sobre nome social e uso de banheiro por pessoas
transexuais, chegando a ser sugerido que “seria mais fácil trocar o nome nos documentos, ao
invés do uso do nome social”.
Em 14 de abril, aconteceu uma reunião de professores e professoras e nesta ocasião foi
aberto espaço de uma hora para a realização do grupo focal em E2. Esta proposta pareceu
56
estranha, pois tinha sido dito várias vezes à supervisão e direção da escola que o grupo focal
deveria ser de participação voluntária e não por convocação. Mas, diante da dificuldade que a
outra escola vinha apresentando em abrir espaço para discutir o tema, considerou-se
conveniente aceitar a oferta. Sendo assim, este primeiro grupo focal converteu-se em grupo de
discussão, realizando-se de maneira não muito adequada, com muitas pessoas, o que dificulta
a comunicação de todas e todos. Eram 32 professoras e 7 professores participantes. Foi um
discurso marcado por declarações sexistas, com a culpabilização da mulher, que teria
negligenciado nos cuidados e educação dos filhos, remetendo a representações de gêneros
estereotipados e rígidos. Revelaram uma percepção da homossexualidade e transexualidade
como anormais, em flagrante rejeição a estas, embora o esforço de algumas participantes em
tentar compreender estes processos. Neste discurso marcado pelo não dito, em excessos de
gaguejos e palavras inacabadas, em uma tentativa de expressar o inominável, ficou clara a
resistência diante do outro e da outra tão diferentes de si, se autorizando viver esta diferença.
Assim como o intenso sofrimento daquelas profissionais, acreditando que fosse preciso e
possível evitar a homossexualidade e a transexualidade, na medida em que, embora não
soubessem o que fazer, diziam que precisavam revelar às crianças quem era menina e passava
por menino e também vigiar banheiros, separar as crianças em filas por sexo.
Em 15 de março, realizou-se a reunião geral de professores na escola E3, de meio
rural. Logo ao chegar, encontrou-se professoras e professores entre abraços em retorno das
férias. No horário marcado, o grupo encaminhou-se para o salão de reuniões e foram
explicados os objetivos da pesquisa e as estratégias que se seguiriam. Fizeram poucas
perguntas relacionadas aos sujeitos da pesquisa e datas a ser realizados os encontros. Sem
mais nada a tratar no momento, o grupo foi deixado, com a combinação de que entrariam em
contato assim que definidas as datas para a realização do grupo focal de professores e
professoras.
Sem qualquer retorno da escola E3, mesmo depois de ligações telefônicas à direção
atrás de uma resposta quanto à data de realização do grupo de professoras e professores, no
dia 16 de abril foi feito novo contato para se saber quando poderia acontecer a reunião do
grupo focal. Para surpresa desta pesquisadora, depois da diretora desculpar-se muito por ter
esquecido de fazer o contato antes,
disse que nenhuma professora se interessou em falar
sobre o assunto e que então o grupo não aconteceria. Acrescentou que, quanto aos alunos,
seria possível ir a qualquer manhã naquela escola lançar o convite para eles, pois apenas uma
turma de terceiro ano existia e ela mesma acompanharia o convite e então seria escolhida a
57
data para o grupo de adolescestes acontecer. Ficou combinado que na quarta feira seguinte
isto seria feito. Antes de desligar ela ainda se desculpou novamente pelos professores não
quererem fazer o grupo, dizendo que, se fosse necessário, ela mesma poderia conversar sobre
o tema com a pesquisadora. Foi dito então que esta resposta negativa dos professores e
professoras já era de grande relevância para trabalho.
Em 23 de abril, compareceu-se à escola, conforme combinado com a direção, a fim de
fazer o convite à única turma de terceiro ano de ensino médio da escola E3. A recepção foi
agradável e a diretora acompanhou mesmo a visita à sala de aula, onde foi possível se fazer o
convite. Alunos e alunas foram bem receptivos, receberam os termos de consentimento para
que seus responsáveis pudessem assiná-los e foi fixado o cartaz com o e mail da pesquisadora
para que pudessem enviar suas mensagens.
No dia 03 de abril, chegou-se na escola em meio rural E4, durante reunião geral de
professoras e professores, já iniciada, como havia sido combinado previamente em contato
telefônico. Na apresentação foi possível falar sobre a pesquisa e as pessoas ficaram muito
interessadas, fazendo perguntas quanto aos sujeito/as da pesquisa e da possibilidade de
participação de toda/os a/os professora/es e não só os do ensino médio. Uma professora disse
que iria disponibilizar seu período de aula para que o grupo focal pudesse acontecer. Ficaram
de entrar em contato para dizer o dia em que a reunião poderia acontecer, adiantando que no
dia 09 de maio seria a próxima reunião geral e seria uma boa data para todos e todas. Na
saída, alguém corre na frente para abrir a porta, dizendo assim garantir que o retorno, em um
gesto de muita simpatia.
Em 16 de abril, retornando à E4, foi realizado o convite aos alunos e alunas de terceiro
ano de ensino médio para o grupo focal. Eram duas turmas apenas naquela escola rural e, em
companhia de uma professora para fazer a apresentação, dirigiu-se às salas. Na primeira
turma, uma professora que dava aula naquele momento foi chamada à porta para tomar
ciência da visita, foi muito receptiva.
Feito o convite para a turma, e fixado um cartaz com o e-mail para onde poderiam
enviar as mensagens sobre o tema e também avisarem qual a data escolhida para o grupo
acontecer. Depois das explicações de como aconteceria o estudo, uma aluna perguntou se não
aconteceria também um grupo de pais. Muitas pessoas disseram que seria muito importante se
isto acontecesse e ficou combinado que, se esta fosse uma demanda do grupo, um grupo de
mães e pais poderia acontecer. Na saída, no percurso até o portão, a professora comentou que
58
seria muito importante que os pais tivessem oportunidade de debater o tema, já que os alunos
pensam no que seus pais iriam pensar sobre este trabalho.
Em 06 de maio realizou-se o grupo de discussão de professoras e professores na escola
de meio rural E4, com a participação de 29 pessoas, entre 3 homens e 26 mulheres. Entre as
discussões acaloradas, surge uma fala atravessada por argumentações fundamentadas na
história, lembrando que gregos tinham sua iniciação sexual entre alunos e professores, que, de
certa forma, acaba associando as homossexualidades à pedofilia, em um discurso confuso,
pretensamente em defesa, mas que justifica e reforça os temores das demais pessoas. Esta
confusão repete-se quando surge um lapso e a oradora troca a palavra feminina por feminista,
ao falar das supostas características que admira em gays. E, nesta associação de feminilidade
à meiguice, relega os homens à brutalidade, em uma visão bem essencialista. Ainda neste
grupo surge a presença do deboche nas falas de homens, quando se expressam a respeito da
homossexualidade e travestilidade, assim como justificam a violência contra estas pessoas. A
visão biologicista, a explicação patologizante e o sofrimento, consequente da auto-percepção
como responsáveis em corrigir alunos e alunas com que se deparem nesta situação, se
expressa em uma grande angústia ao não saberem o que fazer com tudo isto dentro da escola.
Além disto, há o medo de ser esta pessoa que os e as colegas apontam como tão abjeta e
perversa.
No dia 09 de julho, em uma pequena sala usada como biblioteca e sala de estudos,
realizou-se o grupo focal de adolescentes da escola E3, composto por seis meninas. Todas
muito tímidas, que conseguiram apenas expressar-se mais eloquentemente através da escrita,
em bilhetinhos, que lhes foram disponibilizados no final do debate a partir do filme assistido.
Suas falas eram cuidadosamente marcadas pelo discurso politicamente correto, sempre a favor
da liberdade e felicidade de todas as pessoas, mas cheio de ressalvas e resguardando os
direitos civis ao casamento e adoção de crianças às pessoas heterossexuais. Estas restrições
são unânimes e sempre são seguidas de explicações quanto ao sofrimento que geraria às
crianças, em decorrência do preconceito da sociedade. Entrecortando a estas falas surgem
elogios fantasiosos, atribuindo características idealizadas de forma generalizada aos gays,
como queridos, sinceros, amigos e divertidos. Uma adolescente verbaliza sua percepção da
homossexualidade como anormal. Também aqui surgem as posições do pai e da mãe, nas
famílias das adolescentes participantes, em relações marcadas pela assimetria nas relações de
gêneros. Impressionantemente conservadoras.
59
Em 29 de maio, na escola E4 aconteceu o grupo de discussão de adolescentes, com a
participação de 21 pessoas, sendo 17 alunas e 4 alunos. Algumas delas gostariam de
participar, porém, haviam esquecido de trazer consigo o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido assinado pela mãe e então não o puderam. Após assistirem ao filme curta
metragem,
discutiram
e
logo
surgiram
falas
indicativas
de
desqualificação
da
homossexualidade, como quando uma adolescente enaltece a coragem do personagem que,
além de cego, ainda se assume gay. Bem presente é o sentimento de rejeição à
homossexualidade, expressa nas falas que remetem ao direito das pessoas em não aceitar ou
não gostar de ver as manifestações homoafetivas. Consequentemente, surge o medo que pode
representar este estigma em uma sociedade tão rígida, onde o controle e vigilância dos pais
também são lembrados, nos papéis rígidos de gêneros desde quando eram criancinhas. Muito
marcante no discurso destas e destes adolescentes foi a presença de sexismo, quando, apesar
das críticas ao sistema machista que penaliza suas mães, é validado e atualizado nas suas
próprias falas. Mas nesta discussão surgem também colocações que igualam homossexuais e
heterossexuais, como quando o assunto é a participação de pais e mães na educação das
crianças, em antagonismo aos discursos do grupo focal E3 de adolescentes, quando ficou
claro que, em suas concepções, famílias homoparentais não seriam boas para formação de
crianças.
Foi realizada no dia 21 de agosto, às 21hs, a entrevista com a transexual Valentina, exaluna de duas das quatro escolas que participaram da pesquisa, com 28 anos de idade,
profissional do sexo, concordou em conceder uma entrevista em um bar no centro da cidade.
Poucas horas antes do encontro, conforme acordado no dia anterior, quando foram feitas as
combinações de local e horário da entrevista, ela fez contato telefônico, querendo refazer o
acordo. Desejava propor um valor financeiro, em que lhe fosse pago pela pesquisadora o
mesmo que seus clientes pagam pela hora de seus serviços. Então foi dito para Valentina que,
embora muito justa a proposta, pois que cada profissional sabe quanto custa suas horas de
trabalho, esta opção, neste caso, não seria viável, pois, estava explícito no Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, que ela em breve, antes de iniciar a entrevista, teria em
mãos e assinaria, que este estudo não teria qualquer remuneração ou outra forma de
gratificação material. Valentina titubeou, mas concordou em continuar com o planejado e, em
alguns minutos, estavam no local combinado para a leitura e assinatura do termo e gravação
das declarações dela a respeito do tema.
60
Valentina falou muito em essência, em se perceber desde criança como menina, como
mulher, embora perdida em “um mundo que não é o dela”, em “um corpo que não era da
mulher como ela se sentia”, como se comportava. Falou do desejo de adaptar aquele corpo
“àquela sua essência”. Por várias vezes fez apartes em suas colocações, que sugeriam uma
depreciação da transexualidade, como quando disse que assumiu sua sexualidade, porém,
“com o nome limpo, sem passagem na polícia”. Ou quando disse que “sempre soube que era
diferente, os pais sempre sabem quem estão criando, só que, a sua mãe lhe deu uma boa
educação, e ainda, quando ela falou que era transexual, mas, fazia exames de HIV
periodicamente”. Embora seu discurso tenha sido de quem não tenha que provar nada para
ninguém, existe um atravessamento de transfobia introjetada, revelando sentimento de
desvantagem, desvalia por ser quem é, tendo que materializar constantemente nas provas de
que seja uma pessoa ”limpa e de bem”. Inclusive quando citou, por duas vezes, estar se
comportando como pessoa e não como um animal. A palavra respeito repetiu-se muitas vezes,
quando dizia que “respeitava quem a respeitava também”, insinuando que revidava violências.
Falou com resignação sobre um preconceito que vai carregar pelo resto da vida, de estar presa
a deboches e perseguições, “como uma prisioneira que cometeu um crime que não escolheu”,
como escolheu modificar o corpo e a prostituição.
Em 27 de agosto, realizou-se o último grupo de discussão deste estudo. Aquele foi um
grupo de adolescentes. Estavam presentes 4 alunos e 12 alunas. Depois de assistido o filme
curta metragem, iniciou-se a discussão. No discurso daquelas/es adolescentes destacaram-se
concepções muito lúcidas, como que a educação no combate ao preconceito esteja
favorecendo a permanência de homossexuais nas escolas, enquanto no passado isto não
acontecia, pois, alguém disse, sua mãe “nunca ouvira falar que não era para ter preconceito”.
Com clareza definiram a aceitação, ao considerar muita hipocrisia alguém dizer que aceita a
homossexualidade, mas não na sua família. Este foi o único grupo onde apareceu a aceitação
plena dos direitos iguais, ao casamento e adoção de crianças para casais homoafetivos.
Disseram que as pessoas ainda estranham ver nas ruas, mas que vendo na televisão vão se
acostumando. Não seria uma escolha de alguém o que os outros vão viver. Pontuaram que
assistir gays na televisão é muito antigo, desde a infância assistiam, e então a aluna comete
um ato falho ao dizer que os antigos abortavam o homossexualismo até nos Trapalhões. Ela
queria dizer abordavam. Riu e refez a frase. Mas seu lapso tem sentido, pois realmente aquela
abordagem da homossexualidade era um abortamento de estereotipia caricata, que mais
ridicularizava e estigmatizava aos e às homossexuais, que sofriam ao ser associado/as aqueles
61
personagens, recebendo apelidos na escola. Ainda lembraram que muitas pessoas que são
preconceituosas já não o revelam por medo das consequências. E isto pode ser notado ao
longo deste estudo, quando discursos politicamente corretos mal conseguiram disfarçar o
preconceito e aversão às diferenças.
Com o encerramento da coleta de dados junto às alunas e aos alunos adolescentes, aos
professores e professoras, e também à transexual ex-aluna das escolas públicas de ensino
médio selecionadas para este estudo, passou-se à análise dos discursos dos mesmos a fim de
entender-se a produção de sentido sobre as homossexualidades, heteronormatividade e
heterossexismo.
Abaixo, o quadro demonstrativo dos/as sujeitos/as desta pesquisa:
ESCOLA
PROFESSORAS
PROFESSORES
ALUNOS
ALUNAS
EX ALUN
MEIO
E1
00
00
00
01
E2
32
07
04
08
E3
00
00
00
06
Rural/periferia
E4
26
03
04
17
Rural/dif. Acesso
TOTAL
58
10
08
32
Urbano/periferia
01 TM
01
Urbano/centro
109
Após a realização dos grupos de discussão, ocorreu as transcrições das gravações em
áudio dos discursos para que melhor pudesse ser feita a análise da produção de sentidos. De
acordo com as necessidades da pesquisadora, mapas foram desenhados até se conseguir
entender como se articulavam estas ideias a partir do que foi sendo dito e, também, o não dito.
Durante o período de pesquisa, várias vezes a presença da pesquisadora foi solicitada
em uma das escolas, a fim de prestar assessoria em relação às dificuldades de manejo em um
caso de criança transexual. Ainda foram solicitadas palestras para professoras e professores
nestas mesmas escolas, assim como participações especiais em aulas dentro da universidade
sobre o tema diversidade sexual e homofobia, nos cursos de Administração, História e
Psicologia. Em projetos de cinema e psicologia, quando ocorreram debates a partir de filmes
exibidos para públicos inscritos, tanto promovidos pela UNISC, como pela ULBRA, a
pesquisadora participou como debatedora, sendo, na última vez, na sede da 6ª CRE, com
62
coordenadoras/es de ensino. Também a participação em roda de conversa promovida por
coletivo feminista e para compor a mesa de debate sobre o tema na Semana Acadêmica do
Curso de Psicologia da UNISC.
No dia 21 de novembro deste mesmo ano, no município de Venâncio Aires, enquanto
esta pesquisadora concluía estes estudos, aconteceu, às 09 horas e 30 minutos, no Cartório de
Registro Civil de Venâncio Aires o primeiro casamento homoafetivo do município. Um
acontecimento de grande relevância, marco histórico para esta comunidade, quando duas
pessoas que já viviam em união estável há 22 anos, assumiam assim seus direitos ao
casamento e veio, desta forma, reforçar as referências positivas para as tantas e os tantos
adolescentes não heterossexuais que ainda desconhecem
enquanto cidadãos e cidadãs.
suas possibilidades e direitos
63
CAPÍTULO III
Sexismo na escola: Presente!2
Resumo: Este estudo é resultado da análise da produção de sentido de discursos de
professoras e professores produzidos em grupos de discussão, organizados com objetivo de
investigação dos efeitos da heteronormatividade
dentro da escola. É um estudo qualitativo
onde foram ouvidas 58 professoras e 10 professores em escolas estaduais. Os níveis de
rejeição às homossexualidades, lesbianidades e transexualidades, ainda que disfarçados por
um discurso politicamente correto, revelaram o entrecruzamento de crenças solidamente
fundamentadas no sexismo e no desconhecimento a respeito da sexualidade humana e suas
possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento mantém preconceitos e tabus que podem
estar tornando educadores e educadoras guardiãs/ões da norma heterossexista, o que gera
intenso sofrimento psíquico dentro da escola. Estes resultados apontam para a necessidade de
criação de políticas públicas voltadas não somente para facilitar a capacitação destes
professores e professoras nos campos de estudos da sexualidade humana, mas, sobretudo para
viabilizar a interdisciplinaridade dentro das escolas.
Palavras-chave: Heterossexismo; Sexismo; Profissionais da educação; Escola.
Sexism in school
Abstract: This study is the result of analysis of the production of meaning teachers speeches
and teachers produced in discussion groups, organized with the objective of investigating the
effects of heteronormativity within the school. It is a qualitative study which were heard 58
teachers and 10 teachers in state schools. Rejection levels to homosexualities, lesbianidades
and transexualidades, though disguised by a politically correct discourse, revealed the beliefs
of intersection solidly based on sexism and ignorance about human sexuality and its
possibilities. It is noticed that this ignorance keeps prejudices and taboos that may be making
2
Sendo coerente aos estudos de gênero, entendendo a linguagem como espaço de produção de inclusões e de
exclusões, evitarei, ao longo deste texto, o uso da forma masculina como signo genérico referente a ambos os
gêneros: feminino e masculino, nomeando, sempre que possível, as duas formas .
64
educators guardian / s of heterosexist norm, which creates intense psychological distress
within the school. These results point to the need to create public policies not only to facilitate
the training of these teachers and teachers in the fields of studies of human sexuality, but
above all to enable interdisciplinarity within schools.
Keywords: heterosexism; sexism; Education professionals; School.
Introdução
Este estudo em escolas públicas de ensino médio teve como objetivo a escuta de
professoras e professores para fins de obtenção de dados para a pesquisa que investiga os
efeitos da heteronormatividade dentro da escola. A queixa recorrente, desde os primeiros
contatos com gestores e gestoras, sempre foi de maus tratos entre alunos e alunas e
perseguições, brincadeiras que perturbavam as aulas, o bullying. Neste caso, de natureza
lesbo-trans-homofóbica. Duas escolas referiram a existência de aluno e aluna transexuais, o
que parecia causar bastante incômodo para professores e professoras, principalmente nas
situações de uso de banheiro e uso de nome de registro na lista de chamada. Desta forma, este
pareceu mesmo ser um momento bem interessante para se realizar este estudo, quando se
poderia levantar discussão de temas tão relevantes, como sexualidade, homossexualidades,
heteronormatividade, heterossexismo, lesbo-trans-homofobia, violências e preconceito.
As relações de poder dentro destas escolas parecem estar muito bem estabelecidas nas
figuras da direção, profissionais de educação e estudantes em última escala hierárquica.
Porém, por trás deste aparente esquema pressuposto, paira toda uma estratégia de
sobrevivência, tecida em engendramentos nada simplificados, regida por regras também nada
explícitas: o dispositivo da sexualidade.
Discutir os efeitos deste dispositivo, a sexualidade, atravessado ainda pelas questões
de gênero e diversidade sexual, fundamentada pela lógica de Michel Foucault, Judith Butler,
Guacira Louro, Simone Beauvoir, entre muitas outras teóricas, permitirá entender o fenômeno
que ora se revela neste estudo, na análise da produção de sentido dos discursos de professoras
e professores.
Sexualidade, gênero e diversidade sexual
A sexualidade, essa presença insidiosa, insistente, incontrolável, é então percebida
como um dispositivo de poder. Este dispositivo surge quando o sexo se tornou um foco
65
privilegiado para o controle disciplinar do corpo e para a regulação dos fenômenos da
população. Com o dispositivo da sexualidade os mecanismos do poder se dirigem ao corpo, à
vida, ao que faz proliferar, ao que reforça a espécie, vigor, capacidade de dominar, ou sua
aptidão para ser utilizada, diz Foucault (1985). Saúde, progenitura, raça, futuro da espécie,
vitalidade do corpo social, quando o poder fala da sexualidade e para a sexualidade.
Nas sociedades cristãs, o sexo tornou-se algo que era preciso examinar, vigiar,
confessar e transformar em discurso. Podia-se falar de sexualidade, porém, somente para
proibi-la. O esclarecimento, e a iluminação da sexualidade se deram nos discursos e na
realidade das instituições e das práticas, de acordo com Foucault (1985). Proibições faziam
parte de uma economia mais complexa. Pois, vivemos em uma sociedade que produz
discursos e que logo os transforma em discursos verdadeiros e resulta na formação de poderes
específicos. Assim, estas verdades produzidas em relação à sexualidade tornaram-se um
problema no Ocidente, resultando na repressão sexual. Talvez esta multiplicidade de vozes se
elevando, na destituição dos poderes sagrados, até então, não questionáveis, provoquem esta
estranheza que se ouve agora com frequência, na crítica aos neologismos, nas tentativas de
apropriação dos fenômenos e reapropriação de identidades outrora confiscadas pelo saber
médico.
Sexualidade, define ainda Foucault (1985), é o nome que se pode dar a um dispositivo
histórico e não a uma realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande
rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação
ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências,
encadeiram-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder.
A sexualidade, segundo Marco Aurélio Prado (2008), é um construto complexo que
relaciona fatores biológicos, psicológicos, socioeconômicos, culturais, entre outros, difundida
e aprendida por meio da inserção na cultura, que orienta o imaginário e comportamentos. E,
conforme Guacira Louro nos lembra (2007), a sexualidade está na escola porque faz parte dos
sujeitos, independentemente de haver aula de educação sexual, se há discursos ou intenção
manifesta de se falar em sexualidade. Ela está lá porque não pode ser ligada ou desligada.
Gênero, segundo Butler (2003), são os significados culturais assumidos pelos corpos e,
sendo assim, não se pode dizer que ele decorra do sexo desta ou daquela maneira, como se
tenta impor socialmente, quando se diz que isto ou aquilo é modo de menina ou de menino.
Pensando-se então em corpo sexuado e gênero culturalmente construído, a autora nos
66
apresenta uma descontinuidade desta lógica associativa dos únicos dois gêneros, colados ao
sexo, para fazer pensar na possibilidade de uma multiplicidade de gêneros. Desta forma, o
gênero é uma identidade mantida pela reiteração e repetição destas normas que se cristalizam,
como se fosse uma verdade carnal, incontestável.
Heteronormatividade, segundo Louro (2009), é a produção e a reiteração compulsória
da norma heterossexual, só possível pelo alinhamento entre sexo, gênero e sexualidade,
quando se supõe que todas as pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, discriminando,
privando e punindo quem ouse escapar à regra imposta. É a capacidade, diz Bento (2008), da
heterossexualidade se apresentar como a lei que regula e determina a impossibilidade de vida
fora das suas normas. Uma regulação que dá inteligibilidade cultural de modelo hegemônico
de gênero, naturaliza corpos, gêneros, dando coerência e sentido somente se houver um sexo
estável expresso mediante o gênero estável, masculino expressa homem e feminino expressa
mulher.
Roger Raupp Rios (2009) aponta para a ideologia e sistema heterossexista, frente ao
binômio
heterossexualidade/homossexualidade,
como
critério
distintivo
para
o
reconhecimento da dignidade dos sujeitos e distribuição dos benefícios sociais, políticos e
econômicos, uma vez que o pertencimento a grupos inferiorizados implica a restrição, quando
não a supressão completa e arbitrária de direitos e de oportunidades, por razões jurídicoformais, pelo simples exercício da força física bruta ou em virtude dos efeitos simbólicos das
representações sociais.
O termo heterossexismo seria então o mais adequado para designar a discriminação
contra homossexuais e por todos aqueles que desafiam a heterossexualidade como parâmetro
de normalidade, ligada às raízes culturais, sociais e políticas, diz Rios (2009). Enquanto a
palavra homofobia estaria mais diretamente relacionada à dinâmica subjetiva desencadeadora
do desprezo às pessoas homossexuais, como os medos e ódios. O autor ainda aponta para a
proliferação de outros termos objetivando designar formas correlatas e específicas de
discriminação, tais como transfobia, relacionada a travestis e transexuais, a lesbofobia ligada a
lésbicas e bissexualfobia
voltada contra bissexuais. Desta forma, optou-se em adotar neste
estudo o termo lesbo-trans-homofobia a fim de dar maior visibilidade a estas expressões do
mesmo fenômeno, negando-se a invisibilizá- los.
67
Neste estudo, ouvindo profissionais da educação, procurou-se descobrir quais os
efeitos da heteronormatividade dentro da escola, circulando nos discursos, nos saberes, nas
relações, no cotidiano de professoras e professores, alunas e alunos.
Método
Esta é uma pesquisa qualitativa, observacional, descritiva, interpretativa que acontece
a partir da análise das práticas discursivas de professoras e professores ouvidos em grupos,
aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul e
registrada sob o número 22102313.1.0000.5343.
O sentido, segundo Spink e Benedito Medrado (2013), é uma construção social, um
empreendimento coletivo e interativo, através do qual as pessoas, na dinâmica das relações
sociais histórica e culturalmente localizadas, constroem os termos a partir dos quais
compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta. Dar sentido, dizem a autora
e o autor, é sempre uma atividade cognitiva, que implica no uso de conexões neurais habituais
desenvolvidas pela experiência no enquadre das contingências do contexto cultural e social. A
articulação com o contexto cultural e social pressupõe a interface entre o tempo histórico, em
que se inscrevem os conteúdos imaginários derivados das formações discursivas de diferentes
épocas, e o tempo vivido, em que se inscrevem os conteúdos derivados dos processos de
socialização primária e secundária.
Práticas discursivas, ainda segundo Spink e Medrado (2013), correspondem aos
momentos ativos do uso da linguagem, onde convivem tanto a ordem como a diversidade,
envolvendo a linguagem em ação, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos
e se posicionam em relações sociais cotidianas. Estas práticas discursivas têm como
elementos constitutivos a dinâmica, as formas e os conteúdos, que são os repertórios
interpretativos.
O município escolhido para realização deste estudo localiza-se na região do Vale do
Taquari, no interior do Rio Grande do Sul.
Com uma população aproximada de 69.521
habitantes, segundo dados do IBGE (2014), bem distribuída entre o meio rural e a região
urbana, originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade
para trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada
no cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra.
O município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco,
assim como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate.
68
De acordo com informações colhidas na própria Secretaria de Educação (PMVA, 2013),
o município possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas Municipais de
Ensino Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de Ensino Médio.
A rede privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil até ao Ensino
Médio e 7 Escolas
de Educação Infantil. O Instituto Federal de Educação Ciência e
Tecnologia – IFSUL- disponibiliza vagas para Ensino Médio e Técnico.
Além disto,
a
população ainda conta com vários cursos técnicos profissionalizantes, como a Escola do
Sistema SENAI e um campus universitário, com cursos como Pedagogia, Direito e
Administração.
O método escolhido para coleta de dados para este trabalho foi, incialmente, o de
formação de grupos focais, mas, devido ao número de participantes, converteu-se em grupos
de discussão. Para o estudo dos resultados, procedeu-se a análise da produção de sentido a
partir dos discursos obtidos. Os sujeitos e sujeitas de pesquisa foram professoras e professores
de escolas de ensino médio. Todos e todas assinaram Termos de Consentimentos Livre e
Esclarecido. Apenas dois, dos quatro grupos planejados, aconteceram porque as escolas E1 e
E3 não desejaram formar grupos de docentes para discussão do tema. A estratégia do grupo
consistiu na exibição do filme curta metragem, intitulado “Não quero voltar sozinho”, de
Ribeiro (2010), como disparador das discussões.
Professores e professoras pertenciam às áreas da matemática, da linguagem, das
ciências da natureza e das ciências humanas, além de orientadoras educacionais, supervisoras
de ensino, psicopedagogas, diretoras e diretores. Os discursos foram gravados, conforme
constava no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e depois transcrito para que
pudesse ser feita a análise da produção de sentido. Quanto ao perfil das/os participantes,
observe-se o quadro demonstrativo:
Escolas
Professoras
Professores
Total
MEIO
E2
32
07
39
Urbano/centro
E4
26
03
29
Rural/dif. Aces.
Total
58
10
68
Resultados
69
As categorias emergem dos sentidos produzidos e materializados, neste caso, nas
palavras, nos silêncios, nas metáforas, nos lapsos. A palavra carrega sentido e, quando este
sentido remete a relações assimétricas de dominação e poder entre os gêneros, serão
classificadas como SEXISTAS. Entre as falas consideradas carregadas de ideologia sexista,
podemos ainda detectar outros efeitos secundários, que passam a ser sub-categorizados como
da RESPONSABILIZAÇÃO e da CULPA, quando o discurso fala da auto-percepção do/a
sujeito/a como responsável pelo evento ou culpada pelas consequências deste. O discurso de
ACEITAÇÃO da homossexualidade emerge em diversas falas, quase sempre entrecortado de
ressalvas, configurando uma categoria.
A seguir, a análise de alguns destes discursos.
A aceitação
No discurso de uma professora, o relato de caso de sua própria família, onde duas
mulheres vivem uma relação homoafetiva, e a espera da aceitação do pai de uma delas. O
silêncio deste é a resposta. Fica implícito o poder deste pai na necessidade da aprovação para
que se deem as mãos diante da família, e, desta forma, simbolicamente, se legitimar a relação
que já é conhecida de todos. Mas que ele mantém na invisibilidade e, principalmente,
silenciada.
M3- Elas, elas moram juntas, na mesma casa, os filhos da mulher aceitam, só que elas
evitam quando estão assim no grupo familiar de ficar ah... Se agarrando, se beijando, mas
toda a família... Aceita, ou não sei se é bem aceitar... Principalmente o pai dela, assim...
Ele procura não... Não questionar. E... eee um dia ela colocou prá minha mãe... Essa
minha prima, que elaaa... Ela queria que o pai aceitasse assim, ãaah... Na boa, de aceitar
que elas andassem de mão... Né... Que elas fossem assim andar como um casal, né. Mas
ele... Ele não diz que ele é contra, mas ele também não dá abertura prá que elas... Se
manifestem assim né... Então elas aparentemente assim são duas mulheres que moram
junto, mas, não... Na família...
Ainda quando a professora fala na aceitação, diz que toda a família aceita a relação das
duas mulheres. Depois vacila, pensa e demonstra desconfiar desta aceitação. Naquele
momento, quando faz a narrativa, parece perceber que a situação vivida pela prima e sua
companheira não seja de aceitação pela família. Buscando o verbete aceitar no dicionário
3
As falas serão codificadas com M para de mulheres e H para de homens.
70
formal, Ferreira (1989), encontra-se as seguintes definições: 1.Consentir em receber (coisa
oferecida ou dada); 2. Concordar com; 3. Ter como bom ou certo; 4. Assentir em algo.
Não se pode saber se realmente esta família aceita a relação homoafetiva, pois ela está
invisibilizada, disfarçada como amizade de duas mulheres. Mais aproximada ao conceito de
aceitação está a posição delas em relação à família, pois que as duas mulheres concordaram
com as regras do pai, consentem com a imposição dele, receberam o que lhes foi oferecido,
apesar de não parecer que tenha sido de bom grado, já que ainda tentam obter a permissão
deste pai para poderem assumir a relação. Então, pode-se dizer que sejam elas quem aceitam
ao pai lesbofóbico, e não o pai, à filha lésbica e sua companheira.
Na obra de Sara Salih (2012), Butler lembra que o poder é também uma condição do
sujeito, sem a qual ele não poderia existir como um agente. Este sujeito, mesmo imerso nas
estruturas de poder, é um agente. O sujeito necessita do poder para ser um sujeito e sem o
poder não haveria possibilidade nem para o status de sujeito e nem para agência de poder. O
sujeito emerge como o efeito de um poder prévio que ele também excede, mas o poder
também age sobre o um sujeito que parece anteceder, mas não o faz. Nessa relação
ambivalente do sujeito com o poder, ele depende do poder para sua existência, mas também
exerce poder sob formas subversivas inesperadas. Assim podemos pensar esta relação pai e
filha, de assujeitamento, a assimetria e subordinação, denunciada na própria palavra aceitar,
em
que
já
fica
implícita
uma
superioridade,
uma
hierarquia
do
grupo
familiar
predominantemente heterossexual, sendo condescendente em receber entre eles e elas aquelas
duas pessoas que ousam romper com a norma instituída, mas não sem restringir-lhes os
direitos. Tão claro este fenômeno, que a professora, prima da vítima da discriminação
familiar, gagueja, vacila em pronunciar a palavra aceitar, percebendo ao falar, os processos
atravessados naquele discurso.
O discurso sexista
O sexismo compreende avaliações negativas e atos discriminatórios dirigidos às
mulheres em função de sua condição de gênero, conforme Lips (1993), e pode manifestar-se
sob a forma institucional ou interpessoal, sendo que contextos institucionais sexistas
favorecem comportamentos e relações interpessoais sexistas, segundo com Lott e Maluso
(1995).
O segundo relato de professora apresenta uma fala sobre uma situação vivida por um
aluno e na sequência suas colegas partem logo para a crítica sobre a mãe desta criança. Um
71
professor também expressa sua opinião sobre a mãe, ao compará-la com uma chocadeira. Em
seguida, outra colega faz ainda um comentário que insinua que dar-se ao direito de vivenciar
sua sexualidade, seus desejos e afetos seja um comportamento esperado somente de um
homem.
M- A profe falou ali a questão antes de ser... O pai ser de outra geração, mas eu tenho um
aluno que a mãe sofreu muito com o pai dele, diversas situações. E agora ela está com
uma companheira. E ele não aceita. Ele deve tá com uns quinze anos. E ele não aceita de
jeito nenhum, ele já saiu de casa prá morar com outros parentes prá não tá... E ele quer
por que quer, do jeito dele, forçar a mãe a largar a companheira e voltar, deixar... Ele
volta prá casa se ela abandonar essa situação. E aí a gente tenta conversar na aula, a gente
tenta fazer este papel de... Não, para aí, vamos rever...
M- A cabeça da mãe!
M- Por quê?
M- Da mãe! Mas pensa um pouco! Primeiro... A minha concepção assim: Depois que eu
sou mãe, primeiro eu tenho que olhar pelos meus filhos. Se a minha relação não é boa
com os meus filhos... Com quem vai ser? Então eu vou jogar meu filho...
H- Mas existe um conceito de mãe chocadeira nessa vida. Choca e... Dá o que dá.
M- É primeiro o filho, depois...
M- Se fosse homem... Claro!
M- (...) Ninguém é obrigada a ficar junto, mas assim, ó: Ah, eu tenho um, sei lá, no caso
do meu pai, eu tenho um irmão lá que minha mãe nunca imaginou... Então a criança fica
assim muito dividida, muito... Muito perdida. Eu acho que é nesse sentido... Eu pensaria
assim, é nesse sentido. Pensar mais no filho e não se desesperar em cuidar do lado afetivo
dela.
Interessante notar que em nenhum momento surge questionamento em relação ao
sofrimento vivido pela mãe mencionado no início do relato, ou sobre o abandono do filho por
parte do pai. Apenas a mãe é responsabilizada, como se fosse dever somente dela os cuidados
e criação do filho.
Para Eni Orlandi (1999), o efeito metafórico e o deslize, ambos da ordem do simbólico,
e o lugar de interpretação, da ideologia, da historicidade, são próprios da relação do discurso e
da língua, uma vez que estes efeitos metafóricos e deslizes nas interpretações que apontam
72
para a duplicidade do discurso que a psicanálise revela o inconsciente e, na análise do
discurso envolve a ideologia. Sendo assim, o efeito metafórico está apontando para a base de
constituição dos sentidos dos sujeitos, diz a autora. A escolha da metáfora pelo professor não
deixa de ser reveladora quanto ao sentido que o grupo dá à paternidade. Falando-se de uma
situação em que duas pessoas têm um filho e uma delas é comparada à chocadeira, quem é a
outra pessoa ausente de quem ninguém pensa ser necessária a presença para a sobrevivência
desta criança? O galo? Isto seria uma interpretação ou uma dedução? Eis um ato psicanalítico.
A maneira como homens e mulheres estão colocados dentro desta construção social das
masculinidades e feminilidades produzidas em diversos contextos histórico-socioculturais
produzem
formas
diferenciadas
da
vivência
do
sofrimento
psíquico.
Os
papéis
desempenhados pelas mulheres na sociedade, como esposas, mães, educadoras, cuidadoras,
além da participação cada vez mais essencial no mercado de trabalho, resulta em uma
sobrecarga que pode levar a intenso sofrimento psíquico destas. Este sofrimento é
intensificado por fatores decorrentes da discriminação sexual, como desfavorecimento
econômico, trabalho em excesso, as violências doméstica e sexual, segundo Anna Maria
Santos (2009).
Para Simone de Beauvoir (2009) não há mãe desnaturada, visto que o amor materno
nada tem de natural. A autora ressalta que, em vista das tantas neuroses de que sofrem os
adultos, com raízes no passado familiar, de seus pais, de seus próprios conflitos e seus dramas
pessoais, são por isto mesmo para seus filhos, muitas vezes, más companhias, mães más
mesmo. E a isto a autora justifica evocando as tantas discriminações, frustrações, proibições,
limitações de direitos a que as mulheres têm sido historicamente submetidas, quando lhe são
recusadas carreiras tidas como masculinas, proclamadas incapacidades em determinados
campos ao mesmo tempo em que lhe é confiado um empreendimento tão delicado quanto a
formação de um ser humano.
Os discursos vão validando os ditos machistas, como se fossem verdades imutáveis, e
que vêm sobrevivendo, justamente por ser reeditadas e reproduzidas, atualizadas nas falas
informais como nestas, entre jovens professores e professoras, que há pouco reclamavam das
violências de alunas e alunos, apesar dos tantos cartazes espalhados pelas paredes, corredores
da escola, falando de uma campanha contra o bullying.
Na sequência, a fala de outra professora refere a autoridade do pai em deixar a esposa
colocar a roupa na cor que ele não julgue adequada para garantir a masculinidade de seu filho.
73
Reparem que ela não fala em pai e mãe, o que igualaria o casal, em uma simetria. Mas fala em
pai, porque está falando na relação deste homem com o filho, protegendo-o. Porém, quando
fala do pai da criança em relação à mulher, ela fala em esposa. Porque ela é esposa dele. Ou
seja, é dele, propriedade dele. E isto fica implícito neste discurso perpassado pelo sexismo.
Ela duvida que qualquer pai deixe a esposa colocar tal roupa no filho. Como se a mulher
dependesse total e completamente desta permissão, da autorização, e mais, que o filho
precisasse desta proteção, da defesa do pai à sua macheza, contra os erros que a mãe possa a
vir cometer na criação.
M- Eu duvido que algum pai, qualquer pai, que deixe a esposa colocar no bebê, filho
homem, um sapatinho que tenha um pouquinho de rosa ou amarelo...
Embora a escola deva ser o local de todos e todas, para além das condições sociais e
etnias, preconceitos ali se fazem presente, reforçando as desigualdades. Na escola, enquanto
espaço cultural por excelência, onde as crianças convivem grande parte de suas vidas,
modelos de identidade de gênero, tanto nas interações cotidianas quanto no material didático,
são reforçados nos papéis estereotipados
da identidade de meninos e meninas, quando
mulheres são representadas comumente em situações de docilidade doméstica e inferioridade
diante da capacidade dos homens na resolução de problemas, de acordo com Sissi Pereira
(2010). Valores relacionados a preconceitos, estigmatizadores de determinados grupos étnicos
ou de gênero, circulam pela sociedade e são internalizados, influenciando na construção do
autoconceito.
Jogo de saber
Nas falas destas professoras evidencia-se a angústia de quem se depara ainda com o
desconhecido, expresso claramente em suas indagações. Pois este é conteúdo não
disponibilizado nas capacitações e formações destas e destes profissionais.
M- É uma moça... Não. É um rapaz... Um gay, né! Como é que a gente chama?
A professora não sabe como nomear aquela pessoa na sua frente. Ela enxerga uma
moça. Ela enxerga uma pessoa do gênero feminino, mas não se autoriza a nominá-la como
mulher. Então vacila, gagueja. Pergunta. Há estranheza na sua fala. Ninguém a socorre.
Se os movimentos das comunidades LGBT têm resultado em uma maior visibilidade,
também têm trazido novos questionamentos às escolas, quando o tema provoca certa
74
perturbação, já que exige a revisão de posicionamentos, dos paradigmas e a construção de
novas referências a partir da consciência de que códigos culturais estão presentes em todas
nossas manifestações sociais, diz Louro (2003).
M- Acho que ela é muito criança. Ela mora lá perto de casa... Ela mora lá perto de
casa e meu filho um dia, ele entrou no pátio... Ela entrou no pátio, e ele disse: mãe,
aquele gurizinho tá batendo lá! Daí eu tive que explicar: L, não é, não é... Ele é uma
menina... Daí eu tive que explicar todo o processo e ele ficou me olhando... ãaa... Ah, mas
parece um menino, né mãe? Daí, sabe... Daí tu tem que explicar por causa da criança é
difícil de... Imagina um adulto... Uma criança assim, né...
A heterossexualidade, segundo Daniel Borrillo (2010), aparece como o padrão, a
referência que balizará todas as outras sexualidades, de forma que esta forma normativa, ao
encarnar um ideal, passa a ser constitutiva de uma forma específica de dominação: o
heterossexismo.
Este é a crença em uma hierarquia das sexualidades, outorgando
superioridade à heterossexualidade. Sendo assim, todas as demais formas de sexualidade são
consideradas incompletas, acidentais, perversas, ou ainda, patológicas, criminosas, imorais e
destruidoras da civilização.
A percepção de que haja uma grande confusão, já que elas e eles próprios, professores
e professoras, estão muito atrapalhados com estas questões de gênero e sexualidades, pode
estar fazendo com que sintam a necessidade de ajudar as crianças, meninos e meninas,
tentando explicar-lhes o que nem eles e elas estão conseguindo entender. Como no discurso
acima, da professora, em que ela fala da conversa com seu filho pequeno. Esta atitude, em
relação às crianças e adolescentes transexuais, além de desnecessária, pois a criança não havia
perguntado se o visitante era um menino ou uma menina, ainda gera um mal estar, um
desconforto que vulnerabiliza a criança que é denunciada. Assim como acontece quando o
nome de registro é usado na chamada, o uso do banheiro, a fila separando por sexos, as
divisões na educação física e outras tantas situações em que o sexo da pessoa é posto em
evidência, a antecede, como se nada mais importasse naquele momento.
E se fosse comigo? Responsabilidade e culpa
Mas este discurso vai mais além. Ele fala desta dificuldade em explicar ao filho algo
difícil para ela mesma. Algo que para o filho pareceu tão fácil entender. Ele viu um menino e
para ele era um menino. Para aquela professora aquele não podia ser um menino e ela
precisava desfazer o engano. Ela precisa corrigir aquilo. Porque ela é uma educadora e uma
75
mãe. Como ouvimos nos discursos desde o início deste estudo. Em tantas falas e em tantas
outras que não couberam aqui. E as mulheres, segundo o que foi dito naquele grupo de
discussões, são responsáveis pelos/as filhos/as, e culpadas também. Não podem pensar em
seus amores, não podem pensar em seus desejos enquanto não os/as tiverem criado. Porque,
sentem-se responsáveis e culpadas pelos desejos e escolhas destas/es. Por isto, lhes escapa nas
palavras o medo da culpa, cuja pena já está sentenciada em toda esta rejeição machista lesbotrans-homofóbica que se voltaria contra elas e suas crianças. E ela “choca”...
M- A situação. A gente vendo de longe é... A gente tem um olhar diferente...
Agora, se acontece na família da gente... Eu acho que... Aí a gente... Sofre muito. Não
sabe?
M- E se fosse na minha família?
M- Prá mim assim foi, assim a gente... Mas a maioria fala que é normal. Mas no
momento que te depara com uma situação e uma cena dessas não é tão normal. Eu já me
choco. Eu fico imaginando o dia em que pode acontecer na família, sabe? Como tu vai
conduzir. Porque enquanto tu vê no outro, é fácil, mas quando tiver próximo de ti, da tua
família, ou assim, perto...
Martha Narvaz (2005) diz que a condição feminina na contemporaneidade, decorrente
do modelo patriarcal, confere às mulheres uma posição de desvalorização em relação aos
homens, em relações hierarquizadas que devem ser problematizadas pela psicologia.
Beauvoir (2009) diz que muitas vezes a mulher tem dificuldades em conciliar o
trabalho fora de casa e os interesses e cuidados de seus filhos. Isto porque o trabalho feminino
ainda ocorre, frequentemente, em regime de escravidão, já que os cuidados, a guarda e
educação das crianças ainda são de responsabilidade da mulher. Trata-se, diz a autora, de uma
carência social, justificada em uma lei inscrita no céu ou nas entranhas da terra que determina
que a mãe e o filho se pertençam exclusivamente, em mútua pertinência, que na verdade
constitui uma dupla e nefasta opressão.
Seria melhor, completa Beauvoir ( 2009), desejável mesmo para o bem da criança, que
a mãe fosse uma pessoa completa e não mutilada. Uma mulher que encontrasse em seu
trabalho, em sua relação social, a realização pessoal e que não a buscasse através desta
criança, tiranicamente.
Considerações finais
76
A análise da produção de sentido a partir de discussões de professoras e professores
em grupos resultou na manifestação da rejeição da homossexualidade e transexualidade,
embora o esforço de algumas profissionais de tentar entender estes processos, em discursos
marcados pela reprodução de expressões de discriminação de gênero, representativas de
definições estáticas de papéis de mulher e de homem, que soavam como ameaças a quem
ousasse escapar ao determinismo social machista. Percebe-se também, na angústia dos
questionamentos, o intenso sofrimento daquelas profissionais, acreditando que fosse preciso e
possível evitar a homossexualidade e a transexualidade, na medida em que, embora não
soubessem o que fazer, percebiam-se ainda como responsáveis por manter a ordem ditada
pelas rígidas regras sexistas e heterossexistas.
Pode-se pensar que o desconhecimento a respeito das questões de gênero e
sexualidade, assim como orientação sexual e identidade de gênero, estejam dificultando a
aceitação da liberdade de expressão da sexualidade a que todos e todas têm direito na
sociedade. Pois, a ausência de acesso ao amplo debate e estudos dos campos das ciências
sociais e humanas a respeito deste tão importante aspecto da constituição da/os sujeita/os,
ocasiona que profissionais deparem-se com a realidade provida/os apenas de conceitos morais
e religiosos cristalizados, o que impossibilita reflexões aprofundadas sobre a complexidade da
condição humana.
Procede a conclusão de que este fenômeno aponta para a necessidade de criação de
políticas públicas voltadas não somente para facilitar a capacitação destes professores e
professoras nos campos de estudos da sexualidade humana, mas, sobretudo para viabilizar
uma interdisciplinaridade dentro das escolas, tornando possível a discussão de questões que
até bem pouco tempo eram tratadas somente no âmbito pessoal e individual.
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79
CAPÍTULO IV
Lesbo-trans-homofobia presente na escola.
Joana do Prado Puglia
4
Edna Linhares Garcia
5
4
Psicóloga - Mestra em Promoção da Saúde - PPGPS-UNISC- Residente à Rua 1º de Março,916-Venâncio
Aires-RS- [email protected] - Fone: 51-92164456
5
Doutora em Psicologia- PUC-SP. Profa. do Programa de Pós Graduação- Mestrado em Promoção da Saúde e
do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC. Tutora do PET/Saúde-Redes de
atenção psicossocial aos usuários de crack e outras drogas. Rua Gaspar Silveira Martins, 2510/ 702-Santa Cruz
do Sul-RS. E-mail: [email protected] – Fone: 51-37177603
80
Lesbo-trans-homofobia presente na escola.
81
Lesbo-trans-homofobia presente na escola
Resumo: Este estudo é o resultado da análise de produção de sentido de discursos produzidos
em grupos de discussão de alunas e alunos adolescentes, organizados com o objetivo de
investigar os efeitos da heteronormatividade dentro da escola. Neste estudo qualitativo foram
ouvida/os 32 alunas, 8 alunos adolescentes em grupos de discussão e 1 aluna em entrevista
individual, toda/os de ensino médio em escolas públicas estaduais. Os resultados apontam
para uma forte presença de lesbo-trans-homofobia no ambiente escolar, inclusive com a
rejeição à conquista aos direitos igualitários, como casamento e adoção de crianças em
relações homoafetivas. Este fenômeno pode ser responsável por intenso sofrimento psíquico,
já que, a lesbo-trans-homofobia presente na conformação de subjetividades da/os sujeita/os,
obstaculiza as relações interpessoais saudáveis. Percebe-se a necessidade de criação de
políticas públicas voltadas à capacitação de profissionais dentro da escola, levando a
informação e o debate sobre o tema, de forma que as pessoas possam identificar suas
potencialidades e estratégias6 de enfrentamento e resistências às violências lesbo-transhomofóbicas dentro e fora da escola.
Palavras-Chave: Heterossexismo; Escola; Lesbo-trans-homofobia; Adolescentes.
Lesbo-trans-homophobia present in the school
Abstract: This study is the result of the production of meaning analysis of discourses
produced in discussion groups of students and young students, organized in order to
investigate the effects of heteronormativity within the school. In this qualitative study were
heard / 32 students, 8 adolescent students in discussion groups and one student in a private
interview, all / the high school in public schools. The results point to a strong presence of
lesbo-trans-homophobia in the school environment, including the rejection of achievement to
equal rights as marriage and adoption of children in homoafetivas relations. This phenomenon
may be responsible for severe psychological distress, since the lesbo-trans-homophobia
present in subjectivities conformation of / the subject / the, hinders healthy interpersonal
6
Sendo coerente aos estudos de gênero, entendendo a linguagem como espaço de produção de inclusões e de
exclusões, evitarei, ao longo deste texto, o uso da forma masculina como signo genérico referente a ambos os
gêneros: feminino e masculino, nomeando, sempre que possível, as duas formas.
82
relationships. We can see the need to create public policies aimed at training professionals
within the school, taking the information and the debate on the subject, so that people can
identify their strengths and coping strategies and resistance to lesbo-trans violence
homophobic in and out of school.
Keywords: heterosexism; school; Lesbo-trans-homophobia; Teens.
Lesbo-trans-homofobia presente en la escuela
Este estudio es el resultado de la producción de lo que significa el análisis de los discursos
producidos en los grupos de discusión de los estudiantes y los jóvenes estudiantes,
organizados con el fin de investigar los efectos de la heteronormatividad dentro de la escuela.
En este estudio cualitativo se escucharon / 32 estudiantes, 8 estudiantes adolescentes en
grupos de discusión y un estudiante en una entrevista privada, todos / la escuela secundaria en
escuelas públicas. Los resultados apuntan a una fuerte presencia de lesbo-trans-homofobia en
el ámbito escolar, incluyendo el rechazo del logro de la igualdad de derechos como el
matrimonio y la adopción de niños en las relaciones homoafetivas. Este fenómeno puede ser
responsable de la angustia psicológica grave, ya que el lesbo-trans-homofobia presente en
conformación de subjetividades / sujeto / la, dificulta las relaciones interpersonales
saludables. Podemos ver la necesidad de crear políticas públicas orientadas a la formación de
profesionales dentro de la escuela, tomando la información y el debate sobre el tema, de modo
que la gente pueda identificar sus fortalezas y estrategias de afrontamiento y resistencia a
lesbo-trans violencia homófoba dentro y fuera de la escuela.
Palabras clave: heterosexismo; Escuela; Lesbo-trans-homofobia; Adolescentes.
Lesbo-trans-homophobie présente dans l'école
Cette étude est le résultat de la production de sens analyse des discours produits dans des
groupes de discussion d'étudiants et de jeunes étudiants, organisés pour étudier les effets de
l'hétéronormativité sein de l'école. Dans cette étude qualitative ont été entendus / 32 élèves,
huit élèves adolescents dans les groupes de discussion et d'un étudiant dans un entretien privé,
tous / l'école secondaire dans les écoles publiques. Les résultats indiquent une forte présence
de lesbo-trans-homophobie en milieu scolaire, y compris le rejet de la réalisation de l'égalité
des droits que le mariage et l'adoption des enfants dans les relations de homoafetivas. Ce
83
phénomène peut être responsable de la détresse psychologique sévère, puisque la lesbo-transhomophobie présente dans subjectivités conformation de / l'objet / la, entrave les relations
interpersonnelles saines. Nous pouvons voir la nécessité de créer des politiques publiques
visant à former des professionnels au sein de l'école, en prenant l'information et le débat sur le
sujet, afin que les gens peuvent identifier leurs points forts et les stratégies d'adaptation et de
résistance à la violence lesbo-trans homophobe dans et hors de l'école.
Mots-clés: l'hétérosexisme; École; Lesbo-trans-homophobie; Les Adolescents.
84
Lesbo-trans-homofobia presente na escola
Introdução
No presente estudo aborda-se a temática das homossexualidades e transexualidades a
partir da perspectiva da análise do discurso de alunas e alunos para a produção de sentido e a
construção da subjetividade deste/as sujeito/as na escola. No campo da sexualidade, esta
abordagem adquire relevância a partir deste deslocamento causal para a dimensão das
subjetividades, quando sujeita/os, mergulhados no efeito expressam suas percepções neste
recorte do panorama lesbo-trans-homofóbico no universo escolar.
Entender estas formas de manifestações destes preconceitos e as resistências aos
mesmos, amparadas na fundamentação das teorias de Guacira Louro, Judith Butler, Simone
de Beauvoir, Michel Foucault, entre outras, permitirá uma discussão na análise da produção
de sentido dos discursos de alunas e alunos adolescentes dentro de escolas de ensino médio.
Falando em identidade
A adolescência, para José Outeiral (1994), é uma fase do crescimento humano
caracterizada pela definição da identidade, com início na puberdade, se estendendo até que a
maturidade e a responsabilidade social sejam adquiridas pelo/a indivíduo/a. Inicialmente, a/o
jovem vivencia uma passividade em relação as suas transformações corporais, criando-se a
partir daí um sentimento de impotência frente ao mundo e à realidade. Posteriormente, um
choque entre gerações ocorre, pois a estrutura familiar que ela/e deseja vivenciar é muito
diferente da que foi vivida por sua mãe e seu pai. Sua independência seria o foco central,
incluindo a definição sexual. Na última fase, acontece a busca da identidade profissional e
independência financeira. Luiz Carlos Osório (1992) lembra que é na adolescência que
acontecem as grandes transformações psicológicas e sociais que acompanham o processo
biológico da puberdade e que estes fenômenos não podem ser estudados isoladamente.
Contardo Calligaris (2009) contrapõe a visão essencialista, falando da adolescência
como uma construção histórica e cultural, nascida da necessidade de se questionar sonhos e
realizações, no pós guerra, quando adultos passaram a depositar nos e nas jovens seu desejo
de mudança. Esta passagem, em que a/os jovens situam-se entre a infância e a fase adulta,
sem serem mais reconhecida/os como crianças e ainda não recebendo o devido
reconhecimento como adulto/as, situaria a/os jovens neste período de espera, sem um ritual
85
que marque o seu início ou fim. Por já possuírem certo discernimento, a/os adolescentes não
são mais considerado/as crianças e podem assimilar valores, como o destaque pelo sucesso
financeiro, social, sexual e amoroso, além de seus corpos e mentes já terem atingido
maturação suficiente para que possam atuar nas atividades que garantam tais sucessos. Porém,
ainda é imposta pela sociedade esta moratória, que lhes faz uma série de restrições, resultando
em comportamentos de rebeldia neste período injusto, na medida em que isto seja o esperado
dela/es.
Reconhecer-se como homossexual, lésbica, gay ou transexual, pode ser um processo
difícil para a/o adolescente, já que será necessário desvincular suas percepções a este respeito
dos significados a que aprendeu a associá-los, deixando de percebê-los como desvios,
patologias, formas anormais e ilegais de sexualidade. E, estando mergulhados em um discurso
normalizador na escola e na família, fica muito mais difícil articular sua sexualidade com
prazer, com erotismo e sem culpa, considera Louro (2008).
Ao longo da história, particularmente nos últimos duzentos anos, predominaram
formas pejorativas de atribuição social às práticas não heterossexuais, segundo Marco Aurélio
Prado (2009). A construção histórica e cultural destas atribuições, sedimentadas em
instituições e no imaginário social, engendrou a noção de doença e perversão, como a
naturalização e ocultamento da homofobia. Por este motivo, segundo o autor, não nos
questionamos a cerca das razões pelas quais nossas instituições e nossa cultura restringem os
direitos às pessoas não heterossexuais, ou até mesmo incentivam formas de violências contra
estas. Isto ocorre principalmente porque os códigos que regulam as relações entre as
identidades sexuadas não permitem que as hierarquias sexuais e seu sintoma, a lesbo-transhomofobia, adquiram visibilidade pública na condição de injustiça social, uma vez que foram
naturalizadas e assimiladas pela simplificação.
Dentro da escola
As identidades do masculino e do feminino, segundo Sissi Pereira e Ludimila Mourão
(2005), são idealizações socialmente construídas por uma sociedade que cria estes padrões de
feminilidades e masculinidades e que passam a ser considerados normais ou desviantes. Desta
forma, o que for atribuído à oposição, masculino ou feminino, não é decorrente do biológico
dos sujeitos, mas de acordo com o instituído por cada cultura. Sendo assim, barreiras,
fundamentadas na biologia e na cultura sexista, fazem com que meninos e meninas
experimentem uma educação com foco nas diferenças, sem possibilidades de explorar
86
convivências de seus corpos nas práticas de ginásticas, esportes, danças, lutas, jogos e
brincadeiras.
Marco Antônio de Moraes (2010) diz que a escola não é só modelo de reprodução da
realidade em que está inserida, pois nela há espaços de liberdade para transgressões, quando
segmentos se desdobram de outros segmentos do conhecimento. A partir desta realidade, a
educação escolar que permite novas significações ajuda nas reconstruções sucessivas e
ilimitadas do conhecimento da/o aluna/o.
Segundo Gabriela Rizo (2010), a tarefa do/a educador/a é conduzir pessoas ao
caminho da construção cotidiana de normas que melhor reconheçam suas necessidades,
refletindo como os direitos humanos são construídos, e não uma normatividade dada. A
normatividade dos direitos humanos, tal como qualquer código moral, deve ser uma
construção histórica de alguma sociedade em um dado contexto. Porém, conforme Pereira
(2010), embora as crianças apresentem muita curiosidade e interrogações a respeito dos
assuntos relacionados à sua sexualidade, estes temas importantes são, comumente, deixados
de lado por serem considerados tabus, desnecessários ou mesmo pela falta de interesse ou
despreparo de professores e professoras para as intervenções necessárias.
Método
Este é um estudo qualitativo, observacional, descritivo, interpretativo que acontece a
partir da análise das práticas discursivas de adolescentes ouvida/os em grupos, aprovado pelo
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul e está registrado sob o
número 22102313.1.0000.5343.
Segundo Mary Jane Spink (1994) é nas práticas discursivas que se torna possível
acessar a produção de sentido estabelecida na escala das relações interpessoais. Entretanto,
será necessário familiarizar-se com a diversidade própria ao imaginário social e sobre os
objetos que são foco dos processos de significação. Práticas discursivas, dizem ainda Spink e
Medrado (2013), correspondem aos momentos ativos do uso da linguagem, onde convivem
tanto a ordem como a diversidade, envolvendo a linguagem em ação, as maneiras a partir das
quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas.
De acordo com Spink e Benedito Medrado (2013), o sentido é uma construção social,
um empreendimento coletivo e interativo, através do qual as pessoas, na dinâmica das
87
relações sociais histórica e culturalmente localizadas, constroem os termos a partir dos quais
compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta.
O método escolhido para coleta de dados para este trabalho foi, incialmente, o de
formação de grupos focais, mas, devido ao número de participantes, converteu-se em grupos
de discussão. Também obteve-se uma entrevista individual com uma aluna transexual. Para o
estudo dos resultados, procedeu-se a análise da produção de sentido. Os sujeitos e sujeitas de
pesquisa foram adolescentes de terceiros anos de ensino médio de escolas públicas e uma
adolescente do primeiro ano do ensino médio de uma das escolas. Todos e todas assinaram
Termos de Consentimentos Livre e Esclarecido, quando maiores de idade. Quando menores
de idade, responsáveis o fizeram por eles e elas, mas Termos de Assentimentos também foram
assinados pelo/as adolescentes. A estratégia do grupo de discussão consistia na exibição do
filme curta metragem, intitulado “Não quero voltar sozinho”, de Ribeiro (2010), como
disparador da discussão. A entrevista da adolescente transexual foi possível pela
disponibilidade da mesma em participar da pesquisa e por sua maioridade, embora cursasse o
primeiro ano do ensino médio.
Os discursos foram gravados, conforme constava no termo de consentimento livre e
esclarecido e depois transcrito para que pudesse ser feita a análise da produção de sentido.
Quanto ao perfil das/os participantes, observe-se o quadro demonstrativo:
Escolas
Alunas
Alunos
Total
MEIO
E1
01
00
01
Urbano/periferia
E2
08
04
12
Urbano/centro
E3
00
06
06
Rural/periferia
E4
17
04
21
Rural/dif. Acesso
Total
26
14
40
O município escolhido para realização deste estudo localiza-se na região do Vale do Rio
Taquari, no interior do Rio Grande do Sul. Com uma população aproximada de 69.521
habitantes, segundo dados do IBGE (2014), bem distribuída entre o meio rural e a região
urbana, originou-se com a chegada de imigrantes alemães que estabeleceram-se na localidade
para trabalhar na agricultura e pecuária de subsistência. A economia do município é baseada
88
no cultivo de tabaco e erva mate, além do milho, mandioca, feijão, entre outros, na entre safra.
O município também é conhecido pela presença das indústrias beneficiadoras do tabaco,
assim como metalúrgicas, indústrias de refrigeração, de alimentos e erva mate. De acordo
com informações colhidas na própria Secretaria de Educação (PMVA, 2013), o município
possui 11 Escolas Municipais de Educação Infantil, 33 Escolas Municipais de Ensino
Fundamental, 1 Escola Municipal Especial e 11 Escolas Estaduais de Ensino Médio. A rede
privada conta com 3 Escolas de atendimento desde a Educação Infantil até ao Ensino Médio e
7 Escolas de Educação Infantil. Além disto, existem vagas em cursos técnicos e
universitários em campus avançados.
Os resultados
As categorias emergem dos sentidos produzidos e materializados, neste caso, nas
palavras, nos silêncios, nas metáforas, nos lapsos. As palavras carregam sentido e, quando
este sentido se materializa nas vaias ofensivas, serão classificadas como ÓDIO. Entre as falas
que traduziam sentimentos de medo diante das agressões surge a categoria MEDO.
SENTIMENTO DE INADEQUAÇÃO é a categoria que emerge diante da incongruência
entre a auto percepção e o reconhecimento social. RESTRIÇÃO AOS DIREITOS CIVIS, ao
desconsiderar a alteridade. RECONHECE COMO NORMAL, quando o sentido revela a
percepção do fenômeno como normal dentro de suas concepções e ainda ANORMALIDADE
é a categoria que emerge das falas que manifestam esta percepção por parte das/os sujeitas/os
a respeito do tema.
A primeira entrevistada foi uma adolescente, indicada por uma escola que não se
dispôs a abrir grupos de discussão, mas, incomodada demais com a presença da adolescente
transexual no primeiro ano do ensino médio, a encaminhou para conversa com a
pesquisadora. Muito interessada no estudo e em poder participar, esta se dispôs a conversar
sobre o tema individualmente, cumprindo todas as formalidades que a ética da pesquisa
exigia, assinando Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Em primeiro contato com a adolescente, foi difícil identificar sua condição como
transexual, pois as características anatômicas aparentes e o vestuário levavam a reconhecê-la
como sendo uma mulher. A transformação de uma trans mulher, segundo Larissa Pelúcio
(2005), é um processo de feminilização que se inicia com a extração de pelos da barba, das
pernas e braços, assim como o afinamento das sobrancelhas. Os cabelos são deixados crescer
e o uso de maquiagens e roupas consideradas femininas nas atividades fora do mundo da casa
89
são os passos iniciais. Em um estágio seguinte, inicia-se o uso de hormônios femininos, que
pode ser na forma de pílulas ou injeções anticoncepcionais e/ou de reposição hormonal. O
processo também inclui a aplicação de silicone líquido, o que pode ser um processo de difícil
acesso ao qual nem todas têm condições financeiras de se submeter. Ainda há as intervenções
cirúrgicas, como as plásticas de nariz, eliminação do pomo-de-adão, redução da testa,
preenchimento das maçãs do rosto e colocação de próteses de silicone, diz a autora.
Ódio e medo
Gabriela7, a jovem transexual de 18 anos, fala dos insultos partidos dos colegas de
aula. Palavras que, infelizmente, esta pesquisadora teve a oportunidade de ouvir, ao final da
entrevista, no deslocamento da porta da escola, pelo pátio escuro, após as 20 horas, até o
portão externo. Foram, aproximadamente, 150 metros de caminhada ouvindo o discurso
repetitivo em um repertório que, se falava de discriminação, intolerância e ódio, podia estar
também falando de interesse e desejo. Pois, pode-se pensar que, aqueles rapazes, ao verem
Gabriela passar indiferente por eles, tratavam de falar, cada um em tom mais elevado que o
outro, palavras que, se a agrediam, assinalavam suas presenças, chamando-lhe a atenção para
si.
- Bichona!
- Viadooo!
- Putãooo!
- Isto é sempre assim... Eu tenho muito medo...
O medo de Gabriela não deixa de ter fundamento, pois, segundo o Relatório da
Violência Homofóbica no Brasil, da Secretaria dos Direitos Humanos - SDH (2012), a grande
maioria das vítimas concentra‐se na população jovem, com 61,16% delas entre 15 e 29 anos.
Nessa faixa etária, as vítimas entre 15 e 18 anos representam apenas 1,23%, enquanto de 18 a
29 anos, 59,93%. No que se refere ao perfil das pessoas causadoras destas violências, segundo
as denúncias feitas, os dados indicam que 58,9% das vítimas conheciam os suspeitos,
enquanto 34,1% não os conheciam. As violências homofóbicas acontecem tanto em espaços
públicos, quanto em espaços privados. Soube-se que 38,63% das violações ocorreram dentro
de casa. Nas casas das vítimas foram 25,54%, e nas dos suspeitos da agressão foram 7,76%
casos registrados. No local de trabalho foram 5,37% e na escola 3,18% registros de casos de
7
Todos os nomes foram substituídos por pseudônimos a fim de preservar as identidades das/os participantes.
90
violações homofóbicas. Sendo estes números correspondentes apenas às violações reportadas
e não à totalidade ocorridas contra a população LGBT.
Reconhece como normal
Em entrevista, falando de seu relacionamento em sala de aula com colegas, Gabriela
revela:
-Ah, ãaa... Tipo eu me sentia triste, né. Eu queria que eles me enxergassem como uma
menina, né. Não como o que eles tavam me dizendo. Porque eu sempre achava que eu era
diferente dos outros. Tipo, como eu era guria e os outros era guri, entendeu? Os que
tentavam ser guri, era guri. Eles era diferente. Eu era normal. Só que isso era no meu
ponto de vista.
Nesta fala da adolescente pode-se entender que sua percepção de normalidade seja a
de estar agindo de acordo com sua identidade de gênero. Ela revela não ter tentado
corresponder ao que esperavam dela, mas ter sido coerente a sua identidade: era uma menina.
Interessante notar que ela usa o verbo tentar, como se para os meninos fosse necessário haver
tentativas, experimentos de performances de masculinidades (e por que não de
feminilidades?). Isto remete ao conceito de performatividade de gênero de Judith Butler
(2010), que nos fala dos comportamentos associados a determinado gênero, que vão
validando e atualizando a lógica binária em que meninos usam azul e jogam futebol e meninas
usam rosa e brincam de boneca, compulsoriamente, por exemplo. Gabriela expressa o
sentimento de tristeza diante do fato dos meninos não a enxergarem como ela mesma se
percebia, como menina, mas como viado e gay, sempre desqualificando-a.
Inadequação
-(...) Por que por enquanto eu não sou feliz. Sabe? Porque eu não sou completa. E aqui na
escola eu não posso frequentar o banheiro dos gu...das gurias. Eu tenho que frequentar ou
lá atrás...
- E o que tem lá atrás?
-É o banheiro que ninguém... Que ninguém vai. É um banheiro tipo... Interditado, sabe?
Daí eu vou lá. Prá ninguém vê onde é que eu vou, nos banheiro. Daí eu vou lá atrás. Sem
que ninguém perceba. Mas na sala os guris falam coisa porque eles me conhecem.
É desta definição que Gabriela procura se subtrair, de ter que responder ao nome
masculino na hora da chamada, de ter que dizer se é menino ou menina, de ter que escolher o
91
banheiro na hora do intervalo. Ela diz não se sentir completa, talvez como o banheiro,
interditado, lá atrás, onde ninguém vê quem entra, desapercebido. Gabriela é invisibilizada e
interditada, como o banheiro considerado impróprio e inadequado. Mas é justamente na porta
de um banheiro público que se exige a definição: Mulher ou homem?
A situação pode ser bem difícil para aqueles e aquelas que se percebem não
heterossexuais, já que lhes restam poucas alternativas, como o silêncio, a dissimulação ou a
segregação. A rejeição da homossexualidade acompanha a produção da heterossexualidade,
expressando-se, muitas vezes, por declarada homofobia, diz Louro (2007).
Para Bento (2008), a transexualidade e outras experiências de trânsito entre os gêneros
demonstram que não somos fadados a cumprir os destinos de nossas estruturas corpóreas. O
sistema não consegue a unidade desejada, já que há corpos que escapam ao processo de
produção dos gêneros inteligíveis, e ao fazê-lo se põem em risco porque desobedeceram às
normas de gênero. Esta desobediência revela as possibilidades de transformação dessas
mesmas normas e este processo de fuga do aprisionamento dos corpos sexuados é marcado
por dores, conflitos e medos que podem levar os sujeitos que vivem em conflito com as
normas de gênero a localizar em si a explicação para suas dores, a sentir-se uma aberração,
uma coisa impossível de existir.
O discurso transfóbico
-O professor disse, vou fazer a chamada e ela olhou bem séria prá mim. E eu né, já
arregalei os olhos pensando: meu deus. É agora!
-Sabe, porque quando a professora vai fazer a chamada o meu coração dispara. Porque eu,
todo mundo me conhece por uma coisa e vem o professor e fala outra, sabe?
-Parece que quando uma pessoa me chama de Marco parece que a pessoa vai lá e tá me
dando um tiro. Eu me sinto com muito medo, sabe?
-Daí, no outro dia, eu vim pra aula, aí era uma outra professora nova. Aí eu pensei: Tudo
novo?
-Ai ela disse assim: Qual é o teu nome? Aí eu disse: Gabriela. E ela procurando na lista
de chamada. Ela disse: Mas teu nome não tá na lista de chamada. Eu disse: É Marco. Aí
ela disse assim: é Marco? Eu disse: Não, me chama de Gabriela. Não. A gente não vai te
chamar de Gabriela porque tá escrito no teu registro Marco Gabriel Nascimento, então,
até então, é este teu nome, é esse que a gente vai te chamar. O dia que tu mudar teus
documentos, e que tu for Gabriela, a gente te chama Gabriela.
92
-Eu chorei. Sabe, eu choro.
Através do decreto número 48.118, de 27 de junho de 2011, o Governador do Estado
do Rio Grande do Sul dispõe sobre o tratamento nominal, inclusão e uso do nome social de
travestis e transexuais nos registros estaduais relativos a serviços públicos prestados no
âmbito do Poder Executivo Estadual. Desde então, fica assegurado a pessoas travestis e
transexuais o direito de escolha de seu nome social, independentemente de seu nome civil,
sempre que atendidos por órgãos da administração pública estadual, considerando que a
dignidade da pessoa humana seja princípio fundamental de estado democrático de direito e da
república federativa do Brasil, assim como a liberdade, a igualdade e autonomia individual
sejam princípios constitucionais que orientam a atuação do Estado e impõem a realização de
políticas públicas destinadas à promoção da cidadania e respeito às diferenças humanas,
incluídas as diferenças sexuais. Considerando ainda que os direitos da diversidade sexual
constituem direitos humanos, e que a sua proteção requer ações efetivas do estado no sentido
de assegurar o pleno exercício da cidadania e a integral inclusão social das pessoas lésbicas,
gays, travestis, transexuais, e bissexuais. Nome social fica definido como aquele com o qual
travestis e transexuais se identificam e são identificados pela sociedade e o nome civil deve
ser exigido apenas para uso interno da instituição, acompanhado do nome social do usuário, o
qual será exteriorizado nos atos e expedientes administrativos.
O desconhecimento da lei do nome social, que dispensa a troca do nome de registro
para que se substitua o nome na lista de chamada pelo de escolha da pessoa e a indiferença de
professores e professoras daquela escola diante do sofrimento desta adolescente intensificam
o conflito. Ela expressa no corpo as emoções que a maltratam. Olhos arregalados, coração
disparado e a sensação de morte. O desejo de morte na negação de sua pessoa reiteradamente.
Anormalidade
Em outro momento, ouvindo adolescentes em grupo de discussão, foi possível
perceber seus sentimentos a respeito da diversidade sexual.
- Não é normal, né?
- Eu tinha um amigo na outra escola, e em casa ele era normal assim... É um guri, sabe? E
na escola, não. Na escola ele mostrava que era... Que gostava de guri também, sabe? Só
que em casa, não.
- E como era na escola?
93
- Ah, era bem... Parecia uma menina.
Nesta fala, seis adolescentes reunidas em um grupo de discussão demonstram
perceber a homossexualidade como anormal ao referirem-se à manifestação de identidade de
gênero e homoafetiva do colega como anormais.
A produção da heterossexualidade é acompanhada pela rejeição da homossexualidade,
uma rejeição que se expressa, muitas vezes, por declarada homofobia, diz Louro (2007).
Consentida e ensinada na escola, a homofobia expressa-se pelo desprezo, afastamento, pela
imposição do ridículo, como se a homossexualidade fosse contagiosa, cria-se uma grande
resistência em demonstrar simpatia para com as pessoas homossexuais. A aproximação pode
ser interpretada como uma adesão a tal prática ou identidade. O resultado desta segregação é
que, de um modo geral, homossexuais ocultam sua identidade sexual ou a vivem de maneira
discreta, temendo as consequências de assumir publicamente e atrair para si a rejeição. A
autora admite que a escola seja um dos espaços mais difíceis para que alguém assuma sua
condição de homossexual ou bissexual, pois esta nega e ignora a homossexualidade e oferece
poucas oportunidades para que adolescentes ou adultos assumam sem culpa ou vergonha seus
desejos, já que parte da suposição de que haja somente um tipo de sexualidade possível, a
heterossexualidade, e que o sexo oposto deva ser o alvo dos afetos de todas as pessoas.
Restrição de direitos civis: a inversão da lógica
- Eu só não acho certo se casar, tanto no religioso quanto no civil e nem adotar criança...
- Por quê?
- Porque também, na escola, também tem preconceito com isso... E as crianças também
sofre talvez preconceito... Eu não acho certo.
- Não tipo, relação assim eu não acho que tem nada a ver. Só que eu não acho certo adotar
uma criança. Entre esses casais...
- E casar?
- Ah, isso aí... Se ajuntar, talvez...
- Não. Eu não acho certo.
- Tu achas que prejudicaria as crianças?
- Isso acho que pode prejudicar a criança, depois, mais tarde, na escola assim, saber que...
Que teus pais são... São assim...
94
- O que os outros vão fazer...
- A criança já nasce assim? Ou é depois, o convívio que ela fica assim?
Este último discurso, extraído de grupo de alunas, afirma aceitar o relacionamento
entre pessoas de mesmo sexo, porém, em seguida, apresenta as restrições aos direitos ao
casamento e adoção de filhos e filhas para casais não heterossexuais. E estas restrições
incluem a religião. A pergunta “A criança já nasce assim? Ou é depois, o convívio que ela
fica assim?” na sequência em que está inserida, neste contexto, traz outra pergunta que não foi
dita, mas fica implícita, que seria sobre a possibilidade de pessoas homossexuais produzirem
filhos homossexuais. Desta forma, fica sugerido que o perigo de se permitir a adoção de
crianças por casais homoafetivos seria a de produção de pessoas homossexuais, crença esta
fortemente arraigada às referências tradicionais e estáticas de família heterossexual.
Um pai ou uma mãe lésbica, conforme André Diniz (2007), muitas vezes, ainda são
vistos na sociedade como pessoas doentes, capazes de transmitir a sua homossexualidade para
suas crianças. Isto pode estar associado a um mito, remanescente de antigas concepções
equivocadas, já retificadas, da medicina e da psicologia, de que estas pessoas sejam obcecadas
por sexo, tendendo abusar de seus descendentes. Estas concepções, para Teixeira Filho
(2007), heterocentristas podem estar justificando ideologias em que as restrições de direitos
civis de pessoas não heterossexuais sejam aceitas com naturalidade, como do casamento e da
paternidade.
É interessante ainda notar a inversão da lógica causa-efeito contida neste discurso.
Segundo o raciocínio destas adolescentes, se o preconceito contra pessoas lésbicas, gays e
transexuais, a lesbo-trans-homofobia, causa o sofrimento das crianças nas escolas, então seria
melhor não adotar crianças, mesmo que elas fossem felizes em suas casas com seus pais e
mães adotivo/as, para evitar que elas sofram perseguição e bullying na escola por pessoas que
não gostam de seus pais e mães homossexuais e/ou transexuais. A lógica, então, seria apagar,
inviabilizar a homossexualidade e transexualidade, as vítimas do escândalo, e não a lesbotrans-homofobia, o bullying, os e as perseguidore/as lesbo-trans-homofóbico/as, que são o
próprio escândalo.
Nesta última fala de uma adolescente, a simplicidade da lógica que resume o que
pode-se acreditar já ser fruto dos esforços pelo fim da violência lesbo-trans-homofóbica
dentro e fora das escolas:
95
- Eu acho que é muita hipocrisia falar, por exemplo: Ah, eu aceito homossexuais, mas
não na minha família. Então, tu não aceita. Se tu não quer na tua família, é porque tu não
aceita.
Considerações finais
Escutar de um lado as palavras tão amedrontadas e sem esperança de uma adolescente
transexual em relação a sua própria vida, como a percepção da falta de perspectiva de
possibilidades de vivência plena na esfera afetivo sexual, embora sua estratégias de
enfrentamento, foi experiência bem dolorosa. Mas de fácil compreensão se realizado o
entrecruzamento daquele discurso com os discursos de outro/as adolescentes, de mesma
idade, onde as falas eram carregadas de sentidos atrelados à estrutura normativa prescrita
heterossexista.
De um lado, o eco do patriarcado, zelando fiel pelas relações familiares de papeis
estereotipados, desiguais e injustos. De outro, a jovem transexual, desviante da norma
transfóbica, mas tão impregnada também pelo horror à ameaça que representa à ordem. Todos
tão frágeis e desinformados e desinformadas, privado/as que são, tanto quanto têm sido seus e
suas professora/es, já que dentro da escola não se fala de sexo, prazer, corpo e direitos.
Mas desejo de morte e medo não combinam com escola e muito menos com
adolescência. Por isto, recomenda-se pensar urgentemente a possibilidade de inserção de
equipes multidisciplinares naquelas escolas, a fim de que se possam abrir debates sobre o
tema, desmistificando-se tabus e velhas normas, e que o/as sujeito/as possam identificar suas
capacidades e competências para enfrentamento e resistência a lesbo-trans-homofobia para
além também dos muros da escola.
96
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97
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discursivas e produção de sentido no cotidiano: Aproximações teóricas e metodológicas.
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98
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de mães heterossexuais sobre a homoparentalidade. in Conjugalidades, parentalidades e
identidades lésbicas, gays e travestis/ Organizadores Miriam Pillar Grossi, Anna Paula Uziel e
Luiz Mello- Rio de Janeiro: Garamond, 2007.
99
CAPÍTULO V
NOTA À IMPRENSA
Pesquisas recentes têm demonstrado que o abuso e vitimização de pares, o bullying,
por vezes, incluem a discriminação por orientação sexual, em ações heterossexistas, quando
“brincadeiras” homofóbicas, pode estar relacionadas a fenômenos como queda de rendimento
escolar, evasão, depressão infantil/adolescente e até ideação suicida. Estas ações atingem não
só gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, como também a
heterossexuais que não se
conformem aos estereótipos de gênero, ou seja, todas as pessoas que não sigam aqueles
comportamentos estereotipados, como uso de cores, roupas e brinquedos específicos para
meninas ou meninos, por exemplo.
Homofobia tem sido a palavra utilizada para nominar o preconceito ou discriminação, e
toda forma de violências decorrentes, contra pessoas em razão de sua orientação sexual e/ou
identidade de gênero presumidas. Este termo, porém, não visibiliza as formas de
discriminação que não podem deixar de ser lembradas, já que a vitimização de lésbicas, gays,
bissexuais e transgêneros é realidade dolorosa em nossa sociedade. Lesbofobia, transfobia,
bifobia ou lesbo-trans-homofobia são as nomenclaturas também adotadas. Mas é o termo
heterossexismo
o considerado
mais adequado para designar a discriminação ligada às raízes
culturais, sociais e políticas, contra homossexuais e todos aquele/as que desafiam a
heterossexualidade como parâmetro de normalidade, já que fobia remete ao campo da
patologia, enquanto que as atitudes preconceituosas, discriminatórias e violentas estão
fundadas em uma cultura heteronormativa.
Heteronormatividade é a produção e a reiteração compulsória da norma heterossexual,
quando supõe que todas as pessoas sejam, ou devam ser, heterossexuais, privando e punindo
quem ouse escapar à regra imposta.
Segundo Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, no ano de 2012, da
Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República,
entre as violações
discriminatórias, a mais reportada é a discriminação por orientação sexual, com 76,37% das
denúncias. A discriminação por identidade de gênero aparece como o segundo subtipo mais
denunciado, com 15,21% das respostas. Violências homofóbicas acontecem tanto em espaços
públicos, quanto em espaços privados e a agressão psicológica é uma das mais reportadas. Os
100
jovens estão entre os suspeitos em maior frequência nas notificações destes casos de
violências heterossexistas, assim como grande maioria das vítimas concentra‐se na população
jovem, com 61,16% entre 15 e 29 anos.
Pensando esta relação entre violência e abuso nas escolas e a discriminação por
orientação sexual e identidade de gênero, foi realizado, na Universidade de Santa Cruz do
Sul, a UNISC, no ano de 2014, um estudo que objetivou conhecer quais os efeitos da
heteronormatividade dentro da escola. Esta pesquisa foi tema da dissertação de Mestrado em
Promoção da Saúde da mestranda Joana do Prado Puglia.
O estudo envolveu 68 professoras e professores e 40 alunas e alunos e 1 ex-aluna.
Foram quatro escolas estaduais de ensino médio pesquisadas no município de Venâncio
Aires, RS. Todas com autorização da 6ª Coordenadoria Estadual de Ensino e aprovação do
Comitê de Ética em Pesquisa da UNISC.
Os resultados apontaram para certa rejeição às homossexualidades e transexualidades,
ainda que disfarçados por um discurso politicamente correto, fundamentadas na forte presença
de sexismo machista e no desconhecimento a respeito da sexualidade humana e suas
possibilidades. Percebe-se que este desconhecimento mantém preconceitos e tabus que podem
fazer com que profissionais da educação sintam-se responsáveis pela orientação sexual e/ou
identidade de gênero de alunas/alunos, o que gera intenso sofrimento psíquico dentro da
escola. Sendo assim, faz-se necessária a criação de políticas públicas voltadas à capacitação
de profissionais dentro da escola, levando a informação e o debate sobre o tema, de forma que
as pessoas possam identificar suas potencialidades e estratégias de enfrentamento e
resistências às violências lesbo-trans-homofóbicas dentro e fora da escola.
101
ANEXO 1
CARTA AO COMITÊ DE ÉTICA- CEP UNISC
Santa Cruz do Sul,___de _________de 2013.
Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC)
Prezados Senhores,
Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado:
“Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes dos terceiros anos de ensino médio em
escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pela mestranda do curso
de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC, sob a
orientação da professora Dra. Edna Garcia Linhares, bem como os objetivos e a metodologia
de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento na rede pública estadual de ensino do citado
município.
Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC,
conhecer e cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras.
Esta instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do
presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos
sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária.
Atenciosamente,
__________________________________
Assinatura e carimbo do responsável institucional
102
ANEXO 2
CARTA DE CONHECIMENTO DO PROJETO - 6ª CRE
Santa Cruz do Sul, _____ de _________ de 201__.
Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC)
Prezados Senhores,
Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado: “Efeitos da
heteronormatividade entre adolescentes estudantes do ensino médio em escolas públicas do
município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pelo(a) mestranda Joana do Prado Puglia do
Curso de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC,
sob
a orientação da professora Dra. Edna Garcia Linhares, bem como os objetivos e a
metodologia de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento nas Escolas Estaduais do
Município de Venâncio Aires, RS.
Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC,
conhecer e cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras.
Esta instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do
presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos
sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária.
Atenciosamente,
_________________________
6ª Coordenadoria Regional de Educação
103
ANEXO 3
TERMO DE CONCORNDÂNCIA PARA A INSTITUIÇÃO – ESCOLA
Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar os efeitos da
heteronormatividade entre adolescentes estudantes de ensino médio em escolas públicas do
município de Venâncio Aires- RS. Tal estudo prevê a participação de professores e estudantes
do terceiro ano do Ensino Médio. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo
com aqueles alunos desta instituição. A coleta de dados deverá envolver a realização de dois
encontros de grupo focal, de participação voluntária, durante o horário escolar previamente
acordado.
Os participantes do estudo serão claramente informados de que sua contribuição é
voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa, sem nenhum prejuízo. A qualquer
momento, tanto os participantes quanto os pais e responsáveis (Instituição) poderão solicitar
informações sobre os procedimentos ou outros assuntos relacionados a este estudo. As falas
serão gravadas, se assim o permitirem os participantes.
Todos os cuidados serão tomados
para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações, preservando a identidade dos
participantes bem como das instituições envolvidas. Todo o material desta pesquisa ficará sob
responsabilidade dos pesquisadores no Programa de Pós Graduação em Promoção da SaúdeMestrado. Dados individuais dos participantes coletados no processo de pesquisa não serão
informados às instituições envolvidas ou aos familiares, mas deverá ser realizada uma
devolução dos resultados, de forma coletiva, para as instituições. Conforme estabelece a
legislação, quaisquer danos que possam ocorrer a saúde dos participantes, decorrentes desta
pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização.
Através deste trabalho, esperamos contribuir para o desenvolvimento de melhores
políticas de educação e reduzir o preconceito. No final do estudo será dado um retorno dos
resultados à escola e seus participantes.
Agradecemos a colaboração dos participantes e das instituições envolvidas para a
realização desta atividade de pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos
adicionais. Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar os
coordenadores do estudo do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós
Graduação em Promoção da Saúde-Mestrado, da Universidade de Santa Cruz (UNISC), pelo
número (51) 3717 7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta
104
pesquisa, ou qualquer denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa
Cruz do Sul, no número (51) 3717-7680.
__________________________
Pesquisadora
___________________________
Responsável pela Instituição
105
ANEXO 4
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – PARTICIPANTES
Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar
os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes e professores do ensino
médio nas escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS. Esta pesquisa está sendo
realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Mestrado de Promoção da Saúde, da
Universidade de Santa Cruz (UNISC).
A sua participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60
minutos, com informações gerais e sobre homossexualidade e preconceito.
Sua participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações que
possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder apenas as perguntas que desejar,
abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que
isso acarrete qualquer consequência para você. As falas serão gravadas, se assim o permitirem
os participantes, mas não as imagens. Conforme estabelece a legislação, quaisquer danos que
possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos
médicos e psicológicos, bem como indenização. Acontecerão dois encontros em grupos
focais.
Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero
voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying.
Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado e este material será guardado em
compromisso de confidencialidade previamente assumido pelo grupo.
Segundo encontro do grupo focal: Os sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas
falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste
momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser expressos por escrito, por
desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. Este material também será
mantido em sigilo e sem identificação de autoria.
Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu ponto de
vista e conhecimentos são importantes para podermos desenvolver melhores políticas de
educação para reduzir o preconceito na escola.
Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora
do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da
Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se
tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer
106
denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número
(51) 3717-7680 .
_________________________
_____________________________
Participante
Pesquisadora
Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014.
107
ANEXO 5
TERMO DE ASSENTIMENTO – PARTICIPANTES MENORES
Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo investigar
como
os adolescentes, estudantes de ensino médio de escolas públicas do município de
Venâncio Aires-RS, reagem diante da imposição da heterossexualidade como única forma de
se viver a sexualidade.
Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, que é psicóloga e está
vinculada ao Mestrado de Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz (UNISC).
A sua participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60
minutos, quando se buscará saber como as pessoas que não se reconhecem como
heterossexuais se sentem na escola e como são tratadas, assim como as pessoas que se
reconhecem como heterossexuais se sentem em relação a isto.
Sua participação no estudo é voluntária e anônima, pois não serão solicitadas informações que
possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder apenas as perguntas que desejar,
abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que
isso acarrete qualquer consequência para você. Conforme estabelece a legislação, quaisquer
danos que possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados
tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização. Acontecerão dois encontros em
grupos focados no tema.
Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero
voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying.
Nesta ocasião, tudo que for falado será gravado, se os participantes autorizarem, mas não
serão gravadas imagens, nem por fotografias, nem por filmagens. Este material será guardado
em compromisso de sigilo pela pesquisadora. Somente aluno/as poderão participar deste
grupo.
Segundo encontro do grupo focal: Em um outro dia, os mesmos sujeitos terão oportunidade
de ouvir à gravação de suas falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para
novo debate. Neste momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser
expressos por escrito, por desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema.
Este material também será mantido em sigilo, pois não será exposto nem será identificado a
autoria.
108
Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu ponto de
vista e relatos de experiências serão importantes para podermos desenvolver melhores
políticas de educação para reduzir o preconceito na escola.
Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora
do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da
Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se
tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer
denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número
(51) 3717-7680 .
_________________________
_____________________________
Participante
Pesquisadora
Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014.
109
ANEXO 6
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – EX-ALUNOS
Gostaríamos de convidá-lo(a) a participar de uma pesquisa que tem como objetivo
investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes, professores do
ensino médio e ex-alunos de escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS. Esta
pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Mestrado de
Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz (UNISC).
A sua participação será através de entrevista individual, aproximadamente 15 minutos,
com informações gerais e sobre homossexualidade e preconceito dentro da escola.
Sua participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações
que possam lhe identificar pessoalmente. Você poderá responder às perguntas que desejar,
abandonar o estudo a qualquer momento ou negar-se a responder qualquer perguntar, sem que
isso acarrete qualquer consequência para você. Conforme estabelece a legislação, quaisquer
danos que possam ocorrer a sua saúde, decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados
tratamentos médicos e psicológicos, bem como indenização.
Seremos muito gratos se você aceitar participar integralmente do estudo, pois seu
ponto de vista e conhecimentos são importantes para podermos desenvolver melhores
políticas de educação para reduzir o preconceito.
Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a
coordenadora do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em
Promoção da Saúde-Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717
7603. Se tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer
denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número
(51) 3717-7680 .
_________________________
Participante
_____________________________
Pesquisadora
Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014.
110
ANEXO 7
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – RESPONSÁVEIS
Gostaríamos de convidar o/a jovem sob sua responsabilidade a participar de uma pesquisa que
tem como objetivo investigar os efeitos da heteronormatividade entre adolescentes na escola.
Esta pesquisa está sendo realizada pela pesquisadora Joana Puglia, vinculada ao Curso de
Mestrado em Promoção da Saúde do Programa de Pós Graduação da Universidade de Santa
Cruz (UNISC).
A participação será através de entrevista e debate em grupo, por aproximadamente 60
minutos, com informações gerais e sobre
homossexualidade e preconceito. As falas serão
gravadas se assim o permitirem, mas não serão feitas imagens. Os participantes se reunirão
em horário previamente combinado, o que não acarretará em prejuízos nas atividades da
escola, que está ciente dos objetivos e procedimentos do estudo. O debate se dará em dois
encontros de grupos focais.
Primeiro encontro do grupo focal: Será projetado um filme de curta metragem: “Não quero
voltar sozinho”, que servirá de disparador do tema homossexualidades, homofobia e bullying.
Nesta ocasião, as falas do debate será gravado e este material será guardado em compromisso
de confidencialidade previamente assumido pelo grupo.
Segundo encontro do grupo focal: Os sujeitos terão oportunidade de ouvir à gravação de suas
falas ocorridas no primeiro encontro, e este será o disparador para novo debate. Neste
momento acontecerá o encerramento do grupo, quando poderão ser expressos por escrito, por
desenho, oralmente, os sentimentos dos sujeitos a respeito do tema. Este material também será
guardado em sigilo e sem a identificação dos autores.
A participação no estudo é voluntária e anônima e não serão solicitadas informações que
possam identificar os participantes pessoalmente. Os participantes poderão responder apenas
as perguntas que desejarem, abandonar o estudo a qualquer momento ou negarem-se a
responder qualquer pergunta, sem que isso lhes acarrete qualquer consequência. Conforme
estabelece a legislação, quaisquer danos que possam ocorrer à saúde dos participantes,
decorrentes desta pesquisa, serão disponibilizados tratamentos médicos e psicológicos, bem
como indenização.
Seremos muito gratos com esta participação, pois com esses resultados esperamos poder
desenvolver melhores políticas de educação para reduzir o preconceito.
Se você tiver alguma dúvida ou preocupação sobre a pesquisa, pode contatar a coordenadora
do estudo, Dra. Miria Suzana Burgos, no Programa de Pós Graduação em Promoção da
111
Saúde- Mestrado, da Universidade de Santa Cruz do Sul, pelo número (51) 3717 7603. Se
tiver alguma dúvida ou pergunta sobre os aspectos éticos desta pesquisa, ou qualquer
denúncia, pode contatar o Comitê de Ética da Universidade de Santa Cruz do Sul, no número
(51) 3717-7680.
________________________
_________________________
Responsável
Pesquisador
Venâncio Aires, ____ de ________________ de 2014.
112
ANEXO 8
GUIA DE ENTREVISTA COM GRUPOS FOCAIS
Questões norteadoras, com objetivo de aprofundar, ou não deixar esvaziar o debate,
serão apresentadas à medida que haja necessidade.
1- O que você pensa a respeito da homossexualidade?
2- Como você se sente quando assistem aos debates em defesa dos direitos iguais para
pessoas homossexuais e heterossexuais?
3- Como você se sente diante de manifestações de afetos entre pessoas homossexuais?
4- Como você se sente diante de manifestações de discriminação ou violência contra
pessoas homossexuais?
113
ANEXO 9
ORÇAMENTO DO PROJETO
Título da pesquisa: Efeitos da heteronormatividade entre adolescentes estudantes do ensino
médio em escolas públicas do município de Venâncio Aires-RS
GESTOR FINANCEIRO: A pesquisadora
Itens a serem financiados
Especificações
Quantidade
Valor
Valor
Unitário
Total
R$
R$
Canetas
50
1,00
50,00
Folhas A4
500
0,01
15,00
Impressão de cartazes
24
1,00
24,00
Bloco de notas
4
5,10
20,40
Fita adesiva
1
3,50
3,50
Total
112,90
TOTAL GERAL R$
______________________________________
Pesquisadora
112,90
114
ANEXO 10
CARTA DE CONHECIMENTO DO PROJETO – SIS UNISC
Santa Cruz do Sul, _____ de _________ de 2014.
Ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UNISC)
Prezados Senhores,
Declaramos para os devidos fins conhecer o protocolo de pesquisa intitulado: “Efeitos da
heteronormatividade entre adolescentes estudantes de ensino médio de escolas públicas do
município de Venâncio Aires-RS”, desenvolvido pela mestranda Joana do Prado Puglia, do
Curso de Mestrado em Promoção da Saúde, da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC,
sob
a orientação da professora Dra. Edna Linhares Garcia, bem como os objetivos e a
metodologia de pesquisa e autorizamos o desenvolvimento nas Escolas Estaduais do
Município de Venâncio Aires, RS.
Informamos concordar com o parecer ético que será emitido pelo CEP/UNISC, conhecer e
cumprir com a Resolução do CNS 196/96 e demais Resoluções Éticas Brasileiras. Esta
instituição está ciente das suas corresponsabilidades como instituição co-participante do
presente projeto de pesquisa e no seu compromisso do resguardo da segurança e bem estar dos
sujeitos de pesquisa nela recrutados, dispondo de infraestrutura necessária para prestar
atenção integrada em saúde aos participantes da pesquisa que vierem a ser encaminhados a
este serviço.
Atenciosamente,
_________________________
Edna Linhares Garcia
Coordenadora do Serviço Integrado de Saúde-SIS
Universidade de Santa Cruz do Sul- UNISC
115
ANEXO 11
TRANSCRIÇÕES
ESCOLA 1 – ENTREVISTA COM ALUNA TRANSEXUAL
Em 13 de março de 2014.
Codinome: Gabriela
18 anos
Gostaria que tu contasse mais ou menos como é a tua situação aqui na escola. Como é que tu
te sentes nesta situação.
Para mim é difícil um pouco porque no meu facebook está escrivo G N. No meu caso, meu
nome é M G N. No caso, desde criança eu sempre fui assim.
Assim como?
Aaah... Diferente. Daí tipo eu sempre tive gosto por coisas que as meninas fazem do que pros
meninos. E olha que diz ah é o convívio... Não sei o quê... É uma coisa assim. E todo diz, a
maioria fala convive mais é com as meninas e por isso que é assim. Não. Porque onde é que
eu moro tem um guri e tem guria. E desde criança sempre foi assim. Acho que pelo meu
desenvolvimento é assim, sabe. Eu não nasci com gogó, que nem os guris nasceram. Tem
gente que diz: Ah, tu força tua voz. Não. Ela é assim, sabe. E no caso eu fui crescendo e achei
q isto ia mudar. Que seria diferente. Que eu teria um gosto diferente, depois ao longo do
tempo, né, do desenvolvimento. Porque tem gente que diz pra mim que isto poderia mudar.
Eu já fui em outros psicólogos, né. A minha mãe me levou.
Aqui na cidade?
É. Aqui na cidade. E quando eu estudava lá na escola eu tinha uns doze anos, me
encaminharam para a psicóloga.
Por causa disso?
Por causa disso. Por causa que eu sofria bullying na escola.
Ah, que tipo de bullying?
Ah, fica chamando: Olha lá o gay. Ó o viado. Entendeu? Eles ficavam gritando isto pra mim.
Os teus colegas de aula ou outros?
Meus colegas de aula e os outros. Principalmente dentro da sala.
E aí como é que tu te sentias?
Ah, ãaa... Dif... Tipo eu me sentia
menina, né. Não como o que eles
diferente dos outros. Tipo como eu
ser guri, era guri. Eles era diferente.
Sim. Essa era a tua percepção.
triste, né. Eu queria que eles me enxergassem como uma
tavam me dizendo. Porque eu sempre achava que eu era
era guria e os outros era guri, entendeu? Os que tentavam
Eu era normal. Só que isso era no meu ponto de vista.
116
Daí eu fui crescendo. Só que quando eu era mais pequeno, nesse tempo que eles falavam isso
pra mim eu não tinha o desenvolvimento que eu tenho agora. Que no caso eu era muito, muito
parecido com um guri. Muito. Daí eu fui crescendo, fui crescendo e daí as pessoas diziam,
não me comparavam com um guri. Quando eu fazia entrevista nas firmas as pessoas diziam:
Pois não, moça?
Tu trabalhas?
Não. Eu não trabalho. Eu não trabalho porque eu deixei do SENAI este ano.
Ah, tu estudou no SENAI... Aqui em Venâncio?
Em Venâncio. Eu fazia marcenaria.
Ah, sim.
Até na marcenaria, quando eu entrei, eu tava com medo de fazer o curso. Porque eu pensei
que eles iam que eles iam rir de mim, que eles iam falar alguma coisa pra mim. Mas não.
Quando eu cheguei lá, tanto que ninguém falava nada. Todo mundo pensava que eu era uma
menina. Daí eu fui... Eu conversei com uma amiga minha que eu fiz amizade com ela,
fazendo amizade... Só que quando o professor me chamava M, eu me apresentei pra eles
como G, que era G.
Sim.
Daí o professor chegou na sala e me chamou de M. Aí eles procuraram, cadê o M? Onde tá?
Daí eu disse: É eu. Pra eles foi um choque, sabe? Todo mundo ficava cochichando e coisa e
tal. Aí, depois quando a gente saiu pro intervalo, as minhas colegas perguntaram pra mim:
Escuta, mas tu é, tu é ele? Eu disse sou. Mas meu deus, eu jurei que era uma guria! Elas
diziam pra mim...
Isso quanto tempo faz?
Foi o ano passado.
Foi o ano passado... Em março do ano passado, no início das aulas?
Não. Foi no finalzinho. Lá pelo mês de agosto.
Tá. No segundo semestre.
É. Daí eu peguei e disse: Não. Eu sou um guri. Aí ela disse: mas eu jurei que era uma menina.
Eu disse: Não. Não sou. Daí, nem por causa disso os guris pegaram... Eles pensaram que era
um engano, um erro que o professor tinha chamado errado. Daí eles continuaram conversando
comigo. Só que daí, ao longo do curso eles começaram a se afastar de mim. Daí quando eles
me viam na rua eles me falavam piadinha, eles me chamavam de M ão. Eles tiravam piadinha
pra gozar de mim. Mas eu assim ó. Tem muita gente que nem eu que fica brabo, sabe? Que
pega e procura agredir, fazer alguma coisa assim. Eu não. Não é porque sou super normal. Eu
não dou bola. Se falarem pra mim alguma coisa eu não dou bola. De nada, sabe? Claro. Eu me
sinto triste, mas eu fico pra mim, porque quanto menos tu mexer nas coisas, melhor, né?
Tá. Tu acha?
117
Por que meu sonho sempre foi que eu tivesse cirurgia de troca de sexo. É o meu sonho! O
meu sonho. Porque eu me considero, eu me olhando no espelho, eu não me vejo como um
guri. Eu e vejo como uma menina. Por que o meu físico ele não é totalmente de um guri. Eu
tenho, ó no caso as minhas pernas são de gurias. Porque tem muito guri que tem as
panturrilhas bem destacada. As minhas perna são de menina. Tanto quando eu saio pras festas
eu saindo como menina. Ninguém fala nada pra mim, sabe? E eu... Conversam comigo numa
boa. Só se eu dizê que eu sou guri. Senão ninguém me pergunta nada. Ninguém pergunta: ah
tu é isso, tu é aquilo?
E tu diz que é guri?
Não. Eu não digo, né? Eu não digo por que eu não quero ser. E eu acredito no meu sonho. Eu
acredito que um dia isso pode se realizado. É o que eu peço todos dias a deus. Que eu possa
conseguir esta etapa. A partir do momento que eu tiver isso realizado, que eu quero, eu acho
que eu vou ser feliz. Por que por enquanto eu não sou feliz. Sabe? Porque eu não sou
completa. E aqui na escola eu não posso frequentar o banheiro dos gu... das gurias. Eu tenho
que frequentar ou lá atrás...
E o que tem lá atrás?
É o banheiro que ninguém... Que ninguém vai. É um banheiro tipo... Interditado, sabe? Daí eu
vou lá. Pra ninguém vê onde é que eu vou, nos banheiro. Daí eu vou lá atrás. Sem que
ninguém perceba. Mas na sala os guris falam coisa porque eles me conhecem.
Que tipo de coisas?
Ah, eles ficam dizendo M ão... Como... Porque a maioria era meu colega no SENAI também,
sabe? Aí eles ficam gritando: ah, o M ão! Sei o quê, tá se apegando... Se um guri vem e fala
comigo.
Se um guri vem e pede prá mim: Ó, tu tem um apontador? E eu dize que eu tenho, Ih, já tá
pedindo emprestado. Daí o guri que veio me pedi isso nunca mais fala comigo.
É triste, sabe? Assim as coisas que acontece. Mas é só quem me conhece que sabe que eu sou.
Agora, se eu sai na rua, ir pro centro, ninguém fala nada pra mim. Eu não sofro bullying na
rua. Eu sofro bullying com quem me conhece. Que sabe. Porque eu disfarço. Porque muita
gente, no caso os travestis, eles ai, olha, a gente olhando assim não diz, né. Mas as pessoas
sabem que é pela voz.
E eu disfarço muito por causa da minha voz. Sabe... No meu facebook é assim ó de guri me
trovando; ai vamos ficar, vamos se conhecer. Não sei o que... Tá. Eu vou lá e conheço ele. A
gente fica e tudo... Só que eles descobrem.
Como?
Por que eles vão lá e comentam a minha foto. No caso eu postei uma foto. Eles vão lá e
comentam. Ah, gata! Aí, quem me conhece, e tem essa pessoa que comentou no face, que
conhece no caso, que é amigo dessa pessoa que comentou, vai lá e fala: tu comentou a foto de
um viado?
Daí a pessoa vai lá e me exclui do face. Na hora. Daí, sem eu saber, daí eu encontro essa
pessoa no centro. Encontro às vezes e pergunto: porque tu me excluiu no face? Ah, porque me
118
falaram que tu é isso, tu é aquilo. Às vezes eu choro. Porque às vezes eu gosto da pessoa,
sabe?
Porque é que nem eu tá conversando contigo e tu não sabe. Aí, por exemplo, tu é um guri. Eu
vou lá e converso contigo, eu me apego a ti, sem tu saber que eu sou. Aí depois tu vai lá e
conta pra alguém. Eu fiquei com ela. Bah, tu ficou ela, mas ela é isso, ela é aquilo, ela nem é
ela. Ela é ele! Sabe? Daí o que tu vai fazer? Pra ti é um choque. Tu tava pensando que tava
conversando com alguém que tu podia futuramente namorar, sendo que tu não vai poder
porque é alguém do mesmo sexo que tu, porque a maioria da sociedade não aceita. Muito
menos os guris. Então aí pra mim fica fácil... Porque eu namorei uma vez na minha vida só.
Que foi com uma pessoa que sabia que eu era.
Sim. Sabia e aceitou...
Isso. Aceitava. Daí eu e essa pessoa terminamo... Por causa da minha mãe, que a minha mãe
agrediu ele. Porque a minha mãe não aceitava o fato de eu ser isso. Ela sabia só que é aquela
pessoa que sabe só que não quer aceitar a verdade, sabe? Não quer aceitar que aquilo é aquilo
ali mesmo. Aí ela enxergou com os próprios olhos dela que ela me pegou junto com ele... E
ela deu nele. Ela agrediu ele. Aí, isso... Eu não queria ter terminado com ele... Mas ele
terminou pra segurança dele porque ele pensou que coisas piores poderiam acontecer, sabe?
Ficou com medo.
Isso. Ficou com medo! Daí, eu peguei desde lá não namorei mais ninguém.
Faz tempo isso?
Faz... Faz muito tempo. Faz uns quatro anos... Risos...
Tá.
Faz tempo. Daí desde ali eu não namorei com mais ninguém. Fiquei com os guris, tudo. Tem
uns que eu gosto... No caso agora, que eu vou ficar com um guri que conheço no face, eu digo
pra ele: Ó, tu não fala pra ninguém que tu vai ficar comigo, porque eu tô com outro guri, daí
eu vou ficar contigo escondida, sabe? Pra não da briga entre vocês e entre eu e ele... Então a
gente fica escondido. Aí eles não falam. Aí, assim é um modo de eu conseguir tanto de 100%,
10% de eu ser feliz como eu quero.
Entendeu? Por que... Claro que feliz eu não sou... Óbvio né? E daí, assim que eu levo a minha
vida, sabe? Eu sei que é errado o que eu faço, que eu me passo por outra pessoa. Só que é
como eu te falei, né? Se eu não fazer isso assim eu nunca vou ser feliz, entendeu?
Daí eu vejo nas reportagem as coisas que acontece, sabe... Tanto que quando eu tava ficando
com um guri, e eu fiquei com ele uma semana, o nome dele é J, aí a gente ficava e coisa e aí a
gente passou e passou uma reportagem na TV. A gente tava olhando um filme. E ele não sabia
que eu era. Não sabia. Aí passou uma reportagem na Tv que tinham matado um travesti. E ele
disse: meu deus. Eu tenho uma raiva destes diabo! Tem que morrer tudo. Daí eu pensei pra
mim: meu deus! Se ele descobrisse... Se ele soubesse que quem taqui com ele também é um...
Eu chorei na hora. Na hora, sabe. Ele disse: porque tu tá chorando. Eu disse: não. Por causa
que eu tô com um pouco de dor. Me deu dor de cabeça... Acho que eu vou ter que até ir pra
casa. Aí eu peguei e fui pra casa e ele não entendeu o por que. Ele ficou com uma pulga atrás
da orelha. E até hoje ele não sabe por que eu tenho medo que ele descubra, né.
119
Foi aquele mesmo caso que eu te contei, que eu digo pra eles que eu tenho outra pessoa, coisa
né... Daí eu comecei a tomar esse ano... eu fui... Conheci uma amiga minha que ela disse:
olha, se tu quiser criar mais corpo, tu pega e toma hormônio. E eu comecei a misturar
anticoncepcional. E fui parar no hospital. Porque eu tomava microvlar e ciclomitil, sabe? Pra
mim criar corpo. Eu tenho corpo, mas eu queria criar mais. Pra eu parecer mais ainda com
uma mulher. Daí eu comecei a tomar esse microvlar. Daí eu fui parar no hospital porque me
deu infecção no intestino. Porque eu misturei. Como tu mistura, né... Por causa dos
hormônio... Um cria mais... Um cria pouco... Eu misturando. Eu tomava dois por dia. Sabe?
Na ansiedade de eu conseguir realizar mais um pouco do meu sonho. Porque cada vez eu
queria mais. Mais, mais... É isso que... eu vejo uma mulher bonita na TV eu penso: meu
deus, se eu fosse bonita que nem ela... Sabe?
Eu me sinto triste um pouco com as coisas que acontece comigo toda vez. Agora to
conhecendo um guri de Lajeado. O nome dele é R. Ele tem 17 ano. E ele não sabe. E a gente
marcou um encontro lá no shopping sábado, pra gente se vê. Eu tô com medo, sabe? Disse pra
ele a mesma questão, que não era pra falar pra ninguém... Porque a gente tava recém se
conhecendo... E coisa né? Ele disse: não. Tranquilo. Eu não vou falar pra ninguém e coisa...
Daí eu falei também... Aí a gente entra meio por dentro, sabe? Mais ou menos o que a pessoa
pensa a respeito da opção, da mesma opção que ele, né... No caso.
Eu falei pra ele: ah, passou um gay aqui na minha frente aqui agora. Aí ele disse: meu deus.
Porque tu atira uma pedrada e mata? Ele falou pra mim.
Eu disse: não. Porque eu não tenho nada contra, nem tenho nada a favor. Pra mim não me
expor, né. Pra não deixar ele pensar porque eu fui e trouxe um assunto nada a ver com que a
gente tava conversando.
Daí eu disse, ah, não tem nada a favor mas não tem nada contra. Eu disse pra ele. Aí ele disse
assim: ah, eu tenho. Que se fosse comigo eu matava. Sabe?
Então isso não foi uma experiência só que eu tive.
Tive várias experiências com os guris com quem eu convivo, no caso, que não sabem que eu
sou, eles têm preconceito contra isso. Eles não tem, eles não querem se afastar. Eles querem é
matar, entendeu? E isso me dá medo. E aí eu choro. Toda vez eu choro, sabe? Porque o que eu
mais queria na minha vida era eu ter nascido completamente como eu sempre sonhei, sabe?
Ter nascido uma mulher.
No caso eu fico triste porque eu tenho a voz, mas eu não sou, sabe. Isso que me deixa mais
triste. Sabe? Eu creio que um dia eu vou conseguir. Eu sempre pensei pra mim. Eu vou
trabalhar eu vou guardar dinheiro. Eu vou conseguir. Sabe?
Daí eu pensei: ah, eu vou estudar, pra mim conseguir né. Aí... Que nem a professora Drica
sempre diz pra mim: Ah, estuda que um dia tu consegue. Tu vai trabalhar e tu vai conseguir
dinheiro. Só que a gente vê que não é fácil. Sabe, porque eu no caso trabalhar e eu estudar não
é fácil.
As coisas se tornam muito difícil. Que nem meu pai tem problema no coração e ele vê as
minhas roupa. Que eu tenho tudo roupa de menina. Eu não tenho uma roupa de menino. Só
roupa de menina no meu guarda roupa. Sabe? Maquiagem...
120
Quem compra estas roupas?
Eu. Tudo eu. Sabe.
Tua mãe te dá o dinheiro?
Não. Eu tenho que trabalhar pra conseguir. E no caso, se eu quero comprar uma roupa nova...
Desde que idade tu usas roupas de menina?
Olha... Eu comecei a me vestir como menina com meus 15 anos. Foi. 15 anos.
Foi quando tu começou a comprar tuas roupas?
Que antes eu andava normal sabe? Que nem guri, e coisa... Mas sempre eu tinha aquela
atração, sabe. Mas que eu consegui mesmo, que eu vi que eu ficava mais, melhor do que era,
no caso que vestido de guri, foi quando eu tinha 15 anos. Que daí eu fui na casa de uma amiga
minha e a gente ia sair pra uma festa, e ela disse: ah, bota uma saia!
Eu disse: não! Deus o livre! Não vou botar saia por causa das minhas pernas. Porque até então
eu não sabia das minhas pernas e coisa, que eu podia enganar alguém com minhas pernas, né?
Daí eu pensei: não. Eu não vou botar.
Ela disse: bota, experimenta!
Daí eu peguei e experimentei. Ela disse: meu deus! Ficou muito bonito pra ti. Vai assim!
Agora vamos botar um salto.
Eu quase me quebrei tudo quando fui andar pela primeira vez de salto. Mas desde ali eu fui
gostando, gostando, e daí eu fui descobrindo mais coisas, até chegar aos dias de hoje. Vendi
todas minhas roupas... Que eu tinha de guri eu vendi tudo. Tudo pra mim poder comprar
roupa de menina. E no caso, se eu preciso de roupa de menina a minha mãe não vai lá e tira
pra mim. Eu tenho que vender alguma que não me serve mais, das minhas de menina pra
comprar uma nova, né.
Em casa tua mãe não...
É. A mãe não compra.
Tu já tens 18 anos?
Já.
Me fala mais da questão do nome. Aqui na escola, como é que funciona?
Olha só... No caso, esse ano quando eu cheguei aqui na escola, eu pensei que ia ser as mesmas
professoras, mas mudou. Era diferente, ne. Aí nós chegamos todo mundo na sala. Até então
minha irmã estuda comigo, minha colega lá em cima. Aí ela olhou bem séria pra mim. O
professor disse vou fazer a chamada e ela olhou bem séria pra mim. E eu né, já arregalei os
olhos pensando: meu deus. É agora!
Sabe, porque quando a professora vai fazer a chamada o meu coração dispara. Porque eu, todo
mundo me conhece por uma coisa e vem o professor e fala outra, sabe?
Daí, chegou na minha vez e ele disse assim: o M. Eu disse: é eu.
121
Ele disse assim: sério?
Eu disse: sim. É eu.
Ele disse assim: ah, desculpa... Tá, aí depois passou a aula ele veio conversar comigo.
Aí ele disse assim: como tu prefere ser chamada?
Ótimo...
Aí eu disse assim: G. Eu me sinto bem melhor.
Ele disse: então é assim que eu vou te chamar.
Aí até então essa semana eu vim pra aula e ele pegou e me chamou de G. Sabe eu me sinto
bem melhor assim. Parece que quando uma pessoa me chama de M parece que a pessoa vai lá
e tá me dando um tiro. Eu me sinto com muito medo, sabe?
E daí ele me chamou de G e todos começaram a rir. Porque eles me conhecem.
O professor: ah, porque vocês estão rindo?
Não. Nada, não sei o que...
Daí depois e até então não tinha vindo todo mundo da aula, né. Daí, no outro dia, eu vim pra
aula, aí era uma outra professora nova. Aí eu pensei: Tudo novo?
Ai ela disse assim: qual é o teu nome? Vamos se apresentar porque eu não sei o nome de
vocês. Aí ela perguntou: qual é o teu nome? Aí eu disse: G. E ela procurando na lista de
chamada. Ela disse: mas teu nome não tá na lista de chamada.
Eu disse: É M.
Aí ela disse assim: é M?
Aí minha colega do lado disse: como é que ela te chamou?
Eu disse assim: Ela me chamou de M.
Aí, ela disse: mas é sério?
Eu disse: Sim. Meu nome é M.
Aí ela disse assim: Ah, perdão.
Ela me pergunta, só que a profe, tem mais professores que não aceitam. Eles me chamam de
M.
Eu disse: não, me chama de G.
Não. A gente não vai te chamar de G porque tá escrito no teu registro M G N, então até então
é este teu nome é esse que a gente vai te chamar. O dia que tu mudar teus documentos e que
tu for G, a gente te chama G.
Eu chorei. Sabe, eu choro.
No meu face eu não vou trocar o nome porque eu me sinto melhor assim. E se eu não tiver o
meu face com o nome que eu escolher, porque o dia que eu tiver o meu sonho realizado, vai
122
ser esse o meu nome: G N. Então aí eu prefiro que me chame assim, daí no caso que eu te
falei. Eu não vou trocar o nome do face. Eu sei que é errado. Que é falsificação de
identidade...
O que é errado?
Dizem que é falsificação de identidade.
Tem certeza?
Não sei né... Quem sabe mais que eu... Eu não sei também, né...
Tu nunca ouviu falar em nome social?
Não.
Então eu tenho uma notícia ótima para te dar.
(13h00min’)
Aqui eu dou a notícia para ela da regulamentação do nome social. Não resisti!
(18h20min)
Olha, se isso acontecesse, acho que parte de mim, pelo menos, ia ser um pouco feliz. Porque é
estranho. Eu morri de vergonha. Morri de vergonha quando eu fui fazer a primeira entrevista
de emprego eu cheguei lá, eu me deparei com um guri que eu tinha ficado. E eu cheguei lá
assim, e eu olhei pra ele. E ele oi, e eu oi! Ca pouco chamaram M... E ele bem assim, ó. Tirou
o boné.
Assim, sabe? E eu morri de vergonha. Eu cheguei lá tremendo com a mulher do cargo que ia
me entrevistar. Daí ela: tu tá bem? Eu disse: é, mais ou menos... Né. Ela falou pra mim. Eu
não contei pra ela o que aconteceu, nem nada, né. Mas eu só disse pra ela mais ou menos, né.
Ela pegou e me deu uma água e aí quando eu saí de lá ele não tava mais lá. Ele nem fez a
entrevista. Ele foi embora.
Falo sobre a relação perigosa com uma pessoa que já está avisando que vai matar, que odeia e
é ex
Mas tu sabe que nunca passou de um mês que eu namorei. Eu sempre dou desculpa pra ele, eu
digo: ah, eu tô com outro, eu sempre fico com uma pessoa até eu arrumar outra. Quando eu
arrumei outra daí eu largo aquela e vou pra outra. Sabe, é sempre assim que eu faço. Pra
nunca eu poder manter a relação sexual. Isso é no namoro, né, a gente sabe que isso é
fundamental. E no caso, pra que isso não aconteça eu já me previno antes.
Até hoje eu tô com vergonha de conversar contigo, porque eu não pude fazer nada, né... Tirar
a barba tudo, né... Porque eu tiro tudo com pinça. Tudo com pinça pra não ficar aquelas
marquinha. Sabe, aquelas marquinha que fica... Eu tiro tudo! E quando eu... Tem até foto. Eu
vou te mostrar como quando eu me visto ninguém fala nada pra mim. No face ninguém
comenta nada, nada. Nas minhas fotos diz: ah, isso aqui é travesti... Isso daí não presta.
Ninguém fala nada pra mim porque ninguém sabe.
Daí só se a pessoa, que nem eu te falei, só se a pessoa sabe realmente, já me conhece, ou que
alguém contou que eu sou. Caso contrário, ninguém fala nada pra mim, ta.
123
Deixa eu te mostra aqui. Aqui ó! Olha pra ti ver. Estas são as fotos que eu posto no meu
facebook. Aqui ó.
Olha que linda!
É... E ninguém fala nada pra mim. Ó.
Sim, né. Mas não tem nada prá falar mesmo...
Sabe, eu me maqueio... Ninguém diz nada pra mim. Tanto que essa foto aqui botaram numa
página de modelo, coisa sabe... Daí, ninguém diz nada pra mim, sabe. Só assim que nem eu te
falei. A pessoa que conhece e sabe. Senão não me diz nada.
É isso... Só se tu me perguntar mais alguma coisa... Pois eu não sei o que dizer. Eu sou muito
mau pra poder me descrever. É isso.
Mas como tu descreveria:
Ah... Uma pessoa infeliz...
Uma pessoa infeliz...
Com certeza.
124
ANEXO 12
ESCOLA 2 – GRUPO DE PROFESSORA/ES
Em 14 DE ABRIL às 17h00min:
Entramos na sala de aula e encontramos professoras e professores sentados em círculo. Eram
38 pessoas. Começamos com a projeção do filme curta metragem “Não quero voltar sozinho”.
Terminado o filme logo algumas pessoas começaram a fazer algumas colocações.
N- Parece que no filme é bem mais fácil né... Eu tenho o exemplo assim da minha filha. Ela...
Morava... Num apartamento... Com outra menina e um menino que era gay. E eles brincavam
e às vezes ela dizia: Cala boca D! Cala a boca, gay! Brincando... Eles brincavam entre eles,
né... E aí, às vezes, quando eles tinham alguma festa, se eles iam e ele encontrava um
namorado, né... Aí, ela dizia assim: Mãe, mesmo que eu esteja acostumada com os dois, né...
Que eu sei que a gente é amigo, tudo... Mas parece assim que quando tem uma... Uma...
Quando tem uma manifestação de carinho entre eles, fica estranho. Né? Não que
incomodasse... Mas era uma coisa assim que já era um sentimento estranho, né. Eu disse
assim ela que tá mais acostumada com este tipo de convivência, né... E prá gente também é
assim... Dificilmente a gente vê assim... Eu, pelo menos, a não ser na televisão... A gente sabe
que acontece... Eu não sei como eu reagiria... Agora eu acho que hoje tá mais fácil que há
tempos atrás... A.. Sempre existiu, como tu disse... Sempre existiu. Só que as pessoas se
escondiam, né.
(EU- E porque se escondiam?).
N- Porque não era aceito, né... Tanto que até a gente comenta que tem uma, uma moça que...
Que... Fica, não sei qual esquina agora... Acho q já mudou... Acho que ela até estudava aqui
no colégio... É uma moça... Não. É um rapaz... Um gay, né! Como é que a gente chama?
Transexual? Ele tá aqui? E aí... Mas é bonito assim... Bem arrumado assim né. Aí... Bom, se
ela tá por ali, é porque tem alguém que, queeee... Que namora, né? Que tá... Ela tem clientela,
digamos assim, né?
(EU- E aí, alguém mais?).
P- Sobre... Sobre mostrar a afetividade para... Para todo mundo. Se assumir gay tudo bem,
tem muita gente que se assume gay, mas fica... Se beijar... Se abraçar, mostrar sua afetividade
com, com as outras pessoas é muito difícil, eu acho que talvez difícil até prá homossexual e
muito mais difícil prá nós héteros de aceitar aquilo. Que ela comentou disse ah... Eu digo ah,
o... Tem que ser homossexual. Pode ser homossexual, mas eu. Eu acho muito estranho... Eu,
ela não acha estranha... Ela não acha estranho. Eu acho. (...) Ah, não acha!
P- Choca ver duas meninas se beijando! Me dá uma... Me choca.
C- Eu tinha uma aluna no ano passado, no ensino médio, queeeee... Ela tem uma namorada...
(EU: Ensino médio?).
C- É, ensino médio. Segundo ano do ensino médio. Eeee ela contou pra mim: Professora, eu
tentei. Tentei. Fiquei com vários meninos... E não foram poucos... Ela disse. Mas não adianta,
professora, eu gosto é de mulher. Né. Então ela relatou isto, que ela ficou com vários homens,
125
né, da idade dela, meninos, né. Mas ela disse que não, que sente aí... Ela gosta tanto que ela
está noiva... De uma menina... Só que a outra menina é... Quem realmente só conhece mesmo
que é menina. Porque se você ou outra pessoa olhar vai dizer que é um menino porque ela se
veste como um menino a outra. A outra é bem guri. E ela diz que não troca aquela menina,
que ela ama aquela menina, tanto que no ano passado elas colocaram anel de compromisso.
EU- E isso ela manifestou em sala de aula?
C- Ela comentou, porque a gente tinha... Né? Eeee... Eu não sei o que que veio... Eu não
lembro o que foi que... Ah, estavam comentando que ela estava grávida. Aí ela perguntou:
Como eu vou estar grávida, se eu namoro uma menina, professora? Daí ela relatou, mas não
pro grande grupo. Sozinha. Eu e ela na sala de aula. Ela saiu pro recreio, os outros saíram pro
recreio, ela ficou por último e ela falou... Daí ela mostrou as fotos também... Da namorada,
né. E a mãe, dizendo ela, que... Aceitou. E aceita.
(Perguntei: E pra ti, como é que foi?).
C- Prá mim assim foi, assim a gente..., mas a maioria fala que é normal. Mas no momento que
te depara com uma situação e uma cena dessas não é tão normal. Eu já me choco. Eu fico
imaginando o dia em que pode acontecer na família, sabe? Como tu vai conduzir. Porque
enquanto tu vê no outro, é fácil, mas quando tiver próximo de ti, da tua família, ou assim,
perto, já teve alunos que veio e disseram: olha professora, eu gosto de menina, né... E como,
uma maneira como esta aluna relatou assim, sei lá, ela ama como se fosse assim um outro
menino... Um casal. Ela... Prá ela... Pra ela assim é normal, é óbvio, né. Mas a maneira como
ela fala, o carinho e o amor é o mesmo, digamos assim, né. Eu fiquei surpresa que a
naturalidade de como ela falou e de não ter vergonha. Só que daí, aconteceu outra ocasião que
eu estava... Sempre venho por esta rua, e vim por essa, ela estava numa rua, do outro lado da
casa lá. Beijos e abraços com a namorAdAa. E eu passei por ela e cumprimentei, mas,
sinceramente eu vou dizer, eu fiquei sem jeito, porque a gente não tá acostumada com esta
cena. Meeesmo que se tenha mais hoje, tu te sente meio assim. E ela cumprimentou. As duas
agem normal. Elas duas não se sentem diferentes dos dos outros demais. Tanto que elas ficam
ali como se fossem um casal de namorados, antes da aula, né. Só que um pouco longe da
escola, lá na frente.
EU- Elas não estudam mais na escola agora?
C- Ela não... Ela... Não... Ah... A namorada, no caso, não é aluna nossa. Só uma. Este ano está
no terceiro ano do ensino médio. Ultimo ano aqui na escola.
C- Mas quando a gente olha eles, que nem a menina que é um menino hoje, quem não
conhece, não sabe não diz que é uma menina.
C- Se tu olhar os dois na rua é um menino e uma menina. É um casal, né. Mesmo as vez
sabendo que é duas meninas, a gente não percebe... Agora, assim... O fato de ver duas
menInAs, bem feminInAs, eu acho assim, (Choca mais-diz outra professora) sabe, não sei se é
porque a gente, ah... Já acabou convivendo e... Não sei se isso é aceitar... Acho que não. Eu
acho que acostumei a ver os dois assim... Todo o processo de transformação... Da menina que
hoje é um menino, né... Mas que foi meu aluno, mas... Ah, eu não sei...
K- Eu vejo com preocupação... Tem 14 pra 15 anos...
126
C- Mas se tu olhar pra ela hoje... Por fora é um menino. Ela tá de cabelo curto... Se veste
como um menino...
K- Eu estive visitando eles tarde, eles estavam desesperados. Conclusão. Então fomos
procurar ajuda, porque o machismo, aquela parte retrógrada que o vô não aceita, etc... Etc...
Então assim, não é, eu disse, não é desvio de conduta, não é desvio de caráter. A índole
continua aquela família de caráter bom, mas é problema de aceitar. Parece que agora assim
que agora estão no psicólogo, o pai tá se tratando, o avô e a avó tão se tratando, tentando
aceitar, e eu fico com preocupação, mas eu disse gente... Dois homens se abraçando...
Orientá-lo, né...
N- Eu tenho uma mulher lá que é casada. E essa mulher é casada, tem dois filhos, e aí se
separou do marido e aí... Casou com a minha prima. E a minha prima tem um jeito mais
masculinizado, mas ela é assim... Mulher, né. Mas assim... Ó... Elas, elas moram juntas, na
mesma casa, os filhos da mulher aceitam, só que elas evitam quando estão assim no grupo
familiar de ficar ah... Se agarrando, se beijando, mas toda a família... Aceita, ou não sei se é
bem aceita... Principalmente o pai dela, assim... Ele procura não... Não questionar. E... Eee
um dia ela colocou prá minha mãe... Essa minha prima, que elaaa... Ela queria que o pai
aceitasse assim, ãaah... Na boa, de aceitar que elas andassem de mão... Né... Que elas fossem
assim andar como um casal, né. Mas ele... Ele não diz que ele é contra, mas ele também não
dá abertura prá que elas... Se manifestem assim né... Então elas aparentemente assim são duas
mulheres que moram junto, mas, não... Na família...
C- Eu acho que as famílias vê como normal algumas, né... Quando acho que o amor fala mais
alto que o preconceito. Amor de mãe, amor de pai...
- Também acho.
C-Amor de mãe. Só isso. Quando o amor fala mais alto que o preconceito. Agora, quando o
preconceito fala mais alto que o amor, mãe nem pai...
N- Mas eu também penso que acho que tem... Essa coisa assim...
C- A nossa Sociedade...
N-O respeito em relação... No sentido assim, ó... Eu quero ser aceita, mas eu também tenho
que aceitar que o outro tenha a sua opinião. Eu não tenho que querer, eu acho, eu penso assim,
ãahh... Eu sou... Eu assim... Eu quero... Eu tenho essa liberdade de ter uma companheira, né?
Eu quero... Mas eu também... Eu quero ser respeitada por causa disso. Mas eu também quero,
eu também tenho que aceitar que o outro aceite ou não. A questão do preconceito, não assim...
Que menos preze... Não a função de menos prezar, mas assim, como esta minha prima, de
querer que o pai aceite de qualquer jeito. Ele é de uma outra geração. É difícil prá ele. Não só
o fato... Eu... Eu... Meu conceito assim... Só o fato dele conviver, e não, tipo assim, e não
virar as costas, não... Aceitar. Já é... Já é uma forma que ele tem de aceitar de aceitar. Eu acho
que também tem que ser respeitado a pessoa, né.
(EU FALEI)
R- A profe falou ali a questão antes de ser... O pai ser de outra geração, mas eu tenho um
aluno que a mãe sofreu muito com o pai dele, diversas situações. E agora ela está com uma
companheira. E ele não aceita. Ele deve tá com uns quinze anos. E ele não aceita de jeito
127
nenhum, ele já saiu de casa prá morar com outros parentes prá não tá... E ele quer por que
quer, do jeito dele forçar a mãe a largar a companheira e voltar, deixar... Ele volta prá casa se
ela abandonar essa situação. E aí a gente tenta conversar na aula, a gente tenta fazer este papel
de... Não, para aí, vamos rever... Em outros momentos eu já vi que ele tem um
posicionamento machista, mas assim, eu acho que é muito uma questão cultural, né... Não é
uma geração ou não, porque ele é novinho, mas é muito a questão cultural, não foi trabalhado
com ele... E agora a gente tenta, e é complicado, o meio onde ele tá também, provavelmente,
traz isto, porque ele teve respaldo, ele conseguiu um lugar prá... Pra ficar, indo contra a mãe,
que é a responsável legal por ele... Entao, acho que é muito a questão cultural mesmo...
- A sociedade machista, né...
- Mas... Isso não acontece...
S- A cabeça da mãe!
EU- A cabeça de quem?
- Por quê?
S- Da mãe! Mas pensa um pouco! Primeiro... A minha concepção assim: Depois que eu sou
mãe, primeiro eu tenho que olhar pelos meus filhos. Se a minha relação não é boa com os
meus filhos... Com quem vai ser? Então eu vou jogar meu filho...
H- Mas existe um conceito de mãe chocadeira nessa vida. Choca e... Dá o que dá.
-Se fosse homem... Claro!
- Tanto homem, quanto mulher!
S- É primeiro o filho, depois...
-Não é a questão dela... Tanto mulher, tanto faz... Com qualquer pessoa... A gente tem, não
sei... A gente tem essa concepção, enquanto o filho ainda precisa muito da gente, de repente
tentar resolver os problemas, tentar se reaproximar do filho, prá depois tentar cuidar da vida
pessoal dela. Acho que é isso que ela pensou. Eu também, querendo ou não eu penso assim,
que eu acho que a gente tem... Não criticando, que hoje as famílias são organizadas de uma
forma diferente, mas a gente sente em muitas crianças às vezes o problema... Tá, separou,
deu. Ninguém é obrigada a ficar junto, mas assim, ó: ah, eu tenho um, sei lá, no caso do meu
pai, eu tenho um irmão lá que minha mãe nunca imaginou... Então a criança fica assim muito
dividida, muito... Muito perdida. Eu acho que é nesse sentido... Eu pensaria assim, é nesse
sentido. Pensar mais no filho e não se desesperar em cuidar do lado afetivo dela.
C- é que nem muitos... A minha cunhada também Não aceito a inciativa de convivência da
mulher estar com mulher, homem com homem... Né. Pensando, eu digo em relação à família,
que a família, a nossa sociedade se preocupa muito no que os outros vão achar.
- O que os outros vão pensar!
C- No que os outros vão pensar. Sabe? Então a sociedade também é machista. Eu duvido que
algum pai, qualquer pai, que deixe a esposa colocar no bebê, filho homem, um sapatinho que
tenha um pouquinho de rosa ou amarelo...
- Uma fitinha rosa!
128
C-Eu tenho um filho só. E eu tinha... Não fiz o enxoval dele azul, como se manda, azul,
menina rosa. Eu sempre fujo disso. Que menino tem que usar azul e menina tem que usar
rosa. Não posso. Odeio quando vou olhar as lojas e só tem coisa rosa mais é prá menina.
Sandalinha, só rosa. A outra, rosa. A outra, rosa e branca. Ou branca e rosa. É assim. A
sociedade vai dizer: o menino azul, tá tudo bem. Não fiz. Azul é o que eu menos tinha de cor.
E ele tinha uma peça amarela. É um calçãozinho amarelo. O dia que eu coloquei o meu
esposo disse assim: Não, mas esse calçãozinho dele é amarelo! Amarelo é de menina! Eu
disse: Mas onde tá escrito que amarelo é de menina? Não. Ele vai ficar com este calção. Vai
ficar de calçãozinho amarelo e vai prá escolinha de calçãozinho amarelo. Não por ele vestir o
calçãozinho amarelo que ele vai deixar de ser menino. Então eu acho que isto é muito assim,
ai não pode. Tem meninos que hoje usam camisetas rosa, mas os pais acham assim que
menino não pode colocar o que é cor de menina. Cores, não tem cor de menina e cor de
menino. A sociedade que criou isso...
I-Eu vejo assim. A minha experiência é com os pequenos então eu não vejo esta relação... A
gente vê como os pais têm medo... De ter um filho assim... Muito bem. Eu já tive casos que...
Uma menina que era meia... Meia... Guri que uma mãe até se ofereceu prá fazer alguma coisa
que deixasse a menina mais feminina, queria botar umas fitinhas no cabelo e coisa e tal, de
medo de se aproximar da filha... E assim queria que a outra se vestisse de menina pra parar
de... De procurar a filha dela... Pra brincar.
- É, eu conheci uma família e um menino da família era meu aluno e... Também a mãe teve
um monte de problemas com o pai... Se separou do pai desde que o guri era bebê... E a mãe
começou a sair muito com uma amiga, muito com uma amiga... Daí geralmente eles
chegavam na escola e contava: profe, a mãe tem uma amiga nova. E daí, quando eu questionei
a mãe, sobre essa amiga nova, ela disse: não profe, tu não te preocupa que eu tô levando ele
num psicólogo. Eu disse: Tu tá levando ele num psicólogo? Ele tá indo uma vez por semana,
então quando ele não vir na aula, tu sabe que ele tá no psicólogo. Ah, então tá. E... Desde
pequeno ele estava fazendo tratamento no psicólogo prá ir aceitar a amiga da mãe. A mãe se
separou... Separou da amiga. Não dizia amiga pai... É amiga ou tia. Quando a mãe se separou,
não quis mais a amiga dela, ele chegou um dia na escola muito triste, que a mãe tinha brigado
com a amiga... Que ele queria ela de volta em casa, que já tava habituado os três dentro de
casa. Passou um mês, a amiga voltou prá mãe e hoje eu encontrei ele na rua e pergunto como
é que tá a mãe, como é que tá a amiga. E ele diz: não profe, tá tudo bem, tudo bem. Sabe. Eu
acho que foi a questão de trabalhar com o filho pra ele de alguma maneira, o manejo prá ele
aceitar essa situação de uma família de estrutura diferenciada.
- Eu acho que a gente pensa no geral também, porque, pensando nessa criança agora, ela ainda
vai ter que aguentar o que a sociedade vai falar: olha lá tua mãe, olha lá teu pai... É muita
coisa prá gente pensar...
- Eu acho que não tem que chamar a outra de pai... Se ele tivesse um padrasto ele não ia
chamar ele de pai...
- Eu achei interessante... Eu achei interessante que ele nunca disse prá mim pai. É a amiga da
mãe. Era amiga ou tia, sabe?
45h50min: Confuso vozes de fundo!
129
H- Tudo que foi colocado... É roupa, é presente... Nós que somos mais antigos, nós trazemos
junto também o preconceito... A maioria da religião católica... É pecado e assim por diante,
né... É conservador, tudo! Eeee, a tendência que tá tudo mais às claras, cada vez mais e etc,
uma preocupação que eu sempre tive é o pessoal pode achar meio interessante que, por
exemplo, na escola nós não temos banheiro prá deficiente. Tá. Como é que vai ficar a situação
de banheiro prá essas pessoas?
- Exatamente!
H- Sim! Vai chegar e vai me dizer que quer usar um banheiro diferente e eu vou fazer o quê?
- Eu até tenho um caso. A minha aluna que, de repente, ela usa no currículo o banheiro, como
ela entrou nova no turno da manhã, os do turno da tarde conhecem os problemas. Como ela
entrou nova no turno da manhã é como se fosse aluna nova. E então, eles conversando com
ela, eles conversavam, ela, além disso, ela tem, ela é bastante hãaa... Agressiva. O que eu
converso muito com eles é sobre essa... Hã... Ah... Agressividade dela. Quando ela sai pra ir
no banheiro, que ela precisa várias vezes sair, sair, sair, daí eu, eu co... Converso com eles. E
um dia eles pe perguntaram: Mas eu acho que ela quer ser um guri. Eu disse: ela quer ser! E
prá nós tanto faz. Desde que ela nos nos respeite, desde que vocês também respeitem ela,
como ela se veste, como vocês se vestem, se vocês vieram com um chinelo velho ou um
chinelo novo, tanto faz. Então se ela vem com um calção ou uma saia, também tanto faz. E
eles aceitaram numa boa. Só que eles falam que ela princi... Qu ela agride principalmente
dentro do ba banheiro. É o lugar onde ela agride mais. No banheiro das meninas, né. Daí eu
consegui falar, gente, mas vocês pensem bem nela. Ela não se sente bem nem nesse banheiro
porque ela não acha que é a hã... Assim como os outros falam, ó um guri! Ainda mais quando
ela começou de manhã, né. Um guri aqui neste banheiro! Ela parece um guri. No outro
banheiro ela não pode ir também, por que afinal ela não é um guri. Esse é um lugar que ela se
sente perdida na escola. E é realmente, pode ver, as brigas dela são dentro do banheiro. Onde
ela agride, onde ela qualquer coisa ela ofende, ela se irrita. Lá ela fica buzina. Então eu cuido
quando ela vai no banheiro eu não deixo outros ir. Até porque ela pode agredir outro aluno.
Onde ela fica agressiva...
- Agora. Quantos outros usam o mesmo banheiro? E na hora do recreio? Ela precisa ir no
banheiro também. E muitas vezes ela vai ali prá
- Uma vez uma pequeninha disse assim prá mim: Ô profe, tem um guri lá no nosso banheiro.
Eu disse: Um guri? Quem é? Aquele lá, ó... Láaa. Ah, não. Ela é uma menina. E ela me olhou
assim com uma cara que diz: Eu acho que tu olho errado. Ahahahahhaha.
I- Essa professora não sabe nada...
49h30min: Confusão de falas
B-Eu passei um dia lá no banheiro, não se se eu tava vindo do campo, eles tavam num
tumulto e aí eu fiquei... Talvez até tenha essa circunstância dela... Uma confusão com alguém,
porque tinha barulho no banheiro, que quando eu entrei e vi aquela gritaria eu perguntei: O
que tu tá fazendo neste banheiro? Porque na verdade eu não conhecia a menina. (eu também
achei que era um menino! Interrompeu outra) E ela não disse nada. Ela saiu correndo calada e
aí eu fui lá atrás e perguntei a alguém sobre ela, daí alguém me disse: Professora, ela é uma
menina!
130
50h00min: (eu falei)
-Pois é, mas desde... Eu não sabia. E aí, por causa do tumulto eu entrei.
N- Imagina a confusão que ela tá intimamente!
-A primeira vez eu também achei que era um guri...
N- Ela me disse assim: Euuu... Não! Aquele lá eu já peguei e já dei uma bordoada, eu bati
nele porque ele ficou me enchendo o saco. Sabe por que eu bati nele? Porque ele me chamou
de gay! Não! Porque ele me chamou de lésbica! Ele me chamou de lésbica. E eu fiquei
pensando... E agora? Agora eu digo: Mas tu não é?
50h50min: falam juntas
R- E o terceiro ano que eu tenho o guri e eu não sei se parece ele é bem afeminado, né? E aí
ela olha prá ele: Gay! Gay!
N- Ela não conseguiu se determinar... Acho que na na na atual nomenclatura ela é criança
ainda.
R- Acho que ela é muito criança.
- Acho que ela é muito criança. Ela mora lá perto de casa... Ela mora lá perto de casa e meu
filho um dia, ele entrou no pátio... Ela entrou no pátio, e ele disse: mãe, aquele gurizinho tá
batendo lá! Daí eu tive que explicar: L, não é não é... Ele é uma menina... Daí eu tive que
explicar todo o processo e ele ficou me olhando... Ãaa... Ah, mas parece um menino, né mãe?
Daí, sabe... Daí tu tem que explicar por causa da criança é difícil de... Imagina um adulto...
Uma criança assim, né...
-Mas a mãe sempre vestiu ela desse jeito assim, guria? A mãe?
-Ela sempre quis...
I-Ela não aceita.
-Ela é meio abandonada, né.
52h00min Todas falando juntas!
-Ela fez a vacina... Só que ela ficou longe das meninas. Ela parou aqui na porta e
resmungando...
-Eu vejo um pouco assim, ó... De abandono da família porque eu vejo ela correr o dia todo a
rua... Ela entra nas casas... Ela roba... Ela faz assim a rua... Abandonada assim... A família não
tá muito...
-Não... Esses dias de manhã ela veio...
52h40min todas falando juntas
50h50min (eu falei em nome social)
-Pois é, Joana, até assim, ó... Ela não que ficar mais naquela fila que eu separo meninos,
meninas... De organizar... Ela passa pra fila dos meninos, e eu deixo passar. Ela joga bola com
os meninos... As atividades ela faz com os meninos...
131
-E eles aceitam...
-Eu tenho um meninão na outra escola que ele também... Nunca discuto com ele... Nunca
chamei ele... Ficar a critério dele se quiser falar alguma coisa prá mim... Mas ele sofre com as
meninas. Eu já pedi prá ele... Quando eu di... Né... Quando tá gostando do grupo, é
impressionante quando diz meninos prum lado e meninas pro outro... Mais é prá que nem
contato físico na na atividade que a gente trabalha, que nem futsal, a gente tenta evita porque
daí tem idade, em determinada fase eles ainda têm dificuldade por causa da vantagem física
sobre... Os meninos às vezes não cooperam com as meninas dependendo da série, ele também
participa com os meninos. Ele participa falta um fulano dum lado, já organiza em grupos com
ele. Daí ele vai. Lógico que se for pela livre escolha, ele vai trabalhar com as meninas.
(Eu falei sobre nome social)
55h20min CONFUSÃO DE FALAS SIMULTÂNEAS!
-Tem que continuar usando a documentação até... Até ele...
-Eu tive experiência numa imobiliária, porque eu tralhava numa imobiliária... Chegou uma
mulher linda, corpão, aí olhou prá mim e disse assim: Eu vim assinar os meus documento...
Aí eu... Sabia, não tinha documentos pra uma mulher assinar. Aí eu pedi a identidade. Aí, na
identidade tava o nome masculino aí então eu tive que procurar... Mas assim socialmente ela
tinha outro nome. A gente chamava ela por outro nome.
(Eu falei) 56h00min
N- Mas cabe a pessoa no ensino médio, né... Porque ali o professora não conhece ela ainda...
- Mas tem uma idade prá isso?
132
ANEXO 13
ESCOLA 2 – GRUPO DE ADOLESCENTES
Em 27 de agosto de 2014
Então?
O que vocês acharam?
O que vocês pensaram sobre isto?
Já tinham visto o filme?
- Na vida real, não. Mas eu vejo nas novelas.
- Eu acho que cada um tem que cuidar da sua vida
- Eu acho que tá aparecendo mais em novela... (03h20min... Não dá para ouvir!).
- Todo mundo sabe q acontece aquilo, mas o espanto, o escândalo é porque aconteceu em
público.
- (...) que as pessoas não se acostumem com isso... Com a ideia de normalidade... Que nem se
tu olhar os jovens, já estão mais acostumados. Já os adultos, eles discriminam muito, e aí...
Por que os jovens estão mais acostumados e os adultos discriminam?
- É que pra gente isso é mais presente.
- Porque os gays vão vim na escola hoje porque não pode ter preconceito. Minha mãe nunca
ouviu na escola que não pode ter preconceito. Minha mãe ouvia meu vô dizendo que ela tinha
que casar, que ela tinha que ter uma família.
E se falava isso em casa, que não podia ser lésbica?
- Pra minha mãe, não. Mas ela ouvia dizer para outras meninas.
- Se eu quiser ser lésbica, tu sabe... Várias coisas ela já disse pra mim. Ela disse que se eu
fosse lésbica várias coisas iriam acontecer para mim. (risos)
Q tipo de coisas?
- Coisas ruins. (risos) Com meu corpo. Me colocaria para fora de casa... Eu fiquei muito
indignada com ela. (risos)
Então ela tem a mesma postura do que o vô?
- Não... Ela é bem mais... Mais...
- Radical?
- Puxando pro lado do não.
- Meu vô era mais radical...
- Serena?
133
- Meu vô era muito mais radical que ela. Garanto que ele me batia com um pedaço de pau
assim até morrer ou decidir não ser mais gay.
É uma decisão?
- Não.
- Não.
- Se tu virar gay eu te deserdo!
- Minha mãe não se importa. Ela diz que se tu é feliz do jeito que tu é não interessa qual a tua
opção sexual.
- A minha mãe, no início, ela até tinha um pouco de preconceito, mas hoje em dia... Hoje em
dia... Dois anos pra cá ela já tá se conscientizando mais que... É normal.
Isso de assistir aos debates na televisão?
- Eu acho que é coisa da convivência com os jovens, já que ela tem bastante convivência com
adolescentes... (07h50min)
Tá. Ela convive mais com o trabalho dela? É professora?
- Não. Ela trabalha numa fábrica... Eu acho que viria daí... De conhecer pessoas...
- Eu acho que isso de mostrar na novela é um ponto positivo... Porque tá... De certa forma...
Condicionando as pessoas a se adaptar melhor a isso. Porque, querendo ou não, tá
acontecendo e uma hora a gente vai ter que se acostumar com isso. Porque não é dizer: Eu não
quero ver isso e então não faz! Não é assim. Não é uma escolha minha. Ri. No caso, então
acho que isso é uma coisa bem positiva assim. Meu pai já pensa o contrário. É conservador e
tal... E a minha mãe já é liberal. Tipo, dentro da minha família também tem opiniões
divergentes.
(08h36min) Não ouvi! Parece ser importante.
- Amor à vida! (Duas pessoas dizem juntas) Essa novela apareceu um beijo gay, e agora essa
última novela que terminou agora... Em família, né? Que tinhaaaa... A Clara e a Marina.
- A minha mãe já achou um absurdo! Ela não gostou porque tiveram mais cenas. Naquela
outra novela foi só uma no final. Daí eu acho que tá...
- Só que eu acho interessante isso, que quando começou a novela Em família, eles não
fizeram questão de esconder, assim... Eles logo nos primeiros episó... Capítulos disseram,
tipo, a Marina é gay. Cara, se acostuma, ela tem uma namoradinha. E aí, muita coisa na
internet, tipo jovens por que... Gente... Assim... De mais idade não usa o Twitter, né? Jovens
no Twitter fazendo: Ah, mas o que essas sapatas? Gente que um mês atrás, tinha acabado
Amor à vida, tipo: Ah, que lindo o exemplo da Globo, mostrando como a homossexualidade é
importante! Aí, só porque eram duas mulheres, tavam achando um absurdo. Eu, que absurdo,
né?
- Elas faziam brincadeirinhas também: Ah, vocês não namoram homem... Assim!
134
Então vocês acham que é diferente a percepção das pessoas em relação a dois homens
namorarem e duas mulheres?
- Sim.
- Sim.
- É diferente.
E porque será?
Provoco meninos que estavam calados até então e começam a cochichar lá no fundo da sala.
H- Decerto porque entre homens é mais radical. Sei lá eu... Entre mulheres eles aceitam
mais...
- Eu acho o contrário.
H2- É... Eu vejo o contrário.
- Eu acho que é o contrário.
- Eu acho que ninguém bate com uma lâmpada fluorescente numa mulher. Ri.
- Acho que é mais normal tu ver duas mulheres do que dois homens. Sinceramente... Por
mais... Por mais... Por exemplo, né... A mulher tem como se vestir de homem, né? Já o
homem se vestir de mulher... Ri. É estranho, né? Então é mais...
- Pela nossa cultura... A minha mãe que estudou na escola isso... Cultura machista. Porque eu
não acredito nisso de feminismo e machismo... Quer dizer... Mas pela nossa cultura, duas
mulheres andando juntas como amiga, isso tu aprende desde pequena, tipo andar de braços
dados... As crianças andam de braços dados. Aí, quando tu vê dois homens andando de braços
dados, é muito impactante. Então quanto tem dois gays andando na rua tu logo percebe que
eles são gays. E quando tem duas lésbicas, tu fica meio na dúvida que são lésbicas ou são só
amigas, né?
- É... Essa percepção muda bastante quando tu falou, quando são crianças, andam de mãos
dadas, enfim, né... Os coleguinhas não ficam zoando, né? Mas se são dois meninos, sim. Aí
depois, quando são adultos, no caso, aí a gente vê, que nem na novela mostrou também, um
preconceito maior... Contra as mulheres... E que isso... Tu... Ãaa, como elas têm... Também
esse preconceito em cima disto, a gente vê mais mulheres andando de mãos dadas em público,
sendo que elas sofrem mais preconceito.
- Eu acho que... Desde antigamente, até como brincadeira... Tipo os antigos, eles falavam
como brincadeira, mas falavam, eles abortavam... Abortavam! Risadas. Abordavam o
homossexualismo até nos Trapalhões. Eu lembro dos Trapalhões, gente! Eu sou uma pessoa
muito culta. Aí... Tipo...
Trapalhões é cultura...
- Aí, agora, mostraram duas lésbicas e meu pai: Ai, meu deus! Duas lésbicas na novela! Não
pode. Só pode mostrar gay. Não pode lésbica.
Vocês concordam com isso?
135
Porque será que duas meninas na escola, andando abraçada, indo pousar uma na casa da outra,
até dormindo juntas é aceito e dois meninos, se andarem abraçados, de mãozinhas, não é
aceito?
- Isso vem da criação. Eu e ela (colega) trabalhamos com crianças pequenas. Segundo e
terceiro ano. E dá pra perceber nitidamente que é de criação. Porque tu percebe que um aluno
que não tem uma boa criação em casa, os pais são preconceituosos, eles com certeza são
aqueles que chamam os colegas de viadinho ou que... Chamam o coleguinha de gordo. Ou
tem algum preconceito racial.
Falando das novelas. Sobre o que pensaram os familiares e comentaram.
H- Acho que... Pra menino... Sempre há pressão dos pais. Mais do pai. A mãe é sempre mais
liberal. Mas o pai (14h52min) Não entendi o que ele falou!() Os meus pais são separados. De
repente, minha mãe, assim, eu acho que ela aceitaria. Aceitaria melhor. Mas o meu pai não
aceitaria.
- Minha mãe não aceitaria.
E aqui na escola?
Como é que a escola lida com isso?
Alunos podem namorar na escola?
- Pode, mas sem agarramento.
- Pode andar de mãos dadas. Mas beijos e essas coisas não pode.
- Não. Beijo pode. Só não pode chegar assim: Aí, gatinha, dá um beijo aqui! E daí, se deitam
no chão e... Risos.
- Embora aconteça... Risos.
Então tem casos de menino e menina namorando no pátio? Existe isso?
- Sim.
E colegas homossexuais? Existem também namorando na escola?
H- Só gurias. No colégio eu só vejo gurias. Nunca vejo guris.
A escola não interfere?
- Não. Ela fica na dela.
É um dado interessante. Então é justo?
Meninos têm?
- Tem.
Namoram? Mãos dadas no pátio?
- Não.
- Não.
136
Por quê?
- Porque o outro não estuda aqui.
Ah, bom... Aí é outro caso.
O que vocês se sentem vendo a cena do beijo no filme?
- Normal.
- Normal como se fosse uma mulher e um homem.
- Isso eu também acho que é bem pouco falado... Por exemplo: As pessoas que têm
preconceito, muitas vezes não dizem que têm preconceito por medo de sofrer preconceito por
quem não tem preconceito. Risos.
- Isso é um círculo vicioso.
- Eu acho que é muita hipocrisia falar, por exemplo, ah, eu aceito homossexuais, mas não na
minha família. Então tu não é aceita. Se tu não quer na tua família, é porque tu não aceita.
Perguntas provocativas... Concordam ou discordam com direitos civis iguais.
- Eu acho que tem muito heterossexual tendo filho, jogando o filho na rua, enquanto tem
muito homossexual que não pode ter filho e podia adotar!
RECADOS DEIXADOS EM BILHETES NA FINALIZAÇÃO DO DEBATE
Eu acho que hoje é uma coisa normal, mas muitos ainda não se acostumaram. O casamento é
um direito seja lá com quem for. Devemos ter direitos iguais.
Todos temos os mesmo direitos, mesmo dependendo da sua opção sexual.
Cada um pode ser feliz independente da sua sexualidade!
Eu acho que TODAS as pessoas, independente da orientação sexual, tem direito a serem
felizes como “querem”- não que ser gay ou lésbica seja por vontade-, cada pessoa deve
ser/fazer o que quer da sua vida, o importante é ser feliz!
Somos todos iguais, perante a lei e a vida. Todos temos direitos, para escolhermos aquilo que
nos faz sentir bem e completo.
Aceitar completamente o homossexual é complicado, pois eu particularmente não vejo
problema, mas um certo encomodo quando vejo atos como beijo nas ruas.
137
Todos somos iguais, temos direitos iguais.
Eu penso que todos são livres para escolher é sua opção sexual. E que todas possam se casar
na igreja e adotar filhos.
138
ANEXO 14
ESCOLA 3 – GRUPO DE ADOLESCENTES
Em 09 de julho de 2014, às 10h00min.
Risadas após a sessão de cinema.
O q vcs acharam do filme?
- Eu gostei.
- Eu achei muito lindo.
- Eu também.
Pq?
Já tinham pensado sobre este assunto, esta possibilidade?
Já viram alguma coisa parecida?
- Eu sim.
Quer falar p nós?
Risos.
Este assunto não surge na escola?
- Não.
Pq?
- Não sei.
E em casa?
- Tb não.
Nem quando veem novela?
- lá em casa é difícil a gente ver novela.
- Mas tem bastante preconceito.
139
- É...
- Os pais têm...
- Dos pais.
- Geralmente eles falam ah, os outros tudo bem, mas o meu filho não.
- Não é normal, né?
Eles dizem?
_ Ah, não sei... Cada um tem que... Sei lá, fazer o que gosta.
Porque tu achas que não se fala sobre isto aqui na escola?
- Pq aqui na escola não tem ainda.
-Por vergonha talvez.
Nunca teve um aluno ou aluna?
- Teve. Só que já saiu.
Se formou?
- Não. Mudou de escola. O meu amigo.
- Daí tinha a prima dele também. Que também saiu da escola.
Eles eram homossexuais?
- Bi.
Bissexuais?
Pq saíram da escola?
- Acho que porque eles iam trabalhar eles estudaram de noite.
Não havia preconceito?
- Que eu vi não. Entre a gente, não.
E se acontecesse aqui, entre colegas de vocês, o que vcs acham que ia acontecer?
- Bastante preconceito. Principalmente entre os guris, os colegas.
140
- É.
Vcs acham que os guris são mais preconceituosos?
- Aham.
Eles demonstram isto?
-Às vezes...
- Eu tinha um amigo na outra escola, e em casa ele era normal assim... É um guri, sabe? E na
escola não. Na escola ele mostrava que era... Que gostava de guri também, sabe... Só que em
casa, não.
E como era na escola?
- Ah, era bem... Parecia uma menina.
E a aceitação dos colegas?
- Eles estavam aceitando já... As pessoas... Os professores e colegas também.
- Tem um guri aqui na escola também né?
- Do integrado. Ele é muito legal. Todo mundo gosta dele. Bem querido.
- Do ensino médio. É do primeiro.
- Não. No segundo ele tá.
- É né?
- Eu gosto. A maioria gosta. Ele é muito querido.
- Ele é muito querido!
E vcs já ouviram professoras falando sobre o tema, surgiu algum questionamento sobre o
tema... Na televisão, cenas de violência, lutas pelos direitos, casamento, adoção...
- Não.
Nunca perguntaram?
- Não.
- Eu só não acho certo se casar, tanto no religioso quanto no civil e nem adotar criança...
141
Pq?
- Pq também na escola também tem preconceito com isso... E as crianças também sofre talvez
preconceito... Eu não acho certo.
- Eu apoio. Porque acho q cada um tem que ser feliz do jeito que acha que pode ser feliz.
- Não tipo, relação assim eu não acho que tem nada a ver. Só que eu não acho certo adotar
uma criança. Entre esses casais...
E casar?
- Ah, isso aí... Se ajuntar, talvez...
Mas casar legalmente...
- Não. Eu não acho certo.
Tu achas q prejudicaria as crianças?
- Eu acho que de algum modo sim.
- Eu também acho que se eles tão de acordo...
- Eu não tenho nada contra sabe... Mas cada um vive do jeito que acha que é melhor.
A oficialização civil ou religiosa traria algum prejuízo à sociedade?
- Não.
- Eu também acho que não.
E em relação às crianças e adoção?
- Isso acho que pode prejudicar a criança, depois, mais tarde, na escola assim saber que... Que
teus pais são... São assim...
Aí o que prejudica a criança é o fato dos pais serem homossexuais ou é o que os outros vão
fazer em relação a isso?
- O que os outros!
- O que os outros vão fazer.
- A criança já nasce assim? Ou é depois o convívio que ela fica assim?
Assim como?
142
- Gostar do mesmo sexo assim...
O que vocês acham?
- Eu acho que já nasce.
- Eu também acho.
- Eu também acho. (todas juntas)
Tu lembra quando foi que tu escolheu ser como tu és?
- Na escola... Acho que na primeira ou segunda série... Eu tava gostando de um menininho.
Risos
Aí tu disse: eu vou gostar de guri! Foi assim?
- É... Eu não pensei assim. Eu só gostava dele.
Então tu descobriu que gostava?
- Não! Eu não escolhi.
- Às vezes acha que é uma coisa... Daí quando vê é outra também...
- Que esse meu amigo, sabe? Ele sempre mostrava que gostava de menina. Aí depois ele
mudou, sabe? Agora ele tá namorando até...
- Um menino?
- Aha.
- Ele foi criado pela avó dele. É que o pai dele e a mãe dele são separados e eles nunca
estiveram presente.
E a avó dele é homossexual?
- Sim. Não!
Risos
Falo do tabu de que pais gays transformariam filhos gays.
- Eu acho os gays mais queridos assim... Prá conversar, prá contar segredos... Eu já tive, que
nem aquele amigo... Eles são mais verdadeiros, parece assim...
143
- É verdade...
Pq será?
- Não sei...
- São muito divertidos também...
Não seria um problema ter um amigo gay então?
- Não (todas)
E uma amiga lésbica?
- Também não.
E se vissem se beijando como no filme?
- É diferente...
Por quê?
- Não to acostumada a ver...
Vocês não acham estranho na escola não se falar como se não existisse?
- Sim.
Se fala de sexualidade?
- Corpo humano, prevenção de doenças, gravidez...
Homossexualidade não?
- Não.
Falo nas novelas.
- Com meu pai...
- Assisti com minha mãe. A gente riu olhando.
- Meu irmão não gostou muito. Meu irmão pelo que eu vejo ele acha errado Ele é contra.
- Minha irmã pequena falou que é bonitinho. E ela tem cinco anos. E ela falou que é muito
bonitinho.
144
- Meu irmão já não gostou. Porque ele vai muito pro lado do meu pai. Eles são muito
preconceituoso. Ele tem sete anos.
- Meu pai falou: isso é uma vergonha mostrar na TV.
E a mãe?
- A mãe não falou nada.
- Meus pais também não falaram nada.
Muita dificuldade de expressar as opiniões sobre o tema. Muitas lacunas de silêncio e foi
necessário, pela primeira vez fazer perguntas, induzir as falas. Então optei por bilhetes no
final.
RECADOS DEIXADOS EM BILHETES NA FINALIZAÇÃO DO DEBATE
Acho que cada um tem a sua escolha. Se não houver preconceito, a homossexualidade não
afetaria em nada. Cada um pode ser feliz da sua maneira. Cada um tem a liberdade de
escolher o que quer. Acho que se um casal homossexual adotasse uma criança não afetaria em
nada em casa, mas com certeza a criança sofreria preconceito por causa de seus pais.
Não vou contra, acho que todos devem fazer e assumir o que gostam. Maior parte das pessoas
são contra, talvez pelo fato de não ser algo comum. Pessoas de mais idade costumam achar
que adolescentes devem seguir a tradição, homem com mulher. Por isso a questão do
preconceito de maior parte das pessoas.
Eu sou a favor porque deve fazer o que sentir e que deve ter direito. O que as pessoas pensam
não e nada de se meter.
Todos tem direito de escolher seu caminho, as decisões devem ser tomadas de acordo com
nossas necessidades. A opção sexual é uma escolha que deve ser feito de acordo com nossa
145
felicidade. Sou a favor o relacionamento entre o mesmo sexo, porém acho errado o casamento
no civil e no religioso como também a adoção de crianças.
Muitos acham errado pessoas do mesmo sexo terem relações, mas eu não sou totalmente a
favor. Pois todos devem fazer o que acham certo para eles independente do que os outros vão
pensar ou falar.
Todos temos direitos de escolha própria em sua vida, cada um sabe o que gosta e o que sente.
Não importa o que somos, todos precisamos ser olhados e tratados como todos.
146
ANEXO 15
ESCOLA 4 – GRUPO DE PROFESSORA/ES
Em 06 de maio 08h00min:
Reunião de professoras: depois de assistir ao curta metragem “Eu não quero voltar sozinho”:
- Se vai ser correspondido... Isso nem sempre acontece. Então aí também é complicado...
- Eu acho que também a gente... Prá gente é difícil de aceitar...
- Mas o gostar independe... Independe do... Porque ele não via, né? Ele não via... Ele via uma
pessoa. Ele não via um menino...
- mas ele sabe... A diferença da menina e do menino ali, né? Só que assim... A audição dele,
né... O que atraiu ele foi o menino.
- mas eu penso assim, ó! Tu vê isso ali, ou vê quando é longe da gente, de outra família, a
gente tem um olhar... Mas eu acho que é muito difícil prá família, pai, mãe aceitar, sabe? A
situação. A gente vendo de longe é... A gente tem um olhar diferente... Agora, se acontece na
família da gente... Eu acho que... Aí a gente... Sofre muito. Não sabe?
H- e a questão é regional também, né. A questão do gaúcho também muda... Até nos filmes...
Agora tem um filme novo... O concurso, né... Com o Fábio Porchat... E daí ele no final ele...
É... Um... Travesti que se torna... é... Um travesti no Rio. Aí o pai mostra a pressão, né...
Mostra o gaúchão do lado dele e vem a imagem do pai... Guri, te afirma, né! RISOS. Aquela
questão daí... Ele tá lá do lado dos travestis e diz: Pai,... Nasci em Santa Catarina! Ele não vai
voltar prá casa, né! Então... O gaúcho tem essa questão aí...
- Machismo...
- Machismo puro...
- e outra questão, por exemplo, nos homossexuais, normalmente quando os dois não são, um
deles tem assim uma sensibilidade muito grande... E a... Ele... Tipo assim, ã... Esse desejo
né... Essa atração, ela surge em cima daquilo que nós podemos dizer da questão da felicidade.
Que eu só sou feliz, no momento que eu faço outro feliz. Porque a felicidade ela existe a partir
de uma relação, né. Então ali também se vai olhar... Eu fiquei pensando durante o filme... As
pessoas que eu conheço. Todas elas são pessoas muito sensíveis. Elas têm uma felicidade
muito grande. Agora tu vê... Ã... A gente diz: elas são feministas...
A gente diz isto em
147
função da afetividade... Muitas vezes eles não têm nada de feminino no estilo. Só a questão
meiga mais...
- isso que ele sentiu... Houve um cuidado, um afeto, uma demonstração de carinho que fez
com que ele sentisse valorizado e bem quisto por um outro.
- mas a menina ficou decepcionada. RISOS.
- isso representa a família, né. O choque, né. Por mais que goste...
- o que eu vejo em história, sociologia e filosofia... As pessoas acham que o homossexualismo
é uma coisa tão nova. Na verdade na Grécia antiga era tão comum... Os primeiros seres
humanos era tão comum. Se você for estudar um pouco da história da Grécia e Roma antiga,
os escravos, os homens eram usados para transar com seu dôminus, com o seu dono. E as
escravas mulheres eram usadas para transar com a sua domina. Tá? Então é uma coisa super
comum prá eles. Eles não tinham vergonha. Não tinham esse pudor todo, né, em relação a
isso. Era uma coisa mais aceita. Inclusive os professores daquela época, eles tinha que ensinar
também a iniciação sexual. E isso eles ensinavam.
Como os meninos tinham professores
meninos, as meninas, professoras meninas. Eles ensinavam. Era uma coisa normal. O que
aconteceu? Com a vinda, né. Dessa ideia do cristianismo, que se podo isso. E aí começou a
ser escondido essa homossexualidade. Porque ela sempre teve. Ela faz parte do instinto do ser
humano. É algo que é natural. Ele não se sente atraído pelo outro, do sexo oposto, mas ele se
sente pelo mesmo. E é o instinto que eu herdei. Que todos nós... Temos, de reprodução. E...
Foi se virando isso... E as pessoas começaram a ver isso como errado... Ai, ai começou a criar
essa questão de preconceito. Ah, porque deus fez o homem e fez a mulher e tem que ser os
dois. E aí começou a se criar essa mentalidade... E agora, quando eles tão conseguindo uma
abertura, né, como a gente fala na sociologia, são as minorias, que estão conseguindo, né, se
colocar, se impor na sociedade, serem vistas, as pessoas acham isso muito estranho.
- Acham que é novo, né?
- Acham que é novo. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que acho que não tenho preconceito
nenhum. Quando... Em Venâncio era muito difícil ter... Quando eu fui morar em Santa Maria
e Porto Alegre, nossa, é muito comum! Eu nunca vi isso errado. Pra mim na televisão isso
nada é errado. Prá mim ter aluno homossexual e se eles tiverem né... Se beijando, enfim,
afetividade... Prá mim não é, eu não me sinto afetada por isso. Tem pessoas que se sentem,
porque elas têm preconceito. E do ponto de vista social e filosófico que nem eu falo, tá, o
148
preconceito é uma coisa de educação. Ninguém nasce preconceituoso. Nós que formamos
pessoas preconceituosas. É uma questão cultural, educacional. Nenhuma criança quando
nasce ela nasce já com essa ideia inata de preconceito. Não. Pela cultura, pela sociedade onde
ela tá inserida é incutido que tem que ser preconceituoso com o outro. Aí vem a intolerância.
E não é só a questão sexual. Vamos ver agora a questão dos negros, né, no futebol. Jogando...
Jogando banana para os jogadores brasileiros negros. Questão educação, cultural, né... Não
aceitar a diferença, não aceitar o outro. E eu, por exemplo, coloco nas minhas aulas, que
graças a deus, que todo mundo é diferente. Imagina que tédio seria o mundo se todos fossem
iguais. O que nos torna, a diversidade só é possível porque somos diferentes. Tem que existir
a diferença porque todos iguais nada aconteceria, não aconteceria a transformação do mundo.
E as pessoas, elas não... Elas não são educada prá aceitar a diferença. Prá aceitar o diferente.
06h33min
-Se não tivesse o preconceito, muito mais, muitas pessoas a mais estariam vivendo com
outras do mesmo sexo. Quantas pessoas assim, ó... Pessoas de idade que se conhece que
nunca tiveram um companheiro ou uma companheira... Se tu vai olhar a história de vida
desta... Destas pessoas, quem nos diz que não... Né... De repente eles queriam um
companheiro... Se é um homem... Uma companheira se for mulher... Mas, devido ao
preconceito... Essa questão toda cultural, o medo...
- e às vezes, até, essas pessoas que se relacionam várias e várias vezes em busca de alguma
coisa, um companheiro, então a pessoa que não encontrou, né? ... E em função até do próprio
preconceito dessa nossa cultura não, não chega a viver com outra do mesmo sexo, daí acaba...
Não vou dizendo infeliz, mas nunca achando a felicidade por completo, né?
- Sabe que quantos depois de casamento, de teres filhos, tudo... Depois então... É que vem
com...
- Depois de uma vida... A gente... Meu deus! Né? A gente... Depois desta idade... De velho...
Mas foi quando...
- Pela idade, pra viver com outro homem... Tudo bem... Mas se largar prá viver com outra
mulher? Os homens gostam de dizer isso...
Risadas
- Eu acho que...
149
-O problema maior que aconteceu é a vulgarização. Que a mídia faz. Eu acho que... Eu
sempre coloco você tem que ter uma certa educação, uma certa medida, né? A vulgarização
que agora as novelas, os programas estão fazendo, acho que isto está prejudicando muito mais
a visão do homem e dá mulher. Não digo só do homossexual, né? Dos casais. Mas do homem
e da mulher. Muito vulgar e muito apelo. Então ontem, conversando com a professora de
biologia em outra escola, a banalização da questão sexual. A mídia fez isso e a gente que
acaba 08h47min sendo preconceituoso porque a mídia faz isso com essa vulgarização, se não
tivesse talvez nós poderíamos ter aceitado... Aceitado mais fácil esses fatos.
H- Que nem às vezes é comentado... Até em casa eu falo com o pai, o pai só mostra só... Ã...
Que nem na linguagem diz o pai só mostram só lésbica, mostram só viado. O pai fala em casa
assim. ... De Barros Cassal (risos) Daí diz ele assim: Tá, mas... ã... Tão mostrando o que
acontece. Ã. ã... Por exemplo, a rede globo, faz assim é o contemporâneo. Daí ele diz, é, mas
será que eles não abusam? Nessa parte até posso concordar com ele. Eu acho as vez... É...
Toda novela é sempre batendo na mesma tecla, né? Até teve folders também de... Ã...
Menin... Ã... Acho que foi... Foi o governo que foi feito de dois meninos de mãos dadas...
Não sei... Era um programa do governo federal. Daí no final até que não... Não... Eles iam...
Transmitir pras escolas e no final parece que foi vetado. Mas eram tudo coisas que
incentivam, né, uma coisa que tal... Pode ser que é normal, mas não sei... Acho que esse tipo
de incentivo não deveria ter. E realmente é que nem a Camila falou, né? Ã... Prá reprodução
homem, mulher. Mas acho que se foi feito homem e mulher é pra ter homem e mulher. (risos)
Senão ia ter reprodução por bi partição, assexuada...
- Mas eles se reproduzem também!
H- É, pois é...
- Gregos antigos, né? Eles tinham e tinham sua mulher também...
H- Alexandre o grande também, né? Na última instância, né?
- Quantas barrigas de aluguel? Quantos homens que tem produção independente... Adoção!
H- E outra coisa... A questão da empresa onde eu trabalho também. No refeitório tem bastante
travesti trabalhando. E... Na hora do meio dia às vezes tem... Nesse dia tinha banana de
sobremesa... Ele tava fazendo cenas obcenas com a banana. Então eu acho que ali ele tava
faltando com gran... Muito só falta de respeito com os colegas dele. Né? Esse cara tinha que
pegar pelos cabelo e levar lá fora e tá demitido. Porque além dele ser uma pessoa que tá ali...
150
Tá... Tá... Inserido num lugar diferente que ele era um dos únicos, ele em vez de mostrar
então, né, a opção dele sexual... Não! Ele tá banalizando.
- Mas hetero também faz.
H- ã?
- O hetero também faz!
H- Mas ele já é o centro das atenções no refeitório.
- Ele não tem culpa disso!
- É isso que ele quer fazer. Chamar a atenção para a. (11h43min) ali no local de trabalho dele
e tentar uma postura, né? É a mesma coisa nós aqui na escola, se tem alguém, mas a gente tem
que ter postura. Né? Não pode mostrar a tua... (11:57)
- é uma questão educacional, né? Um ambiente social, né?
- Se, se ninguém olhasse pra ele... Ficasse (todas falam ao mesmo tempo!)... 12:05
- Só que ele tem que ter postura de profissional. É a mesma coisa que... Ã... Eu trabalhei já
com também um que depois se modificou, né... Eee... Gente, ele é um professor assim de...
Alto gabarito... Tinha uma postura de professor... Assim ó...
- Mas gente! Eles são pessoas normais!
- siiiim, só que ele tem... Assim ó...
- Ele tem postura de professor... É claro que ele estudou. Qualquer um pode... O colega ali...
O Eduardo disse que o colega da firma lá... Ele também. Ele é um operário na firma, na
fábrica, onde ele tá trabalhando.
Eu acho que assim, ó... Tem que dá o respeito. É a mesma
coisa que a mulher. Agora tu vai lá fica se exibindo e... Né? Não tem porque. Tem que ter
acho que a postura, tu tá trabalhando, tu vai num bar tu leva a postura, tu vai ãa... Tu tá no
centro da cidade tem que ter uma postura...
- Eu não justificaria ninguém aqui... Eu diria o seguinte: que nós temos 2014 anos de
educação ãa, né... E é isso que dificulta tudo na cabeça da gente... São tantos anos prá mudar
tão rapidamente que não é assim... Então não justifico nem um lado, nem o outro. Eu acho q
cada um tem q ter sua opinião e é isso que vale, como a xxxxx mesma disse, que bom que
todos são diferentes, se o Eduardo tem esse pensamento, se a M tem também esse mesmo
pensamento, se nós temos pensamentos diferentes, cada um tem o direito de ter o seu
151
pensamento e saber respeitar... O meu direito vai até o momento onde eu estou respeitando o
direito do próximo. Então eu acho que cabe a cada um saber até q ponto a gente está sendo
correta ou não.
- E eu acho que mais importante é a pessoa ser feliz. Se ela é feliz, penso q se relacionando
com um igual, tudo bem. Mas se ela é, se ela vai se relacionar... Com uma outra mulher em
função de toda uma frustração que ela tem da figura do pai, da figura masculina, ela pode, ela
pode ter uma revolta com a figura masculina, mas ela também não vai encontrar a felicidade.
E eu penso, eu penso que o principal é o ser feliz. E nem todos os homossexuais são
homossexuais, eu imagino, em função dessa vontade, mas por frustrações. Então são situações
diferentes. Também já tive... Contato com maior homossexuais... Tenho também na família,
mas não tenho convivência porque é muito distante. Como alunos, desde que eu comecei a
trabalhar, aqui nem tanto, mas, ã, já teve outras escolas que muito mais e tanto que passou a
ser muito mais normal do que a nossa realidade aqui, porque era maior quantidade, e era
tranquilo. Nós tínhamos as duas situações. Tinha aquele que parecia assim que nasceu, né,
dessa forma. E quem tinha as suas frustrações e em cima disso não se achava e também não
era feliz.
E quem tinha as suas frustrações e em cima disso não se achava e também não era feliz.
- só fazendo o gancho aqui, ó. É o que o palitinho diz: os corações morrem quando a gente
está bem, sente-se bem. O negócio é ser feliz. 15h20min (Fazendo referência a um adorno que
estava sobre cada mesa ao entrarmos na sala.).
- as pessoas não encontram a felicidade. Ontem mesmo eu tava trabalhando na outra turma, os
próprios gregos, eu adoro os gregos porque apesar de né... Há tanto tempo acham que é uma
filosofia, uma sociologia que não é superada, e o que eles falaram antes de cristo até hoje se
aplica, não é... E se aplica muito mais do que os filósofos contemporâneos. A felicidade. Qual
é o problema maior que as pessoas não são felizes e ficam frustradas? Porque elas não
conhecem a si mesmas. Elas se preocupam em conhecer o outro, e elas transferem no outro a
sua felicidade. O outro vai me fazer feliz! Na verdade é ela que tem que se fazer feliz. Ela
não se conhece. Aí aquela frase do ari... Do Sócrates: conhece-te a ti mesmo. Ontem fazendo
uma reflexão com meus alunos eu disse: me citem cinco qualidades que vocês têm. Que
dificuldade! Me citem cinco defeitos. Que dificuldade! Citem do colega do lado. Ah, nossa,
isso saltou tanto defeito, tanta dificuldade, tanta qualidade. Porque nós nos preocupamos com
o outro. Não nos preocupamos com nós mesmos. Aí tá o problema. Nós somos frustrados. A
152
pessoa não se conhece e aí vai fazendo né, vai tentando essas violações, aí casa com homem,
e na verdade, né a mulher queria... Depois se conhecendo mais ela vê que gostaria de sexo...
Do mesmo sexo... Era casar com outra mulher... As pessoas não se conhecem. E esse que é o
problema. E não se permitem conhecer também. Quando você vai fazer um trabalho desses,
ai, prá quê? Não precisa. Eu sei quem eu sou. E quando você pede para redigir um texto:
então me redige um texto: quem tu é. Aí vem aquelas características físicas. Não, eu não
quero saber disso. Isso eu já sei. Eu to vendo. Eu quero saber quem tu é. É muito difícil. As
pessoas não param. E é uma questão educacional. Ninguém nos diz que a gente tem que se
conhecer. É trancado isso. Não. Preocupem-se, né, com conteúdo, preocupem-se nas suas
atitudes com tudo assim, ou com ou colega, mas não contigo mesmo. E as pessoas ficam
frustradas e não encontram a felicidade. E ficam testando as coisas.
- e eu acho também que é uma questão de geração. Eu acho que a nossa geração é muito
difícil. A gente tá com o pensamento formado. Nosso senso formado. Mas eu acredito que
essa nova geração que vem até em sala de aula a gente vê que poucos têm preconceito com o
colega... Sabe que é assim... Normalmente, no final da turma um ou dois têm mais
preconceito. O resto tudo prá eles já tá normal aquilo ali, a gente vê, então eu acredito assim
que as próximas gerações vai ser diferente, a nossa é di... Fícil...
- a nossa é difícil! (risos) (falam juntas)
- mas eu acho assim, eu acredito que as próximas, por mais que a gente tente, por mais que a
gente se esforce, por mais q eu diga q eu não tenho, mas a gente tem... E a gente não quer,
mas aquilo é mais forte que a gente. A gente não quer, sabe? Mas assim, parece, sei lá, que a
gente pensa tudo... Que a gente deu... (muitas falam juntas) a família, sabe? E a gente, e eu
vejo, como eu tenho só um filho, e que ele é preconceituoso também nessa parte, apesar de ele
ser bem novo, porque eu acho assim também ele se criou muito sozinho com a gente tendo
esse parâmetro assim que homem é homem, mulher é mulher. E é isto, né! Mas eu vejo na
sala de aula, aqui no Adelina mesmo, que como eles tão mudando! Como a gente vê assim
que eles não têm preconceito. Que eles já tão normal ali. E daí esses dia até um aluno me
contou, diz ele: professora, eu nunca beijei, ele disse pra mim. Terceiro ano. Aí eu disse assim
prá ele: Credo! Tu nunca beijou? Mas eu vi tu sentado do lado da tua vizinha. Eu via
conversando com a tua vizinha lá na área da tua casa. Aí diz ele assim: não, mas eu nunca
beijei. Porque a gente sabe, os colegas todos sabem que a opção dele é outra, né? Ã... Então
assim, ã... Então eles riram assim mas brincaram também com ele né... Ã... E a gente viu
153
assim ó, sabe que eles aceitam. Sabe? Que a turma aceita, sabe? Que vê ele assim como ele é,
sabe? Acho que com o tempo acho que isso vai mudar... 19h37min
- mas isso é uma coisa que não é assim... (não entendi) os mais novos já não são bem assim,
pq eu tb, eu trabalho a questão... (não entendi) os mais novos e eu vejo que o que o filme, o
pouco que o filme nos apresentou ele não chegou a colocar a realidade de uma sala de aula,
né... Das risadinhas, das piadinhas... Eu dou educação física. Isso acontece muito, ã... É um
momento também assim que... Ã... Tu está fora, tu brinca, tu corre, então tu pode fazer outros
movimentos, restritos na sala, então a pessoa que tem a tendência homossexual, num jogo ele
já vai soltar mais, liberar mais. Aí sempre tem aquele grupinho que dá o apoio, né?
Normalmente as meninas, né? “Ai, vai, corre! Busca a bola! Ai!” faz aquele gesto. E tem o
pessoal... (não entendi 20:27) que já fica, né, ridicularizando... Isso aí o filme não mostrou
muito. Mas acontece, e é beeem difícil assim da gente na escola trabalhar porque tem essa
parte de casa, que é, como o professor falou, que acontece que tu vem de casa, os pais dizem:
isso é feio. Isso não pode. Né. Eu vi na TV. E tem uma escola que a gente tenta né, ajeitar
nã... Não... Vamos continuar a aula... Vamos dar força... Tentar organizar as coisas, e a gente
como professor fica no meio desse fogo cruzado. O que a gente faz? A gente apoia o aluno?
Senta e conversa? A gente, ã, xinga a turma, né? Ou deixa a turma? É uma coisa bem difícil
da gente como professor lidar com isso, com esse trabalho. Até porque é uma fase que eles tão
entre criança e adolescência... Eles tão se descobrindo, se conhecendo. Eles são também não
sabem como agir. É muito complicado prá eles e prá gente. Como ajudar, né? Como é que a
gente vai ajudar?
- no filme, ali até comentei baixinho com a... Ali teve um final feliz. Foi recíproco, né?
- Teve um final feliz. É isso!
- Na escola... Às vezes né... O que se interessa tem essa outra visão... Não, eu gosto de
mulher... Não aceita até... Fica né, mais arredio... E eu tenho uma sobrinha que tá no primeiro
ano do ensino médio, trabalho dela no seminário integrado ela desenvolve então é sobre esse
assunto e veio como assim (não entendi) como a juventude está mais aberta, tá buscando
conhecer e eles tem um espaço na escola, espaço livre, e muitos alunos se declararam assim
(não entendi 22h09min) Eles nunca imaginaram que eles “Ah, não, eu gosto de menino
mesmo, sabe.” Adolescentes de 12, 13 anos, sabe. Que chamou a atenção à quantidade. Vai
ser o projeto deles, o seminário. Esta questão da homossexualidade.
154
- puxando um gancho no que a Camila falou, que nós não nos conhecemos, e aí tá o medo. A.
(cita a colega), digamos né... Que é homossexual... Risadas (a colega reclama que teve o
nome citado e a gravação a identificará) Risadas. Todas falam juntas.
- Digamos assim, ó. Tá. Que a (colega de novo) ou eu seja. E tenho medo de me aproximar da
pessoa. Se eu não me conheço, eu vou ter medo. Se eu me conheço, não tenho medo. Ela é a
minha amiga. Não importa a opção dela. Né? Ela é minha amiga. Nós nos gostamos como
pessoas. Não como namoradas. Então assim, ó. A pessoa ela não se conhece, então ela tem
aquele medo. Realmente como a colega diz: se a pessoa se conhece, não importa com quem
ela vai se relacionar. Ela sabe q aquilo não vai influenciar. Eu tô com problema, com meu
marido lá, agora eu não sei, não me conheço vou me apaixonar por ela. Não. Se eu sei que eu
sou, é? Que eu sou, a (nome da colega de novo) só vai me ajudar, ela só vai me apoiar. Assim,
quando eu me separei eu tive... Né? Várias amigas, que graças a deus... Uma era
homossexual, e até assim ó, muito feliz que eu fui na companhia dela tudo com as outras
amigas, sem ter medo, porque o respeito, ela sabia da minha opção... Né? Eu sabia dela. Ela
me respeitava. Assim como com homens, né, que também são homossexuais, com o coração
bem grandes, somos amigos até hoje. O importante, como diz, é o respeito. A pessoa se
conhecer, e se respeitar. Porque, eu mesmo, quando dizia assim, aaai, quando eu era criançamas eu não nunca levei pelo preconceito. Levava na brincadeira, né- Ai, que coisa (não
entendi 02h40min), não vamos comer feijão que vamo ficar preto... As pessoas não
conhecem? Não sabem que o feijão não vai influenciar em nada? Que não vai mudar a cor? A
não ser a cenoura, né? Mas a cenoura é cor de cenoura, é laranja (não entendi) vai comer a
pele vai ter mais pigmentação e vai melhorar o bronzeado... Agora, feijão? Ai, vai comer
feijão vai ficar preto! Ai, vai tomar leite vai ficar branquinha! Né? A pessoa não se conhece!
Esse é o problema. Quando a pessoa realmente se conhecer, esse preconceito vai cair... Prá
baixo. Vai cair por terra. Essa é a minha opinião. (Mulher negra)
155
ANEXO 16
ESCOLA 4 – GRUPO DE ADOLESCENTES
Em 29/05/2014
H- Eu achei interessante.
- Eu achei que choca, né... Porque não é uma coisa assim que a gente tá acostumado a ver...
Só escutar... E... Ver assim é diferente. Principalmente na hora que os dois se beijam, né... Ele
fica achando que é a guria... Mas... É interessante porque o guri se expressava bem, né... Ã...
Tem guris que se tu vê assim e não tem a... Aquela coraaaagem de se expressar. E ele já era...
(não entendi 02h02min) se expressava pros outros... tanto pra guria, mas é difícil ter uma
relação de amizade que nem os dois tinham... Que nem da guria.
- e a coragem também dele... Ele já é cego, né. Já tem preconceito por isso. Ele é gay
também... Daí imagina a coragem que ele tem pra assumir isso.
H- É... Esse vídeo assim... Mostra o que a gente fala quando alguém pergunta... Ah, você tem
preconceito... Tal. A gente fala Não, não tenho preconceito. Mas tu vendo isso... A, acho que
todo mundo tem um pouco de preconceito. Sei lá. Dá aquele choque na hora... Tu... tu não
tem preconceito, mas se tu via aquilo ali na tua frente, parece uma coisa muito estranha.
03h05min
- É diferente! Não é como é o que a gente vê todo dia... Assim.
(Vocês não vêem pessoas assim?).
- Aqui no nosso meio não.
- A gente até sabe de casos que... Que mulher com mulher são casadas e tudo, mas não vê a
cena, sabe? Assim. Podemos ver andando de mãos dadas... Alguma coisa assim. Mas não
beijo. Não outras coisas assim.
- Costuma ver bastante em festa, estas coisas assim mais, como é... Assim de sociedade... Na
sociedade é difícil a gente ver.
(Então em festa não choca?).
- Éee... Tu não vê...
- É que eles não ficam naquele agarra. Eles se respeitam.
- É que eu acho que essas pessoas são mais conscientes que a gente... Que é mais fácil tu vê
no meio da um homem e uma mulher se beijando do que... Dois homens ou duas mulheres...
156
Eles ãaa... Eles têm respeito, eles sabem o momento deles, que é só deles, o momento que é
pra tá no público assim... Atos...
- O V que tem que falar...
V- Porque eu??
- Porque tu é um que convive bastante! Faz bastante amizade... Que sai bastante...
V- Ah... Mas eu não conheço muitos...
- Ah! Não conhece muitos!
V- A gente vê. Mas é como elas dizem. Eles se respeitam. Eu nunca vi beijo de homem com
homem. Eu nunca vi até hoje. Nem de mulher com mulher.
(E isso seria...).
V- Pessoalmente assim não!
(E isso que tu achas falta de respeito... Quer dizer o quê respeito?).
V- Que eles sabem que pode ser as outras pessoas. Cada um tem a sua opinião... Elas podem
não gostar de ver aquilo... Não é qualquer lugar que pode assim ficar se beijando.
- Normal que a gente vê mais é só mão dada.
(Aí mão dada não é falta de respeito?).
- Não... É que foi isso a escolha sexual deles.
V- Nem se eles se pei... Se beeeijassem seria falta de respeito também. Cada um escolhe o que
quer ser.
- Eu acho que beijar não é falta de respeito.
- Falta de respeito é tu agredir o outro. Tu ser preconceituoso...
- É, talvez ãa... No público, na sociedade talvez não tenha esse costume do beijo... Do abraço
porque já sabe, como já sofre preconceito, tem medo da agressão, né. Porque tem muita gente
que não aceita e vai e parte pra agressão. Acha que com agressão vai resolver as coisas...
Acha que vai mudar a opinião sexual da pessoa.
- Não é bem assim né. Eles ficam com medo... Receio, talvez...
(como é que vocês se sentiram vendo o beijo do Gabriel e do Leo?).
V- É uma coisa bem diferente.
- Teria que pensar que a escolha é deles.
V- Eu acho que... Que... Eu vi... A primeira coisa assim ia dar um friozinho na barriga. É
porque a hora que apareceu ali me deu um friozinho na barriga... (risos)... E ia começar a rir.
Não sei, mas eu ia achar engraçado.
- Por se expor, né.
- Porque a gente nunca viu, né.
157
V- É, porque a gente nunca, assim... Eu nunca vi assim na minha frente assim, sabe? Bem
pertinho de mim. Maaas, tipo... Dá um friozinho na barriga.
- Eu acho que tudo que é novo choca né...
(Vocês acham que é nova a homossexualidade?).
- Não. Sempre existiu.
- Só que agora tá... Perdendo o medo assim de... Da sociedade.
- É que isso foi tampado pela sociedade porque ãaa... Estudos compravam que desde os antigo
lá... Que era feito professores com alunos... Eles tinham relações sexuais... Só que teve uma
certa época em que a sociedade tampou, porque se mostrasse isso não podia participar da
sociedade. Era excluído. Daí a pessoa passou a se esconder pra ser, digamos, normal. E daí
agora, novamente, tão se mostrando. Por isso que tá parecendo enfoque. Mas isso é coisa que
sempre existiu.
(Sobre as reivindicações das populações LGBT e seus direitos)
V- Que eles deviam ter respeito e... E aceitar, porque não... Não é assim uma coisa que...
Claro, nem todo mundo aceita, mas eu acho que... Assim como eles... Se escondem né... Tipo
assim, eles não... Tem muitos que não... Como é que eu vou dizer... Não... Não se assumem!
Por medo. E tem outros, que já são pouco mais corajosos, que já se assumem, né... Normais!
Mas eu acho que a sociedade devia aceitar... Porque não é um bicho pra não gosta!
H- Ou tu quer ser, ou tu não quer ser outra pessoa. Não precisa gostar. Mas tem que respeitar.
V- Não é um bicho de sete cabeças.
- Eu não preciso aceitar, mas eu também não preciso expor a pessoa... Não preciso prejudica
ela...
- Respeitar dentro do limite. Não agredi... Tratar normalmente... Essas coisas assim. Não digo
que eu preciso aceitar... Ah, eu sou tua amiga... Tu pode fazer o que tu quiser... Mas respeitar.
Tem limite!
(Como assim, eu sou tua amiga, tu pode fazer o que tu quiser?).
- Tipo assim, se tu tá na minha casa, pode fazer o que tu quiser, tu tem a minha família, tu
pode se beijar, pode se abraçar, pode ficar junto, mas respeitar dentro do limite. Não, tu tá
aqui, tu pode sentar junto, tu pode tá conversando, mas não passando desse... Com respeito.
Acho que tudo na vida é na base do respeito. Tu tendo respeito eu acho que tu tem tudo.
(E na família o q vocês ouvem a este respeito?).
V- Lá em casa dá... Dá... Dá confusão. Minha mãe é muito preconceituosa.
- Acho que os mais antigos eles... Têm mais dificuldade...
V- Não. Mas tem dificuldades sim...
158
- Porque eles tavam acostumado é o homem com a mulher, né? Não homem com homem e
mulher com mulher. Aí fica difícil...
- Acho que é sempre aquela história: Ah, eu não tenho preconceito. Porque o fulano não deixa
o filho dele namorar com outro? Mas que nem teve na novela... Quando é com o filho da
gente, por exemplo, tudo muda. É o que a gente mais escuta assim que... Ah, nada a ver, não
sou preconceituoso... Filho de fulano gosta do filho do ciclano... Mas daí, se a tua filha que
gosta de outra mulher? Tudo muda. O jeito de ver as coisas.
- Talvez não muda pra ti, mas se tu vai pensar o que que os outros vão pensar? Porque a gente
não costuma pensar: Ah, o que eu vou pensar? A gente sempre vai pensar o que que os outros
vão pensar.
- Sendo com nós... Tá, tudo bem. Pra mim tudo bem. Mas o que que eles, o pessoal de fora
vai pensar? Será que eu não eduquei minha filha direito? Será que minha filha não teve
participação da (Não entendi! 11h55min).
- O que que eu fiz de errado?
- É! O que que eu fiz de errado? Sempre tem essa pergunta...
(E vocês concordam que tem a ver com a educação?).
V- Não! Porque eles que vão escolher o que vão querer ser. Não adianta...
H- Pode educar. Pode ser lá o exemplo do pai mais macho e depois o filho nascer
homossexual... Vai escolher o que quer ser.
- A opção dele.
- Mas a gente vê na televisão, no noticiário, tem homem e mulher que são menos pais do que
dois homens que adotam uma criança, ou duas mães, dão mais ãaa... Ensinam melhor, dão
mais proteção, tudo a mais do que um casal normal. Eu acho que não parte do que eu fiz de
errado. Tem gente que foi educado... A melhor educação, é uma pessoa ótima, só que é...
Lésbico. Oooo... Não importa isso. Não tem nada a ver. Vai que a pessoa gostar. Mas na
educação ãaa... Que nem ãaa... Ou como homossexuais que adotam uma criança, que dando
de tudo, às vezes tiram da boca pra dar pra criança e tem pai e mãe que abandonam a criança
no meio da rua. Só acho que não interessa.
H- Não é bem assim a gente não gostar. Tem homossexual assim que nem o cara quando vê,
pode ser amigo, mas tem que saber que a gente é uma coisa e eles são outra e respeitar. Os
dois tem que ser respeitado. Dos dois lados.
- Eu penso pra mim que eu queria... Não tenho o exemplo, mas ãaa que... Vamos supor uma
criança que foi criada no meio assim entre dois homens ou duas mulheres... O que que a
criança pensa. Seria interessante saber, porque a gente não sabe... A gente fala, olha por fora,
159
mas e uma criança dentro de uma relação assim entre duas mulheres ou dois homens? O que
que será que é... Tantos os pais sofrem preconceito, quanto a criança também... Preconceito.
- É que nem se é no dia das mãe... Quem vai na reunião?
- É. Mas se forem dois homens?
- Isso é uma coisa bem... Que... Que a gente vê em reportagem que as escolas estão tentando
lidar com isso... Porque vão chamar assim a reunião pras mães... E num casal de dois homens,
quem vai ir?
(E isso só acontece em casos de homossexuais?).
- Não! Em mulheres também, que nem no dia dos pais...
H- Falecimento...
(E entre filhos de casais heterossexuais não acontece?).
- Tudo acontece! É que depende... Quem se considera mais né...
- Eu acho que acontece... Que... Meu pai e minha mãe, se fosse o caso... Daí meu pai não
gosta da escola não vai participar, não sei o quê... Aí chega no dia dos pais... A minha mãe
vem aqui. Então eu acho que... Isso não quer dizer por quê... Se é filho de duas... No caso se
mora com duas mães... Ou dois pais... Ou a mãe e o pai... Podendo morar com a mãe e o pai, e
um não ser tão presente e vai no lugar do outro!
- Eu acho que assim...
(Alguém falou sobre escolha da opção sexual)
- Eu acho que é questão de sentimentos.
- Opção e sentimentos.
- Eu acho que vai aos poucos assim... Tu começa assim: Ah... Olha as diferentes... Tu começa
a ver que na escola desde pequena tu não gosta de brincar... Se for menino tu não gosta de
brincar com as coisas de menino...
- Ou pode gostar, mas as outras coisas... (Não entendi direito 17:02) Conversar mais com
elas... Com as meninas do que com os meninos... Daí... Tu vai entendendo que é difícil...
- Quando tu brinca, quando tu é criança, tu não tem a noção de que isso significa.
- E com o passar do tempo tu vai vendo... Que isso tem nome... Que isso pode... Pode te
prejudicar... (baixa a voz para falar isso).
H- (não ouvi! 17h25min) Pode sofrer...
- Eu tenho um amigo assim... De... Ele é gay... Ele já gritou, tem uma namorada... É minha
amiga também... Só que ele não tem coragem de contar pro pai dele. A mãe sabe. Os amigos
todos sabem. Mas ele não tem coragem de contar pro pai dele.
- E o pai não percebeu??
160
- Talvez o pai saiba, mas ele...
H- Tá ocultando a verdade.
- Então ele não quer acreditar, né...
- Mas nem sempre parte de quando é criança. Quantos casos que a gente vê de homem... Vou
citar um exemplo de homem... Que casa... Tem filho... Mas daí vê que não é aquilo que ele
quer, que não tá bom aquele casamento... Procura, que nem esses namorar com homem e dá
certo... Tudo depende da pessoa. A pessoa em si, ela acha que ela tenta...
- É... Ela tenta não ser... Eu acho que no certo se ela não ser aquilo que ela tá sentido... Ela vai
em casa e depois ela vê... Mas não adianta continuar com isso, me atormentando... Toda essa
angústia dentro de mim e eu vou ter que fazer o que eu acho que é certo. Doa a quem doer. Eu
preciso pensar. Mas vai passar a vida inteira se martirizando...
- Mas a pessoa tenta por causa da sociedade... Que ela não quer ser discriminada.
H- Ela tem medo de não ser aceita.
- Às vezes ela passa a vida toda com uma pessoa que não gosta por causa da sociedade, por
causa da família,
- Vivi infeliz só para agradar os outros...
- Pensar no que os outros pensam...
- Não pensa no que é melhor pra ela... Pensa no que os outros tão achando... O que vão falar
de mim se eu... ... Ficar com uma do mesmo sexo...
- Tem... Tem mulheres casadas... Daqui... Que... Puxam pro outro lado... Gostam de mulher
só que... São casada... Têm filho... Só que deixaram bem claro que elas só gostam de mulher.
Só que elas... Não... Não vivem público né... Só que são casada... Têm a família dela...
(E aí, funciona bem?).
- O que que eu vou falar, né? ... ... Ela vive oculta da sociedade... Ela é... Ela gosta daquilo só
que ela tem que se esconder por que... Senão ela vai sofrer preconceito. 19h42min
- A xxx falou do tratamento quando era pequena... E daí também, tipo quando a gente era era
pequena eu gostava de jogar futebol! Até hoje. Brincar de carrinho... A gente gostava...
Acontece. (risos) A gente joga futebol até hoje. Se tu vai brincar com o primo teu tu vai
brincar de carrinho... Tu procura... Tem importante que (não entendi 20h05min). Eu sou uma
que quando eu era pequena, todo mundo dizia: Ah, o gurizinho do meu pai.
- Eu também...
-Porque eu gosto... Eu visto saia... Eu gostava de futebol, eu gostava de torcer, eu gostava de
jogá bola... Mas eu nunca... Eu levava isso por mim, porque eu sabia... Eu me confio bem...
161
Eu tenho namorado... Daí eu não tinha problema com isso. Mas tem gente que acha, né... Tem
pais que ficam com medo. Eu acho...
H- Cortava o cabelinho curtinho, né...
- Eu acho que os pais não ficam tanto com medo quando a guria brinca de carrinho... Ou (Não
entendi 20h35min) do que um guri que brinca de boneca. Porque eu... Quando eu era
pequena, eu tenho um primo mais ou menos da mesma idade que eu, e quando ele ia lá em
casa a gente brincava de casinha, de boneca, só que escondido do pai dele. O pai dele não
gostava. Eu acho que tem mais medo. Porque parece pra todo mundo que é mais fácil o
homem virar gay do que uma mulher virar lésbica.
(Por quê?)
- Por que... Eu acho que sim... É o medo que tem porque parece que existe mais homens
gays... Quer dizer... Eles se mostram mais do que as mulheres que são lésbicas... Porque ge...
- Uma coisa que eu não entendo. A mulher lésbica. Vai lá e fica com uma mulher lésbica que
se veste de homem.
- Tá, mas...
- Isso eu não entendo... Se veste de homem... Vai lá e fica com uma mulher que se veste de
homem... E não gosta de sexo masculino?
- E se não gostar disso daí aquela corta os cabelos, (não entendi 21h35min).
(Mas então ela é homem ou mulher?).
- É uma mulher!
(Então ela gosta de homem ou de mulher?).
- Gosta de mulher! (21h50min não entendi)
- Imagem do homem... Porque gosta de (21h57min)
H- Ela gosta de mulher
(E todas são assim?).
H- Algumas pessoas...
162
- Depende. Pode ter casais gays que os dois se vestem igual... Homem... E tem aqueles que se
veste de mulher. Tem duas mulher que se vestem (não ouvi) com jeitinho de mulher... Ou não.
Tem vários tipos.
(E porque vocês acham que têm vários tipos assim?).
- Porque a gente vê.
- Não são tipos... São personalidades... Cada um tem uma personalidade... Um jeito de... Pode
também ter casos de... Ãaa... Mulheres que gostam de se vestir de homem, mas gostam de
homem. Elas gostam daquele jeito que o homem se veste, que o homem anda, caminha, sei
lá... Elas querem parecer igual...
H- E o contrário também! Tem uns guri que gostam de (não entendi 02h52min)
- Acho que cada um tem uma personalidade diferente...
- Na verdade o homem é, eu, na minha opinião, ele é mais aceito, conforme ele é na
sociedade... Na minha opinião. Como... Ninguém... Se tu for reparar... Tu não repara como o
homem tá vestido. Se ele tá vestido bem. Se ele tá vestido mal. Quem costuma olhar, sempre
olha pra mulher. No meu ponto de vista. O homem não (não entendi 23h25min).
(Risadas)
- Tu sempre olha pra mulher... Se a mulher tá bem vestida... Como é que ela tá... Se tá bem
penteada, se cabelo tá amarrado... Homem já não... Por que...
H- O homem tá sempre igual.
- Éeee... Na verdade é...
H- Homem (23h38min) tá sempre da mesma maneira quando vai pra escola e pra festa...
H- O homem, por exemplo, na escola e na festa...
- É... E a mulher tem mudança... Se é pra academia... Escola... Que nem homem, é sempre
tênis.
- Olha! Que nem... Vai na academia, vai de tênis. Vem na escola, às vezes põe uma
rasteirinha... Vai pra festa, bota salto. Ou então bota sandália com bermuda...
H- A mulher tem mais opções que o homem.
163
- Então, se tu vê uma mulher... Tipo tu vai caminhando na rua e tu vê uma mulher de tênis...
Mais calça mais largada... Um camisetão grande... Tu já pensa uma coisa diferente.
- Agora, tu vê um guri com uma calça coladinha... Um tênis que... É, que nem o xxx... (risos)
Tu vê um guri com uma calça coladinha hoje em dia... Tu não dá mais muita boa... Tem guri
que não. É por opção... Se tá
- Camisa rosa... (24h27min não entendi até 24h34min)
- Meu pai disse, ele tem, ah se eu tivesse meus dezessete anos e usasse uma camiseta dessas
eu não saía na rua.
H- Apanhava em casa.
- Agora as pessoas usam...
H- É que antigamente não era muito aceito essas coisas assim...
- É que na época não tinha informação também...
- É nenhum estilo delas... Assim... Não determina o sexo.
- É que antes parecia que o azul tinha que ser pro guri. E o rosa...
- Ah, então seu sou guri, porque eu não gosto de rosa!
- Ou, por exemplo, se eu gosto de brincar... De roda, ou brincar de carrinho... Gosto de fazer
coisas de homem não significa que ãaaa... Coisa de homem significa que eu vou ser...
Lésbica!
- Significa que eu gosto! É o meu estilo! Não gosto de brincar de boneca e gosto de jogar
futebol. Igual a um homem.
- (25h47min não entendi)
- Por exemplo, a sociedade falou que futebol é coisa de homem... Ãaa... Salão de beleza é
coisa de mulher. Antes era assim. Que nem um homem... Tu encontrar um homem num salão
de beleza... Sai cagando a pau! (Não entendi 26h07min)
- Tem homem que se depila... Isso hoje em dia.
164
- E mulher jogar futebol agora... Hoje em dia é coisa normal... Lutar Box que era uma coisa
super masculina, tá se tornando feminina. Então... Isso não distingue quem tu é... São gostos...
Cada um gosta de fazer o que quiser.
- No começo foi a sociedade que disse: Ó, uma família... O homem dirige o carro e a mulher
fica (26h40min não entendi)
H- E olhando pra trás.
- E também pesquisas... Que nem carteira... É comprovado que antes a maioria era homens
que fazia carteira... No entanto... Por exemplo a minha mãe... A minha mãe foi uma que foi
fazer carteira com trinta e poucos, quase quarenta anos. Porque antes... ãaa... Era homem só
que dirigia, a mulher só... Hoje em dia... É uma independência, sabe? A mulher faz tudo que
ela quiser, tanto se for de homem ou for de mulher, não distingue se isso é de homem ou é de
mulher. E o homem também. Se ele quer ir no salão de beleza, se ele quer fazer compras no
shopping... Cada um faz o... Que quiser.
- Ah, mas isso em relação a dirigir, carteira, eu acho que não é assim, porque até hoje... Na
minha família eu tenho... O pai não deixa a mãe tirar carteira.
H- Machismo!
- O pai não deixa... Não quer que mulher tire carteira. A mulher sabe dirigir... A mulher anda
pra cá e pra lá... Não quer que ela tire carteira.
- Por quê? (não ouvi 27h45min)
- Não sei...
- É machismo, por causa que, por exemplo, assim, pro homem, chegar num lugar público,
numa festa, com a mulher dirigindo o carro e ele na garupa, é o fim do mundo. É o fim.
- O meu pai dá graças a deus. Daí ele pode beber.
(não entendi nada! 28h07min).
- Ou tem uma mulher andando de carro mais devagar andando na frente e daí tem um homem
no carro de trás, aí ele vai dizer: Ah, tinha que ser mulher!
- Sempre tem alguém que diz isso...
- Ou tem que ser velho...
165
- Meu pai sempre diz isso... Ou é mulher ou é velho! (28h30min)
- Meu pai é um desses. Quando tem mulher dirigindo ele: Ah, é mulher dirigindo... É mulher
dirigindo...
- Só podia...
- Não precisa nem olhar quem ta dirigindo. Se tem um carro lerdo lá na frente: Aposto que é
mulher. Aposto que é mulher que tá dirigindo.
Eu: Vocês concordam com isto, que mulher dirija diferente do homem?
- Não!
- Não!
- Não... A mulher é mais...
- Tem mulher que dirige melhor que homem!
H- Eu acho que ela... Eu acho que... Tem que mulher que... A xxx ali falou que mulher que
cuida mais, é mais cuidadosa... Do que homem. Porque tem homens que... Homem é mais
louco. É mais fora do comum. Ele vai e não quer nem saber. Vai. A mulher já não. A
mulher...
- O homem não tem tanto medo do (não entendi 29h09min)
- A mulher se dá mais com a família do que o homem...
- É. Ele se bater no poste, bateu.
- É o que xxx falou, que alguns homens: já sei... Vou dirigir... Eu vou sair... Já a mulher não.
Cuida mais. É mais cuidadosa...
- Quem perde mais a carteira durante o ano é o homem... Em estudos, né... Às vezes tu vê nos
jornais... É os homens, por causas assim... Tu tá num boteco, o homem bebe e diz ah, não dá
nada assim. Eu sei dirigir e vai. A mulher não. Eu posso tá bem, mas se a polícia me pegar eu
vou presa. Sabe, ela pensa nas consequências... Então ela diz que não vai beber. Eu vejo assim
em boates, por exemplo... As mulheres elas fazem rodinhas pra quem vai dirigir, sabe...
Rodar. O homem, os homens começaram agora, depois da maioria perder a carteira.
H- Pera aí um pouquinho...
166
- Por causa... Eu tenho por amigos, porque tinha entre cinco ou seis amigos enquanto três
quatro perderam a carteira eles foram botar na cabeça deles que tinham que fazer rodada de
um não beber. A mulher não. A mulher já evitou. Sabe, ela já se cuidou.
- É que a mulher pensa.
- É verdade...
- Homem não pensa nisso.
H- Ah, homem pensa, mas não nessas coisas...
- Aí tu sai e toma refri. Aí o homem pensa que se ele tomar refri não vai pegar!
H- Isso é coisa de mulher, ele vai pensar!
- Qual... Vai pegar as outras porque todo mundo vai ta tomando cerveja e ele vai tá tomando
refri...
- É que para a maioria da gente ir pra balada e beber... Beber bebida alcóolica. Tem gente: Ah,
se eu beber refri não vai ter a mesma graça.
- Pois é... E aí...
H- Homem que é homem tem que tomar bebida alcóolica...
- É macho.
- Tem que tomar cerveja.
- Entortar o caneco...
Eu: Então se ele não for homem... Não provar...
H- É...
H- Não. Não é bem assim também! Mas não é assim que funciona as coisas não.
- A gente sabe que tem muito...
H- Aí ele vai lá, bebe e é o machão. Não. Não é assim que funcionam as coisas.
H- Claro que não.
H- As pessoas pensam assim, mas não é assim que funciona.
- Não. Não é assim... Mas... Não é assim, mas...
167
- Agora é assim.
- Não é assim pra atualidade agora, mas antes era.
- Tem aqueles caras que vão, bebem e vão falar: Eu vou beber hoje eu vou ser machão... Não
sei o quê... Bebem um golinho e já tão podre de bêbados!
Risadas.
- Vou beber todas! Todas no copo...
- Vou beber todos os goles do copo! Risos
168
ANEXO 17
ENTREVISTA COM EX-ALUNA DAS ESCOLAS 1 E 2
Em 21 DE AGOSTO DE 2014, às 21h00min.
Transsexual feminina, 28 anos.
Depois tu vai botar tudo isso prá fora, tudo assim?
Como é que eu vou ter certeza disso? Tu não disse que ia trazer um termozinho?
Ah... Em Santa Cruz? Na UNISC? Eu preciso que tu faça um favor prá mim em Santa Cruz.
Porque eu morava em Santa Cruz e saí de lá...
Vinculada ao mestrado de promoção da saúde... Tu tá no teu mestrado? É voluntária e
anônima...
Eu tenho segredos pra falar aqui. Por isso que eu não posso falar assim...
Posso assinar como? Como não me identifiquem?
(EU) Explico os objetivos e o que eu quero com esta entrevista.
(Risadas) Engraçado. Eu não posso comer e falar ao mesmo tempo. (Rindo da coxinha que o
garçom trouxe).
(EU) Explicando ainda a pesquisa.
Na escola tu conseguiu saber, identificar... Aãaa...
Falo do filme q mostro nas escolas.
Como e o nome do romance?
É lindo... É lindo
Olhei agora. Agora não. Faz muito tempo. Olhei A pele que habito. Mas esse daí é de um
transexual. Só que foi uma vingança.
Um médico, entendeu? Ele viu estuprando... Achou, entendeu que ele ia estuprar a filha do
médico, entendeu? Um cirurgião plástico. E... Entendeu errado, sabe... Ele tava drogado e deu
droga pra ela, mas ele acabou não estuprando ela. Só que o médico pegou e raptou ele... E
levou ele pra umaaa... Prum... Ele tipo ele tinha um compartimento secreto no consultório
dele, né Joana... E ele foi transformando o rapaz aos poucos... Entendeu? Primeiro ele tirou
toda a barba. É um rapaz já, crescido. Um homem. Tirou toda a barba... Ãaaa... Foi mo...
Mo... Montando toda a pele, sabe, com aquelas peles de plástica... Transformou nu-ma mulher! Perfeita! É A pele que habito.
169
Só que daí, detalhe: Ele se apaixonou pela, pelo transexual. Acaba se apaixonando, então, o
que que aconteceu? O transexual... Ele prendeu o transexual dentro de casa. O transexual
pegou o revolver dele, matou ele e fugiu.
Não se matou. Fugiu... Porqueee... Ele era preso lá, né... O transexual. E aí ele... Ele... Eu me
lembro que... Que é muito bonito o filme. Ele chegou, depois de muitos anos, tava a mãe dele,
a irmã dele, né... Eles tinham uma loja... E ele chegou assim vestido com uma jaqueta
vermelha... Ela, né.
Com a boca vermelha de batom vermelho, entendeu? Cabelo meio
comprido, né... De peitos e tudo. Uma mulher. E disse assim: Mãe, sou eu. Daí ele falou o
nome de homem. E aí elas olharam assim... Daí termina o filme. Muito bonito. Até quem me
apresentou foi uma pessoa que tá aí dentro. Mas, né... Tu não tá gravando, tá?
Até tá. Mas ninguém sabe quem é tu, quem é a pessoa e onde nós estamos. (07h29min)
Mas é isso.
O que eu queria saber é sobre a tua experiência escolar...
Tá. Foi assim, Joana, ó... Eu, desde, desde, desde que comecei a frequentar a creche, que é o
inicio da... Do ser humano, eu já via que eu era diferente. Lá dentro da minha mente, eu me
considerava menina. Mas eu sabia que eu era menino. Só que o que... Eu agia
involuntariamente da minha, do que o meu ser físico manda. Entendeu?
Aí, então, elas percebiam que eu já era diferente. As tias da creche, eu chamo de tia. Daí eu
era, sempre tinha uma que me agradava, assim, sabe... Eu brincava com as meninas... Sabe,
era tudo assim. Na minha mente... Daí eu fui pro colégio.
No colégio,
eu comecei a estudar, eu sempre fui muito inteligente. Eu sempre fui muito
dedicada, eu sempre fazia as coisas muito
perfeita, sabe. Eu era muito perfeccionista.
Principalmente no... Tanto é que eu fazia trabalhos, né... Estes trabalhos que sempre tem
alguém na frente, né... Participei de grêmios estudantis...
Eu estudei em vários... Em vários, não. Em três colégios. Primeiro eu estudei lá onde eu
moro, de onde eu vim. Lá no bairro Macedo... Depois eu estudei na escola Crescer, que era o
antigo CAIC... E depois, por último, eu estudei no Monte das Tabocas.
Começou na Macedo. Claro q é chato né. Porque eu já vinha ex pondo prá fora o que eu era
desde pequeninho... Então, sempre tinha né... Os risos, as piadinhas... Entendeu. Só que eu
sempre fui uma criança muito revoltada. Por quê? Porque eu sabia q aquele instinto ali não era
de mim... Que me olhava, né... Mas como? Se eu não sou mulher? Como é que eu vou? E eu
olhava pras meninas como minhas amigas, entendeu?
Eu queria brincar com elas. Eu queria estar com elas. E pros meninos eu olhava como uma
menina olha prum menino. Que é a característica do homossexual. Né?
170
Só que a grande diferença de hoje, já comparando com aquela época, qual é? Eu botei prá fora
o que eu sou. Entendeu? Eu expus a minha imagem. Eu dei, eu dô a minha cara à tapa todos
dias, tu me entende, né? 24 horas pra sociedade. Porém com o nome limpo, porque eu não
tenho passagem nenhuma na polícia, sou uma pessoa que já trabalhei de carteira assinada...
Eu tenho profissão...
Sou costureira, sou cabeleireira. Não trabalho nestas áreas porque não quero. Se eu quiser
trabalhar noutra área eu sei. Se eu quiser procurar um emprego eu consigo. Em algum lugar,
né, porque aqui eu fui embora daqui. Porque aqui é uma cidade que não com-se-guiu
acompanhar a modernidade nem desenhando. O preconceito aqui ainda é bem grande.
No trabalho tam-bém. Muitas... Eu perdi muitas oportunidades como cabeleireiro inclusive
pelo preconceito. Entendeu?
Eu trabalhei uma vez no salão ali naaa... Naaa... Júlio. E a mulher... Mas não pelo preconceito
ali... Foi por motivo de eu não tá gostando. Nem me pagou. Sendo que eu paguei todo meu
curso, né. Mas, enfim...
Voltando, eu sempre soube q eu era diferente, sabe? A minha mãe também. O pai ou a mãe
sabem quem tão criando. Né? Só que a minha mãe, eu acho que ela me deu uma boa
educação, entendeu? Ela me ensinou a não roubar nada de ninguém. Eu piso onde for e eu não
levo uma agulha. Isso eu trouxe de casa, é de praxe. Entendeu? E outra coisa. Eu respeito.
Respeito é bom e conserva os dentes. Só que eu só respeito quem vai me respeitar e é digno
do meu respeito. Quem não for digno do meu respeito, querida, se eu tiver que descer do meu
salto e ir lá ensinar a respeitar, eu vou. Porque é um direito meu. Eu sou uma cidadã.
Entendeu? Eu pago impostos como todo mundo. Porque o imposto tá na comida, tá na bebida.
Tá em tudo, né? Então é assim. E no colégio, na minha época do colégio, eu sempre agradava.
Eu era o desagrado de uns e o agrado de outros. Porque os professores viam que eu era
dedicada. Daí na educação física eu comecei já a fazer a educação física até com as meninas,
meu nome foi até pra chamada das meninas...
E a professora deixava?
Deixava. Isso foi lá no Crescer. A professora Delmair. Deixava. Ela era professora de vôlei
das meninas. E eu joguei vôlei com as meninas.
E aí assim...
Mas lá... lá na... Na... Na, onde eu comecei, né, Joana... Que eu tava com a mente perturbada
ainda q eu não conseguia me achar ainda, interiormente, por isso que eu digo que
homossexualismo não é uma doença. As pessoas tem que entender que o homossexualismo
não é uma doença. É sim uma condição social em que a pessoa vem. Entendeu? Se encontra
171
na vida. Até porque acho que isso é até uma coisa espiritual. Porque é tão... É só quem passa
que sabe.
É como assim, ó. É como se eu tivesse perdida num mundo que não é meu. Quando eu nasci
homem. Entendeu? Por quê? Porque eu penso como mulher... Tu age como mulher... Tu se
porta, tu quer se comportar como mulher. Mas tu olha prá ti e tu sabe que tu não é. Então o
que tu vai fazer?
Prá tu te sentir bem, essa é a tentativa do transexual, tu vai correr atrás de tudo pra fazer teu
íntimo, a tua alma, o que grita dentro de ti entrar em harmonia com teu corpo que é só assim
que tu te faz feliz.
Entendeu? Porque muitas vezes a felicidade das pessoas não tá no
dinheiro, entendeu? Tá na paz interior, tá na paz espiritual. Se teu interior não estiver bem,
não reflete no teu exterior, entendeu?
Se tu for uma pessoa pobre de espírito, né... Não adianta tu ser rica financeiramente. Hoje eu
posso te dizer assim ó: eu, Victória, que tu conheceu anos atrás, junto com meus amigos, sou
uma pessoa, justamente mudei meu nome por quê? Porque eu quis ser vitoriosa. Porque eu
quis vencer. Eu quis escolher meu caminho e eu pus na minha cabeça que eu vim prá vencer e
não pra perder e...
(EU) Esse nome que tu escolheu... Esse nome ele é aceito onde tu vais?
Ele é aceito.
(EU) Não tem necessidade de ter um documento?
Eu tenho carteira de nome social. Aliás, vou te contar. Eu tenho registro, só que eu morei em
Santa Cruz... Num apartamento numa época e uma pessoa, uma transex como eu ela armou
uma armadilha pra mim e eu tive que sair de santa cruz porque fui ameaçada de morte.
E nesse fato roubaram minha bolsa Luis vuiton, tu deve conhecer esta marca, né? Finíssima.
Qualquer transex que se preze, qualquer mulher que se preze ama Luis vuiton. Ama! Pois é.
Armaram uma armadilha prá mim. Entendeu? Aquele monte de marginal que eu nem sabia de
onde apareceu, entendeu? Com paus, com facão, e nessa hora eu perdi minha bolsa do braço.
E eles levaram. Tinha todo o meu dinheiro. Meu celular e minha carteira social. É por isso
que eu tô passando uns dias aqui, entendeu, Joana? Porque eu to pra visitar minha mãe, pra
ver como eu faço pra refazer minha carteira social que eu já o meu registro aqui, né. Eu vou
fazer meu registro em porto alegre agora. Mas eu já tinha o meu registro aqui. Aqui no sine.
Eu sou reconhecida na delegacia de policia como Victoria. Se tu for lá...
(EU) Tu tens nome social...
Tenho nome social. Victoria Camargo reconhecido.
172
E este nome social, qdo tu chegas no posto de saúde eles te chamam pelo nome social ou o
nome da identidade?
No posto lá da vila Macedo eu tive que mostrar, desenhar pra ela que era assim. Hoje elas
entenderam. Mas eu ainda não usei muito ela. Pq assim, Joana... Vou te dizer também
sinceramente, eu não sou de mentir. Eu sou transex né? Mas eu faço exames periodicamente,
eu cuido muito bem da, eu prezo a minha saúde como a minha vida. Entendeu? Eu não tenho
HIV. Posso provar. Não tenho nenhuma DST. E olha que né. Eu sou transex e eu faço
programa. Eu saio por dinheiro. Porque é isso né. Que no momento me faz sobreviver. E
comecei fazer meus exames já pra cirurgia. Pois é. Então daí eu comecei pegando gosto por
fazer, né. Porque uma coisa é tu mostrar pras pessoas uma coisa: ai, um peito. Um peito é
lindo. Daí é uma coisa. Só que né... Só interiormente saber que não adianta porque já to né...
Por tanta promiscuidade já to bem... Pra não... Pra não falar literalmente, né... Eu não. Eu
cuido de todos os detalhes. Eu tenho um peito. Consegui por um peito né... Eu pude mudar
meu corpo como eu queria. Como eu estou.
(EU) Em porto alegre ou aqui?
Não. O peito eu pus em lajeado. Com Dr. Wilson dewes. E... Só que diferente, Joana, presta
bem atenção. Eu sei que se eu procurar la na minha pastinha dos meus arquivinhos eu sei que
eu posso deitar com minha cabeça tranquila no meu travesseiro sem nenhum ponto de
interrogação. Será q eu estou sadia ou não? Entendeu? Porque eu não preciso provar nada pra
ninguém. Provando pra mim tá ótimo. Entendeu? Então eu sei quem sou eu.
Por isso então que eu amo meu nome V. Porque eu me sinto vitoriosa em todos os sentidos.
(EU) Tá. Eu entendi. Mas na escola o teu nome não era V?
Não. Na escola o meu nome era o nome de batismo.
(EU) E isso pra ti era tranquilo?
Tranquilo. Eu me vestia como menino. Só que eu tinha sempre jeito de menina. O meu
apelido... Pra ti ver que o meu apelido lá no primeiro colégio que eu estudei foi maçã do
amor.
(EU) Quem te deu este apelido?
Foi os guris.
(EU) E os guris te tratavam bem ou tinha alguma atitude agressiva?
Nãaaao. Eu sempre tive assim ó... Eu respeitava todos. Os que não gostavam de mim, que não
queriam contato, ficavam quietos na deles e eu ficava na minha e respeitava, entendeu?
(EU) Violência nunca houve?
173
Houve. Houve. Foi por esse fato que eu fui expulsa do colégio Macedo. Mas foi injustamente.
Entendeu? Eu entrei... Por que assim. Eu tinha amizade com um menino também.
E eles
começaram a brigar e eu entrei no meio, entendeu? Prá apartar. E eu fui expulso junto.
(EU) Eles foram expulsos?
Eles foram e eu também fui. Entendeu? E aí, naquela época eu procurei vaga em todos os
colégios. Fui até no Aparecida, onde nós estamos. No Gaspar, colégio particular... Nenhum
quis me dar vaga. Isso na sétima série. Sabe que colégio que me restou? O Crescer. O antigo
CAIC. Quando eu entrei, daí passou um tempo e as coisas mudaram.
(EU) Eles diziam por que não queriam te dar vaga?
Não. Só que não tinha vaga. Só tinha no crescer. Daí eu fiquei assim meio com medo. Porque
olha onde era, né? Todo mundo né... Tá no meio de um... Eu acho que é um dos lugares
mais... Onde é o ponto da marginalidade é mais acessível. Né? Não é que é mais acessível.
Onde a marginalidade flui melhor. Entendeu?
Mas aí eu estudei lá. Eu consegui
perfeitamente, tranquila fazer o que eu tinha pra fazer.
(EU) Nunca sofreu bullying?
Sofri. Joana, é assim ó. A todo momento tu sofre preconceito de um lado ou de outro. Nós
aqui conversando agora, mas tu pode ter certeza de que ali dentro deve ter alguém falando ou
rindo de mim. Tá?
(EU) E de mim também.
Exatamente. Nós estamos aqui conversando agora, mas vai passar alguém. Isso indiferente ou
não. Mas o que que vai provar para eles o contrário? Eu vou provar prá ti o contrário e tu vai
provar prá mim o contrário. Olha como eu estou me portando contigo como uma pessoa, não
como um animal, entendeu?
(EU) Até porque nós somos pessoas.
Exatamente. Claro que eu sofria bullying, já sofri bullying vários... Já sofri preconceito... Só
que hoje em dia eu penso assim, Joana, ó. Foi o que eu escolhi pra mim, entendeu. Foi a
maneira que eu achei pra mim ser feliz então entra aqui, meu amor e sai aqui.
(EU) Tá. E professores? Professores também agiam de maneira preconceituosa?
Professores não. Pelo contrário. Eu era respeitada pelos professores porque eu era dedicada,
entendeu? Trabalhos... Pelo contrário. Eu era aplaudida, porque eu fazia trabalhos, né... Que
eu ganhei até promoções por trabalhos escolhidos como os melhores.
(EU) Aí tu saiu de lá por quê?
De onde?
(EU) Do crescer.
174
Do crescer... Deixa eu me lembrar. Do crescer foi assim ó. Nessa época da minha vida eu já...
Eu era gay ainda né... Gay é quando tu te veste de homem, mas tu tem o instinto contigo. Eu
trabalhava. Foi onde eu adquri a minha primeira profissão como costureira. Comecei a
trabalhar quando tinha 15 anos, assim autônomo, vende picolé...
(20h12min) Me virava.
Fazia tudo. Depois eu consegui a minha primeira carteira assinada e comecei a gostar, a ter
gosto pelo trabalho. E aí comecei a trabalhar... E quis aprender a profissão de costura e aí eu
estudava de... À noite no Crescer. Eu comecei de dia, depois eu passei à noite, aí eu já era
presidente do grêmio estudantil, né... Então, e eu tinha minha sala só prá mim, e então eu ia,
me dedicava ao grêmio estudantil e ao colégio e eu ia prá casa dormir e no outro dia eu ia,
trabalhava... Assim era a minha rotina.
Depois, eu vim... Saí de lá e não completei o segundo ano... Vim pro Monte. Só que daí, eu
não queria mais estudar. Só que eu vim pro Monte por um motivo. Porque eu vinha trabalhar
no centro, né... Aí, nessas aí eu já tava começando a me vestir de mulher. Entendeu? Já
comecei a tomar hormônio assim... Aquela medicação pra ficar um pouco mais feminina...
Hoje não tomo muito, mais. Porque eu tenho silicone, né. E... Eu vou começar a tomar porque
agora eu vou começar a fazer tratamento pra fazer a vaginoplastia, né.
Mas, o que eu posso te dizer assim... Eu tava me descobrindo, entendeu? Que era esse o meu
caminho. E eu gostei, entendeu? Foi uma tentativa que eu tive, que eu fiz e deu certo. Prá
mim, entendeu? Não certo que eu posso dizer, entendeu? Não sou uma pessoa bem sucedida
financeiramente. Não sou mesmo. Não sou uma pessoa que eu tenho tudo que eu quero. Não
sou mesmo. Mas eu tenho uma coisa que muitas pessoas não têm... E que eu muitas vezes
perdi, e recuperei. Sabe qual foi?
O meu amor à vida... E o meu amor próprio. Eu sou a minha melhor amiga. Eu sou o meu
melhor, o meu único amor. Entendeu? E eu sou a minha melhor amiga e eu sou o meu único
amor. Eu me amo. Eu não me troco por nin-guém. Entendeu, Joana?
Esse é o meu lema. Essa é a minha ideologia.
(EU) Então, assim, tu diria que o colégio nunca te atrapalhou?
Não. Houve barreiras naquele sentido assim ó... De... Rirem... Risinhos. Eu sempre fui uma
pessoa muito sem paciência, né Joana. Muito assim, se tiver que ser grossa, eu sou. Entendeu?
Mas com elegância. É. Eu não admito que entre num lugar e seja desrespeitada, entendeu?
Até porque se... Se... Puxar B.O. Polícia: não tem nenhum registro. Te devo alguma coisa?
Não te devo nada. Então. Porque, né? E respeito é bom. Se traz de casa. Conserva os dentes,
né. E, enfim... Então, quando era o contrário, eu sabia lá na classe e dizia: Fulana, né? Você
está agindo... Mas, tem aquelas pessoas que não adianta, entendeu? Tu, tu ensina... Tu ensina,
175
não. Tu expõe ali como é que as pessoas devem agir, né. Para serem considerados seres
humanos, né... Mas eles não querem. Depois, no fim, o animal muitas vezes é a gente.
Quando é bem o contrário, né. Então, assim, muitos problemas eu posso dizer que eu não tive.
Eu saí dali, eu vim estudar no Monte por quê? Porque eu já aí, já comecei a me vestir de
mulher, né. Já larguei trabalho, entendeu. Daí já comecei a querer trabalhar me prostituindo.
Porque eu tinha sonhos de fazer plástica... Né? Que isso a gente só consegue, eu acho, né. Ou
tu tem uma boa profissão, ou, que nem no meu caso que eu quis muito mudar meu corpo e
tudo e não mudei tudo ainda... Então tu vai te prostituir.
Só que daí, um dia eu passei na frente do Monte e eu achei um abuso, um absurdo, sabe...
Porque eles ficavam rindo sempre... De mim e das minhas amigas, que naquela época
trabalhavam aqui, te lembra?
Eu disse assim: pois eu vou estudar nesse colégio. Eu vou ensinar vocês como é estudar
realmente. Fui. Estudei. Endendeu? Fui bem recebida.
(EU) E lá não teve problemas?
Depois que eu fui estudar, não.
Aí, eles fizeram um favor pra mim, que foi eu voltar a
estudar. Mas foi bom. Eu estudei. Foi uma experiência boa. Entendeu? Eu saí dali... Dava
uma volta no centro e depois ia prá casa.
(EU) Professores te respeitavam?
É. Na época eu tinha um relacionamento com uma pessoa, né... Só que daí, tava meio mal
assim... E daí eu comecei a me prostituir, entendeu?
(EU) E o nome, eles usavam o nome de registro?
Usavam o nome de registro. É... E mesmo eu... Eu de cabelo... Eu na época tinha cabelo
comprido... Quando tu me conheceu, não sei se tu te lembra que eu tinha cabelo comprido?
(EU) Sim.
É. Quem te apresentou prá mim foi a... A Mayara. Que hoje tá presa, né? Por assassinato. Pois
é... Essa mesma.
Essa mesma. A famosa. Famosérrima!
Essa é a famosa do mau! Não. Só que não. É assim ó. Ela era minha amiga. Nós tinha... Sabe,
nós tinha um... Tudo que ela ia fazer, ela me convidava... Eu ia, entendeu? Só que se ela... Se
ela... Foi uma escolha dela, né Joana? Eu acho, entendeu? Porque eu acho assim: A gente
não. Eu sou contra tu tirar a vida de uma pessoa. Porque eu acho que só quem tira a vida de
uma pessoa é deus. Tanto é que a pessoa só morre quando é a hora dela. Entendeu? Então eu
acho assim, ó. Como eu não admito que tu vá ali e assassine uma pessoa. Isso não pode
176
acontecer. São os crimes que eu não admito são dois. Assassinato e estupro. Não admito. O
resto, entendeu, cada um sabe o que faz.
E aí é assim, tá?
(nos interromperam com mais refrigerante e perguntando se queríamos que aquecessem o
salgado, fazendo ofertas por algum tempo que cortou o raciocínio dela.).
(EU) Então teu nome nunca te atrapalhou te chamarem?
Claro que sim. O que me atrapalhava naquele sentido... Me chamava pelo meu nome de
batismo... Sabe? Mas eu não gostava daquele nome. Entendeu? É como se eu tivesse perdida
dentro de um mundo que não era meu. Entendeu? Pois é.
Me chamavam pelo nome de batismo, mas eu não gostava daquele nome. Porque era como eu
estivesse perdida num mundo que não era meu. Eu imaginava que eu era... Eu me sentia... Eu
queria brincar com bonecas... Roupas eu usava cor de rosa... Tudo roupa de menina.
Entendeu? Eu saía com minha mãe na rua... Eu ia no banco com minha mãe, na caixa, né...
Sempre eu ia com ela. Eu ganhei um livro dooo... Do moço que trabalhava... Que trabalhava
na... Porque a minha mãe é analfabeta né... A minha avó quem me criou. Porque a minha mãe
biológica não... Desde os três meses não tive mais contato com ela. Então eu tive... Eu tive
uma grande mãe. Entendeu? Por quê? Porque de repente a minha mãe biológica não teria sido
a mãe que eu tenho e tive.
(EU) Que é a tua mãe?
Que é a minha vó.
(EU) Mãe da tua mãe?
Não. A mãe do meu pai que já partiu.
(EU) Então agora tu não tem mãe?
Não. Eu não tenho pai. Mãe eu tenho duas. A mãe biológica e a mãe que me criou.
(EU) Quem escolheu teu nome?
O meu nome de batismo quem escolheu foram os meus padrinhos. Que não moram aqui.
Moram em Porto Alegre. (26h50min)
(EU) E lá em Porto Alegre, esta questão do nome...
Se eu trabalhar num emprego? Claro, né... Mas lá é outro mundo, né Joana? É por isso que eu
te disse: Venâncio Ainda não conseguiu alcançar a evolução.
Eu to com um documento provisório. A carteira social ela é esse significado. Ela é provisória.
Tu vai usar pra te sentir menos incômoda, né... Já que tu traz dentro de ti um espírito
feminino... De ser chamada pelo teu no... Né? Vestida de mulher... Ou de dia ou de noite... De
peito... Alguma coisa assim, né... Por isso que eu acho que essa carteira social só é digna dela
177
quem é assim. Entendeu? Quem já mudou o corpo. Porque né? Carteira social no nome
feminino, mas mudança de corpo, transex, transexualismo é o que? Troca. Né? Por quê?
Porque tu vem com uma outra ideologia, uma outra maneira de ver a vida... Um outro instinto
dentro de ti. E tu tem que cumprir ele. Entendeu? Se não a felicidade não bate a tua porta.
(EU) Se tu chega com essa carteira tu consegue a vaga? (no emprego)
Com essa não. Não tentei ainda Joana. Não tentei. Eu só tentei usar a minha carteira, te digo
pra que. Eu tentei usar ela poucas vezes, ate ser roubada, né, da minha bolsa... Em Santa
Cruz... Eu tentei usar ela... Ãaa... Tentei usar, usei e usei. No... No posto de saúde, no
hospital, aqui... E em mais alguns lugares. Ela é válida só para esses lugares. Esses órgãos
públicos, entendeu, Joana?
Ela não é válida num cartório... Num fórum e num emprego. Então, prá mim, ela é uma
carteira provisória. Então dali tu vai decidir se tu quer ficar ali ou se tu quer ir adiante, com
direito de tudo.
(EU) Mas nos empregos que tu chegas tu não pode usar o nome social. Tem que apresentar a
carteira de trabalho. Como é isso para ti?
Imagina eu, trabalhei três anos na DAAS (fábrica de calçados). Antiga umbro. Pois é... Eu
persisti três anos. Mas, destes três anos eu não trabalhei três anos, porque eu sofri um
acidente, entendeu? Eu trouxe a minha mãe pra fazer uns exames aqui no Gassen (laboratório
de análises clínicas), né. E na volta nós sofremos um acidente. A gente não escolhe, a gente
não prevê o futuro. E aí... Como eu tava de carteira assinada, né... Eu fiquei muito tempo
encostada né. Porque eu tinha que tratar muito o meu braço né. Que que aconteceu? A... Ãaa.
Eles... De praxe né? Quando eu voltei, aí, né, sabe... Foi muito estresse, sabe. Acho que eu
não tava mais acostumada... Eles me... Demitiram. Mas, antes disso eu já tinha trabalhado em
outros... Eu já trabalhei em vários lugares em Venâncio...
(EU) E eles te respeitavam...
Não! Depois que eu comecei a me vestir de mulher, teve um lugar que eu fui respeitada. Na
Cris spot. Que é uma facção de roupa. Nos outros eu passei preconceito. Preconceito,
entendeu? Falando, né? Rindo... Não só eu. As outras aqui também. Entendeu? Não difere. É
igual, é igual. É pra todas. Hoje eu não trabalho mais. Elas trabalham. Então eu não sei como
é, mas eu creio que.... Só que assim, ó... Tu vai provar prás pessoas o que tu é... Nos teus atos,
na tua postura... Entendeu? Mostrando, entendeu? O que que tu traz além daquela roupa de
mulher que tu tá usando ali... Porque é o teu comportamento... É a tua maneira de tratar as
pessoas... Só que mesmo assim tem pessoas que não merecem, entendeu? Que te tratem com
cordialidade... Com postura... Sabe, Joana? Só que hoje eu evolui muito. Hoje eu penso assim
178
ó, mesmo que não mereçam que eu trate com qualidade... Com dedicação, com postura,
entendeu? Eu trato igual, por quê? Porque eu tenho que manter, entendeu? Se eu quero me
tornar uma pessoa, né, respeitada, admirada, fazer jus ao meu nome que é Victória, que eu
sonhei tanto, né que é o meu nome: Eu vou por o meu nome V, porque né, como o outro
nome que eu tinha eu era uma fracassada, sabe... Eu não conseguia nada... Troquei de nome.
E tu sabe que nome de batismo influencia muito, né? Então, eu, na minha condição que sou,
eu, eu me batiz, eu escolhi como V. Todas, sabe, que toda tem um nome fictício. Não é
fictício. É o nome de... No caso da minha... Da minha sexualidade, né. Então eu escolhi V. E
fiquei com meu sobrenome.
(EU) E a família respeita isso?
Minha família... Minha mãe, amo. Entendeu? Sempre me apoiou, desde muito nova... Hoje eu
posso repetir. Ela é um amor. Ela é a mãe realmente que eu pedi a deus.
(EU) Resumindo: tu achas q é mais difícil a vida p uma pessoa transexual do que para uma
pessoa que não seja transexual? (31h46min)
É diferente. Nem se compara. Claro. Por quê? É que é assim, Joana. São evoluções. Tu tá me
entendendo? Como eu te disse. Eu te afirmo a tese que: O homossexualismo não é uma
questão de escolha, Joana. Tá? Não é uma questão de escolha. Por quê? Porque aquilo te
acompanha, e vai te acompanhar o resto da vida. Entendeu? Porque isso dali é um instinto.
Tá? Só que além dessa questão...
Tu tem dois mundos para enfrentar. O teu mesmo, que é prá ti te descobrir. Né? Pra te achar...
Que nem assim, ó. O homossexualismo se divide em várias classes. Quais são? O
homossexual em si todo ele forma o gay, né. O travesti, que é aquele que vai lá e põe uma
roupa feminina de mulher e vi... Né? O transex, que é aquele que vai mais além, que quer
mudanças no corpo... (32h41min)
E o transexual. Que é aquele que... Entendeu? Entendeu, né... Que ele era mais além...
Entendeu? Já era de transex pra transexual. Entendeu? Que o instinto dele tem uma, né? Então
assim, né... Que independente disso, todos... Todos no homossexualismo, eu acho que é uma
condição sexual...
(33h02min) Não é uma opção... Ah eu respeito tua opção! Não! É uma condição. Porque tu
acha que eu gostaria, Joana, de viver a minha vida inteira, Joana, eu vou levar o preconceito
comigo pelo resto da vida. Entendeu? Eu vou levar comigo a falta de respeito de muitas
pessoas pelo resto da vida. Risos de pessoas pelo resto da vida. Por causa de quê? Por causa
do que eu sou. Só que eu, sendo o que eu sou, eu não tô presa por assassinato. Eu não to ali
179
mendigando. Eu não tô ali roubando. Essas coisas assim, ser preso, ser morto, ser assassinado,
entendeu? Isso influencia muito da pessoa e influencia muito, entendeu? Dos teus atos.
Primeiro lugar...
(EU) Sim, mas do olhar do outro, eles podem julgar...
Aí que tá! Porque eu te falei que mesmo as pessoas não merecendo, porque que eu não vou
descer do meu salto. Por quê?
Porque a minha amiga essa que tá presa, foi um estresse que ela teve dentro de um bar. Né?
Que ocasionou o que ocasionou. Ela perdeu o que? O que ela tinha de mais precioso. Que era
a liberdade. O que eu tenho, que eu não... Entendeu? Aprecio todos os dias a minha liberdade.
Eu posso ir e vir. Entendeu? A onde eu quiser. Nos lugares que eu sei que não sou bem vinda,
entendeu, eu não vou já que é pra não, entendeu? Então, mas eu vou aonde, eu tenho o meu
livre arbítrio, entendeu? Eu acho que liberdade não se compra.
(EU) Que idades tu tens?
Eu? Hoje, atualmente, eu tô com 28 anos.
(EU) Bem novinha ainda...
É, nem tanto, né Joana?
Então, a maioria dos transexual, eles, eles fazem a vaginoplastia. O transexualismo todo é por
volta dessa casa, dos 28 aos 30. Por isso que eu estou morando em Porto Alegre, entendeu?
(EU) Tu conseguiu te inserir no projeto de novo?
Pois é. Eu vou primeiro agora aqui ver, né? Por isso que eu to aqui. Eu to visitando a minha
mãe, levando o resto das minhas coisas, né Joana. Eu me instalei.
O que que eu tô fazendo. Revendo a questão da carteira social, né. Foi o que aconteceu que eu
te contei, o fato de Santa Cruz... Ãaa... Tô resolvendo umas questões pessoais...
(EU) Quanto tempo faz que tu te afastou do projeto?
Faz um ano. Eu perdi. Não. Eu perdi. Só que eu voltei lá pra reiniciar. Só que aí deu um
probleminha que eu parei de ir nas consultas. Então agora eu vim buscar meu cartão também
que eu tenho o prontuário... Um programa de prontuário que ficou aqui em Venâncio. Então
eu vim aqui buscar. Agora eu estou reiniciando, né.
O preconceito, então prá finalizar, eu vou te dizer assim Joana: Infelizmente o preconceito a
gente vai levar pro resto da vida. Sempre vai ter alguém q não aceite, que vai rir. Sempre vai
ter alguém que vai te criticar. Entendeu? Então isso que, né? Só que se eu soubesse que era
assim, entendeu? Hoje, de repente, eu não teria, né... Por isso que eu digo que não é questão
de escolha, se eu... É de instinto. Se hoje eu sou assim, entendeu? É por que eu sou Victória.
Prá enfrentar o preconceito. Prá enfrentar as pessoas que não me querem bem... Entendeu?
180
Prá mim, indiferente, entendeu? Eu, se eu hoje estou como eu gostaria, entendeu? Estou
conseguindo as minhas coisas... Entendeu? Estou correndo atrás, é porque, né, realmente... Eu
sou e me considero uma Vitória... Porque eu sou realmente uma pessoa abençoada por deus.
Olha. É isso que eu te digo. Olha eu, Joana, o que que eu te falei? Eu tenho curso, eu tenho
profissão de costureira. Prá ti ver. Te cito umas empresas de Venâncio onde eu já trabalhei.
Crisport... Ãaa. Daas... Umbro. Antes de ser Daas, Umbro. Ãaaa... Atelieres daqui... Meu
primeiro emprego foi num atelier. Entendeu? Depois, né... A última empresa que eu trabalhei,
foi... É, eu acho que foi a Daas. Como costureira, né. Então é por isso que eu te digo...
(EU) Tens ensino médio...
Sim. É. E fiz... Mas aí... O que eu tentei trabalhar na área de cabelo. Fiz curso... Só que não
tenho paciência, sabe? É que não é que eu não tenho paciência. Eu gosto de mexer com
cabelo... Apenas, né. Com unha e essas coisas eu não... Entendeu? Eu não gostei. Não quis.
Mas, o que que acontece? Eu não tinha aquisição prá abrir um salão prá mim. E fui trabalhar
num salão e a mulher não quis ficar comigo e daí eu não insisti mais. De repente agora, lá
morando em Porto Alegre, eu vou partir prá esse ramo.
Mas assim, ó. O preconceito, o preconceito... Nessas áreas é mais fácil. Entendeu, Joana? Na
área de costura. Na área de cabeleireira. Na área até de moda, entendeu? Por quê? Porque tu
vai trabalhar com uma coisa que chama as mulheres, entendeu? E muitas vezes os homens
também. Em alguns casos, né? Por quê? Só que daí, né... Entra a opção das pessoas...
Entendeu? De... Só que mesmo assim, o preconceito sempre vai existir. Porque vamos supor
assim. Eu sou uma cabeleireira né? Tu diz pro teu marido assim: Ah, o salão da Victória... Ah,
é um salão muito bom... Né? Um trabalho bem feito... Tá? E teu marido: Vamos lá conhecer!
E aí o teu marido vai contigo, só que aí, de repente alguém olha e vê que a Victória é transex,
entendeu? Transexual. Ele, por mais que o salão seja bom... Que seja um trabalho
qualificado... Pode ser o teu marido e pode não ser... Não vai querer, por quê? Porque é uma
pessoa
homossexual.
Entendeu?
Mas
prova
que
melhores
cabeleireiros...
Melhores
costureiros... Né? Melhores pessoas que trabalham com moda são quem? Homossexuais!
(EU) Eu ouvi as meninas reclamando que nas fábricas era difícil... Que não as respeitavam...
Ah, é sim. Realmente. Agora imagina uma situação constrangedora. Eu trabalhei na Daas, né
Joana? De peito, depois... Tudo... Eu saí por quê? Né... Daí eu dei graças a deus que me
botaram pra rua, por quê? Me demitiu. Porque imagina o constrangimento quando tinha que
usar o banheiro masculino. Eu acho errado isso. Porque eu acho que as empresas deveriam ter
um banheiro... Não querem deixar usar com mulher? Não precisa. Façam um banheiro
dedicado para esse tipo de público. Né? Porque é de fato que se toda empresa tem... Que não
181
pode ter preconceito prá contratar um deficiente físico, é de fato que também não pode ter
preconceito prá contratar um homossexual. Porque um homossexual pode exercer (lapso:
exigir)
perfeitamente
sua
função,
como
os deficientes podem exercer sua função
perfeitamente bem.
Aí tu fica nesta triste... Entendeu? Nesta triste... Âaa... Né? Situação de ter que entrar... Eu me
sentia constrangi... Mas...
(EU) E no colégio, como é que era?
Também. Também. Só que tem um detalhe. Eu sempre soube respeitar e sempre me dei o
respeito. Entendeu? Nunca fiz coi... Nunca...
Sempre todos me respeitavam... Tinha um... Tive... Tive... Rapaz que conversavam comigo!
Entendeu? Tinha outros que me viravam a cara... Só que pra mim é indiferente, né?
Entendeu? Mas eu sou uma pessoa assim, ó. Eu sou tolerante. Não tanto. Entendeu? Duas ou
três, onde eu vi que tu me estressou um pouquinho, entendeu? Ai, simplesmente eu vou ali e...
Mas eu faço tu ver de um jeito bom. Entendeu? Né? Sabe? Só que eu exijo o respeito. Mas
uma coisa que eu posso te falar que é fato: O preconceito, Joana, sempre vai existir. Nós
somos pessoas que sempre vamos levar o preconceito junto na mala, entendeu?
(EU) Tu achas que vai mudar isso?
A minha opinião? Olha... Gostaria que mudasse... Gostaríamos que fôssemos todos iguais.
Independentes, né, de raça, cor, sexo, né? Porque somos todos filhos de deus. Mas, o mundo
de hoje que nós vivemos, olha como é subdividido, né? É por aí... Eu penso assim. Sabe? É
uma coisa... O homossexualismo (41h15min)
Ele não é uma escolha. Isso é uma condição. Entendeu? Mas eu te digo também...
(EU) Tu és homossexual?
Eu sou. O meu interior é homossexual. Por quê?
(EU) Por que... Olha só... Tu é uma mulher ou tu é um homem? No teu interior?
Uma mulher.
(EU) Então. Tu namora mulher ou tu namora homem?
Eu namoro homens...
(EU) Então. Se tu é uma mulher namorando um homem... Tu não é heterossexual?
Eu já sou uma transexual. Por isso que eu te digo... A minha felicidade por completa... Só
vai... Aí tá a prova... Tu entendeu? Do que eu te falei antes. Entende? É isso aí. Tu como nã...
Né... O estudo que tá fazendo... Já conseguiu me entender. É bem por aí. Então, muitas
pessoas não são felizes, Joana, porque não conseguem realizar seus objetivos, entendeu? Mas,
os objetivos de cada um, todo mundo sabe qual é. Então, eu tenho um objetivo, é comigo
182
mesma, entendeu? É me reencontrar e ser feliz de tal maneira. Entendeu? Porque eu sou uma
pessoa, né, que tenho um interior diferente. Que eu me consider... Que eu acho diferente, que
eu vejo meu interior que é diferente. E prá isso eu vou atrás, entendeu, prá conseguir fazer o
meu corpo entrar em harmonia com o meu espiritual. Porque eu te reafirmo a tese de que o
espiritual e interior e o físico eles andam juntos. Se tu não tá bem interiormente, tu não vai
refletir no exterior. Como se tu não estiver bem no exterior, tu não vai refletir no teu interior.
E aí é assim, Joana, entendeu?
183
ANEXO 18
CARTA DECLARAÇÃO DE DIREITO AUTORAIS
Nós, Joana do Prado Puglia, Psicóloga, RG 8017410849, CPF 44553463091, residente na
Rua Primeiro de Março, 916, centro, em Venâncio Aires, CEP 95.800-000, RS,
[email protected] - 51-92164456,
Mestranda no Programa de Pós Graduação
Mestrado em Promoção da Saúde pela Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC; e Edna
Linhares Garcia, RG 139808, CPF 258804113220, residente na Rua Gaspar Silveira
Martins, 2510/702-Santa Cruz do Sul-RS. [email protected] - 51-37177603, Doutora em
Psicologia- PUC-SP. Profa.do Programa de Pós Graduação- Mestrado em Promoção da Saúde
e do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC. Tutora do
PET/Saúde-Redes de atenção psicossocial aos usuários de crack e outras drogas; somos
autoras do artigo “Sexismo na escola: presente!”, e o encaminhamos à Revista Estudos
Feministas para apreciação e possível publicação. Declaramos que este trabalho é inédito e
original, seguiu rigorosamente todos os procedimentos éticos, e autorizamos a reformulação
de linguagem, caso necessária para atender aos padrões da Revista.
Atenciosamente.
Joana do Prado Puglia
Edna Linhares Garcia
Santa Cruz do Sul dezembro de 2014.
184
ANEXO 19
Diretrizes para Autores Revista Estudos Feministas
Classificação CAPES/ANPEPP (Qualis 2012):
Interdisciplinar A1
ISSN 0104-026X, Florianópolis, Brasil.
NORMAS DE PUBLICAÇÃO
Diretrizes para elaboração dos textos
1. Os textos enviados deverão acompanhar de documento suplementar em forma de carta de
apresentação, contendo as seguintes informações: Título do artigo, Nome completo da/o
autora/or, Filiação institucional, Endereço postal, Telefone/Fax, e-mail e uma breve descrição
biográfica (em torno de 7 linhas).
2. O nome da/o autora/or não deverá aparecer no corpo do artigo, para garantir o anonimato
no processo de avaliação.
3. Recomenda-se a utilização de processadores de texto compatíveis com Windows (.rtf, .doc
ou .docx). Pede-se que os textos sejam marginados à esquerda e digitados em espaço duplo,
em fonte do tipo Times New Roman 12, e que não contenham marcações.
4. Os artigos deverão ter até 9 mil palavras ou 45 mil caracteres (aproximadamente 25 laudas,
papel A4), incluindo as referências bibliográficas, notas e tabelas. Devem vir acompanhados
de resumo e abstract (no máximo 10 linhas) e palavras-chave (máximo 5) em português e em
inglês, sendo que o título também deve estar traduzido para o inglês. Estes e outros
Metadados devem necessariamente ser preenchidos também no sistema de submissão sob
pena do artigo não ser considerado.
5. Os ensaios deverão ter até 6 mil palavras ou 30 mil caracteres, e as resenhas de 5 a 10 mil
caracteres incluindo os espaços. Notícias e registros deverão ter até 300 palavras ou 1.500
caracteres. Os metadados destes textos também devem ser preenchidos no sistema.
6. Os seguintes itens devem ser observados na elaboração dos textos:
• aspas duplas para citações com até três linhas;
185
• as citações com mais de três linhas devem ser destacadas com recuo de quatro centímetros
da margem esquerda, com fonte do tipo Times New Roman 11 e sem aspas.
• aspas simples para palavras com emprego não convencional e para indicar citação no
interior de citação de até três linhas;
• itálico para palavras estrangeiras, neologismos e títulos de obras e publicações;
• as notas explicativas devem ser de pé de página, numeradas, e pede-se que sejam usadas
com parcimônia. Em vista do projeto gráfico da revista, que dispõe as notas ao lado do texto,
as notas devem ser curtas.


Não incluir nota no título do artigo.
O título do artigo não deve incluir mais que 20 palavras.
• as fontes das quais foram extraídas as citações também devem ser indicadas em notas de pé
de página, obedecendo à mesma numeração das notas explicativas e contendo apenas os
seguintes dados: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR, ano de publicação da obra, número de
página(s) da citação;
• na primeira menção de cada autor/a citado/a no texto, deve constar também o prenome;
• a lista de referências bibliográficas completas deve ser apresentada ao final do texto;
• na lista final de referências bibliográficas, o prenome das autoras e dos autores deve constar
em todas as referências e não apenas ser indicada a inicial.
7. As referências bibliográficas obedecerão aos seguintes critérios:
• Livro: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DA OBRA, Prenomes. Título da obra:
subtítulo. Local de Publicação: Editora, ano de publicação.
Exemplo:
FONSECA, Claudia. Família, fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em
grupos populares. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.
• Capítulo de livro: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO CAPÍTULO, Prenomes. “Título
do capítulo: subtítulo”. In: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DA OBRA, Prenomes.
Título da obra: subtítulo. Local de Publicação: Editora, ano de publicação. Páginas inicial e
final do capítulo.
Exemplo:
HEILBORN, Maria Luiza. “Gênero: um olhar estruturalista”. In: PEDRO, Joana; GROSSI,
Miriam (Orgs.). Masculino, feminino, plural: gênero na interdisciplinaridade. Florianópolis:
Editora Mulheres, 1998. p. 43.55.
186
•Artigo de periódico: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO ARTIGO, Prenomes. “Título
do artigo: subtítulo”. Título do Periódico, número do volume, número do fascículo, páginas
inicial e final do artigo, mês e ano.
Exemplo:
ROSEMBERG, Fúlvia. “Instrução, rendimento, discriminação racial e de gênero”. Revista de
Estudos Pedagógicos, v. 68, n. 159, p. 324-355, maio/ago. 1987.
• Dissertações e Teses: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR, Prenomes. Título da obra:
subtítulo. Ano de apresentação. Categoria (Grau e Área de Concentração) – Instituição, Local.
Exemplo:
DINIZ, Carmen Simone G. Entre a técnica e os direitos humanos: possibilidades e limites da
humanização da assistência ao parto. 2001. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva) –
Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da USP, São
Paulo.
• Trabalhos apresentados em eventos científicos: SOBRENOME DA/O AUTORA/OR DO
TRABALHO, Prenomes. “Título do trabalho”. In: NOME DO EVENTO, Número da edição
do evento, Cidade onde se realizou o evento. Anais... (ou Proceedings... ou Resumos...) Local
de publicação: Editora, Ano de publicação. Páginas inicial e final do trabalho.
Exemplo:
PRADO, Danda. “Maternidade: opção ou fatalidade?” In: SEMINÁRIO SOBRE DIREITOS
DA REPRODUÇÃO HUMANA, 1., 1985, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro:
ALERJ/Comissão Especial dos Direitos da Reprodução, 1985. p. 26-29.
• Referências de obras em outras línguas obedecerão a critérios próprios.
Diretrizes para inserção de imagens, tabelas e gráficos
1. No caso de inserção de imagens (fotos, gravuras, quadros etc.), a responsabilidade pelo
encaminhamento dos trâmites relativos aos direitos de reprodução será das/os autoras/es dos
artigos e dos ensaios. A aprovação final do texto dependerá da resolução desses trâmites.
2. As imagens devem ser enviadas no formato tiff, resolução de 300 dpi, tamanho de 23 x 16
cm, em grayscale e em arquivo separado do texto. Imagens fora dessas especificações não
poderão ser utilizadas.
3. O número de tabelas e/ou imagens (gráficos, mapas, fotos, etc.) deverá ser mantido até o
limite de 5 (cinco) no total por artigo. As tabelas deverão ser feitas utilizando-se o mesmo
programa do artigo. Sempre que possível, deixar imagens, gráficos e tabelas não vinculados a
um parágrafo específico. Ao inserir esses elementos, procurar fazê-lo de forma a possibilitar
187
certa flexibilidade e permitir um fluxo na disposição do texto e das imagens na página. Evitar
tabelas grandes, com muitas células e/ou muito texto por célula. Tabelas grandes não cabem
nas páginas e aquelas com longos textos podem ficar ilegíveis. O texto dentro das tabelas
deve ser o mais sucinto possível.
3. Respostas muito longas ou que incluam temas muito diferentes podem ser cortadas por uma
pergunta na edição.
4. Respostas a temas próximos, mas que tenham aparecido em momentos distantes da
entrevista podem ser editados de modo a apresentar um encadeamento melhor.
5. Depois de finalizada a entrevista, deve-se checar com o/a entrevistado/a a grafia dos nomes
citados, bem como completar as referências bibliográficas mencionadas.
6. Sempre que possível, enviar a transcrição da entrevista para obter o aval do entrevistado
antes de sua apresentação à editoria de entrevistas.
Diretrizes para Agenda
A Revista Estudos Feministas está aberta para receber informações (até 20 linhas) sobre
eventos tais como seminários, cursos, exposições, concursos, bolsas de pesquisa, encontros,
manifestações etc, através do e-mail [email protected].
Condições para submissão
Como parte do processo de submissão, os autores são obrigados a verificar a conformidade da
submissão em relação a todos os itens listados a seguir. As submissões que não estiverem de
acordo com as normas serão devolvidas aos autores.
1. Todos os endereços de páginas na Internet (URLs), incluídas no texto
(Ex.: http://www.ibict.br) estão ativos e prontos para clicar.
2. Carta de encaminhamento
Na carta de encaminhamento, o/a autor/a (ou autores/as) deve(m) indicar que o
manuscrito é original, que não foi publicado em nenhum outro lugar, e que também
não está sendo examinado por nenhum outro órgão.
A carta de encaminhamento também deverá conter informações completas de contato
do autor (ou autores), incluindo telefone e endereço de e-mail, sempre que possível.
Esse documento deverá ser incluso no item “Transferência de documentos
suplementares” no momento de fazer a submissão do texto.
3. O nome da/o autora/or não deverá aparecer no corpo do artigo, para garantir o
anonimato no processo de avaliação.
4. O texto segue os padrões de estilo e requisitos bibliográficos descritos em Diretrizes
para Autores, na seção Sobre a Revista.
5. A identificação de autoria deste trabalho foi removida do arquivo e da opção
Propriedades no Word, garantindo desta forma o critério de sigilo da revista, caso
188
submetido para avaliação por pares (ex.: artigos), conforme instruções disponíveis
em Asegurando a Avaliação por Pares Cega.
6. Concessão dos direitos autorais a Revista Estudos Feministas. Esses direitos abrangem
a publicação da contribuição em português, em qualquer parte do mundo, incluindo os
direitos às renovações, expansões e disseminações da contribuição, bem como outros
direitos subsidiários.
7. Diretrizes para inserção de imagens, tabelas e gráficos
1. No caso de inserção de imagens (fotos, gravuras, quadros etc.), a responsabilidade
pelo encaminhamento dos trâmites relativos aos direitos de reprodução será das/os
autoras/es dos artigos e dos ensaios. A aprovação final do texto dependerá da
resolução desses trâmites.
2. As imagens devem ser enviadas no formato tiff, resolução de 300 dpi, tamanho de
23 x 16 cm, em grayscale e em arquivo separado do texto. Imagens fora dessas
especificações não poderão ser utilizadas.
3. O número de tabelas e/ou imagens (gráficos, mapas, fotos, etc.) deverá ser mantido
até o limite de 5 (cinco) no total por artigo. As tabelas deverão ser feitas utilizando-se
o mesmo programa do artigo. Sempre que possível, deixar imagens, gráficos e tabelas
não vinculados a um parágrafo específico. Ao inserir esses elementos, procurar fazê-lo
de forma a possibilitar certa flexibilidade e permitir um fluxo na disposição do texto e
das imagens na página. Evitar tabelas grandes, com muitas células e/ou muito texto
por célula. Tabelas grandes não cabem nas páginas e aquelas com longos textos
podem ficar ilegíveis. O texto dentro das tabelas deve ser o mais sucinto possível.
8. Diretrizes para elaboração de resenhas
1. As resenhas deverão ter em torno de 2 mil palavras.
2. Os livros resenhados devem ter relação com a questão dos feminismos e/ou do
gênero e devem ser, de preferência, recentes últimos quatro anos para publicações no
exterior. Uma resenha de uma publicação nacional ou a tradução no Brasil deve ser
dos dois anos anteriores ou do ano em curso.
3. As resenhas podem conter:
o
o
o
o
o
Título (diferente do título do livro resenhado);
Síntese do assunto tratado;
Informações sobre a/o/s autor/es do livro;
Inserção e posição do trabalho nas discussões contemporâneas sobre o tema;
Perspectivas críticas sobre o trabalho (pontos positivos e negativos, aspectos que
poderiam ser mais explorados, aspectos inovadores e importantes do trabalho).
4. O/a autor/a da resenha deve enviar, também, sua minibiografia (de 5 a 7 linhas de
texto) e preencher os Metadados da submissão no sistema.
Declaração de Direito Autoral
189
É original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista
Política de Privacidade
Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços
prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a
terceiros.
190
ANEXO 20
CARTA DE ENCAMINHAMENTO À EDITORA
À Revista Mal-estar e Subjetividade
Universidade de Fortaleza Av. Washington Soares, 1321 Edson Queiroz CEP: 0811905 Bloco N – Sala 13 Telefone: (85) 3477.3219 E-mail: [email protected]
05 de Março de 2015.
Ilma. Professora Regina Heloisa Mattei de Oliveira Maciel, Editora
Encaminho o texto Lesbo-trans-homofobia presente na escola para
apreciação da Editoria da Revista Mal-estar e Subjetividade para publicação como
ARTIGO. Responsabilizo-me pelos aspectos éticos do trabalho, assim como por sua
autoria, assegurando que o texto não está tramitando ou foi encaminhado a outro
periódico ou qualquer outro tipo de publicação, cedendo seus direitos a esta Editoria
em caso de publicação.
Estou ciente de que, caso o texto seja resultado de trabalho sob
orientação de qualquer professor, o nome desse deverá figurar entre os autores,
salvo na condição de apresentação, mediante carta formal à Editoria, de declaração
do orientador, excluindo-se voluntariamente da autoria do texto.
Atenciosamente,
__________________________
Joana do Prado Puglia
44553463091
________________________
Edna Linhares Garcia
25880411320
191
ANEXO 21
Diretrizes para Autores Revista Mal-estar e Subjetividades - Unifor
Classificação CAPES/ANPEPP (Qualis 2009):
Psicologia (B1)
Educação (B1)
Interdisciplinar (B1)
CRITÉRIOS PARA PUBLICAÇÃO:
Como apresentar e enviar o manuscrito 1. A revista adota, com algumas adaptações, as
normas de publicação da APA: Publication Manual of the American Psychological
Association (6a edição, 2010). A omissão de informação no detalhamento que se segue
implica que prevalece a orientação da APA. Como alternativa à consulta ao original desse
manual, sugerimos o Tutorial de referências bibliográficas estilo APA 6a.edição:
http://issuu.com/bibliotecasua/docs/ manualestiloapa6ed.
2. Os documentos para submissão deverão estar em formato eletrônico (WORD ou
LIBREOFFICE) e não exceder o núme- ro máximo de páginas indicado para cada categoria,
conforme descrito a seguir (incluindo Resumo, Abstract, Figuras, Tabelas, Anexos e
Referências, além do corpo do texto):
Relatos de pesquisa, estudos teóricos, revisões críticas de literatura (15-25 páginas): relatos de
alta qualidade de pesquisas originais, baseadas em investigações sistemáticas e completas,
devem propor a análise de conceitos, levando ao questionamento de modelos existentes à
elaboração de hipóteses para futuras pesquisas. Também serão aceitos artigos teóricos ou de
revisão com análise crítica e oportuna de um corpo abrangente de investigação, relativa a
assuntos de interesse para o desenvolvimento da Psicologia.
Resenhas de livros (3-10 páginas): revisão crítica de obras nacionais (publicadas há até dois
anos) ou estrangeiras (publicadas há até cinco anos), orientando o leitor quanto a suas
características, usos potenciais e contribuições para o campo da Psicologia.
Entrevistas (15-25 páginas): entrevistas realizadas com autores, autoridades reconhecidas no
campo acadêmico e outras personalidades que contribuam para o debate da psicologia. As
entrevistas devem conter o(s) nome(s) do(s) entrevistado(s) e entrevistador(es) e uma
apresentação de no máximo uma página. Pede-se também que seja enviada a autorização
digitalizada do(s) entrevistado(s), concordando com a publicação do material.
Traduções (15-25 páginas): traduções de artigos, ensaios e entrevistas relevantes e
indisponíveis em língua portuguesa. As colaborações enviadas devem apresentar título,
nome(s) do(s) autor(es) e do(s) tradutor(es). Devem ainda ser acompanhadas de cópia
digitalizada do original utilizado na tradução, bem como da autorização digitalizada (do editor
e/ou do autor) para publicação.
Relatos de experiência profissional (10-15 páginas): descrição de procedimentos e estratégias,
ou estudos de caso que apresentem real contribuição acadêmica.
Notas técnicas (até 10 páginas): descrição de novos métodos, instrumentos, softwares ou
técnicas.
3. É fundamental que o material não contenha qualquer forma de identificação da autoria, o
que inclui referência a trabalhos anteriores do(s) autor(es), menção a instituições a que
estejam vinculados, detalhes de método que possibilitem a identificação/localização da
origem, bem como informações contidas nos campos das propriedades do documento.
192
Os autores que tiverem suas submissões aceitas para publicação terão oportunidade, durante a
revisão final, de incluir dados necessários.
4. O arquivo contendo o trabalho deverá ser enviado por correio eletrônico para
[email protected], anexo, acompanhado da “Carta para Submissão de Trabalhos”
(disponível em www.unifor.br/malestaresubjetividade) devidamente preenchida (não
aceitamos a exposição do trabalho no corpo da mensagem).
Preparação do manuscrito
1. Diretrizes de formatação
A. O manuscrito, sendo um artigo, ao todo não deve passar de 25 páginas, desde o Resumo
até as Referências, incluindo as Tabelas, Figuras e Anexos, em formato A4, devendo ser
paginado desde o Resumo, que receberá número de página 1.
B. Fonte: Times New Roman, tamanho 12, ao longo de todo o texto, incluindo referências,
notas, tabelas, etc.
C. Margens: 2,5 cm em todos os lados (superior, inferior, esquerda e direita).
D. Espaçamento: espaço duplo ao longo de todo o manuscrito, incluindo Folha de Rosto,
Resumo, Corpo do Texto, Referências, Anexos, etc.
E. Alinhamento: esquerda
F. Recuo da primeira linha do parágrafo: tab = 1,25cm
G. Numeração das páginas: no canto superior direito.
H. Endereços da Internet: Todos os endereços “URL” (links para a internet) no texto (ex.:
http://pkp.sfu.ca ) deverão estar ativos e levar diretamente ao documento citado.
2. Elementos do manuscrito
Os elementos do manuscrito devem ser apresentados na seguinte ordem (inicie cada um deles
em uma nova página): (1) Folha de rosto com título e identificação dos autores, (2) Folha de
rosto com título e sem identificação, (3) Títulos e Resumos em português, inglês, espanhol e
francês, (4) Corpo do Texto, (5) Referências, (6) Anexos, (7) Tabelas e Figuras, conforme
instruções a seguir.
A. Folha de rosto com título e identificação dos autores e suas instituições de origem, bem
como endereço completo, incluindo e-mail.
B. Folha de rosto com título e sem identificação. Título original (máximo 12 palavras) e
título compatível nas outras línguas. Sem identificação de autoria.
C. Títulos e Resumos em português, inglês, espanhol e francês.
Parágrafos com no máximo 300 palavras com o título Resumo escrito na primeira linha
abaixo do cabeçalho. Ao fim do resumo, listar cinco palavras-chave em português (em letras
minúsculas e separadas por ponto e vírgula). Os resumos nas outras línguas devem ser fieis ao
resumo em português, porém, não uma tradução “literal” do mesmo. Ou seja, a tradução deve
preservar o conteúdo do resumo, mas também adaptar-se ao estilo gramatical da língua. A
revista tem, como procedimento padrão, fazer a revisão final dos resumos, reservando-se o
direito de corrigi-los, se necessário. Esse é um item muito importante de seu trabalho, pois em
caso de publicação estará disponível em todos os indexadores da revista. Os resumos nas
outras línguas devem ser seguidos das respectivas palavras-chave traduzidas. Sugere-se
utilizar palavras- chave derivadas da terminologia em Psicologia da BVSPsi ou Thesaurus do
Psycinfo. No caso de submissão de resenhas de livros, entrevistas e notas técnicas, o resumo
não é necessário.
D. Corpo do Texto
Não é necessário colocar título do manuscrito nessa página. As subseções do corpo do texto
não começam cada uma em uma nova página e seus títulos devem estar centralizados, e ter
somente a primeira letra maiúscula (por exemplo, Método e discussão, em artigos empíricos).
Os subtítulos das subseções devem estar em itálico e ter a primeira letra maiúscula (por
exemplo, os subtítulos da subseção Método: Participantes, ou Análise dos dados). Títulos e
193
subtítulos não devem ser acompanhados de ponto final. Caso haja subdivisões no texto,
recomenda-se no máximo três níveis de intertítulos.
As palavras Figura, Tabela, Anexo que aparecerem no texto devem ser escritas com a
primeira letra em maiúscula e acom- panhadas do número (Figuras e Tabelas) ou letra
(Anexos) ao qual se referem. Os locais sugeridos para inserção de figuras e tabelas deverão
ser indicados no texto. Expressões como “a Tabela acima” ou “a Figura abaixo” não devem
ser utilizadas, pois no processo de diagramação a localização das mesmas pode ser alterada.
As normas não incluem as denominações Quadros ou Gráficos.
Sublinhados, Itálicos e Negritos: Use itálico para palavras ou ex- pressões que constituam
“estrangeirismos”, como self, locus, etc. e sublinhado para outras palavras que deseje grifar.
Reserve negritos para os títulos.
Dê sempre crédito aos autores. Todos os nomes de autores/ins- tituições cujos trabalhos forem
citados devem ser seguidos da data de publicação. Todos os estudos citados no texto devem
ser listados na seção de Referências.
Exemplos de citações no corpo do manuscrito
Os exemplos abaixo auxiliam na organização de seu manuscrito, mas certamente não esgotam
as possibilidades de citação em seu trabalho. Utilize o Publication Manual of the American
Psychological Association (2010, 6ª edição) para verificar as normas para outras referências.
1. Citação de trabalho de um autor: sobrenome do autor, seguido do ano da publicação.
Exemplo: Dor (1991), ..... ou (Dor, 1991). No caso de citação literal esta deve ser acrescida
da(s) página(s) citada(s). Exemplo: (Dor, 1991, p. 35) ou (Dor, 1991, p. 35-37)
2. Citação de artigo de autoria múltipla
a) Artigo com dois autores: cite os dois nomes sempre que o artigo for referido.
Exemplo: Guattari and Rolnik (1996) ou (Guattari & Rolnik, 1996)
b) Artigo com três a cinco autores: cite todos os autores na primeira referência; da segunda
referência em diante utilize so- brenome do primeiro autor seguido de “et al.” e da data, caso
seja a primeira citação no parágrafo.
c) Artigo com seis ou mais autores: cite apenas o sobreno- me do primeiro autor, seguido de
“et al.” e da data. Porém, na seção de Referências, todos os nomes dos autores deverão ser
relacionados.
Exemplo: Costa et al. (2000)
3. Citações de obras antigas e reeditadas: Utilize o seguinte for- mato: Autor (data de
publicação original / data de publicação consultada). Exemplo: (Freud, 1905/1996). No caso
de citação literal, esta deve ser acrescida da(s) página(s) citada(s). Exemplo: (Freud,
1905/1996, p. 25) ou (Freud, 1905/1996, p. 25-29).
4. Citação de um mesmo autor com a mesma data de publi- cação: acrescentar uma letra
minúscula após a data da obra consultada. Exemplo: (Freud, 1905/1996a), (Freud,
1908/1996b) ou Rogers (1973a), Rogers (1973b)
5. Citação secundária: Trata-se da citação de um artigo discu- tido em outra publicação
consultada, sem que o original tenha sido utilizado. Evite este tipo de citação, mas ao fazê-lo,
colo- que o sobrenome do autor original seguido do ano da publicação original entre
parênteses, da expressão “citado por” seguida da obra realmente consultada e do ano de
publicação. Na seção de referências, citar apenas a obra consultada.
NOTA: Citações com menos de 40 palavras devem ser incorpo- radas no parágrafo do texto,
entre aspas. Citações com mais de 40 palavras devem aparecer sem aspas em um parágrafo no
for- mato de bloco, recuado 1,25cm da margem esquerda. Citações com mais de 500 palavras,
reprodução de uma ou mais figuras, tabelas ou outras ilustrações devem ter permissão escrita
do detentor dos direitos autorais do trabalho original para a repro- dução. A permissão deve
ser endereçada ao autor do trabalho submetido. Os direitos obtidos secundariamente não serão
re- passados em nenhuma circunstância. A citação direta deve ser exata, mesmo se houver
194
erros no original. Se isso acontecer e correr o risco de confundir o leitor, acrescente a palavra
[sic], sublinhada e entre colchetes, logo após o erro. Omissão de tre- chos de uma fonte
original deve ser indicada por três pontos (...). A inserção de material, tal como comentários
ou observações, deve ser feita entre colchetes. A ênfase numa ou mais palavras deve ser feita
com fonte sublinhada, seguida de [grifo nosso].
Atenção: Não use os termos apud, op. cit, id. ibidem, e outros. Eles não fazem parte das
normas da APA.
Abreviações em Latim: Use as seguintes abreviações de Latim apenas em texto entre
parênteses; em texto sem parênteses, use a tradução em português destes termos: cf. =
compare; i.e. = isto é; e.g. = por exemplo; viz. = ou seja; etc. = e assim por diante; vs. =
versus, contra.
Notas: Devem ser evitadas sempre que possível. No entanto, se não houver outra
possibilidade, devem ser indicadas no texto por algarismos arábicos sobrescritos e
apresentadas imediata- mente após o Corpo do texto. Recue a primeira linha de cada nota de
rodapé em 1,25cm.
E. Referências
Inicie uma nova página para a seção de Referências, com este título centralizado na primeira
linha abaixo do cabeçalho. Apenas as obras mencionadas no texto devem aparecer nesta
seção.
Não deixe um espaço extra entre as citações. As referências devem ser citadas em ordem
alfabética pelo sobrenome dos autores, de acordo com as normas da APA e formatação indicada nos exemplos abaixo. Utilize o Publication Manual of the American Psychological
Association (2010, 6ª edição) para veri- ficar as normas não mencionadas aqui.
Em casos de referência a múltiplos estudos do mesmo autor, uti- lize ordem cronológica, ou
seja, do estudo mais antigo ao mais recente desse autor. Nomes de autores não devem ser
substi- tuídos por travessões ou traços.
Trabalhos apresentados em congresso, mas não publicados não devem constar nas
Referências, apenas como Notas.
Exemplos de referências
1. Artigo de revista científica paginada por fascículo:
Kitzinger, J. (1995). Qualitative research: Introducing focus group. British Medical Journal,
311 (7000), 299-302.
Hüning, S. M. & Guareschi, N. M. F. (2005). O que estamos construindo: Especialidades ou
especialismos? Psicologia & Sociedade, 17(1), 89-92.
2. Artigo de revista científica no prelo: Indicar, no lugar da data, que o artigo está no prelo.
Incluir o nome do periódico sublinha- do após o título do artigo. Não referir data e números
do volume, fascículo ou páginas até que o artigo seja publicado. No texto, citar o artigo
indicando que está no prelo.
3. Livros:
Silva, R. N. (2005). A invenção da psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes.
Foucault, M. (1994). O nascimento da clínica (4a ed.) Rio de Janeiro: Forense Universitária.
Klein, M. & Riviere, J. (1975). Amor, ódio e reparação: As emo- ções básicas do homem do
ponto de vista psicanalítico (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.
4. Capítulo de livro:
Cruz Neto, O. (1998). O trabalho de campo como descoberta e criação. In M. C. S. Minayo
(Org.), Pesquisa social: Teoria, método e criatividade (10a ed., pp. 51-66). Petrópolis-RJ:
Vozes.
Maraschin, C. (2005). Redes de conversação como operadores de mudanças estruturais na
convivência. In N. M. C. Pellanda, E. T. M. Schlünzen, & K. Schlüzen Jr. (Orgs.), Inclusão
digital: Tecendo redes afetivas/cognitivas (pp. 135-143). Rio de Janeiro: DP & A.
195
5. Trabalho apresentado em congresso com resumo publicado em anais:
Todorov, J. C., Souza, D. G., & Bori, C. M. (1992). Escolha e decisão: A teoria da
maximização momentânea [Resumo]. In Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos
de comu- nicações científicas, XXII Reunião Anual de Psicologia (p. 66). Ribeirão Preto:
SBP.
A citação das páginas é desejável, mas pode ser omitida em casos especiais.
6. Teses ou dissertações
Abbud, N. (2010). Pensando o pensar: Uma análise sobre as nar- rativas do cotidiano.
(Doctoral Thesis, Instituto de Psicologia, University of São Paulo, São Paulo). Retrieved
2013-12-13, from http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/ tde-08092010104710/ou
7. Obra antiga e reeditada em data muito posterior:
Castel, R. (2001). As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário (I. D. Poleti,
Trad.). Petrópolis, RJ: Vozes. (Originalmente publicado em 1995)
Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In J. Strachey (Ed.) Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio de
Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905)
Em caso de mais de uma obra com a mesma data diferenciar por letras:
Freud, S. (1996a). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In J. Strachey (Ed.) Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio de
Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905).
Freud, S. (1996b). Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. In J. Strachey (Ed.)
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 7. Rio
de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1908).
NOTA: As letras devem ser distribuídas seguindo o Volume da publicação e, se mesmo
Volume, a data da publicação original.
8. Autoria institucional:
American Psychological Association. (1994). Publication manual (4a ed.). Washington, DC:
Author.
9. Comunicação pessoal: Pode ser carta, mensagem eletrônica, conversa telefônica ou pessoal.
Cite apenas no texto, dando as iniciais e o sobrenome do emissor e a data. Não inclua nas
referências.
F. Anexos
Evite. Somente devem ser incluídos se contiverem informações consideradas indispensáveis.
Os Anexos devem ser apresentados cada um em uma nova página. Os Anexos devem ser
indicados no texto e apresentados no final do manuscrito, identificados pelas letras do
alfabeto em maiúsculas (A, B, C, e assim por diante), se forem mais de um.
G. Tabelas e Figuras
Devem ser elaboradas em formato de tabelas do WORD. Cada tabela começa em uma página
separada. A palavra Tabela é alinhada à esquerda na primeira linha abaixo do cabeçalho e
seguida do número correspondente à tabela. Digite o título da tabela à esquerda, em itálico e
sem ponto final. Apenas a primeira letra do título e nomes próprios devem estar em
maiúsculas.
Devem ser do tipo de arquivo JPG e apresentadas em uma nova página. Não devem exceder
15 cm de largura por 20cm de comprimento. A palavra Figura é alinhada à esquerda na
primeira linha abaixo do cabeçalho e seguida do número correspondente à figura. Digite o
título da figura à esquerda, em itálico e sem ponto final. Apenas a primeira letra do título e
nomes próprios devem estar em maiúsculas.
Verificação de diretrizes para submissão
196
A submissão de textos em qualquer categoria só será possível mediante a confirmação do
autor, através de carta de submissão assinada e escaneada, de que as condições abaixo estão
satisfeitas.
1. A contribuição é original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra
revista.
2. Os arquivos para submissão estão em formato WORD ou LIBREOFFICE.
3. O conteúdo está de acordo com as normas técnicas da American Psychological
Association: Publication Manual of the American Psychological Association (2010, 6ª edição)
e adaptações adotadas por este periódico.
4. O texto está em espaço duplo, em fonte Times New Roman, tamanho 12, com parágrafos
alinhados à esquerda e com sinalização no corpo do texto indicando onde devem ser inseridas
tabelas e figuras.
5. O documento submetido não excede 25 páginas (Relatos de pesquisa, estudos teóricos,
revisões críticas de literatura, entrevistas, traduções), 10 páginas (resenhas de livros e notas
técnicas), 15 páginas (relatos de experiência profissional) com todas as margens iguais a 2,5
cm.
6. Todos os endereços “URL” no texto (ex.: http://pkp.sfu. ca) estão ativos e levam
diretamente ao documento citado.
7. O nome do autor e instituição foram removidos das “Propriedades do documento” e não
constam no texto quaisquer formas de identificação do(s) autor(es).
O descumprimento de qualquer um desses itens é suficiente para a recusa inicial do material,
motivo pelo qual recomendamos aos autores que façam minuciosa revisão de seus
manuscritos, antes da submissão. Enfatizamos que manuscritos recusados duas vezes por
inadequação a esses itens não serão novamente recebidos.
Direitos autorais
A aprovação dos textos implica a cessão imediata e sem ônus dos direitos de publicação na
revista Mal-estar e Subjetividade, que terá a exclusividade de publicá-los em primeira mão.
É permitida a reprodução dos artigos, desde que seja citado que foram originalmente
publicados na Revista Mal-estar e Subjetividade.
Periodicidade
A Revista Mal-estar e Subjetividade mantém uma periodicidade quadrimestral.
197
ANEXO 22
PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP
DADOS DO PROJETO DE PESQUISA
Título
da
Pesquisa:
EFEITOS
DA
HETERONORMATIVIDADE
ENTRE
ADOLESCENTES ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO EM ESCOLAS PÚBLICAS DO
MUNICÍPIO DE VENÂNCIO
Pesquisadora: Joana do Prado Puglia
Área Temática:
Versão: 2
CAAE: 22102313.1.0000.5343
Instituição Proponente: Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC
Patrocinador Principal: Financiamento Próprio
DADOS DO PARECER
Número do Parecer: 544.316
Data da Relatoria: 12/02/2014
Apresentação do Projeto:
O presente estudo tem por objetivo, considerando esta relação entre violência e abuso nas
escolas e a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero surge então a pergunta:
Quais os efeitos da heteronormatividade entre estudantes de ensino médio em escolas públicas
do município de Venâncio Aires-RS?
Objetivo da Pesquisa:
Objetivo Geral
O objetivo geral deste estudo é verificar os possíveis efeitos da ação heteronormativa sobre os
adolescentes estudantes de terceiros anos do ensino médio de escolas públicas, do meio rural e
urbano, do município de Venâncio Aires-RS;
3.2 Objetivos Específicos
Verificar e caracterizar as estratégias de enfrentamento dos sujeitos aos efeitos da ação
heteronormativa, no ambiente escolar;
Verificar e caracterizar quais as percepções dos profissionais da educação em relação às
questões de identidade de gênero e orientação sexual dos alunos;
Analisar e comparar os resultados alcançados entre os grupos de estudantes do meio rural e do
meio urbano, frente à heteronormatividade.
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Avaliação dos Riscos e Benefícios:
A pesquisa não apresenta risco aos participantes.
Critérios de inclusão e exclusão estão presentes na pesquisa.
Avaliação dos Riscos e Benefícios:
Todas as solicitações feitas pelo Cep foram atendidas.
Comentários e Considerações sobre a Pesquisa:
Os termos foram adequados conforme solicitações do Cep.
Considerações sobre os Termos de apresentação obrigatória:
Nada a recomendar.
Recomendações:
Aprovado
Conclusões ou Pendências e Lista de Inadequações:
Aprovado
Situação do Parecer:
Não
Necessita Apreciação da CONEP:
O CEO UNISC emite parecer consubstanciado de aprovação.
Considerações Finais a critério do CEP:
SANTA CRUZ DO SUL, 27 de Fevereiro de 2014
_________________________________________
Assinador por:
Tania Cristina Malezan Fleig (Coordenador)
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