Quarta-feira 23 de setembro de 2015 Jornal do Comércio - Porto Alegre 9 Economia FRAUDE COMÉRCIO EXTERIOR PF prende doleiros que movimentavam R$ 2,3 bi Novas apreensões serão confirmadas no decorrer das investigações A Polícia Federal desarticulou, nesta terça-feira, quatro quadrilhas de doleiros que atuavam em Santa Catarina e movimentavam cerca de US$ 600 milhões de dólares por ano, desde 2011 (considerando a cotação atual do dólar, o montante chega a R$ 2,3 bilhões anuais). A ação ocorreu em Porto Alegre, nas cidades catarinenses de Itajaí, Balneário Camboriú, Itapema, Dionísio Cerqueira, Porto Belo e Joinville, além de Barracão e Curitiba, no Paraná. Até o momento, foram efetuadas 23 prisões: 18 em Itajaí, duas em Dionísio Cerqueira, uma em Chapecó, uma em Joinville e uma em Porto Alegre. Além disso, foram cumpridos 68 mandados de busca e apreensão. Até o final do dia de ontem, a PF havia apreendido pelo menos 20 carros e aproximadamente R$ 1,24 milhões em cheques e em espécie, além de US$ 40 mil. Foram bloqueadas judicialmente 87 contas bancárias. Os doleiros atuavam como representantes de grandes corretoras do mercado financeiro e se utilizavam desse vínculo para realizarem transações ilegais de valores para fora do Brasil. Segun- do a PF, as corretoras não tinham participação nas fraudes nem estão sendo investigadas. “Podemos dizer é que as áreas de ‘compliance’ falharam, já que não identificaram os crimes cometidos por essas pessoas”, explicou o delegado responsável pela Operação Ex-Câmbio, Christian Wuster. As quadrilhas operavam de duas maneiras. Numa delas, fraudavam contratos de importações, fornecendo dados falsos dos compradores, na maioria dos casos, usando empresas de fachada. O outro método era pelo sistema de dólar cabo, mas sem que o dinheiro saísse do Brasil. Os doleiros recebiam uma quantia em território nacional e, com a colaboração de parceiros no exterior, depositavam o valor equivalente numa conta do país indicado. “Essa é uma espécie de compensação bancária, mas as transações eram realizadas às margens das autoridades monetárias. Os suspeitos mantinham contas em cassinos nos Estados Unidos e na Argentina”, afirmou o delegado. A maior parte da clientela era formada por empresário do ramo imobiliário e de comércio exterior. Com o objetivo de ocultar os lucros adquiridos, as quadrilhas usavam laranjas para comprar imóveis, carros de luxo e abrir contas bancárias. Dois gerentes de grandes bancos foram identificados pela PF como cúmplices. Cada quadrilha tinha entre quatro e oito pessoas. No topo da cadeia hierárquica, o doleiro; abaixo dele, um ou dois gerentes; e na ponta da organização criminosa havia ainda os operadores. O delegado Christian Wuster estima que, juntas, as quatro organizações criminosas lucraram aproximadamente 10% dos R$ 2,3 bilhões que movimentavam por ano, ou seja, R$ 230 milhões. Para Wuster, as normas em vigor de fiscalização dos chamados correspondentes cambiais, agentes do mercado financeiro que representam as corretoras, abrem brechas para crimes como os descobertos pela Operação Ex-Câmbio. “Os agentes não precisam de uma autorização específica do Banco Central (BC) para trabalhar. Basta firmar um contrato com uma corretora e atuar. Os contratos até são encaminhados para o BC, mas apenas para registro. O BC fiscaliza as corretoras, não os agentes”, afirmou. Mercosul ajusta ofertas do acordo do bloco com a União Europeia O chanceler do Paraguai, Eladio Loizaga, disse ontem que os ministros de Relações Exteriores e de Comércio do Mercosul repassaram, em Assunção, os temas pendentes para a próxima reunião com os técnicos da União Europeia, que ocorrerá na capital paraguaia nos dias 1 e 2 de outubro. Os dois blocos estão negociando um acordo de livre comércio e deverão fazer a troca de ofertas comerciais até o fim do ano. A apresentação tem de ser simultânea e chegou a ser negociada em 2013 e 2104, mas não prosperou. “No dia de hoje validamos o trabalho que vem sendo feito pelo grupo na negociação entre União Europeia e Mercosul e preparamos as instruções para que tenhamos um avanço acentuado nas próximas reuniões do grupo técnico”, afirmou, em nota, o chanceler paraguaio. Representando o Brasil, participaram da reunião de hoje os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro. Em junho, durante reunião com a comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, e representantes do Mercosul, em Bruxelas, as autoridades reafirmaram a importância de aprofundar e ampliar a relação entre NORBERTO DUARTE/AFP/JC Avanços são esperados para as próximas reuniões, disse Loizaga os dois blocos. Para o ministro Armando Monteiro, será possível cumprir o cronograma e iniciar a troca de ofertas no prazo acordado - o último trimestre deste ano. “No Mercosul, temos percebido que as posições estão bastante convergentes”, disse Monteiro, também por meio de nota. Segundo o ministro, a troca de ofertas entre os dois blocos é sinal de amadurecimento comercial e permitirá que, de fato, o acordo de livre comércio se concretize. “Sem dúvida, é um avanço nas relações comerciais entre os dois blocos.”