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Classificação do artigo 13 abr 2015 O Globo
ELIANE OLIVEIRA [email protected]. br Colaborou Renata Malkes
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Analistas dizem que China vai exigir compensação pelo empréstimo de US$ 3,5
bi à Petrobras
Analistas de dentro e fora do governo dizem que o Brasil vai facilitar a entrada de produtos e
trabalhadores chineses, por causa do empréstimo dado pelo país à Petrobras. ­BRASÍLIA E RIO­ O
empréstimo de US$ 3,5 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China para a Petrobras, liberado
recentemente, mostra que os chineses não estão brincando e querem ocupar um espaço maior do que já
tem na América do Sul. Antes do Brasil, a Venezuela e a Argentina, países que passam por grave crise
econômica, foram socorridos por Pequim.
LUCAS SCHIFRES/BLOOMBERG NEWS
Dinheiro asiático. Guarda patrulha fachada do Banco de Desenvolvimento da China.
Instituição concedeu empréstimo bilionário à Petrobras, apesar da crise na estatal
Fontes do governo e especialistas em geral concordam que essa ajuda financeira não é de graça e
especulam que a contrapartida exigida pela nação asiática são a realização de obras de infraestrutura com
máquinas e equipamentos e trabalhadores do país asiático. No caso da Petrobras, a estatal pagaria o
empréstimo comprando alguns equipamentos e fornecendo petróleo.
— As condições do empréstimo para a Petrobras não foram divulgadas, mas devem estar vinculadas ao
fornecimento de petróleo e talvez de equipamentos — afirma Rubens Barbosa, exembaixador do Brasil nos
Estados Unidos e atual presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (Fiesp).
Para ele, quem mais perde com a crescente presença da China na América do Sul é o Brasil, por duas
razões: a concorrência, cada vez mais forte, dos equipamentos chineses; e, do ponto de vista político­
diplomático, a instalação de base militar na Argentina.
— O Brasil sempre se manifestou contra a instalação de bases militares em nossa região — completa
Barbosa.
BRASIL LIDERA EMPRÉSTIMOS
Estima­se que a China já emprestou mais de US$ 120 bilhões para a América do Sul e, por ordem
decrescente, venezuelanos, argentinos e brasileiros são os maiores beneficiados. Somente em 2014,
foram repassados US$ 12 bilhões para a região e a maior parte dos recursos, US$ 8,6 bilhões, veio para o
Brasil.
Sobre a Argentina especificamente, os mais de US$ 10 bilhões emprestados recentemente serão
compensados pela compra de máquinas e equipamentos chineses e a autorização de uma base militar de
rastreamento de satélites e mísseis no país. Recentemente, a presidente argentina Cristina Kirchner
esteve na China para assinar 22 acordos de uma aliança estratégica nas áreas de infraestrutura e energia.
E, em janeiro último, os chineses anunciaram que iriam investir US$ 20 bilhões na Venezuela, conforme
informou o presidente venezuelano Nicolás Maduro.
— A China é um país discreto, que procura trabalhar silenciosamente. A grande diferença em relação a
outros países é que os chineses têm muito dinheiro. São os maiores credores do mundo e possuem
reservas internacionais de US$ 4 trilhões — diz o pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da
PUC/Rio, Paulo Wrobel.
Segundo o professor de Relações Internacionais Cui Shoujun, da Universidade Renmin, em Pequim, a
China vê a América Latina como parte de uma estratégia combinada de longo prazo que visa não só ao
lucro, também à influência política na região. Esta estratégia ganhou força depois que o governo Lula fez
da cooperação Sul­Sul prioridade. O fato de os latinos terem um histórico de notas de risco ruins não
assusta. Muito menos as atuais denúncias de corrupção aqui no Brasil.
— Os países latinos podem estar em apuros agora, mas não necessariamente para sempre. E a
corrupção é inevitável. O próprio governo chinês está no meio de uma campanha para erradicar a
corrupção. Enquanto o governo brasileiro estiver adotando medidas positivas para combatê­la, as
empresas chinesas vão ver no país novas oportunidades de ganhar mercado — disse.
O consultor internacional Nelson Franco Jobim reforça que a China tem as maiores reservas cambiais
do mundo e um vasto fundo soberano usado para aquisições estratégicas e, principalmente, assegurar o
fornecimento de matérias­primas essenciais a seu desenvolvimento. Isso orienta as relações com a África,
a América Latina e o Oriente Médio.
— A China se aproveita da fragilidade de países como Brasil, Venezuela e até a Rússia. O acordo da
China com a Argentina foi uma clara violação das regras do Mercosul, que cada vez mais se torna
irrelevante — diz Jobim.
Leonardo Valente, professor de relações internacionais da UFRJ, lembra que nenhum empréstimo é de
graça, nem os concedidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou pelas potências ocidentais, nem os
concedidos pela China.
— Mas é extremamente positivo que o cenário internacional tenha uma maior diversidade de opções
de credores, o que dá mais autonomia decisória aos países que precisam desses empréstimos. A China
tem interesses estratégicos na América do Sul e estes dependem da estabilidade política e econômica da
região — disse Valente.
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