CARACTERIZAÇÃO DOS AGRICULTORES FAMILIARES DE BASE
AGROECOLÓGICA DO MUNICÍPIO DE PELOTAS-RS
RIBEIRO, Veridiana Soares
SALAMONI, Giancarla
COSTA, Adão José Vital da
RESUMO
O segmento da agricultura familiar caracteriza-se pela diversidade na organização
da sua estrutura interna, isto é, a maneira como estão distribuídos os recursos terra,
trabalho e capital. Esta diferenciação entre os produtores é fruto do processo de
modernização da agricultura. Assim, é possível encontrar no espaço rural produtores
capitalizados e modernos e, no outro extremo, aqueles que adotaram outras
estratégias de reprodução social, como as práticas agroecológicas baseadas nos
princípios da sustentabilidade. Dessa forma a pesquisa tem como objetivo analisar
as possibilidades e restrições para o desenvolvimento da agricultura familiar
sustentável no município de Pelotas. Foi utilizada a metodologia de Diniz (1984) o
qual adota a abordagem sistêmica referente aos subsistemas internos e externos da
agricultura, ou seja, caracteriza os sistemas de produção agrícola nas dimensões
sociais, técnicas e produtivas, com auxílio de métodos quali-quantitativos. Foram
coletados dados e informações sobre os produtores de base agroecológica junto ao
cadastro dos associados da Cooperativa Sul-Ecológica e do Centro de Apoio ao
Pequeno Agricultor, complementado com pesquisa de campo. Portanto, a proposta
desse trabalho apresenta uma caracterização/perfil dos produtores familiares, os
quais representam o grupo social adequado para adotar a transição do modelo de
agricultura convencional/moderna para um sistema de produção agroecológica.
PALAVRAS-CHAVE: Agricultura familiar, agroecologia, sustentabilidade.
INTRODUÇÃO
A agricultura familiar caracteriza-se pela diversidade na organização de sua
estrutura interna, no que se refere à disponibilidade do uso e distribuição dos
recursos – terra, trabalho e capital (GERARDI e SALAMONI,1994). Esse segmento
torna-se foco de estudos, principalmente, no que se refere às estratégias adotadas
para se organizar e reorganizar diante das especificidades do modo de produção
capitalista. Muitos trabalhos continuam a ser produzidos visando aprofundar o
conhecimento acerca da produção familiar na agricultura, especulando sobre o seu
destino, as formas de como este segmento irá se desenvolver no sistema capitalista
de produção contemporâneo, seu processo de adaptação ao sistema de mercado,
seu desenvolvimento paralelo ao sistema capitalista, ou ainda, a possibilidade de
Olhares sobre o processo investigativo
seu desaparecimento por completo com a intensificação das relações capitalistas,
como apontam alguns autores.
Assim, promover um debate sobre as especificidades da agricultura familiar
apresenta-se como função vital, na medida em que este segmento agrega uma
parcela significativa da população rural e é movido por uma lógica que ultrapassa as
imposições do sistema capitalista que condicionam as relações da sociedade em
geral.
Sendo assim, para entender a organização da produção familiar, é necessário
considerar que a diferenciação social entre os produtores familiares é fruto do
desenvolvimento de uma agricultura moderna1 . A partir da incorporação do
progresso tecnológico, origina se uma camada de produtores “modernos” e, outra,
que adotou diferentes estratégias de reprodução social, como o paradigma da
agroecologia. Entretanto, é necessário destacar que mesmo entre aqueles que
aderiram ao processo de modernização da agricultura, persiste um patrimônio
cultural camponês, identificável por meio dos conhecimentos sobre a gestão dos
agroecossistemas e da sociabilidade camponesa.
Diante da problemática gerada pela modernização da agricultura, surge a
concepção teórica da agroecologia, cujo conceito busca sistematizar todos os
esforços em produzir um modelo tecnológico abrangente, que seja socialmente
justo, economicamente viável e ecologicamente sustentável. A rigor, pode-se dizer
que a agroecologia é a base científico-tecnológica para um projeto de
desenvolvimento rural sustentável.
Desta maneira, segundo Neumann (1993), o ponto de partida para o processo
de transição rumo a sustentabilidade na agricultura reside no reconhecimento das
diferentes racionalidades de decisões produtivas presentes na produção familiar, se
é que se pretende oferecer algum aporte eficaz para enfrentar os problemas
existentes na organização interna das unidades produtivas familiares.
Segundo Altieri (1998), as características intrínsecas à produção familiar
podem perfeitamente ser associadas aos princípios básicos da agroecologia. A
importância estrutural do núcleo familiar, que se orienta primordialmente à garantia
da reprodução social, traz consigo pelo menos duas decorrências: uma primeira e
fundamental é a visão sobre a preservação dos recursos naturais em uma
1
Agricultura Moderna ou Agricultura Convencional caracteriza-se pelo uso intensivo do solo, uso de insumos
artificiais, com a prática monocultora, baseia-se na Revolução Verde.
Olhares sobre o processo investigativo
perspectiva, não da próxima colheita, mas da próxima ou próximas gerações. A
segunda decorrência é a versatilidade para manejar os recursos agroecológicos
disponíveis. Do ponto de vista produtivo, a experiência adquirida em condições
muitas vezes limite, confere uma garantia adicional de continuidade de reprodução
econômica aos sistemas produtivos de caráter familiar.
A agroecologia baseia-se nos princípios da sustentabilidade ecológica, social,
econômica, cultural e espacial/geográfica, ou seja, sistematiza os princípios que
norteiam a construção de um modelo tecnológico abrangente, que seja socialmente
justo, economicamente viável e ecologicamente sustentável. Nas palavras de Altieri,
A agroecologia fornece uma estrutura metodológica de trabalho para
a compreensão mais profunda tanto da natureza dos
agroecossistemas como dos princípios segundo os quais eles
funcionam. Trata-se de uma nova abordagem que integra os
princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à
compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os
sistemas agrícolas e a sociedade como um todo. (ALTIERI, 1998, p.
18)
É indispensável, ainda, que seja despertada nos produtores familiares uma
visão holística de sua atividade, na qual as questões o que produzir, como produzir,
para quem produzir atendam as suas necessidades e os interesses da sociedade
em geral, principalmente no que se refere à demanda por alimentos saudáveis e de
boa qualidade (SALAMONI e GERARDI, 2001).
O modelo de agricultura moderna, ou Revolução Verde, causou prejuízos
econômicos, sociais, ambientais e energéticos, atingindo patamares insustentáveis,
como pode ser observado no quadro comparativo sobre as repercussões nos
agroecossistemas. (Ver quadro 1)
Assim,
busca-se
estratégias
viáveis
de
desenvolvimento
territorial,
fundamentadas nas potencialidades naturais e tradições socioculturais de cada
espaço que poderão configurar-se em ações competitivas economicamente e, ao
mesmo tempo, capazes de beneficiar equitativamente todos os segmentos sociais
envolvidos na cadeia produtiva aliado a manutenção da biodiversidade dos
agroecossistemas.
Quadro 1Comparação entre as Tecnologias da
Agroecologia
CARACTERÍSTICAS
REVOLUÇÃO VERDE
Revolução verde e da
AGROECOLOGIA
Olhares sobre o processo investigativo
Técnicas
Trigo, milho, arroz, etc;
Todos os cultivos;
Cultivos afetados
Áreas afetadas
Sistema
de
dominante
Todas
as
áreas,
Na sua maioria, áreas planas e especialmente
marginais
irrigáveis;
(dependentes
da
chuva,
encostas declivosas);
Policultivos
geneticamente
cultivo Monocultivos
geneticamente
heterogêneos;
uniformes;
Insumos
predominantes
Fixação de nitrogênio, controle
Agroquímicos, maquinário; alta biológicos
de
pragas,
dependência
de
insumos corretivos orgâ-nicos, grande
externos e combustível fóssil;
dependência nos recursos
renováveis;
Ambientais
Médios a altos (poluição
Impactos e riscos à química, erosão, salinização,
saúde
resistência a agrotóxicos, etc.);
Nenhum;
Riscos à saúde na aplicação
dos agrotóxicos e nos resíduos
destes no alimento;
Cultivos deslocados
Na
maioria,
variedades Nenhum;
tradicionais e raças locais;
Econômicas
Custos das pesquisas
Relativamente altos;
Relativamente baixos;
Necessidades
financeiras
Baixas; A maioria dos insumos
Altas; Todos os insumos devem
está disponível no local;
ser adquiridos no mercado;
Retorno financeiro
Médio;
Precisa
de
um
Alto; Resultados rápidos.
determinado período para
Alta produtividade da mão-de- obter
resultados
mais
obra;
significativos; Baixa a média
produtividade da mão-de-obra;
Institucionais
Desenvolvimento
tecnológico
Socioculturais
Na maioria, públicas; grande
Setor semipúblico, empresasenvolvimento de ONGs;
privadas;
Cultivo convencional e outras
Capacitações
disciplinas
de
ciências
necessárias à pesquisa agrícolas;
Baixa (na maioria, métodos de
cima para baixo); Utilizados
Participação
para determinar os obstáculos
à adoção das tecnologias;
Integração cultural
Muito baixa;
Ecologia e especializa- ções
multidisciplinares;
Alta; Socialmente ativa- dora,
induz ao envolvi-mento da
comunidade;
Alta;
Uso
extensivo
de
conhecimento tradicional e
formas
locais
de
organização;
Fonte: ALTIERI, 1998, p. 34 e 35.
Olhares sobre o processo investigativo
Assim, o artigo tem como objetivo geral analisar possibilidades e restrições
para o desenvolvimento da agricultura familiar sustentável no município de PelotasRS, além caracterizar os produtores de base agroecológica, de acordo com a
organização interna das unidades produtivas e suas relações externas com o
mercado.
METODOLOGIA
A pesquisa baseou-se na revisão teórica e discussão dos pressupostos
teórico-metodológicos sobre a temática da agricultura familiar e agroecologia. Além
disso, foram coletadas informações e dados sobre os produtores de base
agroecológica junto aos cadastros da EMATER (Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural), CAPA (Centro de Atendimento ao Pequeno Agricultor),
Cooperativa Sul – Ecológica e ARPASUL (Associação Regional de Produtores
Agroecológicos da Região Sul). Entretanto, para fins de sistematização de dados
secundários foram utilizados apenas duas fontes de consulta, a saber: o cadastro
dos associados da Cooperativa Sul – Ecológica e o do Centro de Apoio ao Pequeno
Agricultor – CAPA do município de Pelotas, pois encontravam-se mais completos. O
número total de associados da cooperativa é de 67 (setenta e sete) agricultores2.
O projeto inicial tinha como proposta metodológica o modelo de Lamarche
(1998) para a tipificação dos produtores. Segundo esse autor, é possível identificar
tipologias diferenciadas de exploração agrícola nos produtores familiares, isso de
acordo com o grau de lógica familiar e a relação entre autonomia e dependência da
exploração ao mercado.
Assim, Lamarche (1998) destaca quatro modelos teóricos de funcionamento
dos estabelecimentos que podem ser definidos a partir das lógicas familiares:
-
Modelo empresa, caracterizado por relações de produção minimamente
familiares;
-
Modelo empresa familiar: neste, a principal característica, é a importância dada à
família na unidade produtiva;
-
Modelo agricultura camponesa e de subsistência: Trata-se de estabelecimentos
que produzem pouco, e utilizam técnicas tradicionais;
2
O número de associados é referente ao ano 2007.
Olhares sobre o processo investigativo
-
Modelo agricultura familiar moderna: está constituído pelas unidades que se
posicionam entre as empresas e a agricultura de subsistência.
Porém, no desenvolvimento da pesquisa, percebemos que a metodologia de
Lamarche (1998) não abrangia todo o universo pesquisado, justamente pela
diversidade de combinações da agricultura familiar. Embora, desvelasse através de
seus modelos típicos, a agricultura familiar, ela encobre as características essenciais
ao reconhecimento do produtor enquanto ser único e diferenciado.
Dessa forma, optou-se pela metodologia proposta por Diniz (1984) que
identifica os elementos internos e externos que caracterizam a agricultura. Dar-se-á
ênfase ao subsistema social, que caracteriza o tipo de propriedade, caracterização
do proprietário, a estrutura física da propriedade, valorização da terra e as relações
de trabalho e a luta pela terra. O subsistema funcional analisou como se dá a
utilização das terras, as técnicas agrícolas e os sistemas de rotação de cultivos e a
intensidade da agricultura. E o subsistema de produção baseou-se na análise da
produtividade da terra e do trabalho; da orientação da agricultura e a especialização
agrícola das propriedades agrícolas.
Para reconhecimento da realidade empírica foram realizados trabalhos de
campo a fim de reconhecer a situação em que se encontra a produção de base
agroecológica no município de Pelotas. Foram realizadas entrevistas a partir de
questionários semi-estruturados que dessem conta de abranger os aspectos
previamente estipulados a serem investigados, ou seja, aspectos sociais, técnicos,
ambientais, econômicos e organizacionais relacionados às unidades produtivas
familiares de base agroecológica.
Para o presente trabalho foram realizadas 11 entrevistas entre os 67 sócios
da cooperativa escolhidos aleatoriamente, tendo o cuidado de não entrevistar
agricultores territorialmente próximos, mas, localizados nos vários distritos do
município, também, não foram entrevistados dois ou mais sócios de uma mesma
família.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
No desenvolver da pesquisa, percebemos que a metodologia de Lamarche
(1998) utilizada não abrangia todo o universo pesquisado, justamente pela
diversidade de combinações da agricultura familiar. Embora, desvelasse através de
Olhares sobre o processo investigativo
seus modelos típicos, a agricultura familiar, ela encobre as características essenciais
ao reconhecimento do produtor enquanto ser único e diferenciado.
Nesse sentido, a complementação da aplicação da proposta de Lamarche
(1998) através do reconhecimento da realidade, mediante uma abordagem
qualitativa, amenizou as limitações inerentes à aplicação de modelos, que refletem
uma conjuntura econômico-político-ideológica de uma época.
Sendo assim, o grande problema que se coloca é sua aplicação em um
contexto totalmente desvinculado da realidade, ou seja, os padrões de organização
agrícolas decorrentes. Dessa forma, os princípios, as leis, e especialmente as
teorias e os modelos devem ser encarados apenas como estruturas simplificadoras
da realidade, devendo ser empregados como instrumentos auxiliares de análise.
Ao trabalharmos com o segmento agricultura familiar, devemos levar em
conta sua heterogeneidade, bem como sua dinâmica interna. Para isso há
necessidade de utilizarmos uma metodologia qualitativa e específica, que
evidenciam seu caráter particular. Portanto, a tipificação proposta neste trabalho
deve ser retificada, para uma caracterização, um perfil dos produtores, devido as
multifaces e as especificidades existentes no segmento da agricultura familiar.
Dessa forma, apresentamos aqui uma breve caracterização dos produtores
familiares de base agroecológica do município de Pelotas, de acordo com as
características internas das unidades familiares, baseada na proposta da
organização do sistema da agricultura de Diniz (1984).
Características sociais
O subsistema social procura responder a pergunta: quem é o produtor? Para
tanto, busca analisar aspectos relacionados à propriedade da terra (o tipo de
propriedade, caracterização do proprietário, a estrutura física da propriedade, etc.); a
valorização da terra e as relações de trabalho e a luta pela terra.
A faixa etária do grupo familiar, como mostra a figura abaixo, é bastante
diversificada, em apenas uma família foi encontrada uma pessoa acima de 60 anos
de idade, o grupo mais representativo foi encontrado entre a faixa etária de 50 a 60
anos.
Olhares sobre o processo investigativo
Idade do grupo fam iliar
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
0 a 10
anos
11 a 20 21 a 30
anos
anos
31 a 40
anos
41 a 50
anos
51 a 60
anos
Acim a
de 60
anos
Em relação à área física das propriedades, percebe-se que as mesmas não
possuem uma área física representativa, 7 propriedades apresentam área entre 0 e
10 hectares, sendo que deste total, 5 propriedades possuem área inferior a 5
hectares, e não foi encontrada nenhuma propriedade que ultrapassasse os 40
hectares. Essa característica, no caso específico da produção de base
agroecológica, reveste-se de importância, pois, facilita a transição de uma
agricultura convencional para a de base agroecológica.
Área Física(ha) das unidades familiares de base agroecológica no
município de Pelotas/RS
7
6
5
4
3
2
1
0
0 a 10
11 a 20
21 a 30
31 a 40
Características funcionais ou técnicas
O subsistema funcional responde à questão “como é produzido?”, para tanto
busca analisar como se dá a utilização das terras, as técnicas agrícolas e os
sistemas de rotação de cultivos e a intensidade da agricultura.
A utilização das terras desses produtores está distribuída da seguinte forma,
todos os 11 entrevistados possuem lavouras tanto temporárias como permanentes,
Olhares sobre o processo investigativo
8 produtores possuem tanto pastagens temporárias quanto permanentes e 10
produtores
possuem
matas
nativas
em
suas
propriedades,
encontradas
principalmente na volta dos arroios (mata ciliar), e 4 produtores possuem mata
artificial, caracterizadas, principalmente, pela plantação de eucaliptos.
Utilização das terras nas propriedades
Lavouras permanentes
Lavouras temporárias
Pastagens
permanentes
Pastagens temporárias
Mata nativa
Mata Artificial
0
2
4
6
8
10
12
Para o trabalho nas lavouras, as atividades são desenvolvidas de forma
manual, percebe-se que os agricultores não possuem maquinário agrícola em
número significativo. Apenas 3 produtores possuem trator, 9 possuem pulverizador e
arado, 10 possuem grade e apenas 4 produtores possuem moto-serra. Estes
equipamentos como o arado e a grade são de tração animal. Ainda, quando
perguntados sobre algum outro equipamento importante utilizado na produção, os
agricultores não acrescentavam mais nenhum outro à lista, o que caracteriza a
utilização de equipamentos ainda tradicionais na produção. Fator este que justifica a
escolha pela produção de base agroecológica em detrimento da convencional.
Tipo e número total de equipamentos agrícolas utilizados
10
8
6
4
2
0
Trator
Pulverizador
Arado
Grade
Olhares sobre o processo investigativo
Motoserra
Para orientar as práticas utilizadas no cultivo dos produtos, todos os
produtores entrevistados recebem assistência técnica de agrônomos e técnicos
agrícolas do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor/CAPA que trabalha juntamente
com a Cooperativa Sul-Ecológica na promoção da produção de base agroecológica,
3 produtores, também, recebem assistência técnica de órgãos públicos como a
Empresa de Assistência técnica de órgãos públicos como a Empresa de Assistência
Técnica e Extensão Rural/EMATER e da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária/EMBRAPA.
O uso da assistência técnica é realizado 1 vez a cada dois meses por 5
agricultores, 1 vez por mês por 3 agricultores, 1 vez a cada três meses por 1
agricultor, e apenas 1 agricultor respondeu que utiliza a assistência técnica 1 vez ao
ano. Cabe ressaltar, que além da assistência técnica na propriedade, a Cooperativa
Sul – Ecológica realiza palestras e reuniões na sede das comunidades ou na casa
de algum produtor onde se reúnem para discutir meios de comercialização e outros
aspectos técnicos relacionados à produção.
Neste sentido, quando perguntados em quantos cursos, palestras ou
atividades técnicas os agricultores participaram no ano de 2006, 8 agricultores
responderam que participaram de duas a cinco destas atividades e 3 responderam
que participaram em mais de 5 cursos, palestras ou atualizações técnicas.
Os agricultores também utilizam crédito rural, 7 produtores utilizam o
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar/PRONAF, 1 produtor
utiliza linha de crédito do governo estadual, e 4 produtores não utilizam
financiamentos para a produção. O que merece destaque é que nenhum produtor
respondeu que utiliza o Pronaf Agroecologia, que é uma linha de crédito destinado
especificamente para a produção de base agroecológica ou para a conversão da
produção convencional em agroecológica.
Características produtivas
De acordo com Diniz (1984): “O último subsistema de elementos internos da
agricultura é o de produção, que responde a três tipos de questões: quanto é
produzido?, o que é produzido?, para quem é produzido?”. Essas respostas são
buscadas por meio da análise da produtividade da terra e do trabalho, da orientação
da agricultura e a especialização agrícola das propriedades.
Olhares sobre o processo investigativo
No que concerne ao número de anos trabalhados com as atividades de base
agroecológica todos os produtores entrevistados trabalham há 3 anos ou mais com
estas atividades, 1 agricultor desenvolve atividades há 3 anos, 4 produtores
trabalham há 4 anos, 5 produtores trabalham há 3 anos, 1 produtor trabalha com a
produção de base agroecológica há 6 anos e 2 já a realizam há mais de dez anos.
Os produtos cultivados pelos agricultores restringem-se a fruticultura e a
olericultura, apenas uma agricultora trabalha somente com fruticultura, os demais
agricultores entrevistados cultivam tanto olerícolas (cenoura, beterraba, repolho,
couve-flor, etc.) quanto frutas. Entretanto, essas frutíferas são menos importantes na
venda da produção, sendo eventualmente comercializadas quando da sua
disponibilidade na unidade produtiva. Assim, 9 produtores cultivam somente
olericulturas.
Produtos cultivados e número de propriedades que cultivam
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
Cebola
Fumo
Milho
Batata
Feijão
Morango
Olerícolas
Tipo de criação presente nas unidades de base agroecológica do
município de Pelotas/RS
12
10
8
6
4
2
0
Bovino
Equino
Aves
Suínos
Olhares sobre o processo investigativo
Ovinos
A produção de base agroecológica adquire importância também econômica
para as famílias do município de Pelotas, quando os agricultores foram perguntados
sobre qual recurso representava ou representavam as principais fontes de receita da
propriedade, as olericulturas representaram 33% das respostas, a fruticultura
representa 24% das respostas, seguida pela aposentadoria e pelo leite que
representam cada um 19% das respostas, 5% dos entrevistados ainda possuem
outra fonte de renda.
A produção de base agroecológica é destinada em sua maioria para o
Programa de Aquisição de Alimentos do governo federal, sendo que 11 produtores
destinam para este programa sua produção. É importante destacar que os
agricultores possuem mais de um local para comercialização e dependendo da
quantidade de produção podem possuir dois, ou três locais de comercialização a fim
de dar conta da demanda produtiva, são eles o comércio atacado, a feira livre,
pontos de vendas na cooperativa, e ao Programa de Aquisição de Alimentos/PAA,
que de acordo com o Ministério de Desenvolvimento social e Combate à fome,
O Programa de Aquisição de Alimentos é uma das ações do Fome
Zero, cujo objetivo é garantir o acesso aos alimentos em quantidade,
qualidade e regularidade necessárias às populações em situação de
insegurança alimentar e nutricional e promover a inclusão social no
campo por meio do fortalecimento da agricultura familiar. (Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2009)
Destino da produção de base agroecológica dos agricultores do município de
Pelotas/RS
10
8
6
4
2
0
Comércio
atacado
Feira livre
Ponto de
Programa de
venda na
aquisição de
cooperativa alimentos/PAA
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Olhares sobre o processo investigativo
O debate em torno do tema agroecologia tem se ampliado consideravelmente
no meio acadêmico, nos últimos anos, uma vez que a agroecologia como paradigma
evoca muito mais que uma agricultura orgânica, pois, tem como objetivo final a
construção de um novo conceito de desenvolvimento rural. Por isso, torna-se
importante salientar e destacar a dimensão que se busca empregar ao conceito de
agroecologia, embora estando ainda em construção uma definição específica e
conceitual, muito já se produziu quanto a sua aplicabilidade relacionado a métodos
sustentáveis de produção.
O que se pretende é sistematizar assim, uma gestão sustentável do espaço
rural, por meio do uso racional dos recursos disponíveis, desde a plantação (acesso
às sementes), passando pela produção até os posteriores meios de comercialização
e o mercado consumidor.
As propriedades rurais analisadas caracterizam-se por possuírem e
explorarem fatores de produção de maneira diferenciada. Essa heterogeneidade
existente no meio rural constitui-se em um entrave para a realização de estudos
sobre a agricultura quando o objetivo é conhecer a realidade na sua totalidade e nas
especificidades de cada grupo ou indivíduo. Desse modo, a tipificação desses
produtores de base agroecológica a partir da proposta de Lamarche torna-se
bastante complexa diante desta diversidade, ficando claro o porquê de se criar então
uma caracterização dos produtores de base agroecológica do município de PelotasRS a partir dos subsistemas da agricultura propostos por Diniz.
Considera-se que a produção de base agroecológica tem aumentado com o
passar do tempo no município de Pelotas, para tanto, destaca-se a importância da
Cooperativa Sul-Ecológica e do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor – CAPA
para a sistematização da produção e da comercialização dos produtos. Surgida
devido à necessidade de uma organização dos produtores a Sul-Ecológica iniciou
seus trabalhos voltados diretamente para o estímulo da produção orgânica e a
agroecologia no município.
Quanto à diversidade da produção, percebe-se que ainda está restrita aos
hortigranjeiros que necessitam de menos mão-de-obra para o seu cultivo, visto que
as famílias em sua maioria não apresentam um significativo número de pessoas
disponíveis para realizar as atividades agrícolas.
Também, as dificuldades em relação a agroecologia se mostram evidentes,
pois amparada nos pilares da sustentabilidade a agroecologia prevê uma maior
Olhares sobre o processo investigativo
amplitude dos benefícios gerados pela agricultura e os setores que a ela se
vinculam, como mercado consumidor, origem dos insumos, disponibilidade/acesso
de créditos agrícolas entre outros aspectos. Pelo analisado, percebe-se que o caso
em tela ainda está mais próximo de uma agricultura orgânica (de caráter mais
técnico) do que de propriamente da agroecologia que expande os benefícios da
agricultura para além do campo e do sistema produtivo.
Entretanto, os produtores familiares estão empenhados em adaptar seus
sistemas agrícolas aproximando-os aos princípios da agroecologia, visto que, o
simples fato de adotar cultivos orgânicos remete a uma contraposição ao sistema
convencional e a uma busca por novos padrões ecológicos e econômicos, fatores
que ficaram evidentes quando da realização da pesquisa de campo. Cabe assim, ao
poder público garantir maiores incentivos a estes agricultores e popularizar as linhas
de crédito para que facilite o acesso dos agricultores às mesmas, criando condições
para que a agroecologia seja percebida como uma necessidade e uma possibilidade
concreta diante do alto potencial existente para seu desenvolvimento.
Assim, o segmento da agricultura familiar, por possuir características que lhe
são próprias, constituiu-se em um grupo diferenciado na sociedade. A propriedade e
o trabalho estão ligados à família, determinando seu caráter particular. Além disso,
há a coexistência de unidades produtivas com diferentes dinâmicas internas,
dificultando uma compreensão geral sobre o funcionamento destas.
Dessa forma, há uma exigência de um tratamento diferenciado a
estabelecimentos que possuem diferentes organizações econômicas, e interesses
específicos.
Essa
pluralidade
existente
requer
também
políticas
públicas
diferenciadas, não genéricas/homogêneas a todos os tipos de estabelecimentos,
mas de acordo com sua realidade, levando em conta suas especificidades. Portanto,
as formas de acesso ao crédito e financiamentos aos produtores rurais, aliado a
orientação técnico-científica pode permitir que este possa realizar a conversão dos
sistemas de produção.
Ainda, a consolidação da agroecologia está relacionada aos processos
participativos e democráticos que incluam os produtores rurais nos processos
decisórios e de gestão nas atividades desempenhadas por eles, assim como, as
redes de organização social e de representações dos diversos segmentos da
população rural, isto é, métodos e estratégias capazes de assegurar o resgate da
auto-estima e o pleno exercício da cidadania, transformando os agricultores em
Olhares sobre o processo investigativo
sujeitos ativos nos rumos do processo de mudança no desenvolvimento local e
regional, criando, assim, condições para que a agroecologia seja percebida como
uma necessidade e uma possibilidade concreta diante do expressivo potencial
existente percebido pelos resultados do trabalho apresentado.
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Olhares sobre o processo investigativo
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CARACTERIZAÇÃO DOS AGRICULTORES FAMILIARES