O Projecto Curricular de Turma: orientar a diferenciação pedagógica Pascal Paulus Texto de trabalho para o projecto: “Melhorar as aprendizagens educar para a cidadania” Com Materiais da turma Pascal Paulus. Texto –base para um caderno organizado com Piedade Fernandes, Isabel Bento e Miguel Figueiredo 3 O projecto curricular de turma: Um instrumento estratégico para a diferenciação pedagógica. O Projecto Curricular de Turma é uma peça muito importante na organização da vida e do trabalho de um grupo de alunos, constituídos em turma, com o seu ou os seus professores. “Tendo em conta a existência de vários tempos a gerir, o tempo do professor e do aluno, considerei que não deveria centralizar a aprendizagem dos alunos exclusivamente, no treino individual dos conteúdos em que tinham dificuldades, durante o estudo autónomo. Deveria também dinamizar pequenas sequências de aprendizagem e o trabalho de projecto que lhes permitissem contactar/desenvolver outras técnicas de trabalho/competências, tais como: planificar, seleccionar e topicalizar informação, entre outras. Estas sequências ou projectos permitiram minimizar as dificuldades/problemas dos alunos, em tempo real.” Revemos primeiro o contexto legal desse instrumento. De seguida, procuramos evidenciar o carácter estratégico do projecto curricular de turma. Num terceiro momento, exemplificamos projectos curriculares de turma, portadores de estratégias de diferenciação pedagógica e a sua operacionalização. Decorrem do trabalho desenvolvido com equipas em escolas situadas em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. O enquadramento legal do Projecto Curricular de Turma 3 4 O projecto curricular de turma surge, na legislação recente, acoplado ao projecto curricular de escola, como o podemos constatar na introdução ao Decreto-Lei 6/2001: “No quadro do desenvolvimento da autonomia das escolas estabelece-se que as estratégias de desenvolvimento do currículo nacional, visando adequá-lo ao contexto de cada escola, deverão ser objecto de um projecto curricular de escola, concebido, aprovado e avaliado pelos respectivos órgãos de administração e gestão, o qual deverá ser desenvolvido, em função do contexto de cada turma, num projecto curricular de turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma ou pelo conselho de turma, consoante os ciclos. O diploma define os princípios orientadores a que deve obedecer a organização e gestão do currículo, nomeadamente a coerência e sequencialidade entre os três ciclos do ensino básico e a articulação destes com o ensino secundário, a integração do currículo e da avaliação, assegurando que esta constitua o elemento regulador do ensino e da aprendizagem e a existência de áreas curriculares disciplinares e não disciplinares, visando a realização de aprendizagens significativas e a formação integral dos alunos, através da articulação e da contextualização dos saberes, e estabelece os parâmetros a que deve obedecer a organização do ano escolar.” O artigo 2º do mesmo decreto remete para enquadramento do currículo da escola e dos currículos das turmas. “Para efeitos do disposto no presente diploma, entende-se por currículo nacional o conjunto de aprendizagens e competências a desenvolver pelos alunos ao longo do ensino básico, de acordo com 4 5 os objectivos consagrados na Lei de Bases do Sistema Educativo para este nível de ensino, expresso em orientações aprovadas pelo Ministro da Educação, tomando por referência os desenhos curriculares anexos ao presente decreto-lei.” Os documentos enquadradores são neste momento dois: o Curriculo Nacional do Ensino Básico (competências essenciais) e outro, intitulado “Organização Curricular e Programas”, em três volumes, um para cada ciclo, eventualmente acompanhados por documentos complementares. Os desenhos curriculares referidos tiveram uma alteração com o Decreto-Lei 209/2002 que especifica educação moral e religiosa como uma hora curricular adicional e optativa. Especificamente para o 1º ciclo, foi publicado um despacho em 2006 que orienta o bloco de 25 horas lectivos semanais, que não estavam discriminadas em cargas horárias por disciplina, na redacção de 2001. Define: “Os tempos mínimos para a leccionação do programa do 1.º ciclo são: Língua Portuguesa—oito horas lectivas de trabalho semanal, incluindo uma hora diária para a leitura; Matemática—sete horas lectivas de trabalho semanal; Estudo do Meio—cinco horas lectivas de trabalho semanal, metade das quais em ensino experimental das Ciências; Área das expressões e restantes áreas curriculares—cinco horas lectivas de trabalho semanal.” (Despacho n.º 19 575/2006) 5 6 “Os momentos de trabalho autónomo na sala surgiram como uma estratégia que me permitiu, não só respeitar os diferentes ritmos de trabalho de cada aluno, mas também promover o respeito e o espírito de entreajuda entre os elementos da turma, através do trabalho em grupo ou de pares.” Diferente do 2º e 3º ciclo, não se trata de uma organização por tempos lectivos que obedecem a um horário fixo. Continua a tratar-se de trabalho de mono-docência, ainda que, eventualmente coadjuvado, permitindo a gestão integrada dessas mesmas horas no trabalho semanal, em que as áreas curriculares não disciplinares são, como o foram, para todos os ciclos, e desde a sua definição, transversais e agregadas aos conteúdos disciplinares. O mesmo despacho que define, para o 1º ciclo, os tempos para cada disciplina lembra: 2 — A distribuição destes tempos lectivos deve ser equilibrada ao longo da semana. 3 — O professor titular de turma deve elaborar um sumário diário das actividades desenvolvidas Permite assim, na gestão do tempo, uma flexibilidade muito maior do que no 2º e 3º ciclos, em que os horários das turmas têm que cruzar com os horários dos professores das várias disciplinas, desde que exista um registo escrito em sumário diário que comprove a distribuição semanal das horas lectivas atribuídas a cada disciplina. Voltando ao Decreto Lei 6/2001, lemos no artigo 2º: 6 7 “3. As estratégias de desenvolvimento do currículo nacional, visando adequá-lo ao contexto de cada escola, são objecto de um projecto curricular de escola, concebido, aprovado e avaliado pelos respectivos órgãos de administração e gestão. 4. As estratégias de concretização e desenvolvimento do currículo nacional e do projecto curricular de escola, visando adequá-los ao contexto de cada turma, são objecto de um projecto curricular de turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma, em articulação com o conselho de docentes, ou pelo conselho de turma, consoante os ciclos.” Resumidamente, o legislador propõe o desenvolvimento do currículo nacional, no contexto local, priorizando opções, num projecto curricular de escola, por sua vez concretizado em cada um dos projectos curriculares das turmas da escola, interpretando o currículo nacional. O projecto curricular de turma, elaborado em função da turma, é apresentado como um documento que define o que se pretende de cada um dos alunos aí inscritos. Inclui os critérios de avaliação que determinam a progressão dos concernidos alunos. Ao mesmo tempo terá que ser adaptado, cada vez que se constate que existem aprendizagens não realizadas, por parte de um ou vários alunos: “2. Em situações de não realização das aprendizagens definidas no projecto curricular de turma para um ano não terminal de ciclo que, fundamentadamente, comprometam o desenvolvimento das competências definidas para um ciclo de escolaridade, o professor titular de turma, no 1.º ciclo, ouvidos os competentes conselhos de docentes, ou o conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, poderá determinar a retenção do aluno no mesmo ano de escolaridade, excepto no caso do 1.º ano de escolaridade. 7 8 3. Em situações de retenção, compete ao professor titular de turma, no 1.º ciclo, e ao conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, identificar as aprendizagens não realizadas pelo aluno, as quais devem ser tomadas em consideração na elaboração do projecto curricular da turma em que o referido aluno venha a ser integrado no ano escolar subsequente.” DL 6/2001 (artigo 14º) “A partilha de responsabilidades foi um dos maiores sucessos que se pôde transportar para a sala de aula, pois houve um maior envolvimento por parte dos alunos. A minha posição física na sala de aula também se alterou, pois fiquei mais liberta para ajudar os alunos com mais dificuldades e para tirar dúvidas. O aluno seguia o seu próprio ritmo atendendo às suas características. No modelo tradicional, sempre me incomodou o facto de os alunos com maior capacidade de aprendizagem não avançarem no seu processo, pois estavam muito agarrados à aula da professora. Por fim, vejo-os a seguir o seu caminho, libertos do facto de terem de manter o passo ao ritmo dos outros colegas. Por outro lado vejo os alunos com mais dificuldades a sentirem-se vitoriosos, pois não se sentem perdidos, não falharam degraus na espiral do seu processo cognitivo. (…) Um documento operacional Da leitura dos diplomas legais, identifica-se o Projecto Curricular de Turma como um instrumento de pilotagem elaborado pelo(s) professor(es) da turma. Está implícita a proposta de escuta dos próprios alunos. O Projecto Curricular explicita as adaptações consideradas necessárias para garantir o sucesso de todos, na turma em questão. A diferenciação pedagógica, no âmbito das diferenças entre turmas e entre elementos do grupo-turma fica registada. 8 9 Equívocos frequentes A análise de dezenas de Projectos Curriculares de Turma ao longo de vários anos, mostra dois equívocos recorrentes. Primeiro, constatamos regularmente que se confunde o Projecto Curricular de Turma com o próprio currículo. Nestas situações, aparecem listagens de competências transversais, em anexo ou no corpo do documento, acompanhadas de listagens de conteúdos programáticos, que acabam por ser as mesmas inscritas no projecto curricular da escola ou ipso verbis retiradas do próprio currículo nacional. Tratandose eventualmente de uma escolha, mantém-se um registo muito genérico de intenções de trabalho, sem definição de estratégias, não havendo, em alguns casos, ligação com uma caracterização também ela genérica e estandardizada da turma, ou, ainda mais vago, do contexto em que a escola se insere. Projecto Curricular de Escola e Projecto Curricular de Turma confundem-se. O outro prende-se com a planificação. Neste caso o Projecto Curricular torna-se um dossiê volumoso de que fazem parte integrante planificações a médio prazo – e nalguns casos a curto prazo – apresentados como não negociáveis, o que retira a flexibilidade necessária ao processo de ensino-aprendizagem. Documento estratégico O Projecto Curricular de Turma não é uma planificação pormenorizada, nem um repositório dos programas nacionais. Trata-se de um pequeno documento estratégico que esclarece todos os intervenientes na turma como é que o trabalho será conduzido. 9 10 Na estrita interpretação da lei, o Projecto Curricular da Escola prioriza e contextualiza as competências essenciais a desenvolver e a subjacente organização do trabalho curricular, em função das circunstâncias locais e o meio na qual a escola se insere. Visita ao bairro – 2º ano escolaridade Cada Projecto Curricular de Turma operacionaliza esta interpretação para cada uma das turmas especificamente, readaptando as orientações curriculares, integrando as propostas estratégicas do Projecto de Escola, definindo opções e critérios específicos para a turma a qual se reporta. Apesar de no início ter havido alguma angústia em interiorizar toda esta lógica, (…), agora consigo ver com clareza os progressos. A aprendizagem não é um tudo ou nada. No entanto foi difícil abdicar de um ensino baseado em conteúdos para um ensino baseado em competências, sem se ter a certeza do resultado. Agora, passado um ano lectivo, sinto os alunos mais capacitados de resolver uma situação, pois sinto que são mais autónomos na realização das actividades, a pesquisar, seleccionar e analisar informação, Têm mais facilidade na comunicação oral, têm mais espírito crítico quer em relação ao seu trabalho, quer em relação ao trabalho dos colegas e desenvolveram o espírito de entreajuda.” 10 11 Visita ao pavilhão do conhecimento – relato em desenho (1º ano de escolaridade) “O trabalho em projecto deu-me a oportunidade de observar alguns alunos perante uma situação de aprendizagem diferente. Constatei que alguns alunos, que normalmente apresentavam mais dificuldades, se esforçaram e demonstraram verdadeiro interesse na actividade. No teste de avaliação, esses alunos que normalmente tinham resultados negativos, conseguiram superar as notas dos outros. Eu fiquei surpreendida, mas notei que a apetência para a disciplina, por parte desses alunos, se tornou mais positiva, estando eles mais preparados para tarefas mais difíceis.” Uma vez definidas as grandes opções e os critérios, o Projecto Curricular de Turma conduz à planificação a curto prazo. A execução e a avaliação dos resultados decorrentes desta execução, determinarão as futuras adaptações ao próprio Projecto. As grandes opções inscritas no Projecto Curricular de Turma viabilizam a planificação, desde que o plano anual de actividades da escola ou do agrupamento inscreva as propostas dos vários projectos curriculares de turma. A articulação com os parceiros da escola ou do agrupamento surge idealmente a partir das propostas e das opções curriculares do conjunto de turmas. 11 12 Anúncio projecto TV – Do projecto de turma de dois 5º anos. A consequente utilização do Projecto Curricular de Turma como instrumento estratégico est obriga a uma interpretação flexível dos critérios de avaliação e dos perfis de alunos ao fim de cada ciclo. Existindo estes critérios e estes perfis, fica o desafio para a escola conceber instrumentos de avaliação que permitam aferir o desenvolvim desenvolvimento ento de competências e a aquisição de saberes, no momento oportuno, necessariamente, diferentes de turma para turma, porque dependentes da condução do seu Projecto Curricular. Uma matriz entre outras. 12 13 Propõe-se um documento estratégico, nem demasiado extenso, nem excessivamente fechado. Um documento que circule facilmente, perceptível para todas as partes envolvidas (alunos, pais e mães dos alunos, professores intervenientes na turma em primeiro lugar) que conduza a acção pedagógica. Visita de trabalho ao bairro (2º ano) Idealmente, • define quem são as pessoas participantes na turma (alunos e professores) e o que têm ao seu dispor, individualmente e colectivamente; • projecta o que se pretende fazer para cumprir a proposta exterior (currículo e projecto curricular da escola), como se pretende fazer o que se propõe e como o que se fez será avaliado durante o processo de execução e no fim. Do projecto curricular de turma dum 5º ano: 13 14 Para conceptualizar o Projecto Curricular de Turma, bastará, portanto, uma matriz aberta, descritiva, que contempla 4 campos: • (1) Uma caracterização ou um diagnóstico da situação de partida, que poderá incluir aspectos como o contexto cultural da turma, percursos anteriores dos alunos, eventuais rotinas existentes de funcionamento como grupo turma, dificuldades curriculares em relação à expectativas, potencialidades por turma, interesses, parte de alunos e professores, etc.; • (2) A proposta de operacionalização transversal das competências gerais a desenvolver prioritariamente; • de (3) A inscrição genérica e metodológica de situações aprendizagem/actividades a promover para operacionalização específica das competências prioritárias em cada uma das áreas curriculares disciplinares, situando a relação agregadora das áreas curriculares não disciplinares; • (4) Formas e instrumentos de avaliação a utilizar nas diversas áreas curriculares para avaliar o desenvolvimento das competências prioritárias. Acompanhar a diversificação pedagógica 14 15 Uma matriz, do tipo atrás descrito, permite total liberdade metodológica ao professor ou ao grupo de professores. “As sessões iniciavam-se com o relato do que se tinha feito durante a quinzena para depois se poder reflectir e definir novas estratégias de actuação, se necessário. Assim, sentimos a necessidade de fazer um resumo do que achávamos ser importante apresentar nessas sessões. Foi assim que surgiu a ideia de construir um “Diário de Bordo” para a nova viagem que havíamos iniciado (apresentação em Power Point). Nele fomos colocando, ao longo do ano lectivo, as reflexões sobre o trabalho efectuado (quer dos alunos quer dos professores), as actividades mais significativas, os assuntos tratados em Formação Cívica e as Comunicações dos alunos à turma, bem como todas as questões, apreensões e o caminho trilhado para chegar a “bom porto”. Estes resumos foram bastante úteis para, nas sessões de formação, procedermos à reflexão das práticas desenvolvidas e dos instrumentos de trabalho que, em Conselho de Turma, se iam produzindo, (…)” Nas escolas TEIP de onde extraímos o que aqui é apresentado, projectou-se um trabalho muito centrado sobre o reforço do trabalho autónomo dos alunos e sobre o trabalho em projecto. Este trabalho foi sempre acompanhado pelos respectivos projectos educativos de turma. Nos exemplos que seguem, relaciona-se o projecto, a planificação que daí decorre e a avaliação, contextualizados com ilustrações da prática. 15 16 Em mono-docência ou monodocência coadjuvada O projecto curricular de turma. No âmbito do projecto, foi proposta uma matriz de trabalho que está a ser implementada por um grupo de professores em formação, no agrupamento de Vialonga. O DVD que acompanha o presente material apresenta uma primeira abordagem feito por uma das professoras titular de turma, a título de exemplo da base de trabalho. Incluímos aqui um projecto curricular de turma, desenvolvido por um dos formadores, documentado na página electrónica da respectiva turma1. 1. Elementos da caracterização Interesses recolhidos ao longo da semana de avaliação do ano escolar anterior, com os alunos, que decorreu nos dias 18, 20 e 21 de Junho de 2007: Interesses colectivos: Manter o trabalho organizado por planos individuais de trabalho, manter o Conselho, continuar a fazer projectos e procurar fazer um novo acantonamento. Considerou-se mais importante o computador na sala e considerou-se que era importante consultar mais vezes a Internet, porque a biblioteca não dispõe de informação acerca de alguns assuntos estudados. Todos referem o canto de leitura e de pintura como muito importante. O momento de “Ler e Contar”, associado a leitura dos textos escritos livremente, foi considerado muito importante e para continuar. Interesses individuais: continuar projectos ligados à ciência, continuar a fazer trabalho de ficheiro. Potencialidades: a capacidade que as crianças ganharam para organizarem-se em pequenos grupos de trabalho e estudar um assunto escolhido será utilizada para gerir o trabalho em projectos e para reforçar o trabalho a pares nos momentos de estudo acompanhado definido no desenho curricular 1 Ver http://freewebtown.com/pascalcorner 16 17 como área curricular não disciplinar e por isso gerido de forma transversal nos tempos de língua portuguesa, matemática e estudo do meio. O diagnóstico para o arranque do ano lectivo foi feito a partir da leitura do quadro de cintos de cor como ele se apresenta no fim do 1º ano de escolaridade (ver anexo) As planificações semanais, a partir daí propostas aos alunos, articulam este diagnóstico com a planificação em médio prazo, adoptada pelo agrupamento para o 2º ano de escolaridade. Nestas planificações semanais estão contemplados os interesses colectivos manifestados durante o momento de balanço no fim do 1º ano de escolaridade. 2. Operacionalização transversal das competências gerais a desenvolver prioritariamente: 2.1 Disposições gerais A organização da sala, à frente descrita, permite o trabalho integrador que se pretende para as aprendizagens no 1º ciclo do ensino básico. Os espaços criados e a disposição dos instrumentos didácticos facilitam a gestão diversificada do currículo, permitindo às crianças e em determinados momentos, uma certa autonomia na realização das tarefas. Um dos espaços criados na sala de aula dispõe de material e protocolos que permitem a realização obrigatória de actividades experimentais integradas nos conteúdos previstos no programa do 1º ciclo, seja com toda a turma, seja pelas crianças autonomamente, logo que ganhem capacidade de leitura de esquemas e / ou textos. Este espaço foi pouco utilizado no ano passado, mas será muito focado no início do 2º ano de escolaridade entre os alunos já autónomos na leitura. As actividades de pesquisa que obrigam à utilização de tecnologias da informação e comunicação em suporte informática continuam dificultadas pela disposição física dos computadores em sala TIC. Esta falha está parcialmente colmatada pelo material existente na sala, propriedade do professor. Aguardamos a ligação a Internet, uma vez a cablagem nova da escola terminada 2.2. Educação para a cidadania Continuamos a privilegiar interacções directas com a comunidade local, nacional ou internacional, indo assim ao encontro do tema geral do Projecto Educativo do agrupamento “Nós e os Outros”. Sempre que possível recorre-se a outros intervenientes para a recolha de informação nos temas 17 18 pesquisados – entre outros a associação “La main à la pâte”, “ciência viva”, os comerciantes e habitantes do bairro, além de algumas instituições referidas no plano de actividades da Escola – e aposta-se na retribuição do trabalho feito, por meio de comunicações (aos colegas, pais e encarregados de educação), de produção de álbuns e materiais para pequenas exposições. A gestão do trabalho, do espaço, do tempo e do material, feita pelo grupo continua assegurada pela implementação do Conselho de Turma – em que todos participam – que analisa os acontecimentos da semana e propõe colegialmente alterações às rotinas ou às “leis” da turma, quando tal se justifica. É o Conselho que instala e gere o sistema de responsabilidades rotativas e fixas. Todos os alunos têm semanalmente responsabilidades e tarefas a cumprir, importantes para garantir o normal funcionamento do grupo. Na continuação deste princípio, foi decidido criar a figura de “responsável do dia”, uma equipa de dois alunos que rotativamente e diariamente conduzem o grupo nos momentos de trabalho colectivo e na resolução de problemas pontuais, conforme as regras estabelecidas. 2.3 Organização do espaço A sala foi dividida em 5 espaços: Biblioteca - espaço de leitura, onde 3 a 4 alunos podem trabalhar em simultâneo. Informática, com espaço para 3 alunos trabalhar em conjunto em material disponibilizado pelo professor Espaço de experiências, onde 2 alunos podem trabalhar em simultâneo. Área de pintura, construções e desenho, com espaço para 2 alunos em simultâneo. Espaço central, com espaço para 19 alunos trabalhar em simultâneo. As paredes foram divididas em áreas lógicas de apresentação de informação: Parede de organização: mapas e registos gerais Parede de informação para a avaliação Parede correspondência e língua: informação de suporte a Língua Portuguesa, incluindo listas organizadas de palavras, textos trabalhados e informação ortográfica e funcionamento da língua. Parede matemática: material e informação de suporte à matemática e ficheiros, incluindo a “casa 18 19 dos números”, a tabuada e outras tabelas facilitadoras da compreensão. Parede de informação sobre as investigações/experiências em curso. 3. Situações de aprendizagem/actividades a promover para operacionalização específica das competências prioritárias na perspectiva de cada área curricular disciplinar e área curricular não disciplinar: A educação para a cidadania, transversal a todo o currículo, como definido no anexo 1 do decretolei 209/2002 é abordada como referido no ponto 2.2. do presente projecto curricular de turma. 3.1 Previsão de trabalhos a desenvolver no âmbito das áreas curriculares não disciplinares Estudo acompanhado Em cumprimento do despacho de 9 de Setembro de 2006 que define orientações para a gestão curricular do 1º ciclo, o estudo acompanhado limita-se ateliers temáticos de trabalho diversificado, quer no âmbito da Língua Portuguesa, quer de Matemática ou de Estudo do Meio, a partir de propostas feitas pelo professor. O trabalho é gerido pelo plano individual de trabalho, e estimulase o trabalho a pares, com o professor ou com colegas. O plano é discutido em conjunto para que cada um possa aprender a gerir o trabalho reservado à consolidação de conhecimentos, através de fichas de trabalho (ver infra – ponto 3.2). Área de Projecto O trabalho em projecto incluindo investigações realizadas pelos alunos a partir de perguntas e interesses formulados por cada um (entre as quais as inscritas no ponto 1, com as respectivas actualizações) e de actividades inscritas no plano anual de actividades da escola e compatíveis com o presente projecto curricular, abrange parte das áreas curriculares disciplinares de forma integrada. É privilegiado nos momentos de ida à Biblioteca da escola e é fonte de actividades de problematização na matemática e da escrita funcional em Língua Portuguesa. Alguns momentos de Estudo do Meio serão reservados para comunicações à turma de conclusões de projectos realizados em pequenos grupos. Formação Cívica Além dos aspectos referidos no ponto 2.2 (educação para a cidadania), os conteúdos específicos de 19 20 Formação Cívica inscritos na planificação anual do Agrupamento serão abordados transversalmente. Terão desenvolvimento nas áreas curriculares de Língua Portuguesa e de Estudo do Meio, quando necessário. 3.2 Conteúdos e competências das áreas curriculares disciplinares obrigatórias. Língua Portuguesa Geral: Suporte a toda a escrita para desenvolver o ponto 3.1. Especificidade: Escrita de histórias: uma rotina começada no ano transacto que apela à escrita no caderno pessoal ou em folhos em formato livrinho A6, com a respectiva ilustração, apresentação ao grupo e edição electrónica (Jornal Interactivo da Turma). Escrita de texto livre: uma rotina que envolve ler pequenos textos, inscritos no caderno pessoal, no momento de “Ler e Mostrar” Alguns textos são eleitos para trabalhar em conjunto e encaminhados para o jornal da turma e/ou livro de textos da sala. Ficheiro de língua: rotina de trabalho autónomo orientado pelo professor o plano individual de trabalho. Ficheiro de leitura e biblioteca: rotina de leitura, implicando uma apreciação crítica, por via de uma ficha de leitura, teatralização, desenho, reconto,.... Fichas de trabalho do manual “Amiguinhos” adaptado pela escola e de uso obrigatório.. Hora colectiva de leitura, seguida de discussão, debate ou reconto. Matemática Geral: Suporte a toda a investigação e a todo o trabalho referido no ponto 3.1. Especificidade: 20 21 Análise de problemas: uma rotina que implica a problematização de situações directamente decorrente da praxis da turma (registo do tempo, calendário, presenças, … ou que surgem a partir da leitura de extractos de imprensa, de perguntas formuladas no Contar e Mostrar ou a avaliação e discussão de outro trabalho. Ficheiro de treino de matemática: rotina de trabalho colectiva e individual, decorrente do plano semanal e individual de trabalho. Trata-se de trabalho de consolidação. Exercícios de trabalho no manual “Amiguinhos”, adaptado pela Escola e de uso obrigatório. Recursos privilegiados: 11 geoplanos, tangram, alguns jogos de matemática e material Cuisenaire, propriedade do professor, completado por material não estruturado trazido pelos alunos. Estudo do Meio Geral: Suporte a toda a investigação e a todo o trabalho referido no ponto 3.1. Especificidade: Desenvolvimento de temas previstos na planificação a médio prazo do Agrupamento e não abordados através da área de projecto, incluindo actividades colectivas inscritas no plano anual de actividades da Escola. Inclui um acantonamento no mês de Abril, na zona costeira, em conjunto com outras turmas do agrupamento. Consulta da informação eventualmente contida no manual “Estudo do Meio do João” adoptado pela Escola e de uso obrigatório. Articulação gradual com a linha de tempo e localização geográfica de eventos, sítios e objectos inscritos no trabalho de Estudo do Meio e de projecto. Expressões No estrito cumprimento do despacho de 9 de Setembro de 2006, as actividades artísticas e físicomotores surgem integradas na área de projecto, quando se justifica. 21 22 4. Formas e instrumentos de avaliação a utilizar nas diversas áreas curriculares para avaliar o desenvolvimento das competências prioritárias: Segue em anexo o levantamento de conteúdos, apresentado aos alunos e exposto na sala de aula. Trata-se de uma tradução da Organização Curricular e Programas para o 1º Ciclo, nomeadamente para o 2º ano deste ciclo. Permite averiguar em conjunto, ao longo do ano, que tópicos do programa foram tratados e o que falta abordar ou retomar. O levantamento traduzido em grelha de auto-avaliação está inserido no dossiê da turma e será utilizado pontualmente utilizado pelos alunos. Os Currículos das áreas curriculares disciplinares, organizados pelo Conselho Pedagógico do agrupamento e apresentados aos pais estão disponível no mesmo dossiê.2 No dia a dia, recorremos a uma pequena grelha de fácil leitura, para termos uma ideia aproximada das competências de cada um na sala: Os níveis são identificados pelo cinto de cor atribuído (cores dos cintos de artes marciais) correspondendo aos critérios definidos na grelha de referência (ver anexo 1). Um cinto ganho não é retirado. O professor assegura a tradução desta grelha para as avaliações trimestriais, completando a informação com: - fichas teste (língua e matemática). Os fichas-teste dos ficheiros de treino de matemática e as fichas de escrita e interpretação de texto em geral acompanham as competências a adquirir, definidas pelo Currículo Nacional do 1º ciclo. - a avaliação contínua feita pela turma toda, tendo a grelha dos cintos e a discussão semanal dos planos individuais de trabalho como referência. - fichas próprias de avaliação de conhecimentos, a partir de trabalhos realizados pelos alunos, para os conteúdos de Estudo do Meio. 2 Ver plataforma moodle o projecto: http://projectos.ese.ips.pt/moodle/course/category.php?id=43 22 23 Para os critérios de avaliação especificamente estabelecidos pelo agrupamento, utiliza-se informação recolhida como descrito acima, junto com a observação directa dos atitudes dos alunos em situação de trabalho, cruzando esta informação com o cinto de comportamento atribuído. Avaliação periódica do projecto curricular de turma O projecto curricular de turma é depois periodicamente avaliado e adendado. Assim, da primeira avaliação consta, além da informação referente ao desenvolvimento do trabalho nas áreas disciplinares: Formação cívica: Continuaram as discussões semanais em conselho a partir do diário de turma, acerca da organização da turma, da gestão de conflitos e da condução do trabalho individual e colectivo. Promoveu a aprendizagem da tomada de decisão em conjunto por maioria ou por consenso. Fez-se a elaboração e o reajustamento das leis da sala e das decisões de execução de tarefas. Como definido no desenho curricular do 1º ciclo, a formação cívica é transversal a todas as actividades realizadas, pelo que também se registam produtos através dos projectos desenvolvidos no âmbito do Estudo do Meio e da Área de projecto. Continuaram as discussões diárias, a partir de um momento oral, integrado nas aulas de Língua Portuguesa, “Ler e mostrar” desenvolvendo os temas: − Educação pela saúde; − Debate de problemas e questões do mundo actual; − Educação para um mundo solidário Área de projecto: 23 24 No projecto “O bairro por dentro” procedemos à recolha de informação nos bairros de Outurela, Portela e Barronhos, através de: Entrevistas com comerciantes; Leitura de placas de ruas para futura pesquisa acerca dos nomes encontrados; Inquérito aos pais e às mães; Elaboração de uma maqueta "o bairro ideal"; Recolha de informações acerca da história dos bairros e da escola; Este trabalho serve de aglutinador transversal para as áreas curriculares disciplinares. Os produtos foram: Página da turma (site) com a informação completa; Jornal especial em papel para oferecer a quem colaborou; Maqueta; Exposição final. Foram intervenientes, o professor titular, os alunos da turma, as animadoras sócio-culturais e a equipa dos apoios educativos. No projecto “Elos... de ciências na prática” continuou-se o trabalho acerca de Eratóstenes, em articulação com Ciência Viva e escolas franceses. Implica a colaboração de uma turma de escola secundária para traduções francês-português e vice-versa (esta parte do trabalho completa actividades no quadro do ELOS). Implementou-se o trabalho autónomo no canto de ciências, a partir de protocolos adaptados ao primeiro ciclo, com comunicação das descobertas à turma. Existem como produtos finais os registos das experiências realizadas e a publicação de momentos marcantes na página da turma. Estudo Acompanhado: Continuou-se a rotina de trabalho diário, incluído nos tempos curriculares disciplinares de Língua Portuguesa, Matemática e Estudo do Meio em que as crianças prevêem semanalmente o que 24 25 pretendem fazer de trabalho autónomo ou a pares, guiadas pela planificação semanal proposta pelo professor. Os tempos para Língua Portuguesa, Matemática e Estudo do Meio estão divididos em tempos para o professor e em tempos para os alunos. Neste tempo para os alunos é reforçado o trabalho autónomo ou a pares, onde o professor ou o par está disponível para apoiar o aluno no estudo do assunto escolhido, diversificando o trabalho em função de cada um dos alunos e em função do programa a desenvolver para as áreas nucleares. Os alunos que frequentam os momentos facultativos de “Apoio ao Estudo” que são extracurriculares, tem a autorização de utilizar estes tempos extra para concluir actividades em atraso do seu plano individual. O trabalho desenvolvido em estudo acompanhado é semanalmente e colectivamente avaliado entre todos. Tecnologia da Informação e Comunicação: Os alunos utilizam com frequência o processamento de texto. Ao longo do primeiro período foram escritos, na sala, em três computadores recuperados pelo professor, duzentos e cinquenta e nove textos entre os dezoito alunos da turma (até dez de Dezembro). A responsabilidade para as rotinas de ligar/gravar/desligar está na mão de três crianças, uma para cada computador, que guiam as outras crianças sempre que escrevem um texto e que tenham uma dúvida. Continuamos a não dispor de Internet na sala. A turma continua a utilizar a sala TIC para consulta da internet, 45 minutos por semana, em conjunto. Este parcelamento prejudica o trabalho curricular previsto para o Estudo do Meio, pelo que se continua a utilizar material propriedade do professor. 25 26 Projectar a diversificação Nas páginas anteriores procurámos realçar o carácter estratégico e operacional do Projecto Curricular de Turma Escrito a partir de uma matriz simples, caracteriza e acompanha a turma, projecta o trabalho de alunos e professores, determina a forma como o trabalho será executado e orienta a sua avaliação. Trata-se de um documento estratégico de um grupo específico. Por isso, ele é intransmissível. Único, garante da diversificação pedagógica, tanto da turma perante as outras turmas, como entre todos os elementos da turma que projecta. Reflecte “a forma particular como, em cada contexto, se reconstrói e se apropria um currículo face a uma situação real, definindo opções e intencionalidades próprias, e construindo modos específicos de organização e gestão curricular, adequados à consecução das aprendizagens que integrem o currículo para os alunos concretos daquele contexto” (Roldão, 1999: 44)3. 3 Roldão (1999). Gestão Curricular - Fundamentos e Práticas Lisboa: DEB. 26 27 Conteúdo O projecto curricular de turma: Um instrumento estratégico para a diferenciação pedagógica. ............. 3 O enquadramento legal do Projecto Curricular de Turma ..........................................................................3 Um documento operacional........................................................................................................................8 Equívocos frequentes ..............................................................................................................................9 Documento estratégico ...........................................................................................................................9 Acompanhar a diversificação pedagógica ................................................................................................ 14 Em mono-docência ou monodocência coadjuvada ............................................................................. 16 Projectar a diversificação ................................................................................................................... 26 27