Determinação da abundância natural do isotópico 40K I. Introdução O potássio natural contem os isótopos 39K, 40K e 41K, dos quais só o 40K é radioactivo. O objectivo deste trabalho é medir a abundância natural do isótopo 40K a partir da determinação experimental do número de decaímentos com origem numa amostra de KBr e sabendo a meia-vida do 40K (T1/2= 0.4×1017s). O 40K tem dois modos de decaímento: decaímento β- (89%) e captura electrónica (11%). No caso do decaímento β- é emitido um electrão e um anti-neutrino 40 K → 40 Ca + e + υ e A energia do electrão emitido varia de desintegração para desintegração, sendo a sua energia máxima igual a 1.35 MeV. No caso do decaímento por captura electrónica, um electrão das camadas electrónicas internas do átomo é capturado pelo núcleo, i.e. 40 K + e → 40 Ar * + υe O neutrino não é detectado pelo detector Geiger que se usa para detectar os electrões resultantes do decaímento β-. A eficiência de detecção do detector Geiger para os raios γ provenientes da deexcitação do 40Ar* é da ordem de 1% e portanto desprezável. Assim, se se usar um detector Geiger para contar o número de decaímentos, a experiência só é sensível aos decaímentos β-. Na determinação da abundância relativa de 40K por este método tem ainda que se considerar os seguintes aspectos: a) A amostra tem que ser muito fina (espessura de algumas décimas de milímetro) para reduzir a absorção dos electrões emitidos na própria amostra. De notar que mesmo usando uma amostra muito fina é necessário ter este efeito em conta na determinação da abundância do 40K a partir do número de desintegrações medido (este aspecto vai ser abordado na secção III deste guião). b) A abundância natural do 40K é muito pequena, a meia-vida deste isótopo é muito longa e a espessura da amostra tem que ser muito reduzida. Estes três factores contribuiem para que actividade da amostra seja muito baixa, ou seja, a taxa de contagens com a amostra vai ser apenas ligeiramente superior à taxa de contagens de fundo (ou seja à taxa de contagens registada pelo detector sem amostra; estas conatgens são devidas à radioactividade ambiente). II. Método experimental Neste trabalho a abundância isotópica do 40 K, f 40K / K , obtém-se a partir da medida, durante um tempo t, do número de desintegrações por decaímento β− do 40K existente numa amostra de KBr. A abundância isotópica do 40K na amostra de KCl é N 40 K f 40K / K = (1) NK em que NK e N 40 K são respectivamente o número total de núcleos de K e o número de núcleos de 40K existentes na amostra. NK pode ser determinado a partir da massa m da amostra através de NK = 6 × 1023 m MKBr (2) em que MKBr é a massa molar do KBr. O número de desintegrações do 40K que ocorrem durante o tempo t, nd , está relacionado com o número de núcleos de 40K existente na amostra através de: ( nd = N 40 K 1 − e − λ t ) (3) em que λ é a constante de desintegração do 40K que se relaciona com a meia-vida (ou período de semi-desintegração) através de ln2 (4) λ = T1 2 Notar que como T1/2= 0.4×10 s, N 40 K praticamente não varia durante a experiência. 17 Como t << T1/2, ln2 t << 1 e consequentemente tem-se: T1/2 1−e − ln 2t T1/2 nd = ≈ ln2 t T1/2 N 40 K ln2 T1/2 N 40K = t ndT1/2 ln2t (5) (6) (7) Nesta experiência medimos o número de electrões emitidos pela amostra que são detectados pelo detector utilizado. O número de contagens que se regista no tempo t relaciona-se com o número de desintegrações de 40K através de: nc − ncf = nd fβ fΩ fabsε nd = nc − ncf fβ fΩ fabsε (8) (9) em que: nc: número de contagens registado com a amostra durante o tempo t. ncf: número de contagens registado sem a amostra durante t (contagens de fundo) nd: número de desintegrações ocorridas na amostra durante o tempo t. fβ: fracção das desintegrações que ocorrem por emissão de electrões (fβ=0.89). fabs: fracção dos electrões que não são absorvidos na amostra, no ar ou na janela do detector. ε: eficiência do detector para os electrões emitidos pelo 40K( ≈100%; ε=1). fΩ: fracção dos electrões que é emitido no ângulo sólido subentendido pela amostra e pela janela do detector, ou seja: Ω fΩ = (10) 4π em que Ω é o ângulo sólido definido pela amostra e pela janela do detector. No caso da amostra se poder considerar pontual (ver fig. 1) o ângulo sólido Ω é dado por:. rj θ d d Ω = sin θ dθ dϕ (11) Ω = ∫ dΩ (12) Ω= 2π θ ∫ ∫ sin θ dθ dϕ (13) 0 0 d (14) Ω = 2π 1 − 2 2 + r d j em que d é a distância da fonte à janela do detector e rj é o Fig. 1 raio da janela. O efeito do tamanho finito da fonte é o de reduzir o ângulo sólido dado pela eq.(14). Para as condições experimentais que vão ser usadas neste trabalho a correcção devida ao tamanho da fonte é inferior a 5% e por isso despreza-se. Quanto a fabs, tem-se fonte ar janela fabs = fabs × fabs × fabs (15) fonte ar janela em que fabs , fabs e fabs são as fracções dos electrões não absorvidos na amostra, no ar (entre a amostra e a janela do detector) e na janela do detector janela fonte respectivamente. fabs considera-se ≈ 1. A fracção fabs pode ser estimada utilizando a seguinte expressão: 1 fonte (16) fabs = 1 − e− µ s µs em que s é a espessura da amostra (em kg/m2) e µ é o coeficiente de absorção mássico dos electrões na amostra, determinado pela fórmula empírica 1.7 µ= (17) Em1.14 onde Em é a energia máxima, em MeV, dos electrões emitidos e µ está em m2/kg. ( ) ar Quanto a fabs , pode ser calculada com a ajuda da tabela da pag. 128 do livro “Nuclear radiation detection”, William James Price, 2nd ed., New York : McGraw-Hill Book, 1964. III. Sistema experimental Para medir o número de decaímentos usa-se a montagem experimental esquematicamente representada na fig. 2. O equipamento que vai ser usado durante a experiência é mostrado na fig.3 e na fig.4. O bloco de electrónica representada na fig.2 e na fig.3 contém uma fonte de tensão e a electrónica necessária á contagem dos sinais do detector. C D HV (1) Fig.2 – Esquema da montagem experimental utilizada nesta experiência: (1): detector Geiger-Muller; (2) porta-amostras; HV: fonte de alta tensão; D: discriminador; C: contador. (2) Fig.3 –Bloco de electrónica que contém a fonte de alta tensão e a electrónica necessária aos sinais no detector Geiger-Muller. Fig.4 – Detector Geiger-Muller e suporte para amostras dentro de uma caixa de chumbo. São regulados os seguintes parâmetros: Alta tensão na saída: através do botão designado por “Regulação”; o valor da tensão é exibido no mostrador da esquerda do bloco de electrónica (Fig3). A polaridade dos sinais que se aplicam à entrada Tempo morto Tempo durante o qual se faz a aquisição do número de contagens: através do botão designado por “Tempo”; Para períodos de aquisição maiores que 10 min, colocar o botão “Tempo” na posição ∞. Nesta posição a acquisição tem que ser parada manualmente através do interruptor disponível para esse efeito. O nível do discriminador. O bloco de electrónica utilizado nesta experiência tem ainda os seguintes interruptores: o interruptor designado por “rede”: liga e desliga o bloco de electrónica da rede o interruptor designado por “mostrador X10”: na posição para cima, o número de contagens é igual ao número de contagens exibido no mostrador designado por ”contagem”×10 o interruptor com 3 posições designadas por paragem, cont. e arranque o interruptor para apagar o mostrador das contagens o interruptor para ligar a fonte de alta tensão. O número de contagens é exibido no mostrador da direita do sistema integrado (Fig3). Determinação do patamar do detector e da tensão de trabalho Para determinar a tensão de trabalho (i.e., a alta tensão a aplicar ao detector durante a experiência) deve-se começar por obter, com uma fonte radioactiva, a curva do número de contagens registadas em função da tensão aplicada. A tensão de trabalho escolhe-se aproximadamente a 1/3 do patamar (ver apontamentos da aula teórica sobre este assunto). IV. Procedimento experimental CUIDADOS A TER NA EXECUÇÃO DO TRABALHO A estabilidade do sistema experimental é de extrema importância para a boa realização do trabalho. Assim, deve ter em atenção os seguintes aspectos: uma vez escolhida a tensão de trabalho não pode alterá-la no decurso da experiência se observar alterações da tensão exibida no mostrador, anote essas alterações reproduzir cuidadosamente a mesma posição do porta amostras nas medidas de fundo (sem amostra) e com amostra Parâmetros do sistema de contagem Tempo morto: 100 µs Polaridade dos impulsos: negativa Tempo de medida: infinito para as medidas de fundo e com a amostra; 30 s ou mais para as medidas do número de contagens em função da tensão a fazer com uma fonte de 137Cs para determinação do patamar do detector. Procedimento 1. Determinar o patamar do detector Geiger-Muller com uma fonte de 137Cs. Escolher a tensão a aplicar ao detector Geiger-Muller durante a experiência. 2. Medir o fundo sem amostra durante aproximadamente 1 h 30m com o portaamostras na posição mais próxima do detector. Afastar todas as fontes incluindo a amostra de KBr e fechar bem a porta da caixa de chumbo. 3. Medir o número de contagens com o porta-amostras na mesma posição em que mediu o fundo e durante exactamente o mesmo tempo. Afastar todas as fontes e fechar bem a porta da caixa de chumbo. 4. Verificar a estabilidade do sistema repetindo a medição de fundo durante ≈ 10m e comparar com a taxa de fundo obtida anteriormente. 5. Analisar os resultados de modo a obter a abundância isotópica do 40K (ver secção II deste guião) e a incerteza que afecta a determinação. 6. Comparar com o valor da abundância isotópica natural do 40K e comentar.