Direito Vernacular:
estrutura do idioma Português,
e proposta de modificação
da nomenclatura gramatical
brasileira em comento - I
[A Matriz das Cento e Poucas Articulações LéxicoSintáticas Portuguesas]
Alceu de Castro Romeu1
Consultor Legislativo – Área de Redação
Câmara dos Deputados
Introdução
O escopo desta tese, composta pelos artigos I e II, este a ser publicado em
breve, é dúplice. Apresentar a estrutura morfossintática da língua portuguesa
e propor modificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira – NGB, que
em 2009 completará meio século. Sua semente encontra-se no anexo III do
livro do autor, Doutrina e Direito Vernacular: Gramática Estruturada do
Português Instrumental, publicado em edição preliminar no Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento – Cefor da Câmara dos Deputados,
e intitulado Relação Léxico-Sintática.
Quanto ao propósito de propor modificação da NGB, a síntese da tese são as
duas tabelas infra apresentadas, que adiante serão explicadas.
Quanto ao propósito de apresentar a estrutura morfossintática do idioma de
Camões, a síntese se dá por via de matriz, que será desenvolvida e que expõe as possíveis articulações morfossintáticas que o português permite, em
número de cento e poucas.
Tabelas e matriz se inter-relacionam: daquelas chega-se a esta. As tabelas,
léxica, I, e, sintática, II, compostas de 4 colunas, partem da primeira coluna
(nomenclatura original do Direito Vernacular, da NGB, vigente no ordenamento jurídico), passam pelas segunda e terceira colunas, e terminam na
100
CADERNOS ASLEGIS 19
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0ALAVR3UBSTANTIVADA
quarta. No processo, a nomenclatura jurídica (coluna 1), sofre ajustes, de
saídas (coluna 2) e entradas (coluna 3), de que resulta (coluna 4) uma nova
lista categorial a ser transposta para a matriz morfossintática.
As linhas da coluna 1 da matriz morfossintática (categorias léxicas) em
apreço saem das linhas da coluna 4 da tabela I; as colunas da linha 1
da mesma matriz (categorias sintáticas) saem das linhas da coluna 4 da
tabela II.
Compare com a matriz morfossintática logo a seguir. Está claro que o artigo
e o substantivo (linhas da coluna 1) estão nas linhas da coluna 4 da tabela
I; o adjunto adnominal e o adjunto adverbial (colunas da linha 1) estão nas
linhas da coluna 4 da tabela II.
Muito se fala em estruturalismo aplicado à lingüística. Quando se trata de
estrutura, há que especificar. A estrutura da língua de Camões permite cento
e poucas possibilidades de encontros entre as óticas léxica e sintática de
consideração das palavras: as palavras como categorias gramaticais (artigo,
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
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6OCATIVO
0REDICATDO3UJEITO
0REDICATDO3UJEITO
0REDICATDO/BJETO 0REDICATIVODO/BJETO
#OMPL2EGENTIVO
#OMPL2EGENTIVO
#OMPL!DVERBIAL
#OMPL!DVERBIAL
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#./BJ$IRETO
#./BJ)NDIRETO #./BJ)NDIRETO
#.#OMPL2EG #.#OMPL2EG
#.#OMPL!DV #.#OMPL!DV
#.!GDA0ASS #.!GDA0ASS
substantivo, adjetivo, etc.) e como termos oracionais, funções sintáticas na
oração, que as classes podem desempenhar (adjunto adnominal, adjunto
adverbial, sujeito, etc.).
Em outras palavras, para falarmos, estamos limitados, presos aos encontros
léxico-sintáticos. Mais, se como quer Heidegger, não pensamos, mas somos
pensados - o ser (sein) nos pensa -, ao sermos pensados em português, não
saímos dos nódulos, dos encontros, das articulações classe ó termo que
constituem a língua-mãe, e, como humanos que somos, em vida não nos
resta mais do que alternarmos (sermos alternados) de uma articulação morfossintática a outra, de uma a outra célula da matriz a seguir parcialmente
disposta, segundo regras pré-estabelecidas.
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Merleaux-Ponty igualava o que chamou de palavra-pensante com o que denominou de pensamento-falante, ressaindo que não se pensa sem palavras,
em qualquer idioma. Não se tem o mais mínimo controle do que se pensa, a
menor idéia do que vai passar pela cabeça no próximo instante. [A perspectiva médica sobre isso é a que fundamenta as chamadas talking cures (curas
pela palavra), na presunção de que as doenças tenham jaez psicossomático.]
Para melhor compreender de que se trata é de bom alvitre analisar a matriz
que abaixo segue - Matriz Morfossintática - e então conjuminá-la com as
tabelas supra.
Trata-se de um quadro de dupla entrada, em que as linhas representam as
palavras como categorias léxicas (artigo, substantivo, etc.) e as colunas, as
mesmas palavras, como categorias (termos, funções) sintáticas (adjunto ad-ATRIZ-ORFOSSINTÖTICA
#ATEG4ERMO
!DJUNTOADNOMINAL
!DJUNTOADVERBIAL
!RTIGO
!RTICULAÀâOACEITA
!RTICULAÀâONEGADA
3UBSTANTIVO
!RTICULAÀâOACEITA
!RTICULAÀâOACEITA
nominal, adjunto adverbial, etc.)
Por exemplo, a palavra o, como categoria léxica, pode ser um artigo, um
pronome pessoal, etc. Uma vez artigo, pode, como termo oracional, desempenhar a função de adjunto adnominal (linha 2 / coluna 2), mas não a função
de adjunto adverbial (linha 2 / coluna 3), porque a estrutura idiomática negalhe a possibilidade.
A palavra caçador, como categoria léxica, pode ser substantivo e adjetivo.
Se substantivo, pode, como termo oracional, tanto ser (exercer a função sintático-oracional de) adjunto adnominal como ser (exercer a função sintáticooracional de) adjunto adverbial (linha 3 / coluna 2 e linha 3 / coluna 3), entre
outras hipóteses.
Em O caçador matou o leão, os os, artigos, são adjuntos adnominais nãopreposicionados de caçador e de leão, respectivamente.
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
Em A casa do caçador é confortável, caçador, substantivo, é adjunto adnominal preposicionado de casa. Em O espírito caçador é indomável, caçador,
adjetivo, é adjunto adnominal não- preposicionado de espírito.
Em Terça-feira morreu o leão, terça-feira, substantivo, é adjunto adverbial
de morreu.
Em um sistema semi-aberto (ou semi-fechado), que é a língua, o número de
classes e o de termos se mantém relativamente constante.
Cabe determinar as palavras, as categorias léxicas, gramaticais (substantivo, adjetivo, etc.) e os termos oracionais, as categorias sintáticas do
esquema (sujeito, objeto direto, etc.), pois.
Para que isso se faça, passe-se às linhas e colunas da Tabela I (léxica) e II
(sintática).
Categorias léxicas (Tabela I)
Em Direito Vernacular, as categorias de palavras, segundo a NGB, são 10:
substantivo, artigo, adjetivo, numeral, pronome, verbo (as ditas 6 classes
variáveis), advérbio, preposição, conjunção e interjeição (as ditas 4 classes
invariáveis), que se mostram na primeira coluna da tabela.
Tendo em vista facilitar também o ensino-aprendizagem da morfossintaxe
portuguesa, propõe-se aqui ( 1 ) manter na tabela a metade das 10 categorias
da NGB: substantivo, artigo, adjetivo, pronome, advérbio; ( 2 ) saírem (segunda coluna) as demais: numeral, verbo, preposição, conjunção, interjeição;
e ( 3 ) entrarem (terceira coluna) as categorias das formas nominais do verbo,
gerúndio, infinitivo e particípio, as das palavras adjetivadas, adverbiadas e
substantivadas, e as do pronome substantivo e adjetivo, ( 4 ) completando-se
12 grupos léxicos, relacionados na coluna 4.
Na coluna 4, assim, encontram-se: substantivo, pronome substantivo,
infinitivo, palavra substantivada, aqui chamados de nominativos; artigo,
pronome adjetivo, adjetivo, particípio, palavra adjetivada, aqui chamados
de modificantes; advérbio, gerúndio, palavra adverbiada, aqui chamados de
circunstanciais.
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Adiante se verá a razão das denominações. Por ora, seguem os argumentos
para a saída dos 6 grupos (coluna 2) e o acréscimo dos 8 (coluna 3), nesta
ordem.
Categorias que saem (Tabela I)
Obs.: o pronome, que retorna duplicado, pronome substantivo e pronome
adjetivo, será considerado nas categorias que entram.
Numeral
O numeral sai, para subsumir-se na classe dos pronomes, em que se encontrava, antes da NGB. Por exemplo, assim como este é um pronome adjetivo
definido, e um demonstrativo (um determinante), quarenta é também um
pronome adjetivo definido, e um quantificador, o que não lhe descaracteriza
a natureza pronominal, até porque as funções sintáticas, como se verá, são as
mesmas dos pronomes. Qual a diferença, em termos de função pronominal,
entre Estas caixas são suficientes e Quarenta maçãs são bastantes?
Verbo Nocional
O verbo nocional - seja, o verbo que não é verbo de ligação, predicativo,
copulativo - sai porque desempenha tão-só a função de predicador, isto é, de
grão-coordenador, de maestro da oração verbal - seja, da oração que não é
oração nominal. É como se o verbo nocional se articulasse com ele mesmo,
com a função das funções, única, de dispor as palavras como termos, isto é,
enquanto desempenhem função sintático-oracional.
Em O caçador matou o leão, viu-se que os os, artigos (categoria léxica),
são adjuntos adnominais (função sintática) não-preposicionados de caçador
e de leão, respectivamente: o o, como categoria léxica, como palavra, pode
ser artigo, substantivo (nome de letra), etc.; como categoria sintática, como
termo oracional, desempenhando função sintático-oracional, pode ser, se for
artigo (categoria léxica), adjunto adnominal (termo sintático-oracional); se
for substantivo (categoria léxica), sujeito, objeto direto, etc. (termos sintático-oracionais), segundo o contexto da oração. (Vd. a matriz acima.)
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
De sua vez, caçador, como substantivo, entre outras hipóteses, pode ser sujeito de oração, e leão, também como substantivo e entre outras hipóteses,
pode ser objeto direto. É o que ocorre no exemplo.
Matou, no entanto, como categoria léxica, só pode ser verbo, e como termo
oracional só pode exercer a função sintática de predicador. A oração O caçador matou o leão é uma oração verbal, porque o verbo matar é um verbo
nocional, pois tem sentido, significado, ao contrário dos verbos de ligação
(como o verbo ser), que não tem significação própria. (Há línguas em que o
verbo ser não há: Ele é brasileiro torna-se Ele brasileiro. É é semanticamente esvaziado e se limita a agregar a característica da brasilidade ao sujeito
ele. Matou, contrario sensu, tem significação própria, a ação, pretérita, de ter
transformado um leão vivo em um leão morto.)
A função de predicar é única, e é do verbo nocional (imensa maioria dos
verbos!). Na tabela morfossintática, seria como se se pusesse o verbo nocional como grupo léxico, em uma linha, e a função de predicador, única que
lhe corresponde, em uma coluna. Portanto, só para aparecer, no cruzamento
coluna-linha respectivo, apenas uma articulação aceita, a de verbo nocional
(linha) ó predicador (coluna), que apareceria em todas as circunstâncias
em que verbo nocional haja. A articulação é aceita no idioma apenas numa
célula só, a célula do liame verbo nocional ó predicador, a de encontro de
uma só linha (verbo nocional) com uma só coluna (predicador), daí a perda
de tempo em dispor tal célula na matriz, e a suas linha e coluna respectivas,
razão por que isso não se faz.
Para melhor compreendê-lo, veja-se - ao confrontar, por exemplo, o caso do
verbo com o do artigo, que também desempenha uma só função, a de adjunto
adnominal - a matriz morfossintática em que apareceria o verbo (predicador), abaixo apresentada.
-ATRIZ-ORFOSSINTÖTICAEMQUE!PARECERIAO6ERBO0REDICADOR
#ATEG4ERMO
!DJ!DNOMINAL
0REDICADOR
!DJADVERBIAL
!RTIGO
!RTICUL!CEITA
!RTICUL.EGADA
!RTICULNEGADA
3UBSTANTIVO
!RTICUL!CEITA
!RTICUL.EGADA
!RTUCULACEITA
!RTICUL.EGADA
6ERBONOCIONAL
!RTICUL.EGADA
!RTICUL!CEITA
!RTICULNEGADA
!RTICULNEGADA
!RTICUL.EGADA
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No caso do artigo, observe que, embora a linha do artigo (categoria léxica)
encontre uma e apenas uma só coluna para conectar-se, que é a coluna do
adjunto adnominal (categoria sintática), a recíproca não é verdadeira. As
células da coluna do adjunto adnominal (categoria léxica) encontram várias
outras linhas de conexão, além da linha do artigo, porque o adjunto adnominal (função sintática) pode ser desempenhado por várias outras categorias
léxicas, que não apenas a categoria do artigo. Por exemplo, a categoria léxica
do substantivo, como se vê na matriz, e por aí vai, como se mostrará.
No caso do verbo nocional, não. A situação é biunívoca. O verbo nocional,
alma das orações verbais (não das orações nominais - como Pedro é brasiliense , cuja alma é o predicativo, brasiliense, idéia que se aborda logo após)
só desempenha a função de predicador, e, vice-versa, a função de predicador
(elíptico, isto é, implícito, ou explícito: isso é um outro problema) só por ele,
verbo nocional, é passível de ser desempenhada.
Há dois níveis de articulação no idioma, o da categoria léxica ó termo
sintático e o do termo sintático ó predicador (o verbo nocional): aquela,
morfossintática, é objeto do presente estudo; esta, aqui não se trata.
Voltanto à oração O caçador matou o leão, acabou-se de explicar introdutoriamente o que seja o primeiro nível. O segundo, que com o primeiro se
articula, consiste no fato de que o predicador, matou, condiciona a existência
de um termo oracional, o sujeito (no caso, caçador), além de outro termo
oracional, o objeto direto, preposicionado ou não (no caso leão, não preposicionado).
Observe, relacionando os dois níveis, que, no segundo nível, matou implica
um sujeito (que pode ser leão, tigre, etc.), e que, no primeiro nível, o da
categoria léxica ó termo sintático, constata-se que esta função sintático-oracional, de sujeito, só pode ser desempenhada por alguns grupos léxicos, no
caso, o grupo do substantivo, e por outros não.
É neste nível, primeiro, que se desenvolve este trabalho.
É nele também, que um sujeito - desempenhado por um substantivo, que é
seu núcleo (sujeito composto), e importando em sua composição este núcleo,
caçador (substantivo, como categoria léxica, e sujeito, como termo sintático)
+ um adjunto adnominal, o (artigo, como categoria léxica, e adjunto adnominal, como termo sintático) - leva à consideração seguinte.
Assim como a função sintática de sujeito só pode ser desempenhada por
certas categorias léxicas, no caso a do substantivo, caçador, e por outras
categorias não, também a função sintática de adjunto adnominal só pode ser
desempenhada por determinadas categorias léxicas, no caso a do artigo, o,
mas não por todas: por exemplo, a das palavras adverbiadas.
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
Ambas as circunstâncias são exploradas no presente artigo. Nele, no entanto,
o autor não desenvolve a articulação do segundo nível, a do termo ó predicador, que é a valência6 verbal - como que uma espécie de regência verbal
ampliada - que condiciona. A respeito, apenas cite-se, à guisa de estímulo
intelectual, a ligação entre verbo e semântica.
Retome-se: a articulação categoria léxica ó termo sintático (primeiro nível) é a articulação, por exemplo, entre o substantivo (caçador) e o sujeito
(caçador); e a articulação termo sintático ó predicador (segundo nível), é
a articulação, por exemplo, entre o sujeito (caçador) e o predicador (matar
/ matou).
No presente artigo, só se aborda aquela, a articulação da categoria léxica ó
termo sintático (primeiro nível).
Em suma, assim como uma pessoa, quanto a nacionalidade, é brasileira, e,
quanto a idade, é jovem; caçador, quanto à categoria léxica, palavra, pode ser,
por exemplo, substantivo, e, quanto à função sintático-oracional, termo, pode
ser, por exemplo, sujeito da oração. Ou, o que é o mesmo, caçador, enquanto
palavra, é substantivo; enquanto termo (oracional), é sujeito. Sempre contextualizadamente; no caso, no contexto de O caçador matou o leão.
Verbo de Ligação
Retornando à tabela I, e continuando a análise dos grupos léxicos que saem,
no caso do verbo ser de ligação / não-nocional / copulativo / predicativo a
idéia é assemelhada.
São verbos, como dito, semanticamente esvaziados, cuja única função é tãosó agregar características ao sujeito (verbo predicativo: Este homem é bom,
e intransitivo-predicativo: Ela acordou triste) ou aos complementos (verbo
transobjetivo direto, transobjetivo indireto, completivo-regentivo e completivo-adverbial: Viu-o cansado, Chama-lhe Joana, Recordo-me dela alegre,
Retornou aos pais enfermos), respectivamente. Observe-se, ademais, que no
chamado predicado verbo-nominal há elipse de um verbo de ligação implícito, elíptico (Ela acordou e estava triste e Vi-o e ele estava cansado, etc.).
Tudo isso os diferencia sem dúvida dos chamados verbos nocionais.
Porém, a idéia de biunivocidade entre o verbo, como palavra, categoria léxica, e como função sintática é a mesma. A única função do verbo copulativo
é agregar característica(s) ao sujeito ou ao objeto. E vice-versa, esta função
só é exercida pelo verbo de ligação.
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Preposição e Conjunção
A preposição e a conjunção saem por um mesmo motivo. Compõem as linkwords, têm por finalidade exclusiva conectar as palavras de outros grupos
léxicos. Não exercem função própria na oração. São a “cola” da estrutura.
Interjeição
No mesmo sentido, sai a interjeição, categoria assintática por excelência,
condensação de uma frase inteira em uma expressão só que é. Brota na frase
como carta sintaticamente fora do baralho, nela não tendo função oracional
própria, até por serem extra-oracionais.
Comentadas as categorias que saem: numeral, verbo, preposição, conjunção,
interjeição, comentem-se agora as que entram: as categorias léxicas das
formas nominais do verbo, gerúndio, infinitivo e particípio, as das palavras
adjetivadas, adverbiadas e substantivadas, e as derivadas da divisão do grupo
de pronomes em categoria dos pronomes substantivos e categoria dos pronomes adjetivos.
Repita-se, as tabelas I e II tomam como base (coluna 1) as categorias léxicas
e sintáticas da NGB, respectivamente, de que se excluem algumas categorias
(coluna 2) e a que se incluem novas categorias (coluna 3), obtendo-se o elenco categorial da coluna 4. Os ajustes de exclusão e de inclusão, nas tabelas I
e II, tem por fito compor a matriz morfossintática.
As linhas da coluna 1 da matriz morfossintática derivam das linhas da coluna
4 da tabela I, e as colunas da linha 1 da matriz morfossintática derivam das
linhas da coluna 4 da tabela II, porque naquela (coluna 4 da tabela 1) consta
o elenco final das categorias léxicas para o efeito de articulação morfossintática, que a matriz exprime, e nesta (coluna 4 da tabela 2) consta o elenco final
das categorias (funções) sintáticas para o mesmo efeito e na mesma matriz.
Categorias que entram (Tabela I)
Gerúndio, Infinitivo e Particípio
Por serem formas formas nominais do verbo, formas verbo-nominais, grupos
léxicos múltiplos, desempenham já funções adverbiais, já funções nominais,
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
já funções adjetivais, já funções verbais. É com relação às três primeiras,
não-verbais, que figuram nas colunas da tabela.
Como acima argumentado, o verbo e a função verbal (de predicar) não constam da matriz.
Palavras Adjetivadas, Adverbiadas e Substantivadas
Normalmente, as adjetivadas são palavras que, regularmente substantivos,
assumem o papel dos adjetivos (menino prodígio); as adverbiadas são palavras que, regularmente adjetivos, assumem o papel dos advérbios (correu
rápido para fora); e as substantivadas são palavras que, regularmente também adjetivos, assumem o papel de substantivos (a simpática voltou). O
acréscimo dos três grupos léxicos nas linhas da tabela dá conta destes papéis,
diga-se, menos regulares.
Pronomes Substantivos e Adjetivos
Os pronomes desdobram-se nas linhas da tabela, a começar pela gritante diferença entre suas funções, substantiva e adjetiva, que abaixo se verá. (Neste
trabalho, quanto à diferança entre ambos, o pronome substantivo (categoria
léxica) está, juntamente com o substantivo (categoria léxica), no conjunto
das categorias léxicas nominativas, ou conjunto dos nominativos, ou conjunto nominativo; o pronome adjetivo encontra-se, juntamente com o adjetivo,
noutro conjunto, o dos modificantes, como se verá.)
Completaram-se assim (vj. tabela I) - diminuídas 6 (coluna 2) categorias léxicas e somadas 8 (coluna 3) às 10 categorias léxicas originais
(coluna 1) da NGB - as 12 categorias léxicas da tabela 1, que constam
de sua coluna 4.
Estas mesmas 12 categorias comporão as 12 linhas da coluna 1 da matriz morfossintática.7
CATEGORIAS (Termos) Sintático-Oracionais
(Tabela II)
Vimos os doze grupos léxicos: substantivo, pronome substantivo, infinitivo,
palavra substantivada, aqui chamados de conjunto dos 4 nominativos; artigo,
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pronome adjetivo, adjetivo, particípio, palavra adjetivada, aqui chamados de
conjunto dos 5 modificadores; advérbio, gerúndio, palavra adverbiada, aqui
chamados de conjunto dos 3 circunstanciais, por razões a serem vistas na
parte II do trabalho. Constam, viu-se, das linhas da coluna 4 da tabela I, e das
linhas da coluna 1 da matriz morfossintática.
Saia-se agora da tabela I, léxica, e passe-se à tabela II, às funções sintáticas,
aos termos da oração. Coerentemente, a coluna 4 da tabela II refletirá os termos oracionais, os tipos de função sintática constantes das colunas da linha
1 da matriz morfossintática.
Os termos oracionais previstos pela NGB são 11: sujeito, predicado, predicativo, os 3 por ela chamados de termos essenciais; complemento nominal,
objeto direto, objeto indireto, agente da passiva, os 4 por ela denominados de
integrantes; adjunto adnominal, adjunto adverbial, aposto, os 3 que a NGB
chama de acessórios, e o vocativo.
Categorias (Termos) Sintático-Oracionais que Entram (Tabela
II)
O complemento regentivo, o complemento adverbial e o fundamental são
acrescidos; o complemento nominal é desdobrado em 7 modalidades, bem
como o predicativo, em 2.
Dos três acréscimos, nenhum consta da NGB; os dois desdobramentos, o do
complemento nominal e o do pronome, também não.
As razões dos acréscimos e desdobramentos explicar-se-ão no desenrolar do
trabalho, no tópico Elenco das Relações Léxico-Sintáticas (Linhas ó Colunas) da Matriz Morfossintática, logo abaixo desenvolvido.
Categorias (Termos) Sintático-Oracionais que Saem (Tabela II)
Sai o predicador.
Sua exclusão já se explicou acima quando se falou, com respeito às linhas da
tabela I, da exclusão do verbo.
Em resumo, as 20 linhas da coluna 4 são as do adjunto adnominal, adjunto
adverbial; predicativo do objeto, predicativo do sujeito; complemento nominal tipo predicativo do sujeito, complemento nominal tipo objeto direto,
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
complemento nominal tipo objeto indireto, complemento nominal tipo
complemento regentivo, complemento nominal tipo complemento adverbial, complemento nominal tipo agente da passiva, complemento nominal
autônomo; complemento adverbial, sujeito, objeto direto, objeto indireto,
complemento regentivo, agente da passiva; aposto; fundamental e vocativo.
Seja, são 20 funções sintáticas, 20 termos oracionais, que passarão a integrar
as colunas da linha 1 da matriz morfossintática.
Portanto, trata-se de uma matriz morfossintática de 12 linhas e 20 colunas,
que leva a um total de 240 possibilidades teoréticas de articulação léxicosintática. Veremos que na prática há apenas cento e poucas delas, 45% do
total, aproximadamente. As restantes, cerca de 55% dos binômios (células
matriciais) em tese cabíveis, não encontram amparo para articularem-se no
âmbito do idioma. São, pois, apenas virtuais.
Elenco das Relações Léxico-Sintáticas (Linhas ó Colunas) da
Matriz Morfossintática
As 12 categorias grupos de palavras (linhas) podem-se dividir em 3 conjuntos: o dos 4 nominativos, o dos 5 modificantes e o dos 3 circunstanciais.
Esta primeira parte da tese, um dos dois escopos da qual é, reitere-se, expor
as hipóteses possíveis de articulações morfossintáticas da língua portuguesa,
em número de cento e poucas, de plano dedicar-se-á, matricialmente, aos 4
nominativos (infinitivo, palavra substantivada, pronome substantivo e substantivo), em função das 20 funções oracionais da língua.
A - Os nominativos e suas Representações Sintáticas
O infinitivo, a palavra substantivada, o pronome substantivo e o substantivo
(iniciando-se a estabelecer as linhas da coluna 1 da matriz numa ordem definitiva) compõem o conjunto dos nominativos e desempenham todas as 20
funções sintáticas (nas colunas da linha 1 da matriz) do idioma. Vejam-se as
20 funções, uma a uma (4 linhas x 20 colunas = 80 células, cada qual representando um binômio léxico-sintático).
Como se verá na parte II do trabalho, nem os 5 modificantes, nem os 3 circunstanciais, mas tão-somente os 4 nominativos, desempenham todas as 20
funções sintáticas possíveis.
111
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CADERNOS ASLEGIS 19
Os 4 nominativos podem desempenhar as 20 funções de:
1 Adjunto adnominal (Termo acessório, segundo a NGB.)
(i) infinitivo - O ferro de passar está sobre a mesa;
(ii) palavra substantivada - O pente da bela foi feito na Catalunha;
(iii) pronome substantivo – Não se sabe onde está o livro de vocês;
(iv) substantivo - A dona da casa é Maria.
Observações
Passar é substantivado por via de preposição. Bela, pelo artigo. Vocês está
preposicionado, mas já é pronome substantivo de natureza. Casa, substantivo, exemplifica o grupo por excelência que desempenha o papel de adjunto
adnominal preposicionado.8
2 Adjunto adverbial (Termo acessório, segundo a NGB.)
infinitivo - Pôs tudo a perder;
palavra substantivada - Em breve viajarão;
pronome substantivo - Fora ele, todos se foram / Rezava por tudo;
substantivo - Uma bela tarde eles se foram / Viajava sem pressa.
Observações
O adjunto adverbial é uma preposição + um nominativo: no caso, a, em,
fora, por e sem. Tarde, substantivo, aponta o uso do grupo como adjunto
adverbial, que não é de todo insólito. Como também não seria, se se lhe
acrescentasse preposição, optativa (Em uma bela tarde...).
3 Aposto (Termo acessório, segundo a NGB.)
infinitivo - O que pretendia, vencer, não conseguiu;
palavra substantivada - Betty, a feia, é personagem de novela;
pronome substantivo - Venceu a disputa, o que lhe agradou;
substantivo - Betty, a artista da peça, é bonita.
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
Observações
Vencer, no contexto, é substantivado de per si, pela posição apositiva, é uma
forma verbo-nominal, em papel nominal. O adjetivo é substantivado pelo
artigo a. O o é pronome substantivo, tanto que se substitui por isto. Artista,
substantivo, diferencia aposto - sempre representado por nominativo, de que
o próprio substantivo é símbolo - de aposição, havendo idiomas, como o
francês, em que aposição e aposto não se diferenciam. Em Betty, bondosa,
casou com Armando, bondosa é uma aposição (e predicativo do sujeito),
mas não é um aposto. No caso do português, nem toda aposição é aposto,
mas todo aposto é apositivo.
4 Predicativo do objeto (Termo essencial à oração,9 segundo a NGB.)
infinitivo – Sentia-o [Ele estava a] sofrer.
palavra substantivada - Considerava-se a simpática.
pronome substantivo - Tinha-o por alguém importante.
substantivo - Nomearam-no diretor;
Observações
Embora o predicador da oração verbo-nominal (no caso, sentia, considerava, tinha e nomearam) não seja um verbo de ligação, ele o pressupõe. Como
se estivesse a sofrer; como se fosse simpática; como sendo alguém importante; é o diretor; respectivamente, ou o que valha.
O predicativo do objeto é essencial à oração verbo-nominal, que pode, ainda
mais didaticamente, ser dividida. Ele foi nomeado diretor e Ele é o diretor.
Nesta última oração, diretor é o termo essencial, sem o qual a oração não
subsiste: *Ele é o10 é agramatical. O é , o verbo ser, não existe em várias línguas: cf. Ele, [sendo] diretor, ela, [sendo] diretora, formavam uma espécie
de casal 20, em que os sendos se dispensam.
5 Predicativo do sujeito (Termo essencial à oração,11 segundo a NGB.)
infinitivo - O desejável agora é repousar;
palavra substantivada - O amar é um talvez angustiante.
pronome substantivo - Eu sou você amanhã;
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CADERNOS ASLEGIS 19
substantivo - O amor é a salvação da humanidade.
Observações
As observações do item 3, quanto ao infinitivo, aplicam-se também a este.
6 Agente da passiva (Termo integrante à oração,12 segundo a NGB.)
infinitivo - Foi salvo por seu bem-querer;
palavra substantivada - A solução correta foi feita pelos bem-treinados;
pronome substantivo - Os iraquianos foram vencidos por ela;
substantivo - Os iraquianos foram derrotados pela coalizão anglo-americana.
Observações
A substantivação do infinitivo por meio do artigo muda a forma verbo-nominal em nome propriamente dito, passível de ser agente da passiva. Por
meio da preposição, por vezes, não. Cf.: É amado pela Maria / por Maria e
Foi tocado pelo amar / por amar. Em pelo amar, o ato de amar, ou o amar, o
amor, que seja, toca alguém e é, como tocador, agente da passiva. É agente
da passiva, e não é infinitivo enquanto verbo. Em Foi (ou esteve, ou ficou)
tocado (sensibilizado) por amar, por amar equivale a porque ama : amar
é infinitivo, e é-o enquanto verbo, não há agente da passiva: amar, forma
verbo-nominal, então assume seu lado verbal.
Veja a importância da semântica, da morfossintaxe-semântica. É a diferença de significado entre salvar e tocar / sensibilizar que é responsável pela
mudança da classificação sintática (cp. Foi salvo por bem-querer, em que ao
menos há ambigüidade: Foi salvo porque bem-queria, ou porque bem-quis
; ou Foi salvo por (um) bem-querer tamanho, que o fez superar as adversidades, salvando-o dos infortúnios? E observe que na substantivação do
adjetivo isso também pode ocorrer. Em Pelo / por educado foi bem pago, a
eliminação do artigo o causa uma certa ambigüidade: foi bem pago por ser
ou porque era educado ou foi bem pago por uma pessoa educada?
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
7 Complemento adverbial (Termo não contemplado na NGB.)
infinitivo - Parecia estar voltando de verdadeiro renascer;
palavra substantivada - Com devoção, dirigia-se à amada;
pronome substantivo - Chegou a nós;
substantivo - Foi a São Paulo;
Observações
De regra, o complemento adverbial dá-se com verbos de direção (exemplos
supra) ou de posição (Morava em Paris, *Morava em é forma incompleta,
agramatical, tanto como *dirigia-se à).
8 Complemento regentivo (Termo não contemplado na NGB.)
infinitivo – Desistiria de descansar;
palavra substantivada - Condoía-se dos bajulados;
pronome substantivo - Não concordará com vocês;
substantivo - Aspirou à eternidade;
Observações
O complemento regentivo13 semanticamente comporta-se como um objeto
direto (recebe / “sofre“ a ação verbal), apesar da preposição. E, embora sempre preposicionado, não é substituível pelo dativo lhe. João estima Maria
(objeto diretoz: Maria é amada por João, recebe o amor dele), João gosta de
Maria (complemento regentivo: *Maria é gostada por João [frase agramatical], recebe o bem-querer dele), *João gosta-lhe (frase agramatical). Já que
se trata de Direito, pode-se usar do conceito de servidão, do Direito Civil.
Há uma “servidão”, um liame firme entre o verbo e a preposição, entre gosta
e de, que formam um todo.
Como se disse atrás, não cabem *Desistir-lhe-ia, *Condoía-se-lhes, *Não
vos concordaria e *Aspirou-lhe, mesmo no último caso, em que aparece a
preposição a, por excelência a do objeto indireto, em que de regra caberia
lhe.
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9 Objeto direto (Termo integrante à oração,14 segundo a NGB.)
infinitivo - Queremos almoçar;
palavra substantivada – Estimam os bem-criados;
pronome substantivo - Sua voz o tranqüiliza;
substantivo - Desejaram a paz dos campos;
Observações
Queremos almoçar, isto é, Queremos isto. E isto tanto pode ser = almoçar
como, por exemplo, = almoçar feijão com arroz, o que milita a favor de
não considerar, em Queremos almoçar feijão com arroz, Queremos almoçar
como locução verbal.
10 Objeto indireto (Termo integrante à oração,15 segundo a NGB.)
infinitivo - Presta tributo ao teu viver;
palavra substantivada - Não deu importância aos senões;
pronome substantivo - Ofereceu-lhe um presente;
substantivo - Obedeçam aos chefes;
Observações
Quanto ao infinitivo, cf. Recusar-se-ia a descansar (se, objeto direto; descansar, complemento regentivo), Recusar-lhe-ia [o] descansar (lhe, objeto
indireto; descansar, objeto direto) ou Recusar-lhe-ia o descanso (lhe, objeto
indireto; descanso, objeto direto). Não esquecer, por demais, que o objeto
indireto tem traço +animado, o que não ocorre facilmente com o infinitivo.
11 Sujeito (Termo essencial à oração,16 segundo a NGB.)
infinitivo - Perdoar é bem-querer;
palavra substantivada - Tantos poréns só fazem atrapalhar;
pronome substantivo - Aquilo não é bom;
substantivo - É necessária a paz;
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
Observações
Um dos paradigmas do infinitivo, como nome, sem partículas substantivadoras, é Ser ou não ser, eis a questão, a exemplo de Perdoar é bem-querer. Sua
nominalização é puramente contextual, sem artifícios, como o da preposição
ou o do artigo.
12 Complemento nominal (CN) tipo agente da passiva17 (A NGB não
discrimina.)
infinitivo - O prejuízo por seu mal-querer;
palavra substantivada - Seu encontro pelo rejeitado foi desagradável;
pronome substantivo - O achado do tesouro por você foi um feito;
substantivo - A destruição de Bagdá pelo bombardeio foi considerável;
Observação
O prejuízo por seu mal-querer ≅ Foi prejudicado por seu mal-querer 18; Seu
encontro pelo rejeitado ≅ Foi encontrado pelo rejeitado ≅ O rejeitado o
encontrou ; O achado do tesouro por você ≅ O tesouro foi achado por você
≅ Você achou o tesouro ; A destruição de Bagdá pelo bombardeio ≅ Bagdá
foi destruída pelo bombardeio ≅ O bombardeio destruiu Bagdá. Nesta ótica,
os substantivos substituem os verbos (encontro / encontrar; achado / achar;
destruição / destruir), que é bom em redação, porque permite oscilar / oscilação, com conhecimento de causa, entre o verbo e o nome: um, mais estático;
outro, mais dinâmico. É mais um recurso estilístico.
Trata-se de uma questão de cognatividade nome-verbo. Nos itens 15 e 16
-complementos nominais com objeto direto e objeto indireto, respectivamente -, por exemplo, ver-se-á que os complementos de nome são indiretos,
independentemente de quais sejam os complementos, direto ou indireto, do
verbo cognato. Diz-se João ama Joana, mas não *O amor de João Joana, o
que importa até sutilezas de sentido (por Joana / a Joana) e até diferenças
menos sutis, de maior densidade semântica (O amor a / por Joana e O amor
de Joana).
A observação do item 6 (agente da passiva) sobre o infinitivo aplica-se
aqui.
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Observações 2: Tipos de CN e Coontologia Lingüística
Em Seminário de Lingüística, na Faculdade de Letras de Universidade de
Coimbra, com as Professoras Doutoras Graça Rio-Torto e Isabel Pereira, um
dos tantos temas foi a hipótese de uma coontologia na diacronia das línguas
- mais especificamente, em seus primórdios -, entre o verbo, o substantivo e
o adjetivo. Um exemplo clássico a favor da hipótese são os deverbais. Ora,
a ser verdadeira, por que não estender os tipos de complementos verbais (aí
incluído o sujeito como complemento) aos nomes? Neste e nos próximos
itens é o que se faz.
Observações 3: Direito Contábil e Direito Vernacular
Como dizia Pontes de Miranda, o Direito é uno. Os pontos de contato entre
os ramos do Direito afloram continuamente.
Um, que diz respeito ao Direitos Contábil e Vernacular, é o do paralelismo
entre a conta caixa (caixa é uma categoria jurídica) e a conta do imobilizado
(o imobilizado é outra, e ambas constam da Lei nº 6.404/76).
O Balanço Patrimonial, no que tange ao ativo, é um continuum que medeia
entre dois extremos, e cujo denominador comum é o fluxo. A conta caixa
tem um fluxo extremamente dinâmico; a conta imobilizado, um fluxo quase
estático. Como se a vazão de entrada e de saída da rotatividade do (“estoque” de) dinheiro fosse quase um movimento contínuo, ao passo que a da
rotatividade do estoque de imobilizados, um movimento discreto, e além de
discreto, quase parado. O dinheiro seria um imobilizado diluído; o imobilizado, o dinheiro concentrado.
Em Direito Vernacular, o mesmo se dá com o verbo (dinâmico) e o nome (estático). Se se redige com verbos e complementos, dá-se todo um dinamismo
aos conceitos da escrita; se se redige com nomes e complementos, transmite-se uma idéia, que embora bastante assemelhada, conota um sentimento
envolvido, que pende em direção contrária, à inércia.
O verbal busca a metonímia; o nominal, a metáfora.
13 Complemento nominal tipo complemento adverbial (A NGB não
discrimina.)
infinitivo - Seu retorno a constante meditar devolveu-lhe a paz;
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
palavra substantivada - A volta para a dedicada de seus sonhos fez-lhe
bem;
pronome substantivo - O salto sobre ele fez com que se rendesse;
substantivo - O regresso à realidade faz bem a quem se ilude;
Observações
Sinta-se: Seu retorno a constante meditar ≅ Retornou a constante meditar;
A volta para a dedicada ≅ Ele voltou para a dedicada; O salto sobre ele ≅
Saltou-se sobre ele; O regresso à realidade ≅ Ele regressou à realidade.
14 Complemento nominal tipo complemento regentivo (A NGB não
discrimina.)
infinitivo - A recusa a descansar foi uma surpresa;
palavra substantivada - A concorrência dos bajulados não teve lugar;
pronome substantivo - A concordância com vocês; ocorrerá amanhã;
substantivo - A aspiração à eternidade; não tem limite.
Observações
A recusa a descansar ≅ Recusou-se a descansar; A concorrência dos bajulados ≅ Concorreram os bajulados; A concordância com voces ≅ Concordaram com vocês; A aspiração à eternidade ≅ Aspirou-se à eternidade.
15 Complemento nominal tipo objeto direto (A NGB não discrimina.)
infinitivo - A cobiça de possuir é desastrosa;
palavra substantivada - A dispensa do entusiasmado acabou em pizza;
pronome substantivo - O chamamento de outrem não é freqüente;
substantivo - O chamamento de João não é freqüente;
Observações
A cobiça de possuir é desastrosa ≅ Cobiçaram possuir; A dispensa do entusiasmado acabou em pizza ≅ Dispensaram o entusiasmado; O chamamento
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de outrem não é freqüente; ≅ O chamamento de João não é freqüente ≅
Chamaram outrem, ≅ Chamaram João.
16 Complemento nominal tipo objeto indireto (A NGB não discrimina.)
infinitivo - A obediência ao meditar é própria ao ioguim;
palavra substantivada - Da comunicação ao mal-agradecido nada de bom
resultou;
pronome substantivo - A oferta a ele para que assumisse a direção foi inválida;
substantivo - A comunicação a José foi uma surpresa;
Observações
Quanto ao infinitivo, a observação do item 10 (objeto indireto) mutatis mutandis aplica-se-lhe.
A obediência ao meditar ≅ obedecem-lhe;19
Da comunicação ao mal-agradecido nada de bom resultou ≅ Comunicaram-lhe;
A oferta a ele para que assumisse a direção foi inválida ≅ Ofertaram-lhe;
O esclarecimento a José foi uma surpresa ≅ Esclareceram-lhe.
17 Complemento nominal tipo sujeito (A NGB não discrimina.)
infinitivo - A vitória do agir;
palavra substantivada - A viagem da mimada não lhe perturbou;
pronome substantivo - Foi uma festa o aniversário dela;
substantivo - O sumiço do guarda durou pouco;
Observações
A vitória do agir ≅ O agir venceu;
A viagem da mimada não lhe perturbou ≅ A mimada viajou;
Foi uma festa o aniversário dela ≅ Ela aniversariou;
O sumiço do guarda durou pouco ≅ O guarda sumiu;
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
18 Complemento nominal autônomo (A NGB não discrimina.)
infinitivo - Deu-lhe a saudade de trabalhar;
palavra substantivada - O companheiro da recém-admitida é jovem;
pronome substantivo - O sotaque dele mudou;
substantivo - O cunhado de Teresa viajou;
Observações
Deu-lhe a saudade de trabalhar ≅ *Nostalgiaram o trabalhar;
O companheiro da recém-admitida é jovem ≅ *A recém-admitida “companheirou”;
O sotaque dele mudou ≅ *”Sotaquearam”-no;
O cunhado de Teresa viajou ≅ *Teresa “cunhadou”;
Não há verbos cognatos de saudade / nostalgia, companheiro, sotaque,
cunhado.
19 Fundamental (Termo não contemplado na NGB.)
infinitivo - Comer, a necessidade primeira, não devia ser um problema
social;
palavra substantivada - O bem-criado, a criança prodígio, viajou;
pronome substantivo - Ela, a feiticeira, não compareceu;
substantivo – Ivã, o czar da Rússia, era terrível.
Observações
Embora este trabalho não trate de orações complexas, é interessante observar
que o fundamental pode ser uma oração inteira: Comer muito, a necessidade
primeira, não devia ser um problema social.
20 Invocatória Assintática / Vocativo (Termo não-classificado
na NGB.)
infinitivo – [Ó], sofrer, porque a vida é assim tão cheia de incertezas;
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palavra substantivada – [Ó], esbelta, eles não sabem o que estão fazendo;
pronome substantivo – [Ó], você, não imagino uma vida sem leitura;
substantivo – [Ó], céus, há segurança nesta Terra?;
Observações
A invocatória assintática ou vocativo propriamente dito não é um termo oracional na acepção plena da palavra, por não ter, assim como a preposição,
a conjunção e a interjeiçao, função definida. À diferença destas, porém, há
diversos grupos de palavras (os nominativos) que podem ser vocativos próprios, ou vocativos stricto sensu (quando também não têm função sintática,
apenas ocupam um tópos, um lugar na seqüência de termos da oração. Eis a
razão por que este, que é o verdadeiro vocativo, ocupa uma das colunas da
tabela.
A invocatória sintática ou vocativo soi-disant, por outra, vocativo não é,
senão um aposto. Cp. [Ó] Virgem Mãe, por que há guerras? e Valei-me [vós],
[ó] meu Santo Antônio!, em que a Mãe de Deus é um vocativo, mas o santo
não: pertence a outro grupo, o do aposto, aposto do elíptico vós. Nossa Senhora não é retomada em porque há guerras?, mas o padroeiro de Portugal o
é, antecipado em Valei-me, no pronome pessoal implícito me: o santo, longe
de ser um vocativo, é um aposto de vós; a Virgem, contrario sensu, é um
vocativo mesmo, e por isso se resume na frase à posição de interlocutora
evocada.
Não há função sintática propriamente, mas há binômio, há célula na tabela,
há encontro nominativo-vocativo, quando um dos nominativos ocupa o lugar
invocatório assintático.
Na língua portuguesa o aposto e o vocativo têm interessantes particularidades. O vocativo, como visto, em dupla com a invocatória, o aposto
em dupla com a aposição. Nessa linha, nem toda a aposição é aposto,
nem toda a invocatória é vocativo; contudo, as recíprocas são verdadeiras: todo aposto está em aposição e todo vocativo é uma invocação.
Conclusão da Parte – I
Como são 4 grupos no conjunto dos nominativos, e 20 termos / funções na
oração, há, por enquanto, 4 x 20 = 80 encontros léxico-sintáticos.
Direito Vernacular: estrutura do idioma Português, e proposta de modificação da nomenclatura gramatical brasileira em comento - I
Viu-se o conjunto dos nominativos (A). Falta verem-se o conjunto dos modificantes (B) e o dos circunstanciais (C), que se fará na parte II, completandose o modelo que se propõem. Nela também se desenvolverão alguns tópicos
que serão retomados bem como se comentará com especificidade maior a
NGB, que é de 1959.
Como se verá, tanto os modificantes (5 x 20 = 100) como os circunstanciais
(3 x 20 = 60) não desempenham, como ocorre com os nominativos, todas
as 20 funções sintático-oracionais do idioma (80 + 100 + 20 = 240), daí a
citada redução de 240 encontros, hipotéticos, para cento e poucos, possíveis,
menos da metade.
_____________________
Co-autor, com Celso Mendes, Paulo Baltazar Carneiro e Roberto Bocaccio Piscitelli, da
obra Doutrina e Direito Contábeis (2ª ed., São Paulo: Ed. Atlas, 1985), livro pioneiro no ramo
do Direito Contábil Brasileiro. Advogado e Especialista em Metodologia de Ensino, leciona
Português no Cefor (Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos
Deputados).
1
Os grupos gramaticais são chamados de classes léxicas, na nomenclatura jurídica da NGB.
Aqui chamam-se categorias léxicas, porque, em sua classificação, toma-se em conta, além dos
aspectos morfológicos, comprometimento com as possíveis funções que desempenham, e com
a didática.
2
A Nomenclatura Gramatical Brasileira – NGB é anexa à Portaria Ministerial nº 36, de 28 de
janeiro de 1959, do então Ministério da Educação e Cultura.
3
O pronome sai, e retorna (veja mais abaixo na tabela) subdividido em pronome substantivo e
pronome adjetivo.
4
O predicativo sai, e retorna (veja mais abaixo na tabela) subdividido em predicatibo do
sujeito e predicativo do objeto.
5
6
A teoria lingüística da valência, de Lucien Tesnière, é de 1965.
Basta comparar as linhas da coluna 4 da tabela com a matriz morfossintática. Nas linhas da
coluna 1 dela aparecem, de plano, o artigo e o substantivo.
7
8
Sai da finalidade deste trabalho desenvolver as diferenças entre adjuntos adnominais no
9
Seria à oração verbo-nominal, na porção nominal.
efeito preposição.
10
A precedência do asterisco tem por fim marcar a agramaticalidade.
11
Seria à oração nominal.
12
Seria à oração verbal.
O argumento de regencia da gramática espanhola, que o autor extraiu das aulas de espanhol
que administra.
13
14
Seria à oração verbal.
15
Seria à oração verbal.
16
Seria a ambas, oração verbal e nominal.
17
Em contraponto ao agente da passiva verbal. No item seguinte, 13, o complemento nominal
123
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tipo complemento adverbial em contraponto ao complemento adverbial verbal, etc., até o item
18.
18
Foi prejudicado por seu mal-querer pode ser considerado um caso de agente da passiva,
conversível, na voz ativa, em Seu mal-querer o prejudicou; ou então, eliminando-se o pronome
possessivo especificador “seu”, um caso da voz ativa, interpretado como Foi prejudicado
porque mal-queria. Por demais, é cediço em português o conhecimento das ambigüidades
que por vezes afloram das orações reduzidas. (Assunto ademais tratado no capítulo V do livro
do autor, Doutrina e Direito Vernacular. Gramática Estruturada do Português Instrumental,
citado no início do trabalho em presença.)
19
Nos clássicos, obedecer pedia objeto direto, daí a correição de Foi obedecido. Hoje encontramse ambas as regências, pendendo a norma culta pela indireta, motivo do exemplo.
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