2.4 O Sul de África e os Hotentotes
No ano de 1497, Vasco da Gama dobra o cabo da Boa Esperança a
caminho da Índia, concretizando o tão aspirado desejo de avistar o
Oriente. Impressões iniciais sobre a costa oriental africana e os primeiros
contactos com os seus habitantes seriam (a)notadas já, durante a viagem,
por um dos tripulantes da nau portuguesa, Álvaro Velho. Como escrivão
desta viagem, Velho apontaria, no seu diário, as experiências e os novos
dados observados e adquiridos pelos nautas portugueses durante esta
célebre viagem. As suas descrições concisas e pormenorizadas em forma
de reportagem contribuiriam, sobremaneira, para a formação de uma
imagem mais clara da África meridional e dos seus autóctones:1
"Nesta terra há homens baços, que não comem senão lobos marinhos e
baleias, e carne de gazelas, e raízes de ervas; e andam cobertos com peles
e trazem umas bainhas em suas naturas. E as suas armas são uns cornos
tostados, metidos em umas varas de zambujo; têm muitos cães, como os
de Portugal, e assim mesmo ladram."2
Este texto de Álvaro Velho salienta, em primeiro plano, a novidade
registada na diferença com o que lhe é conhecido. Mesmo na descrição de
pequenos detalhes, mas que, nas suas características, se lhe apresentam
inovadores, Velho destaca o diferente. O autor procura enquadrar o seu
registo num contexto explicativo, cotejando frequentemente a novidade e
a diferença com os hábitos portugueses. Com efeito, estes constituem o
critério inerente ao conhecimento e consequente registo. Para além disso,
eles incorporam a norma a seguir, dado que se parte do princípio que os
portugueses viveriam num nível mais elevado de desenvolvimento, daí a
surpresa ao verificarem que estes íncolas tinham alguma noção de música,
o que não se esperaria destas gentes:
"E eles começavam logo de tanger quatro ou cinco flautas, e uns tangiam
alto e outros baixo, em maneira que concertavam muito bem para negros
de que não se espera música."3
1. Sobre os primeiros relatos do caminho marítimo para a Índia, veja-se João Rocha Pinto, A
viagem, Memória e Espaço. A Literatura Portuguesa de Viagens, Os primeiros relatos de
Viagem ao Índico 1497-1550, Lisboa, 1989.
2. Álvaro Velho, Relação da Primeira Viagem à Índia Chefiada por Vasco da Gama, in: José
Manuel Garcia (ed.), Viagens dos Descobrimentos, Lisboa, 1983, pp. 155-224, sobretudo, p.
161.
3. Idem, p. 164.
104
EM VIAGEM
Além de reparos alusivos aos moradores destas paragens, Álvaro Velho
observa a natureza física, pois como já afirmara no início do seu diário,
um dos principais objectivos desta viagem, seria: a busca das especiarias.4
Logo a procura de produtos raros e preciosos, bem como de matérias
primas reflectir-se-iam profusamente na composição deste seu
apontamento.
Quando os portugueses se afastam do Cabo da Boa Esperança e, avançam
em direcção ao norte, deparam com a presença de um outro grupo de
autóctones. Se, de facto, os da ponta meridional se tinham mostrado como
"gentios e he gente bestial", na costa oriental encontrariam muçulmanos.
Daí que o confronto não constitua apenas uma diferença civilizacional,
como acontecera com os gentios, mas sim um forte antagonismo. O
interesse comum no comércio e hegemonia económica regional dificultaria o diálogo e reforçaria indubitavelmente a intolerância perante
este povo inimigo.
Nas viagens posteriores reforça-se o interesse pela costa oriental, servindo
a ponta meridional apenas como ponto de passagem. Com efeito,
Moçambique tornaria-se a escala preferida da Carreira da Índia, visto que
aqui se efectuava contrabando do ouro e ainda devido às aliciantes
informações que ali se recebiam do Oriente.
As novas relativas à segunda viagem de Vasco da Gama (1502), tal como
da primeira, rapidamente se difundiram na Europa. As enormes
quantidades de especiarias a bons preços suscitavam grandes esperanças
de excelentes negócios e vultuosos lucros.
Estas notícias criavam a maior expectativa e interesse dos comerciantes,
em toda a Europa, pelo que algumas casas comerciais alemãs tudo fariam
para participar nas viagens marítimas para a Índia. É, assim, que iremos
encontrar o alemão Balthasar Springer na frota de D. Francisco de
Almeida de 1505.5 No relato que deixou desta sua viagem, Springer refere
que, no Cabo da Boa Esperança, os homens andariam quase nus, que
apenas tapariam as vergonhas com peles e que, tanto os homems como as
mulheres, usariam grandes sandálias. Que alguns vestiriam peles de
animais penduradas nas costas, que untariam o cabelo com óleo e que
teriam uma linguagem estranha e extraordinária.6 Com este apontamento,
Springer desenha assim uma primeira imagem dos habitantes do Cabo da
4. Idem, p. 159.
5. Veja-se o cap. 1.1.
6. Balthasar Springer, Die Merfart und erfarung nüwer Schiffung..., s.l. (Oppenheim), 1509,
ed. Max Pannwitz, Stuttgart, 1912, p. 16. Sobre Springer, veja-se Franz Schulze, Balthasar
Springers Indienfahrt 1505/1506, Estrasburgo, 1902.
SUL DE ÁFRICA E OS HOTENTOTES
105
Boa Esperança, que logo encontraria expressão gráfica na sua Merfart.
Intitulada "In allago",7 esta gravura, uma das primeiras representações
iconográficas dos autóctones do Cabo da Boa Esperança, constitui um
importante contributo da Alemanha empenhada em traçar
iconograficamente o conhecimento de etnias, trajes ou costumes de povos
recém-descobertos.
Este pequeno elenco de notícias representaria, durante muito tempo, as
poucas referências que se poderiam conhecer desta longínqua ponta
meridional de África. De facto, o Cabo da Boa Esperança só volta a ser
alvo de interesse, muito mais tarde, quando a Companhia Holandesa das
Índias decide construir um forte e, posteriormente, fundar uma colónia
nesta zona do continente africano.8 A necessidade de uma base de apoio
para a longa viagem até à Índia leva os holandeses a escolherem um local
estratégico junto do Cabo onde os navios pudessem fazer escala. Este
local fértil, com ar saudável e muita água, como assinalam grande parte
das fontes coevas,9 oferecia óptimas condições para o abastecimento dos
navios de água e mantimentos. Logo de início os habitantes acordaram
fornecer-lhes alimentos, mormente, carne, um dos meios de subsistência
económica dos íncolas, em troca de tabaco, cobre ou outros produtos.
Estas condições avigoravam-se, pois, como óptimas premissas na escolha
da localidade que, a partir de 1652, se iria tornar propriedade da VOC.
O Cabo da Boa Esperança não era uma região de grande interesse
económico. O seu papel residia principalmente na necessidade de um
porto onde ancorar entre a Europa e a Ásia. Será sempre, aliás, este
aspecto que irá caracterizar as actividades da VOC no Cabo. Em primeiro
lugar era necessário estar atento às necessidades dos navios que passavam
a caminho para a Ásia, ou no regresso, pelo que é para eles e sua
tripulação que se construirá o forte e um hospital.
Os contactos entre holandeses e os habitantes, a que deram o nome de
hotentotes, reduziam-se principalmente ao comércio de carne. Desde os
primeiros encontros que os hotentotes foram descritos como um povo
7. Veja-se Walter Hirschberg, Monumenta Ethnographica. Frühe völkerkundliche
Bilddokumente, Vol. 1, Schwarzafrika, Graz, 1962, pp. 1-13.
8. Sobre este período da história do sul de África, veja-se o aturado estudo de Richard
Elphick e Hermann Giliomee (Ed.), The Shaping of South African Society, 1652-1820, Cape
Town, 1979, bem como Jörg Fisch, Geschichte Südafrikas, Munique, 1990.
9. Os viajantes mostram-se ainda especialmente fascinados pelas montanhas, entre elas, a
Tafel-Berg,; veja-se, por exemplo, Elias Hesse, Ost=Indische Reise= Beschreibung...,
Leipzig, 1690, ed. S.P. L'Honoré Naber, Haag, 1931, Vol. 10, pp. 25-29.
106
EM VIAGEM
estranho e incivilizado, como se pode ler no Itinerario10 de Jan Huygen
van Linschoten. Esta imagem preconceituada irá permanecer, durante
muito tempo, determinando, sobremaneira, o relacionamento entre
europeus e os habitantes do Cabo. Na verdade, se grande parte dos
visitantes da colónia holandesa se referem aos íncolas sul-africanos, o
certo é que o fazem, repetindo juízos já prevalecentes desde os primeiros
relatos, juízos estes que se iriam tornar verdadeiros topoi. Ainda antes da
formação da colónia no Cabo, por volta de 1646, o funcionário da VOC,
Johann Sigmund Wurffbain, de regresso das Molucas escreve:
"[...] os habitantes de aspecto idêntico aos seres humanos, assemelham-se,
contudo, nos costumes e na sua restante maneira de viver aos animais
irracionais; em vez de roupagens usam, em sua volta, rudes peles de
carneiro, de ovelha ou de leão [...] são, além disso, muito indolentes e
preguiçosos; e não se preocupam nada com o cultivo dos campos ou com
a pesca, apesar de aqui terem uma das melhores possibilidades [de
sustento], contentam-se somente com aquilo que apanham na caça, para a
qual fazem setas e arcos, bem como lanças de madeira, cujas pontas são de
ferro ou cobre; a carne comem-na assim crua e sangrenta como também
grelhada no fogo e, por vezes, é verdade, andam com as tripas mal
cheirosas penduradas ao pescoço e comem esta monstruosidade juntamente com os excrementos".11
10. O texto de Jan Huygen van Linschoten seria publicado por Theodor de Bry, Ander und
Dritter Theil der Orientalischen Indien, Frankfurt/M., 1598. Numa das gravuras das viagens
holandesas, com o número sete, deparamos, em primeiro plano, com dois hotentotes, que
seguram avidamente as tripas de um animal que, ao lado, os holandeses tinham acabado de
matar. Ao fundo, mais indígenas grelham o resto das tripas. A acompanhar esta gravura
encontra-se a seguinte legenda: "Dieses Volck ist ziemlich kleiner Statur, von Farben
rothbraun/ gehet gantz nackend/ bedecken sich allein mit einer Ochsehaut/ da raw inwerts gewant/ an satt eines Mantels/ vmbgürten sie sich mit einem breiten Gürtel derdelbigen Haut/
darvon vornen für ihrer Scham eine Spitze abhangt/ etliche binden dünne Brettlein vnter die
Füß. Ihr bester Zierraht sind Ring vnd Armbänder von Kupffer/ Helffenbein/. Es begabt sich /
daß wir einen Ochsen schlachten/ da kamen die Wilden zu vns/ baten vns vmb das Ingewayd/
lassen dasselbige rohe/ wann sie ihnen gütlich thun wöllen/ steckte_~ sie vier Stützel in die
Erden/ spanneten darüber ein Stück von einer Ochsenhaut also daß sie etwas eingebogen ist/
gleich einem Kessel/alsdann legten sie die Caldannen darein/ gossen Wasser zu/ machten ein
Fewer darunter/ lassen es ein wenig warm werden/vnd verzehrten alsdann zusammen/ wie in
dieser Figur zu sehen".
11. "[...] die Einwohner sind von Gestalt den Menschen zwar ähnlich, an Sitten aber und ihrer
übrigen Lebens-Art, auch dem unvernünfftigen Vieh nicht ungleich, werffen an statt der
Kleider rauhe Böck-Schaafs-oder Löwen-Häute umb sich [...] dabey sind sie sehr träg und
faul, und bemühen sich gantz nicht mit Feldbauen oder fischen, ob sie schon hierzu die beste
Gelegenheit hätten, sondern behelffen sich allein mit dem was sie auf der Jagt fangen, worzu
sie Pfeil und Bogen, auch Spiese von Holtz mit eisern oder kupffernen Spitzen versehen,
gemacht, gebrauchen, dann das Fleisch so wol roh und blutig, als auch beym Feuer gebraten
SUL DE ÁFRICA E OS HOTENTOTES
107
E, mais à frente, Wurffbain refere que não falam nenhuma língua ou que a
sua voz não é uma voz humana normal, dado que "gargarejam e dão
estalos com a boca de uma maneira particular",12 embora reconheça que se
entendem uns com os outros.
Já aqui se denota uma certa estranheza em relação aos usos e costumes dos
hotentotes que lhes parecem tão incompreensíveis: o seu aspecto exterior,
o facto de não trabalharem as terras, bem como a forma como cuidam e
comem os animais que caçam constituem uma série de aspectos
depreciativos do seu comportamento.
Alguns anos mais tarde, em 1663, um médico alemão também ao serviço
da VOC, Johann Jacob Merklein, escreve sobre a colónia holandesa, onde
esteve no regresso da sua viagem a Java. Num dos primeiros depoimentos
sobre a implantação dos holandeses no Cabo, Merklein escreve: "Os
habitantes da terra são gente silvestre, pequenos, magros, untados e
porcos; a falar quase que parece que carcarejam, como os galos indianos;
vivem do armentio, do qual possuiem uma grande quantidade" e, depois
de esclarecer como são as suas casas, continua: "A sua roupagem consiste
num manto de peles, não preparadas, e num pedaço de pele de cabra por
cima das suas vergonhas. Além disso andam quase nus, embora muitas
vezes faça muito frio [...] A comer são muito porcos e apesar de terem
muito armentio, quando os holandeses matam uma vaca, não deixam de
lhes cobiçar as tripas; depois de passarem os dedos por elas para lhe
tirarem alguns excrementos colocam-nas no fogo e, ainda estão meias
grelhadas, já eles as trincam com um tal apetite que dá horror ver. A
gordura destas mesmas tripas usam-na para untar o seu corpo nu, o que
consideram um adorno; mas, por isso, é difícil lidar com eles, pois
cheiram tão mal que não se pode estar ao pé deles".13 Merklein acabara de
fressen, ja wol manchesmal mit denen stinckenden Gedärm umb den Hals behangen herumb
laufen, und solche Abscheulichkeit zusamt den Koth verzehren", Johann Sigmund Wurffbain,
Vierzehen Jährige Ost Indianische Krieg=und Ober Kaufmanns=Dienste..., Sulzbach, 1686,
ed. S.P. L'Honoré Naber, Haag, 1931, Vol. 8 e 9 , aqui vol. 9, p. 136. De igual modo os
descreve, Albrecht Herport, Neuwe Ost-Indianische Reyßebeschreibung, Bern 1669, ed. S.P.
L'Honoré Naber, Haag, 1930, Vol. 5, p. 20.
12. "[...] gurgeln und schnaltzen auf eine gantz besondere Weise mit dem Mund", Idem, p.
136.
13. "Die Inwohner des Lands sind wilde Menschen, nicht groß von Person, mager, beschmirt
und unflätig, klucken mit ihrer Sprache bey nahe, wie die Indianischen Hühner; leben von
dem Vieh, dessen sie eine grosse Menge haben [...] Ihre Kleidung bestehet in einem
Mäntelein, von unbereiteten Fellen, und einem Stücklein von einem Schafsbeltz, vor ihrer
Scham. Im übrigen gehen sie nackicht, wiewol bisweilen zimlich kalt ist; [...] Im Essen sind
sehr säuisch, denn wiewol sie viel Vieh haben, so begehren sie doch, wann die Holländer ein
Rind schlachten, desselben Därmer; von denen sie nur den Koth zwischen den Fingern
108
EM VIAGEM
formular os principais aspectos que iriam caracterizar os hotentotes na
grande maioria das descrições que lhes são dedicadas. Já na primeira frase
se nota que o autor não tem quaisquer dúvidas, de que se trata de gente
selvagem. Os motivos que o levam a fazer tal afirmação residem no facto
de os usos e costumes destes povos se distinguirem, extraordinariamente,
dos costumes conhecidos; quando comem as tripas praticamente cruas ou
ainda cheias de excrementos, se untam com a gordura dos animais, tendo
um aspecto desmazelado e sujos, aos olhos dos europeus, e deixando nos
seus narizes um cheiro insuportável.
Que se trata efectivamente de um povo selvagem, é uma questão aturada e
extensivamente debatida. Para além de repugnantes e bestiais costumes,
alguns autores justificam o seu horripilante aspecto e abominável
comportamento no facto de os hotentotes não conhecerem nenhuma
religião, sendo assim considerados, por exemplo, pelo comerciante
holandês da VOC, Johan Neuhof, como o povo mais selvagem ao cimo da
terra. A seu ver, muitos povos não conheceriam o verdadeiro Deus ou um
ser supremo, mas adorariam ídolos, a lua ou outros objectos. Eis a grande
surpresa por não encontrarem, entre este povo, qualquer indício de prática
religiosa.14
Jürgen Andersen, que esteve em 1644 no Cabo, vai mais longe nas suas
conclusões e afirma que "na sua maneira de viver e ser são relativamente
gente silvestre e besta que em nada se parece gente racional"; eles cheiram
mal e a sua língua nada deixa ouvir de humano; as faces horrivelmente
enrugadas, nus, não constróiem, vivem de ervas e nada sabem quer de
Deus quer do diabo,15 chegando a denominá-los inumanos quando refere
uma cena de canibalismo. Andersen é, todavia, o único que faz algumas
especulações sobre hábitos antropófagos, ao relatar a captura de dois
durchziehen und heraus streiffen, hernach auf das Feuer legen: Und wann sie noch nicht halb
gebraten, als dann beissen sie mit solchem Appetit davon, daß einem grauen möchte, des er
ansihet. Das Fette von denselbigen Därmern, schmieren sie auf ihren blossen Leib, welches
sie für eine Zier halten; davon sie so abscheulich stinken, daß nicht wol mit ihnen umzugehen
ist." Johann Jacob Merklein, Reise nach Java, Nuremberga, 1663, ed. S.P. L'Honoré Naber,
Haag,1930, Vol. 3, pp. 107-08.
14. Veja-se Johan Neuhof, Die Gesantschaft/ der Ost=Indischen Geselschaft, Amsterdão,
1669. Veja-se ainda R. Raven-Hart (Ed.), Cape Good Hope 1652-1702, The First Fifty Years
of Dutch Colonisation as seen by callers, 2 vols, Cape Town, 1971, vol I, pp. 16-23.
15. "[...] an ihrem Leben und Sitten recht viehische wilde Leute (sind)/ die auch kaum
vernünftigen Menschen ähnlich sehen [...] die Sprache kan man kaum vernehmen/ daß es
menschlich / ist [...] und sie wissen nichts weder von Gott noch dem Teufel". Jürgen
Andersen, Orientalische Reise=Beschreibung, In: Adam Olearius (Ed.), Orientalische
Reise=Beschreibung, Schleswig, 1669, pp. 1-171, aqui, p. 4.
SUL DE ÁFRICA E OS HOTENTOTES
109
mareantes da sua tripulação que, depois de cortados aos pedaços, teriam
sido comidos por hotentotes.16
A falta de determinados valores considerados, para os europeus,
indicadores de civilização leva a que os hotentotes, aos olhos dos
viajantes, se assemelham a animais. Pela primeira vez encontrar-se-ia um
povo que não conhecia nenhuma norma sendo, aos olhos dos europeus, o
povo mais selvagem da terra. De facto, as populações conhecidas na costa
ocidental viviam de forma simples e quase animalesca, mas sempre com
uma certa polícia: muitos já sabiam trabalhar a terra, tinham casas e
conheciam uma certa religiosidade. Apoiando-se no testemunho dos
teólogos, Neuhof afirma que nenhum povo é tão bárbaro que não conheça
um ser supremo, seja ele falso ou verdadeiro.17
O holandês Wouter Schouten sublinha, na sua Ost-Indischen Voyage, que
é lamentável, que homens, como os hotentotes descendentes de Adão,
vivam em condições tão inumanas e atrozes. Vivendo, assim, tão distantes
do que se chama humanidade, Schouten considera que, mais se
assemelham aos animais, do que a homens racionais. É, por isso, que os
considera um povo miserável que se deixou chegar a um modo de viver,
lamentável e horrível, sem conhecer Deus e a salvação.18
Nestas circunstâncias os autores tentam incessantemente encontrar algum
acto, algum comportamento que se possa parecer a uma manifestação, a
uma prática religiosa. O padre alemão Johann Christian Hoffmann
preocupa-se em reconhecer um sentimento hierático entre os hotentotes,
apesar de inicialmente os ter considerado mais "como monstruosos
macacos do que integros homens; e isto, sem dúvida, porque nada têm de
parecido com os homens, pelo que, em verdade e, em face da sua
barbariedade, são as gentes mais miseráveis que alguma vez vi".19 No
entanto, chama a atenção para o facto de, nos dias de Lua cheia, os
hotentotes virem, para a rua, dançar e cantar, sendo este eventualmente um
acto de adoração à natureza.20
16. Idem, p. 5.
17. Veja-se Neuhof, op. cit., pp. 16-23.
18. Wouter Schouten, Ost-Indische Reyse, Amsterdão, 1676; ver Raven-Hart, op. cit., p. 7992.
19. "[...] mehr vor ungeheure Affen, alß vor rechtschaffene Menschen ansahe, und gewißlich!
wegen ihrer Unmenschligkeit haben sie fast nichts an sich, daß einem Menschen ähnlich ist,
und daher seyn sie in Warheit die allerelendesten Menschen, die Ich jemahl gesehen", Johann
Christian Hoffmann, Oost= Indianische Voyage, Leipzig, 1680, ed. S.P. L'Honoré Naber,
Haag, 1931, vol. 7, p. 26.
20. Veja-se também Johann Jacob Saar, Ost=Indianische Funfzehen=Jahrige
Kriegs=Dienste...., Nuremberga , 1672, ed. S.P. L'Honoré Naber, Haag, 1930, vol. 6, p. 179.
110
EM VIAGEM
Hoffmann interroga-se, de igual modo, como é que um povo descendente
de Adão se deixou chegar a este estado, vivendo "mais entre os animais
estúpidos" do que entre a gente racional21 e as suas observações terminam
num apelo, enlevado de queixa e de agradecimento:"Oh pobre povo
desprezado, a tua situação é lastimável, Deus seja louvado que, do abismo
desta escuridão, nos chamou para a sua maravilhosa luz".22 Este apelo não
assinala, todavia, qualquer intuito de libertar os hotentotes da escuridão.
Tal libertação só poderia ser formulada num gesto de missionação, que
curiosamente não é, em contraposição a outras regiões do continente
africano, referenciada nestes textos. Apenas encontramos uma excepção o
padre jesuíta Guy Tachard que, alguns anos mais tarde, em 1685, censura
a falta de orientação religiosa entre os hotentotes. Lamentando que não se
lhes tenha dado a conhecer a Deus, Tachard critica o terem-lhes negado a
oportunidade de salvarem as suas almas. Na sua opinião, uma acção
missionária desta envergadura não seria mais difícil para os europeus, do
que percorrer o interior à procura de minas ou de produtos para
comerciar.23
Já nas primeiras fontes se menciona que se teria ensinado a língua
holandesa a alguns hotentotes para que estes pudessem servir de
intérpretes. O caso mais excepcional é o de Eva, uma hotentote educada
por holandeses. Eva chegaria a casar cristãmente com o dinamarquês
Pieter van Meerhoff, um cirurgião, mas, após a morte do marido,
abandonaria os filhos e voltaria para junto dos seus. Vindo a ser presa
várias vezes por alcolismo e prostituição, Eva acabaria os seus dias, em
1674, na cadeia.24
O funcionário da VOC, Martin Wintergeist menciona, por exemplo, que
muitos holandeses já teriam experimentado retirar as crianças às mães para
os educarem, mas assim que estas atingiam alguma idade "deixam a boa
vida e seguem a vida rude dos pais".25 Conta então o caso do famoso e
21. "[...] mehr unter das dumme Vieh alß in die Zahl der vernünfftigen Menschen",
Hoffmann, op. cit., p. 31.
22. "O elendiges verlassenes Volck, sehr bekläglich ist dein Zustand! Gott aber sey Danck,
der uns auß dem Abgrund dieser Finsternüs gerufen hat, zu seinem wunderbahren Liecht.".
Idem, p. 31.
23. Guy Tachard, Curieuse und Merckwürdige Reise nach Siam..., Hamburgo, 1708, pp. 100101.
24. Sobre este caso Richard Elphik e Robert Schell, Intergroup relations, in: Richard Elphick
e Hermann Giliomee (Ed.), op. cit. pp. 118-119.
25. "[...] man hat schon probiert, Kinder ihren Müttern wegzunehmen und auf andere Weise
zu erziehen, aber sobald sie in die Jahre kamen, haben sie das gute Leben verlassen und das
grobe ihrer Eltern fortgeführt". Martin Wintergest, Zwischen Nordmeer und Indischen Ozean,
Memmingen, 1712, ed. Rainer Redies, Darmstadt, 1988, p. 173.
SUL DE ÁFRICA E OS HOTENTOTES
111
conceituado general Reh e do seu hotentote. O general ter-lhe-ia ensinado
alemão, vestiu-o com um fato vermelho com bordas prateadas. Mas assim
que ele pode ir ter com os seus, logo o despiu, pendurou uma pele de
cabra e passou a viver outra vez como os outros hotentotes. Apenas uma
coisa teria conservado, um largo colar de prata que usava ao pescoço, e
deixava-se tratar por capitão Peg, título a que os outros obedeciam
lisongeiramente.26
As razões e os motivos para o comportamento dos hotentotes dependiam,
naturalmente, da perspectiva de cada um dos autores. Uns acreditavam
que estes viviam como os animais, simplesmente porque não gostavam de
trabalhar. Volquart Iversens que, no regresso de Batavia, ficou um mês no
Cabo, escreve que se trata pura e simplesmente de um povo preguiçoso; os
holandeses já teriam conseguido habituar alguns a trabalhar, dando-lhe
tabaco, arroz, mas eles gostavam mais de ficar sentados a olhar. Para os
levar a tratar de gado, varrer, escavar etc, só dando-lhes algo antes e dizerlhe que quando terminassem receberiam mais. E mesmo assim muitos
fugiam.27
Johann Schreyer, que trabalhou oito anos - de 1669 a 1677 - como
cirurgião na colónia do Cabo refere igualmente que eles só trabalham
quando a fome os obriga; e que assim que a saciaram e, lhes deram o que
queriam, tabaco ou arroz, eles fogem.28
Esta opinião é defendida por muitos autores, como Christopher Fryke, da
cidade de Ulm que, por isso, menciona ser indiferente pedir-lhes para
26. "Der große und berühmte General Reh hielt sich ebenfalls einen Hottentotten. Er brachte
ihm Deutsch bei und kleidete ihn in ein rotes Kleid mit silbernen Borten. Sobald der Mann
aber wieder zu de Seinen kam, warf er sein Kleid von sich, hängte sich eine Schafshaut um
und lebte wieder wie jeder andere Hottentotte. Nur dies behielt er bei, daß er ein breites
silbernes Halsbrand trug und sich Kapitän Peg nannte, dem die anderen alle gern
gehorchten". Idem.
27. "Sie sind faule Leute/ mögen nicht arbeiten/ die Holländer haben etliche an sich
gewehnet/ daß sie faule Arbeit verrichten/ bekommen dafür Toback/ Reiß uns sonst zu essen/
sitzen sonst gerne und sehen zu. E continua: "Wenn man sie an die Arbeiten bringen will: als
graben/ Karnschieben/ außkehren/ Viehe hüten/ so muß man ihnen zuvor etwas geben/ und
Hoffnung machen/ daß wenn die Arbeit gethan / sie noch mehr bekommen sollen. Und wenn
sie
solches
erlanget/
lauffen
darvon".
Volquart
Iversens,
Ost=Indischen
Reisebeschreibungen, In: Adam Olearius, (Ed.), Orientalische Reisebeschreibung, Schleswig,
1669, p. 173.
28. "Der Männer meiste Arbeit ist faulentzen, es sey denn, daß sie der Hunger zwinget, bey
den Europaeern umb ein Stück Toback und etwas Reiß zu arbeiten. Allein so bald der Hunger
gestillet ist, lauffen sie wieder davon, und deßwegen gaben wir ihnen kein essen, sie musten
denn zuvor die vorgegebene Arbeit verrichtet haben". Johann Schreyer, Neue
Ost=Indianische Reiß=Beschreibung..., Leipzig, 1681, ed. S.P. L'Honoré Naber, Haag, 1931,
vol. 7, p. 40.
112
EM VIAGEM
fazerem alguma coisa, pois só o fazem quando sentem fome.29 Eles viveriam, deste modo, sem grandes preocupações, comendo quando a fome
aperta, aquilo que encontram ou trabalhando um pouco para o adquirir,
mas saciada a necessidade, logo voltariam a descansar. Johann Wilhelm
Vogel acrescenta ainda que, aos olhos dos hotentotes, os europeus seriam
escravos das suas ambições, nomeadamente, cultivar terra, construir fortes
e muitas mais coisas afins.30
O padre jesuíta francês Tachard confirma esta posição dos hotentotes,
contando o caso de um autóctone que em muito jovem teria sido recolhido
por um comandante holandês e que mais tarde, já adulto, o viria a abandonar. Quando questionado sobre as razões por que o teria feito, ele teria
respondido que não conseguia viver como os holandeses, pois os
hotentotes não se deixariam escravizar, comiam quando tinham fome,
seguiam pura e simplesmente as leis da natureza e viviam felizes assim.31
Nesta resposta reconhecemos a postura do seu autor que dá forma e
expressão à imagem do bom selvagem que continua a acreditar na vida
simples e natural que seguia antes da chegada dos europeus. Isto é: regindo-se pelas leis da natureza, o hotentote não abdica da sua maneira de
viver, que apesar da sua simplicidade lhe parece mais a sua do que a dita
civilização propagada pelos europeus.
Mas, pouco a pouco, os hotentotes iriam aquistar alguns defensores que,
tentando compreender a sua forma de vida, visavam corrigir os
preconceitos iniciais. É o caso da obra de Georg Meister que, em 1688,
advoga que este povo já muito teria aprendido.32 Para além desta, a de
Peter Kolb é também um exemplo excepcional de uma descrição aturada,
bem intencionada e precisa, ao mesmo tempo, de uma das primeiras
monografias sobre os hotentotes.
Peter Kolb que estudara Matemática, Física, Línguas orientais e Teologia,
começaria a trabalhar, em 1702, como secretário e preceptor em casa do
conselheiro prusso, Bernhard Friedrich von Krosigk. Este viria a enviá-lo,
no ano de 1705, para o Cabo da Boa Esperança, a fim de aí realizar alguns
estudos astronómicos e meteorológicos. Kolb ficaria até 1713, ano em que
teria de partir forçosamente visto que, no ano anterior, perdera a vista.
Kolb teve, assim, a oportunidade de, durante sete anos, contactar com o
povo hotentote, recolhendo uma inestimável fonte documental relativa aos
29. Christopher Fryke, Ostindische Reise..., Ulm, 1692; Veja-se Raven-Hart, op. cit., p. 235.
30. Johann Wilhelm Vogel, Ost-Indianische Reisebeschreibungen, Altenburg, 1716; veja-se
Raven-Hart, op. cit., p. 218.
31. Veja-se Tachard, op. cit., p. 99-102.
32. Veja-se, Georg Meister, Orientalisch-Indischer... Gärtner, Dresden, 1692.
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seus usos e costumes nos inícios do século XVIII. De facto, com esta sua
obra, o cientista alemão Kolb propunha-se dar uma imagem mais correcta
dos hotentotes, desejando desfazer alguns erros propagados anteriormente.
Nas vinte e duas cartas que envia ao Baron de Krosigk, Kolb regista as
suas observações, as suas experiências e os seus conhecimentos sobre a
vida deste povo. Distanciando-se das opiniões institucionalizadas, Kolb
procura conhecer e compreender as razões e os mecanismos desta
sociedade africana. Já na sua segunda carta escreve que muitos autores
teriam afirmado, entre muitas coisas, que esta gente seria estúpida,
insensata e simples, uma vez que nada sabiam de Deus ou de outras coisas
necessárias e substanciais. Além disso, que seriam muito porcos a comer e
que como se untavam com gordura fedorenta, cheiravam horrivelmente.
Kolb comenta que tal descrição não seria incorrecta ou mentira, mas que,
no seu ver, seria necessário ter em conta que eles, em cotejo com os
nossos ou com outros povos, poderiam parecer estúpidos; isso estaria fora
de dúvida, dado que eles não viveriam como outros povos civilizados.
Contudo, na sua maneira de viver, eles seriam suficientemente espertos
para saber, como qualquer outra pessoa, utilizar a sua inteligência.33
Peter Kolb irá então, ao longo das suas cartas, justificar esta sua opinião.
A experiência diz que eles aprendem holandês, inglês, português, logo não
poderão ser assim tão estúpidos. Além disso, Kolb constatou que muitos
trabalhavam durante anos para os europeus, logo que não eram assim tão
ignorantes e desajeitados, aludindo a vários casos que ele próprio tivera
ensejo de conhecer. Também a crítica já formulada de que estes seriam
selvagens, porcos e que cheirariam mal devido à gordura com que se
besuntavam, Kolb certifica que, com o contacto diário e a habituação, o
cheiro desapareceria. Enquanto muitos autores criticam as argolas feitas
de peles de cabra que estes trazem nas pernas, Kolb logo encontra uma
explicação para esta peça do seu vestuário. Diz-nos assim que andam
muito pelos campos à procura de frutos, e como os figos-hotentotes têm
33. "Viele haben, wenn sie die Art und Beschaffenheit der Hottentotten vorgestellt haben,
unter anderem gesagt, daß sie sehr dumm, unverständig und einfältig seien, weil sie weder
von Gott noch von anderen im Leben notwendigen Dingen etwas wüßten. Überdies seien sie
sehr säuisch in ihrem Essen und ganzem Leben, sie würden sich auch mit stinkendem Fett so
sehr beschmieren, daß man sie weiter riechen als sehen könnte [...] Sie haben darüber nicht
übel geschrieben oder die Unwahrheit gesagt, allein es ist notwendig, einen Unterschied zu
bemerken. Denn daß sie im Vergleich mit unserem oder anderem Völkern dumm anzusehen
sind, ist außer Zweifel, weil sie nicht so leben wie es andere zivilisierte Völker tun. Hingegen
sind sie dennoch, in ihrer Art klug genug und wissen ebenso wie ein anderer Mensch, ihren
Verstand zu gebrauchen." Peter Kolb, Caput bonae spei hodiernum, Das ist: Vollständige
Beschreibung des africanischen Vorgebürges der Guten Hoffnung, Nuremberga, 1719, p.
365.
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muitos espinhos, arranhar-se-iam, se não usassem estas argolas nas
pernas.34
No relato que faz dos vários ofícios que encontrou entre os hotentotes,
Kolb afirma que estes íncolas não se deveriam envergonhar se
comparados com artesãos europeus. Na verdade, quando tratam de peles
ou fazem esteiras,35 estes homens compreenderiam o seu trabalho tão bem
como qualquer artífice, na Europa. Com efeito, eles saberiam preparar
muito bem as peles de cabra ou de outro animal e coziam-nas de modo
perfeito, sabendo-lhes dar uma forma tão correcta, como qualquer peleiro,
na Alemanha, ou noutro país da Europa.36 Saberiam cortar perfeitamente
as correias e, no que respeita, ao ofício de carniceiro, eles até superavam
os europeus.
Perante estas observações e experiências, Kolb não pode concordar com
as afirmações prevalecentes de que estes homens nada tinham de humano.
Pelo contrário, se eles teriam alguns vícios, em muitas coisas, poderiam
levar os europeus a ficar com as faces rúbeas. Em relação à crítica que
lhes é feita de não quererem trabalhar, a não ser quando têm fome, Kolb
confirma, mas logo adianta que, infelizmente, também, entre os cristãos,
haveria muitos "preguiçosos e ociosos" e continua aludindo a que também,
na Europa, viveriam muitos mendigos e pobres, que preferiam viver das
ajudas dos outros, do que do seu trabalho, e que se houvesse mais sustento
à mão, muitos mais haveria certamente que escolheriam uma vida ociosa.37
E se os hotentotes eram dados à bebida, o certo era que, na Europa,
também se bebia muito, e mais, as bebedeiras acabavam quase sempre em
crime e pancadaria.
Por fim, Kolb gostaria de ver salientado que eram homens de palavra.
Uma vez feitas as pazes e concluídos os contratos, até só verbais, os
hotentotes cumpriam-nos rigorosamente e, levantando mais uma vez a voz
em sua defesa, Kolb afirma que tal não se deveria menosprezar e deixar de
admirar num povo que tão cruelmente fora julgado, e mais, ele saberia de
34. "Da sie viel durch das wilde Feld laufen und Dornen und Hecken durchstreifen müssen,
wenn sie Wurzeln und auch Hotentotten-Feigen suchen, so würden sie sich sehr verletzen,
wenn sie diese Ringe nicht an den Waden hätten". Idem, p. 483.
35. Idem, p. 512.
36. "Sie können die Schaf- und andere Felle wenigstens ebenso gut bereiten, auch diese so
nett und zierlich zusammen nähen und ihnen die richtige Form geben, wie es ein Kürschner
in Deutschland oder anderswo in Europa machen kann. " p. 505
37. "Ich glaube leider (!), es gibt deren mehr als genug und kann nur an die jungen, starken
und gesunden Bettelleute in Deustschland erinnern, die viel lieber von anderer Leute Gnade
leben als daß sie sich selbst zu einer Arbeit bequemen wollen. Hätten sie es noch so leicht,
wie diese an die Nahrung zu kommen, ich glaube, es würde derer noch mehr geben". Idem, p.
541.
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muitos senhores de grandes potentados que se consideravam mais sábios,
inteligentes e sensatos que os hotentotes, que ao verem estes exemplos de
responsabilidade se deveriam envergonhar.38
Peter Kolb procura ainda integrar este povo na história da humanidade,
investigando para isso as suas origens. Ele defende assim a opinião de que
os hotentotes teriam muitas afinidades com os judeus e também com os
antigos trogloditas, antepassados africanos pelo que enumera vários usos e
costumes que os identifica, tanto com a cultura judaica como com os
trogloditas, no intuito de traçar uma linha geneológica e contínua entre
estes povos e os actuais hotentotes.
Distanciando-se da preconizada inferioridade cultural, Kolb reconhecelhes um outro modo de ser e viver regido por diferentes regras culturais,
lutando assim pela sua liberdade perante a influência do exterior. Que o
hotentote não gosta de depender de nínguem e prefere viver na probreza
ou ter dificuldades do que se vender - daí que trabalhe só em caso de
grande necessidade e sempre com a condição que a sua liberdade não seja
posta em causa,39 é um direito que lhes deveria conceder, pois eles
também estariam satisfeitos com tudo o que tinham, não perguntando por
preciosidades, riquezas mundanas ou honrarias.
Peter Kolb aprecia e valoriza esta atitude de os hotentotes quererem
preservar a sua identidade cultural. De facto, mostrar-se-iam renitentes em
aceitar as condutas impostas pelos europeus, mantendo, pois, um certo distanciamento à cultura europeia. Assim, preservavam a estrutura familiar e,
mesmo quando trabalhavam para os europeus, continuavam a vestir-se,
segundo os seus costumes, a untarem-se com a gordura, etc., não se
deixando integrar isoladamente na colónia do Cabo.
Esta sua posição mais tolerante e de maior simpatia não seria, todavia, a
opinião comum na sociedade que vivia no Cabo. E, mesmo, a defesa de
Peter Kolb dos bons selvagens teria os seus limites; também ele não põe
em causa a expansão europeia e a consequente invasão das terras de
pastoreio dos hotentotes.
O homem estranho, incivilizado, de traços animalescos e pagão, como os
europeus o viam, nomeadamente, os relatos escritos ao serviço dos
38. "Dieses ist gewißlich sehr bewunderswürdig von einer Nation, die als so brutal und
dumm beschrieben wurde. Sollten, nun, wenn man diese sachen an blinden Heiden erblickt,
viele hohe Potentaten in der Welt, die tausendmal weiser, klüger und verständiger sein wollen
als die dummen Hottentotten, hierüber nicht schamrot werden?". Idem, p. 560.
39. "Er ist niemand gerne untertänig, leidet lieber Armut und Dürftigkeit, als daß er sich
verkaufen würde. Wenn ihn aber die höchste Not treibt, Dienst bei einem andern für eine
gewisse Zeit anzunehmen, so geschieht das doch immer mit der Bedingung, daß seine
Freiheit dadurch keinen Schaden erleiden dürfte". Idem, p. 547.
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EM VIAGEM
holandeses nos séculos XVI e XVII, continuaria não só nos escritos do
século XVIII, como ainda se cristalizaria num nome depreciativo.40 Nem o
bom selvagem, descrito por Peter Kolb, conseguiu mitigar a sua má
reputação.
40. Veja-se Bartholomäus Ziegenbalg, Merckwürdige Nachricht aus Ost=Indien, Leipzig,
Frankfurt/M., 1708, Fortsetzungen Halle 1709 e Halle 1713; e ainda Georg Böving, Curieuse
Beschreibung und Nachricht von den Hottentotten.., s.l., 1712.
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2.4 O Sul de África e os Hotentotes