Dra. ADA CRISTINA MACHADO da SILVEIRA
Doutora em Jornalismo pela
Universidade Autônoma de Barcelona
ESPANA
A malha de comunicação local-internacional:
Polifonia e discursividade no Brasil Meridional
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Dra. ADA CRISTINA MACHADO da SILVEIRA
Doutora em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona. Profa. Adjunta do Depto. Ciências da
Informação, Cursos de Comunicação Social e Curso de Pós-Graduação em Extensão Rural da
Universidade Federal de Santa Maria.
Endereço Profissional
Depto. Ciências da Informação Fone/fax: 55 55 220 8491
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A malha de comunicação local-internacional:
Polifonia e discursividade no Brasil Meridional
Resumo
Comentamos aspectos de uma investigação que objetiva proceder ao reconhecimento das
estratégias de comunicação responsáveis pela articulação entre os níveis local e internacional no limite
meridional brasileiro. A malha de comunicação ali articulada se estabelece por meio de sucessivos elos.
Quando analisados em sua discursividade, pode-se contemplar a produção de sentido que é orientada pela
ação da sociedade civil organizada em veículos de comunicação. Os veículos de comunicação, localizados
na estremadura de uns municípios contextualizados pelo estado federado, também revelam a consciência
de seu enquadramento no marco do estado-nação. Considera-se que este último é localmente percebido
como o limite de um sistema político em permanente confronto com outros sistemas políticos externos,
quais sejam as demais nações do Cone Sul. O seu estudo aprofundado permite demonstrar que a malha de
comunicação daqueles territórios que, enquadrados historicamente com faixa de fronteira e área de
segurança nacional, antes que ter seu desenvolvimento comunicacional constrangido, exibem um profundo
conhecimento da noção de nacionalidade em sua relação com a outredade, próprio ao hibridismo
fronteiriço e enunciador de um concerto polifônico. O artigo finaliza refletindo sobre a importância do
conhecimento do nível local para o ensino e pesquisa em Comunicação nas Terras de Fronteira do Brasil
Meridional.
Palavras-chave: Política de comunicação - Comunicação intercultural - Terras de Fronteira
As Terras de Fronteira do Brasil Meridional
A fronteira está igualmente na abertura e no fechamento. É na
fronteira que tomam lugar a distinção e a ligação com o ambiente.
Todas fronteiras, incluindo as membranas dos seres vivos e as
fronteiras das nações são, ao mesmo tempo, barreiras, lugares de
comunicação e intercâmbio. Elas são lugares de dissociação e
associação, de separação e articulação.
Edgar Morin
A crise do estado-nação, a emergência dos blocos econômicos e o processo de globalização ora
em transcurso têm concorrido para desterrar a noção política e cultural de fronteira. No passado, os
territórios confinantes foram desprezados pela visão própria das elites concentradas nas metrópoles que,
elaborando sua visão da nacionalidade, definem o padrão de "identidade nacional" condizente com suas
preferências.
Ignorar o papel das sociedades de fronteira na construção de uma "identidade nacional" não parece
ser uma exclusividade da situação brasileira. Autores como Peter SAHLINS (1998, p. 32) têm acentuado a
novidade da questão até mesmo para nações de ampla tradição democrática, como a Inglaterra e a França,
onde o papel das sociedades fronteiriças não recebeu ainda a devida atenção. Neste sentido, o trabalho
seminal de Benedict ANDERSON (1983) é considerado fundamental para compreender a emergência de
um sentimento de comunidade nacional. No Ocidente, nos séculos XVIII e XIX, as sociedades se
ocuparam da estruturação de estados nacionais num processo que envolvia o engajamento dos indivíduos,
os quais deveriam abrir mão de regulações tradicionais orientadas por valores familiares, religiosos e
locais, em favor de sua condição de cidadãos de um estado nacional.
O estado atual do conhecimento sobre o problema é restrito. A perspectiva corrente enquadra as
Terras de Fronteira na condição de satélite bélico do estado-nação e desestima a capacidade comunicativa
de sua sociedade. Entendendo que sua condição fronteiriça as consagra apenas sob o ponto de vista de
áreas de segurança nacional, seu pleno desenvolvimento comunicacional teria sido constrangido.
Assim, tendo sido detratada como regionalismo, recusando-se-lhe um status condizente ao seu
drama na constituição da integração nacional, a cultura do gauchismo não é reconhecida como tendo
alguma contribuição significativa para aquela que se tem como "a identidade nacional", fundada, entre
outras mitologias, no movimento expansionista dos bandeirantes paulistas, tomado como a grande
referência na expansão territorial e de demarcação de fronteiras na história brasileira.
Na atualidade, no entanto, com as ameaças de internacionalização da Amazônia, a cultura
transnacional do gauchismo pode vir a demonstrar que a experiência local não é inerentemente antagônica
nem ao exercício do poder nacional, nem à dinâmica globalizante. Ela pode, isto sim, conviver com a
pluralidade de perspectivas com relação ao tempo e ao espaço geográfico.
É justamente no contexto de re-ordenamento da ordem mundial que, novamente, os territórios
confinantes podem vir a revelar o valor de suas estratégias de sobrevivência e, mais que tudo, de
convivência na diversidade, permitindo-nos compreender como é possível viver frente aos limites quando
eles, simultaneamente, apresentam-se como territoriais, culturais e políticos.
A ocupação do espaço geográfico de fronteira teve nas mensagens simbólicas de orientação
nacionalista, por exemplo, uma marca significativa para a ordem audiovisual da atualidade. A cultura do
gauchismo, particularizada na experiência das Terras de Fronteira do Brasil Meridional, pode dar
testemunhos valiosos sobre como uma nação pode ser pensada na diversidade cultural e histórica,
exercitando inclusive práticas lingüísticas peculiares.
Uma identidade regional vigorosa que respondeu com a ocupação da banda radiofônica, uma
desenvolta imprensa local, ocupada de temas regionais e precocemente estabelecida em moldes
empresariais, além de outros elementos, compõem um cenário que corroborou a assentar as bases de um
projeto de nação num enclave brasileiro avançado sobre o contexto platino. 1
A partir da segunda metade do século XX, as Terras de Fronteira do Brasil Meridional, deslocadas
em cerca de 2000 Km. do eixo Rio de Janeiro - São Paulo, por ser berço de origem de alguns dos generais,
assessores e base parlamentar dos Governos Militares, tiveram parte de sua atividade descaracterizada
pela força que um tal vínculo proporcionava. No entanto, é importante saber que, contradizendo o largo
processo rumo à centralização ora observada, a imprensa e o sistema de rádio conseguiram manter um
forte caráter regional, eles que sempre tornaram possível e instituíram-se em sustentáculo da representação
de distintas vozes nos discursos das identidades regionais brasileiras. No contexto nacional, as identidades
culturais, ou mesmo o folclore, sofreram em compasso de espera até que, nos anos 80, viriam a reclamar
presença, prestando sua voz crítica contra à anodinização de conteúdos prescritos nos governos militares,
de um lado, e à homogeneização provocada pela caráter industrial das atividades culturais orientadas pelos
mecanismos de mercado capitalista, de outro.
O desenvolvimento da indústria cultural conta entre seus antecedentes, no extremo sul do Brasil,
também com a produção editorial entre seus dados importantes. O Rio Grande do Sul, conforme estudo
realizado pelo sociólogo Sergio MICELI (2001, p. 151), a partir de dados do IBGE do ano de 1937,
constituía-se no terceiro pólo editorial no Brasil. Havendo-se concentrado as instâncias de produção de
bens culturais no Centro-Sul, o estado sulista alinhava-se com a capital federal e São Paulo. Os dados dão
conta de que os três estados reuniam 61% das editoras nacionais, sendo que seis em cada dez livros
editados no Brasil, em 1929, provinham do Rio de Janeiro, dois de São Paulo e um do Rio Grande do Sul.
No que tange às tiragens, a concentração era ainda mais espantosa. Os três estados detinham 94% dos
livros publicados, de uma produção que em cerca de dez anos se multiplicaria de forma impressionante.
Em tal contexto, a produção literária despontou de forma extraordinária, tendo os autores
nacionais projetado-se frente às traduções de autores estrangeiros.
1 O antropólogo Rubem George OLIVEN (2000), num ensaio sobre a questão dos regionalismos no Brasil,
suscita o debate levando em consideração a manifestação dos modernistas e a posição de Gilberto Freyre. Oliven
O período da primeira metade do século XX, coincidente com a formação das bases da indústria
cultural nacional, apresenta algumas coincidências histórias que devem ser tomadas em consideração.
Alguns historiadores endentem que o nacionalismo sulista seria um dos grandes ingredientes dos projetos
de integração nacional, sobressaindo-se, entre outras iniciativas, a campanha de nacionalização
implementada por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, em 1937, responsável pela perseguição e
coerção de imigrantes e seus descendentes. Através, principalmente da proibição de falar e publicar
noutras línguas que não a portuguesa (dialetos do Italiano e do Baixo Alemão, ademais do Polonês,
Castelhano e o crioulo Portunhol eram então correntes), deflagrou-se uma série de atividades que afetaram
profundamente o desenvolvimento de atividades gráficas e editoriais, a imprensa e o radialismo nascente.
2
Meio século depois, o estado gaúcho protagonizou uma grande iniciativa na América Latina com
sua rede de emissoras televisivas locais, demonstrando o desejo e a capacidade instalada de sua sociedade
civil de organizar-se e implementar canais produtores de conteúdos próprios e pertinentes às Terras de
Fronteira, não sendo meros repetidores de uma programação nacional. Ainda que os meios de
comunicação contemporâneos pareçam irremediavelmente absorvidos na dinâmica globalizadora da
atualidade, o conhecimento da memória de iniciativas deste tipo evidencia que múltiplas vozes se erigiram
para dar corpo a um concerto muito variado; tanto variado como desconhecido dos estudos que ainda
entendem as Terras de Fronteira como territórios de finesterre subsumidos na ordem heterônoma ditada
pelo estado-nação.
A transcendência do tema, o ineditismo dos dados que desejamos analisar nos permitiram
constatar que o seu levantamento tem ocorrido quase que exclusivamente por historiadores - quando se
dedicam a elaborar monografias sobre a história da imprensa local -, ou por profissionais do rádio e da
televisão que buscam registrar sua experiência de vida. Memorialismo e cronologias fragmentadas, de
escasso poder explicativo, via de regra, afirmam-se como a literatura disponível.
Ignora-se ainda, ou pelo menos escasseiam registros na literatura especializada no tema, os
principais antecedentes da ocupação da banda de radiodifusão e as forças coligadas para o surgimento dos
veículos. Demonstrativos de freqüências, propriedade, identidade jurídica, vínculos empresariais, e outros
finaliza o texto sugerindo que no Brasil, a redescoberta das identidades regionais proporciona que o nacional talvez
passe antes pelo regional.
2 A cultura do gauchismo como uma identidade de corte moderno, vale dizer ocupada da representação do
estado-nação, permitiu combinar o apelo à ordem heterônoma com o perfil liberal dos políticos fronteiriços. O
brasilianista Thomas SKIDMORE (1996), ao estudar o regionalismo gaúcho, registra que a ascensão de seus
políticos ao cenário nacional foi um período que, iniciado ainda na República Velha, e culminando com o ciclo
Vargas, teve seu declínio durante os governos militares. Seria a presença de seus políticos, provenientes notadamente
da fronteira gaúcha, que concederia diversos elementos que contribuíram simbolicamente à elaboração do estereótipo
do gaúcho no Brasil.
elementos próprios da Economia Política da Comunicação, têm nas fronteiras nacionais um objeto ainda
um pouco ambíguo.
O fenômeno deve-se a que, de um lado, não se justificaria conceder atenção a zonas consideradas
isoladas e distantes dos centros nacionais, sem autonomia local e que, por extensão, devem ser
desprezadas pela inerente precariedade de suas vias de comunicação.
De outro, as indústrias culturais e seu mercado de bens simbólicos refletem o caráter particular do
estado federado no interior do estado nação.3 Em que pese os fortes mecanismos de controle federal na
concessão de freqüências e canais de radiodifusão, sua produção de conteúdos tem tradição de autonomia
política e empresarial, fato que mesmo com a presença das grandes cadeias nacionais iria requerer que se
mantivessem suas peculiaridades através de mecanismos específicos de inserção regional. São condições
que, associadas ao pioneirismo da televisão local e os vínculos estabelecidos com as cadeias e redes
nacionais, possibilitam uma perspectiva cultural de forte arraigo regional.
Os antecedentes relatados evidenciam que nos anos 70, os arquipélagos culturais e a autonomia
relativa das grandes regiões geográficas brasileiras (algumas delas maiores que a Europa Continental)
foram em parte afetados pela ideologia de segurança nacional dos governos militares, traduzida em
consideráveis investimentos em telecomunicações, ao mesmo tempo em que não se descuidava dos
mecanismos de censura nos conteúdos.
A comunicação na fronteira meridional brasileira criou uma relação própria entre os níveis local e
internacional. Para estabelecer as bases de como esse processo se desenvolve, uma digressão se faz
necessária, e ela exige mover-nos entre os níveis local e nacional.
Um rápido histórico da expansão do sistema televisivo no Brasil permite ver alguns dos paradoxos
do desenvolvimento do seu sistema de comunicação, nitidamente estabelecidos entre o nível simbólico e
sua conformação material. O Brasil contava em 1977 com 75 emissoras de televisão, sem dúvida o cenário
mais promissor da América Latina em termos de televisão local, sendo nove em São Paulo e outras nove
no Rio Grande do Sul. 4 Em 1969 haviam sido criadas as duas primeiras emissoras do interior do estado
sulista: em Caxias do Sul a Tv Caxias e a Tv Imembuí em Santa Maria, respectivamente no norte e centro
geográfico do estado. Em 1972 a Tv Tuiti, em Pelotas, e em Erechim uma emissora com o mesmo nome;
posteriormente, surgiria a Tv Bagé (1977), na fronteira com o Uruguai. Em 1979, o Rio Grande do Sul
superava São Paulo em termos de canais televisivos, com 13 emissoras, enquanto o outro estado detinha
3 Uma recompilação organizada por Doris MEYER (1996) apresenta um conjunto de investigações
ocupadas de uma problemática com alguns elementos comuns à nossa, embora desenvolvidas no contexto do Novo
México.O conjunto de trabalhos analisa as distintas vozes que aparecem na produção jornalística em língua
castelhana após a anexação daquele estado aos Estados Unidos, efetivada em 1876.
11 emissoras. Já em 1984, no entanto, o cenário era outro e o número de 75 emissoras no cenário nacional
havia saltado para 95 emissoras.
Renato ORTIZ (1988, p.165), em suas análises das indústrias culturais, foi dos primeiros a atentar
para o fato de que a estratégia de consolidação da Rede Globo no Rio Grande do Sul passou pelo
reconhecimento das idiossincrasias culturais e depois à estrutura empresarial da RBS. O resultado
consistiu num sólido sistema empresarial de televisão, baseado nos principais pólos econômicos em que
participam suas emissoras locais, somando uma produção local e regional à programação transmitida
diariamente em nível nacional. Este padrão de programação que envolve três níveis de produção desde a
perspectiva do receptor do interior do estado demanda uma planilha rigidamente planejada em seus
horários previstos tanto para os conteúdos jornalísticos e de ficção como para a publicidade. A inserção
dos blocos de produção local costuma ser reservada ao tratamento jornalístico, além de ocupar-se das
inserções publicitárias contratadas. A RBS sustenta produzir, na atualidade, cerca de 15% da totalidade da
programação emitida em cadeia com a Rede Globo.5
É por esta razão que, no Rio Grande do Sul, sua estrutura de comunicação se diferencia, em
alguns aspectos, das características de macrocefalia e propagação fractal do “modelo brasileiro de
televisão” proposto por Roberto A. do AMARAL e Elizabeth RONDINELLI (1996). Estes autores
reconhecem uma concentração nos sistemas de comunicação que, desde o âmbito nacional, expande-se
para os níveis regional e local num esquema em cruz. Ainda que integrado aos sistemas nacionais que
sustentam a macrocefalia e sendo um exemplo de propagação fractal, suas características regionais
apresentam alta coesão e revelam-se uma idiossincrasia no que vem a ser o denominador comum definido
para o modelo.
O grande impulso que se imprimiu à televisão local durante os anos 60 e 70 no Rio Grande do
Sul, no entanto, não conseguiria manter-se com expressão plena. A década de 80, conhecida como "a
década perdida", agravaria irremediavelmente a profunda crise que levou a micro-região da Campanha,
bem como parte da Depressão Central e Missões a ser apontada como a estagnada Metade Sul e até
mesmo ser incluída entre as prioridades do primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso,
junto ao Nordeste brasileiro.
Na atualidade, a estrutura multimidiática do mercado de comunicação é bastante complexa e
altera-se freqüentemente, principalmente com os interesses internacionais ditados pela nova ordem
4 Esta cronologia comporta dados aportados pela coletânea elaborada pelo Departamento de Jornalismo da
Bloch Editores (s.d.), pelo pesquisador Sérgio CAPARELLI (1989), bem como dados de um quadro exposto no
Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa - MCSHJC, de Porto Alegre, em novembro de 2001.
5 Cf. Nilda JACKS (1998). O conjunto de emissoras televisivas cobre o estado em sua totalidade. O
esquema consorciado entre a Rede Globo e a RBS também ocorre em outras emissoras regionais e cadeias nacionais,
como era o caso do Sistema Brasileiro de Televisão e a Tv Pampa, ainda que estes não observem a mesma
estabilidade.
globalizadora. É importante lembrar que o processo que responde pela atual estrutura teve um momento
decisivo no começo dos anos 80, quando a Rede Globo de Televisão adotou uma estratégia de
regionalização de conteúdos, com o objetivo de consolidar sua primazia ao nível nacional. A partir desta
estratégia, os conteúdos de maior parte de sua programação televisiva passaram a provir da Rede Globo,
estúdios de São Paulo e Rio de Janeiro, da qual a Rede Brasil Sul - RBS, integrante de um grupo de origem
gaúcha, resulta ser a principal afiliada.
A programação e produção de conteúdos de interesse regional expressa a preocupação com uma
sociedade com fortes vínculos com a sociedade agrária das suas origens. O levantamento dos registros
conservados da circulação de jornalismo impresso especializado em agropecuária, tanto seus aspectos
econômicos, como sociais, históricos, difusionistas, etc., a partir do período referente ao chamado
"jornalismo empresarial" (Cf. RÜDIGER, 1993) permitem constatar a consolidação da imprensa no início
do século XX no estado sulista. Entretanto, o fenômeno da urbanização acelerada, o traslado vertiginoso e
brutal de contingentes migratórios do campo e dos povoados para a periferia das cidades observado no Rio
Grande do Sul não é um fenômeno restrito ao desenvolvimento do estado.6
O consumo de produtos específicos regionais, especializados na exposição de seus tipos, garante
um vigoroso consumo cultural com um mercado seguro e fiel, realizando a transformação das tradições
em matéria do presente, nos termos propostos por J. P. THOMPSON (1995). Sua produção inclui a
fonografia, os produtos de cerca de 40 festivais e concursos musicais de edição anual ou bienal,
espetáculos artísticos, grupos de danças, espetáculos musicais televisivos e radiofônicos, literatura de
ficção e não-ficção, conteúdos informativos de imprensa, tiras e caricaturas humorísticas, crônicas,
entrevistas e mesas redondas nos meios locais e regionais. Uma sucessão de acordos entre a indústria
fonográfica, as emissoras de rádio e televisão assinalam a sua progressiva convergência à precoce
formação de grupos multimídia no Brasil. Para estes, o agribusiness como consigna publicitária é um dos
interesses econômicos mais estratégicos, ao congregar audiências regionais, identidades regionais e os
complexos agro-industriais controlados por cooperativas de produtores e empresas transnacionais, com
vistas a sua plena exploração num mercado crescente. Neste contexto, o jornalismo especializado no meio
rural é um precursor de grande parte das estratégias ora em uso.
A malha de comunicação local-internacional
Havendo apresentado tais argumentos, acreditamos haver justificado porque a configuração
orgânica dos meios e processos de comunicação, em sua variedade, é por nós denominada malha de
comunicação. À diferença da Economia Política da Comunicação, não nos ocupamos das características
6 Um estudo que observa alguns destes aspectos foi realizado por Miquel de MORAGAS SPÀ (1988) com
relação ao espaço regional da Catalunha. Através deste levantamento pode-se confrontar a precocidade das
experiências que estudamos frente a de outras sociedades européias.
de uma estrutura de comunicação de per si, dado que não é nossa pretensão conhecer a extensão do
universo de veículos e representações da indústria cultural mas, tendo acesso a tais informações, seja por
captação direta ou por outras fontes, nos ocupamos em comprovar uma noção orgânica e repleta de
aspectos singulares, cuja existência evidencia o caráter único e irrefutável de um dado conjunto de práticas
de comunicação em sua condição de discursividade.7
No contexto de afirmação dos estrados nacionais do Cone Sul, as vozes que se alçaram como
grandes representantes da sociedade de fronteira forjaram práticas cuja análise pressupõe categorias que
instituem uma realidade servindo-se do poder de revelação e de construção exercido através da
objetivação do discurso. Consideramos que tal discurso é produzido por umas representações midiáticas
cuja discursividade propende a ser condizente com a ordem heterônoma determinada pelas políticas de
consolidação das fronteiras dos estados-nação do Cone Sul. Nem por isto, no entanto, elas têm esgotada
sua competência discursiva e nem abrem mão de sua variedade em termos de estratégias de comunicação.
O levantamento e seleção dos veículos tem em vista conhecer suas características discursivas mais
expressivas em alguns municípios - tomados como base de pesquisa (Bagé, Sant´Anna do Livramento,
Alegrete, Ijuí, Pelotas, Passo Fundo e Santa Maria) –. Através deles se pode fornecer os elementos
recorrentes em termos de estratégias de comunicação para os fins de revelar a orientação do nível local
nos termos propostos por suas práticas. O conhecimento da malha no nível local franqueia ainda
estabelecer algumas conexões entre as empresas jornalísticas, radiofônicas, televisivas, publicitárias,
gráficas e editoras, produtoras audiovisuais e multimídia, no que se refere à produção de conteúdos.
A metodologia concentra-se na aplicação da Matriz Intertextual de Análise – MIA - no conjunto
selecionado de peças. Os diversos procedimentos de análise devem alcançar o ponto de reconhecer como
se procede, ao nível superficial e profundo, para produzir a atualização discursiva de diferentes
representações. O método envolve os seguintes procedimentos:
•
O levantamento de fontes primárias, vale dizer, o conhecimento das representações midiáticas
disponíveis, reconhecidas como práticas discursivas relevantes, encontradas nos meios de
comunicação de massa nas Terras de Fronteira do Brasil Meridional;
•
A seleção do corpus empírico para análise, o qual consta das produções midiáticas no que elas
atentam para a identificação de um canal, emissora, rede, programa, etc.;
•
A definição das características técnicas das peças selecionadas (anúncio publicitário, spot radiofônico,
videoclip, folder, out door, bunner, vinhetas televisivas, etc.);
7 Um trabalho anterior, neste âmbito, foi conduzido por uma equipe de investigadoras gaúchas - Ana
Carolina Escosteguy, Nilda Jacks e Doris F. Haussen, além de Veneza Ronsini -. A parte dedicada ao levantamento
das indústrias culturais em Santa Maria foi publicada em RONSINI (1996)
•
A definição das propriedades discursivas das peças selecionadas, o que implica no reconhecimento
das características genealógicas decorrentes dos vínculos manifestos na textualidade das
representações analisadas em termos de análise de discurso (isotopias e cronótopos, dêiticos e outras
figuras retóricas, etc.);
•
O estudo de evidências que sustentem a tese da polifonia discursiva nas representações midiáticas e
estratégias de comunicação nas Terras de Fronteira do Brasil Meridional;
•
A constatação de sua atuação em prol de uma estratégia de consumo específica, aplicada no contexto
do mercado de consumo midiático brasileiro e condizente com a ordem heterônoma do estado-nação.
A metodologia de investigação compreende, desta forma, vários métodos e técnicas, condizentes
com os objetivos e necessidades do projeto e sempre orientada para o desenvolvimento do conhecimento
de nosso objeto de investigação: as representações midiáticas ocupadas da ordem heterônoma do estado
nação e que, na sua variedade e diversidade, compõem um discurso polifônico.
Um Software Aplicativo foi desenvolvido para o controle dos dados coletados. Construído na
linguagem Visual Basic (Plataforma Windows), o software possui um cadastro das cidades que compõem
as Terras de Fronteira do Brasil Meridional, o qual contém a lista dos meios de comunicação (rádios e
webradios, televisões e jornais), gráficas e editoras, agências de publicidade e cursos de Comunicação
Social. O cadastro disponibiliza dados como pessoa jurídica, endereço, telefone/fax, freqüência, afiliação,
programação, URL, e-mail, característica radiofônica, logos etc. Entre as propriedades do software postas
em fileiras lado a lado, procede-se à consulta dos dados pesquisados por entradas que podem ser as microregiões, municípios, veículos e suas características, bem como a possibilidade de contagem de dados para
fins estatísticos.
Conforme o Quadro n° 1, abaixo apresentado, disposto a partir do desenvolvimento de um
programa informático especialmente desenhado para esta pesquisa, estamos levantando (desde julho de
2001) os seguintes dados:
Quadro n°. 1 - A malha de comunicação nas TF do BM
Os contatos realizados até o momento, com especialistas, bancos de dados, associações
profissionais e de veículos nos demonstraram a inexistência de um levantamento com tal envergadura, não
encontrado-se registros sistematizados nem mesmo junto a órgãos do Governo Federal.
Na atualidade, o Governo Federal, através de vários Ministérios (Comunicações, Interior e
Desenvolvimento Regional, Ciência e Tecnologia, Cultura) estabelece o desenvolvimento da faixa de
fronteira como uma de suas prioridades de governo, entendendo que a formação de pesquisadores
especialistas no tema vem a ser estratégica para o Brasil. No interior do Rio Grande do Sul há dez
universidades e centros universitários que oferecem cursos de Comunicação Social. Passado um século de
consolidação da cultura midiática, que pode a experiência gaúcha vir a aportar ao tema? Haveria uma
cultura midiática que viessem a justificar uma plano de estudos com aspectos idiossicráticos no Brasil
Meridional ?
Ensino e pesquisa em Comunicação nas Terras de Fronteira
A importância do estudo da malha de comunicação das Terras de Fronteira do Brasil Meridional
se reveste de um caráter didático-pedagógico transcendente. Em seus domínios, oito universidades e
centros universitários totalizam 24 cursos em pleno funcionamento, sendo que outros dois estão em vias
de criação, com três cursos distintos.
Dados do ano de 2002 evidenciam que mais de mil jovens (1355) dispõem de acesso todos os anos
para os 24 cursos superiores da Comunicação Social nos oito centro universitários do interior do Rio
Grande do Sul. Estimando-se que, pelo menos, 70 % destas vagas sejam preenchidas, ou seja, 950
estudantes ingressem em cursos de Comunicação Social ao ano e, ainda, estimando-se que pelo menos
70% destes concluam seus cursos dentro do prazo esperado, teremos 665 egressos entrando no mercado
profissional a cada ano. Desse total de 1355 vagas ofertadas todos os anos, a universidade pública cobre
apenas 5 % das vagas.8
8 Conforme um levantamento realizado em março de 2002, registra-se a seguinte oferta de vagas no interior
do Rio Grande do Sul: UNISC: Jornalismo, PP e RP 150 vagas (50 vagas cada curso, turno Diurno no vestibular de
verão). Jornalismo, PP, Produção em mídia audiovisual e RP 100 vagas cada (25 vagas cada curso para o turno
noturno entrada no vestibular de inverno). UNIJUÍ: Jornal, PP e RP 90 vagas (30 vagas cada curso, vestibular de
verão). URCAMP: Jornalismo e PP 120 vagas (60 vagas anuais cada curso com entrada semestral, dois
vestibulares). UCPEL: Jornalismo e PP 160 vagas (80 vagas cada curso, com duas entradas anuais, no verão e
inverno); RP 60 vagas (duas entradas, verão e inverno). UNICRUZ: Jornalismo 70 vagas (40 no verão e 30 vagas no
inverno); PP 50 vagas (30 vagas no verão e 20 vagas no inverno); RP 50 vagas (30 vagas no verão e 20 vagas no
inverno). UCS: Jornalismo 60 vagas (no verão); PP 100 vagas anuais (50 no inverno e 50 no verão); RP 120 vagas
anuais (60 no inverno e outras 60 no verão). UPF: Jornalismo, PP e Radialismo 150 vagas (50 vagas cada curso no
vestibular no verão). UFSM: Jornalismo, PP, RP 75 vagas (25 vagas cada curso, vestibular de verão). Não estão
consideradas as vagas do cursos que estão sendo criados pela UNIFRA (Jornalismo e PP) em Santa Maria, sendo
este último o único curso que não se constitui em extensão de outros campi daquela universidade. Também não
consideramos no levantamento a recente criação de cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda pela
UNIVATES, em Lajeado.
A pertinência dos conteúdos habitualmente oferecidos pela literatura especializada no que se
refere à realidade local sofre uma vigorosa renovação com a emergência da globalização. Neste sentido,
entende-se que o conhecimento preciso de elementos afetos a seu cotidiano devam receber um novo
tratamento e não se continue postulando o mimetismo da adaptação da realidade das metrópole para os
espaços fronteiriços que estudamos. O crescimento da oferta de vagas na Comunicação Social no sul do
Brasil, a flexibilização da grade curricular pela nova LDB (em que pese a centralidade da elaboração dos
exames do Provão do Ministério da Educação) e a demanda por formação na área estão a exigir a
mobilização de conhecimentos pertinentes à realidade local e regional de comunicação. A questão que se
perfila é a de produção de conhecimento que dê suporte a essa solicitação.
O concerto polifônico
O propósito de sanear uma série de dúvidas a respeito da relação entre a atividade de comunicação
realizada em íntimo compromisso com o nível local e aqueles interesses identificados como internacionais
pretende convergir as posições nacionais e as de outros estados-nação do Cone Sul. Estes sucessivos elos
configurariam uma malha de comunicação que, analisada em sua discursividade, contempla a produção de
sentido orientada respectivamente pela ação da sociedade civil organizada em veículos de comunicação
localizados na estremadura de uns municípios contextualizados pelo estado federado e enquadrados no
marco do estado-nação. Considera-se ademais que este último é localmente percebido como o limite de
um sistema político em permanente confronto com outros sistemas políticos externos, quais sejam as
demais nações do Cone Sul.
Se qualquer representação deve ser considerada a partir de um sujeito que lhe confere sentido, este
se faz acompanhar de uma noção da espacialidade - onde ele se localiza - e da temporalidade social que
convoca. A malha de comunicação seria, então, uma concepção de rede de comunicação sensível à
diferença e à irredutibilidade das vozes aos agentes estruturais precisamente por necessitar afirmar uma
identidade permanentemente posta à prova, como fruto das pugnas de distintos estados-nação. O seu
estudo aprofundado permitirá demonstrar que a malha de comunicação daqueles territórios que,
enquadrados historicamente como faixa de fronteira e áreas de segurança nacional, antes que ter seu
desenvolvimento comunicacional constrangido, exibe um profundo conhecimento da noção de pátria. A
cultura plurinacional do gauchismo, através de representações midiáticas que lhes são próprias,
contribuem para a construção de um discurso polifônico que opera em conformidade à ordem heterônoma
determinada pelo estado-nação nas Terras de Fronteira do Brasil Meridional, sem abrir mão de seu
hibridismo fronteiriço.
Para tal, perfila-se a precedência da categoria de polifonia. O conceito habitualmente considerado
de polifonia, assim como o dialogismo e a intertextualidade, refere-se às relações que os textos processam
entre si, trazendo implícita a condição de que os enunciados seriam mutuamente conscientes, refletindo-se
uns aos outros. Evidencia-se, desta maneira, a diversidade de vozes e consciências, articuladas por
diferentes personagens ou agentes que convivem numa interação dinâmica e independente até mesmo da
intenção daquele que pode ser entendido como seu autor. Contrariando a noção de polifonia, apresenta-se
o monologismo, o qual tenderia a abarcar a inexorabilidade da ordem heteronômica no que toca às
competências discursivas particulares.
Atualmente, a dinâmica globalizadora requer reconhecer as condições para que a integração de
estados - nação passem a compartilhar conteúdos comuns, difundidos pela indústria cultural. Neste
sentido, as populações fronteiriças apresentam-se como as testemunhas mais fidedignas e experientes no
convívio com as diferenças, a pluralidade e o respeito pelo outro. O estudo das práticas de comunicação,
em sua condição de discursividade, apresenta-se como um material poderoso quando processos
integracionistas ditam as pautas e políticas culturais.
É válido observar na América Latina que as culturas possuem processos que lhes são peculiares,
os quais fixam muitas das suas enormes diferenças internas; um destes processos consiste na sua
polarização em duas culturas por seus idiomas dominantes e oficiais o que, obviamente, evidencia-se
como uma simplificação. Entretanto, ainda que este argumento possa soar muito convincente,
permaneceremos atolados num maniqueísmo e não nos ajudamos quando não compreendemos que os
sistemas midiáticos operam precisamente desde a hegemonia dos idiomas oficiais. As corporações de
comunicação foram capazes de explorar o tamanho massivo dos mercados domésticos da América Latina,
os quais possuem uma homogeneidade lingüística única, o que daria oportunidade a Rafael
RONCAGLIOLO (1995) de classificar a Argentina e a Brasil como exportadores de conteúdos para
Paraguai e Uruguai. A realidade cultural revela que esta perspectiva está longe de ser adequada porque,
desde logo, a heterogeneidade interna não deveria ser ignorada. Roncagliolo opina que, considerando-se a
riqueza dos sistemas de comunicação de América Latina, também de um ponto de vista quantitativo sua
realidade é antes de uma visível opulência.
Apesar desta riqueza cultural e tecnológica, é possível que as mensagens flutuem sem destino e
aqueles significados provenientes de una memória oxidada não alcancem recuperar vigor e atualidade.
Acreditamos que a principal questão que se formularam os sistemas de comunicação latino-americanos foi
a de se suas identidades representadas poderiam animar uma comunidade de comunicação e sua resposta
passa pela persecução de representações dos processos de identificação destas comunidades. Uma dessas
comunidades que aguarda virtualmente o processo de integração é a do Cone Sul. As Terras de Fronteira
do Brasil Meridional, compostas por 182 municípios localizados no estado brasileiro do Rio Grande do
Sul, possuem uma rica experiência que pode vir a ser como uma chave do segredo. Observar os
ensinamentos de sua experiência histórica vem sendo nosso propósito.
O horizonte utópico a nossa frente contempla indagar qual vai ser a presença destes veículos no
ciberespaço. Usualmente os analistas traçam um diagnóstico pouco animador para empresas de mídia
regionais ou locais frente ao cenário da globalização. E, realmente, verifica-se que há uma relativo
provincianismo nas pretensões da malha de comunicação no ciberespaço; seus sites normalmente
utilizam-se apenas do idioma oficial brasileiro.
A pretendida ordem supranacional do ciberespaço necessita encontrar ressonância nas
manifestações da malha de comunicação estudada. No entanto, nela ainda pode-se observar os fragmentos
da anteriormente hegemônica ordem heterônoma que imperou no período da colonização e vigiu até o
final do século XIX. Agora degradados com a plena afirmação do estado nação, eles atingem o auge de
sua crise, tornando-se especialmente nítidos como elementos debilitados quando confrontados a outros
discursos prosélitos da unificação em blocos econômicos, como os referentes ao MERCOSUL.
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Ada Cristina M. da Silveira