Universidade de Brasília Faculdade de Comunicação Departamento de Jornalismo Joana D’arc de Araújo Gonçalves: um perfil psicológico e social Rachel Monteiro Marinho Barroso Brasília – DF Julho/2013 1 Universidade de Brasília Faculdade de Comunicação Departamento de Jornalismo Joana D’arc de Araújo Gonçalves: um perfil psicológico e social Rachel Monteiro Marinho Barroso Projeto Experimental apresentado ao curso de Comunicação Social da Universidade de Brasília como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Jornalismo Orientação: Paulo Paniago Coorientadora: Laene Mucci (UFV) 2 BARROSO, Rachel Monteiro Marinho Joana D’arc de Araújo Gonçalves: um perfil Orientação: Paulo Paniago 30 páginas Projeto Final em Jornalismo – Faculdade de Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2013. 1. perfil, 2. jornalismo literário, 3. novo jornalismo, 4. Joana 3 Joana D’arc de Araújo Gonçalves: um perfil psicológico e social Rachel Monteiro Marinho Barroso Prof. Orientador: Paulo Roberto de Assis Paniago Brasília, 17 de Julho de 2013. BANCA EXAMINADORA ________________________________ Prof. Dr. Paulo Roberto de Assis Paniago (Orientador) ________________________________ Profa. Dra. Cláudia Maria Busato ________________________________ Prof. Dr. Luiz Martins da Silva ________________________________ Prof. Dr. Sérgio de Sá (Suplente) 4 Resumo O presente memorial tem o objetivo de registrar a produção do projeto experimental Joana D’arc de Araújo Gonçalves: um perfil psicológico e social, em formato de perfil. O produto buscou adaptar para um texto jornalístico aspectos que envolvem acontecimentos do presente e do passado de Joana, para que fosse demonstrado assim o perfil psicológico, econômico e sociocultural da perfilada. Para tanto, utilizou-se estilo de narrativa do gênero jornalismo literário. Palavras-chave: perfil, jornalismo literário, novo jornalismo, Joana 5 Sumário Introdução, 9 Problema, 10 Justificativa, 11 Objetivos, 12 Referencial teórico, 13 Metodologia, 24 Conclusões, 26 Bibliografia, 28 6 AGRADECIMENTOS Agradeço à minha família, às minhas irmãs, ao meu pai, ao Weudson e a todos que contribuíram para esse trabalho. Agradeço, sobretudo, à minha mãe Graça Monteiro. Agradeço também à Joana e ao meu orientador, Paulo Paniago. E às instituições UFV e UnB. 7 “...Santas palavras. Meras palavras. Doces, tristes, soltas, que se calam, que não se calam, que nascem de um olhar ou que morrem antes de nascer... Palavras que perdoam ou condenam, dóceis ou severas... Tantas palavras...Vivas palavras.” (Graça Monteiro) 8 1. Introdução O tema do trabalho em questão é o perfil de Joana D’arc de Araújo Gonçalves, funcionária terceirizada da Câmara dos Deputados. Joana, atualmente com 38 anos, trabalha desde o ano de 2005 no Congresso Nacional. Foi o pai, José Gonçalves, ex-funcionário da casa legislativa por trinta e três anos, quem indicou Joana ao chefe. O presente trabalho aborda a história de vida da perfilada, a relação com o pai, as lembranças ruins da infância e da época em que foi mal tratada enquanto babá, os problemas com a mãe, bem como o presente, com as dores e más recordações superadas. A primeira parte do perfil conta como é o dia-a-dia de Joana na Câmara. O perfil psicológico e sociocultural é relatado ao passo em que se conhece a rotina e história de vida. Mesmo sendo uma faxineira, pertencente a uma família cuja renda é relativamente baixa, Joana tem amor por livros, músicas e poesias. E mesmo passando por momentos difíceis na vida, como as agressões na infância, a morte da mãe, as desilusões com a vida amorosa, Joana parece dar uma lição de vida, ao mostrar que as adversidades da vida não são o bastante para impedir a felicidade de alguém. É uma pessoa feliz, que considera a família o maior tesouro. Joana começou a trabalhar muito nova. Aos 12 anos cuidava de crianças e, quando mais velha, com 18 anos, trabalhava como doméstica em casa de família. Seu serviço é de segunda a sexta-feira, das 7h às 14h. Limpa oito gabinetes e o corredor do primeiro andar do anexo III da Câmara. Pelo fato de Joana conhecer muitas pessoas no Congresso Nacional e muitas pessoas a conhecerem, em função desses oito anos trabalhados no local, espera-se que o trabalho desperte a curiosidade não só de leitores que trabalham no mesmo ambiente, como também de outros leitores interessados em conhecer a história de vida desta figura peculiar. 9 A minha relação com o tema é fruto da convivência com a perfilada. Diariamente, há quase seis meses, a via fazendo o serviço de limpeza no gabinete no qual trabalho, e, após várias conversas informais e histórias contadas “por alto”, fui me interessando pela vida da entrevistada, até decidir aprofundar a relação para conhecer e escrever o perfil. 2- Problema O interesse por esse trabalho foi despertado durante a rotina da estudante no serviço, ocasião em que, diariamente, mantém convívio com a perfilada, há seis meses. Por conversar todos os dias com a personagem e ouvir suas histórias, a autora resolveu escrever o perfil. Joana trabalha como faxineira na Câmara dos deputados diariamente, das 7h às 13h. Há oito anos, desde o dia primeiro de novembro de 2005. Joana sofreu muito na infância. Tanto com sua mãe, quanto com a patroa, quando tinha apenas doze anos. A partir das conversas diárias com a simpática e espontânea Joana, a autora passou a realizar as primeiras entrevistas e a tomar conhecimento da história e atual situação da mesma. Apesar de a estudante ter tido um convívio diário, o interesse em contar a história de Joana só veio após dois meses de convivência com ela. Após diversas entrevistas, tanto com Joana quanto com a família da mesma, a autora pôde conhecer mais a fundo o perfil, a história, as lembranças e as dores, tanto físicas quanto psicológicas que a perfilada traz consigo. Com isso, a autora passou a questionar o principal problema deste trabalho: “De que maneira transpor para um perfil os aspectos psicológicos, sociais e culturais de Joana?”. Como fazer com que a história de Joana, com relação ao comprometimento do desenvolvimento intelectual, devido ao alcoolismo da mãe enquanto grávida, fosse contada, por ser um tema complexo?” À procura por estas respostas outras questões surgiram. “Como Joana, mesmo tendo passado por algumas adversidades, conseguiu perdoar a mãe?” “De 10 que maneira o alcoolismo da mãe durante a gravidez afetou seu desenvolvimento intelectual ?” Como ela consegue conviver com as lembranças ruins do passado?”. A autora também se deparou com questões relativas à feitura do texto. “Como selecionar e adaptar para o perfil fatos e passagens da vida de Joana e relatos da perfilada e de familiares de maneira que não se perca o fluxo narrativo?” e Como manter uma linha única na história para que se mantivesse abordagem multiangular?”. Num plano mais amplo do perfil, outra questão inquietou a estudante. Essa está relacionada à maneira de fazer com que a história de Joana e das pessoas que se relacionam com ela se tornasse interessante e identificável por outras pessoas. 3- Justificativa O presente trabalho se justifica pelo seguinte aspecto. Contar a história de vida de Joana, os problemas pelos quais passou na infância, e como ela segue a vida, mesmo com as lembranças e as dores. Apesar de ter sofrido na infância, Joana mostra-se forte e com as dores superadas. Importante ressaltar que não se trata da história isolada da perfilada. Almeja-se aprofundar o perfil psicológico, social, econômico e cultural da personagem para conhecê-la a fundo, bem como ouvir relatos de familiares, essenciais para o bom entendimento da história da personagem. Além disso, espera-se que haja identificação do leitor e das pessoas que com ela convivem. Joana é uma simpática e comunicativa funcionária do Congresso Nacional. Nascida no ano de 1975, ela limpa, há oito anos, os corredores e alguns gabinetes do anexo III da Câmara dos deputados. Desde o dia primeiro de novembro de 2005 segue a mesma rotina. O emprego foi conseguido graças a uma indicação do pai José Gonçalves ao chefe dele na época. Ele também foi funcionário de lá. A função era a mesma de Joana, auxiliar de serviços gerais. Serviu na Câmara dos deputados por trinta e três anos. Foi contratado no dia 6 de fevereiro de 1973, dois anos antes 11 do nascimento de Joana, e saiu no dia 24 de outubro de 2005, dois meses antes da contratação da filha. Nascida em Brasília, mas moradora de Planaltina-DF, todos os dias ela segue uma rotina que começa no trajeto que faz de casa até o trabalho, onde tem que pegar dois ônibus. Mas ela não reclama, pois sabe que seu trabalho é digno como qualquer outro. Apesar de se demonstrar feliz, Joana tem lembranças ruins da infância. A mãe, que era alcóolatra desde a gravidez dos filhos, sempre os maltratou. Além disso, Joana também foi vítima de maus tratos da patroa quando tinha apenas doze anos. Apaixonada pela leitura, chegou a iniciar a faculdade de Letras, mas o alcoolismo da mãe enquanto grávida deixou consequências no desenvolvimento intelectual de Joana, deixando-a com um leve grau de déficit de atenção. A autora deste trabalho considera que o perfil é o meio adequado de mostrar parte do passado e do presente de Joana, dando voz para que ela conte as más lembranças e os maus-tratos sofridos. É ambiente também de dar voz a familiares da perfilada, visto que o depoimento destes é fundamental para o entendimento do passado e presente de Joana. 4-Objetivos O objetivo geral do presente trabalho é elaborar um perfil que aborde a história de Joana, revelando seu perfil sociocultural e psicológico. Pretende-se mostrar como os problemas pelos quais passou com os maus-tratos da patroa, quando ainda tinha doze anos, e com o alcoolismo da mãe, afetaram a ela e a família. A apuração do trabalho mostrou que Joana conseguiu superar os problemas que teve desde a infância, não escondendo a felicidade por ter uma família unida, família a qual considera o maior tesouro, sobretudo o pai. Esse trabalho almeja, assim, dispor as informações colhidas nas entrevistas realizadas com Joana e seus familiares de maneira que crie um fluxo narrativo o mais próximo possível do jornalismo literário. 12 Vinculados ao principal, os objetivos específicos a que se propõe o perfil são: Demonstrar, por meio de um resgate psicológico, o perfil de Joana. Entender como e porque aconteceram os maus tratos sofridos, tanto os da mãe quanto os da patroa, e como isso a afetou. Projetar vozes de familiares de Joana para ajudar a entender o que, de fato, aconteceu em sua infância. 5-Referencial Teórico O produto final em questão é um perfil. Para efeitos teóricos foram tomados como base, sobretudo, Páginas ampliadas: O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, de Edvaldo Pereira Lima, bem como a tese de doutorado intitulada Um retrato interior – O gênero perfil nas revistas The New Yorker e Realidade, de Paulo Paniago. Para a produção deste produto, a autora se baseou, assim, em diretrizes teóricas direcionadas ao gênero jornalístico perfil. Após reunião com o orientador do projeto, foi esclarecido que o mais interessante seria trabalhar com o gênero perfil. O perfil de Joana foi pensado para ser feito utilizando-se do relato jornalístico, mas sem perder, contudo, o viés literário, característico da modalidade jornalismo literário. Com o trabalho almejou-se usar a narrativa característica do jornalismo literário, tendo como principais referências nomes do New Journalism como Tom Wolfe e Gay Talese. O material utilizado pela autora, tanto para a produção deste memorial quanto para o produto, estão elencados ao final desta memória da pesquisa. 5.1- Jornalismo e literatura- Convergências e Divergências As questões referentes à relação entre as áreas jornalismo e literatura são múltiplas e um tanto quanto complexas. Gustavo de Castro e Alex Galeno, na 13 coletânea de ensaios Jornalismo e literatura: a sedução da palavra (2002), expõem que a fronteira entre o jornalismo e a literatura está cada vez mais difusa, em que uma recorre aos recursos e cosmovisões da outra: “Ninguém duvida, por exemplo, que as técnicas de narração presentes no interior do campo literário possam ressaltar, ilustrar e fortalecer o texto jornalístico, assim como as técnicas do jornalismo têm subsidiado cada vez mais a própria literatura” (CASTRO; GALENO, 2002, p. 9). O escritor e cronista Moacyr Scliar, em seu ensaio Jornalismo e literatura: a fértil convivência, que compõe o livro Jornalismo e literatura: a sedução da palavra (2002), de Gustavo de Castro e Alex Galeno, tem uma visão mais ponderada. Ele acredita que existe uma fronteira entre os dois campos, apesar de eles se complementarem. A Literatura pode ensinar algo ao jornalismo. Em primeiro lugar, a cuidar da forma, a escrever e a reescrever. Também ensina a privilegiar a imaginação – mas não demais: realidade é realidade, ficção é ficção... Há sim, uma fronteira entre jornalismo e ficção. Mas é uma fronteira permeável, que permite uma útil e amável convivência. (SCLIAR. 2002. p. 14). Tal convivência entre os dois gêneros também é defendida por Edvaldo Pereira Lima em seu livro Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, de 1993, onde comenta que o jornalismo absorve elementos do fazer literário. Lima discorre ainda sobre as interações da literatura contemporânea com a imprensa moderna. Mesmo quando representa o real, através da ficção, a factualidade concreta, efetiva, não é, na maioria dos casos, o item primordial...não há na literatura contemporânea aos primórdios da imprensa moderna atual a necessidade do reportar completamente factual. E é esta tarefa, a de sair do real para coletar dados e retratá-lo, a missão que o jornalismo exige das formas de expressão que passa a importar da literatura, adaptando-as, transformando-as (LIMA, 1993, p. 138). 14 Mas, apesar de ser quase um senso comum, entre profissionais e acadêmicos da área, que o jornalismo incorpora características da literatura, assim como existe a influência de modelos literários para construir determinados discursos jornalísticos, existem autores que vão de encontro a essa ideia. O jornalista Pery Cotta, em seu livro Jornalismo: teoria e prática (2005) expõe que o jornalismo se ancora em formas literárias, sem chegar, contudo, a ser literatura. O jornalista e pesquisador do CNPq na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia Elias Machado, em seu artigo Jornalismo e literatura, dá duas razões para explicar que o jornalismo, como prática profissional, nada tem a ver com a literatura. Em primeiro lugar, o jornalismo trata do presente, condicionado pelos fatos da realidade diária, enquanto a literatura opera no plano atemporal, livre para criar suas próprias regras. Em segundo lugar, tanto em nível do registro quanto da exposição dos fatos, as duas modalidades discursivas são orientadas por técnicas de apuração, redação, de estilo e éticas diferenciadas1. Em contrapartida, existem autores defensores da ideia de que as duas áreas, jornalismo e literatura, são próximas e complementares. É o que pensa Alceu Amoroso Lima em seu livro O jornalismo com gênero literário (2003). Para Amoroso Lima, os textos jornalísticos podem ser também literários. Tal concepção é a mesma de Antonio Olinto, autor de Jornalismo e literatura (2008). Para ele, não existe diferença técnica entre jornalismo e literatura, uma vez que as duas áreas possuem como matéria prima a palavra. Segundo Olinto, o que existem são diferenças de espécie e intensidade, diferenças estas que podem ser encontradas, também, entre os gêneros literários, como, por exemplo, entre um romance e um ensaio. 1 Disponível em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/showNews/al041220022.htm 15 Sérgio Vilas Boas, em seu ensaio J+L = Jornalismo Literário, publicado em 2008 na Introdução do livro Literatura e jornalismo2, discorre sobre o dilema se o jornalismo é ou não literatura. Para Vilas Boas (2008) existem estudos acadêmicos sérios, relevantes e isentos de ideologias acerca das relações do jornalismo com a literatura. “Alguns me dizem que jornalismo e literatura são água e óleo, que não se misturam; outros argumentam que são nutrientes da mesma porção de terra, ou algo como os dedos desiguais de uma mesma mão” (VILAS BOAS, 2008, p. 1). Vilas Boas defende que entre o jornalismo e a literatura existe um casamento verdadeiramente íntimo, onde os métodos de reportar (jornalísticos) e as técnicas de expressão (literárias) formam um par prolífico. Tal casamento, segundo Vilas Boas, recebe o nome de jornalismo literário. 5.2 Jornalismo literário O jornalismo literário traz consigo uma história e não somente uma notícia. Tem o papel de informar conservando a essência jornalística, entretanto com ganho em vocabulário, aprofundamento de conteúdo e estrutura narrativa. Assim, a informação, o relato, ganham a companhia de personagens, descrições (de personagens e cenas), enredos, adjetivos e contextualização que não ganhariam vida no cotidiano jornalístico. Edvaldo Pereira Lima (1993) afirma que a modalidade, também conhecida como Jornalismo Narrativo, é uma “modalidade de prática da reportagem de profundidade e do ensaio jornalístico utilizando recursos de observação e redação originários da (ou inspirados pela) literatura. Para Edvaldo, alguns elementos são essenciais como: imersão do repórter na realidade, voz autoral, estilo, precisão de dados e informações, uso de símbolos (inclusive metáforas), digressão e humanização. Ainda Lima, em seu livro Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, afirma que o jornalismo literário constitui2 Disponível em http://www.sergiovilasboas.com.br/ensaios/j_mais_1.pdf 16 se em um canal de expressão do real, onde há um mergulho do repórter para mostrar uma visão mais ampla e humanizada: “O jornalismo literário é uma viagem de descoberta pelo território do real, por todos os mundos que constituem aquilo que achamos que é a realidade... A literatura criativa de não ficção volta-se para a realidade, para compreendê-la” (LIMA, 2000, p. 436). No que concerne ao emprego de recursos literários, o autor enfatiza que, atualmente, é possível reconhecer três categorias de obras: “As puramente de ficção, que tratam dos produtos do imaginário elaborados pelo escritor; as jornalísticas, que se apropriam dos recursos literários apenas para reportar melhor a realidade; e as que mesclam a ficção e o factual” (LIMA, 2008, p. 436). Alguns autores, como Felipe Pena (2008), são radicais e afirmam que o jornalismo literário simboliza a ruptura com os padrões de conduta jornalística. Para identificar o jornalismo literário, Pena (2008, p. 13) mostra algumas características que ele convencionou chamar “estrela de sete pontas”. De acordo com o autor, qualquer uma dessas características utilizadas no texto já faz parte do jornalismo literário. Tais características representariam as amarras que a literatura possui quando atrelada ao jornalismo. “Potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lead, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos” (PENA, 2008, p.13). Outros, como Vilas Boas (2002), são menos radicais e afirmam que o jornalismo literário adquiriu maior autoconsciência e aperfeiçoou-se: ...Mais que uma técnica narrativa, o JL é também um processo criativo e uma atitude nos quais não cabem fórmulas, esquemas ou grupismos. São esses fatores que o projetam, hoje, como alternativa (óbvia) para arejar 17 os conteúdos de jornais e revistas, principalmente, mas também de documentários audiovisuais, radiofônicos e até sites 3 . Na maioria das vezes, o jornalismo literário está presente na construção de grandes reportagens, bem escritas e de cunho social, que agreguem algo ao leitor e à sociedade. Grandes obras como Hiroshima, de John Hersey, publicado em 1946 pela revista The New Yorker; A Sangue Frio, de Truman Capote, de 1966; Frank Sinatra está resfriado, de 1966, de Gay Talese, publicado pela revista Esquire; dentre outras, se tornaram referências do New Journalism, corrente responsável por resgatar a tradição do jornalismo literário para a última metade do século XX. 5.3- Novo Jornalismo A aproximação do jornalismo com a literatura alcançou o auge com o New Journalism, corrente surgida na imprensa dos Estados Unidos dos anos 60, no apogeu do movimento da contracultura. Teve como seus principais expoentes Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote, Jimmy Breslin e Norman Mailer. O Novo Jornalismo foi responsável por oferecer ao jornalista mais liberdade de introduzir um pouco de literatura em suas matérias, resgatando, na segunda metade do século XX, a tradição do jornalismo literário não cartesiano, presente em perfis e reportagens inicialmente publicados em revistas e jornais. Felipe Pena (2006) discorre sobre o surgimento do gênero. O que vai proporcionar o advento do Novo Jornalismo contemporâneo na década de 1960, nos Estados Unidos, é a insatisfação de muitos 3 Disponível em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/ed730paracompreenserojornalismoliterario 18 profissionais da imprensa com as regras de objetividade do texto jornalístico, expressas na figura famosa do lead, uma prisão narrativa que recomenda começar a matéria respondendo às perguntas básicas do leitor. (PENA, 2006, p. 53) O lançamento do livro A Sangue Frio, de 1966, de Truman Capote, fez com que o jornalismo literário passasse a ser conhecido e colocado em prática em diversos países. Gay Talese foi outro expoente responsável por elevar a reportagem biográfica ao seu mais alto grau de sofisticação e polimento, com seu Frank Sinatra está resfriado publicado na edição de abril de 1966 da Esquire. Talese conseguiu retratar, na referida obra, o temperamento imprevisível e mal-humorado de Sinatra, sem ter tido sequer um encontro com o astro (devido ao seu temperamento). O escritor escreveu sua obra através de pesquisa, conversas com familiares, amigos e desafetos do ídolo. Em sua obra Fama e Anonimato, Talese (2004) exibe seu pensamento no que diz respeito ao Novo Jornalismo. Para Talese, o Novo Jornalismo não é uma ficção, apesar de poder ser lido como ficção. Ele defende a ideia de que a corrente é, ou deveria ser tão verídica como a mais exata das reportagens, buscando, embora, uma verdade mais ampla que a possível através de meras compilações de fatos comprováveis, do uso de citações diretas e da adesão ao estilo rígido mais antigo. O Novo Jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com frequência, ou que assuma o papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive. Procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e as reações dos outros a eles. Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando...” É assim possível saber e registrar o que se passa na mente das pessoas. (TALESE, 2004: p. 9) 19 Nesta mesma linha de pensamento, o jornalista Sérgio Vilas Boas, em seu artigo Jornalismo Literário e o Texto em Revista4, afirma a necessidade da presença do jornalista na ação, para que assim a percepção de particularidades e sutilezas, tanto do personagem quanto do ambiente, sejam apuradas. Era primordial estar no lugar onde ocorriam cenas dramáticas para captar conversas, gestos, expressões faciais, detalhes do ambiente etc.; revelar os bastidores da matéria tanto quanto as impressões do repórter sobre o personagem. (VILAS BOAS, 2002) Lima (1993) afirma que são quatro os recursos técnicos que são utilizados pelo Novo Jornalismo. Dois são citados por ele: ponto de vista autobiográfico em terceira pessoa e o registro fiel dos elementos do cotidiano. Os outros dois recursos ele deixa que o próprio Tom Wolfe explique, os quais são: a construção cena a cena de modo a não recorrer à narração puramente história; e a presença de diálogos completos. Dentre tais elementos, é possível notar no presente perfil a prevalência do ponto de vista em terceira pessoa, registro dos elementos do cotidiano e a construção de cenas. Houve uma absorção, para a feitura do perfil, do pensamento de Talese descrito em Fama e Anonimato (2004), no que concerne à importância da presença do repórter no momento da ação para que assim o mesmo possa captar minúcias que seriam impossíveis de serem absorvidas sem sua presença. Mediante a utilização do detalhe íntimo, podemos ouvir e ver como as pessoas sobre quem escrevemos dizem o que está em suas cabeças: podemos notar as suas inflexões de voz, seus elaborados movimentos de mão e quaisquer outras excentricidades. (VILAS BOAS, 2002) 4 Disponível em http://www.jornalite.com.br 20 Lima (1993) lembra que algumas funções do jornalismo, como a atualidade, ganham maior elasticidade no jornalismo literário. Uma pauta não necessariamente precisa abordar um acontecimento recente, quente, mas o antigo pode virar atual a partir de algo novo que faça esse resgate. Nesse ponto, Lima (1993) acredita que este é o espaço que a reportagem encontrou. 5.4- Perfil O gênero jornalístico perfil surgiu em jornais e revistas há dois séculos. Na imprensa norte-americana os perfis se destacaram em revistas como Esquire, The New Yorker, Vanity Fair, Life, Harper’s, People e Biography, dentre outras. Aqui no Brasil, as revistas Manchete, Realidade e O Cruzeiro valorizaram e deram espaço a esse tipo de texto. As duas últimas se constituíram em difusores máximos dessa modalidade de jornalismo interpretativo no país, com excelentes textos de jornalistas como Roberto Freire, Luiz Fernando Mercadante, Oriana Fallaci, Carlos Azevedo, dentre outros. Edvaldo Pereira Lima (2009) lembra que a revista cultural-literária The New Yorker, fundada em 1925, deu um importante salto para que houvesse a evolução do gênero perfil com a contratação de Joseph Mitchell. O jornalista foi autor de centenas de textos que não se restringiram à personalidades do showbiz. Mitchell perfilou também personagens da vida real, como típicos moradores urbanos nova-iorquinos, operários, agricultores, boêmios, conferindo dignidade àqueles que, de outro modo, continuariam no anonimato. Em seu livro biografias e biógrafos: jornalismo sobre personagens, Vilas Boas (2002) define: O perfil jornalístico é um texto biográfico curto (também chamado shortterm biography) publicado em veículo impresso ou eletrônico, que narra episódios e circunstâncias marcantes da vida de um indivíduo, famoso ou não. Tais episódios e circunstâncias combinam-se, na medida do possível, com entrevistas de opinião, descrições (de espaço físico, épocas 21 feições, comportamentos, intimidades etc.) e caracterizações a partir do que o personagem revela (às vezes sem dizer). (VILAS BOAS, 2002. p. 93) Oswaldo Coimbra (1993), no livro O texto da reportagem impressa: um curso sobre sua estrutura denomina os perfis jornalísticos de “reportagem narrativodescritiva de pessoa”, podendo ser possível conhecer seu perfil psicológico: Num texto jornalístico sobre uma pessoa, poderá haver um conjunto formado pelas ações e reações atribuídas a esta pessoa, pelo que ela diz a seu próprio respeito, a respeito de outras pessoas e a respeito dos fatos, em geral, e pelo que as outras pessoas dizem dela. Tal conjunto poderá induzir o leitor a concluir que esta pessoa tem determinado tipo de caráter e de temperamento. Os indícios de certo caráter e de certo temperamento estão espalhados ao longo do texto e vão se acumulando à medida que ele transcorre. Os traços de caráter e de temperamento, definidos pelo acúmulo de indícios, costumam ser contrastados em conjuntos binários como deprimido/eufórico, agitado/calmo, generoso/mesquinho, emotivo/cerebral. (COIMBRA, 1993, p. 117) Para Sodré & Ferrari (1986) deve ser chamado de perfil o texto que enfoca um personagem, protagonista de uma história (a de sua própria vida). Quando o personagem é secundário e sua descrição ocorre num breve momento de suspensão da ação narrada, há, para estes autores, o que denominam miniperfil. Já Sérgio Vilas Boas (2003), em seu livro Perfis: e como escrevê-los, explica sobre os aspectos de um perfil jornalístico e relata que os perfis, diferentemente das biografias, focalizam apenas alguns momentos da vida de uma pessoa. Empregando-se, assim, uma narrativa curta no tocante ao tamanho do texto e ao tempo de validade. Para buscar a definição de perfil, Vilas Boas elenca alguns autores. Para Steve Weinberg, o perfil é uma biografia de curta duração. Para Oswaldo Coimbra, seria uma reportagem narrativo descritiva de pessoa. Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari acreditam que pode ser considerado perfil o texto que enfoca o protagonista de uma história. 22 Mas para escrever a história de alguém deve haver o lado humanístico do perfilado. Lima (1993) aborda a questão da humanização (a arte de deixar mais real o fato), por detrás do perfil. O perfil é o lado da humanização da reportagem, já que o jornalismo se diferencia também por ser uma forma de comunicação que se volta para o homem, em última instância, como seu foco central e como tal visa emocionar, ao lado da elucidação racional, para transmitir um retrato completo dos temas que aborda. (LIMA, 1993, p. 26) E completa: Os autores de perfis dos anos cinquenta e sessenta eram encorajados a conduzir diálogos verdadeiramente interativos para humanizar ao máximo a matéria. Podiam mesclar informações sobre cotidiano, projetos e obras do sujeito; e opiniões deste sobre temas contemporâneos como fama, sexo, família, drogas, dinheiro, lazer e política. Ideias e empatias coexistiam em nome de um retrato literário nítido, em nome de captar o passado e o presente do personagem... (LIMA, 1993, p. 96) Com relação ao personagem, o jornalista Paulo Paniago (2008), em sua tese de doutorado intitulada Um retrato interior – O gênero perfil nas revistas The New Yorker e Realidade, ressalta que o perfil não tem que ser, necessariamente, escrito sobre alguma personalidade. Ele lembra que o gênero narrativo desenvolveu-se para incorporar a história do homem comum. O perfil não precisa ser de alguém famoso ou reconhecido publicamente. O drama humano pode ser mais bem representado naqueles que não necessariamente “se deram bem” na vida. (PANIAGO, 2008, P. 27) Quanto à narrativa, Paniago (2008) lembra que os recursos utilizados no perfil assemelham-se aos do realismo: construção cena a cena; registro do diálogo completo; ponto de vista da terceira pessoa; registro minucioso de detalhes (gestos, hábitos, roupas, estilos de mobília, maneiras de comer etc.). “O uso detalhista de longas descrições também é um aspecto a considerar, tal como foi 23 utilizado por Truman Capote no único perfil que publicou na revista The New Yorker, ‘O Duque em seu Domínio’ (2008, p.28). Ele observa ainda que existem algumas características básicas para que um jornalista possa escrever um perfil. Uma delas é a capacidade de o repórter se colocar diante do objeto como se fosse uma câmera ou um gravador, a fim de captar não apenas sons, mas qualquer detalhe relevante para o desenvolvimento narrativo. 6-Metodologia O presente trabalho é resultado de uma mudança de trajetória tomada pela autora. Estudante da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em mobilidade acadêmica na Universidade de Brasília (UnB), a estudante teria como tema de TCC um livro-reportagem sobre uma personagem de Viçosa- MG, sua cidade de origem. No decorrer da maior parte da disciplina Pré-Projeto em Jornalismo, ministrada pela professora Dione Moura, a aluna cumpriu trabalhos de pesquisa naquela cidade para que o produto fosse realizado. O emprenho em fazer um trabalho do campo jornalismo literário foi fortalecido, sobretudo, após a aluna-repórter ter frequentado aulas da disciplina Jornalismo Literário, com o professor Paulo Paniago, bem como a disciplina Jornalismo Biográfico, em sua universidade de origem. A leitura de perfis e livroreportagens durante as disciplinas aumentou o interesse de a aluna escrever um perfil. Como dito, primeiramente a autora havia pensado em escrever um livroreportagem sobre outra personagem. O tema havia sido definido quando a aluna estava ainda na Universidade Federal de Viçosa. Contudo, o personagem e o gênero seriam outros. Após reuniões com o orientador, este indicou, todavia, que a proposta assemelhava-se mais a um perfil. Um dos entraves para a realização do trabalho é a longa distância que separa Viçosa a Brasília, impossibilitando que a autora viajasse com certa frequência para realizar as entrevistas e apurações. Outra questão é com relação 24 aos compromissos profissionais da personagem, que, por ser treinadora de atletas da modalidade levantamento, sempre viajava com os mesmos para competições em outras cidades e estados. Assim, o tema foi definido já no decorrer da disciplina Projeto Final, em maio. Primeiramente a autora pensou em fazer um livro-reportagem sobre Joana. Após as primeiras reuniões com o orientador — que se iniciaram no dia 8/04 — este sugeriu, todavia, que a proposta assemelhava-se mais a um perfil. Primeiramente o orientador sugeriu que fossem feitas leituras essenciais, como Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, de Edvaldo Pereira Lima, Fronteiras Contaminadas, de Rildo Cosson e Frank Sinatra está resfriado, de Gay Talese. Todos essenciais para a execução do trabalho. O primeiro principalmente pelo referencial teórico, enquanto o último livro auxilia como leitura de referência de perfis. O fato de ter conhecido Joana, no ambiente de trabalho, despertou a vontade e o interesse em contar um pouco da história dela. A obra de Gay Talese, Frank Sinatra está resfriado foi fonte inspiradora, posto que conta a história, bem como o perfil psicológico do personagem, mesmo que o autor não tenha mantido contato diretamente com o cantor. Talese escreveu o perfil do astro com base em entrevistas com pessoas próximas à Sinatra e em análise do próprio jornalista. Em um primeiro momento, a estudante pensou em escrever o perfil dividido apenas duas partes. A primeira, dedicada à infância de Joana, com acontecimentos desagradáveis vividos por ela, tanto por conta da mãe quanto por conta da patroa que teve enquanto foi babá. Na segunda parte cogitou-se abordar a situação atual de Joana, as marcas tanto físicas quanto psicológicas. No entanto, no decorrer do processo de produção a autora optou por trabalhar em mais partes de modo a mostrar o presente e o passado, desde a rotina de Joana no trabalho, até o amor que tem pela família, pelo pai, pelos irmãos, não deixando de lado, contudo, as dores e as más lembranças deixadas pela mãe, alcoólatra, incluindo relatos de familiares que viveram e também sofreram com tais problemas. 25 Para a feitura do trabalho foram realizadas entrevistas quase que diárias nos intervalos do trabalho da autora e/ou ao final do expediente da perfilada. A autora realizou também visitas na casa da entrevistada, em Planaltina- DF para conhecer um pouco da rotina, dos hábitos e também conhecer a cidade e a casa em que mora desde a infância. Estas entrevistas aconteceram entre os dias 13/05 e 19/06. A autora teve contato também com familiares de Joana. A conversa com estes foi importante para esclarecer aspectos psicológicos da perfilada. Desse modo, a estudante foi até a quadra 02 no setor residencial Leste de Planaltina-DF. Josélia, a irmã de Joana, e o pai, José Gonçalves, também ajudaram nas memórias da irmã no que concerne à mãe. Nas entrevistas feitas na casa de Joana, que aconteceram nas tardes dos dias 01/06 e 15/06, foi possível estabelecer diálogo mais aprofundado, apreendendo com maior riqueza os detalhes de expressões e aguardando a ocasião exata para adquirir confiança das fontes e entrar em temas mais complexos, como os maus tratos feitos pela mãe à Josélia e as consequências do alcoolismo da mãe, Ernestina, para Joana. De início o pai de Joana, José Gonçalves, respondia de forma resumida as histórias dos maus tratos nos filhos praticados pela esposa. Com o transcorrer da entrevista ele passou a demonstrar mais confiança a revolta e a tristeza pelo comportamento violento da esposa para com os filhos. As longas entrevistas conversadas com Joana e a que foi realizada com a irmã, Josélia, foram bastante esclarecedoras para entender a história de Joana e da família. 7- Conclusões Muitas dúvidas surgiram no decorrer da produção do perfil com relação à angulação em que deveria ser conduzido o produto. Foram frequentes os questionamentos a respeito do enfoque amplo ou específico. Contudo, no decorrer da produção ficou claro que a primeira alternativa seria mais precisa, uma vez que a autora acredita que o mesmo objeto pode ser visto de diversas maneiras por indivíduos de diferentes contextos. 26 O presente trabalho procurou se firmar como instrumento literário e de informação, uma vez que relata o perfil de Joana. A intenção do trabalho da aluna foi a de escrever o perfil, relatando os problemas pelos quais Joana passou na vida, desde o alcoolismo da mãe às agressões que sofreu da patroa quando tinha apenas doze anos. Isso por meio de um perfil com narrativa próxima ao jornalismo literário. A proposta do trabalho foi o de elaborar o perfil que aborde a história de Joana, revelando seu perfil sociocultural e psicológico. Mostrando como os problemas pelos quais passou com os maus-tratos da patroa, quando ainda tinha doze anos, e com o alcoolismo da mãe, afetaram a ela e a família. Para o desenvolvimento da proposta, o objetivo geral do perfil, procurou-se buscar cada acontecimento em separado. Contudo, durante o processo de apuração, a autora percebeu que existe uma forte ligação entre os acontecimentos. O aspecto social e psicológico foi abordado desde a infância de Joana, momento em que ela já sofria com as consequências do alcoolismo da mãe e com as agressões da patroa. As respostas para esse aspecto foram encontradas a partir de longas entrevistas conversadas com Joana e familiares. A autora do trabalho procurou reconstruir os acontecimentos ocorridos, tanto com Joana quanto com seus familiares, de maneira mais detalhada possível, de modo que fosse possível gerar uma certa empatia proposta por Vilas Boas (2003), quando diz sobre o papel importante dos perfis, que é exatamente gerar empatias. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias experimentadas pelo personagem. Significa compartilhar as alegrias e tristezas de seu semelhante, imaginar situações do ponto de vista do interlocutor. (VILAS BOAS, 2003, p. 14) A partir das entrevistas, a autora pôde enxergar o perfil psicológico, social e cultura de Joana. A autora do trabalho entrevistou José Gonçalves, 81 anos, pai de Joana, bem como Josélia, uma das irmãs que mais sofreram as consequências do 27 alcoolismo da mãe. As entrevistas ajudaram a desvendar o passado e comportamento de Ernestina, mãe de Joana com os filhos, e como tal conduta afetou toda a família. Durante a produção do perfil, buscou-se aplicar tom literário sempre que a autora considerou aceitável. Assim, a autora avalia que a resposta ao problema do trabalho, “De que maneira transpor para um perfil os aspectos psicológicos, sociais e culturais de Joana?”, se encontra na busca por dar coesão e continuidade à narrativa, para que ela se torne uma narrativa literária. O aspecto multiangular proposto pelo perfil foi possível, uma vez que não se restringiu à apenas uma análise da perfilada, abarcando seus perfis, tanto psicológico quanto social e cultural. A autora analisa como positivo o resultado do trabalho. Avalia também que o objetivo geral e grande parte dos específicos foram alcançados. Almeja-se que este trabalho desperte o interesse e a curiosidade de leitores que trabalham no mesmo ambiente de Joana, como também de outros leitores interessados em conhecer a história de vida desta figura peculiar. 8- Bibliografia 8.1 Livros, capítulos de livros, monografias, dissertações e artigos AMOROSO LIMA, Alceu. O Jornalismo com gênero literário: Com-Arte 1990. CAPOTE, T. A sangue frio: relato verdadeiro de um homicídio duplo e suas consequências. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex. (org) Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra- São Paulo: Escrituras Editora, 2002-Coleção ensaios transversais. COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem impressa: um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993. 28 COSSON, Rildo. Fronteiras Contaminadas: literatura como jornalismo e jornalismo como literatura no Brasil dos anos 1970. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007. COSSON, Rildo. Romance-reportagem: o gênero. São Paulo: Ática, 2001. COTTA, Pery. Jornalismo: teria e prática. Rio de Janeiro: Rubio, 2005. DOSSE, François. O Desafio Biográfico: escrever uma vida. Tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. LIMA, Alceu Amoroso. O Jornalismo como Gênero Literário. SP: Edusp, 2003. LIMA, Edvaldo P. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. OLINTO, Antonio. Jornalismo e Literatura. Porto Alegre: Já Editores, 2008. PANIAGO, Paulo Roberto Assis. Um retrato interior: O gênero perfil nas revistas The New Yorker e Realidade. Tese de doutorado – Universidade de Brasília, Brasília – DF, 2008. PENA, Felipe. Jornalismo Literário. São Paulo: Contexto, 2006. SODRÉ, Muniz: FERRARI, Maria H. Técnicas de reportagem – notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986. TALESE, Gay. Fama e Anonimato. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Cia.das Letras, 2004. VILAS BOAS, Sergio. Biografias & Biógrafos: jornalismo sobre personagens/ Sergio Vilas Boas- São Paulo: Summus, 2002. VILAS BOAS, Sérgio. Perfis: e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003. 8.2 Material extraído da internet MACHADO Elias, Jornalismo & Literatura O duplo equívoco de García Márquez. Disponível em 29 http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/showNews/al041220022.htm acessado em 11/06/2013, acessado em 13/06/2013. PENA, Felipe. O Jornalismo Literário como gênero e conceito. Disponível em: http://felipepena.com/download/jorlit.pdf Acessado em 29/01/2013 , acessado em 19/06/2013. RAMOS, Cristiano. Literatura e Jornalismo: bases teóricas para análise do livroreportagem. 2010. 131 f. Dissertação de mestrado em Teoria Literária – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010. Disponível em http://www.pgletras.com.br/2010/dissertacoes/diss-Cristiano-Ramos.pdf, acessado em 14/06/2013. VILAS BOAS, JL e o Texto em Revista. Jornalite- Portal de Jornalismo Literário no Brasil, São Paulo, 2001. http://www.sergiovilasboas.com.br/ensaios/j_mais_l.pdf Disponível , acessado em em 21/06/2013. WEISE, Angélica Fabiane. Para compreender o Jornalismo Literário. 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