Luiz Beltrão
Iniciação
à Filosofia do
Jornalismo
(Ensaio)
“Prêmio Orlando Dantas – 1959”
Capa de Aberlardo Zaluar
1960
Livraria Agir Editora
Rio de Janeiro
A JEAN-MAURIGE RERMANN
Presidente da O.I.J. — Paris
Prof. RONALD IIILTON
da Universidade de Stanford — Califórnia
Dr. FRANCIS E. TOWNSEND
Adido Cultural dos EE.UU. — Washington
JAROSLAV KNonwdn
Secretário Geral da O.LJ. — Praga
Luís SuAREZ
do Sindicato Nacional de Redatores de Prensa
— México
Prof. P. P. SINGI-I
Diretor do Departamento de Jornalismo da
Universidade de Panjab — índia
CARLOS RIZZINT, TEISTÂ0 DE ATAÍDE G ANTÔNIO OLINTO
pioneiros dos altos estudos jornalísticos no Brasil e “ad inemoriam”
Prof. Luiz SILVEIRA
Diretor da Escola de Jornalismo Casper Líbero
— S. Paulo
Prof. MÁRIO MELO
Decano dos jornalistas pernambucanos
O AUTOR DEDICA
ÍNDICE
PREFÁCIO ..................................................................................................................................... 9
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 13
PRIMEIRA PARTE: AS MANIFESTAÇÕES DO JORNALISMO ..................................................21
ORIGEM E EVOLUÇÃO .............................................................................................................. 23
Pré-história do Jornalismo ............................................................................................................24
A fase histórica .............................................................................................................................26
Primórdios do Jornalismo brasileiro ............................................................................................. 28
O PAPEL E O JORNALISMO ESCRITO ......................................................................................32
Peliculas de celulóide ...................................................................................................................35
Micro-fotografia .............................................................................................................................35
Os jornais eletrônicos ...................................................................................................................36
O RÁDIO E O JORNALISMO ORAL ............................................................................................86
O telefone .....................................................................................................................................39
A fita magnéticaca ........................................................................................................................39
O DESENHO E O JORNALISMO PELA IMAGEM ...................................................................... 41
A ilustração e a caricatura ............................................................................................................42
A fotografia ...................................................................................................................................46
O cinema ......................................................................................................................................48
A televisão ....................................................................................................................................54
CONCEITO DE JORNALISMO .....................................................................................................60
SEGUNDA PARTE: OS CARACTERES DO JORNALISMO ........................................................63
DA ATUALIDADE .........................................................................................................................66
Jornalismo e História ....................................................................................................................66
Atualidade e Atualização ..............................................................................................................68
Atualidade e Permanência ............................................................................................................69
Manifestações da Atualidade ........................................................................................................71
DA VARIEDADE ...........................................................................................................................72
Variedade e Especialização ..........................................................................................................73
Jornalismo Geral e Especializado .................................................................................................75
DA INTERPRETAÇÃO .................................................................................................................77
Interpretação e Seleção ................................................................................................................78
Interpretação e Vocação ...............................................................................................................79
Extensividade e Intensividade ......................................................................................................81
DA PERIODICIDADE ....................................................................................................................82
Através da História ........................................................................................................................83
Nos Tempos Modernos .................................................................................................................86
DA POPULARIDADE ....................................................................................................................89
Extensão da Popularidade ............................................................................................................91
Popularidade e Liberdade .............................................................................................................98
Condições da Popularidade ..........................................................................................................98
DA PROMOÇÃO .........................................................................................................................100
Jornalismo e Sociedade ..............................................................................................................100
As Campanhas Jornalísticas e o Bem Comum ..........................................................................103
Jornalismo e Direito ....................................................................................................................104
Jornalismo e Opinião ..................................................................................................................110
TERCEIRA PARTE: OS AGENTES DO JORNALISMO .............................................................115
O PÚBLICO ................................................................................................................................117
O Público, Agente Ativo ..............................................................................................................118
Balanço do Trabalho do Público-Agente ....................................................................................122
O EDITOR ...................................................................................................................................123
O Editor-Financista .....................................................................................................................124
O Editor-Idealista ........................................................................................................................128
O Estado-Editor ..........................................................................................................................132
O Estado, Editor-Idealista ...........................................................................................................137
O TÉCNICO ................................................................................................................................140
Fase da Manufatura ....................................................................................................................141
Fase da Mecanofatura ................................................................................................................143
O Problema da Automatização ...................................................................................................150
Jornalismo e Automatização .......................................................................................................151
O JORNALISTA ..........................................................................................................................158
A Vocação do Jornalista .............................................................................................................159
A Curiosidade-Comunicativa ......................................................................................................161
Fecundidade Jornalística ............................................................................................................164
A Objetividade ............................................................................................................................162
A Discrição .................................................................................................................................166
Senso Estético ............................................................................................................................169
QUARTA PARTE: AS CONDIÇÕ&S DO JORNALISMO ............................................................171
O PROBLEMA DA LIBERDADE .................................................................................................173
Poder Público e Liberdade de Opinião .......................................................................................175
Educação para a Liberdade ........................................................................................................178
Defesa da Liberdade de Opinião ................................................................................................184
O PROBLEMA DA RESPONSABILIDADE .................................................................................185
Jornalismo e Moral ......................................................................................................................185
O Jornalismo Sensacionalista .....................................................................................................190
A Ética no Jornalismo Brasileiro .................................................................................................193
Jornalismo e Nacionalismo .........................................................................................................200
Ação Catalizadora do Jornalismo ...............................................................................................202
O Jornalismo Brasileiro e o Nacionalismo ..................................................................................205
Os Reclamos do Presente ..........................................................................................................209
Jornalismo e Paz Mundial ...........................................................................................................212
A “Batalha da Paz” ......................................................................................................................214
A ONU e a Paz ...........................................................................................................................216
Os Caminhos da Paz ..................................................................................................................219
BIBLIOGRAFIA ...........................................................................................................................223
PREFÁCIO
A muitos surpreenderá venha de um jornalista de província — certo que de província
com as tradições culturais de Pernambuco — uma contribuição de tantos e tão altos méritos
paira o conhecimento do jornalismo, em sua técnica e em seu espírito, como esta Iniciação à
Filosofia do Jornalismo, de Luiz Beltrão.
Entretanto, as condições em que, pelo menos até bem pouco, se fazia jornal na
província, sem as limitações de rígida especialização, davam aos bons jornalistas provincianos o
domínio integral dos segredos de seu ofício; habituavam-nos de cedo a redigir desde o registro
dos “faits divers”, à crônica internacional ou ao grave artigo doutrinário. Além disso, o contato
mais direto com o fato, em si, e com as suas reações, confere à posição daqueles jornalistas, em
face de um e de outras, o caráter de participação integral, quase sempre rica de calor humano,
até nos impulsos de suas paixões.
A prática do jornalismo de província adquire, com isso, peculiaridades que, se o
diferenciam, também o valorizam, em termos de identificação mais profunda entre o jornal e os
que o fazem e entre estes e o meio social. A modesta imprensa do interior, em seu heroísmo
anônimo na luta pela sobrevivência, é o mais vivo exemplo dessa identificação.
De Pernambuco vieram, aliás, já com os nomes consagrados, para unia atuação mais
ampla no jornalismo brasileiro — se quisermos citar apenas valores dos nossos dias —, figuras
da expressão profissional de Barbosa Lima Sobrinho, Aníbal Freire, Assis Chateaubriand, Osório
Borba, diferentes no estilo e feitio, mais todos eles, pelo equilíbrio, pela vivacidade, pelo ânimo
combativo, verdadeiros mestres no ofício. Dentre os que lá ficaram e morreram, poder-se-iam
referir nomes como Gonçalves Maia, Manuel Caetano, Carlos de Lira Filho e, mais
recentemente, aquele autêntico professor de ética que foi Caio Pereira, para quem a expressão
“magistratura da imprensa” definia seu próprio conceito de jornalismo, fiel à preocupação da
justiça ao dever da verdade. Ou, dos atuais, esse outro admirável artífice de jornal, Aníbal
Fernandes, mestre de mais de uma geração, sempre ágil e lúcido em sua extraordinária
sensibilidade jornalística para o fato que vai ser notícia.
Jornalista de província, no bom sentido, Luiz Beltrão concilia em sua atividade
profissional e didática a força da vocação com o gosto pela formação. Ocupando duas cátedras
em Cursos de Jornalismo, uma de Ética, outra de Técnica, até nisso revela seu ilimitado
interesse pelos problemas da imprensa, em sua universalidade: o espírito que anima a tarefa
jornalística, os fundamentos morais da profissão, de um lado; e, de outro, os aspectos ligados,
propriamente, à arte de fazer jornal. Sua participação em numerosas reuniões da classe, a
coerência da posição assumida em face de determinadas teses, as viagens a outros países, com
olhos atentos de repórter empenhado em apreender as experiências alheias, tudo isso lhe atribui
uma autoridade que o mérito deste ensaio consolida e amplia.
Sabe-se que a imprensa está sofrendo, em todo o mundo, a séria concorrência de outros
agentes de comunicação, com suposta primazia do rádio e da TV. Esta posição de desvantagem
é, porém, simples aparência. Pela circunstância de ser, talvez, dentre aque les agentes, o mais
adequado à experimentação simultânea do maior número das leis da propaganda, tais como as
definiu Domenach,o jornal continua a manter o antigo prestígio, na competência dos modernos
instrumentos formadores da opinião.
Luiz Beltrão adota, aliás, para “jornalismo” o conceito mais amplo; com ele identifica o
veículo, qualquer que seja, da informação sofre o fato corrente, e da interpretação desse fato,
“com o objetivo de difundir conhecimentos e orientar a opinião pública, no sentido de promover o
bem comum”.
A visão de conjunto dos problemas do jornalismo, contida neste ensaio, demo nstra-nos
quanto é fascinante a análise’ das modernas técnicas que interferem na formação da opinião;
elas é que geram ou manipulam, ao arbítrio de ocultas intenções, boas ou más, as forças
misteriosas que, expressas em vontades, tendências e aspirações, constituem i consciência de
cada sociedade ou, como também já foram chamadas, “o foro interior de uma nação”. Tanto
mais fascinante é aquela análise quanto vivemos uma hora - em que o progresso científico e
tecnológico, embora contribua, em termos de liberdade política, para assegurar ao homem o
direito dc manifestar sua opinião, concorre, em contrapartida, para tornar cada vez mais
vulnerável a sutis influências, de ação direta ou indireta, a própria elaboração do pensamento.
Êsse é, realmente, o mais grave risco que enfrentam não só as instituições democráticas, mas a
própria razão livre dos cidadãos, no difícil mundo dos nossos dias.
A pluralidade dos partidos e a liberdade de opinião têm igual importância como valores
inerentes à concepção ocidental de democracia. Mas, até onde essa liberdade de opinião será,
realmente, livre? Até onde seu exercício traduzirá um esforço espontâneo de discernimento, a
eleição consciente de uma atitude ou solução, dentre várias atitudes e soluções? À medida que
se aperfeiçoam os recursos técnicos de comunicação, mais se acentua o perigo de que
processos artificiais elaborem as correntes de opinião, submetendo-as à influência deformadora
dos agentes da propaganda. “A opinião é tão livre” — anota Afonso Armas de Melo Franco —
“quanto permitem as injunções da psicologia. A pro paganda encadeia a sua vítima, dando à
imposição da conduta a aparência de escolha voluntária”.
O grau de eficiência alcançado pelos meios formadores da opinião, a capacidade dêstes
meios para impor-lhe os rumos e tendências que mais convenham a objetivos predeterminados,
criaram tremenda responsabilidade moral, nos dias atuais, para os que manejam os
instrumentos de informação e propaganda. Se lhes faltam as bases ideológicas de uma
consciência social, ou as diretrizes de princípios éticos, a fórça que detém, consciente ou
inconscientemente, não estará nunca a serviço do progresso humano, da justiça social, do bem
comum. Será simples joguete de outros, manobrado por interêsses ocultos ou por grupos de
pressão.
Variando de povo para povo, em função dos diferentes elementos históricos, étnicos e
culturais que lhe formem o substrato mais profundo, a opinião pública exprimirá sempre o seu
grau de higidez pela resistência às injunções externas e pelo poder de discernimento e reação
crítica. Além disso, terá de fusidar-se em deterininados valores morais, para. que mantenha
ui3va atitude de permanente vigilância e fiscalização, no jôgo de tendências e contradições de
que resulta o equilíbrio das democracias. Tanto mais imaturo poticamente um povo, quanto
maior sua receptividade emocional e mais suscetível de ceder às injunções das técnicas de
divulgação e propaganda, pela frágil resistência aos ardis da coerção psicológica. Désses ardis
se têm valido, por exemplo, os regimes totalitários, para o domínio pacífico das vontades e
inteligências, em benefício de uma ideologia, de um partido, ou de um homem — no caso, o
ditador.
Há, é verdade, enorme distância entre os métodos adotados, nesse terreno, pelos
Estados totalitários — não só de coerção psicológica, mas também de violência policial e de total
supressão da liberdade de informar e opinar —, e o estilo dos países livres. Nestes, pelo menos
teoricamente, o processo de formação da opinião, sobretudo no que incumba aos órgãos do
govêrno, tem de basear-se no dever da verdade e no esfôrço de persuasão, pelo esclarecimento
honesto, o livre exame e o acesso fácil às fontes autênticas de informação, tudo condicionado
pelo res peito à dignidade humana. Nas democracias é que o jornalismo alcança lada a sua
grandeza, porque a missão que lhe cumpre, livremente exercida, não pode sofrer outras
limitações senão as que decorrem da consciência dos que o praticam.
Não falta quem indague, com certo ar de alarmismo, em que é fácil identificar, muitas
vêzes, o mêdo instintivo da liberdade, se está a imprensa, particularmente nos países de menos
maturidade política e cultural, à altura de sua missão social; se, em muitos casos, não transigirá
demasiado com o gôsto mórbido de algumas camadas do público, prontas sempre a valorizar o
sensacionalismo e o escândalo. Transigência que se manifesta ainda no relêvo publicitário
conferido aos aspectos patológicos ou negativos do dia-a-dia, enquanto, via de regra, dispensa
tratamento diferente aos fatos de sentido construtivo, capazes de gerar atitudes de confiança e
otimismo.
Acentua muito bem Alceu Amoroso Lima que “a grande finalidade moral e social do
jornalista (...) vai além da finalidade puramente informativa. O jornalista medíocre informa por
informar; o autêntico jornalista informa para formar”. O conceito de notícia, dentro de certai
noções já sistematizadas, é uma aquisição comum na técnica jornalística moderna, nêle implícito
o dever da isenção, da precisão e da objetividade. Mas, o próprio dever e o direito de informar
têm de ser entendidos dentro dos limites daquela finalidade social e moral; ou então o jornalismo
deixa de ser um elemento positivo, como fô rça elaboradora da opinião — que éle, a um só
tempo, forma e reflete, sofrendo-lhe, também, a. influência — para converter-se num poderoso
instrumento de perversão.
É preciso evitar que o mau uso da liberdade, de que nos falava Pio XII ao aludir às
tentações a que está sujeito o jornalista, leve pessoas de boa fé, nas democracias, a.
defenderem a restrição dessa liberdade. Ruim com ela, pior sem ela. Sempre a experiência
demonstrou que todos os abusos da liberdade, por parte da imprensa, foram menos nocivos ao
bem comum do que a supressão da possibilidade de sua prática. Mesmo naqueles casos em
que certas deficiências éticas desviam o jornalismo da consciência de sua missão social, devese ter presente que a estatização da imprensa, ou seu contrôle pelo Estado, só têm contribuído,
em tôda parte onde foram experimentados, para agravar e ampliar os piores vícios, através de
uma técnica monstruosa de deformação da verdade, pela mistificação dirigida. Não foi outra a
experiência que nos ficou do Estado Novo, com o aviltamento, pelo DJP, dos veículos de opinião
e informação.
Êste ensaio de Luis Beltrão vale por uma tomada de posição em face de temas sempre
sugestivos e atuais. Vem juntar-se aos melhores trabalhos do gênero até agora publicados no
Brasil, inclusive as traduções. Todos os problemas que interferem no processo jornalístico —
como técnica, como indústria, como profissão —, ou que interessam aos que se preocupam com
os rumos do jornalismo, por lhe reconhecerem as responsabilidades sociais, são apreciados
nestas páginas com segurança e objetividade.
Não fôsse o caráter quase didático da obra, cuja utilidade para os alunos das nossas
Escolas de Jornalismo é evidente, e seria talvez desejável tivessem maior desenvolvimento
certos aspectos particulares da arte de fazer jornal. O caso, por exemp lo, do “estilo jornalístico”,
em confronto com os problemas específicos dos demais gêneros literários, para acentuar suas
peculiaridades, o despojamento de linguagem, êsse ideal de precisão e concisão que é, também,
um dos segredos do entendimento entre o jornalista e o seu público de mil cabeças. Trata-se,
aliás, de tema que já mereceu, no Brasil, análises tão lúcidas como as de Alceu Amoroso Lima e
Antônio Olinto, sem falar tias contribuições não menos importantes que, em discursos de posse
na Academia Pernambucana de Letras, deram ao seu exame dois jornalistas da alta graduação
intelectual de Costa Porto e Andrade Lima Filho. Quem sabe, porém, se, nesse capítulo de
linguagem de jornal, ainda não seria mais oportuno o levantamento dos subsídios que oferece
paira aquêle “Dicionário de la tontería”, que Ferrater Mora pensou contrapor à idéia do
“Dicionário da Estupidez’, de Fiaubert?...
Outro aspecto a ressaltar seria a renovação por que têm passado os jornais, quanto à
aparência gráfica. É um ponto em que não interferem sàmente problemas de natureza técnica ou
de especialização profissional, mas também as possibilidades econômico-financeiras das
emprêsas, como entidades industriais; nem deve ser encarado, apenas, em têrmos de gôsto
estético: tem função determinada entre as fórmulas de conquista da opinião.
Aliás, uma das transformações a assinalar na técnica de jornal é a capacidade, que os
modernos recursos desenvolveram, de formar opinião, principalmente no sentido de influência
mais ampla sôbre as massas, não com o raciocínio objetivo dos artigos-de-fundo, mas com a sim
pies notícia e a maneira de apresentá-la. A doutrinação perde terreno como forma de
convencimento. Está certo Jacques Kayser, citado por Luiz Beltrão, ao admitir que o bom título
supera em eficácia um editorial, nos efeitos sôbre o espírito do público. Vale referir, dentre
muitas, uma experiência de ordem pessoal. Era um breve comunicado do IBGE, em linguagem
sóbria, quase técnica, para esclarecer que, dentro dos critérios de comparabilidade internacional, metade da população brasileira já se apresenta alfabetizada. Pelo seu interêsse
informativo, teve larga divulgação, sem alterações no texto original. Só os títulos variavam. Nos
jornais de orientação mais conservadora ou tradicionalmente simpáticos aos governos, sempre
otimistas “et pour cause”, valorizava-se o aspecto positivo; “Já alfabetizados 50% dos
brasileiros”; nos da oposição, prevalecia o aspecto negativo:
“Ainda 50 % de analfabetos na população brasileira”. A verdade, porém, continuava íntegra, e
uns e outros títulos fiéis, como de boa norma, às conclusões do texto.
Todos estamos de acôrdo, creio eu, em que o jornalismo brasileiro vem progredindo e
aperfeiçoando-se, no espírito e na forma, desde a fase de restauração das franquias
democráticas. Quase discordaria de Luiz Beltrão no reparo pessimista ao desapreço que lhe
votam as elites, não fôsse o sentido dêsse reparo, como registro de uma omissão da chamada
política de desenvolvimento nacional. Até mesmo quanto às restrições ao exercício da liberdade
de imprensa, já não ocorrem com a mesma freqüência os atos de arbítrio das autoridades
públicas, enquanto parecem aumentar os apelos às sanções da justiça. Isto é um bom sintoma.
Entretanto, há ainda um longo caminho a percorrer, no sentido da valorização efetiva da
atividade jornalística, sobretudo no ot cante à formação de novas gerações de profissionais;
formação que não apenas llhes confira o seguro domínio do “métier”, mas, pelo prevalecimento
das normas éticas, projete na aplicação das técnicas modernas a consciência social que, em
quaisquer circunstâncias, subordina a prática do jornalismo aos interêsses do bem comum.
Nesse esfôrço de aperfeiçoamento cabe função relevante às Escolas de Jornalismo já
existentes e a outras que, em maior número, nos cumpre criar, na exata medida em que possam,
através de currículos adequados, contribuir para a renovação dos quadros profissionais; cabe
função igual aos congressos da classe, desde que não apenas dedicados às reivindicações de
direitos, ou ao exame de problemas que, muitas vêzes, extrapolam as fronteiras do legítimo
interêsse profissional, mas também a um vigilante exame de consciência quanto aos seus
deveres e responsabilidades e à maneira por que vêm sendo atendidos; e, “last but not least”, à
ampliação de nossa bibliografia especializada, com a publicação de estudos sistemáticos sôbre
problemas de jornalismo, corno é o caso dêste excelente ensaio de Luiz Beltrão.
É grato verificar que um jornal da categoria do Diário de Notícias escolheu o jornalismo
como tema de concurso de seu Suple mento Literário, sob o patrocínio de um nome, Orlando
Dantas, realmente simbólico para a classe, pelo exemplo que deixou de uma nobre concepção
do dever da imprensa, nos reqimes democráticos, e de firme bravura na resistência aos poderes
de coerção e coacção do Estado totalitário.
Agrada-me que, professor de Ética, Luiz Beltrão dê ênfase, neste livro, à estreita
conexão, no jornalismo, entre o direito à liberdade e o dever da responsabilidade. A liberdade de
imprensa já se incorporou às aquisições de nossa cultura política, é parte do patrimônio social, e
cumpre-nos defendê-La a todo custo, inclusive porque, na síntese magnífica de Ruy, a ela
incumbe “a dignidade inestimável de representar tôdas as outras”; o dever da responsabilidade
tem de ser uma conquista ascendentc da classe, em seu empenho constante de aprimoramento
eia técnica e de aperfeiçoamento ético, vale dizer, de integração na consciência de seu papel, no
complexo das fôrças sociais.
Na verdade, tão sugestiva é, se entendida dentro dêsse espírito, a missão de fazer
jornal, nas suas vinculações entre o fato e a história, o efêmero e o eterno, o imanente e o
transcendente, que nela, como talvez em nenhuma outra, será possível experimentar, com
efeitos decisivos sôbre a sociedade do futuro, a conciliação sugerida por Mannheim entre o
humanismo e a técnica. Êste ensaio de Luiz Beltrão, interpretativa da verdadeira essência do
jornalismo e, ao mesmo tempo, esclarecedor dos problemas de seu exercício, ajuda-nos a
caminhar neste sentido; e contribui, também, para que, superada a fase da supremacia da
paixão sôbre a razão e valorizada a vocação pela formação, possa o jornal, no Brasil, adquirir
cada vez mais as virtudes dos seis fiéis servidores de Kipling:
I have six faithful serving men;
They taught me all I know.
Their names are What and Where and When,
And How and Why and Who.
WALDEMAR LOPES
INTRODUÇÃO
Ocorre-nos, freqüentemente, a constatação desoladora do desapreço em que é tido o
jornalismo na Brasil. Desapreço que nem o elevado índice de iletrados nem o baixo nível de vida
da população podem explicar satisfatoriamente, uma vez que é justamente nas elites que o
fenômeno melhor se comprova. Não fôsse assim e não viveríamos — nós, os jornalistas, e o
público ao qual nos dirigimos — sob a constante ameaça de leis restritivas da liberdade de
informar e de opinar, quando não da ação de medidas ainda mais drásticas: censura prévia,
supressão de quotas de papel ou de freqüências e canais, prisões e processos, apreensão de
edições e empastelamento de oficinas gráficas.
Nenhum dêsses atentados é perpetrado pelo povo, pelas classes menos ilustradas,
pelos leitores, radiouvintes ou telespectadores, que constituem a grande massa da população;
ao contrário, são de iniciativa de governos, de parlamentares e políticos sôbre os quais recai,
muitas vêzes impiedosa, a crítica jornalística, de autoridades policiais e militares arbitrárias, e até
de intelectuais e profissionais liberais aos quais competiria, antes, ocupar a primeira linha na
defesa intransigente do jornalismo, de cujo exercício livre e amplo depende, indeclinàvelmente, a
sua própria e ampla atividade.
O desapreço das elites dirigentes brasileiras pelo jornalismo fica ainda mais patenteado
se considerarmos que, nos planas e programas de desenvolvimento econômico, pela crescente
industrialização do país, não figura a montagem de fábricas de máquinas e peças prá ficas,
transmissores e receptores de rádio e televisão, produtores de cinema, aumento da produção de
papel de imprensa, (I) de películas de celulóide e outras matérias primas de que necessitam os
veículos jornalísticos para cobrir com eficiência o vasto território nacional e atender aos reclamos
de significativa percentagem da população QW ignora o que ocorre, já não dizemos no mundo
mas em alguns quilômetros ao seu derredor. Percentagem significativa da população que, por
isso mesmo, permanece e permanecerá à margem dos movimentos de construção e
recuperação nacionais, das idéias políticas, dos sistemas filosóficos, da evolução científica,
artística e social em foco no nosso tempo, como um pêso morto, a impossibilitar a marcha do
país para a conquista da posição de relêvo que lhe compete no concêrto universal.
O ilustre professor cubano Octavio de la Suarée, em estudo critico sôbre a situação do
nosso jornalismo, observou que “mais do que a liberdade de imprensa como bem profissional
indispensável, a sociedade brasileira se interessa por assegurar aos seus jornalistas um
tratamento privilegiado, que lhe faça a vida — e não a emissão do pensamento — mais fácil.”
Assinalou o curioso fato de que “no próprio texto constitucional não aparece a locução clássica
“liberdade de imprensa” consignada em nenhum capitulo e demonstrou, pela transcrição do art.
141, n. V da Constituição, que o inciso “a publicação de livros e jornais não dependerá de
licença, etc.” revela “partipris” dos legisladores brasileiros contra a imprensa como instituição,
pois se traduz, inclusive, na postergação do jornal ao livro, preferência que não tem justificação,
tendo-se em conta a extensão do analfabetismo do povo. “Na ordem moderna da ilustração e da
cultura populares — acrescentou — o jornal é a ante-saia do livro.” O mesmo professor, como já
_____________
(I) Confirmando o descaso do govêrno brasileiro pelo problema do papel e denunciando “o que se poderia chamar
de meta do governo esquecida ou mal orientada”, os srs. Agostinho Ermelino de Lcâo Filho e Júlio f4aito Sobrinho,
da Associação Comercial do Paraná, apresentaram, em setembro de 1958, III Conferência Brasileira de Comércio
Exterior, realizada no Recife, urna tese em qne pleiteiam provando por A mais li as vantagens do processo — a
implantação de indústrias médias na zona papeleira do pais, tanto para celulose como para papel d imprensa.
Curioso é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, ao que parece “sem uma experiência ou mesmo
um estudo mais profundo”, considera condenável o programa de indústrias médias e, assim, é responsável pelo
retardamento da nossa emancipação neste importante setor da eeonomia e da cultura nacionais.
o fizera Luis R. Praprotnik conclui que, “na América Latina é o Brasil o pais que toma a iniciativa
de tudo o que concerne à tutela legal das atividades dos trabalhadores intelectuais, manuais e
técnicos da imprensa, concedendo-lhes benefícios, tais como isenção do impôsto de renda, do
impôsto de transmissão inter- vivos, aposentadoria, salário mínimo, férias, etc., contanto que
lhes escamoteie a liberdade.” E4 citando o caso da instituição do reporter-amador, o “cariocareporter” de “A Noite”; chega à evidência de que “essa dupla falta — teórica e prática
de liberdade de imprensa, influiu notàvelmente na psicologia do jornalista brasileiro que é, talvez,
o único que anima e recompensa o intrusismo profissional, exortando o público a que trabalhe
para a imprensa, como se quisesse buscar no próximo profano solidariedades protetoras.” (II)
Se é verdade que as benesses distribuídas pela lei não atingem a generalidade dos
jornalistas, cujos reduzidos salários não os favorecem com renda normalmente gravável, nem
lhes permitem possuir imóveis — nem por isso as observações referidas são menos reais: — o
Estado faz-se paternalista, contanto que o “filho” obediente não viole o quarto mandamento...
Quando a atitude dos quadros de liderança do país não se exprime por uma hostilidade
frontal ou um suspeito paternalismo, assume uma terceira feição: a da humilhante indiferença.
Indiferença quanto aos julgamentos, quanto à critica, quanto à orientação que o jornalista,
intérprete dos sentimentos e reclamos coletivos, procura transmitir nos seus pronunciamentos.
Diante de uma campanha jornalística, o indiferente, à sombra do poder, jamais altera a sua linha
de conduta, o seu procedimento, o seu esquema; julga-se senhor absoluto da verdade e do
acêrto; considera a grita da imprensa e do rádio como manobra de despeitados, inconformados
ou ignorantes. Do jornalismo, porque não pode deixar de fazê-lo, colhe, apenas, a informação —
e a informação que satisfaça aos seus próprios objetivos; o mais é atirado fora, como bagaço
sem valia.
O conceito que as elites fazem do jornalismo vai, entretanto, ganhando prosélitos nas
massas populares, que passam a descrer da sinceridade e da honestidade dos profissionais,
dêsses seres privilegiados, dessa casta de intelectuais para os quais o Estado destina tantos e
tão largos benefícios... O jornalista tem de estar a sôldo de alguém: do govêrno ou da oposição,
sustentado pelo Estada ou pelos trustes comerciais e industriais, pela reação nacional ou peki
finança internacional; a sua informação é tendenciosa; a sua opinião não merece fé. Qualquer
êrro seu é apontado como exemplo de corrupção e logo generalizado a todo o seu trabalho
profissional, e logo tornado extensivo a todos os seus companheiros de ofício. Esquece-se que o
jornalista é humano e que a sua missão é tanto mais difícil no Brasil quanto lhe tem faltada duas
condições essenciais ao seu aprimoramento: - a garantia do exercício da liberdade e a
oportunidade de uma adequada formação profissional. Pela primeira, às vêzes mal
compreendida, confundida outras com licença, tem lutado bravamente, enfrentando os
arreganhos do poder e da fôrça, em campanhas memoráveis, com vítimas e mártires; para a
conquista da segunda, infortunadamente, faltam-lhe recursos econômicos e apoiamento oficial.
Com efeito, as deficiências da formação profissional dos jornalistas brasileiros, numa
época em que todos os ofícios exigem preparo e especialização, imprimem ao seu espírito um
complexo de inferioridade, que se manifesta na desorientação, no baixo nível cultural e mesmo
técnico do nosso jornalismo, na falsa concepção de direitos e deveres dos nossos órgãos de
divulgação. Improvisam-se jornalistas e técnicos de jornal à base, apenas, de um período de
treinamento nas redações ou na reportagem. Qualquer semi-letrado se arvora em profissional,
na maioria dos casos atraído pelo “prestígio” de que gozará e pelos teóricos privilégios que o
Estado lhe confere. Os corpos redacionais aumentam, sem que haja correspondência entre o
seu volume e o seu valor. Enquanto em todo o mundo procura-se educar o jornalista para o
exercício da liberdade e da profissão, entre nós relega-se a plano secundário a sua formação
científica e técnica. Estudos e seminários sôbre opinião pública, meios de difusão do
____________
(II) “Socioperiodismo” — pág. 456 – TROCAR N. DE PÁGINA
pensamento, ética, história e legislação de imprensa, importância do jornal na sociedade,
intercâmbio de informação internacional, aspectos técnicos da profissão são exigidos, hoje, tanto
nas democracias ocidentais como nas chamadas democracias populares. Visam levar o
jornalista a familiarizar-se com os temas fundamentais, econômicos, sociais e políticos do seu
país e com a aplicação das ciências exatas, naturais e sociais à solução dos problemas
humanos e das questões internacionais, manipulando e utilizando as notícias relativas ao
estrangeiro com o propósito de cooperar pela concretização dos ideais de justiça, liberdade e
paz mundial.
Estamos certos de que essa, desarmonia entre as elites e o jornalismo, êsse
descompasso entre os jornalistas e o público, as incompreensões e os conflitos entre o poder e a
opinião decorrem, antes de tudo, de um generalizado desconhecimento do que seja o jornalismo,
da sua missão, da sua influência na cultura, no progresso e na civilização dos povos, do
indeclinável dever que todos temos de assegurar a essa atividade humana essencial a mais
essencial de tôdas as suas condições de desenvolvimento: — a liberdade.
Ao que nos conste, nenhum estudo sistemático dêsses problemas foi realizado em
língua portuguêsa e as nossas livrarias e bibliotecas estão desprovidas de obras sôbre tão
importantes temas, mesmo provenientes de outros centros culturais. Alguns poucos e esparsos
estudos publicados — à exceção de obras apologéticas, históricas ou de memórias — o foram
em jornais ou em páginas pouco manuseadas de “Anais” dos congressos da classe, não
chegando a repercutir nas elites culturais e políticas, despertando-lhes o interêsse para questões
vitais à corporificação dos nossos ideais filosóficos, à solidificação das nossas reivindicações de
progresso, à efetivação dos nossos anseios de um mundo de povos livres e pacíficos. Em
conseqüência, além de ficarmos à retaguarda dêsse movimento de valorização social e cultural
do jornalismo, dele não extraímos os benefícios e vantagens de que necessitamos,
especialmente agora, na fase aguda da campanha em que nos empenhamos para a completa
emancipação nacional. Estas observações nos levaram a oferecer aos jornalistas, aos
intelectuais, aos estudantes e aos estudiosos dos fatos sociais brasileiros, o nosso contributo a
uma melhor compreensão de tão relevante matéria.
Esperamos firmemente que êste ensaio seja útil, de modo especial às nossas elites,
advertindo-as das graves responsabilidades com que arcam para a construção do futuro do
nosso país, pela defesa intransigente dos nossos foros de cultura e de civilização, pela
promoção do nosso desenvolvimento social e econômico e pela consolida ção das nossas
instituições democráticas, as quais repousam, sem dúvida, na existência ele um jornalismo livre,
vigoroso e respeitado.
______________
Neste trabalho, foram aproveitadas e ampliadas teses elaboradas, det’atidas e
aprovadas nos Congressos Nacionais de Jornalistas realizados no Recife, em 1951, em Curitiba,
em 1958 e em Belo Horizonte, em 1955; pesquisas e estudos feitos por ocasião das nossas
visitas aos Estados Unidos, em 1954, a convite do Departamento de Estado, e às Repúblicas
Populares da Tchecoslováquia e da China, a convite das respectivas Uniões de Jornalistas;
durante a realização da 1 Conferência Mundial de Entidades de Imprensa, em São Paulo, em
1954; no 1 Encontro Internacional de Jornalistas, efetuado em Heisinque, Finlândia, em 1956, e
no LV Congresso da Organização Internacional de Jornalistas, em Bucarest, Romênia, em 1958;
e ainda apostilas para o exercício das cátedras de “Ética, História e Legislação de Imprensa” e
“Técnica de Jornal” dos cursos de jornalismo da Faculdade de Filosofia do Instituto Nossa
Senhora de Lourdes, em João Pessoa, e da Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega, da
Universidade Católica do Recife.
O Autor deve agradecer, especialmente, a colaboração que recebeu por parte dos
professôres e jornalistas Ruy Antunes, frei Romeu Perea, Rod W. Horton, Vamireh Chacon, Zita
An.drade Lima, Fernando Sigismundo, José da Costa Porto, Paulo Cavalcanti, Reinaldo Câmara,
Andrade Lima Filho e Geraldo Campos de Oliveira, que leram ou participaram dos debates sôbre
os temas tratados no original, oferecendo sugestões de relevante interêsse para a efetivação do
ensaio. Estende os agradecimentos ao “Diário de Notícias” que, com a instituição do “Prêmio
Orlando Dantas — 1959” para estudos sôbre jornalismo, proporciono u, não sòmente facilidade
editorial como oportunidade a que os círculos intelectuais se voltassem para os problemas
técnico-profissionais e sociais jornalísticos.
Recife, abril-junho de 1959.
PRIMEIRA PARTE
AS MANIFESTAÇÕES DO JORNALISMO
Contém:
ORIGEM E EVOLUÇÃO
Prehistória do jornalismo
A fase histórica
Primórdios do jornalismo brasileiro
O PAPEL E O JORNALISMO ESCRITO
Películas de celulóide
Micro-fotografia
Os jornais eletrônicos
O RÁDIO E O JORNALISMO ORAL
O telefone
A fita magnética
O DESENHO E O JORNALISMO PELA IMAGEM
A ilustração e a caricatura
A fotografia
O cinema
A televisão
CONCEITO DO JORNALISMO
Entre tôdas as atividades humanas, nenhuma responde tanto a uma necessidade do
espírito e da vida social quanto o jornalismo. É próprio da nossa natureza informar-se e informar,
reunir a maior soma de conhecimentos possível do que ocorre no nosso grupo familiar, nas
vizinhanças, na comunidade em que vivemos, entre os povos que nos rodeiam e, mesmo, nos
mais longínquos rincões do mundo. Através dêsse conhe cimento dos fatos, o homem como que
alimenta o seu espírito e, fortalecendo-se no exame das causas e conseqüências dos
acontecimentos, sente-se apto à ação. Semelhante fato ocorre com as coletividades: — a
divulgação de informações e a exposição, ainda mesmo superficial, de pontos de vista sobre
assuntos relatados contribuem decisivamente para formar a Opinião Pública e,
conseqüentemente, impulsionar os agrupa mentos humanos às decisões e realizações da vida
social.
ORIGEM E EVOLUÇÃO
Lancemos um rápido olhar para o homem primitivo, o homem das cavernas ou o
silvícola, que não conhecia a escrita, que apenas esboçava a vida em comum. Nada obstante,
êsse homem fazia jornalismo, o que vale dizer que transmitia aos seus semelhantes, à sua tribo,
com regularidade e freqüência, interpretando-os, os fatos correntes que interessavam à
comunidade: — o resultado da caça ou da pesca, a aproximação de animais ferozes e
cataclismas, a escolha dos chefes, o relato das suas batalhas. De posse dessas informações,
feitas oral- mente ou por sinais e sons convencionados, em tambores ou arrancados às inúbias,
a tribo poupava ou consumia maior cópia de alimento, buscava meios de defender-se das feras
ou da inclemência da natureza, reconhecia a soberania do chefe ou decidia como agir em
relação aos inimigos vencedores ou vencidos. Tudo isso, instintivamente feito nos primórdios da
humanidade, e ainda hoje nas civilizações primárias, visava assegurar o bem comum, promo ver
a vida em sociedade, estratificar normas de direito ou reformar práticas que as circunstâncias
ditavam.
Desde essa época remota, os homens não dispensaram a informação; ao contrário, para
obtê-la, transmiti-la uns aos outros e dela retirarem proveito empenharam-se a fundo, deixando
inscritas nas páginas da história alguns dos seus mais belos episódios de construção. Nenhuma
sociedade, país ou grupo humano prescindiu da informação e, no mundo dos últimos trezentos
anos, dos órgãos da imprensa e dos meio s de comunicação das massas.
Prehistória do Jornalismo — Os mais antigos documentos conservados e decifrados
dos tempos heróicos são a inscrição gravada por Yu, o Grande, sôbr o monte Heng-Chan, na
China, cêrca de 2.200 AC, registrando o cataclisma do dilúvio, e o chamado Mármore de Pwros,
enco’ntrado no Século XVI e levado à Inglaterra pelo conde de Arundel, através do qual se pode
acompanhar, dia a dia, a fundação de Atenas. Flavius Josephus afirma que os babilônios
contavam com historiógrafos, encarregados de escrever o resumo dos acontecimentos públicos
e que teria sido utilizando êsse material que Bérose compôs, no Século III AC, sua História da
Caldéia. Voltaire escreveu que a China possuia jornais desde tempos imemoriais e, se bem que
sem comprovação absoluta, em 1908 foi comemorado, naquele país, o milenrio da Ga,zeta, de
Pequim (“King Pao”) que, segundo a tradição, era escrita em madeira. Também no Egito, no ano
1750 AC, teria existido um diário oficial, no reinado de Toutmés II, impresso em papiro, além da
constante circulação de jornais satíricos, um dos quais combatera acirradamente o faraó
Amarsis. Entre os fragmentos arqueológicos ainda hoje indecifrados e que se julga conterem
informações jornalísticas, figuram os sinais gravados nas rumas Maias, nas pedras da Ilha de
Pascôa e as misteriosas inscrições das covas de Altamira, na Lagoa Santa, Minas Gerais, e da
pedra das vertentes do rio das Mortes, nos bravios sertões matogrossenses.
A verdade, entretanto, é que “até onde chega a nossa petração na antiguidade, lá
encontramos — em pedra, pau, metal, barro, concha, fibra, pele e papel — o jornal, isto é, a
informação rudimentar de algum acontecimento contemporâneo, conservado pelos simbolos;
fôssem mnemônicos, fixando valores arbitrários supletivos da memória, como as cintas de
conchas variegadas dos iroqueses e as cordas de nós coloridos dos peruanos fôssem
pitográficos, reproduzindo objetos e figurando idéias, tais os hieroglifos e os sinais assírios,
persas e aztecas; fôssem, enfim, fonéticos, traduzindo as vozes nas letras do alfabeto... Com
exceção de poucas resenhas ordenadas, a generalidade dos documentos arqueológicos contém
episódios avulsos e casos circunstanciais. Em nenhum capítulo da história mas em qualquer
coluna de jornal, entrariam, por exemplo, as vinte curas milagrosas gravadas nas estelas do
aráculo de Esculápio, em Epidauro, entre elas a de um pobre diabo que engolira sanguessugas
por artes da sogra e a de um taful a quem o deus fizera nascer cabelos, esfregando-lhe a calva
com certo ungüento... Evidentemente, nem a êsse nem a outros monumentos epigráficos ou
paleográficoss cabe a qualificação de jornal, ainda no sentido da singela e ingênua informação.
Menos cabe a de história, em cujo espírito interpretativo e crítico a narração por si nada
exprime1.
Mais característico do puro jornalismo, que não se confunde com a história, é a
transmissão de notícias e avisos breves, através de sinais luminosos. Entre as populações
primitivas, a fogueira era (e ainda o é) um meio habitual de indicar perigo e convocar auxílio.
Sabemos, da narrativa da primeira guerra macedônia, que as tropas de Felipe se orientavam por
fanais, colocados sôbre o monte Tisé. Aliás, OS gregos utilizavam a conjugação de sinais
luminosos para se informarem de fatos ocorridos a uma distância de três ou quatro dias. Cesar,
nos seus Comentarii de Belo Gailica, registrou que qualquer acontecimento de vulto alastrava-se
através da Gália “porque os Gauleses o gritavam uns aos outros através de campos e vilas;
assim, o que se passava em Genabo de madrugada era ouvido à tarde Pos Arvernos, a 160
milhas de distância.”
A fase histórica — Os romanos, quando construiram o Império, não puderam dispensas
a informação que lhes proporcionaria a vitória sôbre os seus opositores a manutenção do
domínio, o estabelecimento de um espírito público convencido da “missão civlizadora” das
águias imperiais. Durante vários séculos, o Grande Pontífice recolhia os fatos de cada ano,
inscrevendo-os numa tábua branca, o Album, exposta nos muros da sua casa para que os
cidadãos tomassem conhecimento. Com a expansão io império e a multiplicação dos interêsses
do Estado, sentiu_se a necessidade de ampliar essas informações e os Anais dos Pontifices
foram transformados na Acta Pública, espécie de jornal oficial, Coube a Cesar, êle próprio um
excelente repórter come o demonstrou à posteridade pelas suas descrições circunstanciadas de
guer de conquista da Gália, dar mais um passo no sentido de ampliar a informação, ordenando
que as atas do Senado e as ocorrências de interesse público fôssem diàriamente divulgadas,
criando-se a Acta Diurna, em tábuas que eram expostas no Forum e das quais não tardou
fôssem tiradas cópias palticulares, que circulavam dentro e fora dos muros de Roma, A Acta
Diurna inseria, a partir de quando começaram a movirnentar-se as suas cópias, “os menores
acontecimentos de interêsse mesmo efêmero: cerimônias fúnebres, incêndios, execuções,
banquetes, lo ngevjdades e fecundidades extraordinárias.”2 Com a queda do Império Romano,
êsses jornais primitivos desaparecea
Durante a Idade Média, “regrediu a informação à era heróica dos rapsodos, transmitindo
as novidades de bôca em bôca, na poesia e no canto dos troveiros e jograis... A Idade Média foi,
à fôrça, a idade da palavra falada: — os poucos indivíduos que sabiam escrever não tinham
como nem a quem fazê-lo... Até o Século XI, as notícias difundiam-se pelas cantílenas —
1
2
Carlos Rizzini — O livro, o jonal e a tipografia no Brasil — Rio, 1956 - págs. 12-13.
Emile Boivin — Histoire du Journalisnie — Paris, 1949 pág. 7
estrofes breves e atuais, meio líricas meio narrativas — cujo fundo seria largamente aproveitado
na composição de gastas e canções. Peregrinando por vilas e castelos, os jograis, ao lado do
lirismo das baladas e pastorelas, dos lais e cantigas de amor e de amigo, entoadas ao som de
sanfonas, rotas, violas e saltérios — cantavam e recitavam gostas, que eram a história popular
do tempo, e contos facetos e satíricos, inspirados em discórdias e agitações, verdadeiras
gazetas rimadas.”3 As suas canções “não eram senão novidades rimadas, enternecedoras e
cáusticas narrativas de sucessos” e foram crescendo em audácia; a princípio os jograis,
incentivados em seu mistér pelos poderes públicos, como ocorrera ao tempo de Henrique IV,
mandando compor um romance para celebrar a entrada do Condestável Miguel Lucas em
Granada, passaram a tomar partido, intervindo nas questões de interêsse coletivo e ameaçando
a ordem estabelecida, que atacavam por vêzes impiedosamente. “Era preciso reprimir e pôr
côbro a essa liberdade do jogralismo que, por fim, se assemelhava um pouco à nossa liberdade
de imprensa” e foi o que fêz Carlos VI, em 1395, proibindo, sob pena de serem postos em prisão
“dois meses a pão e água aquêles que, nas suas canções, fizessem menção ao Papa, ao Rei e
aos nossos Senhores de França.”4
Com o Renascimento, o jornalismo se consubstancia nas folhas escritas à mão,
geralmente de interêsse para comerciantes e navegadores. Entre essas publicações, figuram os
avvisi venezianos, as news ietters inglêsas do século XIII e os Ordinari Zeitungen dos
mercadores alemães, que constituiram, antes do surgimento da arte de imprimir, veículos da
informação dos fatos correntes, se bem que restritos a um público limitado. Essas informações
também não tardaram a ser consideradas perigosas à civilização e à ordem dominantes. Muitos
dos seus autores foram punidos, inclusive Niccoló Franco e Annibale Capelio, exeõutados como
“caluniadores” e “pestiferi homini”, após tidos como réus pelos tribunais da Inquisição. Dos
longínquos tempos de Elisabeth 1, há memória de notáveis noticiaristas, como Roland White,
Pory, Locke e Chamberlain. Na França, de 1409 a 1499, o Journal d’un bourgeois de Paris
noticiava escândalos, narrava anedotas, re.gistrava a chuva e o bom tempo. Foi no reinado de
Francisco I que surgiu o primeiro censor, Mellin de Saint Galiais, abade de Reclus, bibliotecário
do rei, “poeta de epigramas licenciosos e de odes eróticas.”5
O Século XV assiste à descoberta da tipografia e da imprensa e à revolução nos
métodos de divulgação das informações. Contra a fôrça tremenda que os impressos passaram a
representar para a difusão dos conhecimentos e orientação da opinião pública, desencadeou-se,
duraite os dois séculos seguintes, a mais cruel repressão de que há história. Nada obstante, os
antigos “menanti”, “novellanti”, “repportisti” e “gazzettanti” — nomes que se davam aos
repórteres e redatores das fôlhas manuscritas — se multiplicaram, agora unidos aos
impressores, que se advertiram do bom negócio que representava a emissão de fôlhas com
relatos de fatos da atualidade. Enquanto que perseguiam os jorfialistas em geral, os soberanos
passaram a utilizar a imprensa como veículo de informações de seu interêsse e, naturalmente,
de louvaminhas. Assim, em 1597, Rodolfo II, imperador, reune os editôres mais capazes para
elaborar um mensário com notícias do Santo Império Romano -Germânico; e Luis XIII, na Fiança,
concede a Theophraste Renaudot o privilégio de publicaf um hebdomadário — La Gazette —
que, além de informações políticas inteiramente favoráveis ao govêrno real e do texto das
ordenanças oficiais, inseria notícias de nascimentos, matrimônios, festas, divertimentos dos
principais personagens da côrte, bem como crimes, processos, catástrofes e execuções. O
Século XVII vê surgir a imprensa por tôda a Europa civilizada e na Nova Inglaterra, onde, em
1638, em Cambridge, Mass., Stephen Daye instala uma impressora. É também nesse século,
Carlos Rizzini — Obra cit. págs. 17-I8.
Cit. por Rizzini — Obra cit. — pág. 22.
5 Conf. Charles Gidel, cit. por Rizzini – pag. 21,
3
4
exatamente em 1644, que Milton publica a sua Aeropagítica, que é a primeira defesa sistemática
da liberdade de imprimir.
Primórdios do jornalismo brasileiro — No Brasil, apesar de não termos tido imprensa
senão às vésperas do Ipiranga, nem por isso o colono português integrado na nossa vida, ou o
nativo, deixou de praticar o jornalismo. A exemplo de outros povos, apelou para a informação e a
sátira verbal, para o pasquim e a fôlha volante. Nos tempos mais remotos da colonização, era
dos púlpitos das igrejas que se utilizavam os letrados oradores sacros para transmitir notícias e
conselhos à comunidada Foi assim que frei Antônio Rosado, um ano antes da invasão flamenga,
anunciou, em memorável sermão no convento do Carmo, a formação de poderosa esquadra que
poderia transformar Olinda em Olanda, com a mudança apenas de uma letra; e que o padre
Vieira tantas e tantas vêzes fêz jornalismo, utilizando ora o púlpito, como em 1640, na igreja de
Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, “pelo bom suc esso das armas de Portugal contra as da
Holanda”, cujas tropas ameaçavam a cidade do Salvador pela segunda vez, ora as cátedras dos
coléos dos jesuitas.
Nas cartas e relatórios redigidos por um português antipernambucano, espião a serviço
do govêrno, delatando feitos fatos da Revolução de 1817 e descrevendo a situação em
ernambuco no ano sêguinte, consta6 que “o padre Miguel, estre de Retórica e orador insigne, na
primeira ominga da aresma de 1817, subiu ao púlpito na igreja do Corpo Santo, triz do Recife, e
o texto do seu sermão foi: “Nunca tempus tabile die salutis”, em cujo discurso mostrou o quanto
era dos homens a liberdade por êles mesmos acabrunhada ão houve subterfúgios nem rodeio
ardiloso de que êle se valesse a fim de derramar no ânimo dos ouvintes a deI1e.ta, e nula
contemplação para com os soberanos da uma vez que não se comportassem em conformidade
igreja e Justiça dos vassalos. Dizia que David por um o fizera penitência tôda sua vida, e que os
soberanos presente aplicavam o tempo devido a jejum e cilícios, tempos e renitências de agravo,
e culpas inexpiáveis com o céu, tais como abandono do povo e da religião.
Ele e seus colegas a profanam e suas pérfidas línguas só ousavam caluniar o Soberano, o
Portador, o mais excelso dêsse santo culto, que respeitamos e adoramos. O clero, enfim, nunca
foi mais danoso à religião nem suas práticas mais nocivas ao Estado.” O mesmo espião luso
assinala que “as lojas de fazenda, e as boticas são os lugares onde ordinàriamente se falam de
tôdas as novidades, nelas eu compareço a certas horas do dia ou da noite. Ouço nestes lugares,
informo-me dos de fora; ouço dos de fora, informo-me nestes lugares, e tudo igualmente
submeto às minhas reflexões.”
Centros de divulgação de notícias eram as feiras, os Senados das Câmaras, os portos e
os armazéns. As notícias oficiais eram transmitidas por bandos, dos qais eram incumbidos
comandantes e capitães-mores, com acompanhamento de alguns soldados e tambores. Para o
interior, seguiam bandeiras e tropas e, de engenho a engenho, de povoação a povoação, as
notícias corriam pela bôca dos capitães do mato, dos tropeiros e mascates — como na Idade
Média pela voz dos jograis.
O pasquim — escrito em linguagem viperina e afixado nos muros, pôsto por debaixo das
portas ou circulando de mão em mão às escondidas, às vêzes em prosa, doutras em verso,
denunciava irregularidades, promovia invectivas e, ora justo ora injusto, atuava junto à opinião
pública como os editoriais da imprensa dos nossos dias. A história guarda, nos seus registros,
rastros dessa forma jornalística primitiva: Z- já em 1587, em Ilhéus, um almoxarife, de nome
Jorge Martins, que afirmava ter Deus pés e mãos, escreveu um papel contra a Companhia de
Jesus e os padres do lugar porque não lhe queriam dar a absolvição sem que se re tratasse da
heresia, tendo sido mesmo denunciado à Santa Inquisição pelo jesuíta Antônio da Rocha. E dom
Ministério da Educação e Cultura – Documentos Históriocos – Revolução de 1817 – Vol. CVII – Ed. Biblioteca
Nacional- Rio,1955 – págs. 243-44.
6
Luís Antônio de Sousa, capitão-mor em São Paulo, sentira na própria carne o aguilhão do
pasquim, quando um tremendo requisitório contra a sua administração, em verso, foi
misteriosamente colocado em sua mesa de trabalho, não sem antes ter sido exposto no adro da
igreja de Santa Teresa, em noite de novena. Também na Bahia, em 1798, a chamada
“Inconfidência Baiana” ou “Conspiração dos AIfaiates” abortou, sendo presos e executados vinte
e três dos implicados porque um tal Luís Gonzaga das Virgens, soldado desertor, escrevera uns
avisos atacando as a ridad es e exigindo postulados da Revolução Francesa – tais como a
abertura dos portos, desclausura dos conventos e extinção dos mopólios — fazendo-os afixar às
esquinas e adros da cidade.
Da defesa apresentada por José Carlos Mairink da Silva Ferrão, secretário do Govêrno
da Capitania de Pernambuco, antes, durante e após a Revolução de 1817 — o que o torna urna
espécie de Talleyrand brasileiro — consta a decisiva influência de um “papel” na eclosão do
movimento. Narra êle7 que “apareceu a célebre questão de uma prêta, em que figuravam um
negociante europeu Firmin, e não sei que brasileiro, cujos papéis a favor e contra dizia-se que
eram feitos por Bernardo Luís Ferreira Portugal e o Tenente Coronel Ajudante de Ordens do
govêrno Alexandre Tomás de Aquino, nos quais papéis apareceram muitas indignidades que
mais e mais exacerbavam os dois partidos.” Essa questão surgira em agôsto de 1816, quando
uma escrava descontente da sua senho ra resolveu fugir e procurar senhor que a comprasse,
dirigindo-se a um negociante chamado Alexandre Firmin. Êste ofereceu elevada importância pela
escrava mas a sua dona reusou, exigindo a devolução da “pessoa que êle ilegitimamente tinha
em seu poder”. A questão foi à Justiça e o advogado da senhora foi Bernardo Luís Ferreira
Portugal, que requereu a osse para a suú constituinte. O juiz, porém, despachou em favor de
Firmin e Portugal, “picado, e levado do mais feroz agastamento”, redigiu uma réplica da qual
foram tiradas mil pias distribuidas na cidade. Neste “papel”, Portugal denunciava “certa classe de
europeus” que julga que “a América é escrava e que tem direito ao vexame dos americanos”,
que ia ao Brasil “não só traficar com os nossos gêneros mas também arrebatar-nos nossas
propriedades”, concluindo ser isso fazer sentir “a êste tratante, que temos leis que respeitam a
propriedade, e aquilo que se faz nulamente e com dolo não produz impedimento.” A população
tomou o partido de Bernardo, enquanto um caixeiro português, de nome Azevedo, apesar de
ignorante, “entusiasmado pegou na pena e u dita réplica, porém tão pedantesca como
atrevidamente, de sorte que as duas classes se agitaram pasmosamente, e foi então desde esta
época que ficou de todo semeada a divisão e discórdia. . . Assim, foi grassante o mal no coração
da canalha, que os rebeldes contavam para o golpe decisivo da sua emprêsa, e os oradores da
sua parte também não poupavam panegíricos figurados pelos quais lhe representassem cara a
idéia da liberdade e de um patriotismo mal entendido.”
A maior figura panfletária da colônia foi, de certo, Gregório de Matos, o “Bôca do
Inferno”, cujas composições poéticas visavam criticar ferinamente os costumes, as ações dos
poderosos, a justiça bastarda e vendida, o clero de vida irregular, a sociedade da época, a •vida
pública e privada dos baianos e reinóis. De tal modo estão as sátiras de Gregório de Matos
cheias de atualidade e notícias, que Ronald de Carvalho considera a sua obra como “o nosso
primeiro jornal, onde estão registrados os escândalos miúdos e grandes da época, os roubos, os
crimes, os adultérios e até as procissões, os aniversários e os nascimentos.” Outro grande documento do jornalismo satírico colonial manuscrito são as Cartas
Chilenas, de autoria de Tomás Antônio Gonzaga, que se ocupam dos desmandos e da
rapinagem do capitão general das Minas, Luís da Cunha Menezes. São doze cartas, em
decassílabo5, de uma lfuente graça literária, que retratam Vila Rica e reporteiam aspetos,
episódios e usos do tempo. Foram redigidas entre 1788 e 1789, exatamente ao tempo da
Inconfidência, mas nem por isso oferecem interêsse político, pois o seu autor, antecipando a
atitude de submissão que tomaria quando descoberta a conjura na qual se envolvera, em mais
7
Ministério da Educação e Cultura – Documentos Históricos cit. Págs. 201-201, 241-243
de uma ocasião ressalta a excelência das instituições civis e religiosas monárquicas, embora
acuse Cunha Menezes e seu “entourage” de deturpá-las e prejudicá-las.
O PAPEL E O JORNALISMO ESCRITO
O jornalismo escrito, utilizando como matérias primas o papel8, as películas de celulóide
e, mais recentemente, a eletrônica, se impôs como o principal meio de divulgação de fatos e
idéias. Em nossos dias, o papel constitui, ainda, a mais importante dessas matérias primas e
nêle são impressos jornais, revistas, magazines, boletins e avulsos. Descoberta dos chineses,
através de um funcionário palaciano Isai-Loun, que conseguiu encontrar a maneira de fabricá-lo
misturando trapos, fibras vegetais e linho de cânhamo, cêrca de cem anos depois. de Cristo,
sômente em 806, ao que se sabe, o Estado estabelecia a primeira fábrica. Um século e meio
mais tarde, tendo aprisionado alguns artesãos chineses, obrigando-os a produzir papel em
Bagdá, os árabes introduzem o produto na Europa, através do norte da África e da Espanha,
onde há memória de fábricas em Jatiba, Toledo e Valência, O documento mais antigo em papel,
que se conhece na Espanha, é o Repartimiento de Valencia, feito por Jaime 1, de Aragon, em
1237, conservado no Arquivo da Corôa de Aragon. As primeiras fábricas européias de papel
utilizavam como matéria prima o linho e só mais tarde o algodão. Os trapos eram amassados em
um gral e embranquecidos com cola animal e amido de trigo. Cêrca do ano de 1300, surgiram
em Ravensburg, Alemanha, os moinhos para a preparação da pasta, que se fazia passar por
peneiras de arame de latão para conseguir unia mescla mais homogênea. O costume de
mergulhar a pasta de papel, colocada sôbre uma teia metálica nas tinas, subsistiu até 1811,
quando, na França, foi iniciada a fabricação por meio de máquinas. Com o incremento do uso do
papel, a partir da metade do século XIX, buscaram-se outras matérias primas para a sua
fabricação e assim, graças a um invento do saxão Godofredo Keller, em 1845, pôde-se
empregar a fibra de madeira, submetida a certas reações químicas. Palha e bagaço de cana de
açúcar são, atualmente, utilizados para a fabricação do papel, assegurando-se aliás que êsses
materiais constituirão, em futuro próximo, a princip al fonte do produto, uma vez que as suas
safras são anuais, enquanto a madeira exige largos períodos para o crescimento das árvores de
que é extraída.
Para se ter uma idéia do angustiante problema do papel de imprensa no mundo, basta
citar que, em 1948, para uma produção global de 7.482.000 toneladas, das quais 4.635.000
originárias do Canadá, houve uma demanda de 7.569.000, das quais 85 por cento foram
utilizados pelos Estados Unidos, o maior consumidor do mundo (5.015.000 de toneladas).
Naquele ano, verificou-se, portanto, um “deficit” de 87.000 toneladas, o que significou uma séria
ameaça à existência dos 223 milhões 774 mil jornais quotidianos que eram oferecidos, então,
aos 2 bilhões 372 milhões e 463 seres humanos distribuídos pelos cinco continentes9. Em nosso
país, de acôrdo com as estatísticas do! Banco do Brasil, foram consumidas, em 1957, 222.526
tolenadas métricas de papel de imprensa, das quais apenas 49. 028 de produção nacional. A
importação das restantes 173.498 tolenadas custou-nos 35 milhões e 47 mil dólares, um
dispêndio pródigo para um país que tem todas as possibilidades não somente de tornar-se autosuficiente coma de transferir-se da posição de importador para a de exportador. O consumo de
8 O vocábulo originou-se de uma palavra egípcia traduzida para o grego “papyrus”- o papiro, produto extraído de um
arbusto que cresce naquele país e regiões pantanosas vizinhas. Conta a tradição que um rei egípcio, temendo que
a Biblioteca de Alexandria fosse superada pela de Pérgamo, proibiu a exportação do papito, com o que provocou o
desenvolvimento da fabricação do pergaminho na Ásia Menor. No entanto, até o ano 450 AC, vendia-se papiro em
Atenas e o seu uso, introduzido no Império Romano, perdurou por longo tempo entre os povos civilizados. O último
documento conhecido em papiro é uma bula do papa Victor II, datada de 1057.
9 Sôbre o assunto, v. Le Probleme du papier journal, edieção da UNESCO, Paris, 1949, pelo serviço de pesquisas
The Enconomist de Londres, e L’lnformation a travers le monde. UNESCO, Paris, 1951.
papel no Brasil — menos de três quilos por habitante/ano — nos coloca numa posição
humilhante em relação já não dizemos a países muito mais desenvolvidos, mas até aos nossos
vizinhos, pois a Argentina tem um consumo duplo do nosso. A solução do problema da produção
de celulose e papel de imprensa, qué urge dada a importância assinalada dessa matéria prima
na alfabetização do povo e difusão da cultura, estará em uma modificação substancial da
orientação do govêrno, cujos estabelecimentos de crédito recusam, sem maiores estudos,
financiamento para a implantação de indústrias do tipo médio (25 a 30 toneladas por dia),
distribuídas na região produtora de pinho, com o aproveitamento da madeira em lascas não
utilizada pelas serrarias e, o que é mais importante ainda, o emprêgo de desfibradoras e outras
máquinas, ora fabricadas em São Paulo. no Rio e no Paraná.
A escassez do papel, que não poderá atender à crescente demanda e à adoção e
popularização do sistema de imprimir em películas de celulóide, parece-nos indicar uni novo
caminho ao jornalismo escrito: a substituição, no futuro, do jornal na sua forma atual pelo jornal
em micro-filme para a leitura eu aparelhos reprodutores ou projetores, como já existem em bi
bibliotecas, arquivos, universidades, clubes e associações culturais. O micro-filme, se bem que
exija a posse de aparelho especiais de reprodução e projeção, tem sôbre o jornal impresso em
papel diversas vantagens, tais como: facilidade de transporte e arquivamento; melhor técnica
para o uso das côres; comodidade para o leitor, que não terá de conduzir grossos volumes de
fôlhas impressas, que não somente pesam como têm outros inconvenientes, como o
desprendimento de tinta e a rápida e fácil destrutibilidade redução das despesas em maquinaria
e mão de obra para as emprêsas e, finalmente mais vasto alcance pela sua utilização nas
emissoras de tele visão. O emprêgo do micro -filme se está generalizando nos países mais
adiantados cultural e èt cnicamente: nos Estados Unidos, tivemos oportunidade de visitar o
arquivo do Ne w York Times, onde as coleções volumosas e devoradoras de espaço das edições
daquele famoso órgão da imprensa mundial estão concentradas em poucos metros de caixas de
aço.
Para resolver o cruciante problema espacial, “inúmeras instituições adotaram o recurso
de construções especiais longe da sede; tal solução gerou o duplo inconveniente de aumentar as
despesas e criar outro problema: o do transporte dos da tos entre a sede e o depósito-arquivo. O
micro-filme, quer em bandas, é largamente utilizado para reduzir massa criada por tanto papel
impresso, manuscrito ou datilografado. Com o uso do micro-filme, obtem-se uma economia
espacial e de pêso que pode oscilar entre 80 e 90 por cento. Assim o conteúdo de cem armários
para arquivo pode ser reproduzido e disposto em um só classificador para micro filme, cujas
dimensões não ultrapassam as medidas de um armário comum. Basta pensar que um rôlo de
microfilme de 16mm, com imagens duplas de 8 mm, conterá, ao longo de trinta lineares, cerca
de 10.000 cartas. A bobina de 30 metros tem um diâmetro de 12 cm... Considere -se ainda, que
as modernas micro-fumadoras automáticas permitem a execução de duas imagens de 8 mm
lado a lado... Considere -se, também, que o processo de micro-filmagem, quer em 35 quer em 16
mm, é extraordinàriamente rápido, tendo-se em conta o fato de que 30.000 documentos podem
ser microfilmados em uma jornada de trabalho10.” Entre os grandes jornais brasileiros cujas
edições, para efeito de arquivamento, são micro-filmadas figuram O Globo, Diário de Notícias,
última Hora e Correio da Manhã, todos do Rio11.”
A fixação em películas de celulóide de notícias e “slogans” publicitários é ainda muito
utilizada para projeção em praça pública, em telas especiais ou nas-paredes dos grandes
C. Oscar Campiglia — .Emprêgo de microfilmagem em arquivos,in IDORT — Revista de Organização e
Produtividade — S. Paulo— ns. 307-308 — julho e agôsto de 1957 — págs. 19 e 20.
11 Informação de P.N. ed, de 20-3-57, que adianta ser possível inserir aproximadamente 1.200 páginas de jornal
num rôlo de apenas 20 metros de película, sendo que o preço do negativo e positivo é extremamente baixo, em face
do grande número de cópias que se fazem em pequenos pedaços de fita.
10
edifícios, substituindo os “placards” em que, antigamente, os jo rnais expunham informações
sôbre fatos de sensação ocorridos no intervalo entre as suas edições. Aliás, essa modalidade de
divulgação jornalística também se vê gradativamente abandonada pelo uso da eletrônica. São os
chamados “jornais elétricos” ou “luminosos”, existentes em todo os grandes centros urbanos do
mundo, tais como em Times Square, New York; em Picadilly, Londres; no Rio, em São Paulo e
no Recife12. Os jornais eletrônicos, de acôrdo com a sua técnica de instalação, podem funcionar
dia e noite, apresentando caracteres coloridos e desenhos ilustrativos das legendas e textos
divulgados.
O RÁDIO E O JORNALISMO ORAL
Por milênios, a palavra falada foi a única forma de expressão jornalística. Na nossa
época, o jornalismo oral não sômente subsiste, através do rádio, do telefone e da fita mago
ética, como assumiu tal importância que a sua técnica reclama estudos especiais.
O rádio foi pela primeira vez utilizado para a transmissão de notícias em 1922 por
Gabriel Germinet, lançando, através da estação parisiense de Radiola, um serviço quotidiano de
novidades sob o nome de “Paris Informations”13. Em outubro de 1925, uni grupo de jornalistas,
tendo à frente Maurice privat, arrendou a grande antena da Torre Eiffel e deu curso a uma idéia
que, nos fins do século passado, em 1883, Louis de Peyramont tentara efetivar nos FolliesMarigny, reunindo um público, diàriamente, para ouvir a leitura não só de noticias como de
artigos — e até ilustrando as palavras com desenhos e caricaturas traçadas em um quadro
negro pelos próprios autores. Privat, cuja concepção de jornalismo falado era mais prática, pois
que levava a matéria aos interessados em diversos pontos da cidade, por meio de alto-falantes,
obteve êxito ao ampliar, com a introdução de tôdas as seções que compõem o jornal impresso,
inclusive a publicidade, o simples informativo até então rádio_difundido. Le Journal de la Tour
teve logo imitadores: na Bélgica, em 1926, surgia um jornal falado; em a administração das
comunicações sem fio, em Paris, ia o seu “Rádio Jornal da França”, transmitindo de um estúdio
nos Champs Elysées; em 1932, no México, a XEW lê as notícias mais destacadas publicadas
pelo diário PJxcelsior. Em todo o mundo, sob a natural reação das emprêsas editoras de jornais,
que viam no rádio um perigoso concorrente, o rádio - jornalismo firma o seu definitivo prestígio na
terceira década do século14. Coube aos editores norte_americanos, com o seu reconhecido
pragmatismo, oferecer uma solução para o conflito rádio versus imprensa: — o rádio deveria
associar-se aos jornais e agências de informações, o que aconteceu nos Estados Unidos e em
outras nações, onde, a cada jornal importante, se subordinava uma rádio_emissora. Essa
política foi referendada pela Conferência das Novas Formas de Imprensa, reunida em 1934, em
Bruxelas, segundo a qual “estas duas formas de jornalismo, que se completam com felicidade,
devem colaborar e ligar-se eventualmente por acordos para fornecer paralelamente ao público a
sua quota de informações.” 15
O primitivo sistema de difundir informações pelo rádio, com alto-falantes colocados em
diversos pontos da cidade de Paris (prestigiado pelo próprio Presidente Poincaré, diária- mente,
“quando o tempo estava bom” transmitia entre as 18,30 e as 19 horas da torre Eiffel,
constituindo-se “numa verdadeira pequena atração nos anos de 1924 e 1925... parecia uma
12 Na capital pernambucana, o jornal eletrônico, inaugurado “em agosto de 1957, está instalado em avenida central
sôbre um edifício de 12 pavimentos. Foi uma iniciativa do jornalista e radialista Ernani Séve.
13 Já em 1920, uma emissora instalada em Pittsburg, nos EstadosUnidos, a K.D.K.A., transmitira, no mês de
novembro, boletins com os resultados das eleições presidenciais então realizadas.
14 Pernambuco detém o pioneirismo dos jornais falados no Brasil, lançados pela emissora da PRA-8, do Recife, em
fins de 1926, sob a orientação dos jornalistas Mário Libânio e Carlos Rios.
15 Conf. Rená Sudre — Le Huitiéme Art — Paris, 1945 e J. Preveyer Carracedo — Radioperiodismo — La Habana,
1952.
espécie de lanterna mágica sonora e provocava mais curiosidade e espanto do que interêsse
racional”), 16 é adotado ainda hoje na maioria das pequenas cidades brasileiras para a
transmissão de matérias de interêsse local e retransmissão de noticiários das grandes estações
dos centros urbanos com as quais entra em cadeia. São os chamados serviços de “difusoras” ou
de alto-falantes, existentes na maioria das cidades do nosso “hinterland”, que não possuem
estações de rádio próprias.
Ganhando foros de veículo jornalístico da mais subida importância, não sòmente por se
constituir num excelente instrumento de educação e propaganda como, sobretudo; por sua
extraordinário universalidade — “as ondas não conhecem fronteiras nem contrôles aduaneiros”
— o rádio exigiu, ao contrário do jornal impresso, uma legislação e um sistema de concessão
especiais, admitidos pràticamente por todos os Estados modernos, através uns do monopólio
sôbre as emissoras outros por meio de estatutos que adotam certas medidas restritivas, a partir
da reserva das freqüências até a censura prévia dos programas informativos. Em 1949, de
acordo os dados divulgados pela UNESCO, havia, em todo o mundo, devidamente registradas,
4.870 rádio-emissoras, e o número de aparelhos receptores era de 181.849.000. Eis os números
para o Brasil: 233 emissoras, sendo 211 de ondas médias e 12 de ondas curtas; 216 de
propriedade privada e 7 pertencentes ao Estado; 2.500.000 receptores, cabendo 51 para cada
mil habitantes. Já em 1958, segundo o Anuário da Imprensa, Rádio Televisão, editado por P.N.,
o número de estações de rádio no nosso país ascendia a 496.
O telefone, a princípio empregado, apenas, para comunicações particulares ou
transmissão de notícias aos corpos redacionais para posterior publicação nos jornais, é, hoje,
outro veículo do jornalismo oral. Em tôdas as grandes cidades, há “jornais telefônicos”, em geral
estreitamente ligados às emprêsas que exploram os serviços telefônicos, O primeiro jornal essa
espécie de que se tem notícia foi o Telefon Hirmonde, fundado na Áustria pelo eletricista
Theodor Tuskas, em 1893. Contando com 20.000 subscritores, 1.000 quilômõtros de linhas, um
grande corpo de repórteres, redatores e comentaristas, e transmitindo tôdas as seções de um
periódico impresso, estava àriamente “no fio” das 8 às 23 horas. As suas transmissões eram
feitas com o auxílio de dois poderosos microfones, colocados um defronte do outro. Por meio de
um sistema de alarme, chamava a atenção dos subscritores quando ia anunciar um
acontecimento extraordinário, fôsse no campo político, econômico social. Utilizava também
recursos musicais ou para caracterizar seções ou para os intervalos entre os noticiários. 17
Quanto à fita magnética, com a gravação de notícias e comentários pelo processo
eletrônico, até bem pouco era utilizada apenas nos departamentos jornalísticos da imprensa e do
rádio para entrevistas, reportagens “in loco”, retransmissões de “matchs” desportivos e outros
fins, e contrôle, pelas agências telegráficas e de publicidade, da divulgação de noticiário ou
propaganda pelas mesmas distribuidas às rádio-emissoras.
Há cinco anos, entretanto, êsse gênero de periodismo, que poderíamos chamar de “jornalismo
em conserva”, vem sendo utilizado regularmente: — Gordon McKibben divulgou, em The WaIl
Street Journal, de New York18, a existência de um semanário, o Audio Digest, que possui cêrca
de 10.000 assinantes em quinze países. Destinado aos médicos muito atarefados, que não têm
tempo de ler todos os periódicos da sua especialidade, oferece, em gravação de uma hora, um
Segundo depoimento de Pierre Descaves, companheiro de pioneirsmo de Maurice Privat, do qual traça um
curioso perfil na sua conferência Le Journalisme parlé, inserida na coletânea Ploblémes et Techniques de Presse –
Editions Domat Montchristeien – Paris, 1949.
17 No Recife, funciona um serviço informativo telefônico, o SIG, que nada obtante destinar-se especialmente à
propaganda comercial fornece notícias sôbre acontecimentos desportivos, fenômenos meteorológicos,
entretenimentos, horários, etc. Observação digna de regstro é a de que, quanto às informações políticas o SIG da,
apenas, os resultados dos pleitos eleitorais, sendo lhe vedado, por determinação estatutária da sociedade que o
mantém, qualquer divulgação de caráter partidário.
18 Conf. Seleções de Reader´s Digest, edição brasileira, junho de 1957 – pg.85
16
sumário de notícias colhidas em publicações e relatórios especiais das pesquisas médicas,
sendo editado pela Audio Diqest Foundation, de Hollywood. Os assinantes pagam 143 dólares
por ano pela fita semanal e o Audio Digest prepara, ainda, resumos extraordinários, duas vêzes
por mês, nos campos da cirurgia, medicina interna, anestesiologia, pediatria e ginecologia, que
são vendidos a 72 dólares por ano. Informa McKitben que o Exército Norte-Americano, hospitais,
faculdades de medicina e outras instituições são assinantes dêsse jornal eletrônico, embora o
grosso das gravações seja ainda expedido a médicos comuns, que forcejam por acompanhar os
progressos da ciência, enquanto atendem aos seus clientes.
Algumas empresas norte-americanas já estão empregando a fita magnética em
substituição ao clássico ‘jo rnal da casa”. Diàriamente são gravados informes, notícias e’
sugestões sôbre os negócios, questões sindicais e outros assuntos julgados de interêsse pelo
serviço de relações públicas das companhias. O sistema de gravação de “revistas falantes”, com
notícias, comentários e ensaios vem sendo incrementado, nos últimos anos, notadamente pelos
organismos de assistência aos cegos, como meio auxiliar de educação dêstes últimos,
considerando-se a insuficiência e o elevado custo do material composto em Braille. Êsse e
outros usos da fita magnética levaram Wolfgang Langewiesche a considerá-la mais do que um
mero tipo de gravação fonográfica: — “um novo instrumento, o mais poderoso para a
transmissão de idéias desde a invenção da
prensa.”
Em 1958, na França, foi lançada uma revista — Sonorama, encadernada com fõlhas
alternadas de pap el e de “material plásrtico”, as primeira impressas com artigos, noticiário
editoriais, reportagens e ilustrações e as últimas “gravadas” com reportagens sonoras,
entrevistas, cantores e música orquestrada. O leitor retira as páginas de plástico e as coloca na
toca-disco para “ouvir” a revista. Dirigida pelo publicitário Claude Maxe, apresentou, em seu
número de lançamento, a gravação de uma entrevista com Jean Louis Barrault sôbre teatro,
outra com Brigitte Bardot e seu noivo, uma reportagem auditiva dos últimos acontecimentos
políticos que perturbaram a França metropolitana e ultramarina com todos os ruidos e gritos das
arruaças, alguns discursos em praça pública e a ruidosa participação da polícia, bem como
outros detalhes auditivos dos acontecimentos. Por fim, gravações de Gilbert Becaud e “The
Platters”. Sonorama — informa José Ricardo na sua seção “Rosa dos Ventos”, divulgada pelos
Diários Associados, em dezemb ro daquele ano — vendeu 50.000 exemplares a 500 francos
(aproximadamente 170 cruzeiros) por exemplar. Essa publicação é mensal.
O DESENHO E O JORNALISMO PELA IMAGEM
Embora podendo adotar legendas escritas ou textos falados para melhor compreensão
do público, o jornalismo pela imagem19 tem no desenho, na fotografia ou na apresentação direta
dos acontecimentos os seus principais meios de expressão. Do ponto de vista psicológico, a
imagem oferece mais possibilidades de fixação do que a própria testemunha direta do fato, que
pode ser incompleta quer quanto ao ângulo do observador quer pelas falhas da atenção em
pessoa não experimentada. A imagem jornalística, procura dar uma visão sintética completa do
acontecimento, sendo imediatamente compreendida pelo espectador sem apêlo à sua
inteligência ou à sua imaginação e independente do grau de cultura que detenha idioma que fale.
Na atualidade, o jornalismo pela imagem manifesta-se através do desenho, da fotografia, do
cinema e da televisão.
Essa modalidade de jornalismo é, em geral, denominada gráfica, se bem que, etimológicamente, a designação
seja ambígua.
19
O Desenho — Depois da palavra falada, foi, sem dúvida, a mais antiga expressão
jornalística no mundo, pois surge, talhado ou pintado nos muros das cavernas pré-históricas,
cêrca de 15.000 anos antes do nosso século. Se alguns dos documentos arqueológicos
apresentam desenhos humorísticos, caricaturas ou artísticas representações da flora, da fauna e
dos homens, a maior parte dêles, por exemplo, no Egito, tinha “um significado político bem
perceptível ou eram simplesmente cenas críticas e joviais dos costumes do tempo... Um dos
desenhos mais conhecidos daquele período representa uma gazela que se entretém em um jôgo
parecido ao xadrez com um leão; êste, antes que a partida termine, arrebata a aposta. Com isso
se quis expressar que as pobres gazelas indefesas não devem jogar com o leão poderoso que,
no caso, se supõe representar o faraó Ramsés III êste mesmo é, em outro de desenho, um gato
astuto, que conduz uni bando de patos inocentes... Em outra composição talhada sôbre um dos
monumentos de Tebas, satiriza-se o excesso, em damas da alta sociedade, de beber mais do
que recomenda a prudência: umas pedem às suas escravas que as sustentem e outras são
atendidas no momento extremo...”20
A ilustração e a caricatura — Como outros jornalistas, em todos os tempos, também os
desenhistas e caricaturistas têm os seus mártires do ofício. Aristófanes se refere ao grego
Pauson “que tudo o que fazia era degradar e desfigurar tornando mais feia a pessoa do que o
era, pelo que não devia ser mostrada a sua obra aos jovens” e assim narra o triste fim do mesmo
artista: “o infame Pauson já não nos desfigurará mais”, deduzindo-se que participou da mesma
sorte de Sócrates; segundo Plínio, também tiveram fim violento Supalus e Athenis, desenhistas
satíricos. Mais tarde, na França, sob Luís XIV, muitos caricaturistas são obrigados a emigrar e
publicar as suas obras na Holanda
A invenção da imprensa torna mais amplo o campo do desenho humorístico e crítico
como forma jornalística: na Inglaterra, os caricaturistas satirizam o episcopado da Igreja
Anglicana e a conduta licenciosa dos cavaleiros, as condições que os presbiterianos arrancam a
Carlos II antes de oferecer- lhe a coroa, ou as guerras e a política de Napoleão. Em tanto aprêço
têm os inglêses o jornalismo humorístico que uma das suas mais famosas publicações — O
Punch 21 — é, hoje, o repositório de mais de um século da vida social e política britânica. Goya e
Velazquez são , na Espanha, os pioneiros da caricatura e da sátira; do primeiro, a obra mais
impressionante é a contida nos Caprichos, que revelam “uma alma atormentada ante a injustiça,
a baixeza, o vício, a ignomínia e a hipocrisia”. Na França, o jornalismo através do desenho e da
caricatura toma impulso com a revolução de 1789, mas é sòmente no século passado que,
graças à descoberta dos processos de fototipografia e fotogravura, a ilustração conquista o seu
lugar definitivo nas publicações periódicas. Daumier, Gavarni, Forain, Willette e Leandre
constituem o grupo de humoristas franceses que utilizaram, então, jornais e revistas para retratar
a sociedade, criticá-la, corrigi-la, educá-la. Coube ao jornal Le Lithographe publicar, em 1839, a
primeira ilustração pelo processo de fotogravura; durante. o Segundo Império, L’Illustration
conquista o seu público por meio de reportagens redigidas, desenhadas e fotografadas. Com o
Excelsior, primeiro diário ilustrado, fundado por Pierre Lafitte, na França, em 1910, a ilustração
entra definitivamente na grande imprensa e, hoje, quotidianos, periódicos, revistas, magazines, o
cinema e a TV usam largamente a gravura, tendo-se o desenhista tornado um profissional de
primeiro plano no jornalismo, traçando e projetando as páginas, criando “títulos” para as seções,
Bam-Bhu — El dibujo humoristico — Barcelona — pág. 5.
Fundada em 1841, tomou o seu nome da tradução inglêsa de Polichinelo, personagem mundialmente conhecido,
originário da “Comedia della Arte” italiana. Juntamente com o New Yorker, americano, Le Canard Enchainé, de
Paris, Simplicissimus, de Munich e Krokodil de Moscou, pertence ao reduzido grupo de publicações líderes do
jornalismo humorístico internacional.
20
21
introduzindo tipos e flagrantes humorísticos, elaborando historietas, os “comics” em que se
distingue a imprensa norte- americana.
Como já se observou22, graças às novas técnicas impressão, “os desenhistas chegaram
a ser escritores e os seus hábitos de observação os colocam na categoria dos espíritos críticos e
sintéticos a que pertenciam La Bruyère, Pascal e La Rochefoucauld, a dos filósofos, para os
quais uma frase basta para explicar um caráter, para pintar uma situação.” Como de todos os
jornalis5 exige..se do desenhista de jornal que Possua “um rapidíssimo golpe de vista e uma
grande agilidade mental para que seu lápis não capte sômente traços pessoais mas de uma
época. Um esfôrço de síntese deve presidir ao seu labor, tanto ao desenhar como ao redigir o
texto, chiste da sua obra, O tempo joga um importante papel na sua tarefa, pois algumas vêzes
há de adiantar-se aos acontecimentos e outras segui-los o sentido da atualidade não pode
abandoná-lo, pois depende dela o efeito que a sua obra produzirá. 23” Deve-se observar,
também, que estando o humor intimamente ligado ao ambiente de uma época, mais difícil se
torna ao desenhista de jornal conseguir a permanência para a produção do seu esfôrço
intelectual e artístico. Com efeito, embora muitas vêzes uma piada em historieta ou caricatura
valha mais do que um editorial, depressa é esquecida e “quando a repassamos em velhas
coleções de jornais e revistas quase não compreendemos a intenção que encerra, o humor e a
moda morrem todos os dias.”
A mais divulgada das modalidades do jo rnalismo desenhado é a dos “comics”, que há
cinqüenta anos atrás eram desconhecidos, tendo sido lançados em 1884 pelo New York Daily
News, cuja popularidade foi tão grande e marcou tão profundamente os espíritos nos Estados
Unidos, que uma famosa série, a do “Yellow Kid” — tipo criado por R. F. Outcault e lançado nos
jornais sensacionalistas de Hearst — deu origem à expressão hoje mundialmente adotada para a
imprensa dessa espécie - a imprensa amarela. Uma série enorme de publicações jornalísticas
emprega, hoje, o desenho como principal matéria, utilizando ap enas as complementarmente os
textos escritos: — são as revistas e jornais em quadrinhos que, embora jnicialmente dirigidas a
um público infantil e juvenil, conquistaram as massas, se bem que sob a barragem das restrições
mais acerbas, por parte especialmente, de educadores e críticos.
No Brasil, os primeiros ilustradores conhecidos foram Debret e Rugendas, através de
cuja obra se pode reconstituir as características marcantes da sociedade colonial. Entretanto,
jornalisticamente, só em 1831, com O Carcundão, surgido no Recife, nasce a caricatura em
nosso país. A respeito dêsse periódico escreve Alfredo de Carvalho: “O n.° 1 saiu a 25 de abril e
o n,° 3 a 17 de maio. Era escrito com extrema mordacidade, em resposta ao precedente (O
Liberalão) ; trazia grosseiras vinhetas caricatas abertas a canivete em entrecasca de cajazeiro,
primeira tentativa de jornal ilustrado em Pernambuco. Raríssimo24.” Nos últimos anos do Império,
o desenho, a caricatura e a charge são geralmente adotados, quando nos chegam os inventos
que permitiram maior facilidade à sua reprodução.
As campanhas abolicionista e republicana tiveram os seus caricaturistas. Nesse sentido,
no Rio, A Semana Ilustrada, surgida em 1860, de propriedade do ale mão Henrique Fleiuss,
criador das figuras do “Dr. Semana” e do “Moleque”, e a Ilustração Brasileira ou Revista
Ilustrada, de Ângelo Agostini, criador de “Zé Caipora”, marcaram época. Nelas colaboraram os
espíritos satíricos dos artistas Flumen Junior, Belmiro de Almeida e Bordalo Pinheiro, que
fixaram com humor e criticaram com mordacidade todos os episódios da nossa vida política de
então. No Recife, em 1875, circulava O Diabo a Quatro, redigida por Anibal Falcão, Sousa Pinto
e Adolfo Germano dos Santos que, no registro de Alfredo de Carvalho, “elevou a crítica de
costumes a proporções nunca depois excedidas, tanto na justeza e no chiste das observações
Louis Morin — Le dessin humoristique cit. por Frederico Galindo in El periodismo — Barcelona, 1953 — pág. 450.
Frederico Galíndo — El humour en la prensa in El periodismo — Barcelona, 1953 págs. 33-43o.
24 Alfredo de Carvalho — Anais da Imprensa Periódica Pernambucana — Recife, 1908 — pág. 133.
22
23
como na probidade de critério. As ilustrações correspondiam brilhantemente ao texto.”25 No
princípio do século atual, no Mercúrio, em O Malho, Fon-Fon, Don Quixote, Frou-Frou, Para
Todos e A Careta — esta última podendo ser considerada como o nosso Punch — colaboraram
Raul Pederneiras, Calixto Cordeiro e J. Carlos, êste o pioneiro da caricatura mundana, ao criar o
tipo da “Melindrosa” crítica ao “society” da época. Guevara, paraguaio, e Figueirôa, mexicano,
chegados e integrados no jornalismo do país, comandaram uma autêntica revolução na
caricatura, acentuando a massa das figuras e tornando-as mais plásticas e atraentes. São dessa
escola Alvarus, Theo, Fritz, Belmonte, Seth e outros, que surgem com as suas “charges” nos
principais jornais e revistas do país. Hoje, o desenho humorístico é indispensável aos órgãos da
imprensa de largo público e alguns dos profissionais e artistas contemporâneos, entre os quais o
pernambucano Péricles, criador de “O Amigo da Onça”; o outro pernambucano Augusto
Rodrigues, fundador das Escolinhas de Arte, e mais Carlos Estevão, Nássara, Vão Gogo e
Borjalo são nomes que já ultrapassaram fronteiras, com trabalhos reproduzidos nas principais
publicações do mundo. Não devemos esquecer que também o nosso incipiente cinema vem
adotando o desenho e...o “humour”, notadamente através do lápis de Luís Sá, ilustrador de
jornais filmados.
A fotografia — Deve-se a Leonardo da Vinci, cêrca de 1500, a primeira tentativa de fixar
mecânicamente as imagens, quando o famoso pintor — um dos gênios versáteis da humanidade
— idealizou a primeira câmara escura, que tornaria possível a fotografia. No entanto, foi sômente
no comêço do século XIX, depois que diversos investigadores haviam descoberto que a prata
dissolvida em matérias orgânicas enegrecia-se pela ação dos ácidos, que José Niceforo Niépce
e Luís Mandé Daguerre aplicaram êsses conhecimentos à câmara escura, inventando o sistema
de gravar imagens em uma placa preparada com iôdo e prata mercurial. Daí para diante, todos
os esforços foram desenvolvidos no sentido de aperfeiçoar o invento, substituindo-se as placas
metálicas por transparentes, a fim de obter cópias em papel sensibilizado, o que se deveu a
William H. F. Talbot. Em 1840, o prof. John W. Draper, da Universidade de New York, conseguiu
a primeira fotografia de uma face humana — a de sua irmã — mediante uma exposição de cinco
minutos. Dez anos depois, graças a um outro processo, descoberto por Frederick Scott Archer,
todos os sistemas anteriores foram abandonados pela impressão.
A fotografia, como o desenho, beneficiou-se dos métodos de gravação; a fotogravura e a
zincografia permitiram a sua reprodução nos impressos. Êstes, por sua vez, alcançam também
os benefícios da reprodução fotográfica pelo sistema “offset”, descoberto casualmente por W.
Rubel, de New Jersey, em 1904, quando, buscando um modo de obter provas perfeitas em papel
de qualidade regular, utilizando ainda cilindros de pressão de borracha, esqueceu uma das
provas ao colocar o papel entre os rolos de pressão e o “cliché”. Qual não foi a sua surprêsa ao
dar-se conta de que a imagem que se havia transladado para a borracha, era repro duzida em
uma prova, aparecendo ali com perfeição insuspeitada! Hoje, o sistema de gravação em “offset”,
aperfeiçoado ao máximo, é empregado especialmente para revistas, imprimindo em diversas
côres, por meio de máquinas rotativas.
Mais recentemente, graças ao desenvolvimento das técnicas do telégrafo e do rádio,
através de um aparelho que denominou “belinógrafo” ou “fototelégrafo”, o francês Edouard Belin
(1921) inventa a transmissão de fotografias pelo rádio. Três anos mais tarde, as fotografias
passam a ser transmitidas pelo rádio, através dos mares. Atualmente, os avanços da televisão já
permitem a transmissão instantânea de imagens a longa distância e, na sua recepção, as
fotografias podem ser fixadas tanto sôbre papel fotográfico como sôbre filme. ’Várias emprêsas
americanas têm mesmo conseguido o “tour de force” de transmitir, pela televisão, um jornal
25
Alfredo de Carvalho — Obra cit. — pág. 373.
inteiramente Impresso aos assinantes que possuem um aparelho de sua fabricação, conhecido
na América sob o nome de “fac-similes”26.
O desenvolvimento dos métodos de captação, transmissão e impressão de imagens fêz
da fotografia não apenas mera ilustração na imprensa mas lhe deu também conteúdo
jornalístico. Muitas vêzes, a simples publicação de uma fotografia vale uma notícia; doutras, uma
seqüência de fotos constitui autêntica reportagem. Nos países europeus é muito comum a
existência, nas principais ruas, em montras especialmente preparadas, de “jornais fotográficos”,
expondo fotos de acontecimentos do dia ou da semana, com legendas elucidativas. Os diários,
especialmente aquêles publicados- à tarde e os chamados “tabloides”, publicam páginas inteiras
de fotografias, enquanto que as revistas ilustradas, nas quais o texto escrito é quase
inteiramente substituído por fotografias, estão tendo um crescente e interessado público.
Todavia, quer o desenho quer a fotografia, para que se constituam no chamdo “jornalismo sem
palavras” necessitam de atender a todos os caracteres dessa atividade, notadamente a
atualidade e a interpretação. Fotos sem interêsse humano, inoportunas, paradas ou mortas não
são jornalismo, porque não dizem nada de novo, não despertam no leitor (diríamos melhor no
espectador) aquêle princípio de ação que é próprio do jornalismo. Por isso, todos os fotógrafos
— e mesmo bons fotógrafos- — o são a prática do jornalismo, uma vez que lhes falta, como a
alguns escritores famosos, aquêle instinto profissional,, que leva homem de imprensa a olhar a
vida e o mundo como campo colheita de notícias destinadas a informar e orientar a opinião
pública.
Nada obstante o êxito atual dos jornais e revistas ilustrdos com fotografias, sômente nos
fins do século passado é que a imprensa começou a utilizá-las. Assim, a 13 de março 1892, a
revista Berliner Illustriert Zeitung publicou uma reportagem fotográfica da catástrofe ferroviária de
Bomberg; na França, o primeiro quotidiano incluindo fotografias fo i Excelsior, em 1910; e na
Inglaterra, o Daily Mirror sômente adota a fotografia como veículo de potícias em 1904.
O Cinema — Ao contrário do jornal, que precisou de duzentos a trezentos anos para
utilizar a máquina de imprimir e a letra de fôrma, os “jornais cinematográficos” – chamados
“newsreels” pelos povos da língua inglêsa, “actualités” pelos franceses, “noticieros” pelos
espanhóis, e “wochenschau” pelos alemães — foram a primeira manifestação do cinema. Com
efeito, o primeiro filme de que há notícia (1895), produzido por Lumiêre, foi “La sortie des usines
Lumière, à Lyon-Mont- plaisir”, de cêrca de vinte metros, fixando aquêle acontecimento diário no
celulóide. Outros filmes produzidos na época ocuparam-se da “chegada do trem na gare de
Ciotat” e de “uma viagem entre a Rue de Ia Republique e Lyon”. Um ano depois, os irmãos
Lumiêre contratavam Relix Mesguich para percorrer a Europa e o mundo, colhendo flagrantes de
cidades, solenidades oficiais, costumes pitorescos, catástrofes e festas para as “actualités”. Foi
êle o primeiro cine -repórter do mundo.
Outros produtores franceses não tardaram em seguir o exemplo dos irmãos pioneiros.
Assim, outros famosos irmãos, os Pathé, e Leon Gaumont apresentaram a chegada do Tsar a
Paris, o desfile de 14 de julho e o Grande Prêmio de 1896. Sômente em 1901 — e ainda à base
dos “fatos marcantes” — é que Georges Mêliés, o criador do cinema como espetáculo, produz a
sua reconstituição da coroação de Eduardo VII, utilizando a “trucage”, mais tarde desenvolvida
pelo cineasta norte-americano D. W. Griffith. As duas primeiras emprêsas cinematográficas dos
Estados Unidos, a “Biograph” e a “Vitagraph”, ambas explorando cenas da vida corrente,
conforme a sua própria epígrafe o indicava, tornaram-se preferencialmente filmadoras das
atualidades e é histórico da competência entre elas o fato ocorrido a 3 de novembro de 1899,
quando a primeira obteve exclusividade para apanhar os flagrantes do “match” de box entre
Jeffries e Sharkey, disputando o título de campeão do mundo, no Conney Island Club.
26
Gilbert Henry Coston — L´ABC du journalisme — Paris, 1952,pág. 172.
Inconformados, os técnicos da “Vitagraph” irromperam no recinto, no momento da luta, e
protegidos por brigadas de choque “rodaram” um filme, utilizando a iluminação artificial por meio
de uma bateria de lâmpadas de arco ali colocada pelos concorrentes. Ambas emprêsas
obtiveram com êsse filme um êxito estrondoso.
Entre os anos de 1905 e 1907, o cinema deixa, afinal, de ser considerado um simples
entretenimento, uma mera novidade da técnica para afirmar se como uma poderosa Indústria.
Até então, os filmes de atualidades dramáticos ou cômicos tinham em média 20 metros e eram
Produzidos e vendidos a proprietários de salas de projeção ou a exibidores ambulantes que os
utilizavam até à imprestabilidade. Naqueles anos decisivos, troca-se a exploração ambulante
pela fixa e introduz-se o sistema de alug uer, o que leva os produtores a ultrapassarem os vinte
metros de celulóide, dando início à longa metragem. É em 1907 que Gharles Pathé cria, na
França, o seu “Actualités Pathé”, com az característica pela variedade de assuntos filmados, dos
atuais jornais cinematográficos. Durante a l Guerra Mundial, o prestígio do jornalismo
cinematográfico firma-se definitivamente e é nessa época que o filme americano conquista o
primeiro lugar, suplantando em quantidade e técnica ao europeu.
Peter Baechlin e Maurice Muller Strauss, em obra completa sôbre a matéria,27 27
distinguem as seguintes características dos jornais cinematográficos que os diferenciam
nitidamente de outros filmes de curta metragem.
a) - aparecem regularmente a intervalos relativamente curtos, com edições segundo os
países produtores mensais, bimensais, hebdomadárias e mesmo bi-hebdomadárias;
b) cada uma das suas edições comporta vários assuntos justapostos sem ligação direta
entre si;
c) cada um dos acontecimentos apresentados se refere em princípio à atualidade geral
do momento da sua aparição.
d) são geralmente de uma metragem “standard’
e) — sua apresentaço é direta, enquanto que a dos “magazines” filmados e
“documentários” pròpriamente ditos têm um caráter interpretativo e didático.
O cinema atingiu tal popularidade que, em 1950, havia, no mundo 95.352 salas de
projeção Com 42.444.900 localidades com uma freqüência semanal de 215 milhões de
espectadores, aos quais se ap resentavam os noticiários como parte integrante dos programas.
Na sua técnica, também os filmes de atualidades se assemelham aos jornais: são geralmente
dividos em rubricas correspondente às seções dos órgãos da imprensa — O que vai pelo
mundo, esportes, modas e até reportagens especiais.
Como acontece com o rádio em relação ao jornal, a televisão está ameaçando
sèriamente os jornais cinematográficos, que exigem certo espaço de tempo para a sua produção
e distribuição. Se bem que alguns pretendam que a TV fará desaparecer êsse gênero de
jornalismo ou o absorverá, outros prevêem a sua evolução para o gênero do “magazine filmado”,
nos quais se dá maior ênfase à interpretação dos fatos, apresentados em detalhes e sob ângulos
que escapam ao tele -repórter. Nesse estilo, alguns “digests” filmados já são conhecidos
mundialmente, tais como March of Time, criado por Louis de Richemont, nos Estados Unidos,
em 1934; This Modern Age, produzido por J. Arthur Rank, na Inglaterra; Pathé Pictorial, na
França e United Nations Screen Magazine, editado pela ONU desde 1949. Êstes e outros
“magazines” filmados, cuja metragem varia entre 250 e 600 metros, adotam novos métodos de
apresentação, sobretudo no que se refere ao som e à imagem, destinando-se a um público
menos apressado do que o que deseja puramente informar-se das atualidades, O “magazine”
filmado permite, também, a especialização, tanto que, na Grã-Bretanha, produzido pela Gaumont
British Instrutional Ltda., é distribuído o Children’s Entertainment Films, dedicado às crianças,
com assuntos do seu interêsse; na URSS, diversos ‘digests” filmados são produzidos, entre os
quais Ciência e Técnica, Viagens na União Soviética e Esportivos. Convém assinalar que, nos
27
L apresse filmée dans lê monde – UNESCO – Paris,1951.
países socialistas, as atualidades, como qualquer outro veículo de informação e opinião,
constituem uma tribuna do govêrno, sendo rigorosamente nacionalizadas. A êsse respeito, a
revista Cinema Tchecoslovaque, editada em Praga, em 1949, escreve: “O filme de informação
tem uma outra função e uma responsabilidade muito maior do que filme de atualidades dos
produtores privados. Seu obje tivo não é provocar sensações, fazer palpitar o espectador,
abalhar-lhe os nervos e presenteá-lo com imagens que o distraiam ou desviem a sua atenção
das tarefas atuais. O filme de informação tchecoslovaco é um dos numerosos instrumentos
ideológicos que ajudam a edificar o Estado.” A exibição das “atualidades” nos países socialistas,
como em diversos outros Estados ocidentais, é obrigatória nos programas dos espetáculos
cinematográficos.
De um modo geral, os jornais cinematográficos são produzidos por emprêsas privadas
— os de maior divulgação no mundo moderno —; por émprêsas mistas, das quais o govêrno
participa ou às quais subvenciona; por serviços do Estado e, finalmente, pelos organismos
internacionais. Na primeira categoria, estão os produzidos e distribuidos pelas grandes
companhias norte-americanas, inglêsas e francesas: Faramount News, XX Century Fox News,
Universal News, News of the Day (Metro Goldwyn Mayer-Hearst), British Movietone News (2Oth
Century Fox -.— USA — e Lord Rothermere -GB), Pathé Journai e Gaumont Actualités. Na
segunda categoria, temos as Actualités Françaises, produzidas por uma sociedade de economia
mista, da qual o Govêrno Francês possui a maioria das ações, e os No-Do (Noticiários e
Documentários Espanhóis), preparados por uma sociedade autônoma, subvencionada pelo
govêrno espanhol. Nos países socialistas, os jornais cinematográficos são produzidos por
serviços estatais, o mesmo ocorrendo em diversos outros Estados europeus, asiáticos e
americanos como a Suíça, Turquia, Índia e Chile. Já nos referimos anteriormente a filmes de
informação produzidos pela ONU regularmente e distribuidos em todos os países membros.
A distribuição mundial das atualidades está assegurada por grandes companhias
distribuidoras, que geralmente também dispõem de filmes de longa metragem, desenhos e
documentários para programas completos. Acordos internacionais e relações de comércio e
cultura permitem a exibição em tôdas as partes do mundo de jornais filmados produzidos
principalmente nos EE.UU., França, Grã-Bretanha e URSS havendo também convênios para a
troca de tomadas de cena entre produtores, o que provoca, muitas vêzes, a repetição, jornais de
diferentes procedências, de “flagrantes” idênticos.
No Brasil, também não fugimos a idêntica evolução cinema: — começamos a nossa
produção cinematográfica fixação, no celulóide, de cenas da vida corrente, de ruas e lugares
pitorescos, viagens e documentários. Ainda hoje, a predominância no cinema brasileiro é desse
gênero de produções, nas quais se exercitam operadores, diretores e realizadores para futuros
empreendimentos no campo do cinema espetáculo. Em recente trabalho 27-a, Alex Viany refere-se
aos primórdios da cinematografia brasileira assinalando que dos “muitos filmes em um só rôlo”
produzidos até 1910, a maioria era de “simples registros de acontecimentos sociais e políticos,
ou cenas apanhadas em locais pitorescos, ou mesmo coisas tão inevitáveis como a tal do trem
chegar”.
_______________________
27-a Alex
Viany — “Introdução ao cinema brasileiro” — Rio, 1959 - pág. 28.
Em Pernambuco, na década 1920-30, um grupo de jovens entusiastas da sétima arte,
inspirados pelo exemplo dos italianos Falangola e Cambiére, que haviam chegado ao Recife
trazendo uma máquina cinematográfica e com ela tinham produzido filmes naturais da cidade, e
de propaganda comercial, organizou a “Aurora Filme”, rodando documentários e dramas. Outras
produtoras surgiram, animadas pelo sucesso inicial daquela: a “Planeta Filme”, a “Liberdade
Filme”, a “Veneza Filme”, a “Vera Cruz Filme”, a “Iate Filme”, e, na cidade interiorana de Goiana,
a “Goiana Filme”. A considerável produção de filmes, que jamais foi superada em quantidade, ao
tempo do cinema silencioso no Brasil, não teve infortunadamente continuidade, faltando-lhe o
apoio governamental que poderia ter transformado o Recife na Hollywood brasileira. São dessa
época atualidades e documentários, como “A chegada do Jahú ao Recife”, “Aniversário do
Govêrno Sergio Loreto”, “As obras de construção do Pôrto do Recife”, “Aspectos de Goiana”, que
foram exibidos trinta anos depois, no “Cinema Siri”, espécie de museu cinematográfico, criado
por Pedro Salgado e Jota Soares, pioneiros da cinematografia pernambucana. Também o
“Cinema Siri” extinguiu-se ao pêso da indiferença do poder público estadual. 28
Foi sômente no decorrer da II Guerra Mundial, com as atividades da Distribuidora de
Filmes Brasileiros (DFB), organizada pelos proprietários do maior circuito de salas de projeção
do País, a Cinegráfica São Luís, de Luís Severiano Ribeiro, e da Agência Nacional (AN), órgão
oficial ligado ao Ministério do Interior e Justiça, que a produção e exibição de atualidades
cinematográficas nacionais no país se tornaram freqüentes, provocando um decreto
governamental de 24 de janeiro de 1956, estipulando a obrigatoriedade de projeção de um filme
nacional (atualidades, documentários ou qualquer outro de menos de 180 metros) como
complemento de cada programação. Atualmente, diversas emprêsas cinematográficas produzem
e distribuem filmes de curta metragem de atualidades, destacando-se entre elas a veterana
Cinegráfica São Luís, a Vitória Filme (ligada ao circuito Sorrentino), a A. Botelho Filme, a
Produtora Herbert Ritcher, a Jean Manzon Filmes e a Cinédia, esta última mantendo um jornal
semanal dedicado exclusivamente aos esportes. Estamos, dessarte, bem colocados nas
estatísticas mundiais de produção de jornais filmados, com uma média de 260 por ano, quando
se sabe que, em 1949, segundo dados da UNESCO, os países líderes 4a indústria
cinematográfica produziam respectivamente: URSS, 1.100; USA, 728; Reino Unido, 520; França
e Itália, 260. Além dos jornais cinematográficos nacionais, os cinemas brasileiros exibem
atualidades de procedência norte-americana, francesa e inglêsa, com grande aceitação por parte
do público, calculado em 150 milhões de espectadores por ano, em 1.606 salas de projeção
com 1 milhão de localidades (1949).
A televisão — Nascida dos progressos da eletrônica, televisão é o mais recente dos
veículos jornalísticos. A primeira transmissão da imagem à distância, no mundo, foi feita 1927
pela Bell Telephone Company, quando, utilizando-se o telefone entre Washington e New York,
com um “relais” colo cado a título experimental em Whippany (N. J.), o então presidente Hoover,
na Casa Branca, foi apresentado ao público maravilhado da grande metrópole. Entretanto, desde
1890, sábios de diversos de diversos países vinham estudando o problema. A Edison, Jenquins,
Ester, Geitel, Marconi, Baird, Barthélemy, Farnsworth, Zworykin, Cahen e outros cientistas e
técnicos, em diferentes campos, deve a humanidade a concretização do velho sonho de “dar
olhos ao rádio”. Através de experiências cada dia mais positivas, já é possível, em 1935,
realizarem-se emissões experimentais de 10 kilowatts sôbre uma onda de 8 metros, por uma
Jota Soares fêz publicar, na revista Notícias de Pernambuco, edição de abril de 1953, um completo estudo sôbre
o cinema pernambucano,no qual rememora as figuras de Edson Chagas, Gentil Ruiz, Ary Severo, Pedro Salgado,
Antonio Campos, do exibidor Joaquim Matos, proprietário do Cinema Royal de Pedro Neves e do pintor e
caricaturista Fausto Silvério Monteiro (“Fininho”) , bem como fatos e outros subsídios preciosos à história do nosso
cinema considerado, então, um dos mais artísticos do mundo.
28
antena colocada no alto da Torre Eiffel. Três anos depois, a França possui a mais potente
emissora de TV do mundo (30 kilowatts), transmitindo a imagem em um raio teórico de 50
quilômetros, acompanhada de som. É também neste ano (1938) que a TV ultrapassa o estado
puramente mecânico (rotação de discos sôbre o emissor e o receptor e exploraçâo sôbre 30
linhas) para atingir o sistema de transmissão eletrônica, quando, em Moscou e Leningrado, são
instaladas estações que, mais tarde, viriam a cobrir um raio de 180 a 190 quilômetros. Nos
Estados Unidos, o funcionamento oficial da TV foi registrado em 30 de abril de 1939, data da
abertura da Feira Mundial de New York, embora desde o ano anterior a RCA estivesse
fabricando postos de televisão para venda ao comércio. Em 1945, no final da segunda guerra
mundial, mais um progresso decisivo é registrado: — empregando-se um aparelho descoberto
por Zworykin, o iconoscópio, e aperfeiçoado por Barthélemy, com lentes eletrônicas, conseguese a transmissão da imagem em pleno dia e mesmo sem sol. Ao engenheiro inglês J. L. Baird
são atribuidos os mais importantes estudos sôbre a transmissão da TV em côres, hoje uma
realidade.
A TV desenvolveu-se ràpidamente nos países mais industrializados com emissões
destinadas a grandes públicos. Dados estatísticos colhidos pela UNESCO, em 1° de janeiro de
1953, nos permitem avaliar da popularidade da TV, isto é, do seu alcance como veículo
periodístico, cultural e artístico: nos Estados Unidos, havia, então, 139 estações transmissoras,
22 milhões de receptores, equivalentes a um para cada 7,15 habitantess; no Reino Unido, 5
estações, 2.072.930 receptores, um para cada 24 habitantes; em Cuba, 7 estações, 100.000
receptores para cada 55 habitantes; no Canadá, 2 estações, 250.000 receptores, um para cada
56 habitantes; no México,6 estações, 50.00 receptores, um para cada 578 habitantes; na França,
2 estações, 60.000 re ceptores, um para cada 704 habitantes; no Brasil, 3 estações, 70.000
receptores, um para cada 751 habitantes; na República Dominicana, 1 estação, 1200 receptores,
um para cada 1.808 habitantes; na URSS, 3 estações, 80.000 receptores, um para cada 2.400
habitantes; na República Federal da Alemanha, 5 estações, 6.000 receptores, um para cada
8.000 habitantes e no Japão, 3 estações, 4.444 receptores, um para cada 21.000 habitantes.
Naquele ano, estavam sendo montadas e experimentadas estações de transmissão de TV na
Argentina, Dinamarca, Itália, Países Baixos, Polônia, Suíça, Tailândia, Turquia, Áustria, Bélgica,
Tchecoslováquia, Espanha, Suécia e Iugoslávia. Hoje, países menos desenvolvidos possuem ou
se propõem a organizar emissões de TV, enquanto o progresso técnico vai permitindo, ampliar o
raio de transmissão, me smo sem exigência de postos retransmissores.
Uma das mais debatidas questões no campo da TV e que interessa sobretudo ao nosso
estudo é a do número de horas consagradas diàriamente ou semanalmente às emissões e do
tempo nelas dedicado às informações jornalísticas. Tanto por motivos econômicos como por
técnicos e sociais, o número de horas de funcionamento das tele -emissora é reduzido: na
Inglaterra e na França, a duração média semanal é de 32 horas, enquanto nos Estados Unidos,
diàriamente, é de 15 horas. Neste último país, onde a TV é mais popular, a maior parte das
estações difundem um resumo de notícias pelo menos quatro vêzes por dia. Os métodos de
apresentação variam muito, mas em geral, vê-se sôbre o écran um narrador, que ilustra com
filmes e vistas fixas a sua descrição das últimas notícias. Os filmes utilizados são produzidos
especialmente, uma vez que uma convenção realizada proibiu a exibição das atualidades
cinematográficas na TV, criando-se, dêsse modo, uma nova indústria: — a tele-cinematográfica,
que produz, inclusive, filmes próprios de enrêdo, já que sòmente cinco anos depois de lançadas
é que as super-produções poderão ser retransmitidas no vídeo. Entre as produtoras norteamericanas de tele -atualidades filmadas figuram a United Press-Movietone Television News,
fundada em 1951; a Telenews Production Incorporated, filial da INS, fornecendo um jornal diário
de oito minutos e dois semanários,um dos quais sòmente sobre fatos esportivos e os serviços
próprios da NBC e CBS, que favorecem diversas emissoras menores com cópias das suas
atualidades.
Enquetes realizadas entre 1951 e 1952 em New York dão, apenas, 12,5 % e 13,4 % às
emissões de caráter informativo (noticiário geral, previsões meteorológicas, questões de
interêsse púb lico, religião) ; 6,3 % e 6,9 aos programas desportivos e 2,4% e 4,2% à
apresentação e entrevistas de personalidades.29 Os índices de popularidade dêsses programas,
em 1952,- eram os seguintes: informação e atualidades, 4,2; esportes, 11,2; e entrevistas, 5,0. A
média de uso domiciliar de receptores de televisão era, então, de 83 minutos por dia, enquanto o
público dedicava ao rádio 124 minutos, aos jornais 38 minutos e às revistas, 16 minutos.30
Na França, numa iniciativa da UNESCO e da Radiodifusão e Televisão Francesa, foram
realizadas, de janeiro a março de 1954, emissões experimentais visando analisar as
possibilidades culturais da TV e a sua influência sôbre a conduta dos telespectadores frente a
determinados temas. Treze programas sôbre a modernização do trabalho rural e suas condições
técnicas, econômicas, sociais e humanas — produzidos por Roger Louis, com uma equipe de
especialistas — foram transmitidos, juntamente com apresentações de “musie -hali”, circo,
documentários, teatro, leitura de livros, cinema, entrevistas, noticiário e reportagens diversas, O
campo de observação dos resultados foi a região do Aisne, onde foram selecionados quinze tele clubes31 com assistentes de diferentes graus de educação, profissões diversas, de ambos os
sexos e idades variadas. O número de indivíduos interrogados e cujas reações foram registradas
variou entre 225 e 231, segundo as questões formuladas. Essa experiência ofereceu os
seguintes resultados: salvo os programas de “music-hall” e circo, que obtiveram maior
percentagem de aprovação, 90 por cento do público acompanhou com interêsse e aplaudiu o
jornal televisado; 60 por cento as reportagens retrospectivas; 55 por cento os “magazines” de
exploradores e 45 por cento as reportagens atuais, focalizando fábricas, aeroportos, etc.
Como meio de informação primário, isto é, veículo de transmissão das primeiras notícias
sôbre um dado acontecimento, a TV leva vantagem sôbre o jo rnal e o rádio, bem como sôbre o
cinema de atualidades. Tanto realizando coberturas diretas como utilizando processos rápidos
de produção de filmes para apresentação num período mínimo de tempo, mediante dispositivo
especial que permite sejam os negativos projetados no écran dos receptores em positivo,, a TV
expressa, hoje, o mais rápido meio de difusão criado pelo engenho humano. Combinando os
métodos tradicionais da imprensa, do rádio e do cinema, utilizando o pessoal técnico e
profissional dêsses outros veículos (jornalistas, locutores, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas),
a TV possui, entretanto, técnicas próprias. “As reportagens televisadas permitem ,ao público
seguir melhor do que por qualquer outro meio de informação os acontecimentos que lhe são
apresentados sob uma forma auditiva e visual ao mesmo tempo. A câmara eletrônica apresenta
certos caracteres — vantagens e inconveniêntes — que não existem na câmara cinematográfica
e que tornam necessária a especialização dos “cameramen” e realizadores.32 Essa técnica
exige, igualmente, jornalistas especializados, tele-repórteres e tele -comentaristas.33 Por outro
lado, dadas as suas limitações naturais de alcance, de tempo de emissão destinado às matérias
jornalísticas, de impossibilidade (atual) de gravação da imagem televisada34 e pela relativamente
UNESCO — La Télevision dans te monde — Paris, 1954 — pág. 79.
Conf. Anuário do Rádio — P.N. — Rio, 1954 — pág. 26.
31 Trata-se de associações para recepção coletiva das emissões de TV, organizadas freqüentemente por iniciativa
da escola em localidades do “hinterland”, mediante a aquisição de um televisor de 1 m. x 1 m. 20, por subscrição
pública, diante da qual se reunem os sócios para assistir os programas duas ou três noites por semana. Em 10
departamentos franceses, funcionavam regularmente, em 1954, cêrca de 180 tele-clubes. Previa-se que, em 1955,
17 milhões de franceses poderiam receber as emissões de TV, caso o desejassem. Sôbre o assunto, inclusive os
resultados completos da experiência referida, v. J. Dumazedier — Televisíón y Educación – UNESCO – Paris, 1956
32 UNESCO — Obra cit. — pág. 23.
33 Quando das primeiras emissões esportivas da TV no Rio, tivemos oportunidade de observar que os
telespectadores não se conformavam com as “descrições” dos locutores, preferindo ver a imagem no écran dos
receptores e escutar a reportagem transmitida pelas estações de rádio.
34 A propósito, publicou o Anuário do Rádio, editado por P. N., Rio, em 1954, o seguinte (pág. 26): TV EM
CONSERVA — O principio básico da televisão em fita magnética é o registro dos impulsos elétricos resultantes da
29
30
escassa quantidade de emissoras e receptores existentes no mundo, a TV não faz desaparecer
nem substitui com plena eficiência. aos demais veículos jornalísticos. Vem provocando, isto sim,
uma salutar evolução na natureza e estilo da imprensa, do rádio e do cinema, no sentido de darlhes maior profundidade e maior conteúdo interpretativo.
A primeira emissora de televisão brasileira instalada foi a TV Tupi, em Sumaré, São
Paulo, inaugurada oficialmente a 18 de setembro de 1950. Pertence ao grupo brasileiro dos
“Diários e Rádios Associados” e seus recursos financeiros provêm da publicidade. Pelo mesmo
grupo, foram montadas posteriormente emissoras de TV no Rio e em Belo Horizonte, enquanto
que outras sociedades (Rádio Record S.A. Emissoras Unidas; Rádio Roquete Pinto, Rádio
Televisão Paulista, etc.) obtinham igualmente canais na Capital Federal e em São Paulo,
elevando-se a 9 o número de estações em funcionamento no país, em dezembro de 1958.
As normas de emissão e divisão de canais, que possibilitarão a montagem de 290
estações em 186 pontos do território nacional, exigências técnicas e providências legais foram
estipuladas por decreto governamental em 21 de novembro de 1952. O Brasil adotou a
“definição” de 525 linhas, que corresponde a 60 tramas e 30 imagens por segundo, em convênio
com a Comissão Federal de Telecomunicações dos Estados Unidos. As estações nacionais têm
alcance num raio de 180 quilômetros. Em Pernambuco, Recife, há concessão federal para a
instalação de duas emissoras de TV, uma que será explorada pelos “Diários e Rádios
Associados” e outra pela “Emprêsa Jornal do Comércio S.A.”. Ambas estão tomando
providências preliminares de construção dos seus estúdios e antenas, devendo entrar em
funcionamento por todo o ano de 1960.
CONCEITO DO JORNALISMO
Através dessas noções históricas, quisemos, apenas, situar o jornalismo como atividade
essencial à vida das coletividades, como uma instituição social que, no mundo moderno, assume
posição da mais alta relevância. Com efeito, os homens dos nossos dias “têm fome de conhecer
o presente.’ Para estar a par das idéias, eventos e situações correntes, procuram veículos muito
mais especializados e diversificados do que os seus ancestrais. Através de 45.000 ou mais
agências dos Correios dos Estados Unidos (para exemplificar com um país apaixonadamente
devoto das estatísticas) transita um número espantoso de cartas, publicações de negócios,
panfletos, catálogos e outras matérias impressas. Os homens de hoje são leitores de jornais.
Diàriamente, compram quase 46 milhões de exemplares de cêrca de 1.740 diários e, nos
domingos, quase 38 milhões. Semanalmente, adquirem 12 milhões de exemplares de
aproximadamente 10.000 semanários. Os leitores norte-americanos “devoram” 6.500
publicações especializadas periódicas, que atingem, anualmente, a várias centenas de milhões
exemplares; ouvem mais de 800 estações de rádio, através mais de 57 milhões de receptores;
freqüentam, em mais 17.000 teatros, com capacidade excedente de 10 milhões de cadeiras, as
exibições cinematográficas, sendo calculados em milhões, semanalmente, os espectadores.35
decomposição da imagem em corrente magnética. Depois, é o mesmo aplicado à entrada dos receptores de
televisão e a pessoa terá um programa completo de TV. Assim, não tardará muito, teremos a televisão em conserva,
à semelhança da música gravada.” E outra não foi a previsão do General David Sarnoff, presidente do Conselho de
Diretores da RCA, no discurso com que celebrou o cinqüentenário dos seus estudos no campo da eletrônica
(resumo em “Seleções do Reader’s Digest”, edição brasileira, junho de 1957 — pág. 27) : “Talvez dentro de cinco
anos, os telespectadores estejam aptos a gravar programas — figuras e som em prêto e branco e em côres — em
uma fita magnética para tornarem a vê-los quando quiserem. Êsse artifício baseia-se no fato de as variações de luz,
tal e qual as do som, poderem ser transformadas em variações de magnetismo na fita. Já experimentamos esta
técnica e creio que e instrumento utilizado virá a ser aproximadamente do tamanho de um dos atuais televisores
domésticos e não mais complicado. Imagino grandes bibliotecas de óperas, peças teatrais e outras coisas de
interêsse permanente, hàbilmente gravadas e difundidas. Também será de uso generalizado uma câmara de
filmagem de TV para tirar filmes que possam ser exibidos no televisor de casa.”
35 Conf. Wolseley & Campbell – Exploring Journalism – New York , 1943 – págs. 4 – 5.
Essa multiplicidade das manifestações do jornalismo nossos dias é que torna complexa
a sua definição. Conhecemos numerosos conceitos de jornalismo, uns objetivos, outros literários,
alguns positivos e outros puramente retóricos. Da nossa parte, procuramos fixar um conceito
simples, mas que inclui as características fundamentais do periodismo. Diremos, primeiro, que
fazer jornalismo é informar. Jornalismo é antes de tudo informação, costumava repetir aos meus
ouvidos de “foca” êsse mestre da imprensa brasileira que é Anibal Fernandes36. Informação,
bem entendido, de fatos atuais, correntes, que me reçam o interêsse público, porque informar
sôbre fatos passaS dos é fazer história e o jornalismo, como o assinala Rafael Mamar, “é a
história que passa”. 37
Mas “não é função da imprensa” (compreendida como jornalismo) informar ligeira e
frivolamente sôbre os fatos que acontecem ou censurá-los com maior soma de afeto ou adesão.
Toca à imprensa elogiar, explicar, ensinar, guiar, dirigir; toca-lhe examinar os conflitos e não
agravá-los com um juízo apaixonado; não encaminhá-los com alarde de adesão talvez
extemporâneo; toca-lhe, enfim, propor soluções, amadurecê-las, torná-las fáceis, submetê-las à
censura, reformá-las; toca-lhe estabelecer e fundamentar ensinamentos, se pretende que o pais
a respeite, e que, conforme os seus serviços e merecimentos, a proteja e honre.”38 Assim, os
fatos correntes expostos pelo jornalismo têm de ser devidamente interpretados, porquanto
“informação, orientação e direção são atributos essenciais do periodismo, que não pode ser
substituído nem sequer momentâneamente por nenhum outro agente cultural nesta tarefa junto à
sociedade.”39 Daí porque a obra jornalística se realiza dia a dia, porque os fatos, devidamente
interpretados, têm de ser transmitidos periòdicamente não ao indivíduo isolado mas a um
conjunto ou à totalidade dos homens que vivem em sociedade.
Exercendo-se pela difusão de conhecimentos, utilizando todos os recursos da técnica
disponíveis ao seu desenvolvimento, o jornalismo “tem por objeto informar e orientar a opinião,
censurar e sancionar as ações públicas dos habitantes de uma região e divulgar a cultura entre a
população de um país”, como o consideraram com precisão os jornalistas cubanos reunidos, em
1941, no seu Primeiro Congresso Nacional em Havana40. Todo êsse trabalho tem,
evidentemente, uma função educativa, visando esclarecer a opinião pública para que sinta e aja
com discernimento, buscando o progresso, a paz e a ordem da comunidade. Em outras palavras,
a finalidade do jornalismo é a promoção do bem comum.
Chegamos, então, pelo estudo das origens e evolução e pela análise sumária dos
elementos característicos e constitutivos do jornalismo, a uma definição que nos permitirá
desenvolver melhor os nossos estudos, a seguir: Jornalismo é a informação de fatos correntes,
devidamente interpretados e transmitidos periôdicamente à sociedade, com o objetivo de difundir
conhecimentos e orientar a opinião pública, no sentido de promover o bem comum.
Anibal (Gonçalves) Fernandes, jornalista e professor de Língua e Literatura Portuguesa no Colégio Estadual de
Pernambuco. Iniciando a sua vida profissional na segunda década do século, exerceu ativamente exerceu
ativamente o jornalismo em quase todos os órgãos da imprensa recifense. Editorialista e comentarista emérito, dono
de um estilo ágil e vibrante, os artigos e crônicas da sua lavra são acompanhados com o mais vivo interêsse pelo
seu vasto circulo de leitores. Aposentado em 1955, no exercício do cargo de diretor do “Diário de Pernambuco” —
de cujo corpo redacional fêz por mais de 30 anos continua entretanto a escrever diàriamente jornais e estações
rádio emissoras de Pernambuco.
37 Rafael Minar — El arte dei periodista — Barcelona, 1906 — pág 17.
38 José Martini in Vida y Pensamiento de Marti – La Habana, 1942.
39 Octávio de La Saurée – Moraletica Del Periodismo – La Habana, 1946 – pag. 195.
40
Coni. Suarée — Obra cit. — pág. 183.
36
SEGUNDA PARTE
OS CARACTERES DO JORNALISMO
Contém:
DA ATUALIDADE
Jornalismo e História
Atualidade e Atualização
Atualidade e Permanência
Manifestações da Atualidade
DA VARIEDADE
Variedade e Especialização Jornalismo Geral e Especializado
DA INTERPRETAÇÃO
Interpretação e Seleção
Interpretação e Vocação
Extensividade e Intensividad e
DA PERIODICIDADE
Através da História Nos Tempos Modernos
DA POPULARIDADE
Extensão da Popularidade
Popularidade e Liberdade
Condições da Popularidade
DA PROMOÇÃO
Jornalismo e Sociedade
As Campanhas Jornalísticas eo Bem Comum
Jornalismo e Direito
Jornalismo e Opinião
Os caracteres fundamentais do jornalismo, aquêles atributos que o distinguem das
demais manifestações da atividade e do engenho humano, estão configurados na definição a
que chegamos. Com efeito, dissemos que jornalismo era a informação de fatos correntes, de
acontecimentos registrados em qualquer setor da vida social, em qualquer parte do universo, em
qualquer domínio das ciências, das artes, da natureza e do espírito, que sejam capazes de
despertar o interêsse dos homens reunidos em sociedade. E neste primeiro enunciado estão
duas das características do jornalismo: — a atualidade e a variedade.
Todavia, os fatos não são expostos sem um prévio exame por parte do agente do
jornalismo, a quem compete julgar da sua importância, analisá-los ou sintetizá-los, dêles colher e
divulgar ensinamentos, enriquecê-los ou censurá-los, de modo que cheguem ao leitor
devidamente interpretados. E aí está outro atributo do jornalismo: — interpretação.
Além disso, a obra jornalística é constante, realiza-se praticamente dia a dia, hora a
hora, na proporção em que os fatos se sucedem. Mesmo quando, sob determinada modalidade,
por exigência da técnica, o jornalismo amplia os prazos das suas manifestações, estas
obedecem sempre a uma periodicidade regular, que lhe é exigida pela comunidade a quese
destina, sob pena de não atingir os seus objetivos: a difusão sistemática de conhecimentos e a
sistemática orientação da opinião pública.
Ademais, tendo em vista que o jornalismo não se dirige a um indivíduo isolado e sim à
coletividade, essas manifestações se revestem de forma ou estilo simples, acessível à com
preensão do maior número do todo. A êsse elemento constitutivo da obra periodística se dá o
nome de popularidade.
Finalmente, observamos que, através da divulgação de informações e da crítica dos
fatos, o jornalismo pretende criar, na opinião pública, uma disposição para realizar o bem-estar
social. Não sendo uma fôrça executiva e nem sequer elaborando leis, o jornalismo se constitui,
entretanto, numa espécie de fonte de energia, que impele a sociedade à ação. Daí o caráter de
promoção, inerente a tôdas as suas manifestações autênticas.
DA ATUALIDADE
A atualidade é a característica dominante do jornalismo. Unicamente dêle. Essencial a
tôdas as suas manifestações. O jornalismo vive do quotidiano, do presente, do efêmero,
procurando nêle penetrar a dêle extrair o que há de básico, fundamental e perene, mesmo que
essa perenidade valha, apénas, por alguns dias ou por algumas horas. “A densidade dramática
do jornalismo está precisamente em captar êsse S.O.S. que as coisas, os seres, os
acontecimentos lançam a cada momento. O jornalismo capta, de passagem, essa despedida e
fixa-a em instantâneos que por sua vez serão esquecidos... faz o retrato instantâneo do minuto,
da atualidade em sentido filosôficamente errado (pois em sã filosofia o atual é o eterno e não o
temporal, e em jornalismo ou na linguagem corrente, a atualidade é o que passa, o momento
presente, desligado do passado e do futuro), mas estèticamente certo por ser o sentido corrente
e popular da expressão.”41
Jornalismo e História — “A atualidade é o presente, o que ocorre sôbre a marcha do
tempo, o que sucede “atualmente” ou o que, havendo sucedido, atua sôbre a consciência do
hoje. O anterior pertence à História, não ao Jornalismo que, por essência, vive sôbre o momento,
informando sõbre o presente e fixando-o para o futuro”42. Ao contrário da História, o jornalismo
“recolhe e espalha os acontecimentos vivos e quentes”, enquanto aquela “os escoima, interpreta
e concatena, frios e decantados”. Há quem sustente que jornalismo e história se confundiram,
41
42
Tristão de Ataide — O jornalismo como gênero literário in Diario de Notícias, Rio — cd. de 10 de nor. 1957.
Ismael Herraiz — El Periodismo — Teória y Práctica — Barcelona, 1953 — pág. 21.
“enquanto a informação não possuia meios adequados de projetar os fatos presentes, limitandose aos novos, isto é, aos que, embora velhos de semanas e meses, ainda se mantinham
irrevelados”. Preferimos, no entanto, pensar com Barbey d’Aurevilly, que o jornalismo é que
prepara o lastro para a história, e com ela jamais se confundiu ou confunde, porque “quando ela
começa, êle já terminou. 43” Com efeito, “a história que conhecemos menos é geralmente aquela
que precede de perto a nossa experiência pessoal. Dos acontecimentos de que fomos
contemporâneos, podemos guardar impressão mais ou menos exata, mas indelével nos seus
contornos acentuados. Dos que já têm por si a perspectiva do tempo, vamos tomar
conhecimento, melhor por vêzes do que seus contemporâneos, nas páginas dos historiadores.
Mas daqueles que ficam entre uns e outros, nem tão próximos para os termos na retina, nem tão
remotos para figurarem nos livros, possuimos em regra um conhecimento difuso e superficial.
Pairam entre duas águas, sem beneficiar-se das nossas impressões diretas nem dos estudos
críticos... Essa zona de nebulosidade, aliás, se desloca à medida que as gerações
avançam44”.Quando o jornalismo se vai estratificando, faz-se fonte principal da história. Na fase
da informação epistolar, das publicações manuscritas, das crônicas, a preocupação dos seus
autores era a de captar e divulgar, com sabor de novidade, feitos e fatos que, embora ocorridos
dias, semana ou meses antes, eram desconhecidos da coletividade a que se destinavam. “Os
redatores de escritos, trabalhando com êsses fatos, não podiam e não pretendiam fazer história.
Daí serem antes jornalistas do que outra coisa”— assevera Carlos Rizzini e cita exemplos de
cronistas famosos, tais como Villehardouin, autor da notícia da tomada de Constantinopla pelos
cruzados, no século XII; Froissart, autor das “Chroniques”, virando cidades sem conta e tratando
com duzentos príncipes “para transmitir e ouvir novidades” e até Marco Polo , cuja narrativa
pitoresca e floreada considera como um jornalismo de aventura, semelhante ao que hoje tanto
agrada ao público. Sôbre êsses “jornalistas sem jornal”, pode-se estender o conceito que, a
respeito de Villehardouin, fazia Villemain, no seu “Cours de Litterature Française”: “não é
historiador, é um homem que diz as coisas que fêz e que viu, na linguagem mais simples, como
as fêz, como as viu.45”“ Ao contrário dos autores de diários e memórias, que registram os
acontecimentos para uma eventual consulta da posteridade, êsses primitivos jornalistas
recolhiam sucessos com o fim de transmiti-los incontinente ao público. Eram, sem nenhuma dúvida, autênticos repórteres. E ao falar dêles, não devemos esquecer Pero Vaz de Caminha, o
escrivão da Armada de Cabral, cuja carta ao Rei Venturoso foi a primeira obra jornalística escrita
no Brasil, a primeira e sensacional reportagem redigida em terras do Cruzeiro do Sul. A carta de
Caminha estava prenhe de atualidade, quando registrava os detalhes da travessia, da
descoberta da terra, da sua paisagem, dos seus habitantes; uma atualidade que permaneceria
até que fôsse conhecida de dom Manuel, da côrte portuguêsa, dos parentes e amigos dos
marujos do Descobridor, de todos os navegantes que haviam singrado ou pretendiam singrar o
grande oceano desconhecido, dos reis conquistadores, dos piratas e aventureiros, dos
missionários do século XVI, do Santo Padre o Papa — autoridade máxima do mundo que, mais
tarde, iria ser chamado a dividir entre Portugal e Espanha as terras de que Caminha e outros
escrivães doutras Armadas deram conta à humanidade de então.
Atualidade e Atualização — Pelo que ficou exposto, notadamente pelo exemplo da
carta de Caminha, constatamos que a atualidade abrange “não tanto o que ocorre no tempo
presente, como a oportunidade, conjuntura ou ocasião propícia ou favorável para fazer ou dizer
alguma coisa”; que não se compõe apenas “dos fatos que sucedem em um determinado lapso,
mas também da consciência pública presente nesse tempo. Não basta que os periódicos contem
Conforme Carlos Rizzini— Obra cit., págs. 31-32.
Alceu Amoroso Lima — O espírito e o mundo, Rio, 1946 — pág. 95.
45 Com Carlos Rizzini — Obra cit. págs. 32-33.
43
44
o que ocorre para servir à atualidade. “Atual” é rigorosamente o que “atua” em nós, o que de
potência se converte em “ato”. Mas o ato não se produz espontâneamente, porém como têrmo
ou etapa de um processo lógico, ainda que se nos oculte a sua lei. O que acontece “hoje” —
êsse “falemos de hoje” que impõe como tema de conversação jornalística a atualidade — tem
raízes no que sucedeu “ontem” e é, por sua vez, germe do que sobre - virá “amanhã”. Por isso, o
vazio da atualidade, o que não ocorre, também é atualidade, também é notícia” 46. Como que
num paradoxo, vemos o “velho” revestir-se de atualidade. E, realmente, o jo rnalismo está a cada
instante valendo-se do passado, não apenas quando se faz doutrinário ou opinativo, mas,
também, quando informa. É êsse um dos matizes da atualidade: a reapresentação de fatos
relacionados com a situação presente, O registro de uma data histórica, por exemplo, “atualiza”
acontecimento que a marcou; o falecimento de uma personalidade, provoca a informação
retrospectiva da sua vida e das suas realizações; a descoberta ou julgamento de um criminoso
“revive” o crime praticado e até outros análogos; a realização de um “clássico” desportivo põe em
relêvo “matchs” anteriores de importância idêntica.
Atualidade e Permanência — Exatamente êsse aspecto da atualidade jornalística, que
concilia o presente com o passado e até com o futuro, é que assegura ao jornalismo um caráter
de permanência, que tem escapado, geralmente, àqueles que se deixam impressionar pelo fato
de basear-se, a obra periodística, nos fatos correntes, sujeitos a um rápido fenecer. “O
jornalismo desperta o preconceito do quotidiano, do efêmero. O que acontece, porém, é que
essa transitoriedade s limita à parte material, que serve de veículo à notícia. Aquêle pedaço de
papel com fôlhas sôltas, que é substituido, no dia seguinte, por outro pedaço de papel mais
atualizado faz com que todos liguem o que está escrito à matéria que difunde, e dêem ao sentido
das palavras a vida breve que caracteriza o jornal tomo papel que é rasgado e jogado fora47”.
Mas o jornalismo — como adverte Suarée — não é obra de um dia mas do dia, de dias, isto é,
de sempre. Lembra êle que os artigos “não são efêmeros por tratar de assuntos da atualidade, já
que da atualidade foram as Felípicas e as Catilinárias e ainda desafiam os séculos; as
Provinciais de Pascal são artigos de polêmica que se publicaram em fôlhas sôltas e que já vão
ao caminho de viver trezentos e tantos anos. Artigos de jornal foram as cartas de Junius e os
célebres panfletos de Courrier. A mais pura atualidade inspirou a Victor Hugo Les Châtiments e
L’Année Terrible. Na mesa de uma redação escreveu Saint Victor os artigos de “Homens e
Deuses”, Hipólito Taine a maior parte dos seus Ensaios de Crítica e História e Chateaubriand as
suas concepções mais brilhantes”. Entre nós, poderíamos citar como demonstrações
insofismáveis da permanência do trabalho jornalístico a reportagem de Euclides da Cunha,
correspondente em Canudos, consubstanciada nas páginas da magistral obra literária e
sociológica em que se constituem Os Sertões; a Réplica e a maior parte do legado magnífico de
Rui Barbosa; os Sermões do padre Vieira, padrão inconfundível do jornalismo oral, em que o
atual e o eterno se confrontam, se confundem, se combinam para construir o monumento que aí
está, sobrepondo-se à voragem do tempo. “O que está nas palavras independe do veículo que o
divulg a e pode ser obra de permanência. Não é pelo fato de ter feitio material conservável e
guardável que um livro pode aspirar a essa permanência. Aí também temos de retroceder ao que
a obra tenha de vivo, jovem, humano, pungente, lírico. No caso do jornal, é preciso que a
transitoriedade do corpo não atinja a desejada solidez do sentido... O jornal é exatamente uma
contínua luta pela fixação da realidade, uma tentativa de captar nos acontecimentos quotidianos,
algumas verdades particulares e permanentes da vida do homem.48” Diríamos, pois, que o
efêmero da obra jornalística reside mais na forma do que no fundo. “É efêmera a forma, a
Horacio Hernandez A. — EI periodismo — Valparaiso, 1949, pág.10, e Ismael Herraiz — Obra cit., pág. 23.
Antônio Olinto, — Jornalismo e literatura — Rio, 1955 — pág. 6
48 Antônio Olinto — Obra cit. — pág. 7.
46
47
exterioridade, o envoltório; a página que se escreve um dia e que, salvo algum caso singular,
morreu e dissipou-se no dia seguinte. Mas a influência, a sugestão que ficam dêsses esforços
aparentemente perdidos e esquecidos constituem uma ação persistente e eficaz como nenhuma,
que convence, que apaixona, que destrói, que reedifica; que forma, em uma palavra, a
consciência dos povos49.” Tomemos o jornal, como veículo principal da moderna obra
periodística, e que morre ao cabo de algumas horas de circulação. Para uns, aquilo que informa
e aquilo que opina são a verdade e o mandamento. A frase “o jornal disse” equivale ao “estava
escrito” dos islamitas, a quase um dogma de fé. Para outros, é um amontoado de falsidades, de
boatos alarmantes, de conceitos injuriosos, de opiniões intencionais, que se lê apenas para
verificar até que ponto chegam a venalidade, o despudor e a mentira, revestidos de gravidade e
dogmatismo. Mas seja qual fôr a idéia que o leitor faça do jornal, no seu espírito fica “um
princípio de ação muito débil ou oculto no comêço que, com o tempo, recebendo sugestões
análogas, se fortalece, adquire consistência e dá sinais de vida exuberante.” Cada edição que se
lança às ruas, como criação do dia, como obra literária, como esfôrço de uma equipe, envelhece
ao surgir outra edição e outro dia; porém, na verdade, “subsiste, acaso de um modo vago e
impalpável, debaixo de outras aparências, cujo número não se poderia precisar, enxertado ora
no modo de pensar coletivo, como elemento que contribui para formar a Opinião Pública, ora de
uma maneira mais sensível, nas realizações da vida social, algumas das quais só se tornam
possíveis graças à ação firme e incansável do jornalista. 50”
Manifestações da Atualidade — Como veículo jornalístico, a imprensa, o rádio, a TV e
o cinema têm de manter uma perpétua vigilância sôbre a seqüência dos fatos; são espelhos que
não podem deixar de reproduzir aquilo que lhes passe frente à polida superfície. E, como os
espelhos, também substituem a cada momento as reproduções, jamais repetindo exatamente as
imagens ou estratificando-as como se fôssem placas sensibilizadas de negativos fotográficos. O
jornalismo está jungido à atualidade como Prometeu ao seu rochedo e os acontecimentos que se
sucedem são outros tantos abutres a devorar as inextinguíveis entranhas daquele que transmite
à humanidade o fogo vitalizante do conhecimento. A atualidade é assim, o limite do jornalismo
que, se foge à pias ocorrências novas, previsíveis ou ainda vivas na memó ria das gentes, corre
o risco de tornar-se em uma estrutura histórica sem calor e sem ímpeto. Daí decorre que o
jornalismo, quanto à atualidade, é imediato, quando se ocupa de fatos correntes, capazes de
impressionar, atingir instantâneamente a consciência coletiva, e é mediato, quando concilia ou
relaciona o presente com acontecimentos passados ou futuros, atualizando-os ou prevendo-os.
DA VARIEDADE
O jornalismo, em qualquer das suas manifestações, busca satisfazer a três
necessidades do espírito humano, integrado na vida social, a saber: l°) — informar-se do novo,
do imprevisto, do original e, através dêle ou por causa dêle, recordar-se do passado, do já
sabido, do quase perdido nos arcanos da memória; 2°) — receber uma mensagem de
advertência ou orientação, isto é, alertar-se para o futuro, para a ação; 3°) — entreter-se,
descansar das preocupações no “humour”, na ficção, na poesia, nas belas letras, na arte. Daí a
extensão do campo jornalístico a todos os quadrantes da atividade humana, a todos os seres, às
coisas e à natureza, a todos os domínios da inteligência e da sensibilidade. Os fatos em que se
baseia a obra jornalística, aquêles que, por suas características ou pelo seu conteúdo,
despertam o interêsse humano ou a atenção das massas, não são de exclusividade de um
determinado setor, de uma única pessoa, de um agrupamento, de uma classe ou de um país;
49
50
José Enrique Rodo — El Mirador de Prospero — Valência — 1919 — pág. 204.
Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 9.
para transformar êstes fatos em notícias, em mensagens ou em entretenimento, há que o
jornalista colhê-los onde quer que se registrem, porque o jornalismo deve ser a mais completa
síntese de tudo quanto interessa e reclama o organismo social. “É para isso que o jornalista tem
de estar a par das coisas, estar bem informado para poder informar. É para isso que êle tem de
viver no meio dos acontecimentos, em pleno fluxo vital. Se o poeta ou o romancista, o teatrólogo,
o biografista, podem ou mesmo devem trabalhar na solidão, no arredamento dos fatos, pois a
participação nestes pertuba, provàvelmente, a sua visão mais profunda (e nesse período a
impassibilidade e Leconte de l´Isle ou a imparticipação de Flaubert eram perfeitamente
justificáveis) o jornalista, ao contrário, só deve trabalhar dentro deles. É nadando que me lhor
poderá informar sôbre as ondas51.” A essa universalidade de aspectos, a essa multiplicidade de
setores, de objetivos, de temas, é que se dá o nome variedade.
Variedade e Especialização — Foi êsse atributo do jornalismo que exigiu, nos tempos
modernos, a criação da figura do jornalista especializado, introduzindo, ao mesmo tempo, nas
tarefas periodísticas, a divisão do trabalho, figura e método que eram desconhecidos até épocas
recentes. Logo após a descoberta da imprensa e, ainda, no século passado — prática que
persiste na maior parte das no ssas comunas interioranas — o jornalista era o repórter, o redator,
o comentarista, o paginador e, não raro, o tipógrafo. Exigia-se que entendesse de tudo, estivesse
informado de tudo, opinasse sôbre tudo e jamais cometesse erros. Já no século XVII,
Theophraste Renaudot defendia o seu jornal, considerado o primeiro hebdomadário francês, o
“periódico dos reis e dos poderosos da terra”, como êle mesmo o definiu, da crítica da
informação apressada e incorreta, escrevendo: “Surpreender-me-ei muito se os mais severos
censores não encontrarem digna de alguma excusa uma obra que tem de fazer-se nas quatro
horas que a chegada dos correios me deixa tôdas as semanas para escrever, ajustar e imprimir
estas linhas”. E, noutra parte, acrescentava: “A história é o relato das coisas ocorridas; a
“Gazeta” é unicamente o eco que corre sôbre elas. A primeira está obrigada a dizer sempre a.
verdade; a segunda, bastante faz se consegue não mentir. 52” É que Renaudot estava sujeito a
precários meios de informação, dando conta aos seus leitores de fatos chegados ao seu
conhecimento por viajantes de diligências vindos de alguns pontos mais ou menos longínquos da
França e do estrangeiro. “A imprensa daquela época, de vez que tratava de atender aos seus
compromissos oficiais com o poder, levava, pela natureza das circunstâncias, um ritmo lento,
uma exigência lânguida. Não era possível viver ao compasso dos sucessos, mas retardado de
semanas e postas se era, por sua vez, impressor, tinha assegura a exclusividade, mas a
distância geográfica estava ali, levantava como urna barreira para ser batida sòmente de longe
em longe pelos viajantes, alguma vez por um emissário extraordinário, porém mais regularmente
por cartas ou comunicações, que iam parar, sem perda de tempo, nas oficinas de impressão...
No jornal primitivo, o grande antepassado dos atuais, não havia seções pròpriamente ditas,
como as que podemos agora observar nas colunas dos diários. Dava-se o mais estranho
conúbio entre notícias, informações, avisos ou comentários, que nada tinham em comum. A
técnica tinha avançado muito pouco no século XVI para fazer estas distinções.53”
Sòmente em 1836, com a introdução do jornalismo de informação e da publicidade, por
Émile de Girardin, no seu La Presse, surgem as seções por temas: “Mundo Militar”, “Mundo
Teatral”, etc., o que fêz um dos seus redatores exclamar: “Que chefe! Deus criou o mundo em 6
dias. Mais poderoso do que êle, Girardin criou os “mundos” em um só dia !“
Foram, assim, o desenvolvimento das comunicações, a facilidade de receber e transmitir
informações, a crescente fome de notícias das comunidades civilizadas, a busca da perfeição no
Tristão de Ataíde — O joalismo como gênero literário ia Diário de Notícias, Rio, ed. 10 — nov. 1957.
Cit. por George Weiil — El Diário — México, 1941 — pag. 29.
53 Horacio Hernandez A. — Obra cit. — págs. 44 e 42.
51
52
jornalismo, evitando-se, na medida do possível, erros e omissões — que impuseram a
especialização do jornalista, retirando-lhe a obrigatoriedade de ser enciclopédico; a divisão do
trabalho nas redações, facilitando e aperfeiçoando a execução das tarefas e, finalmente, o
surgimento de publicações especializadas e de seleções com o intuito de manter o homem bem
informado. Porque a dificuldade, hoje, de estar em dia com os fatos não reside em que as
notícias sejam escassas, mas em que o seu volume é tão grande que se torna impossível ao
homem assimilá-las. “Hoje, a informação é universal e instantânea, a informação of tográfica
tende a vir a sê-lo54. As noticias chegam de tôda parte sem interrupção, graças ao progressos de
técnica. Há um teletipo que pode transmitir 600 palavras por minuto. As agências de informação
telegráfica enviam cada dia os jornais um considerável número de palavras. A agência France
Presse, uma das seis grandes agências mundiais de informação, recebe pelo menos, do
exterior, 100.00 palavras por dia, isto é, mais de uma palavra por segundo; ela distribui aos seus
clientes de Paris um serviço de aproximadamente 70.000 palavras por dia. Ora, numerosos são
os jornais que recebem simultâneamente o serviço de duas ou agências. Impõe-se, portanto, um
trabalho de seleção55.”
Reconheceu-se, então, que “não é prudente em cada jornalista a presunção de saber
tudo e entender de tudo. Menos ainda o é, em quem tenha de dirigir o trabalho jornalístico,
encarregar de tudo a todos. Para um caso de homem-orquestra, de um “faz tudo” que se possa
encontrar na profissão, haverá milhares e milhares que, na verdade, serão o contrário. Cada qual
serve mais e aproveita melhor em um gênero ou em uma matéria determinada e o talento de
quem dirige há de estar cabalmente nessa escolha56.” Variedade e especialização, nas
manifestações e na obra jornalística, não são, portanto, atributos contraditórios: antes,
completam-se para atender às finalidades a que se propõe o jornalismo.
Jornalismo Geral e Especializado — Considerando que o jornalismo deve ser a mais
completa síntese de tudo quanto interessa ou reclama o organismo social, abrangendo, por isso,
todos os setores da vida e do universo, há quem considere que as publicações e divulgações de
caráter profissional, artístico, literário, científico, político ou esportivo não são, senão,
“fragmentos do jornalismo 57”. O verdadeiro jornalismo seria exclusivamente o que abrangesse os
mais diversos e amplos setores, atendendo dêsse modo à demanda total do público. Em outras
palavras: o jornalismo geral, do qual já dizia Renaudot, definindo-o, num desabafo contra as
exigências dos leitores: “Os capitães querem encontrar todos os dias batalhas, levantamento de
sítios ou cidades tomadas; as litigantes ordens de prisão em casos semelhantes aos seus; as
pessoas devotas buscam os nomes dos pregadores e dos confessores de fama; os que nada
sabem dos mistérios da côrte, desejariam encontrá-los em grandes caracteres”58. Ocorre, porém,
que o jornalismo especializado, que se ocupa de temas, “problemas e fatos de interêsse de um
círculo mais limitado de pessoas, atende, ig ualmente, àquela demanda do público já observada
pelo criador do jornalismo francês, em 1631. E, talvez, com mais profundidade e repercussão no
organismo social, desde que se dirige a uma elite ou a um determinado grupo com maior
capacidade de apreensão e aplicação dos conhecimentos adquiridos pelas informações e pela
crítica nêle contidos. Êsse conflito de opiniões sôbre o maior ou menor conteúdo do jornalismo
geral e do especializado vem de longe: já o Dicionário da Academia Francesa, em 1684,
No dia 4 de novembro de 1958, data da coroação do Papa João XXIII, transportado por um quadrimotor da
BOAC, de propulsão e reação, foi levado de Londres e na mesma noite apresentado aos tele-espectadores norteamericanos, um filme-documentário das solenidades no Vaticano, rodado pela “United Presse Movietone”. No dia 5,
os cinemas das principais cidades do mundo, em todos os continentes, já apresentavam reportagens filmadas do
acontecimento, simultâneamente com as reportagens fotográficas dos jornais.
55 Rafael Mainar — Obra cit., pág. 158.
56 George Weill — Obra cít. — nota à pág. 28.
57 Jacques Raiser — Presse et Opinion in L’Opinion Publique — Paris, 1957 — págs. 229, 230.
58 Clemente Santamarina - Obra cit. – págs. 22-23
54
distinguia na palavra “jornal” duas acepções. A primeira “a relação do que passa dia por dia no
Parlamento ou em uma circunstância dada”; a segunda: “chama-se Journal des Savants a um
escrito que se publica toda semana, cada quinze dias ou cada mês, e que contém extrato dos
livros novos que se imprimem e o que ocorre de mais memorável na república das letras”.
Referia-se à imprensa literária, que surgira em 1665, sob os auspícios de Colbert, o qual
“amante dos livros e dos objetos de arte, amigo das ciências, defensor da razão contra os
magistrados que ainda queimavam feiticeiros, decidiu a publicação de um compêndio regular,
destinado a dirigir a vida intelectual, do mesmo modo que (através de La Gazette) se dirigia à
vida política do país 59”. Ao nosso ver, com a fixação científica dos caracteres do jornalismo, êsse
conflito perdeu o seu significado, servindo, apenas como tema de elocubrações e pesquisas de
estudiosos.
Rafael Mamar, referindo-se ao jornal, num conceito extensivo a qualquer veículo
periodístico, diz que nêle se narra “o que sucedeu, o que poderá suceder e até o que não
sucedeu; o que se pensou e o que não se pensou; é a impressão fotográfica da vida, com tôdas
as sombras e falsidades da fotografia, quando, pela objetiva, tudo passa em rapidíssimo, em
vertiginoso movimento.60” Ora, se o jornalismo abrange o que ocorreu e o que poderá ocorrer, o
que se pensou e o que se poderá pensar, nem sempre constitui um relato puro e simples, mas
se reveste, igualmente, do aspecto de uma exposição interpretada. “A mera informação, sem um
juízo que a valorize e a interprete, faria do jornalismo uma algaravia sem ordem nem consêrto e
deixaria ao leitor a pesada carga de buscar os “porquês” e “para quês” do que acontece.
Quantos leitores estão capacitados para êsse trabalho valorizador?
Ler por ler notícias, que por si mesmas nada dizem a quem ignora suas causas e
conseqüências, resulta, por outro lado, numa aborrecida tarefa. Mais do que saber o que se
passa, importa a Adão e Eva saber para onde vai o mundo. Mas responder a essa interrogação,
sômente o responde, dia a dia, o comentário escrito por profissional experiente e acostumado a
calcular o rumo provável.61” Porque a verdade está em que “um fato particular pode em si conter
a fôrça de uma série de acontecimentos. O suceder tem sua acentuação tônica, seu ponto alto,
sua essência que o artista (jornalista) identifica, seleciona, para fixar, depois, em palavras 62”. “O
que domina no jornalismo é o juízo a formar sôbre a pessoa ou a obra alheias... O elemento
julgamento e, portanto, exercício da inteligencia, do discernimento, da análise é que entra em
jogo.63” Diante do fato ocorrido, o jornalista terá de examinar a sua importância e caráter, o
interêsse que despertará, as repercussões da sua divulgação e, se informa sôbre êle, o simples
fato de destacá-lo e publicá-lo expressa o resultado de uma interpretação, que consiste no ato
de submeter os dados recolhidos a uma seleção crítica, transmitindo ao público, apenas, os que
são realmente significativos.
Ésse requisito do jornalismo decorre da variedade de temas, que acabamos de estudar.
“Não damos ao público apenas o que êle quer, mas também o que entendemos que não deve
deixar de ler”, afirmou para um jornalista português um dos diretores do Milwaukee Journal —
Lindsey Hoben. Torna-se, assim, necessário uma escolha de notícias, o que vale dizer uma
interpretação, um julgamento dos fatos por parte do jornalista, porque o homem não consegue
acompanhar o ritmo acelerado do mecanismo da transmissão de notícias e o tempo que lhe
sobra, hoje, para a leitura é mais ou menos o mesmo de antigamente. Dêsse modo, a
interpretação, sôbre ser característica do jornalismo, varia de intensidade para cada veículo. Se
na televisão, por exemplo, o agente tem de ser conciso e superficial, no jornal precisa de
desenvolver e pôr a trabalhar o seu senso crítico.
George Weill – Obra cit. – nota á pág. 28
Rafael Mainar – Obra cit. – pág. 17
61 Conf. Bartolomé Mostaza in El Periodismo – Barcelona,1953.
62 Antonio Olinto – Obra cit. – pág. 31.
63 Tristão de Ataíde – Ar t. Cit. In Diário de Notícias, Rio – ed. De 27-10-57.
59
60
Interpretação e Seleção — Diàriamente, na cobertura do nosso setor de trabalho, quer
como repórter quer como redator, temos em mãos um montão de ocorrências que se poderão
transformar em matéria jornalística. Selecioná-las, comentá-las, lançá-las ao público com maior
ou menor relêvo — são “funções básicas e gerais para tôdas as múltiplas variedades do trabalho
jornalístico e constituem a condição imprescindível de tôdas elas, a luz que as ilumina, o espírito
que as vivifica, o fogo que lhes empresta calor para excitar ou, quando menos, para interessar
ao leitor. Em acertar na interpretação do tema consiste o toque principal do jornalismo, “exigindo
o desenvolvimento de um critério especial, de um juízo jornalístico que se resume em submeter
o interêsse particular e transitório para obter a universalidade e considerar, nos fatos, o seu valor
permanente64. Ë que “na crescente complexidade da vida moderna, os fatos em si quase nunca
são diretamente inteligíveis para o grande público. A própria imagem, com todo o seu inegável
poder informativo, não pode esclarecer complicadas situações ou pôr em evidência o alcance de
importantes medidas. É à imprensa que compete a tarefa de interpretar os acontecimentos,
situá-los no conjunto dos problemas e prever--lhes as conseqüências possíveis65.”
A consagração do princípio da interpretação como básico do jornalismo está no lema de
um dos mais autorizados e completos jornais do mundo: o New York Times que, sob o título, faz
figurar a epígrafe: “All the news that’s fit to print”. (Tôdas as notícias próprias para publicar). E, no
cumprimento dêsse lema, recebe, diàriamente, nada menos de um milhão de palavras de
informações, vindas de todos os pontos do globo, através de 19 agências nacionais e
estrangeiras, cêrca de 100 correspondentes e de sucursais em todos os Estados norteamericanos. Pois bem, dêsse vultoso acervo de notícias, talvez nem um décimo seja diàriamente
transmitido ao leitor, pois a média do texto quotidiano é de 145.000 palavras, servindo o restante
tão sômente para manter os jornalistas bem informados e habilitados à interpretação dos
acontecimentos. Também nos Estados Unidos circula um jornal diário, que é um dos de mais
pêso na formação da opinião pública nacional — o Christian Science Monitor, de Boston, Mass.,
com cinco edições diárias destinadas às várias regiões do país e ao estrangeiro, que se
especializou na interpretação das notícias e, em lugar de um relato puro e simples dos
acontecimentos do dia, visa sempre apontar-lhe o significado para prevenir as conseqüências.
Assim, quando se ocupa de um crime, objetiva concorrer para a sua repressão e se descreve um
acidente busca despertar o interêsse público para medidas que assegurem a sua não repetição.
Interpretação e Vocação — A interpretação jornalística difere substancialmente da
histórica ou da filosófica porque está jungida ao presente, ao atual, ao positivo, requerendo não
sòmente bom senso, honestidade e imparcialidade, da parte do agente, como uma excepcional
aptidão para apreender o centro de interêsse, o ponto nevrálgico, o núcleo do fato ou da matéria
que se há de utilizar no trabalho. Essa aptidão de “tirar o essencial do acidental, o permanente
do corrente”, — que, ja se comparou à do caricaturista que logra a síntese com uns poucos
traços que têm a virtude de refletir um rosto — se bem que exija um lastro cultural e ético,
reclama sobretudo vocação para o ofício, e se vai desenvolvendo pela experiência. Tal como
acontece com o clínico que, mediante a prática, diagnostica o mal do paciente às vêzes pelo
simples olhar e, na maioria dos casos, mediante um exame sumário.
Nilo Pereira66 conta que, ainda universitário, ao ingressar na redação do “Jornal do
Comércio”, foi-lhe determinado pelo secretário da redação que escrevesse um comentário sôbre
as deficiências da pavimentação do Recife. Durante longos minutos, permaneceu de caneta em
Clemente Santamarina — Obra cit. — pág. 22.
Clemente Santamarina — Obra cit. — pág. 23.
66 Nilo Pereira, riograndense do norte, membro da Academia Pernambucana de Letras, professor da Universidade
do Recife, jornalista e escritor de pura estirpe. É redator-chefe da “Folha da Manha” e redator principal do “Jornal do
Comércio”, do Recife, assinando dois artigos diários. Tem publicado diversos estudos de história, crítica, sociologia
e discursos parlamentares.
64
65
punho, rascunhando, riscando, substituindo uma palavra aqui e outra ali, redigindo a nota com a
maior das dificuldades, a ponto de descrer consigo mesmo da sua capacidade para a profissão
em que, mais tarde, iria lograr tantos e tão merecidos louros. Enquanto isso, defronte da sua
mesa, um velho repórter de polícia enchia laudas e laudas, com extraordinária desenvoltura, o
que lhe causava a mais profunda admiração, visto que, intelectualmente, aquêle confrade não
poderia jamais com êle competir. Rubem Dano, durante a sua permanência no Chile, não pôde
acomodar-se ao trabalho jornalístico Rubem Dano — disse um contemporâneo seu — levava na
imprensa uma vida difícil. Seu engenho não enquadrava no regime. Necessitava liberdade,
poder voar livremente. Era triste dar-lhe uma ordem: Rubem faça você esta nota. A nota não
saia. Ali se encontrava um homem amarrado, mordendo o lápis. Incompreensíveis dificuldades!
Um deus da pena se mostrava incapaz de redigir o suelto mais simples... 67“Somerset Maugham
teve a seu cargo, na última guerra, algumas informações jornalísticas, desempenhando, de certo
modo, tarefas de correspondente. No seu livro “Assunto Pessoal”, ao referir-se a esta aventura,
declara: “não tenho o dom do jornalista para fornecer matéria às linotipos logo após adquirir os
elementos de uma reportagem. Para mim, essa espécie de literatura é mais difícil do que a
ficção. Embaraçam-me os fatos que tenho entre as mãos e pre ciso de tempo para refletir e pôlos em ordem. Havia lido, num jornal inglês, os artigos escritos por um correspondente que fizera
mais ou menos os mesmos giros que eu e, embora os achasse superficiais e por vêzes inexatos,
não pude deixar de admirar a habilidade com que êle apanhara os pontos mais salientes,
produzindo uma coluna incisiva e de leitura agradável. Quanto a mim, êsses artiguinhos triviais
me faziam suar sangue.68”
Essa dificuldade dos escritores, dos poetas, dos cientistas em praticar o jornalismo
decorre, exatamente, da circunstância de que a informação, “como tradução intensiva do
acontecimento para comunicação ao outro” não se destina puramente a dar-lhe notícias, a
sensibilizar-lhe o espírito, a instruí-lo sôbre determinado ramo da ciência ou da doutrina, mas,
como nos ensina Tristão de Ataíde, “se desdobra em informação, isto é, em formação do público.
E particularmente da Opinião Pública. É a grande finalidade moral e social do jornalista, que vai
além da finalidade puramente informativa, O jornalista medíocre informa por informar, O
autêntico jornalista informa para formar. Um pára na finalidade informativa. O outro prossegue na
finalidade informativa, O pequeno jornalista ou noticiarista leva a notícia ao próximo. O jornalista
comenta-a, leva a notícia acrescida da sua apreciação. O grande jornalista informa e forma. Cria
e orienta a opinião pública. E nisso representa um papel na coletividade e faz do jornalismo,
mais ainda do que em suas raízes, uma arte social por excelência. 69”
Extensividade e Intensividade — Do ponto de vista da interpretação, o jornalismo pode
ser extensivo, quando há predominância da informação, da notícia, sem preocupação de análise.
O jornalismo extensivo é, essencialmente, aquêle já é chamado “literatura sob pressão”, feito
com o ôlho no relógio e o pensamento nas dimensões de que se dispõe. “Pressão do tempo e
pressão do espaço. Em todo o mundo, a cada instante, os cultores dêsse tipo de literatura
lançam palavras sôbre o papel com a preocupação do tempo que passa e do espaço que é
limitado. As frases ajustam-se a um tamanho, o pensamento é obrigado a trabalhar depressa. 70”
É o jornalismo do jornal, do rádio, da televisão, produzido sob os efeitos do “choque”, sob o
impacto dos acontecimentos e, por isso mesmo, à base apenas do senso divinatório do
profissional e, por vêzes, atingido e influenciado pelas emoções do momento. Já o jornalismo
intensivo é exercido à base da reflexão: os seus assuntos e as suas matérias são escolhidas; as
informações devem ser o mais possível completas, retificadas e analisadas. Sem afastar-se dos
Citações de Horácio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 20.
W. Somerset Maugham — “Assunto pessoal” — Pôrto Alegre,1959 — pág. 99.
69 Tristão de Ataíde — Art. cit. — Diário de Notícias, Rio — Ed. 10-11-57.
70 Antonio Olinto — Obra cit. — pág. 3.
67
68
fatos correntes, nêles busca aspectos que, por não serem tão fàcilmente registráveis, nem por
isso se devem considerar menos importantes. No jornalismo intensivo, o que s busca é aquilo
que E. Mounier chamou de “atualidade em profundidade71”, o que se procura estabelecer é o
problema criado pelo fato, o elemento de estrutura do acontecimento. Essa, a modalidade de
jornalismo das publicações especializadas, das revistas, dos “digests” cinematográficos,
praticado pelos editorialistas, pelos críticos, pelos comentaristas, pelos observadores, mais do
que pelos repórteres e correspondentes, fotógrafos e cinegrafistas de atualidades. Se bem que a
atividade jornalística seja eminentemente interpretativa, o maior ou menor grau de profundeza
dessa apreciação dos fatos, decorrente mesmo das funções ou dos setores explorados, é que
caracteriza a extensividade ou intensividade do jornalismo exercido.
DA PERIODICIDADE
Dentre as características do jornalismo, a periodicidade é a menos subjetiva, a mais
formal; pois diz respeito aos intervalos em que se registram as suas manifestações.
Etimològicamente, a palavra periodicidade (do latim “periodicus” e do grego “periodikos”)
significa o ato de guardar períodos; como atributo jornalístico exprime a constância com que os
fatos correntes, devidamente interpretados, são levados ao conhecimento público. Sem essa
constância, sem êsse divulgar sistemático, a informação não atingiria as suas finalidades sociais.
Através da História — Os mais antigos documentos ou notícias da evolução do
jornalismo são concordes em assinalar a freqüência mais ou menos regular das suas
manifestações. “Nas idades findas, o comércio indispensável de idéias e interêsses estabeleciase com monótona uniformidade por meio do pregoeiro. Já Macróbio refere, no capítulo XVI do
Livro das “Saturnais”, que era o pregoeiro o encarregado de anunciar as festividades do culto
para evitar que os cidadãos romanos deixassem de cumprir os preceitos determinados pelo ritual
de Numa Pompílio. A isto devia-se limitar, ao princípio, o papel do pregoeiro; mas, tempos
depois, estendeu-se a outros objetos. Antigamente, todos os atos importantes, tôdas as
deliberações coletivas não se verificavam em locais fechados, sendo a praça pública o lugar
destinado a tais atos e sendo aí que os cidadãos congregados tinham conhecimento direto de
tôdas as questões de maior transcendência. Mas não foi isso julgado suficiente e necessitou-se
do auxílio do pregoeiro, O céryse entre os gregos e o praeco entre os romanos tinham, com
pequenas diferenças, as mesmas funções. Vemos o primeiro, nos jogos olímpicos, proclamando
os nomes dos vencedores; entre Os exércitos, servindo de arauto; nas ruas das cidades,
convocando as assembléias e nos locais de venda anunciando os preços e as condições. O
praeco dos romanos tinha um caráter mais exclusivo de funcionário judicial, embora de ordem
subalterna. Muitos eram os seus pontos de contato com o nosso aguazil: chamava à justiça o
demandante, anunciava os nomes das partes em litígio e proclamava as sentenças. Servia,
também, de auxiliar importante nos atos políticos. Ao abrir os comícios, convocava as centúrias
com os seus pregões e, verificada uma eleição, proclamava os nomes dos eleitos. Também o
pregoeiro intervinha nos enterros dizendo de quem eram e onde se realizavam para
conhecimento das pessoas que quisessem ou devessem assisti-los. Em alguns autores
encontramos que o preogeiro indicava também os objetos perdidos ou achados. Numa palavra
— tornava público tudo o que ao público era preciso e conveniente fazer.72” Ora, todos êsses
atos, cerimônias e ocorrências verificavam-se periôdicamente, exigindo que os pregoeiros —
repórteres das primeiras fases do jornalismo oral — estivessem a postos, a breves intervalos,
para o exercício das suas funções, que não poderiam ser adiadas indeterminadamente, pois se o
71
72
E. Mounier in Problèmes et techniques de la Presse, cit. — pág. 315.
Alfredo Bessa – O jornalismo – Lisboa,1904 – Págs. 42-44.
fôssem perderiam a atualidade e não atenderiam, conseqüentemente, às suas finalidades
sociais.
Tanto êsse elemento era compreendido como essencial que, mais adiante, ao tempo do
que poderemos chamar “jornalismo estático”, quando as notícias eram afixadas em táboas, na
Roma dos Senadores e, depois, dos Césares, o tempo se impôs primeiro com os “Anais” dos
pontífices e, depois, com a “Acta Diurna”. No século XVI, quando a organização da posta, quase
simultânea em diversas partes da Europa, permitiu a introdução da regularidade nas
comunicações entre os homens, os epistológrafos — repórteres incomparáveis do jornalismo
manuscrito — passaram a fazer da periodicidade uma indeclinável obrigação. “Eis a renda
semanal que vos devo ’— escrevia Chapelain ao marquês de Montausier. Embora sem assunto,
Villegagnon não deixava de corresponder-se da Hungria com o cardeal de Lorraine “pour ne pas
feillir à ma coutume de vous ecryre toutes les septmaines”. Conquanto das muitas epístolas
escritas em vinte anos por Saint Simon ao cardeal Gualtério apenas quatorze hajam sido
identificadas, constatou-se a sua seqüência hebdomadária... Guy Patin, detalhista e solícito nas
suas epístolas, não tolerava a impontualidade dos amigos (e a um dêles escrevia) : “jamais a
tirania de Mazarino, a cólera da Rainha, a guerra do príncipe de Condé, o assédio de Paris e as
ameaças dos partidaristas, e até o mêdo de morrer de fome durante o cêrco — exagerava o
implacável inimigo de Ranaudot, em plena Fronda — não me tiraram o repouso como o tem feito
a ausência as vossas cartas, a meu ver indesculpável se não tiverdes fortes razões; mas é
preciso que sejam muito fortes e mesmo mais fortes do que o exército que Mazarino destina a
tomar Bellegarde e do que o canhão que M. de Vendôme ali instala. 73” Gui Patin — registremos
de passagem — é um exemplo completo do repórter epistolar, como podemos observar desta
curta citação, quando, em dois trechos, apenas, transmitia tantas e tão oportunas informações. O
que levou Carlos Rizzini a assinalar que “as cartas particulares dos séculos XVI, XVII e XVIII
possuiam maior conteúdo jornalístico, no sentido informativo, do que a maioria das fôlhas de
hoje e deixam a perder de vista as primeiras gazetas impressas sob a égide dos governos e por
isso votadas ao noticiário deformado e gratulatório.74”
Observa, o mesmo autor, com muita propriedade, que do primeiro livro — a “Bíblia de 42
linhas” (1456) — à primeira gazeta impressa — o Nieuwe Tijdinghen (1605) — transcorreram
150 anos e que “ia já o mundo pelo século XVII — e o jornalismo, aprisionado nas cartas
particulares, não atinara com a tipografia e nem suspeitava se desmedisse o seu destino, assim
deparasse no prelo a multiplicação que o transformaria de amável entretenimento mundano,
corrosivo e sutil, em tremenda fôrça renovadora a serviço do erguimento dos povos. Aparente
absurdo, explicável pela clandestinidade a que a perseguição dos governos condenou os
primórdios do jornalismo e pelo elevado preço dos trabalhos tipográficos. Da comparação das
datas verifica-se terem sido os Correios, e não a tipografia, a determinante do periodismo.” E
frisa concludentemente: “o que a informação precisava para atingir o seu fim não era ser escrita
desta ou daquela maneira, mas ser regularmente transmitida do redator ao leitor.75” André Ravry
também salienta que a organização dos correios “implicou numa regularidade que ainda mais
assemelha as cartas às gazetas: partindo malas em geral cada oito dias, passaram naturalmente
as cartas a constituir a crônica da semana. 76”
Os correspondentes epistolares exigiam entre si, não apenas o desenrolar das
novidades mas a mesma periodicidade que, desde a segunda metade do século XVI, os
impressores de Estrasburgo e Basiléia tinham procurado introduzir nas suas folhas volantes,
numerando-as e distribuindo-as em datas determinadas, ainda que bastante distanciadas. Na
Biblioteca Universitária de Heidelberg, guarda-se a coleção completa, correspondente a um ano
Carlos Rizzini – Obra Cit. – pág. 48.
Carlos Rizzini – Obra Cit. – pág. 47.
75 Carlos Rizzini – Obra Cit. – pág. 47 e 42.
76 Cit. Por Rizzini – Obra Cit. – pág. 47.
73
74
inteiro, do semanário “Relation aller Fürnemmen, etc.” editado pelo impressor Juan Carolus, em
Estrasburgo, em 1609, o que vem demonstrar que a periodicidade surgia como um atributo cada
vez mais rigoroso desde que se aperfeiçoavam os métodos de produção e se tornavam mais
rápidas as comunicações.
Nos Tempos Modernos — Todavia, a importância da periodicidade cresceu sobremodo
nos últimos dois séculos, tanto pela multiplicação dos jornais como pelo surgimento e expansão
dos demais veículos: o rádio, o cinema e a televisão. O jornalismo industrial impôs a
concorrência e desta nasceu a “tirania do relógio” e dos competidores. “A hora da edição é
sagrada; faltar a ela equivale a entregar-se atado de pés e mãos ao concorrente, ao rival... Todo
periódico se faz sob a tensão do rendimento completo na hora exata... Para que: a) — o leitor
seja servido no tempo convencionado; b) — não se perca o correio; e) — não se interrompa o
costume do pregão dos vendedores, máxima propaganda do diário; d) — não se converta o
jornal em um artigo de aparição anárquica.77” De tal sorte entrou a periodicidade na consciência
jornalístico universal que passou a servir de epígrafe a numerosos órgão s de publicidade em
todo o mundo. Assim temos às centenas os diários da manhã, as folhas da tarde, os expressos
dos domingos e mais os “semanários”, os “anais”, os “mensários” — Os quais, desde o seu título
à menos importante das suas notícias, guardam rigorosamente os períodos das suas aparições.
Os come ntários e notícias radiofônicos obedecem a horários pré-estabelecidos e
aquelas audições, provocadas por acontecimentos extemporâneos, são anunciadas como
“extraordinárias”. Exemplo frisante da rigorosa periodicidade no rádio-jornalismo é o
internacionalmente divulgado “Reporter Esso”, cujos horários de audição são, entre nós, de
todos conhecidos e cujas notícias breves e incisivas têm intensa repercussão em tôdas as
camadas sociais. Igual observância de intervalos regulares têm os noticiários cinematográficos,
lançados geralmente tôdas as semanas por diferentes produtoras, contendo atualíssimo
documentário das ocorrências mais notáveis, não sômente no seu país de origem como em
tôdas as partes do mundo. E, se bem que com maiores dificuldades, dado que a sua técnica é
mais complexa, tendo de socorrer-se do çinema e da fotografia, quando as suas câmaras prédispostas não focalizam diretamente o acontecimento,— nem o tele -jornalismo deixou à margem
a periodicidade e os tele -espectadores já se acostumaram a ouvir e ver, em determinadas
oportunidades, os fatos que constituem notícias.
Não foi sômente a consciência do jornalista que se sentiu afetada pela periodicidade.
Vimos como ainda na época do jornalismo epistolar os correspondentes, sequiosos de
informações, reclamavam uns dos outros qualquer retardamento na troca de cartas. Êste afã de
saber no momento exato generalizou-se profundamente na consciência coletiva. “Quando a
curiosidade das gentes por um sucesso encontra dificuldades, surge, como recurso final, a frase
muito expressiva na caracterização do labor do repórter: “Amanhã o leremos no jornal...“ (É que)
a investigação das notícias interessantes ocuparia, caso pudesse ser feita particularmente, tôda
a atividade individual, O repórter é precisamente a pessoa dedicada com exclusividade a êste
mister, em nome e em benefício dos demais. É, pois, o repórter “olhos e ouvidos do jornal” e, em
conseqüência, olhos e ouvidos daquelas pessoas que, normalmente, têm de aplicar os seus
sentidos a outros labores profissionais.78” O jornal, como expressão máxima do jornalismo,
tornou-se “um amigo que entra diàriamente na casa do leitor... Se êste amigo chega em tempo
oportuno, atraente, cheio de conteúdo, será o amigo gratíssimo que não entedia, que não cansa,
mas que, ao contrário, é sempre bem recebido, é esperado com impaciência muitos dias, e
menos considerado cada vez que não chega ou se retarda. Desde a hora da missa dominical,
que permita a caça ou a excursão, até o programa dos espetáculos, tôdas as necessidades
sérias ou alegres da vida humana sugerem uma pergunta diária ao diário visitante... Pobre do
77
78
Octávio de Ia Suarée — Obra cit. — págs. 207-208.
lsmael Herraiz — Obra cit. — pág. 33.
visitante que decepciona habitualmente a todos... Pouco a pouco deixarão de atendê-lo primeiro,
de esperá-lo depois, e logo lhe buscarão um substituto e discutirão com outros as vantagens de
trocar de amigo79.”“Um jornal que não aparece à hora costumeira — escreve Gilbert HenryCoston — perde os leitores e assinantes. Basta citar o caso de “L’Action Française”, um dos
jornais políticos mais importantes no período entre as duas guerras, o qual jamais ultrapassou
uma tiragem relativamente modesta — 40.000 exemplares — em razão do retardamento
registrado na sua saída. E, no entanto, não era um dos. melhor redigidos, dos mais vivos, dos
mais bem feitos da imprensa política francesa, um dos que possuía clientela mais fiel ?“ Essa
constatação e essa indagação resumem, de modo completo, os profundos vínculos existentes
entre periodicidade e jornalismo; vínculos tão íntimos e indissolúveis que tornaram sinônimos, na
linguagem universal, vocábulos etimològicamente tão divergentes como jornalismo e periodismo.
Há a considerar, ainda, que as exigências do público, dia a dia mais interessado pelo
conhecimento das ocorrênci4s que se desenrolam não sômente no seu próprio “habitat” como
nos mais longínquos rincões do mundo, encurtaram, sobremodo, os prazos em que os veículos
jornalísticos devem surgir tom o seu rosário de informações e comentários. Assim, o jornalismo
diário, oferecido cada vinte e quatro horas, que, por muitas decadas significou o máximo de
presteza na divulgação de notícias, cedeu lugar ao jornalismo periódico, que não mais exprime
apenas longos prazos entre as suas manifestações, mas períodos variáveis, desde aquêles de
horas até os de semanas, meses e anos. O jornalismo diário será, então, aquêle ordinàriamente
exercido a horas certas e em um dia: as edições normais dos matutinos ou vespertinos80; as
emissões de rádio e televisão nos seus programas ordinários.
O jornalismo periódico será, por seu turno, aquêle desenvolvido em edições e horários
extraordinários, nos luminosos, nos telefônicos e, mais, nas revistas e magazines, nos jornais
cinematográficos, nos mensários e anuários, cuja periodicidade ou é arbitrária, ao sabor dos
acontecimentos, ou é marcada por prazo superior ao das vinte e quatro horas que constituem o
dia.
DA POPULARIDADE
Temos, freqüentemente, focalizado o papel saliente que o epistolário ocupou, durante
séculos, como manifestação periodística. As cartas, contendo geralmente todos ou alguns dos
atributos do jornalismo — ocupando-se dos fatos correntes (atualidade), de natureza a mais
diversa (variedade), apreciados e comentados (interpretação) e regularmente enviadas
(periodicidade) a amigos ou grupos de amigos com o objetivo de pô-los ao corrente das
novidades, orientando-os, portanto, no desenvolvimento das suas atividades — as cartas foram,
sem nenhuma dúvida, uma forma jornalística perfeita para as épocas em que os meios de
Francisco de Luis y Diaz in El Periodismo — Barcelona, 1953 págs. 328-329.
Recentemente, surgiram os chamados jornais do “dia inteiro” (“all day”), diários que publicam edições tanto pela
manhã como á tarde, mas que não as designam como matutinas ou vespertinas. Victor J.
Danilov,em estudo publicado no Nieman Reports de Boston, Mass., janeiro de 1958 — pág. 11, oferece algumas
características dêsse tipo de jornais: 1. Publicam, no mínimo, uma edição no horário da manha e uma à tarde; 2. A
despeito das suas múltiplas edições, os assinantes recebem sòmente uma cópia: geralmente a edição impressa à
tarde; 3. Em tôdas as edições são usados os mesmos estilo, materiais, editoriais, etc., mudando apenas as
“manchettes” e notícias de última hora; 4.A publicidade é vendida em uma base global, calculada, entretanto, sôbre
o espaço da edição da manhã. Seis jornais dêsse tipo foram registrados, nos Estados Unidos, pelo “Audit Bureau of
Circulation”, a saber: “Tribune Rewiew”, de Greensburg, Pa; “News Herald”, de Hutchinson, Ka.; “Tribune Democrat”,
de Johnstown, Pa.; “Manchester (N.H.) Union Leader’; “Messenger and Inquirer”, de Owensboro, Ky. e o “Times
News”, de TWIN FalIs, Ida. Cinco dêsses jornais aparecem em três edições diàriamente: a primeira cerca da meia
noite, a seguinte próximo ao meio dia e a última pelas dezoito horas, O “Times News” dá duas edições: pela manhã
(1.30) e à tarde (2.46).
79
80
transporte e comunicação entre os homens se faziam difícil, raro e morosamente. Ninguém
poderá negar o conteúdo jornalístico das epístolas de São Paulo, mediante cuja leitura
estaremos capacitados a ressuscitar uma das mais decisivas épocas da história da humanidade,
ao mesmo tempo em que fixar a poderosa influência que a Boa Nova, os conceitos, as doutrinas,
as normas de vida nelas indicadas exerceram para o processamento da revolução social do
Cristianismo. Ou recusar os méritos do trabalho do padre Antônio Vieira, a quem já nos referimos
como jornalista-locutor nos seus “Sermões” e agora lembramos como jornalista-redator que,
indo, a Roma a trato de negócios, espalhava em cartas a alguns amigos, entre os quais o
marquês de Gouveia, dom Rodrigo de Menezes e Duarte Ribeiro de Macêdo, as novidades
colhidas diretamente na Cidade Eterna ou ali chegadas através de gazetas e cartas particulares.
Como ninguém recusará ao jornalismo manuscrito, aos avvisi venezianos, às news letters
inglêsas do século XIII ou aos Ordinari Zeitungen dos mercadores alemães terem sido, antes e
mesmo muito depois do surgimento da arte de imprimir, veículos, embora ronceiros e limitados,
da informação e da orientação, dirigidos a grupos e comunidades.
Vale observar aqui que as volantes, desde 1455, quando Gutenberg fêz publicar, em
Mogúncia, uma carta, de indulgência do Papa Nicolau V, advertindo a todos os cristãos dos
perigos e ameaças que constituia o domínio turco sôbre Constantinopla e exortando-os a
levantar-se para expulsá-lo da Europa — divulgavam notícias de interêsse geral. “Não é pois de
estranhar que as comunicações sôbre o descobrimento da América, dirigidas por Colombo ao
tesoureiro real da Espanha, em 1494, tenham sido traduzidas e reproduzidas pelos prelos em
todos os países civilizados... Quando o português Cabral chegou às costas brasileiras e tomou
posse solene daquêle território para o seu rei, a imprensa alemã se apressou em divulgar o fato,
sendo a primeira fôlha volante que, como ficou dito, se conheceu com a denominação de
Zeitung, a que se encarregou. de comentá-lo extensamente, com trabalhos dedicados ao
território que acabava de descobrir-se. Este periódico foi impresso por Erhard Oeglin em
Augsburgo; compreendia quatro fôlhas em formato quarto e o exemplar a que nos referimos leva
o nome de Copia der Newen Zeytung auss Presilg Landt (Brasil) e se conserva atualmente na
Biblioteca de Munich.81
Extensão da Popularidade — A expansão dos serviços postais, a cujo estabelecimento
tanto deveu o jornalismo para a sua evolução, a ponto de ainda hoje perdurar a denominação de
“Correio” para numerosos órgãos da imprensa, como a expressar não sômente a instituição que
permitiu a distribuição de exemplares como também a forma epistolar a princípio adotada — iria
impor paradoxalmente a morte do jornalismo manuscrito. É que aquelas pessoas, grupos de
pessoas ou comunidades restritas a que eram dirigidas as cartas, foram-se ampliando em
número e graus de educação. Às gerações analfabetas e ignorantes da Idade Média, quando o
saber se homisiara nos conventos e monastérios, iam-se sucedendo, com o Renascimento e a
idade das grandes descobertas, outras com instrução primária ou elementar, sequiosas de
informações. “A correspondência ainda satisfazia no seiscentismo a ânsia de contar novidades.
Além de fácil e pronta, graças à fartura de papel e à normalidade da posta, escapava a qualquer
censura, prestigiada pelas rodas aristocráticas e palacianas em que se cruzava; influentes e
letradas rodas, únicas então engrenadas na vida pública, não para impelí-la adiante, mas para
abismá-la, entre risos e chusfas, nos excessos da fascinante perversão com que as sociedades
de origem feudal, resolvendo a triste alternativa de sumir-se ou adaptar-se, deixaram-se morrer
alegremente.” 82
Nos dois séculos seguintes, os limites dos círculos fechados de leitores foram rompidos:
a gazeta manuscrita e, depois, a composta em letra de fôrma e já rebelde aos contrôles e à
censura, atravessou do “diletantismo ao profissionalismo para encarreirar-se no seu próprio e
81
82
O Weise — La Escritura y el libro — Barcelona, 1935 — pág. 86.
Carlos Rizzini — Obra cit. - pág. 47.
sôfrego destino de informar mais, mais depressa e a mais gente... não por cortesia: por
obrigação; não sôbre assuntos escolhidos: sôbre todos; não a um destinatário-amigo: a quantos
destinários-assinantes se dispusessem a pagá-la... Das três vias gradualmente rompidas pelo
jornal — assinaturas, vendas avulsas e publicidade — adiantou-se a das assinaturas, única
tateável nas trevas ela que longamente se foragiu a informação escrita. Mais de duzentos anos
levou ela a grimpar a ladeira aparentemente suave que vai do leitor-assinante ao leitor-avulso. É
que o leitor-assinante poderia ser alcançado à sorrelfa, com risco da vida e da liberdade,
transgredindo-se as leis e enganando-se a polícia, ao passo que o leitor avulso tinha de ser
abordado num lugar inatingível: a rua.”83 Foi pelos botequins e cafés de Paris, pelos clubes
literários de Londres, pelos cláustros dos agostinhos, beneditinos e franciscanos (nos quais se
refugiavam os corpos de “nouvellistes”) que, caindo como uma pedra na superfície de um lago, o
jornalismo, ampliando em círculos excêntricos a sua penetração, lançou-se à conquista da rua,
isto é, do povo, das massas. O jornalismo popularizava - se: não era mais dirigido “a uma elite, a
um círculo de pessoas escolhidas, mas à maioria. Recusa levar, a toga do doutorado para pôr-se
na vestimenta humilde do peregrino.” 84 Nesta recusa, refletia o espírito dos novos tempos, das
idéias que começavam a germinar e que seriam triunfantes na Revolução Francesa, firmando
definitivamente o seu prestígio.
“Em aberta rivalidade com os dignitários e senhores, os povos ajudaram a Imprensa,
recusando-se a admitir o primitivo serviço real e plutocrático a que a destinaram os seus
fundadores, para que ela se democratizasse... Chegara o momento histórico em que a massa
compreendeu que a Imprensa é uma mercadoria, como dizia Renaudot, mas uma mercadoria
para o entendimento, pelo que a ilustração é indipensável para poder aproveitá-la... e sôbre o
vasto panorama da grande revolução francesa, conduzem sôbre uma lança esta reivindicação:
— instrução pública gratuita... Por outro lado, e simultâneamente, uma nova imprensa, a que se
dedica à preparação de panfletos revolucionários, ilustra com o exemplo a todos os cidadãos
sõbre o terrifico poder dêsse novo instrumento de ação, a facilidade do seu menêjo e o
barateamento da sua confecção. As gentes aprendem assim, na Europa, que quatro linhas de
jornal são mais demolidoras contra um regime tirânico do que quarenta mil esfarrapados
tumultuando as ruas, que o emprêgo melhor do chumbo não está na fabricação da bala mas na
da letra de impressão e que o cavalo de qualquer gendarme pode saltar uma barricada, mas até
o Rei se detém ante uma coluna de material impresso. Para que a instrução pública gratuita não
seja letra morta na Constituição, entretanto, é preciso que haja sempre no govêrno filhos do povo
que velem pela sua aplicação prática, e as massas. compreendam que é imperativo ganhar ao
despotismo uma segunda batalha: a do sufrágio universal... A imprensa, acionada primeiro por
debaixo — instrução pública gratuita — o será agora por cima — intervenção do povo na sua
regulamentação oficial. . . completando-se assim o quadro universal:já não são classes
reacionárias ou liberais que se identificam com a Imprensa, é a sociedade humana inteira.
Sucede algo mais, e muito importante por certo. Como as duas conquistas fundamentais se
fizeram na luta contra a arbitrariedade e a tirania, como ambas são as vias de acesso que têm os
povos para ser arquitetos do seu próprio destino, as massas, recordando que, segundo
Mirabeau, sem a liberdade de imprensa as outras jamais poderão ser obtidas, decidem que sem
ela tão pouco poderão ser conservadas e a consagram assim como o mais completo de todos os
seus direitos, como a mais absoluta de tôdas as suas liberdades. Os três estágios do itinerário
seguido pela sociedade para identificar-se com a imprensa foram, pois, a instrução pública
gratuita, o sufrágio universal e a liberdade de opinião.”85
Carlos Rizzini Obra cit. pág. 55.
Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 16.
85 Octavio de la Suarée — Obra cit. — págs. 42-46.
83
84
Popularidade e Liberdade — Atingidas as condições ideais para o seu mais amplo
exercício, o jornalismo retirou-se dos antigos e superados veículos: os pregoeiros, os arautos, os
mensageiros, as epístolas, as gazetas manuscritas, que não tinham mais capacidade de levar as
informações e a orientação à comunidade inteira. Disseminados os processos tipográficos,
adotado o papel como matéria prima ideal para a reprodução dos textos, a atividade jornalística
concentrou-se no jornal, capaz de circular ràpidamente e, por conseqüência, alcançar em
profundidade e extensão as maiorias a que se dirige. “Se acontece, na prática, que sòmente o lê
uma fração, o seu propósito formal é chegar realmente a todos os indivíduos, abrir caminho
embora à custa de inumeráveis sacrifícios, e obter a consideração unânime.” 86 E mesmo
quando se faz especializado, ainda ai estará presente a popularidade, no sentido de que a
objetiva prestar serviço a tôda a comunidade, dirigindo-se a uma expressiva parcela da mesma,
suscetível de apreender com facilidade os informes e diretrizes nêle contídos, em linguagem e
estílo apropriados, e transmití-los, vulgarizando-os ou praticando-os, aos demais membros da
sociedade. Quando uma publicação médica, por exemplo, insere estudos e dá conta de
experimentações sobre determinado e novo processo terapêutico, como ocorreu com a
descoberta da penicilina, o que êsse jornalismo especializado visa é um fim ideal: atingir as
massas, beneficiá-las através dos médicos, a cuja ciência e arte está o encargo do diagnóstico
dos casos e da aplicação do medicamento apresentado.
Se falta popularidade ao jornalismo, se a publicação não se destina a atender àquele fim
ideal, então as próprias garantias da liberdade de imprensa lhe são recusadas pela legislação
vigente nas mais avançadas democracias do mundo. Tanto é assim que, na Suíça, “o Tribunal
Federal considera, inclusive, que os prospectos, anúncios, reclames s outras publicações que
não são reproduzidas senão com fins comerciais e egoístas, não devem, em regra geral, ser
postos sob o benefício da liberdade de imprensa, mas sim depen4endo da liberdade do comércio
ou indústria. Assim, por um decreto de 1910, o Tribunal Federal, julgando que se tratava de um
recurso de direito administrativo e não de direito público, negou o benefício da liberdade de
imprensa a um prospecto, cujo objeto, mais do que propagar teorias debatidas, era essencialmente lucrativo: a venda de certos produtos. Os anúncios, da mesma forma que os’ artigos ou
informações que perseguem fins estritamente profissionais, caem sob o conjunto de regras de
polícia profissional. Ao contrário, desde que um aviso ou reclame se tenha publicado com a
intenção de servir ao interêsse da comunidade e não com objetivo comercial, lucrativo ou
egoísta, deve ser pôsto debaixo da garantia constitucional.” 87
Mas não são apenas as garantias constitucionais que são recusadas ao jornalismo,
quando as suas manifestações não se destinam a atender aquêle fim ideal de promoção do bem
comum, visando o interêsse coletivo antes que os da emprêsa; — faltar-lhe-á o apoio do leitor,
isto é, a popularidade. Com efeito, o leitor não admite distorções ou supressões propositadas ou
um constante sacrifício da objetividade a propósitos personalísticos. E mesmo quando sôbre o
jornalista ou a emprêsa não recaem as penas da lei pela violação de códigos penais ou
meramente éticos, que refletem efetivamente o pensamento coletivo sôbre os limites da
liberdade, sôbre o jornal pesará o boicote do leitor. É o princípio da liberdade de imprensa
condicionado à liberdade de escôlha do leitor, tese defendida pelo prof. Rod W. Horton, que, a
respeito, argumenta: “Não é sòmente que os jornais respeitem a independência do leitor por
responsabilidade ou senso de justiça, mas é que bem sabem que estão obrigados a respeitá-la
pela própria circunstância de que o leitor, na sua opinião, é livre, que muitas vêzes não é amigo
da redação, e que, se o jornal não joga limpo, vai perder muitos leitores para um concorrente de
mais consciência.” 88 Essa circunstância é que liberta o jornal, nos países liberais-democráticos,
da tirania do anunciante, isto é, do perigo da sujeição da redação à política preconizada pelos
Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 16.
Jacques Bourquin — Obra cit. — págs. 49-50.
88 Rod W. Horton — A liberdade de imprensa e o leitor livre — in Jornal do Comercio, Recife — 15-12-57
86
87
grandes “trusts” comerciais e industriais. Como também o liberta da tirania dos grupos políticopartidários ou dos interêsses exclusivistas e pessoais dos seus proprietários ou acionistas. Foi o
que ocorreu com um jornal de Detroit, cujo maior acionista era o coronel Knox, que foi secretário
da Marinha dos Estados Unidos, ao tempo da II Guerra Mundial.89 O coronel não era político; o
seu jornal tinha tiragem média diária de 600.000 exemplares. Veio -lhe a tentação de utilizá-lo
para conquistar posição de relêvo nos quadros políticos norte-americanos. Iniciou e desenvolveu
a campanha: ganhou a Secretaria da Marinha, mas perdeu onze milhões de dólares, pois o
jornal decaiu no conceito público, provocando a sua retirada da emprêsa com aquêle prejuízo
financeiro. Em 1954, quando visitamos êsse jornal — onde o fato nos foi narrado — a sua
tiragem ainda não conseguira atingir os 200.000 exemplares, mais de dez anos depois da
desastrada “operação Knox”.
No Brasil, se bem que tenhamos uma imprensa apaixonadamente opinativa, a
repercussão na popularidade do jornal da sua política editorial também tem causado o êxito ou
fracasso de muitas emprêsas. Deve-se levar em conta, entretanto, que o público leitor é muito
reduzido, não ocorrendo aqui o que se verifica nos Estados Unidos, onde 98 por cento da
população é alfabetizada e onde se vende diàriamente um jornal para cada três habitantes.
Assim mesmo, os ‘episódios de jornais empastelados, incendiados e destruidos pela fúria das
multidões por se terem colocado contra os interêsses da maioria dos seus leitores pontilham a
história do nosso periodismo; e menos espetacularmente não têm sido poucos os oj rnais que
vão definhando, perdendo os leitores, reduzindo-se autênticos zumbis, melancolicamente
editados por honra (ou desonra) da firma... O prof. Rod W. Horton lembra, com oportunidade, na
argumentação da sua tese, as palavras de Tocqueville: “A liberdade de escrever, como tôdas as
liberdades, é mais formidável quando é uma novidade, entre um povo não acostumado a ouvir
discussões de assuntos políticos, o qual confia na primeira tribuna que se apresente.” Palavras
que são uma séria advertência aos governos que pensam poder restringir a liberdade em nome
das suas concepções filosóficas; que se iludem a si próprios, julgando que o povo, forçado a ler
os “seus” jornais e sòmente os “seus” jornais, desinteressou-se pelos temas e problemas
políticos, que fogem aos rígidos limites do sistema dominante. Palavras que se confirmaram na
Alemanha e na Itália, com a queda de Hitler e Mussolini e que, recentemente, tiveram a mais
viva expressão na República Argentina, quando, restituída aos seus leitores, que jamais
esqueceram a sua voz poderosa e livre, La Prensa readquiriu, de um golpe, o prestígio e a
autoridade que inutilmente Perón tentara manter em seu proveito.
A liberdade de imprensa contida pelas fôrças dos governos ditatoriais pode, igualmente,
na reconquista da sua amplitude, tornar-se um perigo para a ordem na comunidade; exatamente
porque o cidadão-leitor, a quem haviam embrutecido com o ópio da mentira, estará enfraquecido
intelectualmente para discernir entre a demagogia irresponsável criada pela embriaguez da
liberdade e a orientação responsável dos jornais, verdadeiros arautos das aspirações coletivas.
Então, confiando na primeira tribuna que se apresenta, o povo poderá atirar-se a um caminho
que submerja o país na anarquia e no cáos.
Liberdade e popularidade são têrmos de uma mesma equação. “O leitor exige os fatos, e
exige também que êles sejam misturados com as opiniões da redação. Aceita os truques da
inclinação, porém com o privilégio de opinião particular. Conhece a política do jornal e separa os
artifícios e as interpretações dos próprios acontecimentos, algumas vêzes aceitando o ponto de
vista do jornal, outras vêzes rejeitando-o para tirar as suas próprias conclusões. São êles (os
leitores) que constituem a mais poderosa censura da imprensa, são êles os verdadeiros leitores
livres que exigem e forçam a responsabilidade jornalística do país... que impedem a escravidão
do jornalismo norte-americano por fôrças econômicas gigantescas e quase irresistíveis... Assim,
O coronel Knox estêve no Brasil durante a guerra. No Recife, inaugurou um hospital do US Army, na praia 4
Piedade (hoje Hospital da Aeronáutica), que teve o seu nome.
89
a liberdade de imprensa... começa com o leitor e o leitor lutará na defesa dos seus direitos até a
última bala. A redação tem que ficar livre de um govêrno tirânico, é verdade, mas os leitores
independentes - o professor ilustre, o George F. Babbit, e até o Zê Fulano — insistem em ficar
livres, igualmente, das distorções de uma redação cativa e interessada, O Govêrno pode ser o
mais benevolente e o mais liberal do mundo, mas se existem fôrças arrogantes em outros
quartéis além dos do govêrno, aquelas fôrças também têm que ser vencidas. O bom jornalista
bem sabe que não se pode curvar ante essas fôrças sem perder o respeito e o apoio financeiro e
moral do le itor livre.” 90
Condições da Popularidade — Graças à circunstância de atender, como veículo, às
mais amplas exigências da popularidade, é que o jornal se manteve no nosso século como
principal manifestação periodística, não sendo superado, como o foram as cartas e gazetas
manuscritas, com o surgimento de outros meios de difusão. Êstes modernos veículos, sim, é que
tiveram de demonstrar a eficiência dos seus meios mecânicos de reprodução e as suas
possibilidades de divu1gção para que, através dêles, se processasse o trabalho jornalístico. E
porque exigem não sòmente estúdios apropriados, estações emissoras e receptoras, como salas
de projeção e aparelhos captadores e televisores, sendo limitadas as suas possibilidades de
atingir a tôda a coletividade, é que sôbre o jornalismo radiofônico, cinematográfico e televisado
pairam restrições até a respeito das condições em que são beneficiários da garantia de liberdade
de informação e opinião. Não se nega, porém, que a cada dia, em razão do desenvolvimento da
técnica, do aperfeiçoamento dos processos adotados, da elevação dos níveis de vida da
sociedade, com a transformação em necessidade - daquilo que era, há pouco, considerado
supérfluo — não e nega que esteja em crescimento a influência dêsses veículos, que se torne
mais e mais extensa e profunda a sua popularidade.
Foi, talvez, atendendo a êsse atributo do jornalismo que uma comissão de 13 membros,
designada pelo Reitor da Universidade de Chicago, Mr. Robert Hutchins, com o objetivo de
analisar a imprensa moderna, foi de opinião que melhor seria chamá-la comunicação das
massas, para colocá-la de acôrdo com a nomenclatura, da nossa era, incluindo nela não
sòmente os diários e “magazines” como o rádio, o cinema os livros, com uma insinuação de que,
mediante estudo mais completo, haveria de compreender, também, os centros de educação e as
igrejas,91 o que indubitàvelmente é ir longe demais considerando-se o atual estágio da nossa
civilização. Com efeito, a popularidade não reclama apenas um veiculo de fácil e geral
penetração mas também uma linguagem, um estilo, uma forma própria, amena, fácil, leve,
accessível, fugindo ao verboso, ao retórico, ao gongórico, ao professoral, ao enfadonho. Além
disso, enquanto o professorado e o apostolado religioso buscam convencer e converter, o
jornalismo visa tão sòmente opinar para debater. Outrossim, o público moderno, se bem que
ansioso por novidades, chamado constantemente a definir-se e, por conseqüência necessitado
de ler, ouvir, discutir opiniões, não tem tempo, pela própria dinâmica da época em que vivemos,
de deter-se muito com o jornal, frente a um receptor de rádio ou televisão ou sôbre a poltrona de
um cinema, como leitor, ouvinte ou assistente de um interminável desenrolar de notícias,
comentários, opiniões e documentários. Uma enquête realizada nos Estados Unidos rnostrou
que a metade dos leitores interrogados não dispunha senão de um quarto de hora para dedicar
ao jornal. 92 Daí o êxito dos “tablóides”, jornais de pequeno formato, grandes títulos, muitas
fotografias, textos breves e editoriais resumidos, que permitem uma leitura rápida e que, pela
condensação das matérias e pelo aspecto gráfico com que são apresentadas, transmitem uma
impressão forte e duradoura. O Daily Mirror, de Londres, o jornal de maior tiragem do mundo
Rod W. Horton – ART. Citado – Jornal do Comercio, Recife – 15-12-58
Horácio Hernandez A. – Obra cit. – Nota à pág. 2.
92 Clemente Cinmorra – Historia del periodismo – Buenos Aires, 1946 – pág. 95.
90
91
(mais de quatro milhões e meio de exemplares) é um exemplo típico da imprensa popularizada
moderna.
A técnica da síntese aplicada ao jornalismo atingiu igualmente as revistas e “magazines”
que, nos nossos dias, têm a preferência do público quando resumem, selecionam ou condensam
textos ao máximo e, no caso dos periódicos ilustrados substituem pràticamente os detalhes
literários da reportagem por fotografias e desenhos, como ocorre com o universalmente famoso
Seleções do Reader’s Digest — e as modernas revistas semanais do tipo de Manchette, O
Cruzeiro do Nordeste entre nós, de Blanc et Noir, na França, e de Life nos Estados Unidos. Por
seu turno,os noticiários e comentários radiofônicos; os programas informativos da televisão e os
documentários de atualidades cinematográficos não excedem, jamais, de um período de tempo
tolerável ao público, geralmente entre dez minutos e meia hora.
A popularidade — que se constitui no elemento-combustível do jornalismo,
impulsionando-o na sua trajetória, desde as épocas dos limites e restrições dos primitivos
veículos, até a amplitude dos meios de comunicação e circulação dos tempos modernos —
continua a ser a mola que aciona o maquinismo jornalístico, impelindo-o para o futuro através
das vias do progresso técnico. Quer utilizando a imprensa, o rádio, o cinema ou a televisão; quer
através de letras, palavras, imagens, desenhos ou outro qualquer processo de comunicação do
pensamento que o engenho humano possa ainda inventar ou empregar — o jornalismo, para a
consecução dos seus objetivos, terá de decidir, de penetrar e repercutir em tôdas as camadassociais, de alcançar, enfim, o máximo de popularidade.
DA PROMOÇÃO
Através da análise que fizemos de cada um dos caracteres do jornalismo, ficou
evidenciado, a cada passo mais objetivamente, a finalidade precípua dessa atividade que,
nascida com. a própria organização social, desenvolvida e ampliada à proporção que se
desenvolviam e ampliavam os códigos éticos, as técnicas e as indústrias, se ot rnou numa
instituição indispensável para a formação e orientação dos povos — a promoção dos meios
tendentes a assegurar o bem comum. Os relatos e as idéias expressas pelos veículos
jornalísticos têm o proj3ósito de permitir ao homem um pronunciamento, uma decisão, de
impulsioná-los à ação. A sociedade, como o indivíduo, não pode- escapar à evolução; o
jornalismo, sem pretender traçar roteiros rígidos e exatos, atua como propulsor da ação
individual e coletiva, ao oferecer à massa a sumária e, por vêzes superficial análise dos
acontecimentos.
Jornalismo e Sociedade — Êsse aspecto promocional do- jornalismo foi que levou os
retóricos, como Bowles, a defini-lo como um sacerdócio, classificando o jornal de “censor da
terra, intermediário da opinião pública, sangue vital circulando através do espírito humano,
grande inimigo dos tiranos è braço direito da liberdade” ou como o nosso Ruy Barbosa, para
quem o jornal era “o respiradouro geral das consciências, o grande aparelho de elaboração e
depuração das sociedades modernas.” Foi também essa capacidade de incitar as massas à
ação que levou Lenine a pregar que “sem o jornal toda a propagação, tôda a agitação
sistemàtica, variada e fiel aos princípios é impossível”, e Jefferson — que durante o seu govêrno
sofreu tremenda oposição jornalística — a proclamar: “Se me fôsse dado escolher entre a
liberdade de govêrno e a liberdade de imprensa, eu optaria por esta última, pois onde existe uma
imprensa livre não sobrará lugar, por muito tempo, para um govêrno injusto e desonesto.”
A doutrina e a prática estão, freqüentemente, a comprovar o caráter promocional do
jornalismo. “A imprensa é, sem dúvida, elemento determinante na vida individual como na vida
coletiva; ne nhuma pessoa, nenhum núcleo social, pode passar sem ela; se se pensa no tempo
que se lhe dedica, utilizando todos os sentidos — rádio e cinema não fizeram mais do que
contribuir para acabar de fixar a sua penetração na existência humana — se chegará à
conclusão de que a nossa civilização se desenrola e morrerá envôlta em papel de jornal, em tinta
de impre ssão. Porque não é só o tempo direto que nos leva a imprensa a todos; há que
considerar também o indireto, como igualmente devemos anotar não sòmente a sua influência
ativa sôbre nossas determinações como igualmente a passiva. A imprensa não sòmente se lê
como se comenta; o jornalístico, não apenas reforma nossos costumes, mas também os
conforma.” 93 Com efeito, o jornalismo não pode ser tomado como uma atividade isolada,
contemplativa, abstrata; sua existência está sempre ligada à vida social, da qual recebe
inspiração e sôbre a qual influi poderosamente, não apenas na fixação de conceitos, mas, além
disso, fazendo com que “as idéias circulem,vivam e se desenrolem, agrupando-se em correntes
de opinião sôbre fatos ou acontecimentos que, a cada hora, provocam a vibração de um grande
pensamento coletivo.” 94 O jornalista, como já o acentuamos, ao contrário dos demais
intelectuais, não pode viver isolado, “é o homem mergulhado: “entwuyf”(Heidegger), no “projet”
(Sartre), na “potência” (Aristóteles —Tomás), no “fenômeno” (Kant), no “vir-a-Ser”, no “devenir”
dos filósofos evolucionistas do século passado, no “elanvital”” (Bergson), em tudo o que os
filósofos exprimem, diferentemente, como sendo o domínio do Acontecimento e da Ação.” 95 Daí,
dêsse comércio permanente e recíproco, é que retira a matéria-prima para transformá-la no
fermento jornalístico, destinado a dar à sociedade uma maior consistência pelo conhecimento de
si mesma, habilitando-a tomar decisões frente aos problemas que se sucedem. Essa integração
do jornalismo na sociedade arrancou a Jules Pigasse a correta observação de que “se se pode
escapar da influência de um livro, por mais sedutor que seja, é difícil ao leitor do jornal não ser
impregnado quer por suas afirmações quer por seu ceticismos O jornal, por sua influência
quotidiana formará crentes ou céticos; criará uma atmosfera de tolerância ou sectarismo;
preparará a ordem ou a revolução.” 96
Como se processa, todavia, esta promoção se o público do jornalismo é constituído por
indivíduos dispersos e não apenas aglomerados num ponto, pouco susceptíveis, portanto, de
agir simultâneamente? Gustavo Le Bon, que estudou profundamente o tema,97 assinalou que a
imprensa provoca sôbre as multidões reações primárias, mediante o recurso tão socorrido da
afirmação categórica e da repetição constante, formando, assim, em virtude da lei da “unidade
mental das multidões”, uma alma coletiva, independente dos indivíduos que integram o
conglomerado humano. Antigamente, era até certo ponto forçoso para obter a ação coletiva que
os indivíduos se reunissem, atraídos por qualquer fato do momento e guiados por um chefe,
cujas palavras inflamadas os fariam adotar idéias e sentimentos que jamais haveriam aceitado
sem o influxo poderoso do grupo. Hoje, graças à manifestação habitual do jornalismo, os
indivíduos espalhados, sem se conhecerem uns aos outros e nem àqueles que lhes transmitem
impressões, lhes sugestionam idéias, lhes temperam o espírito, são postos diante das mesmas
questões, ordinàriamente de igual maneira e ao mesmo tempo. “A simples leitura das notícias
tem, no ânimo da multidão, um efeito surpreendente, porque a atualidade de um fato ou
acontecimento qualquer atrai a atenção pública e a concentra em uma ordem de coisas, em que
cada leitor se sente solidário com o grupo ao qual pertence. Êsse laço invisível que une a todos
os homens por algo que reclama a sua atividade ou que serve de fundamento ao seu juízo, em
vista da iminência dos fatos e das suas conseqüências possíveis, é a primeira lei que favorece
um estado psicológico do caráter coletivo.” 98 Contudo, êsse laço sòmente se estabelece quando
os fatos relatados ou comentados são atuais, pois, do contrário, o leitor ou ouvinte da notícia se
Octávio de la Suarée — Obra cit. — pág. 47.
Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 134.
95 Tristão de Ataíde — Art. cit- in Diário de Noticias — Rio, 10-11-57
96 Jules Pigasse — Da journalisme — Paris, 1925 — pág. 41.
97 Gustavo Le Bon — Psicologia das multidões.
98 Conf. Manuel L. Rodrigues — Os Estados Unidos visto, por jornalistas portuguêses — Lisboa, 1955 — pág. 276.
93
94
sentirá sòzinho no mundo a cogitar sôbre o problema apresentado, sem que uma “corrente de
solidariedade” a ligue a indivíduos estranhos que partilhariam, simultâneamente, daqueles
sentimentos e idéias. Por isso é que, no desenvolvimento das suas campanhas, o jornalismo
insiste, repisa, apresenta sempre aspectos novos, não deixa que a imaginação popular se
desinteresse ou que fiquem esquecidas as premissas, empregando “todos os recursos de uma
propaganda hàbilmente urdida para formar correntes de opinião e fazer com que soluções
possíveis tenham a sanção majoritária do grupo”.
As Campanhas Jornalísticas e o Bem Comum — Deixando de parte os habituais
exemplos de promoção jornalística nos setores da política e do comércio, vamos lembrar
algumas memoráveis campanhas que proporcionaram benefícios os mais assinalados à
coletividade. Foi à ação do universalmente famoso e respeitado “Times” de Londres — que
tantos governos tem derrubado na austera Inglaterra — que através da pena do legendário
William Howard Russel, primeiro correspondente de guerra na Criméia, o mundo deveu a
revolução nos hospitais de sangue, encetada com métodos de higiene até então nunca vistos
pela igualmente famosa e respeitada heroína Florence Nightingale. No setor da saúde pública,
aliás, muito deve a Grã-Bretanha ao “Times”: em 1929, por meio de unia campanha, levantou
subscrição para a compra de radium destinado aos hospitais ingleses e, no curso da II Guerra
Mundial, recebeu e canalizou para o fundo da Cruz Vermelha contribuições que atingiram
formidáveis somas.
Nos Estados Unidos, a campanha movida por vários jornais norte-americanos contra as
roletas mecânicas suscitou em diversos Estados um movimento de opinião que e traduziu na
formação das “Ligas de Melhor Govêrno”. Sob a pressão conjugada da imprensa e das Ligas, as
autoridades viram-se obrigadas a tomar medidas para pôr termo à jogatina. 99
Entre nós, algumas memoráveis campanhas de imprensa têm resultado em assinalados
benefícios à coletividade, levando governos e instituições públicas e privadas à ação. Como a da
aviação civil e a dos postos de puericultura, de âmbito nacional, encetadas pelos “Diários
Associados”; a da luta contra o mocambo, em Pernambuco, promovida pela “Folha da Manhã”,
do Recife, que teve repercussão em todo o país, criando uma autêntica consciência contra a
habitação miserável e levando o Estado a organizar departamentos especiais para enfrentar o
problema, tais como o “Serviço Social Contra o Mocambo”, em Pernambuco, e a “Fundação da
Casa Popular”, autarquia federal; a cobertura em que se empenhou tôda a grande imprensa
brasileira nos últimos dias de vida e missão do médico paraibano Napoleão Laureano, vítima do
câncer, e que redundou na disseminação de hospitais, clínicas e serviços de assistência aos
portadores dêsse mal, em quase todos os Estados.
Jornalismo e Direito — Argüe-se, todavia, que nem sempre o jornalismo atinge à sua
finalidade: a promoção do bem comum. Infortunadamente esta é a verdade. Mas, pergunta-se;
qual a instituição humana que não está sujeita a erros e imperfeições? “O que não padece
dúvida, entretanto, é que o periodismo, como tôda atividade humana no convívio social, tende
fatìdicamente para um dêstes dois polos: para a degenerescência ou para o aperfeiçoamento. E
esta tendência incoercível impõe, como reativo enérgico, urgente, indispensável, o princípio e
aplicação da responsabilidade no jornalismo; o qual, em virtude dela, irá perdendo
definitivamente o seu feitio individualista, os seus caprichosos rumos pessoais ou de grupo, para
ser, como de fato há de ser, um “serviço público”.. . Os que fàcilmente enxergam os seus erros,
fecham obstinadamente os olhos para não ver os seus serviços, para não reconhecer os seus
méritos; os quais se hão de contar pelos males que evita, pelos crimes que previne, pelas
99
Horácio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 145.
malversações que malogra, pelos interêsses que, sem ela (a imprensa) seriam sacrificados,
pelos direitos e pelas regalias que, à sua revelia, seriam postergados.” 100
Seria um contrassenso, portanto, esperar que o jornalismo se constituisse num corpo de
doutrina ou num programa de ação isento de êrro. Já porque não se destina a executar o bem
comum, mas a advertir e orientar a opinião para que esta, informada e consolidada, o promova;
já porque tôda a obra jornalística tem a sua base nos fatos correntes, que constantemente se
renovam e alteram, na aparência sem nenhuma coesão entre si; já porque o seu campo abrange
todos os setores da atividade humana e já porque se dirige a tôdas as classes e categorias
sociais — o jornalismo, pela sua própria natureza, é realizado simultânea ou imediatamente após
a ocorrência dos fatos, o que não oferece margem a uma perfeita inferência da uas
repercussões. Por outro lado, a obra periodística é vasada em linguagem ao alcance de tôdas as
inteligências, o que lhe confere um caráter mais de advertência do que de convencimento. “O
jornal, por sua própria natureza tão heterogêneo, não tem geralmente doutrina própria; só serve
às alheias; não se dirige tanto à inteligência como à vontade humana, porque, no fundo,
interessa-lhe menos assinalar motivos para convencer do que preparar um clima propício à
ação, utilizando nesta emprêsa todos os recursos psicológicos da propaganda.” 101
Dai, sòmente tomado como uma ênfase, é que se poderá considerar a imprensa como
um “quarto poder” do Estado, uma vez que lhe faltam a autoridade, baseada no reconhecimento
pela lei, e a fôrça, isto é, a capacidade de fazer cumprir as suas decisões. “Sendo o espêlho de
todos os movimentos de opinião, de tôdas as concepções políticas e econômicas, a imprensa os
reflete, modificando às vêzes as Proporções das fôrças em jôgo.Corrige, assim, a lei
democrática do número, permitindo ao talento expressar-se com mais intensidade. Por êsse fato,
seria abusivo dar-lhe o caráter de um órgão constitucional, permitindo à opinião pública como tal
expressar-se. Pertence a outros corpos desempenhar êsse papel.” 102
As tentativas que se têm feito para transformar a imprensa num “serviço público”tomada essa expressão na sua verdadeira acepção jurídica, como aquêle que a administração
pública presta diretamente ou por meio de concessão para a satisfação concreta de algumas
necessidades coletivas — têm tôdas redundado em limitações e contrafações dos atributos
essenciais do jornalismo. Assim ocorreu no Estado Hitlerista, para o qual o govêrno não se
deveria perturbar “pelo. brilho da chamada liberdade de imprensa e deixar-se levar à falta do seu
dever ficando a nação com os prejuízos... Êle deve, com decisão implacável, assegurar-se dêsse
meio de esclarecimento e colocá-lo a seu serviço e no da Nação.” 103 “ O mesmo sucedeu com o
fascismo: o próprio Mussolini definiu a posição do jornalismo, face ao Estado Fascista, em
discurso pronunciado a 10 de outubro de 1928, sob o tema: “II giornalismo come missio ne”: “Em
um regime totalitário... a imprensa é um elemento dêste regime e uma fôrça a serviço dêste
regime... Partindo desta indiscutível realidade, tem-se imediatamente uma bússola de orientação
para o que concerne à ação prática do jornalismo fascista: evita-se o que é prejudicial ao regime;
faz-se o que é útil ao regime.” A Constituição Soviética de 5 de dezembro de 1936 garante a
liberdade de imprensa, porém “de conformidade com os interêsses dos trabalhadores e com o
fim de fortificar o regime socialista” (art. 125) e Stalin, em discurso comemorativo do jubileu da
Revolução Soviética, em 5 de novembro de 1927, assim exprimiu a sua opinião sôbre a
liberdade de imprensa: “Não temos liberdade de imprensa para a burguesia, para os
“mencheviscks” e para os socialistas. Não estamos absolutamente empenhados em dar
liberdade de imprensa a tôdas as classes.” 104
Altino Arantes — Imprensa Política — São Paulo, 1951 – pág. 10.
Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pág. 10.
102 Jacques Bouruin – La Liberdade de Prensa – Buenos Aires, 1952 - pág. 143.
103 Hitler – Minha Luta
104 Michel Potulicki – Lê Regime de la Presse – Paris, 1929 – pág. 100.
100
101
Um dos exegetas do jornalismo espanhol dos nossos dias escreve: “A Imprensa é uma
instituição a serviço da Pátria. Nestas poucas palavras condensa, a nova Lei do Jornalismo (22
de abril de 1938) a idéia que se deve formar do jornal. Ë uma instituição, como o organismo
militar e o poder judiciário, a serviço da nação. Nem mais nem menos. Uma das tantas
organizações ou braços de que pode e deve servir-se o Estado para o govêrno e
engrandecimento da Pátria. Em virtude dêste princípio, tem o Estado o dever e a obrigação de
intervir na criação e funcionamento da imprensa periódica, vigiando os seus passos para que
não se converta em arma de destruição o que deve ser o baluarte da segurança nacional.” 105
“Em Portugal, a Constituição salazarista de 1933 declara, no seu art. 23, que “a
imprensa exerce uma função de caráter público”; por isso, ainda de conformidade com o mesmo
artigo, nenhum jornal pode recusar-se a inserir os comunicados oficiais remetidos pelo Govêrno.
Por outro lado, o art. 22 estabelece também que o Govêrno defenderá a opinião pública contra
todos os que procurem desviá-la da verdade, da justiça, boa administração e do bem comum...
No art. 8.°, § 2.°, estabelecido que leis especiais regularão o exercício da liberdade de
expressão do pensamento; e que essas leis preventistas e repressivas impedirão que a opinião
pública possa ser pervertida. Tendo em vista êsses objetivos, a ditadura salazarista instituiu a
censura prévia em tôdas as publicações...”106
A Carta Constitucional do Brasil, de 1937, que instituiu a ditadura estadonovista, também
não fugiu ao diapasão doutrinário do totalitarismo ao declarar que “a imprensa exerce uma
função de caráter público... nenhum jornal pode recusar a inserção de comunicados do govêrno
nas dimensões taxadas em le i” (art. 122, n. 15) ; em 1939, o Decreto-lei n. 1.049 dispunha em
seu art. 2.0: — “Aos jornais e quaisquer publicações periódicas cumpre contribuir, por meio de
artigos, comentários, editoriais e tõda espécie de noticiário para a obra de esclarecimento da
opinião popular em tôrno dos planos’ de reconstrução material e de reerguimento nacional” e,
para êsse fim, criava o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), destinado a controlar e
censurar as publicações periódicas107.
Os regimes jurídicos e políticos totalitários, reconhecendo a fôrça promocional do
jornalismo, utilizam-no corno veículo de propaganda, quando não o transformam em uma das
enrenagens do Estado, porta-voz do próprio Estado nas questões essenciais. Assim, por
exemplo, não se admitirá que um órgão da imprensa totalitária se manifeste contràriamente a
uma ação bélica do país ou tolere crítica à sua posição na política internacional; o que não se
processa na inprensa dos países de regime liberal-democrático, onde a crítica é a mais
ilimitada108. É que “para o Estado ditatorial, (seja fascista, comunista, militarista ou caudilhista,
pouco importa a sua forma), a imprensa não pode deixar de ser serviço público, declaradamente
ou não, porque a liberdade de opinião dos indivíduos ou das minorias políticas desaparece
necessàriamente, absorvida pela conveniência ou pela fôrça dos governos. Reciprocamente, no
Estado Democrático, seja êle monárquico ou republicano, parlamentar, presidencial ou diretorial,
a imprensa não pode nunca ser serviço público, precisamente porque lia se torna o veículo
insubstituível das liberdades individuais e políticas, que são a condição mesma da existência da
democracia: liberdade de fiscalização e de crítica; em suma, liberdade de oposição aos
governos.”109
O fim dramático ou melancólico das legislações restritivas ao pleno desenvolvimento da
missão jornalística demonstra, irretorquivelmente, que as sociedades, em cada época colocadas
Fray Santos Quirós – Código del Periodismo – Cadiz, 1942 – pág. 41.
Rui da Costa Antunes – Direito Penal da Imprensa – Recife, 1954- pág. 59.
107 Vide nota 137.
108 Exemplo dessa amplitude de crítica, nós próprios o testemunhamos, em Londres, em 1956, quando o jornal de
fhalor circulação do mundo — o Daily Mirror — encetou violenta campanha contra a atuação do govêrno britânico na
questão de Suez, chegando ao ponto de tenominsr a ação militar desenvolvida no Egito como “a guerra de Eden”,
conto se nada ligasse os interêsses do povo britânico à decisão do Ministerio Anthony Eden.
109 Afonso Arinos de Meio Franco — Pela Liberdade de Imprensw — Rio, 1957 — pág. 99.
105
106
diante de problemas e aspirações novas, não podem dispensar e concurso da fôrça de
promoção da imprensa livre, o que levou Hans von Eckardt a escrever: “Na atualidade,
possuimos um Direito que desconhece a política moderna e a estrutura das relações de poder;
possuimos Constituições tão impraticáveis como bem intencionadas e tão insustentáveis como
insuficientes; defendemos ideais antiquados em que ninguém crê já e discutimos fórmulas que
perderam o seu sentido.”110
Justamente porque as suas informações e conceitos são desprovidos de caráter
imperativo, de poder de decisão, e porque nascem do contato com a realidade, é que o
jornalismo desempenha missão política e social de tão elevada importância. Essa missão se
desenvolve visando as seguintes metas: lA —- informar tão objetiva e verdicamente quanto
possível ao público; 2A — contribuir para a elaboração da vontade popular;
servir de meio de expressão à opinião pública. Cumprindo êsses itens, o jornalismo está
exercendo uma função subsidiária vital do Direito, quando exige o seu respeito mesme se a lei
emudece ou quando reclama, à base dos sentimentos progressistas do povo, a troca de normas
jurídicas já consideradas antiquadas, contraproducentes ou iníquas.
Assim, as relações entre o Estado e o Jornalismo apresentam o seguinte paradoxo: o
Estado perde o seu poder, mais. cedo ou mais tarde, quando visa transformar o jornalismo numa
instituição sua; e ganha em estabilidade e segurança, quando subordina a sua fôrça ao poder
sem fôrça do jornalismo livre e veraz. Porque, como o observou Jules Pigasse, “sòmente pela
verdade pode-se realizar o difícil equilíbrio entre a autoridade, que faz os governos fortes, e a
liberdade, que torna. os povos felizes.”111
Jornalismo e Opinião — Costuma-se classificar o jornalismo, do ponto de vista da sua
característica promocional, em de opinião e de informação. Propomos, entretanto, uma outra
nomenclatura como mais adequada ao espírito do jornalismo moderno: jornalismo eclético e
ideológico. E o fazemos porque “qualquer frase jornalística, por mais anódima que pareça,
sempre inclui um juízo e, por conseguinte, olhado o assunto dêste ângulo, não haveria senão
órgãos de op\hião, e a diferença entre êles seria de grau e jamais de natureza.”112 Aceitando
essa premissa, consideramos que os órgãos ditos de informação promoveriam a opinião pública
tanto como aquêles que, enquadrados num sistema filosófico, numa corrente política ou numa
linha doutrinária, subordinam as suas conclusões sôbre os fatos aos princípios adotados, à sua
função rectora.. E talvez mais, porque da observação constante do jornalismo atual podemos
concluir que os fatos, se em que inspirados pela reflexão do homem, é que governam os povos,
conduzindo-os à ação. E não foi outra a conclusão a que chegou um dos participantes do 1
Congresso Panamericano de Jornalistas, reunido em Washington, em abril de 1926, sob os
auspícios da União Panamericana: “não é a página editorial que agora governa as idéias, porém
o modo como se recolhem, escrevem e selecionam as notícias.”113 Não faz muito, diante do
Instituto Internacional da Imprensa, Salvador de Madariaga contou que o chefe de um grande
serviço de imprensa americano, respondendo a uma questão, lhe disse: “Não queremos artigos
de pensamento.” Um outro confessou: “Eu não cuido de publicar editoriais, porque os títulos são
os meus editoriais.”114
Os veículos jornalísticos “independentes e noticiosos” dos nossos dias não renunciam ao
direito e ao dever de opinar, salvo quando exageradamente mercenários; ao mesmo passo, os
órgãos predominantemente opinativos, têm de ser imparciais e exatos no relato dos fatos, dos
quais extraem as suas deduções doutrinárias, porquanto, conforme o axioma da profissão — a
110 Hans
van Eckardt — Fundamento de la politica — Santiago.. 1947 — pág. 137.
Jules Pigasse – obra cit. – pág. 41,
112 Horacio Hernandez A. — Obra cit. — pag. 57.
113 Atas do Primeiro Congresso Panamericano de Jo’nahstas — Washington, 1926 — pág. 59.
114 Conforme Jacgues Kayser — Presse et Opinion in L’Opnuon Pubilque — Paris, 1957 — págs. 232-233.
111
informação é sagrada e o comentário, livre. Ocorre que o público olha como suspeito, parcial, ao
veículo jornalístico que se declara abertamente filiado a uma corrente ideológica ou a um partido
político. Por isso, “diversos jornais, tendo em vista obter uma clientela maior, camuflam a sua
verdadeira tendência. Antes da guerra de 1914, os jornais desfraldavam sua bandeira,
proclamando sua orientação pelo nome ou em sub -título que o acompanhava. Hoje, os jornais
indicam apenas: jornal de informação. .. órgão republicano de informaçao. Mesmo a maior parte
dos jornais comunistas quotidianos jexe]uem do seu título ou do seu sub-título, em destaque, o
que poderia deixá-los aparecer como comunistas. O jornal comu.nista de Bordeaux e o jornal
conservador de Clermont Ferrand se apresentam, um e outro, como jornal republicano de infor-.
inação.”115
Diante dessas ponderações, parece-nos mais preciso falar ‘de um jornalismo eclético —
aquêle que não subordina os seus juízos a uma determinada doutrina, registrando os
acontecimentos e como que nêles pondo as inferências acaso extraidas; e de uru jornalismo
ideológico — aquêle que possui um complexo de idéias que visa difundir e sob cujo crivo faz
passar todos os seus julgamentos e opiniões. No primeiro caso, o fato é colhido, escolhido e
exposto com maior ou menor ênfase e o comentário foge a qualquer rigidez ideológica, variando
de acôrd o com as tendências ou exigências do público, num determinado momento histórico. No
outro, a predominância é da orientação clara, direta, inflexível, apaixonada e, por vêzes, mesmo
agressiva. Essas modalidades do jornalismo indepen‘dem dos veículos de que se utilizam: tanto
surgem na imprensa diária e periódica como no rádio, na TV e no cinema. Há, entretanto, certos
gêneros de divulgação em que o ecletismo e ideologismo jornalístico se manifestam
inequivocamente. O conhecido “magazine” norte-americano Seleções do Reader’s Digest é um
órgão da imprensa tìpicamente eclético e a sua própria tendência atual anti-comunista nada mais
reflete do que o estado de espírito do seu público diante do conflito oriente versus ocidente. A
imprensa religiosa, por seu turno, desde o Osservatore Romano, do Vaticano, até o Christian
Scienee Monitor, de Boston, constitui exemplo frisante do jornalismo. ideológico, visando um fim
pré-estabelecido, e sujeitando tôda a sua política editorial aos princípios religiosos, morais e
sociais do catolicismo ou do cientificismo cristão de Mry Baker Eddy.
No Brasil, salvo quanto à imprensa comunista e aos diários e periódicos religiosos, bem
como a uma estação de rádio adquirida pelos adeptos de um sistema filosófico recente,116 o
jornalismo eclético é o mais praticado e o de maio penetração e influência na coletividade.
Típicas dessa orientação do jornalismo brasileiro são as posições tomadas diante das
campanhas do monopólio estatal com referência exploração do. petróleo, antes repudiada pela
grande imprensa e abraçada e aceita pela mesma depois do fato consumado da fundação da
Petrobrás,117 e do nacionalismo econômico, que vai dia a dia derrubando as antigas barreiras da
reação e consolidando uma inexpugnável posição nas esferas políticas e administrativas — o
Essas considerações de Jacques Kayser, no texto citado na nota anterior, também podem ser feitas quanto à
imprensa brasileira, notadamente à comunista, cujos principais ‘Srgüos foram fechados pelo próprio partido na
ilegalidade, sob o argumento de que estavam por demais identificados como comunistas.
116 A Rádio Mundial do Rio, adquirida em 1955 pela Campanha da. Boa Vontade, movimento filantrópico de fundo
místico, criado pelo ndialista Alziro Zarur, cuja meta inicial foi efetivar o primeiro dos nove objetivos da Associação
Brasileira de Cronistas ltadiofônic4s: “interpretar o pensamento, as aspirações e os reclamos, a expressão cultural e
cívica do povo brasileiro”, utilizando e dignificando o rádio. Alziro Zarur, hoje inteiramente dedicado à Campanha
que criou, assim definiu para o Anuário. de Rádio, em 1954, o seu movimento: “Confiei minha vida inteiramente a
Deus para dedicá-la inteiramente a essa obra de solidariedade humana,. em nenhum sectarismo religioso, politico
ou social. Os homens e as instituições que têm recursos estão sendo convocados a ajudar a Camparâ’ da Bõa
Vontade por um Brasil Melhor. Que todos se lembrem, a tempo,. de que no mundo nada é nosso, nem mesmo o
nosso corpo. Nosso, verdadeiramente nosso, é o bem ou o mal que fazemos e que vai conosco para a Eternidade.
Na hora da morte é que se vê que ninguem é dono 4e coisa alguma nesta terra...”
117 Sigla da companhia estatal — “Petróleo Brasileiro 5. A.” - através da qual o Estado efetiva a exploração tio “ouro
negro” em todo o territorio nacional, com caráter monopolista.
115
que leva o nosso jornalismo eclético, até ontem alheio e restritivo, a adotá-lo e apregoá-lo,
através não sàmente de um vasto noticiário como de reportagens, crônicas, editoriais na
Imprensa, filmes documentários e programas de rádio e televisão.
TERCEIRA PARTE
OS AGENTES DO JORNALISMO
Contém:
O PÚBLICO
O Público, Agente Ativo
Balanço do Trabalho do Público-Agente
O EDITOR
O Editor Financista
O Editor Idealista
O Estado Editor
O Estado, Editor Idealista
O TÉCNICO
Fase da Manufatura
Fase da Mecanofatura
O Problema da Automatização
Jornalismo e Automatização
O JORNALISTA
A Vocação do Jornalista
A Curiosidade Comunicativa
A Fecundidade Jornalística
A Objetividade
A Discrição
O Senso Estético
Através de tudo quanto ficou dito até aqui, constatamos que o jornalismo tem a sua
causa e o seu objeto no organismo social. Nenhum povo, nenhuma coletividade dispensa o
jornalismo. Sem a informação e a orientação que o jornalismo trans- mite, a vida social seria
impossível e o próprio Robinson Crusoé, lo go que se pôs em contacto com “Sexta-Feira”, entrou
a tentar informar-se e transmitir-lhe informações, a fim de que lhe fôsse possível viver em
harmonia com êle. O jornalismo é feito, pois, do público e para o público.118 E também, como o
verificaremos a seguir, pelo público. O que equivale a dizer ue o público é um dos agentes do
jornalismo, como o são o (ditar, o técnico e o jornalista.
O PÚBLICO
De acôrdo com as manifestações jornalísticas, o público pode ser leitor, ouvinte ou
espectador. Em qualquer dessas atitudes, o público deseja ser informado, distrair-se, emocionarse, receber orientação e oferecer o seu contributo à realização periodística. E neste último
enunciado está a atuação do público, exercida consciente ou inconscientemente, mas efetivada
com absoluta constância e sem exceção. Comprando os periódicos, pagando os ingressos de
cinema, adquirindo aparelhos de rádio e televisão, satisfazendo as exigências fiscais para o
pagamento de taxas pela posse de receptores ou concorrendo, quer como anunciante, quer
como assinante ou acionista para manutenção e desenvolvimento dos veículos jornalísticos, o
público está sufragando as despesas do jornalismo e, conseqüentemente, cooperando
decisivamente na obra periodística. Essa espécie de cooperação do público, limitada ao aspecto
econômico, nós a chamaríamos de passiva.
Vale observar que a passividade do público não é absoluta, pois, quando por qualquer
motivo não lhe agrada o jornal, a emissora de rádio ou de televisão o decepciona, nem sempre
se limita a deixar de comprar o primeiro, ouvir ou anunciar nos demais. Escreve, muitas vêzes,
ao editor ou comparece às redações e sedes das emissoras para fazer o seu protesto, em certos
casos chegando mesmo à violência, depredando, empastelando, incendiando, destruindo as
máquinas que tornam possível a existência e funcionamento do veículo informativo. As
manifestações de protesto e aplausos também podem ser fàcilmente constatadas nas salas de
espetáculos, durante as exibições cinematográficas de jornais de atualidades. As platéias
aclamam ou pateiam vigorosamente; e o produtor que não atender a essas manifestações
correrá o risco de ser forçado a suspender as suas atividades, pois não encontrará exibidores
dispostos a arriscar o seu patrimônio, irritando o público.
O Público, Agente Ativo — O público, contudo, é também agente ativo, quando a sua
contribuição é intelectual e direta, o que ocorre com maior freqüência do que se pensa,
especialmente na imprensa, no rádio e na televisão.119 É o caso dos repórteres amadores,
daqueles que estão constantemente a informar às redações e emissoras fatos e ocorrências do
seu conhecimento, a fornecer fotografias e desenhos sem nenhum intuito de ganho ou interêsse
“Uma nota de música existe, apenas, quando há um público sensrve para escutá- la. As notas podem ser
impressas, a orquestra toca-as, mas sem público para ouvi-las elas não vivem, não são completas. Fica anenas um
som difundido sem receptor. O caso do jornal é idêntico: as coisas acontecem, os repórteres escrevem, rotativas
rolam e as bancas se abarrotam com as fôlhas do dia. Mas tudo será em vão se não houver leitores ávidos para
ficar a par dêsses acontecimentos e saber as interpretações e opiniões dos redatores.” — Rod W. Horton — Art.
citado — Comercio, Recife, O-12-57.
119 O leitor não é, apenas, um complemento econômico ao funcionamento da imprensa; é também parte das
implicações filosóficas e morais do têrmo... porque além dos Georges E. Babbits, há os leitores inteligentes e
agudos que constam, segundo a minha estimativa, em cere, 20% da circulação. É êsse grupo que não se pode
decepcionar, que conhece todos os truques e sente tôdas as distorsões de preconce debate interessado.
Constituem uma censura moral porque são dos e são articulados e são capazes de escrever cartas corruscantes à
redação injusta. — Rod W. Horton — Art. Cit.
118
profissional, tão sòmente para atender àquela ânsia de transmitir novidades ou a sua própria
“visão” dos sucessos aos veículos jornalísticos. São êsses amadores que cooperam de boa
vontade nas enquêtes, nos concursos e certames, nas mesas-redondas do rádio e da TV,
funcionando como extras ou informantes gratuitos.
É também o caso do reclamante, do redator da “carta dos leitores”, do produtor da
“opinião do ouvinte”, dos correspondentes voluntários, que noticiam, comentam, criticam,
apelam, denunciam e opinam sôbre tudo quanto ocorre na sua rua, no seu bairro, na sua cidade,
sôbre os temas e problemas em foco. Por vêzes, êsse tipo de agente do jornalismo chega,
mesmo, a pagar para a divulgação das suas informações. Por exemplo, quando enche as
colunas ou preenche o tempo de emissão radiofônica com notícias de óbitos, de aniversários, de
casamentos, de acontecimentos de interêsse de um mais limitado círculo de indivíduos que
constituem o público. Dêstes agentes do jornalismo é que Gilberto Freyre, em prefácio a uma
“plaquette” de Amaro Quintas,120 se ocupou ao salientar a importância da sua colaboração,
inclusive através dos pequenos anúncios, cuja “utilização sociológica alcançou já uma amplitude
nos estudos brasileiros de ciência social sôbre base histórica, que talvez marque uma das mais
nítidas contribuições nacionais ara os modernos estudos de sociologia ou antropologia social de
história sociológica. Pois não se trata de simples utilização sociológica ou antropológica dos
anúncios de jornal pelo que êles trazem de substancialmente valioso ao pesquisador do sacio do
homem ou da realidade social do Brasil — ou de qualquer pala ou região — a procura
simplesmente de fatos pelo que apresentam — além dessa riqueza de substância de formas de
sentimento, formas de expressão, formas de linguagem. Isto é, daquela linguagem de compra,
de venda, de sedução do comprador pelo vendedor, de apêlo do proprietário ao público, de
descrição exata do homem explorado pelo homem explorador, de reclame de coisa ou de animal
possuido — móvel, casa, papagaio, cavalo, carruagem, vestido, sapato, etc. — pelo possuidor,
em que a realidade social se reflete de modo mais puro que noutras linguagens; e em que se
definem não só objetiva como subjetivamente mil e uma relações não apenas entre pessoas
como entre pessoas e coisas e animais.” Dois exemplos recolhidos nesta preciosa “plaquette” do
historiador e professar pernambucano são suficientes para comprovar as conclusões de Gilberto
Freyre. Sôbre “o critério didático usado no ensino da história no curso primário”, o seguinte
anúncio inserido no “Diário de Pernambuco” de 2 de setembro de 1851:
“Vendas, para as escolas. Vende-se no pateo do collegio, loja de livro azul a sinopsis do general
Abreu e Lima, ultimamente adoptada pelo Exmo. presidente da provincia como compendio de
leitura e historia do Brasil nas escolas primarias. Preço em brochura — 2$560; preço
encadernado — 3$200”, a que Amaro Quintas ajunta o comentário: “Avaliamos o esfôrço intenso
desenvolvido pelas crianças de então para conseguirem apreender a evolução do nosso
passado em um livro que fugia inteiramente às normas pedagógicas exigidas por um manual de
classe” (págs. 17-18). Sôbre a carestia de vida e desvalorização da nossa moeda: No “Diário
Novo”, de 22 de dezembro de 1844, alguém brada: “Estando geralmente hoje todos os gêneros
por um preço quase duplo, e custando alguns mais ainda; sendo a nossa moeda inteiramente
fraca; tendo-se augmentado os valores de quasi tôdas as mercadorias...“—(pág. 24).
Através das reclamações, das cartas dos leitores ou rádio-ouvintes, dos apelos e
denúncias dêstes agentes em programas televisados é que se tem podido, em muitos caso,
apurar as reais condições de países e regiões submetidas é um regime de censura e restrições à
liberdade de informações. Grandes escritores se têm revelado ao mundo intelectual escrevendo
para as seções “solicitadas” ou de queixas da imprensa. Como ocorreu entre nós com Monteiro
Lobato, ao redigir uma carta sôbre a devastação das matas pelas “queimadas”, remetendo-a a
“O Estado de São Paulo”, carta que marcou o início da sua brilhante e atuante carreira
intelectual. Ou com o romancista Graciliano Ramos, ao elaborar um relatório sôbre a Prefeitura
Amaro Quintas - “Notícias e anúncios de jornal” — _ Recife,. de Documentação e Cultura da Prefeitura Municipal
de Recife.
120
de Palmeira dos Índios, publicando-o no Diário Oficial das Alagoas. Ou, ainda, de certo modo;
com Gilberto Freyre, ao publicar no “Diário de Pernambuco”, edição comemorativa do centenário
de sua fundação, um pequeno ensaio de que resultaria a obra “Casa Grande & Senzala”, ponto
inicial dos estudos sociológicos que o tornariam conhecido e ilustre em todo o mundo.
Pois, na verdade, outra classe de ag entes do jornalismo, que fazem parte do público e
como público permanecem, são os colaboradores não remunerados, os poetas, os artistas, os
dentistas, os técnicos e “experts” em todos os ramos, que escrevem sôbre a sua especialidade,
que concedem entrevistas, que pronunciam conferências distribuindo súmulas à imprensa ou
falando diante de microfones e transmissores de TV ou dos aparelhos de filmagem de
atualidades. E, ainda, os autores de relatos especiais sôbre feitos e realizações que os tornaram
“nomes que fazem notícias”: um Príncipe Yussupov narrando como matou Rasputin, uma Edda
Mussolini escrevendo as suas memórias, um Caryl Chessman detalhando os seus crimes, os
caminhos que trilhou e que o levaram à cela da morte de San Quentin. A princípio, êsses
agentes do jornalismo eram, na sua totalidade, desinteressados de retribuição financeira; em
face, porém, do êxito obtido pela publicação de tais relatos especiais (que também são
radiofonizados, levados ao écran da TV e às películas cinematográficas, freqüentemente)
entraram a funcionar agências especializadas, que adquirem direitos sôbre essas colaborações
e as vendem aos veículos jornalísticos.121
Devemos incluir, por último, como agentes do jornalismo nesta categoria, e dos mais
assíduos, os organismos estatais, as entidades associativas, os sindicatos de classe, os partidos
políticos, as igrejas, as emprêsas privadas através dos seus departamentos de relações
públicas, que estão constantemente a divulgar comunicados, “notas oficiais”, estatísticas e
avisos, nos quais expressam atitudes ou formulam manifestações para esclarecer certos pontos
que, anteriormente, foram levados ao conhecimento público, retificando-os ou ratificando-os; ou
divulgam resenhas de reuniões e assembléias, nos quais se abordaram assuntos da atualidade;
ou, ainda, oferecem dados sôbre as suas atividades relacionadas com o interêsse coletivo.
Nesta modalidade de trabalho jornalístico estão incluídos os informes sôbre atos oficiais,
desenvolvimento do serviço público, horários e avisos diversos, previsões meteorológicas,
boletins de câmbio, cotações da praça e dezenas de outras matérias que os veículos de
publicidade divulgam sem permuta de dinheiro, mas atendendo ao interêsse de outras camadas
do público.
Balanço do Trabalho do Público-Agente — Pode-se asseverar, sem perigo de êrro,
que, em média, um sexto do trabalho jornalístico oferecido ao público pelos veículos de
divulgação (imprensa, rádio e TV) é de autoria e responsabilidade do próprio público. Tomemos,
por exemplo, um jornal de 24 páginas122 e sem muita dificuldade identificaremos quatro de
Porter & Luxon, referindo-se a êsses autores — aviadores, desportistas, artistas famosos do cinema, etc. —
descreem da sua repentina “vocaçao Literária” e lembram que, em alguns casos as agências designam,
redatores.fantasmas para compôr o relato do “nome famoso” que só faz assiná-lo — Vide “Manual dei Periodista” —
La Habana, 1943 — Págs. 361-362
122 O autor, ao escrever estas observações, analisou o exemplar do “Jornal do Comercio”, do Recife, edição de 22
de outubro de 1958, formato 63,5 x 36,0, identificando as seguinte matérias jornalísticas não redigidas pelo corpo de
jornalistas dêsse órgão da imprensa brasileira; 2a pagina — Secção Onibus — (um quarto de página); 32ª página
Nota oficial da “Escola de Engenharia de Pernambuco sôbre uma greve de alunos — (2 cole. x 25) resenha de uma
sessão da Associação di Fornecedores de Cana de Pernambuco, fornecida pelo “public relations” a tôda a imprensa
local — (2 x 20); 4ª página — Dados estatísticos sôbre o açúcar brasileiro, fornecidos pelo IBGE — (1 x 25); 5ª
página-Fotografia com texto- legenda de uma homenagem prestada em New York um jornalista, vencedor do Prêmio
Esso de Reportagem de 1957, distribuida pelo Esso Standard do Brasil. — (3 x 15); 6ª página — Diversas notícias
na secções “Registro” e “Assuntos Sociais” — aniversários, nasci mentos, conferências, óbitos, etc. — e uma
correspondência de leito, retificando informação, dada anteriormente pelo jornal — (um quarto 4 página) 12ª página
— Carta de uni “turfman” sôbre o seu afastamento de cargo na diretoria do Jóquei Clube de Pernambuco — (2 x 15)
14ª página — Seções: Noticias da Marinha, Associações, Gazeta Forens Pela Instrução (excetuando-se nesta um
121
matéria extra-redacional, distribuída pelas seguintes secções: informações diversas, sociais,
obituário, correspondência do leitor, notas econômicas, solicitadas e grande parte dos “pequenos
anúncios”, que se constituem — como já foi salientado - em autênticos retratos do momento e
das condições sociais e econômicas reinantes. Quer na parte do rádio, quer na do telejornalismo
— o ouvinte ou o telespectador interessado poderá igualmente apurar o tempo tomado pelo
público, verificando como é expressiva a sua colaboração à obra jornalística. Quanto ao cinema,
a percentagem será talvez menor, vez que a técnica periodística utilizada é mais complexa,
exigindo especialização e treinamento. E entre as características da atuação do público, como
agente jornalístico, estão a espontaneidade, a improvisação, o menor esfôrço, enfim.
O EDITOR
Sem editor (e nesta designação incluímos os proprietários e emprêsas proprietárias ou
concessionárias de rádio, televisão e cinema) não seria possível a existência e multiplicação dos
veículos periodísticos. Por isso mesmo, o editor, do ponto de vista da realização material, é o
principal agente do jornalismo. Na primitiva fase do jornalismo oral, na época do “praetor” e do
“ceryse”, o editor era o Estado ou um dos seus Poderes — Executivo e Judiciário;123 ao tempo
do jornalismo manuscrito, confundiam-se as figuras do editor e do jornalista; mais tarde, ao
surgirem as primeiras tipografias — e ainda hoje em muitas localidades menos desenvolvidas ou
mais apegadas às suas tradições — o editor era também jornalista e técnico, como tipógrafo o e
impressor; na atualidade, salvo casos excepcionais, o editor é uma personagem distinta dos
demais agentes jornalísticos, atuando no plano econômico-financeiro da obra periodística.
Foi a evolução da técnica, atingindo profundamente os processos de difusão e exigindo
a inversão de grandes capitais para o seu estabelecimento e manutenção, bem como criando
sempre novos veículos, a principal responsável pelo surgimento editor como uma figura com
caracteres próprios, emancipada dos demais agentes, ligando-os entre si apenas relações de
interêsse. Efetivamente, os meios financeiros exigidos para a realização do jornalismo
ultrapassam a capacidade individual, ao mesmo tempo que reclamam do editor um quase
desligamento de qualquer outro setor, senão os ligados à gerência industrial e comercial da
emprêsa. “Na França, atualmente, seguros observadores estimam que o capital necessário para
a criação de um jornal quotidiano se situa entre 500 milhões e 2 bilhões de francos. Um
quotidiano, que tira 170.000 exemplares, tem avaliadas em 822 milhões de francos as suas
despesas para o ano de 1953... O financiamento de um filme é uma operação completa, que
reclama um homem de negócios: em 1949 avaliava-se o preço de um “longa metragem” em 43
milhões aproximadamente. Quanto ao rádio e à televisão, o elemento técnico se conjuga aqui
com o elemento financeiro para reservar a emissão a um número de emprêsas estritamente
limitado.”124 Em face disso, muito raramente o editor é, hoje, um indivíduo; na sua generalidade,
representa um grupo, seja econômico, seja político ou filosófico, seja o próprio Estado.
O Editor Financista — Para a primeira categoria de editôres, que chamaremos
financista, jornalismo negócio, antes de mais nada. “São êles os que querem “fazer dinheiro”
comentário do redator), p da secção “Jornal da Praça” — Meia página; 19ª página — Secção “Uma caridade por dia”
e matéria sôbre artesanato no nordeste, distribuida pelo Departamento de Relações Públicas do Banco do Nordeste
do Brasil (um quarto de página); 23ª página — secção Repartições Públicas (3 x 25); e 24ª página — Nota sôbre o
uso moderado de m nas manobras militares próximas,, fornecida pela 7ª Região Militar ainda fêz incluir na 22ª
página, um convite a candidatos ao CE Preparação dos Oficiais da Reserva (2 x 25). Mesmo sem páginas de
pequenos anúncios, o trabalho do leitor agente apresentado na edição estudada ultrapassa a média calculada pelo
autor.
123 Quando estudarmos, adiante, a figura do Estado Editor, o leitor verificará que as manifestações modernas do
jornalismo oral continuam sob o controle dos governos, na maioria dos casos como um monopólio estatal.
124 J. Rivero — Techniques de formwtion de l’opinion ia VOpinion publique — Paris, 1957 — pág.
com o jornal, o rádio ou o filme, como o fariam com o petróleo ou os produtos químicos. Aqui,
nenhuma ideologia; um só objetivo — atingir o maior público para obter maiores dividendos.”125 A
sua ação é quase que limitada aos setores da publicidade, da circulação, das relações públicas.
No tocante à linha editorial, o ecletismo é o seu lema. Nesse sentido, é precioso o depoimento
de Henry Robinson Luce, editor de Time e Life e, falando a estudantes de jornalismo e membros
da Associação dos Proprietários de Jornais de Oregon.126 Dizia êle que o jornal americano típico
contém apenas 15 a 20 por cento de notícias, excluindo-se as colunas pessoais e sociais. O
resto é “entretenimento”, havendo pequena percentagem de notícias sérias. E indaga: “Por que
esta tendência ao divertimento e às “features”? Evidentemente — êle próprio responde — por
que é aí que reside a vantagem e por aí entram os lucros. Em minha vida, os jornais americanos
tornaram-se quase todos êles sérias emprêsas de negócios.” Figura, a seguir, a hipótese de
achar-se proprietário de um jornal americano típico e mostra como agiria: “Eu não prestaria a
mínima atenção a princípio às colunas de noticiário das páginas 1, 2 e 3. Preocupar-me-ia
principalmente com descobrir se o jornal dispunha ou não dos homens e mulheres que sabem
comprar boas historietas em quadrinho e as melhores palavras cruzadas. Observaria
cuidadosamente as páginas femininas, as páginas culinárias, as colunas de sociedade. Tentaria
publicar com a maior freqüência possível o nome de todo mundo na cidade — e os retratos
também. E, naturalmente, não diria uma palavra desagradável a respeito de ninguém, a menos
que a polícia tivesse pôsto pelo menos um pé do cidadão na cadeia. Quando achasse que tudo
isto estava sendo bem feito, então me permitiria o luxo de alterar o noticiário nacional e
internacional.”
Não cabe neste capítulo, escrito para situar a ação do editor na feitura dos veículos
jornalísticos, uma discussão circunstanciada do importante tema da sua influência na orientação
filosófica do jornalismo nêles praticado. Mesmo porque êste jornalismo financial, tendo a sua
base na publicidade, procura antes de tudo agradar ao público para aumentar a clientela. E
exclui, ou reduz ao mínimo, o pensamento, em proveito dos fatos, e êstes em favor dos
entretenimentos, de tudo quanto esteja à margem das preocupações quotidianas, do pitoresco,
do que entorpece os sentidos fazendo-os escapar às difíceis conjunturas da vida. Como já se
observou, “a questão se põe e saber se a publicidade tem uma influência direta sôbre a
imprensa. Pode-se decerto citar casos — entretanto muito raros que mostram que anunciantes
têm feito uma pressão direta sôbre jornais... Mas parece que êsses meios de pressão são cada
dia menos utilizados. Além de outras, uma razão pode ser dada: — o interêsse dos anunciantes
que pertencem, em sua maioria, ao mundo dos grandes negócios é da mesma natureza que o
interêsse dos proprietários de jornais, ligados também êles ao “big business”. É raro que o diretor
de urna grande emprêsa privada reprove a tendência social de um grande jornal ao qual distribui
a sua publicidade, porque o editor dêste jornal pensa como êle mesmo sôbre as relações com o
mundo do trabalho, sôbre os contrôles do Estado, sôbre os impostos. Dizer-se que há pressão, é
inexato; ela é inútil. Há, sim, uma coalisão permanente.”127 Isso não quer dizer que o editorfinancista não permita sejam focalizados nos seus veículos assuntos na ordem do dia, tomando
posição em questões que, no momento, agitam a opinião coletiva. Vimos128 que o faz,
notadamente quando o ponto de vista exposto já obteve a sanção da grande maioria da
coletividade e do próprio Estado. Também pode adotar um “código de ética” que, pela extensão
dos conceitos nêle inseridos, conferirá nobreza ao jornalismo praticado, como o aconselhou o
norte-americano Sheldon F. Sackett, falando sôbre a fundação, organização e administração de
um jornal independente: “Eu semp re admirei e fui inspirado e auxiliado pelo credo de Joseph
Pulitzer, o velho, deixado para o St. Louis Post Dispatch, quando abandonou o contrôle daquele
J Rivero — Obra cit. — pág. 119.
Conf. Wilson Velloso in Anuário da Imprensa, Rádio e Televisão - P.N. — Rio, 1958.
127 Jacques Kayser — Presse a Opinion — Obra cit. — pág. 285.
128 V. Capítulo precedente sôbre jornalismo ideológico.
125
126
jornal, em 1907, após criar o New York World. Tenho a intenção de pedir ao filho dêle licença
para usar no meu jornal essa afirmação de princípios. Quer transcrevê-la? Aqui está: “Sei que a
minha retirada não produzirá diferenças, quanto aos princípios cardiais; que o jornal sempre
lutará pelo progresso e a reforma; que sempre combaterá os demagogos de todos os partidos;
que nunca se filiará a nenhum partido; sempre se oporá às classes privilegiadas e aos
exploradores do público; nunca negará piedade aos pobres; sempre continuará dedicado ao bem
público; nunca se satisfará com apenas publicar notícias; será sempre ciosamente independente;
nunca temerá atacar o mal, seja a plutocracia predatória ou a miséria predatória.” 129
AJim de que o seu jornalismo não fuja ao principal objetivo (econômico-financeiro), o editorfinancista cerca-se de uma equipe de “experts” que orieffta e executa a sua colaboração: — a
informação e o comentário pagos por terceiros interessados e que a ética determina sejam
assinalados por características, tais como números e asteriscos no jornal; faixas sonoras
especiais no rádio; legendas ou “slogans” próprios no cinema e na TV. Nem sempre, porém, o
público encontrará esta “trade mark” no jornalismo do editor, que freqüentemente surge
camuflado: no çinema, como edição especial das atualidades; no rádio e na televisão como
programa de interêsse coletivo; nos jornais e revistas como matéria redacional. A maioria dos
“jornais cinematográficos” brasileiros está neste caso: uma instituição financia a realização da
película para a inclusão de cintas focalizando o seu trabalho, o seu negócio, o seu comércio,
entre outras de “atualidades” ou como documentário.
Pode-se constatar a veracidade desta assertiva nos filmes produzidos por Jean Manzon,
no nosso país. Fotógrafo e cinegrafista francês, Manzon iniciou a sua carreira no Paris Match e
teve destacada atuação na 2ª Guerra Mundial, no serviço cinematográfico da Marinha Francesa,
quando filmou, inclusive, a retirada de Dunquerque e foi condecorado por bravura no
desempenho de suas missões. Transferiu-se para o Brasil, onde passou a dirigir a seção de
fotografia do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), ao tempo da ditadura
estadonovista. Em seguida, participou do “staff” de “O Cruzeiro” e terminou por fundar a Jean
Manzon Films S.A. A emprêsa tem um patrimônio estimado em 12 milhões de cruzeiro s; atraiu
técnicos europeus para a sua “entourage”; cinegrafistas, locutores e jornalistas brasileiros
figuram no seu pessoal para filmagem, leitura e redação dos “scripts”, percebendo vultosos
salários. Um filme documentário de 30 minutos de projeção custa, em média, 600.000 cruzeiros
(cálculo de outubro de 1958) e o próprio Manzon confessa que a sua mais famosa realização,
“Samba Fantástico”, que representou o cinema brasileiro no Festival de Cannes, em 1955, tendo
êxito em todo o Inundo, custou-lhe cêrca de 1.500.000 cruzeiros, ainda não recuperados. As
produções de Jean Manzon, cujo número se eleva a mais de uma centena, excetuando-se a já
citada, são apenas exibidas no país e os direitos de distribuição que lhe são pagos pela União
Cinematográfica Brasileira (UC) são insuficientes para amortizar o investimento, tendo a
emprêsa de recorrer à publicidade: departamentos governamentais, organizações de economia
mista, sociedades privadas, como o Ministério da Viação, e Departamento de Obras contra as
Sêcas, a Petrobrás, as companhias de aviação.
Como agente, o editor não limita ao seu próprio veículo de publicidade o contributo na
realização jornalística pois êle, que recebe do anunciante e dêle se faz porta-voz, por sua vez
utiliza outros veículos para a sua propaganda, objetivando aumentar o seu próprio público. Além
de películas exibidas nos cinemas e televisadas,130 “slogans” informativos nas rádio-emissoras e
nos luminosos, cartazes e outros meios de divulgação, o editor é um agente destacado da
Publicidade & Negocios — Rio, ed. de 5-11-1957.
São numerosos os documentários sôbre grandes jornais e rádio- emissoras em todo o mundo. No Brasil, A.
Botelho Filme produziu uma curta- metragem sôbre “O Estado de São Paulo” e Jean Manzon uma outra sôbre “O
Globo”, exibidas com bôa acolhida no país e que sem dúvida constituíram excelentes meios de promoção para
aqueles diários. No Catálogo de Filmes do USIS ,para 1957, encontramos referência a dois documentários,
focalizando o funcionamento de um jornal independente em Littletown, Col. (“Small Town Editor” — P&B 18 mm) e a
labuta de um jornalista editor de um semanário no interior dos Estados Unidos. (“Country Editor” — P&B —17 mm.).
129
130
imprensa especializada em jornalismo e em “magazines” que possuem seções de notícias e
comentários sôbre essa atividade.131
O Editor Idealista — Quando o agente editor é constituido por, um grupo representativo
de uma corrente filosófica, ou política ou de uma atividade de produção (órgâos de publicidade
religiosos, político-partidários, de sindicatos de classes, de organismos científicos, etc.), o
jornalismo praticado objetiva criar no espírito público disposições favoráveis aotleno
desenvolvimento das suas idéias, do seu programa, dos seus interêsses ou das suas pesquisas.
Diretamente, êsse tipo de editor não deseja tirar proveito financeiro da exploração do jornal, do
rádio, da TV ou do cinema; intenta fazer crescer o número dos seus prosélitos, dos seus
correligio nários, dos seus associados, dos seus clientes, das elites que melhor entendam e
prestigiem o seu trabalho, do Estado que mais eficazmente proteja a sua atividade. E se bem
que a emprêsa reclame bases industriais e comerciais para a sua manutenção, o editor tem de
conter o seu senso de negócio e as margens do lucro dentro dos limites estabelecidos pela linha
ideológica, pelo campo doutrinário e político do organismo a que se filia ou serve. Daí
conferirmos a esta classe de editor a designação de idealista.
O editor idealista não se permitirá, no caso de o seu veículo de divulgação ser religioso,
aceitar publicidade de “cabarets” onde se exibem espetáculos de nudismo, ou fotografar,
televisar ou filmar mulheres semi-desnudas; promover concursos de beleza suspeitamente
destinados a exaltar a graça e a eugenia; dar relêvo aos “fatos diversos” — suicídios,
assassínios, escândalos; utilizar por conseqüência diversos dos expedientes para atrair o
público, que o editor-financista não tem escrúpulo em empregar. Não fará propaganda de outro
credo filosófico; não usará de subterfúgio para condenar aquilo que julga errado na doutrina
pregada pelos ministros de outros cultos; será inflexível no exigir do seu pessoal a mais absoluta
conformidade com os princípios religio sos e morais que o inspiram.132 Iguais restrições às fontes
normais de receita e atração pesam sôbre os órgãos editados por sindicatos ou associações de
classe, por grupos intelectuais, sociedades e sodalícios científicos ou artísticos: por sua própria
natureza, têm campo mais limitado, tanto no que se refere à publicidade como à popularidade.
Devem contar com prejuízos financeiros ou com o apêlo a contribuições extraordinárias do seu
público para competir e, por vêzes, para manter-se. A respeito dessas restrições e contingências
a que se subordinam os veículos empregados e realizados pelo editor-idealista, eis o que nos
ensinam Helio Hoeppner e Oswaldo Mariano 133 referindo-se à propaganda para um jornal de
emprêsa: “Deve-se aceitar uma publicidade consentânea com o grupo ao qual é dirigido o jornal,
levando-se em conta a cultura, o grau de educação, o nível intelectual e os níveis econômicos
dêsse grupo. Propaganda política, por exemplo, deve ser recusada in limine, pois nesse setor o
jornal de emprêsa deve manter-se dentro da mais rígida imparcialidade. Assim, notas elogiosas,
retratos e discursos de personalidades políticas devem ser recusados como matéria paga...
Embora não muito comuns no Brasil, onde atualmente se destacam apenas duas publicações no gênero:
Indicador dos Profissionais da imprensa, revista semestral de estúdos jornalísticos e defesa do jornalista, e o
Anuário da imprensa, Rádio e Televisão, editado pela Empresa Jornalística P.N. S/A, ambos no Rio — magazines
especializados circulam em todo o mundo com a maior aceitação. Entre êstes figuram Editor & Publisher, norteamericano, e o Intercontinental Press Guide, mensário editado para as Américas, em Havana, Cuba.
132 Órgão típico dessa orientação é o Christian Science Monitor, diário de Boston, cuja redação visitamos em 1954.
Já no título não esconde a sua linha doutrinária. Na última página insere diàriamente um artigo de três colunas, em
inglês e noutro idioma, sob o cientificismo cristão. Não se ocupa de escândalos ou crimes, imprimindo à materia
divulgada orientação religiosa. As “cartas do leitor” passam pelo crivo da redação antes de ser divulgadas. Possui
um dos corpos redacionais melhores e mais sérios da imprensa norte-americana e, por isso, as suas quatro edições
diárias (city edition para Boston e Mass; costa do Atlântico; Pacífico e região central do país e internacional) são
tidas na mais alta conta pelo publico de nível cultural mais elevado. Fato curioso é que todos os’ jornalistas e
gráficos dêsse órgão se abstêm de fumo e bebida, por questão’ de princípios religiosos.
133 Relio Hoeppner e Oswaldo Mariano — Seminário de Orientação de Jornal de Empresa SESI — São Paulo, 1967
— pág. 104.
131
Outra publicidade - que também deve ser recusada sistemàticamente, ou não deve ser pleiteada,
é a referente a clubes noturnos, clubes de jogos, cabarés... Nem todos os anúncios podem ser
aceitos em um jornal de emprê sa, o que comprova a necessidade de um exame rigorosa e de
um alto critério para a inserção de matéria paga em um periódico dêsse tipo.” Nem um órgão
literário se permitirá publicidade de sabão ou charque; nem um jornal científico, propaganda de
luvas de box ou bastões de críquete; nem em um magazine para crianças, matéria paga sôbre
instrumentos cirúrgicos ou máquinas de contabilidade.
O editor-idealista exercita nas emprêsas sob sua orientação aquela auto-censura de que
falavam Kimball Young e Paul Sollier,134 que não deriva de nenhuma fôrça externa própriamente,
mas do próprio temperamento e do prévio condicio namento sóeio.-cultural; que é um processo
psicofisiológico Psicossociológico, que se encontra em todas as esferas da ativi. dade humana,
individuais, coletivas e sociais, surgindo en várias condições e prOduZindo_se nos mais variados
domínios uma censura social, exigida pela necessidade de acomodação au grupo, que consulta
sem dúvida nenhuma os seus interêsses, mesmo materiais. Por isso é que, a rigor, não há
departamentos estanques entre a atividade do editor-financista e do editor-idealista, “entre os
grupos de interêsse e os partidos; há entrelaçamentos mais ou menos admitidos. Tal emprêsa
puramente financeira, que busca o proveito máximo, encontra-o pondo-se a serviço de tal ou
qual grupo de interêsse; estas ligações se operam por processos os mais diversos... As
ideologias não são sempre puras e os interêsses são por vêzes sinceros no seu consenso a tal
ideologia; há então tôda uma gama de matizes que não concorrem para clarificar o nosso
problema.”135 Casos há em que uma emprêsa jornalística, criada para informar e formar a
opinião, sem um definido propósito ideológico, descamba para um extremismo de princípios, que
passa a caracterizá-la como sectária. E, ao contrário do que se pensa, essa emprêsa pode
auferir grandes vantagens econômicas na nova posição assumida. A propósito, Carlos Lacerda,
diretor do vespertino Tribuna da Imprensa, do Rio, foi abordado pela reportagem da revista F.N.
sôbre a transformação operada naquele jornal, então “caracterizada menos como noticioso,
entregue ao dia-a-dia de maneira impessoal do que como um órgão de combate de sentido
panfletário.” Teve, então, o conhecido jornalista e editor, a oportunidade de fazer as seguintes
revelações: “A Tribuna da imprensa não se destina a ser um panfleto. Nunca se destinou a isso.
Naturalmente, a infiltração do panfleto no jornal resultou de uma fase de crise na da nacional.
Crise que continua.” Mas, além dêste motivo, outro fator — continua a revista — que o sr. Carlos
Lacerda aponta como justificativa do panfletarismo na Tribuna. Disse êle que “é mais fácil e
menos caro fazer um jornal panfletário do que um jornal baseado na notícia”, pois não se faz
jornal noticioso sem uma grande equipe de repórteres, redatores correspond entes e outros
profissionais.136 Êsse exemplo concreto e êsse depoimento autorizado permitem concluir que,
havendo um público sequioso de jornalismo e que deseja ver neste jornalismo um intérprete da
sua opinião e um manancial de informação, ao editor, para constituir-se num eficiente e vitorioso
agente jornalístico, cabe tão sòmente conhecer o seu metier para conquistar êsse público e
atingir os objetivos a que se propõe ao dedicar-se a esta atividade.
O Estado Editor — Ao contrário das demais categorias de editores, o Estado não visa o
lucro financeiro, nem o proselitismo ideológico. Utiliza os veículos de publicidade como um
“serviço público”, que deve ser prestado pela administração como qualquer outro, para satisfazer
concretamente a algumas necessidades coletivas, tais como: estar em dia com os atos
governamentais, os projetos de leis, os orçamentos, as estatísticas, as normas e regulamentos,
as sentenças e decisões da justiça, o planejamento e as realizações do poder público. E, ainda,
com a finalidade de pôr a serviço da comunidade instituições que, por si sós, o indivíduo ou
Kimball Young — Social Psychology New York, 1935 e Paul Sollier — La répression mentale — Paris, 1929.
J. Rivero – Obra cit. – pág. 120.
136 Publicidade & Negócios – Edição de 5-2-57.
134
135
grupo de indivíduos não poderia manter, já pelo astronômico montante das inversões, já pela
necessidade de um contrôle exigido pelos acôrdos internacionais, como é o caso do rádio e da
TV que, na maio ria dos países, se constituem em monopólios do Estado.137 Ora, o serviço
público, mesmo aquêle de natureza industrial, quando diretamente explorado pelo Estado, não
se destina a oferecer lucros; e se acaso os oferece, o “superavit” será reinvestido, ampliando-se
o seu alcance e melhorando-se as suas instalações, em benefício da coletividade. Na maioria
dos casos, os serviços públicos industrializados são deficitários; o ideal será que os seus
orçamentos tenham equilibradas as receitas e as despesas. Daí porque o Estado-editor não
pode, neste terreno, constituir-se num concorrente do cidadão ou dos cidadãos editôres, sob
pena de afetar a economia privada com perigosos reflexos no sistema econômico nacional.
Além do mais, o Estado não é sòmente, hoje, o detentor da autoridade política, é
também o grande redistribuidor da riqueza nacional, a fonte de concessão de subvenções diretas
ou indiretas; a éstes devoradores de dinheiro que são os jornais, o cinema, o rádio, êle pode
fornecer, e sômente êle, o seu alimento quotidiano, seja direta seja indiretamente. Na França,
atualmente, se se trata da imprensa, está ela na dependência de duas emprêsas públicas: a
Sociedade Nacional das Emprêsas de Imprensa, que administra a quase totalidade das oficinas
de impressão e as arrenda aos jornais por tarifas muito inferiores às tarifas normais; a Agence
France-Presse, que monopoliza as informações das quais êles vivem. Ora, a Agence FrancePresse recebeu, em 1951, uma subvenção de 2 bilhões e 300 milhões (francos), correspondente
à diferença entre o custo real das informações e o preço pelo qual os jornais as utilizam graças
ao Estado. Isto não é tudo: a Sociedade Profissional dos Papéis de Imprensa, que é o
agrupamento de compra pelo qual todos os jornais adquirem papel, recebe, também, do Estado
subvenções anuais muito vultosas. Ajuntai a isso as isenções fiscais que beneficiam a imprensa,
as reduções de tarifas postais consideráveis que lhes são atribuidas; avalia-se em 15 bilhões por
ano a ajuda do Estado à imprensa. O rádio e a televisão que são monopólios, vivem inteiramente
às suas custas. Para o cinema, a parte do Estado na França, no financiamento de um filme,
culculada em 45%.”138 Mesmo nos países em que as emprêsas jornalísticas (seja da imprensa,
do rádio, da TV ou do cinema) são exploradas por particulares, como nos Estados Unidos e no
Brasil, a sua economia é protegida pelo Estado, mediante isenções alfandegárias, taxas
cambiais especiais para aquisição de maquinaria e matéria prima, tarifas postais reduzidas,
dispensa de impostos, concessão de freqüências e canais, etc. Em cumprimento dessa tarefa de
proteção ao exercício do jornalismo é que o Estado tem controlado o provisionamento, o preço e
o consumo do papel de jornal, matéria prima da imprensa. Isso ocorre, como vimos acima, na
França; na Inglaterra, vai até à fixação do número de páginas dos jornais139; na Itália e nos
“A emprêsa de emissões não pode contar com nenhuma espécie de receita direta; o público do rádio ou da
televisão, desde que adquira o seu receptor, tem o direito de tornar-se gratuitamente auditor ou espectador de não
importa qual das emissoras do mundo. Assim, o financiamento da exploração não pode realizar-se senão por três
processos, ou seja: financiamento autoritário, com e pagamento de urna taxa devida por todo proprietário de
receptores; o financiamento voluntário pelos interessados constituidos em associações... ou o financiamento pela
publicidade, com a dependência que ela implica... Nos Estados Unidos, um dos raros países em que o rádio
permanece, em princípio, como negocio privado, havia, em 1955, 3.015 estações de potência a mais diversa; dois.
terços destas estações estavam filiadas a quatro rêdes, que centralizavam a publicidade de que viviam as diferentes
emissoras e que elaboravam elas mesmas os programas retransmitidos pelas estações:” — Conf. J. Rivero —
Techniques de formation de l’Opinion Publique in L’Opiniow. Publique — Paris, 1957 — pág. 118.
138 Conforme J. Rivero — Obra cit. — págs. 121-122.
139 Em 1956, segundo correspondência de Londres para a imprensa brasileira, firmada pelo comentarista Joaquim
Ferreira, tendo o governo extinguido o contrôle sôbre a importação de papel, os jornais ingleses travaram cerrada
polêmica sôbre a medida. Apenas The Tirnes defendeu o ponto de vista do que “o exercício da liderança política e
moral que a Grã-Eretanha ainda possa oferecer às nações depende, em parte, de terem os seus jornais meios de
desempenhar adequadamente as suas funções’ isto é, elevando o número de páginas até então limitadas a dez. Os
outros jornais, liderados pelo “Daily Mirror”, contestaram que a liberação do mercado de papel garantisse tais meios,
considerando que, ao contrário com o encarecimento do produto e a concorrência entre os jornais, vários
137
Países Baixos, o govêrno “mantem sempre restrições penosas sôbre o consumo, a fim de
assegurar a exportação de uma parte da produção nacional para países de moeda mais forte”; e
até nos países exportadores, onde os jornais recebem o seu papel segundo um sistema de
quotas, como na Suécia, “onde o racionamento é dirigido pela Comissão de Combustíveis,
conjuntamente com os diretores de jornais e as fábricas de papel”. 140
Se bem que o Estado, algumas vêzes, tenha exorbitado nesta função, chegando a tornar
impossível a circulação de órgãos da imprensa oposicionista pela exagerada restrição de quotas
ou total recusa de fornecer-lhes papel, o contrôle da matéria prima tem a sua razão de ser
naquêle protecionismo que a própria sociedade exige para os jornais, como porta-vozes da
opinião e veículos insubstituíveis de informação educação e cultura. Do depoimento prestado
pelo jornalista Carlos Lacerda perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito que, em 1953,
examinou as transações do Banco do Brasil com emprêsas jornalísticas, permitimo-nos
transcrever trecho em que a questão do papel é focalizada, tanto no seu aspecto positivo como
no negativo: “No tempo do DIP 141 o grande truque para controlar a imprensa foi o papel. Como
VV. Exas. sabem, o papel para a imprensa é importado por lei federal, com isenção de direitos
alfandegários. Se a imprensa tiver de pagar êsses direitos, não vive um mês. No tempo do DIP,
o que se fêz foi um decreto-lei pelo qual a isenção de direitos para a importação de papel de
imprensa ficava condicionada à maior ou menor colaboração do jornal com o regime então
vigente. É claro que os jornais tinham que se submeter a isso. Em alguns casos entravam
também o dinheiro, a intimidação e em outros o poder de sedução pessoal e a capacidade de
resolver problemas que tem inegàvelmente o sr. Lourival Fontes.142 Em todo caso, bastava em
tese, e pela lei, que o jornal se portasse mal com o regime, chamando regime ao govêrno,
chamando nação ao govêrno, chamando pátria ao govêrno e chamando govêrno ao chefe do
govêrno e teria que pagar direitos pela importação de papel; assim, estava liquidado. Por que? É
uma pergunta que tem cabimento neste inquêrito. Porque não poderia entrar em concorrência
normal com outros. Não é que não houvesse jornais capazes de suportar o pagamento de
direitos, mas é que, por pagá-los, teria um custo de produção tão alto que não suportaria a
concorrência com os demais. Êste ponto é importante. Na Argentina, o discípulo do Estado
Novo143 aperfeiçoou o sistema. Fêz o monopólio estatal da importação de papel e passou então
a distribuir as quotas de papel importado a cada jornal, racionando, é claro, as dos jornais que
lhe eram adversos. A seguir torceu um pouco mais a rosca: fez pagar direitos alfandegários pela
quantidade de papel consumida com anúncios, medindo o espaço ocupado por anúncios nos
grandes jornais independentes, como La Prensa e La Nacion, sob a alegação de que isento só
estaria o espaço do com notícias e comentários de interêsse nacional o aquele que era ocup ado
com anúncios, que representa- receita para o jornal — chamando desde logo à receita lucro para
o jornal. Assim, começou a morrer La Prensa, antes mesmo da sua ocupação militar, como
começou a morrer a Argentina, quando principiou a morrer La Prensa. A liberdade de imprensa,
convém que tenhamos isto sempre em vista, não morre de uma vez, morre aos poucos; morre
quando a imprensa, por isto ou por aquilo, silencia; morre quando a imprensa diz uma coisa por
outra; morre quando a imprensa, econômicamente acuada, começa a silenciar ou tergiversar”.144
desapareciam ou seriam amalgamados pela chamada “grande imprensa” em prejuízo para as comunidades a que
serviam.
140 V. Le problême dx papier journal — Unesco, Paris, 1949 pág. 69.
141 Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão criado durante a ditadura estado-novista no Brasil para
controlar todos os veículos de divulgação, inclusive utilizando a censura prévia. Diante da reação dos jornalistas e
do povo, em 1945, foi transformado em Departamento Nacional de Informações e, atualmente, apenas controla a
Agência Nacional encarregada da distribuição de notícias oficiais.
142 Foi diretor do DIP na sua primeira fase. Com habilidade, além dos poderes que lhe eram conferidos, conseguiu
mesmo a colaboração de muitos jornais e jornalistas enquanto permaneceu no posto.
143 Referia-se ao diretor Juan Peron e ao seu regime chamado justicialista.
144 Tribuna da Imprensa, ed. de 8 de julho de 1953 — suplemento O preto no branco — pág. 24.
O protecionismo do Estado ao exercício pleno do jornalismo deve estender-se,
igualmente, àqueles veículos que, pela sua natureza, pertencem ao domínio público, como é o
caso do rádio, no qual as ondas hertzianas — matéria prima como o papel para a imprensa —
não são suscetíveis de apropriação privada. O Estado, então, em nome da sociedade,
monopoliza o seu uso ou o concede a terceiros, com caráter necessàriamente precário. Em
ambas as hipóteses, “deve prevalecer o direito do povo de estar informado da verdade dos fatos
da administração pública e de conhecer as opiniões livres dos cidadãos; e é de imperiosa
conveniência e eqüidade que tôdas as ideologias tenham acesso igualitário à radiodifusão
porque, como adverte Elier C. Ballester, “os governos carecem de meios próprios para impedir a
difusão das noticias e opiniões que propalam estações transmissoras estabelecidas no exterior.
Dessarte, trata-se do jornalismo mais controlável e menos controlado do mundo”.145 E a respeito,
cita um comentário de Ricardo Saens Hayes, em La Prensa de 26 de dezembro de 1945, nos
seguintes termos: “Dir-se-ia que os governos autoritários crêm na infância dos povos, pois que
se lhes ocorre que aos meninos, é um dever enganá-los sôbre certas matérias escabrosas. Os
que se enganam são êles, porque os povos, como os meninos, acabam sabendo tudo. Na
Espanha ocorre algo que chama a atenção dos etrangeiros. Ali, oficialmente se comunicam
notícias até seis meses depois de conhecê-las amplamente o púb lico. A pessoa mais modesta
tem um aparelho com o qual escuta, noite após noite, o escrupuloso serviço das rádio -emissoras
inglêsa e norte-americana.”
O Estado, Editor Idealista — Se não é lícito ao Estado visar lucro quando se reveste da
função do editor, pois o faz como executor de um “serviço público”, mais caracterizada
contrafação do direito de editar se verifica quando emprega os veículos que controla para um
proselitismo ideológico. No primeiro caso, haveria uma concorrência desleal com o editorfinancista; no segundo caso, restringiria ainda mais — quando não a extinguisse por completo —
a ação do editor-idealista, confundindo-se com êste. Esta contrafação se vem registrando, nos
nossos dias, nos países socialistas, nos quais o Estado-editor, monopolizando os meios de
divulgação, tomou ao seu cargo tôdas as funções jornalísticas, mesmo quando exercidas por
organismos não estatais, como é o caso da União Soviética onde o principal jornal — Pravda —
com uma tiragem superior a três e meio milhões de exemplares, — é o órgão central do Partido
Comunista, única agremiação política do país, refletindo, portanto, com absoluta fidelidade, o
pensamento do Govêrno Comunista. Helene e Pierre Lazarett, em reportagem sôbre a imprensa
soviética, escreveram: “as informações mais importantes são alvo de longos debates (na
redação) e em primeiro lugar apresentadas ao Partido. Os assuntos dos editoriais são propostos
ao Partido — a menos que sejam por êle sugeridos — e submetidos em última análise ao seu
imprimatur. Êste contrôle do Partido sôbre o seu órgão central é substituído, no que se refere ao
Izvestia — 1.500.000 exemplares de tiragem — pelo contrôle do govêrno; no que diz respeito ao
Trud — diário dos trabalhadores sindicalizados — pela direção sindical; no que tange ao jornal
do Exército, Estrêla Vermelha, pelo Ministério da Defesa Nacional; quanto à Litteraturnaia
Gazetta, pelo Ministério da Cultura; o Komsomolakaia Pravda, pelo das Juventudes Comunistas,
etc. Cada distrito provincial, cada república, tem o seu Pravda controlado pela seção local do
Partido Comunista, conforme diretrizes chegadas de Moscou, e o iornal depende das
autoridades governamentais.” Quanto ao caráter do jornalismo soviético, transcreve um editorial
mesmo Pravda, de 5 de maio de 1955, quando se comemora ali o “Dia da Imprensa” (data da
fundação do Pravda por Lenine, em 1912), através do qual se constata que a imprensa na URSS
não é de informação “mas de combate, estreitamente dependente do Estado e do Partido.” Lê-se
no editorial: “Nossa imprensa... sempre cumpriu com honra o papel de propagandista coletiva, de
orientadora, de organizadora das massas... Ela deve auxiliar todos os trabalhadores a lhes
145
Eliel C. BalIester — Derecho de Prensa — Buenos Aires, 1947 — pág. 108.
aumentar a consciência da natureza dos objetivos fixados pelo Partido no desenvolvimento da
economia nacional, da necessidade dêsses objetivos e de sua enorme. significação política... A
obrigação mais importante dos jornais e revistas consiste em serem a sentinela vigilante dos
grandes princípios e da adesão ao partido, da ciência, da literatura, da arte; em desfecharem
uma luta implacável contra tôdas as manifestações da ideologia burguesa; em desenvolverem
nas massas de trabalhadores o sentido elevado do dever social; em cultivarem no povo soviético
a convicção inabalável da invencibilidade da nossa obra; em clamar seim descanso pelo
contínuo refôrço do poderio da pátria, da capacidade de defesa do Estado soviético.”146
Na excelente conferência que proferiu no Centro de Ciências Políticas do Instituto de
Estudos Jurídicos de Nice, o prof. M. A. Rayski, da Universidade de Jornalismo de Varsóvia
falando sôbre os processos jornalísticos no seu país, salientou que era justamente para garantir
o direito constitucional dos cidadãos à liberdade de palavra, de imprensa e de reunião pondo-se
à disposição do povo e das suas oganizações oficinas de impressão, estoques de papel e meios
de transporte e comunicações que “êsses poderosos recursos materiais, sem os quais a
imprensa moderna não pode existir, não se encontram nas mãos de particulares ou de grupos
financeiros que, como se disse, agem de encontro aos interêsses da maioria: estão em poder do
Estado popular.” E o Estado não priva, ao contrário, incita os cidadãos, a utilizarem os jornais
com críticas sôbre todos os assuntos, exercendo, assim, uma “influência mais ou menos decisiva
sôbre os negócios públicos. A imprensa tornou-se a grande tribuna da opinião no nosso país. A
paixão, a tenacidade, a vontade das massas de combater os abusos e as injustiças se exprimem
no fato de que milhares de cartas dos leitores chegam quotidianamente aos nossos jornais... A
democracia burguesa jamais, mesmo em teoria, proporcionou possibilidades tão grandes ao
povo para que possa exprimir sua opinião. O direito político e social à crítica está assegurado por
leis em virtude das quais pessoas e instituições criticadas têm o dever de responder
pùblicamente à crítica. A nossa legislação prevê, igualmente, sanções para todos os atos
tendentes a limitar a liberdade de crítica.”147
Estas citações visam fixar a absorção pelo Estado, nos países socialistas, das
características do editor-idealista. Não houvesse a parte informativa e normativa oficial nos
órgãos editados pelo Estado, com a divulgação dos atos do Executivo, dos projetos, das leis e
dos debates parlamentares, das decisões e sentenças judiciárias — e nem poderíamos falar com
justeza de um Estado-editor, como o entendemos, mas simplesmente de um grande e único
Editor-idealista. Porque o jornalismo do Estado-editor é um jornalismo especializado, limitado,
que não se faz panfletário e, mesmo quando opina, não o faz “contra”, mas exprime uma
autoridade incontestável do ponto de vista legal.
O jornalismo do Estado surgiu, além das motivações acima referidas, da imposição dos
costumes e das leis, que exigem a divulgação oficial de certos e determinados atos jurídicos
para torná-los válidos. E também, no que tange à imprensa, da seleção que, tanto os órgãos
ecléticos como os ideológicos, fazem no noticiário dos atos oficiais, sòmente dando a público
aquêles de maior ressonância, reclamados pelos leitores ou pela linha redacional. Tal seleção foi
provocada, em quase todo o mundo, pelo racionamento da matéria prima, o papel, a celulóide, o
tempo de emissão de rádio e TV; e, também, como já aludimos, pela impossibilidade, com os
modernos meios de comunicações, de divulgação da totalidade dos fatos, mesmo daqueles
“that’is fit to print”. 148
“Raios X da Rússia de Malenkov” – reportagem in Jornal do Comercio – Recife, 10-7-53.
M. A. Rayski — “Les principes de Ia Iiberté de Ia presse en Pologne” in L’Opinion Publique — Paris, 1957 .—
págs. 380-2.
148 “Em alguns paises, como no nosso, a imprensa pretende fazer uma concorrência absurda ao “Diário Oficial”,
publicando os despachos dos diretores de repartições, ocupando colunas inteiras com matérias que interessam a
pequenos grupos de pessoas, tornando os jornais prolíxos, desertos de iniciativas, afogados numa onda escura e
morna de deferimentos, indeferimentos, sele e volte querendo... Isso ocorre, entretanto não por culpa dos jornais
mas do que nêles se reflete, isto é, “a tendência de transformar tôda a população em funcionários, á fim de que tudo
146
147
O TÉCNICO
Agente do jornalismo — como o editor, na ordem econômica, o jornalista, na ordem
cultural e o público, na ordem social — é o técnico, na ordem mecânica, naquela ordem que os
filósofos chamam do fazer. O técnico, o homem que domina a natureza das coisas, é aquêle
intermediário entre a realização subjetiva de uma atividade e a sua realização objetiva, material.
E se a “sociedade humana, na sua crescente complexidade, carece cada dia mais de
intermediários”, essa necessidade é mais sentida no domínio das comunicações, “do fazer
circular o que é do homem para que as coisas assimiláveis por natureza se tornem socialmente
e atualmente assimiláveis.”149 O jornalismo, a que hoje se propõe seja denominado
“comunicação das massas”, que, a princípio, como tôdas as atividades humanas, pràticamente
não exigiu o técnico, pois êste se confundia com as figuras do jornalismo e do editor, foi aos
poucos incorporando novos veículos; e a cada veículo utilizado reclamava o especialista, o
técnico e a sua técnica. Da simples manufatura, evolui para o uso de processos e ferramentas
simples e, depois, para o de mecanismos complexos, evolui para a mecanofatura. E então surge,
como agente do jornalismo, o técnico — o homem que descobre, que aperfeiçoa, que emprega,
que domina a máquina e a utiliza para tornar compreensível, acessível, atraente e útil à
coletividade o produto do labor dos demais agentes periodísticos.
Fase da Manufatura — Por muitos séculos, o jornalismo não exigiu do técnico para
manifestar-se senão o trabalho das suas mãos, o esforço animal. Assim ocorreu com o arauto,
que ouvia instruções do seu chefe e as transmitia oralmente ao público; assim com o jogral, êle
próprio compondo e transmitindo verbalmente o seu noticiário em versos e cantares; e assim
com os epistológrafos, com os copistas, com os desenhistas das antigas eras, com os
gravadores das táboas, com os pintores de letras e hieroglifos jo rnalísticos. Mais tarde, era ainda
manual o trabalho do técnico que utilizava os sinais óticos para fazer circular notícias: daquêles
gregos que empregam tochas de fogo e pavilhões de côres diferentes para representar
convenções; dos romanos e gauleses, com o serviço informativo de sentinelas postadas de
longe em longe, que recebiam as notícias e as transmitiam umas às outras; dos chineses com
fanais situados em determinadas eminências da Grande Muralha, a fim de dar alarme à
aproximação do inimigo ou instruir as guarnições e as populações protegidas ao longo da
fronteira; daquêles conquistadores, como Timours-Lenk, que usavam determinados processos
para parlamentar com os habitantes das cidades assediadas pelos seus exércitos.150
O Século XVII assiste à introdução de outros métodos de telecomunicação: é o francês
Guillaume Amontons (1663-1705), fazendo dispor postos em vários pontos consecutivos entre
Paris e Roma, nos quais pessoas munidas de lunetas recebiam certos sinais do pôsto
precedente, transmitindo-os ao pôsto seguinte, embora sem conhecer a significação de tais
sinais, que eram letras cujas chaves sòmente eram sabidas nos pontos de origem e destino.
Amontons conseguiu realizar duas demonstrações perante a côrte francesa, mas tanto o Delfim
como a sua “entourage” consideraram aquêle invento como um entretenimento, “sem dúvida
cheio de engenhosidade mas desprovido de qualquer utilidade para ser pôsto a serviço do
Reino.” Na Inglaterra, Hooke (1635-1702) inventa o primeiro telégrafo, consistente de um
sistema de sinalização, mediante o uso de corpos sólidos opacos “que se elevam
dependa melhor e mais completamente do Govêrno, fazendo da nossa democracia o regime do Govêrno, pelo
govêrno e para o govêrno.” — Carlos Lacerda — A missão da Imprensa — Rio, 1950 — págs. 73-74.
149 Gustavo Corção — As fronteiras da técnica — Rio, 1955 —- pags. 89-90.
150 “Uma bandeira branca significava: “rendei-vos agora e vos será feito graça”. Um dia depois, fazia içar uma
bandeira vermelha indicando a População que teria a vida salva se os chefes aceitassem entregar-se à morte. No
terceiro dia, se a resistência continuava, uma bandeira negra aparecia, como sinal de morte e destruição.” — Jean
Laffay — Les Tetecommunications — Paris, 1949 — págs. 7-8.
sucessivamente ao alto de um marco elevado e que correspondiam às letras do alfabeto ou
frases determinadas”, sistema que foi relegado ao olvido por não ser considerado prático. Um
século depois, em 1791, na França, Claude Chappe, “baseando-se nos mesmos princípios de
sinalização, construiu o primeiro telégrafo prático, consistindo em um semáforo de braços. As
diversas posições relativas aos mesmos representavam distintas letras do alfabeto, número e
outros sinais. Dois anos mais tarde de o haver submetido a provas, o telégrafo de Chappe foi
utilizado para a união telegráfica entre Paris e Lile. Em 1794, na Rússia, Kubilin construiu um
modêlo de telégrafo, semelhante ao de Chappe, porém mais simples. Na Alemanha,
Bergstrasser, empregando o mesmo processo, consegue tornar mais simples os sinais. Mas o
funcionamento do telégrafo de Chappe (como dos demais inventados e postos então a serviço
em diversos países) “dependia no maior grau da perícia do operador, além do estado do tempo,
resultando impossível transmissões em dias nublados ou nebulosos. Portanto, era
completamente inútil para efetuar comunicações mais ou menos precisas entre pontos algo
distantes entre si ou em zonas comumente nebulosas.”151 E, por esta época, já a necessidade de
comunicações mais rápidas e mais intensas se fazia exigência dos homens e dos povos, não
mais satisfeitos com a morosidade das malas postais que, então, sob a proteção dos governos,
se vinham estabelecendo e desenvolvendo na Europa. O jornalismo aprendia a utilizar o invento
de Gutenberg; passava-se da fase da manufatura para a da mecanofatura. E a figura do técnico
se impunha, distinguindo-se da dos demais agentes; constitui-se numa corporação à parte,
fazendo jornalismo ou contribuindo para que fôsse realizado o jornalismo, não apenas nas
oficinas gráficas, mas nas agências dos telégrafos, nas fábricas de papel, nas fundições de tipos,
como mais tarde nas estações rádio transmissoras e nos estúdios e laboratórios
cinematográficos.
Fase da Mecanofatura — O desenvolvimento da técnica no jornalismo não se deu
repentinamente; anos e séculos se passaram entre o término da fase da manufatura e o início da
mecanofatura. Ray Pastor e N. Drewes distinguem os seguintes fatos relativos à origem da arte
de imprimir: 1 — a reprodução de desenhos mediante selos de argila cozida, de pedra ou
metálicos, usual na antiguidade e que perdurou até a Idade Média; 2 — até 1370, usavam-se
blocos de madeira para estampar fazendas com desenhos e legendas (um dessa época foi
encontrado em Dijon, França). Até 1400, faziam-se tais estampas sôbre papel (há fôlhas
fechadas de 1418 em diante) com tinta aquosa; 3 — de 1440 em diante, fazem-se livros com
“clichés” de madeira e também com pranchas de cobre (há um de 1446) ; 4 — os primeiros livros
impressos com tipos soltos e grande perfeição aparecem em Mogúncia, com datas de 1448 e
1454, sob a firma Fust-Schoffer. As famosas bíblias, sem dúvida muito anteriores, se supõe
sejam da mesma imprensa, que então pertenceu a Fust-Gutenberg. Há fragmentos de impressos
mais primitivos cuja origem se ignora mas foram encontrados nos Países Baixos. Uma vez
provada, a nova máquina impressora se propagou ràpidamente de Mogúncia a Bamberg e
Estrasburgo (1461), Suíça (1460), Praga (1464), Roma (1465), Veneza e Milão (1069) e pouco
mais tarde a tôdas as grandes cidades italianas. A Sorbone contratou em 1470 três operários
suíços, que depois estabeleceram uma impressora. Em Lyon, o primeiro livro impresso apareceu
em 1473. Não tomando em conta os costumeiros exageros da história da China, onde a
impressão com “cliché” aparece no ano de 858, e a de tipos soltos se atribui a Pi Scheng, no
século XI, admitindo-se o relato de um contemporâneo, que explica a fabricação de tipos de
argila, o modo de nivelá-los, etc.152
No Brasil, se bem que haja presunção de que os jesuitas, no Século XVI e os flamengos,
durante o seu domínio em Pernambuco (Século XVII) tenham estabelecido tipografias,
Segundo Laffay — Obra cit. — e J. Rey Pastor e N. Drewes — La Tecnica en la Historia de la Hunianidad —
Buenos Aires, 1957 — págs. 174 e seguintes.
152 J. Rey Pastor e N. Drewes — Obra cit. — págs. 99-100.
151
històricamente só é possível situar o aparecimento do primeiro prelo “nos anos de 1703 a 1707,
cujo mister se limitava à impressão de letras de câmbio e breves orações devotas.” Uma ordem
régia de 8 de julho de 1706 — que é a prova do seu funcionamento — determinou ao governador
da capitania de Pernambuco Francisco de Castro Morais que “mandasse sequestrar as letras
impressas e notificar os donos delas, e oficiais da tipografia, que não imprimissem nem
consentissem que imprimissem livros, nem papéis alguns avulsos”. E assim foram destruídos “o
esfôrço e aspiração do desconhecido proprietário cujo nome a história não soube guardar, como
o introdutor da arte tipográfica no Brasil.”153 Apesar de tão severas ordenações, de prisões e
perseguições, do empastelamento e destruição de tipos e rudimentares tipografias, continuou o
nosso incipiente jornalismo a tentar utilizar a imprensa como veículo. Em 13 de maio de 1808,
Dom João VI, com a sua côrte transferida para o Brasil em face da invasão napoleônica, do
território metropolitano, por decreto criava a Impressão Régia, utilizando dois prelos e 28
caixotes de tipos e, mais tarde, concedia licença a particulares para instalar oficinas gráficas em
diversas províncias. Em Pernambuco, outro fato curioso se registrara: a primeira tipografia
autorizada a funcionar pelo Rei, de propriedade do negociante Ricardo Catanho, em 1816,
sòmente iria imprimir no auge da revolução republicana de 1817, sob a direção do padre João
Ribeiro. O primeiro trabalho que dela saiu foi o manifesto do advogado José Luís de Mendonça,
conhecida pelo nome de “Preciso”, no qual foram relatados os acontecimentos desenrolados na
citada revolução e cuja data é 28 de março de 1817. Sanelva de Vasconcelos, citando Tolenare,
Fernando Denis e Antônio Joaquim de Melo (êste último escrevente do Erário no govêrno
revolucionário), alega que a demora no funcionamento da tipografia de Catanho foi ocasionada
pela falta de alguém que conhecesse a arte de imprimir. E dá como primeiro técnico do
jornalismo em Pernambuco ao inglês James Pinches, auxiliado por dois frades e um marinheiro
francês, cujos nomes se perderam na poeira do tempo.154
Menos pelo afã do lucro do que pela sua paixão pela arte, os técnicos da tipografia e da
impressão de jornais foram os propulsores do progresso mecânico, respondendo ao apêlo de
popularidade crescente do jornalismo. Em 29 de novembro de 1814, The Times, de Londres,
circulava com impressão dupla (dos dois lados simultâneamente), graças a um invento do
alemão Frederick Koenig, tipógrafo talentoso, que não sòmente descobrira como aplicar a
energia da máquina a vapor às impressoras da época como introduzira outros aperfeiçoamentos,
embora sob a oposição dos seus colegas impressores, que se sentiam ameaçados com os
avanços da mecanofatura, que os deixaria — assim o julgavam — ao desemprê go. Ao holandês
Van der Mey, a Ged, de Edinburgo, a Tillock e Foulis, de Glascow, aos italianos Chirio, Mina e
Giozza, de Turim, a Lord Stanhope e ao alemão Hoffman — da segunda metade do Século XVIII
ao início do Século XIX devem-se as origens do sistema de fixação dos tipos (estereotipia) com
diversas substâncias, inclusive o gesso, para a facilidade da impressão. Foi o francês Genaud
que substituiu a pasta de gesso pela de papel branco, permitindo uma perfeita cópia do original,
mediante a ajuda de prensas. E foi ainda The Times que realizou a aplicação da estereotipia à
impressão e que, através do seu proprietário e diretor John Walter, com o aproveitamento dos
experimentos do seu engenheiro Mac Donald e do italiano Marinoni, primeiro empregou a
máquina rotativa, à base daquela que William Nicholsou patenteara em 1790 para imprimir
“sôbre papel, linho, algodão e outros artigos, com fôrmas, tipos e pranchas” que se aplicavam
fortemente sôbre uma superfície cilíndrica “do mesmo modo que as letras correntes se aplicam
sôbre uma superfície plana”. A rotativa foi aperfeiçoada por Applegath e Cooper, na Inglaterra, e
por Hoe, nos Estados Unidos. Fato digno de menção e que demonstra cabalmente o perfeito
Sanelva de Vasconcelos — Prelos & Jornais — Recife, 1939 — pág. 17.
Ver Sanelva de Vasconcelos — Obra cit. — págs. 19 a 42. Chamamos a atenção do leitor, nesta obra, para a
transcrição do documente em que o governador Caitano Pinto de Miranda Montenegro informa ao Marquês de
Aguiar, favoràvelmente, o requerimento do negociante Ricardo Catanho.
153
154
entrosamento entre o técnico, o editor e o jornalista na realização do jornalismo é que “as
rotativas de Walter eram construidas nas próprias oficinas do Times e, em 1876, quando foram
exposta em Filadélfia, destinadas à impressão do New York Times, conseguiram um verdadeiro
“record” de divulgação, pois permitiam uma tiragem de 17.000 exemplares por hora!” 155
Durante dez anos (1876-1886), Ottmar Mergenthaler, um relojoeiro alemão estabelecido
nos Estados Unidos, estudou e realizou experimentos para substituir o velho sistema de
composição manual, conseguindo, finalmente, a “linotipo”, que compõe palavras, alinhando-as
mecânicamente. Como ocorreu com os demais inventos, outros surgiram na mesma linha, como
a “intertipo”, a “monotipo” e a “italtipo”. Ainda ao Times, de Londres, se deve a descoberta da
“telelinotipia” — a primeira ameaça séria ao técnico como agente do jornalismo, pois permite que
a sua figura volte aos tempos primitivos, confundindo-se com a do próprio jornalista. A
telelinotipia é uma máquina que torna possível escrever e compor de qualquer parte onde esteja
instalada, vez que, inspirada no sistema elétrico dos teletipos, envia os seus impulsos a uma
linotipo, impulsos que selecionam os tipos e corpos de impressão necessários. Eis como Manoel
Virgil Vazquez descreve êsse invento, aliás já adotado em diversos dos grandes jornais do
mundo: “Na cabine do Times (Câmara dos Comuns), há uma máquina perfuradora com um
teclado, de acôrdo com uma clave elétrica de seis unidades. A cinta assim perfurada se introduz
em um transmissor automático que converte as perfurações em impulsos elétricos. Um receptor
na sala de linotipos do jornal transforma os impulsos que chegam em uma cinta perfurada
idêntica à picada no transmissor dos Comuns. A cinta se introduz na linotipo e o teclado desta é
acionado, exatamente como o faria um linotipista. A largura das colunas, a seleção e mudança
dos tipos — tudo é realizado mecânicamente. Além disso, enquanto se vão fundindo as linhas de
composição, um receptor, inserido em derivação, vai proporcionando aos corretores das provas
o que se está transmitindo e compondo da Câmara dos Comuns. Hoje, o homem que maneja o
teclado do Times em Westminster, é um linotipista especializado. Mas ninguém se deve
assombrar se chegar o dia em que o fizesse um jornalista, que iria compondo ao mesmo tempo
em que redigia a sua reportagem ou informação.”156
Simultâneamente com essas conquistas da técnica no campo do jornalismo impresso,
outros trabalhos de invenção e aperfeiçoamento iam surgindo no domínio das telecomunicações.
Em 1774, Lessage, professor de física em Genebra, concebeu o primeiro telégrafo elétrico,
utilizando uma série de 24 eletroscópios, que representavam as letras do alfabeto. Entretanto, o
telégrafo elétrico de Lessage fracassou em face das perdas de corrente que se produziam na
linha, desde que a eletricidade empregada então era estática. Em 1801, com a descoberta da
pilha, por Volta, fonte de corrente contínua, o alemão Soemmering projeta um telégrafo eletroquímico, no qual os eletroscópios de Lessage foram substituídos por recipientes contendo água
acidulada. Apesar de apresentado à academia de Ciência da Bavária e eliminados todos os
inconvenientes que se notaram no seu primeiro modêlo, o telégrafo de Soemaring não conseguiu
difundir-se. Alguns anos depois, Oersted (1819), aproveitando-se do descobrimento da
interrelação entre a corrente elétrica e a agulha magnética, lança o primeiro telégrafo “de
agulha”, assim chamado porque eram os sucessivos desvios de uma agulha que representavam
os sinais transmitidos. Êsse sistema é aperfeiçoado por Ampére, em 1820, e perdura até 1833,
quando Morse introduz o seu telégrafo elétro-magnético, com o qual solucionou o problema da
transmissão, mediante um simples e prático manipulador, e o da recepção, através de um tele impressor eletro-magnético sôbre uma fita de papel. O telégrafo de Morse e o seu alfabeto foram
adotados em todo o mundo e ainda hoje estão em voga. Posteriormente, W. Thompson (Lord.
Kelvin), Bain, Hipp, Siemens, Etiene e outros aperfeiçoaram ou criaram novos sistemas, à
J. Rey Pastor e N. Drewes — Obra cit. — págs. 220-222.
M. Virgil Vazquez — Arte de titular y confeccion in EI Periodismo — Teoria y Pratica — Barcelona, 1935 pág.
227. Sôbre tipografia: Emile Leclere — Typographie — Sfelt, Paris, 1947.
155
156
mesma base, visando, além disso, maior rapidez na transmissão e simultaneidade de envio de
mensagens (duplex). Graças às descobertas de Hertz no campo das ondas elétricas, os homens
de ciência e inventores procuram aplicá-las ao telégrafo, visando retirar-lhe os fios: assim,
Preece experimenta, com êxito, em 1892, um sistema de transmissão do canal de Bristol, entre
Penarth e Fath Holm, numa distância de cinco quilômetros aproximadamente; Righi e outros
fazem tentativas semelhantes noutros pontos da Europa. Mas é a Marconi que se deve a
efetivação da TSF, após experiências coroadas de sucesso realizadas em julho de 1897, do seu
laboratório em San Bartolomeu para o couraçado “San Martino”, da Marinha italiana, a 16
quilômetros de distância. O sistema de Marconi compreendia um dispositivo oscilador e um
aparelho receptor, constituído por um aro metálico, um condensador e um trajeto de chispa,
suscetível de pôr-se em contato com a fonte emissora. Tanto no transmissor como no receptor,
eram colocadas antenas de 34 e 22 metros de altura, respectivamente.
O Século XX acelera a marcha progressiva das tele-comunicações: Marconi, Pickard,
Goldschmidt, Alexanderson, Poulsen, Armstrong, Hazeltirene, Albert HulI, Hansell e Variam
cooperam com sucessivos inventos para o estabelecimento da rádiotelefonia, de que já nos
ocupamos. O físico inglês Bain, conseguindo transmitir imagens fixas por meio de cabos
elétricos, institui as bases da telefotografia. Spezpnik, o austríaco Denoys von Mihaly, Rosing,
Braun, Hipkow, May — que descobriu as propriedades foto-elétricas do selênio — o francês
Senlecq e o inglês Sutton, Elster e Geitel foram, passo a passo, com engenho e tenacidade,
preparando o terreno que levaria Baird, com suas experiências no qüinqüênio 1923-28, a efetivar
a televisão e preparar os caminhos da TV em côres, da “estereotele visão” ou televisão tetradimensional, e de “noctovisão” (sistema de televisão noturna, que emprega um refletor de ráios
infra-vermelhos e uma célula fotoelétrica sensível a esta gama do espetro). No campo da TV,
onde ainda continuam as experiências tendentes a aperfeiçoar as transmissões, destacaram-se,
também, Zworykin, com o seu inconoscópio — ponto de partida para a televisão pan-eletrônica
—, Farnsworth, Don Leel, H. E. Ives, R. D. Kell e os numerosos técnicos e cientistas que, nas
tele-emissoras de todo o mundo, notadamente nas grandes emprêsas norte-americanas (Radio
Corporation of America — RCA — Color Television Inc — CTI — Colombia Broadcasting Sistem
— CBS — e General Eletric Company — GEC) trabalham e investigam àrduamente com aquêle
objetivo.
Por seu turno, a cinematografia, de cujas origens e processos já nos ocupamos,
reclamou o aparecimento do técnico (o cinegrafista, a equipe do laboratório) para, ao lado do
cine-repórter, tornar o cinejornalismo na realidade dos nossos dias. Neste setor, aliás, uma outra
descoberta deve ser aqui referida, porquanto poderá constituir-se no principal fator da
transformação do jornal impresso em papel naquele outro microfotografado a que aludimos
anteriormente: — a “mono-foto”. Trata-se de uma máquina de composição que, em lugar de
produzir tipos e linhas, impressiona diretamente uma película em positivo ou negativo. Esta
máquina, em maio de 1952, foi exibida na XXXI Feira das Indústrias Britânicas em Londres. “Os
mecanismos de moldar e fundir os tipos estão substituidos por uma espécie de câmara
fotográfica, acionada por uma fita perfurada; uma placa de fundo negro com as letras e sinais
transparentes, exatamente colocadas como os do teclado de perfuração, vai impressionando, na
película ou no papel fotográfico, os tipos segundo os impulsos das perfurações. Podem-se
compor doze mil sinais por hora.”157 Novas técnicas surgem dia a dia: o cinemascope, o
cinerama ou kinopanorama e outros processos, tendentes a criar a ilusão da terceira dimensão;
a aplicação de côres e o emprêgo de sistemas sonoros estereofônicos — tôdas essas inovações
reclamam especialistas e reformam significativamente os métodos de filmagem das atualidades
ainda em uso.
157
Conf. Manuel Vigil Vazquez — Obra cit. — pág. 232.
O Problema da Automatização — No decorrer desta incursão ao mundo da técnica no
jornalismo e dos seus técnicos, chegamos à evidência de que, nos nossos dias, nenhuma das
manifestações periodísticas se pode processar sem essa personagem que, confundida com o
agente-jornalista na fase da manufatura, adquiriu direitos de cidadania no período da
mecanofatura. Vimos também que alguns dos recentes inventos ameaçam a existência do
técnico, ou melhor, irão exigir que o mesmo incorpore ao seu acêrvo de conhecimentos e
aptidões aquêles reclamados do jornalista, hoje muito mais vastos do que ao tempo do
periodismo dos jograis, das cartas e das fôlhas manuscritas.
A verdade é que estamos, em pleno curso de uma nova grande revolução industrial, em
que o ser humano vai sendo substituído por servos-mecanismos, que não estão sujeitos nela à
fadiga, nem ao êrro, nem às emoções, que alteram o metabolismo e desequilibram mesmo os
mais eficientes técnicos. Numerosos dispositivos mecânicos estão sendo usados em todos os
campos da atividade humana com os mais positivos resultados: as máquinas de calcular
acionadas elètricamente, a telefonia automática, o microscópio eletrônico, a fotografia infravermelha. Êsses dispositivos são os servos-mecânicos “aparelhos capazes de restabelecer o
estado de equilíbrio em um sistema autônomo de maneira tal que as próprias fôrças originadas
pela perda de dito estado de equilíbrio engendrarn novas fôrças tendentes ao seu
restabelecimento. A realimentação negativa de uso comum em rádio -telefonia para anular a
distorção de freqüência e de fase é o exemplo mais caracterizado de um princípio capaz de
cumprir as exigências definição acima. É interessante destacar que os servos-mecanismos são
fundamentalmente dispositivos governados êrro, já que são fôrças assim originadas as que
provoca retôrno do sistema ao seu primitivo estado de equilíbrio. Coisa parecida sucede em
certos processos de aprendizagem, em que a discriminação entre os intentos frustrados e os
conduz à determinação do procedimento correto e fixado com conhecimento exato.” 158
A primeira revolução industrial, que teve a sua pré -história nos séculos XVII e XVIII e o
seu desenvolvimento máximo no século XIX e na primeira metade da atual centúria, se
caracterizou pela longa série de invenções e descobertas, visando mecanizar a produção, isto é,
substituir a fôrça muscular do homem e do animal pela máquina. O contrôle humano fôra, aí,
integralmente mantido. Os servos-mecânicos, contudo, passaram a “pensar” pelas máquinas. E
então evoluimos da simples mecanização para a automatização, quando o homem será expulso
do processo da produção prò priamente dito e ficará limitado às funçôes de concepção,
construção, instalação, sustento e inspeção da máquina. Porque “o domínio da automatização
compreende tôdas as tarefas de repetição e tôdas as decisões que podem ser tomadas em
função de critério pré-estabelecidos. Os limites próprios no domínio da automatização são
traçados pelo estado da técnica, pelo nível dos custos, pela amplitude das vendas e pelo número
de especialistas tentados a inventar, construir e dirigir os sistemas automáticos.”159
Inequivocamente, não se trata de um simples processo de desenvolvimento da mecanização,
mas de uma nova tecnologia, uma outra revolução industrial cujas conseqüências econômicas e
sociais ainda são imprevisíveis. Um aspecto, entretanto, é certo: “a primeira revolução, a dos
“dark satanic mills”, promoveu a depreciação dos braços do homem pela concorrência da
máquina... a revolução industrial moderna depreciará necessàriamente o cérebro do homem, ao
menos nas suas funções simples e rotineiras.”160 E é neste aspecto que a automatização irá
atingir, como já está começando a ocorrer, a atividade jornalística.
Jornalismo e Automatização — Relacionando os domínios em que a automatização já
encontrou campo de aplicação nos Estados Unidos, Pollock cita, referentes ao jornalismo, os
J. Rey Pastor e N. Drewes – Obras cit. – págs. 320-321.
Frederik Pollock — L’automation — Paris, 1957 — pág. 68. Pollock e outros estudiosos da meteria dão
preferência à designação “automação”, em lugar do termo mais vulgarizado que adotamos aqui.
160 Norbert Wiener – Cybernetics - New York, 1948 — pág. 17.
158
159
seguintes: televisão, impressão, tele -comunicações, traduções, estatística, cálculos científicos de
tôdas as espécies, previsões meteorológicas e contabilidade. Em todos êsses setores, a
máquina não sòmente realiza o trabalho “como funciona inteiramente sem a interferência
humana direta, sem o concurso nem da destreza, nem da inteligência, nem do contrôle do
homem.” A máquina já comanda totalmente o trabalho de outra ou outras máquinas. Assim, “a
automatização industrial é causa determinante do desemprêgo operário em escala crescente, se
bem que seja, ao mesmo tempo, criadora de novas fontes de trabalho, ainda que em muito
menor escala, para técnicos e pessoal especializado.”161
Ocorre, porém, que não sòmente o técnico mas os outros agentes do jornalismo se
vêem ameaçados pela crescente automatização industrial, e suas conseqüências sócio econômicas. As operações automáticas de contabilidade, por exemplo, reduzem muito o pessoal
dos corpos de editôres e os próprios editôres-financistas vão sendo absorvidos pelo Estadoeditor, como uma conseqüência do alto custo da maquinaria dos veículos jornalísticos e a
multiplicação dos encargos para a sua manutenção. Já hoje, o fenômeno da desaparição ou
absorção em cadeias de jornais — os veículos que ainda se conservam em maior volume como
propriedade privada — é um fato amplamente constatado em todo o mundo. “A imprensa
quotidiana tem manifestado uma tendência muito significativa à concentração e ao monopólio.
Enquêtes têm sido realizadas em 25 das maiores cidades dos Estados Unidos (e concluiram): —
o número dos jornais não cessou de reduzir-se enquanto o de exemp lares difundidos crescia... o
número de matutinos, que era de 69 em 1900, reduziu-se a 35 em 1950 e já se observa a
mesma diminuição no número de jornais da tarde: 84 em 1900, 51 em 1950, enquanto que a
tiragem passava de 6.000.000 exemplares para 12.000.000 quanto à imprensa quotidiana
matutina e de 8 a 14 milhões de exemplares, para a vespertina. Ao mesmo tempo, o número de
proprietários destes jornais não cessou de diminuir: era de 104 em 1920 e não passava de 72
em 1950.”162 Na sua já citada conferência — de imprensa e o leitor livre” — Rod W. Horton,
depois de aludir a uma estatística de Morris L. Ernest, segundo a qual em 1910 havia, nos USA,
2.600 diários lidos por mais de 24 milhões de pessoas e em 1940 havia, apenas, 1.988 diários,
com a circulação de 50 milhões, refere que, anos atrás, New York possuia, entre outros, jornais
chamados Commercial Advertiser, Globe, Sun (matutino e vespertino), World (matutino e
vespertino), Telegram e o Evening Mail, num total de oito, além de uma meia dúzia que não
figuram nesta história. Que aconteceu a êsses oito jornais? Parece uma passagem do ciclo da
vida selvagem. O Globe absorveu o Commercial Advertiser, o Sun suspendeu o seu matutino
para engolir o Globe, o Telegram comprou o Evening Mail e nos primeiros anos de depressão
anexou as duas edições do World também. Sobraram, então, apenas dois dos oito. O SunGlobe-Commercial Advertiser (com o nome abreviado de Sun) e o World-Telegram-Mail
(chamado World Telegram). Depois da segunda guerra mundial, o inevitável aconteceu: com um
grande golpe, o World Telegram tragou o Sun, formando o atual World Telegram and Sun, o
único resto das oito folhas valentes da minha mocidade. Circula com mais de 600.000
exemplares diários, mas dizem que está perdendo dinheiro.”163
Na França, segundo J. Kayser, a situação, embora diferente apresenta uma evolução da
mesma natureza. “Há diminuição constante do número de jornais. Havia em Paris, em 1914, 48
quotidianos não especializados; em 1939, havia 32; em 1955, não havia senão 11.” As grandes
despesas de manutenção dos jornais, além de provocar o desaparecimento ou absorção que
exemp lificamos, criam outro fenômeno, observado por F. Terrou, quando assinala, referindo-se
aos jornais parisienses: “As dificuldades de alguns jornais são evidentes. A sociedade do Petit
Parisien que distribuiu em 1930 um dividendo de 100 F., não distribuiu mais nada em 1938. A
ação valia 2.150 F. em 1931 e não valia senão 255, em 1938. O título do Figaro, em 1957, era
J. Rey Pastor e N. Drewes – Obra cit. – pág. 326.
— “L’Opinion Publique aux USA” in L’Opinion Publique – Paris, 1957 – pág. 359.
163 Jornal do Comercio – Recife – 8-12-57.
161
162 Á. Mathiot
saldável com uma perda de mais de 4 milhões. Estas dificuldades se estendem a certos serviços
anexos: a agência de informações e o comércio do papel-jornal.164
Em novembro de 1958, o Sweedish Internacional Pressbureau divulgou o seguinte
comunicado de Estocolmo: “Revolucionária mudança na estrutura política da imprensa diária
operou-se nestes últimos anos. A notícia do fechamento de um periódico foi publicada
recentemente, quando se afirmou que o Morgen Tidiningen, anteriormente chamado Social
Demokraten (órgão oficial do Partido Social Democrata) e que existia há 73 anos, deixaria de ser
publicado dentro em breve. Recorda-se que a União Geral dos Trabalhadores da Suécia, há dois
anos, adquiriu os dois periódicos liberais Stockholm Tidiningen e Aftonbladet, que se crê
adotarão mais ou menos a orientação seguida pelo Morgen Tidininien. O Morgen-Blated, do
Partido Liberal, será reorganizado em breve, em forma de semanário, a exemplo do sindicalista
Arbetaron. Isto faz com que Estocolmo fique com apenas 4 diários matutinos, ao invés dos 7 de
há dois anos atrás: o conservador Svenska Dagbladet, o liberal Dagens Nyheter, o Stockholm
Tidiningen (da União Geral dos Trabalhadores) e o comunista Ny Dag. Além dêsses existem
mais os seguintes diários, que circulam à tarde: o liberal Expressen e o Aftonbladet, da União
Geral dos Trabalhadores.”
Nos países sub -desenvolvidos, se bem que o fenômeno seja constatado no s grandes
centros urbanos, há ainda possibilidade de sobrevivência de jornais que não disponham de
maquinaria e mecanismos modernos, pela necessidade que as populações têm de utilizar
mesmo os mais obsoletos veículos de publicidade. Entre nós, no Rio e em São Paulo, se vem
observando a redução do número de jornais, embora também o aumento das tiragens, com a
absorção dos mesmos pelas grandes emprêsas. Últimos exemplos: a compra de O Mundo pelo
Diário de Notícias e a integração do tradicional Jornal do Comercio na cadeia dos “D. A.”.
A concentração dos órgãos jornalísticos seja em “trusts” seja em poder do Estado
parece-nos uma das mais sérias demonstrações dos efeitos desta segunda revolução industrial,
caracterizada pela automatização. E sem dúvida cooperará para a automatização dos espíritos,
prevista pela “Margate Conference”, promovida pela “Institution of Prodution Engineers” em
Londres, em junho de 1955, ao concluir que “o pequeno número de engenheiros que controlam,
em última análise, as fábricas automáticas poderia pressionar a sociedade... e subordinar o
comportamento e os hábitos de vida dos homens aos interêsses das máquinas. A fábrica
automática abriria então a porta ao novo mundo de Huxley.”165 o que é êste ‘brave new world”,
todos o sabemos: uma sociedade tecnológica, dirigida por uma hierarquia autoritária composta
de verdadeiros mestres de máquinas e de homens, em posição de “abarcar o todo dos
fenômenos técnicos e econômicos e tomar todas as decisões que interessem à política
econômica” e, naturalmente, de dominar a massa humana “sem julgamento, fàcilmente
influenciada pela técnica moderna de propaganda e que se encontra mantida de bom humor,
pois participa do consumo de um número sempre crescente de bens.”166 É ainda de Pollock o
seguinte e expressivo trecho sôbre o mundo automatizado para o qual marchamos: “Sabemos
da importância do papel exercido nos Estados totalitários pelo rádio, cinema e imprensa postos a
serviço da técnica de opressão das massas. A televisão veio recentemente juntar-se a êstes
meios de opressão; e entretanto, teoria e técnica da automatização propõem um novo
instrumento para manietar as massas. Desde o fim de 1948, o Padre Dubarle, da Ordem dos
Dominicanos, numa carta endereçada ao jornal Le Monde evocou a possibilidade teórica de
construir-se uma “máquina de governar”: um calculador eletrônico que indica as medidas a tomar
no futuro, segundo tôda a verossimilhança, em condições dadas a tal ou qual fim político. Wiener
pensa que os dados psicológicos necessários ao funcionamento desta máquina não existem
ainda. Portanto, êle concorda em que já demos o primeiro passo para a “máquina de governar”,
J Kayser e F. Terrou — L’Opinion Publique — Paris, 1957, págs. 236 e 191.
Cit. por F. Pollock — Obra cit. — pág. 143.
166 F. Pollock — Obra cit. — págs. 188-189.
164
165
aplicando a Theory of Games para a solução de problemas táticos e estratégicos com a ajuda de
um calculador gigante. O perigo seria ver esta máquina empregada pelo homem ou por um
grupo, com o único fim de alargar a sua dominação sôbre os outros homens.167
De qualquer modo, no nosso mundo hodierno, em processo de automatização, o
jornalista, êle próprio, vai tendo reduzido o seu campo de ação: os repórteres não precisarão
andar à cata dos fatos, pois êstes chegarão às redações pelas ondas hertzianas, pelo rádio e
pela TV;168 os tradutores de mensagens telegráficas não terão mais razão de existir quando for
comum a tradutora eletrônica, capaz de verter frases de um idioma a outro em forma automática
e com grande rapidez e cujo primeiro exemplar foi exibido em 1954, em New York, construido
pela International Business Machine Company, em colaboração com o Instituto de Linguística da
Universidade de Georgetown, de Washington, e que traduzia do russo para o inglês;169 o redator
terá suas funções igualmente limitadas, desde que o repórter poderá diretamente compor,
classificar e distribuir a matéria, por meio da telelinotipia do próprio local onde acaso esteja
colhendo os dados da notícia; o locutor de rádio ou TV verá dispensado o seu trabalho pelo
emprêgo das máquinas leitoras, invento da Eletronics Equipment Ltd., de Hayes, Middlesex,
exposto em 28 de novembro de 1958, segundo comunicado do BNS, numa mostra de
computadores eletrônicos em Londres. Ademais, os cérebros eletrônicos já são hoje uma
realidade, com dispositivos criados e experimentados, capazes de jogar damas, resolver
problemas de xadrez e até realizar inferências lógica... Por que não serão, em breve, utilizados
para escrever editoriais, fazer comentários, explicar aos tele -espectadores os acontecimentos
que são apresentados no vídeo?
Indubitàvelmente, a admiração do homem pelas maravilhas que a máquina pode obrar; a
sua progressiva escravização à máquina; a sua curiosidade intelectual e o seu gênio inventivo,
em busca da perfeição do trabalho que a máquina, isenta do cansaço, do êrro ou do sentimento,
pode oferecer; as exigências da produção e do consumo; as desilusões das comunidades ante o
fracasso das tentativas políticas de construção social — poderão criar condições favoráveis a
uma interpretação estereotipada dos fatos sociais, passível de fazer surgir o servo-mecânico
jornalista. Porque, como o observou Gustavo Corção, “existe em nossa civilização uma fadiga
moral e um enorme desejo de capitulação. Como é a técnica, aparentemente, a única coisa que
não tem envergonhado o homem... acontece o que era de esperar: os homens irão pedir à
técnica uma receita de prudência e até de felicidade. Irão procurar em testes, organogramas e
ábacos algo que os liberte da angustiosa opressão da liberdade”; e em seu socorro irão buscar
ao técnico, o miraculoso alquimista que vive isolado na sua torre de marfim, no seu “mundo
fechado da coisa a ser feita”, para quem o homem surge como “um ser indócil, repentino,
F. Pollock — Obra cit. — pág. 199.
Comunicado do Britisli News Service de 11 de Nov. de 1958, de Londres: “A. firma britânica “Granada Televjsion”
descobriu uni sistema que permite a conversão imediata de gravações de imagens e sons — em uma fração de
segundos — para enquadrá-las ao sistema de canais de televisão de qualquer país. Depois de rapidíssima
operação, as gravações podem 5cr transmitidas sem necessidade de qualquer processo ulterior ou dublagem, A
notícia, a respeito, divulgada pela “Granada Teleyision”, afiança que o dispositivo da sua invenção é unico no mundo
e qte abre imensas e novas possibilidades no que respeita ao intercâmbio internacional de programas televisados, A
4 de novembro, a “Granada Television” começou a gravar às 7,30 a transmissão televisada para a Grã-Bretanha,
através de ligação em cadeia com a Eurovisâo, das cerimônias da coroação papal em Roma. Convertidas no ato as
gravações, a primeira série delas partiu do aeroporto de Londres em um Comet de passageiros, que levantou vôo
às 11 da manhã para chegar a New York às 4,35 da tarde. Gravações ulteriores foram enviadas também de avião a
Paris, de onde partiram seguida em um Boeing que levantou vôo às 6 da tarde para aterrissar N. Y. às 9,30 da noite.
Segundo a própria “Granada Television”, o princípio em que se baseia o conversor é muito simples.
169 “O operador dêste engenho deve limitar-se a escrever mente a frase a traduzir, encarregando-se a máquina de
tôdas operações necessárias para a sua tradução, como sejam, aplicação elementares de sintaxe e de gramática,
composição da frase fonsequentes em seu ordenamento lógico-gramatical”, etc. A máquina se rege por um sistema
de fichas perfuradas, o que promete uma grande versatilidade da mesma. A frase, uma vez traduzida, é mesma
máquina tradutora sôbre o papel” J. Rey Pastor e N. Drewes - Obra cit. — págs. 322-323.
167
168
improvisador, complexo, inexato e dotado de uma absurda e lamuriosa vontade”. E o técnico
indagará de si mesmo “por que não são êles todos, os Pedros e os Joãos nítidos como um
triodo, verídicos como um galvanômetro, dóceis como um cobre?” e avaliará a tragédia humana
como “causada (quem sabe?) apenas por algum eixo com folga ou algum “Nesse momento, o
técnico desceu a escada-em-caracol de sua torre e veio misturar-se aos homens. Mas traz a
régua de cálculo como símbolo de congraçamento, mostra aos povos a nova táboa da lei, a
tábua de logaritmos, faz estatística dos famintos, traça organogramas da nova política que há de
trazer a concórdia universal da sociedade bem ajustada e que há de devolver ao homem o
paraíso perdido.” E neste “brave new world” que o tecnicismo criará, provocado pelo homem
“cansado da realidade moral, fatigado da sua própria condição, enjoado de liberdade... como se
quisesse tomar férias da sua própria humanidade”, depois de haver experimentado em vão a
felicidade da superação nietzscheana “em vez de se passar além do Bem e do Mal instalando-se
o mundo do homem aquém da realidade moral. Em vez do super-homem, anuncia-se o subhomem... e assim se conseguirá uma super-sociedade de sub-homens:”170
O derradeiro — e principal, na realidade — dos agentes do jornalismo é que oporá a
decisiva reação a esta visão apocalíptica do mundo do futuro, mesmo por uma questão de
sobrevivência. Sobrevivência do espírito, da criação, da polivalência que caracteriza a sua
natureza e o seu ofício. Sobrevivência do jornalismo como informador e orientador do homem
social, como impulsionador do bem comum.
O JORNALISTA
Máquina humana pensante, o jornalista que executa um trabalho criador e inovador,
polimorfo e complexo, não admitirá jamais aquela sem dúvida maravilhosa capacidade de
simplificação dos computadores eletrônicos como um satisfatório fim último. Se o público é
passível de uma ilimitada admiração pelo progresso da técnica; se o editor se curva ante a
excepcional produção da máquina, que lhe proporciona maiores lucros; se o técnico, com a sua
insaciável curiosidade e a sua busca incessante da perfeição material, se deixa dominar,
tornando-se, com a máquina, “um único ser monstruoso, réplica moderna dos centauros do mito
antigo”, 171 o jornalista — pela sua própria natureza e pela natureza do seu ofício — considerará
sempre a máquina como “a doll, not an idol” — um brinquedo e não um ídolo — como o fêz G. K.
Chesterton. Um precioso brinquedo, que nos pro porcionará confôrto e facilidades mas que,
sobretudo, nos oferecerá tempo para pensar, cada dia mais longas pausas para meditação. O
que o jornalista vê, antes de tudo, no desenvolvimento da técnica é a sua libertação do tempo,
daquela pressão e daquela opressão do tempo, com que já Renaudot, no século XVII, justificava
as claudicâncias do seu trabalho jornalístico, frente à objetividade que deveria informá-lo; é o
fato de que o progresso técnico deve implicar sempre na liberação do espírito, numa
transcendentalização que vem sendo o ideal perseguido pelo homem e pelas sociedades, desde
as épocas mais remotas, na sua luta incessante contra as fôrças da natureza, visando colocá-las
ao seu serviço.
No estudo sôbre as conseqüências do aumento constante do tempo não empregado no
processo da economia, George Soule afirma que o “leisure class” (ócio de classe) se
transformará em “leisure mass” (ócio da massa) e que o grande perigo reside em que “a
tecnologia importa na arte de economizar o tempo mas sem ensinar ainda como utilizá-lo
inteligentemente.”172 E se tem perguntado freqüentemente em que se ocupará o homem
libertado, quais as funções dignas do seu estado que lhe seriam propostas para o emprêgo dos
óeios. Esta questão vem sendo debatida nos círculos filosóficos e sociológicos e, de um modo
Gustavo Corção – Obra cit. — págs. 17-18, 99 e 107.
Paulo Sá — A técnica e os técnicos — Recife, 1957 — pág. 45.
172 George Soule — Time for living New York, 1955 — pág. 17.
170
171
geral, admite-se que, dada a redução prevista do tempo de serviço, as crescentes
responsabilidades dos trabalhadores e as exigências das sociedades modernas, o homem deve
elevar o seu nível cultural, a fim de “aproveitar melhor a vida e ser melhor cidadão.” E se isso é
verdade para o homem comum, para qualquer categoria profissional, mais verdadeiro o será
para o jornalista, cuja função de intérprete e orientador dos demais homens o coloca em posição
de vanguardeiro na conquista dêste precioso “time for living”.
A Vocação do Jornalista — Já se definiu o jornalista como “o instrumento adequado de
que se valem os fatos para converter-se em notícia.”173 Ao que ajuntaríamos: e, dêsse modo,
impulsionar o homem e a sociedade à ação. Porque não se daria caráter essencial à sua
atividade, fôsse ela meramente informativa, destinada a satisfazer curiosidades e entreter os
espíritos. “Na verdade, refletindo o meio em tôdas as suas manifestações e, ao mesmo tempo,
sôbre êle agindo, o jornal (jornalismo) sintetiza e traduz a substância da vida social,
influenciando-lhe os rumos. Mas tudo evidentemente enquadrado nas liberdades ao seu alcance,
isto é, naquelas que emanam do sistema político em primeiro lugar, e das outras limitações
contingente, na maioria preponderantes, que se originam do sistema econômico. É em
conseqüência disso que (como o constatou Wiekham Steed), a imprensa é o problema central da
moderna democracia.”174 Para realizar êste trabalho de primeiro plano, é convocado o jornalista,
aquêle que encontrou a sua vocação no servir de porta-voz e intérprete dos fatos sociais. Ensina
Gregorio Marañon que a vocação é um “imperioso apêlo”, uma “voz interior que nos atrai para a
profissão e o exercício de determinada atividade...” Todavia adverte, em seguida, que “a
vocação autêntica nunca é platônica, mas implica imediatamente em servir ao objeto da
vocação. Para descobrir, para escrever, para ensinar há que servir e, para isso, são necessários,
antes de mais nada, dons inatos e magníficos da alma e da personalidade. A vocação, em último
têrmo, não é mais, nestes casos, do que a aspiração de servir, uma aptidão ainda não
revelada.”175 É pela formação cultural, pela sedimentação dos conhecimentos técnicos, pela
prática do ofício, “pela miragem de certos episódios heróicos ou espetaculares”, pela glória que
perseguimos ou pelas vantagens materiais que colhemos — que se revela esta aptidão, que
aquêles dons vêm à tona, competindo-nos consolidá-los e desenvolvê-los.
A Curiosidade Comunicativa — O primeiro atributo do autêntico jornalista é a
curiosidade comunicativa, que difere da curiosidade pura e simples porque se reveste de um
insopitável desejo de passar adiante a informação obtida ou o fato testemunhado, ajuntando-lhe
dados novos e comentários. Diante de uma ocorrência, o homem comum pára, informa-se e
segue o seu caminho, indiferente, se tal fato não lhe diz respeito imediato; o intelectual e o
cientista igualmente param, informam-se e prosseguem, quando muito retirando dela algumas
inferências particulares ligadas à sua ordem cultural; o jornalista age diferentemente. A sua
parada é mais longa ou mais intensa; a informação que colhe é mais completa e tem aplicação
imediata porque êle lhe dá forma, julga-a, pesa-a, não em função aos seus próprios interêsses
mas da sociedade de que se sente receptor e transmissor. Neste sentido é que o jornalista é
aquêle “órgão constante e vivo de informação” Para êle, o fato tem um sentido que é preciso
captar, definir, situar, comparar com outros, classificá-lo pela sua maior ou menor importância e,
finalmente, exprimi-lo, divulgá-lo, comunicá-lo.
Ao contrário de outros profissionais que podem repousar após o cumprimento de uma
etapa de trabalho — o advogado em seguida a uma causa julgada; o médico, após o curso de
uma assistência ao paciente — o jornalista está sempre em função, não se permite uma trégua,
Octávio de la Suarée — Psicologia aplicada al periodismo — La Habana, 1944 pág. 32.
Aristeu Achilles — Liberdades Democráticas — Liberdade de Imprensa — Rio, 1957 — pág. 11.
175 Gregorio Marañon — Vocação e ética — Salvador, Ba., 1958 — págs. 16-17.
173
174
desde que também os fatos se sucedem numa aglutinação dinâmica que provoca, sempre, no
observador, uma reação que culmina na criação da notícia. “A conduta jornalística oscila como
um pêndulo entre a reação e a situação. Suas alternativas são: a) conhecida a reação, presumir
a situação que a produz; b) dada a situação, predizer a reação que produzirá. Esta última
fórmula condensa todo ou quase todo o jornalismo, pois o jornalista não limita a sua missão a
compor e apresentar os fatos mediante situações feitas, tuas desdobra-a, penetrando nos
campos da filosofia da ocorrência.”176
A Fecundidade Jornalística — Nesta operação espiritual de extrair a substância do fato
e apresentá-lo ao público, sob a forma de notícia ou de orientação é que se revela outra
característica do jornalista - a sua fecundidade, a capacidade de reconhecer o fato e mesmo de
provocá-lo — quando, por exemplo, entrevista alguém, algum nome ou alguma entidade que se
pode fazer notícia — e juntar-lhe, com exatidão e rapidez, os elementos que o irão transformar,
na forma e no fundo, como um feto se transforma num ser definido e completo que pode vir à luz
sem causar horror ou pasmo. A fecundidade jornalística já foi definida por um escritor chileno,
Andres Siegfried, com as seguintes palavras: “(o jornalista) deve olhar, escrever, evocar... temse a impressão de que examina o mundo... com um ôlho novo; é um memorialista mas é
também um sociólogo, inclinado ante a sociedade em que vive, acumulando observações
curiosas que serão aproveitadas pelos filósofos para deduzir leis”. Se é verdade, como o
observou Antônio Olinto, que “o ato de fixar uma realidade já é jornalismo”, deve-se considerar
que essa realidade, para ser jornalisticamente transmitida, tem de submeter-se a um processo
específico “o jornalista que descreve, procura colocar o leitor em posição visual de compreender
o acontecimento, a narrativa, como localizada em determinado espaço. Há, em geral,
necessidade de serem reerguidas pedaço por pedaço, a paisagens que circundam os fatos e
têm às vêzes com êles íntimas relações. É um trabalho de verdadeiro arquiteto literário,
preocupado em construir ou reconstruir os interiores e exteriores em que as cenas se passam de
um modo quase cinematográfico... A informação jornalística precisa de apresentar alguns,
elementos básicos que o leitor tem necessidade para a total compreensão da notícia. Que coisa
aconteceu? Quem provocou a coisa acontecida? Onde foi? Por que? Para que? Estas perguntas
têm de ser respondidas e a narrativa, o relato vai por isso dando os pormenores de lugar, de
tempo, bem como a autoria e as conseqüências da ação a que se refere.”177
Por isso, o jornalista deve adquirir conhecimento não ser um jejuno em nenhum campo
da atividade humana, possuir cultura geral e, sobretudo, informar-se incessantemente do que vai
pelo mundo, através de todos os veículos ao seu alcance. Não é imprescindível que seja um
enciclopédico, que tenha uma excepcional bagagem cultural; mas que sua mentalidade
represente “a média aritmética das mentalidades às quais se dirige... Não se trata (também) de
que seja um homem vulgar, mas “extraordinàriamente” corrente, talvez como não o é, indivíduo
por indivíduo, nenhum daqueles leitores para os quais tem de adaptar sua mentalidade, seu
interêsse e sua lição.”178 A fecundidade jornalística está em possuir o profissional um regular
lastro cultural e uma agilidade mental que lhe permitam encontrar os conhecimentos necessários
no momento preciso, no instante mesmo em que o seu instinto lhe indica haver concebido.
A Objetividade — Na gestação da obra jornalística, entretanto, não deve o agente
esquecer o fato, perder de vista o objeto, mesmo que a tal seja tentado pela possibilidade de
vitaminizá-lo graças à sua cultura ou à sua capacidade pessoal de raciocínio e inferência.
Porquanto outro traço marcante da sua personalidade é a objetividade, o apêgo à verdade, ao
realismo, ao sucedido. “Tudo deriva daí: a informação do fato; a formação pelo fato; a atualidade
Octavio de la Suarée — Obra cit. — pág. 34.
Antonio Olinto — Obra cit. — pág. 29.
178 Ismael Herráiz — Obra cit. — pág. 37.
176
177
do fato; o estilo determinado pelo fato. O fato, o acontecimento, é a medida do jornalista... A
veracidade, o realismo é a sua grande fôrça. O mau jornalista é o sofisticado ou o fanático, ou o
mal informado, ou o divag ante ou o vernaculista. Todos êles perdem de vista o objeto, o fato, a
realidade para se prenderem apenas no modo de o retratarem ou nas suas segundas intenções
mais ou menos ocultas... É por isso que um jornalista-polemista tem menos fôrça, embora mais
violência, que o jornalista sereno e objetivo. A fôrça do jornalista está na verdade e na
honestidade, que é a coincidência dos seus atos com o seu dever, como a verdade é a
coincidência de sua apreciação com o acontecimento em si. Um polemista é um belo espetáculo,
mas está mais na linha da poesia, da sátira, do que pròpriamente do jornalismo, precisamente
porque, nêle polemista, a subjetividade prima a objetividade, contrariando uma exigência natural
do gênero... Quando Rui Barbosa, que em outras oportunidades foi tão grande jornalista,
escreve um artigo de polêmica só para empregar dezenas de sinônimos de um termo injurioso
para o adversário, pode ter feito um exercício de estilística, como o pianista faz escalas, mas não
faz autêntico jornalismo”.179 E Antônio Olinto, após lembrar que “existe a realidade em ato e a
realidade em potência”, escreve: “A ficção pode haurir seu material tanto de uma como de outra.
Sua configuração geral, no entanto, é mais de real possível do que de real atual, enquanto que o
jornalismo se situa quase que exclusivamente no real atual... A literária de ficção — o romance, o
conto — pode prescindir de alguns dêsses elementos (lugar, tempo, autoria e conseqüência da
ação) porque seu plano (mais real possível do que real atual) é o de surpreender alguns dos
mistérios do homem como ser, o que pode ser feito pelo escritor tanto na história chamada de
“enrêdo” como numa pesquisa psicológica, numa apresentação de personagens em luta com os
seus próprios demônios interiores.”180 A obra jornalística, não. É eminentemente objetiva, tem os
limites da realidade, da atualidade, da fidelidade ao fato.
Em discurso proferido, em 1953, aos jornalistas da Associação da Imprensa Estrangeira
em Roma, Pio XlI — um dos mais sábios pontífices entre os que já ocuparam o sólio papal expunha as sérias dificuldades com que lutava o jornalista para manter-se fiel à objetividade, sob
o guante das mais diversas tentações. “Tentações que nascem dos interêsses de partido e
talvez até da imprensa por cuja conta trabalhais. Como pode ser difícil resistir-lhes e respeitar os
limites que a veracidade proibe absolutamente de ultrapassar! Sem esquecer sequer que “a
conspiração do silêncio” pode também ofender gravemente a verdade e a justiça. Em seguida,
tentações da parte da opinião pública ou mais exatamente das opiniões do público, que o
jornalista não pode seguir sem reservas, êle que precisamente deve adequá-las à verdade e ao
direito e por conseguinte purificá-las e guiá-las. Sabeis — acrescentava — pela vossa própria
experiência quotidiana como é muitas vêzes dificultoso garantir a pura verdade, no campo da
opinião pública, até mesmo só uma parte daquela consideração em que podem freqüentemente
contar a mentira e as meias verdades, quando causam admiração e seduzem. Jean dé la
Fontaine não exprimiu uma observação parecida nos versos bem conhecidos: “o homem é de
gêlo para as verdades; e de fogo para as mentiras?”(Fables, 1, IX, 6). Comparação que contém
mais do que uma parcela da verdade.” E o imortal pontífice fazia aos jornalistas a seguinte e
incisiva advertência: “Mas se neste pobre mundo existe um “tempus belli”: tempo para a guerra;
e um “tempus pacis”: tempo para a paz; um “tempus loquendi”: tempo para falar; e um “tempus
taciendi”: tempo para estar calado; não há “tempus veri”: tempo para a verdade, e “tempus falsi”:
tempo para o êrro.”181
Tremenda advertência, realmente, quando se considera que, além das dificuldades
exteriores, o jornalista tem de lutar contra outra muitas vêzes mais grave, oriunda da sua própria
fecundidade: — aquêle elemento imaginário ou dedutivo que gratuitamente vinculamos às
circunstâncias que envolvem o fato e que, forjando-se espontâneamente, desfigura a realidade,
Tristão de Ataíde — Art. cit. in Diário de Notícias - 10 e 17-nov.-1957.
Antonio Olinto – obra cit. - págs. 28 e 30.
181 A Ordem — Rio — Vol. L, n. 1 — julho de 1953.
179
180
dando à notícia um caráter de boato; transmudando unia informação que, ao menos em tese,
está sujeita a normas seguras de verificação, em um rumor, que a tais normas não se conforma.
Allport e Postman, que estudaram detidamente a psicologia do boato, salientam que os
jornalistas “apesar das suas melhores intenções nem sempre conseguem escapar ao curso da
deformação típica do rumor. O repórter raramente é testemunha presencial do sucesso; chega
ao sítio da cena depois de haver-se produzido um fato digno de publicação. As provas que
recolhe podem ser relatos de segunda ou terceira mão (e ainda quando fôssem de testemunhas
oculares seriam de duvidosa exatidão). A notícia se terá convertido, então, em rumor e o que o
repórter escreva e o redator redija corre o perigo de cair ainda mais na precária ladeira da
nivelação, acentuação e assimilacão.”182 Daí porque é tão rara a divulgação de versões idênticas
sôbre o mesmo fato em diferentes veículos de Publicidade, e porque é freqüente, no estilo
periodístico o uso do modo condicional e das expressões “circula”, “informa-se”, “correm
fundados rumores”, “conforme fontes bem informadas” e outras, que a fidelidade do jornalista
aos fatos é forçada a empregar, na defesa do seu senso objetivo.
A Discrição — Deve-se, contudo, ter em conta a soma de experiência do jornalista, a
sua constante manipulação dos fatos, a sua familiaridade com os assuntas, o seu conhecimento
das normas de ética, das leis, dos costumes, de tudo quanto condiciona o comportamento social
— o que lhe oferece meios de separar na radiografia da ocorrência, o verídico do falso.
Igualmente serve à objetividade aquela quase paradoxal discrição a que se refere Du Passage,
que põe sempre em guarda o jornalista a respeito de fatos que possam destruir reputações, quer
pela sua revelação nua e crua quer pela discriminação da fonte, onde se obteve a informação.
Pois “nem tôda a verdade é boa para ser dita, a despeito dos Alceste de todos os tempos e dos
tagarelas apressados em vender atualmente as suas novidades”
O mesmo autor propõe, em poucas palavra, um código para o jornalista que informa:
“respeito à verdade, rendendo homenagem à exatidão; atenção leal e engenhosa para facilitar a
obra de esclarecimento; reserva que não atribui jamais ao zêlo da verdade os nossos
procedimentos indiscretos e as nossas intransigências apaixonadas”.183 Outro não é o
pensamento de J. Provayer Carracedo, quando, definindo os programas informativos de rádio,
diz que “se destinam a manter o rádio-ouvinte bem informado, de modo veraz, de quanto ocorre
no mundo... A. verdade será dita sem prejuízo e os fatos divulgad os sem intenção maliciosa, é
êste o princípio fundamental para facilitar ao rádio-ouvinte os elementos de juízo apropriado para
que nenhum fato seja desfigurado alterando ou confundido. Como chegaremos a obtê-lo?
Simplesmente com uma atuação judiciosa, serena, responsável, sem paixões, com absoluta
imparcialidade ao reproduzir para divulgar no radiário as rádio-notícias exatamente como se
produziram em nossa presença ou com uma investigação sã e alerta do ocorrido.”184
O jornalista tem a obrigação profissional de divulgar qualquer notícia comprovada que
lhe chegue ao conhecimento, o que não o priva — nem o redime, se acaso não obedece aos
estilos — de prever as conseqüências sociais dessa divulgação. Em pesar as obrigações que
tem para consigo e para com a sociedade em geral, em balancear o dever profissional e o dever
social, em conduzir-se, em caso de conflito, com senso de oportunidade e responsabilidade — é
que está o atributo da discrição jornalística. Discrição que evita pareceres e juízos precipitados,
que podem deflagrar revoltas e iras e de cujas repercussões na opinião o jornalista se pode
arrepender tardiamente. Discrição jornalística que, por outro lado, advertirá o profissional
verdadeiro do momento asado para transmitir uma informação ou dar uma orientação reclamada
pela sociedade a que serve.
Gordon W. Allport e Leo Postman – Psicologia de rumor – Buenos Aires, 1953 – pág. 192.
R. P. du Passage — Du journalisme – Paris, 1925 — págs. 11-13.
184 J. Provayer Carracedo — Radioperiodismo — La Habana, 1952 — pág. 57.
182
183
Êstes dois distintos aspectos da discrição no exercício do jornalismo estão
caracterizados nos seguintes exemplos: em 1945, quando se sentia no ar que o regime ditatorial
estadonovista se aproximava do seu têrmo, o jornalista brasileiro Luís Camilo de Oliveira Neto
obteve do sr. José Américo de Almeida, que fôra o candidato à presidência da República,
ludibriado pelo ditador em 1937, uma entrevista destinada a dar o golpe de morte no regime. Por
muitos dias, o repórter insistiu pela sua publicação, sendo considerado insensato, em face da
rigorosa censura à imprensa ainda imperante. Afinal, obteve a divulgação e o seu ato foi a
libertação do jornalismo brasileiro das peias do DJP e o inicio da vitoriosa campanha de
reconstitucionalização do país. Outro caso é o do correspondente norte-americano da United
Press, William B. Dickinson, que guardou durante treze meses consecutivos um autêntico “furo”
de reportagem: uma ação de Lindenberg contra caças Japoneses no Bornéo — porque a sua
publicação daria margem a prejuízos à causa dos aliados, visto como, sendo civil, o famoso ás
não poderia participar de vôos de combate, estando, apenas em serviço de treinamento de
pilotos de caça norte-americanos, quando se apresentou ocasião inopinada de entrar em luta.
Ainda recentemente, conforme o relata a revista Visão — edição de 23 de janeiro de 1959 — o
jornalista Odorico Tavares,185 dos Diários Associados, estava hospedado na Embaixada do
Brasil, em Lisboa, e acordou um dia tendo como vizinho no quarto ao lado o General Delgado,
que fôra candidato oposicionista à presidência da República Portuguêsa e, ameaçado em sua
segurança pelo regime que combatera, procurara asilo na sede da representação brasileira. A
condição de hóspede do embaixador impediu Odorico Tavares de conseguir o que seria a
entrevista mais fácil e sensacional da sua carreira.
“Não basta, com efeito, que uma notícia seja certa, irreprochàvelmente certa, para que já
por si se constitua um elemento adequado à conveniência social, como não o seria colocar em
mãos de um menino de meses um fósforo aceso porque chora de medo à escuridão que o
rodeia... A verdade é mais ou menos verdade e até pode deixar de ser verdade, conforme se a
diga ou se a escreva. Talvez nenhuma outra essência filosófica esteja mais subordinada à forma
do que ela e o fato de que se a entenda sempre de diversas maneiras dá uma idéia cabal dos
requisitos morais que exige a sua apresentação. Que seja verdade uma notícia, é ter já o
jornalista à sua disposição o primeiro elemento para publicá-la, porém não o único se se tem em
vista não o egoismo ou a vaidade profissional mas a conveniência social. O sol dá vida ao
homem mas êste não pode mirá-lo diretamente. Jouvenel dizia aos seus alunos de jornalismo:
“Não se esqueçam de que o público sente horror diante de tôda verdade nova”. As “maneiras” da
verdade. . . devem ser reduzidas ao fundamento único que a complemente e concretize e faça-a
assimilável pelas grandes maiorias. Êsse fundamento único é, para o jornalista a conveniência
social”. 186
As normas gerais da conveniência social estão expressas nos códigos de ética e, muitas
vêzes, nos códigos criminais — os primeiros elaborados pelos jornalistas ou por organismos em
que os jornalistas se acham representados, à luz dos costumes e das tradições das
comunidades a que se destinam; o últimos integrando a consolidação das leis penais, a que se
acham coercitivamente submetidos não sòmente os agentes do jornalismo como o povo inteiro.
Mas é, sobretudo, a consciência profissional que adverte o jornalista da oportunidade e da
justeza da apresentação ou do comentário de um fato qualquer, sem que lhe seja preciso
consultar textos éticos ou legais, como o médico, para a diagnose e terapêutica de um mal, nem
sempre necessitará de ir ao Chernoviz.
Odorico Tavares, jornalista e poeta, natural de Pernambuco, iniciou a sua carreira na imprensa de Timbaúba, sua
cidade natal. Transferindo-se para o Recife, ingressou no Diário de Pernambuco e mais tarde fixou-se na Bahia,
passando a dirigir o associado – Diário de Notícias, de Salvador.
186 Octávio de La Suarée – Moraletica Del periodismo – pág. 274.
185
Senso Estético — E já que utilizamos a comparação do exercício do jornalismo com o
da medicina, prossigamos no paralelo: chamado ao leito de um enfermo, o médico examina-o e
deve dizer-lhe o mal de que sofre, sua extensão e a disciplina a que deve submeter-se para
obtenção da cura. A linguagem, a atitude, os métodos de ação do facultativo serão de molde a
fazer entender ao paciente o seu estado de saúde, a fim de conseguir a necessária aquiescência
à terapia indicada. Se, entretanto, usa apenas a linguagem científica, torna-se ininteligível; se se
mostra surpreendido ou temeroso com os sintomas e a marcha da moléstia, fatalmente transmite
receios, e não raro desespêro, ao seu cliente; se, por outro lado, parece demasiado otimista,
corre o risco de incutir no enfermo uma idéia por demais lisonjeira da sua situação. Ocorre o
mesmo com o jornalista, no seu trato com o público — e o que o ajuda a acertar na ação é o
senso estético, aquela medida de equilíbrio de valores, que condiciona o seu comportamento
profissional, fazendo-o obedecer, em qualquer que seja o veículo de que se utiliza, aos princípios
de correção, clareza, unidade, precisão, energia e harmonia.
É o senso estético que dita o estilo jornalístico, que há de ser correto, mantendo igual
distância entre o preciosismo e vulgarismo; que há de ser claro, fugindo ao simbólico e ao
metafórico; que ha de ser uno, mediante a ordenação das idéias numa seqüência lógica; que há
de ser enérgico, fixando expressões ou detalhes essenciais; que há de ser, finalmente,
harmônico, adotando um ritmo próprio de “linguagem”, de molde a evitar dissonâncias e
choques. Sòmente nestas condições, o jornalista realiza obra estética e neste afã é que jamais o
poderá alcançar a máquina, jamais o poderá substituir o servo-mecânico, jamais o poderá
violentar qualquer regime social estritamente materialista.
Aqui é oportuno lembrar que as primeiras manifestações jornalísticas foram puramente
utilitárias, respondendo a exigências primárias da vida social. Em seguida, observou-se uma fase
de alegre despreocupação: o jornalismo era, então, enrêdo e maledicência amável e
inconseqüente. Mais tarde, registrou-se a época da polêmica, dos fatos apresentados em conflito
e usados para a defesa ou o ataque. Houve, ainda, o instante da boêmia, da quase
irresponsabilidade. Sòme nte há pouco mais de um século é que o jornalismo e o jornalista
iniciaram a sua batalha de aperfeiçoamento, de fixação de metas a serem ultrapassadas, de
superação do empirismo para um enquadramento ético e estético, um planejamento filosófico e
sociológico que responde não só a reclamações primárias e meramente utilitárias mas a
necessidades do espírito do homem, com tempo para viver e para pensar.
Daí porque o jornalista — na fase de transição porque passamos, em pleno florescer de
uma segunda revolução industrial — precisa de estar consciente da sua missão, de cultivar
qualidades e dons que lhe são cada dia mais exigidos, de reclamar o gôzo da condição
primordial da sua atividade — a liberdade, uma vez que se achará apto a assegurar por si
próprio, em contrapartida, aquela outra condição indispensável ao seu exercício — a
responsabilidade.
QUARTA PARTE
AS CONDIÇÕES DO JORNALISMO
Contém:
O PROBLEMA DA LIBERDADE
Poder Público e Liberdad e de Opinião
Educação para a Liberdade
Defesa da Liberdade de Opinião
O PROBLEMA DA RESPONSABILIDADE
Jornalismo e Moral
O Jornalismo Sensacionalista
A Ética no Jornalismo Brasileiro
Jornalismo e Nacionalismo
Ação catalizadora do Jornalismo
O Jornalismo Brasileiro e o Nacionalismo
Os Reclames do Presente
Jornalismo e Paz Mundial
A “Batalha da Paz”
A ONU e a Paz
Os Caminhos da Paz
Temos como fundamentais ao exercício do jornalismo duas condições: uma que parte de
fora para dentro e cuja garantia é competência das sociedades e particularmente, do Estado: —
a liberdade; outra, que é própria do agente, que dêle parte e dêle é exigida pelo indivíduo, pela
comunidade e pelo Estado: — a responsabilidade. Sem a primeira, o exercício do poder
opinativo não passaria de mais um instrumento — terrível, esmagador instrumento manejado
pela tirania e pelo despotismo para subjugar os anseios dos espíritos e dos povos pelo seu
constante aperfeiçoamento moral e material. Sem a segunda, em lugar de encaminhar o homem,
a sociedade, a comunhão internacional pelos caminhos da educação e da cultura, da ordem, do
progresso, da paz e da colaboração, essa fôrça motora da vida social geraria preconceitos e
ódios, aguçaria conflitos, levaria indivíduos e comunidades à desintegração, provocaria o caos e
a ruma. Socorrendo-nos, pois, do pensamento filosófico moderno e da observação dos fatos
sociais, tentaremos situar, aqui, as íntimas e indissolúveis relações entre jornalismo e liberdade,
jornalismo e responsabilidade e os reflexos que quaisquer distorções neste terreno produzem no
exercício dessa atividade e no seio da coletividade humana.
O PROBLEMA DA LIBERDADE
Valor inerente e essencial ao desenvolvimento da personalidade humana e da vida
social, a liberdade deve ser compreendida pelo jornalista como inalienável “para exercer sem
entraves a sua atividade intelectual, o que significa que deve poder exprimir livremente as suas
idéias, em qualquer ordem de pensamento, quer seja pela palavra ou por escrito.”187 Para ser
livre, o indivíduo precisa de ter asseguradas condições em que possa expandir o seu ser e
afirmar a sua personalidade, em outras restrições senão as ditadas pelos poderes ordena- dores
que integra. É o que ensina o prof. Paulo Nogueira Filho,188 que acentua: “Em todos os climas e
latitudes do globo terrestre, diante da constante ação social, os indivíduos atuam coincidindo ou
não, concordando ou não, com as regras jurídicas e morais, hábitos, usos, costumes ou
ordenações sociais ainda que difusas. O fato capital é, assim, o de que a expansão da pessoa
humana só se processa na concordância ou na discordância das vontades individual e social. A
experiência confirma: no primeiro caso, a consciência dessa concordância se identifica com o
sentimento de liberdade, que avigora a personalidade; no segando, a discordância se identifica
com o sentimento de opressão, que atrofia a personalidade. Êsses fenômenos universais e
constantes nos permitem definir a liberdade, que chamaremos de social, como ação ou inação
voluntária concordante com a vontade coletiva; e opressão social como ação ou inação
determinada por vontade cole tiva, discordante da pessoal... A liberdade tida como ação
individual, independente de limitação, nunca se define de modo preciso. Ao inverso, se a
consideramos como a expansão individual possível, realizada na integração social, o seu sentido
é uno cm quaisquer condições. Sejam quais forem os ideais coletivos que animem um
aglomerado formado de seres dotados de razão, sempre que um dos seus componentes verificar
a sua posição no grupo, diante do problema da ordenação coletiva, e compará-la com a de seus
pares, terá noção precisa do estado de liberdade ou de opressão em que vive.”
O jornalista, como intelectual, está habilitado a sentir o grau de liberdade de que desfruta
e para êle, mais do que para outros profissionais nos diferentes campos de experiência humana,
a defesa da liberdade constitui tarefa indeclinável pois “se neste domínio um indivíduo se vê
obrigado a guardar silêncio, a permanecer inativo, se converterá num ser torpe e incoerente, que
não participará da elaboração política. E, nesta ordem social, sem liberdade de pensamento e
associação, um homem carece de meios para proteger-se a si mesmo”.189 Tão vital se apresenta
Jacques Bourquin – La Liberte de la Presse – Paris, 1951 – pág. 33.
Paulo Nogueira Filho — Regime de liberdade social — Rio, 1951— págs. 38-39 e 46.
189 Harold J. Laski — La libertad en el Estado moderno — Buenos Aires — 1946 — pág. 67.
187
188
a liberdade para o exercício do jornalismo que somos levados a crer, com Leon Duguit, que ela
não constitui um direito, mas um dever. “Desde o momento em que o homem faz parte da
sociedade e, por isso, é um ser social, nasce para êle uma série de obrigações, especialmente a
de desenvolver sua atividade física, intelectual e moral e não fazer nada que perturbe o
desenvolvimento da atividade dos demais; por conseguinte, não se pode dizer, em verdade, que
o homem tem um direito ao exercício da sua atividade; é preciso dizer que tem o dever de
exercê-la, que tem o dever de não dificultar a ação dos demais, o dever de favorecê-la e ajudála, na medida do possível. Assim, no conceito solidarista, a idéia da liberdade-direito desaparece
para dar lugar à idéia de liberdade-dever, da liberdade-função social.”190
Poder Público e Liberdade de Opinião — Se o jornalista tem o dever de exercitar
amplamente a sua liberdade para ser fiel à missão de favorecer e ajudar a atividade dos demais
membros da sociedade, ao Poder Público não cabe outra tarefa que a de proteger essa
liberdade, a de assegurá-la, a de garanti-la por todos os meios, não apenas no termo da lei mas
real e efetivamente. Sem dúvida, pode o Poder Público limitar a liberdade de cada um, mas
sòmente na medida que seja necessária para proteger a liberdade de todos. Jacques Maritain
escreve que à comunidade política “assiste naturalmente o direito de opor-se à propagação da
mentira e da calúnia, às atividades que têm por objeto a depravação dos costumes, às que têm
por fim a destruição do Estado e dos fundamentos da vida comum” mas “a censura e as medidas
de polícia são o pior meio, ao menos em tempo de paz, de assegurar essa repressão. “Para o
filósofo católico, há muitos meios melhores para tal” sem falar na pressão expontânea da
consciência comum e da opinião pública, que brota dos costumes e hábitos, quando êstes se
acham fortemente arraigados.”191 Conclui-se que a tarefa dos homens de govêrno e dos
responsáveis pela orientação e pelos destinos dos povos, nos dias que correm, “consiste em
assegurar um equilíbrio harmônico entre a liberdade de que necessitamos e a autoridade que é
essencial, a fim de dotar o homem comum da perfeita convicção de que possui espaço suficiente
para a contínua expressão de sua personalidade.”192 O poder público pode e deve limitar a
liberdade individual para melhor garanti-la, e esta doutrina está consubstanciada em todos os
movimentos filosóficos que levaram o homem a lutar pelo direito e pelo dever de ser livre. Assim,
“as clássicas declarações de direitos, ao enumerarem as liberdades tidas como fundamentais,
não deixaram de fazer referências à ordenação necessária quando preceituam que ninguém
pode, fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei. Ainda quando põem vigor
na afirmação de uma liberdade, como por exemplo na de culto, cujo exercício declaram não
poder ser impedido, implicitamente reconhecem a necessidade de regulamentá-la. Os que falam
em liberdade de expressão do pensamento, no sentido de faculdade irrestrita, não têm em conta
o que seria entre outras a falta de ordenação jurídica da matéria, nos grandes centros urbanos
nos países democráticos, durante uma campanha política. Para começar, a quem pertenceria o
centro cívico da cidade? E que seria, quanta à ocupação de espaços nos veículos de
publicidade? A falta de ordenação no caso, que é dos mais típicos, ocasionaria simplesmente
conflitos cruentos ou o caos. E pondere -se que, na hipótese, só aludimos à carência de norma
jurídica. O presidente Roosevelt, ao proclamar como fundamentais quatro dentre as “liberdades
humanas”, se referiu à categoria de atividades que julgou deverem ser ordenadas, porém, ao
seu ver, com as menores restrições possíveis, tal como provàvelmente são estatuídas nas leis e
nas tradições anglo-saxônicas. O proble ma a resolver seria, assim, de fato, o de universalização
das respectivas ordenações, o que, na realidade, é inexequível, pois varia de povo a povo o
conceito da normativização necessária em cada uma das séries citadas pelo insigne democrata.
190 Leon
Duguit — Soberania y Libertad — Beltram, Madrid, 1924 — págs. 222-223.
Jacques Maritain – Los derechos Del Hombre y la Lei Natural – Biblioteca Nova – Buenos Ayres, 1946 – págs.
126 – 127.
192 Harold Laski – Obras cit. – págs. 18.
191
O valor da sua proclamação residiu no intento de influir junto a todos os governantes para que
assegurassem, naqueles setores de atividade humana, a paz social.”193
A verdade é que os limites da liberdade não pertencem apenas à ordem jurídica; são
também morais, filosóficos e religiosos. Dêsse modo, a sociedade será chamada a responder às
distintas direções do pensamento e a aplicar recursos próprios para analisar, assimilar ou rejeitar
as idéias que a impulsionam à ação. Não é fácil, todavia, distinguir, no tumulto dos interêsses em
choque, o limite da liberdade, isto é, aquêle instante em que temos de aceitar restrições ao
nosso direito, de renunciar ao exercício amplo da nossa atividade, em respeito ao direito alheio
— da sociedade, do Estado ou do indivíduo — ao pleno exercício da atividade dos que conosco
vivem e atuam.
Sòmente uma convicção profunda de que liberdade e responsabilidade são coisas
inseparáveis; de que liberdade não significa indiferença ao bem geral e individual; de que
liberdade não é “o direito de fazer o que me pareça, nem a necessidade de fazer o que o ditador
me imponha, mas, ao contrário, é o direito de fazer o que eu devo”;194 de que não expressa a
faculdade de contra ela nos erguermos; de que “liberdade e lei, liberdade e obrigação mo ral são
idéias correlatas”; 195 e de que, em última análise, a liberdade não é um fim — sòmente com
essas convicções, adquiridas pela experiência e pela educação, é que poderemos, nós próprios,
escolher os caminhos e traçar os limites da liberdade, distinguindo-os, quando impostos pela lei
jurídica, para acatá-los em nome da própria liberdade.
As leis que regulam e limitam a liberdade, com efeito, não são apenas as regras
codificadas, esquematizadas em textos oficiais. São também as que correspondem a
responsabilidades éticas, morais, filosóficas — de valor absoluto e indiscutível. Já T. Fulton
Sheen assinala que “todos falam como se a liberdade neste mundo fôsse um fim e não um meio.
Batem-se pela liberdade mas não dizem porque querem ser livres. Insistem em ser livres de
alguma coisa mas esquecem de que estar livre de alguma coisa implica em estar livre para
alguma coisa. Estar livre do reumatismo só é compreensível porque quero estar livre para andar.
Esqueça-se a finalidade, e a liberdade tornar-se-á um absurdo.”196
Educação para a Liberdade — Há, portanto, que o jornalista identificar-se com os
objetivos da sua missão, bem informar-se dos meios que deve utilizar para alcançá-los e de
como empregá-los. Em outras palavras, o jornalista precisa — como arauto e pregoeiro das
idéias, do pénsamento, das ieivindicaçôes, dos anseios da opinião pública, enfim — o jornalista
precisa de educação especial para a liberdade. Porque se a liberdade fôsse, apenas, a
manifestação da opinião através dos veículos jornalísticos, o direito de publicar o que se quer, de
torcer a verdade ao sabor das próprias conveniências, de insultar e denegrir o próximo, de
suprimir informações, de fazer sensacionalismo, de incitar à rebelião e propagar a guerrrcivil ou
entre nações — então nenhuma educação, instruçãu ou treinamento se faria mister para o
exercício profissional. Qualquer indivíduo poderia — como infelizmente tem ocorrido
— intrometer-se numa redação de jornal, investir-se na direção de um periódico ou de
uma emissora radiofônica, travestir-se de jornalista, encobrir-se e proteger-se com o munus
natural da profissão. Do jornalismo missão-social, nada entenderia, o que não o privaria de ser
um “expert”, de conhecer da técnica de jornal, da administração e gerência de uma emprêsa
jornalística, de manobras astutas para obter riqueza e mundo, utilizando o jornalismo do mesmo
modo que o tirano o utilizaria para a satisfação dos seus interêsses. Essa “liberdade” não o
privaria, conseqüentemente, de pela violação das normas éticas que regem a profissão, pelo
diatribe e. Rela injúria, pelo falso testemunho e pela irresponsabilidade, em atos de puro
Paulo Nogueira Filho — Obra cit. — 44-45.
J. Fulton Sheen — O problema da liberdade — Rio, 1947 — pág.34.
195 Gustavo Corcão — As fronteiras da técnica — Rio, 1955 — pág.71.
196 J. Fulton Sheen — Obra cit. — pág. 31.
193
194
gangsterismo, levar a comunidade ao desespero, mergulhar o país na ruma, na luta fratricida e
no caos.
Mas, liberdade de expressar a opinião não é essa licença e sim “a possibilidade de
exercitar o próprio e são direito, no âmbito da lei”, isto é, conformando a expressão do
pensamento às normas do Direito, que “não é pura teoria mas uma fôrça viva e real, um trabalho
incessante não sòmente do poder público mas do povo inteiro.”197 Como expressiva parcela do
povo o jornalista não deve permanecer passivo diante dos problemas, limitando-se a expô-los ou
criticá-los leviana ou inconseqüentemente. A sua posição é de um ativo participante da
elaboração do Direito, da luta pelo desenvolvimento constante das condições econômicas e
sociais das comunidades a cujo serviço se encontra, de contribuinte na obra de entrosamento
dos cidadãos na vida, política da nação, de colaborador permanente na tarefa da paz e do
entendimento entre todos os povos do mundo.
Era uma educação especial para a liberdade de opinar que movia Joseph Pulitzer, na
sua iniciativa vitoriosa de criar a Escola de Jornalismo da Universidade de Colúmbia, e êle
próprio o declarava: “Minha esperança é que êste colégio de jornalismo levante o nível da
profissão. Mas para isso é preciso marcar a distinção entre os verdadeiros jornalistas e os
homens que fazem uma espécie de trabalho jornalístico que não requer nenhum conhecimento
ou convicção, mas um simples treino de negócio. Eu desejo iniciar um movimento que possa
erguer o jornalismo ao nível de uma profissão erudita, credora do respeito da comunidade, como
outras profissões muito menos importantes têm logrado o interêsse público.”198 Pulitzer estava
convencido de que a principal função dos estudos especializados jornalísticos era, não preparar
o profissional para o trabalho material de fazer um diário ou um periódico, ensinar-lhe tipografia
ou métodos de gerenciar o negócio, mas “elevar idéias, conservar a contabilidade no seu próprio
lugar e fazer da alma do jornalista, a alma do jornal.”
Ao general Lee, a Walter William, a Pulitzer, a Charles A. Dana, a William Allen White e
a outros jornalistas e professôres, deveu-se a vitoriosa campanha que transformou os Estados
Unidos no país líder do ensino jornalístico no mundo. Gilberto Henry Goston informa que “uma
enquete revelou, em 1949, que o número de jovens americanos que se destinam à carreira da
imprensa e das letras se eleva a dois milhões. Sem dúvida — acrescenta — entre êsses
escritores em perspectiva, no meio dêsses aspirantes a jornalistas, muitos terminarão “writers”
de agências de publicidade, de uma firma cinematográfica ou, acaso, correspondentes de uma
casa comercial. Não é menos verdadeiro porém que aquêles que chegarão a ser jornalistas
constituem uma importante fração dessa população estudantil nos Estados Unidos.”199
A sub-comissão de imprensa da “Comission de Besoins Techniques” da UNESCO,
reconhecendo que “os profissionais da imprensa, do rádio e do filme assumem responsabilidade
frente ao público”, opinou que “esta organização pode fazer muito mais em favor da formação
profissional do que sôbre não importa que outro ponto estudado” no relatório apresentado em
1949, correspondente a observações feitas em 19 países. Registrou, ainda, que “mesmo nas
nações em que a situação econômica é relativamente estável, falta pessoal qualificado,
particularmente para ocupar os postos mais elevados” e que, na maior parte dos casos
estudados, “as principais dificuldades não vêm do número insuficiente de candidatos, mas,
sobretudo, do fato de que êsses candidatos não têm formação profissional satisfatória.”
Reconhece, o relatório, que deve ser proporcionada aos jornalistas uma formação profissional
que lhes dê um bom lastro de cultura geral, desenvolva nêles o senso das responsabilidades que
incumbem à imprensa sôbre o plano social e lhes forneça noções de base a respeito da técnica
e dos métodos próprios desta profissão. E atendendo a que “os jornais não são os únicos a
197
Assante, Arturo — Il Giornale — Napoles, 1949 — págs. 45-46.
Robert W. Jones — Journalism in the United States — New York, 1947 — pág. 514.
GiIbert Henry Goston — L’ABC du journalisme — Paris, 1952 — pág. 7.
198 Conf.
199
fornecer ao público a sua ração de notícias, as informações gerais e as diretrizes contidas nos
artigos de fundo”, recomenda que “os programas das escolas de jornalismo sejam concebidos
em função de todos os meios de informação das massas” e em plano universitário.200
Fato significativo, quando se observa o desenvolvimento do ensino técnico-profissional
de jornalismo no mundo é a importância que os governos socialistas ou totalitários dão à criação
e manutenção das escolas e cursos superiores para o pessoal da sua imprensa. Pierre Denoyer
informa que, na URSS, “aquêles jornalistas cujos méritos os assinalam aos dirigentes são
enviados para uma das numerosas escolas de jornalismo. Seguem cursos de três meses, seis
meses, um ou dois anos, segundo a formação que se lhes julga conveniente dar.”201 E o repórter
brasileiro João Batista de Lima e Silva, que visitou a URSS, escreveu o seguinte: “A formação de
um jornalista do Pravda é um trabalho de vários anos, ao qual os dirigentes do jornal prestam a
mais solícita atenção. A diretiva stalinista — “Os quadros decidem tudo” — que norteia todos os
setores da atividade soviética, encontra neste caso um exemplo magnífico. Anualmente, saem
das Universidades soviéticas, particularmente das Escolas de Moscou e Leningrado, dezenas de
jovens que completam o curso de jornalismo.”202
O regime de Franco cuida da formação profissional dos jornalistas ibéricos, destacandose os cursos oferecidos pela Escola Oficial de Jornalismo da Universidade de Madrid, ditados em
três anos. O govêrno espanhol faz ainda mais: mantém cursos especiais, através de bolsas, para
alunos hispano-americanos, compreendendo um ano escolar de nove meses de duração,
dividido em três períodos intensivos, nos quais se estudam teórica e pràticamente as mesmas
matérias que no plano dos cursos para espanhóis, se bem que com menos extensão, e incluindo
algumas matérias especificamente destinadas à melhor preparação profissional dos periodistas
dos países sul-americanos, tais como problemas atuais da Hispano-América; instituições do
mundo hispânico; história dos Descobrimentos; estrutura econômica do mundo hispânico e,
note-se bem, política exterior da Espanha. 203
Essa preocupação dos governos socialistas e totalitários no preparo de equipes de
jornalistas, tècnicamente competentes e politizados de acôrdo com as diretrizes práticas e
filosóficas vigorantes, indica que tais governos também estão imbuidos da importância de
imprimir, no espírito daqueles que se dedicam à profissão jornalística, as idéias e normas
norteadoras do exercício da liberdade, como é entendida entre aquêles povos. E dentro dessa
compreensão, consideram ser vital para o govêrno possuir a sua imprensa e dar-lhe direito de
criticar e orientar a opinião pública.
A imprensa soviética, por exemplo, é considerada uma fôrça pelo govêrno porquanto
estabelece um contacto direto e vivo “entre o povo e os homens de Estado, reunindo as idéias
criadoras e a iniciativa dos trabalhadores. As autoridades soviéticas afirmam que na elaboração
definitiva das leis têm em conta a opinião assim obtida.”204 A liberdade de opinião na URSS não
obedece aos nossos modelos, mas “é exato, contràriamente ao que se crê comumente, que a
imprensa russa é livre de criticar. Publica numerosas cartas de trabalhadores inserindo
julgamentos por vêzes severos sôbre o funcionamento dos organismos governamentais. A
maioria das comunicações dos leitores refere-se aos negócios do Estado, quer às repartições
quer aos funcionários locais. É raro que sugestões ou críticas. se refiram às atividades dos
escalões superiores do Govêrno, comissários do povo ou órgãos dirigentes do Partido. Talvez
faça-se uma judiciosa censura das críticas; talvez os correspondentes prefiram, seguindo as
diretrizes oficiais, voltar a lua atenção para as atividades referentes às autoridades locais.
UNESCO — Press, film, rádio — Paris, 1948 — págs. 24-37.
Pierre Denoyer — La Presse dans le monde — Paris, 1950 — pág. 117.
202 A Voz Operaria — Rio, 11-junho-1953 — N. 217.
203 Manual de Estudos – Universidade de Madrid — Ano de 1952.
204 Pierre Denoyer — Obra cit. — págs. 111-117.
200
201
Jamais a política do govêrno, tal como a entendemos, é criticada. Em troca, a realização dessa
política pode ser criticada e o é realmente. Há momentos em que a crítica da execução inclui a
crítica da própria política.”205 Pierre Denoyer dá-nos um exemplo da liberdade de crítica na União
Soviética feita à burocracia florescente, ali, pela revista satfrica Krokodil, de grande tiragem, em
que aparecia o desenho da ante-câmara do presidente de um Soviet Municipal cheio de
visitantes. “Espera-se muito tempo para ser recebido?“ — pergunta um recém-chegado. “Não
sei, responde um dos visitantes, não faz senão três meses que espero.”
Os jornalistas soviéticos estão capacitados hoje a defender a sua própria concepção de
liberdade de imprensa206 graças, exatamente, ao preparo excepcional do seu pessoal. O maior
documento a respeito de que temos conhecimento, é a carta aberta dirigida pelo jornalista russo
N. Baltiiski a um dos diretores da Associated Fress, Kent Cooper, em resposta a uma palestra
pelo mesmo proferida em outubro de 1944 na Associação Editorial de Chicago, em que concluia
que a Rússia desejava uma imprensa livre em todo o mundo, menos na própria URSS. Nessa
longa missiva, Baltiiski revela conhecimento absoluto dos princípios da liberdade de imprensa na
concepção ocidental, do seu exercício nos países não socialistas e das suas diferenciações com
a “forma soviética de liberdade”. A certo trecho escreveu: “Porque nós outros da União Soviética
conquistamos e pusemos em prática a mais ampla liberdade de imprensa, por isso naturalmente
atribuimos um grande valor à mesma, nos demais países. Isto não significa, entretanto, que
desejemos impor nossa forma soviética de liberdade de imprensa aos demais países. Para a
Itália do presente, por exemplo, cremos que a democrático-burguesa, e não a forma soviética de
liberdade de imprensa, é a mais conveniente. Por que? Porque não existe na Itália um sistema
político nem social que torne possível a introdução da forma soviética de liberdade de
imprensa.”207
Defesa da Liberdade de Opinião — Mas não é apenas, o jornalista que necessita, em
qualquer parte, sobretudo no nosso país, de uma educação especial, que o torne apto à defesa
da liberdade de opinião. É o próprio povo, é o ouvinte, é o espectador do cinema e da TV, cujo
dever fundamental é, sem dúvida, preservar êsse bem, legando-o, ampliado e firme aos seus
pósteros, como o fizeram as gerações passadas. Já se falou, mesmo, na necessidade de uma
“escola de leitores”, na qual se procurasse ensinar o homem a ler e aproveitar o jornal. E outra
não tem sido, num sentido mais lato, ensinamento constante da ciência política, tanto nos
Estados democráticos como nos socialistas. Nestes últimos, estuda-se e debate-se
constantemente, nas escolas, nas fábricas, nas associações, o complexo teórico de Hegel, Marx,
Lenine e Plekhanov, e êsses estudos e debates constituem pràticamente o fundamento de
qualquer formação cultural. Na República Federal da Alemanha, tivemos oportunidade de, em
visita ao Parlamento de Bonn, assistir a uma aula, em tribuna especial, sôbre o funcionamento
do legislativo, poder básico do regime. Essas aulas, que visam a desnazificação das massas, a
substituição progressiva dos conceitos nazistas de liberdade e govêrno pelas idéias
democráticas imperantes naquele país, são ministradas também nas Universidades, enquanto
periódicos e filmes expõem aspectos diversos do problema.
Seminários de jornalismo, cursos de extensão universitária, simpósios e inquéritos são
realizados, sob a égide da UNESCO, periò dicamente, em diferentes países com o propósito de
Pierre Denoyer — Obra cit. — págs. 111-117.
O autor foi criticado (Diário de Pernambuco — ed. 17-set.-53) por referir-se, em tese apresentada ao Congresso
Nacional de Jornalistas de 1953, em Curitiba, ao “conceito socialista de liberdade”. Os críticos confundiram negar
valor dialético ao conceito com negar existência ao próprio conceito. Posteriormente, numa série de discursos
proferidos na Câmara dos Deputados e reunidos no volume Pela Liberdade de Imprensa — Livraria José Olimpio
Editora, Rio, 1957 — Afonso Arinos de Meio Franco sintetizou com muita precisão a matéria, ao examinar “as
doutrina anti-liberais da liberdade e suas consequências”.
207 Octavio de la Suarée — Moraletica Del Peridismo — La Rabana, 1946 — pág. 175.
205
206
esclarecer a opinião sôbre os benefícios e a importância da imprensa, do rádio, da TV e do
cinema na difusão das notícias e da cultura, no conhecimento mútuo dos povos e, finalmente, na
manutenção das relações amistosas e da colaboração universal para a construção de um mundo
de paz e progresso. Êsses esforços objetivam inculcar nas massas o respeito pelo jornalismo,
preparando-as para o exercício de uma vigilância sem a qual será fatalmente deturpado o
sentido da liberdade de opinião, levando os veículos periodísticos a se colocarem à margem dos
verdadeiros interêsses da coletividade. Ou a serviço do poder político ou a serviço do poder
econômico. Em ambos os casos, oferecendo aos inimigos da liberdade razões para suprimi-la.
Um povo apto à defesa da liberdade estará sempre vigilante, a exigir a prática de um
jornalismo responsável. “Em qualquer país, e mesmo no Brasil, onde a imprensa é vítima das
mesmas deficiências morais e técnicas da nossa formação política imatura e ainda meio bárbara,
a fiscalização é sempre possível no regime de liberdade” — assegura com muita justeza Afonso
Arinos de Meio Franco. Basta que os partidos políticos, as universidades, os sindicatos, as
igrejas, as associações e clubes — todos os núcleos sociais, enfim — se compenetrem do seu
dever de pugnar por um jornalismo livre e responsável, integrado na tarefa do desenvolvimento
nacional e do constante aperfeiçoamento das instituições democráticas, sob as quais vivem e
desejam continuar a viver.
O PROBLEMA DA RESPONSABILIDADE
Para responder e corresponder à liberdade que lhe deve ser conferida, o jornalismo se
obriga à responsabilidade sob três aspectos: — para com o indivíduo e a coletividade (jornalismo
e moral); para com a pátria (jornalismo e nacionalismo) e para com a comunidade internacional
(jornalismo e paz mundial). Êstes três tópicos são fundamentais na fixação do conceito e das
diretrizes de uma atividade jornalística livre e consciente das suas verdadeiras e legítimas
finalidades.
Jornalismo e Moral — Referindo-se ao problema da responsabilidade jornalística,
Costa Porto208 costuma dizer que, na sua opinião, nos crimes de imprensa alguém deveria pagar
na prisão: ou o jornalista, que mentiu e caluniou, ou aquêle contra o qual, verídica e
comprovadamente, exercitou a sua crítica. O que o ilustre escritor pernambucano não pode
admitir é a impunidade do foliculário irresponsável, quando muito forçado a publicar retificações
ou a retratar-se em outra edição do jornal, que nem sempre é conhecida dos mesmos leitores
que foram postos a par da falsa acusação antes veiculada. Dêsse modo, o dano moral terá
permanecido sem a justa reparação e a comunidade acostuma-se a permanecer indiferente aos
libelos jornalísticos enquanto se cria um clima de insensibilidade, por parte dos acusados, ante
as mais infamantes pechas que lhes são atiradas. A idéia de Costa Porto sôbre as
conseqüências da responsabilidade no exercício do jornalismo remonta aos tempos do antigo
Egito onde, de acôrdo com os códices de Thaut, para o caluniador a pena consistia em se lhe
infligir o mesmo castigo que pudera ter sido aplicado ao caluniado.
A reparação do prejuízo ocasionado à pessoa humana ou à entidade de direito no seu
patrimônio ideal, no seu bom nome ou na sua justa fama tem sido exigida pelas mais remotas
legislações. Cícero209 acentua que já a lei das Doze Táboas, “que impusera a poucos delitos a
pena capital, pelo contrário considerara conveniente aplicá-la ao que recitasse pùblicamente ou
José da Costa Porto, jornalista e professor pernambucano, foi deputado à Constituinte Federal em 1946, e
ministro da Agricultura do Brasil, no govêrno Café Filho. Escritor e pesquisador da historia, o seu estudo biográfico e
crítico de Pinheiro Machado constituiu obra de grande repercussão nos meios culturais do país, obtendo, entre
outros, o prêmio da Academia Pernambucana de Letras. Na época da publicação deste ensaio integra o corpo
redacional do Diário de Pernambuco como comentarista político.
209 De Republica — IV, 10-12.
208
compusesse versos injuriosos ou difamatórios.” E segundo a lição de Justiniano, “de igual modo
injúria se causava a outrem quando contra êle se escrevia, compunha ou publicava um libelo ou
livro infamante de versos, por si ou, dolosamente, por interposta pessoa, a quem se propiciava
os meios necessários.” Neste caso,210 dispunha a vítima da ação pretoriana, que se denominava
“injuriarum aestimatoria” e pela qual podia reclamar uma reparação consistente, sempre, em
uma soma de dinheiro prudentemente arbitrada pelo juiz. O cânone 2.355 da Igreja reza
textualmente: “Se alguém, não com atos mas por meio de palavras ou escritos, ou de qualquer
outra forma injuria a um terceiro ou o prejudica em sua boa fama e reputação, não só se obriga,
nos teores dos cânones 1.618 e 1.938 a dar a devida satisfação e a reparar os danos, como
também se torna passível de penas e penitências proporciona das, inclusive se se trata de
clérigo a quem, se for o caso, se deve impor a suspensão ou privação de ofício e benefício.”
Durante a Idade Média, o desagravo do difamado, de acôrdo com o “jus vindictas”, consistia em
reclamar fôsse arrancada a língua ao difamador, que se lhe cosesse a bôca, lhe extirpasse o
nariz ou amputasse a mão. Em tempos menos recuados, na velha Alemanha, a reparação do
dano moral sofrido impunha ao difamador que, perante o tribunal, batesse na sua própria bôca,
exclamando: “Bôca, tu mentiste !“
As modernas legislações prevêem penas de detenção, pecuniárias, multas, apreensão
de exemplares de jornais, confisco e sequestro de máquinas e, finalmente, em muitas delas,
como na brasileira, o direito de resposta a quem for acusado ou alvo de injúria, calúnia ou
difamação. Essas reparações, todavia, com a expansão dos meios de comunicação, se tornaram
pouco ou nada eficazes. Já salientamos como um falso juízo ou uma informação tendenciosa,
mesmo retificada por determinação de sentença judicial ou admitido, espontâneamente, o direito
de resposta, perdurará para aquêle público que não teve oportunidade de tomar conhecimento
da retratação. Qualquer notícia ou comentário publicado em um jornal de pêso na opinião pública
poderá ser logo transmitida pelo rádio ou por qualquer agência telegráfica ao mundo inteiro; e se
posteriormente o jornal vier a retificar o conceito, poderá ocorrer — e ocorre com freqüência —
que nem aquela emissora de rádio nem aquela agência informativa se interessem por transmitir
a retratação. Dêsse modo, o dano moral tomou tal amplitude que torna impossível a sua
reparação.
Por outro lado, contra o processo judiciário adotado nos chamados crimes de imprensa,
pesam alguns argumentos de apreciável conteúdo. Ë que, tanto entre nós como em outros
países, a “prova da verdade” é quase que totalmente excluída nos processos por calúnia e
difamação e não é mesmo admitida siquer no caso de injúria. A propósito, Rui Antunes comenta:
“Florian lembra muito bem que a justificativa da verdade é tanto mais de ser acolhida nos
regimes políticos democráticos, onde os mais altos postos da vida social são disputados através
de eleição; entretanto, a situação criada pela nova Lei de Imprensa entre nós (Lei n. 2.083, de
12-11-53) conduz os jornais a ficar silenciosos quando um biltre da pior espécie, de vida
pregressa pontilhada de infrações penais não desmacaradas, apresentar-se ao eleitorado
solicitando-lhe as preferências. Quem ousar denunciar pela imprensa o criminoso, correrá o risco
de ser afinal condenado como caluniador; bastando para isso que o processo seja devidamente
instaurado pelo ofendido e que êste, nos têrmos do art. 12, letra b, não permita a prova da
verdade...”211
Estamos, assim, diante de um grave problema: de um lado, a irreparabilidade do dano
infligido ao indivíduo pelos órgãos jornalísticos que foram criados e se desenvolveram para servílo e engrandecê-lo, para proteger-lhe os direitos e orientá-lo para a prática do bem; do outro, o
jornalismo desamparado diante de um indivíduo todo poderoso, cuja incolumidade fôra, há dois
séculos, reconhecida, codificada e proclamada. Um jornalismo que “sentia gravitar a injustiça
210
211
Wilson Melo e Silva — O dano morai e sua reparação — Edição Revista Forense — Rio, 1955 — pág. 28.
Rui Antunes — Obra cit. — pág. 140.
sobre o seu destino e a responsabilidade sôbre a sua obra” teria de procurar estabelecer
princípios e normas que, ultrapassando mesmo os limites da ética geral, fixassem a posição
exata da sua atividade. Que reduzisse ou mesmo eliminasse os conflitos com o cidadão.
Êsses princípios estão consubstanciados nos códigos, credos, ideários e declarações
que vêm sendo sistematizados desde pelo menos 1888, quando Charles Anderson Dana,
falando perante a Associação Editorial de Wisconsin, lançou as bases da ética jornalística,
através de máximas adaptadas “para servir de guia aos homens que fazemos os jornais”. Essas
primeiras normas abrangiam diferentes aspectos do trabalho jornalístico, mas já recomendavam,
textualmente, o respeito ao indivíduo, menosprezado pelo jornalismo panfletário e polêmico da
época: “Nunca ataque ao débil ou indefeso, seja com argumentos, invectivas ou pelo ridículo, a
não ser que haja uma necessidade pública para fazê-lo.” Através desta norma-mater, Dana
reconhecia a função social do jornalismo, que sobrepõe aos interêsses do indivíduo os
interêsses da coletividade, mas recomendava, de logo, ponderação e discrição, ajuntando essa
outra incisiva máxima: “Uma palavra que não se pronuncia jamais causou prejuízo”.212 Outro não
foi o pensamento da Associação Nacional dos Editores de Jornais dos Estados Unidos, quando,
em 1923, votou os postulados éticos dos seus membros, salientando: “O direito de um jornal de
captar e reter leitores está restringido sòmente por consideração do bem estar público... Um
jornal não deve ferir os direitos ou sentimentos privados sem ter a segurança de que está
servindo ao interêsse público que não deve confundir-se com a curiosidade pública... Um jornal
não deve publicar acusações que não sejam oficiais que afetem a reputação ou a moral de
alguem sem dar ao acusado a oportunidade de ser ouvido. Uma prática correta exige que essa
oportunidade seja dada em todos os casos de acusações graves fora dos procedimentos
judiciais.” E o grande jornalista norte-americano Walter Williams, no seu famoso “Credo do
Jornalista” e resumiu a matéria na seguinte definição: “Creio que o jornalismo que melhor triunfa
— e que mais merece o triunfo — teme a Deus e honra o homem.”
Com a presença de Emile Zola, reuniu-se, em 1893, em Londres, o primeiro congresso
jornalístico de que se tem notícia; um ano depois, em Bruxelas, novamente se concentram os
homens da imprensa da Europa. Em ambos êsses conclaves, a ética profissional constituiu o
primeiro e mais importante ponto do temário. O jornalismo procurava, na expressão de Zola,
purificar as condições de trabalho e “formar uma coletividade dentro da qual não tenha assento
nenhum gênero de vileza e corrupção.” Três congressos jornalísticos latino-americanos,
realizados em Havana, na Cidade do México e em Caracas, nos anos de 1928, 42 e 45,
aprovaram, por seu turno, um decálogo do jornalista que, no seu décimo mandamento,
proclamava: “um jornalista digno dêsse nome... considera a calúnia, a difamação e as acusações
sem provas como as mais graves faltas profissionais... não abusa jamais da liberdade de
imprensa e das suas fôrças com fins interesseiros.” E uma declaração unânimemente aprovada
na Cidade do México, em 1941, no Congresso Nacional e Panamericano de Imprensa, adotou o
seguinte princípio: “tôda calúnia, injúria ou difamação devem ser objeto de uma reparação
pública e expressa por parte do jornal responsável, que deve publicar os esclarecimentos
necessários em lugar de destaque, ainda que o tribunal competente julgue que não agiu de má
fé... nenhum jornal deve prejulgar a culpabilidade ou a inocência de pessoas processadas nos
tribunais... a reputação das pessoas, qualquer que seja o seu credo religioso ou a sua filiação
política, deve ser escrupulosamente respeitada. A Imprensa deve ser o mais fiel defensor da
dignidade da pessoa humana e do respeito que merece.”
O Jornalismo Sensacionalista — Visando, ainda, proteger a honra do indivíduo e a
comunidade a que pertence, desde que se pensou em ética jornalística se equacionou o
problema da não propag anda do vício e do crime. O congresso mexicano a que antes aludimos
212
Octavio de Ia Suarée — Moraletica eit. — págs. 74-75.
estabeleceu que “os jornais devem abater-se de fomentar os vícios, estimular o crime e
despertar a morbidez das pessoas através das suas informações.” Sucessivos congressos
jornalísticos e assembléias político-legislativas têm condenado, e estipulado sanções, para a
divulgação sensacionalista dos fatos delituosos; a publicidade comercial indiscriminada de
bebidas, entorpecentes, jogos de azar; a apresentação de programas radiofônicos pornográficos
ou de duplo sentido; a exibição de jornais ou documentário, cinematográficos que apresentem
seqüências incompatíveis com a decência e a dignidade humana; a publicação de fotografia e
desenhos imorais — tudo, enfim, que exalte os baixos instintos. Em diversas oportunidades, o
público tem demonstrado a sua repulsa á tais processos e expedientes de que, não raro,
infortunadamente, sob uma falsa concepção de liberdade o jornalismo lança mão para obter
popularidade. Há alguns anos, a “Liga Protetora dos Cidadãos”, de Denver, Co lorado, fez inserir
nos jornais daquêle Estado norte-americano algumas normas de ética, que deveriam ser
obedecidas pela imprensa, sob pena de não receber o seu apoiamento. Entre tais regras
figuravam as seguintes: “nenhuma notícia editorial nem anúncio que não seja próprio para um
menino ou menina de quinze anos deve ser publicada... As reportagens sôbre divórcio,
assassinatos, suicídios e outras formas de crime ou imoralidades devem ser suprimidas... As
informações imaginárias, as tergiversações e os exageros de tôda classe devem ser eliminados.”
Que as normas dessa Liga foram conscienciosamente observadas pelos órgãos da imprensa do
Colorado, o autor pôde observar pessoalmente ao visitar a redação do Denver Post e do The
Rocky Mountain News, matutinos, o último dos quais “tablóide”, que se orgulham da sua linha
editorial austera, em nada prejudicial à feição moderna e atraente que apresentam.
Está muito arraigada a convicção de que sòmente o jornal sensacionalista —
sensacionalismo aqui empregado como o sistema de concessões à curiosidade mórbida das
mais baixas categorias de leitores — obtém fácil aceitação, tendo elevadas astronômicamente as
tiragens e, consequentemente, oferecendo melhores lucros aos editôres. Constata-se que a
procura de jornais aumenta durante as investigações de crimes ou a realização de processos
penais e, por isso, o editor-financista defende o princípio de que a boa notícia não produz
receita, enquanto que a má notícia é muito mais vendida, em “manchettes” e grandes títulos.
Abordando o problema na imprensa polonesa atual, A. Rayski213 comenta: “Numerosos
colegas da imprensa francesa, americana e britânica, que lamentam sinceramente o abuso do
sensacional, explicam-na pelo fato de que responde ao desejo do leitor e que o jornal, se quiser
manter a sua tiragem, deve adaptar-se a êste desejo. Uma questão se coloca então: onde está a
causa, onde está o efeito? O interêsse demonstrado pelos leitores “ao sangue, às mortes, às
catástrofes” é causa ou por ventura não será a conseqüência de uma certa linha seguida pela
imprensa? Ao nosso ver, a resposta é evidente: o leitor reclama assuntos dessa categoria
porque se tem despertado o seu interêsse por tais matérias. Estamos longe de convir que a
“natureza do homem” lhe foi dada uma vez por tôdas. E mesmo se admitirmos que a natureza
humana possui traços característicos duráveis, que sobrevivem aos regimes, não admitiremos
jamais a teoria segundo a qual todos os traços negativos venham da imutabilidade da natureza
humana — teoria, como se sabe, muito propagada. Nossas redações defendem um ponto de
vista muito diferente, um ponto de vista segundo o qual as boas notícias podem e devem
despertar entre os leitoresres um interêsse igual, senão maior, do que as informações
concernentes a crimes, catástrofes, etc. Por que as notícias sôbre o agravamento da situação
internacional devem despertar mais interêsse do que aquelas que anunciam o melhoramento
das relações entre os Estados e os povos? Por que é menos interessante saber como uma casa
foi construída do que como foi derrubada? Por que uma estatística sôbre a melhoria do estado
de saúde da população é menos interessante do que a notícia de uma epidemia? O gôsto do
leitor, suas noções morais e éticas, a feição do seu interêsse intelectual, não são fenômenos
213
A. Rayski — Obra cit. — págs. 384-385.
objetivos e imutáveis. Podem ser formados tão bem no senso positivo como no senso negativo.
A imprensa polonesa se esforça, com maior ou menor sucesso com a ajuda de métodos mais ou
menos bons, para agir neste sentido.”
A supressão total do noticiário policial, a parcimônia no informar sôbre catástrofes e
calamidades públicas, a divulgação de editoriais, reportagens, artigos, palestras e filmes sôbre a
melhoria do nível de vida, alevantamento dos costumes, êxito dos bons empreendimentos —
são, com efeito, técnicas aplicadas pelo jornalismo socialista moderno, não sòmente na Polônia
como na Tchecoslováquia, Romênia, União Soviética e República Popular da China, como
tivemos oportunidade de pessoalmente constatar.
As grandes emprêsas jornalísticas ocidentais, por seu turno, excluiram totalmente o
baixo sensacionalismo dos seus veículos. Nem o Times, de Londres, nem o New York Times,
nem o Christian Science Monitor, de Boston, nem La Prensa, de Buenos Aires — para só citar
alguns dos campeões da imprensa mundial, se ocupam de crimes, divulgam notícias de suicídios
ou fazem propaganda de vícios. A propósito de La Prensa, observou George Kent: “Em outros
periódicos de Buenos Aires, vêem-se títulos sensacionais e as notícias se publicam com todos
os seus detalhes, por crus e repelentes que sejam. La Prensa é mais séria e circunspecta. Com
exceção de alguns títulos que ap arecem em quadro na primeira página, as cinco ou oito páginas
seguintes não contém senão anúncios curtos e classificados. Vêm logo as colunas de notícias,
nas quais não há títulos de mais de 13 milímetros de altura. As notícias nacionais não levam
assinatura. Nem os divórcios, nem os suicídios se consignam em suas colunas. Algumas vêzes,
os assassinatos são noticiados como mortes ocorridas em penosas e lamentáveis
circunstâncias. A mesma delicadeza se observa no departamento de publicidade. Seus diretores
vacilaram em aceitar um anúncio de goma de mascar por temor de introduzir êsse vício na
Argentina. 214
Dessa atitude de sobriedade na informação, de segurança na orientação, de moralidade
na expressão do pensamento, de bom gôsto e boa medida na apresentação técnica — é que se
originam o prestígio e a autoridade do verdadeiro jornalismo, como o praticado por êsses jornais,
pela BBC de Londres, pela série magnífica de documentários cinematográficos de Walt Disney e
Fizgerald. Por isso, pelo senso de responsabilidade do jornalismo para com o público — o
indivíduo como ser isolado, que merece todo o respeito, e o indivíduo como cidadão, participante
da comunidade social — é que, em certos países, como na Inglaterra e na Suíça, adquiriu a
imprensa não só a estima como a admiração e o aprêço das populações. E, segundo
constatação de Suarée, observa-se em todo o mundo civilizado um sensível declínio do número
de queixas e processos judiciais por delitos de imprensa.
A Ética no Jornalismo Brasileiro — No Brasil, logo após e proclamação da
Independência, vigorou, pràticamente no seu todo, a lei portuguesa de 12 de julho de 1821,
promulgada por D. João VI, que, no corpo de regulações e penalidades rezava: “Art. 14 —
Abusa-se da liberdade de Imprensa contra os bons costumes: 1.°) — publicando Escriptos que
ataquem diretamente a Moral Cristã recebida pela Igreja Universal; 2.°) — publicando Escriptos
ou estampas obscenas... Art. 16 — Abusa-se da liberdade de Imprensa contra os Particulares:
1.°) — imputando a alguma Pessoa ou Corporação qualquer fato criminoso, que daria lugar a
procedimento judicial contra dia; 2.°) — imputando-lhe vicias ou defeitos que a exporião ao ódio,
ou desprêzo público; 3°) — insultando-a com termos de desprêzo ou ignomínia...” Os artigos 15
e 17 estabeleciam as penalidades, reparações em dinheiro que variavam entre cem e vinte mil
réis. O art. 20 determinava em qualquer caso de abuso da Liberdade a supressão e apreensão
de todos os exemplares do impresso, enquanto o 21 mandava transformar a pena pecuniária em
214
Octavio de Ia Suarée — Obra cit. — pág. 371.
“tantos dias de prisão quantos corresponderem à quantia em que fôr multado, na razão de mil
réis por dia.”
Apesar das penas previstas, das violências perpetradas contra jornalistas e autores de
“Escriptos” altamente injuriosos, da sucessão de decretos, portarias e avisos e, finalmente, dos
dispositivos do Código Criminal, sancionado em de dezembro de 1830, dispositivos que
vigoraram prâticamente até 1923, o jornalismo brasileiro, caracterizado pelo tom polêmico e
desaforado, estêve por quase um século entregue a si mesmo, degenerando a liberdade em
licença. É o que assinala Geminiano da Franca215 quando, referindo-se ao período republicano
de 1889 a 1923, escreve que a imprensa viveu “debaixo de um clima por vêzes asfixite. Em parte
por culpa dela própria que, salvo digníssimas exceções, trilhava caminho diferente daqêle a que
se devia votar.” Também o relator do projeto n. 145 (regulando a liberdade de imprensa), no ano
de 1896, Medeiros e Albuquerque, no seu parecer observava: “O projeto não cerceia em nada a
liberdade — pode-se mesmo dizer a licenciosidade — de que goza até hoje a nossa imprensa.
Não há uma cláusula restritiva, uma peia, uma of rmalidade qualquer exigida a mais para a
manifestação do pensamento. O que se pede é únicamente a assinatura de tudo quanto produza
cada escritor. É o cumprimento restrito da Constituição. Que quem louva, como quem ataca —
louvando e alacando como lhe parecer melhor — cubra o seu trabalho com a respectiva
assinatura.”216 Porque era valendo-se principalmente do anonimato, “velha e terrível árvore
daninha da imprensa do Império cuja extirpação tanto desejaram eminentes homens públicos”
que os excessos de linguagem e as injúrias campeavam nos nossos jornais, convertendo-os
naqueles “instrumentos ignóbeis de difamação”, de que falava o senador Adolfo Gordo, na
justificação do seu projeto de uma lei de imprensa, apresentado à nossa Câmara Alta em 19 de
julho de 1922. Ésse projeto, depois transformado na lei n. 4.743, de 31 de dezembro de 1923,
originara-se de uma decisão do Partido Republicano de São Paulo “de batalhar por uma lei sôbre
imprensa, garantindo, a par da máxima liberdade de crítica, a correspondente e efetiva
responsabilidade.” “As disposições do Código Penal, que então regulavam o assunto, a
experiência de mais de trinta anos mostrara serem ineficazes para a punição dos que se
servissem da imprensa como instrumento de ódio e vingança. Nunca, porém, tal necessidade se
fizera sentir tão fortemente quanto na campanha política de 1921-1922. Nela, segundo
testemunho insuspeito,217 não foram poupados os indivíduos nem respeitada a vida privada dos
humens públicos.”218
A nova lei não melhorou em nada a situação do ponto de vista moral. O indivíduo
continuou sujeito ao destempêro, às verrinas do jornalismo; sòmente o Estado é que se
pretendeu cercar de maiores garantias quando, por exemplo, condenava com pena de prisão
celular de três a nove meses e multa de quatro a vinte contos de réis, “a ofensa ao Presidente da
República no exercido das suas funções ou fora dêle” (art. 3.°). Que nem o procedimento legal
nem as “razzias” contra jornais e jornalistas deram resultado, a história o demonstra: em 1930,
eclodia a Revolução Liberal, precedida e seguida da mais virulenta campanha política e pessoal
jornalística já verificada no país. Nada era sagrado: nem as leis, nem os lares, nem as
reputações. Imperou o pasquim. Na sua generalidade, os jornais eram, apenas, veículos de que
se serviam os seus proprietárias para obter vantajosas po
Cit. por Marcelo de Ipanema — Síntese da História da Legislaçcío Luso-Brasileira de Imprensa — Rio, 1949 —
pág. 91.
216 Anais da Câmara dos Deputados — Ano de 1896.
217 Barbosa Lima Sobrinho — Problemas da Imprensa - Rio — pág. 189.
218 Solidônio Leite Filho — Comentários à Lei de Imprensa — Rio, 1925 — págs. 31-32.
215
sições políticas. E a situação não melhorou com o estatuto votado em 1934, Decreto n.
24.776, de 14 de julho que vigorou até o advento do regime ditatorial estadonovista, cuja Carta
Constitucional outorgada, que se inspirava na Constituição fascista da Polônia (por isso, mais
tarde, ficou conhecida como a “polaca”), transformava o jornalismo em um mero instrumento de
propaganda dos fins do regime, do endeusamento dos seus líderes, do falseamento da verdade,
de combate a qualquer ação tendente ao retôrno do país à vida democrática.
Evidentemente, sujeitando a imprensa, controlando o rádio, censurando o cinejornalismo nascente, impingindo a falsidade, amordaçando a crítica, facilitando a difamação
contra os adversários manietados e sem defesa, 219 o Estado Novo não contribuiu para o
soerguimento ético do jornalismo brasileiro. Ao contrário, durante os sete anos da ditadura,
fermentavam os ódios e os recalques, que mais tarde iriam eclodir no “rio de lama” cujas
nascentes do Catete abasteceriam os leitos secos dos veículos de publicidade, na fase da
reconstitucionalização. Mesmo os mais responsáveis dos jornais e jornalistas do Brasil, aquêles
que recusavam adotar e aplaudir os métodos e processos corrompidos e corrutores do regime
de imprensa vigorante, sofreram a influência nefasta da coerção que o Estado impunha ao livre
exercício profissional e, em 1945, a campanha primou pelos excessos: os donos do Estado Novo
foram, por sua vez, arrastados pela rua da amargura, sob as mais soezes injúrias e, quase
sempre, as mais baixas e duras imputações caluniosas.
A ausência de normas éticas no jornalismo brasileiro preocupou sèriamente os
jornalistas reunidos, em 1949, primeiro em São Paulo e, em setembro, na Bahia, nos seus II e III
Congressos Nacionais,220 quando redigiram, discutiram e aprovaram um Código de ética,
estabelecendo os deveres fundamentais do jornalismo, das emprêsas jornalísticas e dos
jornalistas profissionais, cuja atividade deverá orientar-se “sob princípios que elevem e
dignifiquem o homem”. Considerava indeclinável dever das emprêsas “coibir a publicação de
estampas e fotografias que possam ferir o pudor público, a dignidade e o decôro de alguém” e
julgava defeso ao jornalista “empregar têrmos cuja dubiedade possa produzir no ânimo do leitor
impressão contrária àquela que normalmente deve surgir do fato noticiado ou comentado,
especialmente se possa ferir o pudor público ou a dig nidade e o decôro de alguém.” 221
Neste mesmo conclave, a que compareceram delegações de quase todos os Estados do
Brasil, foi apreciada a possibilidade da criação de uma Ordem dos Jornalistas que, já em 1939,
tinha ocupado a atenção dos homens de imprensa, visando, conforme Austregésilo de Ataíde,222
“zelar pela ética da imprensa com poderes para afastar aquêles que se tenham incapacitado
moralmente no seu exercício... Os critérios dêsse afastamento, a natureza da ética deveriam no
entanto emanar sempre dos próprios jornalistas, para impedir que através dêles as vinganças
políticas, partidárias e sociais viessem a exercer as suas maléficas influências.” Observe-se que
essa idéia surgira exatamente quando a imprensa vivia sob o guante do DIP, em plena ditadura.
Caso típico dêsse procedimento ocorreu em Pernambuco onde, através do jornal da sua propriedade — Fôlha da
Manhã — o então interventor federal no Estado, Agamenon Magalhães, grande administrador e político e jornalista
mediocre, fez publicar um artigo intitulado “Molambo”, em que atacava na sua probidade o ex-governador Carlos de
Lima Cavalcanti, que fôra proprietário do Diário da Manhã e, deposto pelo golpe estadonovista, retornava então à
sua terra. O artigo era uma tremenda verrina e teve a mais funda e revoltante repercussão na opinião pública. A
polícia estadual impediu que os jornais e oficinas gráficas ou estações de rádio difundissem qualquer defesa do sr.
Lima Cavalcanti, para o qual não vigorava — inimigo do interventor e advesário do regime — a letra c, do n. 15, do
art. 122 da “polaca”: “é assegurado a todo cidadão o direito de fazer inserir, gratuitamente, nos jornais que o
infamareni ou injuriarem, resposta, defesa ou retificação”. Convém frisar que o dif amado dêsse tempo fora o
difamador da fase pré e post- revolucionária de 1930...
220 O Primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas foi realizado em 1908, de 9 a 22 de setembro, no Rio, e também
se ocupou de ética jornalística, combatendo o intrusismo e pugnando pela fundação de uma escola de jornalistas,
segundo referências de Edgar Leuenroth, na tese — “A organização dos jornalistas brasileiros”, apresentada ao IV
Congresso, no Recife, em 1951.
221 Conf. Regulamento e Ternário do III Congresso Nacional de Jornalistas — Salvador, 1949.
222 Os problemas do jornalismo no Brasil in Estudos Brasileiros — Ano 1, N. 4 — pág. 25.
219
Assim mesmo, nos debates que se seguiram à exposição de Austregésilo, o sr. Belisário de
Sousa testemunhava: “e com Ordem ou sem Ordem dos Jornalistas, a verdade clara, indiscutível
e dolorosa é que os jornalistas estão ainda muito indisciplinados e inestruturados no que se
refere à educação e à ética profissional. Evidentemente melhoramos na aparência neste setor,
porque, com o progresso industrial, o fundo de personalismo agudo e agressivo se esbateu na
industrialização. Mas existe latente e larvado e, vez em quando, vamos encontrar os casos mais
típicos, dolorosos, e mais tristemente característicos da nossa deseducação profissional, da
nossa falta de ética jornalística.”223 A experiência da Ordem dos Advogados, — “inutilidade...
pois a Justiça não melho rou absolutamente, em coisa alguma, com a sua criação”, segundo o
advogado e jornalista Joaquim Inojosa, nos debates a que nos reportamos, — 224 o receio de que
o govêrno lançasse mão do organismo para deturpar-lhe os fins e tornar ainda mais precário o
exercício da profissão de forma livre e ampla, e, sobretudo, o fato de não ter o jornalista
brasileiro uma profissão liberal mas, na sua grande maioria, ser um assalariado — levaram os
congressistas do Recife, em 1951, a abandonar a idéia, rejeitando por unanimidade o projeto
que, há dois ano, vinha sendo debatido e sèriame nte estudado pela classe.
Nada obstante o Código de Ética; o funcionamento de algumas poucas escolas de
jornalismo, cujo programa inclui noções de moral profissional; um sem dúvida crescente
profissionalismo da classe, com o fortalecimento e multiplicação das emprêsas; a repulsa
manifestada por diferentes setores da opinião aos métodos sensacionalistas e personalistas
ainda adotados por um grande número de jornais e emissoras radiofônicas; alguns processos
correntes na Justiça, a que respondem jornalistas enquadrados nos artigos da Lei de Imprensa,
por calúnia, injúria ou difamação — o indivíduo e a sociedade brasileiras não se acham ainda
assás protegidos contra a prática do jornalismo “amarelo”. Com efeito, como se poderá sentir
garantido na sua justa fama o simples cidadão, quando o presidente da República e as principais
figuras do govêrno são impunemente apontados à execração pública por órgãos da imprensa,
como pertencentes a um “sindicato de ladrões”? Como poderá o indivíduo confiar e respeitar um
jornalismo que faz dos assassinatos, dos suicídios, dos roubos e desfalques, da “juventude
transviada”, do “café society” — os mais freqüentes e apetitosos “pratos”, oferecidos ao público
através de reportagens escritas e faladas, com amplos e sugestivos documentários fotográficos,
visando propagar e exaltar o crime, o vício, as mazelas sociais, os desquites e “casamentos no
Uruguai”, a prostituição e dissolução da família? Como poderá o cidadão atender a sisudos
editoriais em que se clama pelo cumprimento das leis, se a própria imprensa e o rádio veiculam
diàriamente o resultado do “jôgo do bicho”, publicam o retrato e o nome do menor delinqüente;
editam revistas e magazines do tipo “confidencial” e perniciosas histórias em quadrinhos, cujos
“heróis” são pistoleiros e tarados, praticam tôda sorte de contravenções e delitos de imprensa e,
à mais ligeira tentativa de repressão legal, botam a bõca no mundo, resguardando os seus
excessos sob um elástico conceito de liberdade?
Reportando-nos às nossas considerações iniciais neste ensaio, concluimos que um dos
motivos do desapreço em que é tido o jornalismo no Brasil está, exatamente, na falta de
conformação do seu exercício às normas da moral comum e da moral profissional. Quando
tantos perigos e seduções ameaçam os agentes do jornalismo, desde o abuso do poder com o
cerceamento da liberdade, até a automatização dos espíritos, com o endeusamento da máquina
— é para a velha ciência ética, a ciência dos valores morais, que nos devemos voltar. Como
uma disciplina de vida, que nos permita garantir a liberdade e descobrir, na existência, aquêle
algo valioso, aquela finalidade que deve ser o objeto do nosso querer e do nosso agir. E como
uma disciplina para o exercício da nossa atividade profissional, mediante o estudo constante e
sistemático da nossa consciência moral, da tradição e da experiência, que nos permitirão
223
224
Idem, idem — pág. 36.
Idem, idem — pâg. 38.
apreciar com mais segurança o valor dos atos humanos, elegendo aquêles que a razão
sancionar como correspondentes ao ideal de Justiça e Bem Estar, a que aspiram o indivíduo e
as coletividades. Um jornalismo divorciado da moral ou que menospreze os princípios éticos que
informam o espírito humano e o nobilitam será, talvez, temido pela sua fôrça destrutiva; jamais
será, porém, acatado e respeitado pelo homem, quer como ser isolado quer como membro da
comunidade. E dia virá em que, denunciado como instrumento de corrupção, será riscado da
estrutura social, substituido por uma nova instituição que, efetivamente, corresponda aos anelos
de uma humanidade consciente dos seus caminhos e do seu destino temporal e eterno.
Jornalismo e Nacionalismo — O jornalismo serve, antes de tudo, à comunidade em
que se exerce. Dirige-se, de modo especial, a indivíduos que pertencem a um mesmo clã, que
falam uma mesma linguagem, que têm os mesmos sentimentos, necessidades e aspirações.
Jornalismo não é praticado para minorias, para alimentar dissidências e desentendimentos
dentro da sociedade em que, para que e de que vive. Um jornalismo desta ordem fugiria às suas
características e finalidades: — faltar-lhe-ia popularidade porquanto as suas interpretações dos
fatos correntes seriam contrárias ao pensamento do maior número. Conseqüentemente, não
poderia exercer junto à massa aque la promoção do bem comum, que é o seu objetivo supremo.
O jornalismo, pois, como a democracia, é instituição social majoritária. Se deixa de
exprimir os ideais da comunidade, de contribuir para a realização das suas causas e solução dos
seus problemas e conflitos, de adverti-la dos seus erros e de apontar-lhe os caminhos certos
para o êxito dos seus empreendimentos — então falha completamente na sua missão e não se
pode queixar do descrédito em que é tido e do desamor que lhe votam os cidadãos.
Essas premissas não devem ser compreendidas como uma subordinação do jornalismo
a eventuais maiorias corrompidas, ignorantes ou fanáticas. Mesmo porque nem a corrução, nem
a ignorância, nem o fanatismo são ideais comunitários. Quando uma sociedade descamba para
essas contrafações, está fugindo também às suas legítimas aspirações e justos fins. E se o
jornalismo não pode servir a ideais alheios aos da comunidade, eombatendo-os estará
exercendo conscienciosa e pro veitosamente a sua tarefa. Daí porque, no terreno das idéias, o
jornalismo deve ser absolutamente livre para a exposição e o debate: — se as idéias
correspondem efetivamente a ideais da comunidade, não tardarão em popularizar-se, em ser
adotadas por um número cada vez mais expressivo de indivíduos, em modificar, finalmente, o
pensamento até então dominante e as diretrizes até então seguidas. Foi o que aconteceu na
França, durante a última guerra mundial, quando os alemães e as autoridades colaboracionistas
de Vichy controlavam todos os veículos jornalísticos: sem ouvir idéias que não fôssem as ditadas
pelo “Propagandastaffel” e, ao mesmo tempo, sob o impacto emocional da destruição dos seus
exércitos e das vitórias que o inimigo alcançava em tôdas as frentes, a maioria do povo francês
aceitava apàticamente a situação que lhe fôra imposta. Tal não correspondia, entretanto, aos
seus ideais, e bastou que surgisse a imprensa clandestina e que emissões de rádio lhe fôssem
dirigidas de Argel e de Londres, para que se organizasse a resistência e se acendessem, no
ânimo dos franceses metropolitanos, as chamas do seu ardente patriotismo.225
As considerações e o exemplo que citamos ao acaso refletem o pêso da
responsabilidade do jornalismo para com o povo, a nação, a sociedade para a qual
especificamente se exercita. Responsabilidade para com o público da cidade, do município, da
região, do país para o qual propaga informações e divulga idéias. Responsabilidade para com o
Emile Boivin (Histoire du journalisme — Paris, 1949) assinala que em 1942 a tiragem dos jornais clandestinos na
França atingia algumas vêzes a 100.000 exemplares mensais; nos fins de 1943, eram lidos por um milhão e meio de
franceses, passando subreptìciamente de mão em mão. Em setembro daquêle ano, constituia-se uma Federação de
Jornais Clandestinos, que atuava de acôrdo com o Conselho Nacional da Resistência; em abril de 1944, a
Federação aglutinava 13 jornais clandestinos.
225
seu patrimônio cultural, as suas tradições, as suas instituições, os seus revelados ou difusos
anseios, os rumos da sua grandeza, desenvolvimento e progresso, a segurança do seu futuro.
Ação catalizadora do Jornalismo — Nos tempos do primitivo jornalismo oral ou
manuscrito, pela própria incipiência dos veículos e isolacionismo das sociedades, essa
responsabilidade surgia como fato natural, quase fatal para o agente. Após a descoberta da
imprensa e a multiplicação dos meios de comunicação entre os povos, se bem que o caráter de
fatalidade tenha desaparecido, o de naturalidade persiste. O jornalismo, por mais universalista
que seja a sua linguagem, precisa de ser entendido primeiro pela sua própria gente. Faltando-lhe
base nacional, deixará de falar pelos seus iguais, que não o compreenderão e não o aceitarão.
Como os franceses não puderam aceitar a imprensa colaboracionista de Vichy, mal surgiu
aquela outra, tècnicamente débil e pobre, mas em harmonia com o espírito e o coração da
comunidade a que se destinava.
A responsabilidade do jornalismo para com a nação foi muito bem situada pelo jornalista
português Manuel L. Rodrigues, em observações sôbre a imprensa estadunidense.226 Escreve
êle que “na América, sobretudo no Oeste, a cidad e e o jornal nasceram quase simultâneamente.
A imprensa foi muitas vêzes o catalizador de novas comunidades, deu-lhes o primeiro esbôço
duma consciência coletiva. Há jornais que são crônicas vivas, er montando à fundação das
cidades, testemunhas do progresso e prosperidade que coroaram os esforços de rudes e
enérgicos pioneiros. É uma situação que não tem equivalente na Europa e que se reflete,
naturalmente, no prestígio do jornalismo. Em DalIas, no Estado do Texas, vi que um dos
principais monumentos da cidade perpetuava a memória de Ted Delly. Procurei saber quem era.
Una militar? Um estadista? Um poeta? Apenas um homem que durante 72 anos dedicara a sua
atividade ao Morning News, começando em praticante e acabando em diretor. Dallas tem
realmente motivos para lhe estar grata. Durante êsse longo prazo, Ted Delly foi o intérprete das
aspirações dos seus concidadãos, a sentinela vigilante dos seus interêsses e direitos.”
Devem os norte-americanos a Samuel Adams, fundador do Boston Gazette, a primeira
pregação libertária: foi êle que, graduado pela Universidade de Harvard com uma tese sôbre a
liberdade, lançou a expressão “American Commonwealth” e defendeu, com entusiasmo e
tenacidade, a idéia da independência e da união das colônias inglesas num Estado livre,
influenciando, sobremodo, a consciência da massa para a revolução. A posição do jornalismo
dos Estados Unidos em relação à pátria — presente em todos os instantes da luta da libertação
e da manutenção da independência — foi reafirmada, em 1888, por Charles A. Dana, ao divulgar
as suas máximas orientadoras dos jovens jornalistas do seu país: “Defenda as Barras e as
Estrêlas”. Outro não foi o pensamento dos que redigiram o código de ética da Associação da
Imprensa do Estado de Washington, em 1923, quando solenemente afirmaram que o jornalista
deve ser “leal à comunidade, ao Estado, à Nação”. Profundamente nacionalista, vendo a
América antes de tudo e acompanhando o seu país, certo ou errado — como bem o demonstram
os “slogans” freqüentes em tôda parte: “Ame rica first” e “Right or wrong, my country” — o povo e
o jornalismo norte-americanos dão ao mundo um vigoroso exemplo do seu senso de
responsabilidade para com a Nação.
Efetivamente, o jornalismo colossal dos Estados Unidos tem o seu fundamento neste
apêgo ao país, à sua política, aos seus ideais, ao sistema filosófiso e político que julga deva
atender às aspirações de tôdas as nações, como atende às suas. Para isso, distribai
correspondentes em tôdas as partes do mundo. Sòmente o New York Times conta com mais de
100 correspondentes próprios no exterior. As duas grandes agências norte-americanas de
notícias —- “United Press International” e “Associated Press” — possuem sucursais, escritórios e
agentes em todos os países civilizados. Êsses jornalistas colhem e divulgam as notícias, de
226
Manuel L. Rodrigues in Os Estados Unidos vistos por jornalistas portugueses — Obra cit. — pág. 314.
acôrdo com os interêsses do seu público. Não faz muito, em resposta a uma “enquette” sôbre a
atitude de quase ignorância da imprensa norte-americana a respeito da América Latina, diversos
editôres de jornais opinaram que isso se devia principalmente a que “a grande maioria dos
jornais dependia da A.P. e da UPI para obter notícias do continente meridional e que essas
agências sòmente transmitiam fatos sensacionais — tais como revoluções, catástrofes, golpes
de Estado — porque os seus clientes não se interessam muito pela América Latina, desde que
todos os seus vínculos culturais têm sido europeus e levantinos.” Nós próprios ouvimos de um
jornalista de Chicago que sòmente poderia dar ao leitor aquilo que correspondia aos seus
interêsses. Por isso, as notícias do Brasil ficavam para depois: — agora (em 1954), a imprensa
do norte dos EE.UU. estava descobrindo o Canadá... Nesta mesma época e oportunidade,
observamos que o jornalismo norte-americano, com exceção, apenas, do semanário
“progressista”, National Guardian, considerava necessária a intervenção na Guatemala para
deposição do regime de Arbenz, que tomara medidas contrárias aos interêsses da “United Fruit
Co.”, sendo por isso mesmo taxada de comunista. “America first”.
A França, a Inglaterra e a União Soviética possuem, igualmente, as suas agências
internacionais de informações. Dêsse modo, acham-se habilitadas através da France-Presse, da
Reuter ou da Tass — a oferecer aos seus concidadãos a sua própria visão e interpretação dos
acontecimentos e a dar, por sua vez, ao mundo (pois que essas agências têm clientes em
diferentes países) as informações e pontos de vista dos seus governos e seus povos.227
Também o cinema e a televisão são empregados por êsses países para a propaganda e
infiltração das suas doutrinas políticas e sociais, da sua cultura, da sua arte, dos seus interêsses
comerciais, dos seus propósitos imperialistas. O que Fernando Sigismundo228 assinala quanta à
influência dos Estados Unidos entre nós, outros povos, descuidados também de tão importante
setor da vida nacional, poderão subscrever em relação a outras grandes potências: “Os norteamericanos conseguiram obter aqui uma receptividade ideal para tudo que é seu, desde o mais
frívolo têrmo de gíria à última tôla canção... os jornais recebem o noticiário do exterior
padronizado, segundo os moldes convenientes aos monopolistas ianques, e se esmeram em
copiar a imprensa de Tio Sam, quer na apresentação dos textos, quer na disposição dos
anúncios. Os adolescentes repetem incessantemente os ritmos musicais da Norte-América.
Considerável massa de leitores passa o tempo a folhear chochos “best-sellers”. As jovens
copiam os penteados, as atitudes, os cacoetes e as manias das atrizes hollywoodenses...
Nossas emoções são reguladas pela sua cinematografia, tantas vêzes transformada em
instrumento de imbecilização; nossos pensamentos decorrem da dieta filosófica de lá; a
administração pública segue as regras da Civil Service Cornmission. James, Dewey, Monroe são
ainda, e só, a fascinação dos educadores daqui.” Essa penetração internacional, que se faz
através dos veículos de publicidade, tem indiscutivelmente a sua base nos sentimentos,
aspirações, diretrizes dos povos e governos nacionais. Resulta da emancipação política, da
maioridade econômica, do lastro cultural característico das nações que souberam cultivar no seu
jornalismo um patriotismo vivo e atuante, que o transforma num eficaz agente catalizador tanto
no plano nacional como no vasto campo das relações exteriores.
O Jornalismo Brasileiro e o Nacionalismo — O jornalismo brasileiro foi nacionalista
mesmo antes de existirem jornais. E a sua primeira grande figura foi a do alferes Joaquim José
da Silva Xavier — o Tiradentes —, proto-mártir da Independência, considerado o patrono dos
Nem siquer junto à ONU, em Lake Sucess, o Brasil possui um “bureau” de imprensa. Quando ali estivemos, o
secretário de imprensa, mr. George de la Huerta, insistiu nas facilidades que seriam concedidas ao nosso país, caso
desejasse instalar na ONU uma sucursal da Agência Nacional ou da Asapress, a exemplo das mantidas pelos
demais Estados-Membros.
228 Fernando Sigismundo — Imprensa e Democracia — Rio, 1952 — pág. 118.
227
jornalistas pela classe reunida, em 1955, em congresso nacional, em Belo Horizonte. Tropeiro e
dentista ambulante, Xavier pertencia àquela legião de bufarinheiros que, conduzindo as mulas
carregadas de mercadorias importadas, adquiridas na costa, venciam as serras, ganhavam as
vastidões das alterosas, percorriam as veredas do grande sertão e, nos pousos, onde os
fazendeiros lhes alugavam as pastagens para os animais, vendiam bugingangas e
quinquilharias, fazendas e perfumes, enquanto nos pátios e terraços dos casarões, à luz das
fogueiras com que se esquentavam, transmitiam aos pioneiros do desbravamento as
informações e os rumores correntes nos centros urbanos do litoral. “A civilização que se poliu em
Minas Gerais subiu as encostas da Mantiqueira e atravessou-lhe os córregos, empacotada na
bagagem do “tropeiro”. Era carrejão e mensageiro; condutor e estafeta: o homem que
transportava as utilidades e as idéias, os bens materiais e as notícias do mundo — privilegiado
caipira que sentia, periòdicamente, à beira mar a influência estrangeira, e internava-a.”229 Dos
fazendeiros, dos peões, dos garimpeiros, dos mineradores, dos vaqueiros, do pessoal do eito e
das senzalas, por seu turno, o tropeiro, enquanto recarregava as mulas com o açúcar e o
algodão, o couro e o café, o fumo e o ouro destinados aos portos, ouvia as novidades, recolhia o
pensamento e os sentimentos nativistas contra os reinóis sequiosos de acumular riqueza fácil à
custa do seu suor; contra o “emboaba” cheio de prosápia, metido em seu largo calção e suas
botas altas; contra o “mascate”, comerciante do Recife, enriquecido pela miséria a que a guerra
flamenga votara os senhores dos engenhos de Olinda; contra o “maroto-pé-de-chumbo”, o
“bicudo” e o “marinheiro”, traficantes e espertos. Essa colheita de aspirações e de ódios, de
queixas e vindicações, de revolta e de desespêro, de esperanças e ilusões — constituia o
noticiário trazido pelos jornalistas incultos das tropas e bandeiras para os Senados das Câmaras,
para os colégios dos jesuitas, para as ruas, os quartéis, os ranchos, as hospedarias, os
botequins e armazéns das vilas. Noticiário que iria ressoar “na palavra livre, dogmática e
informativa” dos padres e frades, nos versos satíricos dos gregórios de matos, nos pasquins
manuscritos, contundentes, denunciadores e patrióticos.
Foi essa colheita de fatos e de dôres que levou o Tiradentes a falar da liberdade de
Minas ao coronel Aires Gomes, argumentando “desejar o povo fazer-se desta terra uma
república livre dos governos que vêm cá ensopar-se em riquezas de três em três anos”; que
modificou radicalmente o rumo das confabulações inconseqüentes, da tagarelice inócua e vazia
de sentido daquele círculo de poetas, eclesiásticos e letrados, que comentavam com um
entusiasmo platônico a rebelião da América Inglesa e a libertação das Treze Colônias; que
transformou aquela pacífica academia numa célula de conspiradores decididos. Foi de Xavier
que receberam a palavra de Alvares Maciel, que então retornara ao Rio de uma viagem à
Europa, sôbre a estranheza dos países onde estivera por não terem ainda os brasileiros seguido
o exemplo da América inglêsa; da segurança de que o Rio de Janeiro se levantaria com êles e
de que receberiam socorro da França e de outras potências; a informação do encontro do
estudante Maia com Jefferson, em Paris, para obter auxílio dos Estados Unidos. A vitória eram
favas contadas — concluia. E de tal modo pesou a doutrinação do Tiradentes sôbre os
conspiradores que o vigário Toledo, respondendo a objeções do padre Lopes de Oliveira, lhe
assegurava não duraria a guerra mais de três anos, pois, unidos, São Paulo, Minas e Rio teriam
mais gente e armas do que os americanos e inglêses.
Os depoimentos prestados pelos inconfidentes durante a devassa são concludentes da
ação caracterìsticamente jornalística do Tiradentes — informando e opinando, descrevendo e
sugerindo, narrando fatos e reclamando ação. No Rio, prega que ainda haverá de fazer feliz a
América. Que construirá armazens no porto para fomentar o comércio e guardar os produtos da
terra, enquanto se esperam os barcos. Que poderá abastecer dágua a cidade de São Sebastião.
Na Vila Rica, traça um quadro de progresso e riqueza, quando vier a liberdade: à costureira
229
Pedro Calmon — Espírito da sociedade colonial — Rio, 1935 — págs. 237-238.
Simplícia Moura assegura que todo brasileiro poderá melhorar as suas rendas e que êle próprio
espera vir a ter mais de 50 mil cruzados. Gerado espontâneamente jornalista, concorda com o
cônego Luís Vieira de que “não se pode mover o ânimo dos povos senão com fatos do
presente”. E, como o fato do presente é a derrama, a derrama que iria provocar nova sangria na
já exaurida economia das Minas Gerais, — a derrama é a oportunidade da rebelião. Consegue,
então, que os conjurados fixem a data do “batizado” e parte para o Rio, o coração leve, na
antevisão da pátria libertada.
Por tôdas as fazendas, no eito e nas senzalas, nas “vendas” e nos pousos, nos ranchos
solitários e nas minas de ouro — por todo o caminho da serra ressoa a voz do jornalista
Tiradentes, transmitindo a nova, o santo e a senha, dando detalhes, acordando ódios e
esperanças. É a derradeira viagem do arauto da liberdade, a última edição do pasquim oral que
conclama o seu público à ação. Não voltará mais a falar enquanto a pátria não for soberana. A
sua missão está cumprida e, olhando para as tarefas executadas, pode afirmar com orgulho — e
o repetirá sereno e altivo perante os seus julgadores — que “armara uma meada tal que em dez,
vinte ou cem anos não se havia de desembaraçar.” O tempo e a história confirmaram a
declaração final do editorialista de Vila Rica: em 1798, os Alfaiates se erguem na Bahia,
clamando pelos princípios da Revolução Francesa, predizendo o império napoleônico, a queda
do realismo português, a independência do Brasil; em 1817 e 1824, Pernambuco e o Nordeste
proclamam a Independência e a República; em 1831, a noite das Garrafadas no Rio revive a
meada tiradentina; em 1834, os “bicudos” são caçados nas ruas de Cuiabá; antes que se
complete o século da profecia, os “farrapos” cavalgam as coxilhas gaúchas, os escravos são
libertados, o Senhor Dom Pedro II recebe o bilhete azul com que os brasileiros agradecem os
seus serviços e o embarcam para Portugal, a aguardar a justiça de Deus na voz da história.
“A Conjuração Mineira falhou — escreve Gondim da Fonseca — por não haver
jornalistas no Brasil. Tiradentes tinha de fazer a propaganda falada, abordar pessoas, discutir,
convencer. Ninguém mais o acompanhava nesses contatos pessoais com o povo, o que o tornou
visadíssimo. E o sujo Tomá Antônio Gonzaga, o lírico, o chôcho e safado de “Marília”, ainda o
acusa de “falador”. Como poderia êle, sem jornal, pro pagar idéias senão falando?”230 O campeão
do moderno nacionalismo brasileiro tem razão quando pluraliza a inexistência de jornalistas na
Inconfidência e quando destaca a ação isolada e fecunda do Tiradentes. Pois a história da
independência política do Brasil está intrìnsecamente, indissoltavelmente ligada ao jornalismo.
Ao jornalismo incipiente do Tiradentes, do repúblico Antônio Borges da Fonseca, do panfletário e
agitador Cipriano Barata, do indoitiável e incorruptível Frei Caneca. E ao jornalismo atuante de
José Bonifácio, de Gonçalves Lêdo e de Evaristo da Veiga. “O jornal na mão das personalidades
mais expressivas da inteligência nativa ou semi-nativa tornou-se a arma perigosa utilizada contra
a ação corrosiva e demolidora das influências alienígenas... O idealismo moral dos que se
achavam na vanguarda dos movimentos era superior às vicissitudes internas e externas criadas
pelo espírito obscurantista. De sorte que à ação militante dos pioneiros da imprensa brasileira
deve-se a consolidação das instituições nacionais e o correspondente aperfeiçoamento do
sistema político dominante... O jornal e seus profissionais gozavam de invejável prestígio na
sociedade, uma conseqüência de suas reiteradas posições em defesa do interêsse público
atingido pelo arbítrio dos poderosos... O certo é que o jornal tem sido até então o agente
catalizador dos grandes movimentos nacionais.”231 Mesmo com feição de pasquim, atacando a
torto e a direito, demolindo reputações, numa linguagem violenta e corruscante. Sem o
jornalistas, sem a sua pregação denodada, teimosa, palpitante de fé e ardor, que tantos pagaram
com a própria vida, não nos teriamos libertado do jugo português. Como não teríamos, de uma
vez por tôdas, rechaçado para o outro lado do Atlântico o anacrônico sistema monárquico, que
Gondim da Fonseca — Senhor Deus dos desgraçados — Rio, 1958 — pág. 273.
Paulo Cajás — “O papel criador da imprensa” in Anais da VII Congresso Nacional de Jornalistas — Rio, 1958 —
II Vol. — pág. 521.
230
231
não foi liquidado por Deodoro ou consolidado por Floriano, mas aos golpes de ariete da pena de
Silva Jardim, Quintino Bocaiuva, Tavares Bastos, Anibal Falcão, Rui Barbosa, José do
Patrocínio, Campos Sales, Medeiros e Albuquerque, Rangel Pestana e de tantos outros
jornalistas, autênticos promotores das revoluções que nos legaram um Brasil independente e
republicano.
Os Reclamos do Presente — Com efeito, é aos jornalistas — e não aos políticos e
técnicos — que o povo confia os seus mais ardentes anseios: como a independência, como a
abolição, como a república, como o civilismo, como o liberalismo de 30. Foi através da imprensa,
do clamor levantado pelos jornalistas, que o Nordeste recebeu, afinal, Paulo Afonso,
transformando a experiê ncia pioneira de Delmiro Gouveia, na Pedra, na realidade redentora da
Companhia Hidro-Elétrica do São Francisco. Foi com o seu apoio, sob a cobertura do fogo de
barragem do jornal e do rádio, que Getúlio realizou Volta Redonda e abriu perspectivas à grande
indústria nacional, através da siderurgia. O programa de emancipação econômica do país —
para que se cumpra aquela antevisão bi-secular do Tiradentes, e “cada brasileiro possa vir a ter
mais de 50 mil cruzados” — está recebendo do jornalista uma lúcida compreensão e dando-lhe
fôrças para anunciar, apelar, convencer, fustigar e denunciar, aplaudir e condenar todos os atos
e fatos favoráveis ou contrários aos supremos interêsses da pátria.
Foi pelo jornalismo que, primeiro através de panfletos e boletins, depois com Diretrizes e
o Jornal de Debates, auscultando o povo, sentindo-lhe as palpitações da nobre alma, indo a
Alagoas para investigar e gritar ao Brasil o trágico e sintomático episódio das primeiras
pesquisas de petróleo e do covarde assassínio do engenheiro José Bach, cujo cadaver
ensanguentado tingira de rubro idealismo as águas do rio da unidade nacional — foi pela
imprensa que Monteiro Lobatoe tôda uma plêiade de jornalistas conscientes da sua
responsabilidade lançaram a campanha do monopólio estatal do petróleo.
Esta compreensão dos reclamos da hora presente, se está enraizada na alma dos
jornalistas individualmente, não o está ainda no espírito do nosso jornalismo. Que continua,
como bem o observou Walfrido Morais,232 a não dispor de mentalidade aprimorada para pensar,
em têrmos prioritários, nos problemas econômicos de uma terra dadivosa e boa, como nos
tempos passados em que os mesmos não eram tão acentuadamente gritantes como nos dias
atuais. “Na história das nossas! mais belas e edificantes campanhas cívicas... entre o século
passado e êste século, havia, neste particular, mais ufanismo do que pròpriamente preocupação
pelos nossos destinos econômicos... É preciso que a imprensa crie uma forte corrente popular
de opinião, capaz de levar os governos a criarem condições regionais e nacionais que se
objetivem a êsse desenvolvimento, quer através de investimentos de capitais, quer através do
uso direto do poder do Estado Mo derno, intervencionista por sua própria natureza, no sentido
não só de estimular a circulação por meio de processos de industrialização, como igualmente de
corrigir como elemento moderador as desigualdades sociais tão violentas que se observam
neste país.”
Sob a inspiração do Tiradentes, para continuar a tecer a meada intrincada da grandeza
brasileira, reconquistar o prestígio e a influência junto à massa dos concidadãos, ganhar o
respeito dos governantes e a admiração dos povos amigos, é que o nosso jornalismo precisa de
ultrapassar a fase ditirâmbica, lírica, sentimental do ufanismo, de um patriotismo limitado à
exaltação das glórias passadas e das acrisoladas virtudes dos nossos maiores, de um
nacionalismo que só sente ferver o sangue quando um estrangeiro desabusado nos cospe à
cara injúrias ou, ostensivamente, nos faz dano. Há todo um vasto programa de ação para o
autêntico nacionalismo, que não é contemplativo, mas dinâmico; que não é um simples desejo
Walfrido Morais — “O dever da imprensa em face dos problemas do desenvolvimento econômico nacional” in
Anais do VII Congresso Nacional de Jornalistas — Vol. II — págs. 398-399.
232
de aperfeiçoamento do povo, das instituições, da cultura e da economia do país, mas um
trabalho constante e tenaz de esclarecimento, de orientação, de promoção e, até mesmo, de
construção do presente e do futuro. O jornalismo brasileiro precisa de tomar posição decisiva na
luta pela manutenção das garantias constitucionais e das liberdades públicas; pela erradicação
do analfabetismo, popularização da cultura, elevação do nível científico, artístico e técnico das
massas; pela extinção das endemias, através de campanhas sanitárias e de uma efetiva e
acessível assistência médico-dentária e hospitalar; pela melhoria das condições de vida das
classes trabalhadoras urbanas e rurais, mediante uma crescente industrialização, reforma
agrária para a valorização da lavoura e da pecuária, desenvolvimento do cooperativismo, um
amplo programa de habitações populares, combate aos vícios (jôgo, alcoolismo, meretrício),
proporcionando-se trabalho condigno a todos os cidadãos; pela manutenção do monopólio
estatal do petróleo e nacionalização das fontes de energia com a criação da Eletrobrás, posse
absoluta dos nossos minerais atômicos, definitiva conquista do oeste e recuperação das regiões
norte e nordeste, a fim de equilibrar a economia nacional; e, finalmente, pela extirpação da
ganância, da fraude, do contrabando, das especulações, do suborno e da dissolução dos
costumes, infortunadamente praticadas com largueza, tanto no domínio público como no privado.
O nacionalismo econômico e social que está sendo exigido pelo Brasil nos dias atuais não é
jacobinismo, horror ao estrangeiro, recusa de uma colaboração sincera e fraternal, de que, como
qualquer país jovem e potencialmente rico, tanto precisamos. É, isto sim, um movimento amplo,
uma marcha vigorosa e incontrolável do povo brasileiro para a promoção de um estágio de
civilização em que “a uns não sobre o supérfluo e a outros não falte o necessário.”
Jornalismo e Paz Mundial — Em tôdas as épocas, a humanidade tem aspirado à paz
como bem sup remo neste mundo. Quando, no início dos séculos, o homem conseguiu vencer a
fôrça bruta pela inteligência e estabelecer a ordem pelo direito, estava lançando os alicerces de
um estado de paz perpétua, em que reinassem a compreensão, o entendimento, a tolerância e a
ajuda mútua, — virtudes que o cristianismo resumiria na Caridade — e se pautassem a vida e os
atos sociais por normás éticas e jurídicas. Ora, “a guerra é sempre uma desordem, porque é a
conseqüência quase fatal da desordem; não sobrevém sòmente da má vontade de um ou de
alguns indivíduos, é conseqüência da falta de ordem neste mundo. Provém, antes de tudo, da
desordem nos espíritos, da desordem na economia, da desordem nas instituições... A guerra é
uma desordem porque é, necessàriamente, em si, o triunfo da fôrça.”233 Daí haver a humanidade
sempre procurado conseguir a paz, mesmo quando, paradoxahnente, se entrega às ações
bélicas. Os grandes conquistadores, na sua maioria, não tiveram outro objetivo, quando se
empenharam nas suas campanhas guerreiras, senâo conquistar a paz, e êste seu desejo de paz
— como o assinala Rafael de los Casares — lhes tem servido de justificação ante si mesmo para
as suas lutas e conquistas. “A maioria dêles confundiu de boa fé “a paz” com a “sua paz”. Esta
última, raras vêzes coincidiu com a do seu adversário ou vizinho. Daqui se deriva o conceito
mais primitivo para conseguir a paz: impô-la, submetendo todos os adversários. Assim, vemos
como os períodos de relativa paz, na história da antiguidade, se logram sòmente no apogeu dos
grandes impérios. Subjugados ou escravizados todos os possíveis inimigos, a paz do império se
consegue. Mas também dura aquela sòmente enquanto êste existe. À queda de um grande
império, segue -se, inevitàvelmente, um terrível período de guerras, até que surge outro.”234
Durante a Idade Média, procurando submeter as suas divergências ao Papado, a que,
graças à unidade da fé, reconheciam autoridade — as nações buscavam precaver-se das
guerras. Os filósofos da Igreja, desde Santo Agostinho e São Tomás de Aquino a Vittoria e
Suarez, sempre insistiram em que a paz não era uma causa, mas uma conseqüência da ordem
neste mundo. E como essa ordem era perturbada, inclusive mesmo pela Igreja, então
233 P.
234
Chaillet — La bataille de la paix — Paris, 1947 — pág. 5.
Rafael de los Casares — La Carta de las Naciones Unidas y la paz mundial — Madrid, 1948 — págs. 12-13.
empenhada em obter o poder temporal, os projetos de paz e os próprios decretos papais a
respeito — como o da Pacificação Eterna, de 1495 — não conseguiram alcançar o seu objetivo.
O surgimento dos Estados Nacionais — a França, a Inglaterra, a Espanha — com a sua
doutrina da soberania absoluta; os choques de interêsses econômicos que nem sempre a ação
dos diplomatas conseguia amortecer; o conflito entre as nações do oriente e do ocidente; as
dissensões religiosas, com o eclodir da Reforma e, sobretudo, o início da revolução industrial —
provocaram um retrocesso na “batalha da paz” que, nada obstante, continuava a ser pregada por
filósofos e pensadores como Thomas More, Erasmo de Rotherdam, Hugo Grotius, William Penn,
Rousseau, Bentham e Kant.
É nos albores do século XIX que começa a ser feita uma mais afetiva propaganda da
paz. O problema deixa de ser exclusivo dos tratados filosóficos; passa à imprensa. Em 1815,
surgem simultâneamente na Inglaterra e nos Estados Unidos dois movimentos em favor da paz:
o primeiro dirigido por Joseph T. Price, um pequeno industrial do país de Gales, e o segundo
pelo novaiorquino David L. Dodge, de profissão comerciante. Criam êles os seus órgãos de
propaganda da paz, o Herald of Peace, na Inglaterra, e o Advocate of Peace, na América.
Utilizando a imprensa, promovendo concursos, estabelecendo contatos, criando ligas e
sociedades pacifistas — êsses movimentos atuam durante meio século, congregando
importantes vultos do pensamento mundial e parcelas cada vez mais significativas da opinião
pública, Em 1843, realiza-se, em Londres, o Primeiro Congresso Mundial Pró -Paz. Trezentos
delegados de todo o mundo procuram solução para problemas que ocasionam
desentendimentos entre os povos. É neste congresso que, entre outras moções, se estabelece a
que pleiteou a reforma nos livros escolares de todos os países, visando extinguir nos mesmos
referências desairosas ou ofensivas a outros povos.
A “Batalha da Paz” — Apesar disso, a grande imprensa do tempo — como
infortunadamenteainda hoje ocorre — não sòmente se punha à margem como até ridicularizava
as campanhas pró -paz. “A princípio, o Times perguntava como se podia esperar que princípios
dristãos encontrasem éco entre os turcos muçulmanos; zombava das “pombas da paz” e suas
“utopias”; mas, já em 1851, o mesmo jornal assinalava, ao contrário, que o mecanismo da
organização internacional de que elas se faziam advogados existia já, representado pelas
embaixadas e pelos tratados da época... Fato mais significativo ainda, os “fazedores da paz”
eram caricaturados nas colunas do Punch, honra insigne em verdade.”235 A guerra da Criméia
em 1854 provoca cisão nas hostes pacifistas dos adeptos de Price. Quanto à organização
estadunidense sòmente viria a sofrer colapso com a entrada do país na 1 Guerra Mundial, em
1917.
Com a participação ativa de jornalistas e homens de ação de tôdas as profissões, o
século XIX vê adotados alguns princípios e declarações que são aceitos e acatados por tôdas as
nações, encaminhando a solução de diversos problemas que sempre resultavam em
divergências e conflitos e que, desde então, passaram a constituir normas do direito
internacional. Foi assim com a declaração sôbre o contrabando, firmada em Paris, em 1856; a
convenção de Genebra de 1864 sôbre feridos de guerrá, criando a Cruz Vermelha; a Declaração
de São Petersburgo, em 1868, sôbre o emprêgo de projéteis explosivos; as memoráveis
campanhas em favor da arbitragem e do desarmamento, nos anos de 1867 e 1899; a
Conferência de Paris e o Congresso de Berlim, em 1878, o último considerado pelo Times de
“primeiro exemplo de um verdadeiro parlamento das grandes potências”; e, ainda, a declaração
sôbre a guerra marítima, feita em Londres, em 1909.
Desde 1890, o jornalista inglês W. T. Stead fundara a Revista das Revistas, a fim de dar
— como o declarava expressamente — ao leitor inglês médio, graças a um sistema de citações,
235
A.C.F. Beales — Les mouvement internationatistes au XIXe Siècle — Paris, 1947 — pág. 17.
informações suficientes sôbre os negócios públicos e as correntes de idéias com o objetivo de
tornar ao menos possível uma opinião pública esclarecida. Foi essa revista que inspirou o Tzar
Nicolau II, então no início do seu reinado, a convocar a Primeira Conferência de Paz em Haya,
em 1899, de que iria resultar o estabelecimento, ali mesmo, em 1907, da Côrte de Justiça
mundial e, em 1933, a construção do Palácio da Paz. Se bem que essas providências não
tivessem evitado o irrompimento do conflito mundial de 1914, foram, sem dúvida, de grande
importância para a conclusão do Pacto da Liga das Nações, firmado pelas potências reunidas
em Versalhes, que pôs fim à Grande Guerra e criou o primeiro organismo interestatal
encarregado de manter a paz.
Durante dezenove anos, atravessando crise e, ora adotando medidas positivas ora
fracassando nos seus propósitos, a Sociedade das Nações, sediada em Genebra, manteve para
o mundo civilizado as esperanças de obtenção de um “statu” de paz permanente, seja para
aquêles que a consideravam como uma grande aliança de Estados associados, seja para
aquêles que pleiteavam transformá-la num super-Estado, com um poder legislativo e um
executivo e apoiado por um exército internacional, que faria cumprir as decisões da sua
Assembléia e do seu Conselho. Desaparecida em 1945, com a criação da Organização das
Nações Unidas, legou-nos, no entanto, a Côrte Internacional de Justiça, que continuou
funcionando no Palácio da Paz, em Haya, e a Organização Internacional do Trabalho, com a
participação de delegações de empregadores e empregados para debate de problemas da
legislação trabalhista.
A ONU e a Paz — Em 1941, via-se a humanidade no apogeu de uma guerra, a mais
terrível e destruidora a que jamais se entregaram os povos. Essa gue rra, a par das suas causas
econômicas e políticas, assentara fortemente na propaganda desenvolvida pelos veículos
jornalísticos notadamente pelo rádio, acirrando velhos ódios, ressuscitando um estreito e
deformado nacionalismo, pregando uma pretensa superiorida de racial, criando discriminações e
fomentando as divergências filosóficas entre as nações. O jornalismo pacifista e responsável
fôra, então, pràticamente extinto; os Estados belicosos submetiam tôda a atividade jornalística
aos seus fins guerreiros.
Foi sentindo que o mundo do futuro, que deveria, ser o mundo da paz, não poderia
prescindir de um jornalismo consciente e livre, que o presidente Roosevelt em sua histórica
mensagem ao Congresso, em 6 de janeiro daquele ano, reafirmava a fé do povo norteamericano “em um mundo que se fundamente por serem essenciais sôbre as seguintes
liberdades: a de palavra e expressão; a de adorar ao seu Deus na forma que escolha; a de viver
a coberto da miséria, sob a proteção dos acordos internacionais necessários para garantir-lhe
em tôdas as nações uma vida tranquila e sã; e, por último, a liberdade de viver sem o temor
constante da guerra...” Este documento, que teve a mais profunda ressonância em todo o
universo já que partia do chefe de um Estado ainda não beligerante foi seguido, em agôsto do
mesmo ano, da Carta do Atlântico, firmada pelo presidente Roosevelt e pelo “premier” Winston
Churchill, e que foi o documento básico da constituição, quatro anos depois, da Organização das
Nações Unidas.
Em 1948, reunida em Paris, a Assembléia Geral da ONU adotou, na sua Declaração
Universal dos Direitos do Homem, un artigo — que tomou o n.19, assim redigido: “Todo ind ivíduo
tem direito à liberdade de opinião e expressão, o que implica no direito de não ser perseguido
pelas suas opiniões e de buscar, de receber e de difundir, sem consideração de fronteiras, as
informações e as idéias por qualquer meio de expressão que seja”. Uma emenda da delegação
soviética, que proibia fôsse utilizada a liberdade de palavra e de imprensa “com fins de
propaganda para o fascismo e a agressão ou a fim de suscitar o ódio entre os povos” foi
rejeitada, porquanto, julgava a maioria dos delegados, não se enquadrava na enunciação de um
princípio geral. Todavia, na conferência das Nações Unidas sôbre a liberdade de informação,
realizada no mesmo ano em Genebra, restou adotado que “o direito à liberdade de expressão
inclui deveres e responsabilidades e pode, em conseqüência, ser submetido a sanções,
condições ou restrições claramente definidas por lei, mas sòmente no que concerne a. . . . h) —
a difusão sistemática de notícias falsas ou deformadas, com conhecimento de causa, que
prejudiquem as relações amistosas entre os povos ou entre os Estados.” Acrescentava-se a
possibilidade de cada Estado instituir, segundo modalidades razoáveis, um direito de resposta ou
um procedimento análogo de retificação e que seriam tomadas providências com vistas a
desenvolver a liberdade de informação, suprimindo-se os obstáculos de ordem política,
econômica, técnica ou de natureza tal que pudessem entravar a livre circulação das
informações.
Essas duas últimas disposições foram debatidas em abril e maio de 1949, em Flushing
Meadow, N.Y., e decidiu-se fôssem consideradas num só documento como uma só convenção,
pois se completavam, e o direito internacional de retificação seria um corretivo indispensável
para a liberdade no domínio da transmissão de notícias. Sòmente em 1952, a retificação foi
afinal adotada pela ONU, por 25 votos contra 22 e 10 abstenções. Até hoje, entretanto, não foi
posto em prática o princípio, em face de sérias objeções levantadas contra a convenção e que
podem ser resumidas no voto do delegado norte-americano Charles Sprague: “Em primeiro
lugar, entendemos que esta convenção implica no reconhecimento de um direito ilimitado de
iniciar retificações, mas sem que estabeleça qualquer meio de determinar se a matéria
considerada ofensiva o é na realidade ou se a própria retificação representa uma exposição
correta dos fatos. Se o autor da publicação é um órgão rêsponsável, sem dúvida publicará a
retificação; se não o é, a convenção não determina o modo de fazer com que a publique. Seria
muito mais útil, para evitar erros, facilitar o acesso às fontes de informação, de modo que os
diretores dos jornais e os próprios leitores pudessem julgar, ao comparar as notícias, o que era
digno de crédito. De outro lado, entendemos que a convenção provàvelmente acarretará
divergência entre as nações. Obrigaria o país que recebesse a retificação a transmiti-la à
imprensa, mesmo que não concordasse com os seus termos. Assim, o govêrno se veria
obrigado a disseminar uma informação que considera falsa ou então a não cumprir a convenção.
Se optar por esta última hipótese poderá originar controvérsias com outro govêrno.” Salientouse, além do mais, que a retificação das notícias tenderia a aumentar e ao a diminuir a
intervenção governamental nos meios de informação, fator muito importante para a liberdade dê
imprensa.236
Quanto à convenção sôbre o livre acesso às fontes de informação, não parece que se
tenham confirmado as espernças do delegado Aramburo, do Peru, de que, sob certos aspectos,
o estatuto levava muito adiante os privilégios concedidos aos jornalistas do que os atualmente
em vigor para os diplomatas, pois os Estados não poderiam usar, com respeito aos
correspondentes estrangeiros, do recurso de declará-los indesejáveis. Não sòmente êsse como
outros recursos continuam a ser usados pelos Estados membros da ONU, entre os quais os de
negar visto de entrada a Jornalistas, de fazer exigências especiais de declaração ideológica, de
cercear os movimentos do profissio nail da imprensa no interior do país, de censurar as suas
correspondêncja ou retardá-las.
Não se nega, contudo, o trabalho intenso da ONU, através da UNESCO e da SubComissão do Conselho Econômico e Social para liberdade de informação e de imprensa, no
sentido de tornar mais ampla a colaboração internacional, através do fornecimento de meios
para um melhor conhecimento entre os povos. Assim, vários convênios foram firmados
tendentes a favorecer a circulação internacional de livros, diários e periódicos, redução de tarifas
e facilidades nos correios e telecomunicações, formação profissional, bolsas de estudo para
jornalistas, técnicos e especialistas de rádio e televisão, enquêtes e providências sôbre o
236
Conf. art. de Paul L. Ford in Folha da Manhã — Recife — ed. de 20-1-53.
problema do papel e, finalmente, a criação da Associação Internacional de Estudos e
Investigações da Informação, instalada em Paris, em dezembro de 1957, com a participação de
40 delegados de 15 Estados, sob a presidência de F. Terrou, da França. Essa instituição se
destina a estudar cientificamente o desenvolvimento de todos os meios de informação, com troca
de experiências e materiais entre os Estados e estímulo de contatos pessoais dos seus especialistas, dedicando especial ênfase à investigação e melhoramento da educação dos
Jornalistas.237
Os Caminhos da Paz — “Formar na massa popular ou, pelo menos, na massa
intelectual sadia uma opinião comum que a oriente para as exigências federalistas e faça
prevalecer, não sòmente na via cerebral mas no sentimento, a consciência de que os povos não
são senão um; que estão dedicados a uma obra comum que não pode ter êxito senão por uma
colaboração de todos os dias; que os problemas da vida social são hoje internacionais e que
ninguém pode considerar sôbre o plano nacional senão problemas locais, os quais mesmo
devem ser estudados no plano das instituições internacionais — fazer prevalecer isto
efetivamente é um dos primeiros problemas do nosso tempo. A sorte das organizações
internacionais positivas depende desta evolução da opinião.” Êstes conceitos de J. Leclercq
aplicam-se rigorosamente ao jornalismo, porquanto nenhum meio de comunicação do
pensamento tem a amplitude e a capacidade de atingir mais fundo e mais permanentemente a
tôdas as camadas sociais. Se as fôlhas impressas conseguiram transpor fronteiras e levar de um
povo a outro as idéias filosóficas e políticas correntes, com a difusão do rádio — pondo em
comunhão, de instantâneo, os diversos Estados e Nações, — o jornalismo vê abertos os
caminhos de uma salutar política de colaboração internacional.
Mas êsses caminhos devem ser trilhados com tenacidade e determinação: os jornalistas
e os povos amantes da paz não podem esquecer a lição dos fazedores de guerra na sua tarefa
em prol da paz: — durante a revolução franquista na Espanha, a luta entre republicanos e
rebeldes, travada com feracidade inaudita em terra, não o era menos no éter, através das
estações de rádio inimigas de Barcelona e Sevilha; na segunda guerra mundial, o rádio
representou elemento da maior importância no desenvolvime nto das operações militares. Por
isso todos os esforços eram feitos no sentido de iriterceptar emissões radiofônicas: os
engenheiros alemães eram extremamente hábeis em localizar e prejudicar, por meio da
coincidência de ondas e outros recursos técnicos, a propaganda inimiga, notadamente da
Resistência Francesa, transmitida de Argel e de Londres. Programas de divulgação em
diferentes idiomas mantinham a BBC no ar durante dia e noite — e todos os esforços foram
feitos pelos nazistas, durante o ano crítico da Batalha da Inglaterra, para fazer emudecer a
potente emissora britânica. É que essas transmissões e programas eram ouvidos,
subrepticiamente, em todos os países ocupados e despertavam o patriotismo e o instinto de
libertação das populaçõs.
No período do após-guerra, graças ao extraordinário desenvolvimento da técnica, o rádio
se tornou um ainda mais potente e universalizado veículo de propaganda, marchando a televisão
para vir a sê-lo também. A “guerra fria” teve no rádio a sua maior arma, mas foi também no rádio
que, de preferência, se concentraram os esforços pacifistas dos que, sob a liderança de
Frederico Juliot Curie, firmaram e defenderam com vigor e desassombro os postulados
humanitários do “apêlo de Estocolmo”.
Apesar de no Conselho figurar um jornalista brasileiro, Sr. Danten Jobim, e poderem ser constituídos comités
nacionais da organizaçao, concentrando especialistas e institutos profissionais de cada país-membro, nenhuma
divulgação, e ao que saibamos, nenhuma providência foi tomada para tornar esse organismo conhecido no país e
fazer com que os estudiosos dos problemas de imprensa, rádio, televisão e cinema aufiram dos beneficios que às
suas atividades e à sua cultura traria uma participação ativa na Associação.
237
Os sentimentos pacifistas do povo brasileiro, — afirmados após a nossa vitória sôbre o
Paraguai na guerra de López; na demarcação das nossas fronteiras por Rio Branco e
confirmados na recusa à participação nos despojos e em justas reparações em duas guerras
mundiais; na atuação de Rui Barbosa em Haya e de Osvaldo Aranha na ONU; nas posições
assumidas todas as vêzes em que somos chamados a servir de mediadores nos conflitos entre
Estados Americanos, e, ainda há pouco, na integração por um batalhão expedicionário da fôrça
internacional que assegura a paz ameaçada em Suez — impõem ao nosso jornalismo a
continuação de uma tradição honrosa de luta pela construção de um mundo de paz,
entendimento, colaboração e amizade entre todos os povos. Mas impõem, também, uma
responsabilidade maior ao jornalista: — a atenção dedicada a algumas das mais agudas
questões da atualidade, de cuja solução depende, sem dúvida, o estabelecimento de uma paz
duradoura, fundamentada nos princípios da justiça e do direito internacional.
Problemas como o do uso pacífico da energia atômica; da interdição das armas
nucleares; do desarmamento progressivo; do fortalecimento da ONU e da OEA; da extinção do
colonialismo, da discriminação racial, da profunda desigualdade econômica entre as nações, da
fome e das endemias que devastam as populações de imensas regiões subdesenvolvidas do
mundo; do reconhecimento e garantia às minorias étnicas; da reunificação da Alemanha e de
outros povos artificialmente mantidos em diferentes Estados — aí estão a desafiar a inteligência
e a sensibilidade do jornalismo brasileiro. Que precisa de deixar de ver o mundo através de
lentes alheias, com o estabelecimento de agências e serviços informativos próprios nas
principais capitais dos cinco continentes. Que precisa de reclamar do Govêrno a criação de
cargos de adido cultural e de imprensa junto às embaixadas e junto à ONU, a fim de poder não
sòmente colher informações seguras à base das quais se capacite a colaborar nas tarefas
comuns da paz como também de propagar no exterior o pensamento, as aspirações, as
necessidades e as possibilidades do nosso país. Que precisa de adquirir, em visitas mais
freqüentes aos países estrangeiros, uma visão mais profunda e uma observação crítica mais
segura das experiências e do desenvolvimento das outras nações, a fim de eliminar da sua
produção intelectual as distorções, os falsos julgamentos, as conclusões precipitadas, repelindo
insinuações alheias e interessadas, que não raro exacerbam os espíritos e criam ambiente
propício aos desentendimentos e conflitos internacionais. Que precisa, finalmente, de integrar-se
melhor na fraternidade jornalística mundial, colhendo para o Brasil os galardões que lhe cabem
como um povo aberto à compreensão e à amizade com tôdas as nações pacíficas e livres.
Sem nenhum dos males de raiz que prejudicam um sadio internacional por parte de
outras grande potências no mundo; sem instintos imperialistas e ímpetos expansionistas; com
uma arraigada convicção de igualdade racial e uma larga tolerância religiosa e política;
desejando tão sòmente, como reza o lema da sua bandeira, o pregresso conquistado dentro da
ordem — o Brasil está em situação privilegiada para defender a propagar, por um jornalismo
livre, responsável e consciente, os princípios de uma paz duradoura, sob a égide da justiça e da
fraternidade universal.
Recife, 1953-59.
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