DANIEL FILIPE
a invenção
do amor e outros poemas
Nota sobre a Invenção do Amor
Se dizemos que é tempo de fazer regressar ao nosso convívio a
poesia de Daniel Filipe, sobretudo a poesia de A Invenção do
Amor e outros poemas, falamos apenas em regresso físico — à
palavra impressa, ao livro. Em qualquer outra acepção, não há que
falar em regresso: os seus poemas estão aí como sempre estiveram
— hoje até talvez mais actuais, com uma acuidade mais viva, como
se a comunicação que entre eles e nós se estabelece tivesse
conquistado uma nova dimensão, ou porque a nossa actualidade
se abriu mais à palavra de Daniel Filipe, encontrando-se de súbito
mais próxima dessa poesia que funde tão intimamente amor e
liberdade.
Essa a razão por que A Invenção do Amor, o poema onde
tal fusão atinge a sua expressão mais nítida, guarda intactas — ou
quiçá as intensifique — todas as suas promessas e todo o seu
potencial combativo.
De resto, se considerássemos a evolução de Daniel Filipe,
comparando sobretudo a poética de A Invenção do Amor com a de
Recado para uma Amiga distante, seu livro anterior,
dir-se-ia que esta última é toda uma preparação para A Invenção
do Amor. O passo que vai de uma a outra é o da maturação de um
poeta, do domínio de uma expressão que aparece primeiramente
fragmentária e desigual, mais experimentando o desconforto e a
esperança do viver do que assumindo-os na transmutação poética do
seu livro seguinte. Recado para uma Amiga distante aparece-nos
assim em versos difusos, submetidos às estreitas determinações de
um tempo e de um espaço em que se forjaram, à espera de uma
unidade que os reequilibre e lhes dê o lugar certo na mundovisão
do poeta. É essa unidade que nos surge com A Invenção do
Amor, poema-síntese das propostas antecedentes. Já não é um
poema passivo ao tempo e ao espaço da sua génese, mas dinâmico,
apoderando-se desse tempo e desse espaço, dilatando as suas dimensões a uma comunicabilidade que não esgota tão cedo o seu
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potencial de actualizações. Amor contestante e amor planetário estão
nele como propostas que franqueiam uma actualidade recente,
ultrapassam-na até, para recortarem uma linha de horizonte que ele,
poeta, porque excluído prematuramente, só pôde antevisionar pela
distensão das suas vivências mais profundas. Daí que as tensões de
A Invenção do Amor sejam as tensões do nosso tempo, levandonos a resolver a alternativa posta nas primeiras linhas desta
introdução: a poesia de Daniel Filipe abre-se à nossa actualidade como
esta se abre à sua voz, numa dialéctica que exprime a constante
actualização do homem e do mundo.
Convidemo-nos, pois, a uma releitura, pondo à prova a
comunicação do poema.
Mas partindo do fait divers, o verso prolonga-o, arranca-o do
episódio, dando-lhe uma nova significação. Assim, na ambiguidade
das palavras, de todas as palavras, estas nos surgem
inesperadamente exactas, escavando o âmago da ambiguidade
até porem o real a nu — apenas o encontro entre um homem e
uma mulher na cidade. É o seu descritivo, moldado ainda no
quotidiano, que as autoriza: continuam a ser as palavras da cidade.
Mas ao mesmo tempo descobrem-se subitamente novas, dilatando as
potencialidades da experiência, ao proporem a «invenção conjunta de
um amor subitamente imperativo». É daqui que elas se libertam do
casulo do fait divers, para afirmarem algo que não é já mero
resíduo de uma experiência privada, mas sim uma afectividade
contagiante à procura de todos os habitantes da cidade. E nessa
medida atingem frontalmente o quotidiano, pelo absurdo que
encerram, pela sua estranheza e sobretudo pela liberdade que
afirmam. Já não são as palavras da cidade, mas de uma promessa
que a cidade exclui..
Poesia «retórica (retórica conscientemente assumida)», diz dela
Urbano Tavares Rodrigues. Caracterização certeira. Mais até:
inevitàvelmente retórica, porque não existe na cidade a
experiência autêntica do amor que Daniel Filipe se obriga a
inventar. E então há que forçar a entoação das palavras, enfatizálas, repeti-las, numa tentativa de violentar o real e impor nele o
seu projecto de poeta. Mas é também nessa medida que a
retórica se enche de protesto, para nos dizer que nem só o mundo
«das máquinas, das bombas de hidrogénio, das normas de
discriminação racial» tem direito ao monopólio das palavras.
Não basta considerarmos que a retórica começa onde a
experiência se detém; é preciso ainda acrescentar que ou ela
glosa o imobilismo da prática, enfeitando-a e glorificando-a como o
melhor dos mundos possíveis, ou ela afronta essa prática buscando
nela outras potencialidades aprisionadas. É neste segundo sentido, e
não no da retórica de justificação, que temos de situar Daniel
Filipe. Toda a sua poesia é um tenteio para recuperar o sentido das
palavras inúteis, pervertidas por uma experiência que as nega. Mas
recuperar não através de um regresso — este, quando muito, serve-lhe de mediação —, mas procurando com elas criar o novo, o que
ainda não foi experimentado mas apenas pressentido em
esperança e frustração. Por isso ela nos fala em inventar o amor:
só através da criação de novos nexos entre as palavras, só atirandoas contra outros nexos já constituídos, confrontando-os, buscando
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O ponto de partida é um fait divers:
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
[ fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo
contrastes, ela pode significar o amor. Não em plenitude,
evidentemente, porque lhe falta a prática, a realização vivida; mas
significando-o apenas é pô-lo já em luta — e esta luta é o campo
de todo o poema.
Se analisarmos a estrutura de A Invenção do Amor, depara-senos em toda a extensão o combate, não apenas no plano da
intenção, dos conteúdos significativos, mas sobretudo nas
construções verbais, no domínio do significante. Enquanto, por
exemplo, toda a linguagem da cidade é rigorosa, imperativa,
comandando os conteúdos das palavras, imprimindo-lhes um sentido
obrigatório que restringe a ambiguidade — sem que ela deixe de
existir — , já o mesmo não sucede com a outra linguagem que a
afronta: palavras como «e a memória da infância nos jardins
escondidos / acorde a tolerância no coração das pessoas»,
«respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz / Lhe
lembravam a infância Campos verdes floridos / Água simples
correndo A brisa nas montanhas», «um misterioso halo de uma
felicidade incorrupta», «um pássaro desconhecido e admirável»
(repare-se na fraqueza deste admirável), «que o homem e a mulher
tinham estrelas na fronte / e caminhavam envoltos numa cortina de
música», etc., palavras como estas, marcadas de fragilidade e
incerteza, revelam o esforço com que o poeta procura exprimir algo
que é apenas um projecto de vida, ainda sem uma linguagem ao
seu serviço.
Já Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são
ridículas, mas que só são ridículos os que não escrevem cartas
de amor. É um pouco através deste paradoxo formal que a
poesia de Daniel Filipe se afirma crítica, embora ampliando em
substância a dimensão do amor à esfera de toda a
solidariedade humana. É pela sua negação, pela sua impropriedade verbal, pelo contraste com o mundo em que se
intromete, que a nova linguagem mina a certeza da outra,
forçando até ao seu último limite o categórico da linguagem
rigidamente submetida ao quotidiano, até que esta se comece a
desconjuntar, a tornar-se por sua vez desconexa e a perder
terreno neste embate entre o real e o possível — é o ridículo
(um ridículo que se distende até ao trágico) dos que não
escrevem cartas de amor oposto ao ridículo daqueles que as
escrevem. Para estes últimos o poeta reserva os dois versos de Paul
Éluard que fecham A Invenção do Amor: «au bout du chagrin une
fenêtre ouverte / une fenêtre éclairée.
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Francisco Espadinha
Dos pinheirais do mar, com
canções de Mouloudji, nós também
inventamos o amor
Por isso, este livro é para ti.
A Invenção do Amor
La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
PAUL ÉLUARD
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos
autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de
rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
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Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada
para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa
passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
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É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
inexplicàvelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
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Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de
discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor
do castigo
Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa
Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas
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Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher
amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de
lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa nas montanhas
Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca aí Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada
acontece
A identificação é fácil Onde estiverem estará também pousado
sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem à
queima roupa
Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher
Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o
pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para
nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte o tiro
indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
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Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheias Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa crescido a vosso
lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchettes cor de sangue no rosto dos jornais
É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE
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Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de
automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio
Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA
Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência
Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga
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Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado
É na cidade que é preciso procurá-los
incansàvelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito
especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública
Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA
Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal
fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
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Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção científica
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica
Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço
Esperam por ela em casa duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de
chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade
Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando as esquinas
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Outros Poemas
Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)
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Canto e Lamentação na Cidade Ocupada
1.
Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote
Qué vida la que vivimos
en estos años de muerte!
NICOLÁS GUILLÉN
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Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
2.
Com ternura crescente, insone, canto.
Com simples flores de angústias,
canto.
Em termos de revolta, crise, sonho,
ergo, à mesa do café vazio e enorme,
meu sonho de viagem sem regresso.
Para enganar a solidão, o medo,
digo palavras, música, esperança.
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Canto porque estou vivo e amarrado
à condição de ser fiel e agreste.
Porque em vão nos destroem a memória
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
com máquinas, rodísios, honorários.
Porque o sol torna fulvo o teu cabelo
e apetecem meus lábios os teus seios.
Canto para espantar o espectro indefinido
da besta apocalíptica, medonha.
Canto e louvo o teu sonho, amigo anónimo,
suando e trabalhando, algures oculto.
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Canto a tua coragem, general,
confinado na prática e fora dela.
Canto como quem morde, ofende, esmaga
e, exausto, resiste e sobrevive.
3.
Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia
Canto para saber que vale a pena
ter voz, músculos, nervos, coração.
A mesa do café, nas ruas, canto.
Nos jardins, nos estádios, sofro e canto.
No quarto abandonado, sonho e canto.
Nos pequenos cinemas, rio e canto.
Entre teus braços doces, choro e canto.
Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela
Descerro a aurora com palavras graves,
cantando. Reinvento a melodia,
o sol aberto, o amor pelas esquinas,
a marca sensual nos ombros nus,
a memória da infância, a tua face
— e canto.
Inutilmente embora,
canto.
Não fora o cais a posse
do nocturno segredo
a víbora o polícia
o tiro o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante
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Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo
4.
Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciar-
Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição
lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e
leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a
que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar
disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre
ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
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5.
Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.
É preciso cantar, é preciso sorrir,
Recolhemos o gesto, a flor primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros
encher a escuridão com árvores sem nome.
Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.
— e rígidos a planície inútil
com nervuras de sal no rosto imaginado.
A viagem sem história concede-nos a calma:
serenos existimos, ocultos, dominados.
Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).
No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.
Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro
— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.
E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma...
De mãos vazias vamos para o sono comum.
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34
6.
7.
Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
Aqui ainda podemos esquecer-nos
pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de bruma
pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna
lutaremos meu Amor
Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve o nosso
amor
pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
pelas manhãs de sol sem mácula de grades
lutaremos meu Amor
aqui ainda podemos fechar os olhos e sonhar
aqui ainda podemos ignorar voluntàriamente
o dragão pela noite
Aqui ainda podemos fingir de homens
aqui ainda podemos sorrir como se nada fosse
aqui ainda podemos jogar obcessivamente o xadrez
Aqui ainda podemos ter pequenas ambições
aqui ainda podemos ser pequenos em tudo
aqui ainda podemos cruzar inteligentemente os braços
Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
lutaremos meu Amor
Aqui ainda podemos estar mortos e ler o jornal todos os dias
aqui ainda podemos responder a anúncios
aqui ainda podemos ter um tio nas Américas
Pelos meninos tristes suburbanos
contra o peso da angústia contra o medo
contra a seta de fogo traiçoeira cravada
em nosso doce coração aberto
lutaremos meu Amor
Aqui ainda podemos ter um rádio portátil
aqui ainda podemos gostar de futebol
aqui ainda podemos ter uma amante oculta
Na aparência sòzinhos multidão na verdade
lutaremos meu Amor
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Aqui ainda podemos ir cedo para casa
aqui ainda podemos estar no café com os amigos
aqui ainda podemos ter um jeito marítimo
8.
O que menos importa é o fato surrado
afinal cada qual tem o seu próprio fado
Aqui ainda podemos
em silêncio esperar
Comer uma só vez por dia não tem importância
é até um bom preceito de elegância
Recear a prisão a pancada as torturas
Ora quem os manda meter-se em aventuras
Não chegar o dinheiro para pagar o aluguer
nem para ir ao cinema nem para ter mulher
Disparates Doutra forma o poder cai na rua
lembrem-se senhores a revolução continua
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9.
10.
Mas há a noite. O estar sozinho
Entanto, enquanto dói, ouçamos folhetins (de rádio ou doutros):
e no entanto acompanhado — servo de um deus estranho
cumprindo o ritual jamais completo.
(cavalgam pelo écran fotogénicos potros
e a rapariga, beija o seu cow-boy).
Mas há o sono. A lúcida surpresa
de um mundo imaterial e necessário,
com praias onde o corpo se desprende.
A solidão é chaga que rói, rói?
Não pode a vida suportar o mito?
(Devora as unhas o espectador aflito,
não vá morrer de tiro ou tédio o herói).
Mas há o medo. Há sobretudo o medo.
Fel, rancor, desconhecido apelo,
suor nocturno, rápido suicídio.
E há quem diga que o diabo foi
o responsável desta história toda.
(Nem fomos convidados para a boda
— leia-se FIM — da moça e do cow-boy).
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40
11.
E de novo este pão não amassado a lágrimas
mas salgado de pranto mas comido com raiva
com desespero angústia tempero obrigatório
amargo condimento fel e raiz da esperança
E de novo a cidade
ó ritmo esquecido
de estranhas convulsões cheiro de pecado visco
mãos esguias pedimos uma esmola negada
suave deslizar de carros inconcretos
E de novo a terrível sedução da manhã
o jeito de navalha no riso do playboy
a náusea pressentida o tem-de-ser-agora
meu amor meu amor ver-nos-emos depois
E de novo a pastora na gravura da sala
o grito da ambulância o conto do vigário
o som de água corrente o choro de criança
tuas mãos distraídas preparando o almoço
E de novo a usura a promessa de emprego
a carta que não chega o anúncio interdito
o rosto seco e ardente frias salas de espera
vá passando por cá talvez tenha mais sorte
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Balada para a Trégua Possível
1.
Esta é a trégua possível, merecida,
gerada no teu ventre de mulher.
Beijo, adiado, a tua face, a vida!
E deixo, livre, o coração bater.
Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espectáculo do mundo.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
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2.
3.
Em teu macio olhar repousa o meu.
Uma cigarra (obrigatório tropo!)
E na face polida assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.
Canta, em teus seios pousada.
Uma réstea de vida. Um quase nada.
Musical e alada
Discípula de Esopo.
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4.
5.
Um amor como este
Que sinal tua mão
não pede mar ou praia:
sòmente o vento leste
erguendo a tua saia.
ergueu, fácil, no escuro?
Que pressago ou impuro
simbolismo pagão
O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.
Que mistério odiado
no teu corpo imaturo!
Nem pressago ou impuro
rósea chaga do lado.
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6.
7.
Andorinha secreta de um verão,
E, de novo, nos damos, nos propomos
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?
como pássaros livres e seguros
de pertencer-lhes o sabor dos pomos.
De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?
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8.
9.
Em tuas mãos obreiras nascem flores.
Como açucena, abre-se o teu rosto
Em teu sexo germinam alvoradas.
manhãs de outono sem clarões de espadas
riso, perfumes, cores.
por sobre a doce, tímida paisagem:
serena imagem
na manhã de Agosto.
Como magnólia, vertes o perfume
Das tuas ancas sobre o pinheiral:
ávido lume.
casto e sensual.
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Como pinho selvagem, te recebo
e amo no chão de areia ensolarado:
ingénuo efebo
deslumbrado.
10.
Tão próxima a colheita!
Tão amável o dia!
(Um gnomo verde espreita
tua figura esguia).
Tão claro e manso o rio!
Tão distante o horizonte!
(Um véu de névoa e frio
veste de espanto o monte).
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Tão próxima a partida!
Tão cedo para a morte!
(A secreta ferida
da vária, esquiva sorte).
No seio do fruto estás,
sorridente e igual.
Quase humano e animal
ansioso de paz.
Tão para pouco o amor!
Tão solitário o medo!
(Entre o mar e a flor,
desvendo o teu segredo).
Igual e sorridente,
permaneces ainda
no seio da trégua finda.
E tudo é diferente.
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TÁBUA
Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,
espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.
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Nota sobre a Invenção do Amor ...................................................... 1
A Invenção do Amor ....................................................................... 8
Canto e Lamentação na Cidade Ocupada ...................................... 25
Balada para a Trégua Possível ....................................................... 43
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A Invenção do Amor e outros poemas