2. A lei de Gauss 2.1 Introdução A lei de Coulomb afirma que o campo elétrico gerado por uma carga puntiforme na posição r1 é q r − r1 E (r ) = (2.1.1) 4πε 0 r − r1 3 Esta lei vale apenas para cargas estáticas. Uma vez que permitirmos que as cargas se movam temos que fazer alterações nesta lei. Pode-se desmembrar a lei de Coulomb em duas leis. Uma é a lei de Gauss e a outra afirma que o campo elétrico pode ser escrito como gradiente de uma função escalar. Esta segunda lei sofrerá alterações quando as cargas terão movimento. Mas, a lei de Gauss já constitui uma das verdades que ficarão válidas até o fim deste curso e provavelmente até o fim do universo. Além de ser uma lei fundamental a lei de Gauss tem um valor prático inestimável. Ela ajuda tremendamente na solução de problemas práticos, especialmente quando estes problemas possuem simetria. Na última aula tivemos a oportunidade de ver que o cálculo do campo de uma dada distribuição de carga pode ser uma tarefa árdua. Muitas vezes pode-se substituir uma integração desagradável por um lindo argumento de simetria que junto com a lei de Gauss fornece o campo elétrico. A formulação da lei de Gauss usa noções matemáticas do curso de cálculo vetorial. É de grande ajuda entender estes conceitos intuitivamente. A melhor forma de visualizar estas ferramentas matemáticas é com fluxos ou escoamentos de alguma substância. Por esta razão gastaremos um tempo de discutir escoamentos. Esta discussão terá futuramente também aplicações diretas quando tratarmos de correntes elétricas. 2.2 Densidade de Corrente, integrais de fluxo e o teorema de Gauss A densidade de corrente é uma ferramenta para descrever o escoamento de massa, de energia térmica, carga elétrica e outras grandezas extensivas. Utilizaremos o exemplo do escoamento de massa para introduzir esta noção de forma intuitiva. Podemos, por exemplo, imaginar água fluindo numa cachoeira. Queremos uma grandeza adequada para descrever quanta água flui e para onde ela flui. Imagine um instrumento de medida que tenha a forma de um anel preso na ponta de uma vara de tal forma que o anel possa ser facilmente introduzido no fluxo da água. A figura 2.1 mostra este medidor inserido no fluxo de uma suposta cachoeira. Vamos imaginar que este anel esteja equipado na sua face interior com sensores que permitam avaliar quanta massa de água passa pelo anel por segundo. No momento não importa como estes sensores poderiam funcionar. Chamaremos a grandeza medida por este instrumento de corrente (ou também de fluxo) e vamos escrevê-la com o símbolo I , o mesmo símbolo frequentemente usado para corrente elétrica. Mais precisamente, deveríamos falar de corrente de massa e correspondentemente escrever I m . Os valores desta grandeza podem ser escritos como múltiplos da unidade kg/s. Analogamente podemos definir corrente de calor I Q (com Fig. 2.1 Medidor de corrente inserido numa cachoeira. 1 unidade J/s=W) ou corrente de carga elétrica I El (com unidade C/s=A). Há um detalhe importante que precisa ser mencionado: os sensores devem ser capazes de sensores distinguir em qual sentido a água passa. Então o medidor é assimétrico. A figura 2.2 indica esta assimetria. Simbolicamente vara seta indicadora desenhamos os sensores de forma assimétrica. No lado de fora do anel existe uma seta que indica para o usuário do instrumento com qual orientação ele inseriu o anel contribuição negativa na cachoeira. Água que passa na direção da seta indicadora é Fig. 2.2 Assimetria do medidor de corrente contabilizada pelos sensores como contribuição positiva, enquanto água que atravessa o anel no sentido contrário seria contada como uma contribuição negativa. Correspondentemente podemos ter correntes de massa positivas e negativas mesmo que a massa não possa ser negativa. contribuição positiva A noção de corrente é útil e importante, mas ela tem um defeito. Queremos descrever como a água da cachoeira flui. Mas a corrente não depende somente da cachoeira, mas também do medidor. Se usássemos um medidor com o dobro da área do anel mediríamos valores de corrente duas vezes maiores. Então a grandeza corrente possui uma natureza dupla: ela contém um aspecto objetivo que depende somente da cachoeira e um aspecto subjetivo correspondente à nossa escolha de medidor. Gostaríamos de definir uma grandeza puramente objetiva que descreve como a água escoa. Se usarmos a noção de corrente como ponto de partida, devemos abstrair os aspectos subjetivos desta noção. Conhecemos este tipo de processo de abstração com a noção de densidade de massa. Tudo mundo conhece a pegadinha que se costuma aplicar em crianças: “o que é mais pesado: um kg de chumbo ou um kg de algodão?” O que leva a criança a uma resposta errada é a falta de diferenciação entre densidade e massa. A densidade é uma noção associada aos materiais enquanto a massa é associada aos corpos. Para poder passar da noção de massa para a noção de densidade temos que abstrair o aspecto do tamanho do corpo. Isto é feito dividindo a massa do corpo pelo volume do mesmo. Fig. 2.3 O mesmo medidor pode indicar valores diferentes dependendo da orientação do medidor. Poderíamos tentar a mesma coisa com a grandeza corrente. Para livrar esta noção do aspecto subjetivo do tamanho a) b) do medidor poderíamos dividir a corrente pela área do medidor e com isto definir uma nova grandeza: densidade de corrente ou densidade de fluxo. Mas neste caso esta divisão não resolve todo o 2 problema. Como podemos ver na figura 2.3 o mesmo medidor (com a mesma área) pode ser inserido no mesmo local da cachoeira de formas diferentes que resultarão em medidas completamente diferentes. As duas maneiras de inserir o medidor mostradas na figura 3 diferem na orientação do medidor. Na orientação a) a água passa em grandes quantidades pelo anel medidor, enquanto na orientação b) a água passa pelos lados sem atravessar o medidor. Então na orientação b) a leitura no medidor seria praticamente zero. Temos que caracterizar os aspectos geométricos do medidor de forma completa para poder abstraí-los. O mero tamanho da área do medidor não é o suficiente. Uma forma muito adequada de caracterizar o medidor, tanto no que diz respeito ao tamanho como também da orientação, é com ajuda de um vetor superfície S . As três características, módulo, direção e sentido, deste vetor são definidas da seguinte forma: o módulo de S é a área do medidor. A direção de S é perpendicular ao anel e o sentido é o sentido da seta indicadora no medidor. Como a grandeza que caracteriza os aspectos geométricos do medidor é um vetor, não podemos aplicar o processo de divisão, pois a divisão de um escalar por um vetor não existe. Para ver como a abstração pode ser feita neste caso, vamos voltar mais uma vez para a noção de densidade de S massa e vamos analisar a divisão de um ponto de vista um pouco diferente: ao final, a divisão é nada mais do que o inverso da multiplicação. Correspondentemente podemos vara encarar a densidade de massa também seta indicadora de outra forma: um valor de densidade de massa ρ é um mapeamento linear que permite determinar o valor da massa a partir de um valor de volume. Fig. 2.4 Definição do vetor superfície que caracteriza o detector. m = ρV (2.2.1) = ρ [V ] Na segunda linha desta fórmula escrevemos a massa não como um produto ρV mas como valor ρ [V ] de uma função ρ , para enfatizar que o valor de densidade ρ pode ser considerado um mapeamento. Desta forma podemos abstrair os aspectos geométricos do medidor da grandeza corrente: O valor da densidade de corrente é o mapeamento linear que permite calcular o valor da corrente para cada vetor de superfície S do medidor. Ou escrito como fórmula: I = densidade de corrente S (2.2.2) 3 No caso da densidade de massa a aplicação do mapeamento ρ [ i] pode ser escrito como um produto. Para mapeamentos lineares de vetores isto também é possível. Nos espaços vetoriais associados ao nosso espaço Euclidiano podemos escrever os mapeamentos lineares que mapeiam vetores em escalares com ajuda do produto escalar. Desta forma podemos escrever a equação (2.2.2) com ajuda de um vetor j : I = j ⋅S (2.2.3) O ponto “ ⋅ ” entre j e S indica o produto escalar. O vetor j é o valor da nova grandeza que queríamos definir, o valor da densidade de corrente. Na equação (2.2.3) não escrevemos o índice “m” de massa, porque esta equação define agora a noção de densidade de corrente de forma geral. Esta definição vale para qualquer tipo de corrente, seja de massa, corrente elétrica, corrente térmica ou qualquer outra corrente. Há uma diferença importante entre densidade de massa e densidade de corrente. Na equação (2.2.1) basta conhecer a massa para um único valor não nulo de volume para determinar a densidade de forma única1. Esta unicidade permite escrever a densidade de massa como um quociente m / V . Na equação (2.2.3) não basta conhecer a corrente para um único vetor superfície arbitrário e não nulo para determinar o vetor j de forma única. Por isso j não pode ser escrito como quociente. Agora veremos como o vetor j pode ser determinado experimentalmente. Isto tornará este conceito novo um pouco menos misterioso. O produto escalar na equação (2.2.3) pode ser escrito em termos dos módulos dos vetores e do ângulo ∢ j , S entre j e S: I = j ⋅ S = j S cos ∢ j , S (2.2.4) O módulo de S é a área A do medidor, e esta área conhecemos para um dado medidor. Por exemplo, se o medidor tiver a forma de um anel circular de raio interno r teríamos S = A = πr 2 . Podemos determinar o vetor j com a ajuda da equação (2.2.4) ( ) ( ( )) da seguinte forma: Inserimos o medidor no ponto espacial onde queremos determinar j (para o nosso exemplo intuitivo, num determinado ponto da cachoeira) e medimos a corrente I para diversas orientações do medidor. Para todas estas medidas o produto j S terá sempre o mesmo valor, pois a única característica que estamos variando é a orientação do medidor. Então somente o termo cos ∢ j , S sofrerá alterações pelas ( ( )) mudanças de orientação. Podemos procurar aquela orientação que resulta no maior valor de I. Esta orientação é aquela com cos ∢ j , S = 1 , pois este é o maior valor que o ( ( )) co-seno pode atingir (compare com a figura 2.5). Para este valor máximo de corrente vale I MAX = A j . Então temos a receita para determinar o módulo do vetor j : I MAX j = A 1 (2.2.5) Embora para diminuir erros experimentais na prática mediríamos várias massas para vários volumes. 4 cos(α) Para o módulo da densidade de corrente o processo de abstração da geometria do medidor resulta então realmente numa divisão. Mas para podermos dividir, tivemos que procurar primeiramente uma orientação especial do medidor. Esta orientação 1,0 especial, que maximiza a corrente, fornece também a direção e o sentido do vetor j: 0,5 nesta orientação especial o vetor S aponta 0,0 na mesma direção do vetor j e os dois -0,5 vetores têm o mesmo sentido. -1,0 -π -π/2 0 α π/2 π Fig. 2.5 A função co-seno No caso do escoamento de água poderíamos ter pensado ainda numa outra grandeza para descrever o escoamento: simplesmente a velocidade da água. Note no entanto que velocidade não seria grandeza adequada para descrever o fluxo de energia térmica. Mesmo com o transporte de massa podemos ter problemas com a grandeza velocidade quando processos de difusão se sobrepõem ao movimento macroscópico. No caso do exemplo da cachoeira a velocidade seria uma boa ferramenta para descrever o escoamento. Vamos ver como se relacionam velocidade e densidade de fluxo neste caso. Vamos imaginar um fluido uniforme de densidade de massa ρ que se desloca com uma velocidade v . Inserido neste fluido esteja um medidor de corrente de massa. A figura 2.6 mostra esta situação. O desenho é feito com uma projeção ortogonal. O plano da figura é escolhido perpendicular ao plano do anel do medidor de tal forma que o anel aparece somente como uma linha. Calcularemos a massa do fluido que atravessará o anel do medidor num dado intervalo de tempo [t1 , t2 ] . Este cálculo é simples: S a (t2 - t1)v h basta determinar em que região ficam anel do medidor b aquelas partículas de água no instante t1 c d que conseguem atravessar o anel do medidor durante o v intervalo de tempo [t1 , t2 ] . Fig.2.6 . Determinação da região ocupada no instante t1 pelas partículas de fluido que conseguem atravessar o medidor durante o intervalo [ t1 , t 2 ] Esta região é obtida arrastando a superfície do detector para trás pelo negativo do vetor deslocamento ( t2 − t1 ) v . Na figura esta região é marcada de cinza. Por exemplo, o 5 ponto a indicado na figura atravessa o detector no intervalo [t1 , t2 ] pois o vetor deslocamento com base no ponto a intercepta a linha do medidor. A partícula de fluido no ponto b iria apenas chegar no medidor no final do intervalo. A partícula que estava no ponto c atravessará o medidor, mas não dentro do intervalo [t1 , t2 ] e a partícula no ponto d nunca passará pelo medidor. A massa de fluido que atravessa o medidor durante o intervalo [t1 , t2 ] é o produto da densidade de massa do fluido com o volume da região marcada. Este volume é a área do medidor vezes a altura h indicada na figura. Temos então m = ρh S (2.2.6) Podemos escrever a altura h como o módulo do vetor deslocamento ( t2 − t1 ) v vezes o co-seno do ângulo ente v e S : h = ( t2 − t1 ) v cos ∢ v , S (2.2.7) ( ( )) Inserindo a (2.2.7) na (2.2.6), dividindo por t2 − t1 e utilizando a relação entre produto escalar, módulos e ângulos de vetores obtemos finalmente a corrente de massa: m Im = = ρ v S cos ( ∢ ( v , C ) ) = ρv ⋅ S (2.2.8) t2 − t1 Como este resultado vale para qualquer S podemos concluir, com a definição de densidade de corrente (2.2.3), que a densidade de corrente de massa é dada por j m = ρv (2.2.9) Podemos utilizar a mesma equação para a densidade de corrente elétrica. Basta substituir a densidade de massa ρ por uma densidade de carga elétrica. Mas no caso elétrico é freqüente termos várias espécies eletricamente carregadas na mesma região espacial. Esta situação é típica em eletrólitos e plasmas. Por exemplo, no ácido clorídrico (HCl em H2O) teríamos íons negativos Cl- e íons positivos OH3+. Quando é aplicado um campo elétrico estes íons migram. Os íons positivos migram no sentido do campo e os negativos no sentido contrário. Podemos ter também mais do que duas espécies, por exemplo em soluções de vários sais minerais. Cada espécie e tem sua densidade de carga elétrica ρe e sua velocidade de migração ve . Neste caso a densidade de corrente elétrica seria uma soma sobre todas as espécies: jEl = ∑ ρe ve (2.2.10) e Definimos a densidade de corrente, vimos como ela pode ser determinada com medidas de correntes e vimos expressões que relacionam densidades de correntes com velocidades e densidades. Com isto temos quase um quadro completo deste tipo de grandeza. Falta apenas uma pequena correção na nossa definição. A correção é pequena mas essencial. Definimos o valor de uma densidade de corrente como mapeamento linear que relaciona o vetor de superfície S com o valor da corrente. Falamos que a duplicação da área do medidor duplicaria o valor da corrente. Mas será que esta linearidade existe mesmo? Imagine que inserimos uma série de medidores na nossa 6 cachoeira, como indicado na figura 2.7, todos na mesma orientação e no mesmo ponto de medida mas com diversos valores diferentes de área. Quando a área do medidor atinge valores tão grandes que o diâmetro do medidor ultrapassa a largura da própria cachoeira a proporcionalidade de área e corrente certamente deixa de valer, pois neste caso o aumento do tamanho do medidor somente acrescentará área vazia sem fluxo de água. Fig. 2.7 Uma série de medidores inseridos na cachoeira mostram que a corrente não depende linearmente do vetor superfície. Para grandes áreas do detector aparecem desvios da linearidade. I 0 0 A A definição de densidade de corrente dada pela equação (2.2.3) tem que ser interpretada como um caso limite para pequenos medidores: detectores. A densidade de corrente num ponto P é o vetor j tal que para qualquer vetor Formalmente dever-se-ia escrever esta definição da seguinte maneira: superfície S vale I εS − j ⋅ εS lim =0 (2.2.11) ε→ 0 ε onde I εS é a corrente medida com um medidor no ponto P com vetor superfície εS . ( ) Repare que desta forma a densidade de corrente é um conceito local. Isto é, para cada ponto no espaço o vetor j pode ser outro. Geralmente as grandezas físicas têm um comportamento amigável e a função espacial j é suave de tal forma que dentro de pequenas regiões o vetor j fica aproximadamente constante. Se limitarmos o tamanho do medidor de corrente tal que o medidor cabe inteiramente numa destas regiões de uniformidade podemos voltar para a nossa antiga definição (2.2.3). O conhecimento da função espacial j permite calcular a corrente através de superfícies grandes. Imagine uma superfície. Com superfície queremos dizer um conjunto bidimensional imaginado de pontos no nosso espaço físico tridimensional. Não queremos falar de uma superfície física de um corpo, pois se botássemos um corpo material dentro do fluxo íamos perturbar o próprio fluxo. A corrente que atravessa esta superfície imaginada pode ser calculada a partir do campo j . Para tal fim dividimos a superfície em um grande número de pequenas superfícies como é mostrado na figura 2.8. 7 Fig. 2.8 j(rk) Divisão de uma superfície em pequenas superfícies para fins de cálculo da corrente a partir da densidade de corrente. Sk Se a divisão for suficientemente fina cada pedacinho de superfície é tão pequeno que dentro o dela a função j é razoavelmente uniforme e a fórmula simples (2.2.3) pode ser aplicada para cada pedaço. A corrente total através da superfície grande é obtida somando as correntes através de todos os pedacinhos: (2.2.12) I total ≈ ∑ j ( rk ) ⋅ S k rk k Nesta equação descrevemos o lugar do k-esimo pedacinho com ajuda de um vetor posição rk que aponta para o centro do pedacinho. A função j deve ser avaliada nestes pontos. Como os pedacinhos não são infinitamente pequenos, a fórmula (2.2.12) fornece somente uma aproximação. Mas, podemos tomar o limite tomando pedacinhos de tamanho cada vez menor e de maior número e no limite obtemos o valor exato da corrente. Este limite é a integral de superfície da função j sobre a superfície: (2.2.13) I total = ∫∫ j ( r ) ⋅ dS = lim ∑ j ( rk ) ⋅ Sk def . z θ r δθ δS r (sen θ) δϕ r y ϕ x max S k →0 k Veremos um exemplo de como montar uma integral de superfície. Vamos considerar um pedaço de uma esfera de raio r . Pode ser a esfera inteira, uma semi-esfera ou qualquer fração de uma esfera. Para a integração sobre uma superfície esférica é conveniente usar coordenadas esféricas. A figura 2.9 mostra a descrição de um ponto com coordenadas esféricas. Junto ao ponto desenhamos uma pequena superfície gerada pela variação das coordenadas angulares. Fig. 2.9 Construção do vetor superfície de um pedacinho de superfície esférica gerado pela variação das coordenadas angulares. 8 Se as variações forem muito pequenas este pedacinho de superfície fica aproximadamente com formato de retângulo. Para avaliar os comprimentos dos lados deste retângulo convém lembrar das diversas formas de medir ângulos. Imagine duas retas que se cruzam formando 4 ângulos como na figura 2.10a). Para medir um destes ângulos pode-se fazer uma comparação com algum padrão de ângulo que seria uma unidade da grandeza ângulo. O grau é uma unidade de ângulo muito usado. Fig. 2.10 Medidas de ângulo. α α=6 A figura 2.10b) mostra esta comparação com a unidade grau. Existe uma outra forma de medir ângulos: a) b) podemos usar o comprimento de arco do segmento do circulo que cabe entre as duas retas. s Mas este comprimento r sozinho não permite uma α = s/r medida satisfatória, pois o c) comprimento do arco dependerá do raio do círculo que usamos. Temos que nos tornar independentes desta escolha. Já somos especialistas nesta tarefa de nos tornar independentes de escolhas. Lembrem somente da noção de densidade de massa onde nos tornamos independentes do tamanho de um objeto ou da densidade de corrente onde eliminamos a dependência da escolha do medidor de fluxos. No caso do ângulo temos que dividir pelo raio do círculo. A figura 2.10c) ilustra esta forma de medir ângulos. Costuma-se escrever o valor do ângulo neste caso com uma especificação de “unidade” radiano. Isto é bobagem e deve ser banido na literatura! s/r é um quociente de dois comprimentos e portanto um número puro. Um “rad” depois de um valor de ângulo pode na melhor das hipóteses ser interpretado como um comentário que indica que aqui se usou a maneira da figura 2.20c) para especificar um valor de ângulo. Com a medida de ângulos em radianos podemos escrever os lados do retângulo gerado pela variação dos ânulos θ e ϕ de maneira simples. Basta notar que uma variação do ângulo θ gera um círculo de raio r e a variação do ângulo ϕ gera um círculo de raio ο r sen θ . Correspondentemente os lados deste retângulo são: r δθ e r ( sen θ ) δϕ , e a área deste pedacinho, que é o módulo do vetor superfície, vale A = δS = r 2 ( sen θ ) δθ δϕ . O vetor normal do pedacinho de superfície é o vetor unitário na direção do próprio vetor posição do ponto escolhido. O vetor superfície do pedacinho é então δS = rˆ r 2 ( sen θ ) δθδϕ . A integral de superfície de um campo vetorial j toma a forma de uma integral dupla nas variáveis θ e ϕ : 2 j ⋅ dS = r ∫∫ ∫∫ j ⋅ rˆ senθ d θ d ϕ (2.2.14) Os limites de integração dependem naturalmente do exato formato da superfície. Se for, por exemplo, a esfera inteira θ percorreria o intervalo de 0 até π e ϕ de 0 até 2π . Para o hemisfério “norte” ( z ≥ 0 ) seria θ de 0 até π / 2 e ϕ de 0 até 2π . 9 Um tipo de fluxo será particularmente importante: a saber, o fluxo que sai de volumes. Seja V um volume. Usando a notação dos matemáticos vamos denotar a superfície do volume com o símbolo ∂V (não é derivada – significa simplesmente superfície de V). Chamaremos superfícies que são superfícies de volumes de superfícies fechadas ou superfícies Gaussianas e as integras de superfície deste tipo são escritas com uma bola para indicar que se trata de uma superfície fechada. Os físicos costumam orientar os vetores superfície de pequenas partes da superfície sempre para fora do volume. Com esta orientação uma integral (2.2.15) ∫∫ j ⋅ dS ∂V tem o significado de uma taxa líquida de saída de substância do volume V. Taxa líquida significa tudo que sai menos aquilo que entra. Um dos propósitos desta aula é de deixar os conceitos de cálculo vetorial que foram apresentados para vocês no curso de cálculo intuitivamente claros. A compreensão intuitiva destes conceitos é fundamental para enxergar a simplicidade e beleza das leis do eletromagnetismo e isto ajuda tremendamente no uso das fórmulas para resolver problemas práticos. Vamos ajudar à intuição com aquilo que o Brasileiro adora de fazer: tomar banho. Imagine você está debaixo do seu chuveiro. Enquanto você toma seu banho você imagina uma superfície fechada em volta de você. Claro, é apenas uma superfície imaginada, uma superfície de integração, se fosse uma superfície materializada (um saco plástico) o seu banho seria prejudicado! Fig. 2.11 O banho matemático. Agora você calcula rapidamente a integral (2.2.15) de fluxo de água nesta superfície. Calcular integrais de superfície embaixo do chuveiro pode não ser a atividade mais relaxante, mas neste caso a integral é simples. Se você pensa um pouco vai perceber que a integral é simplesmente zero, pois todo que entra no volume acaba saindo como está indicado na figura 2.11 simbolicamente com as setas. Imagine agora que este sujeito embaixo do chuveiro abre a boca e bebe água. O que acontece agora com a integral? A integral mede a taxa líquida de saída. Com o banhista tomando água, tem mais água entrando do que saindo. Conseqüentemente a integral se tornará negativa. Deixamos a interpretação de um valor positivo desta integral por conta da sua imaginação...... . normalmente ∫∫ j ⋅ dS = 0 ∂V ∫∫ j ⋅ dS < 0 ∂V ∫∫ j ⋅ dS > 0 banhista bebe água (2.2.16) banhista ............. ∂V Esta história sugere uma bela interpretação da integral (2.2.15) ; esta integral mede a quantidade de fonte dentro do volume V. O banhista bebendo água seria uma fonte negativa. Fontes negativas são também chamadas de sumidouros: ∫∫ j ⋅ dS = quantidade total de fonte do campo j no volume V (2.2.17) ∂V 10 Esta é uma nova grandeza que é associada com um campo vetorial j e com um volume V. Veremos quais são as propriedades desta grandeza. Vamos tornar o banho mais interessante botando um segundo banhista embaixo do chuveiro: Fig. 2.12 A quantidade de fonte é aditiva. δS2 δS1 V1 V2 V Obviamente a quantidade de fonte do volume total V = V1 ∪ V2 é a soma das quantidades de fonte de cada volume parcial mostrado na figura 2.12: para V = V1 ∪ V2 com V1 ∩ V2 = ∅ vale ∫∫ j ⋅ dS = ∫∫ j ⋅ dS + ∫∫ j ⋅ dS ∂V ∂V1 ∂V2 (2.2.18) Este fato parece óbvio, mas precisa de uma confirmação matemática. Uma possível j ⋅ dS e da soma diferença entre j ⋅ dS + ∫∫ ∫∫ ∫∫ j ⋅ dS poderia vir da superfície ∂V ∂V1 ∂V2 intera que separa os volumes V1 e V2 . Esta superfície não aparece na integral ∫∫ j ⋅ dS , mas ela aparece nos integrais ∫∫ j ⋅ dS e ∫∫ j ⋅ dS . Mas, na hora de somar ∂V ∂V1 ∂V2 estas duas últimas integrais as contribuições da superfície separadora cancelam. Isto ocorre porque cada vetor superfície δS de pequenos pedaços de superfície aparece duas vezes e com orientações opostas como indicado na figura 2.12. Ou seja, o que um dos volumes ganha através da superfície separadora o outro necessariamente perde e na soma dos dois a contribuição da superfície interna cancela. O resultado (2.2.18) significa que a grandeza quantidade de fonte é aditiva que nem a massa. Repare que massa tem exatamente o mesmo comportamento: a massa contida num volume V = V1 ∪ V2 com V1 ∩ V2 = ∅ é a soma das massas contidas nos volumes V1 e V2 . Esta propriedade de ser aditiva justifica a introdução de uma densidade para a grandeza quantidade de fonte exatamente na mesma forma como se define isto para a massa. A densidade de massa num ponto é definida como limite de quocientes massa por volume: ρm ( r ) = def . lim V →0 massa contida em V V (2.2.19) onde todos os volumes V da seqüência de volumes V usada neste limite contém o ponto r como indicado na figura 2.13. 11 Fig. 2.13 Definição de densidade local com uma seqüência de volumes. O limite é necessário quando as condições físicas não forem uniformes. Neste caso a densidade é uma grandeza local que pode variar de ponto a ponto. r A densidade de massa é um quociente de massa por volume. Inversamente recuperamos a massa multiplicando densidade por volume. Mas, quando as condições físicas não forem uniformes esta multiplicação deve ser uma multiplicação especial ou detalhada. Esta multiplicação especial é a integral. Obtemos a massa total num volume grande integrando a densidade: massa no volume V = ∫∫∫ ρm ( r ) d 3 r (2.2.20) V Nesta integral escrevemos o elemento de volume na forma d 3 r . Esta notação é usada em alguns livros de física teórica. O significado é o mesmo de um dV ou um dx dy dz . A vantagem desta notação é que a variável de integração, ou seja, o ponto r onde se coleta o valor da função ρm , fica evidente. Podemos escrever equações análogas às equações (2.2.19) e (2.2.20) para a grandeza quantidade de fonte. A densidade da grandeza quantidade de fonte recebe um nome especial; ela é chamada de divergência do campo vetorial j : div j = def . 1 lim V →0 V j ⋅ dS ∫∫ ∂V (2.2.21) Inversamente obtemos a quantidade de fonte para um volume grande integrando a densidade sobre o volume ∫∫ j ⋅ dS = ∂V 3 div ∫∫∫ j d r (2.2.22) V Este resultado é interessante, ele estabelece uma igualdade de uma integral de volume com uma integral de superfície. Enquanto não temos uma maneira de calcular a divergência de forma simples este resultado não teria grande utilidade. Mas, num instante veremos que div j pode ser calculado facilmente. Seja o campo j dado. Queremos calcular aquela grandeza definida pela equação (2.2.21). Para facilitar as contas vamos escolher como volume um pequeno paralelepípedo alinhado com os eixos x, y e z como aqueles da figura 2.13. A figura 2.14 mostra um paralelepípedo com especificações das grandezas relevantes. 12 j <x,y,z+δz> A z j <x,y+δy,z> divergência. Os vetores da densidade de corrente nas faces A e B podem ser ligeiramente diferentes. <x+δx,y,z> <x,y,z> y B Fig. 2.14 Cálculo da x A integral de fluxo tem contribuições dos seis faces do paralelepípedo. Basta calcular as contribuições de duas faces opostas e o resto pode ser facilmente adivinhado. Vamos escolher as faces com os seguintes vértices: face A : x, y, z , x, y, z + δz , x, y + δy, z + δz , x, y + δy, z e face B: x + δx, y, z , x + δx, y, z + δz , x + δx, y + δy, z + δz , x + δx, y + δy, z Os vetores normais destas faces são −iˆ da face A e +iˆ . Desta maneira os produtos escalares dos vetores j nestas duas faces são as componentes x destes vetores: + jx na face B e − jx na face A. A contribuição das faces A e B para a integral de fluxo é então: contribuição das faces A e B para o fluxo = = z +δz y +δy ∫ ∫ jx ( x + δx, y′, z ′ ) dy′dz ′ − z ′= z y ′= y z +δz y +δy ∫ ∫ jx ( x, y′, z ′ ) dy′dz ′ (2.2.23) z ′= z y ′= y No fim do cálculo devemos dividir pelo volume δxδyδz e mandar os três deltas para zero. Neste limite todo na expressão (2.2.23) que é de ordem superior em δx , δy ou δz desaparece. Por esta razão podemos cometer erros de ordem superiores sem alterar o resultado final. Isto significa que podemos substituir as integrais por simples multiplicações: z +δz y +δy ∫ ∫ z ′= z y ′= y jx ( x + δx, y′, z ′ ) dy′dz ′ − z +δz y +δy ∫ ∫ jx ( x, y′, z ′ ) dy′dz ′ = z ′= z y ′= y δyδz jx ( x + δx, y, z ) − δyδz jx ( x, y, z ) + erro de ordem superior em δy e δz (2.2.24) Acrescentamos ainda somente outro erro de ordem superior em δx substituindo a diferença jx ( x + δx, y, z ) − jx ( x, y, z ) por uma derivada multiplicada por δx : 13 ∂jx + erro de ordem superior em δx ∂x (2.2.25) Juntando as equações (2.2.23), (2.2.24) e (2.2.25), dividindo pelo volume e tomando o limite δxδyδz → 0 obtemos a contribuição das faces A e B para a densidade de fonte: contribuição das faces A e B para div j = jx ( x + δx, y, z ) − jx ( x, y, z ) = δx = δxδyδz lim ∂jx ∂x + erro de ordem superior em δx, δy, δz δxδyδz δxδyδz → 0 (2.2.26) ∂jx ∂x Vendo este resultado é evidente quais são as contribuições das outras faces do paralelepípedo. Podemos escrever diretamente o resultado final: = div j = ∂jx ∂j y ∂jz + + ∂x ∂y ∂z (2.2.27) A junção do resultado (2.2.22) com uma representação explícita do div j em algum sistema de coordenadas, como a equação (2.2.27), constitui o teorema de Gauss. Na aula de hoje a nossa motivação de estudar integrais de superfície de campos vetoriais era o fluxo de alguma substância como a massa ou a carga elétrica. Mas, o teorema de Gauss vale independente desta interpretação e os conceitos de integral de superfície podem ser formulados também para campos vetoriais que não descrevem nenhum transporte de substância. Mas, como a interpretação com coisas fluindo é tão bonita e intuitiva costuma-se chamar o tipo de integral ∫∫ E ⋅ dS de integral de fluxo mesmo que o campo E não descreva nenhum escoamento. No eletromagnetismo usaremos integrais deste tipo para o campo elétrico e, mais tarde, também para o campo magnético B . Correspondentemente chamamos Φ E = ∫∫ E ⋅ dS de fluxo elétrico e Φ B = ∫∫ B ⋅ dS de fluxo magnético. Mas, atenção nestes casos não tem dada fluindo. Trata se apenas de uma analogia matemática. 14 2.3 A dedução da lei de Gauss A lei de Gauss descreve uma propriedade de integrais de fluxo do campo elétrico através de superfícies fechadas. Então o objeto de interesse do nosso estudo são grandezas do tipo ΦE = (2.3.1) ∫∫ E ⋅ dS ∂V Gastamos a aula passada inteira para perder o medo deste tipo de objeto. Se E fosse uma densidade de fluxo de um escoamento teríamos uma interpretação bem concreta. Infelizmente E não descreve nenhum escoamento e um ou outro de vocês pode reagir com um bloqueio de compreensão porque não consegue enxergar o que esta grandeza representa. Mas, o que importa é que ela é bem definida e pode ser calculada. Por exemplo, se o campo elétrico fosse N 5N 2 N E ( x, y, z ) = iˆ 5 x y + ˆj x + kˆ 3 (2.3.2) 2 2 Cm 2Cm C o fluxo de campo elétrico através da superfície B do paralelepípedo da figura 2.15 seria ˆ N 5N 2 N 4 m y + ˆj x + kˆ 3 ⋅ iˆ dy dz = i 5 2 2Cm C C mm z =1m y =1m 2m fluxo em B = 2m ∫ ∫ = 20 N 1 Nm 2 × ( 2m − 1m ) × ( 4m 2 − 1m 2 ) = 30 Cm 2 C (2.3.3) <x=4m,y=2m,z=2m> <x=4m,y=2m,z=1m> A B <x=1m,y=1m,z=1m> z y <x=4m,y=1m,z=1m> x Fig. 2.15 Exemplo de fluxo de campo elétrico. Igualmente podemos calcular os fluxos das outras faces para obter uma integral sobre a superfície fechada. O resultado é um valor bem definido que descreve alguma propriedade do campo. Se você leitor ainda não ficou contente com estas grandezas é bom se lembrar dos tempos da Física I. Lá você formou uma grandeza que era um aglomerado muito esquisito de grandezas: massa vezes o quadrado da velocidade, dividido por 2 e ainda por cima somamos um mgh. Não é assustadoramente estranho este aglomerado de grandezas? Mas, não importa. O interessante era que o valor de mv 2 / 2 + mgh não muda no tempo e este fato permitia calcular coisas com muita facilidade. Com as grandezas E ∫∫ ⋅ dS temos a mesma situação: não importa que elas ∂V sejam estranhas, se elas tiverem propriedades úteis justifica-se sua definição. Vamos 15 então averiguar quais propriedades tem o fluxo de campo elétrico através de superfícies fechadas. Começaremos com um caso muito simples. O campo elétrico seja o campo de uma única carga puntiforme. Usaremos como superfície de integração a superfície de um pedaço de cone muito fino que tem seu vértice exatamente no local da carga como mostra a figura 2.16. O pedaço de cone é limitado por dois discos circulares nos pontos a e b indicados na figura. Fig. 2.16 Superfície de integração formada por um pedaço de cone com vértice numa carga elétrica. O pedaço é limitado por dois discos circulares nos pontos a e b. Os vetores do campo elétrico desenhados correspondem a algum valor da carga q > 0. q 2α Obviamente as partes laterais do pedaço cônico não contribuem para a integral de fluxo, já que o a campo é tangencial a esta superfície. As únicas contribuições são das tampas circulares. Se o cone for b suficientemente fino, isto é com um ângulo de abertura pequeno, podemos substituir a integração sobre as áreas circulares por simples multiplicações. Se usarmos a posição da carga como origem de coordenadas, podemos escrever os vetores superfície dos dois discos com o vetor unitário que aponta na direção do vetor posição: S a = − rˆ Aa e Sb = + rˆ Ab , E a E b onde Aa e Ab são as respectivas áreas dos discos. A integral de fluxo através da superfície fechada da nossa escolha é qrˆ qrˆ ⋅ dS = − Aa rˆ ⋅ + Ab rˆ ⋅ E 2 2 ∫∫ 4πε 0 ra 4πε 0 rb ∂V (2.3.4) Os raios dos discos são proporcionais à distância da carga rdisco = r × tg α e consequentemente as áreas são proporcionais ao quadrado da distância: Aa = π ra2 ( tg α ) 2 e Ab = π rb2 ( tg α ) 2 (2.3.5) Inserindo este resultado na equação (2.3.4) percebemos que o fluxo que entra no volume no disco a é exatamente cancelado pelo fluxo que sai no disco b. Então a integral de fluxo através da superfície do pedaço de conte é simplesmente zero: para o pedaço de cone da figura 2.16 : (2.3.6) ∫∫ E ⋅ dS = 0 ∂V 16 Fig. 2.17 Superfície de integração formada por um pedaço de cone com vértice numa carga elétrica. O pedaço é limitado por dois discos inclinados em relação ao vetor r̂ . q 2α a Sa Ea Eb b Sb O que mudaria neste resultado se permitíssemos que o pedaço de cone não fosse circular? Obviamente não mudaria nada. A diminuição quadrática do módulo do campo seria outra vez compensada por um crescimento quadrático das áreas. E se permitíssemos tampas do pedaço inclinadas como na figura 2.16? Também não mudaria nada. A área da tampa cresce por um é o fator 1/ cos β onde β ângulo de inclinação da tampa e este fator seria exatamente compensado pelo fator cos β do produto escalar entre vetor superfície e campo elétrico que aponta na antiga direção normal. O próximo passo é permitir um volume qualquer que não contem a carga q. Com a propriedade aditiva dos integrais de fluxo podemos escrever a integral de fluxo através da superfície deste tipo de volume como uma soma de pedaços de cones como indicado na figura 2.18. Fig. 2.18 Decomposição de um volume que não contém q em pedaços de cones com vértices em q. q V Repare que este último resultado vale também para volumes com cavidades, inclusive no caso que a carga puntiforme esteja localizada na cavidade. A figura 2.19 ilustra esta situação 17 Vamos resumir o que descobrimos até agora: Para o campo elétrico gerado por uma carga puntiforme vale E ∫∫ ⋅ dS = 0 , (2.3.7) ∂V deste que a carga não esteja dentro do volume. Fig. 2.19 Volume V com cavidade. O fluxo através de ∂V do campo elétrico de uma carga puntiforme na cavidade é nulo. Repare que os vetores superfície na superfície interna do volume apontam para dentro da cavidade. Poderíamos ter chegado neste resultado mais rapidamente calculando a divergência do campo de uma carga puntiforme e aplicando o teorema de Gauss. Para todos os pontos do espaço fora do lugar da carga encontra-se com um cálculo simples que div E = 0 . Se o volume V não contém a carga, podemos supor div E = 0 em todos os pontos do volume . O teorema de Gauss afirma 3 E ⋅ dS = div E d r ∫∫ ∫∫∫ V q ∂V V Então segue o resultado (2.3.7). O aluno interessado pode fazer o cálculo da divergência, mas aqui preferimos deduzir o resultado (2.3.7) geometricamente com as figuras 2.15 – 2.18. Esta dedução permite visualizar melhor que a razão por trás do resultado (2.3.7) é a queda quadrática da intensidade do campo junto com o direcionamento radial dos vetores E . Agora vamos considerar um volume V que contém a carga. Neste caso o cálculo da divergência não ajuda, pois no próprio ponto da carga o campo não é definido e consequentemente não podemos calcular a divergência. Neste caso o método geométrico é o único caminho. Seja um volume V dado e a carga puntiforme esteja em algum lugar rq no interior do volume. Estar no interior do volume significa não apenas rq ∈ V , mas significa que existe uma bola Br inteira de algum raio r > 0 e centro no lugar da carga que fica dentro do volume V. A figura 2.20 mostra um exemplo. Fig. 2.20 Volume contendo uma carga puntiforme no seu interior. Uma bola de raio r > 0 pode ser escolhida em torno da carga que fica inteiramente dentro do volume. q r V Podemos escrever o volume V como junção da bola Br e um outro volume Vɶ = V \ B : r V = Vɶ ∪ Br (2.3.8) 18 Com a aditividade da grandeza quantidade de fonte, com (2.3.8) e com Vɶ ∩ Br = ∅ segue (2.3.9) ∫∫ E ⋅ dS = ∫∫ E ⋅ dS + ∫∫ E ⋅ dS ∂V ∂Br ∂Vɶ Mas, o volume Vɶ não contém a carga. Por tanto, com o resultado (2.3.7), sabemos que a segunda integral do lado direito é zero. Temos então (2.3.10) E ⋅ dS = E ∫∫ ∫∫ ⋅ dS ∂V ∂Br Isto é um resultado importante. Ele significa que temos o direito de substituir a superfície original por uma simples esfera. Nesta esfera tudo pode ser calculado exatamente. Para fazer este cálculo é conveniente colocar a origem de coordenadas na própria posição da carga e usar coordenadas esféricas. Juntando a expressão do campo de uma carga puntiforme q rˆ E (r ) = (2.3.11) 4πε 0 r 2 com a expressão da integral de superfície esférica (2.2.14) obtemos E ⋅ dS = E ∫∫ ∫∫ ⋅ dS = ∂V ∂Br = 2π r 2 π ∫ ∫ E ⋅ rˆ senθ d θ d ϕ = ϕ= 0 θ= 0 2π q rˆ ⋅ rˆ senθ d θ d ϕ = 2 4 πε r 0 ϕ= 0 θ= 0 r = q 4πε 0 = π ∫ ∫ = 2 2π π ∫ ∫ senθ d θ d ϕ = ϕ= 0 θ= 0 q 2π× 2 4π ε 0 = (2.3.12) π q 2π senθ d θ = 4πε 0 θ=∫0 q ε0 Finalmente chegamos no ponto de poder entender por que os físicos decidiram de escrever a constante de proporcionalidade da lei de Coulomb de forma complicada 1/ 4πε 0 . O cancelamento que ocorreu nesta última linha é a motivação. O 4π é o ângulo sólido de uma esfera completa. Neste ponto vale interromper a dedução da lei de Gauss e comentar a noção de ângulo sólido. A idéia de medir ângulos com a ajuda do comprimento de um arco permite uma generalização do conceito ângulo. Imagine um cone. Este cone não precisa ser circular, ele pode ter qualquer forma. A figura 2.21 ilustra isto. Fig. 2.21 Cone de forma não circular. Queremos uma grandeza para medir o quanto este tipo de cone está aberto ou fechado. Esta grandeza é chamada ângulo sólido. A forma de medir isto é análoga da medição de ângulos comuns em radianos. Escolhe-se uma esfera de 19 raio r com centro no vértice do cone. O cone separa um fragmento da superfície da esfera. A área deste fragmento dividido pelo quadrado do raio do círculo é a medida do ângulo sólido. Neste caso também existe o costume de escrever uma “unidade” que na verdade é somente um comentário. No caso esta “unidade” é chamada “steradiano”. Se abrirmos o cone totalmente, de tal forma que o fragmento de superfície separada é a superfície completa da esfera, o ângulo sólido atinge o valor de 4π : ângulo sólido de um cone totalmente aberto = 4π = = 2π π ∫ ∫ sen θ d θ d ϕ = ϕ= 0 θ= 0 4π r 2 r2 (2.3.13) O ângulo sólido de um cone totalmente aberto é uma constante importante na teoria de campos. Mas, as pessoas se cansaram de escrever os 4π e inventaram uma maneira de esconder esta constante na lei que é menos usada. A lei de Gauss é mais importante do que a lei de Coulomb então se optou por colocar o 4π na lei de Coulomb de tal forma que ele não aparece na lei de Gauss. Depois desta digressão pela definição de ângulo sólido podemos voltar para a lei de Gauss. Falta muito pouco para completar tudo. A única restrição que temos ainda é de termos um campo gerado por uma única carga puntiforme. Podemos usar que a integração é uma operação linear para tratar agora o caso geral de uma distribuição arbitrária de cargas. Imagine muitas cargas puntiformes distribuídas no espaço. Vamos chamar os valores das cargas de qk e as respectivas posições de rk . Imaginamos ainda algum volume V e queremos avaliar a integral de fluxo do campo elétrico através da superfície deste volume. O campo elétrico gerado pelas cargas é a somas de contribuições de cargas puntiformes: N qk r − rk E (r ) = ∑ (2.3.14) 3 k =1 4 πε 0 r − rk Como a integração é uma operação linear podemos no cálculo do fluxo trocar a ordem de integração e somatório: E ∫∫ ⋅ dS ∂V N q k = ∑ ∫∫ 4 πε 0 ∂V k =1 r − rk 3 ⋅ dS r − rk qk = ∑ ∫∫ k =1 ∂V 4 πε 0 N r − rk ⋅ dS 3 r − rk (2.3.15) Para cada um dos termos da última soma podemos aplicar os resultados (2.3.7) e (2.3.12). Se a carga k estiver fora do volume V a contribuição desta carga no somatório é zero e se a carga estiver dentro de V a contribuição é qk / ε 0 . No exemplo da figura 2.22 as cargas 1 e 2 não dariam nenhuma contribuição e as cargas 3, 4 e 5 dão contribuições. Então o somatório resulta na carga elétrica total contida no volume V dividido pela constante ε0 . Com isto chegamos na forma final da lei de Gauss: E ∫∫ ⋅ dS ∂V = 1 Qdentro de V ε0 (2.3.16) Lembrando do “banho matemático” e ignorando o fator 1/ ε 0 podemos expressar esta lei verbalmente de forma muito simples: 20 As fontes do campo E são as cargas elétrcas. q1 Fig. 2.22 Exemplo para a lei de Gauss. Somente as cargas 3, 4 e 5 contribuem para o fluxo através da superfície mostrada. q2 r2 (2.3.17) Cada carga positiva é uma fonte positiva e cada carga negativa é um sumidouro. r1 V q3 A equação (2.3.16) vale igualmente para uma distribuição contínua de carga elétrica. r3 Se a carga não existir em forma de r4 r5 partículas puntiformes podemos dividir o espaço em muitos cubinhos minúsculos e tratar cada cubinho como se fosse uma carga puntiforme. O resultado seria outra vez a equação (2.3.16). Neste caso podemos escrever a carga total no volume V como uma integral de volume da densidade de carga e a lei de Gauss toma a seguinte forma: q4 q5 ∫∫ E ⋅ dS = ∂V 1 ε0 ∫∫∫ ρ d r 3 (2.3.18) V Usando o teorema de Gauss podemos escrever a integral de superfície do lado esquerdo ainda como integral de volume: 3 div E d r = ∫∫∫ 1 ρ d 3r (2.3.19) ∫∫∫ ε 0 V V Uma vez que tudo está escrito como integral de volume podemos juntar os dois lados numa única integral ρ 3 div E − d r = 0 ∫∫∫ ε0 V ( ) (2.3.20) Este resultado deve valer para qualquer volume V! Hora, uma função (supostamente contínua) que integrado sobre qualquer volume sempre resulta em zero só pode ser a função zero. Então podemos concluir que ρ div E = ε0 (2.3.21) Esta equação é a forma local ou diferencial da lei de Gauss. Ela é nada mais do que a “densidade da equação (2.3.16)”. Isto significa: você escreve a equação (2.3.16) para um volume V variável, divide ambos os lados pelo volume e toma o limite V → 0 . O resultado é a lei de Gauss em forma local. A lei de Gauss integral deve valer para qualquer volume V e a equação local (2.3.21) deve valer para qualquer ponto no espaço. Aqui no ciclo básico vamos trabalhar predominantemente com a forma integral da lei de Gauss. Não é preciso ter medo das integrais! De fato vamos aplicar a lei de Gauss sempre em situações que resultam em integrais totalmente triviais. Nas disciplinas mais avançadas de eletromagnetismo a forma diferencial da lei de Gauss será também de grande utilidade. 21 2.4 Aplicações da lei de Gauss com condutores 22