1 O ÍNDIO NA FICÇÃO BRASILEIRA: HERÓI E ANTI-HERÓI Maria Raimunda Gomes2,4; Renata Nunes da Costa3,4 2 Pesquisadora - Orientadora 3 Voluntário Iniciação Científica PVIC/UEG 4 Curso de Letras, Unidade Universitária Ciências Sócio-Econômicas e Humanas, UEG. RESUMO: O romance Maíra, de Darcy Ribeiro, narra-nos, mediante uma prosa poética, a história do povo tribal, mairum, em sua estranha beleza, com sua visão mítica do universo, porém ameaçado pela civilização brasileira. O povo fictício mairum é formado pela mistura de traços físicos, costumes, religiosidade, hábitos alimentares, vestimentas e moradia de algumas tribos que tiveram existência real. Seria uma espécie de mosaico de civilizações indígenas que se extinguiram ou que ainda correm risco de extinção. A personagem IsaíasAvá irá simbolizar o índio aculturado, que já não poderá representar a sabedoria do heróimítico Maíra, tampouco poderá ser o tuxaua de sua tribo, porque se revelará um ser dividido entre duas culturas: a do índio e a do branco. Isaías-Avá perderá o prestígio de herói e passará a viver solitário em sua tribo, enquanto seu sobrinho Jaguar irá adquirir os predicados de herói, pois se mantivera em sua aldeia, preso aos costumes dos mairuns. Em oposição ao antiherói Isaías-Avá, um índio que deveria ter-se tornado branco por meio do exercício do sacerdócio, teremos uma mulher branca, Alma, que desejava livrar-se da civilização e voltar ao mundo primitivo. Ambas as personagens revelam-nos a impossibilidade de nos livrarmos de nossas origens. Palavras-chave: herói- indígena, mito, ficção. Introdução O antropólogo e romancista Darcy Ribeiro, ao publicar o seu romance Maíra, em 1977, já nos havia fornecido a fonte de onde ele criou a tribo fictícia mairum. Esta seria uma fusão da cultura e costume s de vários povos tribais, notadamente os urubus-kaapor, que viviam às margens do rio Gurupi (Pará e Maranhão), e os bororo, que viviam às margens do rio Xingu. Foi possível estabelecer essa relação mairum- urubus-kaapor-bororo, ao consultarmos o livro de antropologia desse autor, Os índios e a civilização, publicado em 1970, sete anos antes da publicação do romance Maíra. É nosso objetivo não só fazer um paralelo entre a criatura fictícia, o povo mairum, e a fôrma de onde ele saiu, como também 2 desnudar os conflitos entre duas culturas: a das armas de fogo, da tecnologia, enfim, a dos brancos versus a do arco e flecha, a indígena. As personagens principais que vão demonstrar esses contrastes e conflitos serão o índio e ex-missionário, Isaías-Avá e a carioca de classe média, de cor branca, Alma. Material e Métodos Por ser a nossa pesquisa bibliográfica, valemos-nos das obras do autor em estudo, Maíra, Os índios e a civilização, e também, dentre outros livros, O herói, de Flávio R. Kothe, Uma poética do genocídio, de Antônio P. Graça, que nos deram subsídios teóricos para esse estudo crítico literário. Outrossim, a nossa pesquisa se deu nas bibliotecas da UEG – unidade de Anápolis -, da UFG e UCG, e por meio de consultas na Internet. Resultados e Discussão O título do romance Maíra foi retirado da mitologia dos índios Urubus-Kaapor (do Xingu), que tinham “Maíra” como uma das divindades criadora de seu povo; uma divindade protetora, benéfica (Ribeiro, 1982, p. 382). E à medida que essa tribo vai passando por um processo de aculturação, ou sendo civilizada, como querem os brancos, esse mito vai sofrendo modificações. É com tristeza e amargura que a personagem Isaías-Avá ouve os índios mairuns fazerem chacota das histórias do herói mítico Maíra, o que revela a ruptura do etlhos tribal (Ribeiro, 1984, p. 319). Maíra que antes se apresentava na cosmogonia desses índios com as características físicas dessa tribo, de pele morena e corpo pintado, já aparece como sendo branco e careca, na versão de outras gerações. A personagem Isaías-Avá, como podemos averiguar, foi inspirada na história real do índio aculturado, Tiago Aipobureu, da tribo bororo, vivenciada em 1937, pelo antropologista Herbert Baldus (Ribeiro, 1982, p. 397). Este índio havia sido educado pelos missionários salesianos, estudado em Cuiabá e depois na Europa. Quando retorna à aldeia passa por gravíssimos conflitos de personalidade; não é visto como índio pela sua tribo, mas é reconhecido como índio pelos brancos. O mesmo acontece com Isaías-Avá no romance. Este índio deveria voltar como herói para a glória da missão Católica, no rio Iparanã, revestido da autoridade de sacerdote católico, ou então como herói guerreiro para suceder o tuxaua morto da tribo mairum. No entanto, Isaías-Avá chega como um herói pífio, frustrando todas as expectativas dos que aguardavam ansiosos o seu retorno. Parafraseando Flávio R. Kothe, o herói épico é o sonho de fazer a sua própria história e o herói nacional corporifica a alma ou um ideal de um povo (Kothe, 1985, p. 55). Ora, se Ulisses em sua Odisséia, depois de muitas 3 aventuras retorna como rei de sua terra Itaca, o mesmo não se dará com Isaías-Avá. Embora tenha feito uma travessia do mundo tribal para o mundo civilizado e vice-versa, não voltou como um homem forte e decidido, capaz de liderar um povo, mas em forma do “encoberto que não se deixa ver (...) cumprindo a sina que lhe impuseram os pajés-sacaca da Missão (Ribeiro, 1984, p. 262). Isaías-Avá regressa como um ser vazio, sem alma, uma sombra errante, evocando o mito grego: “Eurídice, mulher de Orfeu”. Este índio depois de civilizado pelas missões perdeu as suas raízes, deixando de ser índio, mas também não adquiriu a identidade de brasileiro. Ainda temos outra personagem, o tuxaua Anacã, que lembra um fato acontecido na aldeia Bororo, em 1953, o funeral do tuxaua Cadete (Ribeiro, 1982, p. 392). Essa tribo não via a morte como uma expectativa apavorante, na visão dela, o mundo dos vivos e dos mortos formam uma só unidade, coexistente no mesmo espaço. Inspirado, pois, nos cerimoniais funerários dos Bororo, vamos acompanhar o da personagem Anacã, que cansado de viver, deita-se em sua rede para morrer. Seu corpo será enterrado em uma cova rasa, junto ao pátio da aldeia, e regado por vários dias, até a carne se decompor. Enqua nto isso a tribo irá dançar, comer, beber e caçar em homenagem ao morto. Depois dos festejos, os ossos serão retirados da cova; serão limpos e enfeitados com penas. Em seguida, colocados dentro do cesto-patuá, que será amarrado no mastro e fincado na lagoa dos mortos. Nesse ritual, a tribo chora, ao ritmo do maracá, e as mulheres sangram a pele com escarificadores de dentes de peixe (Ribeiro, 1984, p. 120). Outro ritual narrado em Maíra, o “jurupari”, também nos remete à cultura Bororo (Ribeiro, 1982, p. 394). Esse ritual era feito para ingressar os meninos púberes ao mundo dos adultos. Assim é que os índios disfarçados com uma indumentária de palha, coberta de lama podre, entravam na aldeia assustando mulheres e criança com um zumbido ensurdecedor. Embora as índias e as crianças se refugiassem com muito medo em suas cabana, os juruparis ou monstros aquáticos, entravam e apanhavam os meninos já em idade para se recolherem ao “baíto”, a casa dos homens. A constatação feita por Darcy Ribeiro (1982, p. 343) a respeito do virtuosismo que os índios Urubus-Kaapor alcançaram na confecção de panelas, colares, cestos etc., e do quanto essa tribo foi explorada pelos civilizados na troca de seu artesanato por artigos industrializados, já será retomada em Maíra, mediant e outra observação, a do anti- herói Isaías-Avá. Este vê a perfeição do trabalho artesanal indígena como um desperdício de tempo e energia para as tarefas sérias da vida (Ribeiro, 1984, p. 318). É uma visão depreciativa do índio que já introjetou os valores da sociedade tecnológica. 4 Sabe-se que os índios Bororo resistiram à imposição dos padres salesianos, que viam nas malocas coletivas um antro de promiscuidade e, por isso, haviam construído casas onde pudesse morar apenas uma família conjugal. Não sabiam os padres que em cada maloca morava um clã exogâmico, e assim sendo não poderia haver incesto entre os índios desse clã; tampouco poderiam imaginar que destruindo as choças dos índios, estariam destruindo a unidade sócio-econômica deles (Ribeiro, 1982, p. 331). Esse processo de destribalização, em virtude da atuação das missões, é- nos narrado em Maíra, quando Isaías-Avá e a carioca Alma chegam à missão próxima da aldeia mairum. Os padres demonstram-se decepcionados com Isaías, que desistira do sacerdócio, e pede- lhe que se retire, após um incidente: umas velhas índias gritam, xingam e choram, protestando contra a catequização das meninas índias. A personagem Alma também se assusta com o escândalo, mas avalia que as velhas têm razão, considerando que a civilização dos brancos é repressora em relação ao sexo e vê indecência em tudo que é natural (Ribeiro, 1984, p. 241). A impossibilidade da civilização brasileira conviver em harmonia com o povo tribal é representada por Isaías-Avá e Alma. Esta, desiludida com os valores degradantes de seu mundo burguês, procura refúgio no meio dos índios. Acreditou ser possível viver a mesma vida das mulheres índias, parir com a mesma naturalidade que elas; mas ao engravidar do índio, morreu ao dar a luz, sozinha, em uma praia. A sua morte e a de seus filhos gêmeos revelam- nos a barreira intransponível entre essas culturas. Também Isaías-Avá é a prova da impossibilidade desse diálogo, conforme Antônio P. Graça (1998, p. 87). Vivendo entre o seu povo mairum é como se não mais pertencesse a esse povo; procurado insistentemente pelos pastores protestantes para auxiliá- los na versão da Bíblia em mairum, não há como entenderse com esses missionários. A Bíblia não aceita frases e imagens do povo mairum; a Bíblia já é o maior manancial de imagens de todas a literaturas, afirmam os protestantes. Conclusão O nosso estudo da obra Maíra procurou revelar o choque entre duas culturas separadas por um fosso intransponível; é o mundo da religiosidade mítica, da sociedade tribal em oposição a uma sociedade capitalista que tem como religião oficial, o cristianismo. Discorremos sobre os conflitos existenciais das personagens Isaías-Avá e Alma; averiguamos a decadência do povo tribal após a sua aculturação e também a ameaça de sua extinção devido a expansão da sociedade brasileira: fazendeiros, seringueiros, garimpeiros etc. Essa ficção não somente nos levou a descobrir os encantos de um paraíso perdido, como também a magia dos mitos, a beleza das lendas, a riqueza de um léxico, de uma linguagem poética. Esperamos que 5 a nossa pesquisa suscite no leitor o desejo de conhecer a obra literária de Darcy Ribeiro, e que dê ensejo a outras pesquisas. Referências Bibliográficas GRAÇA, A. P. Uma poética do genocídio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. KOTHE, F. R. O herói. São Paulo: Ática, 1985. RIBEIRO, D. Os índios e a civilização. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1982. ________. Maíra. 7ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.