RECUPERAÇÃO DE INFORMAÇÃO DE ENDEREÇO NA BASE DE DADOS AIH: PERCENTUAL
DE APROVEITAMENTO
Address information recovery from the AIH (Admission authorization form):
proportion of success
Luciana Silva da Costa1, Rejane Sobrino Pinheiro2, Renan V. R. Almeida3
RESUMO
O objetivo deste estudo foi analisar a qualidade do preenchimento dos campos relativos
ao endereço e a possibilidade de recuperação de informação referente ao bairro de
moradia de pacientes, a partir da base de dados AIH. Foram selecionadas as internações
de pacientes com fratura de colo de fêmur (CID-9 0820) residentes no Município do
Rio de Janeiro, realizadas em hospitais conveniados com o SUS desse município, em
1997. Das 998 internações, realizadas em 16 hospitais, 763 (76,5%) possuíam CEPs
genéricos. Após o processamento, foram recuperados 648 (84,9%) registros com
problemas de informação. Constatou-se um percentual excessivamente elevado de
CEPs não aproveitáveis, a ponto de, sem um processamento adequado, inviabilizar a
utilização dos dados para pesquisa ou planejamento relacionados ao perfil e cobertura
dos atendimentos de internação, segundo área de residência. A falta de padronização
do campo de endereço dificulta a construção de procedimentos automáticos de
recuperação de informação, sendo necessária a utilização de algoritmos complexos
para este fim, envolvendo até mesmo inteligência artificial.
PALAVRAS-CHAVE
Dados administrativos em saúde, recuperação de informação, qualidade de registro
ABSTRACT
The objective of this study was to analyse the data recording quality relative to the
patient’s address in the SUS/AIH (hospital admission authorization) database; and
the possibility of information recovery of this information. The patients’ admissions
concerned hip fracture (ICD-9 0820) in the city of Rio de Janeiro, Brazil, performed in
SUS (Public Health System) hospitals of this city, in 1997. Among the 998 admissions
in 16 hospitals 763 (76.5%) had generic Zip codes. After processing, 84.9% of the
missing records were recovered (648 addresses). It was verified that a very large proportion
of Zip codes were at first unusable, making unfeasible the use of this variable for health
planning without previous information recovery processing. The lack of standardization
1
Doutoranda do Programa de Engenharia Biomédica - COPPE/UFRJ, Caixa Postal 68510, Ilha do
Fundão, 21945-970 Rio de Janeiro, RJ – e-mail: [email protected]
2
Doutora em Saúde Coletiva, professora Adjunta do Depto. de Medicina Preventiva e Núcleo de
Estudos de Saúde Coletiva – UFRJ, Caixa Postal 68037 Ilha do Fundão 21944-970 Rio de Janeiro, RJ –
e-mail: [email protected]
3
Professor Adjunto do Programa de Engenharia Biomédica-COPPE/UFRJ – e-mail: [email protected]
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also makes unfeasible the construction of automatic recovery procedures, demanding
complex algorithms, involving even artificial intelligence, for this end.
KEY WORDS
Administrative data, information recovery, record quality
1. INTRODUÇÃO
A acessibilidade geográfica aos serviços médicos é um dos fatores
fundamentais para a disponibilidade da oferta de serviços de saúde à
população. No entanto, o acesso às unidades continua precário em
muitas cidades do Brasil (Rezende, 1998). A realização de estudos sobre
as condições de acesso da população aos serviços de saúde produzem
informações importantes para o planejamento e gestão do setor, uma
vez que a organização da oferta e regionalização de um serviço dependem da população que demanda este serviço.
Embora o conceito de acesso seja amplo e envolva diferentes
dimensões como as que dizem respeito às características da população
que busca o serviço, à estrutura da oferta e ao comportamento dos
profissionais de saúde (Penchansky & Thomas, 1981; Unglert et al.,
1987; Rosenburg & Junqueira, 1987; Unglert, 1990; Puente-Markides,
1992; Ojanuga & Gilbert, 1992), a residência dos pacientes é uma
informação importante para o planejamento e gestão do setor saúde, já
que indicadores de uso de serviços de saúde só podem ser adequadamente referidos a uma população quando se conhece o local de moradia dos pacientes. Este também é um dado necessário para a análise do
fluxo de pacientes entre municípios ou bairros, tarefa importante para
o planejamento de serviços e alocação de recursos (Veras & Martins,
1994). Em alguns países desenvolvidos, já é possível contar com registros automatizados de residência desses usuários, o que facilita
grandemente a tarefa de planejamento (Kohli et al., 1995).
No Brasil, existem grandes bases de dados administrativas em saúde,
que foram idealizadas para fins de pagamento dos serviços prestados ao
SUS (Carvalho, 1997). É inegável a importância destas bases de dados
para apoio à gerência, programação e avaliação dos serviços de saúde,
embora sejam apontadas restrições à sua utilização, por questões relacionadas à qualidade da informação e à inexistência de campos contendo diagnósticos adicionais que possibilitem ajuste da gravidade do
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paciente. Como vantagens, tais bases possuem abrangência nacional,
pequeno intervalo de tempo entre a produção do dado e sua
disponibilização e há amplo acesso ao seu conteúdo. O Sistema de
Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS) é um
sistema administrativo, cujos dados são provenientes dos formulários
das autorizações de internações hospitalares (AIH). Resumidamente, a
base de dados da AIH possui informações com relação ao paciente
(sexo, idade e endereço), ao hospital (razão social, natureza jurídica e
endereço) e à internação (diagnósticos principal e secundário que motivaram a internação, procedimento médico principal realizado, tempo
de permanência, se houve óbito e gastos do SUS com a internação).
Alguns inconvenientes ao seu uso para a gestão têm sido apontados,
como o sub-registro e a confiabilidade dos dados, em especial no que
se refere ao diagnóstico que gerou a internação e aos procedimentos
médicos realizados. Entretanto, alguns estudos têm mostrado que a
confiabilidade pode ser bastante elevada para diversos problemas de
saúde e procedimentos médicos (Veras & Martins, 1994; Mathias &
Soboll, 1998).
O objetivo deste estudo é analisar o preenchimento dos campos
relativos ao endereço e a recuperação de informação referente ao bairro
de moradia dos pacientes a partir da base de dados do Sistema de
Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS).
2. MATERIAIS E MÉTODOS
O problema de saúde escolhido para análise foi fratura de colo de
fêmur (CID 9 0820), por ser uma importante causa de mortalidade e de
incapacidade em idosos e sua prevalência ter aumentado ao longo das
últimas décadas em diversos países. Para a população acima de 65 anos,
as quedas são a segunda maior causa de morte por acidente e a
primeira, se considerarmos população acima de 85 anos. Tanto os
custos com os procedimentos médicos na fase aguda quanto os longos
tempos de estadia explicam os altos gastos incorridos com as internações
destes pacientes, que corresponderam ao sétimo itém dos gastos do SUS
com internações em 1999. A seleção da fratura de colo de fêmur traz
algumas vantagens para estudos de acesso geográfico, como o consenso
entre os profissionais de saúde sobre o melhor tratamento (conhece-se
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a superioridade dos procedimentos cirúrgicos para a correção deste
problema) e a necessidade de intervenção precoce para a redução dos
impactos da imobilização de pacientes idosos. Além disso, são raros os
casos de exclusão de parcela da população que necessita de atendimento porém não consegue utilizar o serviço, pois é um problema de saúde
agudo que dificilmente não produz atendimento imediato e são incomuns
os casos de óbito antes do atendimento (Pinheiro, 1999; Susano et al.,
1995; Ramalho, 2001).
Para a realização deste estudo, foram selecionadas as internações de
pacientes com fratura de colo de fêmur residentes no Município do Rio
de Janeiro, RJ, internados em hospitais da rede SUS desse mesmo
município, no ano de 1997 (Tabela 1). Dez hospitais foram excluídos
por apresentarem total de internações hospitalares inferior a 10 casos no
ano deste estudo. Foram analisados 998 registros de internações, realizadas em 16 hospitais. Os dados foram selecionados das bases de
dados mensais em CD-Rom, utilizando-se os programas Appenda
versão 3.4, Microsoft Excel 7.0â e SPSS versão 7.
Buscou-se recuperar a informação do bairro de residência do paciente
a partir do conteúdo do campo código de endereçamento postal (CEP) na base
AIH. Primeiramente, caso este estivesse preenchido corretamente, o
bairro de residência era identificado através de um aplicativo em VisualBasic especialmente desenvolvido para este fim, o qual automatizava a
associaçao cep-bairro, tornando-a mais rápida para o usuário (Costa, 1999).
Além disto, mesmo preenchido corretamente, este endereço era conferido junto à base de dados mencionada abaixo. A seguir, era realizada uma
busca manual na base de dados suplementares do SIH-SUS, fornecida
pelo DATASUS, que contém a anotação do logradouro do paciente em
um campo único, cuja digitação é livre, podendo ou não conter a
anotação de bairro. A partir da anotação do logradouro, buscou-se
identificar o bairro de residência no Cadastro de Logradouros, fornecido
pelo projeto SIG-FIOCRUZ/ Laboratório de Geoprocessamento. Finalmente, caso o endereço do paciente ainda não pudesse ser localizado, era
realizada uma pesquisa complementar em um CD-Rom contendo endereços e respectivos CEPs do município, obtido junto aos Correios do
Brasil (ECT, 1997). A informação do bairro assim obtida era comparada
à anotação do bairro do campo endereço, quando existente.
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Tabela 1
Número de internações por fratura de colo de fêmur de pacientes residentes no município do
Rio de Janeiro e atendidos em hospitais conveniados com o SUS desse município, 1997.
*Hospitais Excluídos.
3. RESULTADOS
O campo CEP é de preenchimento obrigatório no formulário da
AIH e conseqüentemente não foram observados campos sem resposta.
No entanto, no conjunto das 998 internações analisadas, foram observados 763 (76,5%) CEPs genéricos (preenchidos com o código geral da
cidade) (Tabela 2). Apenas três hospitais (Hospital Estadual Albert
Schweitzer, Hospital Estadual Rocha Faria e Instituto Nacional de
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Traumato Ortopedia), responsáveis por aproximadamente 16% das
internações, não apresentaram registro de CEPs genéricos (Tabela 3).
Um outro hospital (Hospital Salgado Filho) utilizou o CEP relativo ao
seu endereço na maioria dos registros dos pacientes.
Tabela 2
CEPs genéricos e recuperação da informação de bairro segundo fontes completmentares e
segundo anotação no campo de endereço, por hospital.
Tabela 3
Hospitais que não apresentaram registro de CEPs genéricos.
Considerando os registros de internações com CEPs genéricos,
observou-se que o percentual de recuperação de informação de bairro
a partir das fontes complementares foi de 84,9% (648 endereços)
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(Tabela 2). A anotação de bairro estava presente em 87,7% (669) dos
registros, percentual superior ao encontrado utilizando o algoritmo. Em
alguns casos (84 registros, 11%), apesar do nome do bairro estar
presente na base de dados, os nomes dos logradouros não foram
identificados nas fontes utilizadas para localização da informação (Cadastro de Logradouro e CD dos Correios e Telégrafos). A informação
de bairro anotada no campo endereço diferiu da informação de bairro
obtida a partir do algoritmo em apenas 69 registros (9%) e praticamente
referiam-se a bairros adjacentes.
O percentual de recuperação da informação de bairro variou entre
hospitais e os menores valores (abaixo de 70%) foram observados no
Hospital Estadual Getúlio Vargas e no Hospital Universitário Pedro
Ernesto. A anotação do bairro no campo de endereço nos registros da
AIH foi superior a 85% em praticamente todos os hospitais, sendo
menos freqüente nos registros do Hospital Geral de Ipanema (13,8%)
e Hospital Geral do Andaraí (57,5%).
A Tabela 4 mostra o percentual de informações sobre o bairro que
não puderam ser recuperados a partir dos procedimentos testados,
considerando a amostra completa (998 internações). Em 16% das
internações, não havia a anotação de bairro no campo de endereço e,
utilizando-se o algoritmo, somente em 11,8% dos registros não foi
possível identificar o bairro de residência do paciente.
Embora os registros da amostra refiram-se a internações de pacientes residentes no município do Rio de Janeiro e que tenham sido
atendidos em hospitais sediados nesse mesmo município, com base na
informação do campo de endereço, foram identificados 4,5% dos
registros de internações de pacientes residentes fora do município do
Rio de Janeiro.
Tabela 4
Percentual de informação sobre bairro que não pôde ser recuperada.
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4. DISCUSSÃO
O preenchimento do campo referente ao CEP do paciente na base
de dados AIH tem sido por vários autores considerado de baixa qualidade (Coeli, 1997; Costa, 1999). Coeli (1997) observou que, em
1995, no Município do Rio de Janeiro, 34,5% dos CEPs eram inválidos (ignorados ou “genéricos”, ou seja, preenchidos com o código geral
da cidade) e 14,4% apresentavam-se como iguais ao do hospital onde
a internação foi realizada.
Em princípio, a recuperação da informação do bairro de moradia
dos pacientes pode ser realizada a partir do campo CEP, de preenchimento obrigatório nas AIHs. No entanto, a qualidade de preenchimento desta variável não é satisfatória apresentando um alto percentual de
CEPs genéricos. No presente trabalho, constatou-se um percentual
excessivamente elevado de CEPs não aproveitáveis, a ponto de, sem
um processamento adequado, inviabilizar a utilização da base de dados
do SIH-SUS para pesquisa ou planejamento em relação a esta variável.
Uma causa provável para esta baixa qualidade de preenchimento é
a falta de padronização e de procedimentos de crítica para o registro do
endereço no SIH-SUS, o que pode ser explicado por não ser fundamental para o objetivo principal deste sistema, que é o pagamento das
internações (Coeli, 1997; Costa, 1999).
Similarmente ao encontrado em Coeli (1997), os principais erros na
identificação do bairro foram a omissão e a troca de letras no nome das
ruas, o uso incorreto de preposições e o endereço ignorado dos pacientes. Uma das causas para essas deficiências pode estar relacionada ao
treinamento para a coleta de informações. Dificuldades similares já
foram identificadas em relação a outras variáveis da base de dados AIH
(Veras & Martins, 1994). A falta de padronização pode levar à
inviabilização da construção de procedimentos automáticos de recuperação de informação, sendo necessários algoritmos complexos, envolvendo até mesmo inteligência artificial, para este fim. Algumas
metodologias têm obtido percentuais de recuperação em torno de 40%
(Coeli, 1997).
Observou-se ainda que 4,5% dos registros referiam-se a endereços
fora do município do Rio de Janeiro, embora na base de dados estivesse
informado que o paciente residia nesta cidade.
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Este trabalho revelou a capacidade de identificação da informação
de bairro a partir de uma massa de registros inicialmente deficientes em
relação ao campo de endereço. Este é um aspecto altamente positivo,
uma vez que o percentual de perda inviabilizava a utilização automática
desta variável em estudos epidemiológicos ou de planejamento. Sua
recuperação e aproveitamento se deram por meio de procedimentos
que, apesar de manuais e demandarem elevada quantidade de tempo
para sua realização, são de fácil execução.
Uma vez que o preenchimento da informação de bairro ocorreu na
maioria das internações e o uso de procedimentos automáticos viabilizaria
o seu uso para a gestão e planejamento em saúde, seria de interesse que
o campo de endereço fosse desmembrado no SIH-SUS, de modo que
a informação de bairro viesse padronizada e em um campo próprio.
* Agradecimentos: Nossos agradecimentos ao projeto SIG/FIOCRUZ/Laboratório de
Geoprocessamento, pelo uso da base de dados de Cadastro de Logradouros.
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