Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RELATÓRIO PRELIMINAR DOS SERVIÇOS QUE PRESTAM ASSISTÊNCIA A TRANSEXUAIS NA REDE DE SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL Márcia Arán e Daniela Murta TÍTULO DO PROJETO: Transexualidade e saúde: condições de acesso e cuidado integral COORDENADORA DO PROJETO: Márcia Arán PESQUISADORAS: Daniela Murta e Fátima Lima PESQUISADORA COLABORADORA: Tatiana Lionço INSTITUIÇÃO EXECUTORA: Instituto de Medicina Social da UERJ Edital MCT – CNPq / MS-SCTIE – Nº 26/2006 Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ TRANSEXUALIDADE E SAÚDE: CONDIÇÕES DE ACESSO E CUIDADO INTEGRAL1 RESUMO: Este trabalho tem como objetivo geral aprofundar o conhecimento sobre o acesso e o processo de cuidado integral à saúde de transexuais na rede pública de saúde brasileira, com vistas a contribuir na proposição de políticas de saúde a esse segmento. Com esta finalidade compreende os seguintes objetivos específicos: a) revisar o estado atual de conhecimento sobre transexualidade e a problematização do diagnóstico de “transtorno de identidade de gênero”, bem como as implicações colocadas para o atendimento à saúde destes pacientes; b) levantar os serviços de assistência a transexuais existentes nos Hospitais Públicos no Brasil; c) conhecer o espectro e as características dos serviços ofertados aos transexuais nos serviços identificados no levantamento precedente; c) investigar com maior detalhamento, em uma pequena amostra de serviços, o processo de cuidado prestado aos transexuais, tomando por referência a integralidade, o acesso e a equidade do cuidado; d) estudar um conjunto de usuários destes serviços com foco nas características da demanda, nas dificuldades de acesso a um cuidado integral e na diversidade da construção de gênero e de formas de subjetivação na transexualidade, e) elaborar um conjunto de proposições que subsidiem políticas publicas de assistência aos transexuais no âmbito do SUS. Na etapa inicial desta pesquisa foi realizada uma revisão bibliográfica com foco na noção de transexualidade na medicina, sexologia, psiquiatria, psicanálise e saúde coletiva, com vistas a uma melhor demarcação do problema do diagnóstico de “transtorno de identidade de gênero”, identificando assim o espectro de cuidados necessários à assistência integral destes indivíduos no sistema de saúde. Concorrentemente, foi feito um levantamento preliminar de todos os Hospitais Públicos que prestam assistência a pacientes transexuais no país. Os hospitais identificados foram contatados por telefone buscando-se identificar o serviço e o responsável pela assistência aos pacientes transexuais. Estes responsáveis receberão uma correspondência especifica onde serão explanados os objetivos da pesquisa. Além disso, serão solicitadas respostas a um pequeno inquérito que visará o conhecimento preliminar do funcionamento dos Serviços. Na etapa posterior, uma pequena amostra de serviços foi selecionada com vistas a se investigar o processo especifico do atendimento prestado aos transexuais. A busca dos aspectos relativos à oferta dos serviços estará organizada em torno de duas estratégias metodológicas. A primeira refere-se ao levantamento das informações disponíveis em cada instituição acerca de: tempo e história da implementação do serviço, as metas institucionais; dados estatísticos de produção pelos Serviços; espectro do cuidado ofertado, quantificação da oferta; características sóciodemográficas dos usuários acompanhados; capacidade de cobertura, financiamento das atividades 1 Parte deste Relatório foi publicado em ARAN; M.; MURTA; D. (2009). Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ ofertadas. A outra estratégia consistirá na realização de entrevistas semi-dirigidas com os profissionais como também numa observação livre sobre o funcionamento dos serviços, os problemas vivenciados, os dispositivos de cuidado institucionalizados, a compreensão e a problematização do diagnóstico de transexualismo e do fenômeno da transexualidade, e os principais dilemas éticos e jurídicos enfrentados. Em relação aos usuários serão realizadas entrevistas semi-dirigidas e organizados grupos focais que buscarão identificar a diversidade de construções do gênero, práticas sexuais, sofrimento psíquico, atuação profissional atual e passadas considerando-se as dificuldades encontradas para o exercício da profissão escolhida, demanda pelo processo transexualizador, buscas anteriores de cuidado e principais obstáculos encontrados, assistência recebida no serviço atual, tempo e grau de vínculo formado com o serviço, assistência jurídica recebida para adequação da identidade civil, e grau de satisfação com a assistência recebida na atualidade e no passado. Os dados relativos à oferta assistencial deverão ser analisados na forma de tabelas descritivas e análises de freqüência. Já as entrevistas e grupos serão gravados, transcritos e submetidos à analise de conteúdo. A análise e sistematização das várias etapas precedentes deverão permitir a elaboração de um conjunto de proposições que sirvam como subsídio às políticas públicas de assistência aos transexuais no âmbito do SUS. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ RELATÓRIO PRELIMINAR SOBRE OS SERVIÇOS QUE PRESTAM ASSISTÊNCIA A TRANSEXUAIS NA REDE DE SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL I. Levantamento dos Serviços Os serviços que prestam assistência a transexuais que procuram tratamento para a realização do processo transexualizador no Brasil foram organizados a partir da regulamentação desta prática, após a publicação da Resolução nº 1.482/97 do Conselho Federal de Medicina. Considerado um atendimento de alta complexidade, a maioria destes serviços encontra-se em hospitais públicos universitários, localizados nas regiões Sul e Sudeste do país. De modo geral, a equipe é composta por cirurgião reconstrutor genital (urologista e/ou ginecologista), psiquiatra, psicólogo, endocrinologista, cirurgião plástico, assistente social e enfermagem, sendo que o número de profissionais envolvidos varia de acordo com cada instituição. Os profissionais de outras especialidades que participam desses serviços, como geneticista, cirurgião geral, anestesista, mastologista, otorrinolaringologista e fonoaudiólogo, normalmente atendem sob demanda. Além disso, alguns desses serviços têm convênio com uma assessoria jurídica para mudança do nome civil, que está condicionada, na maioria dos casos, à realização da cirurgia de transgenitalização. Nota-se que um dos principais desafios para implementação desta modalidade de assistência é a capacitação profissional da equipe interdisciplinar e medidas de humanização, para que se possa garantir um atendimento de qualidade e livre de discriminação. Em todos os serviços analisados, as intervenções médico-cirúrgicas atendem aos critérios estipulados pela Resolução nº 1.652/2002 do CFM, que determinam o prazo mínimo de dois anos de acompanhamento terapêutico como condição para realização da cirurgia de transgenitalização, bem como a maioridade e o diagnóstico de transexualismo. Transcorridos os dois anos, caso o(a) usuário(a) seja considerado(a) transexual e tenha condições clínicas, pode ser encaminhado(a) para a realização do procedimento cirúrgico. No entanto, devido à dificuldade de agendamento das cirurgias, os(as) usuários(as) transexuais têm permanecido por muito mais tempo aguardando a realização da cirurgia. Em caso de internação médicohospitalar, na maioria das vezes os homens e mulheres transexuais são internados na enfermaria em conformidade ao sexo com o qual se identificam socialmente, a despeito do nome que conste no registro civil, ou num leito específico para esse programa assistencial. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tendo como referência o relatório da I Jornada sobre Transexualidade e Saúde no Brasil organizada pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e pela Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde (UERJ, 2005); os contatos realizados nas reuniões do Comitê Saúde LGBTT do Ministério da Saúde sobre o Processo Transexualizador no SUS (Brasília, 2006); o Seminário Nacional: Saúde da população LGBTT na construção do SUS (2007); a Oficina sobre o Processo Transexualizador no SUS (2007), os Fóruns do Coletivo Nacional de Transexuais e informações disponibilizadas por profissionais de diversos Serviços e acesso à página http://www.ims.uerj.br/transexualidadesaude2, realizamos um levantamento preliminar dos Serviços que prestam assistência a transexuais no Brasil. Os Serviços pesquisados foram os seguintes: 1. Programa de Transtorno de Identidade de Gênero (PROTIG) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre – UFRGS 2. Unidade de Urologia Reconstrutora Genital do Hospital Universitário Pedro Ernesto – UERJ 3. Ambulatório de Transexualidade - Projeto Sexualidade (PROSEX) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP 4. Projeto Transexualismo do Hospital das Clínicas de Goiânia 5. Programa de Atendimento a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho UFRJ 6. Ambulatório de Endocrinologia Especial (Transtorno de Identidade de Gênero) do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE) 7. Hospital das Clínicas da UFMG 8. Transexualidade - Serviço de Urologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto da Faculdade de Medicina e Hospital de Base 9. Atendimento Ambulatorial a Transexuais do Hospital Universitário de Brasília 10. Departamento de Psicologia do Instituto Paulista de Sexualidade Desses serviços, apenas sete se dispuseram a responder a um questionário detalhado. Um dos serviços contatados foi excluído dessa segunda etapa da pesquisa exploratória por se 2 Ver anexo 1. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ tratar de um programa assistencial particular. Além disto, é importante destacar que durante a realização desta pesquisa 4 destes serviços foram credenciados como Centros de Referência para o atendimento interdisciplinar a usuários(as) transexuais no SUS. Neste sentido, os quatro primeiros Serviços referidos passaram a receber os recursos repassados pela Alta Complexidade para a realização dos procedimentos cirúrgicos. Tabela 1: Características básicas dos serviços públicos de assistência a transexuais. Ambulatório Instituição Ano de início/ Leitos Modo de Natureza Especializado Tempo de reservados financiamento Assessoria Jurídica para Funcionamento para dos cuidados Jurídica Transexuais do Serviço transexuais disponíveis Hospital Universitário UFRGS Público Recurso da SES Sim 11 anos/ 1997 sim Federal ou MS/ agosto 2008 credenciado pelo SUS Apenas para troca de sexo e nome Recurso da Hospital Universitário USP Público instituição + Sim 10 anos/ 1998 sim Estadual recursos da SES ou SMS/ agosto não 2008 credenciado pelo SUS Hospital Universitário UERJ Público Não informou/ Sim 5 anos/ 2003 não Estadual agosto 2008 Defensoria credenciado pelo pública do RJ SUS Recurso da SES HC- Hospital GOIÂNIA Universitário Sim 9 anos/ 1999 não ou SMS/ agosto 2008 credenciado não pelo SUS Hospital UFRJ Universitário Público Sim 10 anos 1998 não Recurso da Defensoria instituição pública do RJ Federal Recurso da Hospital IEDE Público Estadual sim 8 anos/ 2000 não instituição + recursos SES ou não SMS A Coordenação dos respectivos Serviços é realizada pela especialidade médica responsável pela porta de entrada no Programa. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ URFGS – Urologia USP – Saúde Mental/ Endocrinologia UERJ- Urologia HC/ Goiânia – Ginecologia UFRJ – Saúde Mental IEDE – Endocrinologia Tabela 2: Serviços ofertados e número de profissionais envolvidos Serviços Ofertados (Numero de UFRGS USP UERJ Urologia 3 2 1 Endocrinologia 1 1 Ginecologia 2 Genética Cirurgia Geral HC - UFRJ IEDE 1 1 0 1 1 0 1 1 1 2 1 1 1 1 1 1 0 1 0 1 1 - 0 0 2 1 1 1 1 0 Psiquiatria 3 1 1 2 1 1 Psicologia 2 3 1 1 1 1 Serviço Social 2 1 1 1 0 1 5 4 0 - 1 1 Sim não sim sim Não não Anestesio. 1 0 profissionais GOIANIA envolvidos) Cirurgia Plástica Atendimento em Grupo Graduandos Mastologia 2, Otorrino 1, Outros Fono. 1, Desembargador 1 Otorrino , Fono. 1 Enfermagem 1 Otorrino 1 Fono.1 Enfermagem 1 Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Em todos os serviços analisados as intervenções médico-cirúrgicas atendem aos critérios estipulados pela Resolução Nº 1.652/2002 do CFM, que determinam o prazo mínimo de 2 anos de acompanhamento terapêutico como condição para a realização da cirurgia de transgenitalização, bem como a maioridade e o diagnóstico de transexualismo. Transcorridos os dois ano, caso o(a) usuário(a) seja considerado(a) transexual e tenha condições clínicas, pode ser encaminhado(a) para a realização do procedimento cirúrgico. No entanto, devido à dificuldade de agendamento das cirurgias, os(as) usuários(as) transexuais tem permanecido por muito mais tempo aguardando a realização da cirurgia. Em caso de internação médicohospitalar, na maioria das vezes os homens e mulheres transexuais são internados na enfermaria em conformidade ao sexo com o qual se identificam socialmente, a despeito do nome que conste no registro civil, ou num leito específico para esse programa assistencial. Tabela 3. UFRGS USP UERJ imediato 2 anos 2 anos sim sim sim HC- UFRJ IEDE 3 a 4 meses 2 anos 4 anos sim sim não GOIANIA Tempo de espera média para cirurgia (após 2 anos) Equipe acompanha na internação O processo de cuidado relatado pelos profissionais consiste no atendimento clínico, particularmente na hormônioterapia, no atendimento psicológico e psiquiátrico e na realização das cirurgias de transgenitalização e de caracteres sexuais secundários. Estes procedimentos foram normatizados por meio da Portaria GM n. 1.707 de 18 de agosto de 2008 (Brasil, 2008a) do Ministério da Saúde, que estabeleceu diretrizes técnicas e éticas para o processo transexualizador no SUS. De acordo com essa portaria, o Ministério da Saúde reconhece que a orientação sexual e a identidade de gênero são determinantes e condicionantes da situação de saúde, e que o mal-estar e o sentimento de inadaptação em relação ao sexo anatômico dos usuários transexuais deve ser acolhido e tratado pelo SUS, seguindo os preceitos da universalidade, integralidade e da equidade da atenção. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ II. Tratamento cirúrgico Em caso de internação médico-hospitalar, na maioria das vezes os homens e mulheres transexuais são internados na enfermaria em conformidade ao sexo com o qual se identificam socialmente, a despeito do nome que conste no registro civil, ou num leito específico para esse programa assistencial. Nessa internação, de modo geral, são acompanhados pela mesma equipe do ambulatório. Antes da realização da cirurgia aplica-se um Termo de Consentimento para que o paciente autorize os procedimentos que serão realizados. 1. Cirurgia de Redesignação Sexual em Mulheres transexuais (MtF) Na cirurgia de redesignação sexual de mulheres transexuais (MtF) é utilizado como tática cirúrgica da transgenitalização a retirada ou desmembramento do pênis, a retirada parcial do escroto, orquiectomia bilateral, uretroplastia, construção da neovagina, neoclitoroplastia e neovulvoplastia. No que se refere à tática para a modificação dos caracteres sexuais secundários utiliza-se a mamoplastia; cricotireoplastia; cirurgia de cordas vocais, cirurgia feminilizante de face e contorno corporal e realização de depilação definitiva. Para cada etapa da tática cirúrgica, tanto da transgenitalização quanto da modificação de caracteres secundários, há diversas técnicas descritas. Além disso, é importante realçar que as cirurgias de modificação de caracteres sexuais secundários não são aplicáveis a todas as usuárias, dependendo do resultado individual da hormônioterapia feminilizante. 2. Cirurgia de Redesignação Sexual realizada em Homens transexuais (FtM) Na redesignação sexual de homens transexuais (FtM) – a qual permanece como cirurgia experimental - são utilizadas como táticas cirúrgicas de transgenitalização a histerosalpingoooforectomia, a colpectomia, a neofaloplastia e a escrotoplastia. Do mesmo modo que na transgenitalização de mulheres transexuais (MtF), nesses procedimentos leva-se em conta a diversidade de técnicas descritas para cada etapa da tática cirúrgica. Nesses casos, ainda que tenha um papel fundamental no processo transexualizador, podendo ser realizada antes (ou independentemente) da cirurgia genital, a mastectomia bilateral é definida como cirurgia de caractere sexual secundário. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Como se pode perceber tratam-se de cirurgias de grande porte e que têm um caráter irreversível. Neste sentido algumas considerações se fazem necessárias. Primeiro, é de fundamental importância que os(as) usuários(as) sejam esclarecidos de todas as conseqüências funcionais e estéticas destes procedimentos, além dos possíveis riscos. O contato prévio com os médicos e com outros pacientes que já realizaram as cirurgias poderá ser de grande valia para ajudar na tomada de decisão em relação à efetivação da cirurgia. Além disto, é importante considerar em que contexto se dá a opção pela transformação corporal, já que em função da extrema vulnerabilidade da população trans no país, a cirurgia de transgenitalização pode se apresentar como uma tábua de salvação, se constituído como única possibilidade de inclusão social. Assim, constatamos que alguns homens e mulheres transexuais podem desejar a cirurgia de transgenitalização pela exclusiva necessidade de reconhecimento social mais amplo, o que nos faz pensar que a cirurgia não necessariamente seria indicada se vivêssemos num mundo onde a diversidade de gênero fosse possível. Estas pessoas, não apenas já têm uma vida afetiva e sexual satisfatória, como também já são reconhecidas pelo gênero que dizem pertencer e em outras condições poderiam permanecer como estão, desde que pudessem realizar a mudança do nome civil. Nestes casos, a real necessidade de cirurgia poderá ser relativizada. Porém, outras pessoas consideram a realização de modificações corporais, inclusive a cirurgia de transgenitalização, um evento vital para a construção de si, sendo a possibilidade de modificação corporal fundamental para o delineamento de seus projetos de vida. Entre estes extremos há um continuum de possibilidades que devem ser consideradas. Como por exemplo, muitos homens trans que desejam a realização de cirurgias para a modificação de caracteres sexuais secundários (como a mastectomia), mas não desejam realizar a de cirurgia de transgenitalização. É por isto que a individualização do cuidado é parte constitutiva de qualquer projeto baseado na integralidade da assistência. III. Tratamento Endocrinológico O tratamento endocrinológico tem como objetivo induzir o aparecimento de caracteres sexuais secundários compatíveis com a identificação de gênero através de terapia hormonal, assim como possibilitar o acompanhamento clínico. Este tratamento deve ser realizado pelo resto da vida e só será interrompido para a realização da cirurgia. É de fundamental importância estabelecer a dose ideal do medicamento para cada pessoa, destacando-se o fato Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ de que não há necessidade de doses elevadas de hormônios para se alcançar os efeitos desejados ou alcançá-los mais rapidamente. A terapia hormonal, prescrita após o diagnóstico de transexualismo pode ser realizada pelo endocrinologista ou urologista. A maioria dos(das) usuários(as) chegam aos serviços já tendo feito uso anterior (auto-medicação) de algum tipo de hormônio por indicação de amigos ou através de informações coletadas na internet. No caso de mulheres transexuais (MtF), na auto-medicação normalmente são utilizadas pílulas anticoncepcionais em grande quantidade as pacientes tomam muitos comprimidos por dia acreditando que assim terão um efeito mais rápido - e hormônios indicados para reposição hormonal de mulheres na menopausa. Além disso, a literatura especializada aponta para a necessidade de pesquisas empíricas sobre os efeitos colaterais do uso prolongado de hormônios. No processo transexualizador, a terapia hormonal para mulheres transexuais (MtF) consiste na administração de anti-androgênios (hormônios com a finalidade de diminuir as características masculinas) e estrogênio, através de doses adequadas individualmente para um melhor resultado terapêutico e com menos efeitos colaterais. Dos estrogênios os mais prescritos são 17ß-Estradiol e dos anti-androgênicos o Acetato de Ciproterona (Nome comercial - Androcur), porém existem várias outras formas de administração do medicamento. No caso dos homens transexuais (FtM), existem diversas opções de terapia de reposição androgênica disponíveis no mercado. A testosterona é o principal hormônio utilizado para induzir o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários masculinos, podendo ser administrada por injeções intramusculares de ésteres de testosterona, vias transdérmicas como adesivos, géis de testosterona e de dihidrotestosterona (DHT) e sistemas subcutâneos como o adesivo bucal e o undecanoato de testosterona oral3. 3 Para mais detalhes ver Athayde (2001) e Costa (2009). Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tabela 4. Dispensação de medicamentos Medicamentos URGS USP UERJ sim sim não Local de Farmácia Farmácia dispensação CEME ambulatório não sim Acesso ao medicamento Descontinuidade no fornecimento HC- UFRJ IEDE não não Sim - - - IEDE - - - sim GOIÂNIA Componente Componente básico da excepcional da assistência Tipo de medicamento farmacêutica do SUS e alto custo excepcional assistência não informou fora dos protocolos do SUS - - farmacêutica do SUS (acetato de ciproterona) e 17 beta estradiol IV. Tratamento Psicológico e Psiquiátrico A maioria dos serviços tem como orientação terapêutica a realização do diagnóstico psiquiátrico de transtorno de identidade de gênero, sendo que a principal preocupação é a regulamentação do acesso e a necessidade de se ter certeza sobre a decisão da realização de modificações corporais, em especial no que se refere à cirurgia de transgenitalização, dado seu caráter irreversível. O diagnóstico psiquiátrico é realizado no início do tratamento, através da avaliação clínica psiquiátrica e, em alguns casos, são utilizados testes psicológicos. A partir de avaliação especializada, os usuários e usuárias são encaminhados para atendimento psicológico em grupo ou individual, como também para acompanhamento psiquiátrico quando necessário. É fato que a vivência da transexualidade pode acarretar problemas relacionados à vida psíquica, em geral marcada pelo trauma do não reconhecimento, da injúria e da exclusão social, assim como por dificuldades provenientes de problemas familiares e de relacionamentos sexuais e afetivos. Esta experiência pode se constituir num intenso sofrimento psíquico, que aparece muitas vezes sob a forma de tentativas de suicídio, Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ depressão, transtornos alimentares e angústias das mais diversas formas, provocadas não apenas pelo conflito de não-pertencimento ao sexo biológico como também pelas inúmeras consequências sociais, éticas, jurídicas e culturais intrínsecas a esta condição. Todavia, ainda que a psiquiatria costume descrever estas experiências em termos de co-morbidade, não podemos perder de vista os contextos cultural e social nos quais estes sintomas aparecem, já que na transexualidade o risco de patologização de um problema social está sempre presente. Isto não significa, no entanto, que todas as pessoas trans padeçam do mesmo sofrimento e que tenham a mesma trajetória de vida. É surpreendente constatar como em condições adversas, homens e mulheres transexuais tenham conseguido construir suas vidas de forma satisfatória e produtiva. A partir da análise de entrevistas em profundidade com usários(as) dos serviços de saúde, temos afirmado que existem várias formas de subjetivação e construções de gênero na transexualidade (ARÁN; ZAIDHAFT; MURTA, 2008; ARÁN; MURTA; LIONÇO, 2008; MURTA, 2007; ARÁN, 2006; LIONÇO, 2006; BENTO, 2006; ZAMBRANO, 2003). Mais do que isto, consideramos que a transexualidade é uma categoria em constante negociação. Neste sentido, se ela pode expressar em parte a experiência de sujeitos que solicitam modificações corporais do sexo em função de um sentimento de desacordo entre sexo e gênero, no nosso ponto de vida ela não expressa um modo de funcionamento psíquico específico, nem mesmo uma estrutura clínica. Nesse sentido, propomos pensar que apesar do sentimento de pertencimento ao gênero oposto ao sexo anatômico, a transexualidade não necessariamente fixa uma posição subjetiva. É importante deslocar a manifestação social da transexualidade da necessidade de traduzi-la imediatamente numa patologia, numa estrutura ou num modo de funcionamento específico, o que nos permitiria escapar da necessidade de enquadrar homens e mulheres transexuais num diagnóstico psiquiátrico. V. Freqüência dos Atendimentos A maioria dos Serviços relata atendimento interdisciplinar com freqüência regular. No entanto, como na maioria dos serviços o tempo de espera para a realização da cirurgia é muito longo, o espaço entre estes atendimentos tem se prolongado significativamente. Além disto, também na maioria dos serviços, no pós-operatório, os usuários e usuárias continuam ligados ao Programa o que significa uma permanência destes pacientes nos referidos Hospitais. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tabela 5. Freqüência dos atendimentos nos serviços disponíveis Freqüência dos Atendimentos UFRGS Urologia mensal Endocrinologia trimestral USP UERJ HC-GOIANIA UFRJ IEDE trimestral e demanda demanda pré e pós operatório - demanda - outras doenças endocrinológicas - trimestral Ginecologia demanda de homens transexuais (FtM) demanda demanda de homens transexuais mensal - demanda Genética semestral demanda demanda para sindrômicos demanda - demanda Cirurgia Geral - demanda demanda (integralidade da atenção) - - - Cirurgia plástica demanda semanal demanda pré-cirúrgico Psiquiatria quinzenal semanal trimestral e demanda mensal (indicação específica) Psicologia quinzenal semanal trimestral e demanda semanal mensal semanal quinzenal, 3 em 3 semanas, mensal demanda demanda pré e pós operatório quinzenal, 3 em 3 semanas, mensal - - Serviço Social quinzenal demanda demanda avaliação do profissional Atendimento em Grupo quinzenal semanal - - mensal mensal demanda Otorrino/ Cabeça e pescoço demanda demanda - - Outros - VI. Rede de Saúde A maioria dos Serviços já funciona como Centros de Referência para outros estados e municípios, recebendo usuários de diversas cidades. Em alguns desses casos, nota-se que as Secretarias Municipais de Saúde dos municípios de origem oferecem algum tipo de auxílio para o deslocamento até os hospitais. No entanto, os coordenadores dos Serviços consideram de fundamental importância a organização de uma rede de assistência que possa abarcar com o transporte, estadia e os demias custos destes deslocamentos. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tabela 6. Atendimento interinstitucional Rede de Saúde Atendimento inter-institucional UFRGS USP UERJ HC-GOIANIA UFRJ IEDE não não sim não sim sim sim sim sim sim sim sim próprio próprio próprio serviço serviço serviço Atenção a paciente de outras cidades e estados Local de realização de exames complementares próprio serviço próprio serviço próprio serviço e em outros Tabela 7. Número aproximado de Usuários(as) atendidos(as) nos Serviços até 06/2008 Usuários (as) atendidos (as) N. de mulheres transexuais (MtF) atendidas pré-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos pré-operatório N. de mulheres transexuais (MtF) atendidas pós-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos no pós-operatório UFRGS USP UERJ HC-GOIANIA UFRJ IEDE 171 238 20 19 25 79 21 55 2 7 4 1 96 18 20 19 6 20 14 8 0 7 2 0 Outro aspecto que se destaca é o exponencial crescimento do número de usuários que se definem como transexuais que procuram esses serviços com demanda clínica-cirúrgica de redesignação sexual. A partir de um levantamento aproximado é possível calcular que mais ou menos 700 mulheres transexuais (MtF) e 120 homens transexuais (FtM) já foram atendidos nos serviços públicos de assistência a essa clientela existentes no país até o primeiro semestre de 2008. Contudo, vale destacar que esses números não refletem uma estimativa da necessidade de demanda, pois não contemplam as demandas reprimidas, não registradas e atendidas no âmbito particular. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tabela 8. Número aproximado de Usuários(as) atendidos(as) nos Serviços até 06/2008 Usuários (as) atendidos (as) UFRGS USP UERJ 171 238 20 21 55 96 14 N. de mulheres transexuais (MtF) atendidas pré-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos pré-operatório N. de mulheres transexuais (MtF) atendidas pós-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos no pós-operatório HC- UFRJ IEDE 19 25 79 2 7 4 1 18 20 19 6 20 8 0 7 2 0 GOIANIA Tabela 9. Número aproximado de Usuários(as) em atendimento nos Serviços em 2008 Dados de usuários em Atendimento N. de mulheres transexuais(MtF) atendidas pré-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos pré-operatório N. de mulheres transexuais (MtF) atendidas pós-operatório N. de homens transexuais (FtM) atendidos no pós-operatório UFRGS USP UERJ 65 78 50 8 7 21 6 HC- UFRJ IEDE 21 13 29 1 3 2 1 7 alta 14 6 9 6 alta 7 2 0 GOIANIA Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Tabela 10. Dados sobre as cirurgias realizadas nos Serviços até 06/2008 Cirurgias Tipo de cirurgias Acompanhamento realizadas realizadas no pós-operatório Acesso a procedimentos complementares Índice de recirurgias 15% para UFRGS 96 (MtF) Transgenitalização e 16 (?) (FtM) caracteres secundários sim (2 anos) Sim MtF e FtM avaliação de necessidade mastectomia bilateral, histerectomia, ooforectomia bilateral e masculinização da genitália externa em USP 19 (MtF) transexuais FtM e 6 (?) (FtM) neovaginoplastia, sim Sim 80% amputação peniana, orquiectomia bilateral e escrotoplastia e neouretroplastia em MtF 10% e correção de UERJ 20 (MtF) transgentalização e 0 (FtM) caracteres secundários sim Sim cirurgias realizadas em outras instituições 6 (MtF) UFRJ 1 (FtM) – caracteres secundários transgenitalização (MtF) e mastectomia sim Sim 80% sim Não 3a4 sim Não (FtM) 19 (MtF) HCGOIANIA 8 (FtM) - 2 Transgenitalização, completas e histerectomia total, 6 caracteres vaginal, mastectomia secundários IEDE Não realiza cirurgia - Não realiza cirurgia Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ Desde 1997 vem ocorrendo um crescimento significativo do número de usuários(as) que se definem como transexuais e que procuram tratamento para a realização do processo transexualizador . Tendo como referência os dados coletados na pesquisa referida, no inicio de 2008, 700 mulheres transexuais (MtF - male to female) e 120 homens transexuais (FtM female to male) já haviam sido atendidos. Deste montante, 366 usuários(as) encontram-se em atendimento no momento - 256 mulheres transexuais (MtF) e 22 homens transexuais (FtM) estão em acompanhamento pré-operatório e 57 mulheres transexuais (MtF) e 31 homens transexuais (FtM) estão em acompanhamento pós-operatório -. O número de cirurgias já realizadas em mulheres transexuais (MtF), aproximadamente 160 até o início de 2008, é bem superior ao de cirurgias realizadas em homens transexuais (FtM), aproximadamente 30 no mesmo período, Nestes casos a maioria são modificações de caracteres sexuais secundários, já que a transexualização de mulher para homem é mais complexa e permanece sendo uma cirurgia experimental. No entanto, é importante destacar que estes números são aproximados. Considerando o aumento da visibilidade desta modalidade de assistência no último ano, é provável que o número de pacientes atendidos seja bem mais expressivo. Além disto, estes números não refletem a provável demanda reprimida e as barreiras de acesso na busca por este tratamento, principalmente pelo fato de não existir uma política de atenção básica para esta clientela. Não temos também o registro dos atendimentos realizados no setor privado. VII. Desafios para a Regulamentação do Processo Transexualizador no SUS A partir deste breve panorama do estado da arte da assistência a transexuais no Brasil, podemos perceber o enorme avanço que tem significado a gestão de políticas públicas para esta população. Vários atores sociais contribuíram para a promoção do debate público sobre o tema, dando visibilidade para a vulnerabilidade da população transexual no país. Dentre elas, destaca-se a valiosa contribuição dos coordenadores dos programas assistenciais que construíram um espaço de atenção a essa clientela, muitas vezes enfrentando enorme resistência institucional devido não apenas ao preconceito, à homofobia e à discriminação incutidas em algumas práticas de saúde, como também a dificuldades de compreensão da importância do principio da equidade. Além disso, foi de fundamental importância a ação do Ministério Público Federal para a inclusão da cirurgia de transgenitalização na tabela de procedimentos do SUS em 2001. A instituição do Comitê Técnico Saúde da População LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) pela Portaria GM nº. 2.227 em 2004, a Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ criação do Coletivo Nacional de Transexuais em 2005, as reuniões e seminários realizados no Ministério da Saúde sobre o processo transexualizador no SUS e as contribuição de pesquisadores acadêmicos permitiram o estabelecimento de pactuações sobre propostas de saúde integral. Todas essas iniciativas culminaram na publicação da Portaria nº 1.707/2008 do Ministério da Saúde, referida acima, que institui no Sistema Único de Saúde (SUS) o Processo Transexualizador, através da constituição de serviços de referência que estejam habilitados a prestar atenção integral e humanizada a transexuais. Todavia, as discussões sobre o tema não se encerram. É de fundamental importância o fortalecimento das medidas anunciadas pelo Ministério da Saúde com o estabelecimento de prazos e metas para o credenciamento dos serviços; a promoção de uma política de atenção básica; a imediata discussão sobre a especificidade da assistência a homens transexuais (FtM); a construção de uma rede com sistema jurídico para a mudança do nome civil independentemente da realização da cirurgia de transgenitalizaçõ entre outras. No entanto, do nosso ponto de vista, o grande desafio na regulação desta prática consiste em transitar entre a importância da normatização do acesso à saúde e o reconhecimento do sofrimento psíquico - implícitos no diagnostico de transtorno de identidade de gênero - e a necessidade da problematização da restrição da compreensão da experiência da transexualidade a partir deste diagnóstico psiquiátrico - implícitos na noção de saúde integral. Ainda que a transexualidade esteja definida como um transtorno mental e a institucionalização da assistência a essa população esteja baseada em um modelo biomédico, o fato de se definir uma política de saúde integral tendo como referência os princípios do SUS permite uma ampliação da noção de saúde, a qual não deve ficar restrita à ausência de doença. Desta forma, por um lado, deve-se considerar a noção de sofrimento psíquico e corporal como critério de acesso à saúde sem que necessariamente este sofrimento tenha que ser patologizado, já que um conceito positivo de saúde pressupõe que esta não se define nem por uma média nem por um ideal, mas por sua plasticidade normativa (MARTINS, 2004). Além disso, na perspectiva da integralidade, é fundamental levarmos em consideração a especificidade de cada encontro para a elaboração do projeto terapêutico de cada paciente de acordo com seus sofrimentos, suas expectativas, seus temores e seus desejos (MATTOS, 2004). Assim, o projeto terapêutico de modificação corporal de sexo deve levar em conta a diversidade e a singularidade das narrativas trans, nem todas as pessoas desejam e necessitam Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ os mesmos procedimentos de cuidado. Por outro lado, como dissemos anteriormente, mesmo considerando o inegável benefício que alguns serviços têm prestado a usuários transexuais, a exigência do diagnóstico psiquiátrico como condição de acesso ao tratamento permanece como um problema, sendo necessário colocar em questão a noção de “transexual verdadeiro”, fortemente veiculada nos manuais diagnósticos, que acaba por conceber um comportamento fixo, rígido, adequado às normas de feminilidade ou de masculinidade. Sabemos o quanto este diagnóstico veicula uma gramática normativa que acaba por considerar o transexualismo uma patologia (“transtorno de identidade”) - pelo simples fato da não-conformidade entre sexo biológico e gênero, sem nenhum outro fundamento psicopatológico. Nesta gramática, gêneros inteligíveis são aqueles que mantêm uma continuidade entre sexo, gênero, práticas sexuais e desejo, por intermédio dos quais a identidade é reconhecida e adquire efeito de substância. Em tal caso, os espectros de descontinuidade e incoerência transformados em patologia só se tornam concebíveis em função deste sistema normativo (ARÁN, 2006). No entanto, nas fronteiras da saúde, por influência do movimento feminista, do movimento de gays e lésbicas, e mais recentemente, do movimento de transexuais, travestis e transgêneros, alguns enunciados são deslocados dos discursos médicos e reapropriados em outros contextos, promovendo novos sujeitos do conhecimento, numa nova micropolítica de gênero. O que permanece como questão ética e política são os critérios para garantir o acesso às tecnologias de modificação do sexo corporal. É importante reconhecer que a noção de transexualidade tem sido utilizada de diversas formas. O Coletivo Nacional de Transexuais vem propondo a noção de homens e mulheres que vivenciam a transexualidade com o objetivo de enfatizar que a transexualidade não é uma identidade, justamente porque as pessoas se definem e se reconhecem como homens e mulheres e não como transexuais. Outros grupos preferem utilizar a definição Homens transexuais e Mulheres transexuais, incorporando em parte a noção de transexualidade como definição de si; e ainda um grupo minoritário prefere a noção de transgênero para expressar a possibilidade de um cruzamento de gêneros. Além disso, ainda que no meio médico exista uma clara distinção entre transexuais e travestis, vários pessoas transitam entre estas identidades. Finalmente, não há como não considerar que essas definições muitas vezes são moldadas a partir de uma exigência médica que prescreve a necessidade do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero como condição de acesso à saúde. Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ VIII. Referências AMARAL, S. M. Manual Prático dos Direitos de Homossexuais e Transexuais. São Paulo: Edições Inteligentes, 2003. ARÁN, M. Transexualismo e cirurgia de transgenitalização: Biopoder / Biopotência. Brasília: SérieAnis nº 39, LetrasLivres, 1-4, abril, 2005 _____ A Transexualidade e a gramática normativa do sistema sexo-gênero. Ágora Estudos em Teoria psicanalítica, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 49–63, 2006. _____ Algumas considerações sobre transexualidade e saúde pública no Brasil. Revista Polêmica, v. 1, p. 22, 2007. ARÁN, M. et al. 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Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ ANEXO 1 1. Programa de Transtorno de Identidade de Gênero (PROTIG) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Universidade Federal do Rio Grande do Sul Endereço: Ramiro Barcelos, 2350 - Porto Alegre, RS. CEP: 90035-003 Telefone: (51) 3201-8294 e-mail: [email protected] Responsável: Walter Koff (médico cirurgião) 2. Unidade de Urologia Reconstrutora Genital - Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE /UERJ) Endereço: Av. 28 de setembro, 77, 5º andar, Vila Isabel - Rio de Janeiro, RJ. ,CEP: 20550-900 Telefone: (21) 2587-6222 e-mail: [email protected] Responsável: Eloísio Alexsandro da Silva (médico cirurgião) 3. Ambulatório de Transexualidade - Projeto Sexualidade (PROSEX) - Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP) Endereço: Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar,255, Cerqueira - São Paulo, SP. ,CEP: 05403-000 Telefone: (11) 3069-6284/(11) 3069-6267 e-mail: [email protected] Responsável: Alexandre Saadeh (psiquiatra) 4. Projeto Transexualismo - Hospital das Clínicas de Goiânia Endereço: 1ª Avenida s/n - Praça Universitária, Setor Universitário – Goiânia, GO.,EP: 74605-220 Telefone: (62) 9971-8552 e-mail: [email protected] Responsável: Mariluza Terra da Silveira Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ 5. Programa de Atendimento a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho/ UFRJ Endereço: Av. Prof. Rodolpho Paulo Rocco 255 - Rio de Janeiro, RJ. CEP: 21941-913 Telefone: (21) 25622601 e-mail: [email protected] Responsável: Sérgio Zaidhaft (psiquiatra) 6. Ambulatório de Endocrinologia Especial (Transtorno de Identidade de Gênero) Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE) Endereço: Rua Moncorvo Filho 90, Centro - Rio de Janeiro, RJ. CEP:20211-340 Telefone: (21) 22999285 e-mail: [email protected] Responsáveis: Jane Lílian Soares de Melo Silveira (endocrinologista) e Thaís Ribeiro (psicóloga) 7. Hospital das Clínicas da UFMG Endereço: Av. Alfredo Balena - Belo Horizonte, MG. CEP: 30130-100 Telefone: (31) 3248-9300 Responsável: 8. Transexualidade - Serviço de Urologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - Faculdade de Medicina e Hospital de Base Endereço: Av. Brigadeiro Faria Lima, 5416 - São José do Rio Preto, SP, CEP: 15090-000 Telefone: (17) 3201-5000 / (17) 3201-5700 e-mail: [email protected] Responsável: Carlos Abib Cury (médico cirurgião) 9. Atendimento Ambulatorial a Transexuais - Hospital Universitário de Brasília Endereço: Av. L - 2 Norte - Quadra 605 – Brasília, DF. CEP: 70732-500 Telefone: (61) 9914-5846 e-mail: Responsável: Sandra Romero Studart Pesquisa Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado integral (CNPq / MS-SCTIE-DECIT) Instituto de Medicina Social – UERJ 10. Departamento de Psicologia - Instituto Paulista de Sexualidade Endereço: Rua Traipu, 523 - São Paulo, SP. CEP: 01235-000 Telefone: (11) 36623139 / (11) 36665421 e-mail:: [email protected] Responsável: Oswaldo M. Rodrigues Jr. (psicólogo)