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Interacções de Produtos à Base de
Plantas com Medicamentos - II
Catha edulis
Um estudo mostrou que os efeitos antimicrobianos de algumas penicilinas podem ser diminuídos.
Crataegus oxyacantha – Pirliteiro
Possível potenciação dos efeitos da digoxina, podendo interferir farmacodinamicamente ou com a sua monitori zação.
Curcuma longa – Cúrcuma
Possui acção antiplaquetar, havendo possibilidade de efeitos aditivos com antiagregantes plaquetares.
Cyamopsis tetragonolobus – Goma guar
Provoca retenção gástrica, o que pode diminuir ou retardar a absorção de outros medicamentos. Foi referido atraso
na absorção da digoxina e diminuição da absorção de metformina, fenoximetilpenicilina e algumas formulações de glibenclamida. É aconselhável separar a sua administração da destes fármacos.
Echinacea spp. (angustifolia, pallida, purpurea)
Dados obtidos in vitro sugerem inibição da actividade da isoenzima CYP3A4, o que pode aumentar os níveis séricos
e os efeitos adversos de fármacos por ela metabolizados. Não existem, contudo, relatos de interacções atribuídas
a esta planta. Recomenda-se que seja evitada por doentes sob terapêutica imunossupressora pois, teoricamente,
pode contrariar os seus efeitos.
Ephedra spp. – Efedra
Entre os constituintes desta planta conta-se a efedrina. A sua actividade agonista dos receptores adrenérgicos pode
antagonizar os efeitos de fármacosanti-hipertensores, nomeadamente dos bloqueadores beta-adrenérgicos.
Não deve ser utilizada por doentes a tomar inibidores da monoaminoxidase (IMAO), metilxantinas como a
cafeína e a teo.lina , glicosidos cardíacos e descongestionantes, por aumento do risco de toxicidade. Os
doentes que vão ser submetidos a anestesia devem descontinuar produtos contendo efedrina antes de uma cirurgia, devido a potencial interacção com anestésicos gerais, que pode produzir arritmias.
Eleutherococcus senticosus – Ginseng siberiano
Um caso relatado na literatura de aumento dos níveis séricos de digoxina num doente a tomar um produto com
esta planta. Contudo, é possível que tal se deva a interferência no método analítico utilizado para o doseamento,
ou a conversão in vivo de um componente.
Eugenia caryophyllata – Cravinho
Recomendada precaução no uso com anticoagulantes pela possibilidade teórica de aumento do risco de hemorragia, devido à acção antiplaquetar do eugenol.
Fucus spp. (vesiculosus e outras)
Teoricamente o seu conteúdo em iodo pode causar hipo ou hipertiroidismo e interferência com tratamentos pre-existentes para a função tiróidea (hormonas da tiróide ou antitiróideos).
Ginkgo biloba – Ginkgo
Está possivelmente associado a um caso de coma em doente de Alzheimer a tomar trazodona, pensa-se que por
possível aumento de actividade GABAérgica causada por .avonóides do gingko.
O ginkgo tem actividade inibidora da agregação plaquetar. Existem casos clínicos descritos na literatu
ra de hemorragias associadas ao seu uso isoladamente – 1 caso de hematoma subdural frontal e outro
de hemorragia subaracnoideia – ou quando usado com outros fármacos – hifema espontâneo em doente
que tomava simultaneamente ácido acetilsalicílico (AAS), hematomas subdurais bilaterais em doente
que tinha tomado uma associação de cafeína e ergotamina por um curto período de tempo, e hemorragia cerebral em doente a tomar varfarina concomitantemente. Estas evidências desaconselham o uso do
ginkgo em doentes a tomar antiagregantes plaquetares, anticoagulantes e anti-inflamatórios não
esteróides (AINE).
Há um caso pouco documentado de aumento da pressão arterial em doente a tomar um diurético tiazídico.
Com antidiabéticos, é possível um aumento do risco de hipoglicémia, recomendando-se vigilância.
Glycirrhiza glabra – Alcaçuz
A acção mineralocorticóide do alcaçuz causa hipocaliémia e retenção de sódio. Quantidades muito elevadas podem
causar pseudoaldosteronismo, que pode afectar o tratamento de insuficiência cardíaca, hipertensão e o controlo de
níveis de potássio. A toma com anti-hipertensivos pode dificultar o controlo da hipertensão. O uso concomitante
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com glicosidos cardíacos requer uma monitorização rigorosa, já que pode potenciar o seu efeito e provocar hi pocaliémia quando tomado com digoxina.
A hipocaliémia pode agravar a intolerância à glucose, o que pode interferir com a acção dos hipoglicemiantes.
Estudos in vitro demonstraram que possui actividade antiplaquetar, podendo, potencialmente, aumentar o tempo
de hemorragia. Contudo, não existem dados na literatura de interacção com a varfarina.
Esta planta foi associada a aumento das concentrações plasmáticas de prednisolona e potencia a resposta vasoconstritora cutânea à hidrocortisona. Pode interferir com terapêutica hormonal. Com contraceptivos orais foi
referido o aparecimento de hipertensão, edema e hipocaliémia.
Harpagophytum procumbens – Garra do diabo
Há descrição de um caso pouco documentado de púrpura num doente a tomar simultaneamente varfarina.
Humulus lupulus – Lúpulo
Potenciação da acção de sedativos.
Hypericum perforatum – Hipericão
Ao contrário do que os estudos in vitro pareciam indicar, o hipericão é indutor da isoenzima CYP3A4 do citocromo
P450, aumentando a metabolização dos seus substratos. Por outro lado, vai aumentar a expressão de um trans portador transmembranar intestinal de fármacos, a glicoproteína-P, que remove fármacos para fora da membrana
celular, diminuindo as suas concentrações intracelulares. Ambos os mecanismos contribuem para a redução dos
níveis séricos de vários fármacos.
A toma de hipericão foi associada a diminuição da concentração plasmática do indinavir. É teoricamente pos sível a extensão desta interacção a fármacos que utilizem o mesmo isoenzima do citocromo P450, como outros
IPs ou INNTIs, recomendado-se que doentes a fazer terapêutica com IPs ou INNTIs não utilizem produtos à base
desta planta, já que os níveis subterapêuticos dos anti-retrovirais poderiam conduzir ao desenvolvimento de resistência viral.
Estão descritos múltiplos casos de franca redução dos níveis séricos deciclosporina em doentes a tomar simultaneamente hipericão, alguns conduzindo a rejeição aguda de órgãos transplantados.
O uso concomitante com contraceptivos orais parece ser responsável por vários casos de hemorragia intermens
trual, receando-se a perda de eficácia contraceptiva por aumento da metabolização do contraceptivo oral.
Os efeitos indutores enzimáticos são também responsáveis por vários casos de diminuição do INR em doentes sob
terapêutica com varfarina.
Outros fármacos para os quais também pode ocorrer diminuição dos níveis plasmáticos são substratos do CYP3A4,
nomeadamente a femprocumona, amitriptilina e teofilina – um caso clínico descrito. Diminui também a área
sob a curva (AUC) do alprazolam e tende a aumentar o metabolismo do dextrometrofano. Provoca ainda diminuição nos níveis séricos de digoxina, mas neste caso pela acção, anteriormente descrita, sobre a glicoproteína-P.
Adicionalmente, parar o hipericão pode resultar em aumento da concentração plasmática dos fármacos e em possível toxicidade.
Estão descritos na literatura diversos casos de interacção entre o hipericão eantidepressivos – sertralina, paroxetina, nefazodona e venlafaxina, com sintomas semelhantes à sindroma serotoninérgica, que se pensa serem
devidos a efeitos serotoninérgicos aditivos. A síndroma serotoninérgica é uma forma de hiperactividade do sistema
nervoso central (SNC) que causa hipotensão, sudação, taquicárdia e espasmos musculares. É potencialmente grave e pode ser fatal especialmente no idoso. Recomenda-se, portanto, que o hipericão não seja usado concomitantemente com inibidores selectivos da recaptação da serotonina (ISRSs). De igual modo, também o uso com
IMAOs está desaconselhado, enquanto não se esclarecer se o mecanismo de acção do hipericão está relacionado
com inibição desta enzima, sendo também prudente evitar alimentos contendo tiramina. Com triptanos (sumatriptano, rizatriptano e zolmitriptano), há aumento dos efeitos serotoninérgicos, com maior incidência de
reacções adversas.
O hipericão possui efeitos fotossensibilizantes, recomendando-se precaução na associação com fármacos com
esta propriedade, como p. ex. tetraciclinas, piroxicam e amiodarona.
Outras potenciais interacções referidas na literatura:
Doente a tomar loperamida e valeriana que desenvolveu desorientação, agitação e confusão – desconhece-se
com qual dos fármacos o hipericão terá interagido.
Possibilidade teórica de prolongamento do efeito de narcóticos e de diminuição dos efeitos de anticonvulsivantes e antidiabéticos.
Medicago sativa – Alfalfa
A sua acção estrogénica pode, em dose excessiva, interferir com terapia hormonal, incluindo contraceptivos
orais e terapêutica de substituição hormonal.
Com base na acção antiplaquetar do produto, é teoricamente possível um aumento do risco de hemorragia com
anticoagulantes.
Mormodica charantia
Tem acção antidiabética. Com clorpropamida, referido um caso de possível aumento do risco de hipoglicémia.
A. Mendes
A. Simón
A bibliografia será publicada com a parte III
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