Universidade Positivo
Mestrado Profissional em Gestão Ambiental
AVALIAÇÃO DA CORRELAÇÃO ENTRE A CONCENTRAÇÃO
DE POLUENTES ATMOSFÉRICOS E A MORTALIDADE DE
IDOSOS NO MUNICÍPIO DE CURITIBA
GUILHERME AUGUSTO ROBLES ESQUIVEL
CURITIBA
2010
GUILHERME AUGUSTO ROBLES ESQUIVEL
AVALIAÇÃO DA CORRELAÇÃO ENTRE A CONCENTRAÇÃO DE POLUENTES
ATMOSFÉRICOS E A MORTALIDADE DE IDOSOS NO MUNICÍPIO DE CURITIBA
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GUILHERME AUGUSTO ROBLES ESQUIVEL
AVALIAÇÃO DA CORRELAÇÃO ENTRE A CONCENTRAÇÃO
DE POLUENTES ATMOSFÉRICOS E A MORTALIDADE DE
IDOSOS NO MUNICÍPIO DE CURITIBA
Dissertação apresentada como requisito
parcial para obtenção do título de Mestre em
Gestão Ambiental do curso de Mestrado
Profissional em Gestão Ambiental da
Universidade Positivo.
Prof. Orientador Dr. Júlio Gomes
CURITIBA
2010
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca da Universidade Positivo - Curitiba – PR
E77
Esquivel, Guilherme Augusto Robles.
Avaliação da correlação entre a concentração de poluentes
atmosféricos e a mortalidade de idosos no município de Curitiba /.
Guilherme Augusto Robles Esquivel Curitiba : Universidade
Positivo, 2010.
118 p. : il.
Dissertação (mestrado) – Universidade Positivo, 2010.
Orientador : Prof. Dr. Júlio Gomes.
1. Qualidade do ar. 2. Idosos - Mortalidade.
I. Título.
CDU 504.064
TÍTULO: “AVALIAÇÃO DA CORRELAÇÃO ENTRE A CONCENTRAÇÃO DE
POLUENTES ATMOSFÉRICOS E A MORTALIDADE DE IDOSOS NO MUNICÍPIO
DE CURITIBA”
ESTA DISSERTAÇÃO FOI JULGADA ADEQUADA COMO REQUISITO PARCIAL
PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM GESTÃO AMBIENTAL (área de
concentração:
gestão
ambiental)
PELO
PROGRAMA
DE
MESTRADO
PROFISSIONAL EM GESTÃO AMBIENTAL DA UNIVERSIDADE POSITIVO. A
DISSERTAÇÃO FOI APROVADA EM SUA FORMA FINAL EM SESSÃO PÚBLICA
DE DEFESA, NO DIA 28 DE MAIO DE 2010, PELA BANCA EXAMINADORA
COMPOSTA PELOS SEGUINTES PROFESSORES:
1) Prof. Dr. Júlio Gomes – Universidade Positivo (Presidente);
2) Prof. Dr. Andreas Friedrich Grauer – Universidade de Stuttgart, UNIS
(Examinador);
3) Prof. Dr. Mario Sergio Michaliszyn – Universidade Positivo (Examinador);
4) Profª. Drª. Eliane Carvalho de Vasconcelos – Universidade Positivo
(Examinadora).
CURITIBA – PR, BRASIL
__________________________________
PROF. DR. MAURÍCIO DZIEDZIC
COORDENADOR DO PROGRAMA DE MESTRADO EM GESTÃO AMBIENTAL
Meu espelho, minha origem e meu
futuro. Identifico-me completamente
contigo. Cúmplice e entusiasta.
Empreendedora e culta. Sinto sua
presença a centenas de quilômetros
de distância. A Edith Silveira,
madrinha e avó amada, dedico este
trabalho.
AGRADECIMENTOS
Agradeço à Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que me proporcionou o
ingresso no curso de mestrado em gestão ambiental da Universidade Positivo. À
Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba e ao Instituto Ambiental do Paraná, pelo
fornecimento dos dados necessários à realização deste estudo.
Ao meu orientador, professor Júlio Gomes. Agradeço pela dedicação,
comprometimento, seriedade e amizade. Conduziu os trabalhos de forma
espetacular. Aos professores da banca examinadora: Andréas Grauer, Eliane
Vasconcelos e Mario Michaliszyn. Sugestões, idéias e críticas construtivas.
Lapidaram esta dissertação. Obrigado!
Ao Mario Raseira, quem procurei em meados de 2008 visando uma bolsa
para ingressar no curso de mestrado. Uma conversa de poucos minutos que alterou
o rumo de minha vida. Registro aqui minha lembrança, estima e gratidão.
A amiga Aimara Tavares. Informações, dados, esclarecimentos e apoio.
Muitas dúvidas foram sanadas em nossas conversas. Obrigado!
Aos amigos Dâmaris Seraphin, Juliana Ribeiro, Márcia Frasson, Marco
Corsico e Ricardo Ribas. Parceria, cumplicidade e sábios conselhos. Vocês
contribuíram do início ao término deste trabalho. Muito Obrigado!
Aos técnicos da divisão MAPM-5. Todos. Agradeço pelo grande apoio e
incentivo. Pela amizade e união.
Às minhas lindas amigas Ariene Yoshiyasu, Elizabete Rodrigues, Isabelle
Beltrão, Louise Vicente e Nátalie Gruber. Vejo em vocês duas virtudes que busco
em tudo que faço: alegria e confiança. Contribuição importante nesta reta final.
Agradeço pela motivação e carinho.
Aos meus sócios Daniel de Lima, Eduardo Santini, Gilmar de Oliveira e
Pedro Baraldi. Uma verdadeira benção que aconteceu em minha vida. Procurei
vocês (talvez inconscientemente) por muitos e muitos anos. Maktub. Cumplicidade,
trabalho e realizações. Palavras intrínsecas em tudo o que fazemos, desde o início.
Há contribuição de vocês em cada página deste trabalho. Obrigado pelo incentivo e,
principalmente, pela compreensão.
À papiloscopista policial Milene Graciotto, pelo verdadeiro milagre que
promoveu em minha vida. Guerreira e leal, talvez as mais marcantes de suas
inúmeras virtudes. Muito me influenciou no decorrer deste trabalho. Aprendi com ela
a lidar, um pouco melhor, com o mais valioso sentimento: o amor. Aprendi a amá-la,
a amar minha família, meus amigos e, acreditem, até mesmo esta dissertação. Mi,
você é parte de mim. A parte mais sóbria e sensata. A minha sanidade. Este
trabalho tem enorme influência sua. Agradeço pela imensurável transformação em
minha vida. Te amo e te admiro. Hoje e sempre.
Lucas Esquivel. No decorrer deste trabalho passamos juntos por momentos
muito difíceis. Juntos! Superação, bondade e realizações surpreendentes. Palavras
que me lembram você, Lucas. Registro aqui, meu irmão amado, os meus sinceros
agradecimentos. Ah, o empréstimo de seu computador foi fundamental à finalização
da dissertação. E você ficava sem poker! Obrigado!
À minha irmã Talita Esquivel. Artista e criativa. Que dom incrível. Mestre Tali,
obrigado pelos conselhos no decorrer deste trabalho. Encurtaram muitos caminhos.
Você me surpreende e me orgulha. Sempre!
Ao João Alvaro Silveira. Obrigado pelos exemplos. E são muitos. Exemplo
de trabalho, pragmatismo, competência, ética e fibra. Ouço elogios a você onde quer
que eu vá. Me envaidece. Pai, se eu produzir e fizer ao longo de toda minha vida
algo próximo à metade do que você produziu e fez até hoje (e você não para!), serei
um homem completamente realizado. Obrigado por tudo!
E, finalmente, a pessoa com quem tenho maior vínculo nesta vida: Delvani
Silveira. Espiritualidade, sabedoria e amor. Obrigado por nunca medir esforços para
me “educar”. Não te arrependerás. Há quem diga que, antes mesmo de nascermos,
escolhemos as pessoas com quem nos relacionaremos em nossa vida. Informação
difícil de ser confirmada. O que posso afirmar é que, se eu pudesse, antes de
nascer, escolher alguém para ser minha mãe, a escolhida seria você! Este trabalho
é mais “seu” do que “meu”. Se cheguei até aqui, foi devido aos seus conselhos e
ensinamentos. Conversas enriquecedoras. Idéias. Agradeço por suas prioridades:
roupas velhas, mas... livros novos! Agradeço por todos, desde a infância. Até
mesmo os que você me deu e eu não li (um dia leio!). Moldaram minha
personalidade e caráter. Enraizaram-se em minha alma. Influenciam tudo que faço.
O tempo todo. A cada minuto. Ad Eternum. Como meu amor incondicional a você!
“Pudesse eu compensar toda a valia
Dedicação, bondade, todo o amor!
O sacrifício teu, de cada dia
Curar tuas feridas, tua dor
Pudesse renovar sempre a alegria
No brilho dos teus olhos ver fulgor
Em teu espírito, a paz, a harmonia
Reviver em teus lábios o dulçor
Pudesse muito mais...”
Clovis Silveira, 12/05/1962
RESUMO
São muito conhecidos os episódios de poluição do ar ocorridos na Europa e nos
Estados Unidos durante a década de 40 e 50. Após a ocorrência destes episódios,
muitos estudos relatam associação entre os níveis de poluentes e indicadores de
saúde pública, como a mortalidade. Este estudo tem por objetivo verificar a
associação de curto prazo entre a concentração de poluentes atmosféricos e a
mortalidade de idosos no município de Curitiba. Já foi verificada a correlação
positiva entre a concentração dos poluentes e o número de internamentos de
crianças no município de Curitiba. A metodologia consistiu na obtenção dos dados
junto
aos
órgãos
responsáveis.
Posteriormente
os
dados
foram
tratados
estatisticamente. Uma análise preliminar revelou significativa quantidade de dias
sem resultados nas séries de dados de alguns poluentes. Foram selecionados os
seguintes poluentes para análise: dióxido de enxofre, ozônio e partículas totais em
suspensão. Os resultados apontam para relação positiva e estatisticamente
significativa entre os níveis de partículas totais em suspensão e a mortalidade de
idosos por todas as causas e por doenças respiratórias. O ozônio não se apresentou
associado à mortalidade de idosos em Curitiba no período em estudo. Em relação
ao dióxido de enxofre, não se pode afirmar se o mesmo se encontra associado à
mortalidade, pois apesar de obtenção de coeficientes positivos, as análises não
produziram resultados significativos estatisticamente. Conclui-se que a concentração
de partículas totais em suspensão esteve associada à mortalidade de idosos no
Município de Curitiba, mesmo com seus níveis atendendo aos padrões
estabelecidos pela Legislação Vigente, durante o período em estudo.
Palavras Chave: Poluição do Ar, Idosos e Mortalidade
ABSTRACT
There are several well-known air pollution episodes occurring in Europe and in the
United States during the 1940s and 1950s. Many studies have reported association
between pollution levels and public health indicators, such as mortality, since the
occurrence of those episodes. This study aims to investigate the association between
daily mean concentration of atmospheric pollutants and the mortality among elderly
people in Curitiba city. It has been verified the positive correlation between the
concentration of atmospheric pollutants and the number of children hospitalizations in
Curitiba city. The mortality data were obtained from Curitiba Health Department and
the air quality data were obtained from Paraná State Environmental Institute. The air
quality data are from two monitoring stations, located at the Ouvidor Pardinho Square
and the Santa Casa Hospital. The data comprises the period from 2003 to 2008. A
preliminary analysis of the air quality data revealed a significant amount of days
without observations for some pollutants. From the preliminary analysis were
selected, for correlation and multiple regression analyses, the following pollutants:
total suspended particles, sulfur dioxide e ozone. The results indicated positive and
statistically significant relationship between the total suspended particles levels and
mortality among elderly people by all causes and by respiratory diseases. In relation
to sulfur dioxide, one cannot say whether it is associated to the mortality among
elderly people because, despite obtaining positive correlation and regression
coefficients, the analysis did not yield statistically significant results. The ozone did
not seem to be associated to the mortality among elderly people in Curitiba city. The
main conclusion is that the concentration of total suspended particulates was
associated to mortality among elderly people in Curitiba city, even with the observed
concentrations meeting the legal standards imposed by legislation. The comments
and conclusions are valid considering the study period of time (2003-2008).
Keywords: Air Pollution, Elderly People and Mortality
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Processo de alisamento de uma série de óbitos ..................................... 52
Figura 2 – Localização das estações amostradoras da qualidade do ar .................. 55
Figura 3 – Estação Amostradora do Ar na Praça Ouvidor Pardinho (IAP, 2009) ..... 57
Figura 4 – Localização da Estação Amostradora do Ar na Santa Casa de Curitiba
(Fonte: IAP, 2009) .................................................................................................... 58
Figura 5 – Resultados do monitoramento da qualidade do ar divulgados pelo Instituto
Ambiental do Paraná (2010)..................................................................................... 59
Figura 6 – Pirâmide etária do município de Curitiba no ano 2007 (IPPUC, 2009).... 62
Figura 7 – Densidade demográfica por bairro no ano de 2007 (IPPUC, 2009). ....... 64
Figura 8 – Porcentagem de idosos com idade superior a 65 anos, por bairro do
município de Curitiba (IPPUC, 2009)........................................................................ 65
Figura 9 – Concentrações médias anuais de SO2, Fumaça e PTS no período de
1990 a 2008. Estação Santa Casa (IAP, 2009). ...................................................... 67
Figura 10 – Valores de concentração média diária de partículas totais em suspensão
(PTS) observados nas estações localizadas na Praça Ouvidor Pardinho e na Santa
Casa ......................................................................................................................... 69
Figura 11 – Valores da concentração média mensal de PTS nas estações
localizadas na Praça Ouvidor Pardinho e na Santa Casa ........................................ 70
Figura 12 – Média das concentrações médias mensais de partículas totais em
suspensão (PTS) na estação Ouvidor Pardinho e estação Santa Casa durante o
período 2003 a 2008................................................................................................. 71
Figura 13 – Média geométrica anual do poluente partículas totais em suspensão
(PTS) na estação Ouvidor Pardinho e estação Santa Casa..................................... 72
Figura 14 – Concentrações médias diárias de dióxido de enxofre (SO2) na estação
Ouvidor Pardinho e na estação Santa Casa............................................................. 73
Figura 15 – Concentração média mensal de dióxido de enxofre (SO2) nas estações
localizadas na Praça Ouvidor Pardinho e Santa Casa ............................................. 74
Figura 16 – Média por mês da concentração de dióxido de enxofre (SO2) na estação
Ouvidor Pardinho e na estação Santa Casa............................................................. 75
Figura 17 – Concentração média anual do poluente dióxido de enxofre (SO2) na
estação Ouvidor Pardinho e na estação Santa Casa. .............................................. 76
Figura 18 – Concentração média diária de Ozônio (O3) na estação localizada na
Praça Ouvidor Pardinho ........................................................................................... 77
Figura 19 – Concentração média mensal de Ozônio (O3) na estação Ouvidor
Pardinho ................................................................................................................... 78
Figura 20 – Médias da concentração média mensal de ozônio (O3) na estação
Ouvidor Pardinho durante o período em estudo....................................................... 79
Figura 21 – Concentração média anual do poluente ozônio (O3) na estação Ouvidor
Pardinho ................................................................................................................... 80
Figura 22 – Número de óbitos anual de idosos por doenças do aparelho respiratório
e número de óbitos anual de idosos por todas as causas no período compreendido
entre os anos 2003 a 2008. ...................................................................................... 82
Figura 23 – Mortalidade diária de idosos por todas as causas em Curitiba no período
compreendido entre os anos 2003 a 2008. .............................................................. 83
Figura 24 – Mortalidade mensal de idosos por todas as causas em Curitiba no
período compreendido entre os anos 2003 a 2008. ................................................. 84
Figura 25 – Porcentagem média mensal de óbitos de idosos, por todas as causas,
em Curitiba, no período compreendido entre os anos 2003 a 2008. ........................ 85
Figura 26 – Mortalidade diária de idosos em Curitiba por doenças do aparelho
respiratório no período compreendido entre os anos 2003 e 2008. ......................... 86
Figura 27 – Mortalidade mensal de idosos por doenças do aparelho respiratório no
período compreendido entre os anos 2003 e 2008. ................................................. 87
Figura 28 – Porcentagem média mensal de óbitos de idosos em Curitiba por
doenças do aparelho respiratório no período entre os anos 2003 e 2008................ 88
Figura 29 – Coeficientes de correlação de Pearson para os dados originais, obtidos
com o uso do programa SPSS 16.0. ........................................................................ 89
Figura 30 – Coeficientes de correlação de Pearson entre os dados tratados, obtidos
com o uso do programa SPSS 16. ........................................................................... 92
Figura 31 – Coeficientes de correlação de Pearson entre as séries temporais
compostas pela média de três dias e as demais variáveis, obtidos com o uso do
software SPSS 16.0.................................................................................................. 95
Figura 32 – Resultado da análise de regressão múltipla entre a série alisada de
óbitos por todas as causas e a concentração de partículas totais em suspensão. 100
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Principais efeitos respiratórios da poluição atmosférica, segundo a
American Toracic Society (CANÇADO et al., 2006) ................................................. 32
Tabela 2 – Padrões primários e secundários de poluentes atmosféricos adotados no
Paraná e no Brasil .................................................................................................... 43
Tabela 3 – Limites apontados pelas diretrizes da Organização Mundial da Saúde.. 44
Tabela 4 – Critérios para definição de episódios críticos de poluição do ar ............. 45
Tabela 5 – Parâmetros Analisados pelas Estações Amostradoras de Curitiba e
Região Metropolitana de Curitiba em 2008 .............................................................. 56
Tabela 6 – Idosos no Município de Curitiba durante o período de 2003 a 2008....... 63
Tabela 7 – Número de dias sem resultados de concentração dos poluentes
analisados pelas estações localizadas na Santa Casa e na Praça Ouvidor Pardinho
no período compreendido entre os anos 2003 e 2008. ............................................ 68
Tabela 8 – Número de óbitos no município de Curitiba por causa principal do óbito
de acordo com a classificação do CID-10 (DATASUS, 2009). ................................. 81
Tabela 9 – Coeficiente de Regressão e Grau de Significância Estatística ............. 101
Tabela 10 – Estimativa de incremento na porcentagem de óbitos totais com base em
uma elevação de 10%, 20% e 50% na concentração de PTS observada na estação
Santa Casa............................................................................................................. 102
Tabela 11 – Estimativa de incremento no número de óbitos por doenças respiratórias
com base em uma elevação de 10%, 20% e 50% na concentração de PTS
observada na estação Ouvidor Pardinho................................................................ 102
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 17
1.2 JUSTIFICATIVA.................................................................................................. 20
1.3 OBJETIVO GERAL............................................................................................. 21
2 REVISÃO DA LITERATURA ................................................................................. 22
2.1 PRINCIPAIS POLUENTES NA ATMOSFERA ................................................... 22
2.1.1 Material Particulado ......................................................................................... 25
2.1.2 Ozônio (O3)...................................................................................................... 26
2.1.3 Dióxido de Enxofre (SO2)................................................................................. 27
2.1.4 Monóxido de Carbono (CO)............................................................................. 28
2.1.5 Óxidos Nitrosos (NOx) ..................................................................................... 29
2.2 EFEITOS DA POLUIÇÃO DO AR SOBRE A SAÚDE HUMANA ........................ 30
2.3 CORRELAÇÃO ENTRE A QUALIDADE DO AR E A SAÚDE HUMANA............ 34
2.4 PADRÕES DE QUALIDADE DO AR .................................................................. 40
3 ÁREA DE ESTUDO E METODOLOGIA ................................................................ 46
3.1 ÁREA DE ESTUDO ............................................................................................ 46
3.2 METODOLOGIA ................................................................................................. 47
3.2.1 Análise Preliminar dos Dados.......................................................................... 49
3.2.2 Análise da Correlação Simples........................................................................ 49
3.2.3 Análise da Correlação Simples – Dados Tratados .......................................... 51
3.2.3 Análise de Regressão Múltipla ........................................................................ 54
3.3 DADOS DE QUALIDADE DO AR EM CURITIBA ............................................... 54
3.4 DADOS DE MORTALIDADE DE IDOSOS EM CURITIBA ................................. 60
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO............................................................................. 62
4.1 ANÁLISE PRELIMINAR DOS DADOS ............................................................... 62
4.1.1 População Idosa na Área de Estudo ............................................................... 62
4.1.2 Dados de Qualidade do Ar .............................................................................. 66
4.1.3 Dados de Mortalidade...................................................................................... 80
4.2 ANÁLISE DA CORRELAÇÃO E REGRESSÃO ENTRE OS DADOS DE
MORTALIDADE E AS CONCENTRAÇÕES DE POLUENTES ................................ 88
4.2.1 Análise da Correlação Simples........................................................................ 88
4.2.2 Análise de Regressão Múltipla ........................................................................ 99
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES.............................................................. 105
REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 110
17
1 INTRODUÇÃO
As cidades se destacam por possibilitar vantagens de acesso à habitação,
abastecimento, energia, saneamento, meio técnico, saúde, educação e lazer aos
seus habitantes. Estas facilidades também trouxeram problemas como segregação
social, engarrafamentos, individualismo, anonimato, acidentes, poluição do meio
urbano e muitos outros. Em muitas cidades e regiões metropolitanas, os problemas
ambientais, que decorrem do intenso crescimento populacional em conjunto com os
advindos dos aspectos socioeconômicos, resultam frequentemente em situações de
colapso de seu meio: episódios de transbordamento de rios ou rede de esgotos,
desmoronamentos de morros e situações de comprometimento da qualidade do ar
(DANNI-OLIVEIRA, 1999).
O ambiente urbano apresenta-se em situação de grande alteração de suas
características naturais, pois as modificações promovidas pelo homem ao longo da
história do desenvolvimento das cidades resultaram na degradação de recursos
naturais, como o ar, a água e o solo, comprometendo inclusive a qualidade de vida
presente e futura nas cidades (MALHEIROS e ASSUNÇÃO, 2000).
As modificações na composição do ar atmosférico são fenômenos inerentes
à vida existente na Terra, porém aceleradas pelas atividades humanas. A poluição
atmosférica consiste da presença de substâncias contaminantes que, a partir de
determinadas concentrações, são capazes de provocar danos à saúde e à
segurança e afetar o bem estar dos seres humanos, animais e dos vegetais.
Até meados do século XX, privilegiava-se a produção industrial em
detrimento à qualidade de vida dos residentes das cidades. Praticamente não eram
tomadas providências para controlar a emissão de poluentes para atmosfera
(DANNI-OLIVEIRA, 2008). Episódios críticos de poluição do ar, com perdas de vidas
e danos à saúde, foram registrados no mundo inteiro, decorrentes de emissões
antrópicas aliadas a condições meteorológicas de pouca dispersão de poluentes
atmosféricos (MALHEIROS e ASSUNÇÃO, 2000; DANNI-OLIVEIRA, 2008).
Segundo Cançado et al. (2006), a poluição atmosférica pode ser definida
como a presença de determinadas substâncias na atmosfera, resultantes de
18
atividades humanas ou de processos naturais, em concentrações suficientes para
interferir direta ou indiretamente na saúde, segurança ou bem estar dos seres vivos.
Nos grandes centros urbanos, a contaminação do ar tem sido um grave
problema no último século, merecendo atenção da comunidade científica por ser
uma fonte de possíveis problemas à saúde da população. A relação entre a poluição
do ar e a mortalidade tem sido observada em diversas regiões do planeta, sendo as
crianças e os idosos os grupos mais vulneráveis (KINNEY e OZKAYNAK, 1991;
SALDIVA et al., 1995; OSTRO et al., 2006 ; DANNI-OLIVEIRA, 2008).
De acordo com Danni-Oliveira (2008), até praticamente o final do século XIX,
a principal fonte de contaminantes da atmosfera nas cidades eram a queima do
carvão mineral usado nas residências e nas indústrias. Atualmente, os principais
agentes poluentes são formados por subprodutos da queima incompleta de
combustíveis fósseis, principalmente o diesel (JUNGER et al., 2005).
A relação entre saúde, meio ambiente e desenvolvimento já é reconhecida há
muito tempo. Entretanto, o modelo de desenvolvimento econômico, social e
industrial, baseado na produção e consumo em massa, vem provocando danos
irreversíveis ao meio ambiente com inevitáveis repercussões à saúde humana
(NOVAKOSKI, 2006).
Os estudos sobre a relação entre a poluição atmosférica e os danos à saúde
humana se intensificaram a partir da ocorrência de episódios agudos de
contaminação do ar. São muito conhecidos três episódios de elevação abrupta da
concentração de poluentes na atmosfera, ocorridos no início do século XX, que
ocasionaram aumento no número de óbitos e internamentos por problemas
respiratórios e que ocorreram no Vale do Meuse (Bélgica), Donora (EUA) e em
Londres (Inglaterra) (DUCHIADE, 1992; DANNI-OLIVEIRA, 2008; BAKONYI, 2009).
Em Londres, por exemplo, foi constatado um incremento no número de mortes de
300 pessoas em 1948 e de 4.000 pessoas em 1952.
Após estes episódios, diversos países adotaram medidas visando à redução
da concentração de poluentes na atmosfera (LOGAN, 1953; SCHWARTZ E
MARCUS, 1990; DANNI-OLIVEIRA, 2008).
O episódio do Vale do rio Meuse, na Bélgica, ocorrido em dezembro de
1930, resultou de emissões de indústrias siderúrgicas associadas às más condições
de dispersão, que elevaram as concentrações de material particulado e compostos
19
contendo enxofre na atmosfera, tendo como consequência a morte de cerca de
sessenta pessoas, principalmente idosos (MALHEIROS e ASSUNÇÃO, 2000).
Com a adoção de medidas visando à redução da emissão de poluentes
atmosféricos, episódios semelhantes de poluição não foram mais relatados.
Atualmente, a poluição atmosférica é devida principalmente ao crescimento da frota
de veículos, que geralmente representa, em metrópoles, a principal fonte poluidora
(JUNGER et al., 2005).
Os episódios agudos de poluição do ar citados estimularam a realização de
diversos estudos epidemiológicos e experimentais, que identificaram os principais
poluentes e suas repercussões sobre a saúde. A partir destes trabalhos, diversos
países estabeleceram padrões de qualidade do ar, ou seja, limites máximos
tolerados, a partir dos quais a população exposta estaria sujeita a sofrer danos à
saúde (JUNGER et al., 2005; CANÇADO et al., 2006).
No Brasil, em 1990, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA)
adotou padrões de qualidade do ar, estabelecidos na Resolução CONAMA 03/1990,
para os principais poluentes atmosféricos (CONAMA, 1990; DANNI-OLIVEIRA,
2008; IAP, 2008).
A partir da década de 80, a popularização do computador viabilizou a
utilização de técnicas estatísticas mais sofisticadas. Com o uso destas ferramentas
foi possível um estudo mais aprofundado dos efeitos da poluição do ar sobre a
saúde humana, mesmo quando os níveis de poluição do ar são menores do que os
padrões considerados nocivos pela Organização Mundial da Saúde (FREITAS et al.,
2004; JUNGER et al., 2005).
Os estudos relacionando poluentes atmosféricos a indicadores de saúde
são, muitas vezes, estudos epidemiológicos. Segundo Machado (2006), a
epidemiologia é considerada por muitos como uma ciência base para a saúde
pública e pode ser entendida como um estudo de distribuição dos fatores
determinantes de enfermidades ou outros eventos relacionados à saúde em
populações específicas . O alvo da epidemiologia é a população humana.
Todos
os
dias
são
geradas
milhares
de
informações
que
são
disponibilizadas nos mais diversos meios de comunicação. Os gestores que atuam
na área da saúde coletiva enfrentam desafios relativos à efetiva possibilidade de
utilizar-se destes dados para subsidiar suas decisões. Com o uso da informática nos
20
serviços de saúde aliado aos processos de descentralização de gestão e de ações,
que vêm sendo aprimorados desde a década de 80, houve também a
descentralização dos sistemas de informação em saúde, proporcionando inúmeros
avanços: possibilidade de controle decisório mais efetivo a partir da implantação dos
bancos de dados informatizados municipais; disponibilidade de dados com maior
agilidade e acessibilidade; recursos humanos mais capacitados para operação dos
sistemas, influenciando assim, outras esferas de serviços públicos (SOWEK e
BARBOSA, 2006).
Após a informatização de determinadas informações de saúde pública, como
por exemplo, a mortalidade, e a implantação de redes de monitoramento da
qualidade do ar em diversos municípios do mundo, muitos estudos epidemiológicos
foram realizados, relacionando indicadores de saúde humana aos poluentes
atmosféricos. Conforme estudos epidemiológicos realizados por Saldiva et al.
(1995), Conceição et al. (2002), Braun (2003), Freitas et al. (2004), entre outros, a
concentração de determinados poluentes atmosféricos está associada à elevação de
determinadas doenças, número de internamentos e mortalidade. Foram obtidas
associações positivas mesmo quando há baixas concentrações de certos poluentes
atmosféricos, questionando, desta forma, os padrões de qualidade do ar
estabelecidos em vários países.
1.2 JUSTIFICATIVA
Na literatura técnica são encontrados trabalhos científicos que obtiveram
correlação positiva entre a mortalidade e a concentração de poluentes na atmosfera
em cidades de diversos países do mundo, e. g., Schwartz e Marcus (1990),
Ackermann-Liebrich et al. (1997), Clancy et al. (2002), Junger et al. (2005) e Ostro et
al. (2006). No Brasil também existem estudos similares (SALDIVA et. al, 1995;
DAUMAS, 2002; BRAUN, 2003; BAKONYI et al., 2004; ARRUDA, 2008), que
correlacionaram indicadores de saúde à concentração de poluentes atmosféricos.
A realização de estudos correlacionando variáveis ambientais a indicadores
de saúde é de grande importância para uma maior compreensão dos efeitos à saúde
provenientes da exposição a agentes poluentes. O processo de envelhecimento
21
acompanha uma série de alterações físicas e hormonais (MATSUDO et al., 2000)
que tornam a população idosa mais vulnerável aos efeitos de poluentes, sendo,
portanto, mais fácil a verificação dos efeitos dos poluentes em idosos.
A verificação da existência de correlação entre o número de mortes de
idosos e as concentrações de certos poluentes pode ser uma ferramenta útil na
definição de ações preventivas e políticas públicas no município de Curitiba, visando
o controle e monitoramento das emissões atmosféricas. Os trabalhos que associam
poluição do ar a indicadores de saúde também possibilitam a realização de
previsões para demanda de serviços de saúde, em caso de situações de
deterioração da qualidade do ar.
Este estudo também pode ser utilizado para verificar se os padrões
estabelecidos pela legislação ambiental em vigor são realmente seguros para saúde
da população, em especial dos idosos.
1.3 OBJETIVO GERAL
Verificar a existência de correlação, de curto prazo, entre a concentração
dos principais poluentes presentes na atmosfera e a mortalidade de idosos no
município de Curitiba.
22
2 REVISÃO DA LITERATURA
2.1 PRINCIPAIS POLUENTES NA ATMOSFERA
Os poluentes presentes na atmosfera podem ser tanto de fontes naturais,
quanto de fontes geradas pelas atividades humanas, também chamadas
antropogênicas. As principais fontes naturais de poluição do ar são a queima
acidental de biomassa (qualquer produto derivado de plantas ou animais) e
erupções vulcânicas, que são consideradas as mais antigas fontes de poluição do ar
(CANÇADO et al., 2006; IAP, 2008).
Em relação às fontes antropogênicas, destaca-se a queima de biomassa,
utilizada desde a pré-história. Após a revolução industrial surgiram novas fontes de
emissões atmosféricas de origem humana, devido à queima de combustíveis fósseis
em motores a combustão de automóveis e em caldeiras e fornos industriais. De
acordo com Junger et al. (2005), flutuações de curto prazo nas concentrações de
poluentes ocorrem devido a variações meteorológicas locais.
Atualmente, cidades como Cidade do México, Los Angeles, Santiago , São
Paulo, Shangai, Nova Delhi entre outras, são conhecidas por seus problemas de
poluição atmosférica associados às condições meteorológicas de má dispersão,
além das características de seus sítios. Estes municípios enfrentam graves
situações de degradação da qualidade do ar (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
De acordo com IAP (2008), o comprometimento da qualidade do ar
provocado por ações antropogênicas ocorre principalmente a partir de fontes fixas,
como atividades de mineração, empreendimentos industriais e comerciais, e fontes
móveis, como automóveis e aviões, além das fontes eventuais, como queimadas e
movimentação de terra em obras de construção civil.
A grande frota de veículos e a presença de indústrias de todos os tipos são
duas feições marcantes que caracterizam as metrópoles brasileiras e algumas
cidades médias. Como resultado, seus habitantes são obrigados a respirar
poluentes comprovadamente nocivos à saúde, quando sujeitos a contínuas
exposições (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
23
A Legislação Brasileira estabelece que poluentes atmosféricos podem ser
definidos como qualquer forma de matéria ou energia em intensidade ou quantidade,
tempo ou características em desacordo com os níveis estabelecidos e que torne ou
possa tornar o ar impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde; inconveniente ao bem estar
público; danoso aos materiais, fauna e flora; ou ainda prejudicial à segurança, ao
uso e gozo da propriedade e às atividades da comunidade (CONAMA, 1990). Estes
poluentes são constituídos por substâncias gasosas, sólidas ou líquidas presentes
na atmosfera.
Portanto, verifica-se que, do ponto de vista legal, a definição de poluição do
ar é ampla, abrangendo não apenas os efeitos sobre a saúde das pessoas, mas
também efeitos que possam interferir em atividades sociais e econômicas; causar
danos a materiais; afetar a biota; ou que estejam em desacordo com padrões
estabelecidos legalmente.
A qualidade do ar depende de condições meteorológicas que determinam
maior ou menor dispersão, diluição, remoção e transformação de poluentes, mesmo
mantidas as condições de emissões. Dentre os fatores meteorológicos que
determinam o comportamento de determinados poluentes na atmosfera, a
precipitação pluviométrica permite verificar qualitativamente se a atmosfera esteve
mais ou menos estável, favorecendo ou não a dispersão de poluentes (CETESB,
2009).
Quando os poluentes são lançados diretamente pelos processos ou fontes
de emissões para a atmosfera, eles são denominados poluentes primários. Alguns
exemplos de poluentes primários são o Monóxido de Carbono (CO), Monóxido de
Nitrogênio (NO) e o Dióxido de Enxofre (SO2). Geralmente as altas concentrações
de poluentes primários são registradas próximas às suas respectivas fontes de
emissões como, por exemplo, nas proximidades de uma rodovia com intenso fluxo
de veículos ou nas vizinhanças de um complexo industrial (IAP, 2008).
Quando o poluente não é emitido diretamente por uma fonte, ele é formado
na atmosfera através da influência de outras substâncias, chamadas precursores, e
eventualmente da radiação solar. Estes poluentes são chamados secundários. É o
caso do ozônio (O3) e do dióxido de nitrogênio (NO2) e algumas partículas muito
finas.
24
O ar possui uma composição natural que quando alterada poderá ou não
afetar o ambiente e a saúde. A possibilidade da existência de risco está vinculada ao
dano por ele causado no ambiente e na saúde, que pode ser uma expressão de um
nível aceitável de um determinado poluente (CASTRO et al., 2003).
O ar puro e seco é composto por cerca de 78% de Nitrogênio e 21% de
Oxigênio. Além destas duas substâncias, o ar contém outros gases em quantidades
menores, que juntos somam 1%. Nem toda atividade que altere a composição da
atmosfera é considerada como poluição. Entende-se por poluição atmosférica a
presença ou o lançamento de uma substância na atmosfera de forma que sua
concentração se mantenha acima de um limiar de aceitabilidade para o bem estar da
população, dos animais e do meio ambiente em geral (IAP, 2008). As interações
entre os poluentes e a atmosfera determinam a qualidade do ar (CETESB, 2009).
No Brasil, poucas cidades possuem sistema regular de monitoramento e
controle da qualidade do ar. Destacam-se, além de Curitiba e São Paulo, alguns
municípios do interior paulista, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife,
Fortaleza, Brasília e Cuiabá (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
Para uma avaliação do impacto da poluição do ar na saúde de idosos é
necessário conhecer as informações a respeito da qualidade do ar na área de
estudo. Segundo Castro et al. (2003), a exposição do ser humano aos poluentes
presentes no ar é uma condição necessária para a ocorrência de um processo de
adoecimento.
O monitoramento sistemático da qualidade do ar é a ferramenta central para
a adequada gestão deste recurso ambiental. Através de seus resultados podem ser
determinadas as prioridades de ações de controle a serem implantadas pelos
governos, racionalizando a utilização de recursos às ações identificadas como
prioritárias, tendo em vista a proteção da saúde da população e a prevenção contra
impactos da poluição atmosférica ao meio ambiente em geral (IAP, 2009).
A partir dos resultados do monitoramento da qualidade do ar e de outros
estudos é possível realizar uma análise comparativa com os padrões de qualidade
do ar. Os resultados do monitoramento da qualidade do ar refletem alterações na
matriz de emissões de poluentes para a atmosfera como variações na frota de
veículos, alterações no tráfego, mudanças nos combustíveis, variações na
25
quantidade e tipo de indústrias, implantação de novas tecnologias e também
alterações das condições meteorológicas (CETESB, 2009).
2.1.1 Material Particulado
Segundo Seinfeld e Pandis (1997), material particulado é definido como
qualquer substância presente na atmosfera, em estado líquido ou sólido, e que
possua dimensões microscópicas ou sub-microscópicas, entretanto, maiores que a
dimensão molecular.
Material particulado é uma mistura de partículas líquidas e sólidas em
suspensão. A composição e tamanho das partículas dependem das fontes de
emissão. As partículas podem ser divididas em dois grupos: partículas com
diâmetros entre 2,5 µm e 30 µm, e partículas finas, com diâmetro inferior a 2,5 µm
(CANÇADO et al., 2006).
A poluição por material particulado já foi associada a (DAUMAS, 2002): piora
da função pulmonar; aumento dos sintomas respiratórios; incremento do número de
internamentos hospitalares por doenças cardíacas e respiratórias e aumento da
mortalidade geral e por causas específicas.
Conforme vai se depositando no trato respiratório, o material particulado
passa a ser removido por mecanismos de defesa. O primeiro mecanismo é o espirro,
desencadeado geralmente por partículas grandes que, devido ao seu tamanho, não
conseguem ir além das narinas, onde acabam se depositando. Outros mecanismos
de defesa de grande importância são: a tosse e o aparelho mucociliar. Aquelas
partículas que conseguem atingir as áreas mais distais das vias aéreas são
fagocitadas pelos macrófagos alveolares, sendo posteriormente removidas via
aparelho mucociliar ou sistema linfático (CANÇADO et al., 2006).
As partículas com diâmetro menor ou igual a 10 µm (PM10) são chamadas
de partículas inaláveis. Estudos epidemiológicos têm encontrado evidências da
associação entre dados diários de mortalidade e a concentração de material
particulado com diâmetro inferior a 10 µm (PM10) (OSTRO et al., 2006).
De acordo com Freitas et al. (2004), em relação às partículas inaláveis, foi
observada inexistência de limite seguro abaixo do qual não se detectou efeito da
26
poluição do ar nas mortes e admissões hospitalares. A determinação para o controle
de partículas inaláveis ocorreu devido ao fato de que estas partículas podem atingir
as vias aéreas inferiores e não devido à sua composição química.
No Brasil, por razões de produtividade e segurança, é realizada a queimada
da cana de açúcar antes da colheita. Esta queima gera emissão de grandes
quantidades de material particulado, expondo milhões de pessoas, todos os anos, a
este poluente atmosférico (CANÇADO et al., 2006). TRESMONDI et al. (2008)
também destacam a contribuição ao aumento da concentração de material
particulado na atmosfera devido à queima de biomassa no Brasil.
Cerca de 50% do material particulado do ar no interior das residências é
proveniente do ambiente externo. O restante tem origem interna, na emissão por
queima de fumo, fogão ou outras fontes residenciais (CANÇADO et al., 2006).
Os principais mecanismos de remoção do material particulado presente na
atmosfera são a deposição seca e a deposição úmida por interceptação nas nuvens
ou abaixo das nuvens (TRESMONDI et al., 2008).
Tem-se defendido que a atenção ao material particulado deve ser colocada
em primeiro lugar no momento da estruturação de estratégias de controle de
poluição atmosférica, devido à constante associação entre este poluente e danos à
saúde humana (FREITAS et al., 2004).
2.1.2 Ozônio (O3)
O ozônio é um gás reativo produzido naturalmente na atmosfera terrestre. É
formado por três átomos de oxigênio e sua formação ocorre na estratosfera a
aproximadamente 30 km da superfície terrestre. O ozônio estratosférico é formado a
partir da reação química entre o oxigênio molecular com o oxigênio atômico
(SEINFELD e PANDIS, 1997). Segundo DUCHIADE (1992), é um gás oxidante
muito ativo e tóxico e pode atingir porções distais das vias aéreas. Apresenta-se na
forma de um gás azul pálido, de odor picante característico. De acordo com Castro
et al. 2003, ozônio é relativamente pouco solúvel em água e costuma atingir os
alvéolos pulmonares com facilidade.
27
Estudos realizados em meados do século XIX constatavam que a presença
deste gás é muito maior na alta atmosfera do que nas proximidades do solo. Nos
últimos 30 anos, devido à maior influência de outros poluentes atmosféricos,
verificou-se o aumento expressivo de substâncias de origem antropogênica que
causam aumento da concentração de ozônio troposférico. O ozônio situado na
estratosfera atua como um filtro à radiação ultravioleta, nociva à saúde, já uma
elevada concentração de ozônio na troposfera pode causar problemas respiratórios
e danos à vegetação (PAVÃO et al., 2006).
A elevação da concentração de ozônio na troposfera é resultante das
emissões antropogênicas de substâncias químicas formadoras de ozônio, pois, o
ozônio presente na troposfera é formado através de reações fotoquímicas
catalisadas pelos raios ultravioleta envolvendo como precursores os óxidos de
nitrogênio (NOx) e hidrocarbonetos. A formação do ozônio é típica de áreas urbanas.
Geralmente este poluente possui uma concentração maior em ambientes externos
do que em ambientes internos (SEINFELD e PANDIS, 1997; CASTRO et al., 2003,
PAVÃO et al., 2006; IPCC, 2007).
As fontes de emissão dos precursores do ozônio são as fontes de emissões
de NOx, incluindo os veículos automotores e as indústrias. Outras fontes são os
purificadores de ar e as máquinas de fotocópias (CASTRO et al., 2003).
2.1.3 Dióxido de Enxofre (SO2)
O enxofre se encontra na crosta terrestre em uma concentração aproximada
de 500 ppm e na atmosfera em concentração de cerca de 1 ppm. Apesar da baixa
concentração na atmosfera em relação à crosta terrestre, as substâncias que
contêm enxofre possuem grande importância na química da atmosfera (SEINFELD e
PANDIS, 1997).
O dióxido de enxofre (SO2) é um gás amarelado, com odor característico de
enxofre e que é muito irritante quando entra em contato com as superfícies úmidas,
pois se transforma em acido sulfúrico. O dióxido de enxofre é um dos poluentes
responsáveis pela formação de chuvas ácidas, que causam alterações no pH da
água, podendo causar danos às plantas e materiais (CASTRO et al., 2003).
28
A principal fonte de emissão de dióxido de enxofre é a combustão de
elementos fósseis, como carvão e derivados de petróleo, e tem como principais
fontes de emissão os veículos automotores, indústrias e usinas termoelétricas. Na
atmosfera, o dióxido de enxofre pode atingir regiões distantes de suas fontes de
emissão, o que aumenta a área de influência deste poluente. Estima-se que 75% do
enxofre emitido para a atmosfera seja de fontes antrópicas (SEINFELD e PANDIS,
1997). A presença de dióxido de enxofre na atmosfera pode causar a redução da
visibilidade em função da dispersão da luz, devido à presença de sulfatos na
atmosfera. O dióxido de enxofre pode causar danos à saúde humana,
principalmente nas vias aéreas, onde é verificada irritação da nasofaringe, orofaringe
até os alvéolos, podendo levar a inflamação, hemorragia e necrose (CASTRO et al.,
2003).
A maior parte do dióxido de enxofre inalado por uma pessoa é absorvido nas
vias aéreas superiores. A atividade física leva a um aumento da ventilação alveolar,
com conseqüente aumento de sua absorção em regiões mais distais dos pulmões
(CANÇADO et al., 2006).
2.1.4 Monóxido de Carbono (CO)
O monóxido de carbono (CO) é um gás tóxico, insípido, incolor e fruto da
combustão em diversos processos industriais e de veículos automotores. Também é
emitido pela combustão do fumo de cigarros. Sua densidade é um pouco menor que
a do ar e é um dos poluentes mais comuns na atmosfera. Sua concentração tende a
ser maior em áreas urbanas nos locais onde o volume de tráfego é intenso. A
intoxicação aguda pode causar a morte (CASTRO et al., 2003; OMS, 2006).
O monóxido de carbono apresenta afinidade pela hemoglobina 240 vezes
maior que a do oxigênio. Uma pequena quantidade de monóxido de carbono pode
saturar uma quantidade significativa de hemoglobina. A consequência é a
diminuição da capacidade da hemoglobina transportar o oxigênio e ocorre um desvio
na curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda, o que pode causar
hipóxia tecidual (CANÇADO et al., 2006).
29
Segundo Castro et al. (2003), quando o monóxido de carbono é absorvido
pelo sangue forma a carboxihemoglobina, que causa a diminuição da concentração
da oxihemoglobina no sangue e uma consequente redução do transporte de
oxigênio até os tecidos no organismo.
A principal fonte de aumento da concentração de carbono na atmosfera
desde o período pré-industrial é a utilização dos combustíveis fósseis. Outro fator
que contribui para o aumento da concentração deste poluente é a mudança no uso
do solo (IPCC, 2007). De acordo com CANÇADO et al. (2006), as principais fontes
de emissão de monóxido de carbono são os veículos automotivos, aquecedores,
caldeiras, churrasqueiras e fogões a gás.
2.1.5 Óxidos Nitrosos (NOx)
O
nitrogênio
(N2)
é
um
gás
quimicamente
estável
que
compõe
aproximadamente 78% do ar que se respira.
Os óxidos de nitrogênio constituem uma série de sete compostos dos quais
três são importantes na atmosfera. O óxido nitroso também é chamado de protóxido
de nitrogênio e gás hilariante (N2O), que possui importância no efeito estufa. O
monóxido de nitrogênio ou oxido nítrico (NO) é um gás tóxico, incolor, que reage
espontaneamente com o oxigênio e com o ozônio, formando o dióxido de nitrogênio
(NO2). É formado nos processos de combustão, aumentando sua produção com a
elevação da temperatura e participa ativamente das reações atmosféricas que são a
causa do smog fotoquímico. O dióxido de nitrogênio é um gás avermelhado
fortemente tóxico (vapores nitrosos).
O termo “óxidos de nitrogênio” e o símbolo NOx são utilizados na literatura
sobre poluição atmosférica para designar a mistura de NO e NO2 (DUCHIADE, 1992;
SEINFELD e PANDIS, 1997 ). Os Óxidos de Nitrogênio se formam a partir de
processos de combustão. Os veículos automotores são a maior fonte de emissão.
Também existem outras fontes de emissão como a combustão do gás de cozinha e
o fumo de cigarro (CASTRO et al., 2003).
30
2.2 EFEITOS DA POLUIÇÃO DO AR SOBRE A SAÚDE HUMANA
A busca de indicadores que possam servir de parâmetros para áreas da
saúde tem sido constante por parte de alguns setores e de diversos autores, cuja
preocupação central é o bem estar da população. A contaminação do ar nos
grandes centros urbanos aliada a outros fatores, como saneamento e desigualdades
sociais, contribuem para a deterioração da qualidade de vida em grandes cidades de
países em desenvolvimento (DANNI-OLIVEIRA, 2008; BAKONYI, 2009).
A exposição do ser humano aos poluentes presentes no ar é um fator que
contribui para o início de um processo de adoecimento. A avaliação da exposição
das pessoas à poluição do ar possui um papel importante quando se avalia os
efeitos à saúde (CASTRO et al., 2003). Portanto, quando se determina a
concentração de determinado poluente na atmosfera, também se estima a
exposição dos receptores: seres humanos, animais, plantas e materiais.
Anderson (2009) apresenta um traçado do desenvolvimento histórico da
compreensão da relação entre poluição do ar e a mortalidade e procura identificar os
fatores metodológicos e conceituais mais importantes associados à redução dos
níveis a partir dos quais se acredita haver prejuízo à saúde humana.
Maynard (2004) realizou uma revisão de literatura sobre os efeitos de
poluentes do ar clássicos (NO2, SO2, Material Particulado, CO e O3) sobre a saúde.
Brunekreef e Holgate (2002) discutem a evidência dos efeitos sobre a saúde
humana de determinados poluentes do ar, a saber: NO2, material particulado e O3.
Conforme Castro et al. (2003), geralmente os efeitos na saúde são o
somatório das diversas exposições a diversos agentes, em momentos diferenciados,
nem sempre fáceis de serem expostos nos estudos epidemiológicos. Embora alguns
efeitos não estejam bem definidos nos indivíduos expostos, alguns efeitos agudos
têm sido melhor estudados em indivíduos previamente saudáveis e também em
indivíduos portadores de doença respiratória ou cardiovascular crônica.
Em relação aos efeitos da poluição do ar sobre a saúde humana,
as
crianças e os idosos são geralmente os grupos mais afetados (CANÇADO et al.,
2006; DANNI-OLIVEIRA, 2008; TRESMONDI, 2008).
31
Makri e Stilianakis (2008) apresentam um levantamento da informação
disponível sobre poluição do ar e vulnerabilidade, usando o conceito de risco,
procurando identificar os grupos mais suscetíveis à poluição do ar. Os referidos
autores procuram destacar características da população e fatores associados que
contribuem para a vulnerabilidade.
Os impactos da poluição do ar sobre a saúde dependem de fatores
quantitativos e qualitativos da fonte de emissão, fatores climáticos e topográficos
(MALHEIROS e ASSUNÇÃO, 2000). Ou et al. (2008) investigaram a relação entre
fatores sócio-econômicos e a susceptibilidade a efeitos agudos de poluição do ar.
Os resultados sugeriram que as populações com padrão sócio-econômico inferior
experimentam efeitos mais adversos da poluição do ar sobre a saúde, em relação às
populações que possuem melhores condições sócio-econômicas.
Os poluentes presentes no ar causam uma resposta inflamatória no aparelho
respiratório induzida pela ação de substâncias oxidantes que acarretam aumento da
produção da acidez, da viscosidade e da consistência do muco produzido pelas vias
aéreas, levando à diminuição da eficácia do sistema mucociliar (MARTINS et al.,
2002). Uma discussão sobre mecanismos de ação dos poluentes atmosféricos sobre
a saúde humana é apresentada por Kampa e Castanas (2008). Block e CalderónGarcidueñas (2009) fazem uma revisão de estudos recentes sobre os efeitos da
poluição do ar sobre o cérebro humano, como fonte de neuropatologias e doenças
do sistema nervoso central. Em Simkhovich et al. (2008) são discutidos
principalmente os mecanismos relacionados aos efeitos dos poluentes do ar sobre o
sistema cardiovascular.
A definição de efeitos de longo prazo é mais difícil e geralmente é
pesquisada através de estudos epidemiológicos. Já os sintomas irritantes e tóxicos,
que ocorrem quando há altas concentrações de determinados poluentes, são
agudos e mais fáceis de serem estudados, porém são pouco frequentes
(DUCHIADE, 1992; IAP, 2009).
Nas investigações dos efeitos dos poluentes atmosféricos sobre a saúde de
determinada população, os indicadores geralmente são obtidos a partir de fontes de
dados secundários, ou seja, dados que são coletados para outra finalidade qualquer.
Os mais utilizados são os dados de mortalidade por diversas causas e de
morbidade. Estes indicadores têm custo menor devido ao fato de fazerem parte de
32
coletas mais gerais de uma população. Dados primários, como a aplicação de
questionários, conferem outro padrão de poluição (CASTRO et al., 2003).
De acordo com Duchiade (1992), os autores distinguem três tipos principais
de reação aos poluentes: efeitos agudos em pessoas sadias; exacerbação de
doenças preexistentes em indivíduos vulneráveis, podendo vir o indivíduo a falecer;
e fenômenos de hipersensibilidade brônquica.
Em grande parte das áreas metropolitanas e ainda em muitas cidades
médias do mundo, a elevação nos internamentos e mortalidade por várias
enfermidades, tem como causa a má qualidade do ar (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
Segundo Freitas et al. (2004), uma forma de estudar os efeitos da poluição
do ar consiste no trabalho com grupos populacionais mais sensíveis aos efeitos dos
poluentes atmosféricos, que são identificados a partir de relatos da literatura
existente. Os resultados da relação entre a concentração de poluentes na atmosfera
e os danos causados à saúde humana vêm tendo o papel de estimular a discussão,
visando à implantação de medidas de prevenção.
A Tabela 1 aponta os principais efeitos respiratórios da poluição atmosférica
segundo a American Toracic Society.
Tabela 1 – Principais efeitos respiratórios da poluição atmosférica, segundo a American
Toracic Society (CANÇADO et al., 2006)
(continua)
ITEM
EFEITO
A.
Aumento da mortalidade.
B.
Aumento da incidência de câncer de pulmão.
C.
Aumento dos sintomas e frequência das crises de asma.
D.
Aumento da incidência de infecções respiratórias baixas.
Aumento das exacerbações em indivíduos já portadores de doenças
cardiorrespiratórias ou outras doenças:
1. Redução da habilidade de executar tarefas diárias
E.
2. Aumento das hospitalizações
3. Aumento das visitas médicas e a emergência
4. Aumento do uso de medicamentos
5. Diminuição da função pulmonar
33
Tabela 1 – Principais efeitos respiratórios da poluição atmosférica, segundo a
American Toracic Society (CANÇADO et al., 2006)
(conclusão)
ITEM
EFEITO
F.
Redução do volume expiratório forçado associado a sintomas
clínicos e ao aumento da mortalidade.
G.
Aumento da prevalência do chiado e/ou aperto no peito.
H.
Aumento da prevalência ou incidência de tosse e hipersecreção
pulmonar.
I.
Aumento da incidência de infecções de vias aéreas superiores,
piorando a qualidade de vida.
J.
Irritação dos olhos, garganta e narinas podendo interferir na
vida normal.
São diversos os impactos à saúde humana relacionados à poluição do ar.
Consequências graves, como o desenvolvimento de tumores cancerígenos e
aumento da incidência de derrame cerebral, são frequentemente associadas a altos
índices de poluição atmosférica. Em relação aos idosos, alguns aspectos
naturalmente relacionados ao processo de envelhecimento devem ser considerados
no momento de avaliar o impacto de poluentes sobre a saúde.
Segundo Duchiade (1992), existem inúmeras dificuldades na avaliação dos
efeitos da poluição sobre a saúde, sendo que os teores mais moderados de
poluentes apresentam as maiores dificuldades na determinação dos efeitos. A
utilização de programas computacionais cada vez mais sofisticados permite que
sejam controladas com maior eficiência as fontes de erros que poderiam interferir na
análise dos dados.
Internações ou número de óbitos por problemas respiratórios podem refletir
os efeitos mais graves da poluição. Segundo Martins et al. (2002), por este motivo é
importante avaliar se a poluição do ar pode afetar a saúde dos idosos em eventos
mais agudos e que provocariam um aumento da demanda dos atendimentos nos
postos de atendimento.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é a pessoa
com idade igual ou superior a 60 anos nos países em desenvolvimento e nos países
desenvolvidos com idade igual ou superior a 65 anos. No Brasil, de acordo com a
34
Lei Federal nº 10.741 de 1º de Outubro de 2003, que institui o Estatuto do Idoso,
idoso é a pessoa com idade igual ou superior a 60 anos (BRASIL, 2003).
Durante o envelhecimento ocorre a diminuição da estatura corporal, perda
de massa muscular e óssea, diminuição da taxa metabólica e de aptidões físicas e
redução
da
potência
metabólica
(consumo
máximo
de
oxigênio).
Estas
consequências do envelhecimento ocorrem a uma taxa aproximada de 1% ao ano
ou 10% por década em ambos os sexos, sendo os efeitos mais perceptíveis a partir
dos 50 anos de idade como o aumento do peso corporal até os 60 anos, com
posterior perda de peso após os 70 anos (MATSUDO et al., 2000).
O processo de envelhecimento, além das alterações estruturais e funcionais
citadas, é acompanhado também da queda da imunidade, variações na produção de
hormônios, predisposição a certas doenças, perdas celulares e queda de certas
funções de manutenção de processos vitais. Tais alterações potencializam os efeitos
dos poluentes atmosféricos sobre a população idosa (SANTOS e JÚNIOR, 2002).
2.3 CORRELAÇÃO ENTRE A QUALIDADE DO AR E A SAÚDE HUMANA
A saúde ambiental compreende aspectos relacionados à saúde humana,
incluindo a qualidade de vida, que podem ser afetados por fatores físicos, químicos,
biológicos, sociais e psicossociais do meio ambiente. A diversidade das áreas de
intervenção na área da saúde ambiental coloca uma elevada exigência de
flexibilidade dos profissionais envolvidos na elaboração de trabalhos nesta área.
Para a pesquisa em Saúde Ambiental, um campo a ser explorado é a abordagem
dos poluentes enquanto causadores de problemas na saúde humana. O aumento
destes estudos pode ser justificado pelo grande número de poluentes gerados nas
mais diversas atividades econômicas. Devido à diversidade de objetos existentes, os
estudos em saúde ambiental podem ser abordados pela ótica da epidemiologia,
antropologia, toxicologia, entre outras (CÂMARA e TAMBELLINI, 2003).
A epidemiologia é o ramo da ciência que estuda processos envolvendo
questões relacionadas à saúde e doenças em coletividades humanas, analisando a
distribuição e fatores determinantes de enfermidades (CASTRO et al., 2003;
BAKONYI, 2009). A epidemiologia é utilizada em saúde ambiental para descrever,
35
analisar ou interferir a relação entre a exposição a determinados poluentes e a
ocorrência de efeitos adversos à saúde humana. Alguns tipos de estudos
epidemiológicos utilizados são (CÂMARA e TAMBELLINI, 2003): de coorte,
incidência, prevalência, ecológico, seccional, caso-controle, entre outros.
O tipo de estudo desenvolvido no presente trabalho é advindo da
epidemiologia, caracterizando-se como um estudo ecológico. Nos estudos
ecológicos é verificada a correlação existente entre registros de determinada
patologia com os dados de níveis de exposição a um poluente ambiental. Neste tipo
de pesquisa, a unidade de análise não é formada por indivíduos e sim por grupos de
indivíduos pertencentes preferencialmente a determinada unidade geográfica
previamente definida, como um bairro, uma cidade ou um país. O estudo é realizado
através de estatísticas, não sendo possível precisar, por exemplo, a quantidade de
expostos e doentes ou não expostos e doentes (CASTRO et al., 2003; BAKONYI,
2009).
De acordo com Martins et al. (2002), o fato da unidade de observação ser
um grupo de pessoas, que pode representar um bairro ou um município, não
existindo a observação individual, é uma das limitações dos estudos epidemiológicos
ecológicos.
Os estudos ecológicos que investigam as covariações temporais entre
mortalidade diária e os níveis de poluição urbana baseiam-se em dados agregados e
informações de saúde de uma determinada população. Neste tipo de estudo, a
associação entre mortalidade e poluição é quantificada no mesmo dia ou em alguns
dias precedentes. Os efeitos mais imediatos dos poluentes são o seu foco
específico. Uma vantagem nestes estudos é que um mesmo grupo de pessoas, a
população de uma cidade, por exemplo, é avaliada ao longo do tempo, o que evita
problemas relacionados a comparações. Fatores como residência e exposição são
relativamente constantes numa dada população em um período de poucos dias,
reduzindo possíveis erros (DAUMAS, 2002; OSTRO et al., 2006).
Segundo FREITAS et al. (2004), uma tendência mundial neste tipo de
estudo é considerar que toda a população está exposta aos níveis de poluentes
observados nas estações de monitoramento da qualidade do ar.
Uma vantagem da análise de séries temporais diárias é que fatores como
condição sócio-econômica, ocupação ou tabagismo não são capazes de confundir a
36
relação entre a poluição do ar e os efeitos à saúde, uma vez que estes fatores não
possuem variação diária. Entretanto, fatores que apresentam variação diária e estão
correlacionados com a análise podem causar interferência nos resultados e devem
ser ajustados no modelo matemático, como exemplo, as variáveis meteorológicas
temperatura e umidade (CASTRO et al., 2003).
Estes estudos avaliam como o contexto ambiental pode afetar aspectos
relacionados à saúde de certos grupos populacionais. São geralmente de baixo
custo, pois se utilizam de dados secundários (CÂMARA e TAMBELLINI, 2003;
BAKONYI, 2009).
A literatura biomédica possui muitos trabalhos científicos relacionando os
efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana. Os principais desfechos de
saúde considerados nos estudos realizados são mortalidade e as admissões
hospitalares por doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer de pulmão.
Indivíduos idosos, crianças e portadores de doenças são considerados os grupos
mais susceptíveis (SALDIVA et al., 1995; BRAUN, 2003; BAKONYI et al., 2004;
JUNGER et al., 2005; DANNI-OLIVEIRA, 2008).
A maioria dos estudos sobre internamentos ou mortalidade em idosos
encontra associação com algum poluente atmosférico. São poucos municípios que
realizam o monitoramento dos poluentes do ar regulamentados, sendo difícil definir
qual o poluente é o maior responsável pelos problemas de saúde (MARTINS et al.,
2002).
Diversos trabalhos demonstram que os poluentes atmosféricos estão
associados a efeitos adversos sobre a saúde humana mesmo em pequenas
concentrações (FREITAS et al., 2004; JUNGER et al., 2005).
Segundo Cançado et al. (2006), a associação entre mortalidade e admissões
hospitalares por doenças respiratórias e exposição à poluição do ar tem sido
investigada, de forma mais sistemática, desde o início da década de 1990. Nesta
década, estudos realizados associaram a concentração de PM10 com mortalidade de
adultos.
A seguir são citados alguns estudos, realizados no Mundo e especificamente
no Brasil, em que poluentes atmosféricos foram associados a indicadores de saúde
como mortalidade e número de internamentos hospitalares.
37
Kinney e Ozkaynak (1991) obtiveram correlações positivas entre a
mortalidade diária e a concentração de poluentes em estudo de séries temporais do
período entre 1970 a 1979 no município de Los Angeles.
Um estudo realizado nos Estados Unidos indicou que a exposição crônica ao
material particulado fino, eleva o risco de doenças cardíacas e respiratórias,
inclusive, de câncer de pulmão (POPE, 2002). Em outro estudo, também realizado
nos Estados Unidos, Ostro et al. (2006) encontraram associação positiva entre a
concentração de material particulado fino (com diâmetro inferior a 2,5 µm) e o
número de mortes por todas as causas, exceto as externas, em nove cidades no
estado da Califórnia.
Dockery (1993) afirma que diversos estudos têm verificado relação entre a
poluição do ar por material particulado e a taxa de mortalidade em regiões
metropolitanas dos Estados Unidos.
Na Europa também existem muitos trabalhos nesta área, por exemplo, no
município de Londres, um estudo de análise de séries temporais obteve correlação
positiva entre a mortalidade e a concentração de material particulado no período
compreendido entre os anos de 1958 e 1972 (SCHWARTZ e MARCUS, 1990).
Em estudo realizado em oito comunidades suíças, foram avaliados os efeitos
de poluentes atmosféricos em adultos para longos períodos de exposição.
Constatou-se que a função pulmonar foi inversamente associada às concentrações
de partículas inaláveis, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre nas oito áreas
avaliadas (ACKERMANN-LIEBRICH et al.,1997).
Um estudo realizado em Dublin, capital da Irlanda, revelou que a redução
dos níveis de poluentes atmosféricos na região obteve correlação positiva com a
redução da mortalidade por doenças cardíacas e pulmonares (CLANCY et al., 2002).
Liang et al. (2009) obtiveram correlação positiva significativa de mortes por
todas as causas e de mortes por doenças cardiovasculares no inverno com NO2,
CO, SO2 e material particulado para adultos com idade mínima de 65 anos em
Taiwan. Em relação às doenças respiratórias, os referidos autores destacam que
apenas o O3 apresentou uma correlação positiva significativa durante o verão para
este mesmo subgrupo da população. Efeitos do material particulado sobre a função
respiratória de idosos na Coréia do Sul foram investigados por Lee et al. (2007). Os
38
resultados indicaram que o material particulado fino (PM2,5) é fortemente associado à
diminuição da função pulmonar.
Filleul et al. (2004) encontraram uma associação positiva significativa entre a
poluição do ar e mortalidade não acidental e mortalidade específica (para todas as
idades e para idosos) no sudoeste da França, com um maior efeito para os idosos,
principalmente para doenças respiratórias.
Em termos de trabalhos realizados no Brasil, Saldiva et al. (1995) realizaram
análise do período compreendido entre o mês de maio de 1990 e abril de 1991 no
município de São Paulo e encontraram correlação positiva entre a mortalidade de
idosos com idade superior a 65 anos e a concentração de poluentes na atmosfera.
BRAUN (2003) procurou identificar associações entre mortalidade por
doenças cardiovasculares e condições atmosféricas (variáveis meteorológicas e
poluentes atmosféricos) no município de São Paulo. No referido estudo foram
utilizadas as concentrações de SO2, PM10, NO2, O3 e CO observadas nas estações
de monitoramento da qualidade do ar operadas pela CETESB. Os resultados
mostraram correlação positiva entre os óbitos por doença cardiovascular e a elevada
concentração de poluentes na atmosfera, com exceção do poluente ozônio, que não
se apresentou positivamente correlacionado à mortalidade de idosos.
A pneumonia e a gripe, apesar de serem doenças infecciosas, podem estar
relacionadas à poluição atmosférica, pois alguns poluentes, como o dióxido de
enxofre, por exemplo, possuem alta absorção nas vias aéreas, podendo afetar o
sistema imunológico. Um estudo realizado por Martins et al. (2002) investigou os
efeitos da poluição atmosférica na morbidade por pneumonia e gripe em idosos no
município de São Paulo. Os resultados demonstraram que as concentrações de
ozônio e dióxido de enxofre foram associadas ao aumento dos atendimentos por
pneumonia e gripe.
Arruda (2008) avaliou a associação existente entre a concentração de
poluentes atmosféricos no município de Cubatão e o número de internamentos por
doenças respiratórias de crianças, adolescentes e idosos com idade superior a 65
anos. Em relação aos idosos o estudo obteve correlação positiva para todos os
poluentes pesquisados que foram NO2, PM10, O3 e SO2. Já nas crianças e
adolescentes, somente o PM10 e O3 estiveram positiva e estatisticamente
associados às internações hospitalares.
39
No município do Rio de Janeiro, Junger et al. (2005) encontraram correlação
positiva entre o número de óbitos de idosos e a poluição por monóxido de carbono,
por um período de até sete dias entre a exposição e o desfecho.
Em Minas Gerais, no município de Itabira, Braga et al. (2007) verificaram
que a poluição do ar esteve relacionada ao aumento no número de atendimentos no
pronto socorro por doenças respiratórias em crianças e adolescentes. Também
verificaram o aumento do número de internamentos por doenças cardiovasculares
entre adultos.
Em estudo realizado por Bakoni (2004), foi verificada associação entre a
concentração dos poluentes em Curitiba e o número de internamentos de crianças
por doenças respiratórias no período compreendido entre os anos de 1999 e 2000.
Cançado et al. (2006) afirmam que estudos apresentaram evidências
consistentes sobre os efeitos da poluição do ar, em especial do material particulado
fino, na morbidade e mortalidade por doenças. Efeitos agudos, como aumento do
número de internações e mortes por arritmia, doença isquêmica do miocárdio e
cerebral, e também efeitos crônicos, causados por exposição em longo prazo, como
aumento de mortalidade por doenças cerebrovasculares e cardíacas foram
relatados.
Além das pesquisas a partir dos dados de mortalidade, existem trabalhos
que buscam identificar os efeitos da poluição do ar sobre a morbidade mesmo em
níveis moderados. Alguns trabalhos científicos têm relatado associação entre a
poluição atmosférica e indicadores de mortalidade e morbidade, mesmo quando a
concentração dos poluentes encontra-se abaixo dos padrões estabelecidos
internacionalmente (DUCHIADE, 1992; DAUMAS, 2002).
Apesar dos inúmeros relatos de associações entre a poluição e aumento no
número de internamentos e óbitos, ainda não é bem definido o mecanismo biológico
que conduz a estas consequências. Os estudos epidemiológicos nos fornecem
somente indicações sobre a existência de relação entre os poluentes e a saúde
humana. A partir destas indicações, os pesquisadores passam a planejar
investigações que possam fornecer resultados mais conclusivos (DUCHIADE, 1992;
BUSCHINI et al., 2001).
Após análise dos trabalhos citados, verifica-se que a deterioração da
qualidade do ar tem sido associada estatisticamente ao aumento de procura por
40
serviços de saúde, aumento no número de problemas de saúde e elevação no
número de óbitos por diversas causas. Há trabalhos realizados em vários países do
mundo, geralmente em grandes cidades e regiões metropolitanas ou em cidades
com conhecidos problemas de poluição do ar devido a particularidades regionais
como, por exemplo, cidades que são pólos industriais e consequentemente,
possuem grandes fontes emissoras de poluentes. O município de Curitiba ainda é
relativamente carente de estudos que determinem a existência de correlação entre a
concentração de poluentes atmosféricos e indicadores de saúde, principalmente em
relação aos idosos que constituem um dos grupos mais suscetíveis aos efeitos da
poluição do ar sobre a saúde humana.
2.4 PADRÕES DE QUALIDADE DO AR
Embora os poluentes atmosféricos causem danos à fauna, flora e aos
materiais, os limites estabelecidos para a concentração de determinados poluentes,
os chamados padrões de qualidade do ar, tem como principal objetivo minimizar os
prejuízos causados à saúde das pessoas a eles expostos (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
O conceito de poluição é dinâmico, porque os limites são definidos pelo
homem através de estudos, normas e leis. Os limites estabelecidos atualmente, em
breve podem ser mais rígidos, com os valores adotados atualmente sendo
considerados poluição.
As restrições legais no controle de emissões atmosféricas pelos órgãos
ambientais têm como objetivo principal as emissões de automóveis e indústrias. As
ações junto às indústrias são diretas e específicas, de acordo com as características
dos processos. Já em relação às emissões veiculares, o incentivo à utilização do
carro como meio de transporte individual só veio a agravar a situação da qualidade
do ar nas regiões urbanas. As restrições legais adotadas em relação às emissões
veiculares são ações mais abrangentes, que envolvem tanto as restrições na
composição dos combustíveis, como nos mecanismos dos motores. (DANNIOLIVEIRA, 2008).
A legislação ambiental vem cada vez mais aperfeiçoando seus planos e
ações normativas a respeito do controle das emissões fixas e também da qualidade
41
dos combustíveis derivados do petróleo e das emissões veiculares, através de
programas como o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos
Automotores (PROCONVE), o que tem trazido uma relativa melhora da qualidade do
ar para áreas urbanas quando comparada a 20 ou 30 anos atrás (DANNI-OLIVEIRA,
2008).
Um padrão de qualidade do ar define legalmente os limites para a
concentração de um poluente na atmosfera, de forma a garantir certo nível de bem
estar e proteção à saúde das pessoas (MALHEIROS e ASSUNÇÃO, 2000;
IAP,2008).
Após a ocorrência, em meados do século XX, de episódios de elevação da
concentração de poluentes no ar que causaram aumento no número de
morbimortalidade, vários países estabeleceram padrões de qualidade do ar. Neste
sentido, foram criadas normas de controle de poluição por meio de instrumentos
legais em âmbitos nacional e estadual (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
Teoricamente, os padrões de qualidade do ar são os limites máximos
tolerados, a partir dos quais a população poderá estar sujeita a danos à saúde. No
Brasil, em 1990, o CONAMA adotou, através da Resolução CONAMA 03/1990
(CONAMA, 1990), os mesmos padrões estabelecidos pela Agência Ambiental dos
Estados Unidos (United States Environmental Protection Agency – U.S. EPA).
Através de trabalhos científicos, observa-se que os poluentes, mesmo que
estejam dentro dos padrões permitidos de qualidade do ar, continuam afetando a
morbidade e a mortalidade por problemas respiratórios em idosos (MARTINS et al.,
2002).
Um padrão de qualidade do ar não é um limite abaixo do qual se está
completamente seguro. Também não se adoece automaticamente caso o padrão
seja violado, mas a probabilidade aumenta. Isto vale especialmente para pessoas
sensíveis como idosos e crianças. O efeito da poluição atmosférica existe, mesmo
com os poluentes em concentrações inferiores aos padrões estabelecidos pela
Legislação (IAP, 2009).
No Brasil, os parâmetros definidos na legislação como indicadores da
qualidade do ar são as partículas totais em suspensão, fumaça, partículas inaláveis,
ozônio, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio. No Brasil,
42
desde 1990, passou-se a diferenciar os padrões primários de qualidade do ar dos
padrões secundários.
Os padrões primários são as concentrações que, se ultrapassadas, poderão
afetar a saúde da população, podendo ser entendidos como os níveis máximos
tolerados de concentração de poluentes atmosféricos, constituindo-se em metas de
curto e médio prazo. Já o padrão secundário define legalmente concentrações
abaixo das quais se prevê um mínimo efeito adverso ao bem estar da população,
bem como, um mínimo dano à fauna e flora, aos materiais e ao meio ambiente em
geral, podendo ser entendido como um nível máximo desejado de concentração
para certos poluentes, constituindo-se uma meta de longo prazo (CONAMA, 1990;
DUCHIADE, 1992; IAP, 2009).
A manutenção da qualidade do ar tem papel prioritário devido à grande
importância que este recurso natural tem para a vida. Como o ar não é tratável antes
de seu consumo, a manutenção de sua qualidade dentro de parâmetros de forma a
garantir a manutenção da saúde da população deve receber atenção ainda maior
(IAP, 2008).
No estado do Paraná, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos
Hídricos (SEMA) adotou os mesmos padrões estabelecidos pelo CONAMA
(CONAMA, 1990) através da Resolução SEMA 041/02 (SEMA, 2002). A referida
resolução foi atualizada e revista, sendo substituída pela resolução SEMA 054/06
(SEMA, 2006), que manteve os mesmos padrões qualidade do ar, primários e
secundários, estabelecidos pelo CONAMA (CONAMA, 1990). Os padrões estaduais
e nacionais são, portanto, os mesmos.
A Tabela 2 apresenta os padrões primários e secundários de poluentes
atmosféricos adotados no Paraná e no Brasil (CONAMA, 1990 e SEMA, 2006).
43
Tabela 2 – Padrões primários e secundários de poluentes atmosféricos adotados no
Paraná e no Brasil
POLUENTE
TEMPO DE
AMOSTRAGEM
Partículas
Totais em
Suspensão
Dióxido de
Enxofre
24 horas
Média Geométrica
Anual
24 horas
Média Aritmética Anual
Monóxido de
Carbono
PADRÃO
PRIMÁRIO
µg/m3 (2)
240(1)
PADRÃO
SECUNDÁRIO
µg/m3 (2)
150(1)
80
60
(1)
365
100(1)
1 hora
8 horas
80
40.000 (35
ppmv)(1)
40
40.000 (35
ppmv)(1)
Ozônio
1 hora
160(1)
160(1)
Fumaça
24 horas
Média Aritmética Anual
150(1)
100(1)
Partículas
Inaláveis
24 horas
Média Aritmética Anual
60
150(1)
40
150(1)
Dióxido de
Nitrogênio
1 hora
Média Aritmética Anual
50
320
50
190
100
100
(1) As concentrações não devem ser excedidas mais de uma vez ao ano.
(2) Referente a 25º e 1013,2 mbar
Devido ao número de pesquisas que demonstram os efeitos dos poluentes
atmosféricos nos agravos da saúde das pessoas, muito se tem questionado os
limites adotados como indicadores da qualidade do ar pelas instituições de controle
ambiental em todo mundo. Muitos estudos indicam que não há níveis seguros para
valores de concentração de poluentes atmosféricos para a saúde humana,
questionando, desta forma, os padrões de qualidade do ar que foram estabelecidos
anteriormente (DANNI-OLIVEIRA, 2008).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem propondo uma modificação
nos valores tomados como limites na caracterização da qualidade do ar desde 1997.
A redução proposta pela OMS é um reflexo da necessidade de se diminuir os
índices de problemas causados ou agravados pela poluição do ar que acomete a
população das grandes cidades (DANNI-OLIVEIRA, 2008). A Tabela 3 apresenta um
resumo dos novos limites apontados pelas diretrizes da Organização Mundial da
Saúde (OMS, 2006).
44
Tabela 3 – Limites apontados pelas diretrizes da Organização Mundial da Saúde
POLUENTE
PM2, 5
PM10
NO2
SO2
O3
LIMITES
Média Anual: 10 µg/m3
Média 24h: 25 µg/m3
Média Anual: 20 µg/m3
Média 24h: 50 µg/m3
Média Anual: 40 µg/m3
Média 1h: 200 µg/m3
Média 24h: 20 µg/m3
Média 10 min: 500
Média 8h: 100 µg/m3
Conforme se verifica na Tabela 3, os valores sugeridos pela Organização
Mundial da Saúde são, em geral, mais restritivos do que os valores atualmente
utilizados no Brasil e em outros países. Os padrões definidos por CONAMA (1990)
continuam em vigor até hoje, apesar dos novos valores sugeridos nas diretrizes da
OMS (2006) e por muitos trabalhos científicos.
A resolução CONAMA 03/1990 (CONAMA, 1990) também estabeleceu os
níveis de qualidade do ar para elaboração do Plano de Emergências para Episódios
Críticos de Poluição do Ar, visando providências dos estados, municípios, iniciativa
privada e comunidade em geral com o objetivo de prevenir grave e iminente risco à
saúde da população.
A Resolução 03/1990 do CONAMA (CONAMA, 1990) considera episódio
crítico de poluição do ar a presença de altas concentrações de poluentes na
atmosfera em um curto período de tempo, resultante da ocorrência de condições
meteorológicas desfavoráveis à dispersão dos mesmos. A referida resolução
estabeleceu os níveis de Atenção, Alerta e Emergência. Na ocorrência dos níveis de
Atenção e Alerta deverão ser tomadas providências visando evitar que seja atingido
o nível de emergência. Cabe aos estados, a competência para indicar as
autoridades responsáveis pela declaração dos níveis, devendo ser divulgados
através de meios de comunicação de massa. Durante a manutenção dos níveis, as
fontes de emissões ficam sujeitas a restrições estabelecidas pelo órgão ambiental.
A Tabela 4 apresenta os critérios para determinação de episódios críticos de
poluição do ar definidos pela Resolução 03/1990 do CONAMA (CONAMA, 1990) e
pela Resolução 054/2006 da SEMA (SEMA, 2006).
45
Tabela 4 – Critérios para definição de episódios críticos de poluição do ar
PARÂMETROS
ATENÇÃO
ALERTA
EMERGÊNCIA
Dióxido de Enxofre (µg/m3) – 24h
≥ 800
≥ 1.600
≥ 2.100
Partículas Totais em Suspensão
(µg/m3) – 24h
≥ 375
≥ 625
≥ 875
SO2 x PTS (µg/m3)(µg/m3) – 24h
≥ 65.000
≥ 261.000
≥ 393.000
Monóxido de Carbono (ppm) – 8h
≥ 15
≥ 30
≥ 40
Ozônio (µg/m3) – 1h
≥ 400
≥ 800
≥ 1.000
Partículas Inaláveis (µg/m3) – 24h
≥ 250
≥ 420
≥ 500
Fumaça (µg/m3) – 24h
≥ 250
≥ 420
≥ 500
≥ 1.130
≥ 2.260
≥ 3.000
Dióxido de Nitrogênio (µg/m3) – 1h
46
3 ÁREA DE ESTUDO E METODOLOGIA
3.1 ÁREA DE ESTUDO
A área de estudo compreende o município de Curitiba, capital do estado do
Paraná, Brasil. Sua fundação oficial data de 29 de março de 1693. No século XVII
sua principal atividade econômica era a mineração, aliada à agricultura de
subsistência. O próximo ciclo econômico, que perdurou pelos séculos XVIII e XIX foi
o de atividade tropeira, derivada da pecuária. Tropeiros eram os condutores de gado
que circulavam entre Viamão, município localizado no estado do Rio Grande do Sul,
e a feira de Sorocaba, em São Paulo. No final do século XIX, com o ciclo da madeira
e da erva mate em expansão, houve a chegada em massa de imigrantes europeus e
a construção da estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. Os imigrantes ao longo do
século XX deram nova conotação ao cotidiano da cidade. Há diversos memoriais de
imigração em espaços públicos do município, como parques e bosques municipais.
No final dos anos 1970, houve um crescimento populacional acelerado, devido
principalmente a migrações do campo para cidade. Atualmente a cidade é o centro
econômico do estado do Paraná, possuindo aproximadamente novecentas fábricas.
O parque industrial é bastante diversificado, possuindo empresas que atuam em
diversos ramos de atividade como, por exemplo, alimentício, madeireiro, moveleiro,
químicos, farmacêuticos, produtos tecnológicos, entre outros. (PMC, 2009).
Curitiba possui uma área aproximada de 431 km2 dividida em 75 bairros.
Apresenta um relevo suavemente ondulado com altitude média de 934,6 m. Curitiba
possuía cerca de 1.828.092 habitantes em 2008 e uma área verde de
aproximadamente 51 m2 por habitante. A frota do município foi de 1.097.830
veículos em dezembro de 2008. O fuso horário aplicado no município é o de Brasília
(IPPUC, 2009).
A Região Metropolitana de Curitiba (RMC) possui 26 municípios,
abrangendo uma área total de 13.041 km2 e possuía uma população aproximada de
3,2 milhões de habitantes em 2008, o que representa 37% da população total do
estado do Paraná (IBGE, 2009). O movimento migratório interno no Paraná se
47
mostra intenso, com uma tendência de movimentação da população em migrações
de curta distância, tendo como maior destino a Região Metropolitana de Curitiba
(IPARDES, 2008).
Curitiba está localizada no primeiro planalto do Estado do Paraná. Do ponto
de vista climático, apresenta um clima temperado úmido com verão temperado (Cfb),
segundo classificação de Köppen-Geiger, não apresentando estação seca definida.
Os invernos são brandos com geadas ocasionais e temperaturas mínimas de
aproximadamente -3ºC. A umidade relativa varia entre 75% e 85% (média mensal).
As precipitações são distribuídas durante todo o ano, apresentando maior
intensidade durante o verão. Apresenta precipitação média mensal em torno de 150
mm durante o verão e cerca de 80 mm durante o período de inverno (IAP, 2009).
Muitos fatores interferem na característica climática de Curitiba. A sua
localização em relação ao Trópico de Capricórnio, a topografia do primeiro planalto,
a altitude média do município de 934,6 m acima do nível do mar e a barreira
geográfica natural da Serra do Mar são os principais fatores responsáveis pelo clima
de Curitiba (IPPUC, 2009).
3.2 METODOLOGIA
O estudo realizado é denominado estudo ecológico de séries temporais e
busca verificar a associação causal de curto prazo entre a concentração de
poluentes na atmosfera e o número de óbitos em idosos (pessoas com idade igual
ou superior a 60 anos na data de óbito). Foi avaliada a relação entre as séries de
concentrações de poluentes e os óbitos ocorridos por todas as causas. Foi também
realizada a mesma análise com os óbitos que tiveram como causa principal da morte
doenças do aparelho respiratório. A série temporal foi formada pelos dias dos anos
2003 a 2008.
Modelos estatísticos são ferramentas úteis para resumir e interpretar dados.
Em particular eles podem facilitar a avaliação da forma e da intensidade de
associações de interesse em estudos epidemiológicos. Em estudos de impacto da
poluição atmosférica na saúde humana nem sempre é possível a utilização de um
modelo de regressão simples devido ao caráter não linear das variáveis de resposta.
48
Neste caso utilizam-se modelos que fornecem uma alternativa para a transformação
de dados, como os modelos aditivos generalizados (MAG). Estes modelos são uma
boa opção para representar tanto a sazonalidade, quanto a interferência das
variáveis meteorológicas. Neste tipo de modelo são utilizadas funções, que possuem
o mesmo domínio da função original, estimadas através de curvas de alisamento. A
chamada curva alisada nada mais é do uma espécie de média de certo número de
valores na vizinhança de determinado valor (CONCEIÇÃO et al., 2001; TADANO et
al., 2009).
O procedimento utilizado no presente estudo se caracterizou pela aplicação
dos modelos aditivos generalizados (MAG) nos quais são utilizados processos de
alisamento de variáveis a serem analisadas (dados tratados).
Inicialmente foram levantadas junto aos órgãos responsáveis as informações
relativas à qualidade do ar e a mortalidade de idosos em Curitiba. Em relação à
qualidade do ar foram utilizadas as concentrações de poluentes atmosféricos
observadas nas estações amostradoras de qualidade do ar localizadas na Praça
Ouvidor Pardinho e na Santa Casa, ambas na região central de Curitiba. Foram
também levantados os dados de temperatura e umidade média diária. Na estação
localizada na Santa Casa não há registro de temperatura e umidade, desta forma,
adotaram-se os dados de temperatura e umidade observados na estação da Praça
Ouvidor Pardinho.
As concentrações de poluentes observadas nas duas referidas estações
foram consideradas, por hipótese, como representativas da qualidade do ar do
município. A referida hipótese foi adotada principalmente pela operação ininterrupta
das estações, pela disponibilidade dos dados e pela operação das duas estações
durante todo o período em estudo. Cabe ressaltar também a grande densidade
populacional, densidade de idosos e número total de idosos verificados nos bairros
localizados próximos às referidas estações, conforme os dados disponibilizados pelo
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).
49
3.2.1 Análise Preliminar dos Dados
A análise preliminar dos dados de qualidade do ar e de mortalidade de
idosos de Curitiba teve por objetivo caracterizar o comportamento destas variáveis
ao longo do tempo, buscando inclusive a verificar a existência de algum tipo de
comportamento sazonal ou tendência. Também foram contabilizadas falhas nas
séries de dados de concentração de poluentes. Para tal foram avaliadas as
distribuições de médias diárias, mensais e anuais de poluentes. Em relação aos
óbitos foi analisado o comportamento do número de óbitos diário, mensal e anual e a
porcentagem média mensal de óbitos. As análises foram realizadas para os óbitos
por todas as causas e, separadamente, para dados de óbitos que tiveram como
causa principal da morte doenças do trato respiratório.
3.2.2 Análise da Correlação Simples
Após a etapa de análise preliminar dos dados de qualidade do ar e de
mortalidade efetuou-se o cálculo do coeficiente de correlação de Pearson entre as
séries de mortalidade de idosos, as variáveis que caracterizam a qualidade do ar
(concentração de poluentes) e as variáveis meteorológicas Temperatura e Umidade.
Foram excluídas as séries de dados nas quais foram verificadas, no tratamento
preliminar, muitas falhas de dados, impossibilitando correlações confiáveis devido à
ausência de muitos dados.
Para verificação das correlações existentes entre os dados e análises de
regressão múltipla, foi utilizado o Software SPSS 16 for Windows (FIELD, 2009). A
adoção do SPSS deveu-se ao fato do mesmo ter sido usado em diversos estudos,
como por exemplo, os realizados por Conceição et al. (2001), Martins et al. (2002),
Bakonyi et al. (2004), Daumas (2004), Braga et al. (2007), Arruda (2008), entre
outros.
O coeficiente de correlação de Pearson foi calculado utilizando-se o
Software SPSS 16, para as seguintes variáveis, respeitando-se a notação utilizada
no estudo:
50
Variáveis Dependentes
ObT:
Série diária de óbitos de idosos por todas as causas no período
em estudo.
ObR:
Série diária de óbitos por doenças do aparelho respiratório
ocorridas no período em estudo.
Variáveis Independentes
PTS_OP: Concentração média de Partículas
Totais
em
Suspensão
observadas na estação amostradora localizada na Praça Ouvidor Pardinho, durante
o período em estudo.
PTS_SC:
Concentração média de Partículas Totais
em Suspensão
observadas na estação amostradora localizada na Santa Casa,
durante o período em estudo.
SO2_OP:
Concentração média de Dióxido de Enxofre observada na estação
amostradora localizada na Praça Ouvidor Pardinho, durante o
período em estudo.
SO2_SC:
Concentração média de Dióxido de Enxofre observada na estação
amostradora localizada na Santa Casa, durante o período em
estudo.
O3_OP:
Concentração
média
de
Ozônio
observada
na
estação
amostradora localizada na Praça Ouvidor Pardinho, durante o
período em estudo.
51
Temp:
Temperatura média diária observada na estação amostradora
localizada na Praça Ouvidor Pardinho, durante o período em
estudo.
Umid:
Umidade média diária observada na estação amostradora
localizada na Praça Ouvidor Pardinho, durante o período em
estudo.
3.2.3 Análise da Correlação Simples – Dados Tratados
Após verificação do coeficiente de correlação de Pearson entre os dados
brutos, efetuou-se o tratamento das séries de dados, com o alisamento (ou
suavização) das séries de dados de óbitos e das séries das variáveis meteorológicas
temperatura e umidade, conforme procedimento necessário à execução do Modelo
Aditivo Generalizado.
Um alisador é uma função com o mesmo domínio da função original, cujos
valores são mais suaves que os da função original, ou seja, os valores devem ter
menor variabilidade do que os da função original. Exemplo de alisadores são as
médias móveis, soma de valores, splines, função binário. O objetivo da utilização de
funções de alisamento é que esta função modele a sazonalidade e possíveis
tendências. Para aplicação do modelo aditivo generalizado é importante que o
alisador não represente a variabilidade diária da série de óbitos. O mesmo vale para
as séries de variáveis meteorológicas (CONCEIÇÃO et. al, 2001). A Figura 1 ilustra
o processo de alisamento de uma série óbitos.
52
Figura 1 – Processo de alisamento de uma série de óbitos
As séries de dados de óbitos foram suavizadas com a aplicação da função
“smoothing” do software SPSS 16. Para as séries de dados de temperatura e
umidade foi utilizado como alisador a média móvel de 30 dias.
Foram também criadas duas novas séries compostas pelas médias do
número de óbitos de três dias (o dia em análise com os dois dias seguintes). Esta
série também foi alisada através da função “smoothing”. Este procedimento foi
realizado, pois segundo Braga et al. (1999), Daumas (2004) e outros, as
manifestações dos efeitos da poluição sobre a saúde humana aparentemente
apresentam certa defasagem em relação ao momento da exposição do indivíduo
aos agentes poluidores, ou seja, o efeito em determinada pessoa pode ser originário
da exposição a que esteve sujeita há alguns dias atrás.
As novas variáveis criadas foram nomeadas conforme descrito a seguir:
Variáveis Dependentes
ObT_s:
Série alisada do número diário de óbitos de idosos por todas as
causas no período em estudo.
ObR_s:
Série alisada de óbitos por doenças do aparelho respiratório
ocorridas no período em estudo.
Ob_3T_s: Série alisada da média de três dias do número de óbitos de idosos
por todas as causas no período em estudo.
Ob_3R_s: Série alisada da média de três dias do número óbitos por doenças
do aparelho respiratório ocorridas no período em estudo.
53
Variáveis Independentes
MV_Temp: Média móvel de 30 dias da temperatura média diária observada
na estação amostradora localizada na Praça Ouvidor Pardinho,
durante o período em estudo.
MV_Umid: Média móvel de 30 dias da umidade média diária observada na
estação amostradora localizada na Praça Ouvidor Pardinho,
durante o período em estudo.
Os dados de concentração de poluentes não sofreram processo de
alisamento, pois de acordo com o modelo adotado, os processos de alisamento
captam as tendências e sazonalidade nas variáveis dependentes e nas variáveis de
interferência. Os dados de concentração de poluentes, cujo efeito nas variáveis
dependentes foi estimado, não sofreram o processo de alisamento, sendo utilizadas
as séries de dados originais.
Verificou-se o coeficiente de correlação de Pearson entre os dados de
concentração de poluentes originais e as séries de óbitos e variáveis meteorológicas
alisadas. Foi também verificado intervalo de confiança ou significância estatística da
correlação observada. No presente estudo foram apenas consideradas correlações
que estiveram dentro do intervalo de confiança estatística de 95%. No software
SPSS 16, o intervalo de confiança acima de 95% é representado pela expressão “sig
< 0,05”. A significância estatística 0,05 é adotada automaticamente pelo software
SPSS 16, havendo opção para alteração, caso o usuário deseje intervalo de
confiança maior ou menor do que o valor pré-estabelecido. Segundo Field (2009) e
Tadano et al. (2009), o intervalo de confiança 95% é comumente utilizado em
análises estatísticas.
54
3.2.4 Análise de Regressão Múltipla
Após o cálculo e análise do coeficiente de correlação de Pearson, foram
excluídas das próximas etapas as séries de concentração de poluentes que: não
possuíram correlação com os dados; que apresentaram correlação negativa com as
séries de óbitos (que significaria uma redução no número de óbitos quando ocorre a
elevação da concentração do poluente); ou cujo intervalo de confiança da análise
estatística de correlação esteve abaixo dos 95% estabelecidos.
A verificação da correlação entre variáveis é útil em pesquisas para verificar
a associação que existe, se é que existe, entre variáveis. Mas a correlação nada nos
informa sobre o poder preditivo das variáveis. Nas análises de regressão, ajusta-se
um modelo aos dados e então este modelo pode ser usado para prever valores ou
variações na variável dependente. Quando há mais de uma variável independente,
ou explicativa, a análise de regressão é denominada regressão múltipla ou
multivariável. O software SPSS é uma ferramenta computacional útil para execução
de análises de regressão multivariada (FIELD, 2009).
Foi realizada análise de regressão múltipla entre as variáveis dependentes e
as variáveis representadas pelas séries de poluentes. Foram inseridas como
variáveis de interferência as variáveis meteorológicas.
Todo o trabalho foi elaborado com a utilização de dados secundários. Não
houve a participação de pessoas com nenhum tipo de abordagem, pesquisa com
questionários ou similares.
3.3 DADOS DE QUALIDADE DO AR EM CURITIBA
O monitoramento da qualidade do ar em Curitiba e Região Metropolitana é
realizado através de estações amostradoras de qualidade do ar e teve início na
década de 80 com a operação de quatro estações de amostragem do ar, fixas e
manuais, uma localizada no município de Curitiba (Santa Casa) e três em Araucária
(Seminário, Assis e São Sebastião). Estas estações, que continuam em operação,
analisam e fornecem médias diárias de três parâmetros de qualidade do ar: dióxido
55
de enxofre (SO2), partículas totais em suspensão (PTS) e fumaça. Atualmente a
rede de Monitoramento da Região Metropolitana de Curitiba é composta por treze
estações, cuja distribuição espacial é apresentada na Figura 2 (IAP, 2009).
Foram acrescentadas à rede inicial de quatro estações manuais oito
estações automáticas que analisam poluentes atmosféricos, atendendo o previsto na
Resolução CONAMA 03/90 (CONAMA, 1990) que define padrões de qualidade do ar
para sete parâmetros: dióxido de enxofre, partículas totais em suspensão, índice de
fumaça, partículas inaláveis, monóxido de carbono, ozônio e dióxido de nitrogênio.
As estações automáticas também recebem simultaneamente dados meteorológicos
de 30 em 30 segundos (IAP, 2009).
Figura 2 – Localização das estações amostradoras da qualidade do ar
Atualmente o município de Curitiba possui quatro estações em operação: a
estação localizada na Santa Casa; a estação da Praça Ouvidor Pardinho; a estação
localizada no bairro Boqueirão; e a estação Santa Cândida. A estação Boqueirão
reiniciou suas atividades em agosto de 2009, não estando em operação desde
agosto de 2007, devido a problemas de vandalismo e depredação de equipamentos
da estação. A rede de monitoramento da região metropolitana de Curitiba, o
município em que a estação está localizada, os parâmetros monitorados e o ano de
início de operação são apresentados na Tabela 5.
56
Nas estações manuais, os equipamentos operam apenas em função da
coleta de material, que será posteriormente analisado em laboratório, como por
exemplo, a coleta de material particulado em filtro. Deste modo, um técnico tem que
visitar a estação diariamente para efetuar a coleta do filtro e instalar um novo filtro.
Assim as estações manuais fornecem médias diárias de concentração de poluentes.
Já nas estações automáticas, a operação ocorre com analisadores que fazem a
coleta e análise simultânea dos poluentes. Todos os resultados são armazenados
em um sistema computadorizado. Assim as estações automáticas fornecem médias
horárias de poluentes. Como os equipamentos são automáticos, a visita dos
técnicos até a estação é necessária apenas para a realização da manutenção dos
equipamentos.
Tabela 5 – Parâmetros Analisados pelas Estações Amostradoras de Curitiba e Região
Metropolitana de Curitiba em 2008
ESTAÇÃO
Município
PARÂMETROS ANALISADOS
Santa Cândida
Cidade Industrial
Assis Automática
Curitiba
Curitiba
Araucária
SO2, NO2, e O3
SO2, NO2, O3, e PTS
ÍNICIO DE
OPERAÇÃO
1998
1998
2000
Ouvidor Pardinho
Curitiba
SO2, PTS, NO2, O3 e PI
2002
Boqueirão
UEG
CISA - CSN
Curitiba
Araucária
Araucária
SO2, PI, NO2 e O3
SO2, PI, NO2 e O3
2001
2003
2002
REPAR
Araucária
SO2, PI, NO2, O3, CO, Benzeno,
Tolueno e Etilbenzeno
2003
Santa Casa
São Sebastião
Assis
Seminário
Colombo
Curitiba
Araucária
Araucária
Araucária
Colombo
Fumaça, SO2 e PTS
Fumaça, SO2 e NH3
Fumaça, SO2 e NH3
Fumaça, SO2 e NH3
PTS e PI
1985
1985
1985
1985
2006
Fonte: IAP (2009), adaptado
Os dados de qualidade do ar utilizados no presente estudo se referem às
concentrações médias diárias dos poluentes CO, SO2, PTS e O3 observadas na
estação automática localizada na Praça Ouvidor Pardinho e dos poluentes SO2 e
PTS observadas na estação manual localizada na Santa Casa para o período de
57
2003 a 2008 e foram gentilmente fornecidos pelo Instituto Ambiental do Paraná
(IAP). Também foram fornecidos pelo IAP os dados de temperatura e umidade
média diária observadas na estação da Praça Ouvidor Pardinho. Não há registro das
variáveis meteorológicas na estação localizada na Santa Casa, portanto, utilizaramse nas análises apenas dados meteorológicos da estação Ouvidor Pardinho.
As duas estações localizam-se em região central do município de Curitiba
em locais de grande movimentação de veículos automotores e pedestres. Como já
mencionado anteriormente, os dados das referidas estações foram usados no
presente estudo sob a hipótese de que sejam representativos da qualidade do ar no
município de Curitiba, conforme procedimento também adotado em estudos
anteriores, por exemplo, Bakoni (2004). Outro aspecto importante é o fato de que as
duas estações estiveram em operação durante todo o período em estudo, o mesmo
não ocorreu com outras estações situadas no município em que houve problemas
operacionais, em certos períodos, devido a vandalismo e furtos de equipamentos.
A Praça Ouvidor Pardinho está localizada na esquina da Avenida Getúlio
Vargas com a Rua Nunes Machado no bairro Rebouças. A operação e a
manutenção da estação são realizadas pelo Instituto de Tecnologia para o
Desenvolvimento – LACTEC (IAP, 2009). A Figura 3 apresenta a localização da
estação amostradora da qualidade do ar situada na Praça Ouvidor Pardinho.
Figura 3 – Estação Amostradora do Ar na Praça Ouvidor Pardinho (IAP, 2009)
58
A partir da Figura 3 é possível visualizar o tráfego intenso de veículos nas
proximidades da estação amostradora do ar localizada na Praça Ouvidor Pardinho.
A estação amostradora do ar situada na Santa Casa de Curitiba localiza-se
na esquina da rua André de Barros com a rua Alferes Poli. A operação e a
manutenção da estação também são realizadas pelo Instituto de Tecnologia para o
Desenvolvimento – LACTEC (IAP, 2009). A Figura 3.4 apresenta a localização da
estação Santa Casa.
Assim como a estação Ouvidor Pardinho, a estação Santa Casa também
está situada em região central de Curitiba, em frente à praça Rui Barbosa, local de
grande fluxo de veículos, inclusive veículos do ciclo diesel, pois trata-se de ponto
onde concentram-se estações utilizadas para o transporte coletivo, como pode ser
observado na Figura 4 as distâncias, em linha reta, entre as duas estações é de
aproximadamente 920 metros.
Figura 4 – Localização da Estação Amostradora do Ar na Santa Casa de Curitiba
(Fonte: IAP, 2009).
Atualmente o resultado do monitoramento da qualidade do ar é divulgado ao
público pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP), contudo, não são divulgadas as
concentrações dos poluentes. O resultado é divulgado sob a forma de um índice de
qualidade do ar (IQA). O índice é utilizado para facilitar a divulgação dos resultados
59
e padronizar todas as substâncias em uma mesma escala. O índice é adimensional
e é obtido através de uma função linear segmentada, onde os pontos de inflexão são
os padrões de qualidade do ar e os níveis de atenção, alerta e emergência. Por
definição para o padrão primário de cada poluente é atribuido o índice 100, o nível
de atenção equivale a 200, o de alerta a 300 e o de emergência a 400. O índice
também é usado para classificar a qualidade do ar em seis categorias: Boa, Regular,
Inadequada, Má, Péssima e Crítica (DANNI-OLIVEIRA, 2008; IAP 2010).
A qualidade do ar é definida pelo poluente que se encontra em pior
classificação. Por exemplo, se a concentração de um poluente o coloca na categoria
“inadequada” e os demais estejam em categoria “boa”, a qualidade do ar é definida
como “inadequada”. A Figura 5 ilustra o formato atualmente utilizado para divulgação
dos resultados das estações de monitoramento da qualidade do ar.
Figura 5 – Resultados do monitoramento da qualidade do ar divulgados pelo Instituto
Ambiental do Paraná (2010).
60
Durante a operação de redes de monitoramento da qualidade do ar é
comum a existência de lacunas nos resultados devido a problemas de calibração ou
manutenção dos analisadores ou, até mesmo, por falta de energia. Isto não
compromete o cálculo das médias diárias se os valores válidos não ficarem abaixo
de um determinado limite de representatividade. Para validar uma média diária, o
Instituto Ambiental do Paraná (IAP) adota o seguinte critério de representatividade:
pelo menos 16 médias horárias válidas (IAP, 2009). Isto significa que, no presente
estudo, foram utilizados apenas médias diárias dos dias que possuiam pelo menos
16 médias horárias válidas, pois, como citado anteriormente, os dados foram
fornecidos pelo Instituto Ambiental do Paraná.
3.4 DADOS DE MORTALIDADE DE IDOSOS EM CURITIBA
O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) foi criado em 1979 pelo
Ministério da Saúde. É um importante instrumento no monitoramento de óbitos. Os
dados do sistema permitem o monitoramento do número e causas de óbitos em
todos os municípios do Brasil. Deve ser notificado ao SIM todo e qualquer óbito
ocorrido no Brasil, tendo ou não ocorrido em ambiente hospitalar, com ou sem
assistência médica. A causa básica do óbito é a causa principal que gerou o óbito,
independente do tempo que o precedeu (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004).
Foram utilizados no presente estudo dados diários relativos aos óbitos de
idosos residentes no município de Curitiba ocorridos no período compreendido entre
01/01/2003 e 31/12/2008. Foram consideradas idosas as pessoas com idade igual
ou superior a 60 anos, conforme a definição de pessoa idosa estabelecida pelo
Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003).
A Organização Mundial da Saúde desenvolveu um sistema de códigos para
padronizar o registro das doenças denominado Classificação Internacional de
Doenças (CID) que utiliza uma linguagem padronizada, que possibilita a
comunicação e comparações em todo o mundo de dados e indicadores de saúde. A
referida classificação facilita estudos, propiciando estatísticas padronizadas. É usada
para índice de diagnósticos em registros de hospitais, classificação de operações,
estatísticas de mortalidade e morbidade (OMS, 2000).
61
A CID estabelece códigos relativos à classificação de doenças e uma grande
variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e
causas para ferimentos, doenças e óbitos. A CID é subdividida em capítulos, sendo
um gênero de causas diferentes abordado em cada capítulo . A cada óbito é
atribuída uma categoria à qual corresponde um código, por exemplo, no capítulo II
são estabelecidos os códigos para as neoplasias e no capítulo IX são estabelecidos
os códigos para as doenças do aparelho circulatório. O capítulo da CID que fornece
os códigos de doenças do aparelho respiratório é o capítulo X e todos os códigos
dos óbitos neste capítulo se iniciam pela letra J (CID 10, 2000).
Os dados de óbitos do município de Curitiba foram gentilmente fornecidos
pela Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, que registra todos os óbitos
ocorridos no município e envia ao Ministério da Saúde para compor o banco de
dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.
Também foram obtidos dados a partir de consultas ao banco de dados do Ministério
da Saúde DATASUS. Para cada informação de óbito foi fornecida também a
classificação CID relativa à causa principal do óbito, para que fosse possível a
construção das séries temporais de óbitos por doenças do trato respiratório (CID 10,
2000).
62
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 ANÁLISE PRELIMINAR DOS DADOS
4.1.1 População Idosa na Área de Estudo
A população estimada de Curitiba para o ano de 2007 era de
aproximadamente 1,8 milhões de habitantes, ocupando o 7º lugar na lista das
capitais brasileiras mais populosas. A taxa média de crescimento populacional de
Curitiba, que chegou a 5,3% ao ano na década de 1970, atualmente é de 1,7% ao
ano. Em relação à composição etária, considerando-se o ano de 2007, a faixa de 15
a 29 anos concentrava cerca de 29% da população curitibana. A população idosa,
com idade superior a 60 anos, concentrava cerca de 9,62% da população. A
população de Curitiba distribui-se por 75 bairros, sendo o bairro Cidade Industrial o
mais populoso, concentrando quase 10% da população (IPPUC 2009; IBGE, 2009).
A Figura 6 mostra a distribuição da população de Curitiba por faixa etária no
ano 2007 (IPPUC, 2009).
Figura 6 – Pirâmide etária do município de Curitiba no ano 2007 (IPPUC, 2009).
Verifica-se a partir da Figura 6, que as maiores parcelas da população
curitibana são compostas por população jovem, abaixo dos 30 anos, com maior
63
concentração na faixa entre 25 e 29 anos. Contudo, ao se considerar em conjunto as
faixas representando a população de idosos (60 anos ou mais), verifica-se que a
população idosa representa uma parcela considerável da população.
A Tabela 6 apresenta o número de idosos e porcentagem de idosos em
relação à população total do município de Curitiba durante o período em estudo que
compreendeu os anos de 2003 a 2008.
Tabela 6 – Idosos no Município de Curitiba durante o período de 2003 a 2008
2003
2004
2005
2006
2007
População de
Idosos
146.060
151.507
157.473
164.060
170.861
2008
178.269
Ano
População Total
% de Idosos
1.692.828
1.716.739
1.738.611
1.758.289
1.775.840
8,63
8,83
9,06
9,33
9,62
1.791.448
9,95
Fonte: IPPUC (2009).
Verifica-se a partir da Tabela 6 que a população idosa representa uma
parcela que correspondia a 9,95% da população total do município de Curitiba no
ano 2008, chegando a 178.269 habitantes. Observa-se também um aumento relativo
da população idosa em relação à população total.
A Figura 7 apresenta a densidade demográfica de Curitiba, em cada um dos
75 bairros do município, no ano de 2007. Observa-se, a partir da Figura 7 que os
bairros situados em região central tendem a ser mais densamente habitados, como
por exemplo, Centro, Água Verde, Centro Cívico, Alto da XV, entre outros. Há
algumas exceções, como o bairro Sítio Cercado que, apesar de distante do centro,
possui a uma densidade demográfica superior a 100 hab./ha.
64
Figura 7 – Densidade demográfica por bairro no ano de 2007 (IPPUC, 2009).
Uma lista com os nomes dos bairros de Curitiba é apresentada na Figura 8,
onde se ilustra também a porcentagem de pessoas com idade superior a 65 anos,
em relação à população total em cada um dos 75 bairros de Curitiba. Ressalta-se
que, no presente trabalho as correlações e análises serão realizadas com a
população de idosos, entendendo-se como a população com idade igual ou superior
a 60 anos.
65
Figura 8 – Porcentagem de idosos com idade superior a 65 anos, por bairro do
município de Curitiba (IPPUC, 2009).
A maior população relativa de pessoas com idade superior a 65 anos em
relação à população total se encontra no Centro e em bairros próximos ao centro,
como Centro Cívico, Alto da XV, Alto da Glória, Rebouças, entre outros. Destaque
para o bairro Alto da XV, que possui uma população relativa de 14,35%, sendo o
66
bairro que possui a maior proporção de população com idade superior a 65 anos em
Curitiba
Apesar de não se dispor de figura similar para a população idosa (superior a
60 anos), com base na Figura 8, pode-se verificar a existência de uma certa
tendência de moradia, não sendo a população idosa distribuída de forma
homogênea pelo município de Curitiba.
Ainda segundo IPPUC (2009), a proporção da população com idade superior
a 60 anos em relação à população total era de 7,14%, 7,64% e 8,42%,
respectivamente nos anos de 1991, 1996 e 2000, mostrando claramente um
envelhecimento da população de Curitiba. De acordo com projeção do IPPUC
(2009), os idosos irão compor aproximadamente 15,86% da população do município
de Curitiba no ano 2020.
4.1.2 Dados de Qualidade do Ar
Este item procura apresentar uma análise preliminar dos dados de
concentração dos poluentes, com base nas concentrações médias diárias de
poluentes observadas na estação automática de amostragem de qualidade do ar,
localizada na Praça Ouvidor Pardinho, e na estação manual de amostragem da
qualidade do ar, localizada na Santa Casa, no período de 2003 a 2008.
A Figura 9 mostra a variação da média anual da concentração dos poluentes
analisados na estação Santa Casa para o período compreendido entre 1990 e 2008.
67
Figura 9 – Concentrações médias anuais de SO2, Fumaça e PTS no período de 1990
a 2008. Estação Santa Casa (IAP, 2009).
Conforme se pode observar a partir da Figura 9, o monitoramento da
qualidade do ar no município de Curitiba apresenta uma aparente tendência de
redução na concentração média anual de poluentes monitorados pela estação Santa
Casa, desde o início de operação da estação em 1990.
Inicialmente foi verificada a quantidade de dias em que não foram realizadas
análises para cada parâmetro nas estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa,
utilizadas no presente estudo. Tal contagem fez-se necessária para verificação da
quantidade de dias com falhas de observação durante o período em estudo.
A Tabela 7 apresenta o resultado desta avaliação para os parâmetros
analisados na estação Santa Casa durante o período em estudo.
68
Tabela 7 – Número de dias sem resultados de concentração dos poluentes analisados pelas
estações localizadas na Santa Casa e na Praça Ouvidor Pardinho no período compreendido
entre os anos 2003 e 2008.
TOTAL DE DIAS SEM MEDIÇÃO
Parâmetro
Ano / Estação
2003
2004
2005
2006
2007
2008
Total
% do total
PTS
54
10
44
13
24
32
177
8,1
Fumaça*
SO2
Santa Casa
317
3
360
0
328
0
211
6
173
14
75
22
1464
45
66,8
2,1
CO
56
325
365
81
275
366
1468
67,0
NO2
O3
PTS
Ouvidor Pardinho
294
64
323
366
3
6
0
0
8
25
0
13
55
11
37
14
2
4
754
80
391
34,4
3,6
17,8
PI
SO2
323
4
6
0
11
366
710
32,4
9
3
8
4
19
0
43
2,0
* para fumaça foram considerados os dias sem medição somados aos dias em que o resultado foi
igual a zero.
Com base nos dados da Tabela 7, verifica-se que alguns parâmetros
possuem muitos dias sem resultados de concentração, o que impossibilita o
aprofundamento de uma análise estatística. Os poluentes fumaça e monóxido de
carbono não apresentaram resultados na maioria dos dias do período em estudo. Já
os
poluentes
dióxido
de
nitrogênio
e
partículas
inaláveis
apresentaram
respectivamente 34,4% e 32,4% de dias sem resultados, porcentagem considerada
elevada e, portanto, também foram descartados da análise estatística. O poluente,
partículas totais em suspensão, apresentou 8,1% de dias sem resultado na estação
Santa Casa e 17,8% de dias sem resultado na estação Ouvidor Pardinho. Apesar do
número elevado de dias sem resultado este parâmetro apresenta a vantagem de ser
um poluente analisado nas duas estações. Os poluentes, dióxido de enxofre e
ozônio, foram os que apresentaram a menor porcentagem de dias sem resultados,
variando de 2,0% a 3,1%, sendo o poluente dióxido de enxofre analisado nas duas
estações.
Conforme critério de representatividade estabelecido na metodologia deste
trabalho, foram selecionados os poluentes que obtiveram resultados em pelo menos
70% dos dias durante o período em estudo. Os poluentes que tiveram mais de 30%
de dias sem resultados, que corresponde a 658 dias, não foram utilizados para as
demais análises e procedimentos estatísticos deste estudo. Desta forma utilizaram-
69
se os seguintes poluentes para continuidade do presente estudo: partículas totais
em suspensão, dióxido de enxofre e ozônio.
Um aspecto importante em relação à qualidade do ar é a verificação da
existência de sazonalidade em relação aos valores de concentração observados.
Eventos mais críticos (maior concentração de poluentes) tendem a ocorrer no
inverno, quando se observa um maior número de inversões térmicas, o que dificulta
a dispersão de poluentes e variam conforme as características de cada poluente.
Foi realizada a avaliação das distribuições médias diárias, mensais, média
das médias mensais e médias anuais dos três poluentes selecionados.
Partículas Totais em Suspensão (PTS)
Inicialmente são apresentados os resultados obtidos para o poluente
partículas totais em suspensão. A Figura 10 ilustra os valores da concentração
média diária de partículas totais em suspensão observados nas estações localizadas
na Praça Ouvidor Pardinho e na Santa Casa ao longo do período em estudo.
250
µg/Nm3
200
150
100
50
0
jan-03
jul-03
jan-04
jul-04
jan-05
jul-05
Ouvidor Pardinho
jan-06
jul-06
jan-07
jul-07
jan-08
jul-08
Santa Casa
Figura 10 – Valores de concentração média diária de partículas totais em suspensão (PTS)
observados nas estações localizadas na Praça Ouvidor Pardinho e na Santa Casa.
70
De acordo com a Resolução SEMA 054/06 (IAP, 2006) e Resolução
CONAMA 03/90 (CONAMA, 1990), o padrão primário para o poluente partículas
totais em suspensão é de 240 µg/m3 para média de 24 horas, não devendo ser
excedido mais de uma vez ao ano. O respectivo padrão primário não foi excedido
durante todo o período em estudo. O padrão secundário, de acordo com as
resoluções citadas, é de 150 µg/m3 para média de 24 horas, valor este excedido em
45 dias na estação Santa Casa e em apenas 4 dias na estação Ouvidor Pardinho,
durante todo o período em estudo. Na Figura 10 se pode observar a variação
existente entre os valores observados na estação Santa Casa em relação aos
valores observados na estação Ouvidor Pardinho, sendo os valores observados na
Santa Casa aparentemente superiores. Há grande variação dos valores observados
em dias subseqüentes e também uma aparente sazonalidade, que será verificada
com mais clareza na avaliação das médias mensais.
O comportamento das médias mensais e a média das médias mensais foi
analisado para todo o período em estudo. Tal análise se torna importante para
avaliação de existência de sazonalidade no comportamento dos poluentes, além de
uma visualização do comportamento do poluente ao longo dos meses durante o
período em estudo, o que nem sempre fica claro na análise da concentração média
diária. A Figura 11 ilustra o comportamento da média mensal do poluente partículas
totais em suspensão nas duas estações utilizadas no presente estudo.
Figura 11 – Valores da concentração média mensal de PTS nas estações localizadas na
Praça Ouvidor Pardinho e na Santa Casa
71
Com base nas médias mensais fica clara a superioridade dos valores
observados na estação Santa Casa em relação aos observados na estação Ouvidor
Pardinho. Também se verifica o comportamento sazonal deste poluente, com
valores de concentração maiores durante os meses mais frios e menores nos meses
de verão.
A Figura 12 ilustra os valores médios da concentração média mensal (µg/m3)
de partículas totais em suspensão nas estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa ao
longo do período em estudo.
100
90
80
µg/Nm3
70
60
50
40
30
20
10
0
Jan
Fev
Mar
Abr
Mai
Ouvidor Pardinho
Jun
Jul
Ago
Set
Out
Nov
Dez
Santa Casa
Figura 12 – Média das concentrações médias mensais de partículas totais em suspensão
(PTS) na estação Ouvidor Pardinho e estação Santa Casa durante o período 2003 a 2008
A Figura 12 confirma o exposto anteriormente, onde se verifica a existência
de um comportamento sazonal das partículas totais em suspensão, sendo as
maiores médias mensais observadas durante o período compreendido entre os
meses de Maio
e Setembro. Em todos os meses, verifica-se que o valor de
concentração de partículas totais em suspensão observado na estação Santa Casa
é significativamente superior ao valor observado na estação Ouvidor Pardinho.
Como citado anteriormente, tal fato deve-se, provavelmente, ao intenso fluxo de
veículos do ciclo diesel, utilizados no transporte coletivo do município de Curitiba,
que trafegam na Praça Rui Barbosa, em frente à Santa casa.
72
A Figura 13 ilustra a média geométrica (µg/m3) do poluente partículas totais
em suspensão para os valores observados nas estações Ouvidor Pardinho e Santa
Casa.
80
70
µg/Nm3
60
50
40
30
20
10
0
2003
2004
2005
Ouvidor Pardinho
2006
2007
2008
Santa Casa
Figura 13 – Média geométrica anual do poluente partículas totais em suspensão (PTS) na
estação Ouvidor Pardinho e estação Santa Casa.
Novamente observa-se a superioridade dos valores observados na estação
Santa Casa em relação aos observados na estação Ouvidor Pardinho. De acordo
com a Resolução 054/06 (IAP, 2006) e Resolução CONAMA 03/90 (CONAMA,
1990) o padrão primário para o poluente partículas totais em suspensão é de 80
µg/m3, para média geométrica anual. O padrão primário para média anual não foi
excedido durante o período em estudo, entretanto, os valores observados na
estação Santa Casa aproximam-se do padrão, atingindo o valor máximo de 75,5
µg/m3 para média geométrica anual no ano 2007. No ano 2008, houve redução na
média anual observada na estação Ouvidor Pardinho, em confronto com aparente
tendência observada no período 2003 a 2007.
Dióxido de Enxofre
A mesma abordagem utilizada com o poluente partículas totais em
suspensão foi utilizada na análise do poluente dióxido de enxofre, ou seja, foram
73
analisadas as concentrações médias diárias, médias mensais, média das médias
mensais e médias anuais. A Figura 14 ilustra os valores da concentração média
diária (ppb) do poluente dióxido de enxofre observadas na estação da Praça Ouvidor
Pardinho e na estação da Santa Casa ao longo do período em estudo.
Figura 14 – Concentrações médias diárias de dióxido de enxofre (SO2) na estação Ouvidor
Pardinho e na estação Santa Casa.
Conforme verifica-se na Figura 14, o poluente dióxido de enxofre ultrapassou
o padrão secundário de 100 µg/m3 estabelecido, para a concentração média diária,
pela Resolução CONAMA 03/90 (CONAMA, 1990) e pela Resolução SEMA 054/06
(SEMA, 2006) durante muitos dias do período em estudo. Em grande parte dos dias,
observa-se que a estação localizada na Santa Casa registrou concentrações
superiores às observadas na Praça Ouvidor Pardinho, entretanto o maior valor foi
observado na estação Ouvidor Pardinho, aproximadamente 256 µg/m3, no dia
11/03/2007, valor muito superior à média diária registrada durante todo o período na
referida estação, que foi de 4,8 µg/m3. A média observada na estação Santa Casa
foi de 57,9 µg/m3, cerca de doze vezes superior à média observada na estação
Ouvidor Pardinho. O padrão primário para este poluente é de 365 µg/m3 e não foi
excedido nenhuma vez durante todo o período em estudo.
74
A estação Santa Casa está localizada em local de fluxo intenso de veículos
do ciclo diesel, devido às estações de ônibus da Praça Rui Barbosa, localizada em
frente à Santa Casa. Já na Rua Getúlio Vargas, onde localiza-se a Praça Ouvidor
Pardinho, o fluxo
predominante é o de veículos de passeio, esta diferença em
termos de trafego de veículos, contribui para as diferenças de valores observadas
nas duas estações.
A Figura 15 ilustra os valores da concentração média mensal de dióxido de
enxofre nas estações localizadas nas estações da Praça Ouvidor Pardinho e Santa
Casa ao longo do período em estudo.
Figura 15 – Concentração média mensal de dióxido de enxofre (SO2) nas estações
localizadas na Praça Ouvidor Pardinho e Santa Casa
Com base nas médias mensais fica clara a superioridade dos valores
observados na estação Santa Casa em relação aos observados na estação Ouvidor
Pardinho. Este poluente, aparentemente, não apresenta comportamento sazonal,
como o observado com o poluente partículas totais em suspensão. Cabe destacar
os baixos valores observados na estação Santa Casa nos meses de dezembro de
2003 e outubro de 2006, em relação aos demais resultados da mesma estação.
Também apresentou comportamento atípico o resultado obtido no mês de março de
2007, na estação da Praça Ouvidor Pardinho, com valor muito superior à média do
período.
75
A Figura 16 ilustra os valores da média das concentrações médias mensais
de dióxido de enxofre nas estações Ouvidor Pardinho e na Santa Casa ao longo do
período em estudo.
Figura 16 – Média por mês da concentração de dióxido de enxofre (SO2) na estação
Ouvidor Pardinho e na estação Santa Casa
Analisando a Figura 16, verifica-se existência de uma tendência de maiores
valores médios durante o período compreendido entre os meses de março a julho,
em relação aos meses de agosto a fevereiro na estação Santa Casa. Já na estação
Ouvidor Pardinho, são observados picos de concentração nos meses de fevereiro e
agosto. Em todos os meses, verifica-se que, os valores de concentração na estação
Santa Casa são muito superiores aos valores observados na estação Ouvidor
Pardinho. Como citado anteriormente, tal fato deve-se, provavelmente, ao intenso
fluxo de veículos do ciclo diesel, utilizados no transporte coletivo do município de
Curitiba, que trafegam diariamente na Praça Rui Barbosa, em frente à Santa Casa.
A Figura 17 ilustra a concentração média anual do poluente dióxido de
enxofre nas duas estações utilizadas no presente estudo.
76
Figura 17 – Concentração média anual do poluente dióxido de enxofre (SO2) na estação
Ouvidor Pardinho e na estação Santa Casa.
Novamente observa-se a superioridade dos valores observados na estação
Santa Casa em relação aos observados na estação Ouvidor Pardinho. De acordo
com a Resolução 054/06 (IAP, 2006) e Resolução CONAMA 03/90 (CONAMA,
1990), o padrão secundário para o poluente dióxido de enxofre é de 40 µg/m3 e o
padrão primário 80 µg/m3. Comparando-se os padrões estabelecidos com a média
calculada, observa-se na Figura 17, que o padrão primário foi excedido no ano 2003,
apenas na estação Santa Casa, apresentando uma média de 82 µg/m3. Na estação
Ouvidor Pardinho, os padrões primário e secundário foram atendidos em todos os
anos do período em estudo.
Ozônio
A mesma abordagem utilizada com os poluentes partículas totais em
suspensão e dióxido de enxofre foi utilizada na análise do poluente ozônio. O
poluente ozônio é analisado apenas na estação da Praça Ouvidor Pardinho.
77
A Figura 18 ilustra os valores da concentração média diária do poluente
ozônio observados na estação da Praça Ouvidor Pardinho ao longo do período em
estudo.
Figura 18 – Concentração média diária de Ozônio (O3) na estação localizada na Praça
Ouvidor Pardinho
O padrão primário e secundário para o poluente ozônio, definidos pela
Resolução CONAMA 03/90 (CONAMA, 1990) e pela Resolução SEMA 054/06
(SEMA, 2006) é de 160 µg/m3, como média horária, não podendo ser excedido por
mais de uma vez por ano. Os valores de concentração disponíveis são médias
diárias, não sendo possível verificar através dos dados fornecidos se houve violação
ao padrão, pois seriam necessárias médias horárias para comparação. Em consulta
aos boletins de qualidade do ar divulgados através do sítio do Instituto Ambiental do
Paraná, verificou-se violações para este poluente durante o período em estudo.
A Figura 19 ilustra os valores da concentração média mensal (µg/m3) de
ozônio observados na estação da Praça Ouvidor Pardinho ao longo do período em
estudo.
78
Figura 19 – Concentração média mensal de Ozônio (O3) na estação Ouvidor Pardinho
Com base na análise da Figura 19, verifica-se que este o ozônio (O3),
aparentemente, apresenta comportamento sazonal. As maiores concentrações são
observadas nos meses de setembro a dezembro e, as menores nos meses de maio
a junho.
A Figura 20 ilustra os valores médios das concentrações médias mensais de
ozônio na estação Ouvidor Pardinho ao longo do período em estudo.
79
Figura 20 – Médias da concentração média mensal de ozônio (O3) na estação Ouvidor
Pardinho durante o período em estudo.
Analisando a Figura 20, verifica-se a existência de uma tendência de
maiores valores médios durante o período compreendido entre os meses de
setembro a dezembro em relação ao demais meses. As menores médias foram
observadas nos meses de Maio e Junho. O ozônio, como citado anteriormente, é um
poluente secundário, formado através de reações fotoquímicas na atmosfera, sendo
sua formação influenciada pela rediação solar, menos intensa nos meses de
inverno.
Na Figura 21 apresenta-se a concentração média anual do poluente ozônio
na estação Ouvidor Pardinho, durante os anos 2003 a 2008.
80
Figura 21 – Concentração média anual do poluente ozônio (O3) na estação Ouvidor
Pardinho.
O maior valor de concentração média anual foi observado no ano 2003 e o
menor no ano 2004, não havendo variação significativa entre as médias anuais
como a variação observada nas médias mensais. O valor médio de concentração,
considerando-se todo o período em estudo, foi de 24,9 µg/m3. Não há padrão
estabelecido para média anual do poluente ozônio.
4.1.3 Dados de Mortalidade
Foram considerados no presente estudo, conforme citado anteriormente, os
óbitos de idosos (no mínimo 60 anos completos na data de óbito) residentes no
município de Curitiba que possuem como causa principal da morte alguma das
causas listadas no capítulo X do CID-10, que são causas relacionadas ao aparelho
respiratório, por constituírem as causas mais frequentemente associadas à poluição
do ar. As principais causas constantes no Capítulo X são: gripe, pneumonia,
doenças crônicas das vias aéreas inferiores, infecções agudas das vias aéreas
inferiores, asma, bronquiolite e o restante de doenças do aparelho respiratório.
Foram considerados os óbitos ocorridos no período compreendido entre 01/01/2003
81
e 31/12/2008. Além dos óbitos relacionados ao capítulo X do CID-10, também foi
avaliado o número total de óbitos.
Os dados de óbitos foram gentilmente fornecidos pela Secretaria Municipal
da Saúde e também através de consultas ao DATASUS, banco de dados do
Sistema Único de Saúde (SUS).
Os dados já apresentam os óbitos classificados segundo a causa básica, de
acordo com a décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10,
2000).
A Tabela 8 ilustra os dados de mortalidade de idosos no município de
Curitiba, por causa da morte conforme os capítulos do CID-10 (2000), durante o
período compreendido entre 2003 e 2007.
Conforme os dados da Tabela 8, o número de óbitos de idosos por doenças
do aparelho respiratório representou, em média, 13,47% do total de óbitos no
município de Curitiba no período em estudo, tendo um mínimo de 742 óbitos em
2003 e o máximo de 843 óbitos em 2004.
Tabela 8 – Número de óbitos no município de Curitiba por causa principal do óbito
de acordo com a classificação do CID-10 (DATASUS, 2009).
MORTALIDADE ANUAL NO MUNICÍPIO DE CURITIBA ENTRE 2003 E 2007
Capítulo CID-10
2003 2004 2005 2006 2007
I.
Algumas doenças infecciosas e parasitárias
88 100 102 144 137
II. Neoplasias (tumores)
1187 1228 1292 1378 1343
III. Doenças sangue órgãos hemat.
17
20
17
10
15
IV. Doenças end. nutricionais e metabólicas
346 366 371 346 384
V. Transtornos mentais e comportamentais
32
39
38
39
36
VI. Doenças do sistema nervoso
109 135 161 177 175
VIII. Doenças do ouvido e da apófise
0
3
0
0
0
IX. Doenças do aparelho circulatório
2372 2442 2202 2338 2388
X. Doenças do aparelho respiratório
752 843 788 798 814
XI. Doenças do aparelho digestivo
324 350 347 381 366
XII. Doenças da pele e do tecido subcutâneo
9
5
11
15
6
XIII. Doenças sist. osteomuscular e conjuntivo
34
29
28
37
38
XIV. Doenças do aparelho geniturinário
128 132 154 139 142
XVII. Malf. deformid. e anom. cromossômicas
1
0
0
0
0
XVIII.Sint. sinais e achad. anormais
56
68
60
74
68
XX. Causas externas
184 197 207 218 275
Total
5639 5957 5778 6094 6187
82
A Figura 22 apresenta a quantidade de óbitos por doenças do aparelho
respiratório em relação à quantidade total de óbitos de idosos durante o período
compreendido entre os anos 2003 a 2008.
7000
6000
nº de óbitos
5000
4000
3000
2000
1000
0
2003
2004
2005
Óbitos por todas as causas
2006
2007
2008
Óbitos por doenças do trato respiratório
Figura 22 – Número de óbitos anual de idosos por doenças do aparelho respiratório e
número de óbitos anual de idosos por todas as causas no período compreendido entre
os anos 2003 a 2008.
Verifica-se na Figura 22 que não houve variações significativas no número
total de óbitos e no número de óbitos por doenças respiratórias anuais, no período
em estudo.
Alguns autores, por exemplo, Braun (2002) e Freitas et al. (2004), afirmam
que o número de óbitos é maior no inverno devido a condições de dispersão de
poluentes desfavoráveis e também à tendência de aumento de mortalidade em
períodos de temperatura média e umidade relativa do ar menor em relação aos
demais meses do ano.
Para
verificação
da
existência
de
sazonalidade
e
verificação
do
comportamento dos óbitos de idosos foram realizadas avaliações das distribuições
diárias, mensais, anuais e porcentagens de óbitos por mês. O tratamento dos dados
foi realizado considerando-se os óbitos de idosos totais (todas as causas) e os
óbitos cuja causa principal da morte foram as doenças do aparelho respiratório.
83
Dados de Óbitos por Todas as Causas
Inicialmente são apresentados os resultados obtidos para a distribuição
diária do número de óbitos por todas as causas ou óbitos totais de idosos no
período. A Figura 23 ilustra os números de óbitos diários (por todas as causas) ao
longo do período em estudo.
Figura 23 – Mortalidade diária de idosos por todas as causas em Curitiba no período
compreendido entre os anos 2003 a 2008.
Considerando-se a Figura 23, parece existir um comportamento sazonal da
mortalidade no município de Curitiba. O maior número diário de óbitos no período foi
de 34 óbitos, no dia 28/06/2008, e o menor número observado foi de 5 óbitos,
ocorrido em vários dos dias do período em estudo. A média diária de todo o período
em estudo foi de 16,5 óbitos.
A Figura 24 ilustra a variação da mortalidade mensal de idosos por todas as
causas em Curitiba durante o período em estudo.
84
Figura 24 – Mortalidade mensal de idosos por todas as causas em Curitiba no período
compreendido entre os anos 2003 a 2008.
Verifica-se através da Figura 24, a existência de um comportamento sazonal
na mortalidade mensal de idosos em Curitiba. O número de óbitos tende a ser
menor nos meses de janeiro a março, sendo o menor número de óbitos verificado no
mês fevereiro de 2003 que totalizou 390 óbitos. Maior número de óbitos de idosos foi
verificado nos meses junho a agosto, e são próximos a 600 óbitos. O maior número
de óbitos foi observado durante o mês de junho de 2007 que totalizou 634 óbitos. Os
resultados corroboram com Conceição et al. (2001), Braun (2002) e Freitas et al.
(2004), que afirmam que a mortalidade de idosos apresenta um comportamento
sazonal, sendo maior durante os meses mais frios e menor durante os meses mais
quentes.
A Figura 25 apresenta a porcentagem média mensal de óbitos de idosos, por
todas as causas, ao longo do período em estudo.
85
Figura 25 – Porcentagem média mensal de óbitos de idosos, por todas as causas,
em Curitiba, no período compreendido entre os anos 2003 a 2008.
Na Figura 25, verifica-se que os meses que concentraram maior
porcentagem média de óbitos de idosos, foram os meses de junho a agosto, com
todos apresentando cerca de 9,6% do total de óbitos ocorridos no período. O mês
que apresentou menor porcentagem de mortalidade foi o mês de fevereiro com 6,8%
dos óbitos ocorridos no período. A variação entre o maior e a menor porcentagem
mensal do período foi de aproximadamente 2,8%. Após análise da Figura 25,
confirma-se a existência de comportamento sazonal dos óbitos de idosos, sendo que
o maior número ocorre nos meses de junho a agosto, decaindo até fevereiro, onde
se encontra o valor mínimo, voltando a subir após fevereiro.
Dados de Óbitos por Doenças do Aparelho Respiratório
O mesmo tratamento foi realizado para os óbitos que tiveram as doenças do
trato respiratório como principal causa da morte. Inicialmente são apresentados os
resultados obtidos para a distribuição diária do número de óbitos. A Figura 26 ilustra
os números diários de óbitos por doenças do aparelho respiratório ao longo do
período em estudo.
86
Figura 26 – Mortalidade diária de idosos em Curitiba por doenças do aparelho
respiratório no período compreendido entre os anos 2003 e 2008.
Considerando-se a Figura 26, verifica-se que é de difícil visualização, em
nível diário, o comportamento sazonal da mortalidade por doenças do aparelho
respiratório. Em muitos dos dias não houve mortes por doenças do aparelho
respiratório, inclusive em dias dos meses mais frios do ano. O valor máximo obtido
no período foi de oito óbitos, ocorridos em apenas três dias de todo o período em
estudo: 13/06/2004, 25/03/2006 e 27/06/2008.
A média diária de óbitos de idosos que tiveram como causa principal as
doenças do trato respiratório foi de 2,2 óbitos, levando-se em consideração todo o
período em estudo.
A Figura 27 ilustra a variação da mortalidade mensal de idosos em Curitiba,
considerando-se as doenças do aparelho respiratório, durante o período em estudo.
87
Figura 27 – Mortalidade mensal de idosos por doenças do aparelho respiratório no
período compreendido entre os anos 2003 e 2008.
Verifica-se, através da Figura 27, a existência de um comportamento
sazonal na mortalidade mensal de idosos em Curitiba por doenças do aparelho
respiratório. O número de óbitos tende a ser menor nos meses de janeiro a março,
sendo o menor número de óbitos verificado no mês fevereiro de 2003 que totalizou
37 óbitos. Os maiores números de óbitos de idosos por doenças respiratórias foram
verificados nos meses de junho a agosto, e são próximos a 100 óbitos. O maior
número de óbitos foi observado durante o mês de junho de 2004 com 102 óbitos.
Os resultados verificados são similares aos obtidos para a mortalidade de
idosos por todas as causas, com tendência a maiores valores durante os meses
mais frios.
A Figura 28 apresenta a porcentagem média mensal de óbitos de idosos,
considerando-se as doenças do aparelho respiratório, de todo o período em estudo.
88
Figura 28 – Porcentagem média mensal de óbitos de idosos em Curitiba por
doenças do aparelho respiratório no período entre os anos 2003 e 2008.
Na Figura 28 verifica-se que o mês que concentrou maior porcentagem de
óbitos de idosos por doenças do aparelho respiratório foi o mês de julho com cerca
de 10,9% do total de óbitos ocorridos no período. O mês que apresentou menor
porcentagem de mortalidade foi o mês de fevereiro com 5,9% dos óbitos ocorridos
no período. A diferença entre a maior e a menor porcentagem observada foi de
5,0%, valor significativamente superior aos 2,8% observados quando foram
analisadas todas as causas. Também se verifica maior diferença percentual entre
mortalidade nos meses mais frios e a mortalidade nos meses mais quentes, quando
comparados os óbitos ocorridos por doenças do trato respiratório com os óbitos
ocorridos por todas as causas.
4.2 ANÁLISE DA CORRELAÇÃO E REGRESSÃO ENTRE OS DADOS DE
MORTALIDADE E AS CONCENTRAÇÕES DE POLUENTES
4.2.1 Análise da Correlação Simples
A análise de correlação entre os dados de mortalidade e as concentrações
de poluentes teve, por objetivo principal, selecionar as variáveis a serem
consideradas na análise de regressão. Foram consideradas também as médias
diárias de temperatura e umidade.
89
Para verificação inicial da existência de correlação entre as variáveis, foi
estimado o coeficiente de correlação de Pearson entre os dados brutos. Em seguida
os dados foram tratados com o alisamento das curvas, conforme o modelo aditivo
generalizado adotado neste trabalho. A Figura 29 ilustra a tela de saída do programa
SPSS 16.0, com o coeficiente de correlação de Pearson, o grau de significância
(sig.) da correlação estimada e o número de observações (N) das amostras de
dados brutos. A definição das variáveis utilizadas é apresentada no Capítulo 3, que
trata da metodologia.
O intervalo de confiança é maior quanto mais próximo de zero estiver o grau
de significância (sig.). Para análise dos dados considerou-se como significante os
resultados com sig. menor ou igual a 0,05, o que corresponde a um intervalo de
confiança de 95%.
Figura 29 – Coeficientes de correlação de Pearson para os dados originais, obtidos com
o uso do programa SPSS 16.0.
90
A análise dos resultados apresentados na Figura 29 foi realizada pela
análise dos coeficientes de correlação de Pearson das variáveis dependentes (ObT
e ObR) com as variáveis independentes (PTS_OP, PTS_SC, SO2_OP, SO2_SC,
O3_OP, Temp e Umid). Em alguns casos analisou-se também, quando julgado
pertinente, a correlação entre as variáveis independentes.
Partículas Totais em Suspensão (PTS)
Verifica-se, a partir da Figura 29, que as variáveis dependentes ObT e ObR
apresentam correlação positiva e significativa com as variáveis PTS_OP e PTS_SC,
que representam as concentrações médias diárias de PTS nas estações Ouvidor
Pardinho e Santa Casa, respectivamente. Isto implica em, teoricamente, que
maiores concentrações de PTS resultariam em aumento na mortalidade. É
importante destacar a correlação positiva, significativa e relativamente alta entre as
variáveis PTS_OP e PTS_SC, mostrando que, embora exista diferença significativa
entre as concentrações observadas nas estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa,
como já destacado, existe um certo padrão de comportamento semelhante entre as
concentrações médias diárias de partículas totais em suspensão nas referidas
estações.
Dióxido de Enxofre (SO2)
A Figura 29 mostra que as variáveis ObT e ObR não apresentaram
correlação significativa com as variáveis SO2_OP e SO2_SC, que representam as
concentrações de dióxido de enxofre nas estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa,
respectivamente.
Destaca-se que as variáveis SO2_OP e SO2_SC não apresentaram
correlação significativa entre si, ou seja, além de haver uma grande diferença entre
as concentrações observadas nas estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa, não
existe um padrão de comportamento semelhante entre as concentrações médias
diárias de SO2 das referidas estações.
91
Ozônio
A variável ObR não apresentou correlação significativa estatisticamente (sig.
> 0,05) com a variável O3_OP que representa a concentração média diária de
ozônio observada na estação Ouvidor Pardinho.
Já a variável ObT apresentou correlação negativa e significativa
com a
variável O3_OP. Este resultado pode ser entendido como incoerente com o
esperado para a relação entre mortalidade e um poluente atmosférico, sabidamente
nocivo à saúde humana.
Uma possível explicação para este resultado é a de que o ozônio é
correlacionado positivamente e significativamente com a variável Temperatura, pelo
próprio processo de formação deste poluente, e a variável ObT é relacionada
negativamente com a temperatura. Esta relação entre o ozônio e a temperatura
acaba se refletindo na correlação entre o ozônio e a mortalidade.
É importante salientar que, embora não tenha significância, a correlação
entre ObR e O3_OP também resultou negativa.
Temperatura e Umidade
Verifica-se a partir da Figura 29, que as variáveis ObT e ObR apresentaram
correlações com as variáveis Temp, que representa a temperatura média diária, e
Umid, que representa a umidade média diária. As correlações das variáveis ObT e
ObR resultaram resultaram negativas e significativas, tanto com a temperatura
média diária, quanto com a umidade média diária.
Análise dos resultados
Esta análise de correlação simples realizada a partir dos dados brutos
sugere, portanto, a correlação significativa das variáveis dependentes ObT e ObR,
com as variáveis independentes (explicativas) PTS_SC, PTS_OP, Temp e Umid.
Após esta análise inicial foi realizado o alisamento (ou suavização) das
séries de dados, conforme a metodologia dos Modelos Aditivos Generalizados
92
(MAGs). As variáveis ObT e ObR foram alisadas com a função “smoothing” do
software SPSS 16.0, sendo criadas as variáveis ObT_s e ObR_s. As variáveis Temp
e Umid foram alisadas através do cálculo das médias móveis de 30 dias das
respectivas variáveis, e formaram novas séries de dados denominadas MV_Temp e
MV_Umid. As concentrações médias diárias de poluentes não receberam
tratamento, sendo utilizados os dados originais na estruturação do modelo neste
trabalho. A Figura 30 mostra a tela de saída do SPSS 16.0, com o coeficiente de
correlação de Pearson, o grau de significância (sig.) da correlação estimada e o
número de observações da amostra (N) entre as variáveis após o tratamento dos
dados e a concentração dos poluentes observadas nas estações amostradoras de
qualidade do ar.
Figura 30 – Coeficientes de correlação de Pearson entre os dados tratados, obtidos
com o uso do programa SPSS 16.
93
Novamente procurou-se analisar o coeficiente de correlação de Pearson
entre as variáveis dependentes (ObT_s e ObR_s) e as variáveis independentes
(PTS_OP, PTS_SC, SO2_OP, SO2_SC, O3_OP, MV_Temp e MV_Umid). Como
anteriormente as correlações foram consideradas significativas para nível de
significância inferior a 5% (sig.<0,05).
Partículas Totais em Suspensão (PTS)
Verifica-se a partir da Figura 30, que a correlação é positiva e significativa
(sig.<0,05) entre as variáveis PTS_OP e PTS_SC e as variáveis ObT_s e ObR_s.
Houve elevação do valor do coeficiente de correlação de Pearson em relação aos
dados brutos.
Dióxido de Enxofre (SO2)
Verifica-se a partir da Figura 30, que a variável SO2_OP possui correlação
positiva e significativa com a variável ObT_s, o que não foi observado antes do
procedimento de alisamento da variável ObT. A variável SO2_OP continua não
apresentando correlação significativa com a variável ObR_s. A variável SO2_SC não
apresentou correlação significativa com as variáveis ObT_s e ObR_s.
Ozônio (O3)
A variável O3_OP apresentou correlação negativa e significativa com as
variáveis ObT_s e ObR_s. Contudo, valem as mesmas observações feitas
anteriormente quando analisadas as correlações entre os dados brutos.
94
Temperatura e Umidade
Verifica-se também que as variáveis MV_Temp e MV_Umid possuem
correlação negativa e significativa com as variáveis ObT_s e ObR_s. Os valores
observados são superiores, em módulo, do que na análise realizada com os dados
brutos.
Após a análise de correlação com as séries de dados tratados, foram criadas
novas duas séries de dados denominadas Ob_3T_s e Ob_3R_s, representadas pela
média dos óbitos do dia corrente e de dois dias seguintes alisadas através da função
smoothing. A verificação da correlação destas variáveis com as demais se justifica
no sentido de que os efeitos dos poluentes atmosféricos, mesmo os mais agudos,
podem ser observados após decorrido algum tempo entre a exposição e o desfecho,
neste caso o óbito. A Figura 31 apresenta os resultados obtidos da análise de
correlação entre as variáveis dependentes (Ob_3T_s e Ob_3R_s) e as variáveis
independentes (PTS_OP, PTS_SC, SO2_OP, SO2_SC, O3_OP, MV_Temp e
MV_Umid).
95
Figura 31 – Coeficientes de correlação de Pearson entre as séries temporais compostas
pela média de três dias e as demais variáveis, obtidos com o uso do software SPSS 16.0.
Os resultados apresentados na Figura 31 são discutidos a seguir, segundo
as variáveis independentes, conforme feito anteriormente.
Partículas Totais em Suspensão (PTS)
Na Figura 31, verifica-se que a correlação é positiva e significativa
(sig.<0,05) entre as variáveis PTS_OP e PTS_SC e as variáveis Ob_3T_s e
Ob_3R_s. O mesmo havia sido observado anteriormente com as variáveis “alisadas”
ObT_s e ObR_s.
96
Dióxido de Enxofre (SO2)
Constata-se que a variável SO2_OP possui correlação positiva e significativa
com a variável Ob_3T_s, mesmo comportamento observado com a variável ObT_s.
A variável SO2_OP continuou não apresentando correlação significativa com a
variável Ob_3R_s. A variável SO2_SC não apresentou correlação significativa
(sig.<0,05) com as variáveis Ob_3T_s e Ob_3R_s, como observado para ObT_s e
ObR_s.
Ozônio (O3)
A variável O3_OP apresentou correlação negativa e significativa com as
variáveis Ob_3T_s e Ob_3R_s, seguindo a tendência de correlação observadas com
as variáveis Ob_s e ObR_s.
Temperatura e Umidade
Verifica-se também que as variáveis MV_Temp e MV_Umid possuem
correlação negativa e significativa com as variáveis Ob_3T_s e Ob_3R_s, mesmo
comportamento observado nas análises anteriores.
Análise dos Resultados
Verificou-se após o procedimento de alisamento das séries temporais,
conforme metodologia adotada para utilização do Modelo Aditivo Generalizado, que
houve alterações no coeficiente de correlação entre as variáveis e no intervalo de
confiança estimado pelo software SPSS 16.0.
As variáveis PTS_OP e PTS_SC apresentaram correlação positiva e
significativa com as séries de dados de óbitos totais e óbitos por doenças do trato
respiratório, tanto na utilização dos dados brutos, quanto após o processo de
alisamento das séries e também com as séries de óbitos de três dias.
Em relação à variável SO2_OP, houve alteração no intervalo de confiança,
após o alisamento das séries de óbitos, e esta variável passou a possuir correlação
97
significativa com as variáveis ObT_s e Ob_3T_s. Com a série de óbitos que tiveram
como causa principal as doenças do trato respiratório, as correlações da variável
SO2_OP não foram significativas mesmo após o tratamento da série de óbitos por
doenças do trato respiratório. A variável SO2_SC não apresentou correlação
significativa estatisticamente (sig.<0,05) com as séries de óbitos totais e com as
séries de óbitos por doenças respiratórias, mesmo após o alisamento dos dados.
A variável O3_OP apresentou correlação negativa e significativa com todas
as variáveis que representam as séries de óbitos. O padrão horário estabelecido
para este poluente pela legislação nacional e estadual é 160 µg/m3 (CONAMA,1990;
SEMA, 2006). As novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde sugerem que o
limite para este poluente seja 100 µg/m3 para média de 8 horas (OMS, 2006).
Conforme análise preliminar dos dados, constatou-se que o valor médio de
concentração de ozônio durante o período em estudo foi de 12,7 ppb e a maior
média mensal observada para o ozônio durante o período em estudo foi de 20,5
ppb. Acredita-se que devido à baixa concentração média diária observada deste
poluente não haja relação entre a concentração média diária e a mortalidade de
idosos no período em estudo. Cabe ressaltar que no presente estudo foram
utilizadas médias diárias, sendo que o padrão estabelecido para este poluente é
horário. Para uma análise mais aprofundada seria necessária a avaliação entre os
valores médios horários ou valores máximos diários e a mortalidade de idosos, face
às características deste poluente.
Resultado similar em relação ao ozônio (O3) foi obtido em estudo realizado
por Conceição et al. (2001), onde foi detectada correlação negativa entre a
concentração de ozônio e o número de óbitos de idosos no município de São Paulo,
no período compreendido pelos anos 1994 a 1997. Freitas et al. (2004) não
obtiveram correlação significativa estatisticamente entre a concentração de ozônio e
óbitos de idosos com mais de 65 anos no município de São Paulo em estudo
realizado no período compreendido pelos anos 1993 a 1997. O mesmo estudo
encontrou correlação positiva entre a concentração de ozônio e o número de
internamentos por doenças respiratórias em menores de 15 anos. Freitas et al.
(2004) informaram que a concentração média diária de ozônio observada nas
estações de monitoramento da qualidade do ar no município de São Paulo foi de
68,4 µg/m3, durante a realização do referido estudo, cerca de cinco vezes superior à
98
média de 12,7 µg/m3 observada no município de Curitiba durante o período em
estudo.
Braun (2002) efetuou avaliação entre a concentração de poluentes
atmosféricos e a mortalidade de idosos em São Paulo no período compreendido
entre anos 1996 e 2000. Não foi observada correlação entre o número de óbitos de
idosos e a concentração de ozônio. Correlação positiva foi observada entre a
mortalidade de idosos e a concentração dos demais poluentes avaliados no referido
estudo: partículas totais em suspensão, dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre e
monóxido de carbono.
Em estudo realizado no município de Curitiba, Bakonyi (2004) não obteve
correlação estatisticamente significativa entre a concentração de ozônio e o número
de internamentos de crianças por doenças respiratórias no período compreendido
entre os anos 1999 a 2000. O mesmo estudo obteve correlação positiva e
significativa entre a concentração dos poluentes material particulado, dióxido de
nitrogênio e fumaça com o número de internamentos de crianças por doenças do
trato respiratório.
Em relação às variáveis meteorológicas, todas as séries de óbitos obtiveram
correlações negativas e significativas com a temperatura e umidade, ratificando a
necessidade de que a influência destas variáveis seja considerada nas análises da
relação entre a mortalidade e a concentração de poluentes atmosféricos no
município de Curitiba.
Em função dos resultados obtidos pela análise de correlação e pelos
trabalhos anteriores envolvendo o uso do modelo Aditivo Generalizado, que
sugerem o alisamento das séries de dados relacionados ao número de óbitos e as
variáveis meteorológicas, as variáveis selecionadas para as análises de regressão
múltipla foram:
Variáveis dependentes: ObT_s, ObR_s, Ob_3T_s e Ob_3R_s.
Variáveis Independentes (explicativas): PTS_SC, PTS_OP, SO2_OP,
MV_Temp e MV_Umid.
99
Destaca-se que a variável SO2_OP foi utilizada apenas nas regressões
envolvendo o número de óbitos por todas as causas, uma vez que a mesma não
apresentou correlação significativa com o número de óbitos por doenças do trato
respiratório.
4.2.2 Análise de Regressão Múltipla
Após análise de correlação simples entre as variáveis foi realizada a análise
de regressão múltipla ou multivariada. A análise de regressão multivariada ficou
restrita às variáveis selecionadas na etapa de análise da correlação e que foram
listadas no item anterior.
Nesta etapa foi analisada a relação entre as variáveis dependentes,
compostas pelas séries de óbitos, com as variáveis explicativas, compostas pelas
séries de poluentes e pelas variáveis meteorológicas temperatura e umidade. Para
cada análise entre uma variável dependente e uma série de concentração de
poluente foram incluídas as variáveis de interferência temperatura e umidade.
Através do coeficiente obtido para a variável explicativa em análise (em nosso caso
a concentração do poluente) e do grau de significância estatística (sig.) é que se
verifica a existência de relação entre a série de óbito e a série de concentração do
poluente em análise.
Basicamente, a análise de regressão múltipla consistiu em relacionar a série
de óbitos que se pretende analisar com um grupo de variáveis explicativas. Os
modelos de regressão linear foram constituídos sempre com 3 variáveis
independentes, sendo duas delas, as variáveis meteorológicas (temperatura e
umidade), consideradas como variáveis de interferência, e a terceira constituída pela
concentração de poluente cuja relação com a variável dependente (óbitos) se
procura estudar.
Destaca-se novamente que as séries utilizadas foram aquelas selecionadas
na etapa de análise da correlação. A Figura 4.32 apresenta a tela de saída do
software SPSS 16.0 para análise de regressão múltipla envolvendo a série alisada
100
de óbitos totais (ObT_s) e a concentração de partículas totais em suspensão
obsevadas na praça Ouvidor Pardinho (PTS_OP).
Figura 32 – Resultado da análise de regressão múltipla entre a série alisada de
óbitos por todas as causas e a concentração de partículas totais em suspensão.
Observando-se a Figura 32, verifica-se o coeficiente de 0,006 para a relação
entre as variáveis PTS_OP e ObT_s, com a inclusão da interferência das variáveis
MV_Temp e MV_Umid no modelo. O coeficiente obtido possui significância
estatística (sig.< 0,05). Análise similar foi realizada para as variáveis dependentes
(ObR_s, Ob_3T_s, Ob_3R_s) com as variáveis que representam as concentrações
de poluentes (PTS_OP, PTS_SC e SO2_OP), sempre incluindo as variáveis de
interferência MV_Temp e MV_Umid na análise.
A Tabela 9 apresenta os coeficientes de regressão obtidos, utilizando-se o
modelo aditivo generalizado entre as variáveis que representam as séries de
poluentes atmosféricos e as séries de dados de óbitos, incluindo as variáveis
temperatura e umidade no modelo de regressão múltipla.
101
Tabela 9 – Coeficiente de Regressão e Grau de Significância Estatística
Variáveis
PTS_OP
PTS_SC
SO2_OP
(1)
ObT_s
ObR_s
Ob_3T_s
Ob_3R_s
0,006
0,002
0,003
0,002
0,014
0,007
0,062(1)
0,001
0,212(1)
0,005
0,045
0,001
0,000
0,014
0,070(1)
0,003
0,002
0,171(1)
0,549(1)
-
0,927(1)
-
sig. acima de 0,05
Verifica-se, a partir da Tabela 9, que os coeficientes de regressão obtidos na
análise de regressão múltipla foram significativos para as relações envolvendo:
ObT_s e PTS_OP; ObT_s e PTS_SC; Ob_3T_s e PTS_SC; e Ob_3R_s e PTS_OP.
Em estudo realizado por Conceição et al. (2001), que utilizou também um
modelo aditivo generalizado (MAG), foi obtido o coeficiente de 0,0009 para o
material particulado e de 0,0051 para o dióxido de enxofre, ambos dentro do
intervalo de confiança de 95%. Freitas et al. (2004) obteve um coeficiente de
0,00108 para o poluente material particulado. Os estudos citados também foram
realizados com idosos, no município de São Paulo.
A Tabela 10 apresenta uma estimativa de incremento em porcentagem no
número de óbitos totais (risco relativo), aumento absoluto no número de óbitos e
aumento no número de óbitos por milhão de habitantes, supondo-se um incremento
de 10%, 20% e 50% na concentração média de partículas totais em suspensão na
estação Santa Casa. O risco relativo foi calculado conforme equação apresentada
em Freitas et al. (2004):
∆óbitos (%) = (eβ∆ - 1) x 100
onde: ∆óbitos (%) = Aumento percentual estimado no número de óbitos;
β = coeficiente obtido no modelo de regressão utilizado;
∆ = variação na concentração média do poluente (µg/m3).
102
Tabela 10 – Estimativa de incremento na porcentagem de óbitos totais com base em uma
elevação de 10%, 20% e 50% na concentração de PTS observada na estação Santa Casa.
Variação de
Concentração
do Poluente (%)
10
Variação na
Aumento relativo
média da
do número de
concentração
óbitos ou Risco
do Poluente
Relativo (%)
(µg/m3)
7,6
5,5
Aumento
absoluto do
número de
óbitos
Aumento absoluto
do número de
óbitos por milhão
de habitantes
330,3
180,7
20
15,2
11,2
678,6
371,2
50
38,0
30,5
1842,0
1007,6
A Tabela 11 apresenta uma estimativa de incremento em porcentagem no
número de óbitos por doenças respiratórias (risco relativo), aumento absoluto no
número de óbitos por doenças do trato respiratório e aumento no número de óbitos
por milhão de habitantes, supondo-se um incremento de 10%, 20% e 50% na
concentração média de partículas totais em suspensão observadas na estação
Ouvidor Pardinho.
Tabela 11 – Estimativa de incremento no número de óbitos por doenças respiratórias com
base em uma elevação de 10%, 20% e 50% na concentração de PTS observada na estação
Ouvidor Pardinho.
Variação de
Concentração
do Poluente (%)
10
Variação na
Aumento relativo
média da
do número de
concentração
óbitos ou Risco
do Poluente
Relativo (%)
(µg/m3)
2,9
0,6
Aumento
absoluto do
número de
óbitos
Aumento absoluto
do número de
óbitos por milhão
de habitantes
4,7
2,6
20
5,8
1,2
9,4
5,1
50
14,5
2,9
23,7
12,9
Os valores apresentados nas Tabelas 10 e 11 foram obtidos considerandose uma concentração média diária de PTS de 76 µg/m3 na Estação Santa Casa e de
26 µg/m3 na Estação Ouvidor Pardinho. Considerou-se ainda um total de 1.828.092
habitantes para a cidade de Curitiba.
Comparando-se os valores apresentados nas Tabelas 10 e 11, verifica-se
que a estimativa do aumento do número de óbitos é maior para o incremento das
concentrações na Estação Santa Casa. Isto ocorre em razão da referida estação
103
apresentar valores médios de concentração de PTS superiores aos observados na
estação Ouvidor Pardinho.
Interessante mencionar que a Agência Ambiental Americana (U.S.
Environmental Protection Agency) sugere um limite de 1 x 10-6 para avaliações de
risco à saúde humana para substâncias carcinogênicas, que representa um caso
adicional de câncer para uma população de um milhão de pessoas expostas
(Kolluru, 1996). Portanto, mesmo considerando-se as estimativas de aumento do
número de óbitos por milhão de habitantes apresentados na Tabela 11, que
representam uma situação menos crítica, verifica-se que os valores obtidos são
superiores ao limite para o risco sugerido pela Agência Ambiental Americana.
Análise dos Resultados da Regressão Múltipla
Partículas Totais em Suspensão
A concentração de partículas totais em suspensão observada na estação da
Praça Ouvidor Pardinho (PTS_OP) apresentou coeficiente de regressão positivo e
significativo com a série de óbitos totais (ObT_s) e com a série que representa a
média de três dias dos óbitos por doenças do trato respiratório (Ob_3R_s).
A concentração de partículas totais em suspensão observada na estação da
Santa Casa (PTS_SC) apresentou coeficiente de regressão positivo e significativo
com a série de óbitos totais (ObT_s) e com a série que representa a média de três
dias dos óbitos totais (Ob_3T_s). Com as séries que representam os óbitos por
doenças do trato respiratório (ObR_s) a correlação, apesar de positiva, não
apresenta significância estatística.
Coeficientes de regressão positivos e significativos entre a concentração de
partículas em suspensão e a mortalidade de idosos também foram obtidos em
trabalhos realizados no Brasil e em outros países. No Brasil, estudos realizados por
Saldiva et al.(1995), Conceição et al. (2001), Braun (2002), Daumas (2002), Freitas
et. al (2004) e outros, obtiveram correlação positiva e significativa entre a
concentração de poluentes atmosféricos e a mortalidade de idosos. Os resultados
obtidos também corroboram com estudos realizados em outros países, como por
104
exemplo, Schwartz e Marcus (1990), Dockery et al. (1993), Ackermann-Liebrich
(1997), Clancy et al. (2002) e Ostro et al. (2006).
Dióxido de Enxofre
Em relação à concentração de dióxido de enxofre observada na estação da
Praça Ouvidor Pardinho, os resultados obtidos nas análises não apresentaram
significância estatística com nenhuma das séries de óbitos utilizadas.
A existência de correlação significativa e positiva entre as concentrações de
um mesmo poluente em diferentes estações localizadas no município pode fornecer
um indicativo de confiabilidade nos dados de concentração de poluentes (BRAUN,
2002). As duas estações utilizadas neste estudo são relativamente próximas,
estando separadas por uma distância de aproximadamente 920 metros. Desta
forma, apesar do diferente perfil de tráfego nas proximidades das estações,
contesta-se a confiabilidade dos dados obtidos, devido à ausência de correlação
entre as concentrações de SO2 observadas nas duas estações (Santa Casa e
Ouvidor Pardinho).
O padrão primário estabelecido pela legislação nacional e estadual para
média diária de dióxido de enxofre é de 365 µ/m3 e para média anual é de 80 µ/m3
(CONAMA, 1990; SEMA, 2006). As concentrações observadas nas duas estações
amostradoras utilizadas no presente estudo foram significativamente inferiores ao
padrão estabelecido.
Alguns estudos de séries temporais, como os realizados por Conceição et al.
(2001) e Braun (2002), obtiveram correlação positiva e significativa entre a
mortalidade de idosos e a concentração de dióxido de enxofre observada em
estações de monitoramento da qualidade do ar.
105
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
A revisão da literatura sobre o tema mostrou que o município de Curitiba é
carente de estudos envolvendo indicadores de saúde de idosos e aspectos
relacionados à qualidade do ar. Outro fato importante constatado é a tendência de
envelhecimento da população de Curitiba, com crescimento do número total e
percentual de idosos nos últimos anos, além de projeções para elevações
significativas nos próximos anos.
No tocante à qualidade do ar, em função dos dados observados nas
estações de monitoramento de qualidade do ar utilizadas no estudo (Ouvidor
Pardinho e Santa casa), constatou-se que as concentrações de poluentes
observadas atendem aos padrões estabelecidos pela legislação vigente na grande
maioria dos dias.
Entretanto, a literatura questiona a segurança dos padrões
estabelecidos.
A carência de estudos envolvendo indicadores de qualidade de saúde de
idosos e qualidade do ar e o questionamento sobre a segurança dos padrões de
qualidade do ar estabelecidos pela legislação são fatos que justificam a realização
do presente estudo.
Em uma análise preliminar das concentrações de poluentes observadas nas
estações de monitoramento do estudo, verificou-se que os poluentes partículas
inaláveis (PI), fumaça, dióxido de nitrogênio (NO2) e monóxido de carbono (CO)
possuem valores observados em menos de 70% dos dias do período em estudo,
que compreendeu os anos de 2003 a 2008, o que comprometeria a qualidade dos
resultados obtidos nas análises estatísticas realizadas, e por este motivo, não foram
utilizados nas correlações realizadas no presente estudo. Deste modo, as
correlações ficaram restritas inicialmente aos poluentes partículas totais em
suspensão (PTS), dióxido de enxofre (SO2) e ozônio (O3).
Após análise dos dados observados de concentração dos poluentes
atmosféricos PTS, SO2 e O3, constatou-se que os padrões primários são respeitados
em todos os dias do período em estudo para os poluentes PTS e SO2, sendo violado
apenas pelo poluente ozônio nas estações amostradoras de qualidade do ar usadas
no estudo. Os padrões secundários foram violados pelo poluente partículas totais
106
em suspensão em 45 dias na estação Santa Casa, e em apenas 4 dias na estação
Ouvidor Pardinho, durante o período de estudo.
As concentrações de dióxido de enxofre atenderam ao padrão secundário
em todos os dias do período e em relação ao ozônio, verificou-se através dos
boletins divulgados pelo Instituto Ambiental do Paraná que houve violações ao
padrão secundário, entretanto, não foi possível a verificação do número de dias
violados, pois o padrão estabelecido para este poluente é horário e os dados
disponibilizados eram referentes à média diária.
Verificou-se também a sazonalidade existente nas concentrações de
poluentes, avaliando-se suas médias mensais. O poluente partículas totais em
suspensão (PTS) apresentou comportamento tipicamente sazonal, com maiores
concentrações nos meses de inverno e menores concentrações nos meses de
verão. Comportamento sazonal também foi verificado para o poluente ozônio (O3).
Em relação ao dióxido de enxofre (SO2), observou-se comportamento
distinto ao longo do período em estudo nas estações Santa Casa e Ouvidor
Pardinho. Para a estação Santa Casa, observou-se um comportamento sazonal com
um pico de concentração média mensal ocorrendo em maio, havendo decréscimo
das concentrações médias mensais até novembro, mês de menor concentração
média e posterior acréscimo das concentrações até atingir novamente um pico em
maio. Já para a estação Ouvidor Pardinho não se verificou um comportamento
sazonal das concentrações médias mensais.
Em relação aos dados de mortalidade, observou-se sazonalidade tanto na
série de óbitos totais, quanto na série de óbitos por doenças respiratórias, com
tendência de ocorrência de maior número de óbitos nos meses de inverno e menor
número de óbitos nos meses mais quentes. Os resultados obtidos reforçam a
importância de se considerar a influência das variáveis meteorológicas temperatura
e umidade nos estudos que buscam correlacionar mortalidade à concentração de
poluentes na atmosfera, uma vez que alguns dos poluentes também apresentam um
comportamento sazonal. Destaca-se que o número de óbitos por doenças
respiratórias apresenta um comportamento sazonal mais marcante que o número de
óbitos por todas as causas, principalmente quando se comparam as porcentagens
médias mensais de óbitos para os meses com maior e menor número de óbitos.
107
A concentração média diária de partículas totais em suspensão (PTS) nas
estações Ouvidor Pardinho e Santa Casa para o período de estudo foi de
aproximadamente
29
µg/m3
e
76
µg/m3,
respectivamente.
Observou-se
sistematicamente valores de concentração média diária de PTS superiores na
estação Santa Casa em relação à estação Ouvidor Pardinho. A concentração média
diária de partículas totais em suspensão (PTS) apresentou correlação positiva e
significativa entre os valores observados nas duas estações amostradoras utilizadas
no presente estudo. Portanto, embora com superioridade dos valores de PTS na
estação Santa Casa em relação aos valores observados na estação Ouvidor
Pardinho, houve um comportamento semelhante dos valores observados nas duas
estações ao longo do período. Destaca-se que a distância entre as duas estações é
de 920 m.
A concentração média diária de dióxido de enxofre (SO2) não apresentou
correlação
significativa
entre
os
valores
observados
nas
duas
estações
amostradoras utilizadas no presente estudo. Tal resultado causa estranheza devido
à relativa proximidade das duas estações. A concentração média diária de SO2
observada na estação da Praça Ouvidor Pardinho durante todo o período em estudo
foi de 1,84 ppb, enquanto na estação localizada na Santa Casa foi de 22 ppb,
aproximadamente de 12 vezes superior. Acredita-se que os dados de concentração
de dióxido de enxofre, na estação Santa ou na estação Ouvidor Pardinho, não sejam
confiáveis, face à ausência de correlação entre os dados das duas estações e
grande diferença entre os resultados das duas estações.
A análise da correlação entre a série de óbitos por todas as causas e a série
de óbitos por doenças respiratórias mostrou uma correlação positiva e significativa
com o poluente PTS para ambas estações do estudo. Já em relação ao poluente
SO2 não foram encontradas correlações significativas com as séries de óbitos de
idosos por todas as causas e por doenças respiratórias para ambas as estações.
A análise de correlação entre as séries de óbitos por todas as causas e as
séries de óbitos por doenças respiratórias e o poluente O3 mostrou correlação
significativa apenas com a série de óbitos por todas as causas. No entanto, esta
correlação resultou negativa, o que parece ser incoerente do ponto de vista de efeito
de um poluente sobre a saúde humana. Entretanto, devido às características deste
poluente, acredita-se que uma análise mais criteriosa, utilizando-se séries de dados
108
horários ou séries de dados de valor máximo diário, poderia produzir resultados mais
confiáveis.
A análise de correlação das séries de óbitos alisadas (ou suavizadas), como
sugerido para o uso de modelos aditivos generalizados, com os poluentes em
análise (PTS, SO2 e O3) não produziu melhoria significativa, em termos de
correlação, entre as séries de óbitos e as séries de concentrações médias diárias
dos poluentes, exceção feita à correlação positiva entre número de óbitos totais e a
concentração de PTS na estação Ouvidor Pardinho e à correlação negativa entre o
número de óbitos por doenças respiratórias e a concentração de O3 na estação
Ouvidor Pardinho que passaram a ser significativas.
O resultado da análise preliminar dos dados e da análise de correlação entre
as séries de óbitos e as séries de concentrações diárias de poluentes restringiu a
análise de regressão aos poluentes PTS, observado nas estações Ouvidor Pardinho
e Santa Casa, e SO2, observado na estação Ouvidor Pardinho.
A análise de regressão múltipla mostrou coeficiente de regressão positivo e
significativo entre a concentração de partículas totais em suspensão (PTS) e a
mortalidade de idosos por todas as causas e por doenças do trato respiratório
(apenas com a série de média de três dias) no município de Curitiba. Nas análises
realizadas com os dados de concentração de dióxido de enxofre (SO2), os
coeficientes
de
regressão
resultaram
positivos,
porém
não
apresentaram
significância estatística.
O presente estudo demonstra a existência de correlação positiva e
significativa entre a concentração diária do poluente partículas totais em suspensão
(PTS) e a mortalidade de idosos no município de Curitiba no período compreendido
entre os anos 2003 a 2008. Cabe destacar que o município de Curitiba, conhecido
nacionalmente como “Capital Ecológica”, atendeu ao padrão primário de qualidade
do ar para o parâmetro partículas totais em suspensão em todos os dias do período
em estudo e, geralmente, os trabalhos relacionando poluição do ar e óbitos são
realizados em cidades com problemas de elevada poluição do ar, como por
exemplo, o município de São Paulo.
Face à recomendação da Organização Mundial da Saúde e resultados
obtidos neste trabalho, recomenda-se a revisão dos padrões de qualidade do ar
atualmente adotados para o poluente partículas totais em suspensão.
109
Este trabalho apenas verifica e comprova a existência da relação
matemática entre a concentração de partículas totais em suspensão e a mortalidade
de idosos. Uma limitação neste tipo de estudo é que não há observação individual,
nem a constatação de que algum óbito ocorreu devido à elevação da concentração
de partículas na atmosfera.
Uma pessoa é levada a óbito devido a diversos fatores como fumo,
sedentarismo, doenças pré-existentes, renda mensal, condições de saneamento e
outros aspectos qualitativos. Entretanto, estes fatores, geralmente não são levados
em consideração neste tipo de estudo, pois são relativamente constantes em uma
mesma população durante o período de alguns anos. Fatores que interferem na
mortalidade de idosos e que possuem variabilidade ao longo do tempo, como a
temperatura e umidade, foram consideradas neste estudo.
A elevação da poluição do ar é apenas um dos fatores que contribui para
que o idoso venha a óbito, e sua relação na mortalidade de idosos no município de
Curitiba, do ponto de vista estatístico, foi comprovada através das análises
estatísticas de séries temporais realizadas neste trabalho.
110
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avaliação da correlação entre a concentração de poluentes