FISIOPATOLOGIA DA DIABETES MELLITUS Maria Cristina Marques Lab. Fisiopatologia da FFUL DIABETES MELLITUS Doença metabólica crónica, caracterizada por uma Hiperglicémia. Pode provocar a longo prazo lesões tecidulares graves, nos olhos, rins, nervos e vasos sanguíneos. 6ª Causa de morte por doença. Dados estatísticos A diabetes tipo 2 é cerca de 8 a 10 vezes mais comum que a tipo 1 Actualmente, 80 a 90 % dos doentes diabéticos tipo 2 sofre, de obesidade Nos países ditos ricos, a incidência de diabetes tipo 2 tem vindo a aumentar (2000 - 135.000.000 2025 300.000.000) 90% dos casos de diabetes podem ser prevenidos com uma dieta e estilo de vida saudável A diabetes é a sexta causa de morte a nível mundial ILHÉU DE LANGERHANS Células α, glucagon Células β, insulina Células δ, somatostatina FACTORES QUE INTERFEREM NA SECREÇÃO DO ILHÉU DE LANGERHANS ESTRUTURA MOLECULAR DA INSULINA INSULINA PÉPTIDO C PÂNCREAS ENDÓCRINO EFEITO DA INSULINA NO METABOLISMO ( período posprandial ) JEJUM (↓ INSULINA ↑GLUCAGON) Ligação da insulina ao receptor de membrana RELAÇÃO ENTRE OS NÍVEIS PLASMÁTICOS DE INSULINA E DE GLUCOSE HORMONAS QUE INTERFEREM NO METABOLISMO DA GLUCOSE INSULINA GLUCAGON CATECOLAMINAS H. DO CRESCIMENTO CORTISOL CLASSIFICAÇÃO DA DIABETES Diabetes tipo I – doente jovem, magro, não arteriosclerótico com pressão arterial normal e manifestação súbita e aguda da doença Diabetes tipo II -Doente idoso, obeso, arteriosclerótico, hipertenso, manifestação insidiosa dos sintomas (Lister et al. Constitution and insulin sensitivity in diabetes mellitus. Br.Med.J.376-379,1951) CLASSIFICAÇÃO DA DIABETES (1979) A) PRIMÁRIA (sem outra patologia associada) 1) Diabetes tipo I – dependente da insulina 2) Diabetes tipo II – independente da insulina a) não obeso b) obeso B) SECUNDÁRIA (a outra patologia) 1) Doença pancreática crónica (ex: alcoolismo) 2) Patologias hormonais Feocromocitoma Acromegália Cushing Stress (ex:queimaduras extensas, pós-operatório etc) 3) Induzida por medicamentos (diuréticos, estrogénios,cortisona) 4) Anomalias no receptor para a insulina ou auto-anticorpos 5) Síndromes genéticos (ex:lipodistrofia) 6) Diabetes gestacional CLASSIFICAÇÃO ACTUAL DA DIABETES (2002) Quatro tipos clínicos etiológicamente distintos Diabetes tipo 1 Autoimune Idiopática Diabetes tipo 2 – (A) – Não obeso (B) - Obeso Devida à existência de insulinopenia relativa, com maior ou menor grau de resistência à insulina Diabetes Gestacional - Qualquer grau de intolerância à glucose registada na gravidez Outros tipos específicos de Diabetes – ex: tipo MODY (Maturity-onset-diabetes in the young) ETIOLOGIA DIABETES TIPO I Insulinopénia absoluta por destruição das células Beta -AUTOIMUNE: FORMA RÁPIDA: crianças e adolescentes FORMA LENTA: adultos (LADA- Diabetes latente autoimune do adulto) - IDIOPÁTICA Sem autoanticorpos detectáveis CARACTERÍSTICAS DA DIABETES TIPO 1 -Afecta 5-10% dos diabéticos -Ausência de produção de insulina e aumento do glucagon -Manifesta-se nos jovens (12-14 anos nos rapazes, 10 a 12 nas raparigas) -Presença de anticorpos ou não -Associado ao HLA DR3 e DR4 ?? -Quadro clínico inicial- polidipsia, poliúria, polifagia, perda de peso -Complicação mais frequente – coma cetoacidótico -Insulinoterapia imprescindivel Autoanticorpos Diabetes tipo 1 • Ac anti-células dos ilhéus (ICAS) + em 70% dos casos ínicio + em 2-3 % parentes em 1ºgrau + em <0.5% da população normal • Ac. Anti-insulina + antes do aparecimento da DM + sobretudo em crianças • Ac. Anti-GAD Subgrupo dos ICAS + em 3-5% dos parentes em 1ºgrau Fisiopatologia da Diabetes tipo 1 Genes de susceptibilidade ligados ao HLA DR agente ambiental Virus, toxinas Insulinite Lesão células β Células β alteradas Activação de auto-anticorpos antiCélulas β Lesão imunitária da células β ↓ Síntese de insulina Mediada por AC e linfócitos Diabetes mellitus Com destruição de mais de 80% da células β Sem alteração das células α ALTERAÇÕES METABÓLICAS E SINTOMATOLOGIA Falta insulina Proteólise ↓ glucose ↑glicogenólise ↑gluconeogénese COMPLICAÇÕES ↑amoniémia Lipólise ↑cetogénese hiperglicémia cetonémia Glicosúria e diurese AGUDAS DA DIABETES ↑ N urinário Perda água e iões desidratação hemoconcentração MELLITUS tipo 1 Acidose metabólica Saída K+ das células Hipotensão, hipoperfusão Ins. renal Coração disritmias ou infarto Coma Morte CARACTERÍSTICAS DA DIABETES TIPO 2 -Afecta 90 a 95% dos diabéticos (EUA – 2% dos ind. com mais de 45 anos) -Niveis séricos de insulina, normais, baixos ou elevados -Aumento dos níveis séricos de glucagon -Manifesta-se nos adultos (45 anos) -Doença de carácter familiar – transmissão poligénica -Quadro clínico inicial-podem apresentar hiperglicémia sem sintomatologia -Complicação mais frequente – coma hiperosmolar -Não necessitam inicialmente de insulinoterapia (podem transitar de um estado ao outro) - Associada à obesidade (factor ambiental) Patogénese Duas deficiências metabólicas da DM Tipo II: Resistência à insulina ⇒ diminuição dos tecidos em responder à insulina Disfunção das células β ⇒ inadequada secreção de insulina (muitas vezes, consequência da resistência à insulina) Resistência à Insulina: • Resistência aos efeitos da insulina na mobilização, metabolismo e armazenamento da glucose. Hiperglicémia Patogénese Factores responsáveis pela ⇓ da sensibilidade à insulina: Mutações nos genes do receptor e da sua via de sinalização: - Evidenciado pelo knockout dos genes que codificam para as proteínas de sinalização RARO Obesidade: - Um dos principais fenómenos causadores da doença; - O risco de contrair DM Tipo II para com IMC elevados (>30) - A obesidade abdominal tem maior efeito sobre a resistência á insulina Patogénese PORQUÊ? Adipocinas - Hormonas proteicas que os adipócitos libertam para a circulação sistémica em resposta a alterações metabólicas. A sua desregulação pode levar à Resistência à Insulina Ex.: - Adiponectina - Resistina Actua ao nível dos receptores do SNC com vista a induzir a - Leptina saciedade ⇒ induz sensibilidade à insulina Concentrações reduzidas podem originar resistência Patogénese PORQUÊ? Ácidos gordos livres (FFAs – free fatty acids) Nível de triglicéridos intracelular muito aumentado no músculo e no fígado Triglicéridos intracelulares e produtos do metabolismo dos Ácidos Gordos são potentes inibidores da sinalização pela insulina RESISTÊNCIA - A Resistência à Insulina na DM Tipo II é um fenómeno complexo e multifactorial - Patogénese Disfunção das células β: Em estados de Resistência: - ⇑ secreção de insulina devido à elevada necessidade das células periféricas em glucose Hiperinsulinémia (compensação) pode manter-se durante anos Inadequação: DM Tipo II Patogénese Disfunção das células β: Disfunção qualitativa: Perda do padrão normal de secreção da insulina. Com o passar do tempo, ela deixa de ser adequada ⇒ DM Tipo II Disfunção quantitativa: Degenerescência dos Ilhéus de Langerhans e formação de ilhéus amilóides - AMILOIDOSE FISIOPATOLOGIA DA DIABETES TIPO 2 (multifactorial) Resistência à insulina (niveis plasm. de Ins. ↑ ) Lesão das células beta Intolerância à glucose Diabetes tipo 2 Redução do nº de células β Toxicidade da glucose Deposição de amiloide nos ilhéus Síndrome de diabetes tipo 1 – like (diabetes insulino-dependente) FISIOPATOLOGIA DO COMA HIPEROSMOLAR DESIDRATAÇÃO Diabetes HIPERGLICÉMIA Diminuição Da insulina plasmática Diurese osmótica Aumento do gradiente Gp/G LCR Ausêcia de cetoacidose Perda de água Desidratação intracelular intracelular Aumento da osmolaridade Perda de água e sódio Aumento da ADH Desidratação celular Cerebral Desidratação LCR >Na do LCR Diminuição ác. Gordos livres Desidratação extracelular Diminuição ác. Gordos Manifestações neurológicas Manifestações multisistémicas da Diabetes D. Vascular cerebral 49% Retinopatia Cataratas glaucoma Isquémia do miocárdio nefropatia aterosclerose Neuropatia Periférica parestesias 40% 35% Infecções cutâneas Claudicação intermitente Neuropatia Periférica com ulceração Necrobiose lipoidica Isquémia dos memb. inferiores(gangrena) Manifestações mais graves: • Doença Cardiovascular (43%) Doença renal • Doença ocular Patologias Associadas A DM Tipo II é a causa de diversas patologias associadas. Estas advêm do excesso de glicose que vai entrar em alguns processos metabólicos, dos quais se destacam: Glicosilação não enzimática - A glicose liga-se ao grupo amino de proteínas intra ou extracelulares. Esta reacção vai formar produtos terminais de glicosilação avançada (AGE). - Os AGE provocam o cross-linking do colagénio tipo I (diminui a elasticidade dos vasos) e do tipo IV (diminui a adesão celular). - Proteínas plasmáticas como a albumina ligam-se às membranas basais glicosiladas provocando enrigecimento. Patologias Associadas Activação da proteína cinase C (PKC) (estimula síntese) Iões cálcio DAG (diacilglicerol) (activação) Hiperglicemia PKC • Produção de VEGF (vascular endothelial growth factor) - Actividade ⇑ de Endotelina-1 (vasoconstritor) e actividade ⇓ de eNOS – sintetase de monóxido de azoto endotelial (vasodilatador) - Produção de moléculas pró-fibrinogénicas como TGF-β - Produção da molécula pró-coagulante PAI-1 - Produção de citocinas pró-inflamatórias Microangiopatia e Retinopatia Diabética Patologias Associadas Hiperglicémia com distúrbios na via do poliol • Nos tecidos que não necessitam de insulina para transportar a glucose (células nervosas, rins, vasos sanguíneos) HIPERGLICÉMIA ⇑ Glucose intracelular ⇓ GSH ⇑ Susceptibilidade da célula ao stress oxidativo Patologias Associadas Doença macrovascular: • Característica de vasos sanguíneos como a aorta e outras artérias de grande e médio calibre. • A hiperglicémia tende a aumentar as concentrações de lípidos no sangue que provocam uma aterosclerose acelerada, causando: -hipertensão arterial; -insuficiência cardíaca; -infarto do miocárdio; -gangrena; -claudicação intermitente. Patologias Associadas Microangiopatia: • Ocorre um espessamento difuso da membrana basal, principalmente nos capilares, por deposição de colagénio, sobretudo do tipo IV. • As paredes dos vasos ficam danificadas, podendo romperse e criar hemorragias. Os capilares ficam mais permeáveis às proteínas plasmáticas. • É especialmente evidente nos capilares da pele, músculo esquelético, retina, glomérulos renais e medula renal. Patologias Associadas Complicações oculares: • Os vasos sanguíneos da retina ficam lesados. Surge a retinopatia Na retinopatia pré-proliferativa existem microaneurismas. Caracteriza-se também por permeabilidade dos capilares, originando edemas. - muitas haver vezes maior - Já a retinopatia proliferativa é caracterizada por existir proliferação de vasos sanguíneos à superfície do nervo óptico e da retina. - Outras consequências podem ser o glaucoma e as cataratas. Patologias Associadas Nefropatia diabética: • Podem ocorrer lesões glomerulares, vasculares renais ou pielonefrite. Espessamento da membrana basal dos capilares glomerulares, ao aumento difuso da matriz mesangial e a depósitos de matriz laminar na periferia dos glomérulos. Aterosclerose renal e a pielonefrite (inflamação aguda ou crónica dos rins) também surgem com maior frequência nos diabéticos. A função renal é afectada, perdendo-se proteínas pela urina - proteinúria. Patologias Associadas Neuropatia diabética: • Quer os nervos motores quer os receptores sensoriais distais e os nervos do sistema nervoso autónomo são afectados pela reduzida quantidade de açúcar disponível para as suas células. • Os doentes diabéticos sofrem assim de: -perda de sensibilidade nas extremidades; -alteração da função motora; -oscilações na pressão arterial; -alterações no funcionamento gastrointestinal Quem deve fazer o teste da glicémia ? -Todas as pessoas com mais de 45 anos (se o teste for normal repetir de 3 em 3 anos) - Deve ser feito a pessoas mais jovens quando: Obesas Tenham um parente em 1º grau com diabetes Tenham tido diabetes gestacional ou um bébé com mais de 4 Kg Sejam hipertensas (>140/90) Tenham um valor de triglicéridos ≥ a 250 mg/dl Num teste anterior tenham demonstrado I.G. DIAGNÓSTICO DE DIABETES (plasma venoso) I- Glicémia em jejum ≥ 126 mg/dl (7.0 mmol/l) ou II- Sintomas clássicos mais glicémia ocasional ≥ 200 mg/dl ou III- Glicémia ≥ 200 (11.1 mmol/l), na PTOG Anomalia da Glicémia em jejum (AGJ) - ≥ 110 e ≤ 126 mg/dl Tolerância oral à glucose diminuída (TDG) quando os valores do jejum são < 126 mg/dl e às 2h estão entre 140 e 200 mg/dl TESTE ORAL DE TOLERÂNCIA À GLUCOSE • Administração oral de 75g de glucose • Colheitas de sangue aos 60 e 120 min. O diabético apresenta valores no jejum > a 126 mg/dl e às 2 h valores > a 200 mg/dl MONITORIZAÇÃO LABORATORIAL DO DOENTE DIABÉTICO Quantificação da hemoglobina A1c (V.N. < 6%) Traduz a glicémia nos 120 dias anteriores Quantificação da microalbuminúria (valores de albumina na urina inferiores a 30 mg/24h) Pesquisa de acetona urinária (Diabetes tipo 1) Triglicéridos, colesterol, LDL e HDL FISIOPATOLOGIA DA DIABETES GESTACIONAL (semelhante à da diabetes tipo 2) Prevalência -4% - Aumento da resistência à Insulina no final do 2º trimestre e durante todo o 3ºdevido à presença de hormonas anti-insulínicas (cortisol, prolactina, Progesterona) que diminuem o nº de receptores e Afectam os mecanismos intracelulares. -Aumento da secreção de insulina -Esgotamento das células β