1 UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE (CCBS) CIÊNCIAS BIOLÓGICAS JULIANA CRIORUSKA DONADON A HETEROGENEIDADE E A SALA DE AULA – UM ESTUDO SOBRE CONCEPÇÕES TEÓRICAS E AÇÕES PRÁTICAS EM SALAS DO ENSINO FUNDAMENTAL II DE UMA ESCOLA PARTICULAR EM SÃO PAULO. São Paulo 2012 2 JULIANA CRIORUSKA DONADON A HETEROGENEIDADE E A SALA DE AULA – UM ESTUDO SOBRE CONCEPÇÕES TEÓRICAS E AÇÕES PRÁTICAS EM SALAS DO ENSINO FUNDAMENTAL II DE UMA ESCOLA PARTICULAR EM SÃO PAULO. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no curso de Ciências Biológicas como requisito parcial para obter o Título de Licenciatura em Ciências Biológicas. Orientadora: Prof.ª Ms. Débora Rodrigues Moura. São Paulo 2012 3 Agradecimentos Primeiramente quero agradecer a Deus, por todas as oportunidades concedidas nesta etapa da minha vida, me dando força e sabedoria e permanecendo ao meu lado nesta caminhada. Agradeço à minha mãe Paulete Crioruska e ao meu irmão Alexandre Crioruska Donadon, por estarem ao meu lado sempre, demonstrando todo o amor, carinho e paciência para comigo, relevando muitas vezes meu mau humor e meu desespero. Também pela ajuda que me deram na execução deste trabalho. Ao meu namorado, Rodolfo de Farias Braga, pelo apoio emocional, compreensão e paciência nos momentos em que estava confeccionando este trabalho, assim como sua presença em minha vida. Aos meus amigos Anna Carolina Zaia, Luiz Fabio Dimov e Leonardo Pires que foram amigos ímpares na minha vida, me ajudando em todos os momentos que eu precisei, por ouvir meus desabafos, meus gritos e pelas conversas. A minha orientadora Débora Rodrigues Moura, por ter aceitado a orientação desde o princípio, me auxiliando e pela atenção ministrada durante a realização do presente trabalho. Aos principais professores da Licenciatura, Adriano de Castro, Magda Pechliye e Rosana Jordão por terem despertado em mim o interesse pela educação, contribuindo para minha formação profissional e como ser humano. 4 Resumo Este estudo tem como principal objetivo observar as intervenções pedagógicas dos professores diante das salas de aula contrapondo-as com o que pensam teoricamente sobre o assunto. Busca ainda analisar as possíveis consequências dessas ações para a formação de cidadãos críticos e participativos em sala de aula e na sociedade. Para isso, o trabalho provê ao leitor o contexto histórico sobre o processo de transição da homogeneidade para a valorização da heterogeneidade na educação abordando esses conceitos sob a perspectiva de Oliveira (1993), Amaral (1994), Cortesão (1998), Carvalho (2001), Perrenoud (2001), Freitas (2003), Sassaki (2006) e Stainback e Stainback (2006) e analisa sob a perspectiva de Vygostky como ocorre o desenvolvimento humano em consonância com a ideia de heterogeneidade, abordando conceitos como a mediação, interação, a aprendizagem e como os professores lidam com estas questões. O procedimento metodológico adotado foi o de pesquisa de campo, realizada por meio da observação de aulas e a posterior entrevista semi-estruturada com três professores de uma escola particular em São Paulo, que atuam no Ensino Fundamental II. Com a pesquisa foi verificado que os professores nem sempre agem da mesma maneira como pensam e discursam sobre a heterogeneidade, havendo assim a necessidade de alguns ajustes, de modo que a práxis pedagógica seja realmente consolidada. Palavras chaves: Heterogeneidade, Mediação, Interação, Aprendizagem, Práxis Pedagógica e Sala de Aula. 5 Abstract This study has as main objective to observe the teachers' pedagogical interventions in the face of heterogeneous classrooms, analyzing the possible consequences of their actions through the diversity of elementary school students. The work provides the reader with the historical context of the transition from homogeneity to heterogeneity among the students, addressing the perspective of authors such as Oliveira (1993), Amaral (1994), Cortesão (1998), Carvalho (2001), Perrenoud (2001), Freitas (2003), Sassaki (2006) e Stainback e Stainback (2006), analyzes from the perspective of Vygotsky as human development occurs in line with the idea of heterogeneity, mediation, interaction in society, school and classroom, the differences that occur in these areas, learning and how teachers deal with these issues inside and outside the school, as well as examine how these factors influence the human. The methodological approach was adopted for field research, conducted through classroom observation and the subsequent semi- structured interviews with three teachers from a private school in Sao Paulo. Through research it was found that teachers act differently with their students because of the heterogeneity present in minimize certain students in the front classroom, such of colleagues, resulting as in expose difficulties or and shortcomings in the teaching process learning students. Keywords: Heterogeneity, Mediation, Interaction, Learning, Pedagogical Praxis and Classroom. 6 ÍNDICE INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 7 1. HOMOGENEIDADE X HETEROGENEIDADE: UMA QUESTÃO EDUCACIONAL ........................................................................................................ 10 1.1. A HOMOGENEIDADE CONSOLIDADA AO LONGO DA HISTÓRIA ......... 10 1.2. SOCIEDADE E SEUS VALORES: COMO AS DIFERENÇAS SÃO EVIDENCIADAS .................................................................................................... 12 1.3. FATORES QUE INFLUENCIAM O DESENVOLVIMENTO HUMANO..........17 1.4. MEDIAÇÃO...................................................................................................19 1.5. INTERAÇÃO ................................................................................................ 21 1.6. APRENDIZAGEM ........................................................................................ 23 1.7. ATUAÇÃO DOS PROFESSORES .............................................................. 26 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ........................................................... 29 2.1. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO ............................................................. 29 2.2. COLETA DE DADOS ..................................................................................... 30 2.2.1. OBSERVAÇÃO ........................................................................................ 30 2.2.2. ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA ..................................................... 31 2.3. CARACTERIZAÇÃO DOS ENTREVISTADOS .............................................. 31 2.4. ANÁLISE DOS DADOS .................................................................................. 32 2.5. APROVAÇÃO PARA REALIZAÇÃO DA PESQUISA .................................... 32 3. ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS ......................... 32 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 46 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................. 49 APÊNDICE A – ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO ....................................................... 53 APÊNDICE B – OBSERVAÇÕES DAS AULAS DA PROFESSORA 1 ................... 54 APÊNDICE C - OBSERVAÇÕES DAS AULAS DO PROFESSOR 2 ....................... 62 APÊNDICE D - OBSERVAÇÕES DAS AULAS DO PROFESSOR 3 ....................... 65 APÊNDICE E – ENTREVISTA COM A PROFESSORA DE CIÊNCIAS ................... 70 APÊNDICE F – ENTREVISTA COM O PROFESSOR DE QUÍMICA E FÍSICA (CIÊNCIAS) ............................................................................................................... 73 APÊNDICE G – ENTREVISTA COM PROFESSOR DE HISTÓRIA......................... 76 ANEXO A – CARTA DE INFORMAÇÃO À INSTITUIÇÃO....................................... 78 ANEXO B – CARTA DE INFORMAÇÃO AO SUJEITO ........................................... 80 ANEXO C – PROJETO SUBMETIDO Á COMISSÃO DE ÉTICA ............................. 82 7 INTRODUÇÃO O tema sobre a diversidade de alunos sempre me interessou, no qual a heterogeneidade contempla tanto as deficiências, quanto às diferenças que existem entre os alunos, podendo ser de adaptação, de aprendizagem, de relacionamento com seus colegas e professores, dentre outros aspectos. Tal interesse e entusiasmo se consolidaram quando no quinto semestre do curso de Ciências Biológicas, realizei o estágio supervisionado em uma escola em São Paulo, no qual tais características se mostraram nítidas. Desde então, surgiu a curiosidade de saber como eram as relações interpessoais entre os alunos e professores, já que pude notar, com algumas aulas observadas, que devido as diferenças existiam dificuldades em lidar com tamanha diversidade de alunos e heterogeneidade das classes. Foi a partir destas situações que fui investigar mais sobre este tema na escola, tendo como foco de observação as influências exercidas pela sociedade no ambiente escolar, constituindo os fatores externos e suas relações sobre os fatores internos, aqueles psicológicos e individuais de cada aluno. Para isso, busquei compreender como se dá o desenvolvimento humano e a interferência da escola, por meio de conceitos como mediação, interação e ensino aprendizagem. O intuito principal foi verificar como estas diferenças conviviam dentro da escola e como eram administradas pelos professores. Este tema é de significativa importância na área educacional, pois devemos observar, compreender e reconhecer quais as reações dos docentes e os comportamentos dos próprios alunos diante de uma sala que possui diversidade, tanto no aspecto cultural, no que envolve raças e crenças, quanto naquele que está diretamente relacionado com o processo de ensino aprendizagem do aluno. Desde a constituição da República, ao texto da Lei de Diretrizes e Bases do Sistema Educativo (20.12.1996), dentre outros, afirma-se constante e oficialmente a importância de garantir aos cidadãos uma igualdade de oportunidade frente à educação. Esta preocupação vem, progressivamente, sendo estendida através de medidas que visam atender a todos, buscando igualdade de acesso à escola (COTERSÃO, 1998). 8 O mundo atualmente é visto com um arco-íris, no qual se assume a heterogeneidade presente nas salas de aula, que são vistas como uma fonte de riqueza que para que se possa produzir resultado em relação ao processo de ensino aprendizagem. Essa caracterização é feita, para que se contribua com a igualdade de acesso à educação, que deve ser acompanhada por pais, escola, mas principalmente por professores, dentro das salas de aulas, visando às ações pedagógicas que propiciam diante dos diferentes alunos que atendem (CORTESÃO, 1998). A fim de observar, reconhecer e aprofundar este tema, o presente trabalho tem como objetivo principal, observar as intervenções pedagógicas dos professores diante de salas de aula, analisando as possíveis consequências de suas ações, mediante a diversidade de alunos do Ensino Fundamental II, de uma escola particular de São Paulo. Para atingi-lo foram estabelecidos objetivos específicos como: analisar as ações pedagógicas de três diferentes docentes e as reações dos alunos nas salas de aula, que apresentam sua diversidade, nos aspectos socioculturais, raciais, de crença e com relação ao processo de ensino aprendizagem; relacionar as ações práticas dos professores, após observação da dinâmica interacional e a mediação nas salas, com as respostas obtidas por meio de uma entrevista semi-estruturada, esta denominada práxis pedagógicas, segundo Gadotti (1998); comparar as atitudes de três docentes diante da diversidade dos alunos nas salas de aulas, verificando os aspectos positivos quanto à aprendizagem e que necessitam ser modificados. Para embasamento teórico, foram utilizados autores como Cortesão (1998), Amaral (1994), Carvalho (2001) e Freitas (2003), os quais tais temáticas abordam sobre a heterogeneidade; diferenças e; o sentimento dos professores que, atuam com as diversidades. Outros autores como Oliveira (1992), Oliveira (1993), abordando conceitos de Vygotsky, Santos (2001), Perrenoud (2001), Sassaki (2006) e Stainback e Stainback (2006), Lucci (2006) abordam sobre fatores que influenciam o desenvolvimento humano sobre a perspectiva da heterogeneidade. A pesquisa foi realizada por meio de observações das aulas de três professores, sendo P1 da área de Ciências, P2 da área de Ciências: Física e 9 Química e P3 de História, bem como a posterior entrevista semi-estruturada com os mesmos. Cabe ressaltar que esta pesquisa não teve a pretensão de generalizar, mais apenas verificar, em uma pequena parcela, como tal tema pode ser estudado, abordado e influenciado. O primeiro capítulo desta monografia contempla o contexto sócio-histórico, no qual inicialmente tinha-se a ideia de homogeneidade das classes e dos alunos e que, com o passar do tempo, foi dando lugar parcialmente à heterogeneidade. Abarca os fatores externos, ligados a sociedade e internos, ligados mais diretamente a escola e sala de aula, estão relacionados e incidem positiva ou negativamente sobre a diversidade existente. Em seguida, busca compreender o desenvolvimento humano por meio e de como a heterogeneidade pode contribuir para a construção de conhecimentos. O segundo capítulo trata dos procedimentos metodológicos; dos critérios adotados para a escolha dos instrumentos para a coleta de dados; a trajetória para o levantamento teórico; da maneira como foram analisados os dados obtidos e a caracterização dos participantes. Ao final, estão apresentados os resultados juntamente com sua análise e as considerações finais, quais as contribuições feitas com esta pesquisa, o que poderia ter sido feito com um melhor aproveitamento e quais as perspectivas para se continuar com pesquisas nesta área. 10 1. HOMOGENEIDADE X HETEROGENEIDADE: UMA QUESTÃO EDUCACIONAL Desde a Antiguidade muitos estudos denunciam que os alunos foram vistos como tábulas rasas. Isso resulta numa visão de formação de salas de aula consideradas homogêneas, como se fosse possível a transmissão de conhecimentos, não considerando as diferentes formas como se aprende e se ensina e, nem mesmo, o tempo que cada um precisa para compreender e colocar em prática o que foi ensinado. Ao pesquisar mais detalhadamente sobre as ideias acima, encontramos possíveis origens na época da Revolução Industrial, sobre a qual dissertaremos abaixo. 1.1. A HOMOGENEIDADE CONSOLIDADA AO LONGO DA HISTÓRIA Em meados do século XVIII, em decorrência do avanço tecnológico a máquina a vapor estava sendo implantada na sociedade. A ordem emergente era a formação de um novo tipo de homem, com aptidões que nem a família e nem a Igreja eram capazes de oferecer. Dessa forma, havia um investimento no trabalho de crianças, que deveriam o mais brevemente, adaptar-se a sociedade vigente. Este trabalho se caracterizava por ser repetitivo e portas adentro a um mundo de fumo, barulho, máquinas. Isso contribuía para se viver em ambientes superpovoados e alimentados por disciplina coletiva. Essa sociedade industrial, fundada sobre a sincronização do trabalho, a partir do apito da fábrica e pelo relógio, precisava de indivíduos com pouco conhecimento, que fossem submetidos ao trabalho rural e bucólico (FINO,1998). Desse modo, foi utilizado o ensino em massa, que visava formar pessoas aptas a atender às exigências do novo modelo de produção. O ensino, que almejava a formação de trabalhadores, incutia a ideia de que a única forma de mudança em sua situação seria o acesso ao sistema educacional. Infelizmente, este sistema que simulava a possibilidade de adentrar a um mundo novo, utilizava-se de artimanhas para formar alunos disciplinados e que, como papéis em branco, poderiam ser preenchidos com determinados pensamentos, atitudes, conhecimentos, agindo, de forma alienada na sociedade industrial (FINO, 1998). 11 Portanto, a escola seguia uma pedagogia preponderantemente elitista tendo como premissa básica a adaptação dos alunos a sua cultura seletiva. O âmbito escolar constituía-se como inflexível, pautado na oferta de uma educação única para todos, em que as diferenças não possuíam nenhum valor, devendo ser abolidas. As salas de aulas agrupavam alunos de idades diferentes e de níveis escolares muito desiguais. Uma classe muitas vezes reunia de 60 a 100 alunos, e era ministradolhes um ensino magistral, pouco preocupado com a participação (SANTOS, 2001). Por volta de 1948, observaram-se algumas mudanças em escolas de determinados países. Neste ano, ocorreu a publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sendo esta um marco no sentido da expressão de preocupações ligadas aos direitos básicos de qualquer cidadão do mundo (SANTOS, 2001). Santos (2001) ressalta que tais acontecimentos e preocupações originaram-se após a Segunda Guerra Mundial. Neste momento histórico, o desemprego, a recessão econômica, as desigualdades sociais, decorrentes de propostas políticoeconômicas, visavam somente à prosperidade econômica dos países juntamente com a produção científica, no qual cada vez mais estudos comprovavam uma série de discriminações e exclusões nos mais variados setores da vida humana. Com base neste quadro foi necessária a promoção de atitudes, ações públicas e manifestações, nos termos de uma Declaração Universal, a respeito das desigualdades constatadas e da reafirmação da necessidade de se combatê-las. Assim, a luta pelo reconhecimento dos direitos humanos, bem como pela sua proteção, foi inicializada, acirrada e organizada. Grupos minoritários que sofriam o peso maior da exclusão inauguraram seus próprios movimentos de defesa, constituindo grandes redes para produção de conhecimentos que proporcionaram a adoção de alternativas, em todos os campos, para que uma vida mais digna fosse garantida aos seus membros (SANTOS, 2001). Um dos principais campos que promove a formação humana não ficou de fora: a educação. Constatava-se que diversos grupos não tinham acesso a esta enquanto, outros que gozavam desta intervenção, sofriam com discriminação e a consequente exclusão dentro da própria escola. Diversos grupos sociais eram discriminados pelos mais diversos motivos como: etnia, religião, gênero, condições 12 sociais, supostas incapacidades físicas ou mentais, dentre outros aspectos. Foi a partir da movimentação histórica, a favor da democratização e humanização da educação, em diversos países que, segundo Santos (2001), surgiu a ideia das escolas prepararem-se para o atendimento de alunos, considerando a existência da heterogeneidade. A partir das conquistas ao longo do tempo, a heterogeneidade ganhou espaço nas discussões educacionais. Entretanto, esse novo sistema apresentado nas salas de aula foi considerado difícil, pois os educadores não estavam adequadamente preparados para lidar com as diferenças. Estas divergências relacionam-se com o espaço no qual a escola está inserida, sendo influenciada por valores culturais, regras, maneiras diferentes de lidar com as pessoas, bem como por fatores internos, que também passam a modificar o âmbito (PERRENOUD, 2001). 1.2. SOCIEDADE E SEUS VALORES: COMO AS DIFERENÇAS SÃO EVIDENCIADAS Cortesão (1998), afirma que cada grupo é como uma garrafa de vinho espumoso, que se mantém fechado com um aspecto homogêneo, preso pelo vidro em que foi guardado, aparentemente tranquilo, mas inacessível. Porém quando sai da rolha, se abre em uma inesperada torrente de espuma, se revelando como um líquido com características próprias. Do mesmo modo, tal mecanismo ocorre com os alunos, na qual é feito o máximo para mantê-los pacíficos dentro das salas de aula, formando um todo aparentemente homogêneo, em que não há diferenças de opiniões. Mas, quando são libertos pela escola transformam-se em um turbilhão de energia, que estava oculta, mas que se manifestam de uma forma bem explícita, oferecendo-se a possibilidade de se deixar conhecer individualmente. Para se conhecer tal individualidade, é necessário se abordar sobre diferenças entre os alunos nas salas de aulas. Quando se fala em diferenças, tal palavra é rapidamente referida a características ou opções, que apesar de indicar dessemelhanças, acaba não criando muitos conflitos. Porém, o contexto em que ela está sendo usada, as atuações da sociedade e das relações humanas acabam influenciando diretamente para que seu sentido seja alterado para aquele individuo 13 que é significativamente diferente dos outros e por isso deve ser tratado de maneira diferente (AMARAL, 1998). Amaral (1998) defende a ideia de que são três grandes parâmetros utilizados para se definir o conceito de diferença significativa, desvio ou anormalidade. Estes conceitos estão baseados em critérios estatísticos, sendo eles a moda e a média; em critérios de caráter estrutural e funcional, como a integridade de funcionamento; e aqueles que são de cunho psicossocial, envolvendo aquele indivíduo considerado o “tipo ideal”. O primeiro critério classificado como estatístico tem duas vertentes que não especificam as diferenças significativas, uma delas é a média, que leva em consideração valores de uma determinada característica da população, classificando como diferentes e anormais aqueles que se distanciam muito deste valor. A segunda vertente é a moda, que determina que certa atividade só pode ser realizada por um determinado sexo, caso haja um individuo do sexo oposto que realize-a, é considerado diferente, desviante ou anormal. Esta última vertente não está baseada somente em números, ela corresponde também a fatores historicamente constituídos. O segundo critério mencionado como estrutural e funcional refere-se à vocação dos componentes da natureza, no qual os seres humanos estão inclusos, assim como os objetos que são construídos por nós, considerando tanto a integridade de sua forma quanto a competência de sua funcionalidade. Nota-se que a espécie humana tem consigo determinadas características individuais que descrevem certa “vocação”, como por exemplo, no metabolismo humano, no qual cada órgão específico tem uma estrutura e formato adequados para realizar certa função e qualquer alteração de maior abrangência nesta vocação, caracteriza a pessoa como diferente ou anormal. Entende-se que essa modalidade de categorização de desvio é a menos impregnada de crenças, valores, opiniões e ocorre mediante especificidades de caráter econômico, religioso, científico, político (AMARAL, 1998). O terceiro critério corresponde ao fato de se comparar uma determinada pessoa ou um determinado grupo com o “tipo ideal” que é construído por um grupo dominante de alunos, pela própria professora ou até mesmo pela própria escola. 14 Este tipo ideal é aquele visto no contexto social como um espelho virtual e generoso de nós mesmos, que reflete apenas características rotuladas como boas pela sociedade, como por exemplo, jovem, do gênero masculino, branco, cristão, heterossexual, mental e fisicamente perfeito, belo e produtivo. Cada vez que um indivíduo se aproxima ou se assemelha a essas características que são idealizadas por um grupo de pessoas, ocorre uma perseguição de forma consciente ou inconsciente, que cada vez mais vai afastando-o da sociedade, caracterizando-o como uma pessoa que possui diferenças significativas, desvio ou anormalidade. É concreto o fato de que a população utiliza em seu cotidiano a categorização e validação do outro, o que ocorre de forma constante nas instituições escolares (AMARAL, 1998). A presença de preconceitos e a decorrente discriminação vivida com mais intensidade pelos significativamente diferentes, impede-os, muitas vezes, de vivenciar não só seus direitos de cidadãos, mas de vivenciar plenamente sua própria infância, sendo tal característica identificada corriqueiramente nas escolas em nosso país (AMARAL, 1998). No contexto atual, um enfoque que está sendo privilegiado é aquele que acaba contemplando o outro, a partir de suas diferenças socioculturais, que muitas vezes constroem um canal entre o educador e o educando (AMARAL, 1994). Amaral (1998), refere-se ao preconceito como sendo um conceito que formamos anterior à nossa experiência, sem nenhuma base ou conhecimento. A autora acredita que existam dois componentes básicos para esse pré-conceito, a atitude envolvendo predisposições psíquicas favoráveis ou desfavoráveis em relação a alguém e o desconhecimento concreto e vivencial desta pessoa colocada em evidência, assim como as reações que possuíamos diante delas, por exemplo, as emoções. No caso dos relacionamentos humanos, a concretização desse preconceito ocorre pela convivência, que gera um estereótipo e resulta na personificação do ser humano, muitas vezes em um uma figura que ele não corresponder ser. De fato muitas crianças, adolescentes e jovens permanecem na escola por um longo período, o que possibilita uma análise do que é visto no ambiente mais amplo da instituição, assim como o que ocorre nas salas de aula. É notória a diversidade 15 sociocultural e a forma desigual do sucesso escolar entre os alunos, devido aos grupos socioeconômicos, envolvendo aspectos como a socialização que cada criança tem com família, o bairro onde mora e o grupo de amigos com quem brinca diariamente (CORTESÃO,1998). A quebra de preconceitos contra aqueles percebidos como “diferentes” deve ser questionada por todos, de modo que se formem futuras gerações nos valores de respeito e apreciação à diversidade na cultura, deixando de lado discursos preconceituosos que constroem as diferenças, que se destacam principalmente quando relacionados às questões do ensino e da aprendizagem, vivenciados na escola (CANEN, 2002). Para compreendermos as atitudes tomadas por professores diante da diversidade é necessário entender que ocorre no ambiente mais amplo que é a sociedade, os valores introduzidos nas famílias, o que se passa no ambiente escolar para termos elementos para analisar o que ocorre nas salas de aula (CORTESÃO, 2008). A escola foi moldada ao longo do processo histórico e se conformou com o tempo e o uso de seus espaços, sendo o mais comum a sala de aula e o tempo mais conhecido o da seriação das atividades e dos anos escolares. Numa visão estereotipada da sociedade sobre a educação, a simples estada do aluno na escola já prepararia para atitudes imprescindíveis nas relações sociais como submissão, competição e obediência às regras. Observa-se que assim a educação se constrói sobre a ilusão do “aluno ideal”, que está sempre presente, participa de grupos com comportamentos adequados, etc e não daquele grupo que por vezes promove atitudes perturbadoras, que podem atrapalhar o funcionamento e andamento das aulas (CORTESÃO, 1998). Sendo a sociedade constituída de inúmeras identidades, com base na diversidade de raças, gênero, classe social, padrões culturais e linguísticos, habilidades e outros marcadores individuais, coloca-se em evidência a variedade cultural, que é considerada uma ruptura entre aquilo que era vivido anteriormente e a modernidade. Acreditava-se na homogeneidade e na evolução da humanidade, sem interferências, rumo a um acúmulo de conhecimentos que resultaria em um 16 mundo correto e progressivamente em crescimento. Passa-se então, a ser levada em consideração a valorização desta desigualdade cultural, no qual se questiona as diferenças existentes, o que pode gerar estereótipos, pré-conceitos que são formados a partir de conhecimentos estabelecidos na sociedade que é desigual e excludente (CANEN, 2002). Entretanto, com base na visão liberal descrita por Freitas (2003), a desigualdade social deve ser compensada no interior da escola pelos recursos pedagógicos, promovendo a equidade. Afinal, a escola é uma instituição social que tem a função de prover o ensino de qualidade para todos os estudantes, sem deixar de lado nenhum aluno, devido à raça, gênero ou nível socioeconômico (FREITAS, 2003). Assim, é preciso encontrar os meios necessários para ensinar tudo a todos, corroborando para a aprendizagem dos alunos. É imprescindível que todos tenham acesso ao conhecimento e à produção deste, sendo indivíduos ativamente participantes. Uma escola de qualidade reconhece a importância de seu papel na formação de sociedades mais justas e luta para extinguir ou minimizar todo e qualquer tipo de exclusão: dentro e fora de sala de aula. Ela serve ao objetivo mais amplo de constituição de sociedades em que as diversidades são vistas como riqueza, e nunca como problemas (SANTOS, 2001). É de suma importância que a sociedade reconheça o papel da escola, pois esta afeta o cumprimento de suas funções. É necessário atentar-se parar os recursos da escola como os pedagógicos, de infra-estrutura,a gestão e a formação dos, que afetam a qualidade da aprendizagem dos alunos, apesar das influências avindas da sociedade, como o nível socioeconômico, os valores constituídos nas famílias e até a maneira como vivem. A escola deve abranger tanto a equidade, pois se deve ensinar a todos, quanto à eficácia, pois não basta ensinar pouco, tem de ser muito a todos a (FREITAS, 2003). Desse modo, compreende-se que a escola considerada eficaz é aquela que além de ensinar o conteúdo, prepara o estudante, que também é um cidadão, para ter autonomia e para a sua própria organização tanto dentro quanto fora da escola, visando sua estada e intervenção na sociedade, com a finalidade de torná-la mais justa, no sentido de minimizar as diferenças (FREITAS, 2003). 17 1.3. FATORES QUE INFLUENCIAM O DESENVOLVIMENTO HUMANO Entender o desenvolvimento humano auxilia na compreensão da heterogeneidade como um aspecto positivo para a educação. Diante disso, discorrese abaixo sobre o mesmo, evidenciando esta premissa. Quando uma criança chega à escola é preciso considerar que domina vários saberes e detêm diversas experiências. É considerada como membro de um grupo sociocultural, que lhe fornece o material cultural sobre o qual vai operar em sua vida cotidiana, desde aquilo que lhe é concreto, ou seja, que consegue ver e tocar, até o que é abstrato, isto é, seus conceitos, ideias, valores, experiências e concepções sobre o mundo, constituindo assim um indivíduo único, capaz de transformar e ser transformado pelo que ocorre ao seu redor (OLIVEIRA, 1992). Tendo em vista os aspectos internos da criança e do adulto, principalmente aquilo que se pensa, que se consegue por em prática e o que se vive na sociedade, Vygotsky, através da teoria sociocultural, pretendeu compreender os mecanismos psicológicos mais sofisticados, típicos do ser humano e que envolvem o controle consciente do comportamento, a ação intencional e a liberdade do indivíduo em relação às características do momento e do espaço presentes (OLIVEIRA, 1993). Assim, partiu da concepção de que todo o organismo é ativo e estabelece contínua interação entre as condições sociais, que mudam ao longo do tempo (LUCCI, 2006). Segundo Oliveira (1993), através de sua própria natureza de processo que ocorre ao longo da vida individual e que envolve transformações mentais, a aprendizagem remete à ideia de desenvolvimento intelectual e a necessidade de conhecê-lo para melhor compreender seus mecanismos. O processo de desenvolvimento humano marcado por sua inserção em determinado grupo cultural, se dá de fora para dentro. Isto é, o indivíduo é submetido a ações externas, interpretadas pelas pessoas a seu redor, de acordo com os significados culturalmente estabelecidos. A partir dessa interpretação é que o aluno atribuirá significados a suas próprias ações e desenvolverá processos psicológicos internos (OLIVEIRA, 1993). 18 É este procedimento que Lucci (2006) chama de interiorização, no qual não é simplesmente a transferência de uma atividade externa para um plano interno, mas um processo no qual as funções psicológicas internas são construídas. Constitui um procedimento que não segue um curso único, universal e independente do desenvolvimento cultural, já que o que se interioriza são os modos históricos e culturalmente organizados de operar com as informações do meio. Um elemento de fundamental importância que influencia o ser humano e principalmente a criança no seu ambiente sociocultural é a escola. É um dos primeiros ambientes a receber e lidar com uma diversidade de pessoas e que tem como objetivo a construção de conhecimentos relevantes e de modos de operar intelectualmente, considerados adequados dentro do contexto social. Assim, um grande desafio é como fazer para considerar cada indivíduo, do ponto de partida em que se encontra ao entrar na escola, para o ponto de chegada estabelecido pelos objetivos delineados. Esse se constituiu na prática como um grande problema trazido democratização do sistema educacional e o consequente ingresso na escola pelas crianças das camadas populares. Os professores se depararam com uma situação, no qual não estavam costumados a lidar, pois, a partir da premissa de que todos os alunos têm o direito à educação, os docentes passaram a não saber como trabalhar com a diversidade, que, portanto, passou a ser vista como um problema, quando na verdade o desenvolvimento humano vai ser fomentado justamente por esta (OLIVEIRA, 1992). A heterogeneidade ainda enfrenta esse problema, visto que uma mudança de concepção se constrói de forma morosa. Com esta mudança consagra-se a ideia de construção de conhecimentos, a partir de sua mobilização. Tanto alunos quanto professores devem repensar constantemente modos de lidar com as diferenças estabelecidas e evidenciadas dentro das escolas e das salas de aula. A relação entre professor-aluno e entre alunos deve ser constituída pelo auxilio mútuo e interação, por meio do processo chamado mediação. 19 1.4. MEDIAÇÃO Mediação é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação, deixando de ser direta para ser indireta, criando-se assim um novo objeto. Desse modo, segundo Oliveira (1993), Vigotsky afirma que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas, fundamentalmente, mediada, que vai sendo construída, modificada ao longo do tempo e que utiliza-se do auxílio de ferramentas para participar da atividade humana. Como mediadores têm-se: os instrumentos, os signos e a linguagem, como responsáveis pelo contato e internalização com a cultura (LUCCI, 2006). A presença de elementos mediadores introduz um elo a mais nas relações interpessoais, como a de alunos e professores, tornando-as mais complexas e desafiadoras (OLIVEIRA, 1993). Com base nos instrumentos, Vigotsky busca compreender as características do homem, através do estudo da origem e desenvolvimento da espécie humana, tomando o surgimento do trabalho e a formação da sociedade como o procedimento básico para marcar o homem como espécie diferenciada. É o trabalho que pela ação transformadora do homem sobre a natureza, une ambos e cria uma cultura e a história humana. No trabalho, desenvolvem-se a atividade coletiva, que abrange as relações sociais e a ação, e a utilização individual dos métodos propostos. Portanto, o instrumento é um elemento interposto entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza (OLIVEIRA, 1993). Os signos são marcas externas, que fornecem um suporte real para ação do homem no mundo. Ao longo da evolução humana e do desenvolvimento de cada indivíduo, ocorrem duas mudanças qualitativas fundamentais no uso desses signos. Por um lado, a utilização de marcas vai se transformar em processos internos de mediação. Por outro lado, são desenvolvidos sistemas simbólicos que organizam os signos em estruturas complexas e articuladas. Ao longo do processo de desenvolvimento, o indivíduo deixa de necessitar de marcas externas e passa a utilizar signos internos, ou seja, representações mentais que substituem os objetos do mundo real. Assim, os signos internalizados são como marcas exteriores, ou seja, elementos que representam objetos, eventos, situações. A própria ideia de que o homem é capaz de operar mentalmente sobre o mundo, por meio do 20 estabelecimento de relações que envolvem o planejar, comparar, lembrar, supõe um processo de representação mental (OLIVEIRA, 1993). A linguagem é considerada o principal elemento mediador na formação e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, tanto nos alunos quanto nos professores. É ela que organiza os signos nas estruturas complexas e articuladas, permitindo, como por exemplo, nomear os objetos, destacar suas qualidades e estabelecer relações entre os mesmos. O surgimento da linguagem representa um salto qualitativo no psiquismo, originando três grandes mudanças. A primeira está relacionada ao fato de que ela permite lidar com objetos externos não presentes. A segunda permite abstrair, analisar e generalizar características dos objetos, situações e eventos. Já a terceira se refere a sua função comunicativa, que transmite e assimila determinados conhecimentos (LUCCI, 2006). Por ter esse caráter de instrumento de comunicação, planejamento e auto regulação, é que o indivíduo se apropria do mundo externo, construindo as significações dentro do processo social e histórico. É este procedimento que nos mostra as mudanças que ocorreram para o desenvolvimento desta ferramenta de mediação, sendo elas a linguagem oral e a linguagem escrita, que estão em constante integração com o pensamento humano (LUCCI, 2006). Quando os processos de desenvolvimento do pensamento e da linguagem se unem, dando origem ao pensamento verbal e a linguagem racional, o ser humano passa a ter a possibilidade de um modo de funcionamento psicológico mais sofisticado, mediado pelo sistema simbólico da linguagem. Para Vigotsky o surgimento dessa nova possibilidade não elimina a presença da linguagem sem pensamento, como por exemplo, a linguagem puramente emocional ou a repetição automática de frases decoradas, nem do pensamento sem linguagem, como por exemplo, nas ações que requerem o uso da inteligência prática, do pensamento instrumental. Mas o pensamento verbal passa a predominar na ação psicológica tipicamente humana (OLIVEIRA, 1993). O método pelo qual o indivíduo internaliza determinados conceitos, atitudes, relações e ações fornecidas pela cultura não é um processo de absorção passiva, mas de transformação, de síntese. Para Vigotsky, esse processo é um dos principais 21 mecanismos a serem compreendidos no estudo do desenvolvimento humano. É como se o indivíduo, ao longo do seu desenvolvimento, “tomasse posse” das formas de comportamento fornecidas pela sua cultura, num processo em que as atividades externas e as funções interpessoais se transformam em atividades internas, intrapsicológicas, visando ultrapassar desafios, como relacionar-se com a diversidade de pessoas existentes ao seu redor, ou mesmo interagir e aceitar aquelas com as quais se vive diariamente, inclusive a propiciada pela convivência escolar (OLIVEIRA, 1993). Deste modo, a escola passa a trabalhar cada vez mais com cada um dos conceitos mencionados acima, num processo intenso de construção do conhecimento. Com isso, valoriza-se o que cada pessoa traz consigo, relacionando os saberes com os bens acumulados pela humanidade, visando que por meio da mediação do professor, os alunos possam desenvolver muito mais do que os conteúdos ministrados dentro da sala de aula, mas as funções psicológicas superiores, como comparar, planejar, identificar, adotando uma postura investigativa, de análise do que ocorre ao seu redor. 1.5. INTERAÇÃO A interação desempenha um papel fundamental na construção humana: é através da relação interpessoal concreta com que o indivíduo vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico, além de aprender a respeitar os limites e opiniões de outras pessoas (OLIVEIRA, 1993). É importante que haja na escola a integração entre os alunos, por meio do oferecimento de oportunidades ao acesso à aprendizagem, ao poder de escolha, a possibilidade de se manifestar e participar das aulas. Nas salas de aula todas as crianças devem ter a oportunidade de aprender umas com as outras e assim desenvolverem atitudes, as habilidades e os valores necessários para apoiarem a inclusão de todos os cidadãos (STAINBACK, 2006). 22 É necessário, portanto por parte de todos no âmbito escolar, a coragem de valorizar as diferenças existentes, a possibilidade de conviver com a dessemelhança e de desvencilhar-se da adequação a moldes pré-estabelecidos sejam eles de normatização, heroicidade ou vitimização. Desse modo, todos os alunos serão considerados comuns, por meio do oferecimento de oportunidades na aprendizagem, valorização do desempenho compatível com as possibilidades reais e o favorecimento de acesso a múltiplas experiências (AMARAL, 1994). Sabe-se que este é um processo, que precisa ser reconstruído constantemente. Afinal, para uma criança, a diversidade dos colegas na sala de aula pode ser ameaçadora ou problemática porque algumas delas não possuem esquemas adequados de interpretação e reação. Pode desconectar ou provocar medo por ter, por exemplo, um sotaque estrangeiro ou dificuldade de expressão, reações violentas, ações incompreensíveis, familiaridades e exigências inesperadas (PERRENOUD, 2001). A prática da inclusão social repousa em princípios até então considerados incomuns, como: a aceitação das diferenças individuais, a valorização de cada pessoa, a convivência dentro da diversidade humana, a aprendizagem através da cooperação. A diversidade humana é representada, principalmente, por origem nacional, sexual, religião, cor, gênero, idade, raça e deficiência. A inclusão social, portanto, é um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade através de transformações, pequenas e grandes, nos ambientes físicos e na mentalidade de todas as pessoas (SASSAKI, 2006). Sassaki (2006), ainda evidencia que uma sociedade inclusiva vai bem além de garantir apenas espaços adequados para todos. Ela fortalece as atitudes de aceitação das diferenças individuais e de valorização da diversidade humana e enfatiza a importância do pertencer, da convivência, da cooperação e da contribuição que todas as pessoas podem dar para construírem vidas comunitárias mais justas, mais saudáveis e mais satisfatórias (SASSAKI, 2006). Entendemos que a construção de uma sociedade inclusiva está ligada a aceitação das diferenças que devem ser incentivadas e estimuladas na escola e isso incidirá diretamente na construção de uma sociedade formada de fato por cidadãos. 23 1.6. APRENDIZAGEM Com relação à aprendizagem, Vigotsky enfatiza a importância dos processos de aprendizado para as crianças, no qual, desde seu nascimento, o processo de aprendizagem relaciona-se ao desenvolvimento e é um aspecto necessário e universal deste procedimento estando atrelados às funções psicológicas humanas que estão culturalmente organizadas. Existe um percurso de desenvolvimento, em parte definido pelo processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie humana, porém é o aprendizado que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, se não fosse o contato do indivíduo com certo ambiente cultural, não ocorreria (OLIVEIRA, 1993). Como exemplo tem-se um indivíduo que vive num grupo cultural isolado, que não dispõe de um sistema de escrita. Se continuar isolado nesse meio cultural o indivíduo jamais será jamais alfabetizado. Isto é, só o processo de aprendizado da leitura e da escrita é que poderia despertar os processos de desenvolvimento internos do indivíduo, que permitem sua a aquisição Assim, podemos supor que se esse indivíduo, por alguma razão, deixasse seu grupo de origem e passasse a viver num ambiente letrado, poderia ser submetido a um processo de alfabetização e seu desenvolvimento seria letrado (OLIVEIRA, 1993). Nos estudos de Vygotsky, essas relações entre o desenvolvimento e a aprendizagem ocupam lugar de destaque principalmente na educação. É avaliado que, embora a criança inicie sua aprendizagem muito antes de frequentar o ensino formal, a aprendizagem escolar introduz elementos novos no seu desenvolvimento, considerando a existência de dois níveis de desenvolvimento. Um corresponde a tudo aquilo que a criança pode realizar sozinha e o outro, às capacidades que ela poderá construir; isto é, refere-se a tudo aquilo que a criança poderá realizar com a ajuda de outra pessoa. Esta última situação é a que melhor traduz, segundo Vygotsky, o nível de desenvolvimento mental da criança (LUCCI, 2006). É esta relação entre o desenvolvimento e o aprendizado, que foi denominada por Vigotsky como a Zona de Desenvolvimento Proximal que compreende estes dois níveis de desenvolvimento: o real e o potencial. Esse plano se caracteriza pela distância entre o nível de desenvolvimento que se costuma determinar através da 24 solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Portanto, refere-se ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real (OLIVEIRA, 1993). O processo de ensino aprendizagem na escola deve ser construído, então, tomando como ponto de partida o nível de desenvolvimento real da criança e como ponto de chegada os objetivos estabelecidos, supostamente adequados à faixa etária e ao nível de conhecimentos e habilidades de cada grupo. O percurso a ser seguido estará demarcado também pelas possibilidades das crianças, isto é, pelo seu nível de desenvolvimento potencial. Todos na escola têm o papel de fazer a criança avançar em sua compreensão do mundo, a partir de seu desenvolvimento já consolidado e tendo como metas as etapas posteriores, ainda não alcançadas (OLIVEIRA, 1993). Como na escola o aprendizado é um resultado desejável, é o próprio objetivo do processo escolar e a intervenção, passam a fazer parte de um processo pedagógico privilegiado. O professor tem o papel explícito de interferir na Zona de Desenvolvimento Proximal dos alunos, provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. O único bom ensino, afirma Vigotsky, é aquele que se adianta ao desenvolvimento. Os procedimentos regulares que ocorrem na escola, como a demonstração, assistência, instruções, são fundamentais na promoção do “bom ensino”. Isto é, a criança não tem condições de percorrer sozinho o caminho do aprendizado, sendo necessária a intervenção de pessoas, como os seus professores, para se desenvolver intelectualmente (OLIVEIRA, 1993). As estatísticas de desempenho escolar têm relação com a aprendizagem, pois é intermediada tanto pelas políticas educacionais, quanto pelo relacionamento entre professores e alunos, seguidos por um conjunto de desigualdades sociais como as decorrentes de relações raciais, de classe e de gênero, assim como pelos critérios de avaliação adotados explícita ou implicitamente (CARVALHO, 2001). A maioria dos saberes curriculares estão vinculados ao desenvolvimento do tipo sócio afetivo do aluno, como a capacidade de trabalhar em grupo a solidariedade, a ajuda mútua, 25 a aceitação do outro que é diferente, a consciência de que ninguém sabe mais tudo. Entretanto, se tais características não são aceitas em salas heterogêneas, alguns grupos fatalmente serão reconhecidos como mais fracos e/ou mais problemáticos por seus colegas, o que pode resultar em uma deficiência na aprendizagem, devido à baixa estima, falta de vontade ou descrença na capacidade de se aprender por parte do estudante (CORTESÃO, 1998). O nível socioeconômico do aluno é uma importante variável que pode interferir em seu rendimento, pois dependendo dele diferentes saberes são trazidos para o ambiente escolar. Assim, devem-se levar em consideração as diferenças de rendas na sociedade para, a adequação da escola aos recursos pedagógicos, materiais, infraestrutura, pois desta forma esta instituição pode fazer diferença nas relações interpessoais, entre alunos e professores (FREITAS, 2003). Não se pode esquecer da ajuda mútua e a abertura que os alunos devem ter dentro da escola e das salas de aula, pois é fundamental a interação entre pessoas diferentes em vários aspectos, para que seja desenvolvido o processo cognitivo, a fim de valorizar a relação entre o afeto e a cognição de cada estudante e suas diferentes culturas (CORTESÃO, 1998). Outros aspectos importantes são a interferência das famílias; a busca de causas e soluções que os estudantes buscam dentro da própria escola, para resolverem seus problemas que não são de cunho escolar; as condições internas e externas de funcionamento da escola; o preparo dos professores e os critérios de avaliação, que influenciam diretamente no aprendizado dos alunos, envolvendo até mesmo aqueles que fracassam na escola devido a tais fatores (CARVALHO, 2001). Segundo Amaral (1998), existe estudos e reflexões críticas que abordam sobre o fracasso escolar no Brasil, que evidenciam a necessidade de reflexão ordenada nas escolas sobre as características pedagógicas, incluindo todas as esferas que a influenciam, sendo elas econômicas, políticas e culturais e não apenas aquelas que se referem as condições individuais do educando e do educador. Foi analisada também, a questão da incompetência do aluno, da situação financeira, da inclusão por serem de famílias desestruturadas, da deficiência e das doenças que possam existir. No caso de ser o professor o centro da análise, está sendo julgado o desinteresse pela desvalorização do papel social, assim como o desprezo salarial, a 26 inadequação de sua formação, a falta de atualização e investimento na aprendizagem de novas técnicas ou teorias. Para Oliveira (1993), em relação à atividade escolar, é interessante destacar que a interação provoca intervenções no desenvolvimento das crianças. Os grupos são sempre heterogêneos quanto ao conhecimento já adquirido nas diversas áreas e os que são mais competentes num determinado assunto contribuem para o desenvolvimento de outros. Assim como o adulto, a criança também pode funcionar como mediadora entre outra criança e às ações e significados estabelecidos como relevantes no interior da cultura. Esta ideia de intervenção tanto dos professores como dos próprios alunos de classe, sugere uma recolocação da questão de quais modalidades de interação que podem ser consideradas legítimas promotoras de aprendizado nas escolas. Se o professor dá uma tarefa individual aos alunos em sala de aula, por exemplo, a troca de informações e de estratégias entre as crianças não deve ser considerado como um procedimento errado, pois pode tornar a tarefa um projeto coletivo extremamente produtivo para cada aluno. Do mesmo modo quando o aluno recorre ao professor como fonte de informação para ajudá-lo a resolver algum tipo de problema escolar, não está burlando as regras do aprendizado, mas, ao contrário, está utilizando-se de recursos legítimos para promover seu próprio desenvolvimento, visto que os professores exercem papéis fundamentais no processo de ensino aprendizagem de seus alunos (OLIVEIRA, 1993). 1.7. ATUAÇÃO DOS PROFESSORES Os professores nas salas de aulas enfrentam dificuldades em lidar com a diversidade de seus alunos no dia a dia. Verifica-se que é difícil, por parte dos docentes, lidar com as diversas características, opiniões, maneiras de se aprender dos alunos com que trabalham, mostrando claramente como estas são heterogêneas e como a diversidade cultural que existe na sociedade, acede à escola (CORTESÃO, 1998). Desta forma, o docente passa a atuar como um mediador, procurando sempre, minimizar as diferenças, no qual busca transformar relações 27 desiguais existentes, visando uma modificação em sua prática docente, para conseguir atender a todos os estudantes (CANEN, 2002). Alertados e conscientizados sobre os saberes recém-construídos nas salas de aulas, os profissionais têm a possibilidade de rever, refazer e repensar sua prática, tanto do ponto de vista técnico, quanto do ponto de vista das relações interpessoais. Porém, possuem uma bagagem de experiências pessoais que acabam afunilando para o ângulo da alteridade, no qual “o outro” é considerado diferente, por ser deficiente ou por possuir uma característica que não é considerada comum, o que resulta em movimentar mecanismos psicológicos de defesa (AMARAL, 1994). Com isso, docentes devem descobrir novas formas de explorarem os conteúdos programáticos de suas disciplinas. Devem descobrir maneiras diferentes de encontrar o potencial de cada aluno, que às vezes encontra-se oculto por detrás do interesse, de aparentes incapacidades, de comportamentos perturbadores, de vergonha ou timidez, mas que devem ser expostos, conhecidos e analisados por toda a sala (CORTESÃO, 1998). Portanto, segundo Cortesão (1998), o professor deve ser um investigador que não pode possuir um olhar daltônico, vendo somente cores cinza de normalidade dentro da sala de aula, ou seja, deve compreender em cada aluno, os diferentes comportamentos, os interesses e desinteresses, as aprendizagens e, dificuldades, tomando todas estas informações como indicadores preciosos, para que seja possível moldar suas propostas de ensino aprendizagem, produzir materiais e estratégias para determinadas situações, estabelecendo assim o necessário contato intelectual e afetivo com seus alunos. Este professor aceitará a exigência da heterogeneidade de forma positiva, no qual tais características serão indicadores preciosos para auxiliá-lo na avaliação de seus alunos. Com isso, alguns docentes sentem a necessidade de quebrar concepções que se possam existir sobre a heterogeneidade dentro das salas de aulas, realizando perguntas para a turma ou mesmo solicitam que os próprios alunos os interroguem para tirarem suas dúvidas; abordam a questão da diversidade dos alunos nas salas de aulas com o enfoque na sociedade multicultural, procurando esclarecer que ninguém é igual a ninguém. Fundamentalmente, o efeito desta estratégia revitaliza a 28 ligação entre aluno e professor, que na maioria das vezes está ameaçada pela distância existente devido a conceitos já formados. (CORTESÃO, 1998). O que acontece muito frequentemente, é que os professores se angustiam face ao trabalho a desenvolver, quando tem de lidar com grupos muito heterogêneos porque, se a diversidade é muito grande, a tarefa a enfrentar é realmente difícil. Além disso, há um medo existente de se dar atenção aos alunos mais desenvolvidos e não ajudar de forma adequada os que têm mais dificuldades (CORTESÃO, 1998). É normal que o professor se interesse, de forma bastante espontânea, pelos alunos que se parecem com ele, que respeitam as regras do comportamento, que trabalham e participam de seu jogo. Isso pode levá-lo a gostar pouco menos e até, chegar a rejeitar os que se desviam da norma, os contestadores, os apáticos, os desordenados, os brincalhões, os feios, os sujos, os mal-educados (PERRENOUD, 2001). Atualmente, diante da desigualdade e das diferenças, grande parte dos professores está engajada em uma “busca-ação pessoal”, questionando suas práticas e desta forma, realizam tentativas de diferenciação. Em diversas escolas, há tempos os professores lutam contra o fracasso escolar, esforçam-se por levar em conta as diferenças, às vezes trabalham em equipe, em favor de uma escola ativa, aberta, cooperativa, igualitária. Nenhum professor, por menos que se preocupe com a diferenciação, pode oferecer um ensino totalmente uniforme: ele não tem o mesmo relacionamento com todos os alunos, não intervém com cada um pelos mesmos motivos, de uma maneira idêntica, com iguais exigências e humor, dedicando a todos exatamente o mesmo tempo, a mesma atenção, o mesmo valor (PERRENOUD, 2001). É verdade, que a heterogeneidade é grande, sendo real a dificuldade de atender a todos, sobretudo se for considerado que, muitas vezes, os professores trabalham em diversas turmas com uma quantidade alta de alunos, que o material não é suficiente, que os programas são, com frequência, desajustados e, sobretudo excessivamente longos, o que torna o trabalho cada vez mais difícil. Com isso, os professores se sentem desanimados e desestimulados em face de tantos obstáculos. É preciso ressaltar que a escola e os professores veriam as suas dificuldades de gestão da heterogeneidade muito diminuídas se trabalhassem de 29 maneira diferente, no qual, muitos estão acostumados, tendo o apoio de coordenadores, diretores; bem como de toda a instituição escolar (CORTESÃO, 1998). 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Levando em consideração os objetivos apresentados na introdução, como sendo o principal, observar as intervenções pedagógicas dos professores diante de salas de aulas e analisar as possíveis consequências de suas ações mediante à diversidade de alunos do Ensino Fundamental II, nesta parte do trabalho será apresentada o tipo de pesquisa, como foi realizada a coleta de dados e os instrumentos empregados, como se deu a análise dos dados e, por fim, a credibilidade. Esta é uma pesquisa de campo qualitativa, que utilizou-se do ambiente natural como fonte direta de dados e que, segundo Ludke e André (2008), tem o pesquisador como seu principal instrumento, podendo se relacionar diretamente com a situação que está sendo investigada. Caracteriza-se também por analisar dados descritivos, detendo-se mais no processo pelo qual ocorrem as interações, nas atividades e nos procedimentos, do que o produto propriamente dito. 2.1. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO Com o intuito de produzir o referencial teórico para embasar a análise dos dados coletados para a confecção deste trabalho, foram sugeridos, no semestre passado, pelo professor Adriano Monteiro de Castro, autores como Amaral (1994), Cortesão (1998), Carvalho (2001) e Freitas (2003), sendo estas temáticas relevantes e importantes sobre a heterogeneidade e as diferenças entre os alunos; e posteriormente pela orientadora Débora Rodrigues Moura, como por exemplo, Oliveira (1993), Perrenoud (2001), Sassaki (2006) e Stainback e Stainback (2006), que abordam sobre os processos de exclusão, inclusão, mediação, interação e como lidar com estes aspectos no âmbito escolar. Tais referenciais teóricos foram encontrados em livros que foram emprestados da Biblioteca Central da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 30 Ao aprofundar sobre o assunto, diversos artigos foram encontrados através do portal da CAPES, utilizando palavras chaves como heterogeneidade, diferenças, inclusão e interação na educação, como Oliveira (1992), Santos (2001), Lucci (2006), encontrados disponíveis on-line na internet. 2.2. COLETA DE DADOS Os instrumentos para o levantamento de dados escolhidos para esta pesquisa foram: a observação e a entrevista semi-estruturada. 2.2.1. OBSERVAÇÃO O procedimento de observação foi escolhido para iniciar o trabalho, ou seja, antes mesmo de coletar dados por meio das entrevistas. Segundo Ludke e André (2008), a observação é utilizada como um método de investigação muito eficaz, pois possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado. Assim, a experiência direta é o melhor teste de verificação de ocorrência de um determinado fenômeno, pois constitui-se num meio de analisar como é a rotina e o dia-a-dia dentro das salas de aulas. Além, permite a visualização em tempo real do que ocorre e, por meio das anotações, possibilita uma análise e retomada posterior do ocorrido. As técnicas de observações também são importantes e úteis para descobrir aspectos novos de um problema e favorecem que o observador chegue mais perto das perspectivas do sujeito. Ainda permitem que as próprias experiências e conhecimentos do observador auxiliem no processo de compreensão e interpretação do fenômeno pesquisado (LUDKE e ANDRÉ, 2008). As observações foram feitas no mês de fevereiro, março e abril. Foram realizadas no período da manhã, em salas do 6º. ao 9º. ano (Ensino Fundamental II), em uma escola particular em São Paulo, com três professores identificados neste trabalho como P1, P2 e P3. De acordo com Ludke e André (2008), para que se torne um instrumento válido de investigação cientifica, a observação precisa ser controlada e sistemática, implicando a existência de um planejamento, determinado com antecedência “o quê” 31 e “o como” observar e a preparação do observador. Portanto, foi feito um roteiro de observação (APÊNDICE A), para que já estivesse determinado o que seria observado e quais as questões principais que deveriam ser respondidas, de acordo com o ocorrido nas aulas observadas (APÊNDICE B, C e D). 2.2.2. ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA O outro instrumento escolhido para a realização desta pesquisa, foi a entrevista semi-estruturada. Esta ferramenta permite a interação entre pesquisador e pesquisado, visa superar a relação hierárquica entre tais pessoas, visto que é justamente a consolidação desta que permite que a entrevista, especialmente quando é semi- estruturada, seja flexibilizada no decorrer do processo, permitindo assim a captação imediata e corrente da informação desejada. Além disso, a entrevista permite a percepção da comunicação não verbal, ou seja, gestos, expressões, alterações de ritmo que podem confirmar ou contradizer o que está sendo dito. Todos esses elementos poderão servir para uma análise mais rica do que está sendo questionado (LUDKE E ANDRÉ, 2008). As entrevistas com P1, P2 e P3, foram realizadas no mês de abril de 2012, no período da manhã, no intervalo das aulas, em uma sala perto da recepção para que não sofresse nenhuma influência externa, como barulhos, ruídos ou conversas paralelas entre os outros professores. As mesmas foram gravadas e, posteriormente transcritas, com intuito de captar, de maneira minuciosa e atenciosa, todas as falas dos professores. Estão contidas na íntegra nos apêndices E, F, G, ao final deste trabalho. 2.3. CARACTERIZAÇÃO DOS ENTREVISTADOS Conforme mencionado acima, a fim de preservar a identidade dos entrevistados, seus nomes não serão revelados. A P1 é professora de Ciências e dá aulas para turmas do 6º. ao 9º. Ano. É graduada pela Faculdade Auxilium de Filosofia Ciências e Letras, na cidade de Lins, São Paulo desde 1984 e leciona há 25 anos. O P2 é professor de Física e Química para as turmas do 9º. ano, sendo esta considerada a disciplina de Ciências. É graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Oswaldo Cruz e leciona há 7 anos. O P3 é professor de História e 32 leciona para as turmas do 6º. ano ao 9º. Ano. É graduado pela PUC há 4 anos e dá aulas a 7 anos. 2.4. ANÁLISE DOS DADOS A análise dos dados foi feita a partir da retirada de excertos do roteiro de observação, bem como das entrevistas realizadas, a fim de se relacionar aquilo que o professor faz em sala se aula com aquilo que foi dito por ele, além de confrontá-los com o referencial teórico sobre a heterogeneidade das salas de aulas e como os professores lidam com a diversidade dos alunos. 2.5. APROVAÇÃO PARA REALIZAÇÃO DA PESQUISA Essa pesquisa teve seu projeto aprovado pela comissão interna de ética em pesquisa do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Presbiteriana Mackenzie (ANEXO C). 3. ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS Neste capitulo do trabalho serão analisados como excertos as minhas observações feitas das aulas dos professores P1, P2 e P3 e, posteriormente, confrontados com os excertos que contém as falas dos próprios professores obtidas através das entrevistas. O intuito é a relacionar suas ações práticas e seus posicionamentos teóricos frente à heterogeneidade, denominado por Gadotti (1998) como práxis pedagógicas, verificando se existe real ligação entre o que pensam teoricamente com a forma com que agem em sala. Excerto 1 – Observação Por duas vezes, um aluno levantou de seu lugar e foi até a P1, na frente da sala, para fazer perguntas, pois tinha dúvidas. P1 gritou com ele: “Você não precisa ficar com vergonha de seus colegas, não precisa vir aqui até na frente, atrapalhar a aula para me fazer perguntas. Levanta a mão do seu lugar mesmo, que eu vou ver e tirar sua dúvida”. 33 Excerto 2 – Observação Um aluno levanta sua mão para tirar uma dúvida e mesmo com P3 de costas e escrevendo na lousa, o aluno começa a questionar. Como P3 não falou nada, o aluno levantou de sua carteira e foi à frente da sala para tirar sua dúvida. P3 então falou para o aluno: “Não precisa vir até aqui na frente. Não atendo nenhum aluno aqui na frente e só respondo quando perguntam de seus lugares. Você sempre faz isso, precisa aprender que eu não gosto.” Então o aluno voltou para seu lugar e fez sua pergunta de lá, e depois ficou quieto até o final da aula. Excerto 3 – Entrevista – Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles? P1 - “De todos os alunos em 50 minutos não dá né, assim, isso eu gostaria muito de atender a todos, mas eu ainda não consigo, porque você percebe que tem alunos que acabam falando ai o outro interrompe e aquele que ficou quietinho de repente queria fazer uma pergunta e desistiu, ou ele leva aquela dúvida pra casa e acaba não perguntando mais”. Excerto 4 – Entrevista - Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles? P3 - “Quando a sala é muito cheia não né, você não consegue atender a todos mundo de forma ideal, você não contempla tudo né. Você procura atender todos, mais às vezes não dá quando a sala é mais cheia. Eu prefiro sala mais tranquila né.” 34 Nos excertos obtidos através da observação, notou-se que quando os alunos foram tirar suas dúvidas, indo até a frente da sala, os dois docentes falaram em um tom mais alto de voz, pedindo que eles voltassem aos seus lugares e perguntassem diante de todos os outros alunos, o que na verdade não ocorreu. Assim, as atitudes apresentadas pelos professores resultaram em um quadro bastante comum em diversas salas de aulas contribuindo somente para que o aluno voltasse para sua carteira, abaixasse sua cabeça ou ficasse quieto até o final da aula e não se sentissem a vontade de expor suas dúvidas para o grupo como um todo, até por timidez ou medo de represálias. Tais episódios relacionam-se com as ideias de Amaral (1998), quando menciona que quando o aluno é colocado em evidência pelo professor ou por seus colegas, abaixa sua cabeça, não querendo enfrentar a realidade ou fugir daquilo que está ocorrendo no momento. Torna-se evidente a falta de preocupação dos docentes com a exposição em que determinados estudantes foram colocados e como isto pode afetar sua aprendizagem e ensino no futuro. Em relação ao que foi dito nas entrevistas, tanto P1, quanto P3 acreditam que devido ao tempo e à quantidade de alunos presentes nas salas de aula, o trabalho torna-se mais difícil e dispendioso de tempo. Acreditam estar fazendo o máximo para se dedicarem e atenderem a todos de forma a contemplar aquilo que o aluno necessita saber, porém tais discursos não se assemelham com aquilo que foi visto nas aulas, pois não permitem que estes estudantes tirem suas dúvidas no momento em que a possuem e nem as aproveitam para fomentar maiores discussões e reflexões com os alunos como um todo. Contudo, acreditam que fazendo apenas da maneira como acreditam ser o certo é que estará correto, não levando em consideração a dificuldade que seu aluno tem naquele momento. Estes professores devem levar em consideração que se deve haver a ajuda mútua, portanto se não conseguem atender a todos, necessitam criar uma forma para que isso ocorra ou pedir auxílio para os outros alunos, para que a maioria das dúvidas sejam sanadas. Pois como afirma Cortesão (1998), o fundamental são salas com alunos diferentes uns dos outros, para que seja desenvolvido o processo cognitivo, para valorizar a relação dos alunos com o professor e com seus colegas. 35 Amaral (1994), ainda completa sua ideia afirmando que tanto o professor quanto os outros alunos, precisam possuir coragem de olhar para as diferenças que existem nas salas de aulas, no qual devem esforçar-se para conviver com a dessemelhança, sem que haja a cobrança do “aluno ideal”, no qual devam se adequar aos moldes pré-estabelecidos. Essas diferenças devem ser tratadas como algo comum, que existe devido à heterogeneidade, no qual se proporciona oportunidades na aprendizagem igual a todos, adequando-se à diversidade de alunos que existe nas classes. Diante disso, os professores poderiam, ao invés de repreendê-los, mostrar que a sala de aula é o espaço de debates e discussões e que após responder as dúvidas de seus alunos individualmente, poderiam compartilhar com o grupo-classe as discussões, fomentando uma postura crítica reflexiva em relação aos saberes e conhecimentos veiculados. Com isso, esta atitude encorajaria uma participação mais efetiva de todos os alunos. Excerto 5 – Observação Em uma de suas broncas, P1 disse para toda a sala: “Ninguém é igual a ninguém aqui. Todos devem se respeitar, inclusive respeitar os professores, pois os alunos são diferentes uns dos outros, pensam e agem de forma diferente”. Excerto 6 – Observação Em uma de suas aulas, P1 diz: “Gente, vocês sabem que ninguém é igual ao outro. Então vocês acham que todos vão apresentar igual o trabalho oral?”. Um aluno respondeu: “Não, cada um tem seu jeito, mas temos que fazer a nossa parte sempre no grupo dos trabalhos”. P1 então, respondeu: “Isso mesmo, temos que respeitar os outros, mas todo mundo tem que dar o seu melhor”. Excerto 7 – Entrevista - Com qual sala você prefere trabalhar? Homogêneas 36 ou Heterogêneas? P1 - “Na verdade não tem como. Mesmo sendo homogênea, ela vai ser heterogênea. Isso porque o ser humano é diferente, então é claro que parece ser mais fácil trabalhar com a aula homogênea, mas a sala heterogênea tem o aluno que tem mais dificuldade e ele pode achar o ponto de referência naquele que tá melhor, pode colaborar. Então tem esse outro lado também”. Os excertos observados estão relacionados ao fato da professora evidenciar que todos não são iguais e por isso as diferenças devem ser respeitadas, no qual dentre esta grande diversidade de alunos, um deve ajudar o outro, assim como deve ser recíproco com os professores também. Esta ideia está presente em sua fala da entrevista, no momento em que afirma que o conceito de homogeneidade está atrelado ao de heterogeneidade, portando convivem lado a lado. Porém, P1 tem a consciência de que o ser humano é diferente um do outro, o que torna o trabalho mais difícil, porém que acarreta muitos benefícios para todos. Demonstra ter a clara ideia, assim como Amaral (1994) de que o enfoque que está sendo privilegiado é aquele que contempla o outro, que é diferente de si mesmo, a partir de suas diferenças socioculturais, de aprendizagem, de vivencia, que desta forma constrói uma ligação entre o educador e educando. Também, estabelece relação com as ideias de Cortesão (1998), no qual se refere ao fato de que o docente não deve possuir um olhar daltônico, vendo todos seus alunos da mesma forma, considerando-os homogêneos, mas sim agir como a professora que tem nítida essa visão de seus diferentes alunos, com distintos interesses, comportamentos, que resultam em trocas de experiências entre cada estudante. Excerto 8 – Observação P1 costuma fazer atividades em grupos, no qual P1 os escolhe ou os próprios alunos. Porém, sempre acabava sobrando alguns alunos que não queriam fazer grupo com ninguém, pois diziam não terem afinidade. Com isso, P1 acabava 37 pedindo para que eles escolhessem em qual grupo queriam ficar. Excerto 9 – Entrevista - Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? “Durante todos esses anos foram várias situações, uma delas foi trabalhar com a atividade lúdica, mostra cultural, realizar atividades em grupos nas aulas. Eles começam a se destacar, de repente eles conhecem um lado do outro que tem de bom e que nem ele descobre que ele tem aquela habilidade e isso é interessante. Atividades fora da escola também né, passeios e tal, ai eles começam a ver um outro lado do professor que não é o profissional. Eles olham um outro lado da gente e a gente vê um outro lado deles também...” Excerto 10 – Observação P2 chamou alguns alunos para participarem como exemplo de uma atividade com moléculas, para representar a matéria que estava ensinando. Escolheu aqueles alunos que estavam com a cabeça baixa em suas carteiras, chamando-os até a frente da sala e disse: “Vocês que estão dormindo são os que vão me ajudar. Venham aqui para frente que vou usar vocês como exemplos para explicar a matéria de uma forma melhor. Os alunos então foram até à frente da sala e ajudaram o professor com sua demonstração, que foi interativa e dinâmica. Excerto 11 – Entrevista - Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? P2- “[...] acho que esse é um ponto que eu sempre faço na aula, pego os meus ajudantes. No caso de Química, às vezes eu levo pra sala o kit de moléculas pra mostrar quando eu falo de ligações. É sempre tentar trazer o assunto, pro mais concreto possível”. 38 Excerto 12 – Observação P3 escolhe três voluntários para uma atividade fala com eles fora da sala e volta. Escolhe mais dois e pede que os outros alunos encostem as carteiras no fundo da sala e pede que todos andem até a frente da sala. Mas dois alunos ficam quietos, sentados em seus lugares, conversando entre si e dizendo: “Não quero participar dessa atividade. É muito chato. Vamos ficar aqui mesmo, porque P3 nem liga pra gente, ele nem vai perceber que a gente não vai participar”. Depois de alguns minutos, P3 então pede para que eles se juntem com a turma para participarem do júri. Então eles levantam e também vão para frente da sala, fazerem aquilo que o professor lhes pede. Excerto 13 – Entrevista - Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? P3- “ [...] alguns debates, juris né. A gente propõe para que eles debatam sobre essas diferenças”. Com tais excertos, nota-se que os três professores apropriam-se do que é dito colocando em prática em suas aulas. Os docentes acreditam ser importante a relação entre os alunos, a partir de atividades em grupos, atividades dinâmicas e de júris, que possam envolver o máximo de estudantes, para que desta forma haja troca de conhecimento e de experiência entre eles. Tais características se relacionam com Cortesão (1998), que menciona esta percepção sobre a integração e atividades fora do normal que ocorre dentro da sala de aula, um aspecto essencial que acarreta inúmeras facilidades de se criar estratégias que desenvolva nos alunos a criatividade, o ativismo e a possibilidade de se criar melhores vínculos com os educadores, focando na sua importância, na contribuição de questões sobre o ensino e a aprendizagem. 39 P1 ao ser observada, não está realizando um papel de mediadora em sua aula, pois da maneira como forma os grupos, não está propiciando um crescimento nos conhecimentos e nas habilidade dos diferentes alunos ali presentes. Porém, P2 mesmo selecionando aqueles alunos que não estavam prestando atenção em sua aula, passa a tornar interessante sua atividade, bem como conseguir a atenção de todos. Estas atividades que ocorrem esporadicamente em sala de aula, deveriam ser adotadas como forma de mediar os diferentes conhecimentos, para que fossem produzidos novos conhecimentos de maneira significativa. Assim como diz Amaral (1998), é importante que haja integração entre os alunos, para que todos possam se manifestar e dar suas opiniões durante as aulas, minimizando as diferenças existentes, pois se dá a possibilidade das relações interpessoais serem estreitadas sem estereótipos ou preconceitos. Excerto 14 – Observação 40 P2 procura sempre pedir que os alunos mais quietos falem também e contribuam com a aula. Perguntou a uma aluna que senta na frente da sala, que é quieta, que não gosta de conversar com ninguém, que fica sempre escrevendo em seu caderno e envergonhada, sobre uma questão. Disse: “Aluna W, não precisa ficar sem jeito, com vergonha ou medo. É simples responder esta questão, vai que eu te ajudo”. Ela fez sinal com a cabeça de que não queria responder, mas P2 aos poucos, com a ajuda de alguns colegas, a convenceu dizendo que ninguém iria julgar sua resposta, pois todos estavam ali para aprender. Com isso, aos poucos a aluna foi se sentindo menos envergonhada e começou a falar, respondendo a questão proposta por P2. Excerto 15 – Entrevista - Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles? P2 – “Eu procuro sempre detectar aqueles alunos que tem um pouco mais de dificuldade. Então, nosso trabalho tem que ser um pouquinho mais em cima deles. Porque eu acho que o aluno que é bom, que pega a matéria com facilidade, a gente não precisa ficar tanto em cima dele, insistindo [...]” Excerto 16 – Entrevista - Imagine uma sala de aula com alunos muito diferentes um dos outros. Como o professor deveria proceder para que o processo de ensino e aprendizagem tenha sucesso? P2- “[...] tem que ter um acompanhamento tanto do professor quanto do colégio, né, em relação a esses alunos [...]”. A escola é uma instituição social que tem na sociedade a função de prover o ensino de qualidade para todos os estudantes, sem deixar de lado nenhum aluno, devido à raça, gênero ou nível socioeconômico, como menciona Freitas (2003). Portanto P2, reconhece em suas ações práticas e suas concepções teóricas que 41 para lidar com as diferenças e a diversidade que existem, é necessário que haja um auxílio por parte do colégio, de coordenadores, diretores, deles mesmo e dos próprios alunos dentro das salas de aula, do mesmo modo que o docente procura atender, acompanhar àqueles que sentem mais dificuldades na aprendizagem na sala de aula, dando um incentivo, uma ajuda para que tentem e não desistam. P2 demonstra uma visão semelhante com a de Santos (2001), pois reconhece como a instituição escolar é de suma importância na formação de sociedades mais justas que compreendem alunos mais empenhados, sem pré-conceitos formados, que sabem conviver e lidar com as diferenças que existem não só na escola, mais em diversos lugares. É necessário que a escola seja vista como uma riqueza para os alunos e não como um local de problemas que parecem nunca estarem sendo solucionados. Excerto 17 – Observação P2- Durante a aula, o professor acabou atendendo mais um lado da sala do que do outro, tirando as dúvidas dos alunos, até que uma aluna do outro lado da sala gritou: “A gente aqui desse lado quer ter alua também, viu professor”. O professor então disse: “Ah, desculpa não reparei em vocês”. Excerto 18 – Entrevista - Quais os aspectos mais difíceis de trabalhar com estas salas heterogêneas? P2 - “[...] nem é tanto a disciplina, é mais um pouco às vezes a defasagem com que os alunos vêm, porque falta um assunto, falta um conhecimento prévio. Então a gente tem que tá retomando, pra que possa dar continuidade na nossa disciplina”. P2 em sua ação prática está em concordância com aquilo que diz. Devido à defasagem, à maneira de aprender, à capacidade de cada aluno, o professor tem de auxiliar e atender mais um lado da sala do que o outro. Este é um quadro comum, em salas com um grande número de alunos, no qual o professor acaba dando 42 atenção aos grupos que mais apresentam maior dificuldade, portanto apresentam mais dúvidas. Estas situações ocorrem também devido a heterogeneidade que está presente e é real, bem como Cortesão (1998) evidencia que há dificuldade em atender a todos, devido ao tamanho das turmas, ao material que não é suficiente, ao processo de ensino aprendizagem de cada aluno que é distinto dos outros estudantes, o tempo que o aluno demora em compreender os conteúdos, entre outros aspectos. Para que haja um acompanhamento mais individual e que aproxime o professor de seu aluno, a escola é que tem que tomar posição e algumas medidas para que nas salas de aula e no próprio âmbito escolar, as dificuldades e diferenças sejam minimizadas, para que desta forma, os alunos consigam ter um acesso adequada à aprendizagem e ao ensino, como por exemplo, modificar o número alunos em cada classe. Contudo, apesar do trabalho com classes menores ser o ideal, o professor deve organizar as salas de modo que os grupos possam interagir e construir conhecimentos juntos, estabelecendo, portanto, uma organização para que consiga mediar os conhecimentos com êxito, sendo esta uma possível forma de lidar com classes mais numerosas. Oliveira (1993), ainda aborda sobre o bom ensino que a escola deve proporcionar, no qual deve dar assistência, instruções aos alunos e professores. A criança não tem condições de percorrer sozinha o caminho do aprendizado, sendo necessária a intervenção de outras pessoas, como seus professores quando está na sala de aula, para que desta forma cada aluno consiga se desenvolver intelectualmente. Excerto 19 – Observação Em uma das aulas, P1 discutiu com um aluno que estava atrapalhando e não estava cooperando com o silêncio para as apresentações dos trabalhos. Ela disse: “Você pode parar de falar e ficar de brincadeira infantil, fazendo barulho com esta caneta? O problema é sempre você já percebeu? Você quer que eu fale que você é bobo, ou é uma criança com essa cara de nada para mim? Então eu falo mesmo: você é bobo sim, uma criança sim, que ainda não saiu das fraldas e que precisa de ajuda para se limpar, se duvidar viu. Depois não reclama se não ficam com você ou 43 não são seus amigos, já que você quer continuar sendo diferente assim, agindo como bobo”. O aluno abaixou a cabeça em uma carteira e não falou mais nada até o final da aula. Excerto 20 – Observação Em uma das aulas P1 chamou a coordenadora, pois não estava mais aguentando a sala e nem conseguindo dar sua aula. A coordenadora chegou, começou a brigar com a sala e junto com a professora selecionou o grupo de alunos que não paravam de falar e colocou-os na frente da sala. Com isso, a coordenadora foi falando características ruins destes alunos, pois eram os piores e não estavam tendo comprometimento com a professora, com a coordenadora e nem com eles mesmos. A professora então complementou: “Vocês precisam para pra pensar um pouco na vida de vocês e ver o que de bom e o que de ruim vocês estão fazendo. Vocês não estão levando nada a sério, caiam na real, porque no final do ano vai ter um monte de aluno chorando pra passar de ano e eu não vou fazer nada. Pode vir o pai, a mãe, a família inteira, mas eu não vou passar”. Excerto 21 – Entrevista - Quais os aspectos mais difíceis de trabalhar com estas salas heterogêneas? P1 - “...eu acho que hoje é o perfil da sociedade, onde reflete na escola, os alunos tem dificuldades mesmo no relacionamento, no objetivo dele de vida, então eles tão vivendo hoje, assim de uma forma, “empurrando com a barriga”, não estão vendo lá na frente, não estão conseguindo perceber né, o que ele quer pra vida dele...”. Com os excertos mencionados acima obtidos através da observação, é possível evidenciar como a P1 diante de tantas dificuldades em relação a seus alunos, já está cansada de trabalhar com determinada classe, no qual tal situação se agravou que foi necessário a presença da coordenadora, para uma conversa séria e 44 importante; e como a mesma menciona que seus alunos não estão pensando em seu futuro e no que querem para sua vida. Relacionada à fala de P1 alcançada através da entrevista, tais ações revelam concordância entre si, pois se tem a clara ideia de que o que está ocorrendo na escola é reflexo da sociedade no qual vivem e que devido aos objetivos de vida estabelecidos pelos próprios alunos, agem desta maneira no âmbito escolar. Estas características relacionam-se com Cortesão (1998), pois são esses momentos em que vê a dificuldade de relacionar-se com o outro, tanto nas relações com o professor quanto na própria relação entre os alunos, na capacidade cognitiva, afetiva e intelectual de cada aluno, ocorrendo por intermédio da intervenção dos processos culturais da sociedade na escola. Com relação ao excerto 19, a docente utiliza-se de falas ofensivas, grosseiras e até violentas com seus alunos, causando apenas medo, repulsa, não provocando conscientização ou mudança de postura em relação ao conhecimento que ministrado pela mesma, sendo, portanto apenas coerção com o estudante. Já no excerto 20, ao trazer a coordenadora para a sala e expor os aluno à frente, P1 deixa de lado sua autoridade e expõe em demasia os estudantes. Isto, de certa forma não trará mudanças e a conscientização, e sim fará com que os alunos passem a gostar menos de seus professores e até mesmo reflitam sobre sua permanência na escola. São nítidas as dificuldades que os professores enfrentam nas salas de aula, no que diz a respeito em lidar dia a dia com a diversidade de alunos, como afirma Cortesão (1998). Não é um trabalho fácil distinguir o conhecimento por parte dos professores das características reais dos alunos que trabalham em sala de aula, manifestando-se claramente como estas são heterogêneas e a diversidade cultural que existe na sociedade, acede à escola. Portanto, esses profissionais tem a possibilidade de rever, refazer e repensar sua prática, tanto do ponto de vista técnico quanto do ponto de vista das relações interpessoais, com a finalidade de não deixar que de maneira exagerada os fatores externos, influenciem tanto a escola, visando o crescimento de seus alunos, como afirma Amaral (1994). 45 Excerto 22 – Observação Duas alunas sentam juntas e distantes do restante da turma, na sala de vídeo e P3 diz: “Nossa, vocês duas podem já vir para cá sentar e ficar com todo mundo”. Elas fazem sinal de que não com a cabeça e insistentemente P3 continua chamando-as. Depois de um tempo, vendo que elas ainda não mudaram de lugar ele diz: “Ai, como vocês são. Vem para cá se enturmar com todo mundo, vocês são muito tímidas e só se isolam do restante da turma. Precisam se relacionar mais com os outros, porque isso prejudica a sala sabia?”. Elas então com a cabeça baixa, mudam de lugar, mas permanecem quietas até o final da aula. Excerto 23 – Entrevista - Imagine uma sala de aula com alunos muito diferentes um dos outros. Como o professor deveria proceder para que o processo de ensino e aprendizagem tenha sucesso? P3- “É uma boa pergunta. [...] mediar os conflitos dessas diferenças e tentar não naturalizar essas diferenças, mas fazer com que eles compreendam que o diferente também faz parte”. Para que o processo de ensino e aprendizagem seja bem sucedido, P3 afirma em sua fala, que o ideal é mediar os conflitos e as dificuldades existentes nas salas de aulas, pois aquele aluno considerado diferente também contribui e faz parte do conjunto de alunos que estão nesta instituição para aprender, bem como aproximar as relações existentes ali. Porém, observa-se a dificuldade de por isso realmente em prática, pois P3 consegue estabelecer apenas uma integração “forçada”, o que acarreta em dificuldades para que estes se desenvolvam e se relacionem entre si e com os docentes, não havendo, portanto relação em suas práxis pedagógicas (GADOTTI, 1998). Como P3 não consegue estabelecer uma interação de fato entre os colegas e as alunas ou entre elas e o próprio P3, suas ações práticas acabam distanciando-se da ideia de Oliveira (1993), quando menciona que os elementos mediadores são 46 essenciais e importantes para a melhora nas relações interpessoais entre o ser humano, como a de entre alunos ou com os próprios professores, dessa forma tornando-as mais próximas, desafiadoras e complexas. Este docente necessita ter em mente a ideia de que em salas integradas, às crianças enriquecer-se por terem a oportunidade de aprender com as outras que não são iguais a ela. Tem a possibilidade de desenvolverem-se para cuidar uma das outras e conquistam desta forma, atitudes, habilidades e valores necessários para que sua comunidade e sociedade apoiem a inclusão de todos como cidadãos no âmbito em que vivem, como afirma Stainback (2006). Mas tal integração deve ser realizada de maneira satisfatória, no qual os alunos também tenham a vontade de se relacionarem com seus colegas e professores, não sendo esta uma maneira constrangida de se almejar os aspectos mencionados anteriormente. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise de dados a partir das observações feitas das aulas dos três professores e a contraposição com suas posturas teóricas expostas por meio da entrevista nos mostram diversos pontos que são considerados importantes para verificar o quanto a heterogeneidade existente nas salas de aula realmente é valorizada ou desejada. Com os anos, as salas de aula deixaram de ser homogêneas para abranger uma grande diversidade de alunos que pensam, aprendem e agem de formas diferentes, bem como os aspectos culturais, econômicos, raciais, de crença e credo que apresentam disparidade entre os alunos e o professor. Essa heterogeneidade é enfrentada como algo difícil, mas adequada ao mesmo tempo, tendo em vista que todo aluno tem o direito de uma aprendizagem e ensino apropriados e iguais, no que se refere às diferenças existentes. No entanto, os docentes ainda demonstram uma grande dificuldade em lidar com tamanha diferença do âmbito escolar, já que este se adapta ou mesmo sente empatia com alguns alunos, que são considerados “ideais” por apresentarem postura, comportamento adequado, notas boas e que contribuem com a aula. 47 Por diversos momentos o aluno considerado que foge ao padrão idealizado, por ser aquele que não atende a essas características impostas tanto pela sociedade, como pelas escolas, passa a ser humilhado, ridicularizado e na maioria das vezes exposto de maneira por vezes bastante agressiva e que isto pode influenciar negativamente sua formação, suas emoções, expectativas e pretensões até suas possibilidades acerca dos estudos. Estes estudantes passam a adotar posturas submissas como menciona Cortesão (1998), no qual diante de situações em que exposto, o aluno abaixa sua cabeça, fica quieto em seu lugar, passa a não participar mais das aulas, ficando com vergonha e tímido diante das diversas situações pelo que ocorrem, o que contribui para uma maior dificuldade em se relacionar principalmente com os colegas de classe. Tal atitude tomada por estes alunos diferentes faz com que os outros muitas vezes os desprezem, não querendo fazer trabalho em grupo, formar duplas ou ao menos relacionar-se, alterando e criando obstáculos para que as relações interpessoais próximas entre os próprios alunos e com o professor sejam deveras prejudicadas, como foi observado nas aulas dos três docentes. Contudo, os docentes pelas suas falas, têm a consciência de que os alunos não são iguais e que devem relacionar- se, pois cada um tem muito a aprender com o outro. Essa questão da heterogeneidade é por diversas vezes exposta nas aulas e mencionada nas entrevistas, para mostrar que ninguém é melhor que ninguém, mas que cada um tem um jeito diferente de aprender. É este quadro que evidencia a individualidade de cada aluno que deve ser exposta e encarada como um “algo a mais” para a aprendizagem de todos os alunos. Entretanto, apesar de reconhecer as diferenças, na prática, muitas vezes ainda é exigido um tipo de comportamento padronizado e único, demonstrando o quanto isso ainda deve ser aperfeiçoado na escola, para que não se tornem só palavras na voz dos professores, mas que os alunos possam observar na prática a heterogeneidade e as diferenças serem valorizadas. Os professores observados, por estarem atuando em salas com grande quantidade de alunos sentem a dificuldade de lidar e atender a todos. Esta é uma característica bem comum dentro das salas de aulas: alguns alunos acabam sendo prejudicados, pois não tem um acompanhamento nas aulas, portanto os professores sem perceber acabam excluindo determinado grupo de alunos que sentem falta de 48 atenção e que também querem ajuda com aquilo que necessitam. Isso exige que cada vez mais o professor que pense nos trabalhos em grupos onde crianças com diferentes conhecimentos possam interagir de maneira produtiva criando uma Zona Potencial de Desenvolvimento. Desse modo, é preciso pensar em modos de gerenciar o tempo de atenção do docente, acompanhando alguns grupos por vez, gradativamente, lembrando de propiciar momentos onde todos possam expor os conhecimentos que construíram num debate sadio e reflexivo. É necessário que haja a integração e a inclusão de todos os alunos dentro das salas de aulas. Este é um processo que beneficia ambos os lados, tanto daqueles que gostam de se comunicar e se expressar, quanto daqueles que são mais calados e quietos. Com a mediação do professor entre estas relações, como visto em algumas aulas e na entrevista, os alunos podem se inteirar mais no grupo classe, podendo compartilhar conhecimentos, melhorar o processo cognitivo, bem como a relação. O docente é o elemento de grande importância também entre a criança e o espaço em que ela vive, portanto o elo entre o ambiente interno, a escola e o externo, a sociedade, visando sua melhoria e adaptação com o que encontra e sua contribuição como cidadão. A integração, mediação e inclusão decorrentes, acarretam diversos benefícios para que os professores criem estratégias para que consigam desenvolver bem os conteúdos que devem ser ministrados. Com a formação de grupos, duplas, trios, apresentações de trabalho, há uma grande troca de experiência entre os alunos, no qual é possível desenvolver a criatividade, a vontade de aprender e o ativismo em participar. Com isso, todos podem manifestar e dar suas opiniões durante as aulas, minimizando desta forma, as diferenças existentes, sem a presença de estereótipos ou preconceitos. Desse modo, durante o trabalho foi evidenciada a importância de se melhorar as relações entre professores e alunos, para que suas ações práticas sejam mudadas, a necessidade por parte da escola como um todo em auxiliar os professores de maneira ideal e correta para que estes consigam trabalhar de maneira adequada. É necessário que cada aluno tenha um ensino e a aprendizagem de qualidade, para que desta forma sejam desenvolvidas suas habilidades e competências. 49 Os docentes devem estimular a relação entre os próprios alunos, continuando a explorar a questão da diversidade, no qual ser diferente é algo bom para o convívio tanto no âmbito escolar quanto na sociedade em que vivem. Desta forma, é importante mostrar como é relevante esta relação de trocas de conhecimentos e vivências entre os alunos, para que assim possam atuar de forma significativa fora da escola, em suas casas, comunidade e sociedade. Porém é preciso salientar que deve-se adotar formas de valorizar a diversidade na prática e não somente na fala ou na explanação aos alunos. O modo como o professor se porta fará muita diferença como um modelo possível de ser adotado nas mais diversas relações. Tendo em vista, as considerações feitas anteriormente, conclui-se que o presente trabalho conseguiu atingir seus objetivos, uma vez que foram analisadas as intervenções pedagógicas dos docentes diante da diversidade, bem como as consequências e ações por parte dos alunos. Foi possível evidenciar algumas ações e pensamentos dos docentes, abrangendo seus aspectos positivos e negativos quanto à prática e a relação destes com os alunos. O trabalho concretizado abre margens para novas pesquisas em outras escolas, com outros professores, com a finalidade de se estabelecer relações saudáveis, fomentar a realização de suas práxis pedagógicas adequadas para lidar com a diversidade, incluindo e integrando todos os tipos de alunos para que cada vez as diferenças sejam minimizadas e vistas como algo construtivo no processo de aprendizagem e ensino, na convivência e na vida de cada aluno. Apesar destas contribuições acredito que se tivesse mais tempo para realizar esta pesquisa, as observações das aulas poderiam ocorrer mais constantemente, no qual seriam verificados alguns detalhes mais importantes para a identificação e análise de como os professores agem diante da diversidade de alunos que encontram nas salas que lecionam. Acredito também que através de conversas informais, não somente a utilização da entrevista semiestruturada, seria possível levantar mais dados e informações sobre a heterogeneidade na escola e nas salas de aula. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 50 AMARAL, L.A. Pensando alguns fatores psicológicos. In: Pensar a Diferença/Deficiência. Brasília: Editora Cordes. 1994. p. 19-25. ___________. Pensando a integração. In: Pensar a Diferença/Deficiência. Brasília: Editora Cordes. 1994. p. 35-63. ____________. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. 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São Paulo: Editora Cortez. 2ª ed. 1998. 51 LUCCI, M.A. A proposta de Vygotsky: A psicologia sócio-histórica. 2006. Dissertação (Doutorado em Psicologia da Educação)- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. LÜDKE, M. E ANDRÉ, M.E.D.A. Métodos de coleta de dados: observação, entrevista e análise documental. In: Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU. Temas básicos de educação e ensino. 2003. p. 25- 38. OLIVIERA, M.K. de, Algumas Contribuições da Psicologia Cognitiva. In: Série Idéias. São Paulo.: Editora FDE. 1992. p. 47-51. OLIVEIRA, M.K. de. A mediação simbólica. In: Vigotsky. Aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. São Paulo: Editora Scipione. 1993. p. 25-41. ______________. Pensamento e linguagem. In: Vigotsky. Aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. São Paulo: Editora Scipione. 1993. p. 41-55. PERRENOUD, P. O fracasso escolar incomoda vocês? Talvez seja possível fazer algo. 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Quais? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Como os alunos considerados “diferentes” são tratados pela professora quando devem realizar trabalhos em grupo, seminários orais? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ A professora realiza algum tipo de interação entre os alunos da sala que são considerados excluídos? Qual é a comanda que ela dá para que isso ocorra? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Comentários Gerais: ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 54 APÊNDICE B – OBSERVAÇÕES DAS AULAS DA PROFESSORA 1 - Durante a aula, a professora ao explicar a matéria, disse para um aluno em específico que se colocasse fogo nele iria acabar o problema do mau cheiro dele. A sala toda, este aluno e a professora riram da fala dela. - Por duas vezes, um aluno levantou de seu lugar e foi até a professora na frente da sala, para fazer perguntas à ela pois tinha dúvidas. Mas ela gritou com ele: “Você não precisa ficar com vergonha de seus colegas, não precisa vir aqui até na frente, atrapalhar a aula para me fazer perguntar. Levanta a mão do seu lugar mesmo, que eu vou ver e tirar sua dúvida”. - A professora logo no início da aula é recepcionada por três alunos, que dizem: “Nossa, professora como você está linda. Como foi sua semana? Como você está?”. Com estes alunos ela conversa sobre outros assuntos, que não são só os que ela explica em sala. - A professora elogiou um aluno que não participa muito da aula, pois ele participou da aula e acertou a questão que ela havia feito. Disse que ele era um “tchutchuco”. - Em uma das aulas, a professora entregou a prova aos alunos, dizendo suas notas em voz alta, fazendo com que todos os alunos ouvissem. Alguns alunos, ao ouvirem suas notas ficavam chateados e tristes, mas outros comemoravam por terem ido bem. Um aluno reclamou para a professora que não queria que ela dissesse sua nota em voz alta, mas ela não o ouviu e disse mesmo assim. - A professora costuma fazer atividades em grupos, no qual ou ela escolher os grupos ou os próprios alunos. Porém, sempre acaba sobrando alguns alunos que não querem fazer grupo com ninguém, pois dizem não ter afinidade. Com isso, a professora acaba pedindo para que eles escolham então, em qual grupo querem ficar. 55 - Em uma de suas aulas a professora diz que os alunos precisam melhorar os trabalhos que fizeram, pois eles não corresponderam 100% na proposta que ela fez. Disse que os alunos precisam se empenhar mais, pois estava bem decepcionada com a sala. - A professora ficou brigando com uma aluna, pois ela não queria ir apresentar o trabalho. Disse: “Aluna F, vem logo apresentar seu trabalho, você não é mais criança ou é, pra ficar brigando por isso? Ou você vem agora ou fica com zero”. A aluna então foi para frente da sala apresentar seu trabalho. - A professora pede para duas alunas que são gêmeas e quietas participem da aula, explicando sobre gêmeos, fazendo dessa forma, com que elas se integrem com o restante da turma. Elas continuam sem falar nada, abaixam a cabeça e começam a mexer no caderno, não respondendo a pergunta que a professor fez. Então a docente diz: “Ah, não querem responder, então não tem problema nenhum”. - A professora disse para duas alunas que elas são alunas exemplares, que os pais delas devem se orgulhar bastante delas. Para outro aluno teve de insistir para que ele prestasse atenção na aula, dizendo então, que essa matéria iria cair na prova que já estava chegando. Com isso, o aluno passou a prestar atenção e parou de conversar. - A professora pediu que um aluno completasse parte do trabalho de um grupo, dizendo o que ele sabia. Ela pediu isso pois disse para a sala toda: “ O aluno N, é um aluno ótimo, aplicado e dedicado. Acredito que ele deseje completar alguma coisa, pode falar então”. - No corredor, enquanto a professora estava se dirigindo para a sala de aula, um aluno veio falar com ela, dizendo para ela arrumar a sala, pois todos estavam sentados em seus lugares errados. Disse ainda que estava se sentindo excluído, muito sozinho e que não estava perto de ninguém legal para conversar. Então ela disse: “Só a professora responsável pela sala que pode alterar o mapa da sala. Você não precisa conversar com ninguém, você tem que prestar atenção na aula para continuar melhorando, isso sim”. - A professora gosta que os alunos façam trabalhos em grupos e depois apresentem seus trabalhos para a sala toda, disse que isso mostra como o trabalho em grupo também é bom para o aprendizado dos alunos. 56 - Para uma dupla a professora disse: “Isso mesmo meninos, eu fico muito orgulhosa de vocês dois, pois são ótimos alunos. São empenhados, participam das aulas e estão sempre prestando atenção. Estão de parabéns. Agora tem que ir bem na prova né?”. Eles sorriram e falaram que ia tentar ir bem na prova. - A professora falou diretamente com uma aluna em voz alta para que todos ouvissem: “Quando eu não te ouço você vira as costas e vai embora, agora quem quer falar sou eu. Tem que ocorrer um respeito mútuo e você não pode achar que manda aqui”. A aluna sentou e ficou quieta. - A professora quando vai dizer algo, dar bronca, brigar com a turma sempre cita nome de alguns alunos, expondo eles. Ela diz o que sempre fazem em sala de aula, o que deixam de fazer em sua aula e que não melhoram nunca, portanto não serão bons profissionais. - A professora sempre pergunta a seus alunos sobre a matéria e durante a explicação, fazendo perguntas. Ela procura sempre indagar seus alunos, perguntando a todos, mas são sempre os mesmo que respondem. - A professora circula pela sala de aula, atendendo a todas as duvidas que os alunos tenham principalmente quando estão fazendo exercícios. Ela para na certeira de cada um, ouvindo a dúvida e auxiliando-os como pode. - A professora chama a atenção de um aluno que sempre está quieto na sala, que senta em um canto da sala sozinha e não gosta e conversar com ninguém. Ela grita com ele dizendo para ele se sentar rapidamente, pois quer começar sua aula. Disse que era pra ele parar com brincadeirinha de criança, já que ele estava brincando com uma bolinha no meio da sala de aula. - Em uma das aulas, a professora discutiu com um auno que estava atrapalhando muito sua aula e não estava cooperando com o silêncio para as apresentações dos trabalhos. Ela disse: “Você pode parar de falar e ficar de brincadeira infantil, fazendo barulho com esta caneta? O problema é sempre você já percebeu? Você quer que eu fale que você é bobo, ou é uma criança com essa cara de nada para mim? Então eu falo mesmo: você é bobo sim, uma criança sim, que ainda não saiu das fraldas e que precisa de ajuda para se limpar, se duvidar viu. Depois não reclama se não ficam com você ou não são seus amigos, já que você quer continuar sendo diferente 57 assim, agindo como bobo”. O aluno abaixou a cabeça em uma carteira e não falou mais nada até o final da aula. - A professora na maioria de suas aulas, pede que os alunos leiam os textos da apostila, em voz alta para a toda a sala ouvir. Mas é sempre ela quem escolhe os alunos que irão ler. - A professora em uma das discussões com uma das turmas disse: “Eu não sou professora que vem de qualquer canto, qualquer esquina. Sou formada e tenho uma ótima profissão, não admito o desrespeito de vocês. Se eu virar novamente ara chamar a atenção de vocês, vou dar zera pra todo mundo e não adianta vir aqui o pai e a mãe reclamar depois pra mim”. - Em uma das aulas a professora chamou a coordenadora, pois não estava mais aguentando a sala e conseguindo dar sua aula. A coordenadora chegou, começou a brigar com a sala e junto com a professora selecionou o grupo de alunos que não paravam de falar e colocou-os na frente da sala. Com isso, a coordenadora foi falando características ruins destes alunos, pois eram os piores da sala e não estavam tendo comprometimento com a professora, cm a coordenadora e nem com eles mesmos. A professora então complementou: “Vocês precisam para pra pensar um pouco na vida de vocês e ver o que de bom e o que de ruim vocês estão fazendo. Vocês não estão levando nada a serio, caiam na real, porque no final do ano vai ter um monte de aluno chorando pra passar de ano e eu não vou fazer nada. Pode vir o pai, a mãe, a família inteira, mas eu não vou passar”. - A professora diz aos alunos que eles são muito inteligentes e um aluno diz: “Nossa, professora você acha que nós somos inteligentes?”. A professora deu uma risada e falou: “Sim todos vocês são inteligentes. É que uns se esforçam mais e outros se esforçam menos”. - Em uma de suas broncas ela disse para toda a sala: “Ninguém é igual a ninguém aqui. Todos devem se respeitar, inclusive respeitar a professora, pois os alunos são diferentes uns dos outros, pensam e agem de forma diferente”. - É uma professora que constantemente auxilia os alunos com suas questões, atendendo-os na medida em que levantam suas mãos. Ainda conversa com eles sobre diversos assuntos durante suas aulas, não somente aqueles que serão abordados com a matéria que explicará. 58 - A professora chama a atenção de dois alunos em específico, colocando-os em evidencia. Para o primeiro disse: “Já falamos com seus pais e eu disse algo com para eles. Será que eu vou ter que mandar um bilhete mudando minha opinião? Quando você quer fazer as atividades na aula você faz, mas quando você não quer, ai você não faz nada né? E ultimamente você não quer nada da vida”. Para o segundo aluno ela disse: “Você aluna Y, também está fora do sério, não para de falar, só vem piorando suas notas. Volta para seu lugar. Fica quieta e presta atenção na aula”. Com isso, toda a sala ficou em silêncio. - Uma aluna se prontifica a passar olhando a lição de casa dos outros alunos, para ajudar a professora. A professora então permite, mas os outros alunos reclama pois essa é uma aluna que sempre passa olhando a lição , só porque ela é a “queridinha” da professora. - Em diversos momentos, a professora somente atende a um grupo de alunos que se encontram de um lado da sala. Isso faz com que os outros alunos, se sentem excluídos por não terem sua atenção e por isso não conseguem tirar suas dúvidas. - Para uma das alunas a professora disse: “Nossa, o que está acontecendo com você hoje? Você está tão carente e quer fiar chamando minha atenção”. A professora então fala para outra aluna: “Quer ser amiga dela? Ela quer participar toda hora da aula e eu não quero mais dará atenção para ela”. Após dizer isto, a professora e as duas alunas deram risadas. - Em um dos trabalhos em grupo, um aluno sobrou e acabou ficando sem grupo. Ele então disse pra professora que sempre sobra, pois ninguém gosta dele, dizem que ele é chato e que não conversa com ninguém apenas ficando em seu “mundinho”. A professora então disse que não era dessa foram que acontecia, pra ele se juntar com alunos que ele gostava. O aluno não se movimentou, e então a professora escolheu um grupo para que ele pudesse fazer o trabalho. - A professora colocou um aluno para fora da sala, pois ele interrompeu muitas vezes sua aula, pois levantou de seu lugar, passeou pela classe, pois foi jogar um papel no lixo. Porém, para que ele fosse até o lixo, o aluno passou diversas vezes na frente da professora que estava explicando a matéria. Ela então, encaminhou o aluno até a coordenação e disse: “ Aluno I, não é para ficar me pedindo desculpas, falar que não vai fazer novamente e fazer. Isto é secundário, aí depois você levanta 59 de novo para jogar o papel no lixo e não me respeita”. Ao voltar para a sala de aula, brigou novamente com a turma. Citou o comportamento de alguns alunos que não paravam de conversar, dizendo que o rendimento deles ao invés de ser bom é muito ruim. E elogiou um aluno, dizendo à ele que ele melhorou muito, pois depois que mudaram ele de lugar, voltou a ser um aluno exemplar. Este aluno então disse: “O ruim foi que agora eu “tô” isolado, longe dos meus amigos, aí eu tenho que estudar né? Mas melhorei mesmo professora”. - Em uma de suas aulas a professora disse aos seus alunos: “Sei que não podemos fazer comparações e que são em épocas diferentes que as coisas acontecem, mas vocês não estão preocupados nem um pouco com o conhecimento e só querem brincar. Eu ajudo vocês, mas vocês tem que me ajudar também. São os dois lados que precisam fazer a sua parte”. - A professora chamou a atenção três vezes de um aluno e na última disse: “Se eu ouvir mais uma vez a sua voz, aluno H, vou colocar você para fora da sala. Você deve ser surdo só pode ser, já chamei tanto a sua atenção e você não parou até agora. Eu já cansei de você”. - Durante a confecção e a apresentação dos trabalhos trimestrais a professora trata todos os alunos da mesma forma. Pede que se preparem para a apresentação, que levantem e apresentem na frente da sala, que não tenham vergonha, que falem bem alto. - Em uma de suas aulas, a professora diz: “Gente, vocês sabem que ninguém é igual ao outro. Então vocês acham que todos vão apresentar igual o trabalho oral?”. Um aluno respondeu: “Não professora, cada um tem seu jeito, mas temos que fazer a nossa parte sempre no grupo dos trabalhos”. A professora então, respondeu: “Isso mesmo, temos que respeitar os outros, mas todo mundo tem que dar o seu melhor”. - Durante uma das apresentações dos trabalhos, a televisão parou de funcionar e desligou sozinha. A professora então pediu que uma aluna fosse procurar o técnico para que ele pudesse arrumá-la para dar continuidade nas apresentações. Ela disse: “Olha, não aguento mais isso. A escola tem que arrumar as coisas, pois você organiza, planeja, pensa na sua aula e aí você chega aqui e nada da certo, nada funciona. Esses equipamentos da escola acabam só atrapalhando minha vida”. 60 - Um aluno perguntou para a professora se ele podia se sentar a lado dela na hora das apresentações, já que ele queria prestar atenção e a sala toda estava fazendo muito barulho e não dava para ouvir nada. Ela respondeu que sim e gritou com a sala pedindo silêncio e que todos ficassem quietos. - Dois alunos não paravam de falar e como a professora queria dar sua aula, ela começou a gritar com eles dizendo: “Vocês não tem o mínimo de respeito, estou tentando começar a minha aula e vocês dois não deixam. Depois entra na sala de aula matando o professor porque ele é louco, e não consegue dar sua aula. Vocês nem precisam de arma, vocês vão matando minha aula, minha paciência, minha dedicação aos poucos. Vocês precisam se ligar na vida”. Depois para a sala todo disse: “Vocês precisam se tocar da vida, durante toda a minha carreira profissional dando aulas, já dei aula para cegos, surdos, tetraplégicos. Eles são muito mais dedicados que vocês, fazem todas as lições e aproveitam a oportunidade que eles têm. Já vocês, não valorizam nada. É chocante sim, o que eu digo às vezes, mas as atitudes de vocês dentro da sala de aula também são chocantes”. - Durante as apresentações, a professora para alguns grupos permitiu que consultassem seus trabalhos escritos, pois estava considerando que eles estavam muito nervosos e estava gaguejando muito, ficando com o rosto vermelho. - Com relação aos trabalhos, pediu para que duas meninas que ficam muito quietas, são tímidas e não gostam de se relacionar com seus colegas, apresentassem seu trabalho. Elas disseram poucas coisas, falaram muito baixo e até gaguejavam às vezes durante a apresentação. Com isso, a professora falou que elas deveriam perder a vergonha e falar alto para que toda a sala pudesse ouvir a aprender com o que elas estavam dizendo. - Para um aluno em específico a professora disse: “Aluno P, a nossa relação você sabe que não é muito boa dentro da sala de aula. Você tem que fazer a sua parte e eu a minha. Aqui dentro, você é aluno e eu a professora e ponto. Teve um dia que te coloquei para fora da sala porque você me estressa”. - É uma professora que gosta de auxiliar seus alunos, dizendo que caso tenham dúvidas que sempre perguntem a ela, que ela fará o máximo para ajuda-los e sanar suas dúvidas. Disse que se tiverem questões não muito relacionadas à matéria do dia, mas com Ciências podem perguntar também. 61 - É uma professora que gosta de ajudar os alunos que são mais quietos e que possuem poucos amigos na sala de aula. Ela gosta de tirar suas dúvidas quando se dirigem até sua mesa, não achando eu devam perguntar em voz alta de seus lugares. Porém, em algumas vezes que isto ocorreu, ela grita com eles dizendo que isto é uma falta de respeito atrapalhar sua aula ou a apresentação dos trabalhos para tirar dúvidas individuais. Ela então diz para que eles perguntem dos seus lugares mesmo. - Durante a apresentação dos trabalhos, a professora diz para uma dupla: “Nossa, parabéns para vocês dois. Vocês me surpreenderam bastante. O trabalho e a apresentação de vocês ficou muito boa. Confesso que não esperava tudo isso de vocês não viu”. - Um aluno foi até a mesa da professora reclamar que nunca havia mudado de lugar na sala e que se sentia muito sozinho e não tinha amigos para conversar. Então, ela disse que não podia resolver nada, pois não era a responsável pela sala. Ela disse para ele procurar a professora responsável que ela então, resolveria o problema. Este mesmo aluno aproveitou para falar sobre um trabalho que ele entregou. Disse que um dos integrantes do grupo não fez nada e que ele só colocou seu nome no trabalho, pois não queria “ferrá-lo”, pois eram amigos. A professora então disse: “Você fez sua parte não fez? Você mudou bastante, é um aluno aplicado e não tem que se preocupar com ele. Ele é um aluno folgado, não caiu a ficha dele ainda e você não tem que proteger ele porque ele não fez nada afinal, no trabalho”. O aluno então pediu que a professora riscasse o nome do aluno do trabalho. - Um aluno estava atrapalhando demais a aula e a professora estava chamando sua atenção por muito tempo. Com isso, ela gritou com ele e por diversas vezes o aluno respondeu: “Sim, senhora” à ela. Com isso, a professora disse: “Você por acaso é surdo? Já não falei para você parar de falar isso pra mim e ficar quieto?”. Ela então falou mais alto com ele, ficando vermelha e completou sua fala: “Você não tem o mínimo de respeito pelos outros. Pode ir levantando e saindo da minha aula, vai para a coordenação. Tchau!”. Ele tentou ainda falar, mas a professora o interrompeu dizendo: “Não vai falar nada, agora é hora de você apenas ouvir e ficar quieto. Tchau!”. O aluno então saiu da sala de aula. 62 APÊNDICE C - OBSERVAÇÕES DAS AULAS DO PROFESSOR 2 - O professor atende todos os alunos que levantam suas mãos para tirar dúvidas, na ordem em que vão surgindo. Para uma aluna ele disse: “Se a senhorita quiser ir dormir pode sair da minha aula e ir lá para baixo”. - Chamou alguns alunos para participarem como exemplo de uma atividade para a matéria que ele estava ensinando. Ele escolheu aquele alunos que estavam com a cabeça baixa em suas carteiras, chamando-os até a frente da sala e disse: “ Vocês que estão dormindo são os que vão me ajudar. Venham aqui para a frente que vou usar vocês como exemplos para explicar a matéria de uma forma melhor”. - Professor pediu ajuda de outra aluna que não fala muito em sua aula, mas que quando diz, só reclama do professor, falando mal dele. Queria utilizá-la para outro exemplo, chamando-a até a frente da sala. Depois de voltar para seu lugar a mesma garota começou a conversar com outra aluna e dizia que não gostava do professor, que ele era um cara muito chato e que tinha odiado que ele havia chamado ela para ajudá-lo. O professor então ouviu um barulho e disse para ela: “Se a senhorita não parar de falar, vou ter que pedir para você sair da sala, e vou dar um prova surpresa para a turma e a culpa vai ser sua. Então, por favor, fique quieta”. - Em uma aula o professor pediu que alguns alunos fizessem a leitura do texto do livro, escolhendo quem seriam os alunos. Portanto, no decorrer de leitura, disse para uma aluna que ela estava lendo muito bem o texto e que não precisava passar a leitura para outro colega, desta forma não dando oportunidade para os outros. - Para os alunos mais quietos e que não falam muito durante a sua aula, o professor pede que eles levantem suas cabeças, sentem direito e prestem atenção na lousa que ele está explicando a matéria, porém existem outros que por serem mais bagunceiro e que atrapalham a aula, o professor não diz nada e eles continuam de cabeça baixa em suas carteiras. - Durante a aula o professor olhou diretamente para um aluno e disse: “Tem gente aqui que está pedindo pra sair da sala hoje né”. O aluno então percebeu que era com ele, deu risada e então o professor completou: “Não to entendendo a risada, depois vêm me pedir nota na recuperação”. 63 - O professor pede que um aluno exponha sua dúvida para a sala toda. Pede que ele vá até a frente da sala e fale em voz alta sua dúvida que é bastante pertinente para que todos os outros alunos possam ouvir. - O professor atende a todos os alunos que possuem dúvidas. Ele anda por toda a sala, interagindo e fazendo perguntas aos alunos. Muitas vezes ele chama a atenção de alguns por não estarem prestando atenção, estão falando muito ou porque estão fazendo atividade de outra matéria. - Um aluno pergunta se o professor corrigiu as provas de recuperação, dizendo que achava que foi bem. O professor, então respondeu: “Você não foi bem não, você tirou 5. Pode se preparar para ir bem no próximo trimestre”. O aluno parou de falar, abaixou a cabeça e foi sentar no seu lugar. O professor também disse a outro aluno: “Aluno x, você não vai copiar nada? Isso é matéria. Você já não fez a lição e não vai nem copiar a correção? Quero só ver na prova. A hora que você resolver fazer os exercícios na prova, você vai mal”. - O professor sempre pede para toda a sala responder quando ele faz perguntas sobre a matéria que esta explicando, mas sempre são os mesmo alunos que acabam respondendo. O professor costuma dar mais atenção para um grupo de alunos que sentam na frente. Desta forma, os alunos que sentam no fundo da classe não consegue ter sua atenção. - O professor pediu que uma aluna, que sempre fica quieta e que não fala muito, respondesse uma questão, Porém, ela não queria responder, mas insistentemente o professor pediu para ela, e então a aluna respondeu. Porém, ela não acertou a questão ficou envergonhada e depois abaixo a cabeça na carteira. - O professor adverte um aluno dizendo: “Aluno Y, você já não fez a lição que eu havia pedido, e ainda não está copiando a correção? Toma vergonha na cara, vem sentar aqui na carteira da frente e copia logo o que eu to escrevendo na lousa. Ah, e fica quieto”. - O professor procura sempre pedir que aqueles alunos mais quietos falem também e contribuam com a aula. Ele perguntou a uma aluna que senta na frente da sala, que é quieta, que não gosta de conversar com ninguém, que fica sempre escrevendo em seu caderno e envergonhada, sobre uma questão e disse: “ Aluna W, não precisa ficar sem jeito, com vergonha ou medo. É simples responder esta 64 questão, vai que eu te ajudo”. Ela fez sinal com a cabeça de que não queria responder, mas o professor aos poucos com a ajuda de alguns colegas foi dizendo para que ela respondesse que ninguém ia julgar sua resposta e que todos estavam ali para aprender. Com isso, aos poucos a aluna foi se sentindo menos envergonhada e começou a falar, respondendo a questão proposta pelo professor. - Durante a aula, o professor acabou atendendo mais um lado da sala do que do outro, tirando as dúvidas dos alunos, até que uma aluna do outro lado da sala gritou: “A gente aqui desse lado quer ter alua também, vio professor”. O professor então disse: “Ah, desculpa não reparei em vocês”. - O professor disse: “Nossa minha voz está acabando. Isso graças a Deus né. Ai eu vou embora e nunca mais vejo vocês”. Todos olharam para o professor, perguntando: “Como assim?”. Logo em seguida então ele disse: “É brincadeira gente. Vou dar aula para vocês nem que seja na base da mímica”. - Para um aluno que não parava de conversar e atrapalhar a aula , o professor disse me um tom de voz mais alto: “ Aluno C, se você quiser, pode sair da aula, já que você fica olhando toda hora para o relógio, não precisa mais olhar, aqui na escola existe um negócio chamado sinal. Se você não sabe ele avisa quando acaba a aula”. O aluno então parou de conversar e ficou quieto em sua carteira. 65 APÊNDICE D - OBSERVAÇÕES DAS AULAS DO PROFESSOR 3 - Professor interage com dois alunos, no qual conversa sobre assuntos diversos. - Professor pede um voluntário para ler uma parte do texto, na frente de toda a sala. Porém, foram os próprios colegas que escolheram a menina que iria ler o texto, fazendo com que ela lesse mesmo ela dizendo que não queria. - Professor pediu que um aluno que sempre fica quieto e não fala muito, respondesse a uma questão que ele propôs. O aluno disse que não queria pois não sabia a resposta, o professor então disse: “ Pode ir respondendo ai a questão, porque ninguém aqui sabe de tudo. Vocês estão aqui para aprender, então pode responder”. Depois de alguns segundos quieto, o aluno respondeu, e logo após o professor disse: “Tá vendo, Parabéns, você acertou a questão! Não precisa ter medo e vergonha do que vai responder. Aqui vocês vão tentando, até conseguirem”. - Interação: O professor procura fazer perguntas durante a aula para todos os alunos, porém são sempre os mesmo que acabam respondendo, fazendo com aqueles que sempre ficam quietos e não participam muito não consiga falar nada. - Alunos se sentam no chão da sala em um semicírculo, pois são poucos. Desta forma, o professor consegue olhar para todos os alunos, falar com cada um e tentar tirar as dúvidas de todos. - O professor pede que todos copiem a matéria e conforme vai escrevendo na lousa vai conversando com os alunos, porém apenas os mesmos quatro cinco alunos interagem com o professor, conversando com ele. O restante dos alunos permaneceram quietos. - O professor diz a um aluno: “Se você tivesse lido a apostila no feriado, ao invés desse livro besta ai que você está lendo, você saberia a matéria que eu estou dando”. O aluno ficou parado olhando assustado para a cara do professor e disse depois de um tempo: “Nossa “sor.”, valeu!”. Este então respondeu: “De nada, você mereceu!”. - O professor por diversas vezes somente conversa com um grupo de alunos de um lado da sala, respondendo suas dúvidas, fazendo piadas, conversando sobre 66 diversos assuntos como a família, futebol. Mas o outro lado da sala acaba não sendo atendida quando possui dúvidas e passa a ser despercebida por ele. - O professor pede para que toda a sala fique quieta, porque não aguenta mais todos falando, e diz que vai começar a falar como fala para as criancinhas do maternal: “Não pode fazer bagunça. O professor não gosta disso e se precisar ele vai levar para a coordenação”. - Um aluno pergunta para o professor: “É muita coisa que você vai passar na lousa?”. O professor responde num tom de voz mais alto: “ Não é mais e nem menos. É o necessário para o dia de hoje e o que você precisa aprender. Vocês aqui tem preguiça de tudo, precisam é estudar mais!”. - Um aluno levanta sua mão para tirar uma dúvida e mesmo o professor de costas e escrevendo na lousa, o aluno começa a falar com o professor sobre sua dúvida. Como o professor não falou nada e não deu nenhum sinal de que estava prestando atenção, o aluno levantou de sua carteira e foi até o professor na frente da sala para tirar sua dúvida. O professor então falou para o aluno: “ Não precisa vir até aqui na frente para tirar sua dúvida. Não atendo nenhum aluno aqui na frente e só respondo quando perguntam de seus lugares, então não vou responder para você também. Você sempre faz isso, precisa aprender que eu não gosto.” Então o aluno voltou para seu lugar e fez sua pergunta de lá, que então, foi respondida pela professor. - Professor faz atividades em grupos, como por exemplo: que eles respondam questões do livro, questões que ele escreve na lousa, júri para a discussão do grupos , discussão, que eles se sentem em roda cada um expondo sua opinião para que todos possam falar e conseguir olhar todos os outros alunos. - Trabalho em grupo: pede para que os alunos que sobraram se sentem com os grupos que eles queiram, mas que não atrapalhem e sim ajudem o grupo. Avisa que irá escolher um grupo para responder as questões na lousa, como se fossem dar uma aula , respondendo estão os exercícios do livro. - Professor na maioria das vezes, é recebido por diversos alunos na porta da sala de aula, cumprimentando, sempre conversando sobre diversos assuntos do cotidiano e da vida deles. - Professor pegou um chiclete do aluno, que deu risada e disse: “Você é muito legal “psor”, você deixa a gente mascar chiclete e você é “moh de boa”, a gente gosta de 67 você”. Ele então responde: “Pode mascar chiclete sem fazer barulho e sem fazer bagunça. Ah valeu, gosto de saber que meus alunos gostam de mim”. - O professor escolhe três voluntários para uma atividade fala com eles fora da sala e volta. Escolhe mais dois e pede que os outros alunos encostem as carteiras no fundo da sala e pede que todos andem até a frente da sala. Mas dois alunos ficam quietos, sentados em seus lugares, conversando entre si e dizendo: “Não quero participar dessa atividade. É muito chato. Vamos fica aqui mesmo, porque o professor nem liga pra gente, ele nem vai perceber que a gente não vai participar”. Depois de alguns minutos, o professor então pede para que eles se juntem com a turma para participarem do júri. Então eles levantam e também vão para frente da sala. - É um professor que usa muitas gírias com seus alunos e diz para os alunos que fala desse jeito, pois é uma forma de tentar se igualar à eles , mostrando que ninguém é melhor que ninguém e que por mais que sejam diferentes , são iguais também e disse que é o jeito que eles estão acostumados com o dia a dia. - Durante 3 aulas para cada turma, o professor levou a turma para a sala de vídeos, dizendo que iria passar uma coisa mais “relax” pois ele tinham tido prova, e a matéria estava certinha com seu cronograma , por isso ele não precisa apressar tudo. É nítido, como os grupinhos se sentam juntos em determinado lado da sala, deixando aqueles mais quietos que não conversam muito com os outros, sentado do outro lado e quietos, olhando para o chão o teto e até dormindo. - Duas alunas sentam juntas e distantes do restante da turma, na sala de vídeo e o professor diz: “Nossa, vocês duas podem já vir para cá sentar e ficar com todo mundo”. Elas fazem sinal de que não com a cabeça e insistentemente o professor continua chamando-as. Depois de um tempo, vendo que elas ainda não mudaram de lugar ele diz: “Ai, como você são. Vem para cá se enturmar com todo mundo, vocês são muito tímidas e só se isolam do restante da turma. Precisam se relacionar mais com os outros, porque isso prejudica a sala sabia?”. Elas então com a cabeça baixa, mudam de lugar mais permanecem quietas até o final da aula. - Professor elogia muito a resposta de um aluno, dizendo que ela está perfeita e completa e ainda completa sua fala: “Viu gente, você tem que ser igual à este aluno, 68 responder as questões certinhas. Vão com ele que vocês passam de ano. Ele então vai repetir e quem errou vai copiar no caderno o que ele disser, a resposta certa”. - Professor a pedido de dois alunos, se senta no chão da classe em roda para corrigir os exercícios que pediu como tarefa. - Professor avisa para todas as turmas que corrigiu a prova mensal, mas que está muito chateado com a maioria dos alunos, pois muitos foram mal e que ele não estava feliz com a nota deles. Com isso disse que não sabia se ia entregar a prova e disse que ia pensar e ver como ia ser o comportamento deles na aula. - Em uma das aulas de vídeo, o professor espera por 10 minutos a bagunça dos alunos parar para começar sua aula. Ele em um tom mais alto de voz, então fala para um grupo de alunos: “Dá para parar com o zoológico ai no canto da sala. Tem cavalo, veado, burro, jegue e vocês não param e ainda não responderam a chamada. Então, quer dizer que vocês não estão na minha aula, podem sair já”. Os alunos então levantam de seus lugares e vão para a coordenação. Enquanto eles saem o professor diz: “Vão indo que daqui a pouco eu também vou pra lá conversar com vocês”. Eles então saíram, e o professor disse para toda a sala: “Tá vendo, é isso que dá ser criança, não prestar atenção em nada, não respeitar o professor e achar que pode fazer tudo na minha aula. Enquanto uns não falam nada e ficam quietos, estes se exibem achando que são o máximo”. - Durante uma aula inteira, os alunos de uma turma não podiam abrir a boca para conversarem com seus colegas, somente podiam falar se tivessem alguma pergunta para fazer para o professor. Isto ocorreu pois eles fizeram um acordo com o professor na aula anterior: se o professor dançasse na frente da sala uma música que eles quisessem, os alunos deveriam fica quietos durante uma aula inteirinha , e foi o que aconteceu. - Nesta mesma aula o professor passou vistando a apostila de todos os alunos, e conforme ia olhando a apostila de cada aluno ia fazendo algum comentário. Elogiou dois alunos, pois estavam com a apostila completa e eram exemplo pra sala de aula que não fazia nada direito. Para um aluno que não tinha nada escrito na apostila, disse num tom alto de voz para todos da sala ouvirem: “Aluno X, eu não acredito que neste tempo todo você não fez nada na apostila. Você não se esforça mesmo, é um aluno que não está nem ai para nada, só quer saber de brincar, parece um 69 criancinha e que tem problema pois não consegue entender nada do que eu falo. Você pode ir para a coordenação que nós vamos conversar lá com a diretora e ver o que podemos fazer no seu caso”. Este aluno então saiu e foi para a coordenação e logo após o professor foi atrás. 70 APÊNDICE E – ENTREVISTA COM A PROFESSORA DE CIÊNCIAS Pesquisadora: Onde você se formou? Professora 1 : Na faculdade de Lins. Na Faculdade Auxilium de Filosofia Ciências e Letras, na cidade de Lins, São Paulo. Pesquisadora: Há quanto tempo você é formada e há quanto tempo dá aulas? Professora 1: Sou formada desde 1984 e dou aulas há 25 anos. Pesquisadora: Lecionar foi sua primeira opção? Professora 1 : Sim. Pesquisadora: O que você entende por salas homogêneas? Professora 1 : Homogênea é (...). O ser humano já é diferente, né. Então, existem alunos homogêneos, vamos supor assim, que em relação à aprendizagem, todos vão estar no mesmo nível de aprendizagem. Mas o comportamento é diferente. Pesquisadora: O que você entende por salas heterogêneas? Professora 1: No caso, são as aulas que possuem aqueles alunos que tem dificuldades, uns com um nível de dificuldade maior, outros com nível de dificuldade menor; o ritmo de cada um né, isso vai variando. Pesquisadora: Com qual das duas você prefere trabalhar? Professora 1 : Na verdade não tem como. Mesmo sendo homogênea, ela vai ser heterogênea. Isso porque o ser humano é diferente, então é claro que parece ser mais fácil trabalhar com a aula homogênea, mas a sala heterogênea tem o aluno que tem mais dificuldade e ele pode achar o ponto de referência naquele que tá melhor, pode colaborar. Então tem esse outro lado também. Pesquisadora: As salas desta escola são mais homogêneas ou heterogêneas? Professora 1 : Heterogêneas Pesquisadora: Quais os aspectos mais difíceis de trabalhar com estas salas heterogêneas? Professora 1 : Na verdade, eu acho que hoje é o perfil da sociedade, onde reflete na escola, os alunos tem dificuldades mesmo no relacionamento, no objetivo dele de 71 vida, então eles tão vivendo hoje, assim de uma forma, “empurrando com a barriga”, não estão vendo lá na frente, não estão conseguindo perceber né, o que ele quer pra vida dele. Então falta objetivo e eu sinto muita dificuldade de estar trabalhando esta questão, eu procuro tentar, dou bronca, às vezes converso em particular, mas assim, eu sinto essa dificuldade. Eu tô no final da carreira, mas assim, ainda acredito. É claro que quando eu era mais jovem, era mais nova, o pique era maior né. Mais eu acho que a experiência hoje é maior. Pesquisadora: Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles? Professora 1 : De todos os alunos em 50 minutos não dá né, assim, isso eu gostaria muito, mas eu ainda não consigo, porque você percebe que tem alunos que acabam falando ai o outro interrompe e aquele que ficou quietinho de repente queria fazer uma pergunta e desistiu, ou ele leva aquela dúvida pra casa e acaba não perguntando mais. E outros não né. Totalmente eu acredito que não, mas tô tentando me dedicar da forma que é possível. Pesquisadora: Imagine uma sala de aula com alunos muito diferentes um dos outros. Como o professor deveria proceder para que o processo de ensino e aprendizagem tenha sucesso? Professora 1 : Bom, eu tenho duas experiências, da escola da rede pública e da escola da rede particular. Na rede particular, a gente vê assim, ainda a gente tem um feedback, mas na rede pública, a dificuldade é muito grande né, assim, as diferenças são maiores e ai a gente acaba trabalhando a questão do comportamento, do relacionamento, pra que você consiga trabalhar essas questões das diferenças, até ele se sensibilizarem e entenderem o que ele está fazendo lá. Então, isso vai assim, muito tempo, desgaste emocional muito grande e a dificuldade que a gente tem é porque eles não tem hábitos de estudo, é não estuda mesmo, não faz a lição , não costuma a ter essa constância e criar esse hábito é uma dificuldade maior , é fazer o aluno aprender a estudar, aprender a aprender de novo. Pesquisadora: Então o professor deveria incentivar mais o estudo? Professora 1 : É. Hoje tem a informática, tem computador, tem esse lado todo da tecnologia e nós estamos com lousa, giz e as dificuldades da escola, porque tem vezes que você acaba se programando e não funciona, você se programa e nada 72 funciona. Cada dia é (...). Na hora que você vai preparar uma aula de 50 minutos, você perde 15, 20 minutos da aula por causa desta questão, então, eu também acho que isso interfere, o lado físico, o apoio e a gente também, que tem que caminhar juntos com eles. Então eu vezes que há uma distância, há dificuldade porque eles tão muito hoje na internet e tudo mais, usar essas ferramentas tem que ser a nosso favor e hoje em dia nós temos que reaprender. Temos que incentivar usando a mídia, esse é o problema que eu vejo. Pesquisadora: Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? Professora 1 : Durante todos esses anos foram várias situações, uma delas foi trabalhar com a atividade lúdica, mostra cultural. Eles começam a se destacar, de repente eles conhecem um lado do outro que tem de bom e que nem ele descobre que ele tem aquela habilidade e isso é interessante. Atividades fora da escola também né, passeios e tal, ai eles começam a ver um outro lado do professor que não é o profissional. Eles olham um outro lado da gente e a gente vê um outro lado deles também, então quando tiveram assim, ensaios na dança, relacionado a determinado assunto, falando sobre a sexualidade, mais mostrando, na época as décadas, o que acontecia, eles e a gente começamos a discutir mais, a conversar mais , uns alunos que eram mais tímidos, eles começaram a olhar esses alunos de uma outra forma. Então, isso valeu a pena, é um desgaste muito grande, por isso que tem muita gente hoje que não quer fazer isso, porque leva tempo, envolve muita gente, envolve a escola inteira né e às vezes você fica sozinho. O que eu me sinto na educação, é muito sozinha nesse apoio, tem muita gente, mas você tá sozinho. Ainda eu vejo isso, porque todo mundo quer o seu resultado, mas a escola tem alunos muito diferentes e é muito dinâmica, então naquele momento a pessoa não pode te dar apoio. Tudo isso é porque, um tem que atender um pai, atender na secretaria, ou fazer outras coisas, não tendo ninguém disponível, então acho que falta apoio humano, a parte da estrutura física e a parte humana também. 73 APÊNDICE F – ENTREVISTA COM O PROFESSOR DE QUÍMICA E FÍSICA (CIÊNCIAS) Pesquisadora: Onde você se formou? Professor 2 : Na faculdade Oswaldo Cruz. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Pesquisadora: Há quanto tempo você é formado e há quanto tempo dá aulas? Professor 2 : Eu já sou formado a 7 anos. Na verdade assim, eu sou professor de Espanhol há 13 anos e na área de Química e Física há 5 anos. Pesquisadora: Lecionar foi sua primeira opção? Professor 2 : Foi , desde o começo. Pesquisadora: O que você entende por salas homogêneas? Professor 2 : Eu acho que é aquela, na qual os alunos tem o mesmo nível de conhecimento né. Pesquisadora: O que você entende por salas heterogêneas? Professor 2 : Então, aqui no CCZ a gente trabalha um pouco com salas heterogêneas, principalmente com os casos de inclusão, que são os alunos que tem uma defasagem um pouco maior, ou algum tipo de problema de aprendizagem. Então essas salas são um pouquinho mais heterogêneas. Pesquisadora: Com qual das duas você prefere trabalhar? Professor 2 : Trabalhar com as heterogêneas eu “tô” começando agora, porque o CCZ é um colégio que aceita esse tipo de aluno. Lá no outro colégio que eu também dou aulas, por exemplo, não é. Então assim, eu “tô” começando a aprender agora como é que se faz, como é que tem que trabalhar. Pesquisadora: As salas desta escola são mais homogêneas ou heterogêneas? Pesquisadora: É, esta daqui você já respondeu. Professor 2 : É, são mais heterogêneas. Pesquisadora: Quais os aspectos mais difíceis de trabalhar as salas deste colégio? 74 Professor 2 : Olha aqui, nem é tanto a disciplina, é mais um pouco as vezes a defasagem com que os alunos vem, porque falta um assunto, falta um conhecimento prévio. Então a gente tem que tá retomando, pra que possa dar continuidade na nossa disciplina. Pesquisadora: Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles, dar atenção? Professor 2 : Eu procuro sempre detectar aqueles alunos que tem um pouco mais de dificuldade. Então, nosso trabalho tem que ser um pouquinho mais em cima deles. Porque eu acho que o aluno que é bom, que pega a matéria com facilidade, a gente não precisa ficar tanto em cima dele, insistindo. Mas ai eu procuro dar uma atenção maior, mesmo fora da aula, nos plantões, sempre peço pra que esses alunos venham a tarde pra estudar ou fazer as tarefas. É uma forma de dar um apoio maior pra eles. Pesquisadora: Imagine uma sala de aula com alunos muito diferentes um dos outros. Como o professor deveria proceder para que o processo de ensino e aprendizagem tenha sucesso? Professor 2 : Difícil essa hein? Difícil... Na verdade tem que ter um acompanhamento tanto do professor quanto do colégio, né, em relação a esses alunos. É [...], atividades. Eu tenho que fazer provas e atividades que consigam incluir a todos, então não adianta fazer prova com um nível extremamente difícil, sabendo que eu não vou atender a esses alunos. Ou então na hora da correção, você ter um olhar um pouco diferenciado pra esse aluno, porque a gente já sabe que talvez ele não renda a mesma coisa que os outros, mas na hora de corrigir uma prova eu sempre tenho um olhar diferenciado. O nono ano tem, por exemplo, um aluno, que a gente na hora de corrigir, a gente que eu digo os professores, tentam dar um olhar um pouco diferenciado pra prova dele, entendeu? E é exatamente pra esse aluno que a gente tem que fazer uma prova diferente, pra que ele passe de ano, porque a gente não pode reprovar ele. Só que ele não pode saber disso, se não ele relaxa. Então, ele se esforça como os outros. Mas isso acontece aqui no CCZ, que a gente aceita alunos dessa forma, e isso também tem que ser avisado pelos pais, quando o aluno quer entrar na escola, porque tem outros colégios aqui da região que não aceitam esse tipo de aluno, só querem que o nome da escola esteja 75 entre os 10 melhores no Enem e tenha muitos alunos passando em vestibulares bons. Ai é claro que não vão aceitar alunos com dificuldades e que tem suas diferenças. Pesquisadora: Eu até lembro em uma de suas aulas que eu assisti que você chamou os alunos e usou como moléculas. Professor 2 : Ah, eu chamo eles pra serem meus ajudantes lá na frente da sala. Eu tento sair um pouco do abstrato e deixar o assunto o mais concreto possível, né. Pesquisadora: Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? Professor 2 : Sim, acho que esse é um ponto que eu sempre faço na aula, pego os meus ajudantes. No caso de Química, as vezes eu levo pra sala o kit de moléculas pra mostrar quando eu falo de ligações. É sempre tentar trazer o assunto, pro mais concreto possível. E laboratório, às vezes eu vou pro laboratório. Só que pra você fazer a experiência você tem que ter uma teoria muito bem consolidada... Pesquisadora: É, o aluno precisa entender o que tá acontecendo, o que ele vai fazer. Professor 2: É, exatamente. E nem sempre esses alunos [...]. É que laboratório, muitos ainda pensam que é [...], vai pro laboratório pra brincar. Então nem sempre a aula de laboratório é bem sucedida 76 APÊNDICE G – ENTREVISTA COM PROFESSOR DE HISTÓRIA Pesquisadora: Onde você se formou? Professor 3: Me formei na Católica, na PUC de São Paulo. Pesquisadora: Há quanto tempo você é formado e há quanto tempo dá aulas? Professor 3: Desde 2009 e dou aulas desde 2005 Pesquisadora: Lecionar foi sua primeira opção? Professor 3: A única Pesquisadora: O que você entende por salas homogêneas? Professor 3: Nossa, boa pergunta. Sala homogênea? Pesquisadora: É Professor 3 : É de homogênea, né, de igual. Então é uma sala com alunos iguais né. Pesquisadora: O que você entende por salas heterogêneas? Professor 3: Diferentes alunos ué. Rs Pesquisadora: Com qual das duas você prefere trabalhar? Professor 3: Com as heterogêneas, com as diferenças né. Pesquisadora: As salas desta escola são mais homogêneas ou heterogêneas? Professor 3: Hum [...], são mais homogêneas eu acredito que sejam. Muito, muito, muito igual né. Pesquisadora: Quais os aspectos mais difíceis de trabalhar com salas heterogêneas? Professor 3: A forma que eles tem de lidar com as diferenças, a dificuldade é mediar esse diferença entre eles. Mediar esse conflito de diferenças entre eles na verdade Pesquisadora: E entre as homogêneas o que você acha que é mais difícil? Professor 3: O marasmo. 77 Pesquisadora: Como você lida com os diferentes alunos dentro de uma sala de aula? Você consegue atender todo mundo, responder às questões deles, dar atenção? Professor 3: Quando a sala é muito cheia não né, você não consegue, você não contempla tudo né. Você procura atender todo, mais às vezes não dá quando a sala é mais cheia. Eu prefiro sala mais tranquila né. Pesquisadora: Quando a sala é menor é melhor né Professor 3 : É, quando é menor dá pra fazer esse trabalho mais individual, mais focado. Mas a gente capta aqueles que são mais deficitários, não sei se a palavra deficitários é a mais certa, mas enfim, os que tem um pouco mais de dificuldade a gente entende como aqueles que a gente tem que ficar em cima e dar mais ênfase pra eles. Pesquisadora: Imagine uma sala de aula com alunos muito diferentes um dos outros. Como o professor deveria proceder para que o processo de ensino e aprendizagem tenha sucesso? Professor 3: É uma boa pergunta, repete de novo. Pesquisadora repetiu mais uma vez a pergunta. Professor 3: Mais uma difícil [...] Ah, mediar os conflitos dessas diferenças e tentar não naturalizar essas diferenças, mas fazer com que eles compreendam que o diferente também faz parte. Pesquisadora: Você já teve alguma atividade bem sucedida que integrou toda a sala, procurando minimizar essas diferenças entre eles? Professor 3: Já. Pesquisadora: Qual que foi? Professor 3: Ah, alguns debates, juris né. A gente propõe para que eles debatam sobre essas diferenças. Pesquisadora: Ah, aquela vez que você fez o júri com eles na aula. Professor 3 : É, o da Idade Média. Ali você vê muito as diferenças aparecendo né, porque eles tem que lidar com várias coisas. 78 ANEXO A – CARTA DE INFORMAÇÃO À INSTITUIÇÃO Esta pesquisa tem como intuito analisar as ações dos professores diante das salas heterogêneas do Ensino Fundamental II Para tanto, realizaremos observações em sala de aula, juntamente com uma entrevista com o docente que será gravada, ao final desta atividade. Para tal solicitamos a autorização desta instituição para a triagem de colaboradores, e para a aplicação de nossos instrumentos de coleta de dados; o material e o contato interpessoal oferecerão riscos mínimos aos colaboradores e à instituição. As pessoas não serão obrigadas a participar da pesquisa, podendo desistir a qualquer momento. Todos os assuntos abordados serão utilizados sem a identificação dos colaboradores e instituições envolvidas. Quaisquer dúvidas que existirem agora ou a qualquer momento poderão ser esclarecidas, bastando entrar em contato pelo telefone abaixo mencionado. De acordo com estes termos, favor assinar abaixo. Uma cópia deste documento ficará com a instituição e outra com os pesquisadores. Obrigado. Juliana C. Donadon Débora Rodrigues Moura Nome e assinatura do pesquisador Instituição: Universidade Presbiteriana Mackenzie Telefone para contato: (11) 9264-9124 Nome e assinatura do orientador 79 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pelo presente instrumento que atende às exigências legais, o(a) senhor (a) ____________________________________, representante da instituição, após a leitura da Carta de Informação à Instituição, ciente dos procedimentos propostos, não restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e do explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de concordância quanto à realização da pesquisa. Fica claro que a instituição, através de seu representante legal, pode, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa e fica ciente que todo trabalho realizado torna-se informação confidencial, guardada por força do sigilo profissional. São Paulo,....... de ..............................de.................. _________________________________________ Assinatura do representante da instituição 80 ANEXO B – CARTA DE INFORMAÇÃO AO SUJEITO Esta pesquisa tem como intuito analisar as ações dos professores diante das salas heterogêneas do Ensino Fundamental II. Para tanto, realizaremos observações em sala de aula, juntamente com uma entrevista com o docente que será gravada, ao final desta atividade. Para tal solicitamos sua autorização para a realização dos procedimentos previstos. O contato interpessoal e a realização dos procedimentos oferecem riscos físicos e/ou psicológicos mínimos aos participantes. As pessoas não serão obrigadas a participar da pesquisa, podendo desistir a qualquer momento. Em eventual situação de desconforto, sofrimento ou prejuízo, os participantes poderão cessar sua colaboração sem consequências negativas. Todos os assuntos abordados serão utilizados sem a identificação dos participantes e instituições envolvidas. Quaisquer dúvidas que existirem agora ou a qualquer momento poderão ser esclarecidas, bastando entrar em contato pelo telefone abaixo mencionado. Ressaltamos que se trata de pesquisa com finalidade acadêmica, referida ao TCC, que os resultados da mesma serão divulgados neste trabalho acadêmico, obedecendo ao sigilo, sendo alterados quaisquer dados que possibilitem a identificação de participantes, instituições ou locais que permitam identificação. De acordo com estes termos, favor assinar abaixo. Uma cópia deste documento ficará com o participante da pesquisa e outra com o(s) pesquisador (es). Obrigado. Juliana C. Donadon Débora Rodrigues Moura Nome e assinatura do pesquisador Instituição: Universidade Presbiteriana Mackenzie Telefone para contato : (11) 9264-9124 Nome e assinatura do orientador 81 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pelo presente instrumento que atende às exigências legais, o(a) senhor (a) ____________________________________, representante da instituição, após a leitura da Carta de Informação à Instituição, ciente dos procedimentos propostos, não restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e do explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de concordância quanto à realização da pesquisa. Autorizo a entrevista gravada □ sim □ não Fica claro que a instituição, através de seu representante legal, pode, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa e fica ciente que todo trabalho realizado tornase informação confidencial, guardada por força do sigilo profissional. São Paulo,....... de ..............................de.................. Assinatura do sujeito 82 ANEXO C – PROJETO SUBMETIDO Á COMISSÃO DE ÉTICA