PARA ALÉM DAS SALAS DE AULA: VIVÊNCIAS EM UM INTERNATO
MASCULINO NAS MEMÓRIAS DE EDUCANDOS E EDUCADORES1
Rita de Cássia de Souza
Departamento de Educação – Universidade Federal de Viçosa – UFV
E-mail: [email protected]
Palavras-chave: internato – Colégio de Viçosa – memórias
INTRODUÇÃO
A principal metodologia para este estudo foi a história oral, pois foram encontrados
pouquíssimos documentos sobre o Colégio de Viçosa. De acordo com José Dionísio Ladeira,
com o fechamento do Colégio: “lançaram ao lixo até quadros de formatura com fotos de tanta
gente que ali fizera história” (DR. JANUÁRIO, 19/08/2000, s.p.).
Lidar com a história oral consiste em trabalhar com memórias, e estas, por sua vez,
lidam com reconstruções, no presente, de fatos vivenciados no passado. Isto implica, portanto,
em considerar lacunas, reelaborações e ressignificações.
Realizamos uma história oral temática, investigando a vinculação dos sujeitos
pesquisados com o internato do Colégio de Viçosa. “Dado seu caráter específico, a história
oral temática tem características bem diferentes da história oral de vida. Detalhes da história
pessoal do narrador apenas interessam na medida em que revelam aspectos úteis à informação
temática central.” (MEIHY, 1996, p.41). A análise das entrevistas e das memórias escritas
pelos participantes buscou localizar as respostas aos questionamentos sobre o internato no
Colégio, seus sujeitos e suas histórias.
As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à
universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre
determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o
necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem
os utiliza. (CHARTIER, 1990, p.17)
Cada sujeito, cada história, cada memória compõem partes desta tessitura e não se
trata de evitar as rupturas, as sobreposições e as contradições. Pelo contrário, trata-se de lidar
com estas, de compreendê-las como uma complexa trama de histórias que não tem uma única
1
Esta pesquisa foi realizada com a colaboração da bolsista de iniciação científica Elisabet Maria Pereira Silva
que recebeu uma bolsa FUNARBIC-UFV no período de março de 2011 a fevereiro de 2012.
perspectiva. A riqueza da história oral consiste em lidar com o múltiplo, o silêncio, a falta, a
incerteza, o humano que faz parte de cada história.
A memória constitui a identidade tanto individual quanto coletiva. E, no caso do
Colégio de Viçosa, fica clara a importância da instituição para a formação de uma elite
intelectual que se expandiu para muito além das fronteiras do município. Maria Cecília C.C.
de Souza (2000) aponta que estudar a escola consiste em identificar seus feitos e desfeitos,
suas conquistas e fracassos. A escola não é um prédio, é uma instituição e, como tal, os
principais arquivos de sua trajetória não são os documentos, os papéis, regulamentos,
contratos e dados burocráticos. Seus arquivos são humanos, como humanos são aqueles que a
construíram e se construíram neste local.
Assim, a escolarização compreende o que a escola quis fazer e o que ela
produziu de fato, e isso inclui aquilo que escapou largamente do seu
controle.
Dessa maneira, é preciso incorporar à análise histórica (bem como à análise
sociológica e psicológica) a idéia de que para compreender o que a escolar
realizou em seu passado (ou realiza na atualidade), não é suficiente estudar
idéias, discursos, programas, papéis sociais nela desempenhados, suas
práticas e métodos de trabalho; torna-se necessário também tentar
compreender a maneira com que professores e alunos reconstruíram sua
experiência, como constituíram relações, estratégias, significações por meio
das quais construíram a si próprios como sujeitos históricos. Para isso, é
preciso que a história da educação inclua o ponto de vista desses agentes,
além de outros, como pais e administradores, e não somente o ponto de
vista do discurso emanado das esferas mais altas do poder institucional.
(SOUZA, 2000, p.52)
Uma instituição escolar não é importante apenas para aqueles que são ou foram
vinculados formalmente a ela. Sua história entrecruza-se com a história da cidade, dos bairros,
dos eventos e está entrelaçada a muitas outras pessoas, contextos, lugares e situações.
Portanto, é uma história múltipla, entrecortada, que envolve contradições, parcialidades e
incertezas. Esta pesquisa pretende trazer à tona algumas destas histórias, conhecer melhor os
processos educativos formais e informais que ocorreram no internato do Colégio de Viçosa e
as vivências daqueles que lá estudaram e trabalharam.
O COLÉGIO DE VIÇOSA E ALGUMAS MEMÓRIAS DE SEU INTERNATO
O Colégio de Viçosa recebia estudantes do Brasil inteiro, especialmente do interior da
Bahia e do Espírito Santo e até do Rio Grande do Sul. Muitos destes estudantes dividiam
casas na cidade, chamadas “repúblicas”, outros moravam na casa de parentes e amigos ou em
pensões e quartos alugados, mas havia também a possibilidade de os estudantes do sexo
masculino ficarem em regime de internato. Não sabemos a data em que o Colégio passou a
oferecer internato ou se, desde o princípio, o oferecia, já que não foram encontrados
documentos da origem do estabelecimento, que se deu em 1913. A partir de 1955, o Colégio
passou a receber alunas, mas somente no regime de externato. O fechamento do Colégio
ocorreu em 1986 por questões internas (como a morte de diretores) e dificuldades
econômicas.
Foram entrevistadas, ao todo, 23 pessoas, sendo 4 funcionários, 4 professores, 4
alunos que se tornaram professores e 11 alunos. Deste grupo de 15 alunos, 4 são do sexo
masculino e, destes, 2 foram internos. Na rede de relacionamentos Orkut, encontramos a
comunidade Estudei no Colégio de Viçosa criada em 16 de dezembro de 2007 e solicitamos a
alguns membros que escrevessem suas experiências no Colégio. Recebemos 15 respostas, de
6 homens (2 internos) e 9 mulheres. Do total de entrevistados, portanto, temos 4 internos
participantes desta pesquisa.
De acordo com um interno, Frederico José Vieira Passos 2, o Colégio possuía um
alojamento médio e dois alojamentos pequenos e a distribuição dos estudantes se dava,
principalmente, em função da idade e do comportamento. Ele contou que, ao chegar como
interno, teve que comprar um colchão de capim, mandar fazer um armário numa carpintaria e
colocar cadeado para guardar seus pertences e contratar uma pessoa na cidade para lavar e
passar suas roupas.
Quanto à rotina dos internos, tocava-se uma sirene e todos tomavam café da manhã às
seis e meia da manhã. Normalmente não havia lugares marcados nas mesas e os grupos de
amigos ficavam pertos uns dos outros e se mantinham em pé até receber um sinal para se
sentar e tomar café. Depois do café, havia quinze minutos de descanso. Então, os alunos iam
para a sala de aula – se estudassem no período matutino ou para a sala de estudo – se tivessem
aulas à tarde. Nesta sala, cada um tinha sua carteira e estudava pela manhã – ou pela tarde com um intervalo de quinze minutos. Quando a sirene indicava a hora do almoço, novamente,
no refeitório, todos ficavam perto da mesa, em pé, até o sinal para sentar, se servir e almoçar.
Depois do almoço, tinha um intervalo até as duas horas da tarde. Neste momento, o grupo que
tinha tido aulas pela manhã ia para a sala de estudo e os demais iam para as salas de aula.
2
Os participantes citados neste artigo nos autorizaram a citar suas entrevistas com seus nomes verdadeiros.
Embora não fossem internos, João Carlos Cardoso Galvão e Roberto Fontes Araújo
disseram que os internos, ao finalizar as aulas desciam correndo e empurrando os demais para
chegar primeiro no banho, porque, no Colégio, a água era fria, mas quem chegava mais cedo,
pegava a água ainda aquecida, e quanto mais tempo demorava, mais fria ela ia ficando. “Para
falar a verdade, parecia uma manada, uma boiada. Abria a porteira, eles desciam, mas eles
desciam empurrando uns ao outros. Que doideira, meu Deus!” Eles se lembraram também de
um surto de piolho entre os internos e o Colégio mandou raspar a cabeça dos estudantes.
No entanto, Frederico Passos informou que, depois das aulas, os internos podiam
praticar algum esporte e, segundo ele, normalmente jogavam bola para esquentar, para
conseguir tomar banho frio. O Colégio autorizava a compra de um chuveiro elétrico. Depois
de um tempo, ele e um grupo de cinco amigos compraram e o instalaram, trancando o
interruptor com um cadeado para que só eles tivessem água quente. “Então eu não via lógica
porque o chuveiro não era tão caro, e a energia elétrica o Colégio pagava, então porque eles
permitiam se eles pagavam a conta maior? Provavelmente até na época a conta de eletricidade
não fosse tão grande, por isso que eles permitiam” (PASSOS, Frederico Vieira, entrevista,
2011).
Depois do banho, os internos jantavam, descansavam um pouco e iam estudar de novo
até o horário de dormir. Às vezes, à noite, o interno podia pedir autorização para estudar numa
sala de aula, podia dizer que queria estudar em grupo, que tinha que conversar e eles os
autorizavam a sair ir para uma sala do colégio.
Havia uma sala de televisão e os internos podiam assistir TV no intervalo do almoço
ou em outro intervalo livre. Chegada a hora de dormir não se podia fazer outra coisa. Havia
também uma sala de fumo e os alunos que tinham uma autorização escrita dos pais podiam
fumar, mas somente dentro da sala e nos momentos de intervalo.
De acordo com Frederico Vieira Passos: “o café da manhã era sempre igual, mingau
de fubá bem ralo, uma xícara de café com leite e um pão com manteiga”. Ele engordou dez
quilos em um ano de internato, pois comprava, junto com alguns amigos, leite em pó, aveia,
farinha láctea e se sentavam juntos à mesa e só comiam estes produtos. “Hoje em dia, se eu
olhar isso, até eu nem consigo comer, mas eu misturava no mingau e fazia uma pasta e comia.
A gente achava gostoso, gostoso demais na época”. No almoço, segundo ele, em 99% dos
dias, eram servidos arroz, feijão, tomate, alface e um bife de carne moída. E tinha uma
sobremesa, às vezes, um pedaço de goiabada. Nas mesas dos alunos ficava a comida e os
pratos e talheres para se servirem. Isso sempre causava problemas, porque a mesa tinha dez
alunos e dez bifes de tamanhos diferentes. Alguns alunos chegavam a cuspir nos bifes para
marcá-los e outros, ainda assim, pegavam os bifes. “Porque o aluno não podia colocar o bife
no prato dele. Tinha que ficar em pé e só podia sentar quando seu Zé mandava. Aí, na hora de
sentar, é que o aluno pegava o bife. E tinha gente que não ligava, podia marcar o bife, o outro
ia lá furava o bife e trazia para o prato dele. Ninguém podia falar nada.” Segundo Frederico,
não adiantava reclamar e o aluno ficava mal visto. Então os internos só reclamavam se fosse
alguma coisa séria e o Colégio tomava providências rapidamente. “Tinha uma coisa que
acontecia muito. Ás vezes, os pais mandavam um doce e alguém arrombava o armário do
outro e pegava tudo. Nessas horas tinha que avisar. O roubo tinha que ser avisado
imediatamente. O Colégio investigava até achar e era difícil não achar. Às vezes não achava
mais o produto, mas achava quem fez a coisa e a pessoa ficava de castigo.”
Nos finais de semana, durante o dia, os internos podiam ter alguma aula ou iam para a
sala de estudo, praticavam algum esporte e, à tarde, ficavam livres. Todos podiam sair aos
sábados e domingos, a menos que tivessem algum problema de comportamento. Ás quintasfeiras à noite, saiam os internos que estivessem no quadro de honra por ter boas notas e bom
comportamento. Às quintas-feiras, depois do café à noite, colocavam no quadro quem podia
sair e o mesmo acontecia nos finais de semana.
De acordo com Frederico Passos, as meninas de Viçosa só saiam três vezes na semana,
coincidentemente os mesmos dias em que os internos do Colégio podiam ir à rua. Nestas
saídas, eles iam visitar conhecidos, ir ao cinema ou rodar na Praça da Igreja Santa Rita:
“...todo mundo rodava na praça. As pessoas de uma determinada classe rodavam na rua. As
mulheres rodavam para um lado e os homens para o outro e, quando tinha namorada e
encontrava o casal, este rodava junto com as mulheres”. Havia também outras divisões na
praça: moça “de programa” ficava dentro da praça e as moças “de família” ficavam na rua.
“Tinha essa divisão muita clara, se você estivesse dentro da praça, todo mundo sabia que
estava procurando alguma coisa diferente. Claro que era pouca gente, mas tinha, dentro da
praça.” (PASSOS, Frederico Vieira, entrevista, 2011).
Havia, na cidade, naquela época, três cinemas: Odeon, Marajá e Palace.
Obrigatoriamente, ia um regente para cada cinema. Ao final do filme, este regente ia andando
devagar até o Colégio de Viçosa e tinha que ser a última pessoa a chegar. Todos os que
chegassem depois dele, estavam atrasados. Os internos podiam ir a outros lugares, mas
também tinham o fim da sessão de cinema como prazo limite para a chegada ao Colégio,
normalmente por volta de dez e meia da noite. Quem chegasse depois, tinha o nome anotado e
ia, certamente, ter problema para sair por várias semanas. Se algum interno não chegasse,
automaticamente o diretor era avisado e começava a procurar. Em um caso relatado por
Frederico Passos, houve uma briga e um interno foi preso e, na mesma hora avisavam o Dr.
Januário (diretor do Colégio e advogado) que foi liberá-lo.
Frederico Vieira Passos contou que, no ano que foi interno, teve aluno que foi expulso,
ele acha que, em um dos casos, era por que um aluno maior tinha brigado e batido em alguém
menor. Ele comentou também que, como os alunos do Colégio faziam muito sucesso com as
meninas de Viçosa, havia rivalidade de alguns rapazes com estes alunos: “ por causa disso
sempre teve muita briga de menino de Viçosa com interno, isso era uma coisa normal, ter
brigas”. Segundo ele, o número de meninas era menor que o de meninos na cidade. Alguns já
eram conhecidos por suas brigas e, entre os internos, os mais fortes protegiam os mais fracos.
As brigas aconteciam fora do Colégio porque:
Todo mundo tinha muito medo do Dr. Januário, mas também gostava dele
porque sabia que ele protegia os internos. Se alguma coisa acontecia na rua
com a gente, ele tomava providências. Dr. Januário já saiu da casa dele de
pijama, meia noite ... uma hora da manhã, pra soltar interno da cadeia. Ele
chegava na cadeia e falava assim: “solta meu filho agora”. O delegado não
pensava nem duas vezes. O soldado já sabia, não precisava nem ligar para o
delegado. Dr. Januário chegou lá ... soltava na mesma hora. Então todo
mundo sabia disso, mas ao mesmo tempo todo mundo tinha medo, porque
sabia que ele tratava a gente igual a filho mesmo. E se fosse o caso ele batia
né? No meu ano de interno, ele nunca bateu em ninguém, mas em anos
anteriores, eu sei de caso de baiano da minha cidade, que ele bateu na cara.
Batia mesmo, do mesmo jeito alisava, mas todo mundo respeitava ele.
(PASSOS, Frederico Vieira, entrevista, 2011)
Segundo João Carlos Cardoso Galvão e Roberto Fontes Araújo, as meninas entravam
por uma porta no Colégio e, na outra, entravam os meninos. Eles contaram também que os
pátios eram separados, homens de um lado e mulheres do outro e que alguns meninos subiam
no sótão pelo telhado do Colégio para ver as meninas jogando vôlei, treinando.
Os regentes eram estudantes mais velhos e comportados que auxiliavam no controle
dos alunos, especialmente os internos. Frederico Passos acha que eles não ganhavam nada,
simplesmente o prestígio do cargo: os alunos os obedeciam e eles tomavam conta destes.
Normalmente, em todos os dormitórios tinha um regente, que apagava e acendia a luz e
vigiava o comportamento dos demais. João Carlos Cardoso Galvão e Roberto Fontes Araújo
falaram da relação dos internos com os regentes: “normalmente era um cara bem disciplinador
e os alunos, às vezes não aceitavam muito porque eles entregavam tudo, e tinham que
entregar, porque eram de confiança do seu Zé [Prof. José Henrique] e tinha umas confusões
boas lá”.
Frederico deixou o internato no 2º ano “por ter muita regra, muito horário”. Mesmo
assim, ele ressalta que:
O internato era uma grande oportunidade de estudar, pela fama do Colégio
de Viçosa e pelo preço. Eu pagava para ser interno e estudar, o mesmo preço
que pagaria só para estudar em Ilhéus. E também havia a confiança dos pais,
pois ele não viria para o Colégio se não fosse o internato, porque no
internato tinha fama de ter disciplina. Normalmente as pessoas vinham com
muita tranquilidade, sabiam que poderiam ser bem cuidadas, sabiam que
tinham pessoas muito respeitadas olhando, tomando conta de manhã, de
tarde e de noite... Não era uma coisa de qualquer jeito. (PASSOS, Frederico
José Vieira, entrevista, 2011).
Para o Prof. José Henrique, regente de disciplina no Colégio:
A disciplina era aquela de seminário. Tinha hora para tudo: hora para tomar
café, para dormir, para levantar, hora para o esporte, que era das três até as
quatro e meia da tarde. Cinco era o banho e o jantar. Seis horas iam para o
estudo até nove horas e iam dormir. Tudo em fila. (RODRIGUES, José
Henrique, entrevista, 2011)
Sobre a religiosidade no Colégio, os alunos informaram que não era algo muito
exigido. Frederico Vieira Passos não se lembrava bem, mas achava que eles rezavam antes
das refeições. Algumas pessoas lembraram que, aos domingos, havia missa no Salão Nobre
do Colégio, mas os alunos não eram obrigados a participar.
Em relação aos castigos na escola, o Prof. José Henrique informou que os alunos
externos que cometessem indisciplinas podiam sofrer advertência, ter que voltar para estudar
na escola à tarde, ou ter seus pais avisados de seu comportamento. Em relação aos internos,
ele mostrou um caderno chamado “Hora da Verdade” em que constavam os nomes dos alunos
impedidos de sair que era apresentado ao porteiro do Colégio. Infelizmente, ele não anotava
no caderno os motivos pelos quais os alunos não podiam sair, embora houvesse muitos nomes
e alguns bastante repetidos.
Wilton Salgado contou que alguns alunos que queriam “matar aula”, subiam no
telhado do Colégio para se esconder, mas o Prof. José Henrique já conhecia esta estratégia e
pegava os alunos no forro do telhado e o castigo aplicado era ficar na sala de estudo além do
horário de aulas: “tinha que ficar na sala estudando, escrevendo...” O próprio Prof. José
Henrique comentou que alguns internos diziam que estavam doentes para evitar ir às aulas e
poderem dormir um pouco mais. No entanto, ele dizia que iria lhes aplicar uma injeção e os
alunos “curavam-se rapidinho”.
Segundo João Carlos Cardoso Galvão e Roberto Fontes Araújo, era comuns os pais
enviarem:
... meninos problemáticos [para o Colégio]. Aqueles que tomavam bomba,
direto. Muitas vezes o castigo deles era vir para Viçosa e ser internado no
Colégio Viçosa. Os pais sabiam que tinha uma disciplina muito boa e
confiavam que eles iam melhorar e realmente melhoravam. Lá eles
passavam pela Universidade [...] para esse pessoal que vieram de fora que
foi internato no Colégio foi uma coisa muito importante na vida deles. [...]
Era um regime militar, duro mesmo.| Mesmo assim, alguns internos
desafiavam o Prof. José Henrique. Era o perfil que tinha de alguns
estudantes. (GALVÃO, João Carlos Cardoso e ARAÚJO, Roberto Fontes,
entrevista 2011)
Estes dois alunos se lembraram também de outras indisciplinas cometidas pelos
estudantes: escrever bilhetinho com palavrão, desrespeitar a hora de saída chegando tarde.
Tinha uns internos lá que eram impossíveis. Avacalhavam as aulas das
mulheres, por exemplo. Tinha professoras, Dona Tide e Teresinha Mucci e
João Luís Tubarão que, às vezes, não conseguiam dar aula. Estes alunos já
eram irresponsáveis quando vieram para cá, tinham um certo problema. [...]
Tinha que ser uma disciplina rígida mesmo, não tinha a palmatória, mas
tinha enfrentamento mesmo. Professor naquela época tinha autoridade para
bater no aluno, mas geralmente os indisciplinados ficavam presos, não
podiam sair. A grande maioria dos alunos respeitava, mas tinha uns
impossíveis. Naquela época, o professor podia quebrar uma régua nas costas
do aluno, e se o aluno chegasse em casa e contasse aquilo que aconteceu, a
mãe ia contra o aluno, apanhava de novo. Tinha que respeitar mesmo, por
isso que dava aquela confusão toda. Uma vez, um aluno escreveu um
palavrão num papel de chiclete, jogou e caiu na Teresinha Mucci. Ela abriu
aquele papelzinho e leu o nome do palavrão e chamou o professor Zé
Henrique. Ele botou todo mundo preso no Colégio até quase uma hora da
tarde, porque ele tinha que identificar qual era a pessoa. Cheirou a boca de
todo mundo que tinha chiclete. No final das contas, o menino ficou tão
apertado, menino não, na época deles era um rapaz [...] seu Zé Henrique foi
apertando até que ele chorou e confessou que era ele e tomou os castigos
dele lá. Mas assim foi uma pressão danada. Eles com fome e não tinha
celular para avisar a mãe que estavam presos no Colégio. Chegavam em casa
e tinham que falar com a mãe o que tinha acontecido. (GALVÃO, João
Carlos Cardoso e ARAÚJO, Roberto Fontes, entrevista 2011)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os relatos coletados revelam os dilemas e desafios da vida coletiva, com adolescentes
e jovens com hábitos, culturas e valores diferentes. Rapazes distantes de suas famílias,
convivendo meses e meses com pessoas que nunca viram antes, compartilhando quartos,
refeições, todo o cotidiano de um internato. Obviamente, havia tentativas de burlar as regras,
de fazer coisas inusitadas, engraçadas, divertir-se dentro do Colégio. E, da parte dos
funcionários e professores, havia a responsabilidade de manter tantos jovens com segurança e
conseguindo cumprir a meta para a qual aqui chegaram, aprender e se desenvolverem como
alunos e cidadãos. As famílias confiavam ao Colégio seus filhos, seu dinheiro, suas
esperanças de um futuro melhor, algumas vezes, como disseram os entrevistados, para
aqueles jovens insubordinados e de difícil relacionamento. Certamente, as vivências no
internato foram, para muitos estudantes, tão ou mais importantes que sua formação nas salas
de aula, onde compartilharam as experiências de boa parte de sua adolescência e juventude,
marcando, de forma indelével, o caminho destes sujeitos, suas lembranças, seus valores, seus
princípios e sua formação identitária e cidadã.
ENTREVISTAS
ARAÚJO, Eduardo Fontes. Viçosa, 26 de agosto de 2011. 1 gravação (14 min. 40 s.).
Entrevista concedida a Elizabet Maria Pereira Silva.
PASSOS, Frederico José Vieira. Viçosa, 15 de abril de 2011. 1 gravação (1h. 44 min. 5 s.).
Entrevista concedida a Rita de Cássia de Souza e Elizabet Maria Pereira Silva.
GALVÃO, João Carlos Cardoso ARAÚJO, Roberto Fontes. Viçosa, 05 de setembro de 2011.
1 gravação (53 min. 54 s.). Entrevista concedida a Elizabet Maria Pereira Silva.
RODRIGUES, José Henrique. Viçosa, 19 de abril de 2011. 1 gravação (1h. 44 min. 5 s.).
Entrevista concedida a Elizabet Maria Pereira Silva.
SALGADO, Wilton Valério Santana. Viçosa, 24 de agosto de 2011. 1 gravação (16 min. 57
s.). Entrevista concedida a Elizabet Maria Pereira Silva.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁRICAS & FONTES CONSULTADAS
DR. JANUÁRIO. Folha da Mata, Viçosa, 19 de agosto de 2000. Ano XXXVII, n° 1643, p. 2
e 3.
VIÇOSA sepultou seu mestre. Folha da Mata, Viçosa, 19 de agosto de 2000. Ano XXXVII,
n° 1643, p. 1.
BENS Tombados. Disponível em:
http://www.vicosa.mg.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=50&Itemid=
60. Acesso em: 04 de novembro de 2010
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.
239p.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Loyola, 1996. 78p.
NOGUEIRA, Heloísa Maria de; BATISTA, João; CANGUSSU, Reginaldo Fernandes (org.).
Professor Lopes: uma lição de vida. Uberada: CF Artes Gráficas, 1999.
ORKUT. Estudei no Colégio de Viçosa. Disponível em:
http://www.orkut.com.br/Main#UniversalSearch?origin=box&q=col%C3%A9gio+viC3%A7
osa. Acesso em: 11 de agosto de 2010
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos. Rio de Janeiro, v.2,
n. 3, p. 3-15, 1989.
SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano e. A escola e a memória. Bragança Paulista: IFANCDAPH, Ed. da Universidade São Francisco, 2000, 196p.
THOMPSON, Paul. A voz do passado. 2ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998
Download

PARA ALEM DAS SALAS DE AULA