COMUNIDADE DA PEDRA DO SAL: CONTANDO HISTORIAS, RELEMBRANDO
MEMÓRIAS NAS RODAS GRIÔS
Luciano Silva Galeno
Graduado em Turismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI); É Coordenador do Projeto
Memória e Contação de Historia na comunidade de Pedra do Sal, no município de Parnaíba,
Piauí (2014). É Coordenador do projeto Roda Griô nos estados do Piauí, Ceará e Maranhão
(2014); Sócio da ONG Comissão Ilha Ativa (CIA, Brasil).
Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar pesquisa, cujo foco central foi resgatar as historia e
memórias dos moradores da comunidade de Pedra do Sal, em Parnaíba. Como método de coleta usouse a contação de historias, especificamente com a realização de rodas Griôs e entrevistas com os
moradores. Os resultados apresentam uma diversidade de historias e memórias contadas por esses
comunitários que firmam sua identidade local.
Palavras-Chave: Roda Griò. Memoria. Comunidade de Pedra do Sal
PEDA DO SAL COMMUNITY: TELLING STORIES, REMEBERING MEMORIES
IN GRIOTS
Abstract: This article aims to present the research whose central focus was to rescue the history and
memories of the residents of Pedra do Sal community, in Parnaíba. As a method for the data collection
we used the story-telling, specifically with Griots, and interviews with the residents. The results
present a diversity of stories and memories recounted by those who state their local identity.
Keywords: Griots. Memory. Pedra do Sal community.
Introdução
Este artigo mostra a importância da valorização da memória local como forma de
contribuir para que o saber tradicional seja mantido e transmitido para as futuras gerações. E
mais, através dessa memória, compreender as relações existentes entre homem/homem e
homem/natureza para assim, subsidiar futuras ações que vislumbrem a conservação das
características tradicionais locais, sejam elas socioambientais ou culturais.
Assim, se para Certeau (2000), os saberes tradicionais se constroem e se reconstroem
todos os dias, por pessoas comuns, pelas narrativas de homens simples, os quais detêm a
história individual ou coletiva do espaço onde criam e recriam sua identidade.
Nesse sentido, com vistas a contribuir para valorização, manutenção e transmissão da
tradição local, a Comissão Ilha Ativa- CIA, instituição criada em 21 de abril de 2006, com a
missão de propor, coordenar, organizar e executar ações que fomentem a melhoria das
condições sociais, econômicas, culturais e ambientais das populações locais, a partir da
participação destes como protagonistas das suas histórias criou o Projeto Memória e Contação
de História na comunidade da Pedra do Sal, financiando pela Superintendência de Cultura de
Parnaíba (CIA, 2012).
A comunidade da Pedra do Sal está localizada no município de Parnaíba. Antiga e vila
formada por pescadores. Os dados da comunidade não são precisos, assim, não se tem o
número de habitantes na localidade, mas há uma estimativa que existam 1.588 moradores,
segundo a presidente da Associação dos Moradores e Pescadores da comunidade de Pedra do
Sal (CIA, 2012). Essa comunidade possui um modo de vida peculiar que busca se perpetuar
mesmo diante dos efeitos da globalização, que ao passo que aproxima os povos tende a
distanciá-los de sua própria identidade.
Além do potencial cultural que a comunidade apresenta, se destaca também pelo seu
potencial natural que, apesar da pouca infraestrutura básica e de apoio ao turismo, é relevante
pela singularidade de suas paisagens, como a praia conhecida como Pedra do Sal, divida em
dois lados por um bloco de grandes rochas, onde o primeiro é caracterizado por sua mansidão
enquanto o segundo se apresenta mais bravio sendo este propício a prática de esportes
radicais.
Assim, diante das potencialidades mostradas, é importante destacar que tão relevante
quanto o seu patrimônio tangível é o seu patrimônio intangível, ou seja, aquele que não se
pode tocar, pois se trata de acontecimentos do cotidianodos moradores, que embora sejam
vistos como simples rotina é, todavia, os saberes e fazeres que levaram a construção da
história local.
No entanto, essa história construída e contada por homens comuns normalmente não
está registrada em documentos que a comprovem, mas está guardada na memória individual
ou coletiva de seu povo. Assim, a memória que, apriori, figurava um fenômeno individual,
algo relativamente intimo, próprio da pessoa, é visto por Maurice Halbwachs, nos anos 2030,como algo que deve ser entendido como coletivo e social (POLLAK, 1992).
Nesse sentido, este artigo apoiou-se na História Oral como método, uma vez que os
depoimentos são considerados a centralidade dessa pesquisa e é por essa razão que a HO se
caracteriza, aqui, como um método, pois segundo Meihy (2002, p. 44) “para serem garantidas
como método, as entrevistas precisam ser ressaltadas como o nervo da pesquisa”. Assim, o
desenvolvimento desta pesquisa ainda fez uso de técnicas de contação de historias e a
utilização da metodologia das rodas griôs. A formação em roda é a base metodológica das
práticas da pedagogia griô e implica em uma estrutura devidamente planejada na produção de
sentidos, na medida em que um imaginário é construído a partir do cultivo da forma circular
em artefatos, discursos e vivências proporcionadas nos encontros que foram realizadas na
comunidade de Pedra do Sal.
Dessa forma, a história oral e as rodas, além de contribuir para o resgate do “velho”
como elemento valorizado socialmente em seu grupo, contribuindo para a coletivização da
memória, favorecendo a produção de memórias familiares e comunitárias (DELGADO,
2006). Assim, resgatou-se esse velho e ao mesmo tempo o novo, denominados no Projeto
como tesouros vividos no tempo.
As narrativas foram coletadas durante seis visitas realizadas na comunidade,
denominadas Rodas Griôs com os moradores da comunidade de Pedra do Sal. Essas Rodas
Griôs apoiam que estes saberes devem ser dialogados e apresentados para a coletividade em
uma grande roda da vida e das memórias, onde todos aprendem contando, brincando e
cantando as tradições socioculturais. Assim, é possível abranger todos os aspectos de forma
lúdica e fundada nas tradições orais das raízes de um povo (PACHECO, 2006).
Em segundo momento, foram realizadas entrevistas individuais com os moradores,
denominados também pelo Projeto por Guardiões das Memórias da Pedra do Sal, que foram
identificados durante as realizações das Rodas Griôs. Dessa forma, foram totalizados 18
entrevistados, e 111 histórias levantas, tanto nas rodas griôs como nas entrevistas realizadas
no primeiro semestre de 2014.
Assim, as narrativas depois de transcritas foram sistematizadas a fim de serem
publicadas no segundo semestre de 2014, em um livro que contará a memória dessa
comunidade, razão essa pela qual esse artigo apresenta apenas parte desse material.
Comunidade de Pedra do Sal: a história coletada
Os relatos sobre a comunidade da Pedra do Sal foram sistematizados de forma que
tratassem da ocupação e formação da comunidade, bem como as transformações
socioculturais e ambientais ocorridos na localidade ao longo de sua história.
As histórias foram coletadas em entrevistas com alguns moradores que participaram das
rodas de Griôs, que neste artigo terão seus nomes preservados, assim como os personagens
citados nas narrativas. Assim, as histórias contemplam ainda relatos das vivências e do
imaginário individual e coletivo que retratam mitos, lendas e acontecimentos marcantes para a
comunidade da Pedra do Sal. Destarte, essas narrativas trazem a tona momentos e
personagens fundamentais para a história local, como o relato de uma moradora que contou
sobre a contribuição dos quilombolas no processo de formação da comunidade: Segundo o
relato dessa moradora:
Meus avôs já contaram, que a primeira família a existir na Pedra do Sal, quando eles
chegaram aqui, era da dona Elisa. Inclusive, ela é descendente de Quilombo, de
escravos, onde aqui na Pedra do Sal, ancoravam barcos que transportavam escravos,
traziam e levavam escravos, e ela foi umas das pessoas que ficaram. Na família do
meu marido também, tinha uma tia deles, que eles falavam que até [...] que pra pegar
ela ficava brava no mato, com medo da repressão nesse tempo, e que ela foi pega a
facão, porque as pessoas conseguiram encontrar ela no mato, e as pessoas gritavam
pra pegar ela, aí foram amansando ela, aí tem essa história que meu avô contava.
(Narrador 1).
Segundo os moradores quando perguntados sobre as terras e sobre a disputa entre os
moradores e ditos “donos por direito”. Um dos moradores fala o seguinte:
Naquele nosso tempo, era como o povo, assim como se diz, abestado, que não
passava nada de pai pra filho, porque o avô do meu pai tinha um terreno e eu só vim
saber disso [...] depois de muito tempo. A família “X”chegaram, tomaram de conta
dos terrenos. Naquela época, o povo era tudo abestado, mas aqui acolá, apareciam
uma gente de fora, sabido, que tomavam. Podiam até tomar as casas da gente. O pai
do “Dr. Y”, tomou uns terrenos do avô do meu pai. Meu pai dizia que ele era da
Pedra do Sal, dos moradores mais antigos que o avô dele tinha um terreno por ali.
Quando eu me entendi, a Pedra do Sal, já era desse jeito. (Narrador 2).
Neste mesmo sentindo outro morador contou que:
[...] Meu pai antes me contava uma historia desta família “X”, que quando chegaram
aqui,[...] já existiam gente aqui. Ele dizia assim, meu filho quando o “Z” velho,
chegou aqui ele vinha multado no cavalo, chegava e amarrava o cavalo de baixo da
latada do Coringa, que é era uma bodega que tinha aqui. Ai ganhava a praia
passeando, olhando as pedras e tudo, ai, dai por diante que foi que ele começou.
Naquele tempo todo mundo era neutro (passivo) não sabiam de nada e ele como já
tinha terreno fora é tal, disse vou ficar com esse terreno aqui, ai pegou escreveu,
sabia de tudo que ate hoje em dia eles dizem que Pedra do Sal e deles, mas antes
deles chegarem aqui já tinha gente aqui, morador e tudo. Foi uma coisa tal banal
que eles querem toma ate a praia, a praia é da marinha ate tantos quilômetros, e vem
vindo de lá pra cá ate agora ta em confusão as terras. (Narrador 3).
As duas histórias contadas mostram que mesmo antes da família “X”, dita dona da terra,
chegar à comunidade de Pedra do Sal, já residia ali alguns moradores que já haviam se
estabelecido na localidade. No entanto, essa mesma história é reafirmada coletivamente no
momento em que outros moradores tratam sobre a “tomada” das terras pela família “X”. Para
outro morador já existiam algumas famílias ali quando os “X” chegaram à comunidade e
confirma:
Eu lembro bem que as famílias aqui eram muito poucas, aqui tinha três famílias:
Família Bernadinho, Família João Severo e a família Carraca, antes tinham outras
essas outras eu pouco alcancem tinha o Zé Grosso, tinha um Vidal, tinha Zé de
Brito. Isso foi, as conversas que meu pai já me contava quando ele chegou aqui, já
tinha esse pessoal, tem ate uns cascalhos que eles acharam ele deixaram os nomes
deles cascalhos Vidal, pedras do Vidal, pedras novas, as pedras do Zé de Brito.
(Narrador 4).
No entanto, essa parte da história é desconhecida pela maioria da população, que ao
desconhecerem sobre sua própria origem ultimam pela passividade diante das ações externas.
Diante disso, “a história oral responde à necessidade de preenchimento de espaços capazes de
dar sentido a uma cultura explicativa dos atos sociais vistos pelas pessoas que herdam os
dilemas e as benesses da vida no presente [...]” (MEIHY, 2002, p. 20).
Destarte, direcionado para o campo das transformações ocorridas na comunidade, ao
longo desse processo de formação identitária e comunitária, outro morador retrata que:
Antigamente as pessoas iam pra praia caminhando, passavam um mês de férias,
chegavam nas casinhas, armavam uma rede, ou deitavam na tucum, armavam a rede
dia primeiro e ali ficava naquela rede, até o dia derradeiro do mês. Iam embora e
deixavam tudo direitinho, hoje em dia nós não podemos fazer isso na Pedra do Sal.
Pedra do Sal tá grande, aumentou muito, graças a Deus. É bom porque tem muita
gente, mas não é só o povo da Pedra do Sal, tem pessoas de fora [...]. (Narrador 2).
Nesta historia é possível verificar que as transformações são inevitáveis e confirmar que
a identidade local não é algo cristalizado uma vez que esta vem sendo formada e transformada
diariamente. No entanto, as transformações também ocorreram no campo ambiental, e
evidentemente, contribuiu para as transformações sociais e do modo de vida tradicional como
contou uma moradora ao narrar sobre a sua infância na localidade:
Eu nasci e me criei na pedra do sal mais precisamente ali onde tem o maior coqueiro
da Pedra do Sal. Tive uma infância simples muito pobre, mas a gente era feliz, meu
pai era comprador de peixee de todo tipo de coisa e a gente vivia de pegar fruta no
mato caju, murici, guajiru, não tinha agua encanada a gente pegava agua de cacimba
mesmo, o verão ia chegando e nós furamos mais o buraco. Também não tínhamos
energia, era a base da lamparina. Quando foi feito a estrada foi muito bom, hoje o
pessoal está derrubando muito cajueiro é o pessoal da usina e, a gente nem liga mais.
Quando foi construir a estrada daqui ia muita gente ver a maquina virar os cajueiros
mais com a pista veio o progresso, ai veio a energia o carro veio, porque antes a
gente andava no lombo do animal de madrugada por um lugar que chamávamos de
Pinico Quebrado, parava lá pra atravessa o alagado, pra ir a Parnaíba. Nós sabíamos
as horas pelo Moraes quando ele apitava a gente saía de madrugada no lombo de
animal e as maiores iam com os mais idosos acompanhados contando histórias de
assombração, ai pessoas ficavam com medo, e ninguém queria ir atrás todo mundo
queria ir na frente, porque tinha historias do lobisomem, do gritador. (Narrador 5)
Nesse relato, três pontos se apresentam pela sua importância. Primeiro, ao traçar sobre o
modo de vida na infância, a narradora mostra que apesar das dificuldades sociais passadas, os
moradores tinham qualidade de vida ao se considerarem felizes. E ainda, a narradora fala
sobre o progresso e a transformação causada na localidade como o desmatamento o que traz
uma reflexão sobre as conseqüências de atividades não planejadas que visam o acúmulo de
riquezas em detrimentos das características ambientais e socioculturais locais. Por fim, ela
coloca personagens que mexem com o imaginário das pessoas, são histórias de assombração
que provocam medo nos moradores, o mesmo medo provocado pelos personagens reais, os
“donos das terras”.
Considerações finais
Como já mencionado, este artigo apresentou parte de uma pesquisa de resgate das
histórias e memórias dos moradores da comunidade da Pedra do sal. Assim, diante deste
levantamento foi possível conhecer a potencialidade sociocultural e ambiental desta
comunidade, alguns conflitos fundiários. No entanto, pode-se observar a necessidade de se
trabalhar ações voltadas à valorização e manutenção dessas características, uma vez que há
uma distância entre a comunidade atual e a sua própria história.
E assim, percebeu-se que a realização das rodas Griôs ao dar a voz ao homem comum
proporcionou aos moradores a oportunidade de contar e ouvir sobre suas origens. Assim
sendo, a história da Ilha comunidade da Pedra do sal, traz fatos e experiências importantes que
devem ser conservados tanto para que as gerações futuras tenham acesso e dêem continuidade
como para futuras ações que visem auxiliar na conservação e manutenção de seus aspectos
culturais e socioambientais.
Referencias
CAMPOS. Helena de Freitas. Psicologia social comunitária. Petrópolis. Vozes, 1996.
CIA. COMISSÃO ILHA ATIVA. Projeto Memoria e Contação de História em Pedra do Sal,
Parnaíba, Piaui. 2012. Documento.
DELGADO. Lucilia de Almeida Neves. Historia oral: memórias, tempo, identidade. Belo Horizonte.
Autêntica, 2006.
DIEGUES, A. C. A etnoconservação da natureza. In: Diegues, A.C. (Org.). Etnoconservação: Novos
rumos para a conservação da Natureza.São Paulo: HUCITEC/NUPAUB-USP, 2000.
PACHECO, Lillian. Pedagogia Griô: a reinvenção da roda da vida. 2ed, Grãos de Luz e Griô,
Lençóis/ BA, 2006.
POLLAK. Michael. Memórias e Identidade Social. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro. Vol. 5. N
10, 1992. P. 200-212.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. 4. ed.reimp. São Paulo: Edições Loyola,
2002.
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