EXISTE ISOMORFISMO EM PERIÓDICOS CONTÁBEIS ACADÊMICOS
BRASILEIROS?
Autoria: Ricardo Lopes Cardoso, Vinicius Pimentel de Freitas, Geraldo Sant'Anna Nunes, Ricardo Gus Maltz,
Marcus Vinicius Pereira Silva, Paulo Ratinecas
Resumo
Com o objetivo de se estudar o paradigma da pesquisa acadêmica brasileira em
Contabilidade, foram analisados os artigos publicados entre 1989-2007 na Revista
Contabilidade & Finanças, antigo Caderno de Estudos FIPECAFI, editado pela
EAC/FEA/USP. Os artigos foram classificados quanto à área temática: Contabilidade
Financeira (Societária) e não-financeira; os primeiros foram, ainda, classificados segundo a
perspectiva de pesquisa em positivos-descritivos ou normativos-prescritivos. Esta pesquisa é
descritiva quanto aos fins e bibliográfica quanto aos meios. Foram testadas as hipóteses de
que a publicação de artigos sobre Contabilidade Financeira é significativamente maior que a
publicação de artigos sobre outros ramos do conhecimento em Contabilidade, e de que a
publicação de artigos alinhados à perspectiva Positiva de pesquisa em Contabilidade
Financeira é significativamente maior que a publicação de artigos alinhados à perspectiva
Normativa de pesquisa nessa área do conhecimento. Os resultados encontrados sugerem que,
ainda que não se evidencie isomorfismo no sentido de concentração em temas da
contabilidade financeira, houve um deslocamento no paradigma da pesquisa brasileira em
contabilidade no sentido da perspectiva Positiva.
1 INTRODUÇÃO
Qual é o paradigma da pesquisa brasileira em Contabilidade? Os artigos publicados
em revistas brasileiras voltadas para a Ciência Contábil apresentam uma variedade de
enfoques, ou estão concentrados em poucos tipos?
A presente pesquisa tem por objetivo responder em parte estas perguntas, partindo da
análise dos artigos publicados entre 1989 e 2007 na Revista Contabilidade & Finanças (RCF)i,
uma publicação do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP).
Esta pesquisa foi motivada pelos achados do artigo de Brad Tuttle e Jesse Dillard
(2007), “Beyond Competition: Institutional Isomorphism in U.S. Accounting Research”,
publicado na Accounting Horizons, que analisa a produção acadêmica estadunidense desde a
década de 20 do século passado. A RCF é consideravelmente mais nova, sendo uma
continuação do Caderno de Estudos, publicado pela FIPECAFI-FEA/USP desde 1989.
Oliveira (2002) estudou os periódicos brasileiros de contabilidade, chegando à
conclusão que houve um crescimento acelerado no número destes periódicos na década de 90
do século passado, e que a maioria dos periódicos está vinculada a instituições de ensino
superior que mantêm cursos de pós-graduação. Segundo esta autora, trata-se de uma
conseqüência da maior cobrança da produção científica iniciada na década de 90.
Outra motivação para o desenvolvimento desta pesquisa é o pressuposto que de seria
interesse de todos (acadêmicos e profissionais do mercado) a construção do conhecimento
acadêmico não como um fim em si mesmo, mas evitando-se o que Hopwood (2007, p. 1370)
comenta ao criticar o estado da arte da pesquisa na área de administração e contabilidade:
“enquanto a administração é interessante, muitas escolas de administração são extremamente
entediantes!ii”. Na pesquisa acadêmica em geral, e na pesquisa em contabilidade, em
particular, o conhecimento pode ser construído com vistas a ser aplicado na prática; isto é,
desenvolver idéias que auxiliem os administradores a realmente obter melhores resultados em
suas empresas e os investidores em suas decisões, bem como auxiliar os reguladores,
auditores e os intermediários da informação contábiliii a resolverem os problemas que
encontram no exercício de suas atividades profissionais, ou seja, a comunidade acadêmica
deveria buscar o equilíbrio entre o rigor acadêmico e a relevância social de pesquisas
(FARIA, 2007).
Bennis e O’Toole (2005, p. 65) advertem que o sistema acadêmico americano – e esta
realidade com certeza também se aplica ao brasileiro – gera pressão no sentido de que se
publique sobre temas que são do interesse principalmente de outros acadêmicos, mas não do
interesse dos praticantes. Ou, como diz Hopwood (2007, p. 1371), “está se tornando cada vez
mais claro que os consumidores da pesquisa em contabilidade são praticamente apenas outros
colegas pesquisadores em contabilidade”iv. Bennis e O’Toole (2005, p. 69) sugerem uma
questão interessante a ser investigada entre líderes empresariais: “Poderiam começar por um
exemplar de uma publicação de negócios de elite e se perguntar se os artigos dela dizem algo
que seus gerentes precisam ouvir”.
Tuttle e Dillard (2007) fazem uma ampla discussão da Teoria Institucional aplicada à
pesquisa acadêmica em contabilidade, afirmando que os campos organizacionais seguem um
caminho evolucionário que parte da diversidade e segue na direção da homogeneidade, sendo
este processo conceituado de isomorfismo. Seu artigo aponta uma convergência sistemática e
praticamente monotônica nos temas dos artigos publicados nos periódicos especializados em
contabilidade dos Estados Unidos no sentido de cobrirem apenas tópicos financeiros, em
detrimento de outros tópicos de interesse desta área.
Como exemplo, durante os primeiros 50 anos cobertos pela pesquisa (1926 a 1976), a
freqüência dos artigos dedicados a outros temas (não-Contabilidade Financeira) publicados na
revista The Accounting Review, agrupados por década, variaram entre 61,7% e 83%, ao passo
que nos 30 anos seguintes (1976 a 2006), essa freqüência baixou significativamente, variando
entre 55,8% e 33,3% – o nível em 2006 (TUTTLE e DILLARD, 2007, p. 396).
Na próxima seção discutimos alguns tópicos relativos à pesquisa positiva em
contabilidade e conceitos de isomorfismo. A seguir, narramos o método utilizado na pesquisa,
os motivos que levaram à sua delimitação, e realizamos uma classificação dos artigos
publicados na RCF e na Contexto entre os anos de 2001 e 2007.
Após a análise dos artigos publicados nestas revistas, concluímos que, ao contrário do
observado na pesquisa acadêmica estadunidense em Contabilidade, na publicação brasileira
analisada a maioria dos artigos (63 %) aborda assuntos não-financeiros, com tendência a
aumentar esta predominância. Dentre os que tratam de assuntos financeiros, existe
predominância dos que são de natureza positivo-descritiva (60%), ainda que a totalidade dos
artigos publicados até 1997 fossem de natureza normativo-prescritiva.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E DESENVOLVIMENTO DAS HIPÓTESES
O conceito que melhor capta a homogeneização, conforme Dimaggio e Powell (2005,
p. 76) é o isomorfismo, um processo de restrição que leva um indivíduo de uma determinada
população a se tornar cada vez mais semelhante aos demais indivíduos que vivem as mesmas
condições ambientais. A partir deste conceito, Tuttle e Dillard (2007, p. 390) afirmam que os
campos organizacionaisv seguem um caminho evolutivo que vai da diversidade para a
homogeneidade.
Tuttle e Dillard (2007, p. 390) prosseguem, identificando dois tipos gerais de
isomorfismo: competitivo, associado à competição livre e aberta, e institucional, que evolui
naturalmente de forças competitivas:
1
“Quando múltiplos agentes se envolvem em competição livre e aberta [...], a
competição de mercado e medidas de ajuste econômico prevalecem. Entretanto,
quando uma ou mais entidades ou grupos ganham vantagem através de quaisquer
meios e começam a acumular recursos e poder, [...] as forças de mercado podem não
mais ser dominantes [... e] forças dentro do campo organizacional criam pressão
para que se adotem comportamentos similares aos das ‘entidades de sucesso’.”vi
Campos organizacionais altamente institucionalizados, tais como o formado pelos
pesquisadores acadêmicos, criam conformidade com normas (isomorfismo institucional) de
três maneiras: proximidade a membros influentes, incerteza percebida ou desenvolvimento de
redes sociais. Tuttle e Dillard (2007, p. 392) afirmam que estas características descrevem a
pesquisa acadêmica em contabilidade e que, portanto, entender o isomorfismo institucional é
de extrema importância para esta pesquisa.
Dimaggio e Powell (2005, p.76) dividem, para fins didáticos, o isomorfismo
institucional em três categorias ideais, que somente podem ser separadas analiticamente:
coercitivo, que deriva de influências políticas e do problema da legitimedade; mimético, que
resulta de respostas padronizadas a situações de incerteza; e, finalmente, normativo, associado
a profissionalização. Tuttle e Dillard (2007, p. 392) propõem que, ainda que todos os três
tipos possam operar simultaneamente, e que isto geralmente ocorre, o isomorfismo normativo
atualmente domina a pesquisa acadêmica em contabilidade; propõem, também, que a redução
de artigos de natureza não financeira na publicação da Associação Americana de
Contabilidade reflete os efeitos do isomorfismo institucional.
A Contabilidade é a ciência social que abriga várias taxonomias, aqui abrigadas em
dois grandes grupos: financeiras e não financeiras. Importante é conceituá-las, não sem antes
definir que objetivo geral da Contabilidade é medir qualitativa e quantitativamente os vários
aspectos do patrimônio de quaisquer entidades. Segundo Szuster et.al (2007, p15) “A
Contabilidade é a ciência social que tem por objetivo medir, para poder INFORMAR, os
aspectos quantitativos e qualitativos do patrimônio de quaisquer entidades. Sua estrutura
conceitual está fundamentada nos postulados, princípios e convenções.”
A Contabilidade Societária/Financeira ou Externa retrata os recursos financeiros,
obrigações e atividades da entidade legal. As informações geradas terão como destino
credores e investidores, os quais devem decidir onde melhor alocar seus recursos, porém
executivos, empregados da empresa, acionistas e outros externos à organização irão se
beneficiar das informações para decisões de qualquer natureza.
A Contabilidade Gerencial ou Interna retrata as informações (financeiras e não
financeiras) que têm como destino os tomadores de decisão, pessoas internas à organização e
responsáveis por sua gestão. As informações que emanam desta taxionomia irão cunhar o
planejamento da organização e avaliarão seu desempenho, constituindo a base para todos os
tipos de decisões gerenciais.
A Contabilidade Fiscal – ou tributária – tem como principal objetivo e campo de
atuação gerar as informações ao órgão tributante - Governo, e tem nos fiscos, nas diversas
esferas constitucionais, o seu destino. Muito embora o cliente esteja claramente caracterizado
como externo, as informações geradas servirão de base para o planejamento tributário da
organização.
Entre as taxionomias, cabe ainda mencionar a Contabilidade Pública e a Contabilidade
de Custos, esta última uma área intermediária entre a Contabilidade Financeira e a Gerencial e
cujo conhecimento gerado permite mensurar o resultado, o patrimônio e auxiliar o gestor em
suas decisões. Segundo Cardoso, Mário e Aquino (2007, p. 3), “o estudo da Contabilidade de
2
Custos, um ramo do conhecimento contábil gerencial, destina-se a mensurar os custos dos
produtos, tanto na forma de bens materiais, quanto na forma de serviços”. Já a Contabilidade
Pública trata do registro e controle das informações especificamente formatadas segundo os
ditames da Administração Pública, podendo, como tal, ser pensada como uma espécie do
gênero Contabilidade Externa, do qual a Societária seria uma outra espécie.
Tal qual Tuttle e Dillard (2007), estamos interessados em investigar se há isomorfismo
institucional (editorial dos melhores periódicos nacionais em Contabilidade) visando a
produção acadêmica para a Contabilidade Societária (ou Financeira) em detrimento dos outros
ramos do conhecimento contábil. Portanto a primeira hipótese de pesquisa é:
H1 – a publicação de artigos sobre Contabilidade Societária (Financeira) é
significativamente maior que a publicação de artigos sobre outros ramos do
conhecimento em Contabilidade.
Para Cardoso e Aquino (2006) a construção de teorias repousa em uma abordagem
positiva; sob este enfoque, antes do que uma “Teoria da Contabilidade”, uma “Teoria para a
Contabilidade” é o que se acredita que deva ser a intenção dessa área do conhecimento.
A pesquisa positiva em contabilidade, ou a construção de uma Positive Accounting
Theory (PAT), termo sugerido por Watts e Zimmerman, em 1986, no livro que leva esse
nome, dedica-se a explicar as práticas contábeis, ou seja, os fenômenos da contabilidade.
Distancia-se de uma abordagem normativa, prescritiva, e adota uma abordagem positiva.
Empírica, segundo proposto pelos autores, apesar de existirem controvérsias a respeito da
necessidade de uma pesquisa positiva ser quantitativa. Pode ser dada a impressão da
necessidade de ser empírico-quantitativa pelo direcionamento dado pelo livro de Watts e
Zimmerman (1986), mas, metodologicamente, uma abordagem empírico-qualitativa também
responde a uma pesquisa positiva.
Como diz Laughlin (2007, p. 273), a PAT trocou a pergunta dos pesquisadores em
contabilidade de “Quais devem ser as práticas contábeis?” para “O quê são práticas
contábeis?”; para Watts e Zimmerman, a teoria da contabilidade não era prover uma
superestrutura normativa, posição dominante dos maiores teóricos da contabilidade até aquela
época.
Laughlin (2007, p. 273), alinhando-se com pesquisadores como R. R. Sterling, critica
a PAT, propondo o que chamou de “middle range thinking” (MRT), uma “nova” abordagem
de pesquisa em Ciências Sociais, posicionada, segundo o autor, entre uma perspectiva
positivista, baseada em Auguste Comte, e uma perspectiva interpretativa, baseada em
Immanuel Kant e Stanley Fish. O MRT assume um discurso de análise crítica, baseado em
Immanuel Kant e Georg Hegel. A posição de Laughlin é alinhada ao pensamento de Karl
Popper, pois ele se propõe a “deixar claro, com mais de um olho nas assertivas da PAT, que
existem múltiplas aproximações para a pesquisa, não apenas uma, e que nenhuma
aproximação pode alegar descobrir a verdade absoluta, [...] e que toda a compreensão é
inevitavelmente parcial.”vii
Em seu comentário final, Laughlin (2007, p. 287) afirma: “a última coisa que
queremos é a uniformidade do tipo da PAT”, portanto, declarando-se contrário ao
isomorfismo identificado por Tuttle e Dillard (2007).
Iudícibus, Martins e Carvalho (2005, p. 15-16) ressaltam que “as abordagens
normativa e prescritiva contêm tal densidade e abrangência que, efetivamente, ganham o
status de teorias” e diferenciam uma da outra, pois enquanto a teoria normativa, de forma
3
preferencial utiliza o método dedutivo, faz hipóteses e deriva prescrições de como a
contabilidade deveria proceder para maximizar a utilidade das informações produzidas pela
contabilidade, a teoria positiva procura entender o mundo contábil “como ele é, porque é
assim e não como deveria ser”. Estes autores também comentam que se nota no Brasil a
tendência do incremento de pesquisas que utilizam metodologias empíricas (positivas),
contrastando com a predominância de trabalhos descritivos que existia.
Martins (2005, p. 3) salienta que a corrente mais antiga da contabilidade está
fundamentada no normativismo contábil. Esta abordagem tem por base a lógica dedutiva,
calçada na definição prévia de uma Estrutura Conceitual Básica da Contabilidade, com seus
conceitos fundamentais (princípios, entidade, regime de competência etc.), nas características
qualitativas das informações contábeis a serem observadas (essência sobre a forma,
oportunidade, neutralidade etc.) e nas definições dos elementos básicos patrimoniais e suas
mutações (ativo, passivo, receita, despesa etc.). A linha positivista, de origem principalmente
nos Estados Unidos, surgiu no início dos anos 70, e pouco se preocupa com uma estrutura
básica definida, ou em considerar algo previamente próprio ou impróprio, mas pesquisa o que
de fato ocorre na prática. Verifica se um procedimento contábil implica em alguma alteração
relevante no valor das ações de empresas e, a partir daí, deduz a sua relevância, sem qualificála de acordo com sua base teórico-conceitual. A segunda hipótese de pesquisa é formulada
com base nesse argumento:
H2 – a publicação de artigos alinhados à perspectiva Positiva de pesquisa em
Contabilidade Societária (Financeira) é significativamente maior que a publicação de
artigos alinhados à perspectiva Normativa de pesquisa nessa área do conhecimento.
3 METODOLOGIA E DELIMITAÇÃO DA PESQUISA
Tomando como base a taxionomia apresentada por Vergara (2007, p.46) esta é uma
pesquisa descritiva quanto aos fins e bibliográfica quanto aos meios. Descritiva porque
descreve a linha de pesquisa conduzida pela comunidade acadêmica brasileira (aqui medida
pela Revista Contabilidade e Finanças), e bibliográfica, pois revisou artigos publicados em
um dos mais respeitados periódicos brasileiros dedicados à pesquisa em contabilidade. O
universo da pesquisa foram os artigos publicados na Revista Contabilidade & Finanças
(RCF), uma publicação Atuária da FEA/USP. O período das publicações dos artigos
analisados cobriu 1989 a 2007 no periódico da USP.
Os artigos foram classificados em temas sobre contabilidade societária ou financeira –
definidos aqui como financeiros – e em temas acerca de outros ramos da contabilidade,
denominados não-financeiros. Adicionalmente, os artigos classificados como sendo da
contabilidade financeira ou societária foram divididos quanto à abordagem de pesquisa
empregada, cuja taxionomia foi definida como pesquisa positivo-descritiva ou pesquisa
normativo-prescritiva.
A partir desta metodologia foram gerados os dados necessários para a avaliação
histórica das linhas de pesquisa, tendo-se utilizado tratamento de regressão linear simples, no
intuito de verificar as tendências dos pesquisadores brasileiros, em especial, na avaliação do
nível de isomorfismo dos periódicos acadêmicos nacionais.
4
4 ANÁLISE DOS ARTIGOS
Foram analisados 344 artigos, que apresentaram a distribuição exposta na Tabela 1.
ANO
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
Total
Não-Financeiros
2
2
2
8
4
5
2
3
7
16
7
6
13
20
23
28
19
29
23
219
Financeiro Financeiro e Positivo Financeiro e Normativo
2
0
2
2
0
2
2
0
2
5
0
5
4
0
4
3
0
3
2
0
2
4
0
4
4
2
2
3
2
1
7
7
0
1
1
0
9
5
4
10
7
3
16
14
2
13
10
3
8
2
6
20
14
6
10
10
0
125
74
51
Tabela 1 - Freqüência absoluta dos tipos de arquivo
Conforme expresso em nossa primeira hipótese de pesquisa, pensávamos que, a
exemplo da pesquisa de Tuttle e Dillard (2007), seria possível se observar no periódico
analisados uma tendência de isomorfismo ao longo dos últimos anos, ocorrendo uma
publicação de artigos sobre Contabilidade Societária (Financeira) significativamente maior
que a publicação de artigos sobre outros ramos do conhecimento em Contabilidade.
A análise dos tipos de artigo nas duas publicações escolhidas não comprovou esta
tendência, como se pode ver na Figura 1 e na Tabela 2, pois em média, desde o início da
publicação, 63,7 % dos trabalhos enfocam aspectos fora do âmbito da Contabilidade
societária.
5
100%
90%
80%
Financeiro
70%
60%
Não‐
Financeiros
50%
40%
30%
20%
10%
2007
2006
2005
2004
2003
2002
2001
2000
1999
1998
1997
1996
1995
1994
1993
1992
1991
1990
1989
0%
Figura 1 - Divisão entre artigos financeiros e não financeiros
ANO
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
Total
Não-Financeiro
Financeiro
Positivo-Descritivo
Normativo-Prescritivo
50,0%
50,0%
0,0%
100,0%
50,0%
50,0%
0,0%
100,0%
50,0%
50,0%
0,0%
100,0%
61,5%
38,5%
0,0%
100,0%
50,0%
50,0%
0,0%
100,0%
62,5%
37,5%
0,0%
100,0%
50,0%
50,0%
0,0%
100,0%
42,9%
57,1%
0,0%
100,0%
63,6%
36,4%
50,0%
50,0%
84,2%
15,8%
66,7%
33,3%
50,0%
50,0%
100,0%
0,0%
85,7%
14,3%
100,0%
0,0%
59,1%
40,9%
55,6%
44,4%
66,7%
33,3%
70,0%
30,0%
59,0%
41,0%
87,5%
12,5%
68,3%
31,7%
76,9%
23,1%
70,4%
29,6%
25,0%
75,0%
59,2%
40,8%
70,0%
30,0%
69,7%
30,3%
100,0%
0,0%
63,7%
36,3%
59,2%
40,8%
Tabela 2 - Freqüência relativa dos tipos de arquivo
A regressão linear para a freqüência absoluta dos artigos de natureza não-financeira
em relação ano forneceu os seguintes resultados com nível de significância 0,95: R² = 0,25; F
= 5,7 e coeficiente positivo para a variável dependente. Estes valores apontam que existe uma
indicação, ainda que fraca, de que a tendência para os próximos anos é de que aumente o
percentual deste tipo de pesquisa, pois a reta interpolada apresenta inclinação crescente.
Apesar deste não ser um resultado estatisticamente robusto, é consistente com a disposição
dos pontos do gráfico exibido na Figura 1.
Ainda com relação à primeira hipótese de pesquisa, o teste não-paramétrico MannWhitney de diferença de médias, corroborando as evidências já observadas, sugere que não há
diferença na freqüência de artigos que abordam a temática da Contabilidade Financeira em
relação às outras temáticas, conforme a tabela 3.
6
Tabela 3 – Teste não-paramétrico de diferença de médias: Contabilidade Financeira
versus outros ramos (período 1989-2007)
N
Mediana
Ponto estimado para ETA1-ETA2
Significãncia a 95,1% para ETA1-ETA2
W
p-value
p-value ajustado
1989-2007
Cont.Financeira
Não-Financeira
19
19
4
7
3,0000
(-0,999; 9,998)
420,0
0,1526
0,1501
Ao se perceber, na tabela 2, que a freqüência de artigos em Contabilidade Financeira
sofre redução acentuada a partir de 1998, segregou-se a amostra em dois recortes temporais:
1989-1996 e 1997-2007. Com isso, identificou-se que no período mais remoto (1989-1996)
não há diferença significativa entre os dois grupos de artigos. Entretanto, no período mais
recente (1997-2007), há diferença e, contrariando os achados de Tuttle e Dillard (2007), na
RCF, diferentemente da The Accounting Review, no período mais recente há maior incidência
de artigos voltados a outros ramos do conhecimento em contabilidade que a Contabilidade
Financeira. A tabela 4 evidencia os resultados do teste Mann-Whitney para esses dois recortes
temporais.
Tabela 4 – Teste não-paramétrico de diferença de médias: Contabilidade Financeira
versus outros ramos (dois recortes temporais: 1989-1996 e 1997-2007)
N
Mediana
Ponto estimado para ETA1-ETA2
Significãncia a 95,1% para ETA1-ETA2
W
p-value
p-value ajustado
1989-1996
Cont.Financeira
Não-Financeira
8
8
2,5
2,5
0,0000
(-1,999; 2,001)
70,0
0,8748
0,8657
1997-2007
Cont.Financeira Não-Financeira
11
11
9
19
9,0000
(-0,000; 15,000)
158,5
0,0386
0,0381
Nossa segunda hipótese de pesquisa era de que a publicação de artigos alinhados à
perspectiva Positiva de pesquisa em Contabilidade Societária (Financeira) é
significativamente maior que a publicação de artigos alinhados à perspectiva Normativa de
pesquisa nessa área do conhecimento.
Os dados da Tabela 2 demonstram dois comportamentos radicalmente diferentes: até
1996, 100 % dos trabalhos eram normativos, e de 1997 em diante, com exceção do ano de
2005, pelo menos 50 % eram da perspectiva Positiva, sendo estes últimos 100 % das
publicações nos anos de 1999, 2000 e 2007. A figura 2 mostra graficamente esta divisão entre
artigos de naturezas positiva e normativa, dentre aqueles que são de natureza financeira.
Confirma-se, assim, a segunda hipótese de pesquisa, tomados em conta os últimos
onze anos da produção publicada no periódico analisado, conforme evidenciado na Tabela 5.
Tabela 5 – Teste não-paramétrico de diferença de médias: pesquisa positiva versus
pesquisa normativa em Contabilidade Financeira (1997-2007)
7
1997-2007
Cont.Financeira e Pesq. Positiva Cont.Financeira e Pesq. Normativa
11
11
7
2
4,0000
(0,002; 8,002)
159,5
0,0328
0,0314
N
Mediana
Ponto estimado para ETA1-ETA2
Significãncia a 95,1% para ETA1-ETA2
W
p-value
p-value ajustado
Observe que não há necessidade de se fazer qualquer teste nesse sentido para o
período 1989-1996, uma vez que não fora publicado um artigo sequer na RCF que seguisse a
perspectiva positivo-descritivo.
Este resultado de certa forma contraria a afirmativa de Iudícibus, Martins e Carvalho
(2005), de que somente se começa a notar uma tendência do incremento de pesquisas que
utilizam metodologias empíricas, pois evidenciam uma predominância destas pesquisas; notese, entretanto, que esta afirmação é contextualizada de forma diferente da tratada no presente
artigo, pois fala do número de “pesquisas, trabalhos e dissertações e teses”, não apenas do
número de artigos em revistas.
100%
90%
80%
Financeiro e Normativo
70%
60%
50%
Financeiro e Positivo
40%
30%
20%
10%
2007
2006
2005
2004
2003
2002
2001
2000
1999
1998
1997
1996
1995
1994
1993
1992
1991
1990
1989
0%
Figura 2 - Divisão geral entre artigos positivo-descritivos e normativo-prescritivos
A variabilidade da proporção entre as perspectivas, ano a ano, é tal que não se pode
estatisticamente identificar uma tendência clara seja em um sentido ou outro. Por outro lado,
em função do grande número relativo, pode-se afirmar que a perspectica Positiva assumiu
grande importância no cenário da pesquisa brasileira em contabilidade.
5 CONCLUSÃO
Os dados levantados a partir da análise dos artigos publicados na Revista
Contabilidade & Finanças (antigo Caderno de Estudos – FIPECAFI), do Departamento de
Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da
Universidade de São Paulo (EAC/FEA/USP), sugerem a inexistência de isomorfismo na
pesquisa em Contabilidade no Brasil, ao menos no aspecto que se refere à concentração
observada por Tuttle e Dillard (2007) em temas envolvendo contabilidade financeira. Ao
contrário, a análise sugere uma tendência para abordagens de cunho não-financeiro. Seria
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interessante ampliar o estudo para outros periódicos avaliados pela Qualis como Nacional A
pela área de Administração, Contabilidade e Turismo, com o objetivo de verificar se esta
realidade se confirma no Brasil. Outra linha de investigação seria ampliar a pesquisa para
envolver também dissertações e teses, conforme lembrado em Iudícibus, Martins e Carvalho
(2005) e efetuado por Tuttle e Dillard (2007).
Quando se observam apenas os artigos de cunho financeiro, verifica-se que a pesquisa
publicada nos últimos onze anos segue a perspectiva eminentemente positivo-descritivo, mas
não foi possível comprovar uma tendência estável neste sentido. Talvez isso seja uma
conseqüência do editorial da edição número 39 – Martins (2005).
É saudável a convivência das perspectivas, como lembrado por Laughlin (2007), já
não se pode esperar que apenas uma aproximação conduza ao conhecimento, pois toda a
compreensão é inevitavelmente parcial. No mesmo sentido Martins (2005) recomenda que se
evite uma visão dicotômica entre a linha positiva e a linha normativa, exortando no sentido do
desenvolvimento de um trabalho colaborativo, e até, de preferência, sinérgico, entre ambas as
linhas. Os resultados apresentados apontam que existe a convivência ao longo dos últimos
anos, pode-se pesquisar no sentido de verificar se, além da convivência, existe ou não sinergia
entre as aproximações.
Como se observou que a maior concentração da pesquisa publicada nestes periódicos é
de natureza não-financeira, outra investigação interessante poderia estudar a eventual
existência de isomorfismo dentro desta linha de pesquisa: pode ser identificada uma tendência
de concentração nos estudos não-financeiros?
Finalmente, ainda que não se evidencie isomorfismo no sentido de concentração em
temas da contabilidade financeira, os resultados sugerem que houve um deslocamento no
paradigma da pesquisa brasileira em contabilidade no sentido da perspectiva Positiva.
REFERÊNCIAS
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9
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aspectos relevantes da epopéia de sua evolução. Revista Contabilidade & Finanças n. 38,
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VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 8ª ed.
São Paulo: Atlas, 2007.
i
A Revista Contabilidade & Finanças é registrada pelo ISSN com o número 1519-7077 e avaliada pela Qualis
como Nacional A pela área de Administração, Contabilidade e Turismo.
ii
Livre tradução de "while business itself is so interesting, many business schools are so boring!”
iii
Beaver (1998, p. 10-11) agrupa os analistas financeiros, as agências de rating, os consultores financeiros e os
corretores como intermediários da informação.
iv
Livre tradução de ”it is becoming increasingly clear that almost the only consumers of accounting research
are fellow accounting researchers”.
v
Dimaggio e Powell (2005, p. 76) conceituam campo organizacional como “aquelas organizações que, em
conjunto, constituem uma área reconhecida da vida institucional: fornecedores-chave, consumidores de recursos
e produtos, agências regulatórias e outras organizações que produzam serviços e produtos similares”.
vi
Livre tradução de “When multiple agents engage in open and free competition […], market competition, and
measures of economic fitness prevail. However, as one or more entities or groups gain advantage through
whatever means and begin to accumulate resources and power, […] market forces may no longer dominate, […
and] forces within the organizational field create pressure to adopt behaviors similar to those of ‘successful
entities’.”
vii
Livre tradução de “to make clear, with more than an eye on the claims of PAT, that there are multiple
research approaches not one, and that no approach can claim to discover absolute truth […], and that all
understanding is inevitably partial.”
10
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EXISTE ISOMORFISMO EM PERIÓDICOS CONTÁBEIS