Estudos da Voz do Ator: Estado Da Questão no Brasil
Adriana Fernandes
Profa. Adjunta Departamento de Artes Cênicas e PPG-Música UFPB
PhD em Etnomusicologia – University of Illinois at Urbana-Champaign
Resumo: Este trabalho pretende fazer um levantamento e organização dos estudos
disponíveis no Brasil, em português, tratando sobre a voz do ator de teatro. O intuito é ter
uma visão panorâmica desses estudos, considerando as publicações não só na área de
teatro como também na área de fonoaudiologia e música. O objetivo maior é, ao refletir
sobre este levantamento, possibilitar novos rumos para as pesquisas sobre este assunto,
detectando lacunas que ainda precisam ser investigadas e perguntas que ainda não foram
respondidas, auxiliando assim no avanço destes estudos.
Palavras-chave: Voz, ator, fonoaudiologia, música, teatro.
Este trabalho é um levantamento parcial da bibliografia disponível em português
sobre a voz do ator devido à restrição de acesso a esse material e à restrição de espaço
nesta publicação. Portanto, este levantamento é incompleto, mas é possível ter uma ideia
geral de como estão sendo conduzidos os estudos da e sobre a voz do ator no país e como
podemos vislumbrar novas perspectivas de pesquisa sobre o assunto.
Inicialmente divido os trabalhos em dois grandes grupos: aqueles que foram
escritos do ponto de vista da fonoaudiologia (área de saúde) e da área de música. O outro
grupo é de textos redigidos por atores e diretores de teatro.
No primeiro grupo destaco os trabalhos mais antigos conhecidos no Brasil. Lilia
Nunes (cantora de câmera) teve seu livro Voz e Dicção publicado em 1971 pelo Serviço
Nacional de Teatro (MEC). Em 1972 temos o livro de Edmée Mello, Educação da Voz
Falada. E em 1974, o livro mais conhecido, de Glorinha Beuttenmüller e Nelly Laport,
Expressão Vocal e Expressão Corporal. Esses livros têm em comum uma preocupação com
a técnica vocal e domínio do aparelho fonador. Tanto Mello quanto Beuttenmüller têm uma
abordagem prática em formato de manual de consulta rápida. O livro de Nunes tenta
contextualizar os estudos da voz abordando questões como sotaques, ou o trabalho com
coro nas tragédias gregas. No livro de Beuttenmüller e Laport ressalta-se o foco na questão
corporal coordenada com a questão vocal, fazendo uso da terminologia labaniana para
sugerir exercícios que envolvem equilíbrio e deslocamento no espaço.
Ainda nessa década, temos o livro de Léslie Piccolotto e Regina Maria Freire
Soares, Técnicas de Impostação e Comunicação Oral, de 1977. Ele inaugura uma série de
estudos partindo explicitamente da fonoaudiologia que vão até hoje influenciar os trabalhos
realizados com os atores ainda dentro do formato de manual.
Na década seguinte temos o livro de Eudósia Acuña Quinteiro, Estética da Voz –
Uma Voz para o Ator, de 1989. É o primeiro livro da área de fonoaudiologia voltado para a
estética da voz e para a voz do ator. Aqui temos uma elaboração conceitual e reflexiva do
trabalho do ator em torno da questão da voz e do corpo, passando pela eutonia, shiatsu, doin e antiginástica. Considero-o o primeiro trabalho completamente voltado para uma reflexão
sobre a voz do ator de teatro.
Em 1997 temos o livro de Lucia Helena Gayotto, Voz: Partitura da Ação. Aqui a
fonoaudiologia traz um desenvolvimento mais pontual da técnica vocal para o ator a partir da
experiência de Gayotto no grupo de teatro dirigido por José Celso Martinez Correa na
montagem da peça Ham-let da Companhia de Teatro Oficina Uzina Uzona (temporada
1993-94). Distinto das publicações anteriores, a fonoaudióloga fundamenta o trabalho do
ator em diálogo com a prática teatral e os procedimentos aplicados em e para a cena
focando na partitura da ação vocal. A autora aproveita uma prática comum entre os atores
de sinalizar o texto propondo uma sistematização desses sinais como na partitura musical.
O resultado mais importante é revelar elementos extremamente sutis da fala, mas
manipuláveis. Ou seja, esse livro é um divisor de águas na literatura sobre a voz do ator no
Brasil.
Provenientes da área de música, ressalto mais três importantes publicações. A
primeira delas foi organizada por Philadelpho Menezes (compositor) em 1992, chamada
Poesia Sonora: Poéticas Experimentais da Voz no Século XX, na qual o autor nos dá uma
coletânea de importantes textos que discutem a questão do som vocal através da poesia
sonora. Traz dados sobre os questionamentos que ocorrem desde o século passado sobre
esta relação texto e vocalidade, abrindo perspectivas para exploração. Na minha opinião, a
mais importante contribuição da música para o ator de teatro é Demetrio Stratos: Em Busca
da voz-música de Janete El Haouli, publicado em 2002 e que vem acompanhado de um CD.
Este livro funciona como um estudo de caso do livro de Menezes, apontando para novas
possibilidades além da semântica das palavras. A autora faz uma análise e reflexão dos
procedimentos vocais do compositor-músico-cantor-performer de origem egípcio-grecoitaliana Demetrio Stratos (1945-1979). E, finalmente, o último livro que classifico neste
primeiro grupo é recém publicado pela professora Terezinha Zaratin: Comunicação Verbal –
Educação Vocal: O Teatro, Fonte e Apoio (2010), um livro influenciado pelos estudos de
Jogos Teatrais de Viola Spolin e Ingrid Koudela. A autora tem formação em canto lírico e
experiência com teatro musical e ensino de voz. No capítulo de “Educação Vocal”, a autora
chama a atenção para a preparação vocal tanto de quem aprende como de quem ensina.
Com relação ao segundo grupo de escritos (e ou traduzidos) em português,
redigidos por pessoas de teatro, temos um grande escopo de textos sobre a voz do ator
como partes integrantes de pesquisas mais amplas, como é o caso de Stanislavski,
Meierhold, Brecht, Grotowski, Barba, Burnier, Artaud, Kusnet, Roubine. Esses autores têm
em comum a ideia de Ação Vocal, termo aplicado por Stanislavski em consequência do seu
pensamento sistematizado de ações físicas:
A ação vocal comporta a habilidade do ator de contagiar o parceiro com
suas próprias imagens. Para fazer isto, o ator em primeira pessoa deve ter
uma visão clara para obrigar o parceiro a ver aquilo do qual ele fala. A
esfera da ação vocal é ilimitada... A transmissão do próprio pensamento é
ação. (STANISLAVSKI in TOPORKOV (1991), citado e traduzido por
GONÇALVES 2004, p. 27)
Diferente da abordagem fonoaudiológica e musical, aqui a questão está muito
mais centrada nas dificuldades de treinamento do ator propriamente, na concatenação de
vocalidade, corporeidade e emoção. Esses autores também fazem uma ampla discussão
sobre a questão do texto, desde uma visão mais restrita, de “obediência” ao texto, como
aparece em Stanislavski, Kusnet, Roubine, até uma visão mais aberta de subversão do
texto, como é o caso de Artaud, combinando aí ideias dos dadaístas, simbolistas e a
questão da poesia sonora. Temos também o trabalho vocal voltado para a música em
Meierhold e Brecht, e a questão da pré-expressividade, da imaginação e da anatomia em
Grotowski, Barba, Burnier.
Saindo desse referencial geral, temos no Brasil, aproximadamente em torno do
ano 2000, uma série de escritos voltados especificamente para a temática da voz do ator.
Destaca-se o livro de Marlene Fortuna - A Performance da Oralidade Teatral (2000). A
autora foi atriz por um longo tempo do grupo de teatro Macunaíma (hoje Centro de Pesquisa
Teatral do SESC-SP), dirigido por Antunes Filho. Fortuna é formada em Comunicação e
Semiótica. Seu livro dialoga com as grandes referências teatrais e seu próprio trabalho
como atriz. Tem como principal foco o jogo e o prazer cênico a partir do eixo do texto e da
fala do ator. Chama a atenção o último capítulo em que aborda a relação ator/plateia e a
relação da eloquência e a persuasão empática. É um livro seminal nas pesquisas de voz
para o ator, produzido por uma atriz-pesquisadora brasileira.
Um outro trabalho que caminha por uma vertente pouco explorada é de Ernani
Maletta: A Formação do Ator para uma Atuação Polifônica: Princípios e Práticas (2005).
Nessa tese de doutoramento o autor, com formação em música, prática em regência coral e
treinamento vocal para teatro, toma de empréstimo o termo polifonia de Bakhtin e da própria
música e defende o treinamento do ator direcionado para uma visão polifônica, que
contempla dialogicamente os vários discursos em ação na cena.
Houve em 2007 a publicação de um Dossiê Voz na Revista Sala Preta em que
seis autores de diferentes centros de ensino paulistas contribuem para uma abordagem
diversificada das questões da voz e da pedagogia da voz para o ator. São dois autores
músicos, duas atrizes e dois fonoaudiólogos, apontando finalmente para a colaboração entre
as áreas envolvidas nesse treinamento.
Uma outra publicação de 2007 é de Fernando Aleixo, ator pesquisador,
professor na Universidade Federal de Uberlândia, que escreveu Corporeidade da Voz: Voz
do Ator. Nesse livro temos um pequeno ensaio sobre a corporeidade da voz no seu aspecto
sensível, dinâmico e poético. O autor elaborou sua proposta de trabalho vocal corposinestésico a partir de um espetáculo em que trabalhou. O livro se completa com um texto
mais pedagógico publicado em 2010 na Revista Moringa.
Finalmente, fecho este estudo com uma recente publicação de autoria da atriz
do Odin Teatret, Julia Varley, intitulada Pedras D’Água – Bloco de Notas de uma Atriz do
Odin Teatret (2010). O livro originalmente publicado em italiano foi traduzido por Juliana
Zancanaro e Luciana Martuchelli. É um marco nesta minha digressão porque é o
depoimento pessoal autobiográfico de uma atriz com uma longa trajetória internacional e
que é reconhecidamente uma atriz que faz um uso singular de seu aparato vocal. Na obra a
atriz reporta suas experiências e processos desde a decisão pela carreira de atriz até tocar
em questões do personagem, da relação com o diretor e com o espetáculo. Diferente de
todos os textos aqui abordados, este traz a voz como o elemento recorrente e central, como
se fosse uma proposta de trabalho de ator a partir de um longo e árduo processo de
vocalidade, ponto de vista este ainda inédito nas outras abordagens e que aponta para
novas perspectivas.
Concluindo, pode-se perceber que esses últimos quinze anos foram muito
produtivos na área de estudos da voz do ator. Existe uma tendência em se debruçar em
estudos de casos, de se sistematizar e de uma certa forma tornar mais explícito o
treinamento do ator. As áreas de música, fonoaudiologia e teatro começam finalmente a
estabelecer um diálogo mais profundo sobre esta questão e espero que estas pesquisas
possam nos levar à criação de teorias que expliquem melhor esta relação com o nosso som
vocal e o dos outros e o que e como estes sons têm significados e impactos nos nossos
processos de comunicação.
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