2 Revisão Bibliográfica 2.1 Aerossóis 2.1.1 Introdução O termo aerossol surgiu em 1920, como um termo análogo a hidrossol, suspensão líquida estável de partículas sólidas. Desde então, aerossol é definido como um sistema bifásico, no qual as partículas sólidas e líquidas estão suspensas em um gás, que geralmente é o ar. O tamanho destas partículas pode variar de 0,001 a 100 µm (Hinds, 1982). O transporte de partículas exerce um papel importante em nosso ecossistema. A fertilização de diversas espécies de plantas ocorre através do transporte de pólen, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA porém os aerossóis também são responsáveis pelo transporte de vírus, bactérias, fungos e principalmente de partículas de poluentes. As principais vias de incorporação destes poluentes pelo homem são através da inalação ou ingestão via cadeia alimentar. As fontes geradoras de aerossóis podem ser naturais, como o solo, a evaporação de águas rios, lagos, oceanos, processos de respiração das plantas e fenômenos naturais como erupção de vulcões, dentre outros. Dentre as fontes antropogênicas destacam-se os processos industriais, como a mineração, os processos de beneficiamento, a siderurgia, a liberação dos gases emitidos pela queima de combustível nos veículos automotores e as queimadas nas áreas rurais. As partículas de aerossóis podem ser transportadas por longas distâncias através das correntes atmosféricas, influenciando na qualidade do ar e nas condições climáticas locais, regionais e/ou globais. A intensidade destes efeitos vai depender das propriedades físicas e químicas do aerossol (Bowen, 1973). Os aerossóis também podem ser classificados em primários e secundários. Os aerossóis primários são aqueles formados por partículas provenientes diretamente da fonte, enquanto os aerossóis secundários são formados por partículas ou aglomerados resultantes de reações químicas que ocorrem na atmosfera (Seinfeld, 1986). As partículas transportadas pelo ar possuem tamanhos, forma, composição química e propriedades ópticas diferentes dependendo do processo de geração. A determinação da distribuição dos tamanhos das partículas requer o emprego de 16 técnicas específicas para cada faixa de tamanho. Esta medida é importante em diversos estudos, como o efeito do particulado nas mudanças climáticas ou na avaliação do risco devido à inalação das partículas (Seinfeld, 1986). O risco para a saúde humana devido à inalação de partículas depende não apenas da concentração, mas também do tamanho da partícula, que determina o local de sua deposição no trato respiratório e da composição química, que determina a sua solubilidade (ICRP, 1994). 2.1.2 Deposição de partículas no trato respiratório O sistema respiratório é a via mais comum de incorporação de substâncias tóxicas provenientes do meio ambiente, as quais produzem danos a saúde, reduzindo a expectativa de vida do indivíduo (Hinds, 1982). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA O trato respiratório é dividido em 3 regiões: as vias aéreas superiores, a região traqueobronquial (T-B) e a região pulmonar (P). Vias aéreas superiores Denominam-se vias aéreas superiores à região do trato respiratório que começa nas fossas nasais e estende-se até a laringe. A filtração das partículas de maior tamanho, a umidificação e o aquecimento do ar inspirado ocorrem nas vias superiores. Assim, o ar é protegido do ressecamento e do desequilíbrio térmico e se evita o acesso das partículas maiores às regiões mais profundas do trato respiratório (Watson, 1983; ICRP, 1994; Snipes, 1994). Região traqueobronquial (T-B) A região traqueobronquial inicia-se na laringe e estende-se pela traquéia e outras passagens ciliadas, até os bronquíolos. Esta região é coberta pelo epitélio ciliado e por uma camada de muco. Partindo da traquéia, a árvore bronquiolar se divide progressivamente. A cada bifurcação do sistema há impactação de partículas. Devido à diminuição da velocidade do ar conduzido e à falta de sustentação aerodinâmica, as partículas em suspensão se depositam no muco que recobre esta região. Estas partículas são removidas em direção ao sistema digestivo, pelo movimento dos cílios que recobrem o epitélio bronquial. Assim, são removidas da região traqueobronquial, pela ação muco-ciliar, as partículas ali depositadas (ICRP, 1994; Snipes, 1994). 17 Região pulmonar A região pulmonar começa a partir da última ramificação dos bronquíolos e tem em seqüência os dutos alveolares, sacos alveolares, átrio, alvéolos, tecidos intersticiais, capilares alveolares, e o sistema linfático pulmonar. É nos alvéolos que ocorrem as trocas gasosas e onde as partículas podem ficar retidas por um longo período (Snipes, 1994). As partículas inaladas são depositadas no trato respiratório após entrarem através do nariz ou da boca. As propriedades aerodinâmicas que governam a deposição de partículas inaladas no trato respiratório estão associadas a processos físicos, anatômicos e fisiológicos que ocorrem durante o ciclo respiratório. A extensão da sedimentação, a impactação, e a intercepção das partículas e o local de deposição dependem das propriedades físicas das partículas e de fatores biológicos, tais como a anatomia e geometria do trato respiratório (Snipes, 1994). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA A impactação ocorre quando se produz uma mudança na direção do fluxo de ar, dado que as partículas tendem a manter a trajetória retilínea produzindo o impacto. Isto acontece nas áreas onde o fluxo de ar tem pouca velocidade e é praticamente limitado a partículas grandes, que são depositadas nas paredes das vias aéreas. A maior deposição por impactação ocorre na primeira bifurcação das vias respiratórias, e em menor grau, nas outras bifurcações. Isto é devido às variações nas linhas de corrente do fluxo nas regiões onde ocorrem as bifurcações. Intercepção é o processo através do qual partículas, que são desviadas das linhas de corrente, são interceptadas por uma superfície na qual impactam. As partículas grandes e as mais irregulares têm maiores probabilidades de ser depositadas por este mecanismo (Snipes, 1994). A sedimentação é produzida pela ação da força da gravidade sobre as particulas. Trata-se do mecanismo mais importante nas vias aéreas pequenas. É na região alveolar, onde a velocidade de fluxo e as dimensões das vias respiratórias são menores. Este é o mecanismo mais importante nas vias aéreas distantes da tráquea, porque as partículas higroscópicas crescem ao passar através das vias aéreas saturadas de água, aumentando o seu tamanho, favorecendo assim a deposição por sedimentação. Entretanto, partículas com tamanhos sub-microns experimentam um movimento caótico causado pela interação entre as moléculas do gás, movimento Browniano, o que aumenta com a diminuição do tamanho das partículas. Este movimento faz 18 com que aumente a probabilidade das partículas serem depositadas nas paredes das vias aéreas. Este mecanismo acontece nas pequenas vias aéreas, onde as distancias são curtas e o tempo de permanência é longo (Seinfeld, 1986). Devido as características de seletividade do trato respiratório, as partículas com diâmetro entre 3 e 4 µm são depositadas, preferencialmente, nas vias aéreas superiores e na região traqueobronquial. As partículas com diâmetro abaixo de 2,5 µm são depositadas, preferencialmente, na região pulmonar (Lippmann & Albert, 1969; Lippmann, 1970; Chan & Lippmann, 1980). As taxas de deposição das partículas variam de acordo com vários fatores, dentre eles, a idade, as condições de respiração, o volume respirado e se a respiração é oral ou nasal (ICRP, 1994). A deposição pode ocorrer durante a inspiração ou expiração. Observa-se que a maior PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA fração do material inalado é depositada próximo às bifurcações e entradas dos dutos alveolares (ICRP, 1994). Uma vez depositadas no trato respiratório, as partículas são removidas por dois mecanismos de depuração: o mecanismo físico e a dissolução-absorção (Snipes, 1994; ICRP, 1994; Watson, 1983). O processo físico é aquele no qual as partículas livres ou aquelas fagocitadas pelos macrófagos são removidas do trato respiratório (Snipes, 1994). Não existe relação demonstrada entre o tamanho das partículas e processo de depuração física (Snipes, 1994). O processo de depuração por dissolução-absorção é aquele no qual ocorre a dissociação dos constituintes da partícula. É necessário que haja a interação da partícula com os fluidos do corpo. A absorção ocorre como resultado da dissolução ou lixiviação da partícula, e é o fenômeno de transporte de transferência do material para o sistema linfático e circulatório (Snipes, 1994; ICRP, 1994). 2.1.3 Tamanho das partículas As partículas dos aerossóis possuem forma e tamanho variados. De modo a descrever seu comportamento aerodinâmico admite-se que estas sejam esferas rígidas e indeformáveis. Assim o tamanho das partículas é representado pelo diâmetro desta esfera (Hinds, 1982). 19 Muitas têm sido as definições adotadas para determinar o diâmetro das partículas. Considerando as propriedades geométricas das partículas, observadas através da microscopia óptica, pode-se determinar seus diâmetros geométricos: diâmetro de Ferret, diâmetro de Martin e diâmetro da área projetada. O esquema exemplificando estes diâmetros é apresentado na Figura 2.1. O primeiro deles é definido como o comprimento da projeção do perfil sobre uma linha de referência, o diâmetro de Martin é o comprimento de uma corda paralela à linha de referência que divide o perfil da partícula em duas áreas iguais, e o diâmetro da área projetada que é o diâmetro de um círculo que tem a mesma área do perfil da partícula (Hinds, 1982). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA F M da Figura 2.1 Diâmetro de Ferret, diâmetro de Martin e diâmetro da área projetada O diâmetro de Stokes e o diâmetro aerodinâmico são definidos considerando-se as propriedades aerodinâmicas das partículas. O diâmetro de Stokes é o diâmetro de uma esfera que tem a mesma densidade e velocidade terminal que a partícula no fluido. O tamanho das partículas é definido como o diâmetro de uma esfera equivalente com densidade unitária que tem a mesma velocidade terminal, das partículas no aerossol, sob ação da gravidade. Assim, partículas com forma e densidade diferentes podem ser representadas pela mesma esfera equivalente (Raabe, 1994). O esquema representativo do diâmetro aerodinâmico e do diâmetro de Stokes de uma partícula irregular é apresentado na Figura 2.2. 20 Na avaliação dos riscos devido à inalação, é importante conhecer as características fisiológicas e estimar a deposição no trato respiratório, que depende de diversas características físicas da partícula, como o tamanho, forma e densidade. Assim, partículas com forma e densidade diferentes podem ser representadas pela mesma esfera equivalente (Raabe, 1994). PARTÍCULA IRREGULAR ESFERA EQUIVALENTE DE STOKES ESFERA AERODINAMICA EQUIVALENTE de=5 µm d S = 4,3 µ m d a = 8,6 µ m 3 ? p = 4 g/cm ? = 4 g/cm 3 ? = 1 g/cm3 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA x = 1.36 VTS = 0,22 cm/s Figura 2.2 Uma partícula irregular e suas esferas equivalentes. Diâmetro equivalente (de), diâmetro de Stokes (ds) e diâmetro aerodinâmico (da) Os impactadores em cascata são amostradores de ar seletivos de tamanho de partículas, que se baseiam na lei de conservação da quantidade de movimento das partículas em suspensão. O Diâmetro Mediano Aerodinâmico de Massa (MMAD) é o valor do diâmetro da partícula que divide a curva de distribuição de massa em duas áreas iguais, em relação ao diâmetro. Considera-se que a distribuição dos diâmetros aerodinâmicos em função das frações de massa apresenta a forma de uma distribuição log-normal. O tamanho das partículas dos aerossóis são, geralmente caracterizadas em termos do MMAD e do desvio padrão geométrico associado (σg) (Raabe, 1994). 21 2.1.4 Comportamento aerodinâmico das partículas As equações de Navier-Stokes são equações diferenciais que descrevem o movimento de uma partícula em um fluido. Estas equações são derivadas da aplicação da segunda Lei de Newton a um elemento de fluido, onde as forças que atuam sobre o corpo incluem as forças devidas à pressão e as forças de viscosidade. Estas equações não têm soluções analíticas, porém algumas simplificações são admitidas para que possam ser resolvidas (Hinds, 1982). Estas hipóteses são: • As forças inerciais são desprezíveis, quando comparadas com as forças viscosas, eliminando os termos de ordem mais alta nas equações de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA Navier-Stokes. • Fluído incompressível • Não existem paredes ou outra partícula próxima à partícula estudada, sendo obtido um sistema de equações lineares que pode ser resolvido. • A partícula é considerada uma esfera rígida e indeformável. • A velocidade do fluído na superfície da partícula é zero. A força que atua sobre a partícula na região de Stokes é representada pela equação: FD = 3 × π × η × V × d eq. (2.1) onde: FD força de resistência η viscosidade do fluido V velocidade da partícula em relação ao fluído d diâmetro da partícula A equação (2.1) considera que as partículas são esféricas, mas a maioria das partículas de aerossol tem formas irregulares. É por isso que o fator de correção de forma (χ) é introduzido. A força que atua sobre a partícula é representada pela expressão: FD = 3 × π × η × V × d × χ eq. (2.2) 22 O fator de correção de forma aerodinâmico é definido como a razão entre a força de resistência da partícula não esférica e a força de resistência que atua sobre a partícula de uma esfera do mesmo volume e a mesma velocidade terminal da partícula irregular (Hinds, 1982). Na solução de Stokes admite-se que a velocidade do fluído na superfície da partícula é igual a zero, ou seja, que o fluido na superfície da partícula se adere e se move com a partícula. No entanto, esta aproximação não é válida para partículas pequenas, cujo diâmetro é aproximadamente igual ao livre caminho médio dos gases. Neste caso as partículas podem atingir velocidades superiores aquelas preditas pela eq 2.1. Para fazer esta correção usa-se o fator de Cunnhigam (Cc), que é sempre maior do que 1 e depende das condições de pressão, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA temperatura e tamanho da partícula (Hinds, 1982). C c = 1 + 2 , 492 × λ + 0 ,84 d λ d ( −0 , 43× ) ×e λ eq. (2.3) d onde: Cc fator de correção de Cunningham λ livre caminho médio nos gases (m) d diâmetro da partícula (m) Com o fator de correção de Cunningham, a força de resistência é expressa como: FD = 3 × π ×η ×V × d Cc eq. (2.4) Sempre que as partículas atingem a velocidade terminal, elas conseguem acompanhar as linhas de corrente do fluido. Quando estas linhas são desviadas de sua trajetória inicial por um anteparo as partículas seguem as linhas do fluido e descrevem um movimento curvilíneo. Na Figura 2.3 é apresentado o esquema simplificado das linhas de corrente do fluido em um sistema onde as linhas de corrente do fluido apresentam um desvio de 900 (Hinds, 1982). 23 Largura do orifício Trajetória de uma particular que irá impactar Trajetória de uma particular que não irá impactar Distânciapercorrida pela partícula PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA Superfície de impactação Linhas de fluxo Figura 2.3 Esquema simplificado das linhas de corrente do fluido em um sistema onde as linhas de corrente do fluido apresentam um desvio de 900 Quando as linhas de fluxo incidem perpendicularmente sobre uma superfície plana após passar por um orifício, as linhas de corrente do fluido são desviadas de 900 em relação à trajetória inicial. Algumas partículas que não tem massa suficiente para abandonar as linhas de corrente do fluido são desviadas, enquanto que as partículas com massas maiores não conseguem acompanhar as linhas de corrente do fluido, indo impactar a superfície de impactação. As partículas que deixam as linhas de corrente do fluido percorrem uma distância igual ao produto de sua velocidade pelo tempo gasto em percorrer o arco de circunferência da linha de corrente. A distancia (∆) percorrida pela partícula é determinada pela seguinte equação: ∆ = Vr × t eq. (2.5) onde: t tempo gasto pela partícula para percorrer o arco de circunferência Vr componente radial da velocidade da partícula ao deixar a trajetória circular no fluido 24 A componente radial da velocidade (Vr) pode ser expressa como: Vr = τa r eq. (2.6) onde: ar aceleração da partícula no movimento circular (ar = U2/r) τ tempo de relaxação da partícula O tempo de relaxação é o tempo necessário para a partícula se ajustar às novas condições de forças no fluido e pode ser determinado por: 2 ρ p d Cc τ = mB = eq. (2.7) 18η onde: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA m massa da partícula B mobilidade mecânica da partícula ρp densidade da partícula d diâmetro da partícula Cc fator de correção de Cunningham η viscosidade do fluido A distância da linha de corrente à superfície de impactação pode ser calculada se levando em conta a velocidade inicial do fluido (U): ∆ = π τU eq. (2.8) 2 A eficiência de impactação é definida como a razão entre o número de partículas que entram e o número de partículas que são impactadas na superfície de impactção (Hinds, 1982). A eficiência de coleta de cada superfície de impactação é expressa por: ε= onde: r raio do orifício crítico ∆ distância de impactação ∆ r eq. (2.9) 25 A eficiência de impactação também pode ser definida em função do número de Stokes (SKT), como: ε = π 2 SKT eq. (2.10) O número de Stokes é determinado por: STK = τU r eq. (2.11) onde: τ tempo de relaxação da partícula U velocidade do fluido no orifício r raio do orifício As curvas de eficiência teóricas dos impactadores apresentam a forma de uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA função degrau, na qual todas as partículas maiores que o diâmetro de corte são impactadas. As curvas de eficiência experimentais diferem das curvas teóricas devido a flutuações no processo de coleta. O diâmetro de corte é definido como o diâmetro que corresponde a 50 % da distribuição da freqüência acumulada (Hinds, 1982). 2.2 Técnicas de amostragem Diversas técnicas de amostragem e de análise de aerossóis têm sido desenvolvidas para o estudo de suas propriedades para avaliar a poluição atmosférica e os riscos à saúde dos seres vivos e ao meio ambiente (Bowen, 1973). Os amostradores de ar podem ser classificados em amostradores de poeira total ou amostradores seletivos baseados na discriminação do tamanho das partículas. Os amostradores de poeira total são aqueles que coletam as partículas sem fazer qualquer seleção de tamanho. Geralmente possuem um único estágio e são utilizados na determinação da massa total de poeira coletada. Os amostradores seletivos, que se baseiam nas propriedades físicas, óticas, eletrostáticas e aerodinâmicas das partículas, coletam partículas com diferentes faixas de tamanho (Hinds, 1982). A escolha do tipo de amostrador a ser empregado na coleta do particulado depende dos objetivos da amostragem, do tipo de aerossol amostrado e da técnica de análise do material coletado (Raabe, 1994). 26 2.2.1 Amostradores inerciais O funcionamento destes amostradores se baseia na conservação da quantidade de movimento das partículas do aerossol. O ar ao penetrar no amostrador incide sobre uma superfície plana, colocada perpendicularmente ao fluxo, provocando o desvio das linhas de corrente do fluxo. As partículas, com inércia suficiente para vencer a força exercida pelo fluido sobre elas, abandonam as linhas de corrente do fluxo, impactando sobre a superfície, enquanto que outras seguem as linhas de corrente indo impactar sobre os estágios subseqüentes. Assim é possível a separação das partículas de em diferentes faixas de tamanho. Quando várias superfícies impactadoras são colocadas em série, o impactador recebe o nome de Impacator em Cascata que visa a separação das partículas de aerossol em várias PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA faixas de tamanho (Hinds, 1982). 2.2.2 Ciclone Neste amostrador, devido a sua forma física, as linhas de corrente são circunferências concêntricas. As partículas que seguem as linhas de corrente descrevem uma trajetória circular. No entanto as que possuem inércia suficiente para vencer a força que o fluido exerce sobre elas são coletadas em um copo coletor, as demais seguem as linhas e são coletadas no filtro. Os ciclones são geralmente utilizados como estágio inicial de outros tipos de amostradores (Lippmann, 1989). 2.2.3 Amostrador Grosso e Fino Este tipo de amostrador utiliza um pré-seletor de partículas, para que só as massas menores do que um determinado valor de corte, sejam arrastadas pelas linhas de corrente do fluxo e penetrem no amostrador, onde são separadas em duas frações de tamanho, dependendo da velocidade de fluxo e da eficiência de retenção do filtro coletor (Dias da Cunha, 1997). 27 2.3 Bioindicadores Os bioindicadores são animais e/ou vegetaiss que podem incorporar substancias, especialmente metaiss, ou modificar seu comportamento devido a mudanças no meio ambiente. A observação destas mosdificações e a determinação da concentração destas substancias nestes organismos tem sido largamente usada nos estudos para monitorar o meio ambiente (Loppi, et.al., 1998). As espécies bioindicadoras são altamente sensíveis à poluição, elas revelam informações sobre o ambiente através das mudanças ocorridas no organismo e/ou nas comunidades ou populações, ou também pela presença de determinadas substâncias nos tecidos do organismo.( Loppi, et.al., 1998; Wolterbeek, 2001) Elas podem ser classificadas em bioindicadores passivos ou ativos. São passivos, aqueles que se encontram presentes no sistema que se deseja estudar, e ativos, os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA que são introduzidos no sistema através de transplantes (Sloof, 1995). Muitas espécies têm sido usadas para avaliar a qualidade do meio. As algas, peixes e moluscos se encontram entre os organismos mais utilizados nos estudos da qualidade das águas de rios, lagos e mares. Os moluscos, devido à sua limitada mobilidade, fácil identificação e capacidade de concentrar metais tem sido largamente empregado nos estudos de impacto ambiental. Diversos tipos de moluscos tem sido utilizados como bioindicadores de contaminação por metais. Em Cuba os moluscos Tarebia granifera Lamarck foram utilizados para identificar contaminação por metais pesados nos rios da Cidade de Pinar del Rio (Cuba) (Pedrero, 2000) e os Perna perna têm sido utilizados para determinar concentrações de metais pesados na Bahia de Guanabara (Brasil) (Lima, 1997). Entretanto, nos estudos de qualidade do ar as espécies vegetais são as mais usadas. Um exemplo é a determinação de concentrações de metais em folhas de Bauhinia blakeana (flor nacional de Hong Kong) ao redor de templos e monastérios em Hong Kong, os resultados as determinação dos metais indicaram a qualidade de ar dentro destes prédios (Lau & Luk, 2001). A avaliação da contaminação por poluentes atmosféricos tem sido realizada através do uso de, musgos, liquens, cascas de árvores e folhas de plantas. Para todos estes tipos de biomonitores têm se encontrado concentrações em níveis de traços (Wolterbeek, 2001). 28 Nos eco-sistemas florestais, os elementos presentes no ar são absorvidos principalmente pelas folhas das plantas, mas os elementos transportados pela raiz podem confundir a interpretação dos dados analíticos com respeito às partículas depositadas (Loppi, 2000). Desta forma, folhas e cascas de árvores recebem a contribuição dos elementos absorvidos pela raiz da planta. Enquanto que os liquens e musgos não são dependentes da raiz, eles absorvem os nutrientes diretamente da atmosfera (Loppi, 1998). 2.3.1 Liquens Os liquens são uma associação de fungo com alga verde microscópica que funcionam como um só organismo. Ambos recebem benefícios dessa associação simbiótica. O talo é o corpo principal do líquen, embora a alga, que não possui PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA talo, produz o açúcar necessário ao fungo, e este por sua vez fornece proteção à alga. Os liquens não possuem raiz, nem folhas, retirando seus nutrientes da água da chuva e do ar. Os liquens crescem em solos, rochas, árvores e estruturas artificiais, sendo encontrados tanto em regiões de climas tropicais, subtropicais, como nas regiões de clima extremo como o Ártico, a Antártica e os desertos (Lyman, 1996) Desde o século XIX, os liquens vem sendo utilizados como bio indicadores nos estudos da qualidade do ar. Wylliam Nylander em 1866 foi o primeiro a associar o desaparecimento dos liquens com a poluição. A tolerância do líquen à poluição varia com a espécie e as características climáticas (Lyman, 1996). A avaliação da qualidade do ar empregando liquens tem sido muito utilizada, devido à suas múltiplas aplicações, permitindo realizar transplantes para avaliar efeitos de impacto ambiental e fazer estudos retrospectivos do meio ambiente, como o realizado por Sloof J.E ao comparar o conteúdo de metais no líquen Parmelia coperata, coletado em 1996, com exemplares da mesma espécie coletados em 1980, em Toscana, Itália (Sloof, 1995). No Brasil, embora já tenham sido identificados aproximadamente 2800 espécies diferentes de liquens, o emprego destas espécies como bio indicadores é escasso. A qualidade do ar em diferentes regiões de São Paulo foi avaliada determinando-se a concentração de metais na espécie Canoparmelia texana (Coccaro et.al., 2000; Saiki et.al., 2001). 29 As principais vantagens do uso de bioindicadores nos estudos para avaliar a qualidade do ar são: a facilidade de coleta, o baixo custo a obtenção de informações sobre o passado da região. Outra de suas vantagens é que determinando as concentrações de poluentes em liquens coletados a diferentes distâncias e direções da fonte, pode-se obter uma distribuição espacial dos poluentes (Saiki et.al., 1997; Carreras, 2001). No entanto está técnica não fornece informações sobre a concentração no ar dos elementos ou sobre a faixa de tamanho das partículas. A técnica de transplantes de liquens consiste em transplantar o líquen de uma região para outra. Deste modo é possível avaliar o impacto ambiental causados por uma ou mais fontes de poluição em regiões onde não existam liquens ou não se deseje fazer uma avaliação temporal da contribuição da fonte geradora de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA poluição (Lyman, 1996). 2.4 Areias monazíticas Dentro dos minérios que contém tório e urânio associados à rede cristalina os principais são a monazita, a cassiterita, a apatita, a columbita, o niobato-tantalato, a zirconita e o rutilo. No Brasil, as areias monazíticas são encontradas ao longo da costa brasileira (depósitos de praia) e em determinados trechos de rios interiores (depósitos fluviais), onde a proporção das quantidades dos elementos varia dependendo do local de ocorrência. (Maciel & Cruz, 1973). No litoral brasileiro, do Rio Grande do Norte até o Rio de Janeiro, se encontram os mais importantes depósitos nacionais de areias monazíticas. Estes depósitos tem sido explorados desde 1886 até o presente nos Estados da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro (Maciel & Cruz, 1973). O tório e urânio associados a rede cristalina destes minérios causam um aumento na concentração de radioatividade natural nestas regiões, as quais são chamadas regiões de elevada radioatividade natural ou simplesmente regiões de elevada radioatividade. As populações que moram nestas regiões de elevada radioatividade, estão expostas direta e indiretamente à radiação, seja através da exposição externa (raios gama provenientes dos produtos de decaimento das séries do Th e U, que são emissores gama) ou da exposição interna, através da ingestão e inalação de radionuclídeos. A exposição interna aumenta, nas regiões de 30 radioatividade natural elevada, devido à transferência de radionuclídeos naturais do solo para as plantas e animais, que formam parte da dieta e à inalação de partículas. No litoral do município de São Francisco de Itabapoana, no estado de Rio de Janeiro, encontram-se importantes jazidas de areias monazíticas, e na vila de Buena, situado neste município, se encontra uma usina de beneficiamento de areias monazíticas. Em Buena, funciona atualmente uma unidade de separação física de areia monazítica, pertencente às Indústrias Nucleares do Brasil. (INB). Nela são obtidos concentrados de ilmenita, zirconita, rutilo e monazita utilizando separadores eletrostáticos, eletromagnéticos e gravimétricos (espirais, planos inclinados e mesas vibratórias). As areias monazíticas são compostas por sílica e uma associação de minerais: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA ilmenita (FeTiO3), rutilo (TiO2), zirconita (SiZrO4) e a monazita que é um ortofosfato de terras raras (Ce, La, Nd)PO4. Este último minério apresenta teores de 1 a 6% de óxido de tório (ThO2) e 0,3 % de óxido de urânio (U3O8) (Maciel & Cruz, 1973 ). A presença de tório e urânio na monazita, fazem com que as areias monazíticas sejam radioativas. Na Tabela 2.1 são apresentados os teores médios das principais terras raras contidas na monazita proveniente do depósito localizado na região circunvizinha a vila de Buena e suas aplicações na industria (Dias da Cunha W, 1996 ) Na vila de Buena, onde habitam aproximadamente 300 pessoas, foram observadas elevadas concentrações de 226 Ra e 228 Ra nas águas do lago e na macrofita que o envolve. Nas hortaliças cultivadas na localidade foram encontrados 210 Pb, 238U e 232Th. (Lauria, 1998). 226 Ra, 228 Ra, 31 Tabela 2.1 Relação das principais aplicações dos elementos (terras raras) presentes na monazita. Resumo das aplicações e teores médios PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA Elementos Teores Lantânio 25% Neodímio 17% Praseodímio 4,5% Gadolíneo 2% Samário 3% Ítrio 2% Outros 1% Aplicações Vidros especiais para microscópios eletrônicos e catalisadores para craqueamento do petróleo. Cristais especiais para instrumentos oftálmicos, imãs permanentes e cristais geradores de raio laser. Corantes cerâmicos Cerâmicas para a indústria eletroeletrônica, materiais moderadores de nêutrons. Imãs permanentes. Materiais supercondutores, fósforos para tubos de TV a cores. Outras aplicações na indústria eletroeletrônica. A presença de concentrações relativamente superiores dos radionuclídeos das séries naturais do Th e U nas fezes de trabalhadores e habitantes da região, em comparação com moradores de regiões de baixo nível de radiação natural no Rio de Janeiro e São Paulo, reflete a incorporação destes elementos, que pode ser através da dieta alimentar e/ou da inalação (Julião et al. 1998a ). 2.4.1 Histórico da monazita A monazita é um dos principais minérios de terras raras, seu nome provem de um verbo grego que significa “ser solitário”, devido à raridade do mineral e do lugar onde foi descoberto nas montanhas do Ilmen, na Rússia (Maciel & Cruz, 1973 ). A monazita começou a ser explorada pela primeira vez com fins comerciais nas Carolinas, U.S.A. em 1893. Dois anos mais tarde, em 1895, foi iniciada a produção de monazita no Brasil, e na Índia em 1911, em ambos países a produção era controlada por firmas alemãs (Maciel & Cruz, 1973). Nesta época o tório era o principal elemento extraído da monazita, este, na forma de nitrato era utilizado na fabricação de camisas de lampiões a gás ou a querosene. A partir de 1920, quando a energia elétrica substituiu a iluminação a gás e as terras raras começaram a ter aplicações, a monazita passou a ser processada para obtenção das terras raras e o Th passou a ser um subproduto. Após a Segunda Guerra Mundial, com o início dos estudos para o desenvolvimento de um possível 32 reator a tório, este elemento passou a ser considerado material estratégico e o tório da monazita voltou a ser de grande interesse (Maciel & Cruz, 1973). Em 1904, a Societe Miniere et Industrielle Franco-Bresilienne iniciou a exportação dos concentrados de monazita extraídos das regiões costeiras do Espirito Santo e da Bahia A história oficial do aproveitamento da monazita começou em 1949, quando um grupo de alemães construiu duas usinas de concentração de monazita, uma delas em Buena, e outra em Cumuruxatiba. Uma usina de beneficiamento de monazita foi construída em Santo Amaro, São Paulo. Em 1960, as usinas passaram a ser controladas pelo governo Brasileiro e a exportação de minérios contendo Th e U associados, passaram para o controle da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) (Paschoa, 1993). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA 2.4.2 Separação física da areia monazítica Na jazida localizada próximo a vila de Buena a extração das areias monazíticas é feita acima da superfície freática, após a remoção do capeamento por um trator de esteiras. Nestes depósitos a lavra do minério é feita a céu aberto. O minério retirado das jazidas é separado (fisicamente) da sílica, que constitui a maior parte do minério. O esquema simplificado do processo de beneficiamento físico das areias monazíticas para obtenção do concentrado dos quatro minerais é apresentado na Figura 2.4. A primeira etapa do processo é a separação da sílica por processo hidrogravimétrico, obtendo-se o concentrado de areias monazíticas. Na Figura 2.5 é apresentada uma fotografia da espiral de Hanfrey, onde a sílica é separada das areias monazíticas. A sílica retorna ao meio ambiente enquanto o concentrado segue para as demais etapas de beneficiamento. O concentrado de minério é secado em forno rotativo. Em seguida, a fração condutora (rutilo e ilmenita) é separada da fração não condutora (monazita e zirconita) por processo de separação eletrostática. Por processo de separação magnética as frações magnéticas são separadas das frações não-magnética nas respectivas linhas de concentração, sendo obtidas as frações de ilmenita, rutilo, monazita e zirconita. O processo de separação do minério não envolve nenhum tratamento químico, portanto o material que é transportado pelo ar é constituído do próprio minério extraído. 33 Jazida Separação hidrogravimétrica Secagem do minério Separação eletrostática PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA Fração condutora Fração não condutora Ilmenita e Rutilo Monazita e Zirconita Separação eletromagnética Separação eletromagnética Fração magnética Ilmenita Fração não magnética Rutilo Fração magnética Fração não magnética Monazita Fig. 2.4 Esquema simplicado do processo de beneficiamento das areias monazíticas para obtenção dos concentratos de monazita, zirconita, rutilo e ilmenita. Zirconita PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0116454/CA 34 Figura 2.5 Fotografia da espiral de Hanphrey