As Águas Subterrâneas e a Gestão de Recursos Hídricos em Portugal no Início do Século XXI 23 e 24 de Junho de 2006 EVOLUÇÃO DO USO DA ÁGUA E GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS NO ALGARVE NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX José Paulo Monteiro Universidade do Algarve, CVRM, e-mail:[email protected] INTRODUÇÃO As modificações verificadas nas últimas décadas nas formas de se lidar com a água no Algarve foram extraordinariamente importantes. A breve síntese que aqui se apresenta tenta contribuir para uma visão geral de alguns aspectos relevantes destas mudanças. DESDE O PASSADO REMOTO ATÉ AOS ANOS 50... Até à primeira metade do Século XX, a procura de água no Algarve foi inteiramente satisfeita a partir de engenhos artesanais. A captação de água subterrânea era efectuada a partir de poços escavados, com poucas dezenas de metros profundidade, sendo a extracção efectuada recorrendo a picotas e noras. As ribeiras eram exploradas a partir de açudes e/ou transportadas por levadas. O armazenamento temporário da água captada era feito tanques, e em cisternas. Existem numerosas estruturas deste tipo espalhadas pelo Algarve que constituem testemunhos patrimoniais das formas tradicionais de gestão da água que, se não forem devidamente preservados, tenderão a degradar-se e desaparecer. As barragens do Arade e da Bravura, construídas na segunda metade da década de 50, foram as primeiras infrastruturas que suportaram consumos de água com expressão à escala regional a partir de águas superficiais. DESDE O INÍCIO DOS ANOS 70 ATÉ AO FINAL DO SÉCULO XX As barragens do Arade e da Bravura, cuja localização se ilustra na Figura 1, têm associados perímetros de rega com áreas de 2300 ha e 1747 ha, respectivamente. Na década seguinte à construção destas barragens (anos 60) iniciou-se um período em que o consumo de água no Algarve cresceu exponencialmente, quer devido à introdução da agricultura de regadio em larga escala, quer ao incremento do turismo. Estima-se que, actualmente, a maior parte da área regada no algarve (cerca de 90% de um total de cerca de 20 000 ha), é ocupada por citrinos, sector que se expandiu também a partir do início da década de 70. Estimativas existentes acerca da evolução do consumo da água no Algarve indicam que o consumo no final do século XX é dez vezes superior ao que se verificava no início dos anos 50. A satisfação da crescente procura de água iniciada no início dos anos 70 foi possível devido ao surgimento das tecnologias de perfuração de captações de água subterrânea. Iniciou-se então a construção de captações com menos de 0.5 metros de diâmetro e, muitas vezes, com mais de 100 m de profundidade. Estas captações, 1 denominados “furos”, substituiram gradualmente os antigos poços escavados com profundidade normalmente inferior a 30 metros e passaram a suportar o aumento de da procura de água verificada desde o início dos anos 60 até à segunda metade da década de 80. Figura 1 – Grandes barragens existentes actualmente no Algarve Em 1986, com a construção da barragem do Beliche, iniciou-se um segundo período de construção de infrastruturas que permitiram que se atingisse a actual capacidade de armazenamento e regularização de águas superficiais no Algarve (que será acrescida futuramente com a barragem de Odelouca ainda em construção). Como pode verificar-se no Quadro 1 a capacidade útil das grandes barragens do Algarve soma actualmente 267×106 m3. Uma vez que o poder de armazenamento é irregular ao longo do ano, considera-se normalmente que a capacidade de facto utilizável é, em média, de cerca de 170×106 m3/ ano. Quadro 1 – Capacidade útil de armazenamento das grandes barragens do Algarve. Barragem Ano de Capacidade útil construção (106m3) Arade 1956 27 Bravura 1958 32 Beliche 1986 48 Funcho 1993 43 Odeleite 1996 117 A construção das barragens de Beliche e Odeleite, na década de 90, permitiu a criação de um novo perímetro de rega com 8100 ha no Sotavento. Esta nova área, juntamente com os perímetros de rega anteriormente referidos, associados às barragens da Bravura e do Arade, somam um total aproximado de 121 km2, valor que corresponde ao total de área que pode ser regada no Algarve a partir das grande barragens actualmente existentes. Tendo em conta a área actual de regadio total do Algarve que corresponde a cerca de 200 km2, verifica-se que existe necessariamente uma área considerável do Algarve regada a partir de captações de água subterrânea. Esta é aliás superior ao que poderiam fazer supor as áreas dos perímetros de rega das grandes barragens pois estes estão longe de ser integralmente utilizados. De facto, estima-se que, actualmente, as grandes barragens suportam cerca de 32x106 m3/ano de extracções para rega, dos quais apenas 24x106 m3/ano são efectivamente usados devido a perdas nas condutas, no percurso até à chegada à parcela regada (o que corresponde a cerca de 25% de perdas). As origens de água para rega captados nas grandes barragens são, por consequência modestas, quando comparados com os 158x106 m3/ano de águas subterrâneas actualmente consumidos para rega. 2 A fase final da construção das grande barragens actualmente existentes no Algarve foi acompanhada, também no final da década de 90, pela construção das infrastruturas associadas à manutenção do abastecimento em alta das redes públicas de abastecimento urbano. Iniciou-se assim, nos dois últimos anos do século passado, a substituição dos sistemas de abastecimento público suportados por captações de água subterrânea por águas captadas nas barragens. Recorda-se a este respeito que praticamente 100% das redes urbanas de abastecimento de água dos 16 concelhos do Algarve foram alimentadas, até ao final da década de 90, por águas subterrâneas. Cada sistema de abastecimento foi inteiramente dimensionado de forma independente por cada Câmara Municipal, desde os furos até às torneiras de cada consumidor. Ao mesmo tempo que os sistemas de abastecimento de água foram crescendo, o número de furos associado a outro tipo de usos, essencialmente agricultura, abastecimentos domésticos particulares e colectivos e golfes aumentaram de forma exponencial nos últimos 40 anos. Apesar do grande esforço realizado pela actual Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve), o inventário de captações de água subterrânea existentes no Algarve não é exaustivo. A base de dados actualmente existente naquela Direcção Geral inclui cerca de 8000 captações de água subterrânea cartografadas (Figura 2). De facto, até ao início da década de 80, a informação disponível acerca dos recursos hídricos subterrâneos do Algarve resumia-se praticamente aos relatórios técnicos de captações, nos raros casos em que estes eram elaborados (normalmente estes apenas existem para as captações mais importantes, usadas para abastecimento público). Por outro lado, as primeiras contribuições para a caracterização dos recursos hídricos subterrâneos do Algarve à escala regional surgiram no início dos anos 80. Infelizmente, as câmaras municipais, enquanto entidades integralmente responsáveis pela gestão do abastecimento de água, não possuíam no seu conjunto, qualquer instrumento (legal ou técnico) de planeamento regional que lhes permitisse articular as soluções técnicas implementadas localmente, com o conhecimento hidrogeológico que, já nessa altura, permitia traçar de forma relativamente precisa as potencialidades e vulnerabilidades hidrogeológicas da região. Deste modo, o conhecimento existente sobre os recursos hídricos do Algarve nunca se reflectiu, de forma efectiva, na qualidade do abastecimento público. Figura 2 – Localização de furos e poços cartografados no Algarve, juntamente com os contornos dos sistemas aquíferos do Algarve com importância regional. Fonte – Base de dados de águas subterrâneas da CCDR Algarve. 3 Os efeitos da ausência de planeamento e, consequentemente de estratégias eficazes de gestão da água, reflectiram-se, inevitavelmente, no surgimento de problemas localizados que conduziram à degradação de qualidade da água em parte, por vezes importante, de alguns dos sistemas aquíferos. Na maioria dos casos demonstrou-se, através de metodologias bem fundamentadas cientificamente, que os problemas detectados estão predominantemente relacionados com a agricultura em áreas regadas. Foram estas as circunstâncias que conduziram à definição da actual política de gestão da água para abastecimento público no Algarve, à semelhança do que aconteceu na maior parte de Portugal. O modelo escolhido, ao contrário do que preconizam os modelos mais actuais de gestão da água, assenta numa estratégia que consiste em privilegiar o dimensionamento de soluções baseadas no uso exclusivo de águas captadas em barragens, em detrimento das águas subterrâneas que suportaram a grande maioria dos abastecimentos públicos no passado. PROPOSTA DE DEFINIÇÃO DE TRÊS PERÍODOS PARA A GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS NO ALGARVE Perante os modelos de gestão da água em implantação no início do Século XXI, Monteiro (2002), no III Congresso Ibérico sobre Gestão e Planificação da Água, identificou três períodos distintos na história recente do uso dos recursos hídricos subterrâneos do Algarve: (1) um período (passado) em que os aquíferos constituíam a origem quase exclusiva para todos os tipos de uso; (2) um período (actual em 2002), no qual se verificava uma importante diminuição do volume de extracções associadas ao suprimento das necessidades relacionadas com o abastecimento urbano (que foi substituído por água captada nas grandes barragens) e (3) um período (então previsto para o futuro) em que as condições naturais prevalecentes no Algarve e a intensificação dos conflitos de interesses decorrentes da degradação da qualidade da água conduziriam à adopção de esquemas de gestão integrada mais sofisticados e eficientes que os actuais, baseados no uso conjunto de águas superficiais e subterrâneas. Este “futuro”, que há vários anos se previa, teve a sua estreia, quando a partir de Outubro de 2004, grande parte do abastecimento público do Algarve voltou a ser sustentado a partir de águas subterrâneas. Uma questão muito actual consiste na discussão das formas de adicionar a estas duas origens tradicionais o uso de águas residuais tratadas, fundamentalmente para rega, que é de toda a conveniência que se desenvolva a curto prazo. Nos períodos de menor precipitação que ciclicamente afectam a região, começa igualmente a ser fazer-se ouvir a discussão sobre a possível obtenção de água doce a partir da dessalinização de água do mar. De facto, esta poderá igualmente contituir uma origem suplementar, ainda que acarrete custos que são actualmente muito elevados. Em todo o caso, os beneficíos que possam vir a obter-se da integração destas origens, actualmente denominadas “não convevncionais”, nunca poderão ser obtidos sem que, a montante se efectue uma gestão adequada das chamadas “origens convencionais”. De maneira geral, as vantagens do uso conjunto (considerando apenas águas superficiais e subterrâneas) devem-se ao facto das variações de quantidade e qualidade das águas superficiais e das águas subterrâneas não coincidirem no tempo. Por consequência, é possível manter um sistema de abastecimento mais fiável mudando as origens sempre que necessário. As águas subterrâneas constituem normalmente um recurso mais fiável quando o armazenamento de águas superficiais tende para o mínimo. Sendo assim, as águas superficiais podem ser captadas prioritariamente durante os períodos de maior precipitação, permitindo assim a diminuição de exploração dos aquíferos durante o período de recarga. Este quadro geral é evidentemente uma simplifiacção excessiva de uma realidade que exige que estas 4 decisões sejam tomadas com base em trabalho quotidiano de análise das condições no terreno. Na prática, o que foi feito quando deixou de ser possível de sustentar o abastecimento público urbano a partir das grandes barragens, em 2004 e 2005, consistiu em construir “furos de emergência”, ou reactivar furos que integravam os antigos sistemas de abastecimento. Esta última solução nem sempre foi possível pois as estações de captação e bombagem encontram-se, em muitos casos, abandonadas e profundamente degradadas. De tal forma assim é que o visitante atento do Algarve encontra actualmente duas gerações de vestigios ruinosos que denunciam importantes falhas na gestão de recursos hídricos no Século XX: a primeira são os açudes, levadas e noras e, a segunda as estações de captação e bombagem de águas subterrâneas, construídas recorrendo a investimantos muito elevados nos últimos 30 anos, muitas vezes usadas na actualidade como depósitos de lixo abandonados. Um exemplo em que é possível ver vestigios das duas gerações na mesma área apresenta-se nas totografias da Figura 3. Figura 3 – Algumas imagens da estação abandonada de captação e elevação de águas subterrâneas de João d’ Ourém em Março de 2006. NOTA ACERCA DOS VALORES ACTUAIS DE CONSUMO A actividade com consumos de água mais elevados no Algarve é a agricultura (devido à rega), que é maioritariamente suportada por águas subterrâneas e, adicionalmente, por águas das grandes barragens. Segue-se o consumo doméstico que pode ser dividido em duas partes: (1) as redes de abastecimento público urbano, actualmente suportadas quase exclusivamente por água das grandes barragens e (2) abastecimentos privados, individuais ou colectivos, existentes nas zonas onde não existe rede de distribuição pública, suportados por águas subterrâneas. Os consumos de água associados à actividade do golfe são igualmente suportados de forma predominante por águas subterrâneas e, acessoriamente, pelas grandes barragens e, residualmente a partir de efluentes domésticos previamente tratados numa Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR). A Universidade do Algarve tem contribuído para a caracterização do padrão de consumo de água para os diferentes grupos de utilizadores em diferentes projectos ao longo dos últimos anos. Em traços gerais pode caracterizar-se o consumo regional de água como referido nos parágrafos seguintes. Espera-se que trabalhos actualmente em curso permitam acrescentar a estes valores estimativas para os consumos de água associados à indústria, sendo que este sector, juntamente com o abastecimento doméstico privado são aqueles em que se dispõe de menos informação acerca dos consumos. Relativamente à agricultura de regadio no Algarve, com particular incidência no Litoral, esta reparte-se por cerca de 20000 ha, nomeadamente os citrinos com 18000 5 ha, incluídos ou não em perímetros de rega. No que respeita ao golfe, as estimativas mais actuais, efectuadas num projecto terminado em 2005, apontam para consumos da ordem dos de 9.7×106m3/ano, o que corresponde a 0.341×106 m3/ano de consumo para um golfe equivalente de 18 buracos. Quanto ao abastecimento público urbano, somando os valores divulgados pela Águas do Algarve S.A. com as extracções camarárias, as estimativas existentes apontam para consumos actuais na ordem dos 72×106m3/ano. É de salientar a este respeito que, apesar da diminuição do volume de água fornecida pela empresa Águas do Algarve S.A. em 2005 (devido à indisponibilidade de água nas barragens devido à seca severa que afectou Portugal nesse ano), se tem verificado uma tendência contínua de aumento de volume da água entregue pela AdA S.A. aos municípios. Tal como se pode constatar da análise do gráfico na Figura 4, a partir de 2001, quando o sistema de abastecimento atingiu uma configuração próxima da actual, têm-se verificado aumentos de entrega de água às câmaras que chegaram a atingir 9% (entre 2002 e 2003). Água entregue (m3/ano) 70 60 52 50 40 55 61 63 52 36 30 20 10 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Figura 4 – Volume de água entregue pelas águas do Algarve SA ao municípios da região nos últimos anos (Fonte Águas do Algarve S.A.). Em síntese, e desprezando o uso doméstico privado e industrial, estima-se que o consumo anual de água no Algarve, em especial no Litoral, excede os 262x106 m3/ano. Este valor corresponde a uma estimativa por defeito, pois não inclui o volume dos consumos associados a abastecimentos domésticos privados e à indústria. No Quadro 2 apresenta-se uma síntese dos valores de consumo de água actuais no Algarve descritos nos parágrafos anteriores. Para finalizar refere-se que os investimentos feitos na segunda metade do século XX no “sector da água” no Algarve foram da ordem dos 1000 milhões de euros. 6