Resenha – Um dia de captador de Marcelo Estraviz Tacilla da Costa e Sá Siqueira Santos Rev. Eletrônica Portas, v.5, n.5, p.53-56, mar.2014 Com a palavra o captador! Tacilla da Costa e Sá Siqueira Santos1 O livro “Um dia de captador” escrito por Marcelo Estraviz (2011) não tem pretensões acadêmicas e não explicita grandes discussões teóricas. Traz em seu bojo as leituras e formações pelas quais o autor transitou ao longo de sua carreira, compartilhando, sobretudo, o que observou e vivenciou no trabalho com organizações da sociedade civil. A essência da obra traduz-se naquilo que seu título muito claramente aponta: um dia na vida de um captador de recursos de uma organização sem fins lucrativos. Profissional conhecido no âmbito da captação de recursos, coautor do livro “Captação de diferentes recursos para organizações sem fins lucrativos” – lançado no início do ano 2000 como parte da coleção ‘Gestão e Sustentabilidade’ do Instituto Fonte –, e um dos fundadores da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), Estraviz constrói essa obra entremeando o relato dos compromissos e impressões do captador de recursos na busca de parceiros e financiadores para a fictícia organização não governamental (ONG) “Jovens Globais”, com “pílulas” de informações técnicas e dicas úteis para os captadores de recursos brasileiros que atuam ou querem atuar na área social. Para descrever um dia na vida do captador de uma ONG, que se inicia às oito e meia da manhã e somente finda à noite, buscou inspiração em situações vivenciadas por amigos ou por ele próprio. A narrativa em primeira pessoa e o tom informal aproximam autor, personagem e leitor, conferindo leveza à leitura. O viés instrumental aparece enfatizado pelo próprio autor quando este afirma que o livro é “[...] para quem montou ou vai montar agora um departamento de captação para uma entidade que defende uma causa.” (Estraviz, 2011:18). As dicas contidas nas “pílulas” fazem do livro uma espécie de manual, daqueles que podem ser mantidos na mesa de trabalho para consultas sistemáticas. Ao descrever o dia do captador de recursos – que inclui reunião com apoiadores para solicitação de ampliação do montante doado, reunião com o assistente para discussão de prospects e projeto para organização internacional, reunião com potencial doadora, reunião com estagiário para tratar de newsletter, leitura e resposta a e-mails, reunião com voluntários para ajustes referentes à evento, reunião com empresário do bairro e 1 Doutora em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com pesquisa sobre o papel das organizações da sociedade civil brasileiras na cooperação internacional para o desenvolvimento. Mestre em Administração e graduada em Comunicação Social. Por cinco anos coordenou a área de Comunicação e Mobilização de Recursos do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Bahia (Gapa-Bahia). É professora da Pós-Graduação da Universidade Salvador (UNIFACS). 53 Resenha – Um dia de captador de Marcelo Estraviz Tacilla da Costa e Sá Siqueira Santos Rev. Eletrônica Portas, v.5, n.5, p.53-56, mar.2014 participação em jantar beneficente da entidade –, mostra a importância da compreensão do aspecto humano, dos indivíduos com seus dilemas e peculiaridades, para o processo de captação de recursos, que envolve, essencialmente, a relação com pessoas. As nove “pílulas” apresentadas no livro denominam-se: “Buscando aliados”; “Diversificando as fontes de financiamento”; “Plano anual de captação”; “Consultoria de desenvolvimento institucional”; “Case statement (ou a pasta)”; “Convênios com governos”; “Conselho consultivo”; “Base de dados”; “Fontes internacionais”; “ABCR”; “Captação com indivíduos”; “Geração de renda”; “Captação via web”; “Campanha capital”; “Voluntários”; “Eventos de arrecadação”; e, “Cidadania ativa”. De cada uma delas emergem orientações práticas que podem parecer óbvias à primeira leitura, mas certamente fazem a diferença na aplicabilidade cotidiana das ONGs brasileiras às voltas com a busca de recursos que corroborem para a sua sustentabilidade e para o fortalecimento da causa que defendem. Entre as dicas ressaltadas pelo autor, algumas merecem especial destaque. Ao tratar da busca de aliados, é enfatizado que esses são a base da captação de recursos. O dinheiro, nessa perspectiva, é consequência de uma base de aliados ampla e fortalecida. Sobre a diversificação de fontes, o autor lembra a importância das organizações terem recursos provenientes de ao menos três diferentes fontes, sem que cada uma delas ultrapasse um terço do montante total de recursos da entidade. Ao fazer referência ao plano de captação, salienta que esse deve responder a duas perguntas: Quanto é preciso captar? Até quando vai a campanha de captação? Ao tratar do conselho consultivo defende a ideia de uma formação tripartite que inclua “ricos”, “artistas” e “normais”. “Fórmula” que, garante, é de suma importância para o sucesso da captação de recursos. Afirma ainda a importância da base de dados, ressaltando, contudo, que o bom uso dela depende do captador. Nesse sentido salienta: “Uma base de dados é só uma base de dados. Um captador com uma base de dados conquista o mundo.” (Estraviz, 2011:93). Sobre o trabalho voluntário, lembra que esse não deve ser utilizado para atividades estratégicas da organização – que devem ser profissionalizadas. Ressalta que “O voluntariado não é um mecanismo de economizar custos, e sim de potencializar o trabalho pela causa.” (Estraviz, 2011:158). Ao tratar dos eventos de arrecadação, enfatiza a importância de realizá-los de acordo com o tamanho e as possibilidades da organização, lembrando que eventos devem ser momentos lúdicos que permitam encontros, descontração e celebração. A última “pílula” apresentada pelo autor trata da “cidadania ativa” e tem um caráter de ordem mais reflexivo do que prático, aspecto pelo qual se difere das demais. Talvez se localize aí, entre as páginas 182 e 186, o momento mais importante da obra. O momento no qual Estraviz trata do sentido e da importância da participação social e do exercício da cidadania. E, ao tratar desses, faz uma correlação com a ideia da doação de recursos para causas sociais. Com essa “pílula”, ao defender a máxima de que “Um cidadão ativo seria um cidadão consciente” e ainda “um doador ativo” (Estraviz, 2011:184), conduz o 54 Resenha – Um dia de captador de Marcelo Estraviz Tacilla da Costa e Sá Siqueira Santos Rev. Eletrônica Portas, v.5, n.5, p.53-56, mar.2014 leitor a incorporar a lógica de que a doação consciente para causas sociais é, em última instância, um ato de cidadania. Destarte as considerações acerca da “cidadania ativa”, sente-se no livro de Estraviz a ausência de uma discussão mais crítica sobre a captação de recursos. Questões como a adequação entre a causa/missão da organização e a captação de recursos não são tratadas em profundidade. A ênfase na profissionalização, e as técnicas a essa relacionadas, findam por, de certa forma, despolitizar a discussão sobre a captação de recursos. A valorização dada ao retorno de imagem, assim como ao lugar e tamanho do nome e/ou marca dos doadores dos projetos sociais e o uso de exemplos comparativos com empresas da rede varejista, é muitas vezes maior do que o foco no sentido político da doação. Da doação como participação e, nessa perspectiva, do doador como corresponsável pelo processo de transformação social. De fato, algumas vezes parece que, no intuito de garantir objetividade à lógica da captação de recursos, Estraviz acaba por defender uma atuação muito próxima da que é feita pelas empresas privadas que atuam em uma perspectiva de mercado. Essa objetividade tem o seu ápice quando, ao tratar de captação via web, afirma: “Não estamos pedindo reflexão consciente, e sim dinheiro.” (Estraviz, 2011:144). A afirmação parece contrapor-se, no entanto, a outra feita em seguida, quando, em uma abordagem acerca da campanha capital, diz que esta deve tratar de “[...] envolver pessoas na construção de um sonho coletivo.” (Estraviz, 2011:146). Arrisca assim, gerar no leitor uma confusão: Qual é o sentido da construção de um sonho coletivo se não houver uma reflexão consciente? Necessário ressaltar ainda, que a estrutura e nível de profissionalização da ONG fictícia utilizada por Estraviz para “dar vida” à obra, representa uma pequeníssima parte do universo composto pelas ONG brasileiras. A realidade é que muitas dessas organizações – provavelmente a maioria delas – jamais contaram com o aparato do qual dispõe a ONG descrita. Outro aspecto interessante refere-se à opção do autor pela utilização do termo “captação de recursos” durante toda a narrativa, sendo que, ao concluir a obra – já no final do epílogo, assume o uso do termo “mobilização de recursos” ao afirmar: “Mobilizar recursos é, para mim, como encontrar aliados para a vida.” (Estraviz, 2011:190). A mudança na terminologia utilizada chama a atenção, uma vez que a discussão sobre a utilização dos termos “captação” ou “mobilização” de recursos está posta para e pelas organizações da sociedade civil, há alguns anos. Existem, deste modo, aqueles que defendem a utilização do termo “mobilização” (Iório, 2001; Santos, 2005; Armani, 2009) por entender que este traz uma perspectiva ampliada, englobando, não somente os recursos destinados aos projetos organizacionais, como também, o comprometimento da sociedade, que teria como consequência a destinação de recursos. A mobilização estaria, portanto, para além da mera obtenção de recursos, sendo estes o resultado último de um 55 Resenha – Um dia de captador de Marcelo Estraviz Tacilla da Costa e Sá Siqueira Santos Rev. Eletrônica Portas, v.5, n.5, p.53-56, mar.2014 trabalho organizacional bem feito e de uma sociedade mobilizada, acreditando na causa e na organização. Nesse sentido, o elemento central do conceito de “mobilização de recursos” é o desenvolvimento de uma ação educativa dirigida a todos os setores da sociedade, no intuito do reconhecimento do papel de cada um desses atores no enfrentamento dos graves problemas sociais brasileiros. Entretanto, há autores e representantes da sociedade civil organizada que optam por falar em “captação de recursos”, ou não fazem distinção entre os termos. De fato, podemos hoje, na literatura e nas discussões sobre organizações da sociedade civil e seu campo de gestão, encontrar as duas terminologias, utilizadas por diversos autores. Doravante as questões postas, “Um dia de captador” propicia uma leitura agradável e as dicas nele contidas parecem de fácil utilização. O percurso literário, da primeira à última página do livro, pode ser feito em algumas horas. A linguagem coloquial e o tom próximo facilitam a leitura fazendo com que o leitor se sinta partícipe das situações vivenciadas pelo personagem. Importa ressaltar, por fim, que o livro está sob a licença do common rights, o que permite ao leitor “copiar, imprimir, mixar ou citar” a obra, em uma perspectiva que coaduna com a lógica da solidariedade (neste caso intelectual) defendida pelo autor. Referências ARMANI, Domingos. Mobilização de recursos: um desafio para a organização e a gestão. Comunidade de Reflexão Política do Portal Mobilizar, março 2009. CRUZ, Célia, ESTRAVIZ, Marcelo. Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil. São Paulo: Global, 2000. [Coleção Gestão e Sustentabilidade]. ESTRAVIZ, Marcelo. Um dia de captador. São Paulo: Zeppelini Editorial, 2011. Disponível em: http://issuu.com/zeppelini/docs/livro_captador IÓRIO, Cecília. Mobilização de recursos: algumas ideias para o debate. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Aids e Sustentabilidade: sobre as ações das organizações da sociedade civil. Brasília: Ministério da saúde, 2001. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/aids_sustentabilidade.pdf SANTOS, Tacilla da C. S. S. As diferentes dimensões da sustentabilidade em uma organização da sociedade civil brasileira: o caso do Grupo de apoio à Prevenção à Aids da Bahia. Dissertação (Mestrado em Administração), Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005. Disponível em: http://institutofonte.org.br/sites/default/files/Santos%20TC_As%20diferentes%20dimen soes%20da%20sustentabilidade.pdf 56