XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
O TRABALHO DOS PEDAGOGOS/ PROFESSORES E A PEDAGOGIA
COMO CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR
Bruna Pereira Alves Fiorin, UFSM
Maria Cecília Martins Manckel, UFSM
RESUMO
Este trabalho é uma sistematização dos resultados parciais de uma pesquisa realizada,
desde 2010, com pedagogos (trabalhando especificamente como professores), em uma
Escola Estadual de Educação Básica da Região Central do Rio Grande do Sul. Objetivase entender como acontece o trabalho dos pedagogos/professores e como estes
profissionais representam, em seus discursos, a concepção de Pedagogia, revelando
entendê-la ou não como ciência da educação. Os estudos e interações são realizados
pelas pesquisadoras considerando a Pedagogia como ciência da educação, uma ciência
da práxis educativa, com especificidade própria, que contempla a educação numa
perspectiva problematizadora. Considera-se ainda, o trabalho dos pedagogos/
professores como sendo a produção da aula e, nesta, a produção do conhecimento a
partir da linguagem (FERREIRA, 2008). Os dados aqui discutidos e analisados foram
coletados através da realização de momentos distintos: entrevista - semi-estruturadas e
grupos de interlocução - momentos coletivos em que os participantes da pesquisa se
reúnem para conversar sobre as questões fundamentais do projeto e das entrevistas. A
apreciação dos dados é realizada por meio da Análise de Conteúdo, segundo Bardin
(2006). Prioriza-se o discurso das pedagogas/professoras no seu contexto de trabalho,
possibilitando ao grupo de pesquisadoras evidenciar os sentidos que os sujeitos da
pesquisa atribuem às categorias Trabalho e Pedagogia como ciência. Está sendo possível
perceber, no evoluir dos grupos de interlocução, que as pedagogas/ professoras tem ampliado
suas compreensões sobre as categorias deste estudo e tem repensado o seu trabalho. Esta
pesquisa ainda está em andamento, pois pretende-se dar continuidade aos grupos de
interlocução, acreditando que está sendo produzindo um material relevante sobre a
temática e se tem realizado produtivas discussões.
Palavras-chave: Pedagogos/ Professores; Pedagogia; Trabalho.
1 CAMINHOS DA PESQUISA
O trabalho aqui apresentado é resultado de sistematizações realizadas a partir do
projeto de pesquisa “O Trabalho dos Pedagogos na escola: Desafios e Perspectivas”,
iniciado em 2010, com continuidade nos anos de 2011 e 2012.
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Com esta pesquisa visa-se a entender os sentidos que os pedagogos,
especificamente os que trabalham na escola como professores, atribuem ao seu trabalho,
à Pedagogia e a si mesmos como cientistas da educação.
Os primeiros passos da pesquisa aconteceram a partir de 2010, quando foi
realizado contato com a equipe gestora de uma Escola Estadual de Educação Básica da
Região Central do Rio Grande do Sul e seu conjunto de pedagogos/professores. Após
conversa sobre o projeto, seis pedagogas/ professoras (somente mulheres) interessaramse em participar da pesquisa. Este número compreendia a metade dos pedagogos da
escola, o que não impediu que a investigação fosse muito produtiva. Por experiência em
outros projetos, sabe-se que ainda há uma grande resistência por parte dos professores
das escolas em participarem deste tipo de trabalho, seja por vergonha, medo de se
expor, ou por falta de interesse em participar de momentos assim. Além disso, grande
parte, ou todos os interessados, são, geralmente, do sexo feminino, ressaltando uma
questão de gênero já bem marcante nas escolas, ambiente em que a maioria dos
professores são mulheres.
Os dados aqui discutidos e analisados foram coletados através da realização de
momentos distintos:
a) entrevista semi-estruturada: contato entre pesquisadoras e entrevistadas;
b) grupos de interlocução: momentos coletivos em que se reúnem as participantes da
pesquisa para conversar sobre as questões fundamentais do projeto e das entrevistas.
Nos primeiros encontros com as pedagogas/ professoras realizou-se entrevista
semi-estruturada com a seguinte problematização: A Pedagogia é a ciência da educação.
Em seu cotidiano profissional, no trabalho que realiza você se considera cientista da
educação? Em quais momentos? Você se sente satisfeita como profissional pedagoga e
com o trabalho que desenvolve?
As entrevistas foram previamente agendadas com os sujeitos da pesquisa e
realizadas individualmente, para uma melhor privacidade e diálogo, possibilitando um
espaço em que cada entrevistada pudesse se expressar com mais liberdade. Sobre o
contexto das entrevistas Duarte (2002) afirma que:
As situações nas quais se verificam os contatos entre pesquisador e sujeitos
da pesquisa configuram-se como parte integrante do material de análise.
Registrar o modo como são estabelecidos esses contatos, a forma como o
entrevistador é recebido pelo entrevistado, o grau de disponibilidade para a
concessão do depoimento, o local em que é concedido (casa, escritório,
espaço público, etc.), a postura adotada durante a coleta do depoimento,
gestos, sinais corporais e/ou mudanças de tom de voz etc., tudo fornece
elementos significativos para a leitura/interpretação posterior daquele
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depoimento, bem como para a compreensão do universo investigado
(DUARTE, 2002, p. 145).
Esse diálogo por meio das entrevistas possibilitou conhecer as entrevistadas e
suas histórias de vida, bem como o contexto escolar no qual estão inseridas. Além das
perguntas realizadas, elas se sentiram bem à vontade e conversaram sobre suas famílias,
problemas pessoais, carreira profissional, notícias que estavam acontecendo na mídia
em relação à educação, enfim, falaram muito mais do que se esperava. Segundo Duarte
(2002),
Falar de gostos e interesses pessoais, da relação com os pais, do ambiente
familiar, da própria infância e juventude, dos amigos, de experiências
escolares, de um modo geral, deixa as pessoas mais livres para expressarem
idéias, valores, crenças, significações, expectativas de futuro, visões de
mundo e assim por diante (DUARTE, 2002, p. 146-147).
Foi possível, a partir de uma conversa prévia, amenizar as relações de poder
geralmente presentes neste tipo de pesquisa, dando espaço e confiança para que as
entrevistadas falassem não só sobre o que lhes era questionado, mas também sobre
outras inquietações que tinham e suas questões pessoais. Importante ressaltar que,
apesar da liberdade que as pedagogas/ professoras tiveram para falar de outros assuntos,
as pesquisadoras buscaram sempre retomar a investigação fazendo ligação dos discursos
com o foco da pesquisa.
Para Haguete (1987), “[...] a idéia de participação envolve a presença ativa dos
pesquisadores e de certa população em um projeto comum de investigação que é ao
mesmo tempo um processo educativo, produzido dentro da ação” (HAGUETE,1987, p.
142). Foi pensando nesse processo educativo que estão acontecendo os grupos de
interlocução, objetivando, através do diálogo entre todas, momentos produtivos de
discussão.
Para apreciação dos dados utilizou-se a Análise de Conteúdo com base em
Bardin (2006), entendida como “[...] um conjunto de técnicas de análise das
comunicações, (leque de apetrechos) com o objetivo de superar as incertezas e
enriquecer as leituras dos documentos ou dados coletados em diferentes tipos de
abordagens” (BARDIN, 2006, p. 27).
Esta técnica de análise é organizada a partir das seguintes etapas:
a) Pré-Análise: compreende a Leitura Flutuante (escolha e organização dos documentos
a serem trabalhados);
b) Exploração do material: administração sistemática das decisões tomadas;
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c) Tratamento dos resultados, Interpretação e Inferências: no decorrer do processo de
tratamento dos resultados acontece a categorização, entendida como “[...] operação de
classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e,
seguidamente por reagrupamento segundo gênero (analogia) com critérios previamente
definidos” (BARDIN, 2006, p. 111).
Devido à centralidade e importância da categorização na Análise de Conteúdo
estabeleceram-se como categorias prévias para esta pesquisa: a Pedagogia como ciência
e o Trabalho dos pedagogos/ professores; dialogicamente elaboradas, buscando
elementos para a compreensão da problemática.
Durante as etapas de realização desta pesquisa está sendo possível perceber, nos
discursos das pedagogas/ professoras, os sentidos que elas atribuem a Pedagogia e ao
seu trabalho no contexto escolar.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
A base teórica desta pesquisa busca contemplar pontos importantes sobre o
trabalho dos pedagogos como professores e a Pedagogia como ciência da educação.
Inicialmente, destaca-se que o pedagogo/ professor deve compreender a
amplitude e complexidade de seu trabalho não apenas pelas exigências que lhe são
feitas pela escola, pelos pais ou pela sociedade em geral, mas porque seu trabalho é o
que o constitui. Vieira Pinto (1969) afirma que:
Qualquer que seja o campo de atividade a que o trabalhador científico se
aplique, a reflexão sobre o trabalho que executa, os fundamentos existenciais,
suportes e as finalidades culturais [...] não podem ficar à parte do campo de
interesse intelectual do pesquisador, que precisa conhecer a natureza do seu
trabalho, porque esse é constitutivo da sua própria realidade individual
(VIEIRA PINTO, 1969, p.3).
Portanto, o pedagogo/ professor precisa conhecer e refletir sobre o seu trabalho,
sobre o que o fundamenta, sua natureza, objetivos, sobre o que almeja. O que o
pedagogo/ professor entende que é o seu trabalho? Como ele se percebe enquanto
pedagogo que trabalha especificamente como professor? Pensando nestes aspectos, o
grupo de pesquisadoras acredita ser importante apresentar a sua compreensão sobre o
trabalho destes profissionais. O entendimento que se tem é de que o trabalho dos
pedagogos/ professores é a produção da aula e, nesta, a produção do conhecimento a
partir da linguagem (FERREIRA, 2008).
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Mediante conhecimentos específicos, os pedagogos/ professores buscam formas
de intervenção metodológicas nas atividades educativas. Porém, observa-se a
necessidade da análise epistemológica da educação, partindo da ideia da Pedagogia
como uma ciência que investiga a realidade educativa. Dessa maneira, as perguntas do
como e o que ensinar permeiam o trabalho dos pedagogos/ professores.
A ação educativa precisa ser diferenciada da ação ética ou política, por
objetivar a produção do homem em homem. Na medida em que o “como” e o
“que” desta produção do homem em homem pelo homem (educador) não é
fixada naturalmente ou dada transcedentalmente, a educação precisa de uma
diretriz teórica através da pedagogia, que por sua vez não pode se remeter a
um treino “natural” ou a uma “sabedoria” transcedental da educação. Em
conseqüência, a diretriz teórica da prática educacional precisa ocorrer através
da pedagogia como teoria cientifica [...] (SCHMIED-KOWARZIK, 1988, p.
128-129).
Assim, o trabalho dos pedagogos/ professores precisa articular a vida social
(mundo informal) com a vida escolar (mundo formal), tornando a escola um espaço de
síntese, pois mesmo diante das diversas situações enfrentadas por eles, ainda existem
funções que apenas a escola pode desempenhar. Sobre esta afirmação Libâneo (2006)
afirma:
O enfrentamento de novas exigências educacionais e novas realidades das
práticas educativas inclui, também, repensar os processos de ensino e
aprendizagem. Há uma efetiva transformação na concepção de conhecimento,
em decorrência do surgimento de novos paradigmas da ciência, das
inovações tecnológicas e comunicacionais. Para essa nova racionalidade, é
preciso reavaliar a investigação sobre ensino e aprendizagem [...] trata-se de
fortalecer a investigação sobre os processos cognitivos, em que se destaca o
movimento de ensinar a pensar. Das escolas e dos professores está sendo
requerida a ajuda aos alunos no desenvolvimento da qualidade do pensar, de
habilidades e estratégias de pensamento autônomo, crítico e criativo
(LIBÂNEO, 2006, p. 91).
A partir desta afirmação destaca-se a importância da escola ser um ambiente em
que o estudante aprenderá a ser crítico em relação aos acontecimentos vivenciados por
ele, vistos na televisão, discutidos no social, posicionando-se em relação a esses fatos,
produzindo sentidos. Considerando esta conjuntura reforça-se a relevância do pedagogo/
professor compreender e refletir sobre o seu trabalho e sobre si mesmo como
trabalhador, levando em conta o contexto educacional na sua totalidade.
Ao problematizar o trabalho dos pedagogos/ professores a partir da realidade
apresentada procura-se elementos para reconstituir a imagem social destes profissionais
pelo viés da Pedagogia como ciência da educação. Nesse processo, reafirma-se a crença
de que há sim uma ciência, cujo objeto é a educação, mais especificamente a produção
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do conhecimento, com todas as interfaces necessárias com outras ciências para entender
a educação e a educação escolar.
Utiliza-se o termo Pedagogia, entendendo-o como ciência da educação, cujo
objeto de estudo é a educação em seus aspectos amplos, detendo-se na escola, por ser a
instituição representativa de um projeto formal e social de educação na história da
humanidade. Vale dizer, a educação escolar é apenas uma espécie de educação inserida
no campo de estudos próprios da Pedagogia. Do mesmo modo, como Mazzotti (2006),
reitera-se e esclarece-se que se utiliza a palavra “Pedagogia” para referir aos saberes
relativos à educação, “[...] procurando evitar a confusão entre o fazer e o que se diz a
seu respeito. Todavia, uma ou outra se põe com o Curso de Pedagogia. Aqui não se trata
do curso, mas daquele conjunto de saberes” (MAZZOTTI, 2006, p. 546).
Essa preocupação em esclarecer o uso deste termo deve-se ao fato de observar,
cotidianamente, certas imprecisões semânticas, expressões que parecem confundir o
sentido de Pedagogia, explicitando-a, segundo Ferreira (2010) de maneiras diversas:
a) Pedagogia como metodologia;
b) Pedagogia como didática;
c) Pedagogia somente como designação de licenciatura em Pedagogia;
d) Pedagogia como sinônimo de entendimento único de educação;
e) Pedagogia como estudo da educação, excetuando-se a escola, o conhecimento, os
professores, as práxis;
f) Pedagogia como área sem objeto específico.
Considerando essas imprecisões, Franco (2008) afirma:
[...] mas o que se quer aqui realçar é que tais controvérsias não são apenas
conceituais, mas expressam e carregam a apropriação cultural das práxis
históricas que ressignificam os conceitos, se isso não for considerado corre-se
o risco de produzir distorções no discurso pedagógico, acarretando
repercussões na consideração de tais termos na prática pedagógica
(FRANCO, 2008. p.351).
Assim, ratifica-se a crença na dialeticidade como necessária à abordagem dos
processos de elaboração da ciência Pedagogia, cujas condições, proposições e
pressupostos não são somente contemporâneos. Ao contrário, vêm se constituindo desde
que os seres humanos passaram a formalizar a educação, ou seja, desde que
estabeleceram uma diferença entre quem sabe e quem não sabe, e atribuíram
responsabilidades ao primeiro: ensinar ao segundo. Nessa época, não havia uma
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teorização da Pedagogia, ou a compreensão de ser ciência da educação, mas era
praticada uma ação pedagógica.
De mero transmissor de conhecimentos, a alguém que deve orientar para um
novo horizonte; de mero transmissor de conteúdos, a Pedagogia e o pedagogo passam
agora, a lidar com um abrangente conceito de educação. Para tanto, lhes é exigido ser
profissional que reafirmará os valores, a conduta ética, a alguém que educará para
saúde, para direitos e deveres, educar para que os estudantes tenham condições de fazer
escolhas e de construir seu destino, adaptando-se continuamente em um mundo em
transformação.
3 RESULTADOS E DISCUSSÔES
Durante as respostas das entrevistas e nos diálogos nos grupos de interlocução
até o momento, procurou-se considerar as distinções existentes entre as pedagogas/
professoras e seu ambiente de trabalho, pois algumas trabalham no período da manhã
nessa escola de Educação Básica e a tarde em outras escolas públicas da cidade, em
séries iguais ou diferentes. Percebeu-se ser recorrente as pedagogas/ professoras se
reportarem ao seu trabalho não só na escola na qual a pesquisa acontecia, mas sobre a
realidade das outras escolas nas quais também trabalhavam.
- “Aqui na escola os professores ainda são valorizados pelos alunos, em outras escolas
que trabalhei a realidade é bem diferente [...]”(PEDAGOGA 03).
Nesse discurso fica evidente a comparação da escola atual com outras em que já
trabalhou. Esse fato das pedagogas/ professoras remeterem-se a experiências em outras
escolas enriqueceu a investigação, possibilitando ampliar as discussões e demonstrando
um maior envolvimento das entrevistadas com a pesquisa.
Enquanto ocorriam as transcrições das entrevistas, buscando uma relação das
respostas com os pressupostos teóricos, foi sendo identificado pelo grupo de
pesquisadoras que algumas entrevistadas deixam explícito, em seus discursos, que não
se percebem como cientistas, ou seja, não compreendem a Pedagogia como ciência.
Esclareceu-se que se entende a Pedagogia como ciência da educação, mas as respostas
direcionaram-se para o oposto:
- “Não, não me considero [...] eu não me sinto uma cientista, tá bem distante daquilo
que nós temos exercido. Gostaria, mas não me sinto uma cientista” (PEDAGOGA 04).
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- “Eu não sei te dizer se eu me considero uma cientista da educação porque geralmente
a gente tem a palavra cientista como algo muito longe da gente [...] Acho que não. Eu
não me considero” (PEDAGOGA 02).
No discurso das entrevistadas fica evidente um distanciamento da Pedagogia
como ciência de seu trabalho como pedagogas/ professoras. A entrevistada 04 acredita
que, de acordo com seu trabalho, ela não pode ser uma cientista da educação. A
entrevistada 02 deixa transparecer que acredita que para ser cientista é preciso muito
mais do que o que ela faz, já que percebe a ciência como uma realidade muito distante
da dela. Será que estas pedagogas/ professoras realmente tem uma compreensão do seu
trabalho? Que visão é esta de ciência, tão perfeita e aparentemente inalcançável, que
elas tem?
Além da negação da cientificidade da Pedagogia, também se identificou uma
compreensão diferenciada sobre a Pedagogia em si:
Eu me considero porque no momento que tu trabalha primeiro através da
brincadeira, trabalha a realidade, os conteúdos cotidianos, o conhecimento
cotidiano, no final tu faz toda uma elaboração e tu passa a questão cientifica
pras crianças, né [...] (PEDAGOGA 03).
Olha às vezes eu me considero, às vezes não, né, [...]com amor e carinho é o
meu jeito de educar. Então quando eu consigo fazer aquele amor aprender
pelo menos pelo pré-silábico ou silábico, querendo ou não querendo eu sou
um pouquinho cientista (PEDAGOGA 05).
A pedagoga/ professora 03 afirma que se considera cientista, mas deixa
transparecer que o é por trabalhar “questões científicas” com as crianças. A pedagoga/
professora 05 se considera cientista quando consegue fazer com que uma criança
aprenda algo, utilizando sempre um ambiente afetivo na sala de aula. Ambas as
entrevistadas não estão se referindo a cientificidade da Pedagogia, mas a sua própria
metodologia de trabalho, aos métodos que utilizam.
Ao concluir essa etapa das entrevistas, evidenciava-se que as entrevistadas não
tinham o entendimento ou tinham uma compreensão diferenciada sobre Pedagogia
como ciência e o pedagogo como cientista, resultando em uma visão distorcida de seu
próprio trabalho.
Considerando estas indefinições iniciaram-se os grupos de interlocução a fim de
aprofundar questões referentes à Pedagogia como ciência e ao trabalho do pedagogo/
professor.
Em um primeiro encontro discutiu-se a compreensão dos sujeitos da pesquisa
sobre o seu trabalho:
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O pedagogo tem uma formação multidisciplinar que dá subsídios para uma
reflexão, realidade versus conhecimento que é igual a conduzir alternativas
que visam facilitar ou efetivar o processo ensino-aprendizagem. Nas
dificuldades este conhecimento auxilia para encaminhar aos profissionais
que poderão ajudar e a aprendizagem poder acontecer (PEDAGOGA 03).
“Penso que um pedagogo precisa de uma formação superior consolidada na
teoria e na prática, para alcançarmos a excelência que tanto almejamos e que a
sociedade necessita” (PEDAGOGA 02).
As pedagogas/ professoras 02 e 03 destacam a importância de uma formação
pedagógica que dê subsídios teóricos e práticos para que, em seu trabalho, possam
efetivar o processo de ensino-aprendizagem e atender às exigências contemporâneas,
possibilitando a vivência e a rotina como pedagogas/ professoras.
Está sendo possível perceber, no evoluir dos grupos de interlocução, que as
pedagogas/ professoras tem ampliado suas compreensões sobre a Pedagogia como
ciência e sobre o seu trabalho. É possível evidenciar esta realidade a partir dos discursos
abaixo:
Me percebo como cientista ao enfrentar desafios. Isso acontece muito
dentro da escola, pois tem que saber perceber várias circunstâncias dentro
desta profissão, o que nos faz estudar, pesquisar, procurar em várias áreas
sempre. Temos que pensar o que a criança precisa: de um Psicólogo? De
um Neuro? Fono? Temos que ter essa visão. E para isso temos que estudar
para entender e superar os desafios, diferente das outras licenciaturas que
não tem essa visão (PEDAGOGA 01).
A pedagoga 04 complementa afirmando que “Cientista é o pesquisador, o
educador. É como eu me sinto quando tenho um desafio, como, por exemplo, a
inclusão” (PEDAGOGA 04).
Estes discursos mostram que as pedagogas/ professoras remetem-se ao curso de
Pedagogia como diferente das outras licenciaturas, pelos fundamentos serem mais
abrangentes e possibilitarem que o pedagogo/ professor tenha conhecimentos em
diferentes dimensões da escola, o que os auxilia na prática.
Além disso, quanto mais os pedagogos/ professores se compreenderem como
sujeitos conscientes e atuantes em suas ações com e no mundo, responderão aos
desafios impostos ao seu trabalho de modo a ter a percepção de que essas problemáticas
não ocorrem isoladamente, mas são ações articuladas e dinâmicas em diversos
contextos. Sendo assim, ao responderem a esses novos desafios surgirão muitos outros,
fazendo com que os professores estejam em constante processo de reflexão,
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comprometendo-se com si mesmos, com seus trabalhos e com a educação. Porém, o
reconhecimento de si como trabalhadoras ainda não se faz presente.
Portanto, compreende-se que é necessário que os pedagogos/ professores sejam
profissionais
que
estejam
permanentemente
atualizando-se,
antecipando-se,
pesquisando, desenvolvendo alternativas e implantando diferentes formas para a
produção de conhecimentos significativos e transformadores, capazes de contribuir
responsavelmente para o bem-estar social.
CONSIDERAÇÕES
Considera-se que é de grande relevância esta pesquisa, pois, através dela, os
pedagogos e outros profissionais da educação terão a oportunidade de dialogar e refletir
sobre seu trabalho e sua práxis, questionando as realidades vigentes. Ainda mais que se
tem percebido a necessidade de um espaço-tempo para os professores dialogarem,
refletirem sobre suas práticas no grupo (escola) e de forma individual (sala de aula), ou
seja, se perceberem como pesquisadores de sua própria práxis, entendida como a
indissociação entre teoria e prática.
Os pedagogos precisam se reconhecer no campo da investigação e no seu
trabalho dentro da variedade de atividades voltadas para o educacional e a para o
educativo. Pedagogo é o profissional que lida com fatos, estruturas, contextos,
situações, referentes à prática educativa em suas várias modalidades e manifestações
(FERREIRA, 2008).
Sistematizando os resultados até o momento, pode-se destacar como
considerações a partir da pesquisa que se está desenvolvendo:
a) Inicialmente as pedagogas/ professoras, participantes da pesquisa, não se
consideravam cientistas, pois percebiam a ciência como algo distante. Neste caso, para
as entrevistadas, um cientista era aquele que exercia uma atividade para obter
conhecimento, que tem tempo, recebe para pesquisar e que está ligado à universidade.
b) Percebe-se que a falta de entendimento ou a compreensão diferenciada sobre
Pedagogia como ciência e o Pedagogo como cientista, faz com que, muitas vezes, estes
pedagogos recebam o que lhes é dito (imposto) pela sociedade ou pelas outras áreas do
conhecimento como sendo o seu trabalho;
c) A partir dos grupos de interlocução estão sendo discutidas importantes questões no
âmbito da Pedagogia e do trabalho dos pedagogos/ professores, o que já tem
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demonstrado positivas mudanças em relação às antigas compreensões que estes sujeitos
tinham sobre o seu trabalho.
Esta pesquisa ainda está em andamento, pois se pretende dar continuidade aos
grupos de interlocução, acreditando que está sendo produzindo um material relevante de
reflexão sobre a Pedagogia como ciência e sobre o trabalho dos pedagogos/ professores,
com situações do dia-a-dia do contexto escolar, tendo como base a contribuição
significativa destes profissionais sobre eles próprios, suas práticas educativas, seu fazer
pedagógico.
REFERÊNCIAS
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_______. Gestão do pedagógico: de qual pedagógico se fala? In: Currículo sem
Fronteiras. v.8, n.2, p.176-189, Jul/Dez 2008.
FRANCO, M. A. S. Pedagogia como ciência da educação. SP: Cortez, 2008.
HAGUETE, T. M. F. Metodologias qualitativas nas sociologias. Petrópolis: Vozes,
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LIBÂNEO, J. Ainda as perguntas: o que é pedagogia, quem é o pedagogo, o que deve
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MAZZOTTI, T. Ciências da Educação em questão. In: Revista Educação e Pesquisa,
São Paulo, v. 32, n.3, p.539-550, set/dez. 2006.
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SCHMIED-KOWARZIK, W. Pedagogia dialética – de Aristóteles a Paulo Freire.
São Paulo: Brasiliense, 1988.
VIEIRA PINTO, A. Ciência e existência. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969.
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