ANÁLISE DAS CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS DURANTE AS SAFRAS DE SOJA DE
2002/03 E 2004/05 NA REGIÃO DE PRODUÇÃO DE SOJA NO RIO GRANDE DO SUL
Gilca Marques Alves 1 , Denise Cybis Fontana 2
RESUMO Neste trabalho foram avaliadas as diferenças ocorridas nas condições meteorológicas da
região maior produtora de soja no Estado do Rio Grande do Sul em duas safras, cujos rendimentos
observados foram distintos: alto (2002/2003) e baixo (2004/2005), assim como a expansão desta
cultura para regiões não tradicionais. Verificou-se que as condições meteorológicas contribuem em
grande parte com o sucesso ou insucesso no rendimento da soja no Rio Grande do Sul, sendo a
evapotranspiração relativa o fator isolado que exerce maior influência na definição do rendimento.
Os bons rendimentos observados até 2002/2003, e o alto valor econômico obtido por este grão,
além do melhoramento genético, desenvolvendo cultivares, fizeram com que a soja, aumentasse a
área em todo Estado, expandindo-se para regiões antes destinadas a outras culturas de verão.
Palavras-chave: soja, condições meteorológicas, Rio Grande do Sul.
ABSTRACT This work aims at analyzing meteorological conditions differences in the major
soybean production region of Rio Grande do Sul State. Two soybean crops with distinct yield –
high (2002/2003) and low (2004/2005) – and the expansion of soybean crop in non-traditional
regions of the State were studied. It was verified that the meteorological conditions showed the
major influence on soybean yield success or failure. Relative evapotranspiration was pinpointed as
an isolated factor that mostly influences soybean yield. Satisfactory soybean yield obtained till
2002/2003, the economical importance of soybean crop, and genetic improvements - which
contributed to the development of cultivars – spread soybean crops all over the State, including
regions previously designated for different summer crops.
Keywords: soybean, meteorological conditions, Rio Grande do Sul.
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, devido ao desempenho econômico, a soja tornou-se o principal cultivo
econômico do Rio Grande do Sul. Apesar dos bons resultados obtidos por esta cultura no campo, a
variabilidade nos rendimentos é muito expressiva, principalmente devido às adversidades climáticas
ocorridas em diferentes safras. A necessidade hídrica constitui o principal fator de risco de
insucesso no cultivo, sendo a soja muito exigente com relação ao consumo de água, principalmente
no período que vai do início da floração ao início do enchimento do grão. O consumo de água é
influenciado pela água armazenada no solo e, também, pela demanda evaporativa da atmosfera.
Para o Rio Grande do Sul, Berlato et al. (1986) encontrou um valor médio de consumo de água para
todo ciclo da cultura de 827mm, o que em geral não é totalmente suprido pela precipitação pluvial
da região de produção (Matzenauer et al., 2002).
Alguns trabalhos desenvolvidos na região norte do Estado possibilitaram, através de modelos
agrometeorológicos, estimar o rendimento da cultura da soja com adequado grau de confiabilidade
(Berlato,1987; Fontana et al., 2001; Melo, 2003). Atualmente, a Companhia Nacional de
1
2
UFRGS. Fac. de Agronomia – Cx. Postal 15100, P. Alegre – RS, 91501-970, (51) 32411549, [email protected]
UFRGS. Fac. de Agronomia – Cx. Postal 15100, P. Alegre – RS, 91501-970, (51) 33167413, [email protected]
Abastecimento está usando o modelo proposto por Bianchi et al. (2006) como umas das
informações a serem consideradas para a determinação dos números oficiais da safra de soja no Rio
Grande do Sul. Este modelo leva em consideração a evapotranspiração relativa (ETr/ETo - razão
entre a evapotranspiração real e de referência), ponderada conforme a sensibilidade da cultura da
soja ao fator hídrico em cada subperíodo. A evapotranspiração relativa é variável de um ano para
outro em conseqüência da variabilidade dos elementos meteorológicos.
Os objetivos deste trabalho foram: a) verificar se as condições meteorológicas são fatores
determinantes para o bom desempenho da cultura, principalmente no que se refere às condições
hídricas, e b) analisar a expansão da soja para outras regiões não tradicionais de cultivo.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado abrangendo alguns municípios da região norte do Estado do Rio
Grande do Sul, situados na região maior produtora de soja do Estado. De acordo com os dados de
rendimento, obtidos através das estatísticas oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), foram escolhidas duas safras para análise, caracterizadas pelo alto e baixo rendimento da
cultura da soja (2002/2003 e 2004/2005, respectivamente). Para estes municípios, foram analisados
os dados meteorológicos de precipitação pluvial, velocidade do vento, temperatura do ar, radiação
solar global e umidade relativa do ar, em nível diário.
Tabela 1. Coordenadas geográficas, altirude e órgão responsável pela coleta dos dados nas
estações meteorológicas utilizadas
Município
Cruz Alta
Irai
Passo Fundo
Santa Rosa
São Luis Gonzaga
Latitude
-53,60
-53,23
-52,40
-54,41
-55,01
Longitude
-28,63
-27,18
-28,21
-27,85
-28,40
Altitude
473 m
247 m
685 m
360 m
245 m
Instituição
8° DISME/INMET
8° DISME/INMET
8° DISME/INMET
FEPAGRO
8° DISME/INMET
Após o cálculo das médias e/ou totais decendiais dos elementos meteorológicos, foi feito o
cálculo da evapotranspiração de referência (ETo), através do método de Penman (1956), e da
evapotranspiração real (ETr), obtida a partir do cálculo do balanço hídrico meteorológico pelo
método de Thorthwaite-Mather (1955) , utilizando-se uma capacidade de armazenamento de água
(CAD) de 75mm. Além dos dados meteorológicos, foram coletados, também, dados de área
cultivada com soja nos municípios da região maior produtora e em todo Estado, obtidos das
estatísticas oficiais do IBGE. Com estes dados foi analisada a relação entre rendimento e
evapotranspiração relativa, assim como, foi feita uma análise da expansão da área de cultivo da soja
no Rio Grande do Sul, a partir da safra de 1995/1996.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Condições meteorológicas na região maior produtora de soja
Observa-se que existe grande variação nas condições meteorológicas entre os locais
analisados em cada ano (Figura 1). Os elementos com maior variabilidade entre locais são a
velocidade do vento e a temperatura do ar, enquanto que para umidade relativa e radiação solar
global verificou-se maior homogeneidade. Isto indica que dentro da região de produção ocorrem
condições meteorológicas bastante diferenciadas e, em conseqüência, podem também ocorrer
condições bastante diferenciadas de rendimento de grãos.
Na análise da evapotranspiração relativa (Figura 2) verifica-se que em 2002/03 as condições
hídricas foram adequadas, sendo os valores muito próximos de 1,0. Em 2004/05 houve grande
variabilidade entre locais, mas sempre inferior a 2002/03. Nesta safra as condições meteorológicas
determinaram índices de ETr/ETo abaixo de 0,5, nos meses de janeiro, fevereiro e março. Segundo
Melo (2003), valores de ETr/ETo desta magnitude podem ser considerados de alto risco por
deficiência hídrica, ocasionando o insucesso da cultura. A correlação entre a evapotranspiração
relativa e o rendimento de grãos de soja estabelecida para estes dois anos foi de 0, 90. A
comparação entre a condição meteorológica média entre os dois anos fica evidenciada na Figura 3.
Observa-se que associadas aos menores valores de ETr/ETo de 2004/05, ocorreu menor
precipitação pluvial, umidade relativa e velocidade do vento e mais elevadas radiação solar global e
temperatura do ar (Figura 3). A ETr/ETo pode ser considerada portanto, como um fator isolado
capaz de expressar as diferenças nas condições meteorológicas.
Expansão da cultura da soja no Rio Grande do Sul
A área cultivada com soja no RS teve um aumento a partir da safra 2002/2003 (Figura 4). Os
motivos que contribuíram foram o aumento da oferta de sementes de variedades melhoradas
geneticamente, permitindo um melhor desenvolvimento desta cultura em locais antes destinados a
outras culturas de verão, como por exemplo milho e forrageiras. Observa-se que o pico no aumento
de área, ocorreu justamente na safra de 2004/2005, cujo motivo provável foi o alto valor que o grão
obteve na safra de 2001/2002. Com a expansão da área cultivada, nota-se que a contribuição da
região de maior produção de soja no Estado, que já chegou à 90% da produção, diminuiu em
aproximadamente 13% na safra de 2004/2005. Isto, no entanto, não acarretou queda de produção
devido ao aumento dos rendimentos de soja nas lavouras. A diminuição ocorreu em função da
expansão das áreas cultivadas para outras regiões do Estado. Na safra 1996/1997 a região de maior
produção era responsável por 91,5% da produção do Estado, enquanto que na última safra
(2005/2006) diminuiu para 75,9%.
SAFRA 2002/2003
SAFRA 2004/2005
30
Temperatura (°C)
Temperatura (°C)
30
25
20
CA
IRAÍ
PF
SR
CA
dez/02
jan/03
fev/03
nov/04
mar/03
Umidade Relativa (%)
Umidade Relativa (%)
PF
SR
SLG
dez/04
jan/05
fev/05
mar/05
100
100
80
60
40
IRAÍ
CA
PF
SR
80
60
40
SLG
CA
IRAÍ
PF
SR
SLG
20
20
nov/02
dez/02
jan/03
fev/03
nov/04
mar/03
320
dez/04
jan/05
fev/05
mar/05
320
Velocidade do vento (Km/h)
Velocidade do vento (Km/h)
IRAÍ
15
nov/02
270
220
170
120
70
CA
20
IRAÍ
PF
SR
270
220
170
120
70
SLG
CA
IRAÍ
PF
SR
SLG
20
nov/02
dez/02
jan/03
fev/03
mar/03
nov/04
dez/04
jan/05
fev/05
mar/05
6.500
CA
IRAÍ
PF
SR
SLG
5000
3500
2000
nov/02
dez/02
jan/03
fev/03
Radiação solar (cal/cm2/decêndio)
6500
Radiação solar (cal/cm2/decêndio)
20
SLG
15
CA
IRAÍ
PF
SR
SLG
5.000
3.500
2.000
nov/04
mar/03
dez/04
jan/05
fev/05
mar/05
500
500
CA
IRAÍ
PF
SR
SLG
CA
400
IRAÍ
PF
SR
SLG
400
Precipitação (mm)
Precipitação (mm)
25
300
200
300
200
100
100
0
0
nov/02
dez/02
jan/03
fev/03
mar/03
nov/04
dez/04
jan/05
fev/05
Figura 1. Medidas decendiais dos elementos meteorológicos temperatura do ar, umidade
relativa do ar, velocidade do vento, radiação solar global e precipitação pluvial
(mensal) nas safras 2002/2003 e 2004/2005.
mar/05
1,00
0,75
0,75
ETr/ETo
ETr/ETo
1,00
0,50
IRAÍ
PF
SR
dez/02
jan/03
fev/03
PF
SR
SLG
fev/05
mar/05
0,25
SLG
0,00
nov/02
IRAÍ
0,50
0,25
CA
CA
0,00
mar/03
nov/04
dez/04
jan/05
Figura 2. Evapotranspiração relativa mensal (ETr/ETo) nas safras 2002/2003 e 2004/2005.
26
700
2002/2003
Precipitação (mm)
Temperatura (°C)
600
24
22
2002/2003
2004/2005
500
400
300
200
100
20
0
nov
dez
jan
fev
mar
nov
180
dez
jan
fev
mar
80
Umidade Relativa (%)
Velocidade do vento (Km/dia)
2004/2005
160
140
120
2002/2003
70
60
50
2002/2003
2004/2005
2004/2005
100
40
nov
dez
jan
fev
mar
nov
dez
jan
fev
mar
fev
mar
1,00
16000
0,75
ETr/ETo
Radiação solar (cal/cm2/mês)
18000
14000
12000
0,50
0,25
2002/2003
2004/2005
2002/2003
2004/2005
0,00
10000
nov
dez
jan
fev
mar
nov
dez
jan
Figura 3. Médias mensais de alguns elementos meteorológicos ocorridos nas safras 2002/2003
e 2004/2005.
100
4500
90
80
4000
70
60
3500
50
3000
40
30
2500
2000
RS
REGIÃO
20
10
%
2005/06
2004/05
2003/04
2002/03
2001/02
2000/01
1999/00
1998/99
1997/98
1996/97
1995/96
0
1994/95
1500
percentual de área cultivada (%)
ÁREA (x 1000 ha)
5000
SAFRAS
Figura 4. Área cultivada com soja no Rio Grande do Sul e na região maior produtora, no
período de 1994/95 a 2005/06.
CONCLUSÃO
As condições meteorológicas contribuem em grande parte com o sucesso ou insucesso no
rendimento da soja no Rio Grande do Sul, sendo a evapotranspiração relativa o fator isolado que
exerce maior influência na definição do rendimento. Os bons rendimentos observados até
2002/2003, e o alto valor econômico obtido por este grão, além do melhoramento genético e
desenvolvendo cultivares, fizeram com que a soja, aumentasse a área em todo Estado, expandindose para regiões antes destinadas a outras culturas de verão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERLATO, M. A Modelo de relação entre o rendimento de grãos e soja e o déficit hídrico para
o Estado do Rio Grande do Sul. São José do Campos, 1987. Tese (Doutorado em
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BIANCHI, C.A.M.; FONTANA, D.C.; MELO, R.W. Estimativa do rendimento da Soja no Rio
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Brasileira de Agrometeorologia, 2006 (encaminhado para publicação).
MELO, R. W. Modelo agrometeorológico espectral de estimativa do rendimento da soja para o
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Agrometerologia) – Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Universidade Federal do Rio
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FONTANA, D. C.; BERLATO, M.A.; LAUSCHNER, M.H.; MELO, R.W. Modelo de estimativa
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MATZENAUER, R.; BERGAMASCHI, H.; BERLATO, M.A., MALUF, J.R.T.; BARNI, N.A.
Consumo de água e disponibilidade hídrica para Milho e Soja no Rio Grande do Sul.
Boletim Técnico da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária, n° 10 – Agosto 2002.
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